Parábola do Dono da Manjedoura



(Is 1:2-9)

Os escritos proféticos, como vere¬mos, são célebres pela linguagem fi¬gurada de forte realismo. Esses grandes profetas eram patriotas e, como anunciadores da justiça e do juízo, sabiam usar as forças naturais para chamar atenção para as suas mensagens. Muitas vezes recorriam ao vento e ao mar, às tempestades e aos terremotos —símbolos muito apropriados para os assuntos agita¬dos de que tratavam. Cenas mais amenas da terra de Israel também apareciam em seus escritos. A gene¬rosidade de Deus é semelhante a “uma vinha num outeiro fértil” (Is 5:1). O prático Miquéias fala de “chuvisco sobre a erva” (5:7). Jeremias, conhecedor dos hábitos dos pássaros de sua terra natal, usava-os em suas ilustrações com grande efeito (8:7; 17:11). Tantas vezes se recorre a montanhas, cedros, pastagens, reba¬nho, nuvem e fogo, aplicando-se to¬das essas figuras, que é difícil exa¬minar todas.

A sublime natureza parabólica e profética dos livros proféticos, junto com seu indiscutível valor espiritual, faz com que seus escritos sejam classificados entre a melhor litera¬tura do mundo. Com base nos escri¬tos desses porta-vozes de Deus, po¬demos construir um panorama de Canaã, a terra muito cobiçada. “Para os hebreus, o sangue dos seus ani¬mais machos e a associação com o passado histórico santifícaram o solo de Canaã […] Canaã era duplamen¬te querida e duplamente sagrada para o povo de Israel por ser um pre¬sente do seu Deus, sinal inequívoco da sua graça. Aterra e a fé eram para eles inseparáveis”. Essa é a razão de a terra ser retratada de modo tão vivido. Robert Browning escreveu a respeito do país sob cujos céus azuis ele passou os seus anos mais felizes:

No meu coração, verás ao abrir, vai a entalha, Em que outra coisa não se lê, senão Itália.

Só precisamos ler o que os profe¬tas tinham a dizer sobre a sua terra abundante para saber que, com o mesmo entusiasmo, também podiam declarar haver entalhado no coração o nome Canaã.

Entre os profetas, Isaías se des¬taca pelo uso de uma linguagem esmerada. Ellicott diz o seguinte so¬bre esse grande poeta e profeta de Israel: “Os provérbios de Salomão, como sempre, de destaque na forma¬ção judaica, o muniram de um voca¬bulário ético e filosófico (11:1,3; 33:5,6) e do método do ensino por parábolas (28:23-29), ensinando-lhe a assentar os fundamentos da mo¬ral no temor do Senhor”. Isaías apre¬senta uma notável versatilidade na escolha dos paralelismos, das figu¬ras e das parábolas para reforçar e impor sua mensagem. O fato de que tinha grande inclinação para o uso de simbolismos pode ser comprova¬do no nome de seus filhos. Escritor talentoso, com o passar dos anos o profeta ampliou o seu vocabulário, variando na fraseologia e no estilo de acordo com a ocasião ou com a intensidade do que sentia. Diante de nós está a primeira das marcantes figuras de linguagem de Isaías, na qual o profeta utiliza os valores da parábola para contrapor o compor¬tamento de Israel para com Deus aos sentimentos normais de um relacio¬namento familiar —até os instintos de gratidão dos animais de carga.

Isaías inicia sua grande acusação de ingratidão e de iniqüidade por parte de Israel implorando a aten¬ção do universo: “Ouvi, ó céus, e dá ouvidos, ó terra” (1:2). Depois com¬para os filhos de Deus aos que cresceram debaixo do cuidado de um pai amoroso. Deviam retribuir-lhe com amor filial e com respeito, mas tudo o que fizeram foi rebelar-se contra o controle do pai. Usa-se então uma figura de linguagem muito forte para ressaltar a profunda desobediência e a degradação de um povo divina¬mente abençoado. Os animais, que têm instinto, conhecem os seus do¬nos e obedecem às suas ordens, mas Israel recusava-se a reconhecer as leis do Senhor. Se a ingratidão do homem para com outro homem pro¬duz grande tristeza, a ingratidão do homem para com Deus produz pro¬funda dor no coração deste.

Com cores vivas, Isaías pinta os diversos estágios de crescimento da iniqüidade na nação da qual fazia parte. Primeiramente o povo aban¬donou a Deus, depois o desprezou e por fim apostatou totalmente. Quão contrário à natureza divina o povo tinha- se tornado! O Santo de Israel é o nome divino que Isaías gostava de usar (ocorre cerca de trinta vezes em suas profecias) por reunir em si os conceitos de consagração, de pu¬reza e de santidade. Israel tinha sido projetado para ser “a nação santa”, a fim de refletir a santidade do “San¬to”, mas mergulhou na corrupção. O profeta segue então retratando como o pecado, uma epidemia mortal, es¬palha-se e torna-se uma terrível e desventurada doença: “Desde a plan¬ta do pé até a cabeça não há nele coisa sã”. A descrição da podridão (Is 1:5,6) é “uma das parábolas naturais da ética, fazendo lembrar da descri¬ção que Platão faz das almas dos ti¬ranos: cheias de úlceras”.

A partir daí, Isaías amontoa ana¬logias sobre analogias. Teríamos um proveitoso estudo à parte, se quisés¬semos ajuntar todas as metáforas, analogias e dizeres parabólicos que o profeta emprega. Embora a profe¬cia seja o que se salienta em seu li¬vro dramático, as profecias, como também as visões, carregam aspec¬tos próprios da parábola. Por exem¬plo, os pecados são apresentados como de cor escarlata, mas os que pecaram podem ficar brancos como a neve (1:18). Duas imagens referem-se à degradação dos soberanos, cuja negligência era responsável pela de¬sordem de que Isaías trata: “A tua prata se tornou em escórias, o teu vinho se misturou com água” (Is 1:22). Essa linguagem simbólica é re¬tomada adiante: “purificarei inteira¬mente as tuas escórias, e tirarei de ti toda impureza” (Is 1:25). Deus, o Grande Purificador, pode purificar metais degradados (Ml 3:2,3). O pe¬cado faz murchar e também queima (Is 1:30,31). “Na glória manifesta do Senhor, os homens podem encontrar, da mesma forma que o viajante em sua tenda, proteção contra todas as formas de perigo, contra o calor abrasador do meio dia e contra a tor-rencial tempestade” (4:5,6).

Um estudo sobre a versatilidade expressiva de Isaías nos leva a con¬cordar com Driver, em seu magistral livroIsaiah [Isaías], quando diz que seu “talento poético é extraordiná¬rio”. O estilo incomparável do profe¬ta marca o apogeu da arte literária hebraica. Jerônimo compara o ora¬dor e poeta do AT a Demóstenes. Quanto ao esplendor de suas ima¬gens, Isaías era insuperável: “Cada palavra sua emociona e cumpre seu objetivo. A beleza e a força são ca¬racterísticas de seu livro como um todo. Ele é um perfeito artista das palavras”. Para o estudo mais aprofundado do leitor, agrupamos algumas das características que o dr. George N. Robinson ressalta em seu manual muito útil The book of Isaiah [O livro de Isaías]:

1. Nenhum outro escritor do AT usa tantas ilustrações pitorescas e belas (5:1-7; 12:3; 28:23-29; 32:2).

2. Epigramas e metáforas, princi¬palmente sobre inundações, tem¬pestades e sons (1:13; 5:18-22; 8:8; 10:22; 28:17,20; 30:28,30).

3. Interrogação e diálogo (6:8; 10:8).

4. Antítese e aliteração (1:18; 3:24; 17:10,12).

5. Hipérbole e parábola (2:7; 5:17; 28:23-29).

6. Paronomásia ou jogo de palavras (5:7; 7:9).

7. Ele é também famoso pelo seu vocabulário e riqueza de sinôni¬mos. Ezequiel usa 1 525 vocábu¬los; Jeremias, 1 653; o salmista, 2 170; Isaías, 2 186.

8. Ele elabora freqüentemente as suas mensagens em estilo rítmi¬co e poético (12:1-6; 25:1-5; 26:1-12; 38:10-20; 42:1-4; 49:1-9; 50:4-9; 52:13-53; 22:60-62; 65:5-24).

9. Em várias ocasiões Isaías incli¬na-se para um ritmo de lamentação. Por exemplo, há um tenso poema sobre Senaqueribe em 37:22-29, e, em 14:4-21, há outro sobre o rei de Babilônia.

Sem dúvida, o livro desse profe¬ta de grande importância se destaca como obra-prima da literatura hebraica.

Por Herbert Lockyer.

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