O Caminho do PERDÃO


 



O CAMINHO DO PERDÃO

 “Também os frutos que a tua alma cobiçava foram-se de ti e todas as coisas delicadas e suntuosas se foram de ti e nunca mais serão achadas.” (Ap 18:14)

Assim está escrito e assim deveria se cumprir, se o Pai Celestial não fosse um Deus Vivo de perdão e amor, capaz de reconhecer as falhas de um filho seu e se rejubilar com a sua volta, ainda que tenha vivido mergulhado nas trevas e chegada ao fundo do mais escuro dos poços a que um homem pode chegar.

Em meus muitos anos de pregação, tenho visto muita alma se perder por sua própria vontade, pelo seu orgulho, pela deliberada intenção de se deixar atrair pelas ilusões do diabo, que enche suas armadilhas de luzes e atrações cheias de beleza para esconder o horror e a danação que esperam aqueles que se deixam enganar.

“Contudo se tu avisares o ímpio e ele não se converter da sua impiedade e do seu mau caminho, ele morrerá na sua iniqüidade, mas tu livraste a tua alma.”(Ez 3:19)

É bem clara a citação de Ezequiel, que tranqüiliza aquele que tenta salvar da iniqüidade o pecador, mas isso não o livra da dor de ver um irmão se perder, fugindo da proteção de Deus para se deixar iludir pelo demônio. Como pregador, sofre-se em dobro a cada ovelha perdida, mas há tantas a serem salvas que a perda de uma pode ser compensada pela salvação de centenas. Aquela que se perdeu, no entanto, é um duro golpe no coração do pastor, que jamais há de se conformar com essa perda. A fé no Deus vivo e na sua obra, a crença na força de sua palavra, no entanto, não devem ser esquecidas. Se o diabo seduz, o poder de Deus cura o deslumbramento. Se o diabo destrói, a fé no Senhor Jesus reconstrói. Se o diabo arrasta para a lama, o Espírito Santo purifica. É assim que tem que ser.

Em minhas pregações, vejo pessoas que hoje participam e oram juntas na igreja, num testemunho vivo do poder e da glória do Senhor Deus, de seu Filho e do Espírito Santo. Poucos sabem, porém, de seus dramas e de suas histórias. Quem os vê hoje, esbanjando saúde, prósperos, com uma empresa em expansão ou com um bom emprego, com uma boa casa, carro do ano, celular, parabólica e todo o conforto que o dinheiro pode comprar, pode achar que são pessoas de sorte, que nasceram em berço de ouro.

Poucos conhecem suas jornadas ao fundo do poço da qual jamais esperavam sair, não fosse a o milagre da palavra e o infinito perdão do Pai e da graça do Espirito Santo. Descrentes e desesperados, quando mais nada lhes restava, o poder da Palavra os tocou e eles abriram seus corações para Jesus, que os resgatou das trevas. Tenho certeza, como tenho certeza no poder de Deus, que neste momento há muita pessoas assim, em desespero, mas orando e perseverando, enquanto choram lágrimas de sangue e de sofrimento. A elas a minha bênção e o meu conforto e a certeza de que Ele não deixará que suas orações sejam em vão.

Conheçam esses testemunhos. A pedidos, nomes e sobrenome foram mudados. Que a Glória de Deus recaia sobre todos vocês!



 

Capítulo 1

 

“E o Senhor vos espalhará entre os povos e ficareis poucos em número entre as nações para as quais o Senhor vos conduzirá.

Lá servireis a deuses que são obra de mãos de homens, madeira e pedra, que não vêem, nem ouvem, nem comem, nem cheiram.

Mas de lá buscarás ao Senhor teu Deus e o acharás, quando o buscares de todo o teu coração e de toda a tua alma.

Quando estiveres em angústia e todas estas coisas te alcançarem, então nos últimos dias voltarás para o Senhor teu Deus e ouvirás a sua voz, porquanto o Senhor teu Deus é Deus misericordioso e não te desamparará, nem te destruirá, nem se esquecerá do pacto que jurou a teus pais.”(Dt 4:27-31)

Naquela manhã quente de primavera, quando as lojas começavam a se enfeitar para as festas de fim de ano, os empregados da Salgado & Filhos Ltda. esperavam pelas ordens do patrão que, naquele momento, iniciava um estranho ritual.

— Que cheiro ruim, seu Salgado! — protestou uma das empregadas.

— Não é tão ruim assim, Maria! É um defumador que espanta o azar e atraí dinheiro, clientes e lucro. Neste final de ano eu espero vender como nunca. Tenho certeza que vamos arrebentar no faturamento.

— Ao invés de fazer toda essa fumaceira, porque a gente não reza simplesmente? Meu pastor disse que…

— Eu sei o que o seu pastor disse, Maria. Bota dinheiro na sacolinha que tudo vai mudar! Eu sei disso. Vai mudar para ele!

— Não fala assim, seu Salgado! O senhor está falando de um homem de Deus.

— Esse aqui é o deus dele — falou o comerciante, retirando uma nota de cem reais do bolso e mostrando para a empregada que, naquelas alturas, achou melhor se calar para evitar confusão.

Com um prato de barro cheio de brasas na mão, Salgado percorria as dependências da loja, jogando um pozinho malcheiroso, que se transformava numa fumaça esverdeada e nauseante.

Algumas das moças que ali trabalhavam preferiram sair, pois não estavam suportando o mau cheiro. Quando terminou aquele ritual, Salgado apanhou sete velas e as colocou ao redor de um prato. Dentro do prato ele colocou um punhado de sal grosso, açúcar e sete moedas do mesmo valor. Acendeu as velas e rezou uma oração esquisita, que trazia escrita numa folha de papel.

— Jesus Cristo, seu Salgado! O que é isso agora? — quis saber Maria, já horrorizada com tudo aquilo.

— Estou lhe dizendo, Maria, este vai ser o nosso ano. Quero ganhar muito dinheiro e…

— Que adianta ganhar dinheiro e perder a alma?

— Pára com isso, Maria! Esse negócio de igreja está deixando você muito medrosa. Isso aqui não faz mal para ninguém, só ajuda!

— Só ajuda? E se os seus concorrentes fizerem o mesmo, como é que fica?

— Quem tiver mais fé, sai ganhando e, nesses assuntos, eu sou mais eu. Ainda mais que tenho mais uma coisinha para me ajudar — falou o comerciante, começando a desembrulhar um pacote. — Enquanto eu preparo isto aqui, mande as meninas começarem a fazer a decoração de natal. Vamos abrir mais tarde hoje, depois que eu terminar minhas simpatias e minhas rezas.

— Se quer tanta ajuda para se sair bem, por que não chama um pastor para vir orar aqui?

— Que pastor, que nada, Maria! Chamei um benzedor dos bons. Meu motorista foi buscá-lo. Deve chegar daqui a pouco. Enquanto isso, olhe o que tenho aqui para me ajudar.

Quando ele terminou de desmanchar o embrulho, Maria sentiu um nó no estômago. Eram imagens de santos de todos os tamanhos, feitas de gesso e pintadas grotescamente, sem beleza e sem serventia alguma.

— O senhor já leu a Bíblia, seu Salgado? — perguntou-lhe Maria.

— Já li mais de dez vezes. Quando eu fazia catecismo, tinha que ler toda semana.

— E por acaso se lembra do que estava escrito em Deuteronômio:6.

O comerciante interrompeu seu trabalho de arrumar as imagens num pequeno altar, olhou para a empregada e começou a rir.

— E por acaso você se lembra, Maria?

— Pois eu me lembro. Diz assim: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra; não te encurvarás diante delas, nem as servirás, porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam e uso de misericórdia com milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos.”

— Meus parabéns, Maria! Tem uma boa memória. Espero que se lembre de me agradecer, quando receber as comissões das vendas que vamos fazer neste final de ano. Estas imagens aqui são apenas a lembrança dos santos, uma espécie de recordação, como a fotografia do seu namorado que eu sei que você traz na carteira e olha de vez em quando.

— É diferente, seu Salgado. Eu não presto culto ao meu namorado. Eu tenho amor por ele, entende?

— No fim, é tudo a mesma coisa, Maria. Agora deixa para lá. Esse que está chegando aí é o benzedor. Vou recebê-lo.

Horrorizada, Maria viu o patrão, um homem aparentemente inteligente e culto, bem vestido e bem falante, ir ao encontro de um indivíduo esquisito, com uma roupa cheia de penduricalhos, um rosário no pescoço e olhos escuros e profundos.

Conversaram por alguns instantes, depois o homem retirou um ramo de arruda de uma velha mala e começou a agitá-lo no ar, enquanto caminhava pelo estabelecimento, murmurando algo que parecia ser uma oração, mas que ninguém entendia.

— Isso me parece coisa do diabo! — comentou Maria com sua amiga Sandra.

— Deixa de pegar no pé do patrão, Maria. Você está ficando muito chata com esse negócio de igreja. Se der certo toda essa maluquice que ele está fazendo, nós só temos a ganhar. Vamos ter ótimas vendas e passar um final de ano tranqüilo. Estou precisando de dinheiro e não me importa se tiver que aturar todo esse fedor e essas loucuras para conseguí-lo.

— Que proveito terá o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? O que dará o homem em troca da sua alma? — comentou Maria, lembrando Mateus 16:26.

— Não embaça, Maria! Não se faça de santa, porque eu sei que você precisa tanto de dinheiro quanto qualquer uma de nós. Agora vamos trabalhar, antes que o patrão fique bravo com a gente.

A contragosto, Maria atendeu a recomendação da amiga. A loja, depois da defumação e da passagem do benzedor, ficara com um clima esquisito, que provocava calafrios. A cada vez que ela olhava para o altar cheio de imagens que o patrão tinha montado num canto da loja, ela se sentia mal.

Como precisava do emprego, resolveu usar o bom senso e esperar uma ocasião mais adequada para voltar ao assunto. Antes, porém, pretendia pedir orientação ao seu pastor já que, naquele ambiente, estava difícil para ela trabalhar.

Terminaram de fazer a decoração natalina na loja e as portas foram abertas. Enquanto isso acontecia, silenciosamente Maria fez uma oração, pedindo que o Espírito Santo iluminasse a todos ali e que tudo que o patrão havia feito fosse perdoado.

Poucos clientes apareceram. O Plano Real ainda era uma incógnita e todos diziam que a vida iria melhorar, principalmente para as classes menos privilegiadas.

Maria torcia para que isso acontecesse, pois pretendia, com o fruto do seu trabalho, dar um pouco mais de conforto a sua família, já que seu pai era aposentado por invalidez e recebia muito pouco. No fim, ela arcava sozinha com o orçamento da casa. Sua irmã mais nova apenas estudava. Maria fazia questão que ela se empenhasse nisso, pois acreditava que o estudo era a maneira mais digna e correta de ser alguma coisa na vida.

Ultimamente, porém, andava preocupada com a irmã, que demonstrava uma certa revolta com tudo e com todos. Parecia que, de uma hora para outra, havia se desiludido com a vida modesta que viviam, aspirando coisas além de suas possibilidades.

Maria se preocupava com ela. Como freqüentava um bom colégio, graças ao sacrifício da irmã, com certeza via as colegas bem vestidas, sempre exibindo novidades e queria fazer o mesmo. Além disso, havia arrumado um namorado que, pelo que Maria sabia, não era uma boa pessoa.

Havia rumores de que se tratava de um traficante. Andava num carro do ano, vestia-se bem e, com certeza, tinha tudo para impressionar uma garota inocente e ingênua como Úrsula, a irmã de Maria.

— Senhor Jesus, dê juízo a minha irmãzinha! — costumava rezar.

*

No seu escritório, Salgado conversava com o benzedor, que havia percorrido todas as dependências da loja, observado o estoque, os móveis e tudo o mais que ali havia. Agora olhava seriamente para o comerciante, fazendo um ar de preocupação.

— Está muito carregado, meu filho. Parece que fizeram um trabalho grande para prejudicar sua vida.

— Sério mesmo, Pai Nozinho?

— Dá para sentir. É coisa de sapo costurado em terreiro de macumba. Sangue e baba foram jogados aqui. Tem gente forte na parada. Você está incomodando muita gente.

O comerciante pensou por instantes, depois se debruçou sobre a escrivaninha para falar mais de perto.

— Na verdade, Pai Nozinho, eu estou fazendo uma grande jogada. Acertei com um fornecedor que ele venderia suas mercadoria apenas para mim e para nenhum de meus concorrentes. É coisa grande. Vou ter estoque e preço. Tive de garantir uma venda mínima, mas sei que vou conseguir, com a sua ajuda. O que nós temos que fazer para isso tudo dar certo?

— É muito dinheiro na parada?

— Muito! Se eu vender, fico rico. Se não vender, vou quebrar, com tanto estoque.

O benzedor pensou por instantes, olhando ao seu redor.

— Vai ter que fazer trabalho pesado.

— Eu faço!

— Custa caro!

— Quanto?

O benzedor deu mais uma olhada do seu redor.

— Uns cinco mil reais…

— Eu pago!

— Daí para mais! — completou o benzedor, ao perceber que o negócio estava para ele.

— Mais quanto?

— Se o filho tirar essa mandinga que tem em cima dele, vai ganhar muito, mas muito dinheiro. Vejo você viajando…

— Longe?

— É, nem longe. Tem que ir de avião?

— Não é a Disneilândia? Minha filha quer que eu a leve para lá nas férias. Se tudo der certo, eu vou levar.

— É isso mesmo! Viagem longa, com a filhinha… Posso ver todo mundo feliz, dando risada, brincando. É, meu filho, tira essa mandinga e sua filhinha não vai esquecer dessa viagem nunca mais na vida!

— Está certo, Pai Nozinho. Vou lhe dar um cheque de cinco mil reais para começar, mas espere uns dias antes de soltá-la. Estou usando o cheque especial e o juro é pesado. Pode ser?

— Não tem problema, filho. Só vou fazer o trabalho na próxima sexta-feira. Eu mando avisar o filho, para ele estar presente. Vai precisar, viu?

— Está certo, Pai Nozinho. Eu estarei lá.

— Vou pedir para o meu boiadeiro que faça um trabalho especial. É o melhor de todos, você vai ver!

— Deixo esses detalhes por sua conta, Pai Nozinho.

— Então confia. E já pode ir tirando os passaportes para a viagem, meu filho.

Satisfeito e empolgado, Salgado se despediu do benzedor, que ficou de lhe dar mais detalhes sobre o trabalho que seria feito na próxima sexta-feira. Se no início estava temeroso, agora estava confiante. Com um benzedor poderoso como Pai Nozinho, ia ser fácil dar de dez a zero na concorrência.

Fechou a porta do seu gabinete, apanhou o telefone e discou. Uma voz feminina delicada e provocante atendeu do outro lado.

— Michele, acho que vou dar a maior tacada da minha vida. Neste final de ano eu arrebento de ganhar dinheiro.

— Que maravilha, meu amor! Então você vai me dar aquele carro que prometeu?

— Claro que sim, meu doce! Pode ir escolhendo a cor.

— Eu já vi um na loja. O vendedor diz que vende em condições.

— Sei, mas não posso dar nada de entrada agora, meu bem. Tenho de começar a vender primeiro…

— Não tem importância. Eles disseram que podem dividir em parcelas. Se for empresa, melhor ainda. Pode fazer um tal de leasing e pagar em vinte e quatro prestações…

— Não sei, o leasing tem juro muito alto, pode ficar difícil pagar as parcelas.

— Bobo! Nem parece que meu docinho é comerciante. Você faz o tal do leasing só para tirar o carro. Quando ganhar o dinheiro, você vai lá e paga, tolinho.

Ele pensou por instantes. Aquela sua amante era terrível, mas tudo valia a pena para contentá-la. Não conseguia entender o que ela vira nele. Uma menina de vinte e cinco anos se apaixonar por um quarentão como ele era uma bênção. Ele se sentia remoçado vinte anos. Ela era exigente, mas como não atender àqueles pedidos, se ela era tão carinhosa e o fazia se sentir tão bem?

Já não vivia bem com sua esposa havia alguns anos. O amor e o romantismo haviam se acabado. Por muitos e muitos anos, Salgado se dedicara ao seu negócio, procurando ganhar dinheiro. Com isso deixara de aproveitar a vida e, agora, sentia que tinha o direito de se dar a esses pequenos luxos.

— Está bem, meu amor! Pode encomendar o carro, então. Hoje à tarde, depois que eu sair daqui, nós vamos até lá buscar. Veja que documentos será preciso e peça ao meu contador. Eu vou ligar para ele e mandar que providencie tudo.

— Oh, Salgado, querido, não sei o que você viu numa garota tão sem graça como eu. Puxa, como eu adoro você! — exclamou Michele, com seu tom de voz mais meigo e doce.

Salgado sorriu, enlevado e enternecido. Era mesmo um homem de sorte. O que mais poderia esperar da vida?

*

Soninha tinha sete anos e freqüentava o primeiro ano de um colégio evangélico, um dos melhores do bairro, onde a educação, além de preparar as crianças para os primeiros anos escolares, preocupava-se também em desenvolvê-las e abrir-lhes a mente para as coisas espirituais.

Além das brincadeiras com as amiguinhas, havia atividades de recreação, alfabetização e leitura. O que ela mais gostava, porém, eram gravuras com cenas bíblicas, coloridas avidamente por suas mãozinhas ainda inseguras, mas criativas. Adorava, também, quando a professora lia trechos da Bíblia, comentando passagens, de um jeito cativante e fácil de entender.

Soninha chamava a atenção pela sua habilidade e sensibilidade na pintura e pela sua esperteza e interesse pelas histórias contadas pelas professoras. Algumas passagens ficaram marcadas em sua mente e ela pedia, sempre que possível, para que lhe fossem repetidas.

— Tia, o que Jesus disse mesmo para os apóstolos que não queriam deixar as crianças se aproximarem dele?

Esta era sua passagem favorita.

— Jesus ficou bravo com eles e disse: deixai vir a mim as criancinhas e não as impeçais, porque delas é o reino de Deus.

A menina tinha seu próprio entendimento daquela passagem e, naquela manhã quente de primavera, resolveu ir além em seus questionamentos.

— Tia, se um dia eu precisar falar com Jesus, não preciso pedir para ninguém, não é mesmo?

— Sim, claro, querida. Basta você abrir seu coração para ele e ele ouvirá e atenderá todos os seus pedidos. Por que você pergunta isso. Tem alguma coisa incomodando você?

— Não, tia. É que meu pai vai me levar na Disneilândia nas férias, mas só se ele vender bastante na loja dele. Acha que posso pedir para Jesus dar uma ajuda para ele?

— Eu acho que Jesus tem coisas mais importantes para fazer do que ajudar alguém a fazer negócios — disse a professora. — Você já pensou, Soninha, se todo comerciante fosse pedir isso para ele? Aí ele não teria tempo para cuidar das criancinhas como você!

Em sua inocência, achou sentido nas palavras da professora. Pensou até que se Jesus fosse agir daquela forma, ajudando a todos os comerciantes, seria melhor que ele mesmo abrisse sua própria loja. Com certeza venderia mais barato e todos poderiam comprar tudo o que precisassem.

Resolveu não pensar mais nisso e pouco depois já estava envolvida numa outra atividade, esquecendo-se da observação da sua professora. A viagem para a Disneilândia estava assegurada, tinha certeza disso. Jesus não a deixaria na mão.

Era uma garota feliz. Tinha tudo que queria. Era amada por seus pais e por seu irmão mais velho. Viajaria para conhecer a Disneilândia e se divertiria muito.

Toda noite, antes de dormir, orava pedindo isso.


 

Capítulo 2

 

“Quando teu irmão, filho da tua mãe, ou teu filho, ou tua filha, ou a mulher do teu seio, ou teu amigo que te é como a tua alma, te incitar em segredo, dizendo:

Vamos e sirvamos a outros deuses! — deuses que nunca conheceste, nem tu nem teus pais, dentre os deuses dos povos que estão em redor de ti, perto ou longe de ti, desde uma extremidade da terra até a outra, não consentirás com ele, nem o ouvirás, nem o teu olho terá piedade dele, nem o pouparás, nem o esconderás, mas certamente o matarás.

A tua mão será a primeira contra ele para o matar e depois a mão de todo o povo e o apedrejarás, até que morra, pois procurou apartar-te do Senhor teu Deus, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão. (Dt 6:6-10)

Em sua casa, Michele conversava alegremente com Míriam, sua amiga, contando a grande novidade. Estava muito feliz com o carro que havia ganho de seu amante.

— É certeza mesmo, Michele?

— Garantido! Já falei com o vendedor e com o contador. Vou sair daqui a pouco para apanhar os papéis com ele e levar para a concessionária de automóveis. À tarde eu e o Salgado vamos passar lá para acertar tudo.

— E como você vai explicar esse carro para sua mãe? — quis saber Míriam.

Uma expressão de preocupação desenhou-se no rosto de Michele, enquanto pensava. Era órfã e sua mãe trabalhava fora o dia todo. Imaginava que a garota também trabalhasse durante o dia e estudasse à noite, sem saber que a menina era sustentada por um homem com idade para ser o pai dela.

— Vou ter que contar que comprei. Não está tão difícil assim comprar um carro a prestação. Vou dizer que economizei, que tinha na poupança, qualquer coisa assim.

A expressão no rosto de Míriam se tornou mais inquiridora. Aproximou-se bem da amiga para perguntar;

— E para o Alfredo, o que vai dizer?

O rosto de Michele se tornou sério. Por um instante um brilho de ternura e carinho cintilou, embelezando-a. Depois seu rosto se endureceu.

— Vou dizer a mesma coisa. Tenho que mentir para todo mundo agora, não é mesmo? Mas que se importa? Vou ter meu carro, tenho dinheiro e se tudo der certo, arranco também um apartamento do Salgado.

— Um apartamento?! — surpreendeu-se Míriam.

— Por que esse espanto? Acha que não sou capaz? Sou muito mais eu, menina. Aquele homem está comendo aqui, na palma da minha mão. E tem mais: vou mandar fazer um trabalho contra a mulher dele para ela secar e sumir. Já pensou se ele ficar viúvo? Eu o faço casar comigo fácil, muito fácil mesmo.

— Me conta como. Estou precisando arrumar um Salgado desses na minha vida.

— Não é difícil, boba! Esses coroas andam loucos para provar que não estão velhos. É só encostar neles, fazer uns agradinhos e começar a tomar o dinheiro dos trouxas. Faça com que eles pensem que são os maiores, os conquistadores, os bons. No fundo são ridículos e se gastam todo o dinheiro conosco, merecemos cada centavo. Agüentar esses tipos é difícil, minha amiga. Mas tem suas compensações. Quer ver só? — indagou Michele, apanhando um porta-jóias e abrindo-o sobre a cama.

Anéis, pulseiras, colares e todo tipo de jóias se espalharam. Brilhantes, esmeraldas e rubis cintilaram naquele pequeno tesouro.

— Minha mãe pensa que isso é bijuteria, mas é tudo de verdade. Vale uma nota, minha filha!

— Michele, esse homem é bom demais para você. Não tem remorso de fazer isso com ele?

— Remorso? Que remorso, que nada, querida. Estou na minha. E ele ainda vai abrir mais a mão ainda. Encomendei um trabalho com a Pomba Gira. É para a mulher dele. Os dois já andam meio separados mesmo. Espere só para ver.

Mexendo nas jóias, Míriam encontrou uma fotografia. Olhou-a. Era o rosto sorridente e honesto de Alfredo, um rapaz que gostava muito de Michele. Ficou olhando por algum tempo e, quando levantou os olhos para a amiga, percebeu que os dela estavam marejados. Por trás de toda aquela frieza e de toda aquela determinação, Michele ainda conservava alguma pureza de sentimentos.

— Você ainda gosta muito dele, não é? — perguntou Míriam.

— Sim, gosto muito. Imagine o que o bobo fez esses dias — comentou, enxugando disfarçadamente os olhos.

— O que foi? — quis saber Míriam.

— Disse que orou por mim na igreja. Que participou de uma corrente pela minha felicidade. Pode uma coisa dessas?

— Você é uma pessoa de sorte, Michele — comentou Míriam. — Tem dois homens maravilhosos em sua vida.

— Pouco com Deus é muito, muito sem Deus é nada! — murmurou Michele, com o olhar distante.

— O que foi? — perguntou Míriam.

— Nada, bobagem minha! O Alfredo é um bom rapaz, bom demais para mim. Honesto, trabalhador, cristão, mas pobre, Míriam. E eu não quero ser pobre o resto de minha vida. Olhe para mim. Sou bonita, não sou? Tenho de usar isso, é a única mercadoria que tenho para negociar os favores de que preciso para subir na vida.

— Esses dias atrás o Alfredo me disse uma passagem interessante da Bíblia — lembrou-se Míriam.

— É? E qual foi?

— Está em Tiago 1:11 e diz assim: “O sol se levanta em seu ardor e faz secar a erva; a sua flor cai e a beleza do seu aspecto perece. Assim murchará também o rico em seus caminhos.”

— E o que isso quer dizer?

— Que a beleza como a riqueza são vazias e frágeis. Acho que foi isso que ele disse.

— O Alfredo não entende nada dessas coisas. Fica mexendo muito com esse negócio de igreja e esquece das coisas mais importantes.

— E que coisas são mais importantes que o trabalho dele na igreja?

— Eu, por exemplo!

— Você não sabe o que está dizendo, Michele. Acha que o Alfredo é ingênuo, que não sabe o que está acontecendo?

— Só se você contou…

— Eu jamais contaria seu segredo, Michele, mas o Alfredo é inteligente e sincero. Já deve ter percebido como você mudou. Ao invés de criticar você, de procurá-la e xingá-la, sabe o que ele faz? — indagou Míriam, olhando a amiga frente a frente.

Por algum tempo, Michele conseguiu sustentar o olhar. Depois de algum tempo, porém, abaixou o rosto. Lágrimas começaram a pingar na fotografia sorridente de Alfredo.

*

Úrsula ficou no portão da escola, quando as aulas terminaram. Os outros alunos foram passando, enquanto ela olhava com atenção para os carros que se aproximavam. De repente, seu semblante se alegrou e ela correu para o meio-fio. Pouco depois um carro novo encostava e ela entrava alegremente.

Beijou o rapaz que estava no volante, depois respirou fundo, olhando ao seu redor. As amiguinhas na calçada olhavam com inveja para ela. Isso a fazia se sentir muito bem.

— E como vai a minha gatinha hoje? — indagou Rodrigo, com sua voz mais melosa.

Era um rapaz de vinte e cinco anos, boa pinta, com a camisa aberta no peito, exibindo uma corrente grossa de ouro, onde pendia um amuleto do Exu Caveira, de quem se dizia protegido.

— Ele me protege de faca, de bala, de soco, de chute, de qualquer tipo de agressão — costumava dizer.

— Hoje, quando eu vinha para a escola, passei na frente daquela loja de roupas. Tinha uns biquínis maravilhosos na vitrine. Vou pedir dinheiro para a Maria para comprar um.

— Se você quiser, eu posso dar um jeito de você ganhar seu próprio dinheiro — disse ele, com desinteresse.

— Verdade? Muito dinheiro?

— Bastante!

— Para fazer o quê?

Ele sorriu.

— Não é para vender meus bagulhos, que nisso não quero você envolvida. É um outro lance legal. Sabia que uma menina como você, com esses dezesseis aninhos lindos que tem, pode ganhar muito dinheiro… Principalmente se for virgem?

— Você sabe que eu sou virgem, Rodrigo. Jamais deixei você avançar o sinal.

— Eu sei disso, minha gatinha, e sempre respeitei você. Só que acho isso uma bobagem, sabia? Uma grande bobagem. O verdadeiro amor não está numa coisinha dessas, mas aqui, no peito, no coração da gente — disse ele, batendo com o punho fechado sobre seu amuleto.

A garota o olhou com admiração, mas com um certo receio também.

— Eu gosto muito de você, Rodrigo, mas tenho muito medo das coisas que você faz.

— E o que eu faço?

— Esse negócio de drogas, de armas, isso tudo.

Ele riu, retirando a carteira do bolso. Abriu-a e despejou um monte de cédulas de cem reais no colo da menina.

— Esse é o meu negócio, Úrsula. Pegue, é tudo seu. Compre o biquíni e fique bem bonita para mim. Quando chegar o verão, vou levar você à praia. Tenho um apartamento lá, sabia?

— Sério? Nunca me falou disso — falou ela, recolhendo com deslumbramento as notas que ele jogara em seu colo.

— Tenho tantas coisas que nem me lembro de contar sobre todas elas. Você saberá com o tempo.

— Puxa, gostaria de ter tanto dinheiro assim! — suspirou ela, começando a contar as notas.

— E pode, se quiser!

Ela parou de contar e levantou os olhos lentamente para ele.

— Como?

Ele a olhou no fundo dos olhos, sondando-a. Sabia que já tinha domínio sobre ela. O importante era não forçar demais a situação. Úrsula era muito valiosa para ele, àquelas alturas. Era, em sua opinião, a mercadoria mais cara que ele tinha para vender. E saberia vendê-la com um lucro excelente.

— Ah, esquece isso, minha gatinha! Já tem o dinheiro para comprar o biquíni. Não precisa se preocupar. E vou dizer o que nós vamos fazer. Vou levá-la àquela churrascaria que você gosta para almoçar. Depois vamos ao cinema, o que acha?

— Preciso avisar em casa e…

— Tome, ligue para sua irmã no meu celular — disse ele, passando o aparelho para ela. — Se quiser, pode ligar também para suas amiguinhas, enquanto a gente vai para a churrascaria.

— Verdade? Não fica muito caro para você depois?

— Nada é caro demais para a minha gatinha — sorriu ele, fazendo um carinho no rosto dela.

Úrsula segurou a mão dele e levou-a aos lábios, beijando-a inocentemente. Longe de enternecer o coração endurecido do traficante, aquele beijo apenas confirmou o acerto de sua escolha. Úrsula iria lhe render um bom dinheiro.

*

Miguel Salgado era o filho mais velho do casal e, apesar do xodó que todos tinham por Soninha, a caçula, ele era muito querido pelos pais e também pela irmã. Ajuizado, inteligente e estudioso, apesar dos seus quinze anos estava sempre atento a tudo que se referia a seus entes queridos, como se fosse o anjo protetor de todos eles.

Nos últimos dias vinha notando, com preocupação, que o semblante de sua mão andava muito sério e tenso. Como a conhecia bem, sentia a falta daqueles sorrisos carinhosos e daqueles olhares cheios de bondade e amor. O que via, eram olhos vermelhos e lacrimejantes.

Estava tentando descobrir uma forma de se aproximar dela e tentar fazer com que ela falasse. Ouvira-a ao telefone algumas vezes naquela semana, conversando com o médico dela. Eram conversas entrecortadas, como se fosse difícil para ela falar com ele.

Dentro de si tinha uma grande preocupação. Juntando tudo que havia observado, desde as conversas com o médico até aqueles remédios com tarja preta que ela escondia em sua penteadeira, podia deduzir que sua mãe estava doente. Mas o que seria que nem ao marido ela havia contado?

Passou a observá-la mais de perto. Reparou, então, que as roupas que a mão usava estavam mais folgadas. Sua mãe havia emagrecido alguns quilos. Começava a perceber isso inclusive no rosto dela. Além disso, perdia muito cabelo.

Naquela tarde, quando foi à loja, tentou falar com o pai a respeito do assunto.

— Doente? Sua mãe? Que nada, meu filho! Deve ser aqueles remédios para emagrecer que ela anda tomando. Está querendo voltar a ser uma menininha, não percebe como isso é ridículo.

— Eu não sei, pai, acho que é mais do que isso.

— Está certo, filho, eu vou falar com ela hoje à noite. Agora tenho trabalho. Está acabando de chegar um grande estoque para a loja. Se tudo der certo, vamos ficar ricos, meu filho. Agora deixa o papai ir trabalhar, está bem?

O garoto viu seu pai se dirigir aos fundos da loja, onde ficava o depósito. Foi até a porta e ficou olhando o movimento da rua. Nas outras lojas, a decoração de natal também havia sido instalada, criando conjunto feérico e chamativo.

Maria se aproximou, olhando-o.

— O que foi, Miguel? Parece preocupado, meu anjo?

Ele tentou sorrir. Maria era a única que o tratava de anjo e ele gostava daquilo. Dizia que seu nome era o nome de um Anjo.

— Está em Apocalipse 12:7-8: “Então houve guerra no céu: Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão. E o dragão e os seus anjos batalhavam, mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou no céu” — explicara ela para o rapaz. — Sabe o que isso significa? Que Miguel é um grande anjo, chefiando muitos outros anjos e que juntos enfrentaram o diabo, vencendo-o.

Maria passou o braço pelos ombros do rapazinho e balançou-o, animando-o.

— Vamos lá, meu anjo, o que está acontecendo com você? — insistiu ela.

— Puxa, Maria, você me conhece só de me ver, não é mesmo?

— É porque gosto muito de você, Miguel. Agora me conta o que tanto o preocupa.

— É a minha mãe. Acho que ela está doente. E acho que é doença séria — disse ele.

— Como sabe?

— Está emagrecendo, o cabelo dela está caindo e ela anda tomando este remédio aqui — disse ele, exibindo uma bula que havia retirado da caixinha, na penteadeira da mãe.

Ao ver o nome do remédio, um arrepio percorreu o corpo de Maria. Conhecia aquele nome. Seu pai tomara muitos vidros daquele remédio, antes de morrer de uma doença terrível: câncer.

Apanhou o papel das mãos de Miguel, dobrou-o e guardou-o no seu bolso.

— Não precisa se preocupar, Miguel. Vou levar comigo esta bula e vou pedir ao meu pastor para incluir o nome de sua mãe na nossa próxima corrente da saúde. Seria ótimo se ela pudesse ir à igreja e participar, mas vou tentar ajudá-la.

— Verdade mesmo, Maria? Olhe, se for mesmo preciso, eu a levo até a igreja. Amo demais minha mãe e não quero vê-la sofrendo.

— Então fale com ela. Na próxima sexta-feira vamos ter um culto especial, pela saúde dos enfermos. Se puder levá-la será ótimo!

— Obrigado, Maria! Você me deixou mais tranqüilo agora — falou o rapaz, despedindo-se da amiga e voltando para casa.

Procurou pela mãe, que estava deitada. Ao vê-la no leito, na penumbra do quarto, teve certeza de que ela estava mesmo doente. Aproximou-se lentamente.

— Está tudo bem, mãezinha? — indagou, sentando-se na beirada da cama.

— Sim, filhinho. Mamãe estava cansada e resolveu deitar um pouco — disse ela, abrindo os braços.

O menino se aninhou nos braços dela, abraçando-a também. Ficou ali, trêmulo, sentindo uma angústia interior muito grande.

— Mamãe, se eu pedir uma coisa, você faz para mim?

— Claro, meu filho. Você sabe que eu faço qualquer coisa por vocês.

— Você conhece a Maria, não é?

— A empregada da loja?

— Essa mesmo.

— Claro que conheço, filho.

— Ela nos convidou para ir à igreja dela e eu fiquei com vontade de ir. Você me leva? Eu prometi para ela que iria.

A mãe ficou surpresa.

— Mas a Maria freqüenta uma igreja evangélica, que eu sei. Nós somos de outra doutrina…

— Tudo é cristianismo, mãe. Eles acreditam em Cristo e nós também, não é? Não fará mal algum, nem será nenhum pecado.

A mulher pensou por alguns instantes.

— Vou pensar no assunto. Se eu estiver boa, talvez eu vá.

O garoto remoeu por alguns instantes a pergunta que trazia guardada.

— Mãe, você está doente? — indagou, afinal.

Ela demorou um pouco para responder.

— Sim, mas não é grave. Vai passar.

No tom de voz dela ele sentiu a insegurança. O medo se tornou maior dentro dele. Apertou com força os braços ao redor do corpo da mãe e sufocou o soluço que ameaçava brotar de seu peito.

De seus olhos inocentes, no entanto, lágrimas mornas de dor brotaram e rolaram sem que ele pudesse impedí-las.


 

Capítulo 3

 

 

“Que proveito traz a imagem esculpida, tendo-a esculpido o seu artífice, e a imagem de fundição, que ensina a mentira? Pois o artífice confia na sua própria obra, quando forma ídolos mudos.

Ai daquele que diz ao pau:

— Acorda!

E à pedra muda:

— Desperta!

Pode isso ensinar? Eis que está coberto de ouro e de prata e dentro dele não há espírito algum, mas o Senhor está no seu santo templo. Cale-se diante dele toda a terra.” (Hb 2:18-20)

Sexta-feira, próximo da meia-noite. José Salgado chegou com seu carro no terreiro de Pai Nozinho, onde seria feito o trabalho. Trouxe uma porção de coisas consigo, compradas numa casa especializada, sem contar com aquelas que o benzedor compraria, com o dinheiro adiantado.

Além disso, seguindo instruções que o homem lhe dera naquela tarde, trouxera cinco mil reais num maço de notas novas, trocadas no banco, para ofertar à entidade que faria o serviço de limpeza de todos os empecilhos que estorvavam o seu caminho.

O telefonema naquela tarde fora bem assustador:

— Meu filho, estive consultando os búzios e a coisa está feia para você. Se não fizer um trabalho de primeira, vai perder tudo que tem. Os negócios vai dar para trás. O trabalho que foi feito aí é coisa muito poderosa mesmo. Vamos ter que recorrer ao Exu Caveira para remover os empecilhos. Com esse não tem acordo. O que tiver pela frente ele desmancha.

— Mas quem fez isso comigo, Pai Nozinho?

— Concorrente, meu filho. Concorrente seu. Pessoa de sua simpatia, mas gente má, perversa.

Salgado pensou por instantes.

— Ah, se eu pudesse dar o troco!

— E pode! Quando se lida com o Exu Caveira, é preciso ir fundo no trabalho. Vou lhe dar uma lista de coisas que vai ter que me trazer. Além disso, vou precisar de mais cinco mil reais, tudo em notas novas, tirada do Banco, embrulhadas num pedaço de seda vermelha e amarrada com uma fita da mesma cor. Não esqueça: tem que ser nota nova e tem que estar embrulhada no pano, porque o Exu Caveira não põe a mão direto no dinheiro.

— Pode deixar, Pai Nozinho. Eu faço tudo direitinho.

Salgado anotou em seguida a relação de materiais que teria de levar, depois desligou o telefone. Ficou pensando, muito preocupado com a situação. Havia gastado todo o seu cheque especial e, agora, não sabia como arrumar cinco mil reais em dinheiro vivo.

Poderia fazer um empréstimo, mas o crédito de sua firma estava esgotado. Tivera de descontar umas duplicatas frias para dar de entrada na compra do carro de sua jovem amante.

Lembrou-se, então, de um amigo agiota. Ligou para ele.

— Souza, seu malandro, como vai essa força? — cumprimentou-o o outro.

— Pois é, Salgado, vou indo. E você? Essa loja para que não pára de crescer?

— E não pára mesmo, rapaz. Investi um bom dinheiro no estoque. Com o Plano Real, é certeza que vamos ter boas vendas neste final de ano. O pessoal vai comprar como nunca.

— Isso é muito bom. Mas o que eu posso fazer pelo amigo?

— Você ainda troca aqueles chequinhos para os amigos?

— Se for para amigos como você, a toda hora, quando você quiser. O que é que você precisa?

— Preciso de uns dez mil… Não, dez mil não. Com cinco mil limpo eu resolvo o problema, porque tenho um dinheiro para receber até o final do mês — argumentou Salgado, fingindo que não estava tão apertado quanto parecia.

— Sem problema, Salgado. Você comigo tem crédito. Como quer fazer? Você vem aqui ou quer que eu passe por ai?

— Na verdade, se for possível, eu passo aí, porque logo vai fechar o Banco e eu preciso fazer o depósito…

— Então estou esperando.

— Falando nisso, que juro você está cobrando?

— Para os amigos como você, quatorze por cento.

Salgado sentiu um golpe no estômago. Quatorze por cento de juros, numa economia estabilizada, não era apenas um roubo: era um crime. Engoliu seco. Aquilo significava setecentos reais de juros num só mês.

— Tudo isso, Moura? — protestou, desejando negociar.

— Pois é, rapaz, os Bancos não estão emprestando e o pessoal está procurando a gente. Aliás, para poder emprestar para você, que é meu amigo, vou ter que deixar de atender um sujeito aí que me pediu. Veja só como você é importante.

Salgado hesitou. Quatorze por cento, para ele, que era um comerciante, significava um custo muito alto.

— Alfredo, vou fazer o caixa aqui e ligo em meia hora, está bem?

— Olha, Salgado, posso lhe dar uns dez minutos para pensar, pois se você não quiser, tenho para quem passar agora mesmo — disse o outro.

— Certo, certo! Em dez minutos então! — concordou Salgado, desligando.

Parou e ficou pensando. De um lado, todo um investimento feito na loja, esperando pelo sucesso das vendas. Poderia ficar rico! Milionário! Estava com a faca e o queijo na mão, mas não podia ceder a uma chantagem, a uma extorsão como aquela, de pagar quatorze por cento de juros.

Pela porta de seu escritório viu sua empregada preferida, a Maria, circulando pela loja, sempre muito atenciosa e muito carinhosa com todos. Aquela menina sempre lhe dizia coisas boas, coisas bonitas, alertando-o para fugir das mentiras e das enganações do diabo, atento a todos aqueles que vacilam em sua fé ou que não tem fé.

O telefone tocou. Atendeu. Era Soninha, sua filhinha querida, que falou soluçando ao telefone:

— Paizinho, é verdade que não vou poder ir à Disneilândia?

— Filhinha, o que está acontecendo? Por que você está chorando?

— É que eu quero ir na Disneilândia!

— E você vai! O papai já não falou que você vai?

— Mas a Aline, aquela boba, disse que é mentira, que você não tem dinheiro para me mandar para a Disneilândia, que o pai dela falou para ela…

Salgado mordeu os lábios para não falar um palavrão. O pai de Aline era nada menos que o gerente do Banco onde o comerciante mantinha suas contas bancárias.

— Aline é mentirosa, minha filha! Pode falar isso para ela. O papai disse que você vai para a Disneilândia, então você vai para a Disneilândia. Em quem você acredita mais, no papai ou na Aline?

— Em você — falou a menina, ainda soluçando.

— Então pare de chorar e mande um beijo para o papai.

— Está bom, paizinho! Um beijo para você! — disse ela, estalando ao telefone um beijo carinhoso.

Salgado desligou, sentindo o coração apertado. Não podia decepcionar sua filha. Com um pouquinho de sorte, tudo daria certo. Venderia como nunca e teria muita sorte. Tinha de confiar em si mesmo. Estava fazendo tudo certo. Não tinha como errar.

Ligou de novo para o amigo agiota.

— Moura, sou eu! Vou passar por aí!

— Puxa vida, Salgado! Não sei como lhe contar isso agora — disse o outro, fazendo seu papel.

Vivia do desespero alheio. A agiotagem sempre foi a arte dos canalhas e Moura era o maior dos canalhas. Percebera que seu amigo Salgado não tinha outra alternativa. Assim, resolveu jogar pesado com ele.

— O que aconteceu, Moura? — quis saber Salgado, preocupado.

— Eu tinha prometido para um outro amigo emprestar um dinheiro, garanti e ele está aqui, na minha frente, para trocar uns cheques que ele tem. Ofereceu-me pagar dezoito por cento de juros. Não tenho como recusar, até porque ele estava na frente…

Salgado desesperou-se. Precisava daquele dinheiro. Agiu impulsivamente, então:

— Eu pago vinte por cento, Moura!

Do outro lado da linha, sozinho em sua sala, Moura sorriu, satisfeito. Aquela brincadeira o fizera ganhar mais trezentos reais.

— Só um instantinho, Salgado. Vou ver como o meu amigo fica nessa parada agora.

Salgado torceu e rezou para todos os santos que conhecia, prometendo velas e fitas para todos eles.

— Ele desistiu, Salgado, O dinheiro é seu. Passe aqui agora mesmo que o dinheiro vai estar disponível.

— Então me faz o seguinte, Moura. Como você está aí perto do banco, troque tudo em notas novas para mim.

— Notas novas? Isso me parece coisa de trabalho para o Exu Caveira — brincou Moura.

Salgado riu forçadamente.

— Não, não é nada disso. É uma brincadeira que vou fazer com uma pessoa — descartou.

— Tudo bem, Salgado. Então é só passar aqui e me trazer um cheque de seis mil, duzentos e cinqüenta reais e…

— Espere aí, Salgado! Por que seis mil, duzentos e cinqüenta reais, se o empréstimo é de cinco mil?

— Puxa, Salgado! Você não sabe como essas coisas funcionam? Coloque aí na sua calculadora o valor de seis mil, duzentos e cinqüenta reais!

— Certo, coloquei! — obedeceu Salgado, sem entender.

— Aplique vinte por cento em cima!

— Certo, dá um mil, duzentos e cinqüenta!

— Diminua de seis mil, duzentos e cinqüenta! Não dá os cinco mil?

— Sim, mas se você analisar que estou pegando cinco mil e pagando mil, duzentos e cinqüenta de juros, na realidade, a taxa que você está usando é de vinte e cinco por cento!

— Salgado, meu amigo, até parece que você nunca trabalhou com Banco. Se for fazer um empréstimo no Banco, é assim que eles calculam. Além disso, não estou forçando você a fazer o empréstimo. Se quiser está a disposição, se não quiser, empresto ao meu amigo, que ainda está aqui, na minha frente.

Salgado percebeu a armadilha em que estava entrando, mas não podia decepcionar a filhinha. Além disso, não podia nadar tanto e morrer na praia. Estava com um estoque bom. As perspectivas de vendas eram excelentes. Conseguira exclusividade do fabricante e poderia vender num preço competitivo. O que poderia dar errado?

— Está certo, Moura. Vou passar aí daqui a pouco! — resignou-se ele, apanhando o talão de cheque.

*

Nas sextas-feiras, os terreiros ficavam lotados. Michele acompanhava o som dos atabaques e os passos daquela dança cadenciada no meio do salão. No centro, uma mulher, vestida de vermelho, com lenços, colares, anéis e um véu escuro diante do rosto, ria e dançava mais rápido do que as outras. Era a Pomba Gira, gargalhando como se estivesse embriagada.

O som dos tambores foi aumentando. O ritmo foi se tornando mais rápido até que, finalmente, cessasse de repente. A mulher que incorporaria a Pomba Gira caiu de joelhos, com a cabeça apoiada sobre os braços, no assoalho. Ficou por instantes imóveis, depois começou a gargalhar, erguendo-se.

Sua voz era estranha, totalmente diferente da voz da mulher que dançava. Seu riso era histérico e assustador. Ela foi se sentar uma espécie de trono. Mulheres, em fila, aproximavam-se e ajoelhavam-se diante dela.

Quando chegou a vez de Michele, ela fez o mesmo. Embrulhadas num lencinho de seda, ela trazia algumas notas de cem reais. Era o preço do trabalho que pediria.

— E o que a minha filha quer? — indagou a Pomba Gira, como voz zombeteira.

— Quero que a mulher do meu amante seque e morra, para ele ficar comigo.

A Pomba Gira deu um gargalhada.

— Trabalho caro!

— O dinheiro está aqui! — disse, estendendo o lencinho.

— Pomba Gira não pega em dinheiro!

Imediatamente uma das mulheres que prestavam assistência ao lado apanhou o lencinho e conferiu o dinheiro.

— Está certo! — garantiu.

— Então minha filha pode ficar sossegada que o trabalho vai ser feito. Ela vai secar e morrer. Trouxe uma fotografia dela?

— Sim, é esta aqui! — falou, entregando uma foto que roubara da carteira de Salgado, na noite anterior, quando lhe tirara também o dinheiro para o trabalho.

— Essa já tá seca e morta. Se prepara para o casório. E não esqueça de me convidar — falou a Pomba Gira, com voz zombeteira. — Mais alguma coisa, minha filha?

— Sim, eu queria ganhar um apartamento do meu amante.

— Ih, é trabalho pesado. Vai precisar gastar muito. Se pedir, eu faço, mas vai custar caro.

— Quanto?

— A Pomba Gira não mexe com esse negócio de dinheiro. Fale aí com ela e combina tudo. Agora chega! Minha filha já pediu muito.

Michele fez uma reverência e se afastou, seguida por uma das assistentes da Pomba Gira.

— Quanto vai custar o trabalho? — indagou a jovem.

— Mil e quinhentos. Tem que trazer o mais breve possível, para aproveitar que a Pomba Gira gostou de você e quer ajudar. Traz também uma fotografia dele, uma cueca, uma meia e um lenço usados por ele.

— Eu já tenho tudo isso.

— Então é só trazer. Coloque o dinheiro num porta-jóia, daqueles que tocam musiquinha e embrulha com papel vermelho. Amarre com uma fita amarela. Coloque junto com as roupas num saquinho de papel e entrega para a Pomba Gira, quando vier. Mas não deixe passar muitos dias. Quando mais cedo, melhor.

Michele concordou, agradeceu e saiu. Míriam, sua amiga, a esperava lá fora. Não agradava o caminho que a amiga vinha tomando. Apesar das roupas, das jóias, do dinheiro e do carro, Michele não demonstrava ser uma pessoa feliz. Parecia possuía pelo espírito da ambição e da maldade.

Enquanto Michele dirigia o carro, satisfeita por ter seus planos encaminhados, Míriam sondava a amiga, sem coragem para dizer o que gostaria de lhe dizer.

— O que foi, Míriam? Por que está tão quieta assim?

— Você é louca, Michele!

— Louca? Louca por quê?

— Mexendo com essas coisas do diabo!

Michele deu uma gargalhada, zombando da amiga. Míriam abaixou a cabeça, entristecida. Sua amiga mudara muito. Era uma jovem tão cheia de vida, tão cheia de planos. Não entendia como aquilo havia acontecido.

— Escreve uma coisa que vou lhe dizer — falou Michele. — Não dou trinta dias e o Salgado vai me dar o apartamento.

— Como pode ter tanta certeza disso?

— Falei com a Pomba Gira. Já está tudo certo. Tenho que arrumar um dinheirinho, mas isso não é problema. Tomo do Salgado.

Míriam ficou calada mais um pouco. Estava realmente incomodada com tudo aquilo que a amiga vinha fazendo e com o que ela vinha se envolvendo. Pensou no Alfredo, um rapaz tão bom, que gostava tanto dela.

— Encontrei o Alfredo hoje — comentou.

O rosto de Michele se transformou. Bastava falar no Alfredo para isso acontecer. O rapaz tinha algo que tocava profundamente. Isso durou pouco tempo, porém. Seu rosto demonstrou desprezo e orgulho.

— O Alfredo é um pobre! Não quero me casar com um pobre e ser pobre o resto da vida. Acho que mereço um pouco mais. Sou jovem, sou bonita e quero aproveitar a vida.

Míriam fingiu não ter ouvido. Esperou um pouco, antes de falar de novo.

— Ele disse que iria orar por você no culto desta noite!

— Alfredo, Alfredo, Alfredo! Para de falar nele, Míriam. Não quero pensar nele, não quero falar nele, aliás, não quero nem saber dele. E essa conversa já me aborreceu. Tenho que deixar você em casa em ir esperar o Salgado. Depois vou para um boteco encher a cara de uísque e cerveja.

Míriam olhou a amiga com os cantos dos olhos. Em momentos como aquele, simplesmente não a reconhecia. Era como se um demônio, ou mesmo uma legião dele, falassem pelos lábios de sua amiga. Ficou arrependida de tê-la acompanhado até aquele lugar. Deveria ter ido orar por ela também. Era disso que Michele precisava.

— É melhor mesmo você me deixar em casa, Michele. Aquele lugar me deixou deprimida e triste.

— Pois eu fiquei muito contente. Já ganhei um carro e vou ganhar um apartamento — arrematou Michele , dando de ombros.

Ficaram em silêncio o resto do caminho. Michele ligou o toca-fitas de seu carro, ouvindo um som em alto volume, requebrando e dançando em seu assento.

Quando chegaram na casa de Míriam, por coincidência Alfredo ia passando na rua. Ao vê-las, aproximou-se. Michele empalideceu. Todo o seu corpo estremeceu e ficou inquieta. Míriam percebeu isso. A presença dele era muito forte e mexia com ela. Toda a calma e a fé que ele trazia no seu coração incomodavam alguma coisa nela.

— Eu não vou nem falar com ele! — falou Michele, acelerando o carro e arrancando, assim que Míriam desceu.


 

Capítulo 4

 

 

“Ó filho do Diabo, cheio de todo o engano e de toda a malícia, inimigo de toda a justiça, não cessarás de perverter os caminhos retos do Senhor?” (At 13:10)

Alfredo acompanhou Míriam até o portão da casa da amiga. Estava intrigado com o comportamento de Michele, saindo daquela forma. Gostava dela e lhe doía o coração perceber o que ela estava fazendo. Sabia que, bonita como era, com certeza se revoltava por desejar mais da vida e ela lhe oferecer tão pouco, no ponto de vista dela. Para ele, Michele tinha muito mais a agradecer do que a cobrar. Tinha beleza, tinha saúde, podia estudar e, mesmo vindo de uma família humilde, tinha inteligência o bastante para prosperar por seus méritos, com a graça de Deus.

— Se eu lhe contar onde fui agora com a Michele, você não vai acreditar — disse Míriam, constrangida. — Eu me sinto péssima por não ter conseguido convencer minha amiga a não fazer isso. Só que você conhece o gênio dela, não?

— Quando a Michele põe uma coisa na cabeça, não adianta mesmo. Ela anda tão estranha. Tenho certeza que você foi com ela naquela sucursal do inferno onde ela gosta de ir, não?

— Sim, lá mesmo. Que lugar horrível, Alfredo. Eu me senti muito mal mesmo.

— Vamos ter de orar muito por nossa amiga, se quisermos salvá-la. Que acha de fazermos uma corrente de oração para ela? — sugeriu Alfredo.

— Eu estava mesmo para lhe propor isso. Eu aceito. Vamos falar com o restante de nossos amigos e tratar disso o mais depressa possível.

Alfredo se despediu de Míriam e foi para casa. Moravam todos no mesmo bairro e freqüentavam a mesma igreja. Ele se lembrava de um tempo não muito distante, quando Michele os acompanhava e era uma das mais atuantes do grupo. Não podia entender como ela se deixara iludir pelo brilho de uma vida de facilidades e pecado.

Quando chegou a sua casa, a primeira coisa que fez fazer uma oração por Michele e depois abrir sua Bíblia ao acaso, em busca de uma orientação para poder ajudar ainda mais aquela garota de quem ele gostava muito.

A resposta lhe veio em 1Pe 5:5-11.

“Semelhantemente vós, os mais moços, sede sujeitos aos mais velhos! Cingi-vos todos de humildade uns para com os outros, porque Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes!

Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte! Lançai sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós!

Sede sóbrios, vigiai! O vosso adversário, o Diabo, anda em derredor, rugindo como leão e procurando a quem possa tragar. Resisti a ele, firmes na fé, sabendo que os mesmos sofrimentos estão-se cumprindo entre os vossos irmãos no mundo!

O Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de haverdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, confirmar e fortalecer.

A Ele seja o domínio para todo o sempre. Amém.”

Tudo o que precisava saber estava ali, naquela mensagem clara e insofismável e isso era algo que sempre o maravilhava, quando lia a Palavra de Deus. Ali encontrava as respostas para suas dúvidas e questionamentos. Em momento algum se sentia perdido ou desorientado, pois desde que recebera Jesus em seu coração, convivendo com ele a todos os momentos, tornando-O parte inseparável de sua vida, jamais se sentira desamparado.

Para aquele momento, o caminho a seguir estava ali, naquele trecho da Palavra. O pastor, mais velho e mais sábio, iria orientá-lo corretamente, na melhor maneira de salvar Michele daquele caminho de perdição que ela estava trilhando. Deus Pai saberia fazê-la voltar à humildade, deixando de lado toda a soberba e todo o convencimento. A fé que havia nela tinha de ser resgatada, para que, fortalecida pelas orações e pelo apoio de seus irmãos em Cristo ela pudesse enfrentar e vencer o diabo de uma vez por todas.

Decidiu que, no dia seguinte, logo pela manhã, procuraria o Pastor Messias, líder de sua igreja. Juntos encontrariam uma forma de resgatar aquela pobre alma para Cristo, devolvendo a ela a fé e a humildade.

*

Chegou, finalmente, o momento de Salgado ser recebido pelo Exu Caveira. Numa sala enfumaçada e na penumbra, recendendo a cachaça e fumaça de charuto, ele foi recebido por Pai Nozinho, que o levou até um trono enfeitado com fitas e tecido vermelhos. Ali, todo vestido de preto, com uma batina que ia até o chão, uma máscara, por onde só se viam os olhos e a abertura da boca, e um gorro pontudo, estava a temível entidade, responsável por tantos males.

Pai Nozinho fez Salgado se ajoelhar diante do Exu Caveira.

— O dinheiro! — avisou.

Salgado estendeu o pacotinho, embrulhado em vermelho, e um dos assistentes o apanhou rapidamente.

— O filho nem precisa dizer nada. Já vi tudo na vida dele — falou o Exu, com uma voz rouca e zombeteira, bebendo mais um gole de aguardente, direto no gargalo do litro. — Tranca-Rua, aquele safado, está atormentando sua vida, mas eu cuido dele. É cupincha meu e não atrapalha mais. Mas tem coisa mais forte na parada e eu vou limpar tudinho da sua vida. Tudo vai dar certo, nos negócios e no amor. O filho tem problema nos negócios, não tem?

— Pois é, comprei um estoque grande e preciso vender, senão vou quebrar — explicou Salgado, intimidado.

— Concorrente não vai passar por cima de filho meu. Vou proteger você. Vai vender como nunca. Todo mundo vai pagar direitinho e o meu filho vai ficar mais rico. E o negócio do amor, como é que é?

— Pois é, seu Exu, é uma menininha aí, novinha, que eu arrumei. É linda, coisinha fina e…

— O filho não precisa explicar nada para mim. Eu sei tudo. Sei dela direitinho. Ela gosta muito de você e vai ficar tudo bem. Vou cuidar desse romance. Ninguém se intromete. Pode ficar tranqüilo — assegurou o Exu, tomando mais um gole de cachaça.

Depois baforando seu charuto, assoprou a fumaça fétida para cima de Salgado. Só então ele reparou que o assento do trono onde se assentava a entidade era todo feito de pregos pontudos.

Isso o fez respeitar ainda mais aquele ser poderoso que tinha diante de si.

Saiu dali pouco mais tarde fedendo a cachaça e charuto, mas estava tranqüilo. Fizera todo o possível e o impossível para acertar de uma vez por todas a sua vida. Agora era só esperar e deixar acontecer.

Quando voltou para casa, seu filho, Miguel, o esperava.

— Preciso falar com você, pai. É assunto sério!

— Tem que ser hoje? Ando tão cansado, meu filho. Agora mesmo preciso tomar um banho e ir participar de uma reunião ainda.

— Tão tarde assim, pai? — indagou Miguel, desconfiado.

— Para você ver, Miguel. Não tenho mesmo sossego. Mas o que você tem para conversar comigo?

— É mamãe, estou cada vez mais preocupado com a saúde dela.

— Miguel, meu filho, você se preocupa à toa. Está tudo bem com a saúde dela. Não se preocupe. Vai passar logo. Agora deixa o papai ir tomar um banho, porque vou ter que sair — despediu-se Salgado, deixando o menino preocupado atrás de si.

Tinha de se apressar. Havia combinado se encontrar com Michele num motel, onde passariam a noite. A garota estava muito feliz com o carro que ganhara e com certeza iria transformar essa gratidão em muitos carinhos.

Entrou no quarto silenciosamente. Sua esposa dormia. Acendeu a luz do banheiro e ficou olhando para ela. Estava mesmo muito magra, com o rosto encovado e os cabelos ralos. Embora isso lhe causasse certo sofrimento, esforçou-se ao máximo para não se deixar afetar.

Sabia o que estava acontecendo com ela. Sabia que um câncer a corroía por dentro e que tudo era questão de tempo. Ela morreria em breve, por isso havia decidido ignorá-la e tratar de sua vida. Michele era importante para ele, naquele momento, pois o ajudava a fugir desse problema.

Para Salgado, mesmo se tornando um novo problema em sua vida, a garota era uma forma de encontrar forças para superar seus dramas interiores. Mal sabia ele, porém, que isso o estava levando cada vez mais fundo no poço das iniqüidades.

Entrou no banheiro e trancou a porta. Apanhou seu aparelho de barbear para escanhoar-se com cuidado. Enquanto fazia isso, olhando-se no espelho, sentiu-se incomodado. Era como se alguém estivesse ali, com ele. Alguém perverso, de coração duro e alma corrompida.

Olhou ao redor, assustado. Seu corpo todo se arrepiou e, de algum ponto que ele não conseguiu identificar, veio uma gargalhada sinistra que ficou ecoando nos azulejos.

Ele voltou a se olhar no espelho e, por um breve instante, em lugar de seu rosto ele viu a máscara horrenda do Exu Caveira. O susto foi grande que ele deslizou o barbeador no rosto, cortando-se.

Ficou imóvel, olhando o espelho. Seu rosto surgiu em lugar da máscara e um filete de sangue marcava uma das faces. Benzeu-se, persignando-se sete vezes, conforme uma simpatia que lhe fora ensinada pelo Pai Nozinho.

Depois, para se garantir, apanhou a figa de madeira que trazia no bolso da calça e apertou-a na mão direita. Decidiu que, antes de sair para se encontrar com Michele, acenderia sete velas diante das imagens de seus santos e guias protetores, no altar que tinha, montado numa das salas de sua casa.

*

Maria olhou pela janela, preocupada. Úrsula ainda não havia chegado, embora passasse da meia-noite. Preocupada, abriu a sua Bíblia aleatoriamente, procurando uma palavra de conforto ou uma mensagem para entender o que estava acontecendo com sua irmã.

A resposta veio na forma de um alerta, em Jo 8:44-47:

Por que não compreendeis a minha linguagem? É porque não podeis ouvir a minha palavra. Vós tendes por pai o Diabo e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele é homicida desde o princípio e nunca se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.

Mas porque eu digo a verdade, não me credes. Quem dentre vós me convence de pecado? Se digo a verdade, por que não me credes? Quem é de Deus ouve as palavras de Deus. Vós não as ouvis, porque não sois de Deus.”

Era exatamente isso o que estava lhe acontecendo. Por mais que alertasse sua irmãzinha, ela não lhe dava ouvidos. Preferia o deslumbramento em que o namorado traficante a estava envolvendo. Temia por ela e precisava fazer alguma coisa para ajudá-la. O que fazer, no entanto? Como evitar que aquela alma inocente fosse pervertida por obra do demônio? Como fazê-la entender de novo as palavras de Deus e voltar a ser dEle?

Estava desanimada com a irmã. Deixara-se seduzir pela falsa riqueza e pelo luxo ostentado pelo seu namorado, sem perceber os perigos. Maria já tentara inúmeras vezes convencê-la do perigo, mas Úrsula não queria ouví-la.

Intimamente, Maria estava a ponto de desistir, entregando a irmão à própria sorte, já que nada do que fazia podia ajudar. Se Úrsula se achava dona do próprio nariz e capaz de dirigir sua vida, embora não tivesse idade para isso, que assim fosse.

Maria sabia, no entanto, que tinha de perseverar, que tinha de insistir naquela cruzada contra o diabo que arrastava sua irmãzinha para o mal.

Com muita confiança, apanhou sua Bíblia, orou a Deus pedindo uma orientação, depois abriu-a. Leu de um fôlego 1 Co 11:19-30.

“Sendo vós sensatos e de boa mente, tolerais os insensatos. Se alguém vos escraviza, se alguém vos devora, se alguém vos defrauda, se alguém se ensoberbece, se alguém vos fere no rosto, vós o suportais.

Falo com vergonha, como se nós fôssemos fracos, mas naquilo em que alguém se faz ousado, com insensatez falo, também eu sou ousado.

São hebreus? Também eu! São israelitas? Também eu! São descendência de Abraão? Também eu! São ministros de Cristo? Falo como fora de mim: eu o sou ainda mais. Em trabalhos? Muito mais. Em prisões? Muito mais. Em açoites? Sem medida. Em perigo de morte? Muitas vezes.

Dos judeus, cinco vezes recebi quarenta açoites menos um. Três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio, uma noite e um dia passei no abismo.

Em viagens, muitas vezes em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos dos da minha raça, em perigos dos gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre falsos irmãos. Em trabalhos e fadiga, em vigílias muitas vezes. Em fome e sede, em jejuns muitas vezes, em frio e nudez.

Além dessas coisas exteriores, há o que diariamente pesa sobre mim, o cuidado de todas as igrejas. Quem enfraquece, que eu também não enfraqueça? Quem se escandaliza, que eu me não abrase?

Se é preciso gloriar-me, gloriar-me-ei no que diz respeito à minha fraqueza.”

Quando terminou a leitura, Maria se sentiu envergonhada de ter pensado, ainda que por um breve momento, em deixar sua irmã a sua própria sorte. O Apóstolo João dava, na Palavra, um testemunho edificante e convincente do poder da perseverança. Se ele sofrera tanto para, sem desistir, para espalhar o Evangelho e salvar tantas almas, por que ela, Maria, não podia também, com a força da sua fé e o poder da oração, livrar sua irmão das garras do diabo?

Agradeceu ao Senhor Jesus pela mensagem, enchendo-se de coragem e disposição para lutar e vencer. Enquanto isso, não longe dali, Rodrigo fechava o cerco ao redor de sua presa. Úrsula estava deslumbrada com aquela vida de facilidades que ele lhe proporcionava, valorizando tudo isso pelo fato de que, até aquele momento, o máximo que ele fizera fora beijá-la, mesmo assim com certo respeito. Em momento algum ele a tocara ou lhe fizera qualquer proposta indecorosa.

Na noite anterior, inclusive, haviam ido jantar e ele deixara que ela tomasse um pouco de vinho. Ele ficou embriagada facilmente, pois não estava acostumada a beber. Tornou-se uma presa fácil para ele, que poderia tê-la levado a um motel e abusado dela, que ela não resistiria. Todo aquele clima de romantismo e carinho a havia envolvido completamente.

— Tome, isto é para você comprar uma roupa bem bonita, mas bonita mesmo! — disse ele, entregando algumas cédulas de cem para ela.

— Tudo isso, Rodrigo? — surpreendeu-se ela.

— Sim, quero que compre coisa fina mesmo. Um vestido bem bonito, calcinha, sutiã, meia e sapatos, tudo novo. Compre também um biquíni novo, que lá tem piscina. Dê um trato nas unhas e nos cabelos porque amanhã vamos a uma festa chique.

— Sério? — deslumbrou-se ela, admirada.

Rodrigo tinha amigos poderosos e conhecia gente influente. Ela se julgava a garota mais feliz e agradecida do mundo por ele gostar dela tanto quanto gostava.

— De verdade. Um político, amigo meu, está dando uma festa na sua cobertura amanhã. Coisa reservada, só para os mais chegados. Vou apresentar você para algumas pessoas. Faça o possível para não me envergonhar, está bem? Quero ter orgulho de você.

— Quem mais vai lá?

— Vai ter uma porção de meninas como você. Pode ir se enturmando, que vão se encontrar com freqüência. Mas nada de espalhar isso por aí, está certo?

— Pode confiar em mim, Rodrigo. O que você pedir, eu faço — respondeu a garota, agradecida, beijando as mãos de seu benfeitor.

Satisfeito, Rodrigo a levou para casa, despedindo-se dela com um beijo respeitoso. Assim que se afastou de carro, ele apanhou o celular e ligou.

— Mônica? Tudo certo, tenho uma novilha de primeira. Coisa fina, você vai gostar. Sua proposta me interessou muito e acho que vou entrar nesse ramo também. Se dá para ganhar tanto dinheiro, não vejo como ficar fora. Vou levá-la na festa para você avaliar, mas tenho certeza que vai gostar muito dela. Certo?

Quando desligou, um sorriso de satisfação pairava em seu rosto. A maldade se espelhava em seus olhos frios e sem brilho.


 

Capítulo 5

 

 

“E não te pouparei, nem terei piedade. Conforme os teus caminhos, assim te punirei, enquanto as tuas abominações estiverem no meio de ti e sabereis que eu, o Senhor, castigo.” (Ez 7:9)

Estavam num dos motéis mais luxuosos da cidade. Salgado, satisfeito da vida, não percebia o ridículo que era um homem como ele, com sua idade e sua aparência, fazer-se acompanhar de uma menina que poderia ser sua filha.

Era um par que destoava totalmente. Ele era gordo, com uma barriga saliente, rosto corado, cabelos ralos e rugas se formando no rosto. Michele era jovem, transbordando beleza e vitalidade.

Naqueles momentos, quando estava com seu amante, ela via apenas dinheiro a sua frente e encarava aquilo tudo, até certo ponto doloroso para ela, como um trabalho sujo que tinha de fazer para ter tudo aquilo que julgava merecer.

Naquela noite, Salgado tinha motivos para estar feliz. Afinal, tudo parecia estar muito bem encaminhado em sua vida. A ação do Exu Caveira seria decisiva para afastar seus concorrentes e o sucesso estava garantido. Não tinha mais com que se preocupar.

Michele estava particularmente carinhosa naquela noite, porque tinha um interesse especial. Precisava arrumar mil e quinhentos reais para entregar à Pomba Gira, para que fizesse um malfeito contra a esposa do Salgado.

Percebeu que ele estava contente e incentivou-o, fazendo-o beber algumas doses a mais de uísque. Quando ele estava bem relaxado, ela atacou.

— Benzinho, vou precisar de um dinheirinho a mais — disse ela, toda melosa.

— Mais dinheiro, amorzinho? Você vai deixar o velho Salgado quebrado, sabia?

— Você não é velho e não vai quebrar nunca. É homem rico e vai ficar ainda mais rico.

— Pode ter certeza que sim, meu bem. Andei tomando as minhas providências para nada dar errado. De quanto você precisa?

— Mil e quinhentos!

— Tudo isso?

— É… Preciso equipar o carro… Comprar umas roupinhas novas… Você, um homem rico e poderoso, não vai querer sair comigo se eu estiver toda molambenta, vai?

Ele riu, sem preocupações. O que era uma quantia como aquela para um homem que em poucos meses teria centenas de milhares de reais de lucro?

— Para quando você precisa desse dinheiro? — quis ele saber.

— Para quando for possível, benzinho.

— Vou lhe dar um cheque, mas você só solta na terça-feira. A conta está no vermelho, mas tenho algumas duplicatas para receber na segunda. Está bom?

— Tudo bem! — concordou ela, satisfeita.

— Então dá um beijinho de agradecimento no seu Salgadinho — exigiu ele.

Michele fechou os olhos, ignorou o bafo de uísque e fez o que precisava fazer para merecer seu dinheiro. Afinal, aquilo não deixava de ser uma espécie de profissão.

Quando se separou de Salgado, já de madrugada, foi para um bar e, sozinha num canto, ficou bebendo, sentindo-se vazia. O cheque que ele lhe dera, para fazer o trabalho com a Pomba Gira, parecia não ter muito sentido. Que vida era aquela, afinal?

*

Naquela manhã alegre de sábado, a caminho do trabalho, Alfredo passou pela casa do Pastor Messias, seu grande amigo e confidente. Contou-lhe o que vinha acontecendo com Michele. O pastor o ouviu atentamente, demonstrando preocupação.

Conhecia aquela menina desde criança. Fora uma das mais atuantes na escola dominical. Quando ficou mocinha, participava do coro e era um encanto ver a alegria e amor que transbordavam de seus olhos, quando participava do culto.

Depois que ela se afastou, ele não desistira. Continuou insistindo, tentando trazê-la de volta, mas era inútil. Michele se esquivava. Havia se transformado. Num curto espaço de tempo, passou de uma menina doce e meiga para uma mulher sofrida e vazia.

— O que podemos fazer para ajudá-la, pastor? Gosto muito dela. Muito mesmo e me entristece ver o que ela está fazendo consigo mesma.

— Participo do seu sofrimento, meu irmão, mas só podemos ajudar a quem deseja ser ajudado. O diabo a cegou e ensurdeceu. Ela não ouve a Palavra nem vê o Verdadeiro Caminho. Concordo totalmente com você. Não podemos deixá-la se perder bem diante dos nossos olhos, sem nada fazer.

— Pensei em fazermos uma corrente de oração por ela.

— Uma só, não. Muitas. Todas que se fizerem necessárias. A partir do culto de hoje, vamos nos unir em oração por ela. De minha parte, vou continuar insistindo com ela. Quero ver o que se pode fazer.

Assim que Alfredo foi embora, o pastor se recolheu com sua Bíblia. Cortava-lhe o coração ver o amor que o rapaz dedicava a Michele ser desprezado daquela forma, tanto quanto o revoltava ver a obra de Satanás imperar sobre uma criatura de Deus.

Buscou inspiração em sua Bíblia, abrindo-a em Da 9:19.

Ó Senhor, ouve; ó Senhor, perdoa! Ó Senhor, atende-nos e põe mãos à obra sem tardar, por amor de ti mesmo, ó Deus meu, porque a tua cidade e o teu povo se chamam pelo teu nome!”

Mal terminou de ler e meditar rapidamente sobre esse trecho, a campainha tocou. Foi atender. Desta vez era Maria, apressada, a caminho do trabalho.

— Pastor, orei muito ontem à noite pela minha irmãzinha, a Úrsula. Estou preocupado com ela. Está namorando o Rodrigo e ficou deslumbrada com toda aquela ostentação que é marca registrada dele. O que podemos fazer por ela, pastor?

— Continue orando, minha irmã. Vamos cuidar disso. Os problemas são muitos porque a obra de Deus não pode parar. Se o diabo quer nos atrapalhar, mais fé e mais perseverança ainda devemos demonstrar. Vá em paz, na graça de Deus, que o Seu poder é maior que toda a maldade do universo.

Assim que Maria se afastou, o pastor foi apanhar sua Bíblia. Os tempos estavam cada vez mais sombrios. Satanás atacava em diversas frentes e seu alvo principal, naquele momento, eram os jovens que, ainda vacilantes em sua fé, deixavam-se iludir pelo brilho do ouro e pelo falso poder do dinheiro.

Foi meditar um pouco e, para isso, consultou novamente sua Bíblia, abrindo-a em At 9:15-18.

“Disse eu:

— Quem és, Senhor?

Respondeu o Senhor:

— Eu sou Jesus, a quem tu persegues, mas levanta-te e põe em pé; pois para isto te apareci, para te fazer ministro e testemunha tanto das coisas em que me tens visto como daquelas em que te hei de aparecer, livrando-te deste povo e dos gentios, aos quais te envio, para lhes abrir os olhos a fim de que se convertam das trevas à luz e do poder de Satanás a Deus, para que recebam remissão de pecados e herança entre aqueles que são santificados pela fé em mim.”

Não era preciso aprofundar-se no entendimento daquele trecho, pois a mensagem divina era clara. A sua missão estava bem definida e cabia a ele realizá-la. Como enviado de Cristo, tinha de enfrentar Satanás e vencê-lo, pelo poder e pela graça de Deus.

*

Naquele sábado, quando fechou o caixa, Salgado estava eufórico. Vendera horrores, graças à promoção, à propaganda e aos preços e condições bastante acessíveis. Os clientes vieram em peso e a loja esteve cheia o tempo todo.

Uma parte da venda fora à vista e o restante a prazo. Era, para um dia como aqueles, um recorde difícil de ser quebrado, tamanho foi o sucesso e o volume de mercadorias. Os caminhões de entrega não pararam, o dia todo circulando de um lado para outro.

Pedira a um dos seus empregados que fosse dar uma olhada nas lojas de seus concorrentes, para ver se estava acontecendo o mesmo.

— Patrão, está tudo vazio! Os vendedores estão na porta, um olhando para a cara do outro, sem fazer nada.

— Isso é ótimo! — afirmou Salgado, satisfeito.

Tinha motivos de sobra para confiar no trabalho de Pai Nozinho e na força do Exu Caveira. Custara um bom dinheiro, mas tinha valido a pena. Só num dia já havia recuperado dez vezes o dinheiro que investira no trabalho. Tinha dinheiro para cobrir a conta devedora, pagar o cheque de Michele e até resgatar o empréstimo que fizera com o agiota, saindo por cima de toda aquela situação.

— Que dia, seu Salgado! — falou Maria, antes de ir embora.

— Eu não disse para você? Aquele benzimento e aquelas simpatias valeram mesmo a pena.

— Eu também orei muito pelo senhor, seu Salgado!

— Ah, Maria, mas o que conta mesmo foi o trabalho que fiz ontem à noite. Coisa brava, poderosa mesmo! — disse ele, em tom confidente.

— Seu Salgado, por favor, só espero que não esteja mexendo com forças que não conseguirá controlar depois.

— Do que você está falando, Maria? Deixa de ser boba, menina! Com isto aqui em controlo o que eu quiser! — assegurou ele, mostrando um maço de notas de cem para ela.

— Em Atos 8, versículos 14 a 23, há uma passagem interessante, seu Salgado. Os apóstolos Pedro e João foram até Samária orar para que as pessoas de lá recebessem o Espírito Santo, porque sobre nenhum deles havia Ele descido ainda, mas já haviam sido batizados em nome do Senhor Jesus. Eles lhes impuseram as mãos e eles receberam o Espírito Santo. Quando irmãzinha viu que pela imposição das mãos dos apóstolos se dava o Espírito Santo, ofereceu-lhes dinheiro, dizendo: “Dai-me também esse poder, para que aquele sobre quem eu impuser as mãos, receba o Espírito Santo.” Disse-lhe Pedro: “Vá tua prata contigo à perdição, pois cuidaste adquirir com dinheiro o dom de Deus. Tu não tens parte nem sorte neste ministério, porque o teu coração não é reto diante de Deus. Arrepende-te, pois, dessa tua maldade e roga ao Senhor para que porventura te seja perdoado o pensamento do teu coração. Vejo que estás em fel de amargura e em laços de iniqüidade.”

— E daí, Maria? O que você quer provar com isso, além de demonstrar que tem boa memória e que lê a Bíblia? Eu já lhe disse que também li a Bíblia e muitas vezes mais do que você. Lembra-se do que eu lhe falei no começo da semana? Que queria ver sua boa memória, quando estivesse recebendo as comissões de suas vendas. Pelo que sei, você foi uma das que mais vendeu hoje.

— Graças a Deus, seu Salgado. Só que o senhor não entendeu nada do que eu quis lhe dizer. Ninguém pode comprar o poder do Espírito Santo. Quanto às vendas, já que o senhor leu muitas vezes a Bíblia, será que se lembra de uma passagem no Livro do Eclesiastes, capítulo 3, versículo 13, que diz: que todo homem coma, beba e goze do bem de todo o seu trabalho é dom de Deus.

— Ah, Maria, você está muito petulante, sabia? Se não fosse uma de minhas melhores vendedoras, juro como cortava suas asinhas de uma vez por todas. Não seja mal agradecida. Se quiser trazer seu pastor aqui, para abençoar a loja, fique à vontade. Desde que ele me garanta vendas, não faço questão.

— Acho que era isso mesmo que se deveria fazer, seu Salgado. Isto aqui está cheio de coisas que nem sei explicar o que é — finalizou ela, saindo.

Na saída encontrou Miguel, com seu semblante preocupado.

— E daí, Miguel, tudo bem?

— Tudo bem, Maria!

— Você continua preocupado, não?

— É minha mãe…

— Não quer levá-la à igreja hoje à noite?

— Eu falei com ela, mas não sei se a convenci.

— Insista com ela. O poder de Deus opera milagres. Tenho visto coisas maravilhosas acontecerem, pela graça do Espírito Santo.

— Vou tentar. Se conseguir, eu telefono para você, está bem?

— Faça um esforço, Miguel. Pode ser muito importante para ela.

— Vou tentar.

Enquanto isso, em seu escritório, Salgado ligava, satisfeito da vida, para Michele.

— Minha queridinha, não sabe o que aconteceu hoje na loja. Vendi horrores. Nunca vendi tanto quanto hoje. Agora acho que acertei.

— Que ótimo, amorzinho! — falou ela, com sua voz mais melosa.

Tinha traçado seus planos e iria realizá-los.

— Olha, aquele cheque, você pode soltar na segunda-feira — avisou ele.

— Que bom, amor! Vou poder fazer o que preciso, então. A gente vai se ver hoje à noite?

— Sim, no motel de sempre, só que mais cedo hoje. Preciso comemorar. Estou muito contente com as vendas.

Ela pensou um pouco e achou que era hora de começar a sondar suas possibilidades.

— Ah, amor, estou ficando cansada de freqüentar motéis.

— Por que isso agora, queridinha?

— Não, sei, eu fico sentida de não poder receber você direitinho, fazer uma comidinha. Sabia que eu sei cozinhar?

— Pára com isso, Michele! Quero você como uma bonequinha, como uma manequim, que não tem que ficar se engordurando na beira de um fogão. Já pensou eu chegar e, ao lhe dar um abraço, sentir cheiro de óleo nos seus cabelos?

— Tolinho! Tem uma porção de coisas que a gente pode preparar no microondas.

— No motel é mais cômodo. A gente consulta o cardápio e pede. Não tem que se preocupar com nada, nem em lavar a louça. Já pensou você com as unhas todas estragadas, de mexer com as panelas? Não, Michele, isso não fica bem em você.

— Tudo bem, não cozinho, então, mas gostaria de ter um cantinho só nosso, que eu pudesse deixar assim com a cara do nosso amor. O que me diz?

— Ah, não sei. Acho que não precisa. Está tão bom assim!

Ele não havia entendido ainda onde ela pretendia chegar, por isso Michele achou por bem parar por ali mesmo. Combinou com ele o encontro e, assim que desligou, telefonou para o terreiro que visitara na noite anterior.

— Dá para fazer o trabalho hoje à noite mesmo? — indagou ela.

— Se estiver com tudo na mão…

— O dinheiro pode ser em cheque? É quente!

— De quem é?

— Do Salgado, da loja de móveis e eletrodomésticos. Aquela enorme, na avenida.

— Ah, sim, dele pode. Traz tudo direitinho que eu encaixo logo no primeiro trabalho da Pomba Gira.

— Que ótimo! Vou me encontrar com ele logo mais e quero tocar nesse assunto bem de perto com ele.

— A que horas você vai se encontrar com ele?

— Às oito!

— Nesse horário a Pomba Gira vai fazer o trabalho. Pode insistir que você conseguirá o que deseja e merece.

Michele estava confiante e radiante, quando desligou. Naqueles momentos, uma falsa euforia invadia seu corpo, dando-lhe uma alegria passageira. Sabia, porém, que no fim da noite estaria triste, bêbada e acabada, como estivera na noite anterior.

Saiu à janela. Pessoas chegavam e saíam de suas casas, naquele começo de noite. Alfredo passava, com sua Bíblia na mão, a caminho da igreja. Ao vê-lo, Michele teve um estremecimento. Ele a viu também e, por instantes, parou em frente da casa dela. Ficaram se olhando.

— Tudo bem, Michele? — indagou ele.

— É, tudo bem! — respondeu ela, sentindo-se perturbada diante daquele olhar.

Havia uma força interior enorme em Alfredo e isso fazia o coração de Michele pulsar de forma diferente. Seu rosto se abrandou e se encheu de ternura. Lágrimas brilharam em seus olhos e ela sentiu uma vontade enorme de chorar pelo que estava deixando escapar pelos vãos dos dedos, embora não conseguisse identificar o que era.

Parecia que o olhar de Alfredo se transformava numa areia fina, que ela sentia cair em suas mãos, mas que não conseguia reter. Aquela areia era morna e cheia de amor, um amor que podia transformá-la.

Teve medo disso, desviando os olhos e fitando o céu. Nuvens escuras anunciavam uma chuva próxima.

— Vai chover muito! — disse ela, sem olhá-lo.

— Tomara que chova bênçãos! — falou ele, esboçando um sorriso. — Não quer ir à igreja comigo?

Ao ver que ela não respondia e ainda evitava olhá-lo, ele se despediu e se afastou, com o coração pequenino no peito. Michele ficou na janela, sentindo a mesma coisa, sem vontade de ir se preparar para seu encontro com Salgado que, naquele momento, chegava em casa, com o filho. Miguel correu ao quarto da mãe. Pretendia insistir com ela para ir à igreja. Quando entrou, ela estava no leito, contorcendo-se em dores.

— Pai! — gritou ele, em desespero.

Salgado subiu dois a dois os degraus da escadaria que levava aos quartos de sua mansão. Mal sabia ele que o castigo começava a se abater sobre ele.


 

Capítulo 6

Mas os que querem tornar-se ricos caem em tentação, em laço e em muitas concupiscência loucas e nocivas, as quais submergem os homens na ruína e na perdição. (1Tm 6:9)

Úrsula estava absolutamente fascinada por aquele mundo novo, que acabava de descobrir. Sentiu-se desajeitada e fora de seu ambiente natural no início, mas depois, ao perceber como todos lhe davam atenção e ao concluir que era a menina mais bem vestida e mais bonita da festa, deixou que a vaidade lhe subisse à cabeça.

Rodrigo, ao seu lado, policiava todas as suas atitudes. Não a deixou tomar nenhuma bebida alcoólica e apresentou-a a todos os homens presentes na festa.

Eram industriais, executivos, profissionais liberais, todos muito bem vestidos, exibindo anéis de formatura, sapatos extremamente polidos, ternos de corte impecável. Eram homens perfumados, bem penteados, com unhas feitas e, mesmo aqueles que já haviam passado dos cinqüenta, não deixavam de exibir charme e educação.

Quando chegaram, Úrsula reparou que só havia carros importados, último tipo, todos brilhando. Isso a fez concluir que ali estava a nata da sociedade, os homens mais ricos e poderosos que se poderia encontrar.

Não estranhou que eles estivessem sozinhos, sem as esposas. A cobertura estava cheia de meninas novas, algumas adolescentes ainda, mas reinava total respeito. Ninguém tocava ninguém e isso foi o que lhe deu segurança e que a fez admirar ainda mais Rodrigo.

— E então, não lhe disse que seria uma festa legal? — indagou ele, quando saíram à sacada para tomar ar.

— Rodrigo, que gente distinta. Você viu?

— Maior respeito, percebeu? — ressaltou ele, convencido.

— E como. Nenhuma cantada, ninguém me disse nada mal educado, todos eles foram finos.

— São esses os meus amigos. Se você gostou do ambiente, eu posso levá-la a outras festas como esta. Aliás, estive conversando com a dona da casa, minha amiga Mônica, e ela está organizando um concurso de beleza entre as garotas conhecidas. O prêmio é uma viagem a Cancun, com um acompanhante, mais dois mil dólares para os gastos.

— Está brincando!

— Verdade! Pensei até em sugerir que você participasse, mas não sei se gostara.

Os olhos dela brilharam, cheios de interesse.

— Acha que eu tenho chances?

Ele riu, como se ela tivesse dito uma bobagem.

— Olhe na sala — ordenou ele, segurando-a pelos ombros e fazendo-a se voltar para olhar as pessoas lá dentro.

— O que tem? — quis ela saber.

— Você é a menina mais bonita da festa. Se entrar, vai ganhar esse concurso na certa.

— Uma viagem a Cancun…

— Com um acompanhante?

— Sim, com um acompanhante.

— Você vai comigo?

— Se tudo der certo…

— Então eu quero participar.

Ele sorriu, convencido de seu poder sobre ela.

— Eu tinha tanta certeza que você participaria que até já fiz sua inscrição.

— Sério?

— Claro que sim, querida. Não existe outra mais bonita do que você. Só que o concurso é daqui a três meses ainda. Até lá, vou matricular você numa academia e você vai malhar legal, fazer uma consulta médica, seguir uma dieta, cuidar-se muito bem, porque esse concurso vai dar o que falar. Com certeza teremos a presença de produtores, fotógrafos, diretores de agências de modelos e toda essa gente. Se você se destacar, pode se tornar uma top-model facilmente.

Os olhinhos dela continuavam brilhando. Em sua mente desfilavam imagens de ambientes glamorosos, cenários chiques, pessoas famosas e viagens fantásticas. Era o mundo dos sonhos de qualquer garota bonita e ingênua como ela, à espera de uma transformação radical em sua vida.

— Vamos ter que produzir você e torná-la conhecida. Por isso é importante que você circule nessas festas comigo. Daqui a quinze dias teremos outra, no sítio de um amigo meu. Mônica tem uma boutique de aluguel de roupas e vou abrir uma conta para você lá. A cada festa você vai usar roupas, sapatos e bolsas diferentes, sempre muito chiques.

Os olhos dela se encheram de lágrimas, olhando Rodrigo.

— Puxa, Rodrigo, você é tão legal comigo! — afirmou ela, abraçando-o.

Ele a segurou junto de si, sorrindo cinicamente. Naquele momento, Mônica, a dona da casa, apareceu.

— Vocês dois não estão gostado da festa? — indagou.

— Oh, sim, estamos adorando! — afirmou Úrsula.

— Então vá conhecer o pessoal que acabou de chegar. Preciso trocar uma palavrinha com o Rodrigo.

— Vai lá, querida. Eu já vou. Só vou confirmar uns detalhes com a Mônica.

Úrsula se afastou cheia de felicidade, sentindo-se a rainha da festa, a garota mais bonita e mais desejada de todas ali presentes. Os olhares de Mônica e de Rodrigo a seguiram, acompanhando os movimentos graciosos de seu corpo jovem e perfeito.

— Essa aí promete — comentou Mônica.

— Estou investindo nisso.

— Não está se apaixonando por ela, não é? — indagou Mônica, num tom zombeteiro.

— Pare com isso, Mônica! Você me conhece, não? Não misturo as coisas.

— E daí, convenceu a menina a participar do leilão?

— Concurso de beleza, Mônica — corrigiu-a ele.

Mônica riu, divertida com a observação.

— Certo, do concurso de beleza.

— Sim, vai participar.

— Explicou os detalhes para ela?

— Somente aquilo que interessava para ela saber. Disse que é um concurso, que o prêmio é uma viagem a Cancun, mais dois mil e quinhentos dólares e que vai haver fotógrafos e gente ligada ao ramo da moda, de olho nela.

— Pobrezinha! Quando der por si, já estará vendida e entregando sua virgindade para algum desses safados aí — falou Mônica, com uma ponta de desprezo.

— Você, que tem experiência no ramo, diga-me a quanto podem chegar os lances por ela?

Mônica ficou em silêncio por instantes, avaliando.

— No último leilão, uma garota foi trocada por um Tipo zero. Essa aí deve valer um Tempra.

— Se eu soubesse que esse negócio dava tanto lucro, já teria entrado nele há mais tempo.

— Você é bom nisso, Rodrigo. Tem um olho clínico para escolher as meninas. Por que não traz mais duas ou três como essa?

— Já estou cuidando disso — afirmou ele, rindo satisfeito.

— Mas não esqueça, elas têm que ser virgens.

— Para me certificar, todas as garotas que eu trouxer passarão por um exame médico antes. Tenho um amigo ginecologista que vai me dar até atestado de virgindade, se eu pedir.

— Isso, acima de tudo, segurança! Vou gostar de trabalhar de parceria com você, Rodrigo.

*

Naquela noite, quando fazia sua pregação, o Pastor Messias via o rostos de Maria e de Alfredo, juntos na primeira fila, lembrando-o das duas ovelhas ameaçadas. Uma era Úrsula, outra era Michele. Tinha uma grande afeição pelas duas, pois as conhecia pessoalmente. Quando orou, incluiu em sua oração um pedido especial para aqueles que se deixavam deslumbrar pela ostentação e pelas falsas aparências. Ao término do culto, Maria e Alfredo se aproximaram, agradecendo pela oração. Eles sabiam que ela havia sido especial e feita a pedido deles.

Estavam conversando, quando uma amiga de Maria, que trabalhava com ela na loja, entrou na conversa.

— Maria, soube o que aconteceu? — perguntou.

— Não, o que aconteceu? — quis saber Maria, percebendo a expressão preocupada da outra.

— A mulher do seu Salgado foi internada. Está passando mal mesmo.

— O Miguelzinho me disse mesmo que ela estava doente, mas não pensei que estivesse tão mal — comentou Maria.

— E se nós fôssemos visitá-la? Talvez consigamos levar conforto — propôs Alfredo.

— Eu levo vocês no meu carro — prontificou-se o pastor.

Meia hora mais tarde estavam na sala de espera do hospital. Salgado estava preocupado, olhando o relógio a todo momento. Miguel, a um canto, tinha os olhos vermelhos e o olhar entristecido. Ao ver Maria chegando, correu ao encontro dela, abraçando-a.

— Fique tranqüilo, Miguel, tudo vai acabar bem — confortou-o ela.

— Ela ficou ruim, Maria. Você precisava ver. Eu fiquei com medo. Quando vi minha mãe daquele jeito eu nem sei o que fiz…

— Calma, vai passar. Como está ela?

— Está lá dentro ainda. Os médicos nada disseram. Parece que vão ter que operar.

— Venha, vamos até o corredor tomar um pouco de água. Assim você se acalma.

Enquanto Maria levava o menino dali, Salgado aproveitou para pegar seu celular e ligar para Michele.

— Não pude ligar antes…

— Você me deixou morrendo de preocupação! — protestou ela.

— Foi minha mulher. Teve uma crise. Está na mesa de operação. Não sei… Acho que não escapa!

Do outro lado da linha, Michele sentiu um calafrio percorrer seu corpo, lembrando-se do trabalho que encomendara para a Pomba Gira. Fora fulminante. Isso a deixou sem reação. Não sabia se ficava alegre com isso ou se deixava que o medo tomasse conta dela. Percebeu que havia mexido com forças acima de seu controle e que isso poderia custar uma vida.

— Michele, você está aí? — insistiu Salgado.

— Sim… Fiquei chocada — gaguejou ela, desejando desligar ou acordar para perceber que fora um pesadelo, que nada daquilo estava acontecendo.

— Assim que der, eu ligo de novo — falou ele, percebendo que Maria retornava com Miguel.

O pastor havia observado a cena e percebido o que se passava. Conhecia a história e se sentiu até certo ponto revoltado com aquele papel desempenhado pelo comerciante. Pediu forças e paciência ao Senhor e se aproximou.

— Com a graça de Deus, tudo vai correr bem, Salgado — disse.

— Tomara que sim, pastor — respondeu o comerciante, que não queria muita conversa.

Ambos já se conheciam. O pastor sabia que Salgado havia sido batizado na igreja católica, mas era, na verdade, um homem sem uma crença definida e sólida, pois acreditava em tudo que lhe fosse apresentado.

Era só freqüentar sua loja para ver imagens, amuletos e talismãs espalhados por todos os cantos. Havia tentado alguma vezes atraí-lo para a igreja, mas Salgado era resistente e parecia se sentir bem na companhia dos representantes do mal.

— Se houver alguma coisa que a gente possa fazer — disse o pastor.

— Vocês não tem uma reza poderosa aí para fazer médico cobrar barato?

O pastor ficou chocado com a frieza daquele homem diante dele. Naquele momento, quando sua esposa estava correndo risco de vida, ele estava mais preocupado com o dinheiro que gastaria com ela do que com sua saúde.

Quem ama o dinheiro não se fartará de dinheiro nem o que ama a riqueza se fartará do ganho. Também isso é vaidade — disse o pastor, citando Eclesiastes 5:10.

— Já comentamos a respeito disso, pastor, e nossas opiniões não são iguais. Não me venha dizer que não gosta de dinheiro, que eu não engulo. Esse negócio de dízimo, para mim, sinceramente, é roubalheira, é tomar dinheiro dos pobres e dos trouxas, sabia? Desculpe a grosseria, mas hoje não estou muito bem. Dá para entender, não é?

— Este pode não ser o momento oportuno, Salgado, mas quem conhece os caminhos do Senhor. Ele pode estar me mostrando agora como abrir as portas do seu coração para ele. Se o assunto dinheiro lhe chama a atenção, leia isto aqui — disse o pastor, abrindo a sua Bíblia num trecho grifado de 1 Crônicas 29:10-17.

A contragosto, Salgado apanhou para ler. Miguel se aproximou e acompanhou a leitura feita pelo pai.

“Bendito és tu, ó Senhor, Deus de nosso pai Israel, de eternidade em eternidade. Tua é, ó Senhor, a grandeza, o poder, a glória, a vitória e a majestade, porque teu é tudo quanto há no céu e na terra.

Teu é, ó Senhor, o reino e tu te exaltaste como chefe sobre todos. Tanto riquezas como honra vêm de ti, tu dominas sobre tudo e na tua mão há força e poder. Na tua mão está o engrandecer e o dar força a tudo. Agora, pois, ó nosso Deus, graças te damos e louvamos o teu glorioso nome. Mas quem sou eu, e quem é o meu povo, para que pudéssemos fazer ofertas tão voluntariamente? Porque tudo vem de ti e do que é teu to damos, porque somos estrangeiros diante de ti e peregrinos, como o foram todos os nossos pais.

Como a sombra são os nossos dias sobre a terra e não há permanência. Ó Senhor, Deus nosso, toda esta abundância, que preparamos para te edificar uma casa ao teu santo nome, vem da tua mão e é toda tua. Bem sei, Deus meu, que tu sondas o coração e que te agradas da retidão. Na sinceridade de meu coração voluntariamente ofereci todas estas coisas e agora vi com alegria que o teu povo, que se acha aqui, ofereceu voluntariamente.

— Tudo bem, pastor, e o que isso prova?

— Eu não sei, Salgado, estou lhe dando a Palavra de Deus. Leia e tire suas conclusões. Já que o dízimo lhe incomoda tanto, leia mais este trecho somente — insistiu o pastor, abrindo sua Bíblia em 1 Coríntios 9:4-14.

“Não temos nós direito de comer e de beber? Não temos nós direito de levar conosco esposa crente, como também os demais apóstolos, os irmãos do Senhor e Cefas? Ou será que só eu e Barnabé não temos direito de deixar de trabalhar?

Quem jamais vai à guerra à sua própria custa? Quem planta uma vinha e não come do seu fruto? Ou quem apascenta um rebanho e não se alimenta do leite do rebanho? Porventura digo eu isto como homem? Ou não diz a lei também o mesmo?

Na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca do boi quando debulha. Porventura está Deus cuidando dos bois? Ou não o diz certamente por nós? Com efeito, é por amor de nós que está escrito, porque o que lavra deve lavrar com esperança e o que debulha deve debulhar com esperança de participar do fruto.

Se nós semeamos para vós as coisas espirituais, será muito que de vós colhamos as materiais? Se outros participam deste direito sobre vós, por que não nós com mais justiça? Mas nós nunca usamos deste direito. Antes suportamos tudo, para não pormos impedimento algum ao evangelho de Cristo.

Não sabeis vós que os que administram o que é sagrado comem do que é do templo? E que os que servem ao altar, participam do altar? Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho.”

— Eu não quero discutir esse negócio de religião, não aqui — protestou Salgado, percebendo que havia sido injusto para com o pastor.

Este, por seu turno, percebeu que, de alguma forma, havia tocado o coração daquele homem. Por um só momento, percebeu a sua frente uma ovelha desgarrada, solitária e confusa, num cenário desconhecido.

— Só para finalizar, Salgado. Sei de gente que vai a esses terreiros e paga verdadeiras fortunas para o Exu Caveira, o Tranca Ruas, a Pomba Gira e mais um monte de outros servos do demônio, para que lhes façam trabalhos que nem vale a pena citar aqui — disse o pastor, olhando o comerciante nos olhos.

Salgado estremeceu.

— Essas mesmas pessoas, Salgado, não contribuem com um centavo para que um servo de Senhor divulgue a Palavra, promova curas e salvação. Não acha isso uma tremenda injustiça.

Salgado ficou sem resposta. Nesse momento, um médico surgiu na sala de espera. Era amigo de Salgado e do pastor. Seu olhar era de consternação.

— Abrimos… Mas achamos melhor fechar. Não há nada que possamos fazer. O câncer já se espalhou — disse, em voz baixa. — Ela vai ter que ficar internada até… Bem, você sabe do que eu estou falando.

Salgado estremeceu e respirou fundo. Sabia que tudo aquilo iria lhe custar um rio de dinheiro. Tinha de confiar, mais do que nunca, no trabalho do Exu Caveira para sair daquela situação.


 

Capítulo 7

 

 

“No amor não há medo. O perfeito amor lança fora o medo, porque o medo envolve castigo e quem tem medo não está aperfeiçoado no amor.” (1Jo 4:18)

Michele conheceu o inferno em vida a partir daquele telefone de Salgado. Nos três meses que se seguiram, ela sentiu pairar sobre si uma asa negra, uma sombra tenebrosa e ameaçadora, que parecia gargalhar de seus atos e do sofrimento interior que se abateu sobre ela.

Tinha certeza que era a causadora dos tormentos que agora assaltavam a esposa de seu amante. Entrevada numa cama, ela urrava de dor, sentindo o câncer corroer-lhe as entranhas. Os medicamentos mais poderosos não aliviavam suas dores e nem os médicos sabiam explicar o que acontecera.

Procurou o terreiro. Para desmanchar o trabalho, teria de pagar muito dinheiro, mas não queria pedir ao Salgado. Sabia que ele estava gastando uma fortuna para manter a mulher internada.

Evitava vê-lo. Não conseguia se aproximar dele, sabendo que tudo aquilo fora culpa dela. Ao invés de se livrar da rival, arrumara uma dor de cabeça a mais para o amante.

Para aliviar sua consciência, bebia e dormia embriagada. Quando acordava, a ressaca era terrível e ela se sentia ainda mais culpada, por isso bebia mais. Sua beleza foi perdendo o viço. Ela fichou inchada, feia, desleixada.

Só sabia entrar no seu carro e rodar pelo bairro, parando de bar em bar, até estar tão bêbada que mal conseguia voltar para casa.

Alfredo a viu assim, um dia, num fim de tarde, quando voltava para casa. Ela estava num bar, bebendo sozinha. Não era mais nem um pálido reflexo da menina bonita e adorável que ele conhecera e amara um dia.

Ficou com pena dela. Pena pelo amor que ainda sentia. Ia se afastar, com o coração aos pedaços, mas viu-a se levantar da mesa do bar e caminhar até a calçada. Ao fazer isso, tropeçou e caiu. Todos riram e zombaram ela.

Alfredo sentiu vontade de sumir dali, mas viu Michele tentar se levantar e não conseguir, de tão bêbada que estava. Ficou sentada na sarjeta, soluçando, com a maquilagem dos olhos se desfazendo e transformando seu rosto numa máscara.

Ele se deixou levar pelo coração. Aquele farrapo humano fora, um dia, a garota dos seus sonhos. Isso parecia ter acontecido havia tanto tempo, mas ele não podia deixar de sentir algo por ela. Nem que fosse piedade, mas seu coração ainda batia mais rápido na presença dela.

Foi até lá. Ao vê-lo, ela escondeu o rosto entre as mãos e chorou ainda mais. Os outros bêbados no bar continuavam rindo e zombando. Ela apanhou as chaves do carro na bolsa e tentou se levantar. Cambaleou e quase caiu. Alfredo a amparou.

Ao sentir a firmeza dos braços dele, aparando-a, ela soluçou e se deixou guiar gentilmente. Ele a pôs no carro e assumiu o volante. Não podia levá-la para a casa dela naquele estado. Lembrou-se de Míriam, a amiga dos dois. Rumou para lá.

— Ela está mal! — comentou, enquanto ajudava Míriam a levá-la até o banheiro.

— Vou dar um banho nela. Não vá embora. Espere, talvez a gente consiga conversar com ela.

— Pobrezinha! Eu tenho tanta pena dela. Que pecado ela pode ter cometido para estar nesse estado?

— Seja qual for, o que ela precisa saber é que o perdão a espera. Basta querer receber o Senhor Jesus em seu coração. Conversei com ela um dia desses. Disse-me que estava ficando cada vez mais desesperada, queria parar de beber e não conseguia. Acho que ela está pedindo ajuda, Alfredo. Se com a graça de Deus isso se confirmar, podemos ter a nossa Michele de volta.

Os dois acomodaram Michele na banheira. A mãe de Míriam providenciou um café bem forte. Alfredo foi até a farmácia e comprou um remédio para ressaca. Demorou-se um pouco conversando com um amigo e, quando chegou, Michele estava numa cama, no quarto de Míriam.

Foi ter com ela, levando o remédio para bebedeira. Ao vê-lo entrar, ainda sob o efeito do álcool, Michele murmurou:

— Eis que chegou meu bom Anjo da Guarda.

Alfredo se aproximou.

— Fique aqui comigo — pediu ela, estendendo uma das mãos.

Alfredo, emocionado, segurou a mão dela.

— Diga alguma coisa boa… Alguma coisa doce… Alguma coisa que alegre a minha alma — pediu ela. — Estou tão triste! Tão desesperada! — soluçou ela.

Alfredo estendeu a mão, apanhando a Bíblia de Míriam, que estava sobre um móvel. Abriu-a ao acaso. Leu o Salmo 4.

“Responde-me quando eu clamar, ó Deus da minha justiça! Na angústia me deste alívio. Tem misericórdia de mim e ouve a minha oração.

Filhos dos homens, até quando convertereis a minha glória em infâmia? Até quando amareis a vaidade e buscareis a mentira? Sabei que o Senhor separou para si aquele que é piedoso. O Senhor me ouve quando eu clamo a ele. Irai-vos e não pequeis. Consultai com o vosso coração em vosso leito e calai-vos. Oferecei sacrifícios de justiça e confiai no Senhor.

Muitos dizem: Quem nos mostrará o bem? Levanta, Senhor, sobre nós a luz do teu rosto. Puseste no meu coração mais alegria do que a deles no tempo em que se lhes multiplicam o trigo e o vinho.

Em paz me deitarei e dormirei, porque só tu, Senhor, me fazes habitar em segurança.”

Quando ele terminou a leitura, Michele dormia profundamente, ainda segurando a mão dele. Alfredo tentou soltá-la, mas ela a havia prendido firmemente. Ele sorriu, olhando-a. Havia paz no rosto dela, trazendo de volta aquela beleza que ele conhecera.

Ao lado da cama, Míriam olhava com admiração aquela cena, pois percebera a transformação que se operara em Michele, a partir do momento em que Alfredo segurara a mão dela e lera a Palavra.

— Ela vai ser salva, Alfredo. O Senhor está me dizendo isso — falou Míriam, com convicção.

— Glória a Deus, então, Míriam. Você não sabe o quanto isso me faz feliz — disse ele e lágrimas brotaram em seus olhos.

— Vamos tentar levá-la à igreja. Vai ser muito bom se ela for, tenho certeza.

— Vou ficar aqui com ela, se não se importa, até que ela solte a minha mão — decidiu ele, arrumando, com carinhos, os cabelos de Michele, que dormia placidamente agora.

*

Em seu escritório, naquele começo de noite, Salgado vivia seu inferno particular, julgando que o céu desabava sobre sua cabeça. Estava tudo dando errado. Havia vendido, naqueles três meses, quase todo o seu estoque. Uma pequena parte à vista, mas o restante à prazo. O que não fora através de duplicatas fora em cheques pré-datados. Descontara as duplicatas no banco e trocara os cheques com seu amigo agiota.

O problema era que as duplicatas descontadas não estavam sendo pagas e os cheques pré-datados estavam sendo devolvidos. Houve uma explosão nas vendas, com todo mundo deslumbrado com o Plano Real, comprando como verdadeiros loucos.

Ninguém esperava, no entanto, que a inadimplência crescesse daquela forma. Todos haviam assumido prestações acima de suas possibilidades. A recessão que se insinuava no comércio em geral, com a liberação das importações e da concorrência estrangeira provocou muitas demissões.

Setores como a construção civil, bancos, indústrias e serviços em geral demitiram trabalhadores em massa. Essa gente toda agora, cheia de prestações, provocava um verdadeiro caos no comércio.

Em breve teria que pagar o estoque que comprara e não teria como. Estava com um monte de papéis sem valor nas mãos. Para complicar, o agiota cobrava um juro absurdo e a dívida crescia cada vez mais. Não conseguiria pagar a viagem de Soninha. O hospital estava lhe tirando até o último centavo. Sua mulher não melhorava. Continuava sofrendo naquele quarto. Michele não queria vê-lo.

Pai Nozinho vivia insistindo para fazer um outro trabalho, porque um concorrente havia feito algo muito forte, por isso tudo aquilo estava acontecendo. Só que esse trabalho custaria agora vinte mil reais para ser desfeito. Salgado estava cada vez mais desesperado.

Havia empenhado tudo que tinha e que não tinha naquela jogada. Se desse certo, ficaria rico, mas, da forma como acontecera, não apenas quebraria, como perderia tudo que ainda tinha.

Não sabia o que fazer. A cada vez que abria uma das gavetas de sua escrivaninha e via aquele revólver carregado, tinha vontade de fazer uma loucura. A única coisa que ainda o segurava eram os filhos. Não podia deixá-los na miséria, mas não sabia o que fazer.

Maria chegou até a porta.

— Seu Salgado, a loja está fechada e o pessoal já foi embora. Precisa de mais alguma coisa?

— Não, Maria, nada! — respondeu ele, distante.

Ela ia se afastando, quando ele levantou a cabeça.

— Maria! — chamou-a ele.

Ela se voltou. Ele hesitou, como se fosse muito difícil para ele dizer o que pretendia. Seus olhos se encheram de lágrimas.

— Você vai à igreja hoje?

— Sim, vou. Por quê?

Ele hesitou novamente, engolindo seco algumas vezes.

— Reze por mim, Maria. Estou precisando — pediu ele, com humildade.

Para Maria aquilo foi algo inesperado, que ela jamais sonhara ouvir. Olhou-o longamente, percebendo as lágrimas nos olhos dele. Depois olhou ao redor dele. Nos móveis e prateleiras havia imagens, amuletos e talismãs de todos os tipos. Nenhum deles podia ajudá-lo e ele, graças a Deus, estava começando a perceber isso.

Maria caminhou até a mesa dele.

— Seu Salgado, o Miguelzinho vive pedindo para eu orar pela mãe dele e me diz sempre que ele gostaria de poder ir à igreja fazer isso pessoalmente. Por que o senhor não o leva? Pode ser bom para os dois.

— O que eu vou fazer lá, Maria? Olhe para mim, olhe ao meu redor. Sou um homem sem crença e sem fé. Naquela noite, quando o pastor foi lá no hospital, eu o destratei com a minha ignorância…

Vinde a mim, todos os que estão cansados e oprimidos e eu os aliviarei — disse Maria, citando Mateus 11:28.

— Não, Maria, não acho que exista solução para mim. Eu mexi com coisas que não devia.

No tempo aceitável te escutei e no dia da salvação te socorri. Eis aqui, agora, o tempo aceitável. E eis aqui, agora, o dia da salvação — tornou ela, agora citando 2 Coríntios 6:2.

Um sorriso de bondade e reconhecimento brotou nos lábios de Salgado.

— Essa memória sua é um dom de Deus, Maria. Desculpe-me se a critiquei um dia por isso.

Ela o olhou com um sorriso nos lábios, feliz por ter percebido que havia tocado o coração daquele homem.

— E então, seu Salgado? Vamos à igreja, nem que seja só para levar o Miguelzinho.

— Eu tenho que ir ao hospital e…

— Seu Salgado, sua esposa está sofrendo muito, mas o senhor sabe que poderia salvá-la, se tivesse fé e acreditasse no poder de Cristo?

— Maria, ela já foi desenganada. Não é uma unha encravada nem uma verruga que a incomoda. É um câncer que a está comendo por dentro…

— Seu Salgado, lembra da passagem de Lázaro, no Novo Testamento?

— Claro que sim.

— Lázaro estava enterrado há quatro dias. Nesse tempo, as células de seu corpo já estavam se decompondo. Não havia mais vida. O Senhor Jesus, no entanto, restaurou a vida de cada uma daquelas células mortas. Se Ele tem o poder de fazer isso, curar sua esposa é muito mais fácil ainda.

— Se os meus problemas fossem só esses…

— Lança o teu fardo sobre o Senhor e ele te susterá e nunca permitirá que o justo seja abalado — lembrou Maria, desta vez mencionando o Salmo 55:22.

— Como se eu pudesse ser chamado de justo…

— Não seja tão severo consigo mesmo, pois não há homem justo sobre a terra, que faça o bem e nunca peque — continuou ela, lembrando Eclesiastes 7:20.

— Ah, Maria, gostaria que as coisas fossem tão simples assim…

— E elas são, seu Salgado. Nós é que temos a péssima mania de complicar tudo. Pense bem. Cristo pode estar lhe estendendo a mão neste momento, esperando que o senhor o aceite como Salvador.

— Vou pensar, Maria. Vou pensar — afirmou ele, agradecendo.

Quando ela saiu, Salgado respirou fundo, sentindo-se leve pela primeira vez nos últimos tempos. Olhou ao seu redor. Aquelas imagens e símbolos não tinham sentido nenhum. Pensou por instantes, depois apanhou o cesto de lixo e começou a jogar tudo lá dentro. Quando terminou, fechou o escritório e foi para o hospital.

Quando entrou no quarto, viu sua esposa na cama, o rosto crispado de dor, tubos enfiados em seu nariz e em sua boca, agulhas espetadas em seus braços magros.

Ficou ali, em silêncio, olhando para ela, que já não reconheci ninguém. Era um corpo à espera da morto.

Algo estranho aconteceu. Olhando o rosto dela, por trás de todo o sofrimento, por trás da máscara de dor e sofrimento em que ele se transformara, Salgado viu ali a mulher por quem se apaixonara um dia e que amara profundamente.

Milhares de cenas passaram por sua mente. O casamento, os primeiros tempos, os filhos, os planos todos que haviam feito juntos, a vida que esperavam levar. Eram recordações demais, tantas que sufocaram seu coração e fizeram as lágrimas brotarem generosamente de seus olhos, escorrendo de suas faces.

— Salgado! — ouviu ele, reconhecendo a voz da esposa.

Levantou os olhos para ela, mas ela continuava imóvel, com a mesma expressão distante de antes. Abaixou a cabeça e soluçou.

— Salgado! — repetiu a voz.

Ele se levantou num salto, olhando ao redor. Foi até a cama. Debruçou-se sobre o corpo da esposa, que não demonstrou nenhuma reação. Ele foi até a janela, depois até a porta do corredor.

— Leve o Miguelzinho à igreja! — disse a voz e, desta vez, um arrepio percorreu o corpo do comerciante, dos pés à cabeça, arrepiando seus cabelos e fazendo seu coração disparar.

— É você? É você que está falando comigo? — indagou ele, correndo até a cama.

A mulher continuava imóvel, com o rosto impassível. Salgado começou a tremer.

*

Maria estava se aprontando para ir à igreja, quando Úrsula chegou. Estava maquilada, com os cabelos penteados e as unhas feitas. Ao ver a irmã toda produzida, indagou:

— Puxa, Úrsula, é você mesma? Nem parece a minha irmãzinha!

— Estou bonita?

— Você está linda. Onde vai?

— Vou a uma festa.

— Com o Rodrigo?

— Sim, eu só saio com ele.

Maria não tinha o que recriminar. No fundo, já estava até começando a aceitar Rodrigo, apesar de seus antecedentes. Podia julgá-lo pelo que Úrsula dizia. Ele a protegia, cuidava dela, dava-lhe roupas, levava a passeios e festas e nunca tocara nela. A própria Úrsula havia confessado que não fora por falta de iniciativa dela. Bem que tentara seduzí-lo, mas Rodrigo havia digo que só a tocaria quando se casassem. Como recriminar um homem desses?

— Onde vai ser a festa hoje? — indagou à irmã.

— Numa casa de campo, fora da cidade.

— Deve ser uma festa especial, porque nunca vi você tão produzida.

— Na realidade, vai haver um concurso de beleza.

— E você vai participar?

— O que tem? Posso ganhar uma viagem a Cancun, dois mil e quinhentos dólares, fora um contrato, se algum caça-talentos for com a minha cara. Já pensou este rostinho aqui saindo nas capas de revistas do mundo inteiro? — indagou Úrsula, vaidosa, indo se postar diante do espelho e conferir a maquilagem.

Era pura vaidade. Maria pensou em lhe dizer algumas coisas, mas desistiu. Úrsula era tão nova e estava deslumbrada com a vida. Felizmente nada a ameaçava. O melhor a fazer era deixá-la viver a vida da forma como queria e, na medida do possível, ir pondo-a em contato com a Palavra.

Quando chegasse o momento certo, com a graça de Deus, Úrsula também entregaria seu coração a Cristo.


 

Capítulo 8

 

 

“Autoridades do povo e vós, anciäos, se nós hoje somos inquiridos acerca do benefício feito a um enfermo e do modo como foi curado, seja conhecido de vós todos e de todo o povo de Israel, que em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, aquele a quem vós crucificastes e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, nesse nome está este aqui, säo diante de vós.

Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta como pedra angular. Em nenhum outro há salvaçäo, porque debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, em que devamos ser salvos. (At 4:8-12)

Miguel estava eufórico com tudo o que via. O templo era enorme, com um espaço amplo onde circulavam os pastores. Obreiros cuidavam para que todos permanecessem acomodados, levando-os até as cadeiras vazias, orientando-os.

Segurando a mão do pai, ele olhava para este e para Soninha, sua irmãzinha, que ele conduzia pela mão. Ela também estava deslumbrada com tanta grandiosidade, com a receptividade, com a maneira cordial com que todos se cumprimentavam.

Quando o culto começou, os dois se olhavam, contagiados pela alegria e pela animação com que todos cantavam. Um obreiro lhes entregou um livro de orações. Miguel começou a acompanhar a música, ensinando o refrão para sua irmã.

Ao lado, com o rosto ainda sombrio e o coração compungido, Salgado se sentia indigno de estar ali, no meio daquelas pessoas de fé. Ele estava mais acostumado a freqüentar os terreiros, onde as entidades das trevas circulavam livremente. Ali havia luzes, rostos sorridentes e amigos, num ambiente que não o deixava à vontade.

Viu, porém, a animação de seus filhos e isso por si só já justiricava sua presença.

Após o hino, o pregador pediu que as pessoas se apresentassem e se cumprimentassem. As crianças adoraram conhecer tantas pessoas, que ficaram encantadas com a graça e com a educação dos dois. Salgado, aos poucos, foi se deixando envolver por aquele clima, sem o perceber.

O pastor pediu que as pessoas que ali estavam pela primeira vez se identificassem.

— Levanta a mão, papai! — pediu Soninha, cutuvando-o.

Ele olhou. Ela e Miguel tinham levantados as duas mãos. Um anto sem graça, ele fez o mesmo. Foram saudados e o culto teve prosseguimento. Salgado olhava ao seu redor, observando como aqelas pessoas pareciam tão tranqüilas.

Chegou o momento do pastor Messias assumir o púlpito. Até então ele estava a um canto, meditando e orando. Ao chegar ao microfone, ainda de cabeça baixa, ele ficou em silêncio por instantes. Todos ficaram em silêncio com ele e se uma agulha tivesse caído no chã, naquele momento, o som seria ouvido por todos.

— Obrigado, Senhor, por trazer até nós o nosso irmão, que estava perdido entre as imagens e ídolos e agora está aqui, à procura do Deus Vivo, do verdadeiro Deus! Obrigado, Senhor, por esta jovem que resgatas da solidão, do vício, das influências maléficas e a coloca, renovada e ansiosa pela Palavra, aqui entre nós…

Salgado sabia que as primeiras palavras eram para ele, tanto quanto Michele, no canto oposto do templo, sabia que o segundo agradecimetno era pela sua presença. Ao seu lado, feliz e confiante, estavam Alfredo e Míriam, amparando-a e dando-lhe forças.

Enquanto ele continuava seus agradecimentos, Maria acompanhava com fervor, pois vira Salgado e as crianças entrando. Ficou muito feliz por eles.

A pregação continuou. O pastor Messias falou sobre as ilusões do mundo, sobre o dinheiro, sobre o pecado, sobre as obras do diabo e como tudo isso se entrelaçava, enganando as pessoas. Falou sobre a justiça divina e sobre o perdão. Descreveu como um cristão pode mudar sua vida, simplesmente aceitando o Deus Vivo em seu coração, reconhecendo o Senhor Jesus como seu único salvador.

Salgado via no rosto das pessoas como eles bebiam aquelas palavras e como seus rostos se iluminavam. Sentiu-se pequeno, um grão de areia no deserto, invejando a fé que transbordava dos olhos de cada um dos presentes.

Acreditou que jamais poderia ser como um deles. Havia pecado demais. Havia descido fundo demais no poço das iniqüidades e agora não havia salvação. Cometera adultério, entregara sua vida ao diabo, através de seus asseclas, estava desesperado, prestes a cometer um ato de loucura.

Numa cama de hospital sua esposa agonizava. Sua amante desparecera de sua vida. Seus bens estavam sendo dilapidados pelos juros exorbitantes cobrados pelo agiota e pelos bancos. Tinha uma dívida enorme e não sabia como pagá-la. Prometera à filha mandá-la para a Disneilândia e não poderia cumprir a promessa. Tinha dois carros e os perderia. A casa teria de ser vendida para pagar as dívidas e, mesmo assim, não conseguiria sair do buraco, com o monte de duplicatas e cheques sem fundo em que se transformara todo o seu estoque.

O pastor chamou à frente pessoas para darem seus testemunhos. Muitas falaram de doenças que haviam sido curadas pela fé. Miguel e Soninha acompanhavam com atenção, principalmente a garotinha, que havia ido apenas uma vez ao hospital e, ao ver a mãe ligada a tubos e aparelhos, ficara chocada.

Um menino disse que o pai havia sido curado de um tumor. Uma senhora afirmou que sua filha tinha um câncer do cérebro e ficara curada. As maravilhas operadas por obra do Espírito Santo iam sendo relacionadas e aplaudidas.

Assim que terminaram, o pastor indagou:

— Há alguém aqui que gostaria de fazer um pedido especial por algum familiar ou amigo doente? Escrevam o pedido nos papéis que os obreiros vão distribuir, depois entreguem de volta. Vamos fazer uma corrente de oração e…

Interrompeu-se. Toda a igreja parou, observando o que acontecia. Soninha havia deixado seu pai e seu irmão e subia decididamente os degraus que a levavam ao local onde estava o púlpito. Ao vê-la, o pastor Messias a reconheceu.

— Eu quero! — disse ela.

Um obreiro se adiantou para dizer a ela que os pedidos tinham de ser escritos, mas o pastor o impediu com um gesto.A menina se aproximou. O pastor apanhou o microfone e se abaixou junto dela.

— Como é seu nome, querida?

— Soninha!

— Você veio sozinha, Soninha?

— Não, estou com meu pai e meu irmão. Olhe os dois ali — apontou ela.

O pastor olhou na direção de Salgado, que se viu embaraçado pelo que a filha estava fazendo.

— E que pedido você quer fazer, Soninha?

— Quero pedir a Jesus que cure a minha mãe. Ela está no hospital, sofrendo muito e eu não quero que ela sofra mais. Você pede para Jesus curar ela?

Lágrimas vieram aos olhos do pastor.

— Sim, querida, eu peço. Mas você acha que Ele pode mesmo curar sua mãe?

— Ele curou toda essa gente, não curou? Então é claro que Ele pode curar a minha mãe.

O pastor se levantou, sem disfarçar sua emoção.

— Oh, Senhor, tu que disseste deixai vir a mim as criancinhas e não as impeçais, porque delas é o reino dos céus, aceita a nossa oração e atenda ao pedido desta inocente que confia em Ti, tanto quanto nós confiamos. Meus irmãos, peço a todos que se unam a mim em oração pela saúde da mãe desta criança. Se ela está aqui, pedindo isso, é porque o Espírito Santo assim o determinou. Ergamos nossos braços para implorar a Ele — pediu o pastor.

O silêncio da igreja foi quebrado por um murmúrio que foi aumentando, seguindo o tom ditado pela oração do pastor. Em questão de minutos, toda a igreja orava e o som parecia o estrondo de mil trovões, afugentando demônios e espíritos imundos.

Sem perceber, Salgado fazia a mesma coisa, seguido por Miguel, que orava com muito fervor. A oração durou alguns minutos, mas pareceu ter durado séculos, tamanha foi a intensidade com que o comerciante se entregou a ela. Quanto terminou, sentiu-se leve e contente. Começou a rir, sem entender o que se passava.

Naquele momento, o celular que estava preso a sua cintura, ligado para vibrar se fosse chamado, deu o sinal. Ele ficou sem saber o que fazer. No mesmo momento, porém, pensou na esposa. Podia ser o hospital informando que ela havia falecido.

Como todos estavam em pé ainda, ele se sentou e atendeu, falando baixinho.

— Salgado, venha para o hospital agora mesmo. Aconteceu um milagre!

*

Maria estava muito feliz com o que acontecera. Salgado saíra apressado, com os filhos, rumando para o hospital. O médico que ligara informara que, por mais incrível que pudesse parecer, sua esposa havia melhorado, pedido para retirar os tubos e aparelhos e para que lhe trouxessem uma canja. Em agradecimento, ela orou com todo o seu fervor.

O culto chegava ao fim, quando uma amiga sua chegou até ela.

— Maria, tenho uma coisa para lhe contar e você não vai gostar — disse, demonstrando preocupação. — Vamos lá fora.

Maria a acompanhou, assustada.

— Maria, é a Úrsula. Ela foi numa festa, não foi?

— Sim, foi com o Rodrigo. Aconteceu alguma coisa? Meu Deus! Um acidente, não foi?

— Não, Maria, antes fosse! — afirmou a amiga, causando estranheza na moça, que a encarou sem entender.

— Maria, sabe que tipo de festa é essa?

— Não tenho a menor idéia, mas sei que é só de gente fina e…

— Não é gente fina. As meninas que estão lá vão ser leiloadas. São todas virgens e quem dar o maior lance fica com elas, você entendeu?

Maria não podia acreditar em tamanha sordidez. Isso não podia estar acontecendo com sua irmã, não com Úrsula, tão inocente, tão ingênua, tão envolvida pelos encantos de Rodrigo.

— Como você ficou sabendo disso?

— Uma das meninas descobriu e pulou fora. Só me contou agora, pedindo segredo.

— E onde vai ser isso?

— Ninguém sabe.

— Tenho que avisar a polícia…

— É bobagem, Maria. Só tem gente importante envolvida. Se fizer isso, quem acaba se enrolando toda é você, entendeu?

— Mas não posso deixar que uma coisa dessas aconteça a minha irmã — disse Maria, levantando os olhos.

Relâmpagos iluminavam o céu. Aquele tempo fechado persistira todo o dia. Possivelmente desabaria uma tempestade em breve. Aflita, ela não soube o que fazer.

Lá dentro encerrava-se o culto. Maria apertou sua Bíblia ao peito e orou:

— Senhor Jesus, Deus Vivo e nosso Salvador, zela por minha irmãzinha, esteja ela onde estiver. Traga-a em segurança para casa. Não permita que a maldade dos homens destrua a sua inocência. Oh, Senhor, eu te peço de todo o meu coração, atenda o pedido de sua serva, para glória do teu nome…

Enquanto isso, longe dali, numa passarela, vestindo um biquíni minúsculo, com os olhos vermelhos de chorar, Úrsula era empurrada e obrigada a iniciar seu desfile, sob os olhares cheios de cobiça de todos os homens ali presentes.

*

Sempre acompanhada de seus amigos, Michele deixou a igreja, sentindo-se renovada. Era como estar de volta ao lar, revendo pessoas queridas, sentindo de novo aquele clima gostoso e conhecido.

— Como se sente agora? — indagou Alfredo.

— Estou bem, muito aliviada.

— Acha que vai conseguir superar seus problemas?

— Com amigos como vocês me ajudando, com toda certeza farei isso. Amanhã vou ao médico, cuidar da minha saúde. Vou precisar de ajuda para parar de beber,mas vou conseguir.

— Vai encontrar toda a ajuda aqui, entre nós, Michele — afirmou Alfredo.

Miriam se despediu. Michele e Alfredo caminharam juntos, de volta para casa.

— Tem alguma coisa incomodando você, Alfredo? — perguntou ela.

— Sim, posso lhe fazer uma pergunta?

— Claro que sim. O que é?

— O que sentiu quando viu o Salgado lá na igreja?

Ela pensou por instantes.

— Vi a loucura que eu estava fazendo. Fiquei com pena de mim e com pena dele. Está tão acabado quanto eu.

— Soube que ele anda com muitos problemas, não só em relação à esposa, mas também na firma. Está com uma dívida muito grande.

— Eu me sinto culpada por tanta coisa… — lamentou-se a garota.

— Não, você não deve se sentir assim. O que aconteceu deve ser esquecido. Você deve buscar agora o perdão e abrir-se de novo para receber Cristo de volta em seu coração.

— Acho que devemos orar por todos nós, então — concluiu ela.

— Sim, faremos isso. Vamos pedir ao pastor para sugerir ao seu Salgado participar de uma corrente de prosperidade. Tenho certeza que tudo se resolverá, com a graça de Deus.

— Sim, Alfredo, com a graça de Deus! — confirmou a garota, estendendo a mão e segurando a dele.

Caminharam juntos e confiantes em direção ao futuro.

*

Desabou uma verdadeira tempestade. Em sua casa, Maria não sabia o que fazer. Ligara para a polícia, mas nem quiseram lhe dar ouvidos, porque ela não tinha nenhuma informação concreta. O policial que a atendeu achou até que fosse um trote.

Ela estava desesperada e não queria contar nada a seus pais para não lhes causar desgosto. Orou o tempo todo, pedindo ao seu Deus Vivo que abrandasse o coração daqueles que haviam levado sua irmãzinha a tão sórdido espetáculo.

Na janela, olhando a chuva cair com violência, punha-se no lugar da irmã e tentava imaginar o terror que ela deveria estar enfrentando. Para uma criatura inocente como Úrsula, entrar em contato com o que havia de mais sujo no mundo seria um trauma de difícil recuperação.

— Senhor, tu que disseste, em Lucas 11, versículos 9 e 10, pedi e dar-se-vos-á, buscai e achareis, batei e abrir-se-vos-á, pois todo o que pede, recebe e quem busca, acha e ao que bate, abrir-se-lhe-á, eu te peço, traze de volta, sã e salva, minha irmãzinha! Ouve, ó Senhor, a súplica de tua serva, pela graça de Deus e pela proteção do Espírito Santo.

Nesse instante, Maria sentiu como se um véu suave descesse sobre ela, tirando-lhe todo o medo e toda a preocupação. Lá fora o vento deixou de soprar e chuva parou. Ele teve certeza que sua irmão estava bem.

Saiu ao portão. A enxurrada ainda corria pela sarjeta, provando a força daquela chuva. Ela não soube quanto tempo ficou ali, esperando. Quando aquele carro parou e um jovem desceu, indo abrir a porta para que Úrsula descesse, Maria caiu de joelhos e agradeceu ao Senhor.

— Maria, está tudo bem — disse Úrsula, ajoelhando-se junto da irmã e abraçando-a.

O rapaz se aproximou. Maria se levantou, encarando-o, sem saber se o recriminava ou se o agradecia.

— Eu a encontrei na estrada e a trouxe — explicou ele.

Maria voltou os olhos cheios de interrogações para a irmã.

— Maria, foi tudo mentira, o Rodrigo é um canalha. A festa não era nada daquilo…

— Sim, eu fiquei sabendo. Aconteceu alguma coisa com você?

— Não, nada. Quando eu estava desfilando, começou a chuva. Caiu um poste e acabou a luz. Eu fugi pela porta. Corri no meio da chuva, até passar esse rapaz, que me trouxe…

— Glória a Deus! — murmurou Maria, convidando o rapaz para entrar.

Ele se apresentou. Seu nome era Mário e era um recém-convertido.

— Se eu lhe contar uma coisa, vocês prometem que não vão rir de mim? — falou ele, com gravidade, enquanto tomava um café passado na hora.

— Conte, o que pode ser tão engraçado assim.

— Eu moro nas proximidades do local onde encontrei Úrsula. Eu estava lendo a Bíblia, coisa que faço sempre antes de dormir, quando me deu vontade de pegar o carro e sair. Olhei pela janela. Os relâmpagos e trovões não recomendavam sair, mas havia uma força me empurrando. Eu até disse: Senhor, se for por tua vontade, farei o que me pedes. E saí. Começou a chuva. Eu nem sabia para que lado ir. Simplesmente dirigi na chuva, até ver Úrsula, desesperada, pedindo carona. Vocês são capazes de acreditar numa coisa dessas?

Maria olhou para ele e para Úrsula. Sorriu e seu sorriso demonstrava que acreditava em cada palavra que Mária havia dito.


 

Epílogo

 

 

Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, näo temerei mal algum, porque tu estás comigo. A tua vara e o teu cajado me consolam. (Sl 23:4)

A esposa de Salgado sarou. Assim que se recuperou totalmente, a família toda foi à igreja e recebeu Jesus com muita fé e muita alegria. Homens de negócio de nossa igreja, sabedores do problema enfrentado por ele em sua empresa, prontificaram-se a ajudar, já que também enfrentavam os mesmos problemas. Organizaram uma empresa de cobrança e renegociaram seus débitos e créditos, organizando sua vida financeira rapidamente. Soninha adorou a Disneilândia e Miguel é hoje um dos jovens mais atuantes do seu grupo. Maria é gerente da firma agora e está toda feliz, ajudando Úrsula com o enxoval. Ela e Mário estão namorando sério.

Alfredo e Michele estão de casamento marcado. Ela não só se recuperou do vício da bebida como fez algo que surpreendeu às paoucas pessoas que ficaram sabendo. Reuniu tudo que Salgado havia lhe dado ao longo do tempo, inclusive o carro, vendeu e entregou o dinheiro no hospital, terminando o resto da dívida da internação da esposa do Salgado.

Rodrigo foi preso. Pai Nozinho está sendo procurado por charlatanismo.

 L P BAÇAN.

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