Parábola da Panela Fervente

(Ez 24:1-4)

 Na última profecia dessa seção de seu livro, Ezequiel relaciona a mis­são que recebeu das mãos de Deus aos acontecimentos de sua época. No dia exato em que Nabucodonosor investiu contra Jerusalém, o fato foi revelado a Ezequiel na Caldéia, o qual também recebeu ordens de tor­nar manifesto, por meio da Parábo­la da panela fervente, ser chegada a hora da condenação de Israel. Temos aqui uma parábola específica; não uma ação parabólica, mas apenas uma parábola proferida ao povo em linguagem que denotava ação.

Jerusalém já fora apresentada como uma panela (Ez 11:3), num provérbio acerca da autoconfiança do povo, que seguia o próprio espírito e não o de Deus: “esta cidade é a pa­nela, e nós a carne”. A linguagem jactanciosa de Israel estava a ponto de se concretizar na história e na experiência, mas com um sentido diferente do pretendido pelo povo. Por ser bem fortificada, a cidade foi comparada a uma panela de ferro, e os habitantes sentiam-se seguros dos ataques externos, assim como a car­ne dentro da panela está defendida contra a ação do fogo. Infelizmente, no entanto, o povo não acreditaria em quanto haveriam de ser fervidos! Ezequiel está dizendo em sua pará­bola, para todos os efeitos, “o teu provérbio se mostrará terrivelmen­te verdadeiro, mas não no sentido que pretendes. Assim, longe de be­neficiar-se com uma defesa contra o fogo tão potente quanto à da panela de ferro, a cidade será como uma pa­nela sobre o fogo, e o povo como mui­tos pedaços de carne submetidos ao calor intenso” (Jr 50:13).

Então o profeta aplica a Parábola da panela fervente com toda a fran­queza, declarando que Jerusalém era de fato uma panela. Ele recorre à fi­gura da segurança utilizada pelo pró­prio povo e a emprega contra ele, usando-a “orno símbolo de juízo, não de segurança. Há precisão de lingua­gem na referência à destruição da ci­dade e de seus moradores.

todos os bons pedaços [...] os­sos escolhidos… Aqui o profeta se refere aos mais distintos do povo. Não eram ossos comuns, mas “esco­lhidos”, dentro da panela com a car­ne presa a eles.

debaixo da panela [...] os seus ossos… São ossos sem carne, usados como combustível. São os mais po­bres, que sofrem primeiro e deixam de sofrer antes dos ricos, que supor­tavam o que corresponderia ao fogo baixo no processo de fervura.

faze-a ferver bem [...] ossos [...] ferrugem… A palavra traduzida aqui por ferrugem ocorre quatro vezes no capítulo, e em mais nenhum outro lugar. Talvez queira mostrar que Jerusalém era como uma panela cor­roída e digna de destruição. Então essa ferrugem prejudicial simboliza a impregnante perversidade do povo. Não eram apenas os pobres da cida­de, pois tanto ricos quanto pobres haviam chafurdado na imundície do pecado.

Tira dela a carne pedaço a peda­ço… Tanto o refugo quanto o seleto estavam condenados à destruição; o conteúdo da panela, a carne, seria retirado no processo de condenação. A cidade e o povo não seriam des­truídos simultaneamente, mas numa seqüência de ataques. Todas as classes participariam da mesma sina, mas “pedaço a pedaço”. Sofre­riam os ardentes horrores do cerco, mas experimentariam algo muito pior quando fossem arrancados da cidade por seus conquistadores.

não caia sorte sobre ela… para determinar quem será salvo da con­denação; todos foram igualmente punidos, independentemente da classe, idade ou sexo.

sangue [...] sobre uma penha… O povo haveria de ser desmascara­do, e a condenação seria patente a todos. “Sangue é a consumação de todos os pecados e pressupõe todas as outras formas de culpa. Deus pro­positadamente deixou o povo derra­mar, para vergonha deles, o sangue sobre a penha descalvada, a fim de que esta clame mais enfática e aber­tamente ao alto por vingança, e para que a relação entre a culpa e o juízo se torne mais palpável. O sangue de Abel”, continua Jamieson, “embora já recebido pela terra, ‘clama a mim [Deus]‘ (Gn 4:10,11) —quanto mais o sangue vergonhosamente exposto sobre a penha descalvada.”

pus o seu sangue… Israel rece­beria na mesma moeda. Derraman­do sangue em abundância, teria o próprio sangue em fartura derrama­do (Mt 7:2).

Amontoa a lenha, acende o fogo… Ilustra os materiais hostis usados na destruição da cidade.

engrossa o caldo… Que toque irônico! Os sitiadores haveriam de deleitar-se no sofrimento de suas ví­timas, como se sentassem para uma saborosa refeição.

brilhe o seu cobre… Não era suficiente o conteúdo da panela ser destruído;    a    própria    panela, infectada pela ferrugem, deveria ser destruída. Seus focos de ferrugem não cederam à purificação (Ez 24:12,13). A própria casa infectada com lepra deveria ser consumida (Lv 14:34,35).

cansou-me com suas mentiras… A despeito dos esforços de Deus por purificar seu povo, a sua oferta de misericórdia não foi aceita. Assim, teve de permitir que lhes sobrevies-sem os juízos pela iniqüidade delibe­rada. Por meio dos profetas e da lei, com suas promessas, privilégios e ameaças, Deus procurara atar o povo a si, mas todas as intervenções mise­ricordiosas de nada aproveitaram. As­sim, foram abandonados à sua sorte, e sofreriam as últimas conseqüênci­as. Paciente e longânimo, Deus ago­ra vem condenar e não pode recuar, poupar nem arrepender-se (24:14).

 Herbert Lockyer

Parábola das Duas Irmãs

Idolatria Católica

(Ez 23:1-49).

 Os capítulos 20, 21 e 22 apresen­tam mais um vislumbre da apostasia e do merecido juízo sobre a nação, cujos anciãos mais se entretinham do que se instruíam com as enérgi­cas parábolas de Ezequiel (20:45-49). Ainda julgavam ter direito ao favor divino como escolhidos, mesmo sem eliminar a abominação da idolatria. Assim, com ainda mais símbolos, Ezequiel refere-se à inevitabilidade do juízo prestes a se abater sobre eles, ainda que tivessem sido o povo privilegiado de Deus. A destruição, como fogo inextinguível, os alcança­ria. A espada os devoraria (20:45; 21:32). Na Canção da espada (21:8-17), o profeta mostra que é impossí­vel resistir ao massacre. Ezequiel devia suspirar “com quebran-tamento dos [...] lombos e com amar­gura” para deixar bem claro aos seus céticos ouvintes que a espada sem dúvida exterminaria todos os habi­tantes (21:1-7). O profeta vê o fogo da ira divina derramado sobre todas as classes sociais por causa da corrupção total. Os príncipes, os pro­fetas, os sacerdotes e o povo, todos seriam igualmente surpreendidos pelo holocausto da ira de Deus.

As últimas parábolas relatam o juízo sobre a nação. A primeira de­las é a alegoria das duas irmãs, Oolá e Oolibá. A rejeição de Deus por par­te de seus escolhidos é mais uma vez retratada como a quebra da sagra­da união do matrimônio (cap. 16). Primeiramente, analisemos a iden­tidade dessas duas irmãs libertinas da parábola:

Oolá, cujo significado é sua pró­pria tenda, mostra que a adoração em Samaria, a capital do reino do Norte, era uma invenção do local, nunca ten­do sido sancionada por Deus. Ao con­trário, essa adoração autoconcebida era objeto da ira divina. As tribos do Norte, separadas após a morte de Salomão, estabeleceram uma tenda ou santuário próprio. Samaria, repre­sentada por Oolá, era mais corrupta que a irmã. Prostituiu-se com a Assíria e com o Egito, rejeitando as promessas de Deus e buscando segu­rança na força armada dos falsos deu­ses dos seus vizinhos. “Ela se tornou um provérbio” ou, mais corretamen­te “objeto de ridículo”. A conquista de Samaria fez dela uma vergonha en­tre as nações.

Samaria também é acusada na parábola de ser a primeira a trans­gredir (Ez 23:5-10). Sua proximida­de com a Síria, intimamente associa­da aos assírios, contribuiu para a sua apostasia em primeiro lugar, a qual se iniciou com a adoração ao bezerro de ouro, sob o reinado de Jeroboão (28:3; lRs 12:28). Ela é chamada a mais velha, ou maior, por preceder Judá em sua apostasia e castigo. O profeta vê Samaria totalmente destruída. “Acusada de infidelidade pela aliança com os assírios, uma vez que se deixou seduzir pelas riquezas e pelo poder deles, abandonando a sua lealdade ao Senhor”, é advertida pelo profeta quanto à sua antiga ali­ança com Judá. Por seu duplo peca­do, os zssírios tiveram permissão de aprisioná-la e dominá-la.

Idolatria = Apostasia

Oolibá significa “minha tenda nela” e faz supor que Judá ainda con­servava o santuário do Senhor, em Jerusalém, sua capital. A adoração em Betei (em Samaria) era de inven­ção própria, não determinada por Deus. No entanto, a adoração em Jerusalém foi especialmente institu­ída pelo Senhor, que habitou lá, es­tabelecendo o seu tabernáculo entre o povo como sua habitação (Êx 25:8; Lv 16:11,12; SI 76:2). Mas Oolibá, como a irmã, Oolá, prostituiu-se. O Senhor disse a respeito dela: “Por que te desvias tanto, mudando o teu caminho?” (Jr 2:36). Ela não conhe­cia os seus sentimentos, pois primei­ro apaixonou-se pelos assírios (Ez 23:12) e depois enamorou-se dos caldeus (23:16). Depois os seus sen­timentos se afastaram deles (26:17). Tendo compartilhado do pecado de

Oolá, Oolibá precisava também in­correr na mesma sorte (23:11-35). Ela representava Jerusalém, que deveria beber “o copo de tua irmã [...] copo de espanto e de desolação” (23:33). Como se esqueceu de Deus e o lançou para trás de suas costas, o terror e a desolação seriam a sua porção (23:35).

As duas irmãs eram filhas da mesma mãe, mostrando que Israel e Judá eram uma só nação, nascida de uma só ancestral, Sara. Ambas, po­rém, no início de sua história, prati­caram a idolatria (Js 24:14; Ez 26:6-8). Ainda jovens, quando recebiam extraordinários benefícios de Deus, voltaram o coração para outros deu­ses (16:6). Agora ambas incorrem no juízo divino. Os pecados de Israel e de Judá são enumerados e, graças à transgressão em comum, merecem o mesmo castigo. As mulheres signi­fica “as nações”. Os juízos que sobre-viessem a Israel e a Judá seriam para sempre um monumento notá­vel da severa justiça de Deus. Com linguagem forte, Ezequiel refere-se à perversidade das alianças feitas com as nações vizinhas, referindo-se também à justeza da punição sobre as adúlteras. “Com a imagem do método hebreu de tratar do pecado de adultério, a saber, o apedre-jamento, o profeta apresenta o qua­dro de um conselho contra Jerusa­lém e Samaria a executar esse juízo e a destruir o povo por completo.” Culpa e punição se mesclam num só quadro (Ez 23:36-49). O salário do pecado foi completamente pago às irmãs. Não apenas elas foram ape­drejadas e mortas, mas seus filhos e suas habitações foram destruídos (Ez 23:43). “A história de Oolá e Oolibá delineia a trágica ironia do pecado humano”, lemos em The biblical expositor [O comentarista bíblico]. “Assim como os amantes de Samaria e de Jerusalém são seus executores, também o pecado traz dentro de si o aguilhão da morte.”

Como Israel e Judá trocaram o verdadeiro Deus por deuses falsos, foram severamente punidos e por isso servem de advertência às nações e aos homens. As “cidades da campi­na” (Gn 13:12), já soterradas, ainda falam do juízo de Deus ao mundo; da mesma forma, Samaria e Jeru­salém há milhares de anos anunci­am a retidão. Triste é que tenham demorado a aprender que só podem ser felizes e prósperas tendo o ver­dadeiro Deus como Senhor.

Por Herbert Lockyer.

Parábola da Videira com Fortes Varas

(Ez 19:10-14)

Esse capítulo encerra uma longa série de profecias e consiste num comovente lamento pela queda da família real de Israel e pela sua to­tal desolação como nação, mostrando que Israel não tem nenhuma es­perança de escapar ao juízo divino. A parábola em si é uma extensão da Parábola da vinha do Senhor e da Parábola do pau da videira, de que já tratamos (Is 5:1-7; Ez 15:1-8). Ela também revela a amplitude do vo­cabulário de Ezequiel. De que rique­za de expressão era dotado! Com grande habilidade, ele passa de le­ões para videiras.

O sentido exato de “videira na tua vinha” é de difícil conclusão, uma vez que no original se lê “a videira é o sangue”. Certamente não é a mes­ma “videira [...] de pouca altura” que já vimos numa parábola de Ezequiel (17:6). Temos aqui uma videira for­te, notável e excelente. A expressão já foi reescrita deste modo: “Tua mãe é como uma videira a viver no san­gue”, ou seja, na vida de seus filhos, ou “quando foste plantada no teu sangue —na tua primeira infância— recém-saída do útero, sem ainda te-res sido lavada” (Ez 16:6). Calvino traduz a expressão por “no sangue das tuas uvas”, que significa “em sua plena força”, assim como o vinho tin­to é a força da uva (Gn 49:11).

De uma coisa sabemos: a videira, a principal das árvores frutíferas, é aqui empregada pelo profeta como símbolo de toda a casa real de Judá. Chama-se atenção para a sua posi­ção privilegiada —”plantada junto às águas”—, tendo assim todas as van­tagens do crescimento e da fruti­ficação responsáveis pelo poder e pela glória dos seus primeiros mo­narcas. A menção da antiga respei­tabilidade real contrapõe-se triste­mente à atual degradação da casa real de Davi (19:13). O lamento do profeta é “De uma vara dos seus ra­mos saiu fogo que consumiu o seu fruto”, referência à estultícia de Zedequias e às suas trágicas conse­qüências (Ez 17). A nação é apresen­tada como tinha sido até então: uma videira de “espessos ramos”, símbolo do número e dos recursos do povo e de como ela será quando o reino de Cristo encher toda a terra (SI 110:2; Is 11:1). Os “espessos ramos”, contu­do, foram arrancados, não secados aos poucos —metáfora da repentina sublevação do povo no juízo da na­ção, o qual deveria ter produzido ar­rependimento.

Por fortes varas entendemos aqueles galhos mais robustos que representam os cetros dos reis de Israel, sendo a autoridade desses governantes indispensável ao bem-estar do povo. Como afirma Lang: “Parte do castigo da rebelião é que as pessoas ficam sem guia e sem proteção”, “uma vara”, no singular, sem dúvida refere-se ao último rei, Zedequias, que ocasionou a ruína total para si e para o povo. A que­bra e o ressecamento dos galhos aponta para a terrível desgraça da nação quando despojada dos seus governantes. Nesses dias todas as nações precisam de “fortes varas”, reis justos e capazes de governar. De uma vara dos seus ramos saiu fogo significa que o povo acendeu a ira de Deus com seus pecados e sua estultícia. Apresenta-se a “ira do Senhor” contra Judá como a cau­sa de Zedequias ter recebido per­missão de se rebelar contra a Babilônia (2Rs 24:20; Jz 9:15). Como comenta Campbell Morgan: “Arrancados furiosamente, cessa­ram seus fortes governantes, e de seus galhos saiu um fogo destrui­dor. Em outras palavras, a destrui­ção definitiva de Judá provinha de seus governantes, e a referência é indubitavelmente a Zedequias”.

Parábola da Grande Águia

(Ez 17:1-24)

 Cumprindo ordens divinas, Ezequiel propõe um enigma em for­ma parabólica, para ressaltar a so­berania de Deus sobre as nações e sobre os homens. Nesse capítulo, a parábola se compõe de quatro reis e dos respectivos reinos. Todos os soberanos tinham diferenças entre si, com algo, porém, em comum. Com duas águias, uma videira e ramos a compor a parábola, vamos procurar entender a situação e a sua importância.

Embora os crimes de Israel tives­sem sido desmascarados e se tives­sem decretado juízos em razão de­les, essa “casa rebelde” recusava-se a ser alertada. “Israel estava certo de que a ameaça da Babilônia pode­ria ser debelada se entrasse no jogo do poder político internacional. Se­ria salvo se rompesse o acordo com o rei da Babilônia, Nabucodonosor, e caso se aliasse ao Egito, que dispu­tava a supremacia mundial com os caldeus.” O propósito dessa parábo­la era desmascarar o engano dessa falsa esperança, mostrando que as promessas garantidas de Deus só podem cumprir-se na restauração da casa de Davi.

1.  O primeiro rei, comparado a uma grande águia, era o governante da Babilônia, Nabucodonosor, que arrancou a ponta do cedro —Joa­quim, rei de Judá, — e o conduziu a uma terra de comércio, a Babilônia (Jr 22:23; 48:40; 49:22). A semente da terra foi levada e plantada em solo fértil, onde se tornou videira muito larga. Nabucodonosor, a pri­meira grande águia, era poderoso e governava sobre muitas nações, o que se evidencia pelo tamanho de suas asas e pela variedade de cores de suas penas.

2. O segundo rei, também repre­sentado por uma grande águia, era Faraó, rei do Egito, cujo tamanho das asas e cujo poder não eram tão grandes quanto os da primeira águia. Nessa época, o Egito já per­dera o apogeu de seu poder. A deca­dência era inegável. Seu domínio não era tão amplo quanto o da Babilônia. Foi para essa segunda grande águia que Judá, a videira, lançou as raízes para que fossem regadas. Esse ato traiçoeiro foi de­nunciado por Deus, para quem a videira deveria ser arrancada, se-cando-se com o vento oriental.

3.  O terceiro rei era Matanias, a quem Nabucodonosor denominou Zedequias. Coroado em lugar de Jeconias, seu tio, esse rei-vassalo de Judá era a videira de baixa es­tatura, plantada pela primeira águia —Nabucodonosor, que lhe permitiu desfrutar de todos os di­reitos e honras da realeza, não como soberano independente, mas apenas como tributário do rei da Babilônia. Esse ato de clemência da parte de Nabucodonosor impôs a Zedequias as mais inescapáveis obrigações de submissão confirma­da por um solene juramento.

Mas Zedequias buscou a proteção da segunda grande águia, o Egito, e mereceu o castigo de Deus. Desaten­to ao seu juramento, buscou a ajuda egípcia, pois pensou poder ser liber­to da infame vassalagem e experi­mentar uma soberania independen­te e livre. Essa traição é retratada na parábola pela imagem de um ga­lho arrancado da ponta do cedro por uma grande águia e plantado como uma videira larga e baixa —um tron­co bom que, porém, era ainda inferi­or ao que o originara. Descontente com a sua condição, a videira lançou as suas raízes para a outra grande águia, na esperança de conquistar ainda maior importância e fertilida­de. Graças a essa violação, contudo, experimentou irreparável ruína.

4. O quarto rei é o escolhido de Deus, cujo reino ainda está por vir, que descenderá dos reis de Judá. Será maior que todos os reis antes dele. Com a figura do “mais tenro” renovo, plantado “no monte alto de Israel” e transformando-se num “ce­dro excelente”, prenuncia-se o esta­belecimento do reino de Cristo (Is 11:1-12). Esse reino glorioso nunca será subvertido, mas se tornará um monumento eterno de verdade e de poder. O governo divino será esta­belecido sobre todas as nações e atu­ará por meio delas. A promessa final da parábola é que o governante divino será da linhagem de Davi, o “ce­dro alto”, e, quando se manifestar, frustrará todos os outros poderes, “as árvores do campo”, e sob seu reino todos os homens estarão salvos, ten­do satisfeitas as suas necessidades (Lc 2:67-75).

Herbert Lockyer.

Parábola de Jerusalém como Esposa Infiel

(Ez 16:1-63)

 De certo modo, essa parábola está ligada à anterior, na qual o profeta demonstrou que Israel, por não cum­prir a sua finalidade como nação es­colhida, foi queimada e consumida pelos juízos divinos. Por não ter correspondido à bondade e à graça de Deus, Ezequiel agora emprega a pa­rábola de uma esposa libertina para realçar o motivo do merecido castigo. Israel tornara-se infrutífera por ser infiel, e por seu pecado ser ultrajan­te. Não é agradável o quadro que Ezequiel traça. Ele mostra com todas as letras como o pecado é negro, pú­trido e repulsivo para Deus. Jerusa­lém é acusada por suas abominações, e Ezequiel refere-se a elas usando a figura do adultério e da prostituição espiritual, de que Oséias também faz uso de modo tão vivido e poderoso.

Se analisarmos essa parábola, veremos que a matéria-prima das parábolas pode ser real ou fictícia, tomada de empréstimo à natureza ou à vida humana. A videira provém da natureza, a adúltera, da vida hu­mana. Lang observa que, se enten­dermos o sentido do quadro que Ezequiel apresenta, teremos “uma valiosa formação no estudo das pa­rábolas [...] Discernir a história e a profecia manifestas nessa alegoria é obter a chave do passado, do presen­te e do futuro, da forma como são vis­tos por Deus, e assim entender que as principais partes do AT servem de fundamento para o NT”.

Nessa parábola, Ezequiel não se contenta em usar uma expressão metafórica aqui e ali; ele ocupa todo o longo capítulo traçando um para­lelo entre uma adúltera e os judeus; a série de quadros que utiliza confe­rem grande força às suas repreen­sões. Toda a história de Israel apre­senta-se deste modo:

1. A menina (1-5). Ainda na pri­meira infância, foi exposta e lançada para morrer —retrato da situação precária do novo povoado fundado por um amorreu e uma hetéia. Isra­el origina-se da terra dos cananeus, tendo um amorreu por pai e uma hetéia por mãe. Por sua estreita li­gação com os vizinhos pagãos, não tinha qualidades naturais que lhe dessem direito à posição de povo es­colhido de Deus, tampouco tinha beleza que o tornasse desejável ou força interior para continuar a exis­tir. Era uma criança desamparada, abandonada (16:1-14).

2.  O passante (6-7). Temos aqui uma referência terna e comovente de Deus nutrindo a rejeitada ao encontrá-la. Como Deus criou Israel e cuidou dessa nação! E repleto de beleza esse quadro de Deus inclinan-do-se e tirando-a da ignóbil extinção. Acaso não fez de Israel objeto de es­pecial preocupação, para que se tor­nasse célebre pela “grande formosu­ra” que ele lhe dera? Deus também determinou que Jerusalém seria o centro na terra, dele e de Israel.

3. O marido (8-14). Ao alcançar a maturidade, a menina escolhida tor­nou-se esposa de seu Benfeitor, que lhe presenteou com toda sorte de ornamentos e de luxos. Sendo o ma­rido, encheu-lhe de privilégios que fizeram dela objeto de admiração e de inveja de todos os que a contem­plavam. Por causa da condição su­blime, sua fama “Correu [...] entre as nações”. Tudo isso mostra a ori­gem humilde de Israel em Canaã, o cuidado de Deus por ela no Egito, o dia em que de lá a libertou e o que se passou até a sua prosperidade, nos dias de Davi e de Salomão.

4. A adúltera (15-25). A parábola agora apresenta uma virada trági­ca, pois, em vez de retribuir ao ma­rido o amor, a honra e a fidelidade que lhe dera, essa esposa ricamente presenteada entrega-se à prostitui­ção sem restrições. Confiante em sua beleza e em seus bens, voltou-se para a prostituição e, de modo ingrato e infiel, passou as riquezas do marido para os falsos amantes. Era culpada de seduzi-los e de atraí-los como uma meretriz vulgar, além de ceder às tentações deles. Os presentes, farta­mente recebidos do marido em amor, foram usados por ela como meios de continuar na sua conduta perversa. Esse perfeito realismo revela as “abominações” e a desprezível histó­ria de Israel. Elevada entre as na­ções, do nada, à condição de impor­tante, Israel rejeitou o Senhor em troca de deuses falsos e, mergulhou nas profundezas da iniqüidade, prostituiu os dons de Deus aos seus de­sejos abomináveis. Em virtude do procedimento licencioso e infame, Israel havia obrigado Deus a afastá-la e a retirar dela todas as vantagens que lhe concedera.

5.  Os falsos amantes (35-43). Em virtude do terrível pecado dessa adúltera, o castigo seria por demais severo. A iniqüidade de Israel se agravou por suas alianças políticas com as nações estrangeiras cujo pa­ganismo havia copiado (26-34). Seus amantes eram os egípcios e os assírios, que ela havia subornado em troca de ajuda política, demonstran­do assim falta de confiança em Deus como fonte de proteção e de provi­são. Esses falsos amantes voltaram-se contra Israel e tornaram-se os seus destruidores; numa terrível vin­gança, privaram a nação das posses de que tanto se jactava, expondo-a à vergonha. Ezequiel já não havia usa­do de rodeios para se referir ao fra­casso e à loucura de Israel, e agora anuncia a sua punição em termos igualmente aterradores: “Para Ezequiel, a destruição de Jerusalém já era fato consumado. Quando de fato se cumpriu na história, a ironia da estultícia humana se tornou ma­nifesta: Deus destrói o orgulho dos homens pelos próprios ídolos dos seus desejos”.

6. As duas irmãs (44-49). Embo­ra as três cidades —Jerusalém, Samaria e Sodoma— são apresenta­das como irmãs —e todas culpadas de “adulterar” e de apostatar do ver­dadeiro Deus—Ezequiel introduz duas nações-irmãs nesse momento como personagens coadjuvantes no enredo da parábola. As três irmãs tinham um parentesco espiritual, mas a culpa de uma —Jerusalém— era maior e mais hedionda, uma vez que, dizendo-se servir de modelo para as irmãs, fora mais abominável que elas. “Mede-se o pecado na proporção da graça rejeitada. Sodoma e Samaria nunca foram tão honradas e enriquecidas por Deus quanto Jerusalém. Ainda assim a apóstata Samaria e a perversa Sodoma foram assoladas pela fúria de Deus. Portanto, poderia tardar o dia do juízo de Jerusalém? As duas irmãs, então, entram na história para revelar o pecado de Jerusalém na perspectiva correta de maior cul­pabilidade e para realçar a miseri­córdia de Deus”.

7. A restauração da esposa (60-63). Embora se mostre que as três irmãs se beneficiam da severa puni­ção e, arrependidas, são restauradas, o último ato dessa vergonhosa pará­bola é aquele em que o profeta anun­cia a restauração da esposa pecado-ra, ocorrida graças ao fato de Deus ter-se lembrado da aliança e a ter restabelecido (Jr 31; Hb 8:6-13). A graça permeia a justiça do marido ferido. Onde abundou o pecado da apostasia (Samaria), da soberba (Sodoma) e da infidelidade (Jerusa­lém), superabundou a graça (Rm 5:20). Uma vez que o juízo atinge o seu propósito, Deus mostra-se pron­to a levar o penitente a reaver a co­munhão (Rm 11:32).

Parábola do Pau da Videira

(Ez 15:1-8)

Temos aqui outra evidência da dívida de Ezequiel para com os grandes profetas anteriores, pois a sua Parábola do pau da videira é um suplemento da Parábola da vi­nha do Senhor, de Isaías (Is 5:1-7). Ezequiel, realçando a condição na­tural de Israel, mostra que, como uma videira, ele se mostrou inútil e não pode ter proveito algum. Nes­sa magnífica parábola, ele expres­sa com muita força, como nunca an­tes, o pecado (15:3—16:34), a rejei­ção (16:35-52) e a restauração de­finitiva de Israel (16:53-63). A imensidão do pecado da nação é apresentada pelo fato de Israel não ter a princípio nenhum direito ao favor de Deus, tampouco nada que o tornasse atraente. Agora se po­dia ver o que realmente era: uma criança rejeitada e repulsiva (15:3-5). Por sua misericórdia, contudo, Deus a salvou e cuidou dela (16:6,7) e, na maioridade, fez com ela uma aliança, abençoando-a sobremanei­ra (16:8-14). Infelizmente, ela se mostrou de todo infiel à aliança, esposa infiel e incomparavelmen­te libertina; portanto, merecedora de castigo (16:15-63).

Essa parábola, então, ensina a respeito do fim da existência de Is­rael como nação. Deus a criara e a escolhera com alegria (Sl 105:45), mas, não obstante todo o seu cuida­do e trabalho, a videira não produziu frutos. Como outras árvores, ti­nha folhas, mas não frutos (Lc 13:6-9). Como a videira não tem valor se­não pelos seus frutos, assim Israel era mais inútil para o mundo que as nações pagas ao redor. Em conseqü­ência dessa inegável inutilidade, Is­rael devia ser destruído como nação. O Viticultor não tinha alternativa, senão permitir que o fogo do castigo destruísse a videira infrutífera (2Rs 15:29; 23:30,35). Como a videira va­zia, Israel dera frutos para si mes­mo (Os 10:1); mas, vivendo para si próprio, tornou-se desprezado pelo mundo.

A parábola ensina, de forma cla­ra, que, quando Deus nos escolhe como ramos da Videira, acredita que frutificaremos para a sua glória. Não é essa a verdade personificada nos ditos e nos atos parabólicos de João Batista e do Senhor Jesus? (Mt 21:33-41; Mc 11:12-14). Abençoados por Deus com os mais altos privilé­gios, jamais sejamos culpados de decepcioná-lo. Sua graça nos faça frutificar em toda boa obra!

Herbert Lockyer.