Parábola da Panela Fervente

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(Ez 24:1-4)

 Na última profecia dessa seção de seu livro, Ezequiel relaciona a mis­são que recebeu das mãos de Deus aos acontecimentos de sua época. No dia exato em que Nabucodonosor investiu contra Jerusalém, o fato foi revelado a Ezequiel na Caldéia, o qual também recebeu ordens de tor­nar manifesto, por meio da Parábo­la da panela fervente, ser chegada a hora da condenação de Israel. Temos aqui uma parábola específica; não uma ação parabólica, mas apenas uma parábola proferida ao povo em linguagem que denotava ação.

Jerusalém já fora apresentada como uma panela (Ez 11:3), num provérbio acerca da autoconfiança do povo, que seguia o próprio espírito e não o de Deus: “esta cidade é a pa­nela, e nós a carne”. A linguagem jactanciosa de Israel estava a ponto de se concretizar na história e na experiência, mas com um sentido diferente do pretendido pelo povo. Por ser bem fortificada, a cidade foi comparada a uma panela de ferro, e os habitantes sentiam-se seguros dos ataques externos, assim como a car­ne dentro da panela está defendida contra a ação do fogo. Infelizmente, no entanto, o povo não acreditaria em quanto haveriam de ser fervidos! Ezequiel está dizendo em sua pará­bola, para todos os efeitos, “o teu provérbio se mostrará terrivelmen­te verdadeiro, mas não no sentido que pretendes. Assim, longe de be­neficiar-se com uma defesa contra o fogo tão potente quanto à da panela de ferro, a cidade será como uma pa­nela sobre o fogo, e o povo como mui­tos pedaços de carne submetidos ao calor intenso” (Jr 50:13).

Então o profeta aplica a Parábola da panela fervente com toda a fran­queza, declarando que Jerusalém era de fato uma panela. Ele recorre à fi­gura da segurança utilizada pelo pró­prio povo e a emprega contra ele, usando-a “orno símbolo de juízo, não de segurança. Há precisão de lingua­gem na referência à destruição da ci­dade e de seus moradores.

todos os bons pedaços [...] os­sos escolhidos… Aqui o profeta se refere aos mais distintos do povo. Não eram ossos comuns, mas “esco­lhidos”, dentro da panela com a car­ne presa a eles.

debaixo da panela [...] os seus ossos… São ossos sem carne, usados como combustível. São os mais po­bres, que sofrem primeiro e deixam de sofrer antes dos ricos, que supor­tavam o que corresponderia ao fogo baixo no processo de fervura.

faze-a ferver bem [...] ossos [...] ferrugem… A palavra traduzida aqui por ferrugem ocorre quatro vezes no capítulo, e em mais nenhum outro lugar. Talvez queira mostrar que Jerusalém era como uma panela cor­roída e digna de destruição. Então essa ferrugem prejudicial simboliza a impregnante perversidade do povo. Não eram apenas os pobres da cida­de, pois tanto ricos quanto pobres haviam chafurdado na imundície do pecado.

Tira dela a carne pedaço a peda­ço… Tanto o refugo quanto o seleto estavam condenados à destruição; o conteúdo da panela, a carne, seria retirado no processo de condenação. A cidade e o povo não seriam des­truídos simultaneamente, mas numa seqüência de ataques. Todas as classes participariam da mesma sina, mas “pedaço a pedaço”. Sofre­riam os ardentes horrores do cerco, mas experimentariam algo muito pior quando fossem arrancados da cidade por seus conquistadores.

não caia sorte sobre ela… para determinar quem será salvo da con­denação; todos foram igualmente punidos, independentemente da classe, idade ou sexo.

sangue [...] sobre uma penha… O povo haveria de ser desmascara­do, e a condenação seria patente a todos. “Sangue é a consumação de todos os pecados e pressupõe todas as outras formas de culpa. Deus pro­positadamente deixou o povo derra­mar, para vergonha deles, o sangue sobre a penha descalvada, a fim de que esta clame mais enfática e aber­tamente ao alto por vingança, e para que a relação entre a culpa e o juízo se torne mais palpável. O sangue de Abel”, continua Jamieson, “embora já recebido pela terra, ‘clama a mim [Deus]‘ (Gn 4:10,11) —quanto mais o sangue vergonhosamente exposto sobre a penha descalvada.”

pus o seu sangue… Israel rece­beria na mesma moeda. Derraman­do sangue em abundância, teria o próprio sangue em fartura derrama­do (Mt 7:2).

Amontoa a lenha, acende o fogo… Ilustra os materiais hostis usados na destruição da cidade.

engrossa o caldo… Que toque irônico! Os sitiadores haveriam de deleitar-se no sofrimento de suas ví­timas, como se sentassem para uma saborosa refeição.

brilhe o seu cobre… Não era suficiente o conteúdo da panela ser destruído;    a    própria    panela, infectada pela ferrugem, deveria ser destruída. Seus focos de ferrugem não cederam à purificação (Ez 24:12,13). A própria casa infectada com lepra deveria ser consumida (Lv 14:34,35).

cansou-me com suas mentiras… A despeito dos esforços de Deus por purificar seu povo, a sua oferta de misericórdia não foi aceita. Assim, teve de permitir que lhes sobrevies-sem os juízos pela iniqüidade delibe­rada. Por meio dos profetas e da lei, com suas promessas, privilégios e ameaças, Deus procurara atar o povo a si, mas todas as intervenções mise­ricordiosas de nada aproveitaram. As­sim, foram abandonados à sua sorte, e sofreriam as últimas conseqüênci­as. Paciente e longânimo, Deus ago­ra vem condenar e não pode recuar, poupar nem arrepender-se (24:14).

 Herbert Lockyer

Parábola das Duas Irmãs

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Idolatria Católica

(Ez 23:1-49).

 Os capítulos 20, 21 e 22 apresen­tam mais um vislumbre da apostasia e do merecido juízo sobre a nação, cujos anciãos mais se entretinham do que se instruíam com as enérgi­cas parábolas de Ezequiel (20:45-49). Ainda julgavam ter direito ao favor divino como escolhidos, mesmo sem eliminar a abominação da idolatria. Assim, com ainda mais símbolos, Ezequiel refere-se à inevitabilidade do juízo prestes a se abater sobre eles, ainda que tivessem sido o povo privilegiado de Deus. A destruição, como fogo inextinguível, os alcança­ria. A espada os devoraria (20:45; 21:32). Na Canção da espada (21:8-17), o profeta mostra que é impossí­vel resistir ao massacre. Ezequiel devia suspirar “com quebran-tamento dos [...] lombos e com amar­gura” para deixar bem claro aos seus céticos ouvintes que a espada sem dúvida exterminaria todos os habi­tantes (21:1-7). O profeta vê o fogo da ira divina derramado sobre todas as classes sociais por causa da corrupção total. Os príncipes, os pro­fetas, os sacerdotes e o povo, todos seriam igualmente surpreendidos pelo holocausto da ira de Deus.

As últimas parábolas relatam o juízo sobre a nação. A primeira de­las é a alegoria das duas irmãs, Oolá e Oolibá. A rejeição de Deus por par­te de seus escolhidos é mais uma vez retratada como a quebra da sagra­da união do matrimônio (cap. 16). Primeiramente, analisemos a iden­tidade dessas duas irmãs libertinas da parábola:

Oolá, cujo significado é sua pró­pria tenda, mostra que a adoração em Samaria, a capital do reino do Norte, era uma invenção do local, nunca ten­do sido sancionada por Deus. Ao con­trário, essa adoração autoconcebida era objeto da ira divina. As tribos do Norte, separadas após a morte de Salomão, estabeleceram uma tenda ou santuário próprio. Samaria, repre­sentada por Oolá, era mais corrupta que a irmã. Prostituiu-se com a Assíria e com o Egito, rejeitando as promessas de Deus e buscando segu­rança na força armada dos falsos deu­ses dos seus vizinhos. “Ela se tornou um provérbio” ou, mais corretamen­te “objeto de ridículo”. A conquista de Samaria fez dela uma vergonha en­tre as nações.

Samaria também é acusada na parábola de ser a primeira a trans­gredir (Ez 23:5-10). Sua proximida­de com a Síria, intimamente associa­da aos assírios, contribuiu para a sua apostasia em primeiro lugar, a qual se iniciou com a adoração ao bezerro de ouro, sob o reinado de Jeroboão (28:3; lRs 12:28). Ela é chamada a mais velha, ou maior, por preceder Judá em sua apostasia e castigo. O profeta vê Samaria totalmente destruída. “Acusada de infidelidade pela aliança com os assírios, uma vez que se deixou seduzir pelas riquezas e pelo poder deles, abandonando a sua lealdade ao Senhor”, é advertida pelo profeta quanto à sua antiga ali­ança com Judá. Por seu duplo peca­do, os zssírios tiveram permissão de aprisioná-la e dominá-la.

Idolatria = Apostasia

Oolibá significa “minha tenda nela” e faz supor que Judá ainda con­servava o santuário do Senhor, em Jerusalém, sua capital. A adoração em Betei (em Samaria) era de inven­ção própria, não determinada por Deus. No entanto, a adoração em Jerusalém foi especialmente institu­ída pelo Senhor, que habitou lá, es­tabelecendo o seu tabernáculo entre o povo como sua habitação (Êx 25:8; Lv 16:11,12; SI 76:2). Mas Oolibá, como a irmã, Oolá, prostituiu-se. O Senhor disse a respeito dela: “Por que te desvias tanto, mudando o teu caminho?” (Jr 2:36). Ela não conhe­cia os seus sentimentos, pois primei­ro apaixonou-se pelos assírios (Ez 23:12) e depois enamorou-se dos caldeus (23:16). Depois os seus sen­timentos se afastaram deles (26:17). Tendo compartilhado do pecado de

Oolá, Oolibá precisava também in­correr na mesma sorte (23:11-35). Ela representava Jerusalém, que deveria beber “o copo de tua irmã [...] copo de espanto e de desolação” (23:33). Como se esqueceu de Deus e o lançou para trás de suas costas, o terror e a desolação seriam a sua porção (23:35).

As duas irmãs eram filhas da mesma mãe, mostrando que Israel e Judá eram uma só nação, nascida de uma só ancestral, Sara. Ambas, po­rém, no início de sua história, prati­caram a idolatria (Js 24:14; Ez 26:6-8). Ainda jovens, quando recebiam extraordinários benefícios de Deus, voltaram o coração para outros deu­ses (16:6). Agora ambas incorrem no juízo divino. Os pecados de Israel e de Judá são enumerados e, graças à transgressão em comum, merecem o mesmo castigo. As mulheres signi­fica “as nações”. Os juízos que sobre-viessem a Israel e a Judá seriam para sempre um monumento notá­vel da severa justiça de Deus. Com linguagem forte, Ezequiel refere-se à perversidade das alianças feitas com as nações vizinhas, referindo-se também à justeza da punição sobre as adúlteras. “Com a imagem do método hebreu de tratar do pecado de adultério, a saber, o apedre-jamento, o profeta apresenta o qua­dro de um conselho contra Jerusa­lém e Samaria a executar esse juízo e a destruir o povo por completo.” Culpa e punição se mesclam num só quadro (Ez 23:36-49). O salário do pecado foi completamente pago às irmãs. Não apenas elas foram ape­drejadas e mortas, mas seus filhos e suas habitações foram destruídos (Ez 23:43). “A história de Oolá e Oolibá delineia a trágica ironia do pecado humano”, lemos em The biblical expositor [O comentarista bíblico]. “Assim como os amantes de Samaria e de Jerusalém são seus executores, também o pecado traz dentro de si o aguilhão da morte.”

Como Israel e Judá trocaram o verdadeiro Deus por deuses falsos, foram severamente punidos e por isso servem de advertência às nações e aos homens. As “cidades da campi­na” (Gn 13:12), já soterradas, ainda falam do juízo de Deus ao mundo; da mesma forma, Samaria e Jeru­salém há milhares de anos anunci­am a retidão. Triste é que tenham demorado a aprender que só podem ser felizes e prósperas tendo o ver­dadeiro Deus como Senhor.

Por Herbert Lockyer.

Parábola da Videira com Fortes Varas

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Parábola da videira com fortes varas

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(Ez 19:10-14)

Esse capítulo encerra uma longa série de profecias e consiste num comovente lamento pela queda da família real de Israel e pela sua to­tal desolação como nação, mostrando que Israel não tem nenhuma es­perança de escapar ao juízo divino. A parábola em si é uma extensão da Parábola da vinha do Senhor e da Parábola do pau da videira, de que já tratamos (Is 5:1-7; Ez 15:1-8). Ela também revela a amplitude do vo­cabulário de Ezequiel. De que rique­za de expressão era dotado! Com grande habilidade, ele passa de le­ões para videiras.

O sentido exato de “videira na tua vinha” é de difícil conclusão, uma vez que no original se lê “a videira é o sangue”. Certamente não é a mes­ma “videira [...] de pouca altura” que já vimos numa parábola de Ezequiel (17:6). Temos aqui uma videira for­te, notável e excelente. A expressão já foi reescrita deste modo: “Tua mãe é como uma videira a viver no san­gue”, ou seja, na vida de seus filhos, ou “quando foste plantada no teu sangue —na tua primeira infância— recém-saída do útero, sem ainda te-res sido lavada” (Ez 16:6). Calvino traduz a expressão por “no sangue das tuas uvas”, que significa “em sua plena força”, assim como o vinho tin­to é a força da uva (Gn 49:11).

De uma coisa sabemos: a videira, a principal das árvores frutíferas, é aqui empregada pelo profeta como símbolo de toda a casa real de Judá. Chama-se atenção para a sua posi­ção privilegiada —”plantada junto às águas”—, tendo assim todas as van­tagens do crescimento e da fruti­ficação responsáveis pelo poder e pela glória dos seus primeiros mo­narcas. A menção da antiga respei­tabilidade real contrapõe-se triste­mente à atual degradação da casa real de Davi (19:13). O lamento do profeta é “De uma vara dos seus ra­mos saiu fogo que consumiu o seu fruto”, referência à estultícia de Zedequias e às suas trágicas conse­qüências (Ez 17). A nação é apresen­tada como tinha sido até então: uma videira de “espessos ramos”, símbolo do número e dos recursos do povo e de como ela será quando o reino de Cristo encher toda a terra (SI 110:2; Is 11:1). Os “espessos ramos”, contu­do, foram arrancados, não secados aos poucos —metáfora da repentina sublevação do povo no juízo da na­ção, o qual deveria ter produzido ar­rependimento.

Por fortes varas entendemos aqueles galhos mais robustos que representam os cetros dos reis de Israel, sendo a autoridade desses governantes indispensável ao bem-estar do povo. Como afirma Lang: “Parte do castigo da rebelião é que as pessoas ficam sem guia e sem proteção”, “uma vara”, no singular, sem dúvida refere-se ao último rei, Zedequias, que ocasionou a ruína total para si e para o povo. A que­bra e o ressecamento dos galhos aponta para a terrível desgraça da nação quando despojada dos seus governantes. Nesses dias todas as nações precisam de “fortes varas”, reis justos e capazes de governar. De uma vara dos seus ramos saiu fogo significa que o povo acendeu a ira de Deus com seus pecados e sua estultícia. Apresenta-se a “ira do Senhor” contra Judá como a cau­sa de Zedequias ter recebido per­missão de se rebelar contra a Babilônia (2Rs 24:20; Jz 9:15). Como comenta Campbell Morgan: “Arrancados furiosamente, cessa­ram seus fortes governantes, e de seus galhos saiu um fogo destrui­dor. Em outras palavras, a destrui­ção definitiva de Judá provinha de seus governantes, e a referência é indubitavelmente a Zedequias”.

Parábola da Grande Águia

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(Ez 17:1-24)

 Cumprindo ordens divinas, Ezequiel propõe um enigma em for­ma parabólica, para ressaltar a so­berania de Deus sobre as nações e sobre os homens. Nesse capítulo, a parábola se compõe de quatro reis e dos respectivos reinos. Todos os soberanos tinham diferenças entre si, com algo, porém, em comum. Com duas águias, uma videira e ramos a compor a parábola, vamos procurar entender a situação e a sua importância.

Embora os crimes de Israel tives­sem sido desmascarados e se tives­sem decretado juízos em razão de­les, essa “casa rebelde” recusava-se a ser alertada. “Israel estava certo de que a ameaça da Babilônia pode­ria ser debelada se entrasse no jogo do poder político internacional. Se­ria salvo se rompesse o acordo com o rei da Babilônia, Nabucodonosor, e caso se aliasse ao Egito, que dispu­tava a supremacia mundial com os caldeus.” O propósito dessa parábo­la era desmascarar o engano dessa falsa esperança, mostrando que as promessas garantidas de Deus só podem cumprir-se na restauração da casa de Davi.

1.  O primeiro rei, comparado a uma grande águia, era o governante da Babilônia, Nabucodonosor, que arrancou a ponta do cedro —Joa­quim, rei de Judá, — e o conduziu a uma terra de comércio, a Babilônia (Jr 22:23; 48:40; 49:22). A semente da terra foi levada e plantada em solo fértil, onde se tornou videira muito larga. Nabucodonosor, a pri­meira grande águia, era poderoso e governava sobre muitas nações, o que se evidencia pelo tamanho de suas asas e pela variedade de cores de suas penas.

2. O segundo rei, também repre­sentado por uma grande águia, era Faraó, rei do Egito, cujo tamanho das asas e cujo poder não eram tão grandes quanto os da primeira águia. Nessa época, o Egito já per­dera o apogeu de seu poder. A deca­dência era inegável. Seu domínio não era tão amplo quanto o da Babilônia. Foi para essa segunda grande águia que Judá, a videira, lançou as raízes para que fossem regadas. Esse ato traiçoeiro foi de­nunciado por Deus, para quem a videira deveria ser arrancada, se-cando-se com o vento oriental.

3.  O terceiro rei era Matanias, a quem Nabucodonosor denominou Zedequias. Coroado em lugar de Jeconias, seu tio, esse rei-vassalo de Judá era a videira de baixa es­tatura, plantada pela primeira águia —Nabucodonosor, que lhe permitiu desfrutar de todos os di­reitos e honras da realeza, não como soberano independente, mas apenas como tributário do rei da Babilônia. Esse ato de clemência da parte de Nabucodonosor impôs a Zedequias as mais inescapáveis obrigações de submissão confirma­da por um solene juramento.

Mas Zedequias buscou a proteção da segunda grande águia, o Egito, e mereceu o castigo de Deus. Desaten­to ao seu juramento, buscou a ajuda egípcia, pois pensou poder ser liber­to da infame vassalagem e experi­mentar uma soberania independen­te e livre. Essa traição é retratada na parábola pela imagem de um ga­lho arrancado da ponta do cedro por uma grande águia e plantado como uma videira larga e baixa —um tron­co bom que, porém, era ainda inferi­or ao que o originara. Descontente com a sua condição, a videira lançou as suas raízes para a outra grande águia, na esperança de conquistar ainda maior importância e fertilida­de. Graças a essa violação, contudo, experimentou irreparável ruína.

4. O quarto rei é o escolhido de Deus, cujo reino ainda está por vir, que descenderá dos reis de Judá. Será maior que todos os reis antes dele. Com a figura do “mais tenro” renovo, plantado “no monte alto de Israel” e transformando-se num “ce­dro excelente”, prenuncia-se o esta­belecimento do reino de Cristo (Is 11:1-12). Esse reino glorioso nunca será subvertido, mas se tornará um monumento eterno de verdade e de poder. O governo divino será esta­belecido sobre todas as nações e atu­ará por meio delas. A promessa final da parábola é que o governante divino será da linhagem de Davi, o “ce­dro alto”, e, quando se manifestar, frustrará todos os outros poderes, “as árvores do campo”, e sob seu reino todos os homens estarão salvos, ten­do satisfeitas as suas necessidades (Lc 2:67-75).

Herbert Lockyer.

Parábola de Jerusalém como Esposa Infiel

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(Ez 16:1-63)

 De certo modo, essa parábola está ligada à anterior, na qual o profeta demonstrou que Israel, por não cum­prir a sua finalidade como nação es­colhida, foi queimada e consumida pelos juízos divinos. Por não ter correspondido à bondade e à graça de Deus, Ezequiel agora emprega a pa­rábola de uma esposa libertina para realçar o motivo do merecido castigo. Israel tornara-se infrutífera por ser infiel, e por seu pecado ser ultrajan­te. Não é agradável o quadro que Ezequiel traça. Ele mostra com todas as letras como o pecado é negro, pú­trido e repulsivo para Deus. Jerusa­lém é acusada por suas abominações, e Ezequiel refere-se a elas usando a figura do adultério e da prostituição espiritual, de que Oséias também faz uso de modo tão vivido e poderoso.

Se analisarmos essa parábola, veremos que a matéria-prima das parábolas pode ser real ou fictícia, tomada de empréstimo à natureza ou à vida humana. A videira provém da natureza, a adúltera, da vida hu­mana. Lang observa que, se enten­dermos o sentido do quadro que Ezequiel apresenta, teremos “uma valiosa formação no estudo das pa­rábolas [...] Discernir a história e a profecia manifestas nessa alegoria é obter a chave do passado, do presen­te e do futuro, da forma como são vis­tos por Deus, e assim entender que as principais partes do AT servem de fundamento para o NT”.

Nessa parábola, Ezequiel não se contenta em usar uma expressão metafórica aqui e ali; ele ocupa todo o longo capítulo traçando um para­lelo entre uma adúltera e os judeus; a série de quadros que utiliza confe­rem grande força às suas repreen­sões. Toda a história de Israel apre­senta-se deste modo:

1. A menina (1-5). Ainda na pri­meira infância, foi exposta e lançada para morrer —retrato da situação precária do novo povoado fundado por um amorreu e uma hetéia. Isra­el origina-se da terra dos cananeus, tendo um amorreu por pai e uma hetéia por mãe. Por sua estreita li­gação com os vizinhos pagãos, não tinha qualidades naturais que lhe dessem direito à posição de povo es­colhido de Deus, tampouco tinha beleza que o tornasse desejável ou força interior para continuar a exis­tir. Era uma criança desamparada, abandonada (16:1-14).

2.  O passante (6-7). Temos aqui uma referência terna e comovente de Deus nutrindo a rejeitada ao encontrá-la. Como Deus criou Israel e cuidou dessa nação! E repleto de beleza esse quadro de Deus inclinan-do-se e tirando-a da ignóbil extinção. Acaso não fez de Israel objeto de es­pecial preocupação, para que se tor­nasse célebre pela “grande formosu­ra” que ele lhe dera? Deus também determinou que Jerusalém seria o centro na terra, dele e de Israel.

3. O marido (8-14). Ao alcançar a maturidade, a menina escolhida tor­nou-se esposa de seu Benfeitor, que lhe presenteou com toda sorte de ornamentos e de luxos. Sendo o ma­rido, encheu-lhe de privilégios que fizeram dela objeto de admiração e de inveja de todos os que a contem­plavam. Por causa da condição su­blime, sua fama “Correu [...] entre as nações”. Tudo isso mostra a ori­gem humilde de Israel em Canaã, o cuidado de Deus por ela no Egito, o dia em que de lá a libertou e o que se passou até a sua prosperidade, nos dias de Davi e de Salomão.

4. A adúltera (15-25). A parábola agora apresenta uma virada trági­ca, pois, em vez de retribuir ao ma­rido o amor, a honra e a fidelidade que lhe dera, essa esposa ricamente presenteada entrega-se à prostitui­ção sem restrições. Confiante em sua beleza e em seus bens, voltou-se para a prostituição e, de modo ingrato e infiel, passou as riquezas do marido para os falsos amantes. Era culpada de seduzi-los e de atraí-los como uma meretriz vulgar, além de ceder às tentações deles. Os presentes, farta­mente recebidos do marido em amor, foram usados por ela como meios de continuar na sua conduta perversa. Esse perfeito realismo revela as “abominações” e a desprezível histó­ria de Israel. Elevada entre as na­ções, do nada, à condição de impor­tante, Israel rejeitou o Senhor em troca de deuses falsos e, mergulhou nas profundezas da iniqüidade, prostituiu os dons de Deus aos seus de­sejos abomináveis. Em virtude do procedimento licencioso e infame, Israel havia obrigado Deus a afastá-la e a retirar dela todas as vantagens que lhe concedera.

5.  Os falsos amantes (35-43). Em virtude do terrível pecado dessa adúltera, o castigo seria por demais severo. A iniqüidade de Israel se agravou por suas alianças políticas com as nações estrangeiras cujo pa­ganismo havia copiado (26-34). Seus amantes eram os egípcios e os assírios, que ela havia subornado em troca de ajuda política, demonstran­do assim falta de confiança em Deus como fonte de proteção e de provi­são. Esses falsos amantes voltaram-se contra Israel e tornaram-se os seus destruidores; numa terrível vin­gança, privaram a nação das posses de que tanto se jactava, expondo-a à vergonha. Ezequiel já não havia usa­do de rodeios para se referir ao fra­casso e à loucura de Israel, e agora anuncia a sua punição em termos igualmente aterradores: “Para Ezequiel, a destruição de Jerusalém já era fato consumado. Quando de fato se cumpriu na história, a ironia da estultícia humana se tornou ma­nifesta: Deus destrói o orgulho dos homens pelos próprios ídolos dos seus desejos”.

6. As duas irmãs (44-49). Embo­ra as três cidades —Jerusalém, Samaria e Sodoma— são apresenta­das como irmãs —e todas culpadas de “adulterar” e de apostatar do ver­dadeiro Deus—Ezequiel introduz duas nações-irmãs nesse momento como personagens coadjuvantes no enredo da parábola. As três irmãs tinham um parentesco espiritual, mas a culpa de uma —Jerusalém— era maior e mais hedionda, uma vez que, dizendo-se servir de modelo para as irmãs, fora mais abominável que elas. “Mede-se o pecado na proporção da graça rejeitada. Sodoma e Samaria nunca foram tão honradas e enriquecidas por Deus quanto Jerusalém. Ainda assim a apóstata Samaria e a perversa Sodoma foram assoladas pela fúria de Deus. Portanto, poderia tardar o dia do juízo de Jerusalém? As duas irmãs, então, entram na história para revelar o pecado de Jerusalém na perspectiva correta de maior cul­pabilidade e para realçar a miseri­córdia de Deus”.

7. A restauração da esposa (60-63). Embora se mostre que as três irmãs se beneficiam da severa puni­ção e, arrependidas, são restauradas, o último ato dessa vergonhosa pará­bola é aquele em que o profeta anun­cia a restauração da esposa pecado-ra, ocorrida graças ao fato de Deus ter-se lembrado da aliança e a ter restabelecido (Jr 31; Hb 8:6-13). A graça permeia a justiça do marido ferido. Onde abundou o pecado da apostasia (Samaria), da soberba (Sodoma) e da infidelidade (Jerusa­lém), superabundou a graça (Rm 5:20). Uma vez que o juízo atinge o seu propósito, Deus mostra-se pron­to a levar o penitente a reaver a co­munhão (Rm 11:32).

Parábola do Pau da Videira

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(Ez 15:1-8)

Temos aqui outra evidência da dívida de Ezequiel para com os grandes profetas anteriores, pois a sua Parábola do pau da videira é um suplemento da Parábola da vi­nha do Senhor, de Isaías (Is 5:1-7). Ezequiel, realçando a condição na­tural de Israel, mostra que, como uma videira, ele se mostrou inútil e não pode ter proveito algum. Nes­sa magnífica parábola, ele expres­sa com muita força, como nunca an­tes, o pecado (15:3—16:34), a rejei­ção (16:35-52) e a restauração de­finitiva de Israel (16:53-63). A imensidão do pecado da nação é apresentada pelo fato de Israel não ter a princípio nenhum direito ao favor de Deus, tampouco nada que o tornasse atraente. Agora se po­dia ver o que realmente era: uma criança rejeitada e repulsiva (15:3-5). Por sua misericórdia, contudo, Deus a salvou e cuidou dela (16:6,7) e, na maioridade, fez com ela uma aliança, abençoando-a sobremanei­ra (16:8-14). Infelizmente, ela se mostrou de todo infiel à aliança, esposa infiel e incomparavelmen­te libertina; portanto, merecedora de castigo (16:15-63).

Essa parábola, então, ensina a respeito do fim da existência de Is­rael como nação. Deus a criara e a escolhera com alegria (Sl 105:45), mas, não obstante todo o seu cuida­do e trabalho, a videira não produziu frutos. Como outras árvores, ti­nha folhas, mas não frutos (Lc 13:6-9). Como a videira não tem valor se­não pelos seus frutos, assim Israel era mais inútil para o mundo que as nações pagas ao redor. Em conseqü­ência dessa inegável inutilidade, Is­rael devia ser destruído como nação. O Viticultor não tinha alternativa, senão permitir que o fogo do castigo destruísse a videira infrutífera (2Rs 15:29; 23:30,35). Como a videira va­zia, Israel dera frutos para si mes­mo (Os 10:1); mas, vivendo para si próprio, tornou-se desprezado pelo mundo.

A parábola ensina, de forma cla­ra, que, quando Deus nos escolhe como ramos da Videira, acredita que frutificaremos para a sua glória. Não é essa a verdade personificada nos ditos e nos atos parabólicos de João Batista e do Senhor Jesus? (Mt 21:33-41; Mc 11:12-14). Abençoados por Deus com os mais altos privilé­gios, jamais sejamos culpados de decepcioná-lo. Sua graça nos faça frutificar em toda boa obra!

Herbert Lockyer.

Parábola da Mudança

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(Ez 12:1-28)

 Chegamos agora à segunda série de parábolas de condenação, em ações e em palavras, que se estende até o final do capítulo 14. Lamenta­velmente, também esses sinais não quebraram o orgulho ímpio dos que se julgavam invencíveis! Ezequiel re­cebeu ordens de à vista do povo fa­zer as vezes de um exilado partindo de sua casa e de seu país, preparan­do os “trastes, como para mudança” e levando-os de um lugar para ou­tro. O que o profeta retratou foi a casa rebelde de Israel, com o prínci­pe deixando tudo para trás, exceto “os trastes”, que “levará aos ombros e às escuras”. O rei Zedequias seria levado cativo para Babilônia, mas não a veria. Cegado, morreria sem ver a terra dos seus conquistadores (Jr 39:4-7; 52:4-11; 2Rs 25:1-7).

Ezequiel estava encarregado de fazer ao povo outra demonstração visual, transmitida por um quadro falado de ações, a saber: comeria pão e beberia água com medo e cuidado e, por esse sinal, profetizaria as de­solações cue sobreviriam a Jerusa­lém, quando seus habitantes teriam a escassez de provisões comum em épocas de sítio. O capítulo termina com duas mensagens da parte de Deus (21-25; 26-28) com o propósito de refutar objeções, segundo as quais as profecias de juízo anunciadas ha­via tanto tempo não se cumpririam senão num futuro remoto. Dois pro­vérbios tentam mostrar que a profe­cia não se cumpriu, sendo adiada para um período muito distante. Mas Ezequiel recebe a incumbência de anunciar a iminência do castigo di­vino e o cumprimento de cada pala­vra proferida. Os pecadores que ex­perimentam a paciência, a tolerân­cia e a longanimidade, escondem-se num falso refúgio se acreditam que Deus não executará a sua palavra a respeito da condenação derradei­ra, caso persistam e morram em seus pecados (v. Ec8:ll; Am 6:3; Mt 24:43; lTs 5:3; 2Pe 3:4). No capítu­lo seguinte, Ezequiel denuncia os falsos profetas e profetisas, que, com mensagens mentirosas, haviam dado ao povo um falso senso de se­gurança, que o profeta comparou a uma parede construída com arga-massa fraca, contra a qual o Senhor trará um vento tempestuoso para

que seja furiosamente devastada com os que a construíram (Ez 13:10-16). As falsas profetisas, não men­cionadas em nenhum outro lugar do AT, aí se acham para uma menção especial e para um juízo específico (Ez 13:17-23). O trato severo de Deus com todos esses falsos mensa­geiros e adoradores será motivo de espanto (Ez 14:7-8).

Parábola da panela e da carne

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(Ez 11:1-25)

 De modo milagroso, o profeta foi levantado pelo Espírito e levado à última porta, de onde a glória divi­na se tinha levantado, para testemu­nhar, na presença dessa majestade, uma nova cena de destruição. O pro­feta viu 25 homens, liderados pelos chefes do povo, reunidos com o iní­quo propósito de conspirar contra o rei da Babilônia. Esses homens se achavam seguros na cidade, mas Ezequiel, divinamente instruído, denunciou-os por sua loucura e tor­nou manifesta a vingança de Deus contra eles.

A figura da panela é usada para ressaltar o decreto divino, pelo qual esses homens morreriam por causa dos seus pecados. Enquanto Ezequiel profetizava, um dos chefes pereceu. Iludidos, eles achavam-se seguros dentro dos muros da cidade, como a carne na panela é protegida do fogo. Mas o profeta, sendo o porta-voz di­vino, afirmou que Jerusalém era uma panela só no sentido de estar cheia de mortos. Não haveria lugar para se esconder dos invasores. Arrancados de suas casas, os chefes sofreriam os juízos divinos.

O remanescente fiel, saindo de Jerusalém para o exílio, recebe mui­to encorajamento. Privados da ado­ração no seu amado templo, o próprio Deus seria como “um pequeno san­tuário” para eles. Deus também pro­metera trazê-los de volta à terra e, uma vez limpos moral e espiritual­mente, reaverem os seus privilégios.

Herbert Lockyer.

Parábola do homem com um tinteiro

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(Ez 9 e 10)

Essa visão do profeta guarda re­lação com as anteriores. Os capítu­los anteriores trataram de desmas­carar o pecado de Israel; temos ago­ra a conseqüente punição e a identi­ficação dos fiéis. Uma característica marcante desses capítulos é a dife­renciação que Deus faz na hora de aplicar o seu juízo. Podem-se obser­var aí aspectos inconfundíveis, como:

1. O homem com um tinteiro. Entre os seis homens que vinham da porta alta, havia um que não estava armado com uma espada, mas tra­zia um tinteiro de escrivão. Seu “ves­tido de linho” distinguia sua função da dos seis oficiais da vingança. Usado pelo sumo sacerdote, o linho branco simbolizava pureza (Lv 16:4). Na cintura desse homem com aparência de sacerdote havia um “tinteiro”, um pequeno estojo com canetas, tinta e faca, material usa­do pelos escribas orientais. Não te­mos nenhum indício acerca da iden­tidade do homem com o tinteiro. “Ele é simplesmente necessário à visão”, diz Elicott, “um mensageiro angelical, para identificar aqueles cuja fidelidade a Deus em meio aos perversos ao redor os exclui da con­denação” (Ap 7:3). Alguns comenta­ristas vêem nesse homem uma fi­gura do Sumo Sacerdote celeste, cuja tarefa especial é a salvação e carrega seu tinteiro para “marcar” os seus eleitos e escrever seus no­mes no livro da vida (Êx 12:7; Ap 7:3; 9:4; 13:8-11,17; 20:4).

2. O sinal nas testas (Ez 9:4). De­pois que a glória do Senhor se levan­tou do templo, os.seis homens arma­dos passaram pela cidade para matar os habitantes, mas o que estava com o tinteiro foi na frente, marcando na testa os que suspiravam pelas abomi-nações desmascaradas e denunciadas. Enquanto os seis homens seguiam, matando os que não estavam assina­lados, eram poupados os marcados, que choravam pela razão do castigo e o terrível processo de condenação.

Essa marcação simbólica é co­mum nas Escrituras (Êx 12:7,13; 28:36; Ap 7:3; 9:4; 14:1); e era neces­sária para guiar os agentes ange­licais e humanos que deviam execu­tar as ordens divinas. Avisão de con­denação aterrorizou tanto Ezequiel, que clamou em oração, nada tendo por resposta senão que o juízo era irrevogável, sem levar em conta des­cendência ou posição. Somente os marcados, que não tiveram parte na iniqüidade da nação e por ela se en­tristeceram foram por misericórdia poupados do massacre. O fato de te­rem sido marcados na testa (região do corpo de maior destaque) mos­trava que o fato de não incorrem na condenação seria manifesto a todos (Jr 15:11; 39:11-18; Ap 13:16; 14:1,9). Na hora do castigo, Deus faz acepção de pessoas. Isso fica eviden­ciado no fato sentencioso de que o terrível juízo apresentado iniciou-se pelo Santuário (9:6). Deus não poupou os anjos que pecaram, mes­mo sendo anjos.

3. A visão de um trono (Ez 10:1-22). O homem com o tinteiro, que passou pela cidade para marcar os que suspiravam e gemiam, agora obe­dece à ordem de passar por entre as rodas, pegar nas mãos brasas acesas e espalhá-las pela cidade. Os querubins, já vistos por Ezequiel, re­aparecem para assinalar o retorno da glória do Senhor. Aqui estão intima­mente associados ao processo de con­denação que Ezequiel passa a expor. O homem que apanhou o fogo e o es­palhou por Jerusalém passou por entre as rodas, e a glória visível do Senhor, quando se levantou do limi­ar, agora se mescla às rodas e aos querubins. O objetivo dessa visão era evidenciar que o Senhor, entronizado acima dos querubins, executava os seus justos juízos por meio dos babilônios. Israel achava-se condena­do diante do Senhor, o qual, por não tolerar o desprezo para com a sua misericórdia, determinou todo o seu poder, no céu e na terra, para punir a desprezível ingratidão daqueles a quem abençoara de modo tão especi­al. Avisão revela, na perspectiva cor­reta, a lúgubre culpa de Israel e suas horrendas conseqüências.

Robert Lockyer.

Parábola da Imagem de Ciúmes

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(Ez 8:1-18)

Depois do simbolismo que se con­clui em Ezequiel 5:4, nos capítulos 6 e 7 o profeta pela primeira vez apre­senta as suas profecias em lingua­gem clara. Seu estilo passa da prosa para a forma mais comum de apre­sentação profética: cheia de parale-lismos —característicos da poesia hebraica. No capítulo 8, Ezequiel retoma o método parabólico com a sua nova série de profecias. O mais surpreendente autor dentre todos os profetas, Ezequiel, manifesta uma força e uma energia em suas denún­cias que não encontram precedentes. Suas freqüentes repetições apresen­tam ao leitor os próprios juízos de que ele é porta-voz.

Como os cativos na Babilônia re­clamaram de que Deus os tratara com severidade (Ez 8:15), o Senhor concedeu a Ezequiel uma visão do que estava-se passando no templo de Jerusalém, a despeito dos terríveis juízos impostos sobre eles. A idola­tria era praticada de todas as formas por demais odiosas e abomináveis, até mesmo pelos sacerdotes e pelos anciãos, homens que, por sua auto­ridade, deveriam tê-la condenado. Sentado em sua casa, o profeta sen­tiu o impulso da mão divina sobre ele e viu uma “semelhança como apa­rência de fogo”. Os anciãos senta­ram-se diante dele para ouvir o mo­tivo e o processo do merecido juízo. Como estavam presentes quando a profecia foi entregue, não restavam desculpas a esses líderes. Parece ter havido quatro fases no processo de desmascarar a idolatria oculta:

1. Levado a Jerusalém “em visões de Deus”, Ezequiel contemplou a gló­ria divina na porta do templo e, por meio dessa ofuscante luz, viu os obs­curos recessos da infidelidade de seu

povo (Is 6). Para onde quer que se voltasse, via a perversidade do cora­ção humano, culpado de trocar a gló­ria do Deus eterno por imagens (Rm 1:23). Na entrada do pátio de dentro da casa do Senhor, Ezequiel viu “a imagem que provoca ciúme” de Deus (Dt 32:21; Êx 20:4,5). O Senhor diz a Ezequiel que essa era a razão por que se afastara do santuário. Deus não pode tolerar um rival (Ez 8:5,6; Dt 4:23,24).

2.  Depois o profeta recebe ordem de cavar um buraco na parede e, ao entrar pela porta, descobre, para seu espanto, os anciãos de Israel quei­mando incenso diante de répteis, animais abomináveis e ídolos (8:7-12). Pensaram que não seriam des­cobertos, mas o Senhor penetra to­dos os aposentos da escuridão. Nada lhe é oculto. O incenso aos ídolos é o mau cheiro da iniqüidade, detestá­vel a Deus. Aqueles líderes religio­sos tinham-se afastado tanto da co­munhão com o Senhor, que imagina­vam ter ele abandonado a terra e, portanto, eles não seriam vistos. A respeito desse pecado, Jamieson es­creveu: “Quão terrivelmente agra­vou o pecado da nação o fato de os setenta, depois de ter recebido aces­so ao segredo do Senhor (SI 25:14), agora, ‘nas trevas’, entrarem no ‘conselho’ dos perversos (Gn 49:6) e, apesar de estarem legalmente obri­gados a extinguir a idolatria, serem os que a promoviam”.

3. Adepravação das mulheres de Israel, que choravam por Tamuz, foi a visão seguinte do profeta (Ez 8:13,14). Tamuz era o conhecido deus babilônico da vegetação e da fertili­dade. “Parte da cerimonia que visa­va a garantir o retorno da estação fértil consistia em lamentações por Tamuz, que, nas estações infrutífe­ras do ano, diziam estar morto. Em seu desatino, as mulheres de Israel serviam a um deus pagão, e não ao Deus vivo, o Deus de Israel.” Que oportunas são estes versos de Mil­ton sobre o choro pelo deus Tamuz:

A história de amor

Corrompeu as filhas de Sião com igual ardor;

De quem Ezequiel viu na porta sagrada

A paixão desenfreada.

4. Por último Ezequiel vê 25 ho­mens de costas para o templo, prostrados diante do Sol (Ez 8:15-18). A idolatria de Israel não era meramen­te “um desvio exterior ou o resulta­do da ignorância do povo. Era um afastamento deliberado e consuma­do em relação a Deus, como se todos os sacerdotes, tendo o sumo sacer­dote por cabeça, estivessem de cos­tas para j Santo dos Santos e pres­tassem toda a sua adoração ao deus pagão Sol” (lCr 24:5-9; 2Cr 36:14). A despeito do pranto em alta voz do povo, Deus não desfez a condenação, como mostram os capítulos de 9 a 11. A arma destruidora da condenação divina estava nas mãos de executo­res já designados para castigar os perversos idolatras de Jerusalém (v. Ex 12:23; 2Sm 24; 2Rs 19).

Herbet Lockyer.

Parábola da Cabeça e da Barba Rapada

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(Ez 5:1-17)

 O amplo emprego que o profeta faz das ações parabólicas exige nossa cuidadosa atenção. Nenhum outro autor recorreu com tanta fre­qüência ao método parabólico de instrução quanto Ezequiel. Intima­mente relacionado com o capítulo anterior, esse que agora passamos a estudar intensifica, com novos símbolos, a denúncia de condena­ção contra os judeus. Juízos mais severos que as aflições do Egito viriam sobre o povo por causa de seus pecados.

A “faca afiada [...] como navalha de barbeiro” significa qualquer ins­trumento cortante, como a espada, por exemplo, e é usada como símbo­lo das armas do inimigo (Is 7:20). Uma espada, então, afiada como navalha de barbeiro, devia ser usa­da para rapar o cabelo e a barba do profeta. Sendo ele representante dos judeus, a espada deveria ser passa­da sobre a “cabeça” dele, servindo de sinal do tratamento severo e humi­lhante, sobretudo para um sacerdote (2 Sm 10:4,5). Sendo os cabelos si­nal de consagração, os sacerdotes eram expressamente proibidos pela lei de rapar tanto o cabelo como a barba (Lv 21:5). Rapá-los represen­taria o mais desolador castigo.

Os cabelos que tinham sido cor­tados deveriam ser pesados e dividi­dos em três partes. A primeira seria queimada no meio da cidade no fim do cerco, a segunda seria ferida pela espada ao redor da cidade e a tercei­ra seria espalhada ao vento. Por fim Ezequiel apresenta o sentido da pa­rábola: uma terça parte do povo mor­reria de peste no meio da cidade, outra terça parte cairia à espada e a última terça parte seria espalhada ao vento. Isso aconteceu aos rema­nescentes. Uns poucos fios de cabelo deveriam ser recolhidos e atados nas abas das vestes do profeta, sendo o restante atirado ao fogo. Os poucos que escaparam aos severos juízos não se salvaram da prova de fogo??? (Jr 41:12; 44:14). Em dias melhores, Deus assegurara ao seu povo que os cabelos da cabeça seriam contados, prova do cuidado e da provisão divi­na. Agora, arrancadas de Deus e se­paradas de sua presença, as cabeças rapadas anunciavam o afastamento da bondade e da proteção divina.

Resumindo as ações simbólicas desse capítulo e do anterior, The biblical expositor [O comentarista bíblico] afirma que essas ações de­vem ter atraído um círculo de curio­sos espectadores, a quem Ezequiel explicou o que significavam: “Não foi Babilônia nem a sua queda que re­tratou, mas os juízos muito mereci­dos e irrevogáveis sobre a ímpia Je­rusalém. Em vez de ser o centro de onde a salvação irradiaria para as nações, ela excedeu os gentios na perversidade. Assim, Deus não mais a pouparia, nem teria compaixão dela. Sua punição seria severa por ter pisoteado os grandes dons da gra­ça de Deus”.

Herbert Lockyer.

Parábola do Tijolo Entalhado

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(Ez 4:1-17)

Todo esse capítulo está repleto de ações simbólicas que relatam a seve­ridade do cerco de Jerusalém que es­tava por acontecer. Tijolos com enta­lhes, em geral medindo 61 cm de com­primento por 30 cm de largura, sobe­javam nas ruínas da Babilônia. O barro macio e, portanto, maleável transformava-se em tijolos em que se faziam inscrições cuneiformes. De­pois, com a secagem ao sol, o objeto ou a inscrição esboçada no tijolo ali se conservava para sempre. Muitos exemplos dessa arte babilônica po­dem ser vistos em vários museus na­cionais pelo mundo afora. Se Ezequiel de fato desenhou Jerusalém no tijolo ainda molhado, retratando o desen­rolar do cerco, ou se isso diz respeito a um ato simbólico, é um assunto em que as autoridades divergem. O mes­mo se pode dizer de todas as ações mencionadas nessa visão parabólica que trata da difícil situação em que Jerusalém logo se veria.

Instando o profeta a edificar uma fortificação contra o cerco, Deus ins­truiu seu mensageiro a tomar uma sertã de ferro e pô-la como parede entre si e a cidade. Kiel, em seu es­tudo sobre Ezequiel, diz que “a sertã de ferro, posta como parede, não re­presenta nem os muros da cidade, nem os baluartes dos inimigos, uma vez que isso já está representado pelo tijolo; mas significa um firme e inexpugnável muro de separação que o profeta, como mensageiro e representante de Deus, levantou entre si e a cidade sitiada”. Ezequiel, então, representando a Deus, mos­tra que “a parede de separação en­tre ele e o povo era como que de fer­ro, e o exército da C aldeia, que esta­va por atacar —sendo o instrumen­to de separação entre eles e Deus—, era indestrutível”.

Depois temos a outra ação para­bólica de Ezequiel, em que se deita sobre o seu lado esquerdo por 390 dias e sobre o direito por 40 dias, simbolizando com isso o carregar da iniqüidade do número correspon­dente de anos e profetizando con­tra Jerusalém durante todo esse período. “Era um processo longo e maçante levar a iniqüidade da casa do Senhor, no sentido de confessá-la, assim revelando o motivo do cer­co e da condenação.” Levar a mal­dade de alguém (Nm 14:34) é ex­pressão bíblica que denota incorrer na punição devida ao pecado. Dei-tando-se sobre o seu lado esquerdo, o profeta mostrou como o povo so­freria o castigo divino por seus pe­cados. A importância do lado esquer­do está no “hábito, no Oriente, de olhar para o Leste a fim de indicar as direções na bússola; o Reino do Norte estava, portanto, à esquerda”. Por isso “a casa de Israel” é diferen­ciada da “casa de Judá”, que corresponde ao “lado direito” (4:6), o mais honroso.

Outras ações simbólicas eram dirigir o rosto para o cerco de Jerusa­lém e ter o braço descoberto. A expres­são hebraica traduzida por Dirigirás o teu rosto (também traduzida em ou­tras passagens por voltar-se para, pôr a face contra, etc.) é comum nas Es­crituras no sentido de firmeza de propósito (Lv 26:17). Sendo expressão favorita de Ezequiel (15:7; 20:46 etc), implica firmeza de propósito a ser apli­cada “quanto ao cerco de Jerusalém”. Não haveria abrandamento; a conde­nação divina sobreviria à cidade con­forme decretada.

“… com o teu braço descoberto”. Essa ação faria uma vivida impres­são. As longas roupas orientais, que em geral cobriam os braços, impedi­am que se agisse com rapidez (Is 52:10). Então, adapatando as pala­vras às suas ações, Ezequiel profeti­zou contra a cidade. Quanto às “cor­das” sobre o profeta, impedindo-o de virar-se da esquerda para a direita até o fim do cerco, o comentário de Ellicott é esclarecedor. “E mais um aspecto do caráter inflexível da con­denação preconizada. O poder de Deus interviria para garantir a mis­são do profeta. Era preciso evitar que, não apenas a comiseração, mas mesmo a debilidade e a fadiga, pró­prias do homem, representassem algum impedimento. Fala-se de um cerco do profeta porque foi o que fez figuradamente.”

A seguir, apresenta-se o rigor do cerco de modo muito pitoresco. Em vez da farinha usada na confecção de delicados bolos (Gn 18:6), os ju­deus teriam uma mistura não-refi-nada de seis espécies diferentes de grãos, em geral consumidos somen­te pelos mais pobres. Os grãos, dos melhores aos piores, deviam ser mis­turados numa vasilha —violação do espírito da lei (Lv 19:19; Dt 22:9)— simbolizando com isso as severida­de do cerco e a implacável privação sobre os sofredores. A comida devia ser preparada de modo que lembrasse imundície. As leis alimentares que tratavam dos alimentos puros e im­puros não foram observadas (Os 9:3,4). A escassez de pão e de água para suprir as necessidades físicas afligiria os habitantes da cidade (Ez 4:11; 16:17; v. Lm 1:2; 2:11,12), in­tensificando assim a completa ruí­na que se seguiria à condenação de Jerusalém. Comer pão por peso e beber água por medida falam da ter­rível penúria comum em períodos de fome. Em razão de seus pecados per­sistentes, o povo experimentaria grande sofrimento e angústia. Não admira que se espantariam ”uns com os outros”, expressão que denota a aparência chocante da carência desespendora.

Herbert Lockyer.

Parábola do Rolo Engolido

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(Ez 2 e 3)

Esses dois capítulos, que poderi­am ser lidos como um, tratam do chamado de Ezequiel ao seu ofício e das instruções para o serviço. A de­signação “Filho do homem” é usa­da cerca de noventa vezes em refe­rência a Ezequiel, apenas uma vez em relação a Daniel (Ez 3:17), e a mais nenhum outro profeta. Cristo foi conhecido pelo mesmo título, uma vez que veio para representar o ho­mem. O Espírito apoderou-se do pro­feta, e, tendo recebido a ordem “põe-te em pé”, que lhe enchia de cora­gem, estava preparado para trans­mitir uma mensagem de condenação ao povo rebelde de Deus. Como Ezequiel precisava de preparo divi­no e de coragem para atuar como porta-voz do Senhor à nação de Is­rael, perversa e de coração empeder­nido, que por onze vezes é chamada “casa rebelde”!

Os livros na antigüidade eram confeccionados em formato de rolo, recebendo inscrição na frente e no verso. O pergaminho em geral tra­zia inscrições só no interior, quando enrolado. Mas esse trazia a mensa­gem de Deus, repleta de iminentes ais. Estava escrito também no ver­so. Em sentido figurado, Ezequiel recebeu a ordem de comer esse rolo. Não comer de fato, assim como não se come de verdade a carne de Cris­to nem se bebe o seu sangue — como ensinam erroneamente os católicos romanos. Essa linguagem figurada quer mostrar que Ezequiel precisa­va receber a mensagem condenatória no seu coração e ser inteira­mente tomado pelo que lhe estava sendo transmitido (v. Jr 15:16; Jo 6:53-58; Ap 10:9,10). Precisava dige­rir com a mente, e o conteúdo desa­gradável da mensagem deveria tor­nar-se, por assim dizer, parte de si mesmo, a fim de transmiti-lo de modo mais vivido aos seus ouvintes.

Os dois efeitos dessa apropriação, diferente um do outro, é apresenta­do pelo profeta. O que comeu era “doce como o mel”, mas, como tam­bém o deixou “amargurado” (3:3,14), Ezequiel tinha primeiro de comer e depois falar. O pregador que fala sem antes comer a Palavra de Deus é ineficaz. Jamieson afirma: “O men­sageiro de Deus precisa apropriar-se internamente da verdade de Deus para transmiti-la”. Como a ação sim­bólica, externa, brotou do íntimo, a visão espiritual tornou mais impres­sionante a declaração profética.

“… doce como o mel”. A primeira impressão que Ezequiel experimen­tou em conseqüência de sua missão profética foi de deleite: “Deleito-me em fazer a tua vontade”. De fato, a mensagem que deveria entregar era dolorosa, mas, por assumir a vonta­de de Deus como sua, o profeta rego­zijou-se pelo grande privilégio de le­var aquela palavra ao povo. “O fato de que Deus seria glorificado era o seu grande prazer”.

“… eu me fui, amargurado”. Feliz por ter sido chamado para ser o “por­ta-voz” de Deus, Ezequiel estava tris­te por causa das iminentes calami­dades que fora chamado a anunciar. “… a mão do Senhor era forte sobre mim” mostra o poderoso impulso de Deus, instando o profeta, sem levar em conta se estava alegre ou triste, a transmitir a mensagem divina (Ez 3:14; Jr 15; 16; 20:7-18; Ap 10:10). “A ordem do Senhor era doce; cumpri-la, amargo.” Dessa forma, havia um misto de prazer e de tristeza quan­do Ezequiel executou a tarefa de que fora incumbido. Mas a Palavra de Deus era fogo abrasador dentro dele; e ele não poderia recuar —experiên­cia pela qual todo mensageiro fiel de Deus é obrigado, com maior ou me­nor amplitude, a passar.

O capítulo termina com Ezequiel atônito no momento de entregar a sua mensagem agridoce. Como o povo se recusava a ouvi-lo, a sua lín­gua se pegou ao céu da boca. Toda­via, o Todo-Poderoso prometera fa­zer com que pregasse no momento certo: “… abrirei a tua boca”. Quan­to aos resultados da mensagem di­vina, alguns a ouviriam e outros se recusariam a recebê-la. Essa foi a reação que o Mestre recebeu, e é a mesma que recebe todo mensageiro enviado por Deus (Ap 22:11).

Herbert Lockyer.

Parábola dos seres viventes

1 Comentário

(Ez 1:1-28)

 Embora haja um elemento de mistério associado a essa primeira parábola de Ezequiel, essa visão envolvente revela uma profunda ex­periência de manifestação. Campbell Morgan faz lembrar que “A palavra-chave da visão é semelhança. Seme­lhança é aquilo que revela algo. A idéia da raiz do termo hebraico é a de comparação. E exatamente a mes­ma idéia presente no vocábulo grego que traduzimos por parábola. Não estou afirmando que o significado da raiz seja o mesmo, mas sim que trans­mite a mesma idéia. A parábola é algo posto ao lado de alguma coisa, com o fito de explicar. É uma figura que tem por objetivo interpretar algo que, sem ela, não poderia ser claramente com­preendido. Essa é a tônica da visão. Trata-se de comparação, analogia, parábola, figura. Ezequiel não viu o que algum outro homem já vira, mas contemplou uma visão do Senhor na forma de uma semelhança”.

O que ele viu começa na terra e termina no céu, com um Homem as­sentado no trono. A linguagem alti­va e maravilhosa do profeta reves­tiu a realidade suprema e central dos quatro seres viventes, que constitu­em “uma revelação ou manifestação do infinito mistério do Ser que ocu­pa o trono acima do firmamento — visão que também constitui a razão da esperança de Ezequiel”. Antes de examinarmos a visão em todos os seus pormenores, há três aspectos que merecem destaque nessa visão da Inteligência Suprema:

1.  Por ser infinito, Deus teve de revestir a revelação de si mesmo em linguagem ou em formas compreen­síveis ao nosso entendimento finito. Por esse motivo reveste realidades eternas e invisíveis com elementos temporais e visíveis. Ezequiel esfor­çou-se para representar o que inevi­tavelmente ultrapassa a capacidade humana de expressão; daí as repeti­ções e a falta de clareza nos porme­nores. “Toda as descrições de mani­festações divinas”, diz Ellicott, “são, como essa, marcadas, com maior ou menor força, pelas mesmas caracte­rísticas” (v. Êx 24:9,10; Is 6:1-4; Dn 7:9,10; Ap 1:12-20; 4:2-6).

2. A visão parabólica de Ezequiel inclui todas as formas de manifestação divina conhecidas até a sua épo­ca. São elas:

O fogo, que apareceu a Abraão, a Moisés e a Israel no Sinai.

O vento tempestuoso, do meio do qual Deus falou a Jó. Um vento as­sim também fendeu as montanhas diante de Elias.

O arco-íris, sinal da aliança de Deus com Noé.

A nuvem (de glória) com resplen-dor ao redor, como a que repousava sobre o tabernáculo e sobre o tem­plo.

As teofanias ou formas humanas com as quais o Juiz de toda a terra apareceu a Abraão.

E um símbolo novo:

as rodas que brilhavam como o berilo, “cheias de olhos” e “altas e formidáveis”.

3. Há quatro expressões usadas em referência à revelação de Deus feita a Ezequiel. As três primeiras dizem respeito a elementos externos, que assegurariam ao profeta a ver­dade da revelação. A quarta expres­são relaciona-se ao preparo interior de Ezequiel para receber a revelação.

 

1.   …abriram-se os céus… (Ez 1:1; v. Mt 3:16; At 7:56; 10:11; Ap 19:11). Os céus abertos mostram a aproxi­mação misericordiosa de Deus em relação ao homem. Quando os céus estão fechados, o homem não tem acesso a Deus e não pode contar com a sua provisão.

2.   … visões de Deus… (Ez 1:1; v. Gn 10:9; SI 36:6; 80:10; Jn 3:3; At 7:20). O que Ezequiel experimentou não foi nenhum transe ou alucina-ção, mas visões divinas, ou manifes­tações de Deus, dadas pelo próprio Deus (Ez 8:3; 40:2).

3.   … a palavra do Senhor… (Ez 1:3; 24:24). Somente nesses dois ca­sos Ezequiel fez menção do seu pró­prio nome, e o faz como alvo de uma comunicação concedida por Deus.

veio expressamente significa “veio sem sombra de dúvida”, com total comprovação de sua verdade. A ex­pressão “a palavra do Senhor”, que ocorre repetidas vezes, tem em si a força da inspiração divina (lTs 4:11). 4. … ali esteve sobre ele a mão do Senhor… (Ez 1:3; 3:22; 37:1; v. lRs 18:46; Dn 8:15; 10:15; Ap 1:17). O Senhor, por seu poderoso toque, for­taleceu Ezequiel para a tarefa subli­me e árdua de transmitir de modo preciso a revelação divina recebida.

Examinaremos agora os inte­grantes da visão que o profeta teve da glória de Deus, que ocupam o res­tante do capítulo:

1.  … um vento tempestuoso que vinha do norte… (Ez l:4;v.Jr 1:14,15; 4:6; 6:1). Ezequiel aprendeu com Jeremias que o vento tempestuoso significa os justos juízos de Deus (Jr 22:19; 25:32). O fato de vir do norte tem duplo significado. O norte era tido como o lugar em que Deus se assentava (Is 14:13,14). E foi do nor­te, ou seja, da Assíria e da Caldéia, que as forças inimigas invadiram Judá.

2.  … uma grande nuvem… Esse quarto versículo poderia ser tradu­zido da seguinte forma: “… vi um vento tempestuoso vindo do norte que provocava uma grande nuvem”. Ezequiel sabia que a nuvem simbo­lizava a manifestação de Deus e que, no Sinai, representava q esconderi­jo da majestade divina (Êx 19:9-16). A nuvem era tudo o que os olhos hu­manos suportavam ver.

3.  … um fogo que emitici labare­das de contínuo… (Ez 1:4; Êx 9:24). Certo texto bíblico lembra que o fogo é expressão da santidade de Deus: “… o nosso Deus é fogo consumidor” (Hb 12:29). O fogo toma conta de tudo o que o cerca e, tragando para si, a tudo consome. Horrendas tem­pestades se fazem acompanhar de nuvens negras às vezes iluminadas por relâmpagos. Essa aparição na­tural se depreende da frase do pro­feta, que diz: “um resplendor ao re­dor dela”.

4.  O centro do fogo tinha a apa­rência do brilho de âmbar (Ez 1:4,27; 8:2). O termo original tradu­zido por brilho significa também “olho”; o âmbar, encontrado somen­te em Ezequiel, é em geral interpre­tado como alguma forma de metal brilhante, que resplandecia quando fundido, se assemelhava ao fogo, ou ainda ao bronze polido (Ez 1:7; Ap 1:15), reluzente e resplandecente pela luz das “labaredas de contí­nuo”. Temos assim “sobreposto à pri­meira aparição do fenômeno natu­ral um olho brilhante ou um centro da nuvem, a reluzir mesmo do cen­tro do fogo.

5.  … quatro seres viventes… (Ez 1:5-26). Do centro da nuvem de fogo surgiram esses seres simbólicos, não existentes de fato. Na visão inspira­da por Deus, Ezequiel viu nessas cri­aturas uma estranha variedade de detalhes, cada uma, porém, com uma forma em geral humana.

Talvez seja de grande valia se analisarmos cada um dos detalhes:

 

Eram seres. Animais, como tra­duz a Versão corrigida, não é a me­lhor tradução. Um deles tinha “o rosto de um homem”, e o ser huma­no no máximo seria denominado “animal racional”; o vocábulo “ani­mal”, desacompanhado de qualquer restrição em referência ao homem, seria um tanto impróprio. Mais adi­ante, Ezequiel identifica esses “se­res” como querubins (Ez 10:15,20; 41:18-20), detalhe que examinare­mos mais de perto quando chegar­mos ao capítulo em questão. Em ter­mos gerais, os querubins represen­tam “a imediata presença do Deus Santo”. Por terem “a semelhança de homem”, então, esses seres viven-tes apresentavam a aparência do corpo humano em todos os aspectos assim especificados. Tinham “mãos” e “rostos”, e os “pés” eram direitos, ou na posição vertical. O autor anô­nimo de Miracles and parables of the Old Testament [Milagres e pa­rábolas do Antigo Testamento] es­creveu há mais de setenta anos: “Não necessariamente se deve con­siderar a forma dos querubins um símbolo de alguma ordem exclusi­va de seres criados; antes, parecem ter por objetivo abranger e unir to­das as ordens sagradas de inteligên­cia, sejam anjos, sejam homens, e expressar propriedades morais e intelectuais, qualquer que seja a ordem dos seres que as possuam”. Nesse sentido, o reiterado vocábulo “semelhança” tem sua importância. O que saiu da nuvem de fogo pare­ciam, mas não eram de fato as cria­turas retratadas.

Eram seres “viventes”. Vez por outra essa importante característi­ca é citada (Ez 1:5,13,14,15,19,21; Ap 4:6 etc). Não eram meras fantasias, mas eram vivos e ativos, com a vida intimamente ligada à fonte de toda a vida, “o Deus vivo”, cujo trono es­tava acima da cabeça desses “seres viventes” (Ez 1:26).

Cada um tinha quatro rostos. Cada um dos quatro seres tinha qua­tro rostos (Ez 1:6). Os querubins do tabernáculo e do templo segundo consta tinham somente um rosto; os mencionados por Ezequiel em outro texto aparecem com dois rostos (41:18,19); os quatro seres viventes apresentados por João eram diferen­tes uns dos outros (Ap 4:7). Mas aqui (Ez 1:6,10) os quatro rostos se as­sociam em cada um dos querubins. Sobre esses símbolos fundamentais da terra, Campbell Morgan comen­ta: “Cada ser se voltava em quatro direções, e cada rosto transmitia, com cada símbolo —homem, leão, boi e águia—, uma idéia diferente. Além disso, os quatro foram de tal forma postos nos quatro cantos de um qua­drado, que o rosto de homem olhava em todas direções, assim como o de leão, o de boi e o de águia. Dessa for­ma, na unidade dos quatro as mes­mas verdades eram transmitidas, como também na unidade de cada um. Cada um tinha quatro rostos, e o quadrado total tinha a mesma re­velação de quatro aspectos”.

Quatro é o número da terra; as­sim, temos os quatro pontos carde­ais: Aborte, Sul, Leste e Oeste —ten­do o primeiro deles a mesma inicial da palavra novas ou do vocábulo no­tícias. O noticiário proporciona in­formações desses quatro cantos do mundo. Além disso, os quatro rostos representam uma múltipla varieda­de e uma extraordinária distribui­ção de dons e de particularidades as­sociadas para um propósito: cada rosto simboliza as diferentes quali­dades da mente e do caráter.

Rosto de homem. O homem é o mais admirável dos quatro seres mencionados, sendo o ideal que ser­ve de modelo aos outros três (Ez 1:10; 10:14). O rosto é o sinal de inteligên­cia e de sabedoria. O homem é o ca­beça de todos os animais criados. “O homem era o símbolo da manifesta­ção [...] Manifestação passa a idéia de revelação do melhor que a vida tem a oferecer, e o homem era o ho-mem-símbolo.”

Rosto de leão. Como o leão é o rei dos animais selvagens, temos aqui o símbolo da supremacia. “Supremacia passa a idéia de reinado, e o leão era o símbolo do rei.” O leão é também o símbolo oficial de poder e de coragem.

Rosto de boi. O boi é reconhecido como o cabeça dos animais domésti­cos e simboliza serviço, esforço per­severante, força e paciência. “Servi­ço passava a idéia de sacrifício, e o boi era símbolo do servo.”

Rosto de águia. A águia é indis­cutivelmente a soberana entre os pássaros, sendo “o emblema do que é ardente, penetrante, elevado, mo­ralmente sublime e devotado”. Ou ainda: “a águia é símbolo do misté­rio, que transmite a idéia de algo insondável, sendo também símbolo da divindade”.

Desde os pais da igreja, os comen­taristas da Bíblia vêem nesses qua­tro rostos uma inspirada represen­tação de Cristo nos quatro evange­lhos. Não é ele o único que reúne to­das as excelências?

Em Mateus, vemos sua suprema­cia como rei;

em Marcos, vemos seu serviço sacrificial como servo;

em Lucas, vemos sua perfeita ma­nifestação como homem;

em João, vemos seu infinito e in­sondável ministério como Deus.

Outros detalhes de importância parabólica são:

 

Cada um tinha quatro asas. Mo­vimento e rapidez na execução dos propósitos de Deus são as idéias presentes na simbologia das asas, duas das quais eram unidas uma à outra (Ez 1:6,11), fazendo supor que todos se movimentavam de forma harmônica e num só impulso. As duas outras asas cobriam o corpo, o que denota reverência (Is 6:2).

Cada um tinha pernas direitas. “As suas pernas eram direitas”, i.e., sem nenhuma dobra, como a que te­mos nos joelhos. Por serem retas, eram igualmente adequadas não apenas para a estabilidade, mas também para mover-se em qualquer direção. O fato de serem “as plantas dos seus pés como a planta do pé de um bezerro” implica que a parte do pé que se apoiava no chão “não era como o pé do ser humano, formado para mover-se apenas para frente, mas sólido e redondo como a planta do pé de um bezerro”. “… luziam como o brilho do bronze polido” é um detalhe que contribui para o fulgor e para a magnificência geral da vi­são.

Cada um tinha mãos de homem debaixo das asas. Essas mãos, à se­melhança de mãos humanas e a re­presentar ação, ocultavam-se sob as asas. Asas e mãos! Que combinação interessante! As asas transmitem a idéia de adoração; as mãos, de ser­viço. As asas, contudo, cobriam as mãos, mostrando que, na vida do crente, o espiritual e o secular an­dam juntos, o primeiro sempre pre­valecendo sobre o segundo. A rotina diária e as tarefas comuns devem glorificar a Deus, da mesma forma que o aposento de oração.

Cada um andava para diante. Não se viravam quando iam. Com “quatro rostos”, os seres olhavam em todas as direções; e os pés redondos igualmente lhes possibilitavam mo­ver-se em qualquer sentido. Qual­quer que fosse a rumo que tomas­sem, seguiam sempre “para diante”. Nunca desviavam do curso divina­mente prescrito. Que lição para nos­so indócil coração avaliar!

Cada um tinha aparência de bra­sas de fogo ardentes e tochas. O pro­feta não incorreu em tautologia ao usar “semelhança” (que denota a for­ma geral) e “parecer” (que denota o aspecto particular). Brasas de fogo ardentes (tochas ou relâmpagos) podem representar a intensa e abrasadora pureza de Deus consu­mindo todas as coisas estranhas à sua santa vontade. Os relâmpagos que saíam do fogo, subindo e descen­do, e os seres viventes, saindo e voltando, denotando esplendor e ve­locidade, expressam muitas verda­des preciosas. Há o maravilhoso vi­gor do Espírito de Deus em todos os seus movimentos, sem jamais des­cansar, sem nunca se cansar. O fogo ardente simboliza a santidade e a glória de Deus. Os relâmpagos que saíam do fogo transmitem a solene idéia de que, assim como a retidão de Deus faria o raio de sua ira cair sobre Jerusalém, também sobrevi­rá por fim à terra culpada.

Cada um tinha quatro rodas. Rodas de imensas proporções são agora acrescidas ao querubim, mos­trando que uma energia gigantesca e terrível haveria de caracterizar as manifestações do Deus de Israel. Um irresistível poder apareceria agora nos tratos de Deus, que perfazem uma ação perfeitamente harmonio­sa, controlada pela vontade supre­ma. Várias verdades podem ser ex­traídas de mais esse curioso simbo-lismo.

Em primeiro lugar, essas rodas de grande altura estavam na terra (Ez 1:15), depois conectadas ao trono celestial (Ez 1:26). As rodas também tinham o brilho do berilo, o que se harmoniza, na visão, com a freqüen­te menção de fogo e de luz brilhan­te. Em segundo lugar, uma roda es­tava dentro da outra. Isso refere-se a uma situação em que há um ele­mento misterioso, e envolvente. Essa roda apresentada por Ezequiel não seria possível mecanicamente, e é usada apenas em sentido parabóli­co. Uma roda estava num ângulo exato com a outra, e seus movimen­tos eram inexplicáveis —”iam em qualquer das quatro direções”.

As cambotas —aros ou circunfe­rências das rodas— eram “cheias de olhos” (v. Ap 4:8: “por dentro, esta­vam cheios de olhos”). Essa multiplicidade de olhos (Ez 1:18; 10:12) simboliza o perfeito conhecimento de Deus acerca de todas as suas obras e a absoluta sabedoria de todos os seus feitos (2Cr 16:9). Jamieson fez este interessante co­mentário a respeito desse detalhe: “Vemos simbolizada aqui a abundân­cia de vida inteligente, sendo o olho a janela pela qual ‘o espírito da cria­tura vivente’nas rodas (1:20) percor­re toda a terra (Zc 4:10). Como as rodas significam a providência de Deus, assim os olhos querem dizer que ele vê todas as circunstâncias, e nada faz por impulso cego”.

Resumindo a mensagem do mis­tério e do movimento das rodas, que são redondas para girar, sabemos que Ezequiel viu o Senhor em meio às estranhar rodas giratórias do seu pro­cedimento e em meio à irresistível energia de que falou na qualidade de Espírito Santo. Como foram cons­truídas para se mover, o movimento é o estado normal das rodas; o repou­so é exceção. Quando pensamos nas leis divinas da providência e da na­tureza, percebemos que a sua ca­racterística normal é o movimento constante. Na história das nações e das pessoas, um acontecimento sem­pre sucede a outro. “Na ordem e nos movimentos gerais do universo, há constante rotação, incessante movi­mento para diante, perfeita regulari­dade e imperturbável harmonia en­tre tudo o que possa parecer obscuro e complicado. Na qualidade de Intér­prete de si mesmo, Deus por fim es­clarece todas as coisas”. A impressio­nante lição no mecanismo das rodas, então, é a representação do sistema de influências físicas e materiais e a representação de todo o andamento do mundo físico unido às influências intelectuais e morais, simbolizadas pelos seres viventes —tudo sob o con­trole do trono celestial, existindo para a glória do seu Ocupante divino.

Por último, temos três aspectos específicos da glória divina, observada por Ezequiel em sua visão, a sa­ber: a voz, o trono e o arco-íris.

A voz. A mesma palavra hebraica nesse versículo poder ser traduzida por “ruído” e por “voz”. Por isso, “o ruído das suas asas”, “o ruído de muitas águas”, “a voz de um estron­do” e “uma voz por cima do firmamento” transmitem algo da impressionante “voz do Onipotente”. Quando a sua voz era ouvida, os se­res viventes, acabrunhados por seus tons majestosos, silenciaram em re­verência. “O forte ruído dos seus movimentos silenciou-se, e baixa­vam as asas sem mexê-las, todos em atitude de reverente atenção”.

O trono. A divindade agora apa­rece na semelhança de um homem entronizado. As resplendentes refe­rências ao trono, com a sua “aparên­cia de [...] safira”, “como o brilho de âmbar” e “como o aspecto do fogo”, contribuem para exaltar a glória, a santidade, o poder e a soberania da­quele que se assenta no trono. “Se nas profecias de Isaías vimos o tro­no com seus princípios fundamen­tais”, diz Campbell Morgan, “e nas de Jeremias descobrimos as ativida­des daquele que se assenta no tro­no, nas de Ezequiel temos o desven­dar da natureza de Deus”.

Não temos aqui uma insinuação ou um prenuncio da encarnação do Filho de Deus, que se tornou Filho do Homem para fazer dos filhos dos homens filhos de Deus? Cristo não é apenas o representante da “plenitu­de da divindade” (Cl 2:9); é igual­mente o representante encarnado da humanidade. Não são boas novas o fato de o trono ser ocupado por al­guém que se apresenta como “ho­mem” e como “Salvador” e, ao retornar à terra, atuará como Juiz (Ap 19:11-16)? O profundo segredo da esperança de Ezequiel era ter co­nhecido o trono e os princípios governamentais aplicados por aquele que, como Deus-homem, atua tanto a favor Deus como do homem.

O arco-íris. “O arco [...] na [...] chuva” lembra o arco-íris, que Deus apresentou como símbolo da firme aliança de sua misericórdia para com seus filhos, de quem não se esquece­ria na condenação dos perversos (Ap 4:3; 10:1). Além dos atributos da sua terrível majestade, descrita por Ezequiel, havia também a sua mise­ricórdia e benignidade. O esplendor, assim como o terror, circundam o trono. O “arco que aparece na nuvem no dia de chuva” não é mera alusão ao fenômeno natural do arco-íris, mas relaciona a visão de Ezequiel à promessa misericordiosa de Gênesis 9:13.

Coberto pela glória do Senhor, que mais o profeta poderia fazer se­não prostrar-se sobre o rosto e calar enquanto a Voz falava? A manifes­tação direta e gloriosa de Deus em geral deixa o homem subjugado e sem palavras (Ez 3:23-25; Is 6:5; Dn 8:17; Lc 5:8; 8:37; At 9:4; Ap 1:17). Vemos aí também a nossa atitude quando assumimos qualquer traba­lho para Deus. Na primeira visão de Ezequiel, o Senhor reuniu nessa re­velação inicial de si próprio a essên­cia de tudo o que haveria de ocupar sua missão profética, como finalmen­te se deu na gloriosa visão que João teve no apocalipse (ou na revelação) de Jesus Cristo.

Quanto ao significado geral das visões parabólicas de Ezequiel, Ellicott chama a atenção para o fato de que foram vistas quatro vezes pelo profeta em várias associações com a sua vida ministerial:

1. Quando chamado para exercer o ofício profético (1:1-28).

2.  Quando enviado a decretar juízos sobre um povo pecador e pre­dizer a destruição de Jerusalém e do templo (3:23 etc).

3. Quando, um ano e meio depois, tem a mesma visão, quando é leva­do a compreender as maldades e as aborninações praticadas no templo e também a sua futura restauração (11:23).

4.  Quando vê a presença do Se­nhor voltar e encher o templo com a sua glória (43:3-5).

Por Herbert Lockier.

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