Parábola do Tijolo Entalhado


(Ez 4:1-17)

Todo esse capítulo está repleto de ações simbólicas que relatam a seve­ridade do cerco de Jerusalém que es­tava por acontecer. Tijolos com enta­lhes, em geral medindo 61 cm de com­primento por 30 cm de largura, sobe­javam nas ruínas da Babilônia. O barro macio e, portanto, maleável transformava-se em tijolos em que se faziam inscrições cuneiformes. De­pois, com a secagem ao sol, o objeto ou a inscrição esboçada no tijolo ali se conservava para sempre. Muitos exemplos dessa arte babilônica po­dem ser vistos em vários museus na­cionais pelo mundo afora. Se Ezequiel de fato desenhou Jerusalém no tijolo ainda molhado, retratando o desen­rolar do cerco, ou se isso diz respeito a um ato simbólico, é um assunto em que as autoridades divergem. O mes­mo se pode dizer de todas as ações mencionadas nessa visão parabólica que trata da difícil situação em que Jerusalém logo se veria.

Instando o profeta a edificar uma fortificação contra o cerco, Deus ins­truiu seu mensageiro a tomar uma sertã de ferro e pô-la como parede entre si e a cidade. Kiel, em seu es­tudo sobre Ezequiel, diz que “a sertã de ferro, posta como parede, não re­presenta nem os muros da cidade, nem os baluartes dos inimigos, uma vez que isso já está representado pelo tijolo; mas significa um firme e inexpugnável muro de separação que o profeta, como mensageiro e representante de Deus, levantou entre si e a cidade sitiada”. Ezequiel, então, representando a Deus, mos­tra que “a parede de separação en­tre ele e o povo era como que de fer­ro, e o exército da C aldeia, que esta­va por atacar —sendo o instrumen­to de separação entre eles e Deus—, era indestrutível”.

Depois temos a outra ação para­bólica de Ezequiel, em que se deita sobre o seu lado esquerdo por 390 dias e sobre o direito por 40 dias, simbolizando com isso o carregar da iniqüidade do número correspon­dente de anos e profetizando con­tra Jerusalém durante todo esse período. “Era um processo longo e maçante levar a iniqüidade da casa do Senhor, no sentido de confessá-la, assim revelando o motivo do cer­co e da condenação.” Levar a mal­dade de alguém (Nm 14:34) é ex­pressão bíblica que denota incorrer na punição devida ao pecado. Dei-tando-se sobre o seu lado esquerdo, o profeta mostrou como o povo so­freria o castigo divino por seus pe­cados. A importância do lado esquer­do está no “hábito, no Oriente, de olhar para o Leste a fim de indicar as direções na bússola; o Reino do Norte estava, portanto, à esquerda”. Por isso “a casa de Israel” é diferen­ciada da “casa de Judá”, que corresponde ao “lado direito” (4:6), o mais honroso.

Outras ações simbólicas eram dirigir o rosto para o cerco de Jerusa­lém e ter o braço descoberto. A expres­são hebraica traduzida por Dirigirás o teu rosto (também traduzida em ou­tras passagens por voltar-se para, pôr a face contra, etc.) é comum nas Es­crituras no sentido de firmeza de propósito (Lv 26:17). Sendo expressão favorita de Ezequiel (15:7; 20:46 etc), implica firmeza de propósito a ser apli­cada “quanto ao cerco de Jerusalém”. Não haveria abrandamento; a conde­nação divina sobreviria à cidade con­forme decretada.

“… com o teu braço descoberto”. Essa ação faria uma vivida impres­são. As longas roupas orientais, que em geral cobriam os braços, impedi­am que se agisse com rapidez (Is 52:10). Então, adapatando as pala­vras às suas ações, Ezequiel profeti­zou contra a cidade. Quanto às “cor­das” sobre o profeta, impedindo-o de virar-se da esquerda para a direita até o fim do cerco, o comentário de Ellicott é esclarecedor. “E mais um aspecto do caráter inflexível da con­denação preconizada. O poder de Deus interviria para garantir a mis­são do profeta. Era preciso evitar que, não apenas a comiseração, mas mesmo a debilidade e a fadiga, pró­prias do homem, representassem algum impedimento. Fala-se de um cerco do profeta porque foi o que fez figuradamente.”

A seguir, apresenta-se o rigor do cerco de modo muito pitoresco. Em vez da farinha usada na confecção de delicados bolos (Gn 18:6), os ju­deus teriam uma mistura não-refi-nada de seis espécies diferentes de grãos, em geral consumidos somen­te pelos mais pobres. Os grãos, dos melhores aos piores, deviam ser mis­turados numa vasilha —violação do espírito da lei (Lv 19:19; Dt 22:9)— simbolizando com isso as severida­de do cerco e a implacável privação sobre os sofredores. A comida devia ser preparada de modo que lembrasse imundície. As leis alimentares que tratavam dos alimentos puros e im­puros não foram observadas (Os 9:3,4). A escassez de pão e de água para suprir as necessidades físicas afligiria os habitantes da cidade (Ez 4:11; 16:17; v. Lm 1:2; 2:11,12), in­tensificando assim a completa ruí­na que se seguiria à condenação de Jerusalém. Comer pão por peso e beber água por medida falam da ter­rível penúria comum em períodos de fome. Em razão de seus pecados per­sistentes, o povo experimentaria grande sofrimento e angústia. Não admira que se espantariam “uns com os outros”, expressão que denota a aparência chocante da carência desespendora.

Herbert Lockyer.

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