(Ez 16:1-63)
De certo modo, essa parábola está ligada à anterior, na qual o profeta demonstrou que Israel, por não cumprir a sua finalidade como nação escolhida, foi queimada e consumida pelos juízos divinos. Por não ter correspondido à bondade e à graça de Deus, Ezequiel agora emprega a parábola de uma esposa libertina para realçar o motivo do merecido castigo. Israel tornara-se infrutífera por ser infiel, e por seu pecado ser ultrajante. Não é agradável o quadro que Ezequiel traça. Ele mostra com todas as letras como o pecado é negro, pútrido e repulsivo para Deus. Jerusalém é acusada por suas abominações, e Ezequiel refere-se a elas usando a figura do adultério e da prostituição espiritual, de que Oséias também faz uso de modo tão vivido e poderoso.
Se analisarmos essa parábola, veremos que a matéria-prima das parábolas pode ser real ou fictícia, tomada de empréstimo à natureza ou à vida humana. A videira provém da natureza, a adúltera, da vida humana. Lang observa que, se entendermos o sentido do quadro que Ezequiel apresenta, teremos “uma valiosa formação no estudo das parábolas [...] Discernir a história e a profecia manifestas nessa alegoria é obter a chave do passado, do presente e do futuro, da forma como são vistos por Deus, e assim entender que as principais partes do AT servem de fundamento para o NT”.
Nessa parábola, Ezequiel não se contenta em usar uma expressão metafórica aqui e ali; ele ocupa todo o longo capítulo traçando um paralelo entre uma adúltera e os judeus; a série de quadros que utiliza conferem grande força às suas repreensões. Toda a história de Israel apresenta-se deste modo:
1. A menina (1-5). Ainda na primeira infância, foi exposta e lançada para morrer —retrato da situação precária do novo povoado fundado por um amorreu e uma hetéia. Israel origina-se da terra dos cananeus, tendo um amorreu por pai e uma hetéia por mãe. Por sua estreita ligação com os vizinhos pagãos, não tinha qualidades naturais que lhe dessem direito à posição de povo escolhido de Deus, tampouco tinha beleza que o tornasse desejável ou força interior para continuar a existir. Era uma criança desamparada, abandonada (16:1-14).
2. O passante (6-7). Temos aqui uma referência terna e comovente de Deus nutrindo a rejeitada ao encontrá-la. Como Deus criou Israel e cuidou dessa nação! E repleto de beleza esse quadro de Deus inclinan-do-se e tirando-a da ignóbil extinção. Acaso não fez de Israel objeto de especial preocupação, para que se tornasse célebre pela “grande formosura” que ele lhe dera? Deus também determinou que Jerusalém seria o centro na terra, dele e de Israel.
3. O marido (8-14). Ao alcançar a maturidade, a menina escolhida tornou-se esposa de seu Benfeitor, que lhe presenteou com toda sorte de ornamentos e de luxos. Sendo o marido, encheu-lhe de privilégios que fizeram dela objeto de admiração e de inveja de todos os que a contemplavam. Por causa da condição sublime, sua fama “Correu [...] entre as nações”. Tudo isso mostra a origem humilde de Israel em Canaã, o cuidado de Deus por ela no Egito, o dia em que de lá a libertou e o que se passou até a sua prosperidade, nos dias de Davi e de Salomão.
4. A adúltera (15-25). A parábola agora apresenta uma virada trágica, pois, em vez de retribuir ao marido o amor, a honra e a fidelidade que lhe dera, essa esposa ricamente presenteada entrega-se à prostituição sem restrições. Confiante em sua beleza e em seus bens, voltou-se para a prostituição e, de modo ingrato e infiel, passou as riquezas do marido para os falsos amantes. Era culpada de seduzi-los e de atraí-los como uma meretriz vulgar, além de ceder às tentações deles. Os presentes, fartamente recebidos do marido em amor, foram usados por ela como meios de continuar na sua conduta perversa. Esse perfeito realismo revela as “abominações” e a desprezível história de Israel. Elevada entre as nações, do nada, à condição de importante, Israel rejeitou o Senhor em troca de deuses falsos e, mergulhou nas profundezas da iniqüidade, prostituiu os dons de Deus aos seus desejos abomináveis. Em virtude do procedimento licencioso e infame, Israel havia obrigado Deus a afastá-la e a retirar dela todas as vantagens que lhe concedera.
5. Os falsos amantes (35-43). Em virtude do terrível pecado dessa adúltera, o castigo seria por demais severo. A iniqüidade de Israel se agravou por suas alianças políticas com as nações estrangeiras cujo paganismo havia copiado (26-34). Seus amantes eram os egípcios e os assírios, que ela havia subornado em troca de ajuda política, demonstrando assim falta de confiança em Deus como fonte de proteção e de provisão. Esses falsos amantes voltaram-se contra Israel e tornaram-se os seus destruidores; numa terrível vingança, privaram a nação das posses de que tanto se jactava, expondo-a à vergonha. Ezequiel já não havia usado de rodeios para se referir ao fracasso e à loucura de Israel, e agora anuncia a sua punição em termos igualmente aterradores: “Para Ezequiel, a destruição de Jerusalém já era fato consumado. Quando de fato se cumpriu na história, a ironia da estultícia humana se tornou manifesta: Deus destrói o orgulho dos homens pelos próprios ídolos dos seus desejos”.
6. As duas irmãs (44-49). Embora as três cidades —Jerusalém, Samaria e Sodoma— são apresentadas como irmãs —e todas culpadas de “adulterar” e de apostatar do verdadeiro Deus—Ezequiel introduz duas nações-irmãs nesse momento como personagens coadjuvantes no enredo da parábola. As três irmãs tinham um parentesco espiritual, mas a culpa de uma —Jerusalém— era maior e mais hedionda, uma vez que, dizendo-se servir de modelo para as irmãs, fora mais abominável que elas. “Mede-se o pecado na proporção da graça rejeitada. Sodoma e Samaria nunca foram tão honradas e enriquecidas por Deus quanto Jerusalém. Ainda assim a apóstata Samaria e a perversa Sodoma foram assoladas pela fúria de Deus. Portanto, poderia tardar o dia do juízo de Jerusalém? As duas irmãs, então, entram na história para revelar o pecado de Jerusalém na perspectiva correta de maior culpabilidade e para realçar a misericórdia de Deus”.
7. A restauração da esposa (60-63). Embora se mostre que as três irmãs se beneficiam da severa punição e, arrependidas, são restauradas, o último ato dessa vergonhosa parábola é aquele em que o profeta anuncia a restauração da esposa pecado-ra, ocorrida graças ao fato de Deus ter-se lembrado da aliança e a ter restabelecido (Jr 31; Hb 8:6-13). A graça permeia a justiça do marido ferido. Onde abundou o pecado da apostasia (Samaria), da soberba (Sodoma) e da infidelidade (Jerusalém), superabundou a graça (Rm 5:20). Uma vez que o juízo atinge o seu propósito, Deus mostra-se pronto a levar o penitente a reaver a comunhão (Rm 11:32).
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