As Parábolas de Balaão



(Nm 22; 23:7,18; 24:3,15,20-23)

Seis das dezoito ocorrências da palavra “parábola” no AT estão as¬sociados aos pronunciamentos de Balaão. George H. Lang comenta que “as declarações proféticas de Balaão são chamadas parábolas. São assim chamadas porque os projetos e os fatos ligados a Israel são apre¬sentados por meio de comparações, compostas na maioria de elementos não-humanos”. Por estranho que pareça, as parábolas proféticas des¬se insignificante profeta estão entre as mais inconfundíveis e admiráveis do AT. Todas elas “dão testemunho do chamado de Israel para ser o povo escolhido de Jeová,” diz Fairbairn, “e das bênçãos que estavam reser¬vadas para esse povo, as quais ne¬nhum encantamento, força adversa ou maldição poderia tirar; também dão testemunho da Estrela que des¬pontaria de Jacó e da destruição de todos os que a ela se opusessem”.

Qual era o passado de Balaão, de Petor, e como veio a conhecer Balaque? Balaão praticava a adivi¬nhação, que compreendia a levian¬dade e o engano tão comuns nos pa¬íses idolatras. O fato de ser ganan¬cioso fica claro quando ele declara que “o preço dos encantamentos ” estava nas suas mãos e nas dos seus cúmplices. Balaão “amou o prêmio da injustiça”. Foi esse homem que Balaque procurou para receber in¬formações. Os israelitas, seguindo viagem rumo a Canaã, armaram suas tendas nas regiões férteis da Arábia. Alarmados com o número e com a coragem dos hebreus, que haviam recentemente derrotado o rei Ogue, de Basã, os moabitas temeram tornar-se a próxima presa. Balaque, então, foi até os midianitas, seus vizinhos, e consultou os seus anciãos, mas as informações que recebeu eram de grande destruição.

Esse caso, em que Deus faz uso de um falso profeta para proferir parábolas divinamente inspiradas — prova inequívoca do seu amor e dos seus desígnios para o seu povo—, mostra que o Senhor, se necessário, lança mão do melhor instrumento que puder encontrar, ainda que esse instrumento contrarie a sua natu¬reza divina. Deus disse a Balaão: “Vai com esses, mas fala somente o que eu te mandar”. Ao encontrar Balaque, Balaão, já orientado por Deus, disse: “Porventura poderei eu agora falar alguma coisa? A palavra que Deus puser na minha boca, essa falarei”. Quando censurado por Balaque, rei de Moabe, por ter aben¬çoado Israel, Balaão respondeu: “Como amaldiçoarei o que Deus não amaldiçoou? E como denunciarei a quem o Senhor não denunciou? […] Porventura não terei cuidado de falar o que o Senhor pôs na minha boca?”.

Então, compelido a declarar o que teria alegremente omitido, Balaão irrompe num rompante de poesia parabólica e prediz a bênção indis¬cutível do povo para cuja maldição fora contratado. Suas parábolas são de fácil identificação.

Na primeira, o pensamento principal é a separação para Deus, a fim de cumprir os seus desígnios: “Vejo um povo que habitará à par¬te, e entre as nações não será con¬tado” (Nm 23:9).

Essa escolha divina de Israel era a base das reivindicações de Deus sobre o povo e a razão de to¬dos os ritos e instituições singula¬res que ele decretara para serem observados, pois dissera: “Eu sou o

Senhor vosso Deus que vos separei dos povos. Portanto fareis distinção entre os animais limpos e os imun¬dos […] Sereis para mim santos, porque eu, o Senhor, sou santo, e vos separei dos povos para serdes meus” (Lv 20:24-26).

Há também o cumprimento do antigo propósito, pelo qual Deus “fi¬xou os limites dos povos, segundo o número dos filhos de Israel” (Dt 32:8). Nessa parábola, que trata da separa¬ção de Israel, uma ilustração é extra¬ída do solo abaixo dos nossos pés: “Quem pode contar o pó de Jacó…?” (Nm 23:10). Aqui temos uma referên¬cia ao imenso número dos descenden¬tes de Abraão, anteriormente compa¬rados à areia e às estrelas (Gn 22:17). Alguns comentaristas vêem no pó e na areia uma referência figurada a Israel —os descendentes terrenos de Abraão—, e nas estrelas, uma referên¬cia simbólica à igreja de Deus —os descendentes espirituais de Abraão. Mas, como George H. Lang afirma: “Faço uma advertência contra o tra¬tamento fantasioso das parábolas e dos símbolos, pois por três vezes Moisés usa as estrelas como símbolo do Israel terreno (Dt 1:10; 10:22; 28:62; v. lCr 27:23).

De uma coisa estamos certos: a mesma escolha separadora e sobe¬rana de Deus é o fundamento do cha¬mado cristão nesta dispensação da graça. Fomos “chamados para ser santos”, ou seja, separados. Fomos eleitos em Cristo “antes da fundação do mundo”. Fomos salvos e chama¬dos “com uma santa convocação […] segundo o seu propósito e a graça, que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos”. Essas e outras referências características compõem a verdadeira igreja. Sepa¬rados do mundo, devemos viver nele como forasteiros e peregrinos.

A parábola seguinte ressalta a justificação do povo separado. Percebesse a progressão dos pronunciamentos e das predições parabóli¬cas de Balaão na frase “Então pro¬feriu Balaão a sua palavra”, que se repete cinco vezes. Ao escolher Is¬rael, Deus não poderia voltar atrás em sua decisão; então encontrou Balaão e pôs na sua boca esta pala¬vra para Balaque: “Deus não é ho¬mem para que minta, nem filho do homem para que se arrependa. Porventura tendo ele dito não o fará, ou tendo falado não o realizará? Re¬cebi ordem de abençoar; ele aben¬çoou, e não o posso revogar. Não vi iniqüidade em Jacó, nem desventu¬ra observei em Israel. O Senhor seu Deus está com ele, e entre eles se ouvem aclamações ao seu rei” (Nm 23:19-21). A história do povo esco¬lhido mostra que havia iniqüidade, da qual o verdadeiro Jacó estava do¬lorosamente consciente; e havia tanta perversidade em Israel, que o mundo pagão ao redor ficava sur¬preso. Mas a maravilha disso tudo é que os olhos de Deus estavam so¬bre o seu povo pela luz que emana¬va da graça divina, depois pelo san¬gue dos sacrifícios ofertados pelo povo a favor de si mesmo e por fim pela morte expiatória do seu muito amado Filho.

A natureza novamente contribui para a inspirada e instrutiva pará¬bola de Balaão, pois refere-se a Deus como “forças […] como as do unicórnio”, enquanto Israel é retra¬tado com a força do boi selvagem e a natureza assustadora do leão e da leoa (Nm 23:22,24; 24:8,9). Tendo sido justificados gratuitamente pela graça divina, justificados pelo san¬gue de Jesus, justificados pela fé e, portanto justificados de todas as coi¬sas, nós, os cristãos, não temos força em nós mesmos. Nossa força está na graça de Jesus Cristo, nosso Senhor (2 Tm 2:1).

Na terceira parábola, Balaão declara que produzir frutos para Deus é o resultado inevitável de sermos separados para ele e justi¬ficados perante ele. Quão bela e expressiva é essa explicação ins¬pirada sobre o povo escolhido de Deus! “Que boas são tuas tendas, ó Jacó! E as tuas moradas, ó Isra¬el! Como vales que se estendem, como jardins ao lado de um rio, como árvores de sândalo que o Senhor plantou, como os cedros junto às águas!” (Nm 24:3-14). A linguagem figurada que Balaão empregou forma um estudo à par¬te. O soberano do céu é compara¬do a uma estrela (cf. Nm 24:17 com Ap 2:28; 22:16). O cetro, símbolo co¬mum da realeza, refere-se à pode¬rosa soberania do Messias de Is¬rael. O ninho posto na penha fala da segurança dos quenitas (Nm 24:21). Os navios que vinham da costa de Quitim eram uma alusão profética às vitórias de Alexandre, o Grande (Nm 24:24).

Embora decepcionado, Deus ain¬da assim tinha todo o direito de con¬tar com os frutos do seu povo no de¬serto. Não os tinha escolhido, redimido e abençoado, fazendo deles seu tesouro particular? Quanto mais não espera de nós, que fomos com¬prados com o precioso sangue de seu querido Filho? Será que não o glori-ficaremos quando damos muitos fru¬tos? (Jo 15:8). Não somos exortados a estar cheios do fruto da justiça? (Fp 1:11). Não tem um valor extrema¬mente prático o fato de sermos se¬parados para ele e justificados pela graça diante dele? A nossa posição privilegiada não deveria resultar em sermos frutíferos em toda boa obra? (Cl 1:10).

Não é pertinente que a parábola seguinte se volte para a segunda vinda de Cristo? A coroa de vitória é o adorno para a fronte daquele que chamou, separou, justificou e aben¬çoou o seu povo. “Vê-lo-ei, mas não agora; contemplá-lo-ei, mas não de perto. Uma estrela procederá de Jacó, e de Israel subirá um cetro”(Nm 24:17). Segundo certo co¬mentarista: “A estrela refere-se à sua primeira vinda; o cetro, à sua segun¬da vinda; e, como o falso profeta não o via como salvador, profere a pró¬pria condenação”. Trata-se do dia do juízo para os iníquos, pois “Um dominador sairá de Jacó, e destrui¬rá os sobreviventes da cidade”. A destruição será arrasadora e terrí¬vel, como diz Balaão: “Ai, quem vive¬rá, quando Deus fizer isto?” (Nm 24:23).

Por Herbert Lockyer.

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