Parábola das pedras escondidas

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(Jr 43:8-13)

É magnífica a coragem de Jeremias diante da rejeição de sua mensagem divinamente inspirada. Evidentemente ele sabia que, apesar das advertências, seu povo iria para o Egito e lá morreria pela espada, pela fome e pela pestilência. A precisão de sua mensagem manifestou-se imedi­atamente, e todos foram para o Egi­to, inclusive ele próprio, onde conti­nuou seu ministério de denúncia e de advertência. Não havia declarado ser completa loucura tentar fugir dos juízos decretados por Deus?

Temos aqui outra das impressi­onantes parábolas encenadas. Jeremias é instruído por Deus a pe­gar grandes pedras e escondê-las com barro no pavimento à entrada do palácio de Faraó, à vista dos ho­mens de Judá. Quão significativa foi essa parábola encenada para aque­les cujas mentes estavam abertas para receber a implicação divina desse ato. Apredição do profeta fica ainda mais vivida quando nos lem­bramos que Jeremias escondeu as pedras no barro. Como vemos, es­ses atos simbólicos são comuns nas Escrituras (Jr 19:10; 27:2; Ez 12:7 etc). O rei se assentaria sobre as pedras que Jeremias escondera, “não por mera pompa real, mas com a natureza de um vingador a exe­cutar a ira do Senhor contra a rebe­lião”. O símbolo visível do rei sen­tado nas pedras significa que o tro­no de Nabucodonosor seria estabe­lecido sobre os destroços do reino de Faraó.

Para os judeus, as pedras eram símbolos proféticos e históricos co­nhecidos. Transmitiram à posterida­de alguns fatos consumados e profe­tizavam acontecimentos que ainda iam se dar. Jacó e Labão erigiram um altar de pedras (Gn 31). Doze pedras memoriais foram postas por Josué no Jordão (Js 4:3,6,9,21). As duas tribos e meia construíram um altar de pedra nas margens do mes­mo rio (Js 22). Em todo tempo, mui­tas pedras permaneciam como um marco e teriam a sua mensagem transmitida de geração a geração. Essa era uma antiga maneira de pre­servar arquivos.

Como as pedras foram tomadas do solo egípcio, poderiam fazer Isra­el lembrar-se do cativeiro de seus pais e de como Deus os livrou com “mão forte, com braço estendido”. As pedras escondidas num pavimen­to devem ter lembrado o cativeiro e a perseguição dos antepassados e de como Deus fez das pedras um ins­trumento de castigo aos opressores do Egito (Êx 9:8). Enterrar as pedras simbolizava a condição passada e presente dos judeus, enterrados sob a opressiva tirania do domínio pagão. Aquelas pedras, com o seu significa­do passado, presente e futuro, tinham por objetivo induzir os judeus indó­ceis a buscar ajuda e proteção no úni­co lugar em que podiam ser encon­tradas, a saber, naquele para quem o seu povo sempre foi a menina de seus olhos. Não é também significativo, quando pensamos nessas pedras, o fato de a tradição afirmar que Jeremias foi apedrejado até a morte por seus compatriotas em Tafnes?

Herbert Lockyer.

Parábola das brochas e dos canzis

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(Jr 27 e 28)

 Agrupamos esses dois capítulos porque os dois tratam de “brochas e canzis” ou, como prefere certo co­mentarista, tiras e ripas. O capítu­lo 27 fala da inutilidade de resistir ao domínio de Nabucodonosor. Jeremias, que mostrara na visão dos cestos de figos o castigo determina­do contra Judá pela Babilônia, ago­ra proclama o parecer divino sobre esse assunto. O profeta recebeu or­dens para fazer brochas e canzis, enviando uma mensagem aos em­baixadores dos reis que queriam que o rei de Judá entrasse em ali­ança com eles. Zedequias e os de­mais são intimados a se render, por­que o cativeiro era o plano divino para a reconstrução. “Metei os vos­sos pescoços no jugo do rei de Babilônia [..'.] e vivereis” (Jr 27:12,13). Mas o povo rejeitou o pla­no de Deus e o conselho de Jeremias, sofrendo por isso (Jr 39:6-8).

Os capítulos 28 e 29 contêm pro­fecias relacionadas às dos capítulos anteriores e dizem respeito ao rela­cionamento franco entre Jeremias, o verdadeiro profeta, e os falsos pro­fetas, dos quais o homem de Deus tão solenemente advertira a Zedequias. Hananias falsamente profetizara que Deus quebraria o jugo da Babilônia em dois anos e quebrou os canzis, querendo simbo­lizar com isso a quebra do jugo do conquistador. Jeremias recebeu or­dens divinas de contradizer a pro­fecia de Hananias e declarar que canzis de ferro substituiriam os de madeira e o falso profeta morreria, como de fato aconteceu depois de imposta a forma mais severa de cativeiro.

Brochas. Era por meio dessas cor­reias que o canzil era atado ao ani­mal de carga.

Canzis. O canzil em geral era um pedaço de madeira entalhado, fixa­do, em cada extremidade, a um jugo. Esses dois jugos, então, eram postos sobre a cerviz de dois bois a fim de uni-los. O fato de canzil estar no plu­ral (27.1) significa que Jeremias de­veria usar um e dar os outros aos mensageiros (28:10,12).

Não é mencionado como a ordem chegou a Jeremias. O profeta sim­plesmente declara: “Assim me disse o Senhor”. Ellicott supõe que Jeremias recebeu uma clara predi-ção simbólica, semelhante à que Isaías teve quando foi chamado a andar “nu e descalço” (Is 20:2). Pa-rabolicamente, Jeremias deveria se ver como escravo e animal de carga, para ressaltar a aflição que estava por vir, que era a subjugação do povo (v. At 21:11). É muito evidente, en­tretanto, que Jeremias obedeceu à risca à ordem divina (Jr 28:10).

O ato carnal de Hananias de to­mar o canzil do pescoço de Jeremias e quebrá-lo foi uma audácia ímpia e uma demonstração de que Deus não cumpriria a sua sentença. Como Hananias, que se dizia profeta de paz, quebrara o símbolo da escravi­dão, com isso declarou que o mesmo aconteceria ao detestável cativeiro que o canzil representava.

A substituição dos “canzis de madeira” pelos “canzis de ferro” (Dt 28:48) realça a verdade de que, quando a aflição leve não é bem aceita, permite-se aflição mais pe­sada (Jr 28:13,14). Os falsos profe­tas intimaram os judeus a rebelar-se e desvencilhar-se do canzil da Babilônia, leve em comparação com o que haveriam de experimentar. Ao proceder assim, somente atraíram sobre si o jugo mais severo imposto por Nabucodonosor. “É melhor car­regar uma cruz leve pelo caminho que puxar uma cruz mais pesada sobre a cabeça. Podemos evitar as providências destrutivas submeten-do-nos às providências humilhan­tes. Espiritualmente, contrapomos o fardo suave de Cristo ao canzil do cativeiro da lei” (Mt 11:28-31; At 15:10; Gl 5:1). Quando aceitamos o reto juízo de Deus sobre os nossos pecados, a aflição passa a ser bené­fica e salutar. Seremos surpreendi­dos por um juízo ainda mais seve­ro, se, depois da condenação, conti­nuarmos a pecar (lCo 11:31). Se ti­vessem submetido-se ao merecido cativeiro, este curaria os judeus de sua idolatria. Na resistência à es­cravidão, morreram. Assim expres­sa o poema inglês:

Conta cada aflição, quer suave, quer grave.

Se um mensageiro de Deus for envia­do a ti,

Aceita com cortesia a sua visita: des­perta-te e inclina-te.

E, antes que sua sombra passe pela tua porta,

Suplica permissão antes que seus pés celestiais saiam.

Então coloca diante dele tudo o que tens.

Não permitas que nenhuma nuvem de sofrimento se apodere do teu semblante;

Nem estrague a tua hospitalidade.

A história de amor

Corrompeu as filhas de Sião com o mesmo ardor;

Cuja desenfreada paixão no pórtico sagrado

Foi vista por Ezequiel.

Herbert Lockyer.

Parábola do copo do furor

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(Jr 25:15-38)

Esse capítulo sentencioso trata da profecia dos setenta anos de cati­veiro, bem como da destruição da Babilônia e de todas as nações opres­soras dos judeus. A condenação de Judá resultou da sua persistência em pecar. Apesar dos reiterados ape­los divinos ao arrependimento, a nação judaica não deu ouvidos a Deus, sendo conquistada pela Babilônia e levada ao exílio. Então temos a profecia sobre a condenação da Babilônia após os setenta anos de cativeiro, executada por uma alian­ça de nações e reis. Ao contemplar o futuro, Jeremias profetizou o inescapável juízo que cairia sobre todas as nações, quando a punição divina se destinaria a cada uma de­las, até uma grande tempestade sur­gir dos confins da terra com severos golpes sobre os reis e autoridades. Nessa profecia Zedequias identifica a inevitável destruição que ameaça a si e a Jerusalém.

Não tomaremos o “copo do furor” em sentido literal, como se Jeremias de fato oferecesse uma taça de vinho aos embaixadores das nações citadas e reunidas em Jerusalém. Esse “copo” refere-se ao que Deus reve­lou à mente do profeta com respeito aos seus justos juízos. A taça de vi­nho simbolizava punição embriaga-dora (Jr 13:12,13; 49:12; 51:17). Como já mencionamos, Jeremias muitas vezes incorpora a linguagem parabólica de Isaías em suas profe-, cias (cf. Lm 4:21 com Is 51:17-22; v. Jó 21:20; SI 75:8; Ap 16:19; 18:6).

As nações, quando bebessem do copo do furor, cambaleariam e enlou­queceriam como os que se embria­gam. Elicott diz que “as palavras fa­lam do que a história já testemunhou muitas vezes: o pânico e o terror de nações pequenas diante do avanço de um grande conquistador —ficam como que tomadas de uma louca embriaguez e o seu desespero ou a sua resistência são igualmente ensandecidos. As imagens já são co­muns a profetas anteriores” (SI 60:5; Ez 23:21; He 2:16).

“… se não quiserem tomar o copo” (Jr 25:28) parece insinuar que ne­nhum esforço evitaria a destruição. “Se não poupo nem os meus eleitos por causa dos seus pecados, muito menos a vocês” (Ez 9:6; Ob 6; Lc 23:31; lPe 4:17). A consumação da fúria divina sobre um mundo ímpio e perverso dar-se-á na grande tribu-lação, quando os copos do furor de Deus serão derramados sobre a ter­ra (Ap 6:16; 14:10,19; 16:19 etc).

Jeremias conclui o capítulo com uma referência aos magistrados e reis que se julgam “vasos agradá­veis” ou vasos do desejo. Seriam que­brados e inutilizados. Jeconias fora idolatrado pelos judeus, e Jeremias, falando em nome deles, manifesta a perplexidade diante daquele com quem tanto contavam, mas que foi completamente derrubado (Jr 22:28; Sl 31:12; Os 8:8). Que solene lição para o seu coração e o meu!

Herbert Lockyer.

Parábola dos dois cestos de figos

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(Jr 24:1-10)

Os capítulos de 22 a 24 dizem res­peito ao mesmo período, a saber, o reinado de Zedequias, após a primei­ra conquista de Jerusalém e o cati­veiro de seus principais habitantes. Esses acontecimentos formam o ce­nário da visão simbólica de Jeremias (v. Am 7:1,4,7; 8:1; Zc 1:8; 2:1). Se os cestos de figos foram realmente vis­tos, então temos um exemplo nessa parábola da capacidade do profeta-poeta de encontrar parábolas em to­das as coisas —”Sermões em pedras e livros em riachos”. No entanto, como Jeremias começa a parábola com as palavras “Mostrou-me o Se­nhor”, concluímos que o profeta re­cebeu uma mediação especial de Deus. Seus olhos físicos viram o olei­ro nas rodas, mas foram seus olhos espirituais que tiveram a visão dos figos. Em estado de consciência e de responsabilidade, Jeremias recebeu a mensagem divina para Zedequias.

Figos muito bons

Um cesto continha figos bons, temporãos. Esse “figo que amadure­ce antes do verão” ou “fruta têmpora da figueira no seu princípio” (Is 28:4; Os 9:10; Mq 7:1) era tratado como a mais fina iguaria. No dia da calami­dade, dois grupos distintos foram achados —os bons e os maus. Os “fi­gos muito bons” representavam os cativos levados para a Caldéia. Por meio deles, no futuro, Deus restau­raria os seus. Daniel, Ezequiel, os três jovens hebreus e Jeconias (Joa­quim) estavam entre os bons figos. Como essa parábola-profecia deve ter encorajado os desesperançosos exilados! Também serviu para repre­ender os que escaparam do cativei­ro, os quais, julgando-se superiores aos exilados na Babilônia, injuria­ram os antepassados de Deus (Jr 52:31-34).

Figos muito ruins

Ruim é palavra portuguesa que abarca uma infinidade de sentidos de cunho negativo. Cumpre salien­tar, porém, as acepções “inútil”, “sem mérito” e “estragado”, “deteriorado”. Hoje, quando dizemos que uma fru­ta é ou está “ruim”, em geral nos re­ferimos à qualidade do seu sabor, ao fato de não ser ou estar muito palatável (sendo ou estando azeda, amarga, verde etc). De modo que as acepções mencionadas acima de cer­ta forma se perderam nas transfor­mações etimológicas da palavra ou, ao adjetivar outros substantivos, se perdem ainda na subjetividade, im­precisão e abrangência do vocábulo. Lendo os clássicos da literatura, con­tudo, poderemos notar o emprego de ruim com a idéia muito clara, em al­guns casos, de “sem valor”, “inútil”.

No cesto de figos imprestáveis, tão ruins que não podiam ser comidos, temos um símbolo dos cativos de Zedequias e daqueles judeus rebel­des, indóceis e obstinados que perma­neceram com ele. Sobre esses cairia o juízo divino (Jr 24:8-10). Os termos bons e maus são usados não em sen­tido absoluto, mas como comparação e para mostrar o castigo dos maus. Os bons eram olhados por Deus com favor (24:5). Deus estimava os exila­dos na Babilônia como quem vê bons figos com bons olhos e desfez o cati­veiro “para o seu bem”. Levando-os para a Babilônia, Deus também os salvara da calamidade que sobrevi-ria ao restante da nação e os condu­zira ao arrependimento e a uma con­dição melhor (2Rs 25:27-30).

O retorno do cativeiro babilônico e a volta a Deus eram resultado do efeito punitivo da escravidão, um tipo da completa restauração dos judeus. Então, quando o Messias retornar, serão como uma nação renascida em um dia. Tendo-se vol­tado para Deus de todo o coração, todo o povo será um cesto de figos muito bons. No Commentary [Co­mentário] de Lange encontramos esta aplicação: “Os prisioneiros e os de coração quebrantado são como os figos bons, agradáveis a Deus por­que:

1.   conhecem o Senhor e voltam-se para ele;

2.   ele é o Deus deles, e eles são o seu povo.

Aqueles que se mantêm arrogan­tes e confiantes desagradam a Deus e são como os figos ruins porque:

1.   vivem na cegueira tola;

2.   desafiam o julgamento de Deus.

Essa Parábola dos dois cestos de figo pode ser comparada de forma proveitosa com a Parábola do joio e do trigo, de Jesus.

Jeremias era um “figo bom”, um profeta de verdade, mas os falsos profetas, “figos ruins”, tentavam in­fluenciar os cativos na Babilônia e os que estavam em Jerusalém; e o restante da mensagem divinamente inspirada de Jeremias a Zedequias desmentia a autoridade e a inspira­ção dos falsos mestres e mostrava a exatidão da visão dos cestos de figos dados por Deus.

Herbert Lockyer.

Parábola da botija quebrada

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(Jr 19:1-13)

 Essa outra parábola encenada não pode ser confundida com a que acabamos de analisar (PARÁBOLA DO OLEIRO E DO BARRO), embora Jeremias possa ter usado uma boti­ja do mesmo oleiro. Essa parábola dramatizada representa o lado ne­gro da parábola anterior, do oleiro. A evidente diferença entre as duas parábolas revela a irremediabilidade da condição e da posição de Israel.

Na Parábola do oleiro há a idéia de construção. O barro, apesar de impuro, ainda estava maleávei, po­dendo ser remodelado no formato desejado. Assim “o oleiro tornou a fazer dele outro vaso”.

Na Parábola da botija, o tema evi­dente é a destruição. Israel estava tão incorrigível no pecado e na rebeldia que parecia já não ter esperança de recuperação. Aqui o barro já está endurecido. Qualquer remodelagem era impossível e, por não servir ao propósito para o qual fora criado, não haveria outra medida senão destruí-lo. Que solene e espantoso símbolo da obstinação de Israel, que resultou no declínio do seu sistema nacional, po­lítico e religioso!

Os anciãos, tanto do povo quanto dos sacerdotes, eram os representan­tes do governo civil e religioso e, por­tanto, foram chamados para teste­munhar a parábola encenada e a profecia sobre tudo o que considera­vam de mais precioso (19:10; Is 8:1,2). “Deus espalhou as nações e os seus representantes”. Mais tarde, os judeus não poderiam alegar des­conhecimento das profecias que seus anciãos tinham recebido.

E algo significativo que o lugar em que o pecado foi praticado tenha sido escolhido como o local da de­núncia divina contra Israel. O pró­prio lugar de onde aguardavam o so­corro dos seus ídolos seria o cenário de seu massacre. No vale de Hinom a mais abominável forma de idola­tria era praticada. Tofete era o cen­tro dos sacrifícios a Moloque (2Rs 23:10) —sacrifícios humanos a que Israel se viciara. Assim, o lugar de degradação testemunharia o casti­go e a destruição, exatamente como mais tarde aconteceu em Jerusa­lém, onde Cristo foi crucificado, fa­zendo da cidade um lugar de terrí­vel destruição.

Quanto à quebra da botija diante dos homens, esse ato parabólico re­alça o direito e o poder divino de que­brar os homens e as nações em pe­daços, como a um vaso de oleiro (SI 2:9). As imagens bem conhecidas expressam a soberania absoluta de Deus (Jr 18:6; Rm 9:20,21). “… não pode mais refazer-se” refere-se de modo trágico à ruína de Israel. Deus, como divino oleiro, quebra o que não pode ser restaurado. Jeremias pro­fetizou o colapso e a dispersão de Ist rael —nação privilegiada— profecia que se cumpriu plenamente na in­vasão dos romanos (70 d.C). Os ter­ríveis infortúnios desse capítulo fo­ram escolha de Israel; e o castigo por rejeitarem a Deus deveria ser pago.

Embora a botija ou o vaso do olei­ro não possa ser restaurado, pode-se fazer outro do mesmo material, de modo que há, para a felicidade de Israel, uma profunda compaixão di­vina que a parábola de Jeremias não deixa de apresentar. Deus recolheu os fragmentos do lixo e fez surgir uma nova semente para os judeus —não igual aos rebeldes destruídos, cuja ruína o profeta anunciou, mas a colocação de outra geração no lu­gar deles. Paulo ensina que os frag­mentos espalhados hão de se unir novamente e Israel se transformará num vaso de grande honra (Rm 11).

Herbert Lockyer.

Parábola do oleiro e do barro

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(Jr 18:1-10)

 Ao contemplar o trabalho do olei­ro sobre as rodas, Jeremias passa a aprender a lição de como Deus lida com as nações. A parábola continuou quando o profeta foi ao vale do filho de Hinom, para advertir o rei e o povo da destruição que os acomete­ria. Assim como o oleiro despedaça­va o vaso, eles seriam condenados por não ter valor (Jr 19). A figura do Oleiro já fora empregada em referên­cia à obra da criação de Deus (Is 29:16; 45:9; 64:8). Muito da lingua­gem figurada de Jeremias tem a in­fluência de Isaías.

O que mais impressionou tanto Isaías (29:16; 45:9) quanto Jeremias (18:4,6) foi o absoluto domínio da vontade do oleiro sobre o seu barro, o mistério e a maravilha de sua ca­pacidade criadora. Depois de obser­var o oleiro, Jeremias declarou aos judeus que eles eram, apesar de tan­to se jactarem de sua força, tão frá­geis quanto o barro e tão sujeitos à vontade de Deus quanto o barro ao oleiro. A posição e todos os privilégi­os de que desfrutavam eram provi­dências divinas, para que fossem vasos de honra. Mas, no processo de formação, resistiram à vontade e ao poder do Oleiro celestial. Não se deve perder de vista o fato de que “o teor completo dessa parábola, bem como o conhecido caráter de Deus são con­trários à conclusão de que o Senhor tivesse algum prazer no caráter de­generado de Israel ou de alguma for­ma tivesse contribuído para esse es­tado”. O vaso quebrado não era cul­pa do oleiro. Alguma substância es­tranha no barro frustrou seus esfor­ços e arruinou o seu trabalho.

Essa parábola é de atos, não de palavras, visto que não há registro de conversa entre o profeta e o olei­ro. Enquanto Jeremias observava a obra criada nas rodas, por meio do que viu pôde ouvir Deus falar. De pronto identificou o significado sim­bólico do oleiro e do barro, embora o próprio oleiro não visse nada de pa­rabólico em sua obra. Jeremias, con­tudo, aprendeu a mensagem no vaso quebrado e assim desafiou a nação que frustrara o propósito divino: “Não posso fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel?”.

Nenhuma das parábolas do AT nos fala de modo mais direto, pesso­al e abrangente do que essa. Embo­ra a primeira interpretação refira-se ao Israel de então, a parábola tem aplicação muito mais abrangente. Os profetas do AT foram antes de tudo mensageiros da época em que vivi­am —anunciadores antes de atuar como prenunciadores ou mensagei­ros das gerações seguintes. A Pa­rábola do oleiro e do barro, então, era toda acerca de Deus e de Isra­el. É toda acerca de Deus e de nós mesmos.

Deus, contudo, é o Deus da segun­da oportunidade, o que Jeremias aprendeu  ao observar o oleiro amassando o barro que o decepcio­nara e transformando-o em um vaso encantador. Que excelente parábola sobre o que o tratamento que Deus dispensa aos homens e às nações! (Rm 9:21; 2Tm 2:20). Acaso o Senhor não é capaz de reconstruir o caráter, a vida e a esperança? Sua vida está deformada por resistir à modelagem das mãos de Deus? Bem, sendo dele, você está ainda em suas mãos (Jo 10:28,29), e ele espera moldá-lo ou­tra vez, da mesma maneira que trans­formará Israel em vaso de grande honra quando retornar para introdu­zi-lo em seu reino. Então, como nun­ca antes, Israel será a sua glória. Enquanto permanecermos em suas mãos como barro submisso, nada te­mos a temer. Ainda que sejamos fra­cos e sem valor, ele pode fazer de nós vasos de honra, próprios para ele usar.

Mas de Ti preciso, como antes,

De Ti, Deus, que amaste os errantes;

E como, nem mesmo nos piores tur­bilhões,

Eu —à roda da vida,

Multiforme e multicolorida,

Atordoadamente absorto— errei meu alvo, para abrandar Tua sede,

Então toma e usa a Tua obra!

Conserta toda falha que sobra,

As distorções da matéria, as defor­mações do alvo!

Meus momentos estão em Tua mão:

Arremata o vaso segundo o padrão!

Que os anos revelem os jovens, e a morte os dê por consumados.

Herbert Lockyer.

Parábola do odre de vinho

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(Jr 13:12-14)

O odre é feito de pele de animais e comporta líquidos de todos os ti­pos. Quando Jeremias contou essa parábola, ela não foi compreendida pelos ouvintes. O significado é que, assim como o vinho embriaga, a ira e os juízos de Deus entregariam o seu povo desobediente a um estado de perturbação irremediável, fazendo-o apressar-se em direção à própria ruína.”… bêbados, mas não de vinho” (Is 29:9) —uma impotência e uma confusão, como as da embriaguez, atingiriam o povo (25:15; 49:12; v. Is 51:17,22; 63:6).

O profeta recebeu ordens de pro­clamar a “todos os habitantes desta terra” a sua enigmática mensagem, a qual, em parte por assombro, em parte por zombaria, eles haveriam de rejeitar: “Não sabemos disso? Por que precisamos ouvir dos lábios de um profeta?”. Independentemente da posição ocupada, todos seriam despedaçados como se quebra um vaso, porque não se lamentaram nem se humilharam por causa do seu pecado (SI 2:9; Ap 2:27). O reino de­cadente estava à beira da ruína, e todos os laços que uniam a socieda­de seriam quebrados. O orgulho na­cional de Judá estava arruinado com o cerco do seu próprio pecado (Jr 13:9), como o cinto podre e o odre despedaçado vividamente retratam. A humilhação sofrida deveria ter resultado na adoração do Senhor Deus, mas não confessaram a sua culpa. Quão triste ficou Jeremias quando viu o rebanho do Senhor le­vado ao cativeiro!

Duas figuras de linguagem ex­pressivas são usadas em referência ao terrível exílio de um povo deso-bediente e degenerado.

1. O etíope e o leopardo. Os hábi­tos podem-se tornar tão naturais que parecem fazer parte de nós. O persistente pecado de Judá estava por demais enraizado para que pu­desse haver uma reforma espontâ­nea. Assim como o etíope não podia mudar a cor escura de sua pele, nem o leopardo erradicar suas manchas, também era impossível aos degene­rados judeus abandonar seus hábi­tos pecaminosos inveterados. Esta­vam tão presos aos seus maus ca­minhos, que nada restava, senão o mais extremo castigo, o qual expe­rimentaram quando foram levados para o exílio.

2.  … o restolho que passa arreba­tado pelo vento. Por restolho deve­mos entender “as canas de milho deixadas no campo pelo ceifeiro”. Esse restolho quebrado estava sujeito a ser carregado pelo primeiro ven-daval (Is 40:24; 41:2). Os ventos do deserto varrem tudo e não há obstá­culos que os detenham. A solene apli­cação desse símile é que o castigo corresponde à perversidade do povo. “Como seus pecados foram cometi­dos nos lugares mais públicos, Deus declarou que os exporia ao franco desprezo das outras nações” (Lm 1:8). Talvez a irremediabilidade da condenação seja abrandada pela per­gunta: “Ficarás limpo? Quando?”. Embora Jeremias aparecesse para negar a possibilidade de que tão lon­go endurecimento no pecado fosse purificado tão depressa, havia, con­tudo, a esperança de que o leopardo pudesse mudar as suas manchas. “Nada há que te seja demasiado di­fícil” (Jr 32:17; Lc 18:27; Jo 1:7).

Herbert Lockyer.

Parábola do cinto apodrecido

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(Jr 13:1-11)

 Ellicott não acredita que haja sig­nificado parabólico nessa e em ou­tras representações figuradas da verdade: “Não há absolutamente nenhum fundamento em considerar o cinto uma visão ou parábola, as­sim como também não há razão em considerar o uso simbólico da ‘botija de oleiro’ (19:1), ou das ‘brochas e canzis’ (27:2), ou do fato de Isaías andar ‘nu e descalço’ (Is 20:2)”. Mas, usando o termo parábola no sentido mais amplo, é evidente que Jeremias recebeu ordens de encenar mais uma parábola sobre o trato de Deus com o seu povo rejeitado. Essas ações fi­guradas não existiam só na mente de Jeremias, como parte de uma vi­são interna; também se materializa­ram numa encenação.

A frase inicial da parábola, “As­sim me disse o Senhor”, mostra o mé­todo divino de revelação, a saber, en­sinar aos homens pelo homem. Deus depositou o seu tesouro em vasos de barro para que toda a glória fosse para ele. Aqueles a quem ele esco­lheu e que resolvem transmitir a mensagem divina aos homens são “homens [...] sujeitos às mesmas pai­xões” (At 14:15; 2Co 4:7). Além dis­so, permite-se às vezes que os cha­mados para instruir sofram pela ver­dade que declaram. Jeremias teve de comprar e mesmo usar o cinto até quase cheirar mal, para depois diri­gir-se ao Eufrates e escondê-lo numa rocha. O profeta teria de extrair o completo significado do cinto antes de lançá-lo fora. Posteriormente, os apóstolos sofreram pelo nome que pregavam.

O cinto de Unho. Esse componen­te da veste sacerdotal de Jeremias (Êx 28:40; Lv 16:4) era significati­vo na interpretação da parábola encenada. Sendo branco, a cor relembrava aos israelitas o caráter santo que deveriam apresentar como “nação santa” (Êx 19:6; Ap 19:8). Is­rael, como cinto do Senhor, fora es­colhido para um propósito sagrado. A “aquisição” ou “compra” do cinto também lembra aos judeus que eles foram redimidos ou comprados por Deus.

põe-no sobre os teus lombos. Esse ato complementar denota a grande intimidade com que o Senhor atara Israel e Judá a si (13:1,2,11). Deveriam ser “um povo chegado ao Senhor”. O cinto era também parte ornamental das vestes dos sacerdo­tes orientais: “cheio de beleza e de glória ” (Is 4:2). Do mesmo modo, Is­rael fora escolhido para glorificar ao Senhor diante das nações da terra (Jr 13:11). Nosso propósito supremo não é glorificar a Deus? Assim como o cinto, atado ao corpo de quem o usa, aumenta a sua resistência, Israel foi destinado a ser uma potência para Deus, testemunhando de seu nome.

não o metas na água. Os sacer­dotes antigos jamais podiam esque­cer-se de sua santa vocação. Além do coração limpo, deveriam ter um cor­po puro; por isso os levitas sempre lavavam o corpo e as vestes. A proi­bição excepcional aqui representa a imundície moral de Israel, que se tornou como a sujeira de uma vestimenta usada constantemente sobre a pele, sem ser lavada. Quan­to mais Jeremias usava o cinto sem lavá-lo, pior ficava. O cinto não la­vado, então, simbolizava a ausência da “água limpa” do arrependimento (Ez 36:25; v. Zc 3:3).

esconde-o ali na fenda de uma rocha. Por causa da corrupção e da falta de arrependimento do povo, este seria preso em penhascos (13:17). Tecido para ter um nobre uso, o cinto deteriorado e podre foi colocado na fenda de uma rocha, descartado por ser inadequado para o seu propósito. Também Judá, falhando em sua san­ta e honrosa missão, tornou-se cati-

vo. Como um cinto na rocha, os ju­deus foram expostos às más influên­cias das nações pagas ao redor, às quais não poderiam resistir.

Ao fim de muitos dias [...] o cinto tinha apodrecido. O intervalo pode ter sido de setenta dias —”símbolo perfeito dos setenta anos de exílio que o ato de esconder o cinto junto ao Eufrates representava (v. 13:18-22; Os 3:4). O cinto maculado, dete­riorado, inútil era uma parábola do estado de Judá após o exílio, despro­vido de toda a sua grandeza exteri­or, sem o lugar que ocupava entre as nações da terra”. Ainda que a digni­dade de Judá e de Jerusalém tenha sido grande, eu vou desfigurá-la. O tempo fez com que o cinto se tornas­se impróprio para uso, “sem nenhu­ma serventia”, símbolo de como os judeus se corromperam com os vizi­nhos pagãos e idolatras, deixando de atuar como testemunhas de Deus, sendo assim jogados fora, como um cinto podre, estragado e inútil. Quão sentenciosa é a lição dessa parábola para o seu coração e para o meu! “… se o sal se tornar insípido [...] Para nada mais serve” (Mt 5:13).

Herbert Lockyer.

Parábolas de Jeremias

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Como Isaías, Jeremias profetizou principalmente para o reino de Judá, e sua palavra ao povo, envolta numa mensagem simbólica de impacto, era mais um anúncio de que Deus rejei­tou a nação por causa de sua apostasia e de seu pecado. Jeremias também recebeu ordens de profetizar acerca do cativeiro babilônico como a vontade de Deus para o povo que fora chamado para rejeitar todas as ali­anças mundanas, especialmente com o Egito, ao qual os líderes se volta­ram em busca de socorro contra os assírios. Esse ministério pertinente tornou o profeta extremamente im­popular, sendo constantemente per­seguido por sua ousada mensagem.

É graças à grande semelhança entre Jeremias e Jesus que o profe­ta tem fascinação pelos santos de Deus. Ambos eram homens sofridos e familiarizados com o sofrimento; ambos vieram para os seus e os seus não os receberam; ambos suporta­ram horas de rejeição, de desolação e de abandono. De todos os profetas do AT, Jeremias parece ter padecido os mais atrozes sofrimentos. Não houve dor igual à sua (Lm 1:12; 3:1). Era popularmente conhecido como o Profeta das Lágrimas e foi retrata­do por Miquelângelo cabisbaixo, em meditação sofredora. Jeremias teve a graça e o dom das lágrimas. Pos­suidor de um temperamento ascé­tico, era “fervoroso, sensível, facil­mente depressivo, desconfiado de si mesmo, facilmente tomado de seve­ra e irada indignação”. As páginas das suas profecias trazem as man­chas das suas lágrimas.

Sabemos mais da história de Jeremias que de qualquer outro pro­feta. Foi dito a seu respeito que, “mais do que qualquer outro, da res­peitável companhia dos profetas, a sua vida toda está diante de nós como um livro aberto”. Chamado desde a tenra idade para servir ao Senhor, Jeremias reconhecia com grande perspicácia sua condição quando disse “não passo de uma cri­ança”, referindo-se, sem dúvida, à sua idade. Ele estava consciente da sua imaturidade e fragilidade dian­te da enormidade de sua grande e solene tarefa. Também declarou que não podia falar, o que significa que lhe faltava eloqüência, embora falar era exatamente o ministério para o qual fora chamado. Ao comentar a consciência que Jeremias tinha de sua limitação discursiva, o dr. F. B. Meyer diz: “Os melhores pregadores para Deus são freqüentemente os menos dotados de eloqüência huma­na; pois, se essa eloqüência estiver muito presente —a poderosa capacidade de comover—, há o risco po­tencial de confiar nela, atribuindo-lhe os resultados do seu encanta­mento magnético. Deus não pode dar sua glória a outro. Não divide seu louvor com os homens. Não ousa ex­por seus servos à tentação de sacri­ficar a si mesmos, ou confiar em suas próprias habilidades”.

Infelizmente, alguns são gran­des demais para que Deus os use, uma vez que são propensos a bus­car toda a glória para si! São aque­les que, como Jeremias, são fracos, nada sendo aos próprios olhos, que o Senhor escolhe para realizar fa­çanhas por ele (Jz 6:11-16; Is 6:5; ICo 1:27,28). Os lábios de Jeremias foram consagrados a Deus; ele não era tão eloqüente quanto Isaías, nem tão elevado quanto Ezequiel, mas tímido e retraído, consciente de sua completa debilidade. Deus, porém, o tomou e usou como um instrumento escolhido para procla­mar a mensagem divina à sua geração corrupta e degenerada. Por natureza acanhado em razão de sua debilidade, Jeremias tornou-se forte no Senhor (2Co 12:9,10). Hou­ve ocasiões em que, diante do Se­nhor, esquivava-se das tarefas a ele confiadas, mas, quando de fato se apresentava ao povo, enchia-se de coragem. Deus tocou os lábios do profeta, para que, purificado e cheio de poder, pudesse transmitir as verdades a ele confiadas.

O fato de estar imerso na lei e nos escritos de Israel ajudou em muito o estilo de Jeremias ao transmitir a mensagem de Deus. Os Salmos Alfabéticos (9, 25, 34, 37, 111, 112, 119 e 145) ajudaram a formar o estilo da estrutura das suas Lamentações, em forma de acróstico. A familiaridade com a maior parte das profecias de Isaías também contribuiu para as yi-gorosas imagens de Jeremias. Às vezes parece que ele copia algumas das suas ilustrações parabólicas . A leitura do livro de Jeremias impres­siona por uma característica, a sa­ber, que o seu estilo corresponde ao seu caráter. Ele era especialmente marcado por um sentimento passi­onal e por uma empatia com os mi­seráveis, como mostram suas Lamentações. A série completa de suas parábolas e elegias tinha ape­nas um objetivo: expressar a triste­za por seu país tão arruinado e des­graçado pelo pecado. Existem nume­rosas expressões e abundantes repe­tições, à medida que Jeremias expressa seus sentimentos abalados. Os judeus o veneravam tanto, que acreditavam na sua ressurreição dentre os mortos para ser o precur­sor do Messias (Mt 16:14).

Parábola da Vara de Amendoeira e da Panela a Ferver

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(Jr 1:11-19)

Sobre a linguagem figurada des¬se capítulo, Ellicott diz que, “Como antes, vemos aí o elemento do êxta¬se e das visões, símbolos não esco¬lhidos pelo profeta, mas —disso po¬demos ter certeza— adaptados à sua formação, às suas inclinações e, por assim dizer, ao seu temperamento. A poesia dos símbolos é de extraor¬dinária beleza”.

A dupla parábola diante de nós era para os olhos e para os ouvidos e faz lembrar uma das parábolas do nosso Deus. Como comenta certo autor, “na instituição da ceia do Se¬nhor e quando ele lavou os pés dos discípulos, temos parábolas que cha¬mam a atenção pelos olhos, não pelo ouvido, ambas de caráter mais impressivo do que as meras pala¬vras. Quando Cristo lavou os pés dos apóstolos, encenou uma parábola, e temos no AT muitos casos em que os profetas recebem ordens de fazer esse tipo de encenação”. No Memorial da ceia, a encenação não recebe tanto realce, mas pode ser considerada uma parábola em visões, uma vez que, por meio de um símbolo (I Co 11:26), serviu de predição aos discí¬pulos e de declaração para nós da “morte do Senhor”.

A visão que Jeremias teve nesse capítulo de abertura de sua profecia era parabólica e contém um pensa¬mento em diferentes estágios de desenvolvimento. A mudança na me¬táfora da agricultura para a arqui¬tetura é digna de nota. Lemos sobre “extirpar”, “demolir” e “edificar”, o que dá a entender que a restaura¬ção depende do arrependimento. As predições de Jeremias eram sobre¬tudo denunciadoras; dessa forma, a destruição das nações é apresenta¬da em primeiro lugar e com grande variedade de termos para só depois mencionar a restauração delas.

A vara de amendoeira. Em contraposição às palavras iniciais de terror, mas ainda em harmonia com a mensagem de esperança, Jeremias vê uma vara de amendoeira, com seus vivos e rosados brotos, florescendo em janeiro e dando o seu fruto em mar¬ço; e vê suas folhas verde-claros, si¬nal do começo da primavera, surgin¬do da melancolia do inverno. No ori¬ginal, o nome que Jeremias dá à amendoeira, nome poético e raro, tor¬na o símbolo mais expressivo. Signi¬fica literalmente “a árvore vigilante”, ou “a vigia”, ou a árvore “que se apres¬sa em acordar”, porque desperta de sua hibernação antes das outras ár¬vores. Nessa parábola, Deus mostrou a rápida execução do seu propósito: “eu velo (em hebraico, apresso-me) sobre a minha palavra, para a cum¬prir” (Jr 1:12). Jeremias faz um jogo entre a palavra traduzida por amen¬doeira, que em hebraico também sig¬nifica “vigia”, e velo (ou me apresso), que denota a ação daquele que vigia. Os juízos decretados contra a nação judaica estavam próximos do cumpri¬mento (Am 8:2).

A panela a ferver. Nessa ilustra¬ção parabólica, o profeta revela o lado sombrio do seu ministério. Numa visão, Jeremias viu, num monte de lenha em chamas, uma grande panela de metal, fervente e fumegante, inclinada para o norte, de onde poderia despejar seu conteú¬do escaldante sobre o sul. Aqui te¬mos o instrumento que executaria outra palavra de Deus. Afervura foi possível pelas chamas sob a panela, mantidas por um sopro —símbolo oriental da fúria da guerra. A afli¬ção estava vindo do norte. “A panela voltava-se para o norte, com a boca a ponto de despejar o seu conteúdo em direção ao sul, a saber, sobre a Judéia.”

Os judeus foram comparados a uma panela fervente, mostrando que Deus permitiu que fossem lan¬çados como carne numa panela e fervessem até ser reduzidos a qua¬se nada. Primeiramente, Deus usou a punição branda da vara (Rm 2:4), mas sem resultado. Re¬correu ao castigo mais severo da fervura (Êx 20:5; SI 7:12; Hb 10:31). O castigo intensificou-se por ter-se agravado o pecado da nação. Que forte contraste existe entre a beleza primaveril da vara de amendoeira e a panela ferven¬te, sendo esta a ilustração dos ter¬rores das regiões ao norte do seu país, Assíria e Caldéia, terrores esses que Israel podia dar como inevitáveis (Mq 3:12).

O capítulo termina referindo-se a Jeremias como cidade fortificada: coluna de ferro, muros de bronze. Es¬sas imagens de fortaleza, sobrepos¬tas umas às outras, asseguravam ao profeta a presença e a proteção da¬quele que o comissionara a testemu¬nhar em seu nome. Os reiterados encorajamentos foram necessárias à temerosidade própria da constitui¬ção de Jeremias (v. ITm 4:12; 6:13; 2Tm 2:3).

Por Herbert Lockyer.

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