Parábola da Mudança

(Ez 12:1-28)

 Chegamos agora à segunda série de parábolas de condenação, em ações e em palavras, que se estende até o final do capítulo 14. Lamenta­velmente, também esses sinais não quebraram o orgulho ímpio dos que se julgavam invencíveis! Ezequiel re­cebeu ordens de à vista do povo fa­zer as vezes de um exilado partindo de sua casa e de seu país, preparan­do os “trastes, como para mudança” e levando-os de um lugar para ou­tro. O que o profeta retratou foi a casa rebelde de Israel, com o prínci­pe deixando tudo para trás, exceto “os trastes”, que “levará aos ombros e às escuras”. O rei Zedequias seria levado cativo para Babilônia, mas não a veria. Cegado, morreria sem ver a terra dos seus conquistadores (Jr 39:4-7; 52:4-11; 2Rs 25:1-7).

Ezequiel estava encarregado de fazer ao povo outra demonstração visual, transmitida por um quadro falado de ações, a saber: comeria pão e beberia água com medo e cuidado e, por esse sinal, profetizaria as de­solações cue sobreviriam a Jerusa­lém, quando seus habitantes teriam a escassez de provisões comum em épocas de sítio. O capítulo termina com duas mensagens da parte de Deus (21-25; 26-28) com o propósito de refutar objeções, segundo as quais as profecias de juízo anunciadas ha­via tanto tempo não se cumpririam senão num futuro remoto. Dois pro­vérbios tentam mostrar que a profe­cia não se cumpriu, sendo adiada para um período muito distante. Mas Ezequiel recebe a incumbência de anunciar a iminência do castigo di­vino e o cumprimento de cada pala­vra proferida. Os pecadores que ex­perimentam a paciência, a tolerân­cia e a longanimidade, escondem-se num falso refúgio se acreditam que Deus não executará a sua palavra a respeito da condenação derradei­ra, caso persistam e morram em seus pecados (v. Ec8:ll; Am 6:3; Mt 24:43; lTs 5:3; 2Pe 3:4). No capítu­lo seguinte, Ezequiel denuncia os falsos profetas e profetisas, que, com mensagens mentirosas, haviam dado ao povo um falso senso de se­gurança, que o profeta comparou a uma parede construída com arga-massa fraca, contra a qual o Senhor trará um vento tempestuoso para

que seja furiosamente devastada com os que a construíram (Ez 13:10-16). As falsas profetisas, não men­cionadas em nenhum outro lugar do AT, aí se acham para uma menção especial e para um juízo específico (Ez 13:17-23). O trato severo de Deus com todos esses falsos mensa­geiros e adoradores será motivo de espanto (Ez 14:7-8).

Parábola da panela e da carne

(Ez 11:1-25)

 De modo milagroso, o profeta foi levantado pelo Espírito e levado à última porta, de onde a glória divi­na se tinha levantado, para testemu­nhar, na presença dessa majestade, uma nova cena de destruição. O pro­feta viu 25 homens, liderados pelos chefes do povo, reunidos com o iní­quo propósito de conspirar contra o rei da Babilônia. Esses homens se achavam seguros na cidade, mas Ezequiel, divinamente instruído, denunciou-os por sua loucura e tor­nou manifesta a vingança de Deus contra eles.

A figura da panela é usada para ressaltar o decreto divino, pelo qual esses homens morreriam por causa dos seus pecados. Enquanto Ezequiel profetizava, um dos chefes pereceu. Iludidos, eles achavam-se seguros dentro dos muros da cidade, como a carne na panela é protegida do fogo. Mas o profeta, sendo o porta-voz di­vino, afirmou que Jerusalém era uma panela só no sentido de estar cheia de mortos. Não haveria lugar para se esconder dos invasores. Arrancados de suas casas, os chefes sofreriam os juízos divinos.

O remanescente fiel, saindo de Jerusalém para o exílio, recebe mui­to encorajamento. Privados da ado­ração no seu amado templo, o próprio Deus seria como “um pequeno san­tuário” para eles. Deus também pro­metera trazê-los de volta à terra e, uma vez limpos moral e espiritual­mente, reaverem os seus privilégios.

Herbert Lockyer.

Parábola do homem com um tinteiro

(Ez 9 e 10)

Essa visão do profeta guarda re­lação com as anteriores. Os capítu­los anteriores trataram de desmas­carar o pecado de Israel; temos ago­ra a conseqüente punição e a identi­ficação dos fiéis. Uma característica marcante desses capítulos é a dife­renciação que Deus faz na hora de aplicar o seu juízo. Podem-se obser­var aí aspectos inconfundíveis, como:

1. O homem com um tinteiro. Entre os seis homens que vinham da porta alta, havia um que não estava armado com uma espada, mas tra­zia um tinteiro de escrivão. Seu “ves­tido de linho” distinguia sua função da dos seis oficiais da vingança. Usado pelo sumo sacerdote, o linho branco simbolizava pureza (Lv 16:4). Na cintura desse homem com aparência de sacerdote havia um “tinteiro”, um pequeno estojo com canetas, tinta e faca, material usa­do pelos escribas orientais. Não te­mos nenhum indício acerca da iden­tidade do homem com o tinteiro. “Ele é simplesmente necessário à visão”, diz Elicott, “um mensageiro angelical, para identificar aqueles cuja fidelidade a Deus em meio aos perversos ao redor os exclui da con­denação” (Ap 7:3). Alguns comenta­ristas vêem nesse homem uma fi­gura do Sumo Sacerdote celeste, cuja tarefa especial é a salvação e carrega seu tinteiro para “marcar” os seus eleitos e escrever seus no­mes no livro da vida (Êx 12:7; Ap 7:3; 9:4; 13:8-11,17; 20:4).

2. O sinal nas testas (Ez 9:4). De­pois que a glória do Senhor se levan­tou do templo, os.seis homens arma­dos passaram pela cidade para matar os habitantes, mas o que estava com o tinteiro foi na frente, marcando na testa os que suspiravam pelas abomi-nações desmascaradas e denunciadas. Enquanto os seis homens seguiam, matando os que não estavam assina­lados, eram poupados os marcados, que choravam pela razão do castigo e o terrível processo de condenação.

Essa marcação simbólica é co­mum nas Escrituras (Êx 12:7,13; 28:36; Ap 7:3; 9:4; 14:1); e era neces­sária para guiar os agentes ange­licais e humanos que deviam execu­tar as ordens divinas. Avisão de con­denação aterrorizou tanto Ezequiel, que clamou em oração, nada tendo por resposta senão que o juízo era irrevogável, sem levar em conta des­cendência ou posição. Somente os marcados, que não tiveram parte na iniqüidade da nação e por ela se en­tristeceram foram por misericórdia poupados do massacre. O fato de te­rem sido marcados na testa (região do corpo de maior destaque) mos­trava que o fato de não incorrem na condenação seria manifesto a todos (Jr 15:11; 39:11-18; Ap 13:16; 14:1,9). Na hora do castigo, Deus faz acepção de pessoas. Isso fica eviden­ciado no fato sentencioso de que o terrível juízo apresentado iniciou-se pelo Santuário (9:6). Deus não poupou os anjos que pecaram, mes­mo sendo anjos.

3. A visão de um trono (Ez 10:1-22). O homem com o tinteiro, que passou pela cidade para marcar os que suspiravam e gemiam, agora obe­dece à ordem de passar por entre as rodas, pegar nas mãos brasas acesas e espalhá-las pela cidade. Os querubins, já vistos por Ezequiel, re­aparecem para assinalar o retorno da glória do Senhor. Aqui estão intima­mente associados ao processo de con­denação que Ezequiel passa a expor. O homem que apanhou o fogo e o es­palhou por Jerusalém passou por entre as rodas, e a glória visível do Senhor, quando se levantou do limi­ar, agora se mescla às rodas e aos querubins. O objetivo dessa visão era evidenciar que o Senhor, entronizado acima dos querubins, executava os seus justos juízos por meio dos babilônios. Israel achava-se condena­do diante do Senhor, o qual, por não tolerar o desprezo para com a sua misericórdia, determinou todo o seu poder, no céu e na terra, para punir a desprezível ingratidão daqueles a quem abençoara de modo tão especi­al. Avisão revela, na perspectiva cor­reta, a lúgubre culpa de Israel e suas horrendas conseqüências.

Robert Lockyer.

Parábola da Imagem de Ciúmes

(Ez 8:1-18)

Depois do simbolismo que se con­clui em Ezequiel 5:4, nos capítulos 6 e 7 o profeta pela primeira vez apre­senta as suas profecias em lingua­gem clara. Seu estilo passa da prosa para a forma mais comum de apre­sentação profética: cheia de parale-lismos —característicos da poesia hebraica. No capítulo 8, Ezequiel retoma o método parabólico com a sua nova série de profecias. O mais surpreendente autor dentre todos os profetas, Ezequiel, manifesta uma força e uma energia em suas denún­cias que não encontram precedentes. Suas freqüentes repetições apresen­tam ao leitor os próprios juízos de que ele é porta-voz.

Como os cativos na Babilônia re­clamaram de que Deus os tratara com severidade (Ez 8:15), o Senhor concedeu a Ezequiel uma visão do que estava-se passando no templo de Jerusalém, a despeito dos terríveis juízos impostos sobre eles. A idola­tria era praticada de todas as formas por demais odiosas e abomináveis, até mesmo pelos sacerdotes e pelos anciãos, homens que, por sua auto­ridade, deveriam tê-la condenado. Sentado em sua casa, o profeta sen­tiu o impulso da mão divina sobre ele e viu uma “semelhança como apa­rência de fogo”. Os anciãos senta­ram-se diante dele para ouvir o mo­tivo e o processo do merecido juízo. Como estavam presentes quando a profecia foi entregue, não restavam desculpas a esses líderes. Parece ter havido quatro fases no processo de desmascarar a idolatria oculta:

1. Levado a Jerusalém “em visões de Deus”, Ezequiel contemplou a gló­ria divina na porta do templo e, por meio dessa ofuscante luz, viu os obs­curos recessos da infidelidade de seu

povo (Is 6). Para onde quer que se voltasse, via a perversidade do cora­ção humano, culpado de trocar a gló­ria do Deus eterno por imagens (Rm 1:23). Na entrada do pátio de dentro da casa do Senhor, Ezequiel viu “a imagem que provoca ciúme” de Deus (Dt 32:21; Êx 20:4,5). O Senhor diz a Ezequiel que essa era a razão por que se afastara do santuário. Deus não pode tolerar um rival (Ez 8:5,6; Dt 4:23,24).

2.  Depois o profeta recebe ordem de cavar um buraco na parede e, ao entrar pela porta, descobre, para seu espanto, os anciãos de Israel quei­mando incenso diante de répteis, animais abomináveis e ídolos (8:7-12). Pensaram que não seriam des­cobertos, mas o Senhor penetra to­dos os aposentos da escuridão. Nada lhe é oculto. O incenso aos ídolos é o mau cheiro da iniqüidade, detestá­vel a Deus. Aqueles líderes religio­sos tinham-se afastado tanto da co­munhão com o Senhor, que imagina­vam ter ele abandonado a terra e, portanto, eles não seriam vistos. A respeito desse pecado, Jamieson es­creveu: “Quão terrivelmente agra­vou o pecado da nação o fato de os setenta, depois de ter recebido aces­so ao segredo do Senhor (SI 25:14), agora, ‘nas trevas’, entrarem no ‘conselho’ dos perversos (Gn 49:6) e, apesar de estarem legalmente obri­gados a extinguir a idolatria, serem os que a promoviam”.

3. Adepravação das mulheres de Israel, que choravam por Tamuz, foi a visão seguinte do profeta (Ez 8:13,14). Tamuz era o conhecido deus babilônico da vegetação e da fertili­dade. “Parte da cerimonia que visa­va a garantir o retorno da estação fértil consistia em lamentações por Tamuz, que, nas estações infrutífe­ras do ano, diziam estar morto. Em seu desatino, as mulheres de Israel serviam a um deus pagão, e não ao Deus vivo, o Deus de Israel.” Que oportunas são estes versos de Mil­ton sobre o choro pelo deus Tamuz:

A história de amor

Corrompeu as filhas de Sião com igual ardor;

De quem Ezequiel viu na porta sagrada

A paixão desenfreada.

4. Por último Ezequiel vê 25 ho­mens de costas para o templo, prostrados diante do Sol (Ez 8:15-18). A idolatria de Israel não era meramen­te “um desvio exterior ou o resulta­do da ignorância do povo. Era um afastamento deliberado e consuma­do em relação a Deus, como se todos os sacerdotes, tendo o sumo sacer­dote por cabeça, estivessem de cos­tas para j Santo dos Santos e pres­tassem toda a sua adoração ao deus pagão Sol” (lCr 24:5-9; 2Cr 36:14). A despeito do pranto em alta voz do povo, Deus não desfez a condenação, como mostram os capítulos de 9 a 11. A arma destruidora da condenação divina estava nas mãos de executo­res já designados para castigar os perversos idolatras de Jerusalém (v. Ex 12:23; 2Sm 24; 2Rs 19).

Herbet Lockyer.

Parábola da Cabeça e da Barba Rapada

(Ez 5:1-17)

 O amplo emprego que o profeta faz das ações parabólicas exige nossa cuidadosa atenção. Nenhum outro autor recorreu com tanta fre­qüência ao método parabólico de instrução quanto Ezequiel. Intima­mente relacionado com o capítulo anterior, esse que agora passamos a estudar intensifica, com novos símbolos, a denúncia de condena­ção contra os judeus. Juízos mais severos que as aflições do Egito viriam sobre o povo por causa de seus pecados.

A “faca afiada [...] como navalha de barbeiro” significa qualquer ins­trumento cortante, como a espada, por exemplo, e é usada como símbo­lo das armas do inimigo (Is 7:20). Uma espada, então, afiada como navalha de barbeiro, devia ser usa­da para rapar o cabelo e a barba do profeta. Sendo ele representante dos judeus, a espada deveria ser passa­da sobre a “cabeça” dele, servindo de sinal do tratamento severo e humi­lhante, sobretudo para um sacerdote (2 Sm 10:4,5). Sendo os cabelos si­nal de consagração, os sacerdotes eram expressamente proibidos pela lei de rapar tanto o cabelo como a barba (Lv 21:5). Rapá-los represen­taria o mais desolador castigo.

Os cabelos que tinham sido cor­tados deveriam ser pesados e dividi­dos em três partes. A primeira seria queimada no meio da cidade no fim do cerco, a segunda seria ferida pela espada ao redor da cidade e a tercei­ra seria espalhada ao vento. Por fim Ezequiel apresenta o sentido da pa­rábola: uma terça parte do povo mor­reria de peste no meio da cidade, outra terça parte cairia à espada e a última terça parte seria espalhada ao vento. Isso aconteceu aos rema­nescentes. Uns poucos fios de cabelo deveriam ser recolhidos e atados nas abas das vestes do profeta, sendo o restante atirado ao fogo. Os poucos que escaparam aos severos juízos não se salvaram da prova de fogo??? (Jr 41:12; 44:14). Em dias melhores, Deus assegurara ao seu povo que os cabelos da cabeça seriam contados, prova do cuidado e da provisão divi­na. Agora, arrancadas de Deus e se­paradas de sua presença, as cabeças rapadas anunciavam o afastamento da bondade e da proteção divina.

Resumindo as ações simbólicas desse capítulo e do anterior, The biblical expositor [O comentarista bíblico] afirma que essas ações de­vem ter atraído um círculo de curio­sos espectadores, a quem Ezequiel explicou o que significavam: “Não foi Babilônia nem a sua queda que re­tratou, mas os juízos muito mereci­dos e irrevogáveis sobre a ímpia Je­rusalém. Em vez de ser o centro de onde a salvação irradiaria para as nações, ela excedeu os gentios na perversidade. Assim, Deus não mais a pouparia, nem teria compaixão dela. Sua punição seria severa por ter pisoteado os grandes dons da gra­ça de Deus”.

Herbert Lockyer.

Parábola do Tijolo Entalhado

(Ez 4:1-17)

Todo esse capítulo está repleto de ações simbólicas que relatam a seve­ridade do cerco de Jerusalém que es­tava por acontecer. Tijolos com enta­lhes, em geral medindo 61 cm de com­primento por 30 cm de largura, sobe­javam nas ruínas da Babilônia. O barro macio e, portanto, maleável transformava-se em tijolos em que se faziam inscrições cuneiformes. De­pois, com a secagem ao sol, o objeto ou a inscrição esboçada no tijolo ali se conservava para sempre. Muitos exemplos dessa arte babilônica po­dem ser vistos em vários museus na­cionais pelo mundo afora. Se Ezequiel de fato desenhou Jerusalém no tijolo ainda molhado, retratando o desen­rolar do cerco, ou se isso diz respeito a um ato simbólico, é um assunto em que as autoridades divergem. O mes­mo se pode dizer de todas as ações mencionadas nessa visão parabólica que trata da difícil situação em que Jerusalém logo se veria.

Instando o profeta a edificar uma fortificação contra o cerco, Deus ins­truiu seu mensageiro a tomar uma sertã de ferro e pô-la como parede entre si e a cidade. Kiel, em seu es­tudo sobre Ezequiel, diz que “a sertã de ferro, posta como parede, não re­presenta nem os muros da cidade, nem os baluartes dos inimigos, uma vez que isso já está representado pelo tijolo; mas significa um firme e inexpugnável muro de separação que o profeta, como mensageiro e representante de Deus, levantou entre si e a cidade sitiada”. Ezequiel, então, representando a Deus, mos­tra que “a parede de separação en­tre ele e o povo era como que de fer­ro, e o exército da C aldeia, que esta­va por atacar —sendo o instrumen­to de separação entre eles e Deus—, era indestrutível”.

Depois temos a outra ação para­bólica de Ezequiel, em que se deita sobre o seu lado esquerdo por 390 dias e sobre o direito por 40 dias, simbolizando com isso o carregar da iniqüidade do número correspon­dente de anos e profetizando con­tra Jerusalém durante todo esse período. “Era um processo longo e maçante levar a iniqüidade da casa do Senhor, no sentido de confessá-la, assim revelando o motivo do cer­co e da condenação.” Levar a mal­dade de alguém (Nm 14:34) é ex­pressão bíblica que denota incorrer na punição devida ao pecado. Dei-tando-se sobre o seu lado esquerdo, o profeta mostrou como o povo so­freria o castigo divino por seus pe­cados. A importância do lado esquer­do está no “hábito, no Oriente, de olhar para o Leste a fim de indicar as direções na bússola; o Reino do Norte estava, portanto, à esquerda”. Por isso “a casa de Israel” é diferen­ciada da “casa de Judá”, que corresponde ao “lado direito” (4:6), o mais honroso.

Outras ações simbólicas eram dirigir o rosto para o cerco de Jerusa­lém e ter o braço descoberto. A expres­são hebraica traduzida por Dirigirás o teu rosto (também traduzida em ou­tras passagens por voltar-se para, pôr a face contra, etc.) é comum nas Es­crituras no sentido de firmeza de propósito (Lv 26:17). Sendo expressão favorita de Ezequiel (15:7; 20:46 etc), implica firmeza de propósito a ser apli­cada “quanto ao cerco de Jerusalém”. Não haveria abrandamento; a conde­nação divina sobreviria à cidade con­forme decretada.

“… com o teu braço descoberto”. Essa ação faria uma vivida impres­são. As longas roupas orientais, que em geral cobriam os braços, impedi­am que se agisse com rapidez (Is 52:10). Então, adapatando as pala­vras às suas ações, Ezequiel profeti­zou contra a cidade. Quanto às “cor­das” sobre o profeta, impedindo-o de virar-se da esquerda para a direita até o fim do cerco, o comentário de Ellicott é esclarecedor. “E mais um aspecto do caráter inflexível da con­denação preconizada. O poder de Deus interviria para garantir a mis­são do profeta. Era preciso evitar que, não apenas a comiseração, mas mesmo a debilidade e a fadiga, pró­prias do homem, representassem algum impedimento. Fala-se de um cerco do profeta porque foi o que fez figuradamente.”

A seguir, apresenta-se o rigor do cerco de modo muito pitoresco. Em vez da farinha usada na confecção de delicados bolos (Gn 18:6), os ju­deus teriam uma mistura não-refi-nada de seis espécies diferentes de grãos, em geral consumidos somen­te pelos mais pobres. Os grãos, dos melhores aos piores, deviam ser mis­turados numa vasilha —violação do espírito da lei (Lv 19:19; Dt 22:9)— simbolizando com isso as severida­de do cerco e a implacável privação sobre os sofredores. A comida devia ser preparada de modo que lembrasse imundície. As leis alimentares que tratavam dos alimentos puros e im­puros não foram observadas (Os 9:3,4). A escassez de pão e de água para suprir as necessidades físicas afligiria os habitantes da cidade (Ez 4:11; 16:17; v. Lm 1:2; 2:11,12), in­tensificando assim a completa ruí­na que se seguiria à condenação de Jerusalém. Comer pão por peso e beber água por medida falam da ter­rível penúria comum em períodos de fome. Em razão de seus pecados per­sistentes, o povo experimentaria grande sofrimento e angústia. Não admira que se espantariam “uns com os outros”, expressão que denota a aparência chocante da carência desespendora.

Herbert Lockyer.