Parábola da Panela Fervente

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(Ez 24:1-4)

 Na última profecia dessa seção de seu livro, Ezequiel relaciona a mis­são que recebeu das mãos de Deus aos acontecimentos de sua época. No dia exato em que Nabucodonosor investiu contra Jerusalém, o fato foi revelado a Ezequiel na Caldéia, o qual também recebeu ordens de tor­nar manifesto, por meio da Parábo­la da panela fervente, ser chegada a hora da condenação de Israel. Temos aqui uma parábola específica; não uma ação parabólica, mas apenas uma parábola proferida ao povo em linguagem que denotava ação.

Jerusalém já fora apresentada como uma panela (Ez 11:3), num provérbio acerca da autoconfiança do povo, que seguia o próprio espírito e não o de Deus: “esta cidade é a pa­nela, e nós a carne”. A linguagem jactanciosa de Israel estava a ponto de se concretizar na história e na experiência, mas com um sentido diferente do pretendido pelo povo. Por ser bem fortificada, a cidade foi comparada a uma panela de ferro, e os habitantes sentiam-se seguros dos ataques externos, assim como a car­ne dentro da panela está defendida contra a ação do fogo. Infelizmente, no entanto, o povo não acreditaria em quanto haveriam de ser fervidos! Ezequiel está dizendo em sua pará­bola, para todos os efeitos, “o teu provérbio se mostrará terrivelmen­te verdadeiro, mas não no sentido que pretendes. Assim, longe de be­neficiar-se com uma defesa contra o fogo tão potente quanto à da panela de ferro, a cidade será como uma pa­nela sobre o fogo, e o povo como mui­tos pedaços de carne submetidos ao calor intenso” (Jr 50:13).

Então o profeta aplica a Parábola da panela fervente com toda a fran­queza, declarando que Jerusalém era de fato uma panela. Ele recorre à fi­gura da segurança utilizada pelo pró­prio povo e a emprega contra ele, usando-a “orno símbolo de juízo, não de segurança. Há precisão de lingua­gem na referência à destruição da ci­dade e de seus moradores.

todos os bons pedaços [...] os­sos escolhidos… Aqui o profeta se refere aos mais distintos do povo. Não eram ossos comuns, mas “esco­lhidos”, dentro da panela com a car­ne presa a eles.

debaixo da panela [...] os seus ossos… São ossos sem carne, usados como combustível. São os mais po­bres, que sofrem primeiro e deixam de sofrer antes dos ricos, que supor­tavam o que corresponderia ao fogo baixo no processo de fervura.

faze-a ferver bem [...] ossos [...] ferrugem… A palavra traduzida aqui por ferrugem ocorre quatro vezes no capítulo, e em mais nenhum outro lugar. Talvez queira mostrar que Jerusalém era como uma panela cor­roída e digna de destruição. Então essa ferrugem prejudicial simboliza a impregnante perversidade do povo. Não eram apenas os pobres da cida­de, pois tanto ricos quanto pobres haviam chafurdado na imundície do pecado.

Tira dela a carne pedaço a peda­ço… Tanto o refugo quanto o seleto estavam condenados à destruição; o conteúdo da panela, a carne, seria retirado no processo de condenação. A cidade e o povo não seriam des­truídos simultaneamente, mas numa seqüência de ataques. Todas as classes participariam da mesma sina, mas “pedaço a pedaço”. Sofre­riam os ardentes horrores do cerco, mas experimentariam algo muito pior quando fossem arrancados da cidade por seus conquistadores.

não caia sorte sobre ela… para determinar quem será salvo da con­denação; todos foram igualmente punidos, independentemente da classe, idade ou sexo.

sangue [...] sobre uma penha… O povo haveria de ser desmascara­do, e a condenação seria patente a todos. “Sangue é a consumação de todos os pecados e pressupõe todas as outras formas de culpa. Deus pro­positadamente deixou o povo derra­mar, para vergonha deles, o sangue sobre a penha descalvada, a fim de que esta clame mais enfática e aber­tamente ao alto por vingança, e para que a relação entre a culpa e o juízo se torne mais palpável. O sangue de Abel”, continua Jamieson, “embora já recebido pela terra, ‘clama a mim [Deus]‘ (Gn 4:10,11) —quanto mais o sangue vergonhosamente exposto sobre a penha descalvada.”

pus o seu sangue… Israel rece­beria na mesma moeda. Derraman­do sangue em abundância, teria o próprio sangue em fartura derrama­do (Mt 7:2).

Amontoa a lenha, acende o fogo… Ilustra os materiais hostis usados na destruição da cidade.

engrossa o caldo… Que toque irônico! Os sitiadores haveriam de deleitar-se no sofrimento de suas ví­timas, como se sentassem para uma saborosa refeição.

brilhe o seu cobre… Não era suficiente o conteúdo da panela ser destruído;    a    própria    panela, infectada pela ferrugem, deveria ser destruída. Seus focos de ferrugem não cederam à purificação (Ez 24:12,13). A própria casa infectada com lepra deveria ser consumida (Lv 14:34,35).

cansou-me com suas mentiras… A despeito dos esforços de Deus por purificar seu povo, a sua oferta de misericórdia não foi aceita. Assim, teve de permitir que lhes sobrevies-sem os juízos pela iniqüidade delibe­rada. Por meio dos profetas e da lei, com suas promessas, privilégios e ameaças, Deus procurara atar o povo a si, mas todas as intervenções mise­ricordiosas de nada aproveitaram. As­sim, foram abandonados à sua sorte, e sofreriam as últimas conseqüênci­as. Paciente e longânimo, Deus ago­ra vem condenar e não pode recuar, poupar nem arrepender-se (24:14).

 Herbert Lockyer

Parábola das Duas Irmãs

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Idolatria Católica

(Ez 23:1-49).

 Os capítulos 20, 21 e 22 apresen­tam mais um vislumbre da apostasia e do merecido juízo sobre a nação, cujos anciãos mais se entretinham do que se instruíam com as enérgi­cas parábolas de Ezequiel (20:45-49). Ainda julgavam ter direito ao favor divino como escolhidos, mesmo sem eliminar a abominação da idolatria. Assim, com ainda mais símbolos, Ezequiel refere-se à inevitabilidade do juízo prestes a se abater sobre eles, ainda que tivessem sido o povo privilegiado de Deus. A destruição, como fogo inextinguível, os alcança­ria. A espada os devoraria (20:45; 21:32). Na Canção da espada (21:8-17), o profeta mostra que é impossí­vel resistir ao massacre. Ezequiel devia suspirar “com quebran-tamento dos [...] lombos e com amar­gura” para deixar bem claro aos seus céticos ouvintes que a espada sem dúvida exterminaria todos os habi­tantes (21:1-7). O profeta vê o fogo da ira divina derramado sobre todas as classes sociais por causa da corrupção total. Os príncipes, os pro­fetas, os sacerdotes e o povo, todos seriam igualmente surpreendidos pelo holocausto da ira de Deus.

As últimas parábolas relatam o juízo sobre a nação. A primeira de­las é a alegoria das duas irmãs, Oolá e Oolibá. A rejeição de Deus por par­te de seus escolhidos é mais uma vez retratada como a quebra da sagra­da união do matrimônio (cap. 16). Primeiramente, analisemos a iden­tidade dessas duas irmãs libertinas da parábola:

Oolá, cujo significado é sua pró­pria tenda, mostra que a adoração em Samaria, a capital do reino do Norte, era uma invenção do local, nunca ten­do sido sancionada por Deus. Ao con­trário, essa adoração autoconcebida era objeto da ira divina. As tribos do Norte, separadas após a morte de Salomão, estabeleceram uma tenda ou santuário próprio. Samaria, repre­sentada por Oolá, era mais corrupta que a irmã. Prostituiu-se com a Assíria e com o Egito, rejeitando as promessas de Deus e buscando segu­rança na força armada dos falsos deu­ses dos seus vizinhos. “Ela se tornou um provérbio” ou, mais corretamen­te “objeto de ridículo”. A conquista de Samaria fez dela uma vergonha en­tre as nações.

Samaria também é acusada na parábola de ser a primeira a trans­gredir (Ez 23:5-10). Sua proximida­de com a Síria, intimamente associa­da aos assírios, contribuiu para a sua apostasia em primeiro lugar, a qual se iniciou com a adoração ao bezerro de ouro, sob o reinado de Jeroboão (28:3; lRs 12:28). Ela é chamada a mais velha, ou maior, por preceder Judá em sua apostasia e castigo. O profeta vê Samaria totalmente destruída. “Acusada de infidelidade pela aliança com os assírios, uma vez que se deixou seduzir pelas riquezas e pelo poder deles, abandonando a sua lealdade ao Senhor”, é advertida pelo profeta quanto à sua antiga ali­ança com Judá. Por seu duplo peca­do, os zssírios tiveram permissão de aprisioná-la e dominá-la.

Idolatria = Apostasia

Oolibá significa “minha tenda nela” e faz supor que Judá ainda con­servava o santuário do Senhor, em Jerusalém, sua capital. A adoração em Betei (em Samaria) era de inven­ção própria, não determinada por Deus. No entanto, a adoração em Jerusalém foi especialmente institu­ída pelo Senhor, que habitou lá, es­tabelecendo o seu tabernáculo entre o povo como sua habitação (Êx 25:8; Lv 16:11,12; SI 76:2). Mas Oolibá, como a irmã, Oolá, prostituiu-se. O Senhor disse a respeito dela: “Por que te desvias tanto, mudando o teu caminho?” (Jr 2:36). Ela não conhe­cia os seus sentimentos, pois primei­ro apaixonou-se pelos assírios (Ez 23:12) e depois enamorou-se dos caldeus (23:16). Depois os seus sen­timentos se afastaram deles (26:17). Tendo compartilhado do pecado de

Oolá, Oolibá precisava também in­correr na mesma sorte (23:11-35). Ela representava Jerusalém, que deveria beber “o copo de tua irmã [...] copo de espanto e de desolação” (23:33). Como se esqueceu de Deus e o lançou para trás de suas costas, o terror e a desolação seriam a sua porção (23:35).

As duas irmãs eram filhas da mesma mãe, mostrando que Israel e Judá eram uma só nação, nascida de uma só ancestral, Sara. Ambas, po­rém, no início de sua história, prati­caram a idolatria (Js 24:14; Ez 26:6-8). Ainda jovens, quando recebiam extraordinários benefícios de Deus, voltaram o coração para outros deu­ses (16:6). Agora ambas incorrem no juízo divino. Os pecados de Israel e de Judá são enumerados e, graças à transgressão em comum, merecem o mesmo castigo. As mulheres signi­fica “as nações”. Os juízos que sobre-viessem a Israel e a Judá seriam para sempre um monumento notá­vel da severa justiça de Deus. Com linguagem forte, Ezequiel refere-se à perversidade das alianças feitas com as nações vizinhas, referindo-se também à justeza da punição sobre as adúlteras. “Com a imagem do método hebreu de tratar do pecado de adultério, a saber, o apedre-jamento, o profeta apresenta o qua­dro de um conselho contra Jerusa­lém e Samaria a executar esse juízo e a destruir o povo por completo.” Culpa e punição se mesclam num só quadro (Ez 23:36-49). O salário do pecado foi completamente pago às irmãs. Não apenas elas foram ape­drejadas e mortas, mas seus filhos e suas habitações foram destruídos (Ez 23:43). “A história de Oolá e Oolibá delineia a trágica ironia do pecado humano”, lemos em The biblical expositor [O comentarista bíblico]. “Assim como os amantes de Samaria e de Jerusalém são seus executores, também o pecado traz dentro de si o aguilhão da morte.”

Como Israel e Judá trocaram o verdadeiro Deus por deuses falsos, foram severamente punidos e por isso servem de advertência às nações e aos homens. As “cidades da campi­na” (Gn 13:12), já soterradas, ainda falam do juízo de Deus ao mundo; da mesma forma, Samaria e Jeru­salém há milhares de anos anunci­am a retidão. Triste é que tenham demorado a aprender que só podem ser felizes e prósperas tendo o ver­dadeiro Deus como Senhor.

Por Herbert Lockyer.

Parábola da Videira com Fortes Varas

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Parábola da videira com fortes varas

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(Ez 19:10-14)

Esse capítulo encerra uma longa série de profecias e consiste num comovente lamento pela queda da família real de Israel e pela sua to­tal desolação como nação, mostrando que Israel não tem nenhuma es­perança de escapar ao juízo divino. A parábola em si é uma extensão da Parábola da vinha do Senhor e da Parábola do pau da videira, de que já tratamos (Is 5:1-7; Ez 15:1-8). Ela também revela a amplitude do vo­cabulário de Ezequiel. De que rique­za de expressão era dotado! Com grande habilidade, ele passa de le­ões para videiras.

O sentido exato de “videira na tua vinha” é de difícil conclusão, uma vez que no original se lê “a videira é o sangue”. Certamente não é a mes­ma “videira [...] de pouca altura” que já vimos numa parábola de Ezequiel (17:6). Temos aqui uma videira for­te, notável e excelente. A expressão já foi reescrita deste modo: “Tua mãe é como uma videira a viver no san­gue”, ou seja, na vida de seus filhos, ou “quando foste plantada no teu sangue —na tua primeira infância— recém-saída do útero, sem ainda te-res sido lavada” (Ez 16:6). Calvino traduz a expressão por “no sangue das tuas uvas”, que significa “em sua plena força”, assim como o vinho tin­to é a força da uva (Gn 49:11).

De uma coisa sabemos: a videira, a principal das árvores frutíferas, é aqui empregada pelo profeta como símbolo de toda a casa real de Judá. Chama-se atenção para a sua posi­ção privilegiada —”plantada junto às águas”—, tendo assim todas as van­tagens do crescimento e da fruti­ficação responsáveis pelo poder e pela glória dos seus primeiros mo­narcas. A menção da antiga respei­tabilidade real contrapõe-se triste­mente à atual degradação da casa real de Davi (19:13). O lamento do profeta é “De uma vara dos seus ra­mos saiu fogo que consumiu o seu fruto”, referência à estultícia de Zedequias e às suas trágicas conse­qüências (Ez 17). A nação é apresen­tada como tinha sido até então: uma videira de “espessos ramos”, símbolo do número e dos recursos do povo e de como ela será quando o reino de Cristo encher toda a terra (SI 110:2; Is 11:1). Os “espessos ramos”, contu­do, foram arrancados, não secados aos poucos —metáfora da repentina sublevação do povo no juízo da na­ção, o qual deveria ter produzido ar­rependimento.

Por fortes varas entendemos aqueles galhos mais robustos que representam os cetros dos reis de Israel, sendo a autoridade desses governantes indispensável ao bem-estar do povo. Como afirma Lang: “Parte do castigo da rebelião é que as pessoas ficam sem guia e sem proteção”, “uma vara”, no singular, sem dúvida refere-se ao último rei, Zedequias, que ocasionou a ruína total para si e para o povo. A que­bra e o ressecamento dos galhos aponta para a terrível desgraça da nação quando despojada dos seus governantes. Nesses dias todas as nações precisam de “fortes varas”, reis justos e capazes de governar. De uma vara dos seus ramos saiu fogo significa que o povo acendeu a ira de Deus com seus pecados e sua estultícia. Apresenta-se a “ira do Senhor” contra Judá como a cau­sa de Zedequias ter recebido per­missão de se rebelar contra a Babilônia (2Rs 24:20; Jz 9:15). Como comenta Campbell Morgan: “Arrancados furiosamente, cessa­ram seus fortes governantes, e de seus galhos saiu um fogo destrui­dor. Em outras palavras, a destrui­ção definitiva de Judá provinha de seus governantes, e a referência é indubitavelmente a Zedequias”.

Parábola da Grande Águia

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(Ez 17:1-24)

 Cumprindo ordens divinas, Ezequiel propõe um enigma em for­ma parabólica, para ressaltar a so­berania de Deus sobre as nações e sobre os homens. Nesse capítulo, a parábola se compõe de quatro reis e dos respectivos reinos. Todos os soberanos tinham diferenças entre si, com algo, porém, em comum. Com duas águias, uma videira e ramos a compor a parábola, vamos procurar entender a situação e a sua importância.

Embora os crimes de Israel tives­sem sido desmascarados e se tives­sem decretado juízos em razão de­les, essa “casa rebelde” recusava-se a ser alertada. “Israel estava certo de que a ameaça da Babilônia pode­ria ser debelada se entrasse no jogo do poder político internacional. Se­ria salvo se rompesse o acordo com o rei da Babilônia, Nabucodonosor, e caso se aliasse ao Egito, que dispu­tava a supremacia mundial com os caldeus.” O propósito dessa parábo­la era desmascarar o engano dessa falsa esperança, mostrando que as promessas garantidas de Deus só podem cumprir-se na restauração da casa de Davi.

1.  O primeiro rei, comparado a uma grande águia, era o governante da Babilônia, Nabucodonosor, que arrancou a ponta do cedro —Joa­quim, rei de Judá, — e o conduziu a uma terra de comércio, a Babilônia (Jr 22:23; 48:40; 49:22). A semente da terra foi levada e plantada em solo fértil, onde se tornou videira muito larga. Nabucodonosor, a pri­meira grande águia, era poderoso e governava sobre muitas nações, o que se evidencia pelo tamanho de suas asas e pela variedade de cores de suas penas.

2. O segundo rei, também repre­sentado por uma grande águia, era Faraó, rei do Egito, cujo tamanho das asas e cujo poder não eram tão grandes quanto os da primeira águia. Nessa época, o Egito já per­dera o apogeu de seu poder. A deca­dência era inegável. Seu domínio não era tão amplo quanto o da Babilônia. Foi para essa segunda grande águia que Judá, a videira, lançou as raízes para que fossem regadas. Esse ato traiçoeiro foi de­nunciado por Deus, para quem a videira deveria ser arrancada, se-cando-se com o vento oriental.

3.  O terceiro rei era Matanias, a quem Nabucodonosor denominou Zedequias. Coroado em lugar de Jeconias, seu tio, esse rei-vassalo de Judá era a videira de baixa es­tatura, plantada pela primeira águia —Nabucodonosor, que lhe permitiu desfrutar de todos os di­reitos e honras da realeza, não como soberano independente, mas apenas como tributário do rei da Babilônia. Esse ato de clemência da parte de Nabucodonosor impôs a Zedequias as mais inescapáveis obrigações de submissão confirma­da por um solene juramento.

Mas Zedequias buscou a proteção da segunda grande águia, o Egito, e mereceu o castigo de Deus. Desaten­to ao seu juramento, buscou a ajuda egípcia, pois pensou poder ser liber­to da infame vassalagem e experi­mentar uma soberania independen­te e livre. Essa traição é retratada na parábola pela imagem de um ga­lho arrancado da ponta do cedro por uma grande águia e plantado como uma videira larga e baixa —um tron­co bom que, porém, era ainda inferi­or ao que o originara. Descontente com a sua condição, a videira lançou as suas raízes para a outra grande águia, na esperança de conquistar ainda maior importância e fertilida­de. Graças a essa violação, contudo, experimentou irreparável ruína.

4. O quarto rei é o escolhido de Deus, cujo reino ainda está por vir, que descenderá dos reis de Judá. Será maior que todos os reis antes dele. Com a figura do “mais tenro” renovo, plantado “no monte alto de Israel” e transformando-se num “ce­dro excelente”, prenuncia-se o esta­belecimento do reino de Cristo (Is 11:1-12). Esse reino glorioso nunca será subvertido, mas se tornará um monumento eterno de verdade e de poder. O governo divino será esta­belecido sobre todas as nações e atu­ará por meio delas. A promessa final da parábola é que o governante divino será da linhagem de Davi, o “ce­dro alto”, e, quando se manifestar, frustrará todos os outros poderes, “as árvores do campo”, e sob seu reino todos os homens estarão salvos, ten­do satisfeitas as suas necessidades (Lc 2:67-75).

Herbert Lockyer.

Parábola de Jerusalém como Esposa Infiel

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(Ez 16:1-63)

 De certo modo, essa parábola está ligada à anterior, na qual o profeta demonstrou que Israel, por não cum­prir a sua finalidade como nação es­colhida, foi queimada e consumida pelos juízos divinos. Por não ter correspondido à bondade e à graça de Deus, Ezequiel agora emprega a pa­rábola de uma esposa libertina para realçar o motivo do merecido castigo. Israel tornara-se infrutífera por ser infiel, e por seu pecado ser ultrajan­te. Não é agradável o quadro que Ezequiel traça. Ele mostra com todas as letras como o pecado é negro, pú­trido e repulsivo para Deus. Jerusa­lém é acusada por suas abominações, e Ezequiel refere-se a elas usando a figura do adultério e da prostituição espiritual, de que Oséias também faz uso de modo tão vivido e poderoso.

Se analisarmos essa parábola, veremos que a matéria-prima das parábolas pode ser real ou fictícia, tomada de empréstimo à natureza ou à vida humana. A videira provém da natureza, a adúltera, da vida hu­mana. Lang observa que, se enten­dermos o sentido do quadro que Ezequiel apresenta, teremos “uma valiosa formação no estudo das pa­rábolas [...] Discernir a história e a profecia manifestas nessa alegoria é obter a chave do passado, do presen­te e do futuro, da forma como são vis­tos por Deus, e assim entender que as principais partes do AT servem de fundamento para o NT”.

Nessa parábola, Ezequiel não se contenta em usar uma expressão metafórica aqui e ali; ele ocupa todo o longo capítulo traçando um para­lelo entre uma adúltera e os judeus; a série de quadros que utiliza confe­rem grande força às suas repreen­sões. Toda a história de Israel apre­senta-se deste modo:

1. A menina (1-5). Ainda na pri­meira infância, foi exposta e lançada para morrer —retrato da situação precária do novo povoado fundado por um amorreu e uma hetéia. Isra­el origina-se da terra dos cananeus, tendo um amorreu por pai e uma hetéia por mãe. Por sua estreita li­gação com os vizinhos pagãos, não tinha qualidades naturais que lhe dessem direito à posição de povo es­colhido de Deus, tampouco tinha beleza que o tornasse desejável ou força interior para continuar a exis­tir. Era uma criança desamparada, abandonada (16:1-14).

2.  O passante (6-7). Temos aqui uma referência terna e comovente de Deus nutrindo a rejeitada ao encontrá-la. Como Deus criou Israel e cuidou dessa nação! E repleto de beleza esse quadro de Deus inclinan-do-se e tirando-a da ignóbil extinção. Acaso não fez de Israel objeto de es­pecial preocupação, para que se tor­nasse célebre pela “grande formosu­ra” que ele lhe dera? Deus também determinou que Jerusalém seria o centro na terra, dele e de Israel.

3. O marido (8-14). Ao alcançar a maturidade, a menina escolhida tor­nou-se esposa de seu Benfeitor, que lhe presenteou com toda sorte de ornamentos e de luxos. Sendo o ma­rido, encheu-lhe de privilégios que fizeram dela objeto de admiração e de inveja de todos os que a contem­plavam. Por causa da condição su­blime, sua fama “Correu [...] entre as nações”. Tudo isso mostra a ori­gem humilde de Israel em Canaã, o cuidado de Deus por ela no Egito, o dia em que de lá a libertou e o que se passou até a sua prosperidade, nos dias de Davi e de Salomão.

4. A adúltera (15-25). A parábola agora apresenta uma virada trági­ca, pois, em vez de retribuir ao ma­rido o amor, a honra e a fidelidade que lhe dera, essa esposa ricamente presenteada entrega-se à prostitui­ção sem restrições. Confiante em sua beleza e em seus bens, voltou-se para a prostituição e, de modo ingrato e infiel, passou as riquezas do marido para os falsos amantes. Era culpada de seduzi-los e de atraí-los como uma meretriz vulgar, além de ceder às tentações deles. Os presentes, farta­mente recebidos do marido em amor, foram usados por ela como meios de continuar na sua conduta perversa. Esse perfeito realismo revela as “abominações” e a desprezível histó­ria de Israel. Elevada entre as na­ções, do nada, à condição de impor­tante, Israel rejeitou o Senhor em troca de deuses falsos e, mergulhou nas profundezas da iniqüidade, prostituiu os dons de Deus aos seus de­sejos abomináveis. Em virtude do procedimento licencioso e infame, Israel havia obrigado Deus a afastá-la e a retirar dela todas as vantagens que lhe concedera.

5.  Os falsos amantes (35-43). Em virtude do terrível pecado dessa adúltera, o castigo seria por demais severo. A iniqüidade de Israel se agravou por suas alianças políticas com as nações estrangeiras cujo pa­ganismo havia copiado (26-34). Seus amantes eram os egípcios e os assírios, que ela havia subornado em troca de ajuda política, demonstran­do assim falta de confiança em Deus como fonte de proteção e de provi­são. Esses falsos amantes voltaram-se contra Israel e tornaram-se os seus destruidores; numa terrível vin­gança, privaram a nação das posses de que tanto se jactava, expondo-a à vergonha. Ezequiel já não havia usa­do de rodeios para se referir ao fra­casso e à loucura de Israel, e agora anuncia a sua punição em termos igualmente aterradores: “Para Ezequiel, a destruição de Jerusalém já era fato consumado. Quando de fato se cumpriu na história, a ironia da estultícia humana se tornou ma­nifesta: Deus destrói o orgulho dos homens pelos próprios ídolos dos seus desejos”.

6. As duas irmãs (44-49). Embo­ra as três cidades —Jerusalém, Samaria e Sodoma— são apresenta­das como irmãs —e todas culpadas de “adulterar” e de apostatar do ver­dadeiro Deus—Ezequiel introduz duas nações-irmãs nesse momento como personagens coadjuvantes no enredo da parábola. As três irmãs tinham um parentesco espiritual, mas a culpa de uma —Jerusalém— era maior e mais hedionda, uma vez que, dizendo-se servir de modelo para as irmãs, fora mais abominável que elas. “Mede-se o pecado na proporção da graça rejeitada. Sodoma e Samaria nunca foram tão honradas e enriquecidas por Deus quanto Jerusalém. Ainda assim a apóstata Samaria e a perversa Sodoma foram assoladas pela fúria de Deus. Portanto, poderia tardar o dia do juízo de Jerusalém? As duas irmãs, então, entram na história para revelar o pecado de Jerusalém na perspectiva correta de maior cul­pabilidade e para realçar a miseri­córdia de Deus”.

7. A restauração da esposa (60-63). Embora se mostre que as três irmãs se beneficiam da severa puni­ção e, arrependidas, são restauradas, o último ato dessa vergonhosa pará­bola é aquele em que o profeta anun­cia a restauração da esposa pecado-ra, ocorrida graças ao fato de Deus ter-se lembrado da aliança e a ter restabelecido (Jr 31; Hb 8:6-13). A graça permeia a justiça do marido ferido. Onde abundou o pecado da apostasia (Samaria), da soberba (Sodoma) e da infidelidade (Jerusa­lém), superabundou a graça (Rm 5:20). Uma vez que o juízo atinge o seu propósito, Deus mostra-se pron­to a levar o penitente a reaver a co­munhão (Rm 11:32).

Parábola do Pau da Videira

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(Ez 15:1-8)

Temos aqui outra evidência da dívida de Ezequiel para com os grandes profetas anteriores, pois a sua Parábola do pau da videira é um suplemento da Parábola da vi­nha do Senhor, de Isaías (Is 5:1-7). Ezequiel, realçando a condição na­tural de Israel, mostra que, como uma videira, ele se mostrou inútil e não pode ter proveito algum. Nes­sa magnífica parábola, ele expres­sa com muita força, como nunca an­tes, o pecado (15:3—16:34), a rejei­ção (16:35-52) e a restauração de­finitiva de Israel (16:53-63). A imensidão do pecado da nação é apresentada pelo fato de Israel não ter a princípio nenhum direito ao favor de Deus, tampouco nada que o tornasse atraente. Agora se po­dia ver o que realmente era: uma criança rejeitada e repulsiva (15:3-5). Por sua misericórdia, contudo, Deus a salvou e cuidou dela (16:6,7) e, na maioridade, fez com ela uma aliança, abençoando-a sobremanei­ra (16:8-14). Infelizmente, ela se mostrou de todo infiel à aliança, esposa infiel e incomparavelmen­te libertina; portanto, merecedora de castigo (16:15-63).

Essa parábola, então, ensina a respeito do fim da existência de Is­rael como nação. Deus a criara e a escolhera com alegria (Sl 105:45), mas, não obstante todo o seu cuida­do e trabalho, a videira não produziu frutos. Como outras árvores, ti­nha folhas, mas não frutos (Lc 13:6-9). Como a videira não tem valor se­não pelos seus frutos, assim Israel era mais inútil para o mundo que as nações pagas ao redor. Em conseqü­ência dessa inegável inutilidade, Is­rael devia ser destruído como nação. O Viticultor não tinha alternativa, senão permitir que o fogo do castigo destruísse a videira infrutífera (2Rs 15:29; 23:30,35). Como a videira va­zia, Israel dera frutos para si mes­mo (Os 10:1); mas, vivendo para si próprio, tornou-se desprezado pelo mundo.

A parábola ensina, de forma cla­ra, que, quando Deus nos escolhe como ramos da Videira, acredita que frutificaremos para a sua glória. Não é essa a verdade personificada nos ditos e nos atos parabólicos de João Batista e do Senhor Jesus? (Mt 21:33-41; Mc 11:12-14). Abençoados por Deus com os mais altos privilé­gios, jamais sejamos culpados de decepcioná-lo. Sua graça nos faça frutificar em toda boa obra!

Herbert Lockyer.

Parábola da Mudança

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(Ez 12:1-28)

 Chegamos agora à segunda série de parábolas de condenação, em ações e em palavras, que se estende até o final do capítulo 14. Lamenta­velmente, também esses sinais não quebraram o orgulho ímpio dos que se julgavam invencíveis! Ezequiel re­cebeu ordens de à vista do povo fa­zer as vezes de um exilado partindo de sua casa e de seu país, preparan­do os “trastes, como para mudança” e levando-os de um lugar para ou­tro. O que o profeta retratou foi a casa rebelde de Israel, com o prínci­pe deixando tudo para trás, exceto “os trastes”, que “levará aos ombros e às escuras”. O rei Zedequias seria levado cativo para Babilônia, mas não a veria. Cegado, morreria sem ver a terra dos seus conquistadores (Jr 39:4-7; 52:4-11; 2Rs 25:1-7).

Ezequiel estava encarregado de fazer ao povo outra demonstração visual, transmitida por um quadro falado de ações, a saber: comeria pão e beberia água com medo e cuidado e, por esse sinal, profetizaria as de­solações cue sobreviriam a Jerusa­lém, quando seus habitantes teriam a escassez de provisões comum em épocas de sítio. O capítulo termina com duas mensagens da parte de Deus (21-25; 26-28) com o propósito de refutar objeções, segundo as quais as profecias de juízo anunciadas ha­via tanto tempo não se cumpririam senão num futuro remoto. Dois pro­vérbios tentam mostrar que a profe­cia não se cumpriu, sendo adiada para um período muito distante. Mas Ezequiel recebe a incumbência de anunciar a iminência do castigo di­vino e o cumprimento de cada pala­vra proferida. Os pecadores que ex­perimentam a paciência, a tolerân­cia e a longanimidade, escondem-se num falso refúgio se acreditam que Deus não executará a sua palavra a respeito da condenação derradei­ra, caso persistam e morram em seus pecados (v. Ec8:ll; Am 6:3; Mt 24:43; lTs 5:3; 2Pe 3:4). No capítu­lo seguinte, Ezequiel denuncia os falsos profetas e profetisas, que, com mensagens mentirosas, haviam dado ao povo um falso senso de se­gurança, que o profeta comparou a uma parede construída com arga-massa fraca, contra a qual o Senhor trará um vento tempestuoso para

que seja furiosamente devastada com os que a construíram (Ez 13:10-16). As falsas profetisas, não men­cionadas em nenhum outro lugar do AT, aí se acham para uma menção especial e para um juízo específico (Ez 13:17-23). O trato severo de Deus com todos esses falsos mensa­geiros e adoradores será motivo de espanto (Ez 14:7-8).

Parábola da panela e da carne

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(Ez 11:1-25)

 De modo milagroso, o profeta foi levantado pelo Espírito e levado à última porta, de onde a glória divi­na se tinha levantado, para testemu­nhar, na presença dessa majestade, uma nova cena de destruição. O pro­feta viu 25 homens, liderados pelos chefes do povo, reunidos com o iní­quo propósito de conspirar contra o rei da Babilônia. Esses homens se achavam seguros na cidade, mas Ezequiel, divinamente instruído, denunciou-os por sua loucura e tor­nou manifesta a vingança de Deus contra eles.

A figura da panela é usada para ressaltar o decreto divino, pelo qual esses homens morreriam por causa dos seus pecados. Enquanto Ezequiel profetizava, um dos chefes pereceu. Iludidos, eles achavam-se seguros dentro dos muros da cidade, como a carne na panela é protegida do fogo. Mas o profeta, sendo o porta-voz di­vino, afirmou que Jerusalém era uma panela só no sentido de estar cheia de mortos. Não haveria lugar para se esconder dos invasores. Arrancados de suas casas, os chefes sofreriam os juízos divinos.

O remanescente fiel, saindo de Jerusalém para o exílio, recebe mui­to encorajamento. Privados da ado­ração no seu amado templo, o próprio Deus seria como “um pequeno san­tuário” para eles. Deus também pro­metera trazê-los de volta à terra e, uma vez limpos moral e espiritual­mente, reaverem os seus privilégios.

Herbert Lockyer.

Parábola do homem com um tinteiro

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(Ez 9 e 10)

Essa visão do profeta guarda re­lação com as anteriores. Os capítu­los anteriores trataram de desmas­carar o pecado de Israel; temos ago­ra a conseqüente punição e a identi­ficação dos fiéis. Uma característica marcante desses capítulos é a dife­renciação que Deus faz na hora de aplicar o seu juízo. Podem-se obser­var aí aspectos inconfundíveis, como:

1. O homem com um tinteiro. Entre os seis homens que vinham da porta alta, havia um que não estava armado com uma espada, mas tra­zia um tinteiro de escrivão. Seu “ves­tido de linho” distinguia sua função da dos seis oficiais da vingança. Usado pelo sumo sacerdote, o linho branco simbolizava pureza (Lv 16:4). Na cintura desse homem com aparência de sacerdote havia um “tinteiro”, um pequeno estojo com canetas, tinta e faca, material usa­do pelos escribas orientais. Não te­mos nenhum indício acerca da iden­tidade do homem com o tinteiro. “Ele é simplesmente necessário à visão”, diz Elicott, “um mensageiro angelical, para identificar aqueles cuja fidelidade a Deus em meio aos perversos ao redor os exclui da con­denação” (Ap 7:3). Alguns comenta­ristas vêem nesse homem uma fi­gura do Sumo Sacerdote celeste, cuja tarefa especial é a salvação e carrega seu tinteiro para “marcar” os seus eleitos e escrever seus no­mes no livro da vida (Êx 12:7; Ap 7:3; 9:4; 13:8-11,17; 20:4).

2. O sinal nas testas (Ez 9:4). De­pois que a glória do Senhor se levan­tou do templo, os.seis homens arma­dos passaram pela cidade para matar os habitantes, mas o que estava com o tinteiro foi na frente, marcando na testa os que suspiravam pelas abomi-nações desmascaradas e denunciadas. Enquanto os seis homens seguiam, matando os que não estavam assina­lados, eram poupados os marcados, que choravam pela razão do castigo e o terrível processo de condenação.

Essa marcação simbólica é co­mum nas Escrituras (Êx 12:7,13; 28:36; Ap 7:3; 9:4; 14:1); e era neces­sária para guiar os agentes ange­licais e humanos que deviam execu­tar as ordens divinas. Avisão de con­denação aterrorizou tanto Ezequiel, que clamou em oração, nada tendo por resposta senão que o juízo era irrevogável, sem levar em conta des­cendência ou posição. Somente os marcados, que não tiveram parte na iniqüidade da nação e por ela se en­tristeceram foram por misericórdia poupados do massacre. O fato de te­rem sido marcados na testa (região do corpo de maior destaque) mos­trava que o fato de não incorrem na condenação seria manifesto a todos (Jr 15:11; 39:11-18; Ap 13:16; 14:1,9). Na hora do castigo, Deus faz acepção de pessoas. Isso fica eviden­ciado no fato sentencioso de que o terrível juízo apresentado iniciou-se pelo Santuário (9:6). Deus não poupou os anjos que pecaram, mes­mo sendo anjos.

3. A visão de um trono (Ez 10:1-22). O homem com o tinteiro, que passou pela cidade para marcar os que suspiravam e gemiam, agora obe­dece à ordem de passar por entre as rodas, pegar nas mãos brasas acesas e espalhá-las pela cidade. Os querubins, já vistos por Ezequiel, re­aparecem para assinalar o retorno da glória do Senhor. Aqui estão intima­mente associados ao processo de con­denação que Ezequiel passa a expor. O homem que apanhou o fogo e o es­palhou por Jerusalém passou por entre as rodas, e a glória visível do Senhor, quando se levantou do limi­ar, agora se mescla às rodas e aos querubins. O objetivo dessa visão era evidenciar que o Senhor, entronizado acima dos querubins, executava os seus justos juízos por meio dos babilônios. Israel achava-se condena­do diante do Senhor, o qual, por não tolerar o desprezo para com a sua misericórdia, determinou todo o seu poder, no céu e na terra, para punir a desprezível ingratidão daqueles a quem abençoara de modo tão especi­al. Avisão revela, na perspectiva cor­reta, a lúgubre culpa de Israel e suas horrendas conseqüências.

Robert Lockyer.

Parábola da Imagem de Ciúmes

1 Comentário

(Ez 8:1-18)

Depois do simbolismo que se con­clui em Ezequiel 5:4, nos capítulos 6 e 7 o profeta pela primeira vez apre­senta as suas profecias em lingua­gem clara. Seu estilo passa da prosa para a forma mais comum de apre­sentação profética: cheia de parale-lismos —característicos da poesia hebraica. No capítulo 8, Ezequiel retoma o método parabólico com a sua nova série de profecias. O mais surpreendente autor dentre todos os profetas, Ezequiel, manifesta uma força e uma energia em suas denún­cias que não encontram precedentes. Suas freqüentes repetições apresen­tam ao leitor os próprios juízos de que ele é porta-voz.

Como os cativos na Babilônia re­clamaram de que Deus os tratara com severidade (Ez 8:15), o Senhor concedeu a Ezequiel uma visão do que estava-se passando no templo de Jerusalém, a despeito dos terríveis juízos impostos sobre eles. A idola­tria era praticada de todas as formas por demais odiosas e abomináveis, até mesmo pelos sacerdotes e pelos anciãos, homens que, por sua auto­ridade, deveriam tê-la condenado. Sentado em sua casa, o profeta sen­tiu o impulso da mão divina sobre ele e viu uma “semelhança como apa­rência de fogo”. Os anciãos senta­ram-se diante dele para ouvir o mo­tivo e o processo do merecido juízo. Como estavam presentes quando a profecia foi entregue, não restavam desculpas a esses líderes. Parece ter havido quatro fases no processo de desmascarar a idolatria oculta:

1. Levado a Jerusalém “em visões de Deus”, Ezequiel contemplou a gló­ria divina na porta do templo e, por meio dessa ofuscante luz, viu os obs­curos recessos da infidelidade de seu

povo (Is 6). Para onde quer que se voltasse, via a perversidade do cora­ção humano, culpado de trocar a gló­ria do Deus eterno por imagens (Rm 1:23). Na entrada do pátio de dentro da casa do Senhor, Ezequiel viu “a imagem que provoca ciúme” de Deus (Dt 32:21; Êx 20:4,5). O Senhor diz a Ezequiel que essa era a razão por que se afastara do santuário. Deus não pode tolerar um rival (Ez 8:5,6; Dt 4:23,24).

2.  Depois o profeta recebe ordem de cavar um buraco na parede e, ao entrar pela porta, descobre, para seu espanto, os anciãos de Israel quei­mando incenso diante de répteis, animais abomináveis e ídolos (8:7-12). Pensaram que não seriam des­cobertos, mas o Senhor penetra to­dos os aposentos da escuridão. Nada lhe é oculto. O incenso aos ídolos é o mau cheiro da iniqüidade, detestá­vel a Deus. Aqueles líderes religio­sos tinham-se afastado tanto da co­munhão com o Senhor, que imagina­vam ter ele abandonado a terra e, portanto, eles não seriam vistos. A respeito desse pecado, Jamieson es­creveu: “Quão terrivelmente agra­vou o pecado da nação o fato de os setenta, depois de ter recebido aces­so ao segredo do Senhor (SI 25:14), agora, ‘nas trevas’, entrarem no ‘conselho’ dos perversos (Gn 49:6) e, apesar de estarem legalmente obri­gados a extinguir a idolatria, serem os que a promoviam”.

3. Adepravação das mulheres de Israel, que choravam por Tamuz, foi a visão seguinte do profeta (Ez 8:13,14). Tamuz era o conhecido deus babilônico da vegetação e da fertili­dade. “Parte da cerimonia que visa­va a garantir o retorno da estação fértil consistia em lamentações por Tamuz, que, nas estações infrutífe­ras do ano, diziam estar morto. Em seu desatino, as mulheres de Israel serviam a um deus pagão, e não ao Deus vivo, o Deus de Israel.” Que oportunas são estes versos de Mil­ton sobre o choro pelo deus Tamuz:

A história de amor

Corrompeu as filhas de Sião com igual ardor;

De quem Ezequiel viu na porta sagrada

A paixão desenfreada.

4. Por último Ezequiel vê 25 ho­mens de costas para o templo, prostrados diante do Sol (Ez 8:15-18). A idolatria de Israel não era meramen­te “um desvio exterior ou o resulta­do da ignorância do povo. Era um afastamento deliberado e consuma­do em relação a Deus, como se todos os sacerdotes, tendo o sumo sacer­dote por cabeça, estivessem de cos­tas para j Santo dos Santos e pres­tassem toda a sua adoração ao deus pagão Sol” (lCr 24:5-9; 2Cr 36:14). A despeito do pranto em alta voz do povo, Deus não desfez a condenação, como mostram os capítulos de 9 a 11. A arma destruidora da condenação divina estava nas mãos de executo­res já designados para castigar os perversos idolatras de Jerusalém (v. Ex 12:23; 2Sm 24; 2Rs 19).

Herbet Lockyer.

Parábola da Cabeça e da Barba Rapada

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(Ez 5:1-17)

 O amplo emprego que o profeta faz das ações parabólicas exige nossa cuidadosa atenção. Nenhum outro autor recorreu com tanta fre­qüência ao método parabólico de instrução quanto Ezequiel. Intima­mente relacionado com o capítulo anterior, esse que agora passamos a estudar intensifica, com novos símbolos, a denúncia de condena­ção contra os judeus. Juízos mais severos que as aflições do Egito viriam sobre o povo por causa de seus pecados.

A “faca afiada [...] como navalha de barbeiro” significa qualquer ins­trumento cortante, como a espada, por exemplo, e é usada como símbo­lo das armas do inimigo (Is 7:20). Uma espada, então, afiada como navalha de barbeiro, devia ser usa­da para rapar o cabelo e a barba do profeta. Sendo ele representante dos judeus, a espada deveria ser passa­da sobre a “cabeça” dele, servindo de sinal do tratamento severo e humi­lhante, sobretudo para um sacerdote (2 Sm 10:4,5). Sendo os cabelos si­nal de consagração, os sacerdotes eram expressamente proibidos pela lei de rapar tanto o cabelo como a barba (Lv 21:5). Rapá-los represen­taria o mais desolador castigo.

Os cabelos que tinham sido cor­tados deveriam ser pesados e dividi­dos em três partes. A primeira seria queimada no meio da cidade no fim do cerco, a segunda seria ferida pela espada ao redor da cidade e a tercei­ra seria espalhada ao vento. Por fim Ezequiel apresenta o sentido da pa­rábola: uma terça parte do povo mor­reria de peste no meio da cidade, outra terça parte cairia à espada e a última terça parte seria espalhada ao vento. Isso aconteceu aos rema­nescentes. Uns poucos fios de cabelo deveriam ser recolhidos e atados nas abas das vestes do profeta, sendo o restante atirado ao fogo. Os poucos que escaparam aos severos juízos não se salvaram da prova de fogo??? (Jr 41:12; 44:14). Em dias melhores, Deus assegurara ao seu povo que os cabelos da cabeça seriam contados, prova do cuidado e da provisão divi­na. Agora, arrancadas de Deus e se­paradas de sua presença, as cabeças rapadas anunciavam o afastamento da bondade e da proteção divina.

Resumindo as ações simbólicas desse capítulo e do anterior, The biblical expositor [O comentarista bíblico] afirma que essas ações de­vem ter atraído um círculo de curio­sos espectadores, a quem Ezequiel explicou o que significavam: “Não foi Babilônia nem a sua queda que re­tratou, mas os juízos muito mereci­dos e irrevogáveis sobre a ímpia Je­rusalém. Em vez de ser o centro de onde a salvação irradiaria para as nações, ela excedeu os gentios na perversidade. Assim, Deus não mais a pouparia, nem teria compaixão dela. Sua punição seria severa por ter pisoteado os grandes dons da gra­ça de Deus”.

Herbert Lockyer.

Parábola do Tijolo Entalhado

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(Ez 4:1-17)

Todo esse capítulo está repleto de ações simbólicas que relatam a seve­ridade do cerco de Jerusalém que es­tava por acontecer. Tijolos com enta­lhes, em geral medindo 61 cm de com­primento por 30 cm de largura, sobe­javam nas ruínas da Babilônia. O barro macio e, portanto, maleável transformava-se em tijolos em que se faziam inscrições cuneiformes. De­pois, com a secagem ao sol, o objeto ou a inscrição esboçada no tijolo ali se conservava para sempre. Muitos exemplos dessa arte babilônica po­dem ser vistos em vários museus na­cionais pelo mundo afora. Se Ezequiel de fato desenhou Jerusalém no tijolo ainda molhado, retratando o desen­rolar do cerco, ou se isso diz respeito a um ato simbólico, é um assunto em que as autoridades divergem. O mes­mo se pode dizer de todas as ações mencionadas nessa visão parabólica que trata da difícil situação em que Jerusalém logo se veria.

Instando o profeta a edificar uma fortificação contra o cerco, Deus ins­truiu seu mensageiro a tomar uma sertã de ferro e pô-la como parede entre si e a cidade. Kiel, em seu es­tudo sobre Ezequiel, diz que “a sertã de ferro, posta como parede, não re­presenta nem os muros da cidade, nem os baluartes dos inimigos, uma vez que isso já está representado pelo tijolo; mas significa um firme e inexpugnável muro de separação que o profeta, como mensageiro e representante de Deus, levantou entre si e a cidade sitiada”. Ezequiel, então, representando a Deus, mos­tra que “a parede de separação en­tre ele e o povo era como que de fer­ro, e o exército da C aldeia, que esta­va por atacar —sendo o instrumen­to de separação entre eles e Deus—, era indestrutível”.

Depois temos a outra ação para­bólica de Ezequiel, em que se deita sobre o seu lado esquerdo por 390 dias e sobre o direito por 40 dias, simbolizando com isso o carregar da iniqüidade do número correspon­dente de anos e profetizando con­tra Jerusalém durante todo esse período. “Era um processo longo e maçante levar a iniqüidade da casa do Senhor, no sentido de confessá-la, assim revelando o motivo do cer­co e da condenação.” Levar a mal­dade de alguém (Nm 14:34) é ex­pressão bíblica que denota incorrer na punição devida ao pecado. Dei-tando-se sobre o seu lado esquerdo, o profeta mostrou como o povo so­freria o castigo divino por seus pe­cados. A importância do lado esquer­do está no “hábito, no Oriente, de olhar para o Leste a fim de indicar as direções na bússola; o Reino do Norte estava, portanto, à esquerda”. Por isso “a casa de Israel” é diferen­ciada da “casa de Judá”, que corresponde ao “lado direito” (4:6), o mais honroso.

Outras ações simbólicas eram dirigir o rosto para o cerco de Jerusa­lém e ter o braço descoberto. A expres­são hebraica traduzida por Dirigirás o teu rosto (também traduzida em ou­tras passagens por voltar-se para, pôr a face contra, etc.) é comum nas Es­crituras no sentido de firmeza de propósito (Lv 26:17). Sendo expressão favorita de Ezequiel (15:7; 20:46 etc), implica firmeza de propósito a ser apli­cada “quanto ao cerco de Jerusalém”. Não haveria abrandamento; a conde­nação divina sobreviria à cidade con­forme decretada.

“… com o teu braço descoberto”. Essa ação faria uma vivida impres­são. As longas roupas orientais, que em geral cobriam os braços, impedi­am que se agisse com rapidez (Is 52:10). Então, adapatando as pala­vras às suas ações, Ezequiel profeti­zou contra a cidade. Quanto às “cor­das” sobre o profeta, impedindo-o de virar-se da esquerda para a direita até o fim do cerco, o comentário de Ellicott é esclarecedor. “E mais um aspecto do caráter inflexível da con­denação preconizada. O poder de Deus interviria para garantir a mis­são do profeta. Era preciso evitar que, não apenas a comiseração, mas mesmo a debilidade e a fadiga, pró­prias do homem, representassem algum impedimento. Fala-se de um cerco do profeta porque foi o que fez figuradamente.”

A seguir, apresenta-se o rigor do cerco de modo muito pitoresco. Em vez da farinha usada na confecção de delicados bolos (Gn 18:6), os ju­deus teriam uma mistura não-refi-nada de seis espécies diferentes de grãos, em geral consumidos somen­te pelos mais pobres. Os grãos, dos melhores aos piores, deviam ser mis­turados numa vasilha —violação do espírito da lei (Lv 19:19; Dt 22:9)— simbolizando com isso as severida­de do cerco e a implacável privação sobre os sofredores. A comida devia ser preparada de modo que lembrasse imundície. As leis alimentares que tratavam dos alimentos puros e im­puros não foram observadas (Os 9:3,4). A escassez de pão e de água para suprir as necessidades físicas afligiria os habitantes da cidade (Ez 4:11; 16:17; v. Lm 1:2; 2:11,12), in­tensificando assim a completa ruí­na que se seguiria à condenação de Jerusalém. Comer pão por peso e beber água por medida falam da ter­rível penúria comum em períodos de fome. Em razão de seus pecados per­sistentes, o povo experimentaria grande sofrimento e angústia. Não admira que se espantariam ”uns com os outros”, expressão que denota a aparência chocante da carência desespendora.

Herbert Lockyer.

Parábola do Rolo Engolido

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(Ez 2 e 3)

Esses dois capítulos, que poderi­am ser lidos como um, tratam do chamado de Ezequiel ao seu ofício e das instruções para o serviço. A de­signação “Filho do homem” é usa­da cerca de noventa vezes em refe­rência a Ezequiel, apenas uma vez em relação a Daniel (Ez 3:17), e a mais nenhum outro profeta. Cristo foi conhecido pelo mesmo título, uma vez que veio para representar o ho­mem. O Espírito apoderou-se do pro­feta, e, tendo recebido a ordem “põe-te em pé”, que lhe enchia de cora­gem, estava preparado para trans­mitir uma mensagem de condenação ao povo rebelde de Deus. Como Ezequiel precisava de preparo divi­no e de coragem para atuar como porta-voz do Senhor à nação de Is­rael, perversa e de coração empeder­nido, que por onze vezes é chamada “casa rebelde”!

Os livros na antigüidade eram confeccionados em formato de rolo, recebendo inscrição na frente e no verso. O pergaminho em geral tra­zia inscrições só no interior, quando enrolado. Mas esse trazia a mensa­gem de Deus, repleta de iminentes ais. Estava escrito também no ver­so. Em sentido figurado, Ezequiel recebeu a ordem de comer esse rolo. Não comer de fato, assim como não se come de verdade a carne de Cris­to nem se bebe o seu sangue — como ensinam erroneamente os católicos romanos. Essa linguagem figurada quer mostrar que Ezequiel precisa­va receber a mensagem condenatória no seu coração e ser inteira­mente tomado pelo que lhe estava sendo transmitido (v. Jr 15:16; Jo 6:53-58; Ap 10:9,10). Precisava dige­rir com a mente, e o conteúdo desa­gradável da mensagem deveria tor­nar-se, por assim dizer, parte de si mesmo, a fim de transmiti-lo de modo mais vivido aos seus ouvintes.

Os dois efeitos dessa apropriação, diferente um do outro, é apresenta­do pelo profeta. O que comeu era “doce como o mel”, mas, como tam­bém o deixou “amargurado” (3:3,14), Ezequiel tinha primeiro de comer e depois falar. O pregador que fala sem antes comer a Palavra de Deus é ineficaz. Jamieson afirma: “O men­sageiro de Deus precisa apropriar-se internamente da verdade de Deus para transmiti-la”. Como a ação sim­bólica, externa, brotou do íntimo, a visão espiritual tornou mais impres­sionante a declaração profética.

“… doce como o mel”. A primeira impressão que Ezequiel experimen­tou em conseqüência de sua missão profética foi de deleite: “Deleito-me em fazer a tua vontade”. De fato, a mensagem que deveria entregar era dolorosa, mas, por assumir a vonta­de de Deus como sua, o profeta rego­zijou-se pelo grande privilégio de le­var aquela palavra ao povo. “O fato de que Deus seria glorificado era o seu grande prazer”.

“… eu me fui, amargurado”. Feliz por ter sido chamado para ser o “por­ta-voz” de Deus, Ezequiel estava tris­te por causa das iminentes calami­dades que fora chamado a anunciar. “… a mão do Senhor era forte sobre mim” mostra o poderoso impulso de Deus, instando o profeta, sem levar em conta se estava alegre ou triste, a transmitir a mensagem divina (Ez 3:14; Jr 15; 16; 20:7-18; Ap 10:10). “A ordem do Senhor era doce; cumpri-la, amargo.” Dessa forma, havia um misto de prazer e de tristeza quan­do Ezequiel executou a tarefa de que fora incumbido. Mas a Palavra de Deus era fogo abrasador dentro dele; e ele não poderia recuar —experiên­cia pela qual todo mensageiro fiel de Deus é obrigado, com maior ou me­nor amplitude, a passar.

O capítulo termina com Ezequiel atônito no momento de entregar a sua mensagem agridoce. Como o povo se recusava a ouvi-lo, a sua lín­gua se pegou ao céu da boca. Toda­via, o Todo-Poderoso prometera fa­zer com que pregasse no momento certo: “… abrirei a tua boca”. Quan­to aos resultados da mensagem di­vina, alguns a ouviriam e outros se recusariam a recebê-la. Essa foi a reação que o Mestre recebeu, e é a mesma que recebe todo mensageiro enviado por Deus (Ap 22:11).

Herbert Lockyer.

Parábola das pedras escondidas

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(Jr 43:8-13)

É magnífica a coragem de Jeremias diante da rejeição de sua mensagem divinamente inspirada. Evidentemente ele sabia que, apesar das advertências, seu povo iria para o Egito e lá morreria pela espada, pela fome e pela pestilência. A precisão de sua mensagem manifestou-se imedi­atamente, e todos foram para o Egi­to, inclusive ele próprio, onde conti­nuou seu ministério de denúncia e de advertência. Não havia declarado ser completa loucura tentar fugir dos juízos decretados por Deus?

Temos aqui outra das impressi­onantes parábolas encenadas. Jeremias é instruído por Deus a pe­gar grandes pedras e escondê-las com barro no pavimento à entrada do palácio de Faraó, à vista dos ho­mens de Judá. Quão significativa foi essa parábola encenada para aque­les cujas mentes estavam abertas para receber a implicação divina desse ato. Apredição do profeta fica ainda mais vivida quando nos lem­bramos que Jeremias escondeu as pedras no barro. Como vemos, es­ses atos simbólicos são comuns nas Escrituras (Jr 19:10; 27:2; Ez 12:7 etc). O rei se assentaria sobre as pedras que Jeremias escondera, “não por mera pompa real, mas com a natureza de um vingador a exe­cutar a ira do Senhor contra a rebe­lião”. O símbolo visível do rei sen­tado nas pedras significa que o tro­no de Nabucodonosor seria estabe­lecido sobre os destroços do reino de Faraó.

Para os judeus, as pedras eram símbolos proféticos e históricos co­nhecidos. Transmitiram à posterida­de alguns fatos consumados e profe­tizavam acontecimentos que ainda iam se dar. Jacó e Labão erigiram um altar de pedras (Gn 31). Doze pedras memoriais foram postas por Josué no Jordão (Js 4:3,6,9,21). As duas tribos e meia construíram um altar de pedra nas margens do mes­mo rio (Js 22). Em todo tempo, mui­tas pedras permaneciam como um marco e teriam a sua mensagem transmitida de geração a geração. Essa era uma antiga maneira de pre­servar arquivos.

Como as pedras foram tomadas do solo egípcio, poderiam fazer Isra­el lembrar-se do cativeiro de seus pais e de como Deus os livrou com “mão forte, com braço estendido”. As pedras escondidas num pavimen­to devem ter lembrado o cativeiro e a perseguição dos antepassados e de como Deus fez das pedras um ins­trumento de castigo aos opressores do Egito (Êx 9:8). Enterrar as pedras simbolizava a condição passada e presente dos judeus, enterrados sob a opressiva tirania do domínio pagão. Aquelas pedras, com o seu significa­do passado, presente e futuro, tinham por objetivo induzir os judeus indó­ceis a buscar ajuda e proteção no úni­co lugar em que podiam ser encon­tradas, a saber, naquele para quem o seu povo sempre foi a menina de seus olhos. Não é também significativo, quando pensamos nessas pedras, o fato de a tradição afirmar que Jeremias foi apedrejado até a morte por seus compatriotas em Tafnes?

Herbert Lockyer.

Parábola das brochas e dos canzis

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(Jr 27 e 28)

 Agrupamos esses dois capítulos porque os dois tratam de “brochas e canzis” ou, como prefere certo co­mentarista, tiras e ripas. O capítu­lo 27 fala da inutilidade de resistir ao domínio de Nabucodonosor. Jeremias, que mostrara na visão dos cestos de figos o castigo determina­do contra Judá pela Babilônia, ago­ra proclama o parecer divino sobre esse assunto. O profeta recebeu or­dens para fazer brochas e canzis, enviando uma mensagem aos em­baixadores dos reis que queriam que o rei de Judá entrasse em ali­ança com eles. Zedequias e os de­mais são intimados a se render, por­que o cativeiro era o plano divino para a reconstrução. “Metei os vos­sos pescoços no jugo do rei de Babilônia [..'.] e vivereis” (Jr 27:12,13). Mas o povo rejeitou o pla­no de Deus e o conselho de Jeremias, sofrendo por isso (Jr 39:6-8).

Os capítulos 28 e 29 contêm pro­fecias relacionadas às dos capítulos anteriores e dizem respeito ao rela­cionamento franco entre Jeremias, o verdadeiro profeta, e os falsos pro­fetas, dos quais o homem de Deus tão solenemente advertira a Zedequias. Hananias falsamente profetizara que Deus quebraria o jugo da Babilônia em dois anos e quebrou os canzis, querendo simbo­lizar com isso a quebra do jugo do conquistador. Jeremias recebeu or­dens divinas de contradizer a pro­fecia de Hananias e declarar que canzis de ferro substituiriam os de madeira e o falso profeta morreria, como de fato aconteceu depois de imposta a forma mais severa de cativeiro.

Brochas. Era por meio dessas cor­reias que o canzil era atado ao ani­mal de carga.

Canzis. O canzil em geral era um pedaço de madeira entalhado, fixa­do, em cada extremidade, a um jugo. Esses dois jugos, então, eram postos sobre a cerviz de dois bois a fim de uni-los. O fato de canzil estar no plu­ral (27.1) significa que Jeremias de­veria usar um e dar os outros aos mensageiros (28:10,12).

Não é mencionado como a ordem chegou a Jeremias. O profeta sim­plesmente declara: “Assim me disse o Senhor”. Ellicott supõe que Jeremias recebeu uma clara predi-ção simbólica, semelhante à que Isaías teve quando foi chamado a andar “nu e descalço” (Is 20:2). Pa-rabolicamente, Jeremias deveria se ver como escravo e animal de carga, para ressaltar a aflição que estava por vir, que era a subjugação do povo (v. At 21:11). É muito evidente, en­tretanto, que Jeremias obedeceu à risca à ordem divina (Jr 28:10).

O ato carnal de Hananias de to­mar o canzil do pescoço de Jeremias e quebrá-lo foi uma audácia ímpia e uma demonstração de que Deus não cumpriria a sua sentença. Como Hananias, que se dizia profeta de paz, quebrara o símbolo da escravi­dão, com isso declarou que o mesmo aconteceria ao detestável cativeiro que o canzil representava.

A substituição dos “canzis de madeira” pelos “canzis de ferro” (Dt 28:48) realça a verdade de que, quando a aflição leve não é bem aceita, permite-se aflição mais pe­sada (Jr 28:13,14). Os falsos profe­tas intimaram os judeus a rebelar-se e desvencilhar-se do canzil da Babilônia, leve em comparação com o que haveriam de experimentar. Ao proceder assim, somente atraíram sobre si o jugo mais severo imposto por Nabucodonosor. “É melhor car­regar uma cruz leve pelo caminho que puxar uma cruz mais pesada sobre a cabeça. Podemos evitar as providências destrutivas submeten-do-nos às providências humilhan­tes. Espiritualmente, contrapomos o fardo suave de Cristo ao canzil do cativeiro da lei” (Mt 11:28-31; At 15:10; Gl 5:1). Quando aceitamos o reto juízo de Deus sobre os nossos pecados, a aflição passa a ser bené­fica e salutar. Seremos surpreendi­dos por um juízo ainda mais seve­ro, se, depois da condenação, conti­nuarmos a pecar (lCo 11:31). Se ti­vessem submetido-se ao merecido cativeiro, este curaria os judeus de sua idolatria. Na resistência à es­cravidão, morreram. Assim expres­sa o poema inglês:

Conta cada aflição, quer suave, quer grave.

Se um mensageiro de Deus for envia­do a ti,

Aceita com cortesia a sua visita: des­perta-te e inclina-te.

E, antes que sua sombra passe pela tua porta,

Suplica permissão antes que seus pés celestiais saiam.

Então coloca diante dele tudo o que tens.

Não permitas que nenhuma nuvem de sofrimento se apodere do teu semblante;

Nem estrague a tua hospitalidade.

A história de amor

Corrompeu as filhas de Sião com o mesmo ardor;

Cuja desenfreada paixão no pórtico sagrado

Foi vista por Ezequiel.

Herbert Lockyer.

Parábola do copo do furor

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(Jr 25:15-38)

Esse capítulo sentencioso trata da profecia dos setenta anos de cati­veiro, bem como da destruição da Babilônia e de todas as nações opres­soras dos judeus. A condenação de Judá resultou da sua persistência em pecar. Apesar dos reiterados ape­los divinos ao arrependimento, a nação judaica não deu ouvidos a Deus, sendo conquistada pela Babilônia e levada ao exílio. Então temos a profecia sobre a condenação da Babilônia após os setenta anos de cativeiro, executada por uma alian­ça de nações e reis. Ao contemplar o futuro, Jeremias profetizou o inescapável juízo que cairia sobre todas as nações, quando a punição divina se destinaria a cada uma de­las, até uma grande tempestade sur­gir dos confins da terra com severos golpes sobre os reis e autoridades. Nessa profecia Zedequias identifica a inevitável destruição que ameaça a si e a Jerusalém.

Não tomaremos o “copo do furor” em sentido literal, como se Jeremias de fato oferecesse uma taça de vinho aos embaixadores das nações citadas e reunidas em Jerusalém. Esse “copo” refere-se ao que Deus reve­lou à mente do profeta com respeito aos seus justos juízos. A taça de vi­nho simbolizava punição embriaga-dora (Jr 13:12,13; 49:12; 51:17). Como já mencionamos, Jeremias muitas vezes incorpora a linguagem parabólica de Isaías em suas profe-, cias (cf. Lm 4:21 com Is 51:17-22; v. Jó 21:20; SI 75:8; Ap 16:19; 18:6).

As nações, quando bebessem do copo do furor, cambaleariam e enlou­queceriam como os que se embria­gam. Elicott diz que “as palavras fa­lam do que a história já testemunhou muitas vezes: o pânico e o terror de nações pequenas diante do avanço de um grande conquistador —ficam como que tomadas de uma louca embriaguez e o seu desespero ou a sua resistência são igualmente ensandecidos. As imagens já são co­muns a profetas anteriores” (SI 60:5; Ez 23:21; He 2:16).

“… se não quiserem tomar o copo” (Jr 25:28) parece insinuar que ne­nhum esforço evitaria a destruição. “Se não poupo nem os meus eleitos por causa dos seus pecados, muito menos a vocês” (Ez 9:6; Ob 6; Lc 23:31; lPe 4:17). A consumação da fúria divina sobre um mundo ímpio e perverso dar-se-á na grande tribu-lação, quando os copos do furor de Deus serão derramados sobre a ter­ra (Ap 6:16; 14:10,19; 16:19 etc).

Jeremias conclui o capítulo com uma referência aos magistrados e reis que se julgam “vasos agradá­veis” ou vasos do desejo. Seriam que­brados e inutilizados. Jeconias fora idolatrado pelos judeus, e Jeremias, falando em nome deles, manifesta a perplexidade diante daquele com quem tanto contavam, mas que foi completamente derrubado (Jr 22:28; Sl 31:12; Os 8:8). Que solene lição para o seu coração e o meu!

Herbert Lockyer.

Parábola dos dois cestos de figos

1 Comentário

(Jr 24:1-10)

Os capítulos de 22 a 24 dizem res­peito ao mesmo período, a saber, o reinado de Zedequias, após a primei­ra conquista de Jerusalém e o cati­veiro de seus principais habitantes. Esses acontecimentos formam o ce­nário da visão simbólica de Jeremias (v. Am 7:1,4,7; 8:1; Zc 1:8; 2:1). Se os cestos de figos foram realmente vis­tos, então temos um exemplo nessa parábola da capacidade do profeta-poeta de encontrar parábolas em to­das as coisas —”Sermões em pedras e livros em riachos”. No entanto, como Jeremias começa a parábola com as palavras “Mostrou-me o Se­nhor”, concluímos que o profeta re­cebeu uma mediação especial de Deus. Seus olhos físicos viram o olei­ro nas rodas, mas foram seus olhos espirituais que tiveram a visão dos figos. Em estado de consciência e de responsabilidade, Jeremias recebeu a mensagem divina para Zedequias.

Figos muito bons

Um cesto continha figos bons, temporãos. Esse “figo que amadure­ce antes do verão” ou “fruta têmpora da figueira no seu princípio” (Is 28:4; Os 9:10; Mq 7:1) era tratado como a mais fina iguaria. No dia da calami­dade, dois grupos distintos foram achados —os bons e os maus. Os “fi­gos muito bons” representavam os cativos levados para a Caldéia. Por meio deles, no futuro, Deus restau­raria os seus. Daniel, Ezequiel, os três jovens hebreus e Jeconias (Joa­quim) estavam entre os bons figos. Como essa parábola-profecia deve ter encorajado os desesperançosos exilados! Também serviu para repre­ender os que escaparam do cativei­ro, os quais, julgando-se superiores aos exilados na Babilônia, injuria­ram os antepassados de Deus (Jr 52:31-34).

Figos muito ruins

Ruim é palavra portuguesa que abarca uma infinidade de sentidos de cunho negativo. Cumpre salien­tar, porém, as acepções “inútil”, “sem mérito” e “estragado”, “deteriorado”. Hoje, quando dizemos que uma fru­ta é ou está “ruim”, em geral nos re­ferimos à qualidade do seu sabor, ao fato de não ser ou estar muito palatável (sendo ou estando azeda, amarga, verde etc). De modo que as acepções mencionadas acima de cer­ta forma se perderam nas transfor­mações etimológicas da palavra ou, ao adjetivar outros substantivos, se perdem ainda na subjetividade, im­precisão e abrangência do vocábulo. Lendo os clássicos da literatura, con­tudo, poderemos notar o emprego de ruim com a idéia muito clara, em al­guns casos, de “sem valor”, “inútil”.

No cesto de figos imprestáveis, tão ruins que não podiam ser comidos, temos um símbolo dos cativos de Zedequias e daqueles judeus rebel­des, indóceis e obstinados que perma­neceram com ele. Sobre esses cairia o juízo divino (Jr 24:8-10). Os termos bons e maus são usados não em sen­tido absoluto, mas como comparação e para mostrar o castigo dos maus. Os bons eram olhados por Deus com favor (24:5). Deus estimava os exila­dos na Babilônia como quem vê bons figos com bons olhos e desfez o cati­veiro “para o seu bem”. Levando-os para a Babilônia, Deus também os salvara da calamidade que sobrevi-ria ao restante da nação e os condu­zira ao arrependimento e a uma con­dição melhor (2Rs 25:27-30).

O retorno do cativeiro babilônico e a volta a Deus eram resultado do efeito punitivo da escravidão, um tipo da completa restauração dos judeus. Então, quando o Messias retornar, serão como uma nação renascida em um dia. Tendo-se vol­tado para Deus de todo o coração, todo o povo será um cesto de figos muito bons. No Commentary [Co­mentário] de Lange encontramos esta aplicação: “Os prisioneiros e os de coração quebrantado são como os figos bons, agradáveis a Deus por­que:

1.   conhecem o Senhor e voltam-se para ele;

2.   ele é o Deus deles, e eles são o seu povo.

Aqueles que se mantêm arrogan­tes e confiantes desagradam a Deus e são como os figos ruins porque:

1.   vivem na cegueira tola;

2.   desafiam o julgamento de Deus.

Essa Parábola dos dois cestos de figo pode ser comparada de forma proveitosa com a Parábola do joio e do trigo, de Jesus.

Jeremias era um “figo bom”, um profeta de verdade, mas os falsos profetas, “figos ruins”, tentavam in­fluenciar os cativos na Babilônia e os que estavam em Jerusalém; e o restante da mensagem divinamente inspirada de Jeremias a Zedequias desmentia a autoridade e a inspira­ção dos falsos mestres e mostrava a exatidão da visão dos cestos de figos dados por Deus.

Herbert Lockyer.

Parábola da botija quebrada

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(Jr 19:1-13)

 Essa outra parábola encenada não pode ser confundida com a que acabamos de analisar (PARÁBOLA DO OLEIRO E DO BARRO), embora Jeremias possa ter usado uma boti­ja do mesmo oleiro. Essa parábola dramatizada representa o lado ne­gro da parábola anterior, do oleiro. A evidente diferença entre as duas parábolas revela a irremediabilidade da condição e da posição de Israel.

Na Parábola do oleiro há a idéia de construção. O barro, apesar de impuro, ainda estava maleávei, po­dendo ser remodelado no formato desejado. Assim “o oleiro tornou a fazer dele outro vaso”.

Na Parábola da botija, o tema evi­dente é a destruição. Israel estava tão incorrigível no pecado e na rebeldia que parecia já não ter esperança de recuperação. Aqui o barro já está endurecido. Qualquer remodelagem era impossível e, por não servir ao propósito para o qual fora criado, não haveria outra medida senão destruí-lo. Que solene e espantoso símbolo da obstinação de Israel, que resultou no declínio do seu sistema nacional, po­lítico e religioso!

Os anciãos, tanto do povo quanto dos sacerdotes, eram os representan­tes do governo civil e religioso e, por­tanto, foram chamados para teste­munhar a parábola encenada e a profecia sobre tudo o que considera­vam de mais precioso (19:10; Is 8:1,2). “Deus espalhou as nações e os seus representantes”. Mais tarde, os judeus não poderiam alegar des­conhecimento das profecias que seus anciãos tinham recebido.

E algo significativo que o lugar em que o pecado foi praticado tenha sido escolhido como o local da de­núncia divina contra Israel. O pró­prio lugar de onde aguardavam o so­corro dos seus ídolos seria o cenário de seu massacre. No vale de Hinom a mais abominável forma de idola­tria era praticada. Tofete era o cen­tro dos sacrifícios a Moloque (2Rs 23:10) —sacrifícios humanos a que Israel se viciara. Assim, o lugar de degradação testemunharia o casti­go e a destruição, exatamente como mais tarde aconteceu em Jerusa­lém, onde Cristo foi crucificado, fa­zendo da cidade um lugar de terrí­vel destruição.

Quanto à quebra da botija diante dos homens, esse ato parabólico re­alça o direito e o poder divino de que­brar os homens e as nações em pe­daços, como a um vaso de oleiro (SI 2:9). As imagens bem conhecidas expressam a soberania absoluta de Deus (Jr 18:6; Rm 9:20,21). “… não pode mais refazer-se” refere-se de modo trágico à ruína de Israel. Deus, como divino oleiro, quebra o que não pode ser restaurado. Jeremias pro­fetizou o colapso e a dispersão de Ist rael —nação privilegiada— profecia que se cumpriu plenamente na in­vasão dos romanos (70 d.C). Os ter­ríveis infortúnios desse capítulo fo­ram escolha de Israel; e o castigo por rejeitarem a Deus deveria ser pago.

Embora a botija ou o vaso do olei­ro não possa ser restaurado, pode-se fazer outro do mesmo material, de modo que há, para a felicidade de Israel, uma profunda compaixão di­vina que a parábola de Jeremias não deixa de apresentar. Deus recolheu os fragmentos do lixo e fez surgir uma nova semente para os judeus —não igual aos rebeldes destruídos, cuja ruína o profeta anunciou, mas a colocação de outra geração no lu­gar deles. Paulo ensina que os frag­mentos espalhados hão de se unir novamente e Israel se transformará num vaso de grande honra (Rm 11).

Herbert Lockyer.

Parábola do oleiro e do barro

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(Jr 18:1-10)

 Ao contemplar o trabalho do olei­ro sobre as rodas, Jeremias passa a aprender a lição de como Deus lida com as nações. A parábola continuou quando o profeta foi ao vale do filho de Hinom, para advertir o rei e o povo da destruição que os acomete­ria. Assim como o oleiro despedaça­va o vaso, eles seriam condenados por não ter valor (Jr 19). A figura do Oleiro já fora empregada em referên­cia à obra da criação de Deus (Is 29:16; 45:9; 64:8). Muito da lingua­gem figurada de Jeremias tem a in­fluência de Isaías.

O que mais impressionou tanto Isaías (29:16; 45:9) quanto Jeremias (18:4,6) foi o absoluto domínio da vontade do oleiro sobre o seu barro, o mistério e a maravilha de sua ca­pacidade criadora. Depois de obser­var o oleiro, Jeremias declarou aos judeus que eles eram, apesar de tan­to se jactarem de sua força, tão frá­geis quanto o barro e tão sujeitos à vontade de Deus quanto o barro ao oleiro. A posição e todos os privilégi­os de que desfrutavam eram provi­dências divinas, para que fossem vasos de honra. Mas, no processo de formação, resistiram à vontade e ao poder do Oleiro celestial. Não se deve perder de vista o fato de que “o teor completo dessa parábola, bem como o conhecido caráter de Deus são con­trários à conclusão de que o Senhor tivesse algum prazer no caráter de­generado de Israel ou de alguma for­ma tivesse contribuído para esse es­tado”. O vaso quebrado não era cul­pa do oleiro. Alguma substância es­tranha no barro frustrou seus esfor­ços e arruinou o seu trabalho.

Essa parábola é de atos, não de palavras, visto que não há registro de conversa entre o profeta e o olei­ro. Enquanto Jeremias observava a obra criada nas rodas, por meio do que viu pôde ouvir Deus falar. De pronto identificou o significado sim­bólico do oleiro e do barro, embora o próprio oleiro não visse nada de pa­rabólico em sua obra. Jeremias, con­tudo, aprendeu a mensagem no vaso quebrado e assim desafiou a nação que frustrara o propósito divino: “Não posso fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel?”.

Nenhuma das parábolas do AT nos fala de modo mais direto, pesso­al e abrangente do que essa. Embo­ra a primeira interpretação refira-se ao Israel de então, a parábola tem aplicação muito mais abrangente. Os profetas do AT foram antes de tudo mensageiros da época em que vivi­am —anunciadores antes de atuar como prenunciadores ou mensagei­ros das gerações seguintes. A Pa­rábola do oleiro e do barro, então, era toda acerca de Deus e de Isra­el. É toda acerca de Deus e de nós mesmos.

Deus, contudo, é o Deus da segun­da oportunidade, o que Jeremias aprendeu  ao observar o oleiro amassando o barro que o decepcio­nara e transformando-o em um vaso encantador. Que excelente parábola sobre o que o tratamento que Deus dispensa aos homens e às nações! (Rm 9:21; 2Tm 2:20). Acaso o Senhor não é capaz de reconstruir o caráter, a vida e a esperança? Sua vida está deformada por resistir à modelagem das mãos de Deus? Bem, sendo dele, você está ainda em suas mãos (Jo 10:28,29), e ele espera moldá-lo ou­tra vez, da mesma maneira que trans­formará Israel em vaso de grande honra quando retornar para introdu­zi-lo em seu reino. Então, como nun­ca antes, Israel será a sua glória. Enquanto permanecermos em suas mãos como barro submisso, nada te­mos a temer. Ainda que sejamos fra­cos e sem valor, ele pode fazer de nós vasos de honra, próprios para ele usar.

Mas de Ti preciso, como antes,

De Ti, Deus, que amaste os errantes;

E como, nem mesmo nos piores tur­bilhões,

Eu —à roda da vida,

Multiforme e multicolorida,

Atordoadamente absorto— errei meu alvo, para abrandar Tua sede,

Então toma e usa a Tua obra!

Conserta toda falha que sobra,

As distorções da matéria, as defor­mações do alvo!

Meus momentos estão em Tua mão:

Arremata o vaso segundo o padrão!

Que os anos revelem os jovens, e a morte os dê por consumados.

Herbert Lockyer.

Parábola do odre de vinho

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(Jr 13:12-14)

O odre é feito de pele de animais e comporta líquidos de todos os ti­pos. Quando Jeremias contou essa parábola, ela não foi compreendida pelos ouvintes. O significado é que, assim como o vinho embriaga, a ira e os juízos de Deus entregariam o seu povo desobediente a um estado de perturbação irremediável, fazendo-o apressar-se em direção à própria ruína.”… bêbados, mas não de vinho” (Is 29:9) —uma impotência e uma confusão, como as da embriaguez, atingiriam o povo (25:15; 49:12; v. Is 51:17,22; 63:6).

O profeta recebeu ordens de pro­clamar a “todos os habitantes desta terra” a sua enigmática mensagem, a qual, em parte por assombro, em parte por zombaria, eles haveriam de rejeitar: “Não sabemos disso? Por que precisamos ouvir dos lábios de um profeta?”. Independentemente da posição ocupada, todos seriam despedaçados como se quebra um vaso, porque não se lamentaram nem se humilharam por causa do seu pecado (SI 2:9; Ap 2:27). O reino de­cadente estava à beira da ruína, e todos os laços que uniam a socieda­de seriam quebrados. O orgulho na­cional de Judá estava arruinado com o cerco do seu próprio pecado (Jr 13:9), como o cinto podre e o odre despedaçado vividamente retratam. A humilhação sofrida deveria ter resultado na adoração do Senhor Deus, mas não confessaram a sua culpa. Quão triste ficou Jeremias quando viu o rebanho do Senhor le­vado ao cativeiro!

Duas figuras de linguagem ex­pressivas são usadas em referência ao terrível exílio de um povo deso-bediente e degenerado.

1. O etíope e o leopardo. Os hábi­tos podem-se tornar tão naturais que parecem fazer parte de nós. O persistente pecado de Judá estava por demais enraizado para que pu­desse haver uma reforma espontâ­nea. Assim como o etíope não podia mudar a cor escura de sua pele, nem o leopardo erradicar suas manchas, também era impossível aos degene­rados judeus abandonar seus hábi­tos pecaminosos inveterados. Esta­vam tão presos aos seus maus ca­minhos, que nada restava, senão o mais extremo castigo, o qual expe­rimentaram quando foram levados para o exílio.

2.  … o restolho que passa arreba­tado pelo vento. Por restolho deve­mos entender “as canas de milho deixadas no campo pelo ceifeiro”. Esse restolho quebrado estava sujeito a ser carregado pelo primeiro ven-daval (Is 40:24; 41:2). Os ventos do deserto varrem tudo e não há obstá­culos que os detenham. A solene apli­cação desse símile é que o castigo corresponde à perversidade do povo. “Como seus pecados foram cometi­dos nos lugares mais públicos, Deus declarou que os exporia ao franco desprezo das outras nações” (Lm 1:8). Talvez a irremediabilidade da condenação seja abrandada pela per­gunta: “Ficarás limpo? Quando?”. Embora Jeremias aparecesse para negar a possibilidade de que tão lon­go endurecimento no pecado fosse purificado tão depressa, havia, con­tudo, a esperança de que o leopardo pudesse mudar as suas manchas. “Nada há que te seja demasiado di­fícil” (Jr 32:17; Lc 18:27; Jo 1:7).

Herbert Lockyer.

Parábola do cinto apodrecido

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(Jr 13:1-11)

 Ellicott não acredita que haja sig­nificado parabólico nessa e em ou­tras representações figuradas da verdade: “Não há absolutamente nenhum fundamento em considerar o cinto uma visão ou parábola, as­sim como também não há razão em considerar o uso simbólico da ‘botija de oleiro’ (19:1), ou das ‘brochas e canzis’ (27:2), ou do fato de Isaías andar ‘nu e descalço’ (Is 20:2)”. Mas, usando o termo parábola no sentido mais amplo, é evidente que Jeremias recebeu ordens de encenar mais uma parábola sobre o trato de Deus com o seu povo rejeitado. Essas ações fi­guradas não existiam só na mente de Jeremias, como parte de uma vi­são interna; também se materializa­ram numa encenação.

A frase inicial da parábola, “As­sim me disse o Senhor”, mostra o mé­todo divino de revelação, a saber, en­sinar aos homens pelo homem. Deus depositou o seu tesouro em vasos de barro para que toda a glória fosse para ele. Aqueles a quem ele esco­lheu e que resolvem transmitir a mensagem divina aos homens são “homens [...] sujeitos às mesmas pai­xões” (At 14:15; 2Co 4:7). Além dis­so, permite-se às vezes que os cha­mados para instruir sofram pela ver­dade que declaram. Jeremias teve de comprar e mesmo usar o cinto até quase cheirar mal, para depois diri­gir-se ao Eufrates e escondê-lo numa rocha. O profeta teria de extrair o completo significado do cinto antes de lançá-lo fora. Posteriormente, os apóstolos sofreram pelo nome que pregavam.

O cinto de Unho. Esse componen­te da veste sacerdotal de Jeremias (Êx 28:40; Lv 16:4) era significati­vo na interpretação da parábola encenada. Sendo branco, a cor relembrava aos israelitas o caráter santo que deveriam apresentar como “nação santa” (Êx 19:6; Ap 19:8). Is­rael, como cinto do Senhor, fora es­colhido para um propósito sagrado. A “aquisição” ou “compra” do cinto também lembra aos judeus que eles foram redimidos ou comprados por Deus.

põe-no sobre os teus lombos. Esse ato complementar denota a grande intimidade com que o Senhor atara Israel e Judá a si (13:1,2,11). Deveriam ser “um povo chegado ao Senhor”. O cinto era também parte ornamental das vestes dos sacerdo­tes orientais: “cheio de beleza e de glória ” (Is 4:2). Do mesmo modo, Is­rael fora escolhido para glorificar ao Senhor diante das nações da terra (Jr 13:11). Nosso propósito supremo não é glorificar a Deus? Assim como o cinto, atado ao corpo de quem o usa, aumenta a sua resistência, Israel foi destinado a ser uma potência para Deus, testemunhando de seu nome.

não o metas na água. Os sacer­dotes antigos jamais podiam esque­cer-se de sua santa vocação. Além do coração limpo, deveriam ter um cor­po puro; por isso os levitas sempre lavavam o corpo e as vestes. A proi­bição excepcional aqui representa a imundície moral de Israel, que se tornou como a sujeira de uma vestimenta usada constantemente sobre a pele, sem ser lavada. Quan­to mais Jeremias usava o cinto sem lavá-lo, pior ficava. O cinto não la­vado, então, simbolizava a ausência da “água limpa” do arrependimento (Ez 36:25; v. Zc 3:3).

esconde-o ali na fenda de uma rocha. Por causa da corrupção e da falta de arrependimento do povo, este seria preso em penhascos (13:17). Tecido para ter um nobre uso, o cinto deteriorado e podre foi colocado na fenda de uma rocha, descartado por ser inadequado para o seu propósito. Também Judá, falhando em sua san­ta e honrosa missão, tornou-se cati-

vo. Como um cinto na rocha, os ju­deus foram expostos às más influên­cias das nações pagas ao redor, às quais não poderiam resistir.

Ao fim de muitos dias [...] o cinto tinha apodrecido. O intervalo pode ter sido de setenta dias —”símbolo perfeito dos setenta anos de exílio que o ato de esconder o cinto junto ao Eufrates representava (v. 13:18-22; Os 3:4). O cinto maculado, dete­riorado, inútil era uma parábola do estado de Judá após o exílio, despro­vido de toda a sua grandeza exteri­or, sem o lugar que ocupava entre as nações da terra”. Ainda que a digni­dade de Judá e de Jerusalém tenha sido grande, eu vou desfigurá-la. O tempo fez com que o cinto se tornas­se impróprio para uso, “sem nenhu­ma serventia”, símbolo de como os judeus se corromperam com os vizi­nhos pagãos e idolatras, deixando de atuar como testemunhas de Deus, sendo assim jogados fora, como um cinto podre, estragado e inútil. Quão sentenciosa é a lição dessa parábola para o seu coração e para o meu! “… se o sal se tornar insípido [...] Para nada mais serve” (Mt 5:13).

Herbert Lockyer.

Parábolas de Jeremias

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Como Isaías, Jeremias profetizou principalmente para o reino de Judá, e sua palavra ao povo, envolta numa mensagem simbólica de impacto, era mais um anúncio de que Deus rejei­tou a nação por causa de sua apostasia e de seu pecado. Jeremias também recebeu ordens de profetizar acerca do cativeiro babilônico como a vontade de Deus para o povo que fora chamado para rejeitar todas as ali­anças mundanas, especialmente com o Egito, ao qual os líderes se volta­ram em busca de socorro contra os assírios. Esse ministério pertinente tornou o profeta extremamente im­popular, sendo constantemente per­seguido por sua ousada mensagem.

É graças à grande semelhança entre Jeremias e Jesus que o profe­ta tem fascinação pelos santos de Deus. Ambos eram homens sofridos e familiarizados com o sofrimento; ambos vieram para os seus e os seus não os receberam; ambos suporta­ram horas de rejeição, de desolação e de abandono. De todos os profetas do AT, Jeremias parece ter padecido os mais atrozes sofrimentos. Não houve dor igual à sua (Lm 1:12; 3:1). Era popularmente conhecido como o Profeta das Lágrimas e foi retrata­do por Miquelângelo cabisbaixo, em meditação sofredora. Jeremias teve a graça e o dom das lágrimas. Pos­suidor de um temperamento ascé­tico, era “fervoroso, sensível, facil­mente depressivo, desconfiado de si mesmo, facilmente tomado de seve­ra e irada indignação”. As páginas das suas profecias trazem as man­chas das suas lágrimas.

Sabemos mais da história de Jeremias que de qualquer outro pro­feta. Foi dito a seu respeito que, “mais do que qualquer outro, da res­peitável companhia dos profetas, a sua vida toda está diante de nós como um livro aberto”. Chamado desde a tenra idade para servir ao Senhor, Jeremias reconhecia com grande perspicácia sua condição quando disse “não passo de uma cri­ança”, referindo-se, sem dúvida, à sua idade. Ele estava consciente da sua imaturidade e fragilidade dian­te da enormidade de sua grande e solene tarefa. Também declarou que não podia falar, o que significa que lhe faltava eloqüência, embora falar era exatamente o ministério para o qual fora chamado. Ao comentar a consciência que Jeremias tinha de sua limitação discursiva, o dr. F. B. Meyer diz: “Os melhores pregadores para Deus são freqüentemente os menos dotados de eloqüência huma­na; pois, se essa eloqüência estiver muito presente —a poderosa capacidade de comover—, há o risco po­tencial de confiar nela, atribuindo-lhe os resultados do seu encanta­mento magnético. Deus não pode dar sua glória a outro. Não divide seu louvor com os homens. Não ousa ex­por seus servos à tentação de sacri­ficar a si mesmos, ou confiar em suas próprias habilidades”.

Infelizmente, alguns são gran­des demais para que Deus os use, uma vez que são propensos a bus­car toda a glória para si! São aque­les que, como Jeremias, são fracos, nada sendo aos próprios olhos, que o Senhor escolhe para realizar fa­çanhas por ele (Jz 6:11-16; Is 6:5; ICo 1:27,28). Os lábios de Jeremias foram consagrados a Deus; ele não era tão eloqüente quanto Isaías, nem tão elevado quanto Ezequiel, mas tímido e retraído, consciente de sua completa debilidade. Deus, porém, o tomou e usou como um instrumento escolhido para procla­mar a mensagem divina à sua geração corrupta e degenerada. Por natureza acanhado em razão de sua debilidade, Jeremias tornou-se forte no Senhor (2Co 12:9,10). Hou­ve ocasiões em que, diante do Se­nhor, esquivava-se das tarefas a ele confiadas, mas, quando de fato se apresentava ao povo, enchia-se de coragem. Deus tocou os lábios do profeta, para que, purificado e cheio de poder, pudesse transmitir as verdades a ele confiadas.

O fato de estar imerso na lei e nos escritos de Israel ajudou em muito o estilo de Jeremias ao transmitir a mensagem de Deus. Os Salmos Alfabéticos (9, 25, 34, 37, 111, 112, 119 e 145) ajudaram a formar o estilo da estrutura das suas Lamentações, em forma de acróstico. A familiaridade com a maior parte das profecias de Isaías também contribuiu para as yi-gorosas imagens de Jeremias. Às vezes parece que ele copia algumas das suas ilustrações parabólicas . A leitura do livro de Jeremias impres­siona por uma característica, a sa­ber, que o seu estilo corresponde ao seu caráter. Ele era especialmente marcado por um sentimento passi­onal e por uma empatia com os mi­seráveis, como mostram suas Lamentações. A série completa de suas parábolas e elegias tinha ape­nas um objetivo: expressar a triste­za por seu país tão arruinado e des­graçado pelo pecado. Existem nume­rosas expressões e abundantes repe­tições, à medida que Jeremias expressa seus sentimentos abalados. Os judeus o veneravam tanto, que acreditavam na sua ressurreição dentre os mortos para ser o precur­sor do Messias (Mt 16:14).

Parábola do consolo

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(Is 28:23-29)

Esse é um dos grandes capítulos do livro de Isaías e serve de introdu­ção à série dos seis ais (28-33). Isaías sem dúvida era um profeta de mui­tos ais, dos quais seis se encontram no capítulo 5. No capítulo 6, profere um ai para si mesmo: “Ai de mim”.

Aqui, Isaías começa convocando o povo a dar ouvidos à parábola, a qual não interpreta sem levar em conta que os juízos de Deus são sempre proporcionais às transgressões dos homens.

Ellicott diz que: “a idéia presente no cerne dessa parábola assemelha-se à de Mateus 16:2-4: para discernir os sinais dos tempos, os homens dei­xam de empregar a sabedoria que utilizam na identificação dos fenô­menos comuns da natureza e no cul­tivo do solo. Assim como esse cultivo apresenta ampla variedade de pro­cessos, variando conforme o tipo de vegetação, também a semeadura e a debulha da lavoura espiritual de Deus apresentam uma diversidade de operações. O que essa diversida­de denota em detalhes é o que o pro­feta passa a mostrar, com o que po­demos chamar novamente de minuciosidade dantesca”. Os juízos de Deus não são arbitrários. Os mé­todos empregados pelos camponeses na agricultura são uma parábola do propósito de Deus ao disciplinar os seus. “O lavrador não ara e grada a terra o ano todo; ara e grada para que possa semear e ceifar. Da mes­ma forma Deus não pune para sem­pre; um futuro glorioso aguarda os redimidos”. Isaías, o Profeta da Es­perança, assegura aos que ouvem os seus “ais” que, assim como o lavra­dor não debulha todos os tipos de grãos com a mesma severidade, as­sim também ele não enviará mais o seu povo para o deserto. Não é essa de fato uma verdade consoladora?

Poderíamos ater-nos longamente no uso que Isaías faz da linguagem metafórica e parabólica. Há, por exemplo, seu maravilhoso capítulo 40, tão cheio de cativantes símiles, no qual refere-se à eterna majesta­de e ao glorioso poder do Senhor, o qual “‘mediu com a concha das mãos as águas [...] ou pesou os montes e os outeiros em balanças [...] Certa­mente as nações são consideradas por ele como a gota de um balde [...] está assentado sobre o círculo da ter­ra [...] que faz sair o exército de es­trelas, uma por uma, e as chama pelo nome [...]‘ e faz com que o povo suba com asas como as águias”. Acredita­mos já ter escrito o suficiente para aguçar o apetite do leitor para um estudo mais completo sobre o estilo pitoresco de Isaías. Quanto a mim, deixo Isaías com o sentimento ex­presso por Valeton, que assim des­creve o profeta em seu trabalho The prophecies oflsaiah [As profecias de Isaías]: “Talvez nunca houve profe­ta como Isaías, que tinha a cabeça nas nuvens e os pés em terra firme; o coração nas coisas da Eternidade e as mãos e a boca nas temporais; o espírito no conselho eterno de Deus e o corpo num momento bem especí­fico da história”.

Herbert Lockyer.

Parábola da vinha do Senhor

1 Comentário

(Is 5:1-7)

Um ou dois pensamentos introdutórios inevitavelmente se apresentam para consideração quan­do examinamos essa linda parábola sobre a vinha, intimamente relacio­nada com a parábola anterior e com a posterior. Na verdade, Isaías pro­porciona duas parábolas em uma — a primeira, sobre o cuidado protetor sem retorno; a segunda, sobre uma sentença implacável, sem recursos nem conciliações. Todo o possível já tinha sido feito para propiciar a fer­tilidade da vinha e assegurar o de­senvolvimento das possibilidades latentes. Mas todo o cuidado dispen­sado à vinha tinha sido em vão. Is­rael, a videira, havia rejeitado a atenção do viticultor e conseqüente­mente tornou-se planta sem valor — erva daninha. O primeiro pensamen­to é este:

Isaías era em primeiro lugar um profeta. Desde que foi chamado e comissionado por Deus, considerou a profecia como o ministério de sua vida e, com notável prontidão, acei­tou a tarefa que, desde o princípio, se afiguraria inútil: advertir e con­denar (6:9-13). Todas as suas profecias giram em torno de “Judá e Je­rusalém” (1:1). O “profeta universal de Israel” entremeava suas profeci­as com a história sempre que a oca­sião exigisse (Is 7:20,36-39). “Ne­nhum profeta do AT”, diz Robinson, “aliou tão perfeitamente quanto Isaías visão terrena e sagacidade, coragem e convicção, diversidade de talentos e unidade de propósitos, de um lado, com amor pela retidão e um aguçado entendimento da santidade e da majestade do Senhor, do outro”. Por isso era capaz de transmitir o seu ensino profético em forma de pará­bolas. As parábolas eram usadas para predizer acontecimentos da história. Quando se aproxima o cumprimento da profecia, o significado, até então pouco nítido, torna-se mais claro, o es­boço completa-se, até que o pleno de­senrolar do que havia sido profetiza­do nos possibilite entender com cla­reza aquilo que vinha revestido em roupagem parabólica. O outro pensa­mento que sobressalta no estudo da linguagem parabólica é que:

As parábolas têm sempre um cor­respondente. A Parábola da vinha do Senhor, de Isaías, assemelha-se mui­to com a Parábola dos lavradores maus, do nosso Senhor Jesus (Mt 21:33). Notavelmente parecidas em alguns detalhes, ambas contêm uma profecia acerca do destino da nação judaica, ainda em cumprimento. Estudioso diligente que era do AT, tendo a mente repleta das suas fi­guras de linguagem, Jesus devia ter em mente a Parábola da vinha do Senhor, de Isaías, quando proferiu sua parábola sobre um tema seme­lhante. Muitos escritores já trataram desse aspecto duplo das parábolas, sobretudo Habershon, cuja obra, no apêndice, trata das semelhanças e das diferenças entre pares de pará­bolas correspondentes, sobretudo no NT. Ainda outra característica, à qual já demos atenção, merece ser realçada, a saber:

 

 

As parábolas têm em geral uma lição principal

Aqui na Parábola da vinha do Senhor, de Isaías, embora muitos detalhes denotem o cuidado satisfatório do dono da vinha para com ela, nem todas as informações têm um significado à parte. Nem todo detalhe deve obrigatoriamente ensinar uma lição. Como diz Lang: “As parábolas são como as telas, que necessitam de detalhes para a com­posição do todo da pintura, mas sem que cada detalhe tenha necessaria­mente uma lição própria e especial”. O único propósito da vinha é produ­zir frutos. E nisso Israel falhou.

Quando o Senhor esperou que sua vinha produzisse frutos, tudo que ela gerou foram “uvas bravas”; quando esperou justiça, encontrou opressão; quando esperou a retidão, ouviu clamor. Com um jogo de pala­vras (5:7), Isaías a seguir apresenta alguns tipos de “uvas bravas”, ou pecados da nação, como mostra Robinson:

1.   Cobiça insaciável; mas a colheita será apenas um décimo da seme-adura (5:8-10).

2.   Anulação e desrespeito para com a palavra e a obra do Senhor; mas os banquetes e a bebedice os le­varão ao cativeiro (5:11-17).

3.   Provocação ousada ao Senhor e desprezo propositado para com as denúncias do profeta, fortemen­te demonstrados no fato de desa­fiarem o “dia do Senhor” a che­gar (5:18,19).

4.   Hipocrisia e dissimulação, enga­no e confusão moral (5:20).

5.   Presunção astuta que não se dig­na submeter-se à correção de Deus (5:21).

6.   Poder mal-empregado: valentes nas bebedices, mas fracos peran­te o suborno, no castigo dos mal­feitores (5:22,23).

A punição por tais transgressões seria a retirada da provisão e da pro­teção divina. A vitalidade da nação seria minada e roubada; os ladrões atacariam o povo e os animais sel­vagens o devorariam, como a Assíria já tinha feito a Israel. Não haveria como escapar desse merecido juízo divino (Is 5:24-30). A parábola, en­tão, era uma profecia acerca da pu­nição vindoura do povo judeu pelos assírios e por Nabucodonosor, cujos detalhes são encontrados nos capí­tulos 7 e 8. O significado completo da parábola, entretanto, não podia ser entendido até que os aconteci­mentos anunciados se tornassem fatos da história.

Quanto ao significado da figura da vinha, cada família sendo uma planta e cada pessoa sendo um ramo, cumpre ressaltar o seguinte:

Aposição. Mostrou-se cuidado na seleção do lugar em que a vinha se encontraria. Seria num “outeiro fér­til”, que ilustra as abundantes van­tagens naturais de Canaã, a terra que Israel foi possuir.

A provisão. As “sebes” são uma figura de linguagem referente à pro­teção providenciada, à posição natu­ral de Canaã e aos obstáculos natu­rais que tornavam a invasão do país muito difícil.

A preservação. Quando se diz que Deus “a limpou das pedras”, isso sig­nifica que seu povo tinha sido preser­vado de ser subjugado. Ele expulsou as nações idolatras de Canaã, para que seu povo não deixasse de segui-lo.

O privilégio. Para Deus, a vinha estava repleta de “excelentes vidas”, expressão que se refere a Abraão, a quem o Senhor passou o direito da terra de Canaã em solene aliança, de modo que ele foi a primeira videi-ra, da qual brotaria toda a casa de Israel, a vinha do Senhor. A expres­são também demonstra o sentimen­to de Deus pelo povo israelita quan­do o estabeleceu na terra.

A punição. Como a degeneração é característica do pecado, a boa vi­nha tornou-se ruim e repugnante ao seu dono, devendo ser descartada. A religiosidade formal, sem vida e hi­pócrita de Israel tornou-se afrontosa para Deus. A ausência de frutos foi a transgressão da nação, e a infertilidade da terra veio a ser a sua punição. Deus retirou as sebes da sua vinha, o que significa que reti­rou os privilégios dos judeus e per­mitiu que afundassem ao nível dós povos vizinhos. A nação tinha que­brado as suas cercas primeiramente pela idolatria e por negligenciar as leis divinas. Por causa disso, os ju­deus se tornaram “como os filhos dos etíopes”, como retrata Amos (9:7). Mas Deus não se esquecerá total­mente do seu povo. Um futuro glori­oso aguarda a sua vinha, como Isaías profetiza de forma tão vivida.

Este último pensamento é apre­sentado de maneira clara por Robinson, quando diz: “Isaías vivia na teologia futura de Israel, enquan­to Paulo tratava dos ensinamentos do passado. A predição é a própria essência de toda a mensagem de Isaías. Seus tempos verbais sãopre-dominantemente futuros e perfeitos proféticos. Isaías era, acima de tudo, um profeta do futuro. Com uma ra­pidez nunca vista, ele repetidas ve­zes salta do desespero para a espe­rança, da ameaça para a promessa, do concreto para o ideal [...] O livro de Isaías é o evangelho anterior ao Evangelho”.

Herbert Lockyer.

Parábola do amado e sua amada

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(O Cântico dos Cânticos)

Antes de deixarmos o alegórico e atraente estilo de Salomão, precisa­mos dedicar algum espaço para o seu “Cântico dos Cânticos”, nome que recebe o seu último livro. O salmo 45 é naturalmente comparado com O Cântico dos Cânticos, uma vez que o casamento é o tema comum aos dois. Esse salmo é chamado “O cântico dos amores”. Esse cântico de casamento prefigura o casamento do Cordeiro mencionado por João (Ap 19:2,9). Há quem negue qualquer direito a essa obra da literatura se­cular de fazer parte das Escrituras, uma vez que não contém nem sequer uma simples linha de sentimento religioso ou espiritual. No cântico de Salomão não há o nome de Deus e nenhuma menção de ordenanças ou de ritos sagrados, quaisquer que se­jam. No entanto, como diz Bunsen em seu estudo sobre este livro, “Ha­veria a falta de alguma coisa na Bí­blia, se não se encontrasse nela uma expressão do mais profundo e mais forte de todos os sentimentos huma­nos”. O Cântico dos Cânticos é uma valiosa contribuição à Bíblia, pois ensina que o sentimento do amor é enobrecedor quando associado aos sentimentos morais. Dessa forma, esse belo idílio, que retrata a união e a comunhão entre os amantes do livro, é uma parábola do precioso vínculo entre o Amado celestial e sua Noiva: “Eu sou do meu amado e ele é meu”.

O poema profético de Salomão termina com duas pequenas estro­fes que resumem tudo o que tem sido relatado, vez após vez, sob diferen­tes metáforas, a saber, o namoro e o casamento de dois corações felizes: “Vem depressa, amado meu”. Não é esse o pedido dos nossos corações quando pensamos em nosso Amado ausente? Mas temos a esperança de que em breve ele virá por sobre os montes dos aromas para buscar a sua Noiva.

Herbert Lockyer.

Parábola da pequena cidade

1 Comentário

(Ec 9:13-18)

Tem havido tentativas frustradas de encontrar uma alusão histórica nessa encantadora parábola, mas, como observa Ellicott: “O que temos aqui assemelha-se tanto à narrati­va da libertação de Abel-Bete-Maaca por uma mulher sábia, cujo nome, contudo, não se conservou (2Sm 20), que não podemos ter certeza de ha­ver alguma outra história real na mente do escritor”. Essa é a mais bela de todas as parábolas de Salomão, e todos os estudiosos da linguagem fi­gurada concordam com isso.

Todas as palavras dessa parábo­la estão cheias de significado: “Hou­ve uma pequena cidade em que ha­via poucos homens, e veio contra ela um grande rei, e a cercou e levantou contra ela grandes tranqueiras. Ora, vivia nela um sábio pobre, que livrou aquela cidade pela sua sabedoria. Mas ninguém se lembrou mais da­quele pobre homem”. A aplicação da parábola é óbvia, como assinala Habershon. O mundo é atacado por Satanás, mas liberto pelo Senhor Jesus Cristo. O contraste entre as personagens e as forças é marcante. Um “sábio pobre” e “um grande rei”. Depois temos “uma pequena cidade” e “grandes tranqueiras”. Poderia parecer que uma cidade pequena como essa, com tão poucos homens a guarnecê-la, não teria ensejo de sobreviver diante de úm forte rei resolvido a conquistá-la. Mas o po­deroso monarca foi derrotado por um pobre insignificante que, evidente­mente, era mais forte que o rei, pro­vando, como diz Salomão, que “Me­lhor é a sabedoria do que a força”.

Toda essa história nos faz lem­brar Cristo de modo surpreendente e a grande libertação que ele ope­rou nas almas dominadas pelo pe­cado! A referência ao tratamento dispensado ao pobre sábio é profé­tica. Lemos que “a sabedoria do po­bre foi desprezada, e suas palavras não foram ouvidas”. Essa não é uma previsão daquele que veio como o Único, desprezado e rejeitado? (Is 53:3). Quanto à ingratidão da cida­de, que não se lembrou desse pobre homem, não é a mesma ingratidão dos que nunca param para pensar sobre tudo o que Jesus suportou por eles? Rico que era, esse Homem tornou-se pobre por amor deles e, uma vez pobre, nasceu numa estrebaria. Ao morrer, nada tendo para deixar, derrotou o monarca do inferno por sua sabedoria infinita e por sua gra­ça, demonstrada em sua morte e ressurreição. Da mesma forma, pro­porcionou, a preço de sangue, a emancipação de todas as almas es­cravizadas pelo pecado.

Esse homem fez também um pe­dido antes de deixar “a pequena ci­dade” que a sua presença havia san-tificado. Ao instituir a Santa Ceia, Je­sus disse: “Fazei isto em memória de mim”. E sempre que tomamos o pão e o vinho nas mãos, com corações gra­tos e cheios de amor, nos lembramos do Homem Pobre que, por sua pobre­za, nos fez tão ricos. Aleluia, que ma­ravilhoso Salvador!

Herbert Lockyer

Parábola do comer e do beber

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(Ec 5:18-20)

 Nessa breve parábola, o pregador, Salomão, retorna à conclusão a que já havia chegado (v. 2:24; 3:12,22). O resumo da parábola parece ser que “no deleite das dádivas de Deus, Salomão não pensa muito nas dores e na brevidade da vida”. Não há um duplo significado nessa impressio­nante parábola sobre o comer e o beber? O que Salomão escreveu apli­ca-se à comida espiritual bem como à natural. O apetite natural ou espi­ritual que seja bom e saudável é uma dádiva de Deus, algo pelo que deve­mos ser gratos. Para o corpo ou para a alma, o bom apetite é sinal de saú­de e proporciona saúde. Como pode­remos ter o desejo físico por comida ou a energia espiritual para a Pala­vra de Deus, se nosso apetite for pe­queno?

Em continuação à sua parábola, Salomão mostra que a falta de apetite é uma terrível doença (Ec 6:1,2). A incapacidade de se alimentar, ape­sar de se ter grande variedade de ali­mentos à disposição, pode resultar em sérios danos físicos. Isso não tem uma relação com a vida espiritual? Com a falta de apetite por Deus e por sua Palavra, muitos cristãos professos deixam de “crescer na gra­ça e no conhecimento do Senhor”. E não é difícil perceber o seu estado de magreza e inanição. Ligada a essa parábola temos outra bem pequena em “Não é dos ligeiros o prêmio [...] nem tampouco dos sábios o pão” (Ec 9:11). A mera sabedoria carnal nun­ca encontra alimento na Palavra. Toda a verdade é revelação.

Herbert Lockyer.

Parábola da videira trazida do Egito

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(Sl 80)

Na verdade esse grande salmo apresenta uma variedade de figuras de linguagem cativantes. Por exem­plo, temos:

1.  A maravilhosa e conhecida metáfora do pastor, uma das princi­pais designações do Senhor usada em relação a Israel e à igreia (Gn 49:24; Jo 10:11).

2.  O pão de lágrimas (SI 80:5). Quantas provas e tribulações, sofri­mentos e lutas o povo de Deus havia suportado.

3.  A vinha (SI 80:8-11) é usada como emblema de Israel —símbolo tão “natural e adequado que não sur­preende encontrá-lo repetidas vezes no AT e adotado no Novo” (Gn 49:22; Jo 15:1). Israel foi tirado do Egito e plantado em Canaã. Sua sombra co­briu as montanhas, seus ramos os rios, o que se refere aos limites da terra prometida, do mar até o rio Eufrates.

4. Os cedros (SI 80:10). Os ramos da vinha são comparados aos “cedros de Deus”. A prosperidade de Israel era semelhante à exuberância da mais magnífica de todas as árvores da floresta.

5.0 javali da selva (SI 80:13). Essa é a única referência ao javali selvagem na Bíblia, usada para ressaltar o poder devastador de certo opressor de Israel, assim como o crocodilo é usado em relação ao Egito, e o leão, com respeito à Assíria. Mas Deus é capaz de proteger os seus de todas as forças destrutivas (SI 80:14-19).

Visita esta vinha, a videira que a tua destra plantou, o sarmento que para ti fortificaste [...] Seja a tua mão so­bre o povo da tua destra, sobre o filho do homem, que fortaleceste para ti.

Aqui temos “um bom exemplo de quando o pensamento passa natural­mente do sentido figurado para o li­teral”. Esse salmo parabólico termi­na em belo estilo ao dirigir-se a Deus, com o refrão alcançando seu tom completo, expressando a mais plena confiança. Apesar das provas que nos são permitidas, Deus sabe preservar e libertar os seus, como diz Whittier nestes versos:

 De Deus o caminho escuro, sem tardança,

Os brilhantes píncaros da alva pode alcançar.

O mal não pode tolerar a esperança;

O bem, esse sim, não tem pressa de esperar.

Herbert Lochyer.

Parábola de Jó

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(27:1; 29:1)

Embora as oito respostas de Jó a seus amigos se achem nos capítulos de 26 a 31 e sejam cheias de lingua­gem simbólica e cativante, na ver­dade a seção não contém nenhuma parábola de fato, ainda que o termo seja usado duas vezes nos diálogos. As partes que compõem sua primei­ra parábola, como Jó chama a sua réplica no original, podem ser facil­mente percebidas:

1.  a decisão de não negar a sua integridade (27:2-6);

2. a avaliação que faz sobre o des­tino dos perversos (27:7-23);

3. a magnífica avaliação da natu­reza da sabedoria (28);

4.  a comparação de sua vida an­tiga com a sua experiência de então (29 e 30) (Quão saudosamente Jó relata a sua antiga felicidade!);

5. a declaração inequívoca de ino­cência e de conduta irreprovável (31). Neste capítulo temos uma es­plêndida confissão de retidão.

O termo usado por Jó e às vezes traduzido por “parábola” no que se refere aos seus eloqüentes discursos, é m_sh_l, que significa similarida­de, mesmo vocábulo usado nas pro­fecias de Balaão (v. tb. SI 49:4; 78:2). O termo acima é também usado em sentido amplo e vago, englobando poesia profética e também proverbi-al (Nm 21:27).

Herbert Lockyer

Parábola do cardo e do cedro

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(2Rs 14:8-14)

 Proferida por Jeoás a Amazias, essa parábola nos leva de volta ao reino das árvores e dos animais, fa­zendo lembrar a parábola vigorosa de Jotão (Jz 9:8-15). Nos anteceden­tes históricos da parábola estava o abatimento de Edom. Amazias, rei de Judá, estava extasiado por ter dominado os edomitas, matando dez mil homens. Concluiu com isso que seria da mesma forma bem-sucedido contra os mais invencíveis inimigos do exército de Israel. Mas Amazias veio a descobrir que seu primeiro su­cesso tinha sido apenas relativo. Co­metendo o erro de subestimar o po­derio militar do adversário, Amazias encontrou a derrota. Depois disso fez o insolente desafio a Jeoás: “Vem, encontremo-nos face a face”.

As duas metáforas extraídas da natureza são o cedro e o cardo, que expressam o sentimento de superioridade de Jeoás ao reprovar Amazias. O cedro, árvore de cresci­mento lento e de vida longa, usada para os deveres sacrificiais do tem­plo, representa a força de Israel. O cardo, identificado por Ellicott com o espinheiro, a sarça ou o abrunheiro-bravo, é uma planta que cresce como erva daninha e não tem nenhum va­lor, transmitindo de maneira vivida o desdém de Jeoás por seu rival. “O cedro de mil anos não pode ser ar­rancado nem eliminado pela maior força deste mundo, ao passo que o cardo de ontem está à mercê do pri­meiro animal da floresta que passar por seu caminho”.

Depois temos uma ilustração ex­traída da vida familiar: “Dá tua filha por mulher a meu filho”. Trata-se de um costume oriental em que o ho­mem, ao pedir a filha de outro em ca­samento, devia ter as mesmas condi­ções sociais; senão, a solicitação seria considerada um insulto. Habilmente, Jeoás mostra que a proposta do car­do ao cedro era semelhante à do po­bre, que pede ao rico permissão para casar com a sua filha. Dessa manei­ra, “o destino do cardo mostra o que seria o resultado da auto-estima do rei de Judá se não aceitasse o conse­lho ‘fica em tua casa! Por que te in-trometerias no mal, para caíres tu?’, que é a aplicação de toda a palavra”.

A parábola, então, era uma ima­gem verdadeira do caráter de Amazias que, infelizmente, não es­tava disposto a se ver nela. Um ca­ráter deformado não tem o desejo de se ver refletido em um espelho fiel. As incomparáveis parábolas de Je­sus geralmente não eram bem-suce-didas quanto à aprovação de seus ouvintes. A insolência e o orgulho de Amazias foram a sua ruína. Se tives­se ficado satisfeito com a conquista de Edom, teria sido poupado da hu­milhação de ser derrotado pelas mãos de Jeoás, rei de Israel. O tema central da parábola é: “A soberba precede a ruína, e a altivez de espí­rito, a queda” (Pv 16:18).

Herbert Lockyer.

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