Parábola das pedras escondidas

(Jr 43:8-13)

É magnífica a coragem de Jeremias diante da rejeição de sua mensagem divinamente inspirada. Evidentemente ele sabia que, apesar das advertências, seu povo iria para o Egito e lá morreria pela espada, pela fome e pela pestilência. A precisão de sua mensagem manifestou-se imedi­atamente, e todos foram para o Egi­to, inclusive ele próprio, onde conti­nuou seu ministério de denúncia e de advertência. Não havia declarado ser completa loucura tentar fugir dos juízos decretados por Deus?

Temos aqui outra das impressi­onantes parábolas encenadas. Jeremias é instruído por Deus a pe­gar grandes pedras e escondê-las com barro no pavimento à entrada do palácio de Faraó, à vista dos ho­mens de Judá. Quão significativa foi essa parábola encenada para aque­les cujas mentes estavam abertas para receber a implicação divina desse ato. Apredição do profeta fica ainda mais vivida quando nos lem­bramos que Jeremias escondeu as pedras no barro. Como vemos, es­ses atos simbólicos são comuns nas Escrituras (Jr 19:10; 27:2; Ez 12:7 etc). O rei se assentaria sobre as pedras que Jeremias escondera, “não por mera pompa real, mas com a natureza de um vingador a exe­cutar a ira do Senhor contra a rebe­lião”. O símbolo visível do rei sen­tado nas pedras significa que o tro­no de Nabucodonosor seria estabe­lecido sobre os destroços do reino de Faraó.

Para os judeus, as pedras eram símbolos proféticos e históricos co­nhecidos. Transmitiram à posterida­de alguns fatos consumados e profe­tizavam acontecimentos que ainda iam se dar. Jacó e Labão erigiram um altar de pedras (Gn 31). Doze pedras memoriais foram postas por Josué no Jordão (Js 4:3,6,9,21). As duas tribos e meia construíram um altar de pedra nas margens do mes­mo rio (Js 22). Em todo tempo, mui­tas pedras permaneciam como um marco e teriam a sua mensagem transmitida de geração a geração. Essa era uma antiga maneira de pre­servar arquivos.

Como as pedras foram tomadas do solo egípcio, poderiam fazer Isra­el lembrar-se do cativeiro de seus pais e de como Deus os livrou com “mão forte, com braço estendido”. As pedras escondidas num pavimen­to devem ter lembrado o cativeiro e a perseguição dos antepassados e de como Deus fez das pedras um ins­trumento de castigo aos opressores do Egito (Êx 9:8). Enterrar as pedras simbolizava a condição passada e presente dos judeus, enterrados sob a opressiva tirania do domínio pagão. Aquelas pedras, com o seu significa­do passado, presente e futuro, tinham por objetivo induzir os judeus indó­ceis a buscar ajuda e proteção no úni­co lugar em que podiam ser encon­tradas, a saber, naquele para quem o seu povo sempre foi a menina de seus olhos. Não é também significativo, quando pensamos nessas pedras, o fato de a tradição afirmar que Jeremias foi apedrejado até a morte por seus compatriotas em Tafnes?

Herbert Lockyer.

Parábola das brochas e dos canzis

(Jr 27 e 28)

 Agrupamos esses dois capítulos porque os dois tratam de “brochas e canzis” ou, como prefere certo co­mentarista, tiras e ripas. O capítu­lo 27 fala da inutilidade de resistir ao domínio de Nabucodonosor. Jeremias, que mostrara na visão dos cestos de figos o castigo determina­do contra Judá pela Babilônia, ago­ra proclama o parecer divino sobre esse assunto. O profeta recebeu or­dens para fazer brochas e canzis, enviando uma mensagem aos em­baixadores dos reis que queriam que o rei de Judá entrasse em ali­ança com eles. Zedequias e os de­mais são intimados a se render, por­que o cativeiro era o plano divino para a reconstrução. “Metei os vos­sos pescoços no jugo do rei de Babilônia [..’.] e vivereis” (Jr 27:12,13). Mas o povo rejeitou o pla­no de Deus e o conselho de Jeremias, sofrendo por isso (Jr 39:6-8).

Os capítulos 28 e 29 contêm pro­fecias relacionadas às dos capítulos anteriores e dizem respeito ao rela­cionamento franco entre Jeremias, o verdadeiro profeta, e os falsos pro­fetas, dos quais o homem de Deus tão solenemente advertira a Zedequias. Hananias falsamente profetizara que Deus quebraria o jugo da Babilônia em dois anos e quebrou os canzis, querendo simbo­lizar com isso a quebra do jugo do conquistador. Jeremias recebeu or­dens divinas de contradizer a pro­fecia de Hananias e declarar que canzis de ferro substituiriam os de madeira e o falso profeta morreria, como de fato aconteceu depois de imposta a forma mais severa de cativeiro.

Brochas. Era por meio dessas cor­reias que o canzil era atado ao ani­mal de carga.

Canzis. O canzil em geral era um pedaço de madeira entalhado, fixa­do, em cada extremidade, a um jugo. Esses dois jugos, então, eram postos sobre a cerviz de dois bois a fim de uni-los. O fato de canzil estar no plu­ral (27.1) significa que Jeremias de­veria usar um e dar os outros aos mensageiros (28:10,12).

Não é mencionado como a ordem chegou a Jeremias. O profeta sim­plesmente declara: “Assim me disse o Senhor”. Ellicott supõe que Jeremias recebeu uma clara predi-ção simbólica, semelhante à que Isaías teve quando foi chamado a andar “nu e descalço” (Is 20:2). Pa-rabolicamente, Jeremias deveria se ver como escravo e animal de carga, para ressaltar a aflição que estava por vir, que era a subjugação do povo (v. At 21:11). É muito evidente, en­tretanto, que Jeremias obedeceu à risca à ordem divina (Jr 28:10).

O ato carnal de Hananias de to­mar o canzil do pescoço de Jeremias e quebrá-lo foi uma audácia ímpia e uma demonstração de que Deus não cumpriria a sua sentença. Como Hananias, que se dizia profeta de paz, quebrara o símbolo da escravi­dão, com isso declarou que o mesmo aconteceria ao detestável cativeiro que o canzil representava.

A substituição dos “canzis de madeira” pelos “canzis de ferro” (Dt 28:48) realça a verdade de que, quando a aflição leve não é bem aceita, permite-se aflição mais pe­sada (Jr 28:13,14). Os falsos profe­tas intimaram os judeus a rebelar-se e desvencilhar-se do canzil da Babilônia, leve em comparação com o que haveriam de experimentar. Ao proceder assim, somente atraíram sobre si o jugo mais severo imposto por Nabucodonosor. “É melhor car­regar uma cruz leve pelo caminho que puxar uma cruz mais pesada sobre a cabeça. Podemos evitar as providências destrutivas submeten-do-nos às providências humilhan­tes. Espiritualmente, contrapomos o fardo suave de Cristo ao canzil do cativeiro da lei” (Mt 11:28-31; At 15:10; Gl 5:1). Quando aceitamos o reto juízo de Deus sobre os nossos pecados, a aflição passa a ser bené­fica e salutar. Seremos surpreendi­dos por um juízo ainda mais seve­ro, se, depois da condenação, conti­nuarmos a pecar (lCo 11:31). Se ti­vessem submetido-se ao merecido cativeiro, este curaria os judeus de sua idolatria. Na resistência à es­cravidão, morreram. Assim expres­sa o poema inglês:

Conta cada aflição, quer suave, quer grave.

Se um mensageiro de Deus for envia­do a ti,

Aceita com cortesia a sua visita: des­perta-te e inclina-te.

E, antes que sua sombra passe pela tua porta,

Suplica permissão antes que seus pés celestiais saiam.

Então coloca diante dele tudo o que tens.

Não permitas que nenhuma nuvem de sofrimento se apodere do teu semblante;

Nem estrague a tua hospitalidade.

A história de amor

Corrompeu as filhas de Sião com o mesmo ardor;

Cuja desenfreada paixão no pórtico sagrado

Foi vista por Ezequiel.

Herbert Lockyer.

Parábola do copo do furor

(Jr 25:15-38)

Esse capítulo sentencioso trata da profecia dos setenta anos de cati­veiro, bem como da destruição da Babilônia e de todas as nações opres­soras dos judeus. A condenação de Judá resultou da sua persistência em pecar. Apesar dos reiterados ape­los divinos ao arrependimento, a nação judaica não deu ouvidos a Deus, sendo conquistada pela Babilônia e levada ao exílio. Então temos a profecia sobre a condenação da Babilônia após os setenta anos de cativeiro, executada por uma alian­ça de nações e reis. Ao contemplar o futuro, Jeremias profetizou o inescapável juízo que cairia sobre todas as nações, quando a punição divina se destinaria a cada uma de­las, até uma grande tempestade sur­gir dos confins da terra com severos golpes sobre os reis e autoridades. Nessa profecia Zedequias identifica a inevitável destruição que ameaça a si e a Jerusalém.

Não tomaremos o “copo do furor” em sentido literal, como se Jeremias de fato oferecesse uma taça de vinho aos embaixadores das nações citadas e reunidas em Jerusalém. Esse “copo” refere-se ao que Deus reve­lou à mente do profeta com respeito aos seus justos juízos. A taça de vi­nho simbolizava punição embriaga-dora (Jr 13:12,13; 49:12; 51:17). Como já mencionamos, Jeremias muitas vezes incorpora a linguagem parabólica de Isaías em suas profe-, cias (cf. Lm 4:21 com Is 51:17-22; v. Jó 21:20; SI 75:8; Ap 16:19; 18:6).

As nações, quando bebessem do copo do furor, cambaleariam e enlou­queceriam como os que se embria­gam. Elicott diz que “as palavras fa­lam do que a história já testemunhou muitas vezes: o pânico e o terror de nações pequenas diante do avanço de um grande conquistador —ficam como que tomadas de uma louca embriaguez e o seu desespero ou a sua resistência são igualmente ensandecidos. As imagens já são co­muns a profetas anteriores” (SI 60:5; Ez 23:21; He 2:16).

“… se não quiserem tomar o copo” (Jr 25:28) parece insinuar que ne­nhum esforço evitaria a destruição. “Se não poupo nem os meus eleitos por causa dos seus pecados, muito menos a vocês” (Ez 9:6; Ob 6; Lc 23:31; lPe 4:17). A consumação da fúria divina sobre um mundo ímpio e perverso dar-se-á na grande tribu-lação, quando os copos do furor de Deus serão derramados sobre a ter­ra (Ap 6:16; 14:10,19; 16:19 etc).

Jeremias conclui o capítulo com uma referência aos magistrados e reis que se julgam “vasos agradá­veis” ou vasos do desejo. Seriam que­brados e inutilizados. Jeconias fora idolatrado pelos judeus, e Jeremias, falando em nome deles, manifesta a perplexidade diante daquele com quem tanto contavam, mas que foi completamente derrubado (Jr 22:28; Sl 31:12; Os 8:8). Que solene lição para o seu coração e o meu!

Herbert Lockyer.

Parábola dos dois cestos de figos

(Jr 24:1-10)

Os capítulos de 22 a 24 dizem res­peito ao mesmo período, a saber, o reinado de Zedequias, após a primei­ra conquista de Jerusalém e o cati­veiro de seus principais habitantes. Esses acontecimentos formam o ce­nário da visão simbólica de Jeremias (v. Am 7:1,4,7; 8:1; Zc 1:8; 2:1). Se os cestos de figos foram realmente vis­tos, então temos um exemplo nessa parábola da capacidade do profeta-poeta de encontrar parábolas em to­das as coisas —”Sermões em pedras e livros em riachos”. No entanto, como Jeremias começa a parábola com as palavras “Mostrou-me o Se­nhor”, concluímos que o profeta re­cebeu uma mediação especial de Deus. Seus olhos físicos viram o olei­ro nas rodas, mas foram seus olhos espirituais que tiveram a visão dos figos. Em estado de consciência e de responsabilidade, Jeremias recebeu a mensagem divina para Zedequias.

Figos muito bons

Um cesto continha figos bons, temporãos. Esse “figo que amadure­ce antes do verão” ou “fruta têmpora da figueira no seu princípio” (Is 28:4; Os 9:10; Mq 7:1) era tratado como a mais fina iguaria. No dia da calami­dade, dois grupos distintos foram achados —os bons e os maus. Os “fi­gos muito bons” representavam os cativos levados para a Caldéia. Por meio deles, no futuro, Deus restau­raria os seus. Daniel, Ezequiel, os três jovens hebreus e Jeconias (Joa­quim) estavam entre os bons figos. Como essa parábola-profecia deve ter encorajado os desesperançosos exilados! Também serviu para repre­ender os que escaparam do cativei­ro, os quais, julgando-se superiores aos exilados na Babilônia, injuria­ram os antepassados de Deus (Jr 52:31-34).

Figos muito ruins

Ruim é palavra portuguesa que abarca uma infinidade de sentidos de cunho negativo. Cumpre salien­tar, porém, as acepções “inútil”, “sem mérito” e “estragado”, “deteriorado”. Hoje, quando dizemos que uma fru­ta é ou está “ruim”, em geral nos re­ferimos à qualidade do seu sabor, ao fato de não ser ou estar muito palatável (sendo ou estando azeda, amarga, verde etc). De modo que as acepções mencionadas acima de cer­ta forma se perderam nas transfor­mações etimológicas da palavra ou, ao adjetivar outros substantivos, se perdem ainda na subjetividade, im­precisão e abrangência do vocábulo. Lendo os clássicos da literatura, con­tudo, poderemos notar o emprego de ruim com a idéia muito clara, em al­guns casos, de “sem valor”, “inútil”.

No cesto de figos imprestáveis, tão ruins que não podiam ser comidos, temos um símbolo dos cativos de Zedequias e daqueles judeus rebel­des, indóceis e obstinados que perma­neceram com ele. Sobre esses cairia o juízo divino (Jr 24:8-10). Os termos bons e maus são usados não em sen­tido absoluto, mas como comparação e para mostrar o castigo dos maus. Os bons eram olhados por Deus com favor (24:5). Deus estimava os exila­dos na Babilônia como quem vê bons figos com bons olhos e desfez o cati­veiro “para o seu bem”. Levando-os para a Babilônia, Deus também os salvara da calamidade que sobrevi-ria ao restante da nação e os condu­zira ao arrependimento e a uma con­dição melhor (2Rs 25:27-30).

O retorno do cativeiro babilônico e a volta a Deus eram resultado do efeito punitivo da escravidão, um tipo da completa restauração dos judeus. Então, quando o Messias retornar, serão como uma nação renascida em um dia. Tendo-se vol­tado para Deus de todo o coração, todo o povo será um cesto de figos muito bons. No Commentary [Co­mentário] de Lange encontramos esta aplicação: “Os prisioneiros e os de coração quebrantado são como os figos bons, agradáveis a Deus por­que:

1.   conhecem o Senhor e voltam-se para ele;

2.   ele é o Deus deles, e eles são o seu povo.

Aqueles que se mantêm arrogan­tes e confiantes desagradam a Deus e são como os figos ruins porque:

1.   vivem na cegueira tola;

2.   desafiam o julgamento de Deus.

Essa Parábola dos dois cestos de figo pode ser comparada de forma proveitosa com a Parábola do joio e do trigo, de Jesus.

Jeremias era um “figo bom”, um profeta de verdade, mas os falsos profetas, “figos ruins”, tentavam in­fluenciar os cativos na Babilônia e os que estavam em Jerusalém; e o restante da mensagem divinamente inspirada de Jeremias a Zedequias desmentia a autoridade e a inspira­ção dos falsos mestres e mostrava a exatidão da visão dos cestos de figos dados por Deus.

Herbert Lockyer.

Parábola da botija quebrada

(Jr 19:1-13)

 Essa outra parábola encenada não pode ser confundida com a que acabamos de analisar (PARÁBOLA DO OLEIRO E DO BARRO), embora Jeremias possa ter usado uma boti­ja do mesmo oleiro. Essa parábola dramatizada representa o lado ne­gro da parábola anterior, do oleiro. A evidente diferença entre as duas parábolas revela a irremediabilidade da condição e da posição de Israel.

Na Parábola do oleiro há a idéia de construção. O barro, apesar de impuro, ainda estava maleávei, po­dendo ser remodelado no formato desejado. Assim “o oleiro tornou a fazer dele outro vaso”.

Na Parábola da botija, o tema evi­dente é a destruição. Israel estava tão incorrigível no pecado e na rebeldia que parecia já não ter esperança de recuperação. Aqui o barro já está endurecido. Qualquer remodelagem era impossível e, por não servir ao propósito para o qual fora criado, não haveria outra medida senão destruí-lo. Que solene e espantoso símbolo da obstinação de Israel, que resultou no declínio do seu sistema nacional, po­lítico e religioso!

Os anciãos, tanto do povo quanto dos sacerdotes, eram os representan­tes do governo civil e religioso e, por­tanto, foram chamados para teste­munhar a parábola encenada e a profecia sobre tudo o que considera­vam de mais precioso (19:10; Is 8:1,2). “Deus espalhou as nações e os seus representantes”. Mais tarde, os judeus não poderiam alegar des­conhecimento das profecias que seus anciãos tinham recebido.

E algo significativo que o lugar em que o pecado foi praticado tenha sido escolhido como o local da de­núncia divina contra Israel. O pró­prio lugar de onde aguardavam o so­corro dos seus ídolos seria o cenário de seu massacre. No vale de Hinom a mais abominável forma de idola­tria era praticada. Tofete era o cen­tro dos sacrifícios a Moloque (2Rs 23:10) —sacrifícios humanos a que Israel se viciara. Assim, o lugar de degradação testemunharia o casti­go e a destruição, exatamente como mais tarde aconteceu em Jerusa­lém, onde Cristo foi crucificado, fa­zendo da cidade um lugar de terrí­vel destruição.

Quanto à quebra da botija diante dos homens, esse ato parabólico re­alça o direito e o poder divino de que­brar os homens e as nações em pe­daços, como a um vaso de oleiro (SI 2:9). As imagens bem conhecidas expressam a soberania absoluta de Deus (Jr 18:6; Rm 9:20,21). “… não pode mais refazer-se” refere-se de modo trágico à ruína de Israel. Deus, como divino oleiro, quebra o que não pode ser restaurado. Jeremias pro­fetizou o colapso e a dispersão de Ist rael —nação privilegiada— profecia que se cumpriu plenamente na in­vasão dos romanos (70 d.C). Os ter­ríveis infortúnios desse capítulo fo­ram escolha de Israel; e o castigo por rejeitarem a Deus deveria ser pago.

Embora a botija ou o vaso do olei­ro não possa ser restaurado, pode-se fazer outro do mesmo material, de modo que há, para a felicidade de Israel, uma profunda compaixão di­vina que a parábola de Jeremias não deixa de apresentar. Deus recolheu os fragmentos do lixo e fez surgir uma nova semente para os judeus —não igual aos rebeldes destruídos, cuja ruína o profeta anunciou, mas a colocação de outra geração no lu­gar deles. Paulo ensina que os frag­mentos espalhados hão de se unir novamente e Israel se transformará num vaso de grande honra (Rm 11).

Herbert Lockyer.

Parábola do oleiro e do barro

(Jr 18:1-10)

 Ao contemplar o trabalho do olei­ro sobre as rodas, Jeremias passa a aprender a lição de como Deus lida com as nações. A parábola continuou quando o profeta foi ao vale do filho de Hinom, para advertir o rei e o povo da destruição que os acomete­ria. Assim como o oleiro despedaça­va o vaso, eles seriam condenados por não ter valor (Jr 19). A figura do Oleiro já fora empregada em referên­cia à obra da criação de Deus (Is 29:16; 45:9; 64:8). Muito da lingua­gem figurada de Jeremias tem a in­fluência de Isaías.

O que mais impressionou tanto Isaías (29:16; 45:9) quanto Jeremias (18:4,6) foi o absoluto domínio da vontade do oleiro sobre o seu barro, o mistério e a maravilha de sua ca­pacidade criadora. Depois de obser­var o oleiro, Jeremias declarou aos judeus que eles eram, apesar de tan­to se jactarem de sua força, tão frá­geis quanto o barro e tão sujeitos à vontade de Deus quanto o barro ao oleiro. A posição e todos os privilégi­os de que desfrutavam eram provi­dências divinas, para que fossem vasos de honra. Mas, no processo de formação, resistiram à vontade e ao poder do Oleiro celestial. Não se deve perder de vista o fato de que “o teor completo dessa parábola, bem como o conhecido caráter de Deus são con­trários à conclusão de que o Senhor tivesse algum prazer no caráter de­generado de Israel ou de alguma for­ma tivesse contribuído para esse es­tado”. O vaso quebrado não era cul­pa do oleiro. Alguma substância es­tranha no barro frustrou seus esfor­ços e arruinou o seu trabalho.

Essa parábola é de atos, não de palavras, visto que não há registro de conversa entre o profeta e o olei­ro. Enquanto Jeremias observava a obra criada nas rodas, por meio do que viu pôde ouvir Deus falar. De pronto identificou o significado sim­bólico do oleiro e do barro, embora o próprio oleiro não visse nada de pa­rabólico em sua obra. Jeremias, con­tudo, aprendeu a mensagem no vaso quebrado e assim desafiou a nação que frustrara o propósito divino: “Não posso fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel?”.

Nenhuma das parábolas do AT nos fala de modo mais direto, pesso­al e abrangente do que essa. Embo­ra a primeira interpretação refira-se ao Israel de então, a parábola tem aplicação muito mais abrangente. Os profetas do AT foram antes de tudo mensageiros da época em que vivi­am —anunciadores antes de atuar como prenunciadores ou mensagei­ros das gerações seguintes. A Pa­rábola do oleiro e do barro, então, era toda acerca de Deus e de Isra­el. É toda acerca de Deus e de nós mesmos.

Deus, contudo, é o Deus da segun­da oportunidade, o que Jeremias aprendeu  ao observar o oleiro amassando o barro que o decepcio­nara e transformando-o em um vaso encantador. Que excelente parábola sobre o que o tratamento que Deus dispensa aos homens e às nações! (Rm 9:21; 2Tm 2:20). Acaso o Senhor não é capaz de reconstruir o caráter, a vida e a esperança? Sua vida está deformada por resistir à modelagem das mãos de Deus? Bem, sendo dele, você está ainda em suas mãos (Jo 10:28,29), e ele espera moldá-lo ou­tra vez, da mesma maneira que trans­formará Israel em vaso de grande honra quando retornar para introdu­zi-lo em seu reino. Então, como nun­ca antes, Israel será a sua glória. Enquanto permanecermos em suas mãos como barro submisso, nada te­mos a temer. Ainda que sejamos fra­cos e sem valor, ele pode fazer de nós vasos de honra, próprios para ele usar.

Mas de Ti preciso, como antes,

De Ti, Deus, que amaste os errantes;

E como, nem mesmo nos piores tur­bilhões,

Eu —à roda da vida,

Multiforme e multicolorida,

Atordoadamente absorto— errei meu alvo, para abrandar Tua sede,

Então toma e usa a Tua obra!

Conserta toda falha que sobra,

As distorções da matéria, as defor­mações do alvo!

Meus momentos estão em Tua mão:

Arremata o vaso segundo o padrão!

Que os anos revelem os jovens, e a morte os dê por consumados.

Herbert Lockyer.