A Fé Protestante

A palavra “protestante”, de acordo com a definição do dicionário se refere a “um membro de uma das igrejas cristãs que terminaram se separando da Igreja católica Romana desde o século XVI; batistas, presbiterianos, congregacionais, e alguns outros; ou se refere a ‘uma pessoa que protesta’”. O termo “protestante” não é um termo pejorativo. A palavra é derivada do latim, da preposição PRO, que significa “para”, e o infinitivo TESTARE, “testemunho”. Um protestante é, então, uma testemunha – um protestante é uma testemunha de Jesus Cristo e da Palavra de Deus. O protestantismo não é meramente o protesto contra a corrupção eclesiástica e o falso ensino; é o renascimento da fé bíblica, um renascer do cristianismo do Novo Testamento, com uma ênfase positiva nas doutrinas das Escrituras.

Mas historicamente o termo “protestante” se originou na Segunda Dieta Imperial Alemã de Speyer (1529) quando os príncipes luteranos leram um “Protesto” contra a decisão da Dieta que declarava que a fé Católica Romana era por lei a única fé. A primeira Dieta de Speyer tinha decidido que o governante de cada estado estava livre para seguir a fé que sentisse ser a correta. Este “protesto” era ao mesmo tempo, uma objeção, um apelo e uma afirmação:

“Qual é a igreja verdadeira e santa? … Não há nenhuma pregação ou doutrina segura senão aquela que permanece fiel à Palavra de Deus. Segundo o mandamento divino, nenhuma outra doutrina deve ser pregada. Todo texto das santas e divinas Escrituras deve ser elucidado e explicado por outros textos. Esse Livro Santo é necessário, em todas as coisas, para o cristão; brilha claramente na sua própria luz e é vista iluminando as trevas. Estamos resolutos, pela graça de Deus e com a Sua ajuda, a permanecermos exclusivamente na Palavra de Deus, no santo evangelho contidos nos livros do Antigo e do Novo Testamento. Somente essa Palavra deve ser pregada, e nada que seja contrário a ela. É a única verdade. É o juiz certo de toda doutrina e conduta cristã. Não pode nos enganar nem lograr”.
Dessa forma, os luteranos e outros defensores da Reforma passaram a ser chamados e conhecidos como “protestantes”.

O Protestantismo surgiu em uma época difícil, de escuridão espiritual e de escândalos no seio da Igreja. O povo vivia na ignorância das Escrituras, cheios de superstições, crendices, e alheios às verdades do Evangelho. O culto a Deus era um emaranhado de invenções humanas. O povo “não conhecia ao Senhor” (Juízes 2:10). Os líderes espirituais eram incultos e viviam na imoralidade. O celibato não funcionava e desde os Papas até ao mais simples sacerdote, muitos estavam envolvidos com relacionamentos ilícitos, com amantes e até filhos. A corrupção do papado estava ligada à riqueza e ao poder. Há claros relatos de perseguições aos que se levantavam em alguns locais procurando obedecer e viver de acordo com as Escrituras. Foi o caso do Papa Inocêncio VIII que ordenou a execução dos Valdenses. A escandalosa perseguição da Inquisição que fez com que Thomas Tacomado, chefe da Inquisição espanhola, queimasse vivos 10 mil pessoas presas a uma estaca. O escândalo das Cruzadas onde milhares de pessoas foram exterminadas com o pretexto da necessidade de se apossar da “maior relíquia”, a cidade de Jerusalém. São pequenos exemplos da negritude da Igreja medieval. São manchas inapagáveis na história da Igreja.

INDULGÊNCIAS: A DEFLAGRAÇÃO

A base doutrinária para a existência de indulgência era o ensino da Igreja de que ela tinha a custódia (a guarda) dos Tesouros dos Méritos que foram adquiridos pelos grandes santos que haviam excedido as boas obras necessárias para a salvação. Esse excesso de méritos se tornava uma fonte que a Igreja poderia distribuir aos que estavam deficientes espiritualmente, os pecadores necessitados. Isso era feito através de um certificado assinado pelo Papa que era adquirido pelo povo e assim se obter os méritos que necessitavam desta “caixa de méritos”, deste tesouro de méritos. Foi nos anos de 1460 a 1470 que o Papa Sixtus IV declarou os benefícios das indulgências para os que haviam ido para o purgatório. Como fruto da ignorância espiritual e da sede de riqueza e poder por parte da Igreja, surgiram a venda das indulgências onde a salvação era comprada por dinheiro. Esse dinheiro era dividido entre os banqueiros da época, o Papa, e uma parte ficava com o mais talentoso vendedor de indulgências: Tetzel. Na venda destas indulgências havia variedade de preços, pois Tetzel era hábil e criou um meio de atingir os ricos e pobres. Quem era rico dava mais e os pobres davam menos, mas todos davam.

Era outono de 1517 quando começaram as vendas destas indulgências. O anúncio era de que os compradores poderiam obter remissão dos pecados das pessoas queridas que já haviam morrido e ido para o purgatório. Consequentemente pessoas faziam esforços tremendos para libertarem seu queridos dos tormentos do purgatório (lugar de punição temporal pelos pecados) e tivessem a entrada no céu assegurada. Para isso bastava comprar os certificados assinados pelo Papa. Tetzel repetia sempre o “jingle”: “Assim que a moeda no cofre tilintar, alma do purgatório saltará”.

Informações destas atividades de Tetzel chegaram ao conhecimento de um professor de Teologia da Universidade de Wittemberg que as recebeu completamente consternado, mas, provocando sua ira. Seu nome era Martinho Lutero. Ele já havia refletido muito sobre sua condição de pecador e sua incapacidade para ser salvo através de obras meritórias e havia chegado a conclusão, pelas Escrituras, que a salvação é pela graça de Deus somente.

No dia 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero, inflamado, desafiou a Igreja protestando de uma forma que ficaria marcada na história da Igreja perpetuamente. Foi à frente da porta da igreja do castelo de Wittemberg com um documento na mão e um martelo na outra, e afixou na porta uma lista com 95 protestos escritos em latim contra a venda das condenáveis e antibíblicas indulgências. Lutero anunciava ao povo que eles estavam sendo cruelmente enganados. A imprensa escrita que havia sido inventada por Gutemberg foi de muita importância para a divulgação das teses de Lutero em toda Europa, sendo traduzidas para vários idiomas. Com isso, a venda de indulgências caiu muito e fez “doer” muito o bolso da Igreja. Isso provocaria a Dieta de Worms onde Lutero mais tarde seria julgado pelos seus escritos e convicções.

Naquela época a Igreja ensinava que o perdão dos pecados poderia ser conseguido através do sacramento da penitência, quando o padre, representando Jesus, absolvia o pecador que confessava seus pecados e dava uma contribuição à Igreja como penitência. Lutero queria uma reforma na Igreja; queria trazê-la de volta às Escrituras para restaurar a pureza da fé. Não queria se tornar fundador de uma igreja separada. Lutero soube depois que a corrupção já havia atingido a cúpula de Roma e que o Papa Leão X e Albrecht, o arcebispo de Mainz haviam organizado a venda das indulgências.

LUTERO E SUAS DÚVIDAS

Lutero nascera de um lar pobre e, contrariando seus pais, desejou ser sacerdote. Era um homem sincero e desejoso de conhecer a Deus e Sua salvação. Mas sua visão de Deus era a de um juiz implacável que condena o homem pecador merecidamente. Era um homem angustiado que buscava sua salvação através de obras, do isolamento em um monastério, através de jejuns e orações; fazia confissões diárias mas não se sentia aceito por um Deus que é todo justiça.

Quando Lutero celebrou sua primeira missa, um grande vexame aconteceu. Toda sua família estava presente inclusive seu pai, o velho Hans Lutero, que já havia aceito a idéia de seu filho tornar-se um sacerdote. Lutero começou a cerimônia com firmeza e equilíbrio. Mas quando chegou o momento da oração de consagração, quando haveria, segundo o ensino católico, o grande milagre da transubstanciação, o monge agostiniano vacilou. Parecia congelado no altar; seus olhos estavam vidrados, suava bastante e um silêncio tomou conta da congregação. Seus lábios tremiam e não conseguia articular nenhuma palavra. Não tinha condições de continuar e voltou à mesa onde os convidados da família estavam e sentou-se. Foi arruinada a cerimônia, desonrada a família e a si mesmo.

Por que aconteceu isso? Lutero explica:

“Com que linguagem posso dirigir-me a tal majestade? …Quem sou eu, para que levante meus olhos e minhas mãos até a majestade divina? Os anjos O rodeiam. À Sua sombra a terra treme. E posso eu, um miserável, dizer: ‘Quero isto, peço aquilo?’. Porque sou pó e cinzas e cheio de pecados e estou falando do vivente, eterno e verdadeiro Deus”.

Na verdade, Lutero tinha um grande conflito que o perseguiu por muito tempo. Era uma pedra de tropeço para ele. Ele odiava a expressão “justiça de Deus” mas amava a palavra “Evangelho” (Boas Novas). Como conciliar as duas coisas? Pensava o Dr Lutero: “Como posso ser Salvo?”. Como poderia ele libertar-se da justiça santa e justa de um Deus que condena não só o pecado, mas aquele que comete o pecado? Por seus próprios esforços? Isso ele já vinha tentando há muito tempo e frustrado via que era totalmente ineficaz. Lutero conhecia as Escrituras e sabia que “todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia…” (Isaías 64:6). Não eram seus pecados que eram como trapo de imundícia, mas suas obras de justiça. Lutero via que estava perdido porque o homem não tem justiça própria. Seus atos são corrompidos e Deus é santíssimo para aceitar qualquer coisa contaminada. No céu só entra santos e justos. Como poderia ser salvo? Esta foi a grande pergunta dos Reformadores. Mas a Bíblia teria a resposta que Lutero tanto desejava.

Ele estava ensinando a Epístola aos Romanos quando se deparou com o versículo 17 do primeiro capítulo desta epístola extraordinária: “…visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé”. Seus olhos foram abertos porque viu que a expressão que odiava, “justiça de Deus”, era revelada no que ele mais amava, “no evangelho”. Ele viu pela primeira vez a conexão entre as duas coisas. Viu primeiro que havia uma diferença entre Lei e Evangelho. Ele buscava justificação nas obras da Lei. Mas a Lei só exige, só condena. Ele buscava justificação nas obras da lei, mas ela só vem e “se revela no evangelho” mediante a fé. Ele creu em Cristo como o seu justificador e passou a amar o que odiava: a justiça de Deus. Percebeu que justiça de Cristo (Sua obediência passiva e ativa) havia sido creditada em “sua conta”. Ele compreendeu que a justificação do pecador é pela fé em Cristo e assim somos declarados justos: “O justo viverá por fé”. Agora Lutero se regozijava na salvação pela fé somente. A sua confiança na obra de Cristo dava-lhe o descanso que tanto desejava. Por isso disse: “…esta expressão de Paulo tornou-se para mim a plena verdade, uma porta para o paraíso”. Sua justiça não era a sua, mas a de Cristo.

Como pois aceitar vendas de indulgências para se conseguir salvação? Por isso Lutero detonou suas armas contra os erros de uma Igreja desviada da verdade. Ele deflagrou uma reforma que já havia sido tentada por alguns que haviam sido mortos e considerados hereges como foi o caso de Dr. John Hus, na Boêmia (queimado na estaca); com Savanarola em Florença, Itália (queimado em praça pública), e teria acontecido anteriormente também (como aconteceu com outros) com o erudito Dr. John Wycliffe (Inglaterra), a “Estrela D‘Alva da Reforma”, caso não morresse de derrame cerebral.

QUEM SÃO OS EVANGÉLICOS

Sendo um movimento bíblico e não uma religião organizada, os evangélicos têm existido desde os tempos dos Apóstolos. Pela providência de Deus, sempre tem havido os que rejeitam as tradições inventadas por homens, para crerem na mensagem da Bíblia concernente à salvação pela graça de Deus.

O acontecimento mais notável dos evangélicos teve lugar no século XVI com a Reforma Protestante. Este ocorreu porque alguns sacerdotes católicos e outros eruditos da época começaram a estudar a Bíblia seriamente para entender com mais precisão o ensino original de Jesus e dos Apóstolos. Descobriram sérias diferenças entre a Palavra de Deus e a Igreja Católica. Protestaram sobre estas diferenças insistindo que a Igreja obedecesse à Bíblia. Porém a igreja os rejeitou. Isso nos faz lembrar Jeremias 6.16: “Assim diz o Senhor: Ponde-vos à margem no caminho e vêde, perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho; andai por ele e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos”.

Este movimento protestante segue até os dias de hoje, talvez com mais de 55 milhões de membros no mundo. Os evangélicos aceitam a Bíblia como a única autoridade no tocante à doutrina e práticas religiosas. A Igreja Católica, contrariamente, aceita a tradição, os concílios e os decretos do Papa como autoridade final.

Princípios que caracterizam os verdadeiros Evangélicos ou Protestantes

1) SOLA SCRIPTURA – Somente a Escritura

Esta foi a grande marca que deu à Reforma o seu princípio regulador. Os Evangélicos defendem como verdade que só a Bíblia é a única regra de fé e prática. Só ela é completa, perfeita, clara, autoritativa, inerrante e inspirada pelo Espírito Santo. Nada mais. Crêem, como Paulo, que toda a Escritura é “inspirada por Deus”; que a Bíblia é o guia para a salvação e que é através da Palavra escrita de Deus que o crente se torna “perfeitamente habilitado para toda boa obra” (II Tm 3:17). Um evangélico atribui à Bíblia exatamente a mesma autoridade que Jesus Cristo atribuiu à Bíblia de Sua época. Disse Jesus: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os profetas: não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: Até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra” (Mateus 5:17-18). Jesus falou isso porque a liderança religiosa judaica havia acrescentado muitas coisas à Lei que fora entregue diretamente por Deus a Moisés. Eram tradições rabínicas (apesar de cheia de superstições) consideradas no mesmo nível de autoridade com as Escrituras.

A Igreja Católica também é um grande exemplo de como criar, pela tradição, aquilo que não existe nas Escrituras e que continuam até hoje. Fatos:

Ano 300 – Oração pelos mortos
Ano 300 – Sinal da cruz
Ano 300 – Uso de Velas
Ano 375 – Veneração dos anjos e santos falecidos
Ano 394 – A missa, como celebração diária
Ano 431 – Começo da exaltação de Maria ( o termo “Mãe de Deus” foi-lhe aplicado pela 1ª vez)
Ano 500 – Sacerdotes começam a se vestir de forma diferente
Ano 526 – Extrema unção
Ano 593 – Doutrina do Purgatório, estabelecida por Gregório I
Ano 600 – Latim usado para orações e no culto
Ano 600 – Orações feitas a Maria, santos mortos e anjos
Ano 607 – Título de Papa, ou bispo universal dado a Bonifácio III
Ano 607 – Beijar os pés do Papa
Ano 750 – Poder temporal dos Papas
Ano 786 – Adoração da cruz, imagens e relíquias
Ano 850 – Água Benta misturada com uma pitada de sal e abençoada pelo sacerdote
Ano 890 – Adoração de São José
Ano 995 – Canonização dos santos mortos
Ano 998 – Jejum nas sextas feiras e durante a quaresma
Ano 1050 – A Missa, gradualmente transformada em sacrifício com freqüência obrigatória
Ano 1079 – Celibato obrigatório dos sacerdotes
Ano 1190 – Venda de indulgências
Ano 1215 – Confissão Auricular de pecados a um sacerdote e não a Deus
Ano 1220 – Adoração da hóstia
Ano 1229 – A Bíblia proibida aos leigos
Ano 1215 – Doutrina da Transubstanciação
Ano 1414 – O Cálice da Eucaristia foi tirado do povo e este não mais o tomava
Ano 1439 – Purgatório proclamado como dogma pelo Concílio de Florença
Ano 1439 – A doutrina dos Sete Sacramentos
Ano 1545 – A tradição da Igreja é declarada de autoridade igual à da Bíblia pelo Concílio de Trento
Ano 1546 – Adição de livros apócrifos às Escrituras, depois do Concílio de Trento
Ano 1854 – Dogma da Imaculada Conceição da Virgem Maria.
Ano 1870 – Infalibilidade Papal
Ano 1950 – Ascensão corporal de Maria

Sendo assim, os evangélicos ficam do lado de Jesus na questão da autoridade da Bíblia e renunciam a autoridade das tradições humanas. Esta é uma das grandes diferenças com a Igreja de Roma. Quando Jesus debateu com os fariseus, Ele respondeu às suas críticas com a seguinte acusação: “… E assim invalidastes a Palavra de Deus, por causa da vossa tradição” (Mateus 15:6). Jesus muitas vezes ia de encontro às tradições dos homens mas Ele cumpria, mantinha e defendia a Palavra de Deus. No Sermão do Monte Jesus mostrou claramente a confiança que os judeus depositavam na tradição rabínica quando disse: “Ouvistes o que foi dito aos antigos…Eu porém vos digo… (Mateus 5:21-22). Desta forma Jesus se opunha aos ensinamentos tradicionais dos rabinos que haviam pervertido a Palavra de Deus através de falsas interpretações. É como se Cristo dissesse: “Esqueçam o que os rabinos lhes ensinaram e ouçam o que lhes digo, pois a minha palavra é a Palavra de Deus”.

Lutero combateu a venda de indulgências e das outras superstições da Igreja medieval pois não tinham respaldo bíblico. Combater os erros como fez Lutero, ainda hoje, trará conseqüências penosas e perseguições. O Papa e o imperador se voltaram contra Lutero e os príncipes da Alemanha receberam ordens para investir contra ele. O Papa exigiu que Lutero se apresentasse em Roma para responder às acusações que pesavam contra ele. Lutero, no entanto, tinha um protetor, Frederico o Sábio, Príncipe da Saxônia. Frederico sabia que Lutero não receberia um tratamento justo em um tribunal em Roma. Se ele tivesse de ser julgado, que fosse em um tribunal na Alemanha. Finalmente, tudo foi organizado, e em abril de 1521, o “Santo Imperador Romano”, Carlos V foi à pequena cidade de Worms, na Alemanha, onde ele havia convocado uma assembléia imperial.

Em Worms, estavam unidos os bispos, arcebispos, príncipes do Império, representantes das cidades livres e bem no alto, acima de todos, estava o augusto Carlos V, Rei da Espanha e chamado “Santo Imperador de Roma”.

Diante daquela assembléia imponente, no dia 17 de abril de 1521, estava o humilde clérigo agostiniano, Martinho Lutero, vestido com seu capuz de monge, de pé, diante de uma mesa onde estavam folhetos e vários tratados escritos e publicados por ele. Seu inquisidor era Johann Von Eck, assistente do Arcebispo de Trier. Eck mandou que Lutero reconhecesse publicamente a autoria de toda aquela literatura. Corajosamente Lutero o fez. Quando a Lutero foi solicitado se retratar das suas “heresias”, pediu, para surpresa de todos, um certo tempo para refletir e escrever uma resposta formal. Teria Lutero desistido? Surpresa e tensão, porque Lutero antes de sua chegada havia dito:

“Esta será minha retratação em Worms: ‘Anteriormente disse que o Papa é o vigário de Cristo. Me retrato. Agora digo que o Papa é o adversário de Cristo e o apóstolo do diabo’ “.

Foram-lhe concedidas 24 horas para preparar sua resposta. Na solidão daquela noite, aquele homem de Deus escreveu uma das orações mais comoventes jamais escrita:

“Oh Deus, Deus todo poderoso e eterno! Quão terrível é o mundo! Olha como sua boca se abre para tragar-me, e quão pequena é minha fé em ti!… Oh! A debilidade da carne, e o poder de Satanás! Se eu tenho de depender de alguma força deste mundo – tudo está terminado… O toque dos defuntos tem soado… A sentença tem sido pronunciada…Oh Deus! Oh Deus! Oh Tu, meu Deus! Ajuda-me contra toda a sabedoria deste mundo. Falo e te imploro; tu podes fazê-lo…por teu próprio e vigoroso poder…A obra não é minha, mas tua. Não tenho que meter-me nisto… Não tenho nada pelo que contender com estes grandes homens do mundo! De bom grado passaria meus dias em alegria a paz. Porém, a causa é tua…E é justa e eterna! Oh Deus! Ajuda-me! Oh Deus fiel e imutável! Não descanso no homem. Seria em vão. Qualquer coisa que seja do homem é cambaleante, qualquer coisa que proceda dele deve fracassar. Meu Deus! Meu Deus! Não ouves? Meu Deus! Não estás mais vivo? Não, tu não podes morrer. Só estás te escondendo. Tu me tens elegido para este trabalho. Eu sei!… Portanto, oh Deus, cumpre com Tua vontade! Não me abandones, por teu bem amado Filho, Jesus Cristo, minha defesa, meu escudo, e minha fortaleza.

Senhor…onde estás?…Meu Deus, onde estás?… Vem! Rogo-te, estou pronto…Olha-me preparado para oferecer minha vida por Tua verdade…sofrendo como um cordeiro. Porque a causa é santa…É Tua própria causa…Não vou deixar-te ir! Nem sequer por toda a eternidade! E mesmo que todo o mundo se enchesse de demônios e este corpo, que é obra de Tuas mãos, tivesse quer ser lançado, pisoteado, cortado em pedaços,…reduzido a cinzas, minha alma é Tua. Sim, eu tenho Tua própria Palavra que me assegura. Minha alma te pertence, e morará contigo para sempre! Amém! Ó, Deus, envia Tua ajuda. Amém”.

No dia seguinte aquele monge desconhecido estava diante da Assembléia para pronunciar o discurso que mudou o curso da história e modificou a Igreja para sempre. O mundo e a Igreja jamais foram os mesmos depois que Lutero fez sua declaração arrebatadora:

“Desde que vossa serena majestade e vossas senhorias buscam uma resposta simples, eu a darei assim, sem chifres nem dentes. A menos que seja convencido pelo testemunho das Escrituras ou por mera razão (pois não confio nem no Papa nem nos Concílios, pois é bem sabido que eles freqüentemente erram e se contradizem), eu estou atado pelas Escrituras que já citei, e a minha consciência está cativa à Palavra de Deus. Eu não posso e não irei me retratar de nada, já que não é seguro nem correto agir contra a consciência”.

Lutero estava arriscando sua vida por Cristo. Outros que tomaram atitude semelhante haviam sido queimados como hereges como foi o caso de Hus por ordem do Concílio de Constança 100 anos antes (John Hus também havia protestado contra as indulgências mesmo antes de Lutero). Lutero teve a garantia do Imperador de que poderia sair de Worms em segurança. Mas a partir daquele momento seria considerado herege e um fora-da-lei. Lutero foi excomungado.

SOLA SCRIPTURA é o princípio daqueles que acreditam que nada mais será acrescentado ou tirado das Escrituras. É o princípio que considera a Bíblia como infalível Palavra de Deus. Nem mesmo novas revelações do Espírito devem ser aceitas (se houvessem). O cânon está completo. A consciência de um evangélico, de um protestante está cativa às Escrituras.
Desde a época de Lutero que um verdadeiro evangélico não aceita revelações novas. Lutero, ao voltar do Castelo de Warburg, onde traduziu a Bíblia para o alemão, teve de lutar contra fanáticos que se diziam “profetas carismáticos” e recebiam revelações especiais de Deus. Eles diziam: “Deus me falou assim…”. Mas os evangélicos reformados crêem que a Palavra de Deus está completa e que o final da época apostólica é o final da revelação. Não pensar assim contraria a própria profecia de grandes profetas ainda do Velho Testamento: Daniel 9:24 e Zacarias 13:1-5.

A Confissão de Fé de Westminster feita por teólogos protestantes do século XVII é clara quanto a esta posição:

“Todo conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela. À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens”.

Pouco tempo depois daquele evento histórico em Worms, em várias partes do mundo cristão, outros se voltaram para a Bíblia e descobriram as verdades que estavam obscurecidas há séculos por trás das tradições eclesiásticas. Na Suíça, o grande reformador de Genebra, João Calvino, surge como um grande baluarte da Reforma. Ele disse: “Os profetas não falavam por vontade própria, eles eram instrumentos do Espírito Santo usados para dizer apenas o que era enviado dos céus”. Mas “O Profeta” final já veio – Jesus Cristo (Hebreus 1:1-2). O verdadeiro protestante, o verdadeiro evangélico, insiste que todo e qualquer assunto seja testado pela autoridade de SOLA SCRIPTURA. Ela é a única autoridade da fé cristã e da prática da vida, a “fé que uma vez foi dada aos santos” (Judas 3). Por isso um evangélico não acredita em palavra “infalível” dos Papas nem dos Concílios nem em novas revelações. Só na Palavra de Deus escrita.

É SOLA SCRIPTURA que nos diz como devemos cultuar Deus e não nossas invenções humanas. Na sua essência, a Reforma Protestante foi uma reforma do culto.

SOLA SCRIPTURA é o fundamento da Fé Cristã. Se neste século a Igreja falhar em pregar e praticar SOLA SCRIPTURA, está na hora de uma nova Reforma.

2) SOLA GRACIA – Somente a Graça

É o segundo grande slogan de alerta da Reforma. Lutero e seus sucessores todos se ajuntavam em torno deste grande pilar. Os verdadeiros evangélicos se baseiam na Escritura para afirmar que o homem pecador não tem qualquer esperança de salvação pelo seu próprio esforço. São firmes em defender o que a Escritura apresenta: “Pela graça sois salvos, por meio da fé – isto não vem de vós, é dom de Deus – não de obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8-9).

O protestantismo nega todos os esquemas de salvação que promovem o homem e suas atividades religiosas como meio de ganhar a vida eterna e o perdão.

Esta questão era óbvia para Lutero: É o homem que inicia e ajuda no perdão divino, ou é Deus quem providencia, inicia, efetua e completa o círculo completo da salvação de pecadores perdidos, para que a glória tenha de ser atribuída somente à Sua graça soberana? Para Lutero a segunda opção era a verdadeira. Lutero respondeu ao humanista católico, Erasmus, que escrevera uma obra defendendo o livre-arbítrio (Diatribe); respondeu escrevendo sua famosa obra “A Escravidão da Vontade” ou “Nascido Escravo” (editora FIEL), enfatizando a prioridade da graça divina na salvação. Lutero insistia que um pecador era tanto incapaz de providenciar um remédio salvífico, como também incapaz de se apropriar do remédio que foi providenciado. Lutero viu que a única forma que poderia fazer ruir um sistema já tão inculcado na mente das pessoas e de peso como o católico Romano, onde eram enfatizadas práticas como compra de indulgências, peregrinações, penitências e outros, era atacar a raiz da controvérsia. Era uma questão de livre graça versus livre arbítrio. Até mesmo Erasmus foi levado a confessar: “Você, e você somente, enxergou um mecanismo sobre o qual tudo gira e aponta para este alvo, para este ponto vital: livre arbítrio versus graça de Deus”.

O homem pensa que é livre, mas não sabe que está escravo do pecado e de satanás. Jesus disse “…Todo o que comete pecado é escravo do pecado” (Jo 8:34). O homem possui um tipo de liberdade, é claro; é livre para fazer o que quer, mas o que ele quer é pecar porque os seus desejos são pecaminosos e o levam cada vez mais para longe de Deus amando o pecado e por fim morrendo nele. O grande pregador inglês do século XVIII, George Whitefield, dizia que o livre arbítrio do homem só o leva para o inferno. Tudo isso porque sua vontade é escrava da sua natureza corrompida pelo pecado. A escravidão do homem é tão completa que ele fica alegremente desapercebido da sua condição de escravo.

Lutero refletia sobre esta condição e a descrevia desta maneira:

“Eu creio que não posso por minha própria razão ou força, acreditar em Jesus Cristo meu Senhor, ou buscá-lo; mas o Espírito Santo me chamou através do Evangelho, me iluminou pelos seus dons, e me santificou e preservou na verdadeira fé; da mesma maneira Ele chama reúne, ilumina e santifica toda a Igreja da terra, e preserva a sua união com Jesus Cristo na verdadeira fé…”.

Este é o Evangelho da graça, da SOLA GRACIA! Pecadores que não merecem nada além da ira de Deus, ganham o privilégio de gozar do Seu favor, pois aprouve ao Senhor ser gracioso para com pessoas que só mereciam sua condenação.

Para um evangélico, que tira a sua doutrina exclusivamente da Bíblia, a salvação é um presente de Deus, imerecido, dado a pessoas indignas. “…a graça de Deus se manifestou salvadora…” (Tito 2:11).

Livre graça é a necessidade gritante da igreja na presente hora. SOLA GRACIA tem que ser o chamado supremo da Igreja em nossos dias e não uma decisão humana, uma manipulação humana, ou métodos seculares do homem moderno para ganhar convertidos feitos por ele, mas sim o antiquado método evangélico. Somente pela graça soberana é a mensagem que captura e transforma os corações de pecadores pelo poder do Espírito Santo.

3) SOLA FIDE – Somente a Fé

Os evangélicos afirmam que a Bíblia é a única verdade autoritativa e que a salvação é unicamente pela graça de Deus. Isso suscita uma pergunta fundamental? Como uma pessoa pode receber esta salvação? Como uma pessoa pode ser aceita por Deus? Era essa a questão que queimava na mente de Lutero e que o levou quase ao desespero.

Lutero não se tornou monge por opção. O biógrafo de Lutero, Roland Baiton conta certo episódio de sua vida:

“Em um sufocante dia de julho de 1505, um viajante solitário estava andando com dificuldade por um caminho ressequido das redondezas da vila de Stotternheim. Era um homem jovem, de baixa estatura, porém robusto, e vestia uma roupa de estudante universitário. Enquanto se aproximava da vila, o céu escureceu. De repente caiu uma chuva e que logo se transformou em uma estrepitosa tormenta. Um raio rasgou a escuridão e lançou o homem por terra. Lutando para levantar-se, gritou aterrorizado: ‘Santa Ana, ajuda-me e serei um monge!’.

O homem que assim invocou a uma santa, mais tarde repudiaria o culto aos santos. Aquele que fez votos de tornar-se monge, mais tarde iria renunciar ao monasticismo. Um filho leal da Igreja católica, mais tarde faria em pedaços a estrutura do catolicismo medieval. Um servo devoto do Papa, mais tarde identificaria os Papas com o Anticristo. Porque este jovem era Martinho Lutero”.
Pouco depois desta experiência, Lutero fez seus votos. Deixou seus estudos das leis e ingressou no monastério agostiniano de Emfurt, para desilusão de Hans, seu pai, que desejava ver seu filho um advogado. No monastério dedicou-se a um tipo de vida rigorosamente austera. Passava noites sem dormir e dias em jejum e orações chegando a formas severas de auto flagelação, castigando severamente seu corpo e rejeitando até mesmo a provisão de um cobertor fazendo-o quase morrer congelado. Como não podia passar nem um dia sem pecar e sabia que seus pecados tinham de ser perdoados, buscava diariamente o confessionário para buscar absolvição e achar a aceitação de Deus. Ao contrário dos outros, passava horas confessando seus pecados. Em uma ocasião chegou a passar seis horas confessando os pecados do dia anterior.

Ele disse depois:

“Eu era um bom monge e seguia a regra da minha ordem tão estritamente, que posso dizer que, se alguma vez um monge chegou ao céu por sua vida monástica, esse fui eu. Todos meus irmãos no monastério, que me conheciam, me apoiavam. Se houvesse continuado por mais tempo, me teria matado com vigílias, orações, leituras e outros trabalhos”.

Lutero buscava justificação para ser salvo, porém, cada vez mais se tornava alienado de Deus. Como os fariseus da época de Jesus, buscava sua própria justiça. Por isso disse mais tarde: “…Eu…estava sendo atormentado perpetuamente”. A visão de Lutero era de um Deus que não passava de um juiz extremamente severo e irado. Podemos imaginar que Lutero fosse um “pouco louco”, mas na verdade o que ele tinha em mente era a grande verdade da justiça de um Deus que é santo. Lutero sempre foi uma pessoa extremamente sábia e inteligente. Era conhecido como alguém que se sobressaia no conhecimento dos pontos difíceis das leis. Era considerado um gênio nas leis. Tinha uma compreensão superior da lei. Por isso aplicava esse conhecimento, de uma forma astutamente legal à Lei de Deus e viu coisas que a maioria das pessoas normalmente passam por cima. As pessoas, quando muito, acham que são, de fato, pecadoras e infringidoras da Lei, mas que também todo mundo é assim. Desse modo concluem que Deus deve fazer “vista grossa” contra seus pecados porque ninguém é capaz de ser perfeito.

Mas Lutero não via desta forma. Se Deus fosse assim, como pensam, teria de comprometer Sua própria santidade. Deus não rebaixa Seus próprios padrões santos para acomodar-se a nós pecadores. Ele é santo, totalmente reto e justo. Lutero via a diferença entre um Deus que é tudo isso e nós, opostamente pecadores imundos e injustos. Este era o dilema de Lutero e que devia ser o dilema muitos. Por isso ele fazia a pergunta fundamental da Reforma: “Como pode um homem injusto sobreviver à presença de um Deus justo?”.

Lutero, ao contrário do jovem rico que conversou com Jesus, sabia que lhe faltava não apenas uma coisa, mas muitas coisas, pois a Lei de Deus exige perfeição total. Ele sabia o homem pecador não pode entrar no céu. A menos que entendesse o evangelho, morreria no inferno. Se o homem não for coberto com a justiça de Cristo estará perdido eternamente.

Enquanto todos estavam tranqüilos, Lutero dizia:

“Sabem vocês que Deus habita em luz inacessível? Nós, criaturas débeis e ignorantes, queremos sondar e entender a majestade incompreensível da insondável luz da maravilha de Deus. Nos aproximamos; nos preparamos para nos aproximar. Que tremendo é, então, que Sua majestade venha e nos faça em pedaços!”.

Mas felizmente ocorreu a experiência religiosa essencial que Lutero tanto desejava. Deus deu-lhe a resposta. Não foi através de uma “luz interior”, uma revelação extra Bíblia, um raio, ou alguma experiência de êxtase, não, mas foi na quietude de seus estudos, no exame das Escrituras. Na chamada “experiência da torre” Lutero mudou sua vida e o curso da história do mundo. Deus o fez entender a Sua misericórdia sem comprometer a Sua justiça santa.

Na Universidade de Wittemberg, Martinho Lutero recebeu a responsabilidade de fazer estudos de trechos bíblicos e, em 1515, dois anos antes de afixar as suas 95 teses contra as indulgências, ele iniciou uma série de palestras na Epístola aos Romanos. Nesse tratado de Paulo ele descobriu o coração do Evangelho.

“Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego; visto que a justiça de Deus se revela no Evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé” (Romanos 1: 16-17).

Ele mesmo descreve sua experiência:

“Eu anelava grandemente entender a epístola de Paulo aos Romanos e nada se interpunha no caminho exceto uma expressão, “a justiça de Deus”, porque eu a tomei como que significando essa justiça pela qual Deus é justo e trata com justiça ao castigar o injusto. Minha situação era que, apesar de ser um monge impecável, estava diante de Deus como um pecador com a consciência conturbada e não tinha nenhuma confiança em que meus méritos podiam apaziguá-lo. Portanto, eu não amava a um Deus justo e irado, mas o odiava e murmurava contra Ele. Não obstante, me agarrava ao amado Paulo e tinha um grande anelo em saber o que ele queria dizer.

Refleti noite e dia até que vi a conexão entre a justiça de Deus e a afirmação de que ‘o justo viverá por fé’. Então compreendi que a justiça de Deus é aquela retidão pela qual, através da graça e somente da graça de Deus, Ele nos justifica pela fé. Neste ponto me senti renascer e senti que havia entrado através de portas abertas ao paraíso. Toda Escritura tomou um novo significado, e, enquanto anteriormente a ‘justiça de Deus’ me havia enchido de ódio, agora chegou a ser para mim inexplicavemente algo doce em um amor maior. Esta passagem de Paulo chegou a ser para mim a porta do céu…

Se tu tens a fé verdadeira de que Cristo é teu Salvador, então, no momento tens um Deus de graça, porque a fé te guia até dentro do coração e da vontade de Deus, para que possas ver uma graça pura e um amor transbordante. Isto é contemplar a Deus com uma fé que podes olhar Seu coração paternal e amigável no qual agora não há ira nem falta de graça. O crente que vê a Deus como irado não o vê corretamente, mas que olha sob uma cortina como se uma nuvem viesse sobre seu rosto”.

O que Lutero estava dizendo é que não conseguia conciliar “a justiça de Deus” que odiava, com o “Evangelho” que amava. Mas o texto de Romanos fala exatamente que a “justica vem pelo evangelho”. Isso o perturbou. Como entender? Então ele percebeu que a justiça de Deus é revelada em Cristo (o Evangelho), quando realiza Sua obra por pecadores merecedores da condenação e ira de Deus e os cobre com Sua justiça. Assim, Deus nos vê, não como pecadores, mas como santos e nos declara justos diante da Sua Lei. O mérito é todo de Cristo, a justificação é algo que vem de fora, é alienígena, não é obra nossa; a obra de Cristo é a base de nossa justificação. Esta verdade é a primeira parte da questão de Lutero, mas a resposta completa chegou quando ele percebeu, no texto, que esta justificação, que esta “justiça que vem pelo Evangelho” nos é entregue por fé e não por obras. É de “fé em fé” porque “o justo viverá por fé”. Não é por obras como pensam todas as demais religiões. Agora podemos entender o que Paulo diz em Romanos 4.2-5:

“Porque, se Abraão foi justificado por obras, tem de que se gloriar, porém não diante de Deus. Pois que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça. Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim, como dívida. Mas ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica ao ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça”.

A obra de Cristo nos traz a plena absolvição, que tanto Lutero almejava. Agora Deus nos trata como se nunca tivéssemos cometido pecado algum ou jamais tivéssemos sido pecador. E Deus nos trata como se nós pessoalmente tivéssemos cumprido toda a obediência que Cristo cumpriu por nós. Mas, não é nossa fé que merece a absolvição. Não somos justos perante Deus graças a nossa fé. Somos justos perante Deus graças a obra de Cristo na Cruz e cumprindo toda a Lei. Mas a questão é que só podemos possuir esta justificação pela fé somente.

Temos que definir bem o que é a fé. A fé não é uma boa obra nossa que nos faz merecer o perdão. Mas fé é, por assim dizer, a mão com a qual recebemos a justiça de Cristo. Somos justos e recebemos absolvição, não por causa de nossa fé (na verdade ela nos foi dada por Deus – Efésios 2:8), nem sem ela, mas por meio da fé. A fé é o instrumento com que abraçamos a Cristo.

“O justo viverá por fé”. Este foi o grito de guerra da Reforma Protestante. A idéia de que a justificação é só pela fé (SOLA FIDE), só pelos méritos de Cristo, era tão central ao Evangelho que Lutero a chama de “o artigo sobre o qual a Igreja se mantém de pé ou cai”. Lutero sabia que era o artigo sobre o qual ele se mantinha de pé.

Uma vez que Lutero entendeu o ensino de Paulo em Romanos, ele nasceu de novo. O peso da sua culpa foi quitado. Seu tormento enlouquecedor terminou. Isto foi tão significativo para este homem, que ele foi capaz de enfrentar o Papa, o concílio, o príncipe e o imperador e se fosse necessário, o mundo inteiro. Lutero havia passado pelas portas do paraíso e nada o faria voltar atrás. Ele foi um protestante que sabia do que estava protestando! SOLA FIDE! Que esta verdade se transforme numa epidemia tal em nossa nação que faça o povo desesperar pela bênção da justificação pela fé somente.

4) SOLUS CHRISTUS

Nós falamos com freqüência das 95 teses de Martinho Lutero, porém lembramo-nos também que Zwinglio escreveu 67 teses, apenas seis anos depois de Martinho Lutero! Estas teses, ou afirmações teológicas exaltam a Cristo: “A suma do Evangelho é que o nosso Senhor Jesus Cristo, o verdadeiro Filho de Deus, tornou conhecida a nós a vontade de seu Pai celestial e nos redimiu da morte eterna por Sua inocência, e nos reconciliou com Deus” (Tese 2). “Portanto, Cristo é o único meio de salvação para todos que eram, são e serão salvos” (Tese 3). “Quem quer que seja que procure ou que mostre outra porta, erra; sim, é um assassino de almas e um ladrão” (Tese 4). “Cristo é o cabeça de todos os crentes que são o Seu corpo e sem Ele o corpo está morto” (Tese 7). “Cristo é o único mediador entre nós e Deus” (Tese 19). “Cristo é a nossa justiça” (Tese 22).

Um ponto que os reformadores enfatizaram foi que nós só temos um meio de acesso a Deus e um único advogado, um só mediador, um só caminho: Jesus Cristo. Porque Ele se fez homem unindo as duas naturezas divina e humana e se tornou o mediador que o próprio Pai constituiu entre nós; porque não há ninguém, nem no céu, nem na terra ou entre os homens que nos ame mais do que Cristo. “…pois Ele, subsistindo em forma de Deus não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homem…” e “…em todas as cousas se tornasse semelhante aos irmãos…” (Filipenses 2:6-7 e Hebreus 2:17).

Nós não podemos buscar outro mediador entre nós e Deus porque só Jesus nos amou a ponto de dar Sua vida por nós, quando nós éramos ainda inimigos de Deus (Romanos 5:8 e 10). Além do mais, a Bíblia diz que só Jesus está à direita do Pai com toda autoridade intercedendo por Seu povo. A quem Deus Pai ouvirá antes de Seu Filho? Ou quem o Pai ouvirá além do Seu Filho? Quem está mais próximo de Deus do que Seu Filho ?

Somente por falta de confiança em Cristo os homens começaram a buscar os santos que já morreram. Eles mesmo quando vivos rejeitaram qualquer manifestação de veneração ou de mediação (Atos 10:26; Atos 14:15). Muitos querem dizer que nós não podemos nos achegar a Deus em orações porque somos indignos. Mas a Bíblia nos diz que Jesus tornou-se “…em todas as cousas…semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas cousas referentes a Deus, e para fazer propiciação pelos pecados do povo. Pois naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados” (Hebreus 2:17,18). Diz ainda mais que devemos ir a Deus pois “Tendo, pois, a Jesus, o Filho de Deus como grande sumo sacerdote que penetrou os céus, conservemos firmes a nossa confissão. Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, antes foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado. Acheguemos-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça, a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna” (Hebreus 4:14-16). É a Escritura que nos manda ter intrepidez para “entrar no Santo dos santos, pelo sangue de Jesus.. aproximemo-nos …em plena certeza de fé…” (Hebreus 10:19-22). É Jesus que vive intercedendo por Seu povo (Hebreus 7:24-25). Nós não poderíamos nos aproximar de Deus, sem Cristo, pois Ele é “fogo consumidor”. Mas o crente está coberto com a justiça de Cristo. Sua obra foi suficiente.

Então, do que precisamos mais? Jesus mesmo disse certa vez: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14:6). Os protestantes não buscam outro advogado, outro mediador porque aprouve a Deus nos dar Seu Filho para realizar esta obra mediadora. O próprio Jesus nos orientou a que buscássemos o Pai em oração, mas em Seu nome (em nome de Jesus). Por meio dEle somente, é que podemos ir à presença de Deus. Ele é o perfeito mediador. Não existe outro.

Nossos antepassados reformados desembaraçadamente proclamavam: “Solus Cristus” (somente Cristo). Em Cristo há vida; fora de Cristo há morte. Sem Ele nada podemos fazer, por meio dEle podemos tudo. Fora de Cristo Deus não pode ser senão um fogo eterno e uma chama que consome; em Cristo Ele é um Pai gracioso. Isso é doutrina da Reforma, pois somente em Cristo a justiça de Deus pode ser satisfeita, isto é, por Sua obediência ativa e passiva.

5) SOLI DEO GLORIA – Só a Deus toda glória

Este era mais um dos slogans da Reforma Protestante. De fato, podemos dizer que este slogan prende em si mesmo toda a essência da Reforma. Esta afirmação resgatou o propósito de vida das pessoas, que estava soterrado sob o entulho da tradição religiosa medieval e da teologia antropocêntrica de Tomás de Aquino. O ponto que este slogan defende é que só Deus deve ser glorificado em nossa salvação, no louvor e nas nossas vidas.

Porque fomos salvos só pela graça, que só vem de Cristo, só pela fé, não existe nenhum lugar onde possamos dizer que ajudamos a Deus, ou fizemos algo em prol da nossa salvação. A reforma recuperou a afirmação bíblica da Total Depravação do Homem e que desde o seu nascimento este homem é incapaz de fazer qualquer coisa para ser salvo diante de Deus. Mesmo todas as obras boas, feitas por aquele que não foi regenerado, são pecado. A nossa justiça é como trapos de imundícia, como Isaías registrou. Ele disse que a nossa justiça, as nossa boas ações são inaceitáveis diante de Deus pois estão manchadas pelo pecado.

Eu e você, não somente precisamos da justiça de Cristo para pagar o preço dos nossos pecados, mas precisamos de Cristo para pagar por tudo aquilo que fizemos pensando que era bom; no entanto eram apenas trapos de imundícia diante do nosso Deus. Existem tantos pecados em nossa “boas ações”, que merecemos o castigo eterno e a condenação de Deus. Mas quando Deus dá a uma pessoa a fé para olhar para a cruz de Cristo e dizer, “isto foi por mim”, esta pessoa imediatamente passa à condição de justificada, declarada justa, pura. Tudo isto pode parecer não ter sentido, que não é verdade. A sua consciência pode tentar dizer que Deus ainda tem muitas exigências a fazer para que você seja declarado justo. Os seus amigos podem dizer que isto não faz sentido e concluem: “Então, se isto for verdade, você pode viver qualquer tipo de vida e ainda ser salvo no final, isto não está certo!”. Estas pessoas não compreenderam o evangelho.
O Evangelho tem um efeito completamente diferente. O que a Lei nunca poderia conseguir – a verdadeira obediência vinda do coração e amor por Deus e pelo próximo – isto o Evangelho conseguiu. Cristo não só pagou o preço dos nossos pecados e zerou a nossa dívida para com Deus, mas cobriu-nos com Sua justiça; Sua justiça foi imputada em nós, creditada em nossa conta. Mesmo quando ainda somos pecadores, ainda assim, estamos justificados. O evangelho foi além e derrubou a ditadura das nossas paixões carnais que nos deixavam buscando apenas a nossa própria alegria, a nossa própria salvação e a nossa própria glória. Diante disso nós não podemos ser egocêntricos. Para dizer a verdade, Calvino reclamava dos crentes da idade média que viviam tão preocupados e sobrecarregados com a tarefa de salvar as suas próprias almas, e se tornaram tão zelosos de boas obras para ter uma vida piedosa, que se esqueciam do próprio Deus, sua Majestade, Sua glória, e de amar ao próximo e querer bem aos seus irmãos.

Se Deus nos escolheu antes da Criação do mundo; se Ele nos redimiu quando ainda éramos seus inimigos (“éramos por natureza filhos da ira” – Ef.2:3); se Ele nos vivificou quando nós estávamos mortos espiritualmente, perguntamos: de que o homem pode se vangloriar? Ou para que o crente viver angustiado como Lutero, antes de se converter? Deus agora nos vê como justos. Agora estamos livres para amar e servir a Deus e aos nossos vizinhos, sem medo de sermos castigados e sem a necessidade de buscarmos recompensa. Buscar recompensa é dizer que somos merecedores e isso “apaga” a glória de Deus.

Aproveitando este tema, este é exatamente o motivo pelo qual muitos afirmam não poder acreditar na doutrina bíblica da Eleição Incondicional. Parafraseando o que diz certo teólogo (arminiano) do passado: “Esta doutrina tira toda a motivação do crente buscar a santificação, que é o medo do castigo e a busca de uma recompensa”.

Se este teólogo tivesse com a razão, isto faria à nossa religião o que fez aos monges medievais, reclusos nos mosteiros: nossas vidas seriam impulsionadas apenas por motivos egoístas! Será que a vida cristã é salvar o seu próprio “pescoço” e viver correndo atrás de medalhas de “honra ao mérito” no céu ?

Os reformadores, Martinho Lutero e João Calvino pregavam o evangelho bíblico que havia sido soterrado e não era mais pregado aos cristãos. Como conseqüência, os ouvintes estavam acostumados com uma espiritualidade centrada no homem, uma espiritualidade egocêntrica, própria da idade média e, por incrível que pareça, própria da nossa época. Quando eles pregaram o evangelho, a mensagem genuinamente bíblica, de repente, as atividades do dia-a-dia, da vida comum, passaram a ter um novo significado, uma nova motivação. Não era uma vida piedosa separada e enclausurada do mundo que iria agradar a Deus (gnóstica). Jesus disse em Sua oração sacerdotal: “Não peço que os tires do mundo, e, sim, que os guardes do mal” (João 17:15) Enclausurar-se num gueto espiritual não foi uma ordem divina. Deus nunca ordenou que, para agradá-lo, os crentes teriam que se isolar do mundo! Não, os Reformadores insistiam que santos são todos aqueles que, nos seus afazeres diários, ordenhando vacas, construindo casas, assando pães, homens e mulheres comuns, vivendo vidas normais, os advogados, cientistas… se dedicam a ser o melhor possível nas suas obrigações, funções ou trabalhos, com o propósito de dar honra e glória ao nome de Deus. Neste sentido, santo é aquele que, com fidelidade, atende ao chamado de Deus para ser o melhor possível onde Deus o colocou. “Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo coração, como para o Senhor, e não para homens” (Colossenses 3:23)

Os historiadores modernos ficam extasiados quando observam os efeitos da Reforma Protestante no homem comum daquela época. A sociedade moderna que se desenvolveu no Novo Mundo, teve muito a ver com o que os Reformadores ensinaram. A Reforma protestante, podemos dizer, “liberou a energia” do homem e da mulher comum. Criou a “Escola Pública Universal”; transformou governos em democracias; pronunciou a bênção de Deus sobre todos os que levassem uma vida digna, com trabalho honesto, isto numa época em que a sociedade pregava que a pobreza era o viver mais perto de Deus, que era bom ser pobre. Os Reformadores ensinaram que Deus fica feliz e abençoa o trabalho bem feito dos seus filhos que honram-no agindo responsavelmente e produtivamente; fazendo o melhor. Mas longe deles a idéia de esquecer os pobres ou discriminá-los.

• A Reforma com sua ênfase em dar glórias a Deus e se importar com o próximo, cuidando do pobre, mobilizou a sociedade para, através do serviço ao próximo, cuidar daqueles que o governo não tinha a intenção ou interesse em cuidar.

• Ao mesmo tempo a Reforma gerou artistas de renome como Johan Sebastian Bach, que ao final de cada uma das suas composições escrevia: “SOLI DEO GLORIA”. Junto a ele, outros nomes surgiram como Mendelssohn (compositor, pianista e regente alemão) Rembrandt (maior artista e pintor holandês do século XVII), Vernier (matemático francês do século XVII), Herbert, John Bunyan (puritano, homem simples, que escreveu o famoso livro O Peregrino) e grandes eruditos nas universidades.

Os reformadores aplicavam esta verdade de “Só a Deus Toda Glória” em suas vidas práticas. Eles davam grande ênfase à vocação da pessoa. Enfatizavam que cada pessoa devia glorificar a Deus através de sua vocação secular. Lutero já havia ensinado o sacerdócio universal dos crentes e os que criam nisso aprofundaram esta verdade. Mesmo os estudiosos marxistas do século XX deram crédito aos calvinistas puritanos por terem elevado a moral da classe trabalhadora da Inglaterra naquele período (Século XVII). Ao invés de darem simplesmente recursos às pessoas pobres, eles organizaram muitas sociedades, sistemas, para que as pessoas aprendessem uma vocação. Ensinavam que as pessoas tinham sido criadas por Deus para servir de acordo com os propósitos deste Deus. Que elas tinham sido criadas à imagem e semelhança de Deus sem distinção de classe. Diziam que quando uma pessoa estava varrendo a sua casa devia fazê-lo de forma responsável, pois era para glória de Deus e avanço do Seu Reino.

Dessa forma os pobres começaram a sentir um novo senso de dignidade e a desenvolver seus talentos que Deus havia concedido.

Assim, os crimes, a violência caíram tremendamente naquela época. Criaram sociedades de voluntários para ajudarem e darem treinamento e qualificação aos pobres. Fundaram hospitais de caridade e tudo tinha um propósito: viver para glória de Deus.
Protestantes reformados começaram a criar a Associação de Arte, de Ciências, de Cultura, através de toda a Europa. Nos Estados Unidos as grandes Universidades que foram fundadas com o propósito de anunciar ao mundo e às novas gerações esta postura Reformada, são conhecidas e respeitadas até hoje: Harvard, Dartmouth, Yale, Princeton, Brown e outras. Tudo para que Deus continuasse a ser glorificado enquanto os homens buscavam ser o melhor em suas profissões.

Mas, hoje, a maior ênfase é na glória humana. Evangélicos insensivelmente pragmatas, afirmam que a Reforma estava errada pois era centrada em Deus e não no homem. Eles insistem que o propósito do Evangelho é: “Santificar a busca egoísta do homem”. Dizem mais: que o grande defeito do cristianismo moderno é “o fracasso em proclamar o Evangelho de um modo que possa satisfazer a necessidade mais profunda de cada pessoa, ou seja, o anseio espiritual pela glória humana”.

Com toda esta ênfase que ouvimos hoje nos meios de evangélicos, daquilo que o homem é capaz de fazer com o poder do seu pensamento positivo e livre e de suas capacidades próprias, será que a glória ao nome de Deus está sendo um assunto estudado nas Igrejas Evangélicas dos nossos dias? Será que a Igreja que está se preparando para o século XXI está dando glórias ao nome de Deus? Será que temos hoje uma igreja aplicando este princípio da Reforma onde Deus é glorificado em todos os atos do crente ou será que precisamos de reforma novamente?

A situação de hoje é a mesma da Igreja Católica da Idade Média, estão acrescentado algo às Escrituras. Isto motivou a Reforma.

Precisamos de reforma novamente. A glória de Deus está dividida e obscurecida. Quando é o homem que faz e não Deus, não podemos dizer Soli Deo Gloria. Dizer que só a Escritura é a única regra de fé e prática e a ela não se acrescenta nada mais, mesmo que um anjo com todo seu explendor apareça dizendo novidades, aí está a Glória de Deus.

Quando se ensina presciência em lugar de predestinação; quando se diz que o homem tem livre arbítrio; quando se afirma que Cristo morreu por todos os homens e que este homem é quem decide a sua salvação; que o frágil homem é mais forte do que o Espírito Santo resistindo-o na Sua obra de convencê-lo do pecado, da justiça e do juízo; quando se afirma que o crente pode ser “desregenerado”, “desjustificado” e “desantificado”, a graça é destruída e por se enfatizar o homem e não a Deus, não podemos afirmar Soli Deo Gloria.
Certa vez, em um programa de rádio, nos Estados Unidos, Dr. Michael Horton perguntou a Dr. James Boyce: “Se a glória de Deus não é o objeto em foco, o que a substitui?” A resposta sábia foi: “Nós vamos dar glória a alguém; ou damos a Deus ou aos homens. …ou louvamos a Deus ou endeusamos a nós mesmos e glorificamos a nós mesmos…construindo nosso próprio reino”.

Como podemos falar na glória de Deus na salvação se o homem seria um parceiro deste Deus na sua salvação. Deus não tem parceria com o homem no seu pacto eterno de salvá-lo. O Pacto divino para salvar o homem é feito com o Filho e os crentes são apenas herdeiros deste pacto. A iniciativa e o mérito é todo de Deus, da Trindade Santa. É Deus quem começa a boa obra e a completa. Foi Ele que disse: tudo está consumado! O amar de antemão, o predestinar para salvação, o chamar de forma eficaz, o justificar pela imputação da justiça de Cristo, e o glorificar na eternidade é o plano gracioso de salvação. Deus não divide Sua glória com ninguém – “A minha glória não darei a outrem” (Is.48:11).

Quando a igreja cria metodologias pragmáticas, técnicas inovativas para fazer o número dos membros crescer baseadas na força do homem, a glória de Deus é desfeita, “apagada”. A Igreja de hoje é tolerante, benevolente e só enfatiza o positivo; o sermão é breve e divertido. Isso descarta o método do próprio Jesus que enfatizava a pregação e o ensino sérios, como algo que O ocupou em todo Seu ministério.

A ênfase na auto-estima, hoje, tem sido evidenciada grandemente e sutilmente. Quando divido a glória da salvação com Deus, estou elevando minha auto-estima e não negando-me a mim mesmo. O negar-se a si mesmo foi a exigência de Cristo e uma marca do eleito de Deus (ITs.1:3). O hino que deve-se cantar hoje não é “Você tem valor”, mas é “Servo inútil sem valor, mas pertenço ao meu Senhor”.
A glória da minha justificação é de Deus, os méritos são de Cristo. Só a Deus toda glória por nossa justificação que é por fé; fé que ele mesmo nos dá gratuitamente. Isso nos faz lembrar as palavras de Cristo: “Graças te dou, ó Pai, Senhor dos céus e da terra, por que ocultastes estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelastes aos pequeninos” (Mt.11:25). Deus escolheu os fracos para envergonhar os fortes; as pessoas humildes, as desprezadas, as que nada são para reduzir a nada as que são, com um propósito: Afim de que ninguém se glorie diante de Deus, pois só este merece a glória (I Co 1:26-29). E nesta humilhação do homem, os crentes, os que são de Cristo, para estes, Cristo é nossa sabedoria – a loucura do Evangelho torna-se sabedoria pois é o próprio Deus encarnado se oferecendo a si mesmo para salvar pecadores. Esta sabedoria está incluindo três coisas:

1. Justiça: Cristo nos justifica com sua morte na cruz e sua obediência à Lei.

2. Santificação: Cristo nos santifica. Jamais poderíamos nos santificar por nossas próprias forças – “…desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fl.2:12-13).

3. Redenção: Cristo pagou o preço de resgate com Seu sangue no Calvário.

Para que ?

Para que o homem veja que ele não fez nada e por isso não tem do que se vangloriar. Assim a glória é toda de Cristo.

Na doutrina protestante o homem é diminuído e Cristo é elevado. A Confissão de Fé de Westminster expressa que Deus pré-ordenou todas as coisas para Sua própria glória, bem como estabelece isso como sendo o fim principal do homem.: “O fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre” (Breve Catecismo pergunta 1). Isso porque a Bíblia diz: “Por que dele e por meio dele e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém” (Romanos 11:36).

Manoel Canuto (Coordenador do Projeto Os Puritanos)

BIBLIOGRAFIA
1. Bíblia Sagrada – Versão Revista e Atualizada
2. Enciclopédia Histórico Teológica – “Protestantismo” – Edições Vida Nova, Vol III
3. Errol Hulse – Lutero e a Autoridade das Escrituras – Jornal Os Puritanos/A Reforma Protestante/Ano II, N° 4
4. James E. McGoldrick – Três Princípios do Protestantismo – Jornal Os Puritanos/ A Reforma Protestante/Ano II, N° 4
5. Joel Beeke – Revendo Nossos Princípios Reformados – Revista os Puritanos/ Vida Aos Mortos/ Ano VI, N° 4
6. Loraine Boettner – Catolicismo Romano – (Editora Batista Regular)
7. R.C. Sproul – La Santidade de Dios, Cap 5 – La Insania De Lutero

Qual a Igreja (denominação evangélica) que Devo Congregar ?

“Como eu posso achar uma igreja onde eu ouvirei Cristo pregado por Sua Palavra, sem todos esses erros e distrações?” Esta é uma questão que tenho feito a mim mesmo em muitas ocasiões. É fácil entender a preocupação e até a frustração que acompanha a busca pelo lugar apropriado para adorar. Primeiro, assim como com os rótulos de produtos, é importante examinar o que os rótulos da igreja significam e o que eles não significam. Lendo os rótulos

Se você cresceu na Europa, escolher uma igreja não deve ser tão difícil. Depois da Reforma, cada denominação obteve sua própria “área”; assim, se você tivesse nascido, por exemplo, num cantão italiano na Suíça, você seria católico romano, enquanto uma pessoa nascida em Genebra, de língua francesa, provavelmente seria protestante. Algumas vezes, nações inteiras (ou a linhagem reinante de um monarca) compartilham uma confissão comum: A Igreja da Inglaterra, a Igreja da Escócia, a Igreja da Suécia, a Igreja Reformada Holandesa, e assim por diante.

Quando a América tornou-se o porto para grupos que queriam “recomeçar” no Novo Mundo, trazendo o Evangelho aos nativos e escapando da perseguição em suas igrejas estatais, muitos simplesmente trouxeram seu entendimento de igrejas estatais regionais do Velho Mundo. Por exemplo, os puritanos da Nova Inglaterra instituíram o Congregacionalismo e obstaram a cidadania aos quakers e católicos romanos. Isto foi, na verdade, mais generoso do que a perseguição da política na Europa, na época, quando os não-conformistas eram presos e algumas vezes até executados.

Entretanto, na época que nossa nação foi fundada, ficou claro que não haveria igrejas estatais sancionadas oficialmente pela república americana, mas que os americanos seriam livres para seguir suas consciências. Este processo, não obstante a todos os seus benefícios, criou um livre-para-tudo no qual as denominações competem pelas almas. Esta liberdade estimulou a criação de centenas de novas seitas e cultos no século dezenove; tudo desde mormonismo, racionalismo cristão e testemunhas de Jeová, até culto da comida saudável, seitas pentecostais radicais e grupos que aumentaram seus números de membros fazendo predições sobre os eventos proféticos do fim dos tempos. Os últimos dois anos têm sido um exercício de espiritualidade estilo cafeteria (onde os fregueses servem a si próprios) ou, como um amigo na Inglaterra chama, religião de livre empreendimento. A questão não é tanto a verdade que deve ser defendida e passada adiante, mas “o que funciona pra você”; em outras palavras, escolher uma igreja é uma questão de gosto.

Isto explica a origem dos rótulos. Como nós os lemos? Em primeiro lugar, há as denominações protestantes tradicionais que conceberam e modelaram a origem da maioria das instituições da América no século vinte: os Congregacionalistas, Presbiterianos e Reformados (Holandeses, Alemães, Húngaros, Franceses), Episcopais, Batistas, Luteranos e Metodistas. A primeira grande dissensão no protestantismo aconteceu entre os Luteranos e os Reformados, mas outras denominações protestantes (Congregacionalistas, Presbiterianos, Episcopais) são parte da árvore genealógica dos Reformados ou Calvinistas (nota: enquanto os Batistas Arminianos freqüentemente traçam sua ascendência até os Anabatistas, os Calvinistas Batistas consideram-se como aqueles que divergem do Calvinismo somente nos assuntos relacionados à teologia da aliança e aos sacramentos). Em outras palavras, eles compartilham uma crença comum sobre Deus, humanidade, Cristo, salvação e outras coisas essenciais, mas diferem sobre outros temas importantes. Por exemplo, Congregacionalistas crêem que as igrejas podem ser independentemente governadas pela congregação; Presbiterianos alegam que a palavra “presbítero” no Novo Testamento, significando “ancião”, pressupõe uma forma de governo eclesiástico baseado em irmãos-anciãos ordenando as igrejas em uma área determinada, e os Episcopais insistem numa hierarquia de pastores (bispos) sobre outros pastores (ministros).

Historicamente, a forma de governo da igreja, dividiu estas igrejas e não a discordância sobre o meio de salvação.

O reavivalismo e individualismo fronteiriço nos anos de 1800, levaram a uma explosão de cultos e seitas. Autoproclamados “profetas” afastaram muitas pessoas das igrejas protestantes tradicionais e muitos deles são hoje grupos organizados: a Igreja de Cristo, Discípulos de Cristo e uma hoste de grupos pentecostais. Grupos pietistas (a maioria descendendo dos Luteranos) acrescentaram divisões à lista. Eles criam que o protestantismo tradicional perdera seu primeiro amor por causa da ênfase doutrinária. Entre eles estão as denominações Brethren (dos Irmãos), Igrejas Livres (Evangélica Livre, Aliança Evangélica, etc), e uma multidão de igrejas independentes que surgiram no último século e meio. Na metade do século vinte muitas delas adotaram a teologia dispensasionalista de J. N. Darby.

Enquanto isto, as próprias denominações protestantes tradicionais começaram a tolerar e depois abraçar o Iluminismo, com sua crença na bondade humana, explicações naturais para tudo e a rejeição da necessidade da intervenção divina, revelação ou salvação.

Durante a primeira metade do século vinte, estas denominações experimentaram seu maior cisma. Isto deu origem a uma grande quantidade de novas denominações no cenário religioso. Por exemplo, somente entre os presbiterianos, onde havia somente uma Igreja Presbiteriana na América, existem hoje muitas. (…)[1]

Enquanto existem muitas divisões no protestantismo americano, existe também um constante estímulo à reunião das igrejas divididas, contanto que haja uma fé ortodoxa. Muitas das denominações há pouco mencionadas gozam de íntimas relações fraternas.

As denominações reformadas estão intimamente afiliadas com as presbiterianas; na verdade, a tradição é comumente chamada “a tradição reformada presbiteriana”. Muitas igrejas na Europa são parte das “igrejas regionais” mencionadas anteriormente. Elas têm histórias diferentes, não por causa de diferenças doutrinárias, mas porque vieram de diferentes contextos étnicos, lingüísticos, culturais e históricos. (…)

Congregacionalistas de modo geral, não têm uma confissão de fé ou catecismo. Os presbiterianos usam a Confissão de Fé de Westiminster e os Catecismos Menor e Maior; os reformados usam as “três formas de unidade” – a Confissão Belga, o Catecismo de Heidelberg e os Cânons do Sínodo de Dort; luteranos usam o Livro da Concórdia, que inclue a Confissão de Augsburg e empregam os Catecismos Menor e Maior de Lutero; os episcopais têm os Trinta e Nove Artigos da Religião como sua confissão. Cada uma destas confissões e catecismos foram escritos durante ou logo depois da Reforma. À medida que uma denominação ou igreja julga suas pregações, ensinos, culto e a vida da igreja por estes padrões, ela é “confessional”. A maioria das igrejas “mães” hoje, ou ignora suas confissões, ou permite que seus pastores e oficiais rejeitem sua confissão oficial de fé. Muitos “braços” evangélicos conservadores fazem o mesmo, não tanto pela rejeição absoluta do correto ensino, mas por uma apatia no que se refere a doutrina, credo, confissões e a instrução catequética dos jovens. Em ambos os casos o resultado é o mesmo: uma geração de cristãos professos que desconhece seus próprios credos o suficiente para ser capaz de questionar e examinar.

Seja cuidadoso para não ler os rótulos de muito perto. Por exemplo, embora a Igreja Unida de Cristo (não confundir com as Igrejas de Cristo ou Discípulos de Cristo) seja a mais liberal denominação da nação, julgando pela sua vanguarda diplomática, é possível achar uma paróquia decente desta igreja na sua vizinhança. De fato, é possível que uma congregação da Igreja Presbiteriana dos EUA (mãe) da vizinhança, possa atualmente ser mais comprometida com a fé reformada do que uma igreja que pertença a um ramo evangélico mais conservador do presbiterianismo. Não é provável, mas é possível. Hoje em dia, você não pode julgar sempre uma igreja pelo seu nome.

Tenha certeza que sua “igreja” é uma igreja

Até este século, cristãos de todos os tipos criam que há igrejas verdadeiras e igrejas falsas. Só porque está escrito “igreja” sobre a porta não significa que ela seja uma. Daí porque os reformadores retiraram das Escrituras duas inegáveis marcas da igreja verdadeira: é onde a Palavra de Deus é pregada de forma verdadeira e os sacramentos são administrados corretamente.

Certamente, os reformadores sabiam que isto acontece em graus variados. Por exemplo, mesmo numa igreja protestante conservadora alguém pode ser desapontado com o manuseio de um certo texto. Alguém pode estar absolutamente convencido que o pregador errou em sua explanação, mas isto não significa que esta igreja não deva mais ser considerada como uma igreja verdadeira. Os reformadores tinham em vista que ela tinha de ser uma igreja na qual a clara pregação do texto se focalizava na promessa de Cristo em salvar os pecadores. Em outras palavras, a pregação da Lei e do Evangelho deve ser claramente afirmada e proclamada na paróquia local, para ser considerada uma igreja verdadeira. Quando uma denominação ou uma igreja rejeita oficialmente o Evangelho ou qualquer ensino essencial do Credo Niceno, ela comete apostasia e não faz mais parte do corpo visível de Cristo. Indivíduos dentro dela podem ser salvos, mas a congregação ou denominação apartou-se oficialmente da igreja visível de Cristo.

A segunda marca da igreja verdadeira é que os sacramentos são aceitos e empregados, ao lado da Palavra, como meios de graça. Os protestantes reformados, presbiterianos e luteranos, tradicionalmente têm argüido que “a administração correta dos sacramentos” seguramente requer o batismo infantil e a rejeição de qualquer concepção da Ceia do Senhor que a reduza a um mero símbolo ou memorial. De novo, isto não significa que pessoas que discordam desta definição não são realmente cristãs; é uma questão do que propriamente constitui uma igreja visível ordenada corretamente.

Se uma igreja preenche estas definições, você precisa menosprezar outros problemas. Quando o gosto, ao invés da verdade, é o critério para a escolha de uma igreja, as pessoas colocarão estilo de música, programas e atividades infantis no topo da lista. O ponto mais importante é este: Este é um lugar onde Deus e Sua revelação na pessoa e obra de Cristo são claramente declarados, e onde as pessoas são sérias sobre crescimento em Cristo através da Palavra, sacramento, oração, evangelismo e missões? Este é um lugar onde meus filhos serão ensinados em adição as instruções que receberão em casa? Eles crescerão ouvindo o Evangelho?

De volta aos pontos essenciais – O que você pergunta ao pastor?

Se você não pode julgar uma igreja por seu rótulo, como poderá julgá-la? Aqui estão algumas perguntas para o pastor:

1. Qual é o ponto de vista da igreja sobre a Escritura? Ela é infalível, a única autoridade de fé e prática?

2. Qual é a confissão de fé da igreja? Onde este ministro específico se baseia nela? Ela é o critério para o ensino e a pregação da Palavra de Deus?

Se você realmente for “sortudo”, você pode até achar uma igreja que ainda use seu catecismo. Uma confissão de fé não é igual a Escritura, mas apresenta o que o corpo da igreja crê que a Palavra de Deus ensina e requer que nós saibamos. Um catecismo é simplesmente um meio de instrução sobre a confissão de fé, geralmente através de perguntas e respostas, com textos bíblicos sustentando cada resposta. Em muitas denominações confessionalmente consistentes, alguém poderá achar um currículo da escola dominical que acompanhará a pessoa por todo o caminho desde a idade pré-escolar até o crepúsculo dos anos. Isto é importante, porque organiza nossos pensamentos sobre Deus e o estudo da Escritura num conjunto coerente, claro e sistemático.

3. O culto é conduzido como um encontro de Deus com Seu povo para dar-lhes Sua graça e para que eles lhes respondam em agradecimento? Ou é modelado pelo entretenimento?

4. Jesus Cristo é proclamado como um herói moral ou como Redentor? Em outras palavras, Ele está em igualdade com Freud, Benjamim Franklin, um político e um profeta dos últimos dias, ou a pregação é concernente a “Cristo e este crucificado” como Paulo a colocou?

Se você deve sair

Os cristãos reformados “não jogam o bebê fora junto com a água da banheira” na rejeição dos erros do romanismo. Nós ainda temos uma elevada doutrina da igreja, e isto é o que torna excessivamente difícil deixar uma igreja ou denominação que está corrompida. Muitas vezes é difícil decidir quando chega o tempo da separação.

Se uma congregação local se aparta da fé, é legítimo permanecer nela para tentar mudá-la, enquanto a confissão de fé oficial não tiver sido ainda finalmente rejeitada? Eu creio que sim, e que Deus nos chama para manter nossas igrejas e denominações responsáveis por suas próprias confissões. Enquanto a confissão de fé oficial permanecer, é assumido que cada um no ministério daquela denominação concorda com seus artigos. Se não, os pastores que com suas bocas prometem preservar a confissão estão na realidade fazendo exatamente o oposto e são, portanto, desonestos. Não é você que tem que partir, porque você está sendo fiel à confissão de fé da igreja e até que a denominação oficialmente rejeite esta confissão, você está certamente livre (mas não obrigado) a permanecer nela com o objetivo de trazê-la de volta à prática confidência naquela fé. Aqui, dependendo do regime da denominação, um processo de tribunais eclesiásticos graduados provê reformas justas e ordeiras.

Muitos leitores podem fazer parte de uma igreja sem denominação que não possui um estatuto formal de fé. Como você pode manter seu pastor na pregação e ensino da mensagem evangélica se, pela leitura dele da Escritura, ele é convencido de outra interpretação, não importando o quanto ela seja estranha? Esta é a mais difícil situação. Se a Palavra não é corretamente pregada (ou seja, uma afirmativa clara dos credos essenciais) e os sacramentos não são corretamente ministrados, sendo os pastores responsáveis por alguém além deles mesmos e de seus admiradores, esta não é uma igreja verdadeira. Abandonar uma seita não só é tolerável, mas necessário. Reformar uma igreja é suficientemente difícil, mas se uma assembléia de crentes não é biblicamente propensa para chamar-se “igreja”, e não deseja caminhar nessa direção, o passo mais sábio seria buscar com devoção, uma igreja que está tentando, débil ou dedicadamente, ser uma igreja verdadeira.

O que quer que você faça, resista a tentação (e ela será grande) de abandonar ou diminuir sua freqüência na igreja. Esta não é uma opção para o crente, embora seja muito atrativa, especialmente quando se contentar com o cardápio local algumas vezes não é tão atraente.

Uma última colocação sobre este ponto. Se você precisa sair, faça-o com caridade e civilidade. Não faça alarde sobre isto, tornando sua partida um assunto de conhecimento público. Siga sua consciência, mas entenda que a razão pela qual outros não vêem as coisas do seu jeito é que eles simplesmente não estão persuadidos ainda das convicções que motivaram sua saída. Você precisará de oração, sabedoria e conselhos de vez em quando, como estes.

Buscando sentimento

Finalmente, esteja certo de que a igreja que você escolher “busca sentimento”. Isto tem sido a nova palavra-chave nos círculos de crescimento da igreja, e é geralmente usada como uma desculpa para legitimar o esvaziamento de todo pensamento, liturgia, dignidade e senso de transcendência e centralidade de Deus. A igreja é replanejada para ir ao encontro das necessidades do incrédulo. Depois de ser perguntado que tipo de igreja eles gostariam de freqüentar, os peritos em marketing da igreja moderna dizem aos pastores como construí-las.

Assim, porque eu sugiro a você que a igreja que você escolher deve “buscar sentimento”? Em João 4, Jesus diz a mulher samaritana, “Mulher, podes crer-me que a hora vem, quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores. Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (Jo.4: 21-24). Note que assim como depositamos nossa confiança na nossa própria denominação ou congregação como a igreja verdadeira, Jesus nos diz que não é uma questão de em que montanha nós adoramos, porque agora Deus reside no corpo de Cristo, que é a igreja. Deus diz que a adoração deve ser em Espírito e em verdade. Ou seja, o Espírito e a Palavra devem andar juntos. Não pode haver atividade do Espírito Santo independentemente da Palavra, e qualquer atividade da Palavra depende do Espírito Santo para ser eficaz.

Certamente, devemos “buscar sentimento”, mas há uma importante distinção aqui: Deus diz que Ele procura adoradores. O moderno conceito de crescimento de igreja está baseado no erro do arminianismo, onde o homem acha a Deus. Assim, nós deixamos de lado a adoração a Deus pelo critério que Ele estabeleceu (o Espírito Santo e a verdade) com o propósito de “buscar sentimento”. Afinal de contas, nós salvamos pessoas e as trazemos para o reino, certo? Esta é a suposição. Mas se Deus é aquele que busca, nossa missão é achar uma congregação onde Deus é servido com adoração, mesmo quando a mensagem ou estilo possa ser estranho ou mesmo desagradável aos incrédulos. Se for, pode ser por nossa culpa ou também por causa da Palavra de Deus estar fazendo simplesmente o que ela faz. Se este é o caso, estamos em boa companhia com os apóstolos, mártires e reformadores antes de nós.

[1] Certas partes do texto dizem respeito ao desenvolvimento histórico americano das denominações. Por este motivo, foram retiradas do texto por ser específico à realidade norte americana. Estas partes estão identificadas por este sinal: (…)

Por Michael S. Horton

Biblioteca Reformada ARPAV

REFORMA PROTESTANTE: Sempre reformando e sempre protestando – EM NOME DE JESUS !

Hoje se comemora no mundo todo os 493 anos da Reforma Protestante – mas, o que significa seu lema “igreja reformada, sempre se reformando”?

Há vários lemas que os reformados gostam de usar para identificar e resumir as marcas da Reforma: Sola Scriptura, Sola Fides, Solus Christus, Sola Gratia, Soli Deo Gloria e o moto Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est. Mas, como tudo na vida, eles têm sido entendidos e usados de maneira diferente pelos que se consideram herdeiros da Reforma.

É o caso especialmente do “Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est”, de autoria do reformado holandês Gisbertus Voetius (1589-1676), à época do Sínodo de Dort (1618-1619). Este slogan, que pode ser traduzido como “A Igreja é reformada e está sempre se reformando”, tem sido interpretado como se Voetius estivesse dizendo que uma característica da Igreja Reformada é que ela está sempre mudando. Contudo, é difícil imaginar que Voetius, calvinista estrito, que participou em Dordrecht da disputa contra os discípulos de Armínio, tivesse usado este lema para encorajar a abertura da Igreja para novas idéias de qualquer tipo – seria o mesmo que dizer que os seguidores de Armínio estavam certos e que a Igreja Reformada deveria se abrir para uma reforma de natureza arminiana na sua soteriologia! Voetius estava tentando qualificar o argumento deles de que a Igreja deveria estar aberta para receber novas luzes sobre pontos que pareciam imutáveis. Voetius não negou o princípio da reforma constante, mas destacou que o alvo era sempre retornar às Escrituras, que tinham sido a base da Reforma. E na compreensão dele e do Sínodo de Dort, as idéias dos seguidores de Armínio certamente não representariam um retorno às Escrituras.

É importante notar que o aforismo de Voetius não foi “ecclesia reformans”, que significaria que a Igreja se reforma a si mesma, mas “ecclesia reformanda”, que está na voz passiva e indica que o agente da reforma não é ela própria, mas sim o Espírito de Deus. E este certamente promove o crescimento e a compreensão das Escrituras a cada nova geração, sem com isso admitir que a verdade muda.

As palavras de Voetius vêm sendo reinterpretadas ao longo dos anos e usadas de formas que nunca passaram pela mente do teólogo calvinista holandês. A Igreja Católica, no Concílio Vaticano II, tomou para si a parte final do aforismo de Voetius, “reformanda est”, após reinterpretá-lo para justificar as mudanças que introduziu no catolicismo tradicional. Os seguidores de Helen White, fundadora do Adventismo, usam-no para justificar sua reivindicação de serem uma reforma da Reforma. E mais recentemente, o lema ressoa distorcido, mais uma vez. Uma ala da própria Reforma protestante tem usado o moto para justificar mudanças e inovações na Igreja Reformada que certamente não estão de acordo com as Escrituras.

Só para ilustrar, “Semper Reformanda” é o nome de uma organização religiosa nos Estados Unidos que defende a inclusão de gays e lésbicas no ministério pastoral e o casamento homossexual. O grupo adotou este lema porque entendeu que ele expressa o princípio mater da Reforma, que as igrejas reformadas devem mudar a cada geração, para se contextualizar às mudanças da sociedade, da cultura e das novas compreensões.

Essa, na verdade, sempre foi o entendimento daqueles que acham que o mais importante na Reforma Protestante não foi ter voltado no passado para resgatar as antigas doutrinas da graça, mas de ter ido em frente, promovendo uma mudança no status quo (não estou dizendo que todos os que pensam assim são a favor da agenda GLT). A idéia subjacente é que o novo sempre é melhor. Querem o reformanda mas não o Sola Scriptura. Torcem Voetius.

Na verdade, reformados não podem ser contra a continuidade da Reforma, pois sabem que a Igreja é composta de pecadores. Sabem também que a cada geração novos desafios se erguem contra ela. Todavia, só podem aceitar reformas e mudanças que nos tragam mais para perto da Palavra de Deus. Acho que o ponto central aqui é que os reformados crêem que a verdade não muda e que as reformas que a Igreja deve buscar almejam sempre um melhor entendimento da verdade e uma aplicação relevante dela para seus dias. Há quem acredite que a verdade muda, e quando falam em ecclesia reformanda, estão pensando em mudanças inclusive das antigas verdades professadas pelos reformadores. Para eles, nenhuma delas é intocável. Todas estão sujeitas a reinterpretações tão radicais a ponto de se tornarem totalmente outras. É aqui que está a principal diferença entre os reformados e os reformandos ou reformistas.

[post originalmente publicado em 2006 aqui neste blog]

Autor: Augustus Nicodemus Lopes
Fonte: [ O Tempora, O Mores ]

A Nova REFORMA Protestante !!!

Matéria publicada na Revista Época
Rani Rosique não é apóstolo, bispo, presbítero nem pastor. É apenas um cirurgião geral de 49 anos em Ariquemes, cidade de 80 mil habitantes do interior de Rondônia. No alpendre da casa de uma amiga professora, ele se prepara para falar. Cercado por conhecidos, vizinhos e parentes da anfitriã, por 15 minutos Rosique conversa sobre o salmo primeiro (“Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios”). Depois, o grupo de umas 15 pessoas ora pela última vez – como já havia orado e cantado por cerca de meia hora antes – e então parte para o tradicional chá com bolachas, regado a conversa animada e íntima.

Desde que se converteu ao cristianismo evangélico, durante uma aula de inglês em Goiânia em 1969, Rosique pratica sua fé assim, em pequenos grupos de oração, comunhão e estudo da Bíblia. Com o passar do tempo, esses grupos cresceram e se multiplicaram. Hoje, são 262 espalhados por Ariquemes, reunindo cerca de 2.500 pessoas, organizadas por 11 “supervisores”, Rosique entre eles. São professores, médicos, enfermeiros, pecuaristas, nutricionistas, com uma única característica comum: são crentes mais experientes.

Apesar de jamais ter participado de uma igreja nos moldes tradicionais, Rosique é hoje uma referência entre líderes religiosos de todo o Brasil, mesmo os mais tradicionais. Recebe convites para falar sobre sua visão descomplicada de comunidade cristã, vindos de igrejas que há 20 anos não lhe responderiam um telefonema. Ele pode ser visto como um “símbolo” do período de transição que a igreja evangélica brasileira atravessa. Um tempo em que ritos, doutrinas, tradições, dogmas, jargões e hierarquias estão sob profundo processo de revisão, apontando para uma relação com o Divino muito diferente daquela divulgada nos horários pagos da TV.

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Irani Rosique (crédito: Revista Época)
Estima-se que haja cerca de 46 milhões de evangélicos no Brasil. Seu crescimento foi seis vezes maior do que a população total desde 1960, quando havia menos de 3 milhões de fiéis espalhados principalmente entre as igrejas conhecidas como históricas (batistas, luteranos, presbiterianos e metodistas). Na década de 1960, a hegemonia passou para as mãos dos pentecostais, que davam ênfase em curas e milagres nos cultos de igrejas como Assembleia de Deus, Congregação Cristã no Brasil e O Brasil Para Cristo. A grande explosão numérica evangélica deu-se na década de 1980, com o surgimento das denominações neopentecostais, como a Igreja Universal do Reino de Deus e a Renascer. Elas tiraram do pentecostalismo a rigidez de costumes e a ele adicionaram a “teologia da prosperidade”. Há quem aposte que até 2020 metade dos brasileiros professará à fé evangélica.

Dentro do próprio meio, levantam-se vozes críticas a esse crescimento. Segundo elas, esse modelo de igreja, que prospera em meio a acusações de evasão de divisas, tráfico de armas e formação de quadrilha, tem sido mais influenciado pela sociedade de consumo que pelos ensinamentos da Bíblia. “O movimento evangélico está visceralmente em colapso”, afirma o pastor Ricardo Gondim, da igreja Betesda, autor de livros como Eu creio, mas tenho dúvidas: a graça de Deus e nossas frágeis certezas (Editora Ultimato). “Estamos vivendo um momento de mudança de paradigmas. Ainda não temos as respostas, mas as inquietações estão postas, talvez para ser respondidas somente no futuro.”

Nos Estados Unidos, a reinvenção da igreja evangélica está em curso há tempos. A igreja Willow Creek de Chicago trabalhava sob o mote de ser “uma igreja para quem não gosta de igreja” desde o início dos anos 1970. Em São Paulo, 20 anos depois, o pastor Ed René Kivitz adotou o lema para sua Igreja Batista, no bairro da Água Branca – e a ele adicionou o complemento “e uma igreja para pessoas de quem a igreja não costuma gostar”. Kivitz é atualmente um dos mais discutidos pensadores do movimento protestante no Brasil e um dos principais críticos da“religiosidade institucionalizada”. Durante seu pronunciamento num evento para líderes religiosos no final de 2009, Kivitz afirmou: “Esta igreja que está na mídia está morrendo pela boca, então que morra. Meu compromisso é com a multidão agonizante, e não com esta igreja evangélica brasileira.”

Essa espécie de “nova reforma protestante” não é um movimento coordenado ou orquestrado por alguma liderança central. Ela é resultado de manifestações espontâneas, que mantêm a diversidade entre as várias diferenças teológicas, culturais e denominacionais de seus ideólogos. Mas alguns pontos são comuns. O maior deles é a busca pelo papel reservado à religião cristã no mundo atual. Um desafio não muito diferente do que se impõe a bancos, escolas, sistemas políticos e todas as instituições que vieram da modernidade com a credibilidade arranhada. “As instituições estão todas sub judice”, diz o teólogo Ricardo Quadros Gouveia, professor da Universidade Mackenzie de São Paulo e pastor da Igreja Presbiteriana do Bairro do Limão. “Ninguém tem dúvida de que espiritualidade é uma coisa boa ou que educação é uma coisa boa, mas as instituições que as representam estão sob suspeita.”

Uma das saídas propostas por esses pensadores é despir tanto quanto possível os ensinamentos cristãos de todo aparato institucional. Segundo eles, a igreja protestante (ao menos sua face mais espalhafatosa e conhecida) chegou ao novo milênio tão encharcada de dogmas, tradicionalismos, corrupção e misticismo quanto a Igreja Católica que Martinho Lutero tentou reformar no século XVI. “Acabamos nos perdendo no linguajar ‘evangeliquês’, no moralismo, no formalismo, e deixamos de oferecer respostas para nossa sociedade”, afirma o pastor Miguel Uchôa, da Paróquia Anglicana Espírito Santo, em Jaboatão dos Guararapes, Grande Recife. “É difícil para qualquer pessoa esclarecida conviver com tanto formalismo e tão pouco conteúdo.”

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Miguel Uchôa e bispo Robinson Cavalcanti,
da Diocese do Recife (crédito: Revista Época)
Uchôa lidera a maior comunidade anglicana da América Latina. Seu trabalho é reconhecido por toda a cúpula da denominação como um dos mais dinâmicos do país. Ele é um dos grandes entusiastas do movimento inglês Fresh Expressions, cujo mote é “uma igreja mutante para um mundo mutante”. Seu trabalho é orientar grupos cristãos que se reúnem em cafés, museus, praias ou pistas de skate. De maneira genérica, esses grupos são chamados de “igreja emergente” desde o final da década de 1990. “O importante não é a forma”, afirma Uchôa. “É buscar a essência da espiritualidade cristã, que acabou diluída ao longo dos anos, porque as formas e hierarquias passaram a ser usadas para manipular pessoas. É contra isso que estamos nos levantando.”

No meio dessa busca pela essência da fé cristã, muitas das práticas e discursos que eram característica dos evangélicos começaram a ser considerados dispensáveis. Às vezes, até condenáveis (leia o quadro na última pág.). Em Campinas, no interior de São Paulo, ocorre uma das experiências mais interessantes de recriação de estruturas entre as denominações históricas. A Comunidade Presbiteriana Chácara Primavera não tem um templo. Seus frequentadores se reúnem em dois salões anexos a grandes condomínios da cidade e em casas ao longo da semana. Aboliram a entrega de dízimos e as ofertas da liturgia. Os interessados em contribuir devem procurar a secretaria e fazê-lo por depósito bancário – e esperar em casa um relatório de gastos. Os sermões são chamados, apropriadamente, de “palestras” e são ministrados com recursos multimídias por um palestrante sentado em um banquinho atrás de um MacBook. A meditação bíblica dominical é comumente ilustrada por uma crônica de Luis Fernando Verissimo ou uma música de Chico Buarque de Hollanda.

“Os seminários teológicos formam ministros para um Brasil rural em que os trabalhos são de carteira assinada, as famílias são papai, mamãe, filhinhos e os pastores são pessoas respeitadas”, diz Ricardo Agreste, pastor da Comunidade e autor dos livros Igreja? Tô fora e A jornada (ambos lançados pela Editora Socep). “O risco disso é passar a vida oferecendo respostas a perguntas que ninguém mais nos faz. Há muita gente séria, claro, dizendo verdades bíblicas, mas presas a um formato ultrapassado.”

Outro ponto em comum entre esses questionadores é o rompimento declarado com a face mais visível dos protestantes brasileiros: os neopentecostais. “É lisonjeador saber que atraímos gente com formação universitária e que nos consideram ‘pensadores’”, afirma Ricardo Agreste. “O grande problema dos evangélicos brasileiros não é de inteligência, é de ética e honestidade.” Segundo ele, a velha discussão doutrinária foi substituída por outra. “Não é mais uma questão de pensar de formas diferentes a espiritualidade cristã”, diz. “Trata-se de entender que há gente usando vocabulário e elementos de prática cristã para ganhar dinheiro e manipular pessoas.”

Esse rompimento da cordialidade entre os evangélicos históricos e os neopentecostais veio a público na forma de livros e artigos. A jornalista (evangélica) Marília Camargo César publicou no final de 2008 o livro Feridos em nome de Deus (Editora Mundo Cristão), sobre fiéis decepcionados com a religião por causa de abusos de pastores. O teólogo Augustus Nicodemus Lopes, chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie, publicou O que estão fazendo com a Igreja: ascensão e queda do movimento evangélico brasileiro (Mundo Cristão), retrato desolador de uma geração cindida entre o liberalismo teológico, os truques de marketing, o culto à personalidade e o esquerdismo político. Em um recente artigo, o presidente do Centro Apologético Cristão de Pesquisas, João Flavio Martinez, definiu como “macumba para evangélico” as práticas místicas da Igreja Universal do Reino de Deus, como banho de descarrego e sabonete com extrato de arruda.

Tais críticas, até pouco tempo atrás, ficavam restritas aos bastidores teológicos e às discussões internas nas igrejas. Livros mais antigos – como Supercrentes, Evangélicos em crise, Como ser cristão sem ser religioso e O evangelho maltrapilho (todos da editora Mundo Cristão) – eram experiências isoladas, às vezes recebidos pelos fiéis como desagregadores. “Parece que a sociedade se fartou de tanto escândalo e passou a dar ouvidos a quem já levantava essas questões há tempos”, diz Mark Carpenter, diretor-geral da Mundo Cristão.

O pastor Kivitz – que publicou pela Mundo Cristão seus livros Outra espiritualidade e O livro mais mal-humorado da Bíblia – distingue essa crítica interna daquela feita pela mídia tradicional aos neopentecostais “A mídia trata os evangélicos como um fenômeno social e cultural. Para fazer uma crítica assim, basta ter um pouco de bom-senso. Essa crítica o (programa) CQC já faz, porque essa igreja é mesmo um escracho”, diz ele. “Eu faço uma crítica diferente, visceral, passional, porque eu sou evangélico. E não sou isso que está na televisão, nas páginas policiais dos jornais. A gente fica sem dormir, a gente sofre e chora esse fenômeno religioso que pretende ser rotulado de cristianismo.”

A necessidade de se distinguir dos neopentecostais também levou essas igrejas a reconsiderar uma série de práticas e até seu vocabulário. Pastores e “leigos” passam a ocupar o mesmo nível hierárquico, e não há espaço para “ungidos” em especial. Grandes e imponentes catedrais e “cultos shows” dão lugar a reuniões informais, em pequenos grupos, nas casas, onde os líderes podem ser questionados, e as relações são mais próximas. O vocabulário herdado da teologia triunfalista do Antigo Testamento (vitória, vingança, peleja, guerra, maldição) é reconsiderado. Para superar o desgaste dos termos, algumas igrejas preferem ser chamadas de “comunidades”, os cultos são anunciados como “reuniões” ou “celebrações” e até a palavra “evangélico” tem sido preterida em favor de “cristão” – o termo mais radical. Nem todo mundo concorda, evidentemente. “Eles (os neopentecostais) é que não deveriam ser chamados de evangélicos”, afirma o bispo anglicano Robinson Cavalcanti, da Diocese do Recife. “Eles é que não têm laços históricos, teológicos ou éticos com os evangélicos.”

Um dos maiores estudiosos do fenômeno evangélico no Brasil, o sociólogo Ricardo Mariano (PUC-RS), vê como natural o embate entre neopentecostais e as lideranças de igrejas históricas. Ele lembra que, desde o final da década de 1980, quando o neopentecostalismo ganhou força no Brasil, os líderes das igrejas históricas se levantaram para desqualificar o movimento. “O problema é que não há nenhum órgão que regule ou fale em nome de todos os evangélicos, então ninguém tem autoridade para dizer o que é uma legítima igreja evangélica”, afirma.

Procurado por ÉPOCA, Geraldo Tenuta, o Bispo Gê, presidente nacional da Igreja Renascer em Cristo, preferiu não entrar em discussões. “Jesus nos ensinou a não irmos contra aqueles que pregam o evangelho, a despeito de suas atitudes”, diz ele. “Desde o início, éramos acusados disto ou daquilo, primeiro porque admitíamos rock no altar, depois porque não tínhamos usos e costumes. Isso não nos preocupa. O que não é de Deus vai desaparecer, e não será por obra dos julgamentos.” A Igreja Universal do Reino de Deus – que, na terceira semana de julho, anunciou a construção de uma “réplica do Templo de Salomão” em São Paulo, com “pedras trazidas de Israel” e “maior do que a Catedral da Sé” – também foi procurada por ÉPOCA para comentar os movimentos emergentes e as críticas dirigidas à igreja. Por meio de sua assessoria, o bispo Edir Macedo enviou um e-mail com as palavras: “Sem resposta”.

O sociólogo Ricardo Mariano, autor do livro Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil (Editora Loyola), oferece uma explicação pragmática para a ruptura proposta pelo novo discurso evangélico. Ateu, ele afirma que o objetivo é a busca por uma certa elite intelectual, um público mais bem informado, universitário, mais culto que os telespectadores que enchem as igrejas populares. “Vivemos uma época em que o paciente pesquisa na internet antes de ir ao consultório e é capaz de discutir com o médico, questionar o professor”, diz. “Num ambiente assim, não tem como o pastor proibir nada. Ele joga para a consciência do fiel.”

A maior parte da movimentação crítica no meio evangélico acontece nas grandes cidades. O próprio pastor Kivitz afirma que “talvez não agisse da mesma forma se estivesse servindo alguma comunidade em um rincão do interior” e que o diálogo livre entre púlpito e auditório passa, necessariamente, por uma identificação cultural. “As pessoas não querem dogmas, elas querem honestidade”, diz ele. “As dúvidas delas são as minhas dúvidas. Minha postura é, juntos, buscarmos respostas satisfatórias a nossas inquietações.”

Por isso mesmo, Ricardo Mariano não vê comparação entre o apelo das novas igrejas protestantes e das neopentecostais. “O destino desses líderes será ‘pescar no aquário’, atraindo insatisfeitos vindos de outras igrejas, ou continuar falando para meia dúzia de pessoas”, diz ele. De acordo com o presbiteriano Ricardo Gouveia, “não há, ou não deveria haver, preocupação mercadológica” entre as igrejas históricas. “Não se trata de um produto a oferecer, que precise ocupar espaço no mercado”, diz ele. “Nossa preocupação é simplesmente anunciar o evangelho, e não tentar ‘melhorá-lo’ ou torná-lo mais interessante ou vendável.”

O advento da internet foi fundamental para pastores, seminaristas, músicos, líderes religiosos e leigos decidirem criar seus próprios sites, portais, comunidades e blogs. Um vídeo transmitido pela Igreja Universal em Portugal divulgando o Contrato da fé – um “documento”, “autenticado” pelos pastores, prometendo ao fiel a possibilidade de se “associar com Deus e ter de Deus os benefícios” – propagou-se pela rede, angariando toda sorte de comentários. Outro vídeo, em que o pregador americano Moris Cerullo, no programa do pastor Silas Malafaia, prometia uma “unção financeira dos últimos dias” em troca de quem “semear” um “compromisso” de R$ 900 também bombou na rede. Uma cópia da sentença do juiz federal Fausto De Sanctis condenando os líderes da Renascer Estevam e Sônia Hernandes por evasão de divisas circulou no final de 2009. De Sanctis afirmava que o casal “não se lastreia na preservação de valores de ética ou correção, apesar de professarem o evangelho”. “Vergonha alheia em doses quase insuportáveis” foi o comentário mais ameno entre os internautas.

Sites como Pavablog , Veshame Gospel , Irmãos.com , Púlpito Cristão , Caiofabio.net ou Cristianismo Criativo fazem circular vídeos, palestras e sermões e debatem doutrinas e notícias com alto nível de ousadia e autocrítica. De um grupo de blogueiros paulistanos, surgiu a ideia da Marcha pela ética, um protesto que ocorre há dois anos dentro da Marcha para Jesus (evento organizado pela Renascer). Vestidos de preto, jovens carregam faixas com textos bíblicos e frases como “O $how tem que parar” e “Jesus não está aqui, ele está nas favelas”.

A maior parte desses blogueiros trafega entre assuntos tão diversos como teologia, política, televisão, cinema e música popular. O trânsito entre o “secular” e o “sagrado” é uma das características mais fortes desses novos evangélicos. “A espiritualidade cristã sempre teve a missão de resgatar a pessoa e fazê-la interagir e transformar a sociedade”, diz Ricardo Agreste. “Rompemos o ostracismo da igreja histórica tradicional, entramos em diálogo com a cultura e com os ícones e pensamento dessa cultura e estamos refletindo sobre tudo isso.”

Em São Paulo, o capelão Valter Ravara criou o Instituto Gênesis 1.28, uma organização que ministra cursos de conscientização ambiental em igrejas, escolas e centros comunitários. “É a proposta de Jesus, materializar o amor ao próximo no dia a dia”, afirma Ravara. “O homem sem Deus joga papel no chão? O cristão não deve jogar.” Ravara publicou em 2008 a Bíblia verde, com laminação biodegradável, papel de reflorestamento e encarte com textos sobre sustentabilidade.

A então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, escreveu o prefácio da Bíblia verde. Sua candidatura à Presidência da República angariou simpatia de blogueiros e tuiteiros, mas não o apoio formal da Assembleia de Deus, denominação a que ela pertence. A separação entre política e religião pregada por Marina é vista como um marco da nova inserção social evangélica. O vereador paulistano e evangélico Carlos Bezerra Jr. afirma que o dever do político cristão é “expressar o Reino de Deus” dentro da política. “É o oposto do que fazem as bancadas evangélicas no Congresso, que existem para conseguir facilidades para sua denominação e sustentar impérios eclesiásticos”, diz ele.

O raciocínio antissectário se espalhou para a música. Nomes como Palavrantiga, Crombie, Tanlan, Eduardo Mano, Helvio Sodré e Lucas Souza se definem apenas como “música feita por cristãos”, não mais como “gospel”. Eles rompem os limites entre os mercados evangélico e pop. O antissectarismo torna os evangélicos mais sensíveis a ações sociais, das parcerias com ONGs até uma comunidade funcionando em plena Cracolândia, no centro de São Paulo. “No fundo, nossa proposta é a mesma dos reformadores”, diz o presbiteriano Ricardo Gouveia. “É perceber o cristianismo como algo feito para viver na vida cotidiana, no nosso trabalho, na nossa cidadania, no nosso comportamento ético, e não dentro das quatro paredes de um templo.”

A teologia chama de “cristocêntrico” o movimento empreendido por esses crentes que tentam tirar o cristianismo das mãos da estrutura da igreja – visão conhecida como “eclesiocêntrica” – e devolvê-lo para a imaterialidade das coisas do espírito. É uma versão brasileiramente mais modesta do que a Igreja Católica viveu nos tempos da Reforma Protestante. Desta vez, porém, dirigida para a própria igreja protestante. Depois de tantos desvios, vozes internas levantaram-se para propor uma nova forma de enxergar o mundo. E, como efeito, de ser enxergadas por ele. Nas palavras do pastor Kivitz: “Marx e Freud nos convenceram de que, se alguém tem fé, só pode ser um estúpido infantil que espera que um Papai do Céu possa lhe suprir as carências. Mas hoje gostaríamos de dizer que o cristianismo tem, sim, espaço para contribuir com a construção de uma alternativa para a civilização que está aí. Uma sociedade que todo mundo espera, não apenas aqueles que buscam uma experiência religiosa”.

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Comentário de Leonardo Gonçalves:

O leitor do Púlpito Cristão sabe que não endossamos, sob nenhuma hipótese, o open theism (ou teologia relacional – pintam o poço, mas a água é a mesma) que transparece nos textos do Ricardo Gondim e de Ed René Kvitz, ao mesmo tempo que nos identificamos com Paulo Romeiro, Augustus Nicodemus e Ricardo Agreste, bem como apoiamos a marcha pela ética evangélica, realizada por Paulo e Vera nos dois últimos anos. Somos conservadores em nossa teologia, embora amplamente abertos ao debate cultural e novas perspectivas missiológicas.

Definitivamente não somos um grupo de teólogos liberais querendo modificar o cristianismo; somos cristãos apaixonados que buscam viver e ensinar a essência perdida do evangelho de Cristo. No entanto, a presente matéria é extremamente importante, pois nela fez-se distinção entre a liderança corrupta, mensaleira e vergonhosa, e crentes sinceros – ainda que imperfeitos, demonstrando que nem todo mundo é farinha do mesmo saco-gospel.

Espero (e oro) para que cada vez mais pessoas possam reconhecer essas diferenças, que mais gente entenda que existem pastores honrados, comunidades sérias e crentes pensantes – não intelectualóides, mas pensantes – que estão seriamente preocupados com os rumos da igreja evangélica brasileira.

Púlpito Cristão (Por Ricardo Alexandre)

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Semana passada (*) eu colaborei com a revista Época, edição nacional, com a reportagem de capa “A nova reforma protestante”. Foram nove meses para apurar, escrever, pautar fotos e editar sob condições de trabalho que raramente temos nessa profissão. Em termos de repercussão e alcance, talvez seja o trabalho mais importantes nos meus 17 anos de carreira. E também o que envolveu a maior quantidade de sentimentos e convicções pessoais e profissionais.

Evidentemente, apesar do espaço ocupado (nove páginas), a reportagem era só uma introdução a um tema sem fim, a saber: há uma movimentação entre igrejas e movimentos evangélicos que dialoga com o público mais esclarecido leitor da Época e que não só não se parece com o tipo de “gospel” que ele vê nas páginas policiais como o rechaça tanto quanto o nosso leitor. Que esse movimento, no fundo, é mais uma tentativa de recuperar a “igreja” a qual Jesus Cristo se referia em Mateus 16:18, daí o título – “nova reforma protestante”, sem pretensões de cunhar nenhum termo realmente. Para quem ainda não leu a reportagem, o link oficial é este aqui, mas um monte de gente reproduziu o texto na íntegra, como o Pavablog.

Fiquei muito feliz e grato a Deus pela forma com que o espírito da reportagem foi bem compreendido. A própria página de comentários do site da Época se transformou em palco de discussões muito lúcidas e inteligentes. Confira aqui.

E achei muito bacana que o texto tenha dado origem a discussões importantes em outros fóruns. Abaixo, peço licença para fazer uma pequena lista dos que mais me chamaram a atenção:

Augustus Nicodemus Lopes, a quem respeito e admiro enormemente, usou da reportagem para aprofundar a discussão sobre o liberalismo teológico em seu blog O Tempora! O Mores!

Paulo Siqueira, do site As Pedras Clamam, fez uma excelente prospecção do texto à luz do pentecostalismo. Ele toca em um ponto para o qual eu nunca havia atentado: a falta de uma teologia pentecostal. Seu texto está aqui.

Quem se interessa por design e jornalismo, eu recomendaria este post do blog Faz Caber explicando como a capa da revista foi concebida.

Uma das críticas mais comuns feitos pelos irmãos pentecostais é que eu teria pegado pesado demais em definir a visão neopentecostal do dízimo. No texto, eu disse que o discurso de igrejas adeptas da teologia da prosperidade é que a fidelidade do crente é usada pelo fiel na esperança de constranger Deus a resolver seus problemas pessoais. “Ninguém pode constranger a Deus!”, várias pessoas me escreveram dizendo. Bem, não fui eu quem disse isso, foi o Edir Macedo. Veja com seus próprios olhos: “Se nós fizermos nossa parte num pacto com Deus, passamos a ter o direito de cobrar dEle Suas Promessas. E Ele, por sua vez, fica obrigado a cumprir a parte dEle.”

O bispo anglicano dom Robinson Cavalcanti escreveu uma carta muito interessante dizendo-se “deslocado” do contexto da reportagem. Ele tem razão: a versão original do texto, muito maior, tinha outras aspas do bispo em contextos mais adequados, como o papel da igreja protestante na política brasileira. Na edição final, ele acabou entrando em um contexto que pode sugerir que ele, que não tem nada a ver com todo aquele papo de “desinstitucionalização” estivesse contrariando seus princípios. Ele escreveu um comunicado no site da sua Diocese e nós o publicamos na última seção de Cartas da revista.

Evidentemente, como bem notou o Caio Fábio, o texto não defende em nenhum momento o fim das denominações tradicionais ou a destruição das igrejas instituídas. Minha intenção era mostrar que alguns movimentos mais alternativos estão, pela primeira vez, sendo analisados com seriedade pelas igrejas históricas e muitas de suas lições estão sendo debatidas e, eventualmente, assimiladas. O pastor Miguel Uchoa, também da Diocese do Recife da Igreja Anglicana publicou um post muito interessante e equilibrado sobre isso. [Em grande parte, o texto de Uchôa é a reproduçao de um artigo deste blog – Nota do editor]

Bem, e falando em Caio Fábio, no vídeo abaixo, o pastor diz que a reportagem não tem nada de novo e mostra “todo o seu carinho” aos pastores entrevistados por mim. Você pode tirar suas próprias conclusões, mas não pode deixar comentários na página do Youtube:

No dia seguinte, ele postou novo vídeo, talvez para se fazer entender melhor. Chamou todo mundo de “bundão” outra vez:

Por último, gostaria de fazer um esclarecimento e uma correção. O esclarecimento é que, ao contrário do que o Caio sugere, eu não congrego em nenhuma das comunidades citadas na reportagem e nunca havia sequer conversado com nenhum dos pastores antes de começar a reportagem. Muito menos recebi a pauta por encomenda. Foi uma idéia minha que eu apresentei à Época no final do ano passado e que assumi com a condição de não ter data para entregar – e a própria pauta mudou algumas vezes durante a apuração, como deve ser durante um trabalho de apuração honesto. Desculpe se isso soa arrogante, mas eu jamais faria um trabalho nas condições de isenção e ética discutíveis como as que o reverendo sugere.

A correção que eu gostaria de fazer já foi publicada na edição 639 que está nas bancas, mas vale aprofundar aqui: há um erro de informação histórica naquele quadro “Redenção e rupturas” que tenta explicar graficamente a história e os principais grupos cristãos. Fui frustrado na tentativa de sintetizar a frase original, que falava da conversão de Constantino e da oficialização do cristianismo como religião oficial do Império Romano, feita por Teodósio em 380 dC. O que Constantino fez, convertido ao cristianismo do jeito dele, foi garantir a liberdade religiosa e revogar o culto imperial como religião oficial. Evidentemente, ele lançou as bases de prática cristã que seriam oficializadas algumas décadas depois, mas a informação editada estava mesmo errada. Fui cortando e cortando até caber no lay-out e o texto ficou com o nome de um e a data do outro. Milhões de perdões e obrigado pelas dezenas de pessoas que escreveram notando o vacilo.

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Fonte: Causa Própria. Divulgação: Púlpito Cristão

Comentário de Leonardo Gonçalves:

Conforme já expressei no comentário que fiz à matéria por ocasião da sua publicação, eu mesmo não endosso, sob nenhuma hipótese, a teologia liberal de alguns dos caras citados na matéria, nem estou tentando destruir nenhuma instituição. Definitivamente não quero nem por um segundo modificar o cristianismo; apenas desejo viver e ensinar a essência perdida do evangelho de Cristo.

A matéria de Ricardo Alexandre na revista Época foi singular ao fazer distinção entre a liderança corrupta, mensaleira e vergonhosa, e crentes sinceros – ainda que imperfeitos, demonstrando que nem todo mundo é farinha do mesmo saco-gospel. Por isso, mesmo havendo citado liberais, neo-ortodoxos e conservadores como se fossem jogadores de um mesmo time (não intencionalmente, talvez, mas foi o que acabou parecendo), esta foi uma das poucas matérias que tratou não retratou os evangélicos de modo estereotipado. Mais uma vez, parabéns ao Alexandre e à revista.

Quanto ao reverendo Caio Fábio e seus pronunciamentos videografados, penso que ele definitivamente estava “com a bunda na boca”, e isso de um modo assustadoramente literal (risos). Concordo plenamente com Caio quando ele diz que a igreja evangélica precisa de regeneração, mas não entendo esta obsessão por “desinstitucionalizar” o cristianismo, como se as instituiçoes fossem o demônio. Concordo menos ainda quando o caminho da desinstitucionalização passa pela criação de uma nova instituição (como o Caminho da Graça), o que denota pouco bom senso.

Precisamos continuar repensando o cristianismo, não em suas doutrinas centrais, mas buscando melhores formas de transmití-las com fidelidade, e confrontando todo despotismo, simonismos neopentecostais e a avareza da liderança evangélica, mas devemos ter muito cuidado enquanto fazemos isso, pois se esta “nova reforma” perder o rumo agora, será muito difícil reencontrar os trilhos lá na frente.

(*) A reportagem saiu na Época, dia 9 de agosto de 2010