Parábolas em Tiago

Inicialmente veremos a epístola de Tiago. Sendo “irmão do Senhor”, não desconhecia o modo de Jesus apresentar sua mensagem por meio de ilustrações. Assim, em sua epístola, escrita aos compatriotas espalhados pela terra, Tiago emprega notáveis símiles ao escrever sobre a prática da vida cristã. Suas denúncias, repreensões e advertências se revestem de vividas imagens que tornam a sua epístola não “sem valor algum, como a palha”, como disse Martinho Lutero, mas de excelente valor a todo cristão. Aqui está um breve resumo das figuras de linguagem empregadas por Tiago:

Ondas. Os que oscilam na fé e vacilam entre dois pensamentos são comparados à “onda do mar, impelida e agitada pelo vento” (Tg 1:5-8). Contudo, aquele que andou sobre o mar agitado está perto da alma que sofre na tempestade, para consolá-la e libertá-la.

Erva. Os ricos, exortados para serem humildes, são advertidos de que, a despeito de todas as suas posses, passarão “como a flor da erva” (Tg 1:9-11; Is 40:6-8). Que símile simples, mas poderoso, a retratar a instabilidade e a transitoriedade humana!

Atraído e engodado. Os que cedem às tentações são apresentados como “atraídos e engodados pela sua própria concupiscência” (Tg 1:12-15). As impressionantes figuras “atraídos […] engodados” revelam o triste pro¬cesso de tentação e queda. Arnot co¬menta assim o versículo 14: “A pri¬meira expressão não significa, toda¬via, atraído pelo anzol; significa an¬tes atraído para o anzol. Há duas atrações sucessivas, de natureza muito diferente em cada caso. No grego clássico, o primeiro termo apli¬ca-se aos dois, mas nesse caso as cir¬cunstâncias apontam para o primei¬ro deles. O primeiro é atração para o anzol; o segundo, sedução pelo an¬zol. A primeira atração é um poder invisível; a segunda é uma força fí¬sica rude e cruel. A primeira é uma atração secreta da vontade; a segun¬da é uma violenta opressão por uma força superior, que prende o escravo e o destrói”. Quão imperioso é discernir o sutil anzol satânico, ou seguir a exortação do Mestre de vigiar e orar, a fim de não cair em ten¬tação! Uma vez fisgado, torna-se di¬fícil a vida do transgressor.

Espelho. Tiago, preocupado com o auto-engano, insiste em que tenha¬mos um verdadeiro conhecimento de nós mesmos. Devemos ser pratican¬tes da Palavra, não apenas ouvintes. Quem apenas ouve, mas não age de acordo com o que escuta é como o “homem que contempla no espelho o seu rosto natural” (Tg 1:22-25). O espelho é a infalível Palavra de Deus, o verdadeiro reflexo da alma. Infelizmente, muitos olham o espe¬lho e vêem-se como são de fato na santíssima presença de Deus, mas a visão é apenas superficial ou mo¬mentânea, pois continuam a viver para si mesmos. Se formos sinceros em relação ao que o espelho mostra e obedecermos à luz, então virá a transformação do coração e da vida. “… refletindo a glória do Senhor, so¬mos transformados […] na mesma imagem…” (2Co 3).

Refrear, freios, leme, fogo, manancial. De todos os escritores da Bíblia, Tiago é quem mais dá conselhos prá¬ticos e parabólicos quanto ao poder da língua. Se formos tardios para falar, nosso testemunho jamais será corrompido por mentiras, indeli-cadezas e palavras censuráveis. Os pecados da língua e as advertências e exemplos do falar desordenado são abundantes (Tg 1:26; 3:1-12). Para que o falar não seja afrontoso, preci¬sa ser controlado. Moisés, o mais manso dos homens, falhou uma vez, ao falar inadvertidamente com os lábios (SI 39:1). Tiago registra cinco comparações sobre a língua:

1. O ato de refrear. Se o mais de¬senfreado membro do corpo, a lín¬gua, estiver em sujeição a Cristo, de cujos lábios fluiu a graça, então todo o corpo será controlado.

2. Freios. Pelos freios, os cavalos selvagens podem ser domados. O domínio é fruto da disciplina. Se per¬mitirmos que Cristo ponha guarda em nossos lábios, toda a nossa vida será dirigida por sua vontade.

3. Leme. “… um pequenino leme” de um poderoso navio ajuda a diri¬gir o curso da navegação. A língua é apenas um pequeno membro, mas muitas vezes se jacta do que pode fazer. A língua tanto dirige o navio (nosso corpo) no curso certo, como pode levá-lo ao desastre.

4. Fogo. Uma pequena faísca pode incendiar uma floresta inteira, o que resulta em grande estrago. Por sinal, Tiago tinha em mente “uma vasta flo¬resta envolta em chamas resultantes de uma única centelha”. Então aplica a ilustração “A língua é […] fogo, mun¬do de iniqüidade”. Como precisamos da disciplina divina para nos silenci¬ar, para evitarmos os desastrosos efei¬tos de uma língua descontrolada!

Deus prometeu que toda espécie de animais seria domada (Gn 1:26-28). A mais indomável criatura pode ser adestrada pelo carinho, pela pa¬ciência e pela gratidão. Mas a lín¬gua, diz Tiago, ninguém pode domi¬nar. Porém, o que é impossível aos homens, é possível para Deus.

5. Manancial. O mesmo manan¬cial não pode jorrar água doce e amarga. Terá de ser de um ou de outro tipo. Assim é com a língua. Dela vem o mal ou o bem, veneno ou bálsamo curador, maldição ou bên¬ção, frutas bravas ou figos, água sa-lobra ou potável. Se formos sábios, devemos confiar a Deus o controle da língua, para possibilitar assim um “bom procedimento” junto com “obras em mansidão de sabedoria [e…] paz” (Tg 3:13-18). Precisamos orar como Jó: “Ensinai-me, e eu me calarei” (Jó 6:24).

Vapor. A todos os que se entregam aos prazeres ou se concentram na aquisição de bens materiais, Tiago alerta sobre a incerteza do futuro e a transitoriedade da vida. O prático apóstolo pergunta “O que é a vossa vida?” e continua: “É um vapor que aparece por um pouco, e logo se des¬vanece” (Tg 4:13-17). O homem con¬ta com o amanhã, mas este talvez nunca chegue. Tudo o que lhe era im¬portante pode desaparecer num ins¬tante. “Somos pó, uma sombra.” Por estar o futuro nas mãos de Deus, cer¬tamente a sua vontade é a melhor. Todas as posses e o tempo devem es¬tar sob o controle da suprema e viva Vontade. Nossa atitude deve ser sem¬pre “se o Senhor quiser” (ICo 4:19).

Lavrador. Tiago, que tinha mui¬to para dizer sobre a graça da paci¬ência, insiste em que os santos se¬jam pacientes, tendo em vista a vol¬ta do Senhor como Lavrador para colher seus preciosos frutos (Tg 5:7-11). Será que, quando Tiago empre¬gou esse símile, não teria em mente a parábola de seu ilustre Irmão, que diz ser ele mesmo o Lavrador, o qual, ao retornar de um país distante, fará a sua colheita? A impaciência de nos¬sa parte é sinal de fraqueza. Preci¬samos imitar a sua paciência, que há muito tem esperado por uma gran¬de colheita.

Por Herber Lockyer.

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