Catorze das epístolas —das quais Hebreus, que atribuímos a Paulo— são conhecidas como paulinas; as sete restantes são as epístolas gerais, por terem diversos autores: Tiago, Pedro, João e Judas. Como um todo, as epístolas oferecem ao estudante um rico filão de material ilustrativo. Paulo, particularmente, parece deleitar-se no uso da linguagem parabólica na apresentação que faz da verdade. Embora seja inegável, como afirma Hillyer Straton, que Cristo tivesse uma mente parabólica, pensando e falando com vividas imagens, e que o “seu uso das parábolas é das melhores provas secundárias que temos da historicidade de Jesus de Nazaré”, é igualmente correto afirmar que Paulo tinha uma mente simbólica. Mesmo sem criar parábolas como as do Mestre, que ele amava ternamente, os seus escritos apresentam muitas alegorias admiráveis. Paulo era grato pela incompa-rável ajuda que as parábolas de Cristo deram e, com incontestável habilidade, combinou os ensinamentos desse à situação em que vivia.
Graças aos muitos elos existentes entre as parábolas dos evangelhos e as das epístolas, é essencial estudar as parábolas à luz das epístolas e também salientar que as epístolas devem ser lidas como seqüência das parábolas. No capítulo “The parables and the epistles” ["As parábolas e as epístolas"], Ada R. Habershon trata de forma muito abrangente a associação entre as duas: “As parábolas explicam os escritos das epístolas. Mostram por que agora gregos e romanos são os destinatários em lugar dos judeus. É verdade que as parábolas não revelam plenamente a posição da Igreja nessa dispensação, mas explicam as causas do privilégio dos gentios; percorrem os passos que conduziram a esse privilégio e preparam o caminho para a revelação feita a Paulo. As epístolas eclesiásticas são apenas o resultado da disseminação da semente, prenunciada na Parábola do Semeador [...] Entendemos também que as epístolas são seqüências ou suplementos das parábolas. O Senhor disse a seus discípulos que ainda tinha muitas coisas a dizer-lhes, mas não estavam aptos a recebê-las [•••] Em muitos casos, como veremos, o apóstolo usou os mesmos simbolismos para ensinar muitas lições [...] Outro fato importante que aprender, sobretudo no que diz respeito às epístolas, é que a história de Israel é tipológica [...] É Paulo quem claramente nos abre um vasto campo de estudo”. Com essas observações práticas na mente, examinemos algumas instruções e ilustrações parabólicas que Paulo tem para nós em suas preciosas epístolas.
Figura. Quando Paulo escreve “Adão [...] é a figura daquele que havia de vir” (Rm 5:14-20), apresenta-nos o mais antigo dos tipos. Quanto ao tempo, esse tipo é o primeiro; quanto à posição, é o mais profundo. Não há outro antes dele, nem abaixo dele. Arnot diz: “Ao descer do céu em amor, o Espírito de Deus tomou o primeiro fato da história humana e com ele se reporta ao ensino da redenção do homem. Não houve demora, pois as questões do Rei exigem pressa. O doador estava pronto e desejoso; os receptores, indolentes e vagarosos”. Assim como ocorre com o carimbo e a sua impressão, assim se dá com o tipo e seu antítipo, havendo ao mesmo tempo semelhança e diferença; são o mesmo, porém opostos.
Adão e Cristo eram as fontes verdadeiras, os patriarcas de suas respectivas famílias. O primeiro Adão constitui-se o cabeça e representante da raça humana e, quando caiu, levou todos consigo. O último Adão também se constitui cabeça de incontável multidão. Tão logo o primeiro pecou, o último foi prometido como Salvador dos pecados. A semente do primeiro gera dele pecado e morte; a semente do segundo gera dele justiça e vida. A primeira semente inclui toda a raça humana; a segunda, embora contida na primeira, é um “pequeno rebanho”.
A palavra que Paulo usa e é traduzida por “figura” é type, ou “semelhança”. Ao falar, porém, da semelhança entre Adão e Cristo, Paulo de imediato passa a destacar as diferenças entre eles. O contraste, ou as dis-crepâncias, é realçado pelos elementos de semelhança da seguinte maneira:
| Os atuantesA ação
O caráter da ação em sua relação com a queda e a salvação Pessoas atingidas pela ação Efeito imediato da ação Efeito final da ação |
Um homem, AdãoUm ato de desobediência
A grande transgressão ou ruptura inicial do mandamento de Deus Toda a humanidade Seqüência de muitas transgressões Perda Morte |
Um homem, CristoUm ato de obediência
A grande obra de graça ou a dádiva da justiça Toda a humanidade Eliminação de muitas transgressões Ganho Vida |
Paulo, de maneira impressionante, retrata o pecado e a morte, a graça e a vida como dois grandes opostos. Fala da morte que governa, mas também da graça e da justiça que de igual modo reinam (Rm 5:14,17). O homem é dominado por um ou pelo outro. Quando Deus formou o coração humano, criou-o capaz de comportar apenas um soberano por vez. Quem realmente reina em sua vida? O fato de o AT ter sido escrito tendo em vista os leitores do NT evidencia-se pela tríplice afirmação do apóstolo:
Gênesis foi escrito “por nossa causa” (Rm 4:23,24);
Deuteronômio foi escrito “por nós” (ICo 9:9,10);
Êxodo e Números foram escritos “para aviso nosso” (ICo 10:11).
Compromisso matrimonial. Ao discorrer sobre as obrigações da verdadeira união com Cristo e a exata natureza da liberdade cristã, Paulo toma de empréstimo do casamento uma ilustração para desenvolver o ensino de que não estamos sob a lei, mas debaixo da graça (Rm 6:14,15). Tendo tratado do “fim do pecado para o cristão, agora trata da sua morte para a lei”.
No contrato de casamento, o compromisso se dissolve pela morte de uma das partes. Semelhantemente, a identificação do cristão com Cristo em sua morte o liberta da obrigação da lei, pondo-o em nova união espiritual com o Senhor (Rm 7:1-6). Agora casados com Jesus, essa misteriosa e eterna comunhão com ele produz fruto de santidade e serviço.
Oliveira. A Parábola do zambu-jeiro enxertado, de Romanos 11, é uma das mais importantes da história judaica. Paulo usa um símbolo conhecido de Israel para se referir à mudança de dispensação. Para isso usa a figura da queda dos ramos naturais da oliveira e da inserção dos gentios. O enxerto, como Paulo demonstra, trouxe aos gentios a posse das bênçãos e dos privilégios de Israel, incluindo-se a responsabilidade como testemunhas, e assim a oliveira do AT transforma-se na do NT. Pondo Israel de lado, a misericórdia de Deus é estendida a todos os homens, e o simbolismo que Paulo emprega prova que os gentios entram, pela fé, no sistema de bênçãos prometido por Deus a Abraão. Como Israel, um ramo arrancado, assim os gentios, como ramos enxertados, precisam tomar cuidado para que não aconteça, pelo seu pecado, de serem cortados como ramos inúteis (Jo 15). “… se Deus não poupou os ramos naturais, teme que não te poupe a ti também.”
Edificadores. Os símiles que o Senhor usou a si mesmo em suas parábolas são aplicados também a seus servos. Ele é o Edificador do templo, sua Igreja (Mt 16:18), e nós, também, somos edificadores com a responsabilidade de utilizar o tipo certo de material (ICo 3:9-15). A outra parábola, a dos Edificadores sábio e néscio —uma casa na rocha e outra na areia— pode ser comparada ao ensino de Paulo sobre a edificação. Ele se utiliza do mesmo simbolismo duplo que o evangelho apresenta —Deus como Agricultor e Edificador. Nos dois aspectos “somos cooperadores de Deus”. “… sois lavoura de Deus e edifício de Deus.” Paulo compara-se a um agricultor que planta e rega (ICo 3:6) e ao sábio construtor que põe o bom fundamento para outro construir (2Co 3:10). Na Parábola dos fundamentos (ICo 3:10-15), os edificadores são todos salvos, estão todos no fundamento, mas, mesmo assim, constróem com materiais diferentes. Na Parábola dos dois edificadores (Mt 7:25-27; Lc 6:48,49), são representados salvos e perdidos, tendo como diferença o fundamento: rocha ou areia. Que nossas obras resistam ao teste de fogo!
Templo. Jesus falou de seu corpo físico como um templo (Mc 14:58), e Paulo usa a mesma figura de linguagem em referência à igreja de Corinto (ICo 3:16,17). Como sobreveio castigo aos que violaram o antigo templo (Êx 28:43; Lv 16:2), pois era santificado pela habitação da presença divina, assim os crentes habitados pelo Espírito são santos diante do Senhor e não ficarão impunes se profanarem o templo espiritual. Os crentes, individualmente, ou a Igreja como corpo, são mencionados como templo (ICo 6:19; 2Co 6:16). Outras figuras de linguagem expressivas para o leitor desenvolver são ministros, despenseiros, reis (ICo 4:1-8), espetáculo (ICo 4:9) e instrumentos (ICo 4:10).
Fermento. Por duas vezes Paulo usa a fértil expressão “… um pouco de fermento leveda toda a massa…” (ICo 5:6; Gl 5:9). No primeiro caso, Paulo refere-se às perversidades; no segundo, fala das más doutrinas contrárias à natureza e ordena a erradicação do fermento. Na verdade é impossível separar o fermento da farinha (Mt 13:33), mas, nas coisas espirituais, o único modo de impedir que se espalhe o fermento das ações perversas e das más doutrinas é eliminá-lo. Paulo disse à igreja de Corinto que, enquanto o fermento (os membros pecadores da igreja) não fosse erradicado, a igreja não poderia observar a Festa com os pães asmos da sinceridade e da verdade. Tanto os coríntios como os gaiatas precisavam aprender que um Deus santo não pode tolerar o mal, seja nas ações, seja na doutrina.
Semeador. O eco da parábola de Jesus sobre o Semeador pode ser ouvido vez após vez nas epístolas paulinas e gerais. O Senhor e seus servos são semeadores da Palavra. Paulo cita Isaías: “Quão formosos são os pés dos que anunciam a paz, dos que anunciam coisas boas!” (Rm 10:15 cit. Is 52:7), e diz que todos os arautos da cruz são semeadores da semente (2Co 9:6,10). Ainda que a narrativa trate de dar e receber coisas temporais, o mesmo se aplica aos receptores e semeadores da Palavra de Deus. “Devemos semear aquilo que já prolifera em nossa alma; e a colheita será proporcional à semea-dura.” A semeadura e a colheita se correspondem (2Co 9:6). Paulo diz que a colheita não dependerá apenas da quantidade da semente plantada, mas da qualidade dessa semente. “Tudo o que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6:7-9). Podemos ler a Parábola do joio junto com a solene advertência de Paulo.
O apóstolo também usa a figura da semeadura e da colheita em seu grande capítulo sobre a ressurreição, chamado “Carta magna da ressurreição” (ICo 15). O cadáver da sepultura assumirá forma mais gloriosa quando Jesus vier (ICo 15:37,38). Como ocorre com a semente da parábola de Jesus (Mc 4), quando vier a colheita, a semente será encontrada já crescida —não sabemos como.
Intimamente ligada à semeadura e à ceifa está a frutificação, exatamente como há uma ligação fundamental entre o Semeador e a videira. Paulo, mais do que qualquer outro apóstolo, define claramente um ramo frutífero (Gl 5:22,23). O cacho dos frutos preciosos, a que Paulo se refere, consiste mais de vida que de serviço. Viver não é o mesmo que servir, ainda que ambos estejam associados à frutificação e devam sempre harmonizar-se. Devemos ser frutíferos em toda boa obra. Às vezes, entretanto, o crente, por incapacidades físicas, não pode servir, mas o sofrimento é uma forma passiva de produzir frutos.
Na Parábola da videira, o Pai é o Agricultor glorificado pela produtividade dos ramos (Jo 15). Paulo faz ecoar essa mesma verdade em sua segunda carta ao jovem Timóteo: “O lavrador que trabalha deve ser o primeiro a gozar dos frutos” (2Tm 2:6) —o que tem dupla aplicação: o Agricultor divino e seu subagricultor. Todo esse capítulo oferece símiles impressionantes e expressivos. O versículo-chave do capítulo é “Lembra-te de que Jesus Cristo…” (2Tm 2:8), em torno do qual o apóstolo reúne várias figuras de linguagem para ilustrar o nosso relacionamento com o Filho de Deus:
somos soldados — ele é o Divino Capitão (v. 4);
somos atletas — ele é o Arbitro com o prêmio (v. 5);
somos trabalhadores — ele é o Senhor a quem servimos (v. 15);
somos vasos — ele é o Proprietário que nos usa (v. 21);
somos o fruto — ele é o Agricultor que se deleita com o fruto (v. 6).
Em suas parábolas, Paulo muitas vezes faz uso dos pares. As plantas e as construções, por exemplo, aparecem lado a lado num símile dos santos.
“… arraigados e edificados nele…” (Cl 2:7)
“… arraigados e fundados em amor…” (Ef 3:17)
“… vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus” (I Co 3:9).
O apóstolo assim seguiu o Mestre no uso do duplo simbolismo. Os líderes de Israel foram comparados a agricultores e a edificadores. Israel e a Igreja são chamados videira e rebanho (Sl 80; Jo 10:15).
Noite que se aproxima. Outra relação entre as parábolas dos evangelhos e as das epístolas é a da segunda vinda de nosso Senhor. O Espírito Santo foi prometido como o Iluminador dos acontecimentos futuros. “… vos anunciará o que há de vir”, e é Paulo que, pelo Espírito, descortina para a Igreja a verdade da volta do Senhor. Em seus escritos, destaca-se como “Apóstolo do Arrebatamento”, quando emprega muitos símiles impressionantes dessa bendita esperança.
Paulo, junto com o nosso Senhor, reforça a noite e a vigilância. Esta era é a noite escura do mundo, mas para o crente “o dia é chegado”. Não devemos dormir como fizeram as virgens, mas, deixando as obras das trevas, revistamo-nos da armadura da luz, como ele, que é a Luz (Rm 13:11-14). Por estar próximo o glorioso amanhecer, vivamos como os que estão prontos. Jamais durmamos como os que pertencem a essa era de trevas do mundo. Precisamos estar atentos e prontos para saudar a Cristo em sua vinda (lTs 4:14—5:10).
Imersos em densas trevas, Paulo lembra-nos em linguagem de vivido impacto a responsabilidade que temos diante daquele que em breve retornará para os seus. Na esperança da vinda de Cristo, procedamos como “embaixadores da parte de Cristo” (2Co 5:20) —sendo o embaixador o equivalente, nas parábolas de Jesus, aos mensageiros enviados para convidar hóspedes à festa. Como o dia da graça continua, devemos insistir com os homens para que se reconciliem com Deus. Depois, Paulo segue a Cristo no símile do “despenseiro”, para ilustrar a espécie de serviço que devemos prestar enquanto esperamos a sua volta de uma terra distante. Como ministros e despenseiros de seus mistérios (ICo 4; Mt 13), devemos ser fiéis no uso das riquezas do Mestre e não desperdiçá-las como fez o mordomo infiel (Lc 16). Se o serviço para o qual nos designou parece árduo, desinteressante e aparentemente sem resultados, não devemos nos rebelar. Sob a figura do boi, Paulo reforça a necessidade da obediência à vontade de Deus (I Co 9:9,10).
Por Herbert Lockyer.
























Aldo Corrêa de Lima – ADVOGADO




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