Parábola dos Vales e dos Montes

(Lc 3:4-6; Is 40:3)

João se pôs impetuosamente con¬tra a visão exclusivista dos judeus; ainda que fossem um povo privilegi¬ado, a salvação não era somente para eles. “E toda a humanidade”, disse João, “verá a salvação de Deus” (Lc 3:6). Para os gentios, assim como para os judeus, devia ser concedido o arrependimento para a vida (At 11:18). Desse modo, nessa pitoresca proclamação, João visualizou um mundo sob o controle do Rei, não uma nação favorecida. O Cordeiro de Deus, que estava para morrer, leva¬ria, pela sua morte, o pecado do mundo. Sabendo tudo sobre o terrí¬vel perigo da nação que ele repre¬sentava, e a necessidade do mundo como um todo, o chamado de João ao arrependimento era impetuoso e. insistente. Todos os obstáculos de¬veriam ser retirados. Nada deveria impedir a jornada do Rei, nem blo¬quear a marcha de Deus. Examine¬mos, então, a instrução parabólica a respeito de endireitar as veredas (Mt 3:3):

Todo vale se encherá. É muito sig¬nificativo que o primeiro grande obs¬táculo a que João se refere é o vale vazio, não o monte. Esses vales va¬zios dificultam a chegada do rei até nós. Qual é a mensagem por trás do uso da linguagem metafórica de João? Qual deve ser o significado ló¬gico de vales, montes, outeiros, coi¬sas tortuosas e caminhos escabrosos? Tratando-se de passagens simbólicas e parabólicas, não devemos esquecer que as parábolas nem sempre podem ser consideradas na sua totalidade. Em algumas parábolas, existem disparidades. Por exemplo: quando a vinda de Cristo é comparada a um ladrão, não quer dizer que virá como um ladrão ímpio e desonesto para furtar e roubar. Deve-se ter o cuida¬do de não forçar os detalhes menos importantes da parábola para além da analogia da fé.

O enchimento dos vales pode mostrar que Deus está desejoso de abençoar o pecador pobre e frustra¬do que, como os vales, encontra-se com o espírito abatido. O chamado de João ao arrependimento quer di¬zer que, pela livre graça de Deus, os pecadores poderão ser tirados do monturo para ficar entre os prínci¬pes. A humanidade acha-se debaixo de uma maldição, numa vil condição. Mortos no pecado, os pecadores es¬tão caídos e não podem levantar-se. Mas Deus é capaz de erguer o caído. Em certo sentido, o desespero pode ser um vale profundo; mas o deses¬pero em relação a qualquer suficiên¬cia de nós mesmos, a qualquer va¬lor, poder e força própria é um santo desespero. Esse vale de humildade e de auto-humilhação nunca deve ser cheio. A auto-exaltação é abominá¬vel a Deus. “… para que ninguém se glorie perante ele” (ICo 1:29). Os vales são cheios, ou exaltados, quan¬do, como diz o experiente Benjamin Keach, os pecadores são levantados:

De um estado de ira para um es¬tado de graça;

de um estado de morte para um estado de vida;

de um estado de condenação para um estado de justificação;

da temível maldição de Deus, ou maldição da lei, para toda sor¬te de bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo Jesus;

de filhos de Satanás, ou filhos da ira, para se tornarem filhos de Deus;

do poder de Satanás para o reino do Filho do seu amor;

de detestáveis à ira de Deus no inferno para a herança da vida e da glória eterna nos céus.

As perguntas práticas são: “Exis¬te algum vale na sua vida e na mi¬nha que não tenha sido enchido? Quantas almas Deus têm perdido por causa destes vales vazios?”.

… se abaixará todo monte e outei-ro. Nessa outra figura, João vai ain¬da mais fundo. Que obstáculos eram esses interditando deliberadamente o caminho de Deus? Esses montes e outeiros tinham aplicação inequívoca aos fariseus dos dias de João. Em seu orgulho e arrogância, eles e os intérpretes da lei “rejeitaram o conselho de Deus quanto a si mes¬mos” (Lc 7:30). O orgulho sempre foi o grande obstáculo no caminho de Deus para o coração dos homens. Parece inacreditável que o homem possa obstruir os esforços divinos. “Estrita e severa vigilância deve ser empregada contra toda forma de orgulho, de arrogância, de bair¬rismo, de soberba, de altivez e de superioridade.”

A soberba dos fariseus se expres¬sa na confissão de um deles: “O Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens…”. Jactavam-se da própria justiça, apesar de rejei¬tarem a justiça divina (Rm 10:3). Pensando-se justos, desprezavam os outros (Lc 18:9). Assim, sentiam-se como montes no que diz respeito aos seus privilégios legais como povo da aliança de Deus (Jo 8:33). Também se gabavam de só eles deterem o se¬gredo do conhecimento e, portanto, serem os únicos professores e senho¬res de Israel. Mas tinham uma con¬fiança carnal (Rm 2:17-21), e o alti¬vo pensamento que nutriam preci¬sava ser abatido (Is 2:11-14). O di¬nâmico ministério de João tirou os poderosos de seus assentos. A humi¬lhação é o único caminho para a exaltação (ICo 1:26,27; Mt 11:35; Fp 2:9).

Existem outras aplicações, po¬rém, que podemos fazer dos montes e outeiros. Os judeus precisavam aprender que deveriam ser postos no mesmo nível dos gentios, sendo co-herdeiros da mesma graça. Cristo, por sua morte, não desfez a aliança da lei e os privilégios dela decorren¬tes, possibilitando a todos os que cressem que fossem feitos um nele?

Desse modo os nossos pecados e as nossas iniqüidades devem pare¬cer montes que alcançam os céus e merecem a ira e a vingança divina.

Mas, graças a Deus, esse monte pode ser aplanado e atirado para dentro do mar (Mq 7:19). Que monte de cul¬pa o nosso! Já foi, no entanto, apla¬nado na hora do nosso arrependi¬mento, fé e justificação (lPe 2:24).

Os monarcas orgulhosos podem parecer montes: “Quem és tu, ó gran¬de monte? Diante de Zorobabel se¬rás uma campina” (Zc 4:7). Deus sabe como privar o mais soberbo monarca de todo o seu poder e rei¬no, visto que é por causa dele que os reis governam e, portanto, devem viver e agir com humildade. Que fim vergonhoso e humilhante tiveram ditadores tirânicos e orgulhosos como Adolph Hitler e Benito Mussolini!

Montes também pode ser aplica¬do a Satanás e às suas hostes da maldade, os quais, antes exaltados nas alturas, tentaram ser como Deus. Eles foram, porém, depostos e exercem o seu diabólico reinado so¬bre a humanidade. Essas potestades satânicas ainda regem os filhos da desobediência. Cristo, porém, por sua morte e ressurreição, aplanou esses montes e outeiros amaldiçoa¬dos, o que significa que os privou de todos os seus poderes, governo e au¬toridade. Para esse fim foi Cristo manifesto (Uo 3:8). Foi ele quem espoliou esses principados e potes¬tades, e triunfou sobre eles (Cl 2:15). Satanás está debaixo de seus pés: “… para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte…” (Hb 2:14,15).

Outros montes e outeiros que de¬vem ser nivelados são as imagina¬ções arrogantes e os pensamentos altivos que se inflam contra o conhe¬cimento de Deus (2Co 10). A riqueza e a sabedoria deixam os homens car¬nais orgulhosos e soberbos, e, uma vez elevados a um altivo pináculo, desprezam os menos afortunados. A humildade e a humilhação de espí¬rito encontram a aprovação de Deus.

“O rico, porém, glorie-se na sua in-significância” (Tg 1:9,10). Se o mais humilde tiver mais graça, for mais parecido com Cristo, será mais ele¬vado do que aquele que é rico no mundo, mas não galgou os degraus da humildade. “Quando se abate¬rem, dirás: Haja exaltação! E Deus salvará o humilde (Jó 22:29).

O que é tortuoso se endireitará. A hierarquia religiosa que João Batis¬ta encontrou era tortuosa em vários. aspectos. Suas estradas não estavam bem endireitadas; portanto, Deus não podia chegar até eles. Eram tor¬tuosos na interpretação da lei, cuja regra estrita era: “O homem que fi¬zer estas coisas viverá por elas” (Rm 10:5). Mas os escribas e fariseus não tinham uma justiça que se equipa-rasse à lei de Deus. Como diz Benja-min Keach: “Eram tortuosos, algu¬mas vezes curtos numa mão e lar¬gos na outra. Pois em muitos casos não faziam o que a lei exigia; e em outros faziam o que a lei proibia ou não exigia; no entanto, pensavam que as suas opiniões e a vida que le¬vavam eram mais retas que a dos outros, quando na verdade eram eles os mais tortuosos”. Cristo veio para que seus princípios, práticas e opi¬niões tortuosos fossem endireitados; e aqueles que criam eram conserta¬dos por ele, na fé e na prática.

O que é tortuoso também se apli¬ca àquelas formas de adoração que Cristo nunca instituiu nem deter¬minou. Todas as falsas ordenanças em desacordo com a regra do NT para a adoração bem como a minis-tração dessas ordenanças são tortuosidades e devem submeter-se às normas divinas.

Assim, existe tortuosidade na vida e no viver. A vontade e a Pala¬vra de Deus formam a única regra de vida. Pecar significa errar o alvo, desviando-se do prumo divino, trans¬gredindo a lei de Deus; e assim os caminhos pecaminosos são caminhos tortuosos. Quando Paulo declarou que a mente carnal não está “sujei¬ta à lei de Deus, nem em verdade o pode ser” (Rm 8:7), queria dizer que, como pecadores, nascemos tortuosos e tornamo-nos mais tortuosos pela prática. Somente Cristo, pelo poder do seu Espírito, pode fazer cada par¬te da nossa vida harmonizar-se com a vontade divina.

… e os caminhos escabrosos se aplanarão. Pode parecer um remo¬to lamento dos montes aos caminhos escabrosos, mas todos eles aparecem na visão de João e são claramente concebidos por ele como obstáculos que retardam a marcha do Rei (em sua pressa por alcançar a alma dos homens). Rochas, pedras brutas, tudo compartilha de um caráter de impedimento e deve ser retirado, para que o Rei prossiga o seu cami¬nho. Deus já havia mandado as pe¬dras de tropeço serem retiradas do caminho (Is 57:14). Queria que o ca¬minho ficasse sem impedimentos, plano e fácil, mas os fariseus tinham posto muitos obstáculos no caminho do homem em direção a Deus e vice-versa. Porventura não existe uma mensagem pertinente para o nosso coração, quando somos chamados a aplainar os lugares escabrosos? Tal¬vez não haja nada de errado na vida —nenhum vale para ser cheio, ne¬nhum monte para ser aplainado, nenhuma tortuosidade para ser tra¬tada. Estamos salvos e bem estabe¬lecidos na vida cristã, mas pode ser que tenhamos uma disposição esca¬brosa, um acidentamento que impe¬de e dificulta a aproximação. Sem nos darmos conta, as nossas pala¬vras ferem e ofendem. Existe uma austeridade de modos, algo proibido e não atraente em nós, que impede o Rei de alcançar os outros. Falta suavidade na vida. Existem lomba¬das nas estradas. Que o Senhor, como restaurador de caminhos, pos¬sa tirar de nós todos esses rudes tra¬ços de obstrução, tão danosos ao tes¬temunho eficaz!

O principal propósito no nivela¬mento dos montes, na terraple-nagem dos vales, no conserto das tortuosidades e na suavização das estradas escabrosas é que toda a humanidade possa ver a salvação de Deus e testemunhar a revela¬ção de sua glória —a glória do seu amor, justiça, santidade, verdade, graça e poder. Cristo veio ao mun¬do para manifestar os gloriosos atributos da bendita Trindade.

Por Herbert Lockyer.

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