Parábola dos 02 Filhos


(2Sm 14:1-24)

 É interessante comparar a pa­rábola da mulher de Tecoa com a parábola acerca da cordeira, que acabamos de analisar. Essa compa­ração é sobretudo importante por­que ressalta as diferenças entre uma e outra. Novamente, Davi é o alvo da parábola. A da Cordeira foi proferida por Nata, o profeta ins­pirado; a dos Dois irmãos, por uma mulher esperta, instigada por Joabe, que era “astuto, político e inescrupuloso”, capaz de “ler o ca­ráter humano e discernir as moti­vações humanas se lhe fosse dada uma oportunidade, mesmo que pequena”.

A parábola de Nata foi uma ar­dente condenação ao pecado duplo de Davi, de sedução e de assassina­to; a parábola da mulher de Tecoa estava cheia de astúcia e de bajulação. Aquela se baseava nos princípios divinos da verdade, da justiça e da retidão, sendo proferida com toda a solenidade; esta foi um misto de verdade e de falsidade, e de conclusões erradas sobre Deus. A mulher que Joabe subornou para contar a parábola que ele arquiteta­ra não sentia de fato o que, na ver­dade, era só encenação. Ela prota­gonizou um espetáculo impressio­nante. Só encenação. Assim, também o objetivo de cada parábola difere. A de Nata foi feita para condenar Davi por seu pecado e induzi-lo a um arrependimento verdadeiro; a da mulher tinha por objetivo apoiar os planos de Joabe, cheios de inte­resses próprios e de um senso de autopreservação.

1. O ambiente da parábola. Ahis-tória inventada por uma “mulher humilde e desconhecida, de uma vila também pouco conhecida de Israel, quase 3 mil anos atrás”, foi atenta­mente ouvida por Davi, porque sen­tia nela uma correspondência com a sua própria história. Embora Deus lhe tivesse feito descansar dos seus inimigos, Davi ainda estava domina­do pela lembrança de sua dolorosa queda e, nos pecados e crimes de seus filhos, escutava o triste eco das trans­gressões que ele mesmo cometera. Sua harpa, tantas vezes um consolo, para ele estava “pendurada no sal­gueiro” (SI 137.2). Absalão, seu filho amado, estava no exílio havia três anos, por ter assassinado seu irmão Amnom, que havia violentado Tamar (irmã de Absalão e meia-irmã de Amnom). Apesar dos pecados de Absalão, Davi ansiava por vê-lo: “o rei Davi sentiu saudades de Absalão”.

Em seu livro, cheio de vividos ser­mões biográficos, Clarence E. Macartney, ao tratar da “Mulher de Tecoa”, mostra com forte realismo o conflito que Davi passou naquele momento. De um lado estava o Davi rei, guardião da justiça; do outro, o Davi pai, saudoso do filho que come­tera aquele crime:

“O Davi rei, sustentáculo da lei, está dizendo: ‘Absalão, você é um assassino. Você matou de forma traiçoeira o seu próprio irmão. Você sujou as mãos com o sangue de Amnom. Violou a lei de Deus e a lei dos homens. Absalão, permane­ça no exílio. Nunca mais veja o meu rosto’.

“Mas o Davi pai está falando de maneira muito diferente: ‘Absalão, volte para casa. Sem você, os ban­quetes não têm o mesmo sabor; sem você, a minha harpa fica sem melo­dia; sem você, as salas do palácio são tristes; sem você, os cerimoniais de guerra nada mais são que um espe­táculo vazio. Você matou seu irmão, mas, apesar de todas as suas falhas, eu ainda o amo. Absalão, meu filho, meu filho, volte para casa'”. Então se passaram os dias, as semanas, os meses e os anos.

2. A essência da parábola. Ao per­ceber o desejo de Davi de trazer de volta a Absalão, embora a justiça o houvesse obrigado a ser severo, Joabe, chefe do exército, conselheiro e amigo do rei, sabia que havia ape­nas uma solução para a dor que esta­va impedindo Davi de cumprir seus deveres reais. Ele teve a idéia da pa­rábola, e sabia que uma mulher po­deria contá-la melhor que um ho­mem. Evidentemente a mulher de Tecoa tinha sabedoria, sutileza e elo­qüência, e a parábola foi criada com o propósito claro de não se assemelhar tanto à história de Absalão. En­tão, cobrindo-se com a máscara da dor e da aflição, a mulher transmitiu a mensagem que Joabe lhe pusera nos lábios. Para Macartney, essa narrati­va: “é um dos quatro ou cinco grandes discursos da Bíblia […] Em nenhum lugar da Bíblia se vê, em tão curto es­paço, uma passagem com metáforas tão lindas quanto essas, tão emocio­nantes, apaixonadas e eloqüentes”.

O lamento da mulher, em eviden­te sofrimento, tocou o coração bon­doso e cordato de Davi, que, man­dando que se levantasse, perguntou: “Que tens?”. Então ela contou a to­cante história dos dois filhos que, brigando em um campo, um acabou sendo morto. Por causa do assassi­nato, o restante da família se revol­tou e exigiu que ela entregasse o fi­lho vivo para ser morto por causa do crime. Quando ela clamou pela se­gurança do suposto filho, Davi se co­moveu e disse-lhe que fosse embora, pois sua petição seria atendida: “não há de cair no chão nem um cabelo de teu filho”.

Ao destruir as defesas externas do coração de Davi, a mulher, instruída pelo astuto Joabe, dirigiu-se às defe­sas internas; com uma graciosidade, uma sutileza e uma humildade in-comparáveis, apresentou o apelo para o regresso e a segurança de Absalão, embora ele tivesse assassinado o ir­mão. Ao penetrar no disfarce da mu­lher, Davi detectou o estratagema de Joabe: “Não é verdade que a mão de Joabe anda contigo em tudo isto?”. A mulher prontamente confessou que todo o esquema era do chefe do exér­cito. Davi então mandou chamar a Joabe e designou-o para fazer “vol­tar o jovem Absalão”. E assim o filho banido retornou.

Ainda assim, porém, não houve reconciliação familiar imediata. Davi o proibiu de ver a sua face e, por cau­sa desse regresso “incompleto”, o mal surgiu. Passaram-se dois anos até que pai e filho se encontrassem novamente face a face. Irritado com a ação de Davi, Absalão planejou uma conspiração para derrubar o próprio pai e lhe tomar o trono. Não estaria Davi colhendo com dor as conse­qüências dos seus pecados, nas quais se incluíam as transgressões de seus dois filhos? Amnom era culpado de sedução, e Absalão, de assassinato; ambos os crimes se vêem no trata­mento de Davi com Urias e com Bate-Seba. Pode ser que a consciência de seu duplo pecado lhe tenha enfraque­cido a determinação. Se tivesse puni­do o filho Amnom como merecia, não teria havido a necessidade de banir Absalão. Davi estava amargamente certo de estar colhendo o que havia semeado, e seus filhos estavam ape­nas seguindo seus passos.

3. O significado espiritual da pa­rábola. Mil anos antes de Cristo morrer na cruz, para trazer os exi­lados de volta a Deus, a mulher de Tecoa teve um vislumbre da verda­de divina, embora a tenha aplicado de forma equivocada e a tenha per­vertido para um mau intuito. “Ele também cria um meio de impedir que os seus desterrados sejam afas­tados dele”. Que poderoso evangelho essa mulher inconscientemente pre­gou! Deus não se vinga imediata­mente, mas “espera para ser gracio­so”. Os pecados baniram o homem da presença de Deus, mas este pro­porciona os meios de trazer o peca­dor de volta. Que meios ele criou? A encarnação, a morte e a ressurrei­ção de seu amado Filho, com toda a certeza! Deus amou um mundo de perdidos pecadores, e seu coração foi à procura de banidos que, quando retornam, não são aceitos de meio-coração, como Davi recebeu o seu fi­lho pródigo Absalão. Uma vez que o pecador volte para Deus, a reconci­liação é completa, e o que retorna, salvo, é um com Deus, plenamente aceito no Amado.

A Parábola dos dois filhos, que Jesus contou em Lucas 15, é o cor­respondente neotestamentário da Parábola dos dois filhos, de Joabe. O pai perdera um dos dois filhos, que se tornou um pródigo em terra lon­gínqua; mas seu amor acompanhou o rapaz obstinado, o qual, em seu retorno, teve uma recepção comple­ta e recebeu também a plena e irrestrita bênção paterna e os privi­légios de filho. O plano de perdão e de restauração de Deus foi mais lon­ge que o de Joabe. Davi enviou o che­fe do exército para trazer Absalão de volta para casa. O coração paterno de Deus o compeliu a enviar o seu Filho unigênito para morrer pelo pecado, para que os pecadores pu­dessem ser plenamente reconcilia­dos com Deus. Que surpreendente graça!

Herbert Lockyer.

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