Parábolas em Atos dos Apóstolos

Embora o miraculoso permeie esse quinto livro do NT (considerado “O evangelho do Espírito Santo”), não se acham parábolas como as que os evangelhos apresentam. Hillyer H. Straton corretamente observa ser “… fato notável que fora dos evangelhos não haja parábolas no NT. Os discípulos de Jesus foram leais ao seu Senhor e puderam interpretar sua missão aos homens; puderam preservar os seus ensinamentos incomparáveis, até mesmo esse notável grupo de histórias; puderam testemunhar ao mundo até a morte o que Deus em Cristo fizera por eles e por todos os que crêem; puderam estabelecer uma Igreja para ser testemunha viva e contínua da fé em Jesus como o Messias de Deus e o Salvador do mundo. Contudo, mesmo possuidores do modelo das parábolas nos evangelhos, não produziram uma única parábola. Isso se deu, mesmo tendo havido muitas circunstâncias na vida da Igreja primitiva em que uma nova parábola ajudaria bastante”.

Talvez o que mais se aproxime de uma “parábola” seja o milagre do lençol que desceu do céu (At 10:9— 11:18). Esse milagre parabólico livrou Pedro de seu isolacionismo religioso e o pôs em harmonia com o abrangente propósito de Deus. Por meio dessa parábola da graça, o apóstolo viu que a salvação, que Cristo comprou com seu sangue, era para todos os homens. Por fim percebeu que Jesus não faz acepção de pessoas, e os judeus e gentios igualmente tornaram-se beneficiários do poder salvador de Deus.

Ouvindo, à medida que lemos o livro, a todas as notas do glorioso evangelho de Cristo, quando resso¬am em harmonia encantadora, para que judeus e romanos as ouçam, fica evidente que os apóstolos não segui¬ram o seu Mestre quanto ao método parabólico de ensino. As suas men¬sagens inspiradas pelo Espírito San¬to não eram adornadas. Suas pala¬vras tão diretas e agudas eram des¬providas de imagens; contudo, car¬regadas de poder para convencer. Sua ministração era de natureza lar¬gamente miraculosa, acompanhada dos milagres que confirmavam sua autoridade de apóstolos, confirman¬do também a Igreja como instituição divina. Não é difícil, entretanto, ima¬ginar que, quando Paulo ensinou ao povo a lei e os profetas, e apresen¬tou o reino como aquilo que dizia respeito ao Senhor Jesus Cristo (At 28:24,25,31), atraiu a atenção para o significado das parábolas do reino. Depois dos apóstolos, alguns pais da Igreja primitiva constituíram pará¬bolas para expressar mistérios espi¬rituais. Trench apresenta diversas amostras dessas parábolas.

Em sua dedicação, por assim di¬zer, de Atos a Teófilo, seu amigo pró¬ximo, Lucas usou a sua expressão característica “começou”, verbo que ocorre cerca de 31 vezes em seu “evangelho”. Sua ocorrência aqui (At 1:1) identifica a autoria. Tudo o que Cristo começou a fazer (suas obras) e a ensinar (suas palavras) quando ainda estava com eles, como está registrado nos quatro evangelhos, continua a realizar por meio de seus apóstolos em Atos. Depois de sua ressurreição, Cristo passou com os seus 40 dias, ininterruptos ou a in¬tervalos. Que dias maravilhosos fo¬ram aqueles! Agora, no lado vitorio¬so da cruz, uma nova luz será lançada sobre tudo o que Jesus lhes ensinou enquanto ainda estava en¬tre eles. Parábolas seriam reitera¬das, visto que mais adiante os ins¬truiu no “que respeita ao reino” (1:3).

Tendo em vista o seu ensina¬mento anterior a respeito da ver¬dadeira interpretação acerca do ingresso dos gentios no reino (Mt 28:19), parábolas de Jesus como a do Semeador, com o lançar da se¬mente, e das Bodas, com o convite universalmente feito aos gentios nas estradas e nos becos, assumem novo significado. As parábolas tor¬naram-se “A ponte que liga as duas dispensações”. Então o livro, como um todo, ilustra a segunda opor¬tunidade dada a Israel na parábo¬la da Figueira estéril. “Este ano” não era um ano de fato, mas “o ano aceitável do Senhor”, de que trata o livro de Atos. O juízo adiado con¬tra a árvore resultou em multidões de judeus voltando-se para o Sal¬vador. Por parábola e preceito, ensinara aos seus que a sua pro¬visão era para todos os homens e, em Atos, essa única mensagem era para todos os lugares: Jerusalém, Judéia, Samaria e até os confins da terra. Os apóstolos saíram para pregar o evangelho a toda criatu¬ra, mas sem “adaptar o evangelho a todos os séculos”.

Embora, como já mostramos, não existam parábolas nesse dinâ¬mico livro, esse “quinto evangelho”, como é chamado, contém muitas e expressivas figuras de linguagem. Enumeramos aqui a maioria des¬sas protoparábolas para orientar o leitor:

Batismo. Quando Lucas empre¬ga o termo “batismo” em relação ao Espírito Santo, usa um ritual visí¬vel para ilustrar uma experiência interior. “… sereis batizados com o Espírito Santo” (At 1:5,8) significa “sereis mergulhados no poder espi¬ritual, que vos cobrirá, vos encherá e transbordará de vós”. Em nenhum lugar a Bíblia fala do “batismo do Espírito Santo”. Ele não é o batizador, mas o elemento em que somos batizados ou imersos.

Pentecostes. O aspecto miraculoso desse dia histórico põe-no na lista de Ali the miracles ofthe Bible [Todos os milagres da Bíblia], do mesmo autor dessa obra. Aqui nos ocupamos apenas do aspecto simbólico da ma¬nifestação da presença e do poder do Espírito Santo (At 2:2). O “vento impetuoso” é uma figura de lingua¬gem referente à força sobrenatural, inspiradora e irresistível do Espíri¬to, de que estavam conscientes to¬dos os que se encontravam no cenáculo. “… línguas repartidas, como que de fogo…” (At 2:3), ou seja, as línguas de fogo distribuídas en¬tre os apóstolos ilustravam a arden¬te mensagem que proclamariam. Como o sermão de Pedro conseguiu incendiar a consciência dos que o ouviram declara a verdade do evan¬gelho na língua de todos. Entre to¬dos os que ouviram não houve a mesma reação para com a Palavra. Alguns zombavam: “Estão cheios de vinho”. Os apóstolos eram homens intoxicados por Deus. Traziam certo ar de santa empolgação no tom, nos gestos e nas palavras. Alguns pen¬savam que era embriaguez. Pedro, contudo, com a intrepidez de sua nova língua, rapidamente explicou o seu comportamento (At 2:15).

Profecia de Joel. O profeta, por inspiração divina, não falou apenas à sua época (At 2:28-31), mas apresentou uma parábola de juízo rela¬tiva ao futuro remoto. Sua referên¬cia ao Espírito prometido cumpriu-se parcialmente no Pentecostes. O cumprimento completo e definitivo, contudo, é ainda futuro (At 2:20).

Divino estrado para os pés. A ci¬tação que Pedro faz do salmo 110 é uma parábola da suprema vitória de Cristo sobre os seus inimigos. Tê-los como estrado (At 2:35) significa a sua absoluta soberania. Sentado à direi¬ta de Deus, posição de autoridade e privilégio, Jesus tem todo o poder para subjugar os seus inimigos e rei¬nar supremamente.

Pedra rejeitada. Não apenas ele¬mentos como fogo, vento e água são usados em referência ao Senhor; ele¬mentos terrenos também simboli¬zam tudo o que Jesus é em si mes¬mo. Cristo é a pedra (SI 118:22; Mt 21:42; At 4:11; lPe 2:7). É também a pedra angular (Ef 2:20,21); uma pedra de tropeço (Is 8:14; 28:16; Zc 3:9; Lc 2:34; Rm 9:32, 33; lPe 2:4,6,7,8), uma rocha ou rochedo (Dt 32:31; SI 18:2,3; 31:2,3,4; 42:9). Os edificadores eram os líderes de Isra¬el, e a pedra que rejeitaram, Cristo, a quem Deus escolhera para ser a principal pedra angular —”A pedra sobre a qual se encontram e são in¬terligadas os muros de judeus e gentios” (Ef 2:20). Trinta anos depois que Pedro falou assim, Cristo ainda era para ele “A pedra de esquina”. O Espírito Santo revelou à sua mente o verdadeiro significado do uso que o Senhor fez desse símile (Mt 21:42-44).

Templo. O emprego ilustrativo que Estêvão faz do tabernáculo e do templo (7:46-50) recorda a conversa de nosso Senhor com a mulher samaritana junto ao poço (Jo 4:21-23) e também a aplicação do templo a si mesmo como encarnação da pre¬sença divina. É interessante notar que Paulo reproduz o pensamento que, quando perseguidor, ouvira dos lábios do mártir Estêvão (At 17:24,25). Temos a tendência de nos elevar à esfera da adoração. O que mais importa é o espírito de adora¬ção. Os que adoram a Deus, seja no celeiro, seja no templo, devem adorá-lo em espírito e em verdade.

Fel e laço. Pedro repele com hor¬ror a idéia de Simão, o mágico, de que o dom do Espírito é adquirido com dinheiro. Fel, usado literalmen¬te nos evangelhos (Mt 27:34), é ago¬ra usado por Pedro para represen¬tar a extrema depravação moral de Simão (Rm 3:14; Ef 4:31). “Laço de iniqüidade” fala das fortes algemas das correntes diabólicas, das quais ele não poderia libertar-se sozinho. Contudo, Simão parecia mais preo¬cupado com o castigo futuro dos seus pecados, do que com libertar-se deles.

Vaso. Embora existam muitos ter¬mos nas parábolas referentes aos eleitos por Deus para servi-lo, ne¬nhum é tão notável quanto vaso (At 9:15), que encontra muitos significa¬dos na Bíblia (Gn 27:3 —de armas; Dt 22:5 —de roupas). O corpo intei¬ro do crente ou os membros do seu corpo são referidos como “vaso” ou “instrumento” (Mt 12:29; Lc 8:16; Jo 19:29; Rm 9:22; 2Co 4:7). Paulo era um instrumento escolhido por Deus para realizar o seu misericordioso desígnio de conduzir os gentios à Igreja. Nossa solene responsabilida¬de é cuidar para que os vasos, ape¬sar de serem de barro, estejam lim¬pos o suficiente para uso do Mestre.

Uma luz. Por instrução do Es¬pírito, Paulo percebeu que as refe¬rências do AT a respeito de Cristo como “luz” e o uso que o próprio Senhor fizera do símbolo para re¬presentar sua missão cumpriam-se agora na revelação do amoroso de¬sígnio de Deus de alcançar o mun¬do gentio. Paulo sabia que ele mes¬mo era uma “luz” que brilhava em meio às trevas.

Pó dos seus pés. Os escribas ensi¬navam que o pó das terras gentílicas era contaminado. Sacudir o pó dos pés simbolizava a tradição segundo a qual, mesmo estando em Israel, o lugar era ímpio, profano e contami¬nado (At 13:51). Paulo, é claro, tinha em mente o uso que o Senhor fez dessas parábolas (Mt 10:14; Mc 6:11; Lc 9:5; Jo 13:16).

Porta aberta. Paulo, conhecedor do modo em que o Senhor usara o símile da Porta (Jo 10), fez dessa uma das suas figuras de linguagem favoritas (At 14:27; ICo 16:19; 2Co 2:12; Cl 4:3). Pela graça, a porta da casa do Pai está tão aberta agora quanto antes. “Todo o que quiser” pode entrar pela porta enquanto per¬manecer aberta. Ninguém pode fe¬char essa porta (Ap 3:8; Gl 2:9). Aquele que a abriu a fechará, e, quando a fechar, será a glória para os que estiverem à sua direita, mas desespero jjara todos os que ficarem de fora. “E digno de nota a atribui¬ção direta a Deus desse acesso aos gentios.”

Jugo sobre o pescoço. A exorta¬ção de Paulo ao concilio e o seu uso de jugos pesados (At 15:10) revelam quanto estava familiarizado com as parábolas de Cristo e apto a entre¬laçá-las em seus próprios discursos. Aqui ele reproduziu os “fardos pe¬sados” da tradição farisaica (Mt 23:4) e o “jugo suave” do Mestre (Mt 11:30). Quando chegarmos às epís¬tolas, veremos que ele volta a usar a mesma figura de linguagem (Gl 5:1). O jugo das cerimônias enfado¬nhas, os fervorosas e espirituais achavam impossível cumprir.

Sacudir das roupas. Sacudir o pó dos pés e das roupas era uma ação parabólica bastante comum nos tem¬pos antigos, tanto entre judeus quan¬to entre gentios (Mt 10:14; 27:24). Nessa gesto, a pessoa se sacudia de toda relação com os outros e de toda responsabilidade da culpa por al¬guém ter rejeitado a sua mensagem (At 18:6). Como se tratava de um judeu falando a judeus, não havia palavra ou ação que melhor expres¬sasse o protesto indignado de Paulo diante da rejeição de seu ministério. “Era o último recurso de alguém para quem de nada valia recorrer à razão e à consciência e tudo o que encontrava era a violência desuma¬na e o tumulto.”

Cabeça rapada. No que dizia res¬peito ao voto temporário de nazireu, rapar o cabelo implicava separação do mundo e da vida comum. En¬quanto valesse o voto, quem o fazia não podia ingerir vinho ou bebida forte, nem deixar a navalha passar sobre sua cabeça ou rosto (Nm 6:1-21). Para Jamieson é improvável que Paulo praticasse esse voto em particular (At 18:18). “É provável que fosse um voto feito em situação de dificuldade ou perigo, em razão da qual rapou a cabeça e foi para Jerusalém, a fim de oferecer os sa¬crifícios exigidos dentro dos trinta dias prescritos.” Paulo, como sabe¬mos, condenava os cabelos longos para o homem para que não pare¬cesse efeminado (ICo 11:14). A gra¬tidão por ter sido liberto do perigo muitas vezes gera um voto solene, e o voto de Paulo provavelmente foi para renovar a plena devoção na vida. O apóstolo jamais aprendeu a desprezar ou condenar essas mani¬festações de consagração.

Lobos cruéis. Paulo alertou a igre¬ja de Éfeso sobre duas classes de ini¬migos que tentariam destruir o rebanho: uma classe de lobos era ex¬terna; a outra surgiria no seio da própria comunidade cristã —”dentre vós mesmos”. Os dois grupos talvez fossem mestres: o primeiro faria do rebanho uma presa; o outro se com¬poria de deturpadores da verdade, que dividiriam o rebanho com suas heresias (At 20:2,9,30; lTm 1:15-20; 2 Tm 2:17; 3:8,13). Aqui o apóstolo adotou algumas figuras de lingua¬gem que Jesus usara em referência ao rebanho e a seus inimigos decla¬rados. Lobos dentro do reduto das ovelhas eram os falsos profetas, usurpadores de autoridade, líderes de facções dentro da igreja (Mt 7:15; Jo 10:12).

Cinto. A ação dramática de Ágabo, que tomou o cinto de Paulo para anunciar um importante acon¬tecimento, lembra o modo de os an¬tigos profetas apresentarem suas profecias. Na parte do nosso estudo que tratava do AT, estudamos essa maneira de profetizar por atos sim¬bólicos (Is 20:3,4; Jr 13:1-11; 27:2; Ez 4:1-3; 5:1-4). Ágabo (At 11:28; 21:10-13), prevendo o perigo a que o após¬tolo estava exposto, pensou em avisá-lo, por meio de uma ilustração parabólica, da conspiração dos ju¬deus para entregá-lo aos gentios. Paulo ficou profundamente emocio¬nado quando partiu de junto dos san¬tos de Cesaréia; mas estava pronto, não apenas a ser preso, como a ação do cinto representava, mas a mor¬rer pelo seu Senhor.

Parede branqueada. Provavel¬mente, ao lembrar-se de que Cristo chamou os fariseus de “sepulcros caiados” (Mt 23:27; Lc 11:44), Paulo dirigiu expressão semelhante ao sumo sacerdote Ananias, o qual mandou aos que estavam junto dele que o golpeassem na boca —método comum no Oriente para silenciar al¬guém. Paulo precipitadamente disse “Deus te ferirá, parede branque-ada” (At 23:2,3), o que aconteceu al¬guns anos depois, quando, durante uma guerra dos judeus, Ananias foi assassinado. De modo verdadeira¬mente cavalheiresco, Paulo descul¬pou-se por dirigir-se daquele modo ao sumo sacerdote. O reconhecimen¬to de que as “autoridades que há fo¬ram ordenadas por Deus” era um princípio que norteava a conduta do apóstolo (Rm 13:1-6).

Ouvidos e olhos. Nesse último vislumbre do apóstolo, vemo-lo “qua¬se sem paciência pela longa contes¬tação contra o preconceito e a incre¬dulidade” (At 28:26-28). Depois da exposição do reino de Deus, no que dizia respeito a Jesus, “Alguns eram persuadidos pelo que ele dizia, mas outros não criam”. Uns estavam en¬tre o remanescente fiel; e os outros, entre os endurecidos (Rm 11:7-25). “Uma cegueira parcial atingira a Is¬rael.” Seguindo as pegadas dos ensinamentos do Mestre, Paulo usou a figura de linguagem da cegueira e da surdez voluntariosas diante da¬quelas verdades que deveriam pro¬duzir arrependimento e fé (Mt 13:13-Mc 4:12; Jo 12:40; At 20:35). A ora¬ção e o desejo do coração de Paulo eram que Israel fosse salvo. Era grande a sua mágoa e contínua tris¬teza pela dureza do coração de Isra¬el (Rm 9:2; 10:1). Então, provavel¬mente com muita angústia, lançou essa última e severa condenação aos que ouviam sua mensagem com os ouvidos, mas não com o coração; que liam a verdade com os olhos, sem, contudo enxergá-la de fato. Infeliz¬mente, multidões ainda estão espi¬ritualmente surdas e cegas!

Quanto ao ministério de Paulo como um todo, diz Ellicott: “Ele fa¬lava não com as cadências retóricas de que se deliciavam os retóricos gre¬gos, mas atingia o alvo como uma fle¬cha, penetrando o coração dos ho¬mens. A voz talvez fosse desprezível, mas as palavras eram cheias de vida” (2Co 10:10; 11:25; ICo 14:25).

Herbert Lockyer.

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