Parábola dos Vales e dos Montes

(Lc 3:4-6; Is 40:3)

João se pôs impetuosamente con¬tra a visão exclusivista dos judeus; ainda que fossem um povo privilegi¬ado, a salvação não era somente para eles. “E toda a humanidade”, disse João, “verá a salvação de Deus” (Lc 3:6). Para os gentios, assim como para os judeus, devia ser concedido o arrependimento para a vida (At 11:18). Desse modo, nessa pitoresca proclamação, João visualizou um mundo sob o controle do Rei, não uma nação favorecida. O Cordeiro de Deus, que estava para morrer, leva¬ria, pela sua morte, o pecado do mundo. Sabendo tudo sobre o terrí¬vel perigo da nação que ele repre¬sentava, e a necessidade do mundo como um todo, o chamado de João ao arrependimento era impetuoso e. insistente. Todos os obstáculos de¬veriam ser retirados. Nada deveria impedir a jornada do Rei, nem blo¬quear a marcha de Deus. Examine¬mos, então, a instrução parabólica a respeito de endireitar as veredas (Mt 3:3):

Todo vale se encherá. É muito sig¬nificativo que o primeiro grande obs¬táculo a que João se refere é o vale vazio, não o monte. Esses vales va¬zios dificultam a chegada do rei até nós. Qual é a mensagem por trás do uso da linguagem metafórica de João? Qual deve ser o significado ló¬gico de vales, montes, outeiros, coi¬sas tortuosas e caminhos escabrosos? Tratando-se de passagens simbólicas e parabólicas, não devemos esquecer que as parábolas nem sempre podem ser consideradas na sua totalidade. Em algumas parábolas, existem disparidades. Por exemplo: quando a vinda de Cristo é comparada a um ladrão, não quer dizer que virá como um ladrão ímpio e desonesto para furtar e roubar. Deve-se ter o cuida¬do de não forçar os detalhes menos importantes da parábola para além da analogia da fé.

O enchimento dos vales pode mostrar que Deus está desejoso de abençoar o pecador pobre e frustra¬do que, como os vales, encontra-se com o espírito abatido. O chamado de João ao arrependimento quer di¬zer que, pela livre graça de Deus, os pecadores poderão ser tirados do monturo para ficar entre os prínci¬pes. A humanidade acha-se debaixo de uma maldição, numa vil condição. Mortos no pecado, os pecadores es¬tão caídos e não podem levantar-se. Mas Deus é capaz de erguer o caído. Em certo sentido, o desespero pode ser um vale profundo; mas o deses¬pero em relação a qualquer suficiên¬cia de nós mesmos, a qualquer va¬lor, poder e força própria é um santo desespero. Esse vale de humildade e de auto-humilhação nunca deve ser cheio. A auto-exaltação é abominá¬vel a Deus. “… para que ninguém se glorie perante ele” (ICo 1:29). Os vales são cheios, ou exaltados, quan¬do, como diz o experiente Benjamin Keach, os pecadores são levantados:

De um estado de ira para um es¬tado de graça;

de um estado de morte para um estado de vida;

de um estado de condenação para um estado de justificação;

da temível maldição de Deus, ou maldição da lei, para toda sor¬te de bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo Jesus;

de filhos de Satanás, ou filhos da ira, para se tornarem filhos de Deus;

do poder de Satanás para o reino do Filho do seu amor;

de detestáveis à ira de Deus no inferno para a herança da vida e da glória eterna nos céus.

As perguntas práticas são: “Exis¬te algum vale na sua vida e na mi¬nha que não tenha sido enchido? Quantas almas Deus têm perdido por causa destes vales vazios?”.

… se abaixará todo monte e outei-ro. Nessa outra figura, João vai ain¬da mais fundo. Que obstáculos eram esses interditando deliberadamente o caminho de Deus? Esses montes e outeiros tinham aplicação inequívoca aos fariseus dos dias de João. Em seu orgulho e arrogância, eles e os intérpretes da lei “rejeitaram o conselho de Deus quanto a si mes¬mos” (Lc 7:30). O orgulho sempre foi o grande obstáculo no caminho de Deus para o coração dos homens. Parece inacreditável que o homem possa obstruir os esforços divinos. “Estrita e severa vigilância deve ser empregada contra toda forma de orgulho, de arrogância, de bair¬rismo, de soberba, de altivez e de superioridade.”

A soberba dos fariseus se expres¬sa na confissão de um deles: “O Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens…”. Jactavam-se da própria justiça, apesar de rejei¬tarem a justiça divina (Rm 10:3). Pensando-se justos, desprezavam os outros (Lc 18:9). Assim, sentiam-se como montes no que diz respeito aos seus privilégios legais como povo da aliança de Deus (Jo 8:33). Também se gabavam de só eles deterem o se¬gredo do conhecimento e, portanto, serem os únicos professores e senho¬res de Israel. Mas tinham uma con¬fiança carnal (Rm 2:17-21), e o alti¬vo pensamento que nutriam preci¬sava ser abatido (Is 2:11-14). O di¬nâmico ministério de João tirou os poderosos de seus assentos. A humi¬lhação é o único caminho para a exaltação (ICo 1:26,27; Mt 11:35; Fp 2:9).

Existem outras aplicações, po¬rém, que podemos fazer dos montes e outeiros. Os judeus precisavam aprender que deveriam ser postos no mesmo nível dos gentios, sendo co-herdeiros da mesma graça. Cristo, por sua morte, não desfez a aliança da lei e os privilégios dela decorren¬tes, possibilitando a todos os que cressem que fossem feitos um nele?

Desse modo os nossos pecados e as nossas iniqüidades devem pare¬cer montes que alcançam os céus e merecem a ira e a vingança divina.

Mas, graças a Deus, esse monte pode ser aplanado e atirado para dentro do mar (Mq 7:19). Que monte de cul¬pa o nosso! Já foi, no entanto, apla¬nado na hora do nosso arrependi¬mento, fé e justificação (lPe 2:24).

Os monarcas orgulhosos podem parecer montes: “Quem és tu, ó gran¬de monte? Diante de Zorobabel se¬rás uma campina” (Zc 4:7). Deus sabe como privar o mais soberbo monarca de todo o seu poder e rei¬no, visto que é por causa dele que os reis governam e, portanto, devem viver e agir com humildade. Que fim vergonhoso e humilhante tiveram ditadores tirânicos e orgulhosos como Adolph Hitler e Benito Mussolini!

Montes também pode ser aplica¬do a Satanás e às suas hostes da maldade, os quais, antes exaltados nas alturas, tentaram ser como Deus. Eles foram, porém, depostos e exercem o seu diabólico reinado so¬bre a humanidade. Essas potestades satânicas ainda regem os filhos da desobediência. Cristo, porém, por sua morte e ressurreição, aplanou esses montes e outeiros amaldiçoa¬dos, o que significa que os privou de todos os seus poderes, governo e au¬toridade. Para esse fim foi Cristo manifesto (Uo 3:8). Foi ele quem espoliou esses principados e potes¬tades, e triunfou sobre eles (Cl 2:15). Satanás está debaixo de seus pés: “… para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte…” (Hb 2:14,15).

Outros montes e outeiros que de¬vem ser nivelados são as imagina¬ções arrogantes e os pensamentos altivos que se inflam contra o conhe¬cimento de Deus (2Co 10). A riqueza e a sabedoria deixam os homens car¬nais orgulhosos e soberbos, e, uma vez elevados a um altivo pináculo, desprezam os menos afortunados. A humildade e a humilhação de espí¬rito encontram a aprovação de Deus.

“O rico, porém, glorie-se na sua in-significância” (Tg 1:9,10). Se o mais humilde tiver mais graça, for mais parecido com Cristo, será mais ele¬vado do que aquele que é rico no mundo, mas não galgou os degraus da humildade. “Quando se abate¬rem, dirás: Haja exaltação! E Deus salvará o humilde (Jó 22:29).

O que é tortuoso se endireitará. A hierarquia religiosa que João Batis¬ta encontrou era tortuosa em vários. aspectos. Suas estradas não estavam bem endireitadas; portanto, Deus não podia chegar até eles. Eram tor¬tuosos na interpretação da lei, cuja regra estrita era: “O homem que fi¬zer estas coisas viverá por elas” (Rm 10:5). Mas os escribas e fariseus não tinham uma justiça que se equipa-rasse à lei de Deus. Como diz Benja-min Keach: “Eram tortuosos, algu¬mas vezes curtos numa mão e lar¬gos na outra. Pois em muitos casos não faziam o que a lei exigia; e em outros faziam o que a lei proibia ou não exigia; no entanto, pensavam que as suas opiniões e a vida que le¬vavam eram mais retas que a dos outros, quando na verdade eram eles os mais tortuosos”. Cristo veio para que seus princípios, práticas e opi¬niões tortuosos fossem endireitados; e aqueles que criam eram conserta¬dos por ele, na fé e na prática.

O que é tortuoso também se apli¬ca àquelas formas de adoração que Cristo nunca instituiu nem deter¬minou. Todas as falsas ordenanças em desacordo com a regra do NT para a adoração bem como a minis-tração dessas ordenanças são tortuosidades e devem submeter-se às normas divinas.

Assim, existe tortuosidade na vida e no viver. A vontade e a Pala¬vra de Deus formam a única regra de vida. Pecar significa errar o alvo, desviando-se do prumo divino, trans¬gredindo a lei de Deus; e assim os caminhos pecaminosos são caminhos tortuosos. Quando Paulo declarou que a mente carnal não está “sujei¬ta à lei de Deus, nem em verdade o pode ser” (Rm 8:7), queria dizer que, como pecadores, nascemos tortuosos e tornamo-nos mais tortuosos pela prática. Somente Cristo, pelo poder do seu Espírito, pode fazer cada par¬te da nossa vida harmonizar-se com a vontade divina.

… e os caminhos escabrosos se aplanarão. Pode parecer um remo¬to lamento dos montes aos caminhos escabrosos, mas todos eles aparecem na visão de João e são claramente concebidos por ele como obstáculos que retardam a marcha do Rei (em sua pressa por alcançar a alma dos homens). Rochas, pedras brutas, tudo compartilha de um caráter de impedimento e deve ser retirado, para que o Rei prossiga o seu cami¬nho. Deus já havia mandado as pe¬dras de tropeço serem retiradas do caminho (Is 57:14). Queria que o ca¬minho ficasse sem impedimentos, plano e fácil, mas os fariseus tinham posto muitos obstáculos no caminho do homem em direção a Deus e vice-versa. Porventura não existe uma mensagem pertinente para o nosso coração, quando somos chamados a aplainar os lugares escabrosos? Tal¬vez não haja nada de errado na vida —nenhum vale para ser cheio, ne¬nhum monte para ser aplainado, nenhuma tortuosidade para ser tra¬tada. Estamos salvos e bem estabe¬lecidos na vida cristã, mas pode ser que tenhamos uma disposição esca¬brosa, um acidentamento que impe¬de e dificulta a aproximação. Sem nos darmos conta, as nossas pala¬vras ferem e ofendem. Existe uma austeridade de modos, algo proibido e não atraente em nós, que impede o Rei de alcançar os outros. Falta suavidade na vida. Existem lomba¬das nas estradas. Que o Senhor, como restaurador de caminhos, pos¬sa tirar de nós todos esses rudes tra¬ços de obstrução, tão danosos ao tes¬temunho eficaz!

O principal propósito no nivela¬mento dos montes, na terraple-nagem dos vales, no conserto das tortuosidades e na suavização das estradas escabrosas é que toda a humanidade possa ver a salvação de Deus e testemunhar a revela¬ção de sua glória —a glória do seu amor, justiça, santidade, verdade, graça e poder. Cristo veio ao mun¬do para manifestar os gloriosos atributos da bendita Trindade.

Por Herbert Lockyer.

Parábola do Peixe e dos Pescadores

(Mt 4:18-22; Mc 1:16-20; Lc 5:2-11)

Quando uma parábola ocorre em mais de um evangelho, é essencial comparar os registros corresponden¬tes. Essa parábola, como se dá com quase todas, ensina que no mundo espiritual existem complementos para tudo o que é legítimo e natural no mundo material. Apesar do fato de que o nosso Senhor gastou gran¬de parte do ministério nas adjacências do mar da Galiléia e muitos de seus apóstolos foram pes¬cadores, parece singular que tenha feito tão pouco uso de parábolas so¬bre a pesca. Assim, Jesus entrou para a sua breve, mas maravilhosa tarefa. Compreendeu a necessidade dos que seriam capazes de absorver a sua mensagem e continuar o seu ministério depois de sua ascensão, como acompanhá-lo em suas jorna¬das enquanto esteve entre os ho¬mens. Para o seu primeiro grupo de seguidores e de associados, não foi a qualquer escola de rabinos ou cen¬tro de aprendizado, mas chamou homens humildes para deixarem as redes e segui-lo. “Eu os farei pesca¬dores de homens.” Dessa maneira fo¬ram levantados de um baixo grau de pescaria para um alto, assim como Davi, que alimentava ovelhas e foi chamado para um grau mais eleva¬do de pastoreio (SI 78:70-72).

A resposta dos quatro pescadores ao chamado de Cristo foi imediata, pois deixaram redes, barcos e paren¬tes para acompanhá-lo. Agora lançavam a rede do evangelho no mar do mundo e traziam as almas para as praias da salvação. Podemos imaginar como Pedro, “o grande pes¬cador” que se tornou porta-voz do grupo dos apóstolos, entrou para o significante uso parabólico do Mes¬tre sobre os pescadores e os peixes. Os peixes do mar da Galiléia eram pegos vivos, mas rapidamente mor¬riam, quando tirados do seu habitai. Agora, aqueles a quem Jesus chama¬va foram designados para pegar os homens que estavam mortos —mor¬te em transgressões e pecados— os quais, uma vez nas redes do evan¬gelho, começariam a viver espiritu¬almente.

Os pescadores experimentados estabeleciam três regras para o su¬cesso da pesca, as quais deveriam ser observadas por todos os que pescam as almas dos homens:

Primeira: Mantenha-se fora de vista;
Segunda: Mantenha-se ainda mais fora de vista;
Terceira: Mantenha-se ainda mais longe fora de vista.

Os ganhadores de almas devem aprender que não podem promover a Cristo e a si próprios ao mesmo tem¬po. Se um pescador lança a sua som¬bra sobre a água, onde o cardume está, jamais poderá pegar os peixes. Da mesma maneira, a sua sombra é desastrosa na arte de ganhar almas. Quando o dr. J. H. Jowett estava para falar para um grande agrupamento, um fervoroso irmão orou: “Agradece-mos-te, ó Senhor, teu querido servo e pelo trabalho que ele está fazendo. Agradecemos-te que o tenhas man¬dado a falar conosco. Agora, Senhor, oculta-o, oculta-o”.

Assim, para o pescador, a isca é um elemento importante e, pela prá¬tica, ele aprende que ela é usada para atrair diferentes tipos de pei¬xe. Os pescadores de homens devem, semelhantemente, ser capazes de pôr a isca no anzol. Uma visão curiosa, expressada pelos pais da Igre¬ja, era que a cruz era o anzol e Cris¬to, a isca pela qual o Todo-Poderoso capturava o mal. Tal figura de lin¬guagem pode parecer grotesca, mas, com toda a reverência, podemos di¬zer que Cristo, como a Bíblia o reve¬la, é sempre o tipo certo de isca para pegar os homens. John Bunyan em linguagem parabólica disse: “A gra¬ça e a glória são a isca do evangelho; leite e mel foram a isca que retirou seiscentos mil (sem contar as criam ças, as mulheres e os velhos) do Egi¬to”. Não importa quantas dificulda¬des os pecadores apresentem, quan¬do estão sendo tratados pelo ganha¬dor de almas, que é eficiente na Pa¬lavra de Deus, e saberá que a Escri¬tura, a isca, é usada para resolver qualquer problema.

Assim como esse chamado de Pedro, André, Tiago e João às vezes é confundido com outros dois rela¬tos no mar, uma palavra é necessá¬ria para diferenciá-los. O chamado relatado em João 1:35-42 não é a mesmo de Mateus 4:18-22, pelas se¬guintes razões:

1. Aquele foi dado quando Jesus ainda estava na Judéia —este, de¬pois de seu retorno à Galiléia;

2. Naquele, André solicita uma entrevista com Cristo —neste, Cris¬to chama André;

3. Naquele, André é chamado com um discípulo cujo nome não foi men¬cionado, que era claramente João (Jo 1:4). André vai e busca a Pedro, seu irmão, a Cristo, que então o chama —neste, André e Pedro são chama¬dos juntos;

4. Naquele, João é chamado jun¬to com André, pelo seu próprio pedi¬do, de uma entrevista com Jesus; nenhuma menção é feita de Tiago, cujo chamado, se é que aconteceu ali, não foi semelhantemente feito por seu irmão —neste, João é chamado junto com Tiago, o seu irmão.

Mais adiante temos um chama¬do em Lucas 5:1-11, que também é diferente do de Mateus 4:18-22. No anterior, um milagre foi realizado; no posterior, não existe nenhum mi¬lagre, salvo o da graça, revelado em tomar homens falíveis, pela inefabilidade de Cristo, para os tor¬nar os seus cooperadores. Naquele, todos os quatro são chamados jun¬tamente; neste, os quatro são cha¬mados à parte, em pares. Naquele, as redes foram usadas para uma miraculosa pesca; neste, dois lan¬çam suas redes, enquanto os outros consertam os seus instrumentos de pesca. Naquele, temos um estágio avançado do ministério terreno de nosso Senhor, e algum entusiasmo popular. Neste, não deve ter havido nenhuma aparição pública na Galiléia; portanto, a falta das mul¬tidões estendidas diante dele. En¬quanto caminha sozinho pelas prai¬as do lago, Jesus aborda os dois pa¬res de pescadores e chama-os para se transformar em ganhadores de alma: “Sigam-me, e eu os farei…”. Não há cristão que se tenha feito a si mesmo cristão ou cooperador no serviço de Cristo, pois todos são fei¬tos por Cristo.

Por Herbert Lockyer.

As Múltiplas Formas da Parábola

Quanta diversidade há nas pará¬bolas bíblicas! Na verdade, são inigualáveis nas suas imagens des¬critivas. Sob a orientação do Espíri¬to Santo, os escritores da Bíblia exploraram todos os veículos apropri¬ados, para expressar a verdade divi¬na. De fato, precisaram de todos eles para ilustrar a inigualável maravi¬lha da Palavra de Deus, que é radi¬ante em sua riqueza de material parabólico. O resumo que o dr. Graham Scroggie faz das parábolas do NT é aqui aplicado para que en¬tendamos o alcance das parábolas bíblicas como um todo. A medida que formos explicando as parábolas, re¬meteremos o leitor para o campo em que cada uma se enquadra.

1. Reino espiritual: parábolas as¬sociadas com céu, inferno, querubins e anjos;

2. Feiômenos naturais: parábo¬las relacionadas com sol, luz, raios, terremotos, fogo, nu¬vens, tempestade e chuva;

3. Mundo animado: parábolas relacionadas com criaturas (cavalos, animais selvagens, leões, águias, camelos, bois, ovelhas, cordeiros, lobos, ju¬mentos, raposas, porcos, cães, bodes, peixes, pássaros e ser¬pentes); parábolas ilustradas por plantas e árvores, espi¬nhos, cardos, figos, oliveiras, sicômoros, amêndoas, uvas, juncos, lírios, anis, menta, vi¬nha, cedro e condimento de amoras pretas;

4. Mundo mineral: parábolas simbolizadas por metais (ouro, prata, bronze, ferro e latão);

5. Vida humana: A variedade de ilustrações parabólicas é mui¬to ampla:

• física (carne, sangue, olho, ouvido, mãos, pés; fome, sede, sono, doença, riso, choro e morte);

• doméstica (casas, lâmpadas, cadeiras, alimento, forno, cu¬linária, pão, sal; nascimento, mães, esposas, irmãs, irmãos, filhos, afazeres, casamento e tesouros);

• pastoral (campos, vales, pas¬tores, ovelhas, agricultores, solo, semente, cultivo, semea-dura, crescimento, colheita e vinhas);

• comercial (pescadores, alfaia¬te, construtor, negociante, ba¬lança, talentos, dinheiro e dí¬vidas);

• de interesse público (escravi¬dão, roubo, violência, julga¬mento, punição e impostos);

• social (casamento, hospitalida¬de, festas, viagens e saudações);

• religiosa (tabernáculo, templo, esmolas, dízimos, jejuns, ora¬ção e o sábado).

As páginas seguintes servirão para mostrar que as parábolas da Bíblia são comparações ilustrativas extraordiná¬rias que nos falam sobre a verdade divina. Podem ser definidas como “narrativas criadas com o objetivo es¬pecífico de representar uma verdade religiosa de forma pictórica”.

Por Herbert Lockyer.

A Falsa e a Verdadeira Interpretação da Parábola

Antes de iniciarmos, deve-se dis¬pensar especial atenção a um prin¬cípio fundamental, qual seja: a parábola precisa ser considerada no todo, como algo que ilustra ou real¬ça alguma verdade central, obriga¬ção ou princípio no governo divino, e as suas diferentes partes somente servem, em certo sentido, para cres¬cer e se desenvolver. E de suma im¬portância procurar saber com certe¬za a real esfera de ação e o objeto da parábola.

Além do mais, é necessário exa¬minar com cuidado e observar a re¬lação da parábola com o ambiente em que foi produzida e com a situa¬ção dos seus ouvintes, a fim de que se chegue o mais próximo possível da verdade que ela revela. Lisco diz: “Para que a parábola seja explicada e aplicada, primeiramente precisa¬mos examinar sua relação com o que a precede e a segue, e descobrir, com base nisso, antes de qualquer outra coisa, a sua idéia principal. Enquan¬to não chegarmos a esse ponto cen¬tral, a esse cerne da parábola, da maneira mais precisa e conclusiva — para isso examinando de modo aten¬to e reiterado o assunto e as circuns¬tâncias dessa parábola—, nem pre¬cisamos nos ocupar do significado de qualquer de seus integrantes, uma vez que cada um deles só pode ser corretamente compreendido toman¬do por base esse ponto central.

O objetivo principal da parábola pode ser deduzido com base numa exposição mais genérica ou mais es¬pecífica, quando não do objetivo pri¬mordial do narrador, que se pode depreender quer da abertura, quer da conclusão. Por exemplo, observe o que vem antes e depois da parábo¬la da Vinha do Senhor e da do Rico e Lázaro. Quanto a esse aspecto, uma leitura atenta do capítulo “The settingof parables” [“O ambiente das parábolas”], de Ada R. Habershon, ajudará o leitor.

Muito já se escreveu sobre a in¬terpretação da parábola. Ela tem sofrido bastante com as várias interpretações errôneas. Tomemos primeiro as más interpretações. Quanto abuso tem havido no uso das parábolas! Muitos são culpados de aplicar certas parábolas de for¬ma artificial e de forçar um signifi¬cado que os seus autores jamais so¬nharam! Há dois extremos que de¬vem ser evitados na interpretação da parábola. Um extremo é dar-lhe muita importância —o outro é atribuir-lhe pouca importância. Cumming, em seu livro Lectures [Preleções], tratou desse erro duplo desta forma:

Há dois grandes erros na interpreta¬ção das parábolas: um consiste em ar¬rancar significado de cada parte, como se não houvesse nada secundário; o outro, em considerar boa parte da pa¬rábola secundária, mera tapeçaria. O primeiro é repreensível, pois a pará¬bola e a sua verdade não são, como já dissemos, duas retas que se encontram em todos os pontos, mas sim uma reta e uma esfera que se tocam em gran¬des momentos. Cada parábola mate¬rializa um grande propósito, que é no¬toriamente o principal e o mais nobre, e isso sempre deve ser levado em con¬ta na interpretação de todos os aspec¬tos secundários da Bíblia. O segundo vê pouco sentido na pará¬bola; percebe em boa parte dela mera intenção de inventar uma história, sendo seus componentes meros conectivos que mais prejudicam que apresentam a finalidade da parábo¬la. Este último tipo destrói muitas das riquezas das Escrituras. Cada parte da parábola, como em qualquer tre¬cho da Bíblia, tem seu significado e importância. Uma pintura perfeita não tem partes que não contribuam para o resultado geral, e cada parte a vida brilha e resplandece de tal for¬ma que a ausência da menor delas já seria uma deficiência.

Desejando um tratamento mais aprofundado acerca dos prós e dos contras da interpretação, o interes¬sado deve ler o capítulo “The interpretation of parables” [“A interpretação das parábolas”], da obra incomparável de Trench, The parables of our Lord [As parábolas do nosso Senhor], e “Methods of interpretation” [“Métodos de interpretação”], da obra de Ada Habershon, The study of parables [O estudo das parábolas]. Trench, refe¬rindo-se aos extremos acima, diz que tem havido exageros nos dois sen¬tidos.”Os defensores da interpreta¬ção superficial e não detalhada es¬tão confortavelmente satisfeitos com sua máxima favorita. Toda compa¬ração deve ser interrompida em al¬gum ponto”. Trench cita um ditado de Teofilacto: “A parábola, se for sus¬tentada em todos os seus aspectos, não será parábola, mas o aconteci¬mento que a gerou”.

Quanto ao outro extremo da in¬terpretação, “Há o perigo de, com uma mente fértil, deixar de atribuir o devido valor à Palavra de Deus, a menos que o prazer que o intérprete sente no exercício dessa “fertilidade”, admirada que é por tantos, não lhe tire de vista que a santificação do coração pela verdade é o principal objetivo das Escrituras”.

Muitos dos pais da igreja, buscan¬do alegorizar passagens tanto do Antigo como do NT, foram muito ex¬tremistas. Se estavam ou não erra¬dos em pensar que havia um signifi¬cado para todas as coisas é o que se tem debatido há séculos.

Agostinho é um exemplo notável dos que espremiam as parábolas para ensinar algo totalmente fora dos limites. Ao tratar do ensino tradicional da igreja (considerando as parábolas alegorias, em que cada termo representava o criptograma de uma idéia, de modo que o todo precisava ser decodificado em cada termo), C. H. Dodd, em The parables of the kingdom [As pará¬bolas do reino], cita a interpreta¬ção de Agostinho da Parábola do bom samaritano:

Descia um homem de Jerusalém para Jerico seria uma referên¬cia ao próprio Adão;

Jerusalém é a cidade celestial da paz, cuja bênção Adão perdeu;

Jericó é a lua e representa a nos¬sa mortalidade, porque nasce, cresce, míngua e morre;

os assaltantes são o diabo e seus anjos;

os quais o despojaram, i.e., lhe re¬tiraram a imortalidade;

e, espancando-o, persuadindo-o a pecar;

deixando-o meio morto, porque, quando o homem compreende e conhece a Deus, vive; mas, quando se entrega, sendo opri¬mido pelo pecado, está morto; por causa disso, é chamado meio morto;

o sacerdote e o levita, que o viram e passaram de largo, represen¬tam o sacerdócio e o ministé¬rio do AT, que não continham a riqueza da salvação;

o samaritano significa o guardião, e o próprio Jesus é conhecido por esse nome;

atou-lhe as feridas é o resgate do pecado;

o óleo é o consolo da esperança;

o vinho é a exortação para traba¬lhar com ardor;

a cavalgadura era a carne, por meio da qual Jesus veio até nós;

pondo-o sobre a sua cavalgadura é a crença na encarnação de Cristo;

a hospedaria é a igreja, em que os viajantes recebem refrigé-rio no retorno da peregrinação à pátria celestial;

o outro dia significa o período pos¬terior à ressurreição do Senhor;

os dois denários são os dois man¬damentos do amor, ou a pro¬messa desta vida e da que está por vir;

o hospedeiro é o apóstolo Paulo.

O arcebispo Trench segue as li¬nhas mestras de Agostinho, com um detalhamento ainda mais fértil. Ou¬tro exemplo desse tipo de interpre¬tação se encontra entre os intérpre¬tes da Reforma e os católicos roma¬nos, que encontraram um grande significado para o óleo da Parábola das dez virgens. Para aqueles, o óleo é a fé, sem a qual as virgens não po¬deriam fazer parte das bodas; para estes, são as obras, que, de acordo com essa visão, eram igualmente necessárias. O mesmo se deu com o termo virgens e as suas classifica¬ções. No entanto, Hillyer H. Straton afirma: “Sua interpretação depende¬rá do lugar em que se encontra; você paga e encolhe o que comprar. Uma coisa sabemos: Jesus desejava res¬saltar que devemos estar prepara¬dos”.

Outros exemplos desse método de interpretação não-autorizada se vêem na Parábola do mordomo in¬fiel, interpretada por alguns como a história da apostasia de Satanás, e na Parábola da pérola de grande valor, uma referência à Igreja de Genebra. Trench relata o exemplo de Fausto Socino, para quem, com base na Parábola do credor incompassivo —em que Deus per¬doou seu servo apenas com uma petição (Mt 18:32), não por alguma reparação ou intervenção de um mediador—, podemos com isso con¬cluir que, da mesma forma, sem sa¬crifícios nem intercessores, Deus perdoará os pecadores simplesmen¬te pelas orações. Diante dessa apli¬cação, podemos concordar com a observação de Jerônimo a respeito desses que “torcem, para satisfazer vontades próprias, aquelas passa¬gens que as contrariam”.

Como cada parábola tem uma li¬ção própria, que nos impede de ten¬tar encontrar significados diferentes ou especiais em cada uma de suas circunstâncias e ensinos descritivos, é indispensável descobrir a real fi¬nalidade da parábola. O dr. Graham Scroggie mostra como nos podemos proteger contra o engenho artificial, impróprio e equivocado ao tratar da parábola. Deve-se tomar o cuidado ao tentar distinguir entre interpre¬tação e aplicação. “Uma interpreta¬ção, muitas aplicações” pode ser uma distinção completamente errônea, visto que, se a aplicação é dada pelo Espírito Santo, também pode tornar-se uma interpretação. Tristemente, muitas aplicações mal se podem de¬nominar interpretações! “Toda a Bí¬blia épara nós, mas não sobre nós. A interpretação é limitada pela inten¬ção original da parábola, e esta de¬terminada pela ocasião e pela cir¬cunstância; mas a aplicação não é limitada, visto que pode nos auxili¬ar justamente no seu significado. A interpretação é dispensacional e pro¬fética. A aplicação é moral e prática. Os princípios da interpretação po¬dem ser aprendidos nas duas pará¬bolas que o próprio Senhor Jesus interpretou (Mt 13:18-23,36-43). No que diz respeito às suas parábolas como um todo, torna-se difícil avali¬ar até que ponto ele quer que inter¬pretemos as parábolas sem levar em conta a sua finalidade e o seu foco principal. Se formos honestos e sin¬ceros em nossa busca da verdade, podemos depender do Espírito San¬to para nos revelar as coisas de Cris¬to (ICo 2:11,13).

Quando procuramos a realidade nas características de uma parábo¬la, precisamos saber que na maioria dos casos ela tem apenas um ponto principal. “Não podemos, entretan¬to, afirmar que todas as parábolas de Cristo tratam de um só assunto, pois Jesus era um artista interessa¬do em comunicar verdades, não em manter certo estilo”. C. H. Dodd con¬corda com esse princípio importan¬te da interpretação: “A parábola em geral, seja uma simples metáfora, seja um símile mais elaborado, seja uma narrativa completa, apresenta apenas um ponto de comparação. Não há a intenção de que os deta¬lhes tenham um significado indepen¬dente. Já na alegoria, cada detalhe é uma metáfora independente, com significado próprio”. Dodd então dá um dos dois exemplos desse princí¬pio, entre eles a Parábola do semea¬dor: “A beira do caminho e os pássa¬ros, os espinhos e o chão pedregoso não são criptogramas da persegui¬ção, do engano das riquezas e assim por diante. Esses símbolos estão ali para evocar um quadro da grande quantidade de trabalho desperdiça¬do, que o fazendeiro precisa enfren¬tar, e assim fazer sentir o alívio da colheita, apesar de todo o trabalho”. No seu capítulo “The method of interpretation” [“O método da inter¬pretação”] , Ada Habershon, em The study of the parables [O estudo das parábolas], expressa a opinião de que “pode ser verdade que cada de¬talhe (da parábola acima) tinha um significado, e devemos estar bem preparados para descobrir que algu¬mas delas tinham diversos […] Ne¬nhuma explicação esgotará os signi¬ficados da mais simples parábola pro¬ferida por Jesus e, se reconhecermos isso, também estaremos prontos para tirar de cada uma “toda sorte de des-pojos”. O caminho mais seguro para lidar com a parábola é procurar o pen¬samento central ou a idéia principal, em torno da qual todos os elementos subordinados se agrupam. A idéia principal não deve perder-se em meio a um emaranhado de acessórios com¬plexos, mesmo que estes tenham sig¬nificado espiritual. As parábolas não devem ser tratadas como se fossem um repositório de textos. Cada pará¬bola deve ser vista por suas particu¬laridades, e qualquer analogia feita deve ser real, não imaginária, sem¬pre subordinada à lição principal da parábola”.

Outros aspectos da interpretação, tratados de forma completa pela Biblical enciclopaedia [Enciclopédia da Bíblia], de Fausset, são:

1. a parábola, em sua forma exter¬na, deve ser bem compreendida (e.g., o amor de um pastor do Ori¬ente Médio para com suas ove¬lhas);

2. a situação no começo da parábo¬la, como em Lucas 15:1,2, é o pon¬to de partida das três parábolas do capítulo;

3. as características que, interpre¬tadas de forma literal, contrari¬am as Escrituras, dão um colori¬do ao texto, e.g., o número das virgens prudentes era igual ao das insensatas (Mt 25:1-13).

Em seu capítulo “Place and province of the parables” [“O local e o campo das parábolas”], o dr. A. T. Pierson afirma: “As parábolas bíblicas são narrativas factuais ou fictícias, usadas para transmitir ver¬dades e ensinamentos morais e es¬pirituais. Podem ser históricas, éti¬cas e alegóricas ao mesmo tempo; mas, se o significado mais elevado se perde no menos elevado ou é por ele obscurecido, assim como no caso do espiritual em relação ao literal, perdem-se também o seu objetivo e o seu significado. Em geral a pará¬bola se faz acompanhar de certas indicações de como deve ser inter¬pretada. A lição central é o principal objeto de interesse; o restante pode ser secundário, como a cortina e o cenário de um teatro”.

Por Herbert Lockyer.

O Valor e a Missão da Parábola

O valor da instrução por parábolas

O ensino por parábolas tem mui¬tas utilidades e possui vantagens sem igual. Seu mérito ou valor, como instrumento pedagógico, está no fato de ser um teste de caráter cujo resultado pode ser punição ou bên¬ção. Smith, em seu Biblical dictionary [Dicionário da Bíblia], diz: “Às vezes, a parábola afasta a luz daqueles que amam a escuridão. Protege a verdade contra os escarnecedores. Deixa uma mensa¬gem aos descuidados, que depois pode ser interpretada e compreen¬dida. Releva-se, entretanto, aos que buscam r> verdade”. A parábola pode ser ouvida, assim como o seu signi¬ficado pode ser compreendido, ain¬da que os ouvintes jamais se preo¬cupem com o seu significado real. Em meio às muitas vantagens, pode-se provar que as parábolas das Escrituras são muito proveitosas, porque a parábola:

1. é atraente e, quando comple¬tamente compreendida, é mais fácil de lembrar. É de grande ajuda à memória. Estamos mais inclinados a nos lembrar de uma narração ou ilustração do que de qualquer outra coisa proferida em um sermão. A parábola pode ser relembrada mui¬to depois de já termos esquecido o tema principal do sermão.

2. presta grande auxílio à mente e à capacidade de raciocinar. Os seus significados devem ser estudados. E como uma mina de ouro, e devemos escavá-la e buscá-la com toda a nos¬sa diligência, para descobrir o ver¬dadeiro veio. O método parabólico nos faz pensar. “O Mestre dos mes¬tres sabia que não poderia ensinar nada aos seus ouvintes, se não os levasse a ensinar a si próprios. Ele deveria alcançar a mente deles e fazê-los trabalhar com a dele. A forma da parábola atraía a todos, mas apenas os pensadores entendiam o seu significado”. O significado não podia ser encontrado sem o uso do pensamento. A parábola ao mesmo tempo atraía e peneirava a multidão.

3. estimula os afetos e desperta as consciências, como quando o in¬ferno, numa parábola, é mostrado como uma fornalha de fogo e a cons¬ciência como um verme roedor.

4. chama e prende a atenção. Atentos às parábolas de Jesus, os ouvintes se mostravam maravilha¬dos e diziam: “Nunca ninguém falou como este homem”. Ele precisava fazer o povo ouvi-lo —e conseguiu! Era maravilhosa a forma em que usava, pronta e espontaneamente, as sugestões do momento; desse modo chamava e prendia a atenção dos que estivessem à sua volta!

5. preserva a verdade. Ao escre¬ver acerca desse mérito em particu¬lar, Cosmo Lang disse: “Quando as pessoas pensam por si mesmas, nun¬ca esquecem; o exercício da mente produz esse efeito. Além do mais, a linguagem dos símbolos —expressa por aquilo que o olho pode ver e construída na imaginação— é mais poderosa e de efeito mais duradou¬ra do que a linguagem que utiliza somente palavras abstratas. Ela co¬munica e traz de volta à mente o sig¬nificado interior com rapidez e se¬gurança; traz consigo uma mensa¬gem rica em sugestões e associa¬ções”. As palavras mudam constan¬temente de significado, ao passo que os símbolos usados para a vida e para a natureza, como os que foram em¬pregados pelo Senhor em suas pará¬bolas, são tão duradouros quanto a própria natureza e a vida.

Ao comentar acerca das parábo¬las de Mateus 13, Finis Dake, em sua Annotated reference Bible [Bíblia de referências anotada], apresenta sete benefícios do uso das parábolas:

1. revelar a verdade de forma inte¬ressante e despertar maior inte¬resse (Mt 13:10,11,16);

2. tornar conhecidas novas verda¬des a ouvintes interessados (Mt 13:11,12,16,17);

3. tornar conhecidos os mistérios por comparações com coisas já co¬nhecidas (Mt 13:11);

4. ocultar a verdade de ouvintes desinteressados e rebeldes de co¬ração (Mt 13:11-15);

5. acrescentar mais conhecimento da verdade aos que a amam e anseiam mais dela (Mt 13:12);

6. afastá-la do alcance dos que a odeiam ou que não a desejam (Mt 13:12);

7. cumprir as profecias (Mt 13:14-17,35).

A missão da parábola

Os intuitos e a missão da pará¬bola estão intimamente ligados aos seus métodos de ensino. Quais são as funções ou os objetivos da pará¬bola? Já tratamos rapidamente do seu poder de atração, mas por que Cristo usou esse método? Para ilu¬minar, exortar e edificar. No prefá¬cio de seu livro esclarecedor Lectures on our Lord’s parables [Preleções sobre as parábolas do nosso Senhor], o dr. John Cumming diz que:

A profecia é um esboço do fu¬turo, que será preenchido pe¬los eventos; os milagres são pré-atos do fu¬turo, realizados em pequena escala no presente; as parábolas são a prefi-guração do futuro, projetadas em uma página sagrada.

Todos os três crescem diariamen¬te em esplendor, interesse e valor. Em breve, o Sol Meridional os fará transbordar! Espero que estejamos prontos! Fazendo uso da parábola, Jesus procurou confiar as verdades espirituais do seu Reino ao entendi¬mento e ao coração dos homens. Ao adotar um método reconhecido pe¬los mestres judeus, Cristo atraiu mentes e prendeu atenções. Os ho¬mens tinham de ser conquistados, e a parábola era o melhor método dis¬ponível para conseguir isso. Além do mais, Jesus foi extraordinário no uso das parábolas.

Jesus adotou o método de ensi¬nar por parábolas quer ao se dirigir aos discípulos, quer aos fariseus, seus inimigos, a fim de convencer aque¬les e condenar estes. A pergunta dos discípulos “Por que lhes falas por meio de parábolas?” (Mt 13:10) é respondida por Jesus nos cinco versículos seguintes. Cristo abria a boca e falava em parábolas por cau¬sa da diversidade de caráter, de ní¬vel espiritual e de percepção moral de seus ouvintes (Mt 13:13). “Por isso lhes falo por parábolas”. Por isso dá a entender, segundo Lisco: “Como a instrução tão comumente dada a eles em linguagem clara de nada lhes aproveita, agora vou tentar, com fi¬guras e símiles, levá-los a refletir, conduzindo-os a uma preocupação maior acerca da salvação”. Infeliz¬mente, tal era a insensibilidade tola dos líderes religiosos, os quais não compreendiam a verdade profunda e espiritual que Jesus, de maneira tão vigorosa, lhes entregou em for¬ma de parábola. Esses líderes tam¬bém não perceberam que as parábo¬las são os melhores instrutores dos que estão cheios da Palavra de Deus, e ensinam e valorizam as coisas re¬lacionadas à paz eterna.

Por Herbert Lockyer.

As Várias Divisões da Linguagem Figurada

São várias as figuras de lingua¬gem que a Bíblia emprega, e todas são necessárias para ilustrar verda¬des divinas e profundas. Como nos¬sa tendência é agrupar todas essas palavras sem distinguir umas das outras, cada forma, parece-nos, me¬rece atenção especial. Benjamin Keach, na sua obra antiga e um tan¬to difícil, The metaphors [As metáfo¬ras], apresenta uma dissertação introdutória a respeito da distinção de cada figura de linguagem. Há também o capítulo sobre “As figuras de linguagem da Bíblia”, do dr. A. T. Pierson. Insisto com o leitor para que leia a obra de Trench, de elevada perícia, On the definition of the parable [Sobre a definição da pará¬bola] , em que diferencia a parábola da alegoria, da fábula, do provérbio e do mito.

SÍMILE. O vocábulo símile signifi¬ca parecença ou semelhança, exemplificado no Salmo dos dois homens: “Será como a árvore plan¬tada junto a ribeiros de águas […] Os ímpios […] são como a moinha que o vento espalha” (Sl 1:3,4).

O símile difere da metáfora por ser apenas um estado de semelhança, enquanto a metáfora transfere a representação de forma mais vigo¬rosa, como podemos ver nestas duas passagens: “Todos os homens são como a erva, e toda a sua beleza como as flores do campo. Seca-se a erva, e caem as flores…” (Is 40:6,7); “Toda a carne é como a erva, e toda a glória do homem como a flor da erva. Seca-se a erva, e cai a sua flor…” (lPe 1:24).

No símile, a mente apenas repou¬sa nos pontos de concordância e nas experiências que se combinam, sem¬pre alimentadas pela descoberta de semelhanças entre coisas que dife¬rem entre si. O dr. A. T Pierson ob¬serva que “a parábola autêntica é, no uso das Escrituras, um símile, geralmente posto em forma de nar¬rativa ou usado em conexão com al¬gum episódio”. Portanto, parábolas e símiles se parecem.

PROVÉRBIO. Ainda que os princí¬pios da parábola estejam presentes em alguns dos pequenos provérbios, das declarações proféticas enigmá¬ticas e das máximas enigmáticas da-Bíblia (ISm 10:12; SI 78:2; Pv 1:6; Mt 24:32; Lc 4:23), no entanto, diferem do provérbio propriamente dito, que é em geral breve, trata de assuntos menos sublimes e não se preocupa em contar histórias. Os apócrifos re¬únem parábolas e provérbios num só grupo: “Os países maravilhar-se-ão diante de seus provérbios e parábo¬las”; “Ele buscará os segredos das sentenças importantes e estará fa¬miliarizado com parábolas enigmá¬ticas” (Ec 47:17; 39:3).

Embora parábola e provérbio se-jam termos permutáveis no NT, Trench ressalta “que os chamados provérbios do evangelho de João ten¬dem a ter muito mais afinidade com a parábola do que com o provérbio, e são de fato alegorias. Dessa forma, quando Cristo demonstra que o re¬lacionamento dele com o seu povo se assemelha ao pastor com as ovelhas, tal demonstração é denominada provérbio, embora os nossos tradu¬tores, mais fiéis ao sentido que o autor pretendia, a tenham traduzi¬do por parábola (Jo 10:6). Não é di¬fícil explicar essa troca de palavras. Em parte deve-se a um termo que no hebraico significa ao mesmo tem¬po parábola e provérbio”. (Cf. Pv 1:1 com ISm 10:12 e Ez 18:2.) De modo geral, provérbio é um dito sábio, uma expressão batida, um adágio.

METÁFORA. A Bíblia é rica em lin¬guagem metafórica. A metáfora afir¬ma de modo inconfundível que uma coisa é outra totalmente diferente. O termo origina-se de dois vocábu¬los gregos que significam estender. Um objeto é equiparado a outro. Aqui temos dois exemplos do uso de me¬táforas:

Pois o Senhor Deus é sol e es¬cudo (Sl 84:11);

Ele é o meu refúgio e minha fortaleza (Sl 91:2).

Dessa forma, como pode ser ob¬servado, metáfora é um termo co¬nhecido por nós “na área da experi¬ência que faz sentido, e indica que determinado objeto, possuidor de propriedades especiais, transfere-as a outro objeto pertencente a uma área mais elevada, de modo que o anterior nos dá uma idéia mais com¬pleta e realista das propriedades que o último deve ter”. Nas passa¬gens supracitadas, tudo o que é re¬lacionado ao Sol, ao escudo, ao re¬fúgio e à fortaleza é transferido para o Senhor. O Sol, por exemplo, é fon¬te de luz, calor e poder. A vida na Terra depende das propriedades do Sol. Portanto, o Senhor como Sol é a fonte de toda a vida.

No evangelho de João não exis¬tem parábolas propriamente ditas, mas há, entretanto, uma série de metáforas impressionantes como:

Eu sou o bom pastor (Jo 10:11).

Eu sou a videira verdadeira (Jo 15:1).

Eu sou a porta (Jo 10:7).

Eu sou o pão da vida (Jo 6:35).

Eu sou o caminho, a verdade e a vida (Jo 14:6).

ALEGORIA. Não é fácil distinguir entre parábola e alegoria. Esta úl¬tima não é uma metáfora ampliada e dela difere por não comportar a transferência de qualidades e de propriedades. Tanto as parábolas como as metáforas abrangem ex¬pressões e frases, servindo para des¬vendar e explicar algumas verdades ocultas que não poderiam ser facil¬mente compreendidas sem essa rou¬pagem. Num verbete de Fairbairn sobre as “parábolas”, em sua renomada Biblical enciclopaedia [Enciclopédia bíblica], ele diz: “A alegoria corresponde rigorosamen¬te ao que se encontra na origem da palavra. E o ensinamento de uma coisa por outra, da segunda pela primeira; deve existir uma seme¬lhança de propriedades, uma se¬qüência de acontecimentos seme¬lhantes de um lado e de outro; mas a primeira não toma o lugar da se¬gunda; as duas se mantêm incon¬fundíveis. Considerada dessa forma, a alegoria, em sentido mais amplo, pode ser tida como um gênero, do qual a fábula, a parábola e o que geralmente chamamos alegorias são espécies”.

A. alegoria, explica o dr. Graham Scroggie, “… é uma declaração de fatos supostos que aceita interpretação literal, mas ainda assim exige ou admite, com razão, interpretação moral ou figurada”. A alegoria dife¬re da parábola por conter aquela menos mistérios e coisas ocultas que esta. A alegoria se interpreta por si só e nela “a pessoa ou objeto, ilus¬trado por algum objeto natural, é imediatamente identificado com esse objeto”. Diz o dr. Salmond: “Quando nosso Senhor conta a grande alego¬ria da vinha, do agricultor e dos ra¬mos, em que ensina aos seus discí¬pulos a verdade sobre o relaciona¬mento que ele próprio tinha com Deus, começa dizendo que ele pró¬prio é a videira verdadeira e seu Pai, o agricultor (Jo 15:1).

Desejando uma melhor compre¬ensão das figuras de linguagem men¬cionadas na Bíblia, recomendamos ao leitor a obra de grande fôlego do dr. E. W. Bullinger sobre o assunto, a qual, sem dúvida, é o melhor estu¬do já feito sobre o método figurado empregado pela Bíblia. O dr. Bullinger lembra que há grande con¬trovérsia sobre a definição e signifi¬cado exato de alegoria e declara que, na verdade, os símiles, as metáforas e as alegorias são todos baseados na comparação.

Símile é a comparação por se¬melhança.

Metáfora é a comparação por correspondência.

Alegoria é a comparação por implicação.

Na primeira, a comparação é afirmada; na segunda, é substituí¬da; na terceira, é subentendida. A alegoria é então diferente da pará¬bola, pois esta é um símile continu¬ado, enquanto aquela representa algo ou dá a entender que alguma coisa é outra.

Há uma alegoria a que Paulo se refere de modo inequívoco: “… Abraão teve dois filhos, um da escrava, e outro da livre. Todavia, o que era da escrava nasceu segundo a car¬ne, mas, o que era da livre, por pro¬messa. O que se entende por alego¬ria…” (coisas que ensinam ou dizem mais do está escrito — v. Gl 4:22,24). Bullinger chega a provar que a ale¬goria pode algumas vezes ser fictí¬cia; no entanto, Gaiatas 4 mostra que uma história verdadeira pode ser alegorizada (ou seja, pode mostrar algum ensinamento além daquele que, na verdade, se observa), sem no entanto anular a verdade da histó¬ria. A alegoria é sempre apresentada no passado e nunca no futuro. Dessa forma, distingue-se da profecia. A ale¬goria oferece outro ensinamento com base nos acontecimentos do passado, enquanto a profecia trata de aconte¬cimentos futuros e corresponde exa¬tamente ao que se diz.

Hillyer Straton, em seu A guide to the parables of Jesus [Guia das parábolas de Jesus], comenta que “a alegoria é uma descrição codificada. Ela personifica coisas abstratas; não põe uma coisa ao lado da outra, mas faz a substituição de uma pela outra. Cada aspecto da alegoria se tor¬na importante”. O dr. Straton, então, acaba por citar a mais famosa ale¬goria de toda a literatura, O peregri¬no, em que John Bunyan usou a sua imaginação notavelmente fértil para ressaltar a verdade da peregrinação cristã.

FÁBULA. A fábula é uma narração fictícia que pretende ilustrar um princípio ou uma verdade (Jz 9:8-15; 2Rs 14:9). A missão primordial da fábula é reforçar o conceito da pru¬dência. A fábula, usada poucas ve¬zes nas Escrituras, está a quilôme¬tros de distância da parábola, em¬bora uma possa, em alguns momen¬tos, ser semelhante à outra nos as¬pectos externos. Comparando qual¬quer das fábulas de Esopo com as parábolas de Jesus, percebe-se que a fábula é um tipo inferior de lingua¬gem figurada e trata de assuntos menos elevados. Está associada à terra e focaliza a vida e os negócios comuns a todos. Tem por função transmitir lições de sabedoria pru¬dente e prática e gravar nas mentes dos ouvintes as virtudes da prudên¬cia, da diligência, da paciência e do autocontrole. Também trata do mal como loucura e não como pecado, além de ridicularizar as falhas e des¬denhar os vícios, escarnecendo deles ou os temendo. Essa é a razão por que a fábula faz grande uso da ima¬ginação, dotando plantas e animais de faculdades humanas, fazendo-os raciocinar e falar. A parábola, no entanto, age numa esfera mais su¬blime e espiritual e nunca se permi¬te a zombaria ou a sátira. Tratando das verdades de Deus, a parábola é naturalmente sublime, com ilustra¬ções que correspondem à realidade —nunca monstruosas ou anti-natu-rais. Na parábola, nada existe con¬tra a verdade da natureza. Fairbairn diz: “A parábola tem um objetivo mais admirável […] A parábola po¬deria tomar o lugar da fábula, mas não o contrário”. Desejando informa¬ções acerca da narrativa mítica, o leitor deve ler o parágrafo “Os mi¬tos”, de Trench.

TIPO. Significa marca ou impres¬são e tem a força da cópia ou do pa¬drão (ICo 10:1-10,11 —”exemplos”; na margem “tipos”). As parábolas unem os tipos de um lado, e os mila¬gres de outro. Todas as figuras de lin¬guagem que a Bíblia emprega são elos de uma corrente unida de for¬ma inseparável; os elos como um todo só podem ser desvinculados em detrimento de alguns. Os muitos ti¬pos da Bíblia constituem um estudo independente e fascinante.

PARÁBOLA. Apesar de já termos tratado da natureza da parábola, retornamos a título de resumo. Na parábola, a imagem do mundo visí¬vel é emprestada e se faz acompa¬nhar de uma verdade do mundo in¬visível ou espiritual. As parábolas são os portadores, os canais da dou¬trina e da verdade espiritual. Cum¬pre ressaltar que as parábolas não foram feitas para ser interpretadas de uma única forma. Em algumas, há grandes disparidades e aspectos que não podem ser aplicados espiri¬tualmente. Estão sempre ligadas ao domínio do possível e do verdadeiro. Os discursos e as frases, cheios de sabedoria espiritual e de verda¬de, são chamados parábolas por dois motivos:

1. por infundir um senso de culpa e a compreensão da autoridade di¬vina;

2. por ser a pedra de toque da ver¬dade —normas que, portanto, devem ser seguidas.

A parábola já foi definida como “a bela imagem de uma bela men¬te”. A parábola é também a justapo¬sição de duas coisas que divergem na maioria dos seus aspectos, mas concordam em alguns. “Os mila¬gres”, diz o dr. A. T. Pierson, “ensi¬nam sobre as forças da criação; as parábolas, sobre as formas da cria¬ção. Quando a parábola for proféti¬ca, estará sempre em roupagem ale¬górica; quando instrutiva e didática, em roupagem factual e histórica”.

“Diferente do símile e da metáfo¬ra e considerada uma espécie de ale¬goria”, diz Fairbairn, “pode-se dizer que a parábola é uma narrativa, ora verdadeira, ora com aparência da verdade; exibe na esfera da vida na¬tural um processo correspondente ao que existe no mundo ideal e espiritu¬al”. É possível que a Parábola do fi¬lho pródigo seja o relato de fatos re¬ais. As parábolas são “pomos de ouro em quadros (molduras) de prata”.

Por Herbert Lockyer.