Parábola da vinha do Senhor


(Is 5:1-7)

Um ou dois pensamentos introdutórios inevitavelmente se apresentam para consideração quan­do examinamos essa linda parábola sobre a vinha, intimamente relacio­nada com a parábola anterior e com a posterior. Na verdade, Isaías pro­porciona duas parábolas em uma — a primeira, sobre o cuidado protetor sem retorno; a segunda, sobre uma sentença implacável, sem recursos nem conciliações. Todo o possível já tinha sido feito para propiciar a fer­tilidade da vinha e assegurar o de­senvolvimento das possibilidades latentes. Mas todo o cuidado dispen­sado à vinha tinha sido em vão. Is­rael, a videira, havia rejeitado a atenção do viticultor e conseqüente­mente tornou-se planta sem valor — erva daninha. O primeiro pensamen­to é este:

Isaías era em primeiro lugar um profeta. Desde que foi chamado e comissionado por Deus, considerou a profecia como o ministério de sua vida e, com notável prontidão, acei­tou a tarefa que, desde o princípio, se afiguraria inútil: advertir e con­denar (6:9-13). Todas as suas profecias giram em torno de “Judá e Je­rusalém” (1:1). O “profeta universal de Israel” entremeava suas profeci­as com a história sempre que a oca­sião exigisse (Is 7:20,36-39). “Ne­nhum profeta do AT”, diz Robinson, “aliou tão perfeitamente quanto Isaías visão terrena e sagacidade, coragem e convicção, diversidade de talentos e unidade de propósitos, de um lado, com amor pela retidão e um aguçado entendimento da santidade e da majestade do Senhor, do outro”. Por isso era capaz de transmitir o seu ensino profético em forma de pará­bolas. As parábolas eram usadas para predizer acontecimentos da história. Quando se aproxima o cumprimento da profecia, o significado, até então pouco nítido, torna-se mais claro, o es­boço completa-se, até que o pleno de­senrolar do que havia sido profetiza­do nos possibilite entender com cla­reza aquilo que vinha revestido em roupagem parabólica. O outro pensa­mento que sobressalta no estudo da linguagem parabólica é que:

As parábolas têm sempre um cor­respondente. A Parábola da vinha do Senhor, de Isaías, assemelha-se mui­to com a Parábola dos lavradores maus, do nosso Senhor Jesus (Mt 21:33). Notavelmente parecidas em alguns detalhes, ambas contêm uma profecia acerca do destino da nação judaica, ainda em cumprimento. Estudioso diligente que era do AT, tendo a mente repleta das suas fi­guras de linguagem, Jesus devia ter em mente a Parábola da vinha do Senhor, de Isaías, quando proferiu sua parábola sobre um tema seme­lhante. Muitos escritores já trataram desse aspecto duplo das parábolas, sobretudo Habershon, cuja obra, no apêndice, trata das semelhanças e das diferenças entre pares de pará­bolas correspondentes, sobretudo no NT. Ainda outra característica, à qual já demos atenção, merece ser realçada, a saber:

 

 

As parábolas têm em geral uma lição principal

Aqui na Parábola da vinha do Senhor, de Isaías, embora muitos detalhes denotem o cuidado satisfatório do dono da vinha para com ela, nem todas as informações têm um significado à parte. Nem todo detalhe deve obrigatoriamente ensinar uma lição. Como diz Lang: “As parábolas são como as telas, que necessitam de detalhes para a com­posição do todo da pintura, mas sem que cada detalhe tenha necessaria­mente uma lição própria e especial”. O único propósito da vinha é produ­zir frutos. E nisso Israel falhou.

Quando o Senhor esperou que sua vinha produzisse frutos, tudo que ela gerou foram “uvas bravas”; quando esperou justiça, encontrou opressão; quando esperou a retidão, ouviu clamor. Com um jogo de pala­vras (5:7), Isaías a seguir apresenta alguns tipos de “uvas bravas”, ou pecados da nação, como mostra Robinson:

1.   Cobiça insaciável; mas a colheita será apenas um décimo da seme-adura (5:8-10).

2.   Anulação e desrespeito para com a palavra e a obra do Senhor; mas os banquetes e a bebedice os le­varão ao cativeiro (5:11-17).

3.   Provocação ousada ao Senhor e desprezo propositado para com as denúncias do profeta, fortemen­te demonstrados no fato de desa­fiarem o “dia do Senhor” a che­gar (5:18,19).

4.   Hipocrisia e dissimulação, enga­no e confusão moral (5:20).

5.   Presunção astuta que não se dig­na submeter-se à correção de Deus (5:21).

6.   Poder mal-empregado: valentes nas bebedices, mas fracos peran­te o suborno, no castigo dos mal­feitores (5:22,23).

A punição por tais transgressões seria a retirada da provisão e da pro­teção divina. A vitalidade da nação seria minada e roubada; os ladrões atacariam o povo e os animais sel­vagens o devorariam, como a Assíria já tinha feito a Israel. Não haveria como escapar desse merecido juízo divino (Is 5:24-30). A parábola, en­tão, era uma profecia acerca da pu­nição vindoura do povo judeu pelos assírios e por Nabucodonosor, cujos detalhes são encontrados nos capí­tulos 7 e 8. O significado completo da parábola, entretanto, não podia ser entendido até que os aconteci­mentos anunciados se tornassem fatos da história.

Quanto ao significado da figura da vinha, cada família sendo uma planta e cada pessoa sendo um ramo, cumpre ressaltar o seguinte:

Aposição. Mostrou-se cuidado na seleção do lugar em que a vinha se encontraria. Seria num “outeiro fér­til”, que ilustra as abundantes van­tagens naturais de Canaã, a terra que Israel foi possuir.

A provisão. As “sebes” são uma figura de linguagem referente à pro­teção providenciada, à posição natu­ral de Canaã e aos obstáculos natu­rais que tornavam a invasão do país muito difícil.

A preservação. Quando se diz que Deus “a limpou das pedras”, isso sig­nifica que seu povo tinha sido preser­vado de ser subjugado. Ele expulsou as nações idolatras de Canaã, para que seu povo não deixasse de segui-lo.

O privilégio. Para Deus, a vinha estava repleta de “excelentes vidas”, expressão que se refere a Abraão, a quem o Senhor passou o direito da terra de Canaã em solene aliança, de modo que ele foi a primeira videi-ra, da qual brotaria toda a casa de Israel, a vinha do Senhor. A expres­são também demonstra o sentimen­to de Deus pelo povo israelita quan­do o estabeleceu na terra.

A punição. Como a degeneração é característica do pecado, a boa vi­nha tornou-se ruim e repugnante ao seu dono, devendo ser descartada. A religiosidade formal, sem vida e hi­pócrita de Israel tornou-se afrontosa para Deus. A ausência de frutos foi a transgressão da nação, e a infertilidade da terra veio a ser a sua punição. Deus retirou as sebes da sua vinha, o que significa que reti­rou os privilégios dos judeus e per­mitiu que afundassem ao nível dós povos vizinhos. A nação tinha que­brado as suas cercas primeiramente pela idolatria e por negligenciar as leis divinas. Por causa disso, os ju­deus se tornaram “como os filhos dos etíopes”, como retrata Amos (9:7). Mas Deus não se esquecerá total­mente do seu povo. Um futuro glori­oso aguarda a sua vinha, como Isaías profetiza de forma tão vivida.

Este último pensamento é apre­sentado de maneira clara por Robinson, quando diz: “Isaías vivia na teologia futura de Israel, enquan­to Paulo tratava dos ensinamentos do passado. A predição é a própria essência de toda a mensagem de Isaías. Seus tempos verbais sãopre-dominantemente futuros e perfeitos proféticos. Isaías era, acima de tudo, um profeta do futuro. Com uma ra­pidez nunca vista, ele repetidas ve­zes salta do desespero para a espe­rança, da ameaça para a promessa, do concreto para o ideal […] O livro de Isaías é o evangelho anterior ao Evangelho”.

Herbert Lockyer.

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