Parábolas Paulinas

 

Catorze das epístolas —das quais Hebreus, que atribuímos a Paulo— são conhecidas como paulinas; as sete restantes são as epístolas gerais, por terem diversos autores: Tiago, Pedro, João e Judas. Como um todo, as epístolas oferecem ao estudante um rico filão de material ilustrativo. Paulo, particularmente, parece de­leitar-se no uso da linguagem para­bólica na apresentação que faz da verdade. Embora seja inegável, como afirma Hillyer Straton, que Cristo tivesse uma mente parabólica, pen­sando e falando com vividas ima­gens, e que o “seu uso das parábolas é das melhores provas secundárias que temos da historicidade de Jesus de Nazaré”, é igualmente correto afirmar que Paulo tinha uma mente simbólica. Mesmo sem criar parábo­las como as do Mestre, que ele ama­va ternamente, os seus escritos apre­sentam muitas alegorias admirá­veis. Paulo era grato pela incompa-rável ajuda que as parábolas de Cris­to deram e, com incontestável habi­lidade, combinou os ensinamentos desse à situação em que vivia.

Graças aos muitos elos existen­tes entre as parábolas dos evange­lhos e as das epístolas, é essencial estudar as parábolas à luz das epís­tolas e também salientar que as epístolas devem ser lidas como seqüência das parábolas. No capítulo “The parables and the epistles” [“As pará­bolas e as epístolas”], Ada R. Habershon trata de forma muito abrangente a associação entre as duas: “As parábolas explicam os escritos das epístolas. Mostram por que agora gre­gos e romanos são os destinatários em lugar dos judeus. É verdade que as parábolas não revelam plenamente a posição da Igreja nessa dispensação, mas explicam as causas do privilégio dos gentios; percorrem os passos que conduziram a esse privilégio e prepa­ram o caminho para a revelação feita a Paulo. As epístolas eclesiásticas são apenas o resultado da disseminação da semente, prenunciada na Pará­bola do Semeador […] Entendemos também que as epístolas são se­qüências ou suplementos das pará­bolas. O Senhor disse a seus discí­pulos que ainda tinha muitas coi­sas a dizer-lhes, mas não estavam aptos a recebê-las [•••] Em muitos casos, como veremos, o apóstolo usou os mesmos simbolismos para ensinar muitas lições […] Outro fato importante que aprender, sobretu­do no que diz respeito às epístolas, é que a história de Israel é tipológica […] É Paulo quem clara­mente nos abre um vasto campo de estudo”. Com essas observações prá­ticas na mente, examinemos algu­mas instruções e ilustrações para­bólicas que Paulo tem para nós em suas preciosas epístolas.

Figura. Quando Paulo escreve “Adão […] é a figura daquele que havia de vir” (Rm 5:14-20), apresen­ta-nos o mais antigo dos tipos. Quan­to ao tempo, esse tipo é o primeiro; quanto à posição, é o mais profundo. Não há outro antes dele, nem abaixo dele. Arnot diz: “Ao descer do céu em amor, o Espírito de Deus tomou o pri­meiro fato da história humana e com ele se reporta ao ensino da redenção do homem. Não houve demora, pois as questões do Rei exigem pressa. O doador estava pronto e desejoso; os receptores, indolentes e vagarosos”. Assim como ocorre com o carimbo e a sua impressão, assim se dá com o tipo e seu antítipo, havendo ao mesmo tempo semelhança e diferença; são o mesmo, porém opostos.

Adão e Cristo eram as fontes ver­dadeiras, os patriarcas de suas res­pectivas famílias. O primeiro Adão constitui-se o cabeça e representan­te da raça humana e, quando caiu, levou todos consigo. O último Adão também se constitui cabeça de incontável multidão. Tão logo o pri­meiro pecou, o último foi prometido como Salvador dos pecados. A se­mente do primeiro gera dele pecado e morte; a semente do segundo gera dele justiça e vida. A primeira se­mente inclui toda a raça humana; a segunda, embora contida na primei­ra, é um “pequeno rebanho”.

A palavra que Paulo usa e é traduzida por “figura” é type, ou “se­melhança”. Ao falar, porém, da seme­lhança entre Adão e Cristo, Paulo de imediato passa a destacar as diferen­ças entre eles. O contraste, ou as dis-crepâncias, é realçado pelos elementos de semelhança da seguinte maneira:

Os atuantesA ação

O caráter da ação em sua

relação com a queda e a

salvação

Pessoas atingidas pela ação

Efeito imediato da ação

Efeito final da ação

Um homem, AdãoUm ato de desobediência

A grande transgressão

ou ruptura inicial do

mandamento de Deus

Toda a humanidade

Seqüência de muitas

transgressões

Perda

Morte

Um homem, CristoUm ato de obediência

A grande obra de graça ou a dádiva da justiça

Toda a humanidade

Eliminação de muitas

transgressões

Ganho

Vida

 Paulo, de maneira impressionan­te, retrata o pecado e a morte, a gra­ça e a vida como dois grandes opos­tos. Fala da morte que governa, mas também da graça e da justiça que de igual modo reinam (Rm 5:14,17). O homem é dominado por um ou pelo outro. Quando Deus formou o cora­ção humano, criou-o capaz de com­portar apenas um soberano por vez. Quem realmente reina em sua vida? O fato de o AT ter sido escrito tendo em vista os leitores do NT eviden­cia-se pela tríplice afirmação do apóstolo:

Gênesis foi escrito “por nossa cau­sa” (Rm 4:23,24);

Deuteronômio foi escrito “por nós” (ICo 9:9,10);

Êxodo e Números foram escritos “para aviso nosso” (ICo 10:11).

Compromisso matrimonial. Ao discorrer sobre as obrigações da ver­dadeira união com Cristo e a exata natureza da liberdade cristã, Paulo toma de empréstimo do casamento uma ilustração para desenvolver o ensino de que não estamos sob a lei, mas debaixo da graça (Rm 6:14,15). Tendo tratado do “fim do pecado para o cristão, agora trata da sua morte para a lei”.

No contrato de casamento, o com­promisso se dissolve pela morte de uma das partes. Semelhantemente, a identificação do cristão com Cristo em sua morte o liberta da obrigação da lei, pondo-o em nova união espi­ritual com o Senhor (Rm 7:1-6). Ago­ra casados com Jesus, essa misteri­osa e eterna comunhão com ele pro­duz fruto de santidade e serviço.

Oliveira. A Parábola do zambu-jeiro enxertado, de Romanos 11, é uma das mais importantes da histó­ria judaica. Paulo usa um símbolo conhecido de Israel para se referir à mudança de dispensação. Para isso usa a figura da queda dos ramos naturais da oliveira e da inserção dos gentios. O enxerto, como Paulo de­monstra, trouxe aos gentios a posse das bênçãos e dos privilégios de Is­rael, incluindo-se a responsabilida­de como testemunhas, e assim a oli­veira do AT transforma-se na do NT. Pondo Israel de lado, a misericórdia de Deus é estendida a todos os ho­mens, e o simbolismo que Paulo em­prega prova que os gentios entram, pela fé, no sistema de bênçãos pro­metido por Deus a Abraão. Como Is­rael, um ramo arrancado, assim os gentios, como ramos enxertados, precisam tomar cuidado para que não aconteça, pelo seu pecado, de serem cortados como ramos inúteis (Jo 15). “… se Deus não poupou os ramos naturais, teme que não te poupe a ti também.”

Edificadores. Os símiles que o Senhor usou a si mesmo em suas pa­rábolas são aplicados também a seus servos. Ele é o Edificador do templo, sua Igreja (Mt 16:18), e nós, também, somos edificadores com a responsabilidade de utilizar o tipo certo de material (ICo 3:9-15). A ou­tra parábola, a dos Edificadores sá­bio e néscio —uma casa na rocha e outra na areia— pode ser compara­da ao ensino de Paulo sobre a edificação. Ele se utiliza do mesmo simbolismo duplo que o evangelho apresenta —Deus como Agricultor e Edificador. Nos dois aspectos “somos cooperadores de Deus”. “… sois la­voura de Deus e edifício de Deus.” Paulo compara-se a um agricultor que planta e rega (ICo 3:6) e ao sá­bio construtor que põe o bom funda­mento para outro construir (2Co 3:10). Na Parábola dos fundamen­tos (ICo 3:10-15), os edificadores são todos salvos, estão todos no funda­mento, mas, mesmo assim, constró­em com materiais diferentes. Na Parábola dos dois edificadores (Mt 7:25-27; Lc 6:48,49), são representa­dos salvos e perdidos, tendo como diferença o fundamento: rocha ou areia. Que nossas obras resistam ao teste de fogo!

Templo. Jesus falou de seu cor­po físico como um templo (Mc 14:58), e Paulo usa a mesma figu­ra de linguagem em referência à igreja de Corinto (ICo 3:16,17). Como sobreveio castigo aos que vi­olaram o antigo templo (Êx 28:43; Lv 16:2), pois era santificado pela habitação da presença divina, as­sim os crentes habitados pelo Es­pírito são santos diante do Senhor e não ficarão impunes se profana­rem o templo espiritual. Os cren­tes, individualmente, ou a Igreja como corpo, são mencionados como templo (ICo 6:19; 2Co 6:16). Outras figuras de linguagem expressivas para o leitor desenvolver são mi­nistros, despenseiros, reis (ICo 4:1-8), espetáculo (ICo 4:9) e instru­mentos (ICo 4:10).

Fermento. Por duas vezes Paulo usa a fértil expressão “… um pouco de fermento leveda toda a massa…” (ICo 5:6; Gl 5:9). No primeiro caso, Paulo refere-se às perversidades; no segundo, fala das más doutrinas con­trárias à natureza e ordena a erradicação do fermento. Na verda­de é impossível separar o fermento da farinha (Mt 13:33), mas, nas coi­sas espirituais, o único modo de im­pedir que se espalhe o fermento das ações perversas e das más doutrinas é eliminá-lo. Paulo disse à igreja de Corinto que, enquanto o fermento (os membros pecadores da igreja) não fosse erradicado, a igreja não pode­ria observar a Festa com os pães asmos da sinceridade e da verdade. Tanto os coríntios como os gaiatas precisavam aprender que um Deus santo não pode tolerar o mal, seja nas ações, seja na doutrina.

Semeador. O eco da parábola de Jesus sobre o Semeador pode ser ouvido vez após vez nas epístolas paulinas e gerais. O Senhor e seus servos são semeadores da Palavra. Paulo cita Isaías: “Quão formosos são os pés dos que anunciam a paz, dos que anunciam coisas boas!” (Rm 10:15 cit. Is 52:7), e diz que todos os arautos da cruz são semeadores da semente (2Co 9:6,10). Ainda que a narrativa trate de dar e receber coi­sas temporais, o mesmo se aplica aos receptores e semeadores da Palavra de Deus. “Devemos semear aquilo que já prolifera em nossa alma; e a colheita será proporcional à semea-dura.” A semeadura e a colheita se correspondem (2Co 9:6). Paulo diz que a colheita não dependerá ape­nas da quantidade da semente plan­tada, mas da qualidade dessa se­mente. “Tudo o que o homem seme­ar, isso também ceifará” (Gl 6:7-9). Podemos ler a Parábola do joio junto com a solene advertência de Paulo.

O apóstolo também usa a figura da semeadura e da colheita em seu grande capítulo sobre a ressurreição, chamado “Carta magna da ressur­reição” (ICo 15). O cadáver da sepul­tura assumirá forma mais gloriosa quando Jesus vier (ICo 15:37,38). Como ocorre com a semente da pa­rábola de Jesus (Mc 4), quando vier a colheita, a semente será encontra­da já crescida —não sabemos como.

Intimamente ligada à semeadura e à ceifa está a frutificação, exatamen­te como há uma ligação fundamental entre o Semeador e a videira. Paulo, mais do que qualquer outro apóstolo, define claramente um ramo frutífero (Gl 5:22,23). O cacho dos frutos pre­ciosos, a que Paulo se refere, consiste mais de vida que de serviço. Viver não é o mesmo que servir, ainda que am­bos estejam associados à frutificação e devam sempre harmonizar-se. De­vemos ser frutíferos em toda boa obra. Às vezes, entretanto, o crente, por incapacidades físicas, não pode servir, mas o sofrimento é uma for­ma passiva de produzir frutos.

Na Parábola da videira, o Pai é o Agricultor glorificado pela produti­vidade dos ramos (Jo 15). Paulo faz ecoar essa mesma verdade em sua segunda carta ao jovem Timóteo: “O lavrador que trabalha deve ser o pri­meiro a gozar dos frutos” (2Tm 2:6) —o que tem dupla aplicação: o Agri­cultor divino e seu subagricultor. Todo esse capítulo oferece símiles impressionantes e expressivos. O versículo-chave do capítulo é “Lem­bra-te de que Jesus Cristo…” (2Tm 2:8), em torno do qual o apóstolo re­úne várias figuras de linguagem para ilustrar o nosso relacionamen­to com o Filho de Deus:

somos soldados — ele é o Divino Capitão (v. 4);

somos atletas — ele é o Arbitro com o prêmio (v. 5);

somos trabalhadores — ele é o Se­nhor a quem servimos (v. 15);

somos vasos — ele é o Proprietá­rio que nos usa (v. 21);

somos o fruto — ele é o Agricultor que se deleita com o fruto (v. 6).

Em suas parábolas, Paulo mui­tas vezes faz uso dos pares. As plan­tas e as construções, por exemplo, aparecem lado a lado num símile dos santos.

“… arraigados e edificados nele…” (Cl 2:7)

“… arraigados e fundados em amor…” (Ef 3:17)

“… vós sois lavoura de Deus e edi­fício de Deus” (I Co 3:9).

O apóstolo assim seguiu o Mes­tre no uso do duplo simbolismo. Os líderes de Israel foram comparados a agricultores e a edificadores. Israel e a Igreja são chamados videira e rebanho (Sl 80; Jo 10:15).

Noite que se aproxima. Outra re­lação entre as parábolas dos evan­gelhos e as das epístolas é a da se­gunda vinda de nosso Senhor. O Es­pírito Santo foi prometido como o Iluminador dos acontecimentos fu­turos. “… vos anunciará o que há de vir”, e é Paulo que, pelo Espírito, descortina para a Igreja a verdade da volta do Senhor. Em seus escri­tos, destaca-se como “Apóstolo do Arrebatamento”, quando emprega muitos símiles impressionantes des­sa bendita esperança.

Paulo, junto com o nosso Senhor, reforça a noite e a vigilância. Esta era é a noite escura do mundo, mas para o crente “o dia é chegado”. Não devemos dormir como fizeram as vir­gens, mas, deixando as obras das tre­vas, revistamo-nos da armadura da luz, como ele, que é a Luz (Rm 13:11-14). Por estar próximo o glorioso ama­nhecer, vivamos como os que estão prontos. Jamais durmamos como os que pertencem a essa era de trevas do mundo. Precisamos estar atentos e prontos para saudar a Cristo em sua vinda (lTs 4:14—5:10).

Imersos em densas trevas, Paulo lembra-nos em linguagem de vivido impacto a responsabilidade que te­mos diante daquele que em breve retornará para os seus. Na esperan­ça da vinda de Cristo, procedamos como “embaixadores da parte de Cristo” (2Co 5:20) —sendo o embai­xador o equivalente, nas parábolas de Jesus, aos mensageiros enviados para convidar hóspedes à festa. Como o dia da graça continua, deve­mos insistir com os homens para que se reconciliem com Deus. Depois, Paulo segue a Cristo no símile do “despenseiro”, para ilustrar a espé­cie de serviço que devemos prestar enquanto esperamos a sua volta de uma terra distante. Como ministros e despenseiros de seus mistérios (ICo 4; Mt 13), devemos ser fiéis no uso das riquezas do Mestre e não desperdiçá-las como fez o mordomo infiel (Lc 16). Se o serviço para o qual nos designou parece árduo, desinte­ressante e aparentemente sem resul­tados, não devemos nos rebelar. Sob a figura do boi, Paulo reforça a ne­cessidade da obediência à vontade de Deus (I Co 9:9,10).

Por Herbert Lockyer.

Parábolas em Tiago

Inicialmente veremos a epístola de Tiago. Sendo “irmão do Senhor”, não desconhecia o modo de Jesus apresentar sua mensagem por meio de ilustrações. Assim, em sua epístola, escrita aos compatriotas espalhados pela terra, Tiago emprega notáveis símiles ao escrever sobre a prática da vida cristã. Suas denúncias, repreensões e advertências se revestem de vividas imagens que tornam a sua epístola não “sem valor algum, como a palha”, como disse Martinho Lutero, mas de excelente valor a todo cristão. Aqui está um breve resumo das figuras de linguagem empregadas por Tiago:

Ondas. Os que oscilam na fé e vacilam entre dois pensamentos são comparados à “onda do mar, impelida e agitada pelo vento” (Tg 1:5-8). Contudo, aquele que andou sobre o mar agitado está perto da alma que sofre na tempestade, para consolá-la e libertá-la.

Erva. Os ricos, exortados para serem humildes, são advertidos de que, a despeito de todas as suas posses, passarão “como a flor da erva” (Tg 1:9-11; Is 40:6-8). Que símile simples, mas poderoso, a retratar a instabilidade e a transitoriedade humana!

Atraído e engodado. Os que cedem às tentações são apresentados como “atraídos e engodados pela sua própria concupiscência” (Tg 1:12-15). As impressionantes figuras “atraídos […] engodados” revelam o triste pro¬cesso de tentação e queda. Arnot co¬menta assim o versículo 14: “A pri¬meira expressão não significa, toda¬via, atraído pelo anzol; significa an¬tes atraído para o anzol. Há duas atrações sucessivas, de natureza muito diferente em cada caso. No grego clássico, o primeiro termo apli¬ca-se aos dois, mas nesse caso as cir¬cunstâncias apontam para o primei¬ro deles. O primeiro é atração para o anzol; o segundo, sedução pelo an¬zol. A primeira atração é um poder invisível; a segunda é uma força fí¬sica rude e cruel. A primeira é uma atração secreta da vontade; a segun¬da é uma violenta opressão por uma força superior, que prende o escravo e o destrói”. Quão imperioso é discernir o sutil anzol satânico, ou seguir a exortação do Mestre de vigiar e orar, a fim de não cair em ten¬tação! Uma vez fisgado, torna-se di¬fícil a vida do transgressor.

Espelho. Tiago, preocupado com o auto-engano, insiste em que tenha¬mos um verdadeiro conhecimento de nós mesmos. Devemos ser pratican¬tes da Palavra, não apenas ouvintes. Quem apenas ouve, mas não age de acordo com o que escuta é como o “homem que contempla no espelho o seu rosto natural” (Tg 1:22-25). O espelho é a infalível Palavra de Deus, o verdadeiro reflexo da alma. Infelizmente, muitos olham o espe¬lho e vêem-se como são de fato na santíssima presença de Deus, mas a visão é apenas superficial ou mo¬mentânea, pois continuam a viver para si mesmos. Se formos sinceros em relação ao que o espelho mostra e obedecermos à luz, então virá a transformação do coração e da vida. “… refletindo a glória do Senhor, so¬mos transformados […] na mesma imagem…” (2Co 3).

Refrear, freios, leme, fogo, manancial. De todos os escritores da Bíblia, Tiago é quem mais dá conselhos prá¬ticos e parabólicos quanto ao poder da língua. Se formos tardios para falar, nosso testemunho jamais será corrompido por mentiras, indeli-cadezas e palavras censuráveis. Os pecados da língua e as advertências e exemplos do falar desordenado são abundantes (Tg 1:26; 3:1-12). Para que o falar não seja afrontoso, preci¬sa ser controlado. Moisés, o mais manso dos homens, falhou uma vez, ao falar inadvertidamente com os lábios (SI 39:1). Tiago registra cinco comparações sobre a língua:

1. O ato de refrear. Se o mais de¬senfreado membro do corpo, a lín¬gua, estiver em sujeição a Cristo, de cujos lábios fluiu a graça, então todo o corpo será controlado.

2. Freios. Pelos freios, os cavalos selvagens podem ser domados. O domínio é fruto da disciplina. Se per¬mitirmos que Cristo ponha guarda em nossos lábios, toda a nossa vida será dirigida por sua vontade.

3. Leme. “… um pequenino leme” de um poderoso navio ajuda a diri¬gir o curso da navegação. A língua é apenas um pequeno membro, mas muitas vezes se jacta do que pode fazer. A língua tanto dirige o navio (nosso corpo) no curso certo, como pode levá-lo ao desastre.

4. Fogo. Uma pequena faísca pode incendiar uma floresta inteira, o que resulta em grande estrago. Por sinal, Tiago tinha em mente “uma vasta flo¬resta envolta em chamas resultantes de uma única centelha”. Então aplica a ilustração “A língua é […] fogo, mun¬do de iniqüidade”. Como precisamos da disciplina divina para nos silenci¬ar, para evitarmos os desastrosos efei¬tos de uma língua descontrolada!

Deus prometeu que toda espécie de animais seria domada (Gn 1:26-28). A mais indomável criatura pode ser adestrada pelo carinho, pela pa¬ciência e pela gratidão. Mas a lín¬gua, diz Tiago, ninguém pode domi¬nar. Porém, o que é impossível aos homens, é possível para Deus.

5. Manancial. O mesmo manan¬cial não pode jorrar água doce e amarga. Terá de ser de um ou de outro tipo. Assim é com a língua. Dela vem o mal ou o bem, veneno ou bálsamo curador, maldição ou bên¬ção, frutas bravas ou figos, água sa-lobra ou potável. Se formos sábios, devemos confiar a Deus o controle da língua, para possibilitar assim um “bom procedimento” junto com “obras em mansidão de sabedoria [e…] paz” (Tg 3:13-18). Precisamos orar como Jó: “Ensinai-me, e eu me calarei” (Jó 6:24).

Vapor. A todos os que se entregam aos prazeres ou se concentram na aquisição de bens materiais, Tiago alerta sobre a incerteza do futuro e a transitoriedade da vida. O prático apóstolo pergunta “O que é a vossa vida?” e continua: “É um vapor que aparece por um pouco, e logo se des¬vanece” (Tg 4:13-17). O homem con¬ta com o amanhã, mas este talvez nunca chegue. Tudo o que lhe era im¬portante pode desaparecer num ins¬tante. “Somos pó, uma sombra.” Por estar o futuro nas mãos de Deus, cer¬tamente a sua vontade é a melhor. Todas as posses e o tempo devem es¬tar sob o controle da suprema e viva Vontade. Nossa atitude deve ser sem¬pre “se o Senhor quiser” (ICo 4:19).

Lavrador. Tiago, que tinha mui¬to para dizer sobre a graça da paci¬ência, insiste em que os santos se¬jam pacientes, tendo em vista a vol¬ta do Senhor como Lavrador para colher seus preciosos frutos (Tg 5:7-11). Será que, quando Tiago empre¬gou esse símile, não teria em mente a parábola de seu ilustre Irmão, que diz ser ele mesmo o Lavrador, o qual, ao retornar de um país distante, fará a sua colheita? A impaciência de nos¬sa parte é sinal de fraqueza. Preci¬samos imitar a sua paciência, que há muito tem esperado por uma gran¬de colheita.

Por Herber Lockyer.

Parábolas em Atos dos Apóstolos

Embora o miraculoso permeie esse quinto livro do NT (considerado “O evangelho do Espírito Santo”), não se acham parábolas como as que os evangelhos apresentam. Hillyer H. Straton corretamente observa ser “… fato notável que fora dos evangelhos não haja parábolas no NT. Os discípulos de Jesus foram leais ao seu Senhor e puderam interpretar sua missão aos homens; puderam preservar os seus ensinamentos incomparáveis, até mesmo esse notável grupo de histórias; puderam testemunhar ao mundo até a morte o que Deus em Cristo fizera por eles e por todos os que crêem; puderam estabelecer uma Igreja para ser testemunha viva e contínua da fé em Jesus como o Messias de Deus e o Salvador do mundo. Contudo, mesmo possuidores do modelo das parábolas nos evangelhos, não produziram uma única parábola. Isso se deu, mesmo tendo havido muitas circunstâncias na vida da Igreja primitiva em que uma nova parábola ajudaria bastante”.

Talvez o que mais se aproxime de uma “parábola” seja o milagre do lençol que desceu do céu (At 10:9— 11:18). Esse milagre parabólico livrou Pedro de seu isolacionismo religioso e o pôs em harmonia com o abrangente propósito de Deus. Por meio dessa parábola da graça, o apóstolo viu que a salvação, que Cristo comprou com seu sangue, era para todos os homens. Por fim percebeu que Jesus não faz acepção de pessoas, e os judeus e gentios igualmente tornaram-se beneficiários do poder salvador de Deus.

Ouvindo, à medida que lemos o livro, a todas as notas do glorioso evangelho de Cristo, quando resso¬am em harmonia encantadora, para que judeus e romanos as ouçam, fica evidente que os apóstolos não segui¬ram o seu Mestre quanto ao método parabólico de ensino. As suas men¬sagens inspiradas pelo Espírito San¬to não eram adornadas. Suas pala¬vras tão diretas e agudas eram des¬providas de imagens; contudo, car¬regadas de poder para convencer. Sua ministração era de natureza lar¬gamente miraculosa, acompanhada dos milagres que confirmavam sua autoridade de apóstolos, confirman¬do também a Igreja como instituição divina. Não é difícil, entretanto, ima¬ginar que, quando Paulo ensinou ao povo a lei e os profetas, e apresen¬tou o reino como aquilo que dizia respeito ao Senhor Jesus Cristo (At 28:24,25,31), atraiu a atenção para o significado das parábolas do reino. Depois dos apóstolos, alguns pais da Igreja primitiva constituíram pará¬bolas para expressar mistérios espi¬rituais. Trench apresenta diversas amostras dessas parábolas.

Em sua dedicação, por assim di¬zer, de Atos a Teófilo, seu amigo pró¬ximo, Lucas usou a sua expressão característica “começou”, verbo que ocorre cerca de 31 vezes em seu “evangelho”. Sua ocorrência aqui (At 1:1) identifica a autoria. Tudo o que Cristo começou a fazer (suas obras) e a ensinar (suas palavras) quando ainda estava com eles, como está registrado nos quatro evangelhos, continua a realizar por meio de seus apóstolos em Atos. Depois de sua ressurreição, Cristo passou com os seus 40 dias, ininterruptos ou a in¬tervalos. Que dias maravilhosos fo¬ram aqueles! Agora, no lado vitorio¬so da cruz, uma nova luz será lançada sobre tudo o que Jesus lhes ensinou enquanto ainda estava en¬tre eles. Parábolas seriam reitera¬das, visto que mais adiante os ins¬truiu no “que respeita ao reino” (1:3).

Tendo em vista o seu ensina¬mento anterior a respeito da ver¬dadeira interpretação acerca do ingresso dos gentios no reino (Mt 28:19), parábolas de Jesus como a do Semeador, com o lançar da se¬mente, e das Bodas, com o convite universalmente feito aos gentios nas estradas e nos becos, assumem novo significado. As parábolas tor¬naram-se “A ponte que liga as duas dispensações”. Então o livro, como um todo, ilustra a segunda opor¬tunidade dada a Israel na parábo¬la da Figueira estéril. “Este ano” não era um ano de fato, mas “o ano aceitável do Senhor”, de que trata o livro de Atos. O juízo adiado con¬tra a árvore resultou em multidões de judeus voltando-se para o Sal¬vador. Por parábola e preceito, ensinara aos seus que a sua pro¬visão era para todos os homens e, em Atos, essa única mensagem era para todos os lugares: Jerusalém, Judéia, Samaria e até os confins da terra. Os apóstolos saíram para pregar o evangelho a toda criatu¬ra, mas sem “adaptar o evangelho a todos os séculos”.

Embora, como já mostramos, não existam parábolas nesse dinâ¬mico livro, esse “quinto evangelho”, como é chamado, contém muitas e expressivas figuras de linguagem. Enumeramos aqui a maioria des¬sas protoparábolas para orientar o leitor:

Batismo. Quando Lucas empre¬ga o termo “batismo” em relação ao Espírito Santo, usa um ritual visí¬vel para ilustrar uma experiência interior. “… sereis batizados com o Espírito Santo” (At 1:5,8) significa “sereis mergulhados no poder espi¬ritual, que vos cobrirá, vos encherá e transbordará de vós”. Em nenhum lugar a Bíblia fala do “batismo do Espírito Santo”. Ele não é o batizador, mas o elemento em que somos batizados ou imersos.

Pentecostes. O aspecto miraculoso desse dia histórico põe-no na lista de Ali the miracles ofthe Bible [Todos os milagres da Bíblia], do mesmo autor dessa obra. Aqui nos ocupamos apenas do aspecto simbólico da ma¬nifestação da presença e do poder do Espírito Santo (At 2:2). O “vento impetuoso” é uma figura de lingua¬gem referente à força sobrenatural, inspiradora e irresistível do Espíri¬to, de que estavam conscientes to¬dos os que se encontravam no cenáculo. “… línguas repartidas, como que de fogo…” (At 2:3), ou seja, as línguas de fogo distribuídas en¬tre os apóstolos ilustravam a arden¬te mensagem que proclamariam. Como o sermão de Pedro conseguiu incendiar a consciência dos que o ouviram declara a verdade do evan¬gelho na língua de todos. Entre to¬dos os que ouviram não houve a mesma reação para com a Palavra. Alguns zombavam: “Estão cheios de vinho”. Os apóstolos eram homens intoxicados por Deus. Traziam certo ar de santa empolgação no tom, nos gestos e nas palavras. Alguns pen¬savam que era embriaguez. Pedro, contudo, com a intrepidez de sua nova língua, rapidamente explicou o seu comportamento (At 2:15).

Profecia de Joel. O profeta, por inspiração divina, não falou apenas à sua época (At 2:28-31), mas apresentou uma parábola de juízo rela¬tiva ao futuro remoto. Sua referên¬cia ao Espírito prometido cumpriu-se parcialmente no Pentecostes. O cumprimento completo e definitivo, contudo, é ainda futuro (At 2:20).

Divino estrado para os pés. A ci¬tação que Pedro faz do salmo 110 é uma parábola da suprema vitória de Cristo sobre os seus inimigos. Tê-los como estrado (At 2:35) significa a sua absoluta soberania. Sentado à direi¬ta de Deus, posição de autoridade e privilégio, Jesus tem todo o poder para subjugar os seus inimigos e rei¬nar supremamente.

Pedra rejeitada. Não apenas ele¬mentos como fogo, vento e água são usados em referência ao Senhor; ele¬mentos terrenos também simboli¬zam tudo o que Jesus é em si mes¬mo. Cristo é a pedra (SI 118:22; Mt 21:42; At 4:11; lPe 2:7). É também a pedra angular (Ef 2:20,21); uma pedra de tropeço (Is 8:14; 28:16; Zc 3:9; Lc 2:34; Rm 9:32, 33; lPe 2:4,6,7,8), uma rocha ou rochedo (Dt 32:31; SI 18:2,3; 31:2,3,4; 42:9). Os edificadores eram os líderes de Isra¬el, e a pedra que rejeitaram, Cristo, a quem Deus escolhera para ser a principal pedra angular —”A pedra sobre a qual se encontram e são in¬terligadas os muros de judeus e gentios” (Ef 2:20). Trinta anos depois que Pedro falou assim, Cristo ainda era para ele “A pedra de esquina”. O Espírito Santo revelou à sua mente o verdadeiro significado do uso que o Senhor fez desse símile (Mt 21:42-44).

Templo. O emprego ilustrativo que Estêvão faz do tabernáculo e do templo (7:46-50) recorda a conversa de nosso Senhor com a mulher samaritana junto ao poço (Jo 4:21-23) e também a aplicação do templo a si mesmo como encarnação da pre¬sença divina. É interessante notar que Paulo reproduz o pensamento que, quando perseguidor, ouvira dos lábios do mártir Estêvão (At 17:24,25). Temos a tendência de nos elevar à esfera da adoração. O que mais importa é o espírito de adora¬ção. Os que adoram a Deus, seja no celeiro, seja no templo, devem adorá-lo em espírito e em verdade.

Fel e laço. Pedro repele com hor¬ror a idéia de Simão, o mágico, de que o dom do Espírito é adquirido com dinheiro. Fel, usado literalmen¬te nos evangelhos (Mt 27:34), é ago¬ra usado por Pedro para represen¬tar a extrema depravação moral de Simão (Rm 3:14; Ef 4:31). “Laço de iniqüidade” fala das fortes algemas das correntes diabólicas, das quais ele não poderia libertar-se sozinho. Contudo, Simão parecia mais preo¬cupado com o castigo futuro dos seus pecados, do que com libertar-se deles.

Vaso. Embora existam muitos ter¬mos nas parábolas referentes aos eleitos por Deus para servi-lo, ne¬nhum é tão notável quanto vaso (At 9:15), que encontra muitos significa¬dos na Bíblia (Gn 27:3 —de armas; Dt 22:5 —de roupas). O corpo intei¬ro do crente ou os membros do seu corpo são referidos como “vaso” ou “instrumento” (Mt 12:29; Lc 8:16; Jo 19:29; Rm 9:22; 2Co 4:7). Paulo era um instrumento escolhido por Deus para realizar o seu misericordioso desígnio de conduzir os gentios à Igreja. Nossa solene responsabilida¬de é cuidar para que os vasos, ape¬sar de serem de barro, estejam lim¬pos o suficiente para uso do Mestre.

Uma luz. Por instrução do Es¬pírito, Paulo percebeu que as refe¬rências do AT a respeito de Cristo como “luz” e o uso que o próprio Senhor fizera do símbolo para re¬presentar sua missão cumpriam-se agora na revelação do amoroso de¬sígnio de Deus de alcançar o mun¬do gentio. Paulo sabia que ele mes¬mo era uma “luz” que brilhava em meio às trevas.

Pó dos seus pés. Os escribas ensi¬navam que o pó das terras gentílicas era contaminado. Sacudir o pó dos pés simbolizava a tradição segundo a qual, mesmo estando em Israel, o lugar era ímpio, profano e contami¬nado (At 13:51). Paulo, é claro, tinha em mente o uso que o Senhor fez dessas parábolas (Mt 10:14; Mc 6:11; Lc 9:5; Jo 13:16).

Porta aberta. Paulo, conhecedor do modo em que o Senhor usara o símile da Porta (Jo 10), fez dessa uma das suas figuras de linguagem favoritas (At 14:27; ICo 16:19; 2Co 2:12; Cl 4:3). Pela graça, a porta da casa do Pai está tão aberta agora quanto antes. “Todo o que quiser” pode entrar pela porta enquanto per¬manecer aberta. Ninguém pode fe¬char essa porta (Ap 3:8; Gl 2:9). Aquele que a abriu a fechará, e, quando a fechar, será a glória para os que estiverem à sua direita, mas desespero jjara todos os que ficarem de fora. “E digno de nota a atribui¬ção direta a Deus desse acesso aos gentios.”

Jugo sobre o pescoço. A exorta¬ção de Paulo ao concilio e o seu uso de jugos pesados (At 15:10) revelam quanto estava familiarizado com as parábolas de Cristo e apto a entre¬laçá-las em seus próprios discursos. Aqui ele reproduziu os “fardos pe¬sados” da tradição farisaica (Mt 23:4) e o “jugo suave” do Mestre (Mt 11:30). Quando chegarmos às epís¬tolas, veremos que ele volta a usar a mesma figura de linguagem (Gl 5:1). O jugo das cerimônias enfado¬nhas, os fervorosas e espirituais achavam impossível cumprir.

Sacudir das roupas. Sacudir o pó dos pés e das roupas era uma ação parabólica bastante comum nos tem¬pos antigos, tanto entre judeus quan¬to entre gentios (Mt 10:14; 27:24). Nessa gesto, a pessoa se sacudia de toda relação com os outros e de toda responsabilidade da culpa por al¬guém ter rejeitado a sua mensagem (At 18:6). Como se tratava de um judeu falando a judeus, não havia palavra ou ação que melhor expres¬sasse o protesto indignado de Paulo diante da rejeição de seu ministério. “Era o último recurso de alguém para quem de nada valia recorrer à razão e à consciência e tudo o que encontrava era a violência desuma¬na e o tumulto.”

Cabeça rapada. No que dizia res¬peito ao voto temporário de nazireu, rapar o cabelo implicava separação do mundo e da vida comum. En¬quanto valesse o voto, quem o fazia não podia ingerir vinho ou bebida forte, nem deixar a navalha passar sobre sua cabeça ou rosto (Nm 6:1-21). Para Jamieson é improvável que Paulo praticasse esse voto em particular (At 18:18). “É provável que fosse um voto feito em situação de dificuldade ou perigo, em razão da qual rapou a cabeça e foi para Jerusalém, a fim de oferecer os sa¬crifícios exigidos dentro dos trinta dias prescritos.” Paulo, como sabe¬mos, condenava os cabelos longos para o homem para que não pare¬cesse efeminado (ICo 11:14). A gra¬tidão por ter sido liberto do perigo muitas vezes gera um voto solene, e o voto de Paulo provavelmente foi para renovar a plena devoção na vida. O apóstolo jamais aprendeu a desprezar ou condenar essas mani¬festações de consagração.

Lobos cruéis. Paulo alertou a igre¬ja de Éfeso sobre duas classes de ini¬migos que tentariam destruir o rebanho: uma classe de lobos era ex¬terna; a outra surgiria no seio da própria comunidade cristã —”dentre vós mesmos”. Os dois grupos talvez fossem mestres: o primeiro faria do rebanho uma presa; o outro se com¬poria de deturpadores da verdade, que dividiriam o rebanho com suas heresias (At 20:2,9,30; lTm 1:15-20; 2 Tm 2:17; 3:8,13). Aqui o apóstolo adotou algumas figuras de lingua¬gem que Jesus usara em referência ao rebanho e a seus inimigos decla¬rados. Lobos dentro do reduto das ovelhas eram os falsos profetas, usurpadores de autoridade, líderes de facções dentro da igreja (Mt 7:15; Jo 10:12).

Cinto. A ação dramática de Ágabo, que tomou o cinto de Paulo para anunciar um importante acon¬tecimento, lembra o modo de os an¬tigos profetas apresentarem suas profecias. Na parte do nosso estudo que tratava do AT, estudamos essa maneira de profetizar por atos sim¬bólicos (Is 20:3,4; Jr 13:1-11; 27:2; Ez 4:1-3; 5:1-4). Ágabo (At 11:28; 21:10-13), prevendo o perigo a que o após¬tolo estava exposto, pensou em avisá-lo, por meio de uma ilustração parabólica, da conspiração dos ju¬deus para entregá-lo aos gentios. Paulo ficou profundamente emocio¬nado quando partiu de junto dos san¬tos de Cesaréia; mas estava pronto, não apenas a ser preso, como a ação do cinto representava, mas a mor¬rer pelo seu Senhor.

Parede branqueada. Provavel¬mente, ao lembrar-se de que Cristo chamou os fariseus de “sepulcros caiados” (Mt 23:27; Lc 11:44), Paulo dirigiu expressão semelhante ao sumo sacerdote Ananias, o qual mandou aos que estavam junto dele que o golpeassem na boca —método comum no Oriente para silenciar al¬guém. Paulo precipitadamente disse “Deus te ferirá, parede branque-ada” (At 23:2,3), o que aconteceu al¬guns anos depois, quando, durante uma guerra dos judeus, Ananias foi assassinado. De modo verdadeira¬mente cavalheiresco, Paulo descul¬pou-se por dirigir-se daquele modo ao sumo sacerdote. O reconhecimen¬to de que as “autoridades que há fo¬ram ordenadas por Deus” era um princípio que norteava a conduta do apóstolo (Rm 13:1-6).

Ouvidos e olhos. Nesse último vislumbre do apóstolo, vemo-lo “qua¬se sem paciência pela longa contes¬tação contra o preconceito e a incre¬dulidade” (At 28:26-28). Depois da exposição do reino de Deus, no que dizia respeito a Jesus, “Alguns eram persuadidos pelo que ele dizia, mas outros não criam”. Uns estavam en¬tre o remanescente fiel; e os outros, entre os endurecidos (Rm 11:7-25). “Uma cegueira parcial atingira a Is¬rael.” Seguindo as pegadas dos ensinamentos do Mestre, Paulo usou a figura de linguagem da cegueira e da surdez voluntariosas diante da¬quelas verdades que deveriam pro¬duzir arrependimento e fé (Mt 13:13-Mc 4:12; Jo 12:40; At 20:35). A ora¬ção e o desejo do coração de Paulo eram que Israel fosse salvo. Era grande a sua mágoa e contínua tris¬teza pela dureza do coração de Isra¬el (Rm 9:2; 10:1). Então, provavel¬mente com muita angústia, lançou essa última e severa condenação aos que ouviam sua mensagem com os ouvidos, mas não com o coração; que liam a verdade com os olhos, sem, contudo enxergá-la de fato. Infeliz¬mente, multidões ainda estão espi¬ritualmente surdas e cegas!

Quanto ao ministério de Paulo como um todo, diz Ellicott: “Ele fa¬lava não com as cadências retóricas de que se deliciavam os retóricos gre¬gos, mas atingia o alvo como uma fle¬cha, penetrando o coração dos ho¬mens. A voz talvez fosse desprezível, mas as palavras eram cheias de vida” (2Co 10:10; 11:25; ICo 14:25).

Herbert Lockyer.

Parábola dos Vales e dos Montes

(Lc 3:4-6; Is 40:3)

João se pôs impetuosamente con¬tra a visão exclusivista dos judeus; ainda que fossem um povo privilegi¬ado, a salvação não era somente para eles. “E toda a humanidade”, disse João, “verá a salvação de Deus” (Lc 3:6). Para os gentios, assim como para os judeus, devia ser concedido o arrependimento para a vida (At 11:18). Desse modo, nessa pitoresca proclamação, João visualizou um mundo sob o controle do Rei, não uma nação favorecida. O Cordeiro de Deus, que estava para morrer, leva¬ria, pela sua morte, o pecado do mundo. Sabendo tudo sobre o terrí¬vel perigo da nação que ele repre¬sentava, e a necessidade do mundo como um todo, o chamado de João ao arrependimento era impetuoso e. insistente. Todos os obstáculos de¬veriam ser retirados. Nada deveria impedir a jornada do Rei, nem blo¬quear a marcha de Deus. Examine¬mos, então, a instrução parabólica a respeito de endireitar as veredas (Mt 3:3):

Todo vale se encherá. É muito sig¬nificativo que o primeiro grande obs¬táculo a que João se refere é o vale vazio, não o monte. Esses vales va¬zios dificultam a chegada do rei até nós. Qual é a mensagem por trás do uso da linguagem metafórica de João? Qual deve ser o significado ló¬gico de vales, montes, outeiros, coi¬sas tortuosas e caminhos escabrosos? Tratando-se de passagens simbólicas e parabólicas, não devemos esquecer que as parábolas nem sempre podem ser consideradas na sua totalidade. Em algumas parábolas, existem disparidades. Por exemplo: quando a vinda de Cristo é comparada a um ladrão, não quer dizer que virá como um ladrão ímpio e desonesto para furtar e roubar. Deve-se ter o cuida¬do de não forçar os detalhes menos importantes da parábola para além da analogia da fé.

O enchimento dos vales pode mostrar que Deus está desejoso de abençoar o pecador pobre e frustra¬do que, como os vales, encontra-se com o espírito abatido. O chamado de João ao arrependimento quer di¬zer que, pela livre graça de Deus, os pecadores poderão ser tirados do monturo para ficar entre os prínci¬pes. A humanidade acha-se debaixo de uma maldição, numa vil condição. Mortos no pecado, os pecadores es¬tão caídos e não podem levantar-se. Mas Deus é capaz de erguer o caído. Em certo sentido, o desespero pode ser um vale profundo; mas o deses¬pero em relação a qualquer suficiên¬cia de nós mesmos, a qualquer va¬lor, poder e força própria é um santo desespero. Esse vale de humildade e de auto-humilhação nunca deve ser cheio. A auto-exaltação é abominá¬vel a Deus. “… para que ninguém se glorie perante ele” (ICo 1:29). Os vales são cheios, ou exaltados, quan¬do, como diz o experiente Benjamin Keach, os pecadores são levantados:

De um estado de ira para um es¬tado de graça;

de um estado de morte para um estado de vida;

de um estado de condenação para um estado de justificação;

da temível maldição de Deus, ou maldição da lei, para toda sor¬te de bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo Jesus;

de filhos de Satanás, ou filhos da ira, para se tornarem filhos de Deus;

do poder de Satanás para o reino do Filho do seu amor;

de detestáveis à ira de Deus no inferno para a herança da vida e da glória eterna nos céus.

As perguntas práticas são: “Exis¬te algum vale na sua vida e na mi¬nha que não tenha sido enchido? Quantas almas Deus têm perdido por causa destes vales vazios?”.

… se abaixará todo monte e outei-ro. Nessa outra figura, João vai ain¬da mais fundo. Que obstáculos eram esses interditando deliberadamente o caminho de Deus? Esses montes e outeiros tinham aplicação inequívoca aos fariseus dos dias de João. Em seu orgulho e arrogância, eles e os intérpretes da lei “rejeitaram o conselho de Deus quanto a si mes¬mos” (Lc 7:30). O orgulho sempre foi o grande obstáculo no caminho de Deus para o coração dos homens. Parece inacreditável que o homem possa obstruir os esforços divinos. “Estrita e severa vigilância deve ser empregada contra toda forma de orgulho, de arrogância, de bair¬rismo, de soberba, de altivez e de superioridade.”

A soberba dos fariseus se expres¬sa na confissão de um deles: “O Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens…”. Jactavam-se da própria justiça, apesar de rejei¬tarem a justiça divina (Rm 10:3). Pensando-se justos, desprezavam os outros (Lc 18:9). Assim, sentiam-se como montes no que diz respeito aos seus privilégios legais como povo da aliança de Deus (Jo 8:33). Também se gabavam de só eles deterem o se¬gredo do conhecimento e, portanto, serem os únicos professores e senho¬res de Israel. Mas tinham uma con¬fiança carnal (Rm 2:17-21), e o alti¬vo pensamento que nutriam preci¬sava ser abatido (Is 2:11-14). O di¬nâmico ministério de João tirou os poderosos de seus assentos. A humi¬lhação é o único caminho para a exaltação (ICo 1:26,27; Mt 11:35; Fp 2:9).

Existem outras aplicações, po¬rém, que podemos fazer dos montes e outeiros. Os judeus precisavam aprender que deveriam ser postos no mesmo nível dos gentios, sendo co-herdeiros da mesma graça. Cristo, por sua morte, não desfez a aliança da lei e os privilégios dela decorren¬tes, possibilitando a todos os que cressem que fossem feitos um nele?

Desse modo os nossos pecados e as nossas iniqüidades devem pare¬cer montes que alcançam os céus e merecem a ira e a vingança divina.

Mas, graças a Deus, esse monte pode ser aplanado e atirado para dentro do mar (Mq 7:19). Que monte de cul¬pa o nosso! Já foi, no entanto, apla¬nado na hora do nosso arrependi¬mento, fé e justificação (lPe 2:24).

Os monarcas orgulhosos podem parecer montes: “Quem és tu, ó gran¬de monte? Diante de Zorobabel se¬rás uma campina” (Zc 4:7). Deus sabe como privar o mais soberbo monarca de todo o seu poder e rei¬no, visto que é por causa dele que os reis governam e, portanto, devem viver e agir com humildade. Que fim vergonhoso e humilhante tiveram ditadores tirânicos e orgulhosos como Adolph Hitler e Benito Mussolini!

Montes também pode ser aplica¬do a Satanás e às suas hostes da maldade, os quais, antes exaltados nas alturas, tentaram ser como Deus. Eles foram, porém, depostos e exercem o seu diabólico reinado so¬bre a humanidade. Essas potestades satânicas ainda regem os filhos da desobediência. Cristo, porém, por sua morte e ressurreição, aplanou esses montes e outeiros amaldiçoa¬dos, o que significa que os privou de todos os seus poderes, governo e au¬toridade. Para esse fim foi Cristo manifesto (Uo 3:8). Foi ele quem espoliou esses principados e potes¬tades, e triunfou sobre eles (Cl 2:15). Satanás está debaixo de seus pés: “… para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte…” (Hb 2:14,15).

Outros montes e outeiros que de¬vem ser nivelados são as imagina¬ções arrogantes e os pensamentos altivos que se inflam contra o conhe¬cimento de Deus (2Co 10). A riqueza e a sabedoria deixam os homens car¬nais orgulhosos e soberbos, e, uma vez elevados a um altivo pináculo, desprezam os menos afortunados. A humildade e a humilhação de espí¬rito encontram a aprovação de Deus.

“O rico, porém, glorie-se na sua in-significância” (Tg 1:9,10). Se o mais humilde tiver mais graça, for mais parecido com Cristo, será mais ele¬vado do que aquele que é rico no mundo, mas não galgou os degraus da humildade. “Quando se abate¬rem, dirás: Haja exaltação! E Deus salvará o humilde (Jó 22:29).

O que é tortuoso se endireitará. A hierarquia religiosa que João Batis¬ta encontrou era tortuosa em vários. aspectos. Suas estradas não estavam bem endireitadas; portanto, Deus não podia chegar até eles. Eram tor¬tuosos na interpretação da lei, cuja regra estrita era: “O homem que fi¬zer estas coisas viverá por elas” (Rm 10:5). Mas os escribas e fariseus não tinham uma justiça que se equipa-rasse à lei de Deus. Como diz Benja-min Keach: “Eram tortuosos, algu¬mas vezes curtos numa mão e lar¬gos na outra. Pois em muitos casos não faziam o que a lei exigia; e em outros faziam o que a lei proibia ou não exigia; no entanto, pensavam que as suas opiniões e a vida que le¬vavam eram mais retas que a dos outros, quando na verdade eram eles os mais tortuosos”. Cristo veio para que seus princípios, práticas e opi¬niões tortuosos fossem endireitados; e aqueles que criam eram conserta¬dos por ele, na fé e na prática.

O que é tortuoso também se apli¬ca àquelas formas de adoração que Cristo nunca instituiu nem deter¬minou. Todas as falsas ordenanças em desacordo com a regra do NT para a adoração bem como a minis-tração dessas ordenanças são tortuosidades e devem submeter-se às normas divinas.

Assim, existe tortuosidade na vida e no viver. A vontade e a Pala¬vra de Deus formam a única regra de vida. Pecar significa errar o alvo, desviando-se do prumo divino, trans¬gredindo a lei de Deus; e assim os caminhos pecaminosos são caminhos tortuosos. Quando Paulo declarou que a mente carnal não está “sujei¬ta à lei de Deus, nem em verdade o pode ser” (Rm 8:7), queria dizer que, como pecadores, nascemos tortuosos e tornamo-nos mais tortuosos pela prática. Somente Cristo, pelo poder do seu Espírito, pode fazer cada par¬te da nossa vida harmonizar-se com a vontade divina.

… e os caminhos escabrosos se aplanarão. Pode parecer um remo¬to lamento dos montes aos caminhos escabrosos, mas todos eles aparecem na visão de João e são claramente concebidos por ele como obstáculos que retardam a marcha do Rei (em sua pressa por alcançar a alma dos homens). Rochas, pedras brutas, tudo compartilha de um caráter de impedimento e deve ser retirado, para que o Rei prossiga o seu cami¬nho. Deus já havia mandado as pe¬dras de tropeço serem retiradas do caminho (Is 57:14). Queria que o ca¬minho ficasse sem impedimentos, plano e fácil, mas os fariseus tinham posto muitos obstáculos no caminho do homem em direção a Deus e vice-versa. Porventura não existe uma mensagem pertinente para o nosso coração, quando somos chamados a aplainar os lugares escabrosos? Tal¬vez não haja nada de errado na vida —nenhum vale para ser cheio, ne¬nhum monte para ser aplainado, nenhuma tortuosidade para ser tra¬tada. Estamos salvos e bem estabe¬lecidos na vida cristã, mas pode ser que tenhamos uma disposição esca¬brosa, um acidentamento que impe¬de e dificulta a aproximação. Sem nos darmos conta, as nossas pala¬vras ferem e ofendem. Existe uma austeridade de modos, algo proibido e não atraente em nós, que impede o Rei de alcançar os outros. Falta suavidade na vida. Existem lomba¬das nas estradas. Que o Senhor, como restaurador de caminhos, pos¬sa tirar de nós todos esses rudes tra¬ços de obstrução, tão danosos ao tes¬temunho eficaz!

O principal propósito no nivela¬mento dos montes, na terraple-nagem dos vales, no conserto das tortuosidades e na suavização das estradas escabrosas é que toda a humanidade possa ver a salvação de Deus e testemunhar a revela¬ção de sua glória —a glória do seu amor, justiça, santidade, verdade, graça e poder. Cristo veio ao mun¬do para manifestar os gloriosos atributos da bendita Trindade.

Por Herbert Lockyer.

Parábola do Peixe e dos Pescadores

(Mt 4:18-22; Mc 1:16-20; Lc 5:2-11)

Quando uma parábola ocorre em mais de um evangelho, é essencial comparar os registros corresponden¬tes. Essa parábola, como se dá com quase todas, ensina que no mundo espiritual existem complementos para tudo o que é legítimo e natural no mundo material. Apesar do fato de que o nosso Senhor gastou gran¬de parte do ministério nas adjacências do mar da Galiléia e muitos de seus apóstolos foram pes¬cadores, parece singular que tenha feito tão pouco uso de parábolas so¬bre a pesca. Assim, Jesus entrou para a sua breve, mas maravilhosa tarefa. Compreendeu a necessidade dos que seriam capazes de absorver a sua mensagem e continuar o seu ministério depois de sua ascensão, como acompanhá-lo em suas jorna¬das enquanto esteve entre os ho¬mens. Para o seu primeiro grupo de seguidores e de associados, não foi a qualquer escola de rabinos ou cen¬tro de aprendizado, mas chamou homens humildes para deixarem as redes e segui-lo. “Eu os farei pesca¬dores de homens.” Dessa maneira fo¬ram levantados de um baixo grau de pescaria para um alto, assim como Davi, que alimentava ovelhas e foi chamado para um grau mais eleva¬do de pastoreio (SI 78:70-72).

A resposta dos quatro pescadores ao chamado de Cristo foi imediata, pois deixaram redes, barcos e paren¬tes para acompanhá-lo. Agora lançavam a rede do evangelho no mar do mundo e traziam as almas para as praias da salvação. Podemos imaginar como Pedro, “o grande pes¬cador” que se tornou porta-voz do grupo dos apóstolos, entrou para o significante uso parabólico do Mes¬tre sobre os pescadores e os peixes. Os peixes do mar da Galiléia eram pegos vivos, mas rapidamente mor¬riam, quando tirados do seu habitai. Agora, aqueles a quem Jesus chama¬va foram designados para pegar os homens que estavam mortos —mor¬te em transgressões e pecados— os quais, uma vez nas redes do evan¬gelho, começariam a viver espiritu¬almente.

Os pescadores experimentados estabeleciam três regras para o su¬cesso da pesca, as quais deveriam ser observadas por todos os que pescam as almas dos homens:

Primeira: Mantenha-se fora de vista;
Segunda: Mantenha-se ainda mais fora de vista;
Terceira: Mantenha-se ainda mais longe fora de vista.

Os ganhadores de almas devem aprender que não podem promover a Cristo e a si próprios ao mesmo tem¬po. Se um pescador lança a sua som¬bra sobre a água, onde o cardume está, jamais poderá pegar os peixes. Da mesma maneira, a sua sombra é desastrosa na arte de ganhar almas. Quando o dr. J. H. Jowett estava para falar para um grande agrupamento, um fervoroso irmão orou: “Agradece-mos-te, ó Senhor, teu querido servo e pelo trabalho que ele está fazendo. Agradecemos-te que o tenhas man¬dado a falar conosco. Agora, Senhor, oculta-o, oculta-o”.

Assim, para o pescador, a isca é um elemento importante e, pela prá¬tica, ele aprende que ela é usada para atrair diferentes tipos de pei¬xe. Os pescadores de homens devem, semelhantemente, ser capazes de pôr a isca no anzol. Uma visão curiosa, expressada pelos pais da Igre¬ja, era que a cruz era o anzol e Cris¬to, a isca pela qual o Todo-Poderoso capturava o mal. Tal figura de lin¬guagem pode parecer grotesca, mas, com toda a reverência, podemos di¬zer que Cristo, como a Bíblia o reve¬la, é sempre o tipo certo de isca para pegar os homens. John Bunyan em linguagem parabólica disse: “A gra¬ça e a glória são a isca do evangelho; leite e mel foram a isca que retirou seiscentos mil (sem contar as criam ças, as mulheres e os velhos) do Egi¬to”. Não importa quantas dificulda¬des os pecadores apresentem, quan¬do estão sendo tratados pelo ganha¬dor de almas, que é eficiente na Pa¬lavra de Deus, e saberá que a Escri¬tura, a isca, é usada para resolver qualquer problema.

Assim como esse chamado de Pedro, André, Tiago e João às vezes é confundido com outros dois rela¬tos no mar, uma palavra é necessá¬ria para diferenciá-los. O chamado relatado em João 1:35-42 não é a mesmo de Mateus 4:18-22, pelas se¬guintes razões:

1. Aquele foi dado quando Jesus ainda estava na Judéia —este, de¬pois de seu retorno à Galiléia;

2. Naquele, André solicita uma entrevista com Cristo —neste, Cris¬to chama André;

3. Naquele, André é chamado com um discípulo cujo nome não foi men¬cionado, que era claramente João (Jo 1:4). André vai e busca a Pedro, seu irmão, a Cristo, que então o chama —neste, André e Pedro são chama¬dos juntos;

4. Naquele, João é chamado jun¬to com André, pelo seu próprio pedi¬do, de uma entrevista com Jesus; nenhuma menção é feita de Tiago, cujo chamado, se é que aconteceu ali, não foi semelhantemente feito por seu irmão —neste, João é chamado junto com Tiago, o seu irmão.

Mais adiante temos um chama¬do em Lucas 5:1-11, que também é diferente do de Mateus 4:18-22. No anterior, um milagre foi realizado; no posterior, não existe nenhum mi¬lagre, salvo o da graça, revelado em tomar homens falíveis, pela inefabilidade de Cristo, para os tor¬nar os seus cooperadores. Naquele, todos os quatro são chamados jun¬tamente; neste, os quatro são cha¬mados à parte, em pares. Naquele, as redes foram usadas para uma miraculosa pesca; neste, dois lan¬çam suas redes, enquanto os outros consertam os seus instrumentos de pesca. Naquele, temos um estágio avançado do ministério terreno de nosso Senhor, e algum entusiasmo popular. Neste, não deve ter havido nenhuma aparição pública na Galiléia; portanto, a falta das mul¬tidões estendidas diante dele. En¬quanto caminha sozinho pelas prai¬as do lago, Jesus aborda os dois pa¬res de pescadores e chama-os para se transformar em ganhadores de alma: “Sigam-me, e eu os farei…”. Não há cristão que se tenha feito a si mesmo cristão ou cooperador no serviço de Cristo, pois todos são fei¬tos por Cristo.

Por Herbert Lockyer.