Parábola da Panela Fervente


(Ez 24:1-4)

 Na última profecia dessa seção de seu livro, Ezequiel relaciona a mis­são que recebeu das mãos de Deus aos acontecimentos de sua época. No dia exato em que Nabucodonosor investiu contra Jerusalém, o fato foi revelado a Ezequiel na Caldéia, o qual também recebeu ordens de tor­nar manifesto, por meio da Parábo­la da panela fervente, ser chegada a hora da condenação de Israel. Temos aqui uma parábola específica; não uma ação parabólica, mas apenas uma parábola proferida ao povo em linguagem que denotava ação.

Jerusalém já fora apresentada como uma panela (Ez 11:3), num provérbio acerca da autoconfiança do povo, que seguia o próprio espírito e não o de Deus: “esta cidade é a pa­nela, e nós a carne”. A linguagem jactanciosa de Israel estava a ponto de se concretizar na história e na experiência, mas com um sentido diferente do pretendido pelo povo. Por ser bem fortificada, a cidade foi comparada a uma panela de ferro, e os habitantes sentiam-se seguros dos ataques externos, assim como a car­ne dentro da panela está defendida contra a ação do fogo. Infelizmente, no entanto, o povo não acreditaria em quanto haveriam de ser fervidos! Ezequiel está dizendo em sua pará­bola, para todos os efeitos, “o teu provérbio se mostrará terrivelmen­te verdadeiro, mas não no sentido que pretendes. Assim, longe de be­neficiar-se com uma defesa contra o fogo tão potente quanto à da panela de ferro, a cidade será como uma pa­nela sobre o fogo, e o povo como mui­tos pedaços de carne submetidos ao calor intenso” (Jr 50:13).

Então o profeta aplica a Parábola da panela fervente com toda a fran­queza, declarando que Jerusalém era de fato uma panela. Ele recorre à fi­gura da segurança utilizada pelo pró­prio povo e a emprega contra ele, usando-a “orno símbolo de juízo, não de segurança. Há precisão de lingua­gem na referência à destruição da ci­dade e de seus moradores.

todos os bons pedaços […] os­sos escolhidos… Aqui o profeta se refere aos mais distintos do povo. Não eram ossos comuns, mas “esco­lhidos”, dentro da panela com a car­ne presa a eles.

debaixo da panela […] os seus ossos… São ossos sem carne, usados como combustível. São os mais po­bres, que sofrem primeiro e deixam de sofrer antes dos ricos, que supor­tavam o que corresponderia ao fogo baixo no processo de fervura.

faze-a ferver bem […] ossos […] ferrugem… A palavra traduzida aqui por ferrugem ocorre quatro vezes no capítulo, e em mais nenhum outro lugar. Talvez queira mostrar que Jerusalém era como uma panela cor­roída e digna de destruição. Então essa ferrugem prejudicial simboliza a impregnante perversidade do povo. Não eram apenas os pobres da cida­de, pois tanto ricos quanto pobres haviam chafurdado na imundície do pecado.

Tira dela a carne pedaço a peda­ço… Tanto o refugo quanto o seleto estavam condenados à destruição; o conteúdo da panela, a carne, seria retirado no processo de condenação. A cidade e o povo não seriam des­truídos simultaneamente, mas numa seqüência de ataques. Todas as classes participariam da mesma sina, mas “pedaço a pedaço”. Sofre­riam os ardentes horrores do cerco, mas experimentariam algo muito pior quando fossem arrancados da cidade por seus conquistadores.

não caia sorte sobre ela… para determinar quem será salvo da con­denação; todos foram igualmente punidos, independentemente da classe, idade ou sexo.

sangue […] sobre uma penha… O povo haveria de ser desmascara­do, e a condenação seria patente a todos. “Sangue é a consumação de todos os pecados e pressupõe todas as outras formas de culpa. Deus pro­positadamente deixou o povo derra­mar, para vergonha deles, o sangue sobre a penha descalvada, a fim de que esta clame mais enfática e aber­tamente ao alto por vingança, e para que a relação entre a culpa e o juízo se torne mais palpável. O sangue de Abel”, continua Jamieson, “embora já recebido pela terra, ‘clama a mim [Deus]’ (Gn 4:10,11) —quanto mais o sangue vergonhosamente exposto sobre a penha descalvada.”

pus o seu sangue… Israel rece­beria na mesma moeda. Derraman­do sangue em abundância, teria o próprio sangue em fartura derrama­do (Mt 7:2).

Amontoa a lenha, acende o fogo… Ilustra os materiais hostis usados na destruição da cidade.

engrossa o caldo… Que toque irônico! Os sitiadores haveriam de deleitar-se no sofrimento de suas ví­timas, como se sentassem para uma saborosa refeição.

brilhe o seu cobre… Não era suficiente o conteúdo da panela ser destruído;    a    própria    panela, infectada pela ferrugem, deveria ser destruída. Seus focos de ferrugem não cederam à purificação (Ez 24:12,13). A própria casa infectada com lepra deveria ser consumida (Lv 14:34,35).

cansou-me com suas mentiras… A despeito dos esforços de Deus por purificar seu povo, a sua oferta de misericórdia não foi aceita. Assim, teve de permitir que lhes sobrevies-sem os juízos pela iniqüidade delibe­rada. Por meio dos profetas e da lei, com suas promessas, privilégios e ameaças, Deus procurara atar o povo a si, mas todas as intervenções mise­ricordiosas de nada aproveitaram. As­sim, foram abandonados à sua sorte, e sofreriam as últimas conseqüênci­as. Paciente e longânimo, Deus ago­ra vem condenar e não pode recuar, poupar nem arrepender-se (24:14).

 Herbert Lockyer

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