Parábola da videira trazida do Egito

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(Sl 80)

Na verdade esse grande salmo apresenta uma variedade de figuras de linguagem cativantes. Por exem­plo, temos:

1.  A maravilhosa e conhecida metáfora do pastor, uma das princi­pais designações do Senhor usada em relação a Israel e à igreia (Gn 49:24; Jo 10:11).

2.  O pão de lágrimas (SI 80:5). Quantas provas e tribulações, sofri­mentos e lutas o povo de Deus havia suportado.

3.  A vinha (SI 80:8-11) é usada como emblema de Israel —símbolo tão “natural e adequado que não sur­preende encontrá-lo repetidas vezes no AT e adotado no Novo” (Gn 49:22; Jo 15:1). Israel foi tirado do Egito e plantado em Canaã. Sua sombra co­briu as montanhas, seus ramos os rios, o que se refere aos limites da terra prometida, do mar até o rio Eufrates.

4. Os cedros (SI 80:10). Os ramos da vinha são comparados aos “cedros de Deus”. A prosperidade de Israel era semelhante à exuberância da mais magnífica de todas as árvores da floresta.

5.0 javali da selva (SI 80:13). Essa é a única referência ao javali selvagem na Bíblia, usada para ressaltar o poder devastador de certo opressor de Israel, assim como o crocodilo é usado em relação ao Egito, e o leão, com respeito à Assíria. Mas Deus é capaz de proteger os seus de todas as forças destrutivas (SI 80:14-19).

Visita esta vinha, a videira que a tua destra plantou, o sarmento que para ti fortificaste [...] Seja a tua mão so­bre o povo da tua destra, sobre o filho do homem, que fortaleceste para ti.

Aqui temos “um bom exemplo de quando o pensamento passa natural­mente do sentido figurado para o li­teral”. Esse salmo parabólico termi­na em belo estilo ao dirigir-se a Deus, com o refrão alcançando seu tom completo, expressando a mais plena confiança. Apesar das provas que nos são permitidas, Deus sabe preservar e libertar os seus, como diz Whittier nestes versos:

 De Deus o caminho escuro, sem tardança,

Os brilhantes píncaros da alva pode alcançar.

O mal não pode tolerar a esperança;

O bem, esse sim, não tem pressa de esperar.

Herbert Lochyer.

Parábola de Jó

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(27:1; 29:1)

Embora as oito respostas de Jó a seus amigos se achem nos capítulos de 26 a 31 e sejam cheias de lingua­gem simbólica e cativante, na ver­dade a seção não contém nenhuma parábola de fato, ainda que o termo seja usado duas vezes nos diálogos. As partes que compõem sua primei­ra parábola, como Jó chama a sua réplica no original, podem ser facil­mente percebidas:

1.  a decisão de não negar a sua integridade (27:2-6);

2. a avaliação que faz sobre o des­tino dos perversos (27:7-23);

3. a magnífica avaliação da natu­reza da sabedoria (28);

4.  a comparação de sua vida an­tiga com a sua experiência de então (29 e 30) (Quão saudosamente Jó relata a sua antiga felicidade!);

5. a declaração inequívoca de ino­cência e de conduta irreprovável (31). Neste capítulo temos uma es­plêndida confissão de retidão.

O termo usado por Jó e às vezes traduzido por “parábola” no que se refere aos seus eloqüentes discursos, é m_sh_l, que significa similarida­de, mesmo vocábulo usado nas pro­fecias de Balaão (v. tb. SI 49:4; 78:2). O termo acima é também usado em sentido amplo e vago, englobando poesia profética e também proverbi-al (Nm 21:27).

Herbert Lockyer

Parábola do cardo e do cedro

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(2Rs 14:8-14)

 Proferida por Jeoás a Amazias, essa parábola nos leva de volta ao reino das árvores e dos animais, fa­zendo lembrar a parábola vigorosa de Jotão (Jz 9:8-15). Nos anteceden­tes históricos da parábola estava o abatimento de Edom. Amazias, rei de Judá, estava extasiado por ter dominado os edomitas, matando dez mil homens. Concluiu com isso que seria da mesma forma bem-sucedido contra os mais invencíveis inimigos do exército de Israel. Mas Amazias veio a descobrir que seu primeiro su­cesso tinha sido apenas relativo. Co­metendo o erro de subestimar o po­derio militar do adversário, Amazias encontrou a derrota. Depois disso fez o insolente desafio a Jeoás: “Vem, encontremo-nos face a face”.

As duas metáforas extraídas da natureza são o cedro e o cardo, que expressam o sentimento de superioridade de Jeoás ao reprovar Amazias. O cedro, árvore de cresci­mento lento e de vida longa, usada para os deveres sacrificiais do tem­plo, representa a força de Israel. O cardo, identificado por Ellicott com o espinheiro, a sarça ou o abrunheiro-bravo, é uma planta que cresce como erva daninha e não tem nenhum va­lor, transmitindo de maneira vivida o desdém de Jeoás por seu rival. “O cedro de mil anos não pode ser ar­rancado nem eliminado pela maior força deste mundo, ao passo que o cardo de ontem está à mercê do pri­meiro animal da floresta que passar por seu caminho”.

Depois temos uma ilustração ex­traída da vida familiar: “Dá tua filha por mulher a meu filho”. Trata-se de um costume oriental em que o ho­mem, ao pedir a filha de outro em ca­samento, devia ter as mesmas condi­ções sociais; senão, a solicitação seria considerada um insulto. Habilmente, Jeoás mostra que a proposta do car­do ao cedro era semelhante à do po­bre, que pede ao rico permissão para casar com a sua filha. Dessa manei­ra, “o destino do cardo mostra o que seria o resultado da auto-estima do rei de Judá se não aceitasse o conse­lho ‘fica em tua casa! Por que te in-trometerias no mal, para caíres tu?’, que é a aplicação de toda a palavra”.

A parábola, então, era uma ima­gem verdadeira do caráter de Amazias que, infelizmente, não es­tava disposto a se ver nela. Um ca­ráter deformado não tem o desejo de se ver refletido em um espelho fiel. As incomparáveis parábolas de Je­sus geralmente não eram bem-suce-didas quanto à aprovação de seus ouvintes. A insolência e o orgulho de Amazias foram a sua ruína. Se tives­se ficado satisfeito com a conquista de Edom, teria sido poupado da hu­milhação de ser derrotado pelas mãos de Jeoás, rei de Israel. O tema central da parábola é: “A soberba precede a ruína, e a altivez de espí­rito, a queda” (Pv 16:18).

Herbert Lockyer.

Parábola de Micaías

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(lRs 22:13-28)

 O profeta Micaías, dirigindo-se aqui a Zedequias, não era homem de profanar o seu chamado. Não con­tribuiu para a idéia supersticiosa de que, uma vez que se cresse que a ins­piração dos profetas vinha de Deus, essa inspiração ainda assim poderia ser alterada conforme os profetas achassem melhor, e assim podiam ser subornados, enganados ou obri­gados a profetizar coisas mais acei­táveis. Micaías foi um verdadeiro discípulo de Elias, e a austera res­posta que deu mostrou ser ele um inimigo da corrupção.

A parábola profética de Micaías, expressa numa metáfora impressio­nante e numa visão simbólica, pare­ce-se com a referência de Jó à con­versa de Satanás com o Senhor (1:6-12). Ellicott diz que a idéia expressa pela parábola “é o engano dos falsos profetas por um espírito maligno, numa condenação de Deus pelos pe­cados de Acabe e pela degradação que esses falsos profetas provocaram ao ofício. As imagens são tomadas por empréstimo à ocasião. São obviamen­te extraídas da analogia com uma corte real, onde, como no caso peran­te os olhos de Micaías, o rei procura conselho contra os seus inimigos”.

Herbert Lockyer

Parábola do Profeta Ferido

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(l Rs 20:35-43)

 Essa parábola segue o padrão dos escritos proféticos, em que as pala­vras se fazem acompanhar de uma encenação parabólica (Jr 27:2; Ez 12:7). Estas parábolas encenadas devem ter sido marcantes para os que as viram e ouviram.

De acordo com Josefo, esse “um dos homens” que encenou a parábo­la era Micaías, filho de Inlá. Obvia­mente era representante de uma escola profética. A morte pelo leão traz à mente a morte do profeta de-sobediente, relatada no capítulo an­terior (13:24). O propósito da pará­bola era fazer com que o próprio Acabe se condenasse. Um aspecto semelhante de condenação está pre­sente nas duas últimas parábolas que estudamos. Esta parábola, no entanto, não gerou arrependimen­to em Acabe, mas suscitou nele a teimosia e a indignação caracterís­ticas que mais tarde viria a demons­trar (21:4).

O profeta alegou ser de inspira­ção divina o seu primeiro pedido, que teria sido a solicitação de um louco, se não fosse “a voz de Senhor”. Como Lang observa em seu famoso Commentary [Comentário]: “A pu­nição do homem que se recusou a obedecer à ordem do profeta prova, sem dúvida alguma, que a exigên­cia era acompanhada de uma expo­sição de motivos e da explicação de ser aquela uma ordem do Senhor”. Era essencial que não só a aplica­ção da parábola ficasse escondida daquele a quem ela se dirigia, mas que também o que a contasse não fosse identificado. Por isso o disfar­ce do rosto coberto. Assim como o pescador procura ocultar tanto a si mesmo como o anzol, usando para isso uma isca, aqui, como no caso de Nata, o anzol da intenção estava escondido. Acabe não tinha respei­to pelos mensageiros do Senhor, e quem quisesse enfrentá-lo precisa­ria disfarçar-se de ferido, para tra­zer a esse rei desobediente a sua própria condenação.

Quanto ao significado dessa pa­rábola, apesar de não ser muito cla­ra em todos os seus detalhes, uma coisa é incontestável, como mostra Lang: “o jovem que havia saído à batalha representa Acabe, e o ho­mem confiado aos seus cuidados, o qual escapou por falta de atenção, representa Ben-Hadade. Israel tinha acabado de enfrentar uma batalha difícil e sangrenta, e tinha conquis­tado a vitória prometida; mas ago­ra, na pessoa de Ben-Hadade, o arquiinimigo que Deus havia entre­gue em suas mãos, estava livre e sem punição”.

Muitas lições podem ser extraí­das dessa parábola. O profeta da narrativa era dirigido pela Palavra de Deus, e teve de sofrer por obe­decer a ela. A obediência ao Senhor algumas vezes nos leva a um ca­minho doloroso. Os que vão contra a verdade divina trazem condena­ção sobre si. A sentença de Acabe sobre o homem foi executada con­tra ele próprio. Ele recebeu o pa­gamento na mesma moeda. Então, na solene incumbência feita ao pro­feta pelo homem que voltara da batalha, há uma verdade a mais para observar: “me trouxe outro homem, e disse: Guarda-me este homem”. A coragem e o sacrifício do herói nunca são em vão. Cristo sacrificou a si mesmo, para que a presa saísse da mão dos poderosos e para que os cativos fossem liber­tos; ele mesmo não morreu em vão, como podem atestar miríades de al­mas redimidas, tanto no céu como na terra.

Além do mais, a falta de inten­ção e de atenção por parte do rei não foi reprovada com as palavras: “Estando o teu servo ocupado de uma e de outra parte, o homem de­sapareceu”? Por acaso estamos con­denados na questão da vigilância? O homem que havia efetuado a fuga na parábola tinha ido embo­ra. Que possamos ser preservados da negligência em nossas solenes responsabilidades! Muitos de nós se ocupam por demais aqui e aco­lá, em missões de menos importân­cia, deixando que uma incumbên­cia de maior valor lhes escape. Pre­cisamos de maior concentração como também de consagração — mais atenção e intenção.

Herbert Lockyer

Parábola dos 02 Filhos

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(2Sm 14:1-24)

 É interessante comparar a pa­rábola da mulher de Tecoa com a parábola acerca da cordeira, que acabamos de analisar. Essa compa­ração é sobretudo importante por­que ressalta as diferenças entre uma e outra. Novamente, Davi é o alvo da parábola. A da Cordeira foi proferida por Nata, o profeta ins­pirado; a dos Dois irmãos, por uma mulher esperta, instigada por Joabe, que era “astuto, político e inescrupuloso”, capaz de “ler o ca­ráter humano e discernir as moti­vações humanas se lhe fosse dada uma oportunidade, mesmo que pequena”.

A parábola de Nata foi uma ar­dente condenação ao pecado duplo de Davi, de sedução e de assassina­to; a parábola da mulher de Tecoa estava cheia de astúcia e de bajulação. Aquela se baseava nos princípios divinos da verdade, da justiça e da retidão, sendo proferida com toda a solenidade; esta foi um misto de verdade e de falsidade, e de conclusões erradas sobre Deus. A mulher que Joabe subornou para contar a parábola que ele arquiteta­ra não sentia de fato o que, na ver­dade, era só encenação. Ela prota­gonizou um espetáculo impressio­nante. Só encenação. Assim, também o objetivo de cada parábola difere. A de Nata foi feita para condenar Davi por seu pecado e induzi-lo a um arrependimento verdadeiro; a da mulher tinha por objetivo apoiar os planos de Joabe, cheios de inte­resses próprios e de um senso de autopreservação.

1. O ambiente da parábola. Ahis-tória inventada por uma “mulher humilde e desconhecida, de uma vila também pouco conhecida de Israel, quase 3 mil anos atrás”, foi atenta­mente ouvida por Davi, porque sen­tia nela uma correspondência com a sua própria história. Embora Deus lhe tivesse feito descansar dos seus inimigos, Davi ainda estava domina­do pela lembrança de sua dolorosa queda e, nos pecados e crimes de seus filhos, escutava o triste eco das trans­gressões que ele mesmo cometera. Sua harpa, tantas vezes um consolo, para ele estava “pendurada no sal­gueiro” (SI 137.2). Absalão, seu filho amado, estava no exílio havia três anos, por ter assassinado seu irmão Amnom, que havia violentado Tamar (irmã de Absalão e meia-irmã de Amnom). Apesar dos pecados de Absalão, Davi ansiava por vê-lo: “o rei Davi sentiu saudades de Absalão”.

Em seu livro, cheio de vividos ser­mões biográficos, Clarence E. Macartney, ao tratar da “Mulher de Tecoa”, mostra com forte realismo o conflito que Davi passou naquele momento. De um lado estava o Davi rei, guardião da justiça; do outro, o Davi pai, saudoso do filho que come­tera aquele crime:

“O Davi rei, sustentáculo da lei, está dizendo: ‘Absalão, você é um assassino. Você matou de forma traiçoeira o seu próprio irmão. Você sujou as mãos com o sangue de Amnom. Violou a lei de Deus e a lei dos homens. Absalão, permane­ça no exílio. Nunca mais veja o meu rosto’.

“Mas o Davi pai está falando de maneira muito diferente: ‘Absalão, volte para casa. Sem você, os ban­quetes não têm o mesmo sabor; sem você, a minha harpa fica sem melo­dia; sem você, as salas do palácio são tristes; sem você, os cerimoniais de guerra nada mais são que um espe­táculo vazio. Você matou seu irmão, mas, apesar de todas as suas falhas, eu ainda o amo. Absalão, meu filho, meu filho, volte para casa’”. Então se passaram os dias, as semanas, os meses e os anos.

2. A essência da parábola. Ao per­ceber o desejo de Davi de trazer de volta a Absalão, embora a justiça o houvesse obrigado a ser severo, Joabe, chefe do exército, conselheiro e amigo do rei, sabia que havia ape­nas uma solução para a dor que esta­va impedindo Davi de cumprir seus deveres reais. Ele teve a idéia da pa­rábola, e sabia que uma mulher po­deria contá-la melhor que um ho­mem. Evidentemente a mulher de Tecoa tinha sabedoria, sutileza e elo­qüência, e a parábola foi criada com o propósito claro de não se assemelhar tanto à história de Absalão. En­tão, cobrindo-se com a máscara da dor e da aflição, a mulher transmitiu a mensagem que Joabe lhe pusera nos lábios. Para Macartney, essa narrati­va: “é um dos quatro ou cinco grandes discursos da Bíblia [...] Em nenhum lugar da Bíblia se vê, em tão curto es­paço, uma passagem com metáforas tão lindas quanto essas, tão emocio­nantes, apaixonadas e eloqüentes”.

O lamento da mulher, em eviden­te sofrimento, tocou o coração bon­doso e cordato de Davi, que, man­dando que se levantasse, perguntou: “Que tens?”. Então ela contou a to­cante história dos dois filhos que, brigando em um campo, um acabou sendo morto. Por causa do assassi­nato, o restante da família se revol­tou e exigiu que ela entregasse o fi­lho vivo para ser morto por causa do crime. Quando ela clamou pela se­gurança do suposto filho, Davi se co­moveu e disse-lhe que fosse embora, pois sua petição seria atendida: “não há de cair no chão nem um cabelo de teu filho”.

Ao destruir as defesas externas do coração de Davi, a mulher, instruída pelo astuto Joabe, dirigiu-se às defe­sas internas; com uma graciosidade, uma sutileza e uma humildade in-comparáveis, apresentou o apelo para o regresso e a segurança de Absalão, embora ele tivesse assassinado o ir­mão. Ao penetrar no disfarce da mu­lher, Davi detectou o estratagema de Joabe: “Não é verdade que a mão de Joabe anda contigo em tudo isto?”. A mulher prontamente confessou que todo o esquema era do chefe do exér­cito. Davi então mandou chamar a Joabe e designou-o para fazer “vol­tar o jovem Absalão”. E assim o filho banido retornou.

Ainda assim, porém, não houve reconciliação familiar imediata. Davi o proibiu de ver a sua face e, por cau­sa desse regresso “incompleto”, o mal surgiu. Passaram-se dois anos até que pai e filho se encontrassem novamente face a face. Irritado com a ação de Davi, Absalão planejou uma conspiração para derrubar o próprio pai e lhe tomar o trono. Não estaria Davi colhendo com dor as conse­qüências dos seus pecados, nas quais se incluíam as transgressões de seus dois filhos? Amnom era culpado de sedução, e Absalão, de assassinato; ambos os crimes se vêem no trata­mento de Davi com Urias e com Bate-Seba. Pode ser que a consciência de seu duplo pecado lhe tenha enfraque­cido a determinação. Se tivesse puni­do o filho Amnom como merecia, não teria havido a necessidade de banir Absalão. Davi estava amargamente certo de estar colhendo o que havia semeado, e seus filhos estavam ape­nas seguindo seus passos.

3. O significado espiritual da pa­rábola. Mil anos antes de Cristo morrer na cruz, para trazer os exi­lados de volta a Deus, a mulher de Tecoa teve um vislumbre da verda­de divina, embora a tenha aplicado de forma equivocada e a tenha per­vertido para um mau intuito. “Ele também cria um meio de impedir que os seus desterrados sejam afas­tados dele”. Que poderoso evangelho essa mulher inconscientemente pre­gou! Deus não se vinga imediata­mente, mas “espera para ser gracio­so”. Os pecados baniram o homem da presença de Deus, mas este pro­porciona os meios de trazer o peca­dor de volta. Que meios ele criou? A encarnação, a morte e a ressurrei­ção de seu amado Filho, com toda a certeza! Deus amou um mundo de perdidos pecadores, e seu coração foi à procura de banidos que, quando retornam, não são aceitos de meio-coração, como Davi recebeu o seu fi­lho pródigo Absalão. Uma vez que o pecador volte para Deus, a reconci­liação é completa, e o que retorna, salvo, é um com Deus, plenamente aceito no Amado.

A Parábola dos dois filhos, que Jesus contou em Lucas 15, é o cor­respondente neotestamentário da Parábola dos dois filhos, de Joabe. O pai perdera um dos dois filhos, que se tornou um pródigo em terra lon­gínqua; mas seu amor acompanhou o rapaz obstinado, o qual, em seu retorno, teve uma recepção comple­ta e recebeu também a plena e irrestrita bênção paterna e os privi­légios de filho. O plano de perdão e de restauração de Deus foi mais lon­ge que o de Joabe. Davi enviou o che­fe do exército para trazer Absalão de volta para casa. O coração paterno de Deus o compeliu a enviar o seu Filho unigênito para morrer pelo pecado, para que os pecadores pu­dessem ser plenamente reconcilia­dos com Deus. Que surpreendente graça!

Herbert Lockyer.

Parábola da Cordeira (única do seu pastor)

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(2 Sm 12:1-4)

 Essa parábola, habilmente for­mulada por Nata e usada para con­vencer Davi de seu terrível pecado, demonstra a eficácia da linguagem pictórica. Essa parábola de repro­vação é considerada por muitos au­tores como fábula, mais do que pa­rábola. De uma coisa sabemos: quando narrada, a tocante história da cordeira despertou o lado bom do rei Davi. Se Nata tivesse entrado no palácio real e, de forma direta e ime­diata, censurasse a culpa do rei de­cretando sentença devida ao seu pe­cado, é pouco provável que Davi des­se ouvidos. O tratamento direto e franco da questão talvez fizesse o rei se irar e o impedisse de se arre­pender. Davi poderia ter respondi­do a Nata da mesma forma que Hazael: “Como é que teu servo, que não passa de um cão, poderia fazer tão grande coisa?”.

Pelo emprego do método parabó­lico, contudo, Nata desmascarou o terrível pecado de Davi e extraiu dele a exclamação Pequei, que deu origem a todo o salmo 51 e ao come­ço de um arrependimento tão since­ro quanto tinha sido grave a trans­gressão. A habilidade de Nata de ocultar a real aplicação da parábola faz lembrar as parábolas da Vinha do Senhor e dos Lavradores maus, proferidas por Cristo; na aplicação prática ao coração e à consciência do ouvinte, foi feita de maneira insupe­rável (Mc 12:1-12). As duas caracte­rísticas gerais dessa parábola que estamos estudando são a benevolên­cia e o perdão de Deus.

1. A benevolência de Deus. Embo­ra Davi tivesse pecado em primeiro lugar perante Deus (SI 51:4), o Se­nhor deu o primeiro passo para de­volver o seu servo transgressor à benevolência divina por meio do ar­rependimento. Dessa maneira lemos que “O Senhor enviou Nata”. Ape­sar de o profeta ser, sem dúvida al­guma, conhecedor do pecado de Davi, não procurou o rei senão quan­do enviado do alto. Davi tinha caído num poço terrível, e somente a gra­ça divina poderia resgatá-lo e restaurá-lo. Que sabedoria de Deus escolher Nata como porta-voz! Não contava ele com a confiança de Davi, e não fora ele o portador de boas no­vas ao rei? (2Sm 7:1-19). O sentimen­to que um tinha pelo outro fez com que as desconfianças de Davi fossem desarmadas, e o preparou para ou­vir a tocante história de Nata. Quan­do nos desviamos do caminho da obe­diência rumo à vontade de Deus, ele tem as suas maneiras e os seus mé­todos de nos restaurar à sua bene­volente graça (SI 23:3; 40:2).

Outra evidência do desejo de Deus de tirar Davi do lamaçal depreende-se da incomparável história que ele inspirou Nata a contar ao rei. Graças ao coração de pastor do rei, ele seria tocado pela história. Quando examinamos essa parábola incomparável, ficamos, antes de mais nada, impres­sionados com “Havia numa cidade dois homens”. Em certo sentido, eram iguais, companheiros e compatriotas. Por “dois homens”, entendemos Davi e Urias, que, embora estivessem no mesmo nível como seres humanos, ambos sujeitos às leis de Deus, eram porém, diferentes.

Davi era, por nascimento, mem­bro da privilegiada nação de Israel, a qual Deus tanto abençoou de for­ma significativa, e dela tornou-se um grande rei.

Urias era um súdito do rei e, por opção, habitante da cidade em que Davi morava e reinava.

Quanto às qualidades, Davi e Urias eram “numa cidade dois ho­mens”, visto serem ambos audazes, corajosos e valentes. Desde a moci-dade, Davi era conhecido pela bra­vura, da mesma forma que Urias, o hitita. Parte do triste pecado de Davi foi ter usado a bravura de Urias para causar-lhe a morte.

As diferenças entre os dos dois homens retratados por Nata eram gritantes. Habitando “numa cidade”, eram como dois pólos quanto à posi­ção social e aos privilégios: “um rico e outro pobre”. Deus, por sua mise­ricórdia, tinha dado a Davi muitas riquezas. Como era próspero! Toda­via, essa benevolência divina pode mostrar-se uma dádiva perigosa: “Ri­queza significa poder para satisfa­zer os desejos ou para realizar a von­tade”. Temos um adágio que diz: “O dinheiro fala alto”. Aposição de Davi como dirigente rico lhe possibilitou regalar-se em deleites ilícitos.

O “pobre” era Urias, soldado do exército de Davi, e portanto obriga­do a submeter-se à sua soberana vontade. A despeito da posição me­nos privilegiada, Urias teve ações mais nobres que as do rei. Tal dife­renciação apenas agravava o crime hediondo de Davi.

A parábola de Nata apresenta ainda outra oposição: “O rico tinha ovelhas e gado em grande número, mas o pobre não tinha coisa nenhu­ma, senão uma pequena cordeira”. Davi, sendo rei e rico, possuía mui­tas esposas, mas Urias não era polígamo —tinha apenas uma espo­sa, a quem dava todo o seu amor. Da mesma forma que o rico da parábola não soube avaliar a afeição do seu vizinho pobre para com a única cordeirinha que tinha, Davi também não conhecia o amor puro e exclusi­vo por uma só mulher. Que contras­te chocante há entre a paixão ilícita de Davi e o puro e profundo amor de Urias! Como disse o autor de Miracles and parables of the Old Testament [Milagres e parábolas do Antigo Testamento]: “O rio que se mantém em seu curso é uma bênção para o país em que se encontra; mas o mesmo rio, quando destrói suas ri­banceiras e inunda a terra, torna-se um meio de desolação e de destrui­ção. Assim se dá com a afeição lícita e com a paixão ilícita”.

Quando a parábola foi desdobra­da e o rei ouviu que o “homem rico [...] tomou a cordeira do pobre, e a preparou para o homem que lhe ha­via chegado”, “o furor de Davi se acendeu sobremaneira”, e conside­rou aquele rico digno de morte em razão daquele ato tão desalmado e impiedoso. Ellicott, ao comentar esse aspecto diz: “Os impulsos generosos de Davi não haviam sido destruídos pelo pecado, nem seu senso de justi­ça; o seu caráter impulsivo no mes­mo instante (ISm 25:13,22,23) o fez indignar-se sobremaneira”. Mas quão cabisbaixo ficou ao descobrir que, por planejar a morte de Urias, ele era o que matara a cordeira do pobre.

Com ousadia e sem demora, Nata aplicou a parábola à consciência já desperta de Davi e disse: “Tu és esse homem”. Davi, antes sensibilizado pelo sofrimento que o pobre teria experimentado ao ver sua cordeira transformada em alimento na mesa do rico, agora tem consciência de quanto o ferido Urias não teria so­frido naquele ato de sedução da sua amada esposa.

2. O perdão de Deus. Culpado de um grande crime, Davi cons-cientizou-se da necessidade de uma grande confissão —o que fez, assim que se identificou com a parábola: “Pequei contra o Senhor”. A respos­ta de Nata foi imediata: “O Senhor perdoou o teu pecado. Não morre-rás”. Contudo, embora o pecado de Davi tenha sido perdoado e, em de­corrência disso, ele tenha escrito os salmos 32 e 51, muitas das conseqü­ências do ocorrido se mantiveram: “a espada jamais se apartará da tua casa”. Será que não poderemos per­ceber agora o profundo significado do “refrigera a minha alma” de Davi”? Se nós, como crentes, peca­mos, não importa qual seja o nosso pecado, a promessa é: “Se confessar­mos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda injustiça”. Davi condenou-se a si mesmo de forma tão absoluta quanto condenara o rico da parábola e, com duradoura e profun­da dor, usufruiu mais uma vez do sorriso perdoador de Deus.

Herbert Lockyer.

Parábola das Árvores

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(Jz 9:7-15)

Essa parábola contada aos ho­mens de Siquém por Jotão, filho mais novo de Gideão e único sobre­vivente do massacre de seus 70 ir­mãos por Abimeleque (outro irmão) é outra profecia em forma de pará­bola, uma vez que se cumpriu. Abimeleque, filho bastardo de Gideão, aspirava a ser rei e persua­diu os homens de Siquém a matar todos os 70 filhos legítimos de seu pai (exceto o que escapou) e o pro­clamarem rei. Jotão, o sobreviven­te, subindo ao monte Gerizim, pro­feriu a parábola ao rei e ao povo, fugindo em seguida.

Muitos estudiosos discordam da natureza parabólica do pronuncia­mento de Jotão. Por exemplo, o dr. E. W. Bullinger, em Figures ofspeech [Figuras de linguagem], diz: “Não se trata de parábola, porque não há nenhuma comparação, na qual uma coisa é equiparada a outra [...] Quando árvores ou animais falam ou pensam, temos uma fábula; e, quando essa fábula é explicada, te­mos uma alegoria. Se não fosse a oração explicativa ‘fazendo rei a Abimeleque’ (9:16), o que a torna uma alegoria, teríamos uma fábu­la”. O dr. A. T. Pierson refere-se a ela como “a primeira e mais antiga alegoria das Escrituras [...] Uma das mais lindas, de todas as fábu­las ou apólogos de todo o universo literário”. O professor Salmond igualmente refere-se a ela como “um exemplo legítimo de fábula [...] os elementos grotescos e improváveis que a tornam um meio inadequado para expressar a mais sublime ver­dade religiosa”.

Ellicott comenta: “nesse capítulo temos o primeiro ‘rei’ israelita e o primeiro massacre de irmãos; dessa forma, temos aqui a primeira fábu­la. As fábulas são extremamente po­pulares no Oriente, onde são mui­tas vezes identificadas com o nome do escravo-filósofo Lokman, o congênere de Esopo [...] A ‘fábula’ é uma narrativa imaginária usada para fixar prudência moral nas men­tes”. Junto com outros comentaris­tas, entretanto, inclino-me para o aspecto parabólico do discurso de Jotão, o qual, como disse Stanley, “fa­lou como o autor de uma ode ingle­sa”. Lang também.vê o discurso como uma parábola e faz três observações:

1.  o material da parábola pode ser verdadeiro, assim como as árvo­res são objetos reais;

2.  o uso desse material pode ser com­pletamente imaginário; como quando mostra as árvores em uma reunião, propondo a eleição de um rei e convidando aquelas que estão em crescimento —a oli­veira, a figueira, a videira e o es-pinheiro— a reinar sobre as ár­vores mais altas, como o cedro;

3.  os detalhes imaginários podem corresponder exatamente aos ho­mens que precisavam ser instruí­dos e aos seus feitos [...] O cedro era o mais alto e imponente; as­sim também eram os homens de Siquém, que foram fortes o sufi­ciente para levar adiante o terrí­vel massacre.

Ainda, quanto à diferença entre interpretação e aplicação, cumpre di­zer que a primeira se relaciona com o problema em questão, a saber, a relação entre Israel e Abimeleque, sendo histórica e local; a segunda é profética, e dispensacional. A inter­pretação imediata da parábola de Jotão seria: as diferentes árvores são apresentadas em ‘busca de um novo rei’, e sucessivamente apresentam-se a oliveira, a figueira, a videira e, por último, o espinheiro. Nessas ár­vores desejosas de um rei, temos a apresentação figurada do povo de Siquém, que estava descontente com o governo de Deus e ansiava por um líder nominal e visível, como tinham as nações pagas vizinhas. Os filhos mortos de Gideão são comparados a Abimeleque, como as árvores boas ao espinheiro. A palavra traduzida por reina sobre dá a idéia de pairar e encerra também a idéia da falta de sossego e de insegurança. Keil e Delitzsch, em seus estudos sobre o AT, afirmam: “Quando Deus não era a base da monarquia, ou quando o rei não edificava as fundações de seu reinado sobre a graça divina, ele não passava de uma árvore, pairando so­bre outras sem lançar raízes profun­das em solo frutífero, sendo comple­tamente incapaz de produzir frutos para a glória de Deus e para o bem dos homens. As palavras do espi­nheiro, ‘vinde refugiar-vos debaixo da minha sombra’, contêm uma pro­funda ironia, o que o povo de Siquém logo descobriria”.

Então, como observaremos, a vida da nação israelita é retratada pela semelhança com as árvores ci­tadas na parábola, cada qual com propriedades especialmente valiosas ao povo do Oriente. Muito poderia ser dito a respeito das árvores, sen­do a vida de cada uma diferente uma da outra. Embora todas recebam sustento do mesmo solo, cada uma toma da terra o que é compatível com a sua própria natureza, para produ­zir os respectivos frutos e atender às suas necessidades. São as árvores diferentes no que se refere ao tama­nho, à forma e ao valor. Cada árvore possui glória própria. As fortes pro­tegem as mais fracas do calor inten­so e das tempestades ferozes (v. Dn 4:20,22 e Is 32:1).

A oliveira é uma das árvores mais valiosas. Os olivais eram numerosos na Palestina. Winifred Walker, em seu livro lindamente ilustrado Ali the plants of the Bible [Todas as plantas da Bíblia], diz que “uma ár­vore adulta produz anualmente meia tonelada de óleo”. O óleo proporcio­nava a luz artificial (Êx 27:20) e era usado como alimento, sendo também um ingrediente da oferta de manja­res. O fruto também era comido, e a madeira, usada em construções (lRs 7:23,31,32). As folhas da oliveira sim­bolizam a paz.

A figueira, famosa por sua doçu­ra, era também altamente aprecia­da. Seu fruto era muito consumido, e seus ramos frondosos forneciam um excelente abrigo (ISm 25:18). Adão e Eva usaram folhas de figuei­ra para cobrir a sua nudez (Gn 3:6,7). Os figos são os primeiros frutos men­cionados na Bíblia.

A videira era igualmente esti­mada por causa dos seus imensos cachos de uva, que produziam o vi­nho —grande fonte de riqueza na Palestina (Nm 13:23). O “vinho, que alegra Deus e os homens”. Sentar-se debaixo da própria figueira ou videira era uma expressão prover-bial que denotava paz e prosperi­dade (Mq 4:4).

O cedro, a maior de todas as ár­vores bíblicas, era famosa por sua notável altura, pois muitas vezes “media 37 m de altura e 6 m de diâ­metro”. Por causa da qualidade da madeira, o cedro foi usado na cons­trução do templo e do palácio de Salomão. Altivos e fortes, eles sim­bolizavam os homens de Siquém, po­derosos o suficiente para levar adi­ante o terrível massacre dos filhos de Gideão. Lang fez a seguinte apli­cação: “Assim como um espinheiro em chamas poderia atear fogo numa floresta de cedros e assim como um cedro em chamas causaria a destrui­ção de todos os espinheiros à sua volta, também Abimeleque e os ho­mens de Siquém eram mutuamente destrutivos e trocaram entre si a re­compensa da ingratidão e da violên­cia das duas partes”.

O espinheiro é um poderoso ar­busto que cresce em qualquer solo. Não produz frutos valiosos, e sua árvore, da mesma forma, não serve de abrigo. Sua madeira é usada pe­los habitantes como combustível. O dr. A. T. Pierson lembra-nos que “o espinheiro é o sanguinheiro ou ramno” e que “o fogo que sai do espi­nheiro refere-se à sua natureza in-flamável, uma vez que pode facil­mente e em pouco tempo ser consu­mido”. A aplicação é por demais ób­via. O nobre Gideão e seus respeitá­veis filhos haviam rejeitado o reino que lhes fora oferecido, mas o bas­tardo e desprezível Abimeleque o aceitara e se afiguraria aos seus sú­ditos como espinheiro incômodo e fe­roz destruidor; seu caminho acaba­ria da mesma forma que o espinhei­ro em chamas no reinado mútuo dele para com os seus súditos (Jz 9:16-20). O fogo a sair do espinheiro tal­vez se refira ao fato de que o incên­dio muitas vezes se inicia no arbus­to seco, pela fricção dos galhos, for­mando assim um emblema apropri­ado para a guerra das obsessões, que geralmente destroem as alianças entre homens perversos.

Embora a habilidade de Jotão no emprego das imagens tenha atraído a atenção dos homens de Siquém e tenha agido como um es­pelho a refletir a tolice criminosa deles, esse reflexo não os faz arre­pender-se da perversidade. Os siquemitas não proferiram senten­ça contra si próprios, como fez Davi após ouvir a tocante parábola de Nata, ou como fizeram muitos dos que ouviram as parábolas de Jesus (Mt 21:14). Eloqüência eficaz é a que move o coração a agir. Os ou­vintes da parábola de Jotão ainda toleraram o reinado de Abimeleque por mais três anos.

Para nós a lição é clara: “O doce contentamento com a nossa esfera de atuação e o privilégio de estarmos na obra de Deus, estando no lugar em que o Senhor nos pôs; e a inutili­dade da cobiça por mera promoção”. Como a oliveira, a figueira, a videira e o espinheiro são muitas vezes usa­dos como símbolos de Israel, será proveitoso reportarmo-nos de modo resumido a essa aplicação:

A oliveira fala dos privilégios e das bênçãos pactuais de Israel (Rm 11:17-25). E corretamente chamada o primeiro “rei” das árvores, porque, por manter-se sempre verde, fala da duradoura aliança que Deus fez com Abraão, antes mesmo de Israel se formar. Na parábola de Jotão, a oli­veira é caracterizada por sua gordu­ra e, quando usada, tanto Deus como o homem são honrados (Êx 27:20,21; Lv 2:1). Os privilégios dos israelitas (sua gordura) são encontrados em Romanos 3:2 e 9:4,5. Nenhuma ou­tra nação foi tão abençoada quanto Israel.

O fracasso de Israel (oliveira) se vê no fato de que alguns de seus ra­mos foram arrancados, e certos ga­lhos selvagens foram enxertados no lugar. Os gentios estão desfrutando de alguns dos privilégios e das bên­çãos da oliveira. De todas as bênçãos recebidas por Israel, a principal foi o dom da Palavra de Deus e o dom do seu Filho. Hoje os gentios rege­nerados estão pregando sobre o Fi­lho de Deus a Israel, levando até essa nação a Palavra de Deus. A restau­ração dos judeus, entretanto, é vista em sua gordura, no dia em que “todo Israel será salvo [...] se sua queda foi riqueza para o mundo [...] quan­to mais sua plenitude”.

A figueira fala dos privilégios nacionais de Israel (Mt 21:18-20; 24:32,33; Mc 11:12-14; Lc 13:6-8).

O que caracteriza a figueira é a sua doçura e seus bons frutos. Deus plantou Israel, sua figueira, mas o seu fruto se corrompeu e, no lugar da doçura, houve amargor. Foi o que aconteceu quando o nosso Senhor veio a Israel, pois os seus (o seu povo) não o receberam. Com amargor, os judeus o consideraram um endemo-ninhado e “formaram conselho con­tra ele, para o matarem”. Hoje acon­tece a mesma coisa, pois Israel ain­da rejeita o seu Messias e é amargo para com ele. David Baron disse: “Te­nho conhecido pessoalmente muitos homens amáveis e de caráter adorá­vel entre os judeus, mas, assim que o nome ‘Jesus’ é mencionado, mudam o semblante, como se tivessem um acesso de indignação [...] cerrando os punhos, rangendo os dentes e cus­pindo no chão por causa da simples menção do nome.

O fracasso de Israel se vê no ressecamento da figueira (Mt 21:19,20). Nosso Senhor procurou frutos, mas, como não encontrou um sequer, amaldiçoou a árvore infrutí­fera, e ela secou. Na parábola de Lucas, ela é derrubada. Essa é a si­tuação de Israel há muitos séculos. A figueira está seca, sem rei, sem bandeira e sem lar. Ela é cauda, ape­sar da promessa de ser cabeça entre as nações.

A restauração de Israel se obser­va nos brotos verdes da figueira. O Senhor certa vez amaldiçoou uma figueira, dizendo: “Nunca mais nas­ça fruto de ti”. Quanto à outra figuei­ra, Israel, no entanto, disse: “Aprendei agora esta parábola da fi­gueira: Quando já os seus ramos se tornam tenros e brotam folhas, sabeis que está próximo o verão [...]. Igualmente vós, quando virdes todas estas coisas, sabei que ele está pró­ximo, às portas” (Mt 24:32; Lc 21:30).

A videira simboliza os privilégios espirituais de Israel (Is 5:1-7; SI 80:9-19; Ez 15; Jo 15).

O que caracterizava a videira era o vinho, que alegra tanto a Deus como ao homem. O vinho é o símbo­lo escolhido pelo Senhor para a ale­gria. Quando Israel tinha os odres de vinho cheios e transbordantes, esse fato servia de prova indiscutí­vel de que a bênção transbordante do Senhor estava sobre o povo e, é claro, de que havia alegria sob a aprovação divina; e o próprio Deus alegrava-se na libação oferecida por seu povo.

O fracasso de Israel se vê na vi­deira consumida e devorada e na vinha pisoteada. Deus trouxe a vi­deira do Egito, plantou-a em lugar preparado, fez tudo por ela, mas ela perdeu o viço, de modo que as suas sebes foram retiradas e a planta­ção ficou desolada. Não existe mais vinho.

A restauração de Israel acontece­rá no dia da visitação de Deus. “Ó Deus dos Exércitos, volta-te, nós te rogamos! Atende dos céus, e vê! Vi­sita esta vinha, a videira que a tua destra plantou [...] Faze-nos voltar, ó Senhor Deus dos Exércitos; faze resplandecer o teu rosto, e seremos salvos” (SI 80). Essa visitação acon­tecerá na pessoa do Filho de Deus, pois todas as bênçãos espirituais es­tão nele, e daqui em diante Israel as encontrará somente na Videira Ver­dadeira.

O espinheiro, a mais insignifican­te das árvores, só serve para ser queimada. O espinheiro estava dis­posto a reinar sobre as árvores. E todas elas estavam dispostas a lhe prestar submissão. Isso é profético e reflete o dia em que Israel será do­minado pelo Anticristo. O espinhei­ro é uma árvore cujos espinhos re­presentam a maldição do pecado.

Quando o espinheiro vier, dirá: “…vinde refugiar-vos debaixo da mi­nha sombra…”. Quando nosso bendi­to Senhor esteve aqui, disse: ‘Vinde a mim”; e o que teve em resposta foi: “Fora! Fora! Crucifica-o! [...] Não te­mos rei, senão César”. Mas, quando vier o espinheiro, eles o receberão e farão uma aliança com ele, depositan­do a confiança na sua sombra.

Sairá fogo do espinheiro e con­sumirá a todos. Essa é uma profe­cia sobre a grande tribulação, a hora da dificuldade para Jacó. Mas o pró­prio espinheiro será queimado e destruído (Jz 9:20). Isso acontecerá na vinda do nosso Senhor (2Ts 2:8). E a gordura, a doçura e a alegria das árvores abençoarão a Israel e farão dele uma bênção, por meio daquele que morreu no madeiro amaldiçoado.

Por Herbert Lockyer.

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