Parábola do amado e sua amada

(O Cântico dos Cânticos)

Antes de deixarmos o alegórico e atraente estilo de Salomão, precisa­mos dedicar algum espaço para o seu “Cântico dos Cânticos”, nome que recebe o seu último livro. O salmo 45 é naturalmente comparado com O Cântico dos Cânticos, uma vez que o casamento é o tema comum aos dois. Esse salmo é chamado “O cântico dos amores”. Esse cântico de casamento prefigura o casamento do Cordeiro mencionado por João (Ap 19:2,9). Há quem negue qualquer direito a essa obra da literatura se­cular de fazer parte das Escrituras, uma vez que não contém nem sequer uma simples linha de sentimento religioso ou espiritual. No cântico de Salomão não há o nome de Deus e nenhuma menção de ordenanças ou de ritos sagrados, quaisquer que se­jam. No entanto, como diz Bunsen em seu estudo sobre este livro, “Ha­veria a falta de alguma coisa na Bí­blia, se não se encontrasse nela uma expressão do mais profundo e mais forte de todos os sentimentos huma­nos”. O Cântico dos Cânticos é uma valiosa contribuição à Bíblia, pois ensina que o sentimento do amor é enobrecedor quando associado aos sentimentos morais. Dessa forma, esse belo idílio, que retrata a união e a comunhão entre os amantes do livro, é uma parábola do precioso vínculo entre o Amado celestial e sua Noiva: “Eu sou do meu amado e ele é meu”.

O poema profético de Salomão termina com duas pequenas estro­fes que resumem tudo o que tem sido relatado, vez após vez, sob diferen­tes metáforas, a saber, o namoro e o casamento de dois corações felizes: “Vem depressa, amado meu”. Não é esse o pedido dos nossos corações quando pensamos em nosso Amado ausente? Mas temos a esperança de que em breve ele virá por sobre os montes dos aromas para buscar a sua Noiva.

Herbert Lockyer.

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Parábola da pequena cidade

(Ec 9:13-18)

Tem havido tentativas frustradas de encontrar uma alusão histórica nessa encantadora parábola, mas, como observa Ellicott: “O que temos aqui assemelha-se tanto à narrati­va da libertação de Abel-Bete-Maaca por uma mulher sábia, cujo nome, contudo, não se conservou (2Sm 20), que não podemos ter certeza de ha­ver alguma outra história real na mente do escritor”. Essa é a mais bela de todas as parábolas de Salomão, e todos os estudiosos da linguagem fi­gurada concordam com isso.

Todas as palavras dessa parábo­la estão cheias de significado: “Hou­ve uma pequena cidade em que ha­via poucos homens, e veio contra ela um grande rei, e a cercou e levantou contra ela grandes tranqueiras. Ora, vivia nela um sábio pobre, que livrou aquela cidade pela sua sabedoria. Mas ninguém se lembrou mais da­quele pobre homem”. A aplicação da parábola é óbvia, como assinala Habershon. O mundo é atacado por Satanás, mas liberto pelo Senhor Jesus Cristo. O contraste entre as personagens e as forças é marcante. Um “sábio pobre” e “um grande rei”. Depois temos “uma pequena cidade” e “grandes tranqueiras”. Poderia parecer que uma cidade pequena como essa, com tão poucos homens a guarnecê-la, não teria ensejo de sobreviver diante de úm forte rei resolvido a conquistá-la. Mas o po­deroso monarca foi derrotado por um pobre insignificante que, evidente­mente, era mais forte que o rei, pro­vando, como diz Salomão, que “Me­lhor é a sabedoria do que a força”.

Toda essa história nos faz lem­brar Cristo de modo surpreendente e a grande libertação que ele ope­rou nas almas dominadas pelo pe­cado! A referência ao tratamento dispensado ao pobre sábio é profé­tica. Lemos que “a sabedoria do po­bre foi desprezada, e suas palavras não foram ouvidas”. Essa não é uma previsão daquele que veio como o Único, desprezado e rejeitado? (Is 53:3). Quanto à ingratidão da cida­de, que não se lembrou desse pobre homem, não é a mesma ingratidão dos que nunca param para pensar sobre tudo o que Jesus suportou por eles? Rico que era, esse Homem tornou-se pobre por amor deles e, uma vez pobre, nasceu numa estrebaria. Ao morrer, nada tendo para deixar, derrotou o monarca do inferno por sua sabedoria infinita e por sua gra­ça, demonstrada em sua morte e ressurreição. Da mesma forma, pro­porcionou, a preço de sangue, a emancipação de todas as almas es­cravizadas pelo pecado.

Esse homem fez também um pe­dido antes de deixar “a pequena ci­dade” que a sua presença havia san-tificado. Ao instituir a Santa Ceia, Je­sus disse: “Fazei isto em memória de mim”. E sempre que tomamos o pão e o vinho nas mãos, com corações gra­tos e cheios de amor, nos lembramos do Homem Pobre que, por sua pobre­za, nos fez tão ricos. Aleluia, que ma­ravilhoso Salvador!

Herbert Lockyer

Parábola do comer e do beber

(Ec 5:18-20)

 Nessa breve parábola, o pregador, Salomão, retorna à conclusão a que já havia chegado (v. 2:24; 3:12,22). O resumo da parábola parece ser que “no deleite das dádivas de Deus, Salomão não pensa muito nas dores e na brevidade da vida”. Não há um duplo significado nessa impressio­nante parábola sobre o comer e o beber? O que Salomão escreveu apli­ca-se à comida espiritual bem como à natural. O apetite natural ou espi­ritual que seja bom e saudável é uma dádiva de Deus, algo pelo que deve­mos ser gratos. Para o corpo ou para a alma, o bom apetite é sinal de saú­de e proporciona saúde. Como pode­remos ter o desejo físico por comida ou a energia espiritual para a Pala­vra de Deus, se nosso apetite for pe­queno?

Em continuação à sua parábola, Salomão mostra que a falta de apetite é uma terrível doença (Ec 6:1,2). A incapacidade de se alimentar, ape­sar de se ter grande variedade de ali­mentos à disposição, pode resultar em sérios danos físicos. Isso não tem uma relação com a vida espiritual? Com a falta de apetite por Deus e por sua Palavra, muitos cristãos professos deixam de “crescer na gra­ça e no conhecimento do Senhor”. E não é difícil perceber o seu estado de magreza e inanição. Ligada a essa parábola temos outra bem pequena em “Não é dos ligeiros o prêmio […] nem tampouco dos sábios o pão” (Ec 9:11). A mera sabedoria carnal nun­ca encontra alimento na Palavra. Toda a verdade é revelação.

Herbert Lockyer.

Parábola da Inutilidade


(Pv 26:7)

O livro de Provérbios é inigualável no emprego das ilustrações parabólicas. É um livro repleto de ilustrações, de metáforas e de figuras extraídas de todos os aspectos da vida. O capítulo de Habershon sobre esse fato é muito esclarecedor. No meio de algumas dessas jóias que a autora enumera estão a Parábola da casa com alicerce e a Parábola da casa sem alicerce (9:1; 24:3,27; v. 12:7; 14:1). Como nos lembram Mateus 7:24-29 e ICoríntios 3:11-15! A casa aparentemente forte de um não é tão segura quanto a tenda frágil de outro.

A passagem sentenciosa sobre aqueles que recebem com desprezo o convite para o banquete (Pv 1:24-27) deve ser comparada com a parábola de Jesus sobre a recusa dos convidados para irem a um grande banquete (Mt 22).

O parágrafo sobre a humildade na presença da realeza e diante dos grandes (Pv 25:6,7) é quase idêntico ao que o nosso Senhor disse-quanto aos que cobiçam os melhores lugares quando deveriam procurar os inferiores. Ao adaptar a exortação parabólica de Salomão, Jesus chama a atenção para o seu próprio exemplo (Lc 14:10; Mt 20:26).

O poder de um rei justo para dissipar o mal (20:8) pode ser posto ao lado do efeito do reinado de Jesus quando se assentar em seu trono (Mt 25:31-46). Um justo olhar seu será o suficiente para emudecer os que estão sem as vestes nupciais.

O provérbio “O rei tem deleite no servo prudente” encontra eco nas parábolas em que os servos mostram prudência pela fidelidade nos negó¬cios , pela diligência em servir e pela constância em vigiar. Em Provérbi¬os 8:34, o próprio Senhor fala sobre aquele que vela, assim como Jesus fez nos evangelhos: “Bem-aventurado o homem que me dá ouvidos, ve¬lando diariamente às minhas portas, esperando às ombreiras da minha entrada”.

Ao referir-se ao caminho do per¬verso e mostrar como evitá-lo (Pv 4:20-27), Salomão usa uma lingua¬gem semelhante àquela utilizada nas parábolas de Jesus, nas quais este ensina aos seus discípulos que a contaminação se origina não no ali¬mento que entra pela boca, mas nas palavras que saem do coração e dos lábios. “A importância de preservar o coração com toda a diligência é o pensamento central da cadeia de sete preceitos básicos de Salomão. Esses preceitos se dividem em dois grupos: os três primeiros mostram como a Palavra alcança o coração pelos ouvidos e pelos olhos; os ou¬tros quatro ensinam que o coração governa o caminhar”.”Não ensinou nosso Senhor que ‘a boca fala do que está cheio o coração?'”

Ademais, Salomão usa uma gran¬de quantidade de figuras sobre semear e ceifar (Pv 11:18,24; 22:8; Ec 11:6), todas as quais podem ser pos¬tas lado a lado com a Parábola do semeador e também com a que Pau¬lo escreveu sobre o mesmo tema (2Co 9:6; Gl 6:7).

A Parábola do rico e Lázaro (Lc 16:19-31) é uma expansão do provérbio: “A riqueza nada vale no dia da ira […] Aquele que confia nas suas riquezas cairá” (Pv 11:4,28).

Frases como “os justos reverde¬cerão como a folhagem” e “a raiz dos justos produz o seu próprio fruto” (Pv 11:28; 12:12) recebem novo significado quando comparadas com João 15. “… o que segue os ociosos se far¬tará de pobreza” (Pv 28:19) resume a experiência do filho pródigo. Quanto a Provérbios 13:7, refere-se ao que vendeu tudo o que tinha para com¬prar um campo e uma pérola. Essa é a única vez que o termo parábola é encontrado em Provérbios (no original), embora, em sentido mais am¬plo, seja às vezes utilizado em refe¬rência ao provérbio. Aqui Salomão diz: “Como as pernas do coxo, que pendem frouxas, assim é o provér¬bio (parábola) na boca dos tolos”, dando a entender que o cego espiri¬tual não pode fazer uso de uma pa¬rábola para orientação assim como o coxo não pode fazer uso de suas pernas aleijadas. Não era o que Je¬sus tinha em mente quando disse aos seus discípulos: “Avós é dado conhe¬cer os mistérios do reino de Deus, mas aos outros fala-se por parábo¬las, para que, vendo, não vejam, e, ouvindo, não entendam” (Lc 8:10)? Há também a Parábola do jovem pobre e sábio (Ec 4:13-16). Embora seja difícil descobrir a exata associ¬ação histórica dessa breve parábola, é fácil perceber que, no “rei velho e insensato”, Salomão nos dá um auto-retrato. Na aplicação da parábola, Ada Habershon diz que “o jovem po¬bre e sábio é evidentemente o pró¬prio Senhor […] ‘o jovem pode ter saído do cárcere para reinar’ ou ‘che¬gado para ser rei’. Obviamente isso aponta para alguém maior que Salomão, ‘pode ter nascido pobre no seu reino’. Salomão observa o reina¬do de outro, ‘o sucessor do rei’. Ele contempla o número de seus súdi¬tos: ‘Todo o povo que ele dominava era sem conta’. E essa também uma profecia acerca da rejeição para com o nosso Senhor, um indício dos sécu¬los muito posteriores à sua encar-nação, em que os homens não terão aprendido a se alegrar nele?”. O sal¬mo de Salomão (72) fala do dia feliz em que todas as nações chamarão o Senhor bendito.

Por Herbert Lockyer.