Jesus Cristo é o ÚNICO Caminho, a ÚNICA Verdade e a ÚNIC A Verdadeira Vida !
Ninguém vai ao Pai senão pelo Cordeiro de Deus !!!
Eu sou perdidamente apaixonado por Ele ! E você quer ser ? (Deus atraiu você a este blog ! Porque razão ? PENSE NISSO !)
27.04.2012
Devocionais, Evangelismo e Missões, Mensagens Costumes, Deus, Diabo, Era, Evangelho, Mundo, Perdição, Salvação, Satanás, Verdade.Mentira 1 Comentário
Jesus Cristo é o ÚNICO Caminho, a ÚNICA Verdade e a ÚNIC A Verdadeira Vida !
Ninguém vai ao Pai senão pelo Cordeiro de Deus !!!
08.12.2010
Cidadania, Cultura, Devocionais, Diversos, Mensagens, Orações, Projetos, Saúde, Testemunhos Arrependimento, Crer, Deus é Fiel, Ex Gay, Ex Homossexual, Ex Lésbica, Ex Prostituta, Liberto do Cativeiro, Libertos do Pecado, Nascer de Novo, Nova Criatura, PAM, Regeneração 10 Comentários
O testemunho que você está prestes a ler foi escrito por um pastor adventista, que usa o pseudônimo de Victor J. Adamson, para proteger sua identidade. Ele escreveu seu testemunho em grande parte como resposta ao artigo “Are Homosexual God’s Children? São os Homossexuais Filhos de Deus?” que apareceu na Adventist Review de Abril de 1997. O artigo, como indicado acima, via a homossexualidade como uma orientação hereditária permanente que não pode ser mudada.
Adamson não partilha desta opinião. A história de sua peregrinação da escravidão à liberdade mostra que, pela graça de Deus “Homossexuais podem ser curados!”. Eu acredito que você gostará de ler este testemunho. Sinta-se livre para compartilhar com seus amigos.
Se você tivesse me perguntado há nove anos, porque eu tinha escolhido ser gay, eu teria respondido a você como eu fiz inúmeras vezes antes, “Eu não escolhi ser gay! Eu escolhi ser um cristão adventista do sétimo dia. Eu escolhi ser educado nas escolas cristãs Adventistas do Sétimo. Eu escolhi ser um estudante missionário. Eu escolhi me graduar e pós graduar em Teologia com distinção. Eu escolhi me casar com uma jovem adventista. Eu escolhi ter filhos adventistas do Sétimo Dia. Eu não escolhi ser gay! Eu finalmente cheguei ao confronto com a realidade e aceitei o fato de que eu era gay. cheguei a acreditar que eu nasci gay”.
Durante anos depois de minha “saída” do armário e experimentando a separação devastadora do meu lar, eu duvidava que alguém me dissesse que a minha “condição” era uma questão de escolha. Eu tinha feito todas as “escolhas” certas na minha vida. Embora lutando com os anseios irritantes do meu coração, eu tinha orado incessantemente para que Deus “Criasse em mim um coração puro, e renovasse um espírito reto dentro de mim.” Eu queria que Deus me ajudasse a amar e ser apaixonado pela minha esposa. Mas, todos os meus esforços foram em vão.
Por fim, eu sucumbi àqueles anseios lancinantes e cai na vida “gay” de relações homossexuais, totalmente convencido de que a minha “condição”, ou “comportamento”, não era o resultado da minha escolha deliberada. Que cristão estaria disposto a optar por estar tão radicalmente fora de sincronia com a sociedade e a igreja? Eu tinha de ser a vítima do meu próprio ambiente, ou eu simplesmente nascera assim.
Meus pais, amigos e familiares todos pensavam em mim como uma pessoa gentil, amável e atenciosa com os outros. Aos seus olhos eu era inteligente, simpático, cortês e talentoso em muitas áreas. Acima de tudo, eu era conhecido por ser profundamente espiritual.
Ao entrar no estilo de vida “gay”, eu ainda vivia de acordo com essa imagem, só que eu já não era mais “profundamente espiritual.” Recusei-me a ser um hipócrita. Não havia nenhuma maneira que eu pudesse conciliar a minha homossexualidade com o chamado para fazer parte do povo remanescente que ama a Deus e guarda os seus mandamentos. Para mim a Bíblia era muito clara ao ensinar que “os sodomitas” não entrarão no Reino de Deus (1 Coríntios. 6:9).
Olhando para trás nos anos gastos no estilo de vida “gay”, eu posso honestamente dizer que minha vida se tornou cheia de comportamentos nojentos, depravados e pervertidos. Como todo homossexual que eu conhecia, fiquei lascivo e obcecado por sexo. Em público e entre os amigos, porém, mantia magistralmente a imagem de uma pessoa decente, gentil, atenciosa, educada, amorosa e adorável.
Antes de voltar para Deus, por dezesseis anos eu O culpava por tudo de errado com minha vida, especialmente a minha homossexualidade, porque eu tinha orado para que Ele a tirasse de mim, e ele não o fez. Assim, eu raciocinava, que a culpa de eu ser gay era de Deus e não minha.
Durante esses egoístas anos de “amor”, de promiscuidade, de prazer, de auto-exaltação e auto-satisfação, sentia muita solidão, miséria e sofrimento. No entanto, meus pais e famíliares nunca me fizeram sentir que eu não fosse amado, apreciado, ou aceito. Em Sua misericórdia e paciência, o Senhor cooperava com os membros da minha família para me revelar o verdadeiro significado do amor incondicional para comigo, um pecador, sem condenar meu estilo de vida pecaminoso. Eles manifestaram seu amor incondicional e aceitação, não só para mim, mas também para com os meus amigos e amantes. A sua aceitação incondicional de mim demonstrou o significado das palavras de Jesus: “Nem eu te condeno.”
Em sua aceitação amorosa, no entanto, eles não descartaram o resto da declaração de Jesus: “vá e não peques mais” (João 8:11).
A aceitação incondicional dos meus familiares me levaram a parar de culpar a Deus por minha condição. Em vez disso, comecei a olhar honestamente para mim. Afinal, pensei, eu posso culpar a Deus por toda a minha vida e ainda estar perdido. Eu me perguntava: “Qual é o ponto: fingir que não existem consequências para o meu estilo de vida, ou que eu poderia ser salvo apesar disso?” Aos poucos, percebi que eu estava enganando a mim mesmo. Eu precisava parar de correr e de me esconder de Deus, em vez de buscar orientação na Sua Palavra.
A declaração “Todos os que se esforçam por desculpar ou esconder seus pecados, permitindo que permaneçam nos livros do Céu, sem serem confessados e perdoados, serão vencidos por Satanás” (O Grande Conflito, pág 620), parecia falar com a minha própria situação. Aquele era eu. Eu tinha me tornado totalmente vencido por Satanás.
Comecei a pensar: “Não seria trágico me achar algum dia fora da Nova Jerusalém, com uma “boa desculpa”. Por muitos anos fiquei perturbado com um sonho recorrente no qual eu experimentei o horror de estar perdido, enquanto eu olhava para o rosto de Jesus, que vinha nas nuvens de glória. Aparentemente, Jesus usou este sonho para chegar a mim, um homossexual, dizendo: “Meu filho, dá-me o teu coração, antes que seja tarde demais.” Aliás, desde que voltei para ele, eu nunca experimentei outra vez o pesadelo deste sonho!
Jesus nos adverte sobre o destino dos ímpios, dizendo: “Apartai- vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o Diabo e seus anjos; …” (Mateus 7:23, 25:41). Tragicamente, o lago de fogo irá conter um número incontável de pessoas a quem Deus ama incondicionalmente. Ele os ama tanto que deu o seu Filho unigênito, para que eles não precisassem morrer. Mas eles optaram por rejeitar o dom da vida eterna. Deus honrou a escolha deles. O resultado é a eterna separação da fonte da vida eterna.
No raciocínio e lógica infantil, eu orava estudando a Palavra de Deus para encontrar qualquer justificativa para a minha homossexualidade, ou o remédio para ela. Por mais que tentasse, não conseguia encontrar justificativa em qualquer lugar na palavra de Deus para continuar meu estilo de vida homossexual. Quanto mais eu estudava as Escrituras mais eu me convencia de que Deus criara o casamento como a união de um homem com uma mulher, tornando os dois uma só carne.
A relação íntima de um homem com um homem ou uma mulher com uma mulher não pode cumprir o propósito de Deus para o casamento. Além disso, a Escrituras condenam relacionamentos do mesmo sexo como “abominação” (Lv 20:13), que vai impedir a entrada no Reino de Deus (1 Coríntios 6:9-10). Estes e outros textos me convenceram de que não havia nenhuma maneira para mim legitimar o meu estilo de vida homossexual.
Era presunçoso para mim viver como se eu tivesse o dom da vida eterna, quando, na realidade, eu estava consciente recebendo o salário do pecado a “morte”. Quando eu comecei a ponderar o meu destino eterno, gradualmente, fiquei convencido de que minha vida tinha que ser mudada. Mas, me sentia impotente para fazer essa mudança. Em retrospecto, posso compreender que a sensação de impotência resultante da minha violação aos princípios morais de Deus, era concebida para despertar em mim a realização da minha necessidade de um Salvador.
No meu desespero eu encontrei conforto no fato de que Deus é o Criador onipotente e Re-Criador de nossas vidas. Através da iluminação da Sua Palavra e do poder capacitador do Seu Espírito, senti que eu poderia ser purificado e curado. Eu vim a perceber que não importa se eu nasci homossexual ou se eu tinha escolhido me tornar um. Todos os descendentes de Adão nascem com tendências para o pecado. Ganhei confiança na promessa de que a graça de Deus poderia permitir-me superar as tendências pecaminosas tanto as herdadas como as cultivadas.
Conforme eu continuava a estudar e orar, sentia mais e mais o amor incondicional de Deus por mim, que era homossexual. Percebi que não importa quão pecador meu passado tivesse sido, Deus podia perdoar e purificar-me. O que eu precisava fazer era desenvolver um ódio pelo pecado e um amor pela verdade e pela justiça.
Foi-me dada a garantia em 1 Coríntios 6:9-11 que eu poderia ser curado de minha homossexualidade. Paulo fala deste pecado, entre outros, quando ele diz: “E tais fostes alguns de vós [pretérito], mas fostes lavados [tempo presente], mas fostes santificados, mas fostes justificados em nome do Senhor Jesus, [Como?] pelo Espírito do nosso Deus”.
Como eu continuei a minha auto-avaliação, eu vim a perceber mais e mais que eu tinha estado enganado em pensar que eu estava vivendo uma vida de liberdade, quando na realidade eu estava em uma terrível escravidão. O que eu precisava desesperadamente, não era a liberdade da lei de Deus, mas a liberdade da escravidão do pecado: a minha perversão sexual viciante. Essa liberdade se tornou possível graças à habilitação da graça de Deus, que pode trazer “cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2 Coríntios 10:5). Agradeço a Deus por Sua maravilhosa graça, que restaurou um pecador como eu para a família de Deus e fez de mim um membro produtivo trabalhando em Sua causa.
Talvez o maior desafio de começar uma nova vida, fosse convencer meus companheiros crentes adventistas que, pela graça de Deus eu já não era um homossexual. Minha atitude e orientação sexual tinham mudado. Como era angustiante para mim ouvir ministros e leigos desacreditarem a minha experiência de conversão, dizendo: “Claro, eu acredito na vitória sobre o pecado. Mas as pessoas nunca deixam de ser gay! Nunca ninguém que saiu do estilo de vida gay, permaneceu em linha reta por mais de dois anos! Cuidado com ele e mantenha suas crianças longe dele”. Tais críticas revelam uma falta de fé no poder de Deus para perdoar e purificar os pecadores penitentes de todas as práticas pecaminosas, inclusive a homossexualidade.
Os comentários sarcásticos que muitas vezes ouvi de outros crentes, me levaram a questionar a minha alma e a freqüentemente me perguntar: “Teriam os meus sentimentos e emoções em relação aos homens milagrosamente mudado devido a minha conversão? Será que eu realmente experimentei uma mudança radical de atitude, uma mudança psicológica na minha orientação sexual? Ou, ainda tenho a mesma orientação sexual?
Estas questões são de extrema importância para aqueles que estão sinceramente buscando a libertação do pecado de qualquer natureza que nos assedia. Elas merecem uma explicação definitiva. Mas a resposta nem sempre é fácil de encontrar, especialmente quando alguém, como eu, passou por uma experiência traumática. Eu terminei o meu relacionamento com o homem que eu amava profundamente. Meus sentimentos e emoções em relação a ele, não tinham mudado, mas a minha atitude para com o Homem Jesus Cristo e os ensinamentos da Palavra de Deus tinham mudado radicalmente.
Estando diante de uma escolha entre o meu amante e o homem Jesus, eu decidi seguir o meu Salvador, independentemente das consequências. Como as palavras do hino popular, para mim, tornou-se uma questão de “confiar e obedecer.” Comecei a confiar no meu Criador, sabendo que o “Pai realmente sabe o que é melhor.” E nessa confiança cada vez maior, comecei a obedecê-lo, apesar dos meus sentimentos e emoções, sabendo que Sua vontade para mim era para minha própria felicidade presente e eterna.
Eu aceitei a verdade bíblica de que “o justo viverá pela fé”, não por sentimentos e emoções. Na prática deste princípio bíblico, descobri que os sentimentos e emoções corretos não surgem de imediato. Eles chegam aos poucos, aprendi a aceitar pela fé a vontade do meu Criador para minha vida. Se eu tivesse esperado até conseguir uma vitória sobre minhas inclinações pecaminosas antes de confiar e obedecer a Cristo, então eu já não precisaria de um Salvador!
Como homossexual, eu precisava ser salvo dos meus pecados, exatamente como um cônjuge infiel, um ladrão, um assassino, ou um mentiroso precisa ser salvo dos seus pecados. A salvação do pecado não é uma conquista humana, mas uma provisão da graça divina. É um trabalho de terapia, reprogramação e redirecionamento divinos.
Deixando para trás o amor da minha vida pecaminosa, entrei em meu novo mundo como um indefeso bebê, recém-nascido. Como uma criança começa sua vida com tendências hereditárias para o mal, eu comecei a minha nova vida com todas as tendências que eu havia cultivado durante a minha vida anterior. Mas, confiando em Deus, meu Pai e Cristo, meu Salvador, eu renunciei a minha homossexualidade e me submeti as diretivas divina e comunhão buscada dentro da família de Deus.
Um princípio importante que eu aprendi foi a “proteger o meu novo ambiente.” As tendências herdadas e cultivadas para o mal são como um leão faminto procurando a quem possa tragar. Essa “besta” deve morrer de fome, enquanto o Cordeiro de Deus, deve ser alimentado e cultivado. O mal deve ser substituído com o bem. Os sentimentos e emoções pervertidos podem ser gradualmente substituídos por sentimentos e emoções corretos quando seguimos as instruções estabelecidas para nós, no “Manual do Operador” dado pelo Criador da sexualidade.
A nova luta que enfrentei quando eu decidi virar as costas a tudo e todos que eu tinha conhecido, me fez lembrar da luta que enfrentei quando fugi de Deus no início da minha vida. Eu tive que me separar totalmente da cena e estilo de vida gay, fugindo deles para minha própria vida, como que fugindo das condenadas Sodoma e Gomorra.
Eu comecei uma nova vida rodeando-me de tudo o que eu sabia ser certo para mim. E não era necessariamente tudo que eu queria ao meu redor! Mas, nenhum cristão pode se dar ao luxo de depender do que o faz se sentir bem. Nem eu poderia! A mente espiritual é para governar e trazer em sujeição a concupiscência da carne.
Eu aprendi a importância de guardar bem as vias para a minha mente, ao não me colocar no caminho da tentação. Isto implica ser cuidadoso em relação ao que eu vejo, ao que leio e ao que eu ouço. Isto requer uma determinação diária para não dar a Satanás uma vantagem sobre mim. Como o apóstolo Paulo, também eu, devo “morrer diariamente” (1 Coríntios 15:21), “subjugando o meu corpo, e o reduzindo à submissão, para que, depois de pregar a outros, eu mesmo não venha a ficar reprovado” (1 Coríntios. 9:27 ).
E quando Satanás plantar estes pensamentos e desejos impuros no coração, (e ele o faz), Deus permite que Sua graça seja suficiente para a minha luta contra a homossexualidade. Sua graça permite-me, como Paulo coloca, a trazer “cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2 Coríntios. 10:5). Eu pratico usando o meu poder de escolha para “virar a página” e “mudar de assunto”. Deus me ajuda a fazer isso, quando eu coloco a minha vontade em Suas mãos.
A injunção bíblica de “Sujeitai-vos pois, a Deus. Resisti ao diabo, e ele fugirá de vós” (Tiago 4:7), tornou-se muito significativa para mim. Quando tentado, repito as palavras de Filipenses 4:8: “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai”.
Outro princípio que eu aprendi a colocar em prática é aceitar com gratidão o dom de uma companheira que me foi dispensada por Deus. No Jardim do Éden, Deus criou uma mulher, não um homem, como uma companheira para Adão. Em Sua infinita sabedoria e amor Deus deu ao homem o dom de uma mulher para estar ao lado dele. Não havia alternativa melhor. Deus não cometeu nenhum erro. Ele sabia o que estava fazendo quando Ele criou uma parceira para o homem.
Deus fez um grande esforço para proporcionar ao homem o dom maravilhoso de uma mulher. Alguns dos homens têm torcido o nariz a este dom, “deixando o uso natural da mulher, se inflamando em sua sensualidade uns para com os outros, varão com varão, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a devida recompensa do seu erro” (Rm 1:27). Eu era um deles. Será que Deus deixou de me amar? Não! Claro que não! Ele continuou a me amar embora eu tenha escolhido usar a minha sexualidade para amar um homem, em vez de uma mulher. É com grande desapontamento que o Criador vê os homens perverterem o destino de sua sexualidade.
Não é pecado uma pessoa viver sem o dom de um parceiro conjugal. Por diversos motivos muitas pessoas acabam vivendo suas vidas sem os prazeres do casamento. Também é errado para as pessoas entregarem-se a um comportamento sexual fora do casamento. E é errado para nós, homens, pervertermos o dom da nossa sexualidade, que foi projetado para uma função procriativa e relacional. É igualmente errado para uma mulher cobiçar e desejar outra mulher a quem Deus criou para o homem. Levou tempo para eu aprender a ser grato a Deus pelo que Ele tem provido para o meu melhor interesse.
O segredo para vencer o pecado da homossexualidade, ou de qualquer outro pecado que nos assedia, encontra-se em ajudar alguém a superar o pecado. Essa premissa é baseada no princípio bíblico de felicidade: A verdadeira felicidade vem em ajudar alguém a ser feliz: Jesus em primeiro lugar, os outros em segundo, você por último.
José, longe de casa na terra de seu cativeiro, nunca se esqueceu deste princípio. “Como posso eu cometer este grande mal e pecar contra Deus?” , ele gritou quando ele fugiu da tentação da esposa de Potifar. Sua preocupação não era “o medo do castigo”, nem era “a esperança de recompensa.” Não, sua fidelidade na obediência resultou em desgraça e confinamento em um calabouço. A preocupação de José era uma total obediência a vontade e a honra do seu Deus, independentemente das consequências. Ele também amou e honrou seu mestre Potifar, pondo os interesses do seu senhor acima dos seus.
Todo o exército celestial estão centrados sobre a felicidade e bem-estar dos outros, incluindo eu e você. Exceto o homem pecador, todos os seres não caídos vivem para o benefício do resto da criação. Este princípio tem sido de grande valia no processo de recondicionar a mim mesmo do meu antigo estilo de vida homossexual. Ajudou-me a abandonar a velha prática da auto-satisfação, buscando o cumprimento dentro do domínio sagrado do casamento.
Ao praticar estes e outros princípios bíblicos, tornei-me totalmente à vontade na minha nova vida como heterossexual. O pensamento de voltar a minha antiga vida tornou-se estranho e repugnante para mim. Submeter-me ao recondicionamento e terapia divina tem realmente resultado em uma nova criação. E Eu me regozijo nas palavras de Paulo sobre a minha nova vida em Cristo: “Portanto, se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já passaram, eis que tudo se fez novo” (2 Co 5:17 ).
Por que os cristãos devem duvidar de que essa promessa possa ser verdade para o homossexual, bem como para qualquer outra pessoa? Minha nova e vitoriosa vida heterossexual é um testemunho do poder de Deus para salvar as pessoas da profundidade de seus pecados. E eu O louvo todos os dias por demonstrar o poder da Sua graça em perdoar, limpar e renovar a minha vida.
Pela limpeza e renovação de minha vida, o Salvador encomendou-me com as mesmas palavras que Ele falou ao endemoninhado limpo em Marcos 5:19, “Vai para tua casa, para os teus, e anuncia-lhes o quanto o Senhor te fez, e como teve misericórdia de ti”. Assim, eu gosto de contar a história através da palavra falada e de minha autobiografia publicada, de como o Senhor me resgatou das profundezas da degradação, para uma nova vida de serviço para Ele.
Essa história de minha peregrinação da escravidão para a liberdade, é projetada para incentivar não só os homossexuais em busca de libertação divina, mas também alguém lutando com o assedio de pecados de qualquer natureza. Neste testemunho eu compartilho os princípios bíblicos que me ajudaram a ganhar a vitória sobre a homossexualidade e agora a me sustentar na heterossexualidade.
Para encerrar eu gostaria de testemunhar que minha vida não foi alterada por meio do raciocínio humano, lógica, filosofia e aconselhamento, mas através da Palavra de Deus e da graça salvadora de Jesus Cristo. Por Sua graça, este pródigo filho homossexual foi libertado de seu pecado e redirecionado para uma vida produtiva e frutífera , para um novo tipo de serviço como um adventista do sétimo dia e ministro do evangelho. Estou alegremente casado e com filhos.
Eu louvo ao Senhor por Sua compaixão, piedade e maravilhoso poder me salvando da minha vida de pecados! Para aqueles que acreditam que os homossexuais nunca mudam, eu posso dizer: “Sim, eles podem mudar ! O poder transformador e a graça de Deus pode torná-los inteiros. Isto é o que Ele fez por mim.”
Texto extraído da newsletter Endtime Issues No. 57, do já falecido Samuele Bacchiocchi, Ph. D. Professor aposentado de Teologia da Universidade Andrews, publicado em seu site Biblical Perspectives. Crédito da tradução: Blog Sétimo Dia http://setimodia.wordpress.com/
07.12.2010
Devocionais, Mensagens, Projetos, Servos do Senhor Abrir Mão, Atrás, Carne e Osso, Escolha, Glória a Deus, Maluco por Jesus, Não se Engane, Opção, Plenitude, Privilégio, Renúncia, Sacrifício, Servir, Submissão, Vida de Renúncia, Vontade de Deus Deixe o seu comentário
A vida de renúncia é o ato de devolver a Jesus a vida que Ele lhe concedeu. É abandonar o controle, os direitos, o poder, a direção, tudo o que você faz e diz. É entregar totalmente a vida em Suas mãos, para que Ele a conduza como quiser.
O próprio Jesus viveu uma vida de renúncia: “Eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (João 6:38). “Eu não procuro a minha própria glória” (8:50). Cristo nunca fez algo da própria vontade. Ele nunca deu um passo, nem disse uma palavra, sem ser instruído pelo Pai. “Eu nada faço por mim mesmo; mas falo como o Pai me ensinou…porque faço sempre o que lhe agrada” (8:28-29).
A submissão total de Jesus ao Pai é um exemplo de como todos nós deveríamos viver. Você pode dizer: “Jesus era Deus na forma humana. Sua vida estava entregue antes mesmo de vir à Terra”. Mas a vida de renúncia não é imposta a ninguém, incluindo Jesus.
Cristo pronunciou estas palavras sendo um homem de carne e osso. Afinal, Ele veio ao mundo não para viver como Deus, mas como ser humano. Ele viveu a vida do mesmo modo que nós. E, como nós, tinha vontade própria. Ele optou por entregar esta vontade totalmente ao Pai: “Por isso o Pai me ama, porque dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou. Tenho autoridade para a entregar, e também para reavê-la” (João 10:17-18).
Jesus estava nos dizendo: “Não se enganem. Este ato de auto-entrega está totalmente sob a Minha vontade. Estou optando por dar a Minha vida. E não estou fazendo isto porque alguém Me disse para fazê-lo. Ninguém está tomando a Minha vida de Mim. Meu Pai Me deu o direito e o privilégio de entregá-la. Ele também deu a opção de Eu passar de Mim este cálice e evitar a cruz. Mas escolho fazê-lo, por amor e completa submissão a Ele”.
Nosso Pai celeste deu a todos nós este mesmo direito: o privilégio de escolhermos uma vida de renúncia. Ninguém é forçado a abrir mão de sua vida para Deus. Nosso Senhor não nos faz sacrificar nossa vontade, devolvendo-Lhe nossas vidas. Ele nos oferece livremente uma terra prometida, cheia de leite, mel e frutas. Mas podemos optar por não entrar neste lugar de plenitude.
A VERDADE É QUE PODEMOS TER TANTO DE CRISTO QUANTO QUISERMOS
Podemos nos aprofundar nEle o quanto optarmos, vivendo plenamente segundo Sua palavra e direção. O apóstolo Paulo sabia disso. E escolheu seguir o exemplo de Jesus – o de uma vida de submissão total.
Paulo tinha sido no passado uma pessoa que odiava Jesus, um perseguidor de cristãos convencido da própria justiça. Ele mesmo afirmou que literalmente respirava ódio contra os seguidores de Cristo. Também era um homem muito obstinado e ambicioso. Paulo era bem instruído, tendo sido ensinado pelos melhores mestres da época. E era fariseu, entre os mais zelosos líderes religiosos judeus.
Desde o princípio Paulo estava em ascensão, a caminho do sucesso. Ele tinha a aceitação da ordem religiosa da época. E tinha uma clara missão, com recomendações de seus superiores. Na verdade, ele tinha sua vida toda planejada, sabendo exatamente aonde estava indo. Paulo estava confiante de estar fazendo a vontade de Deus.
Mas o Senhor tomou este homem que venceu por si próprio, obstinado, independente – e o transformou num ardente exemplo da vida de renúncia. Paulo tornou-se uma das pessoas mais dependentes, plenas e conduzidas por Deus de toda a história. Em verdade, Paulo declara que a sua vida é um modelo para todos que quiserem viver inteiramente entregues a Cristo: “Mas, por esta mesma razão, me foi concedida misericórdia, para que, em mim, o principal, evidenciasse Jesus Cristo a sua completa longanimidade, e servisse eu de modelo a quantos hão de crer nele para a vida eterna” (1 Timóteo 1:16).
O apóstolo estava dizendo: “Se você quer saber quanto custa viver uma vida de renúncia, veja a minha. Você determinou em seu coração ir mais a fundo com Jesus? Aqui está o que você poderá ter que suportar”. Paulo sabia que poucos estariam dispostos a seguir seu exemplo. Mas a sua vida é um modelo para todos que escolherem a vida de renúncia integral.
1. O Caminho da Renúncia Começa com Deus nos Levando à Uma Sensação de Total Fragilidade.
Deus inicia o processo nos fazendo cair do alto do cavalo. Para Paulo isto aconteceu literalmente. Ele estava indo seguro de si em direção a Damasco, quando uma luz ofuscante veio do céu. Paulo foi derrubado ao chão, trêmulo. Então uma voz falou do céu, dizendo: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (Atos 9:4)
As palavras levaram Paulo de volta a um evento de meses atrás. De repente este justo fariseu compreendeu porque sua consciência estava irrequieta. Paulo tinha suportado longas noites de agitação, atormentado por inquietação e confusão – pois tinha visto algo que o abalara até o âmago.
Paulo tinha acompanhado o apedrejamento do apóstolo Estevão. Creio que Paulo lembrou do olhar na face de Estevão diante da morte. Estevão tinha uma expressão celestial, uma presença santa em torno de si. E suas palavras tinham tanto poder. Eram penetrantes e cheias de poder de convencimento. Este homem humilde não se importava nem um pouco com a aprovação do mundo; ele não estava impressionado com as autoridades religiosas. E não tinha medo da morte.
Tudo isto expunha o vazio da vida de Paulo. Este fariseu dos mais devotos percebeu que Estevão tinha algo que ele não possuía. Paulo tinha tido contato face à face com um homem totalmente submisso a Deus, e isto o tornou infeliz. Provavelmente ele pensou: “Eu me preparei durante anos lendo as escrituras. Mas este homem sem estudos proclama a palavra de Deus com autoridade. Eu tive sede de Deus toda a minha vida. Mas Estevão tem o próprio poder do céu, mesmo ao morrer. Ele claramente conhece Deus, como jamais encontrei outra pessoa. Todavia todo esse tempo, estive perseguindo a ele e aos seus companheiros”.
Paulo sabia que estava faltando algo em sua vida. Ele tinha conhecimento de Deus, mas nenhuma revelação própria, como Estevão. Agora, de joelhos e tremendo, ele ouve estas palavras do céu: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues” (Atos 9:5). Foi uma revelação sobrenatural. E as palavras viraram o mundo de Paulo de cabeça para baixo. Creio que à estas alturas, ele deve ter ficado durante horas sobre sua face, chorando, como que dizendo:
“Eu estava totalmente enganado. Gastei todos estes anos com educação e estudo, praticando boas obras. Mas o tempo todo, eu estava no caminho errado. Jesus é o Messias. Ele veio, mas eu não O conheci. Todas aquelas passagens em Isaías fazem sentido agora. Eram a respeito de Jesus. Agora entendo o que Estevão possuía. Ele tinha um conhecimento íntimo de Cristo”.
A escritura diz: “Trêmulo e assustado (Paulo) disse: Senhor, que queres que eu faça?” (Atos 9:6). A conversão de Paulo foi uma obra dramática do Espírito Santo. E que convertido incomum foi este homem. Ele era o perseguidor do povo de Deus. Seu testemunho seria uma evidência poderosa e irrefutável para o evangelho de Jesus Cristo. Certamente Deus iria usar Paulo de maneiras incríveis. “Levanta-te e entra na cidade, onde te dirão o que te convém fazer” (9:6).
Tente imaginar Paulo então. Este fariseu com alto grau de escolaridade estava agora emudecido e cego. Ele teve de ser conduzido à cidade pelos amigos. Parecia que tudo na sua vida tinha desmoronado. Mas a realidade é a seguinte: Paulo estava sendo conduzido pelo Espírito Santo à uma vida de renúncia. Quando ele pergunta: “Senhor, que queres que eu faça?”, seu coração estava clamando: “Jesus, como posso servir-Te? Como posso Te conhecer e agradar? Nada mais importa. Tudo que tenho realizado na minha carne é estrume. Tu és tudo para mim agora”.
Paulo passou os tres dias seguintes jejuando e orando. Todavia nenhuma palavra veio do céu. Ele tinha ensinado e pregado a outros, mas nenhum dos seus conhecimentos podia ajudá-lo agora. Ele estava totalmente fragilizado. Ele deve ter orado: “Ó Deus, Tu me destes um desejo tão grande em conhecer-Te. Por favor, mostra-me o que fazer. Estou tão cego e confuso, nada faz sentido”.
Digo a todo seguidor consagrado a Jesus: preste atenção à esta cena. Aqui está o modelo para a vida de renúncia. Quando você decidir a se aprofundar em Cristo, Deus colocará um Estevão no seu caminho. Ele o confrontará com alguém cujo semblante tem o brilho de Jesus. Esta pessoa não está interessada nas coisas do mundo; não se preocupa com os aplausos dos homens. Ela se preocupa apenas em agradar ao Senhor. E a vida dela vai expor a complacência e as concessões que você tem feito, condenando-o seriamente.
Assim como Paulo, você sentirá repentinamente a sua falência. Perceberá que independente de quantas boas obras tenha procurado realizar, você não encontrou Jesus. E terminará num beco sem saída: confuso, desorientado, incapaz de dar um sentido à toda a revelação anterior. Mas será tudo um agir de Deus. Ele o levará a este estado de total desamparo.
2. O caminho da Renúncia Leva a Muito Sofrimento.
“Este é para mim um instrumento escolhido, para levar o meu nome perante os gentios, os reis e os filhos de Israel; pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome” (Atos 9:15-16). Paulo recebeu a promessa de um ministério frutífero. Mas teria que suportar grandes sofrimentos para realizá-lo.
Sofrimento é um assunto amplo, incluindo muitos tipos diferentes de dor: agonia física, angústia mental, aflição emocional, dor espiritual. De acordo com as escrituras, Paulo experimentou cada uma delas. Ele sofreu um espinho na carne, naufrágios, apedrejamentos, açoites, roubos; enfrentou rejeição, zombaria, mexericos maliciosos; suportou perseguições de todos os tipos. E às vezes sentiu-se perdido, confuso, incapaz de ouvir algo de Deus.
Este modelo de sofrimento da vida de Paulo não será experimentado por todos que buscam a vida de renúncia. Mas de alguma maneira, todo crente consagrado irá se defrontar com a dor. E há um propósito atrás de tudo isso. Veja, sofrimento é uma área da vida sobre a qual não temos controle. É a área na qual aprendemos a nos render à vontade de Deus.
Eu chamo este sofrimento de escola da renúncia. É um local de treinamento onde, como Paulo, caímos sobre nossas faces e terminamos clamando: “Senhor, não dá para agüentar issso”. Ele responde: “Bom. Deixe comigo. Entregue tudo a Mim, corpo, alma, mente, coração, tudo. Confie plenamente em Mim”.
Se você tomar o caminho da renúncia, da submissão completa, sofrerá muito mais do que o cristão mediano, complacente. Se um crente que faz concessões sofre, é apenas para o seu benefício. O Senhor pode estar usando a dor para desabituá-lo de algum pecado particular. E ninguém mais vai aprender com as suas lições. Mas se você deseja a vida de renúncia, o seu sofrimento eventualmente se tornará um grande conforto para outros. Paulo afirma:
“Bendito seja o Deus…o Pai de misericórdias e Deus de toda consolação. É ele que nos conforta em toda a nossa tribulação, para podermos consolar os que estiverem em qualquer angústia, com a consolação com que nós mesmos somos contemplados por Deus. Porque, assim como os sofrimentos de Cristo se manifestam em grande medida a nosso favor, assim também a nossa consolação transborda por meio de Cristo. Mas, se somos atribulados, é para o vosso conforto e salvação; se somos confortados, é também para o vosso conforto, o qual se torna eficaz, suportando vós com paciência os mesmos sofrimentos que nós também padecemos” (2 Coríntios 1:3-6).
Paulo está falando aqui de sofrimentos que são permitidos por Cristo. Nosso Senhor permite estas dores nas nossas vidas, para nos tornar testemunhas da Sua fidelidade, diante dos outros. Ele quer confirmar que é o “Deus de toda consolação” (1:3). O objetivo do nosso sofrimento não é apenas nos levar à uma completa entrega à Sua vontade. Também é para “vossa (dos outros) consolação e salvação” (1:6). Resumindo, os maiores ministérios de consolação são fruto dos nossos maiores sofrimentos.
3. O Caminho da Renúcia Leva à Uma Única Ambição.
Paulo não tinha outra ambição, outra força que o impulsionava na vida, do que esta: “Que possa ganhar a Cristo” (Filipenses 3:8).
Conheço um jovem pregador, homem de Deus, que tem amizade com muitos outros pregadores jovens pelo país inteiro. Perguntei-lhe qual ele considerava ser o maior problema entre seus companheiros. Ele disse: “A pressão para ser bem sucedido”. Sua resposta me espantou. Eu sabia que a busca do sucesso é comum na sociedade secular. Então também é uma praga na igreja? Ele explicou: “Ministros jovens acham que precisam produzir grandes números na sua igreja imediatamente. Eles sentem uma forte pressão para apresentar crescimento da noite para o dia”.
Isto também é um problema para ministros mais antigos. Eles vêm trabalhando árduamente durante anos, esperando ver sua igreja crescer. Quando então uma nova igreja, de um pastor jovem, começa a crescer, os mais velhos se sentem pressionados a conseguir o mesmo. Eles correm para conferências sobre crescimento de igrejas, procurando técnicas para aumentar seus números.
Já perdi a conta de quantas cartas tenho recebido, que dizem basicamente o seguinte: “Nosso pastor acaba de retornar de uma conferência, animado com uma ‘nova fórmula de sucesso’. Diz que nossos cultos precisam ser mais amigáveis com pecadores. Então ele alterou completamente o louvor, bem como os sermões. É um lugar diferente agora. Alguns meses atrás o Espírito Santo se movia poderosamente aqui. Mas agora as pessoas estão saindo, porque o Espírito foi embora”.
Um pastor ficou perplexo diante do conselho de um especialista em crescimento de igrejas. Este lhe disse: “Sua igreja não pode crescer se Jesus é tudo o que você oferece”. Este “especialista” omitiu Cristo! A resposta a qualquer problema da igreja está prontamente disponível, mas este homem não a conheceu. Como? Ele se afastou justamente da ambição que Paulo diz ser necessária: ganhar a Cristo.
Pelos padrões atuais de sucesso, Paulo foi um fracasso total. Ele não construiu nenhum prédio. Ele não tinha uma organização. E os métodos que ele usava eram desprezados por outros líderes. Na verdade, a mensagem que Paulo pregava ofendia muitos de seus ouvintes. Às vezes foi até apedrejado por isso. Seu assunto? A cruz.
Jovens ministros tem dito: “Irmão David, você é um sucesso. Você tem um ministério pelo mundo todo. Você pastoreia uma mega-igreja. Até escreveu um best-seller. A sua reputação é para a vida toda. Bem, e eu? Por que não posso ir pelo mesmo caminho?”.
Às vezes tenho me sentido tentado a responder: “Mas eu paguei um preço. Você não conhece os sofrimentos que passei nesta caminhada”. Não, esta não é a resposta. O fato é que conheço homens bem mais piedosos que eu, que sofreram bem mais do que poderia sequer imaginar. Foram fiéis e consagrados, suportando terríveis sofrimentos, alguns até à morte. Todavia os nomes destes homens não são conhecidos pelo mundo afora.
Esta não é absolutamente a questão. Quando todos estivermos diante de Deus no julgamento, não seremos julgados segundo nossos ministérios, nossas realizações ou o número de convertidos. Haverá apenas uma medida para o sucesso neste dia: nossos corações estavam totalmente entregues a Deus? Pusemos de lado as nossas próprias vontades e prioridades, para aceitar as dEle? Sucumbimos à pressão dos outros e seguimos a multidão, ou buscamos apenas a Ele para nos guiar? Corremos de um curso para outro procurando um objetivo na vida, ou encontramos a nossa realização nEle?
Eu tive o chamado para pregar a palavra de Deus desde os oito anos de idade. E posso dizer honestamente que, durante toda a vida, a minha maior alegria tem sido ouvir o Senhor. Eu sei que quando estou diante das pessoas para pregar, estou divulgando uma mensagem que Deus me deu. E esta mensagem precisa trabalhar na minha própria alma, antes de me atrever a pregá-la a outros. Deleito-me em esperar no Senhor, para ouvir: “Este é o caminho, ande por ele”.
Agora, aos setenta anos, tenho apenas uma ambição: aprender mais e mais a dizer apenas as coisas que o Pai me dá. Nada que digo ou faço de mim mesmo vale alguma coisa. Quero poder afirmar: “Sei que meu Pai está comigo, pois faço apenas a Sua vontade”.
4. O Caminho da Renúncia Traz Contentamento Onde Quer que Você Esteja, e Com o quê For que Possua
Muitos cristãos vivem descontentes continuamente. Nunca estão satisfeitos com o que têm. Estão sempre olhando para o futuro, pensando: “Se conseguir pelo menos fazer isto, ou ter aquilo, estarei feliz.” Mas sua realização nunca chega.
Contentamento foi um enorme teste na vida de Paulo. Afinal, Deus disse que o usaria poderosamente: “Este é para mim um vaso escolhido, para levar o meu nome perante os gentios, os reis e os filhos de Israel” (Atos 9:15). Quando Paulo inicialmente recebeu esta comissão, “logo, nas sinagogas, pregava que Jesus era o Filho de Deus” (9:20). O apóstolo ficava mais ousado a cada sermão: “Saulo, porém, se fortalecia cada vez mais e confundia os judeus que habitavam em Damasco, provando que Jesus era o Cristo” (9:22).
O que aconteceu em seguida? “Os judeus deliberaram entre si matá-lo” (9:23). Seria o fim – ao chamamento a Paulo para pregar aos filhos de Israel. Eles não só rejeitaram sua mensagem, mas tramaram sua morte. Que início desastroso para um ministério que Deus disse seria poderoso.
Paulo então decidiu ir a Jerusalém, para se encontrar com os discípulos remanescentes de Jesus. “Mas todos o temiam, não acreditando que fosse discípulo” (9:26). Agora Paulo enfrentava uma rejeição ainda pior. Seus próprios irmãos em Cristo o rejeitavam.
Finalmente, Paulo raciocinou assim: “Ao menos posso alcançar os gentios”. Todavia, quando um proeminente gentio, Cornélio, procurou um pregador para compartilhar o evangelho, ele não pediu a Paulo. Em vez disso, se dirigiu a Pedro. Sem dúvida, Paulo ouviu as notícias gloriosas vindas da casa de Cornélio: “O Espírito Santo desceu sobre os gentios. O Senhor revelou Cristo a eles!”.
Posteriormente, na conferência de Jerusalém, Paulo teve de ouvir Pedro declarando: “Irmãos, bem sabeis que já há muito tempo Deus me elegeu dentre vós, para que os gentios ouvissem da minha boca a palavra do evangelho e cressem” (Atos 15:7). Aparentemente, Deus tinha determinado que o avivamento entre os gentios viria através de outra pessoa. Pelo que Paulo percebia, ele estaria de fora, observando as coisas acontecerem.
O que você acha que passou pela cabeça de Paulo ao vivenciar estas coisas? A verdade é que através de tudo isso – o desapontamento, a dor, as ameaças à sua vida – Deus estava ensinando ao seu servo uma coisa crucial: Paulo estava aprendendo a ter contentamento, gradualmente, passo a passo.
Mais tarde, quando Paulo pregou na Antioquia, sua mensagem foi contestada pelos líderes judeus. Então Paulo declarou: “Eis que nos voltamos para os gentios” (Atos 13:46). Paulo pregou lá aos não judeus, e muitos se converteram; “e divulgava-se a palavra do Senhor por toda aquela região” (13:49). Mas antes que pudesse saborear a vitória, “os judeus incitaram as mulheres devotas de alta posição…e levantaram uma perseguição contra Paulo e Barnabé, e os lançaram fora da sua região” (13:50).
Em seguida Paulo voltou sua atenção para Icônio. Ao pregar lá, mais uma vez “creu uma grande multidão, tanto de judeus como de gregos” (14:1). Um avivamento caiu sobre a cidade. Mas, novamente “houve um motim tanto dos gentios como dos judeus, juntamente com as suas autoridades, para os ultrajarem e apedrejarem” (14:5).
Você pode imaginar a confusão e o desencorajamento de Paulo? A cada movimento, o seu chamado parecia frustrado. Deus lhe tinha prometido um ministério de evangelização com muitos frutos. Mas cada vez que pregava, ele era amaldiçoado, rejeitado, agredido, apedrejado. Como ele respondia? “Aprendi a viver contente em toda e qualquer situação” (Filipenses 4:11).
Paulo não questionava, nem reclamava. Ele não buscava saber quando chegaria a pregar a reis e governadores. Ele dizia, basicamente: “Posso não estar vendo agora o que o Senhor me prometeu. Mas estou avançando pela fé, pois estou contente em ter Jesus. Por causa dEle, posso viver cada dia – ao máximo”.
O Contentamento de Paulo em Qualquer Circunstância Era o Resultado de uma Vida Submissa.
Paulo não tinha pressa de ver tudo cumprido na sua vida. Ele sabia que tinha uma pétrea promessa de Deus, e se apegou à ela. No momento ele estava contente em poder ministrar em qualquer lugar que estivesse: testemunhando a um carcereiro, a um marinheiro, a algumas mulheres na beira do rio. Este homem tinha uma missão de âmbito mundial, no entanto era fiel no testemunhar de um em um.
Paulo também não tinha ciúmes de pessoas mais jovens que pareciam deixá-lo para trás. Enquanto eles viajavam o mundo, ganhando judeus e gentios para Cristo, Paulo estava na prisão. Era obrigado a ouvir notícias a respeito de grandes multidões sendo convertidas por homens – com os quais ele tinha discutido sobre o evangelho da graça. Mas Paulo não os invejava. Ele sabia que uma pessoa entregue a Cristo pode viver tanto na escassez quanto na abundância: “Grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento… tendo, porém, alimento e com que nos vestir, estejamos contentes” (1 Timóteo 6:6-8).
O mundo hoje poderia dizer a Paulo: “Você está no fim da vida agora. Todavia não tem economias, nem investimentos. Tudo que tem é uma muda de roupa”. Eu sei qual seria a resposta de Paulo: “Ah, mas eu ganhei a Cristo. De fato tenho a verdadeira vida”.
“Mas o diabo está te importunando continuamente, Paulo. Você vive em dor constante. Na verdade, você sofre mais que qualquer outro que conheço. Como pode ser isto?”
Paulo responderia: “Eu me glorio nas minhas aflições. Quando estou fraco, aí é que na verdade estou mais forte. Não meço minha força pelos padrões do mundo, mas pelos do Senhor.”
“E quanto a seu rival, Apolo? Ele tem a atenção das massas. Mas você ministra apenas a pequenos grupos, ou mesmo uma pessoa. Apolo é um orador eloqüente, mas a sua fala é desprezível, Paulo.”
Paulo diria: “Nada disso me incomoda. Eu não busco a glória nesta vida. Tenho uma revelação da glória que me aguarda”.
“E quanto a promessa que Deus lhe deu? Ele disse que você testemunharia diante de reis. A única vez que o fez, estava acorrentado. Você teve de pregar enquanto estava preso. Onde está o cumprimento da promessa de Deus em sua vida?”
Paulo diria: “Meu Senhor manteve Sua palavra a mim. Não foi do modo que eu esperava, mas do jeito dEle. Indiferente às minhas correntes, preguei Cristo em plenitude. E olha, aqueles dirigentes foram tocados. Quando terminei a pregação eles tremiam. O Senhor me foi favorável, da Sua maneira”.
“Paulo, você acabou sendo um tolo. Todos na Ásia se voltaram contra você. Quanto mais você ama outros, menos é amado. Você trabalhou todo esse tempo para construir a igreja de Deus, mesmo fazendo tarefas humildes. Mas ninguém valoriza isso. Mesmo os pastores que você instruiu, agora zombam de si. Alguns até lhe baniram dos seus púlpitos. Por que você continua neste ministério? Você não tem sido sucesso em nenhum sentido da palavra.”
E Paulo: “Eu já deixei este mundo, com todas as suas ambições e bajulações. Não necessito dos louvores dos homens. Veja, eu fui arrebatado ao paraíso. Ouvi palavras inefáveis, palavras que não são lícitas ao homem proferir. Portanto você pode ter toda a competição deste mundo, com todas as suas rivalidades. Eu decidi nada saber entre vós, senão a Cristo, e Este crucificado.
Posso lhe dizer, eu sou vencedor. Eu achei a pérola de grande valor. Jesus me concedeu o poder de entregar tudo, e de tomar novamente. Bem, eu entreguei tudo, e agora uma coroa me aguarda. Tenho apenas um objetivo nesta vida: ver meu Jesus face a face. Todos os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a alegria que me aguarda”.
Que os nossos corações possam ser como o de Paulo, enquanto buscamos a vida de renúncia.
David Wilkerson
Fonte: Título original, “A Vida de Renúncia” http://www.tscpulpitseries.org/portuguese/ts020123.htm
Em Discernimento Cristão
06.12.2010
Devocionais, Diversos, Mensagens, Mundo Gospel, Projetos, Seitas Religiosas e Heresias Bíblia, Costumes, Devocionais, Doutrinas, Evangélicos, Evangelho, Evangelicalismo, Evangeliquês, Igrejas, Modismo, Teologia 1 Comentário
A Reforma Protestante redescobriu o evangelho da livre graça de Deus, que tinha sido obscurecido na igreja medieval por um moralismo que ignorava a profunda depravação do homem, por um sacerdotalismo que se colocava entre os homens e Deus, e por um eclesiasticismo que apagava a distinção Criador-criatura, tornado-se a própria igreja a nova Encarnação. No cerne da Reforma estava uma ênfase renovada sobre o evangelho bíblico-paulinoagostiniano: salvação somente pela graça de Deus, sobre a base da obra expiatória de Cristo, recebida pela fé somente. Os Reformadores e suas igrejas tinham orgulho de serem conhecidos como “evangélicos”, visto que viam a si mesmos como pregando o puro evangelho, a mensagem do evangelho. Esse é o evangelicalismo bíblico.
Mas o que se passa hoje por evangelicalismo está, em muitos pontos, bem longe do evangelicalismo da Reforma, assim como está em geral longe do ensino bíblico em outros pontos. Quando amigos perguntam se sou evangélico, rapidamente digo “Não”. Porque freqüentemente eles identificam “evangélico” com “crer na Bíblia” e “pregar o evangelho”, tento explicar que é precisamente devido ao fato do evangelicalismo não crer corretamente na Bíblia ou pregar o evangelho fielmente, que não me considero um evangélico e não posso ser um membro de uma igreja evangélica (isso é grandemente verdade do fundamentalismo moderno, que é simplesmente uma versão mais restritiva e provincial do evangelicalismo). O que talvez seja os seus três principais distintivos permanece em total contraste com a crença e prática bíblica e reformada do Cristianismo.
Um Evangelho Subjetivo, e não Objetivo
Embora os evangélicos modernos professem uma crença firme na Bíblia, no centro de sua religião não está a sua visão da Bíblia, mas sua visão do evangelho. O evangelicalismo orgulha-se sobre a centralidade do evangelho e da salvação. É justamente aqui, contudo, que o evangelicalismo está mais poluído. Na verdade, ironicamente o suficiente, a visão evangélica do evangelho está mais perto daquela da Roma medieval do que do evangelho bíblico da Reforma. O Concílio de Trento, a resposta católica romana à Reforma, sustentou que a salvação é um empreendimento cooperativo entre Deus e o homem. Deus coloca o processo em movimento (no batismo), mas o homem ajuda ao longo do processo. De acordo com Roma, o livre-arbítrio do homem desempenha uma grande parte em sua salvação. Os Reformadores reconheceram corretamente que isso destruiu o evangelho da graça de Deus. Abriu o caminho para o homem afirmar sua própria contribuição, bondade e justiça. Para os evangélicos, isso é quase uniformemente sua própria “decisão”. Nesse ponto, eles são um com Roma.
Os evangélicos são defensores da “regeneração por decisão”. O evangelicalismo é essencialmente uma deturpação do novo nascimento, a institucionalização da experiência de conversão. A coisa importante sobre a salvação é a experiência do homem, seus sentimentos sobre ser salvo. Uma dose pesada desse experiencialismo foi introduzida na igreja no Wesleyianismo do século dezoito, e tem sido uma marca do evangelicalismo desde então. A experiência de Wesley foi a de ficar “estranhamente aquecido” quando ouviu o evangelho, e essa experiência tornou-se uma peça central de sua teologia. (Para ser justo, a soteriologia de Lutero também era de certa forma autobiográfica, mas ela guiou-o em direção de uma salvação somente pela obra de Deus.
Para Calvino, em contraste, nossa salvação reside na obra objetiva da expiação de Cristo. Os homens não são salvos pelo que experimentam; eles são salvos pelo que Cristo realizou. Em Sua grande obra redentora sobre a cruz e em Sua ressurreição, Cristo assegurou a salvação do Seu povo, cumprindo as exigências da lei ao substituir judicialmente os pecados dos pecadores. Quando o evangelho é pregado, ele atrai eficaz e irresistivelmente aqueles a quem Deus escolheu. Eles são conquistados por Cristo, o seu Redentor. Eles são trazidos sob seus joelhos em humilde submissão, e não podem fazer nada senão exercer fé na obra redentora de Jesus Cristo. Essa experiência, embora essencial, é um resultado da expiação objetiva de Cristo e da aplicação do evangelho pelo Espírito Santo.
Para os evangélicos isso é muito sofisticado e também “intelectual”. O fato realmente central é que Deus perdoou os seus pecados, aceitou-os em Sua família, tornou-os felizes, e preparou-os um lar no céu. Para evangélicos, o evangelho centra-se na vontade e prazer do homem; para os Reformados, o evangelho centra-se na vontade e prazer de Deus.
Porque ser um evangélico significa abraçar a sua forma de evangelho centrado no homem, não podemos ser evangélicos.
Uma Religião do Novo Testamento, e Não Bíblica
A ala Reformada da Reforma expressava a unidade do pacto de Deus no Antigo e Novo Testamento. Os evangélicos enfatizam a falta de unidade entre esses pactos, pois para os evangélicos o objetivo da Fé é reproduzir “o Cristianismo do Novo Testamento”. Os evangélicos crêem em ¼ da Bíblia; os cristãos Reformados crêem numa Bíblia inteira. Evangélicos rotineiramente desprezam a autoridade do Antigo Testamento. A lei do Antigo Testamento, eles afirmam, é parte do “velho” pacto, e foi destinado somente para o antigo Israel; hoje ouvimos apenas as palavras de Jesus, João, Paulo e assim por diante. Os evangélicos estão entre os mais ruidosos em insistir sobre “crer na Bíblia de capa a capa”, mas não crêem que ¾ do que aparece entre as capas tenha qualquer relevância para hoje. Eles falam hipocritamente sobre “estrita inerrância bíblica”, mas isso em geral é simplesmente “conversa piedosa”, pois eles negam que as provisões do novo pacto estavam em operação no Antigo Testamento (Gl. 4:22-31). Eles não vêem muito do evangelho, se é que algo, no Antigo Testamento. E porque o evangelicalismo centra-se no evangelho, isso significa que o Antigo Testamento é largamente irrelevante. Funcionalmente, portanto, o termo “crente na Bíblia” não se aplica a maioria dos evangélicos.
Um Evangelho Limitado, não a Fé Plena
Isso leva diretamente à característica final do evangelicalismo, a qual os cristãos que crêem na Bíblia devem repudiar expressamente. Para os evangélicos, é o evangel, o evangelho (limitada e erroneamente definido, é claro) que deveria impressionar nossas vidas. Para os Reformados, é a soberania de Deus e Seu governo régio absoluto na Terra que é impressionante. O evangelho evangélico não é meramente deturpado; é limitado. O evangelho evangélico é um fim em si mesmo. “Manter nossas almas longe do inferno” é todo o significado da vida sobre a Terra. Para os Reformados, o significado da vida sobre a Terra é a submissão absoluta a Cristo, o nosso Redentor real, e o trabalho diligente para estender o Seu reinado na Terra. Evangelismo é um meio essencial para esse fim, mas não o próprio fim. Afirmar que o evangelismo é um fim em si mesmo é expor uma teologia deturpada e centrada no homem. O fim é a glória de Deus e, com referência ao Seu plano para a Terra, a expansão gradual, porém inexorável do Seu reino (Mt. 6:33; 13:31-34).
Os evangélicos estão intensamente interessados no tipo de evangelismo deles. Porque esse evangelismo não é apenas deturpado, mas também limitado, ele não se relaciona com muitos aspectos da vida. Porque o evangelismo é o centro de sua religião e por não se relacionar com muitos aspectos da vida, a própria religião não se relaciona com muitos aspectos da vida. Porque sua religião não se relaciona com muitos aspectos da vida, eles tendem a pensar como os humanistas mundanos naquelas áreas sem relação com sua religião limitada. Esse é o porquê, em primeiro lugar, o método apologético evangélico compromete o evangelho, como Cornelius Van Til tão poderosamente demonstrou.
Os evangélicos estão dispostos a comprometer tudo, até Deus mesmo, por causa de seu ídolo precioso, o seu evangelho deturpado e limitado. Esse é o motivo da maioria deles não ver nada de errado em enviar seus filhos para escolas do governo, adotar uma psicologia secular, ensinar uma ciência evolucionária, eleger políticos ateus e endossar traduções errôneas da Bíblia. Essas áreas estão além do alcance de seu evangelho limitado. Tudo além do escopo de seu evangelho limitado é algo legal para uma perspectiva “neutra” (isto é, violadora do pacto).
Por essas razões, onde quer que o evangelicalismo moderno tenha florescido, ele tem bombardeado a ortodoxia bíblica histórica; eviscerado uma fé forte e teologicamente ancorada; e castrado uma religião robusta, vigorosa e abrangente. Seu sucesso tem sido o fracasso do Cristianismo bíblico.
Conseqüentemente, ser um evangélico no sentido moderno é diluir e eventualmente destruir a Fé.
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto
Fonte: Faith for All of Life, Julho 2000
Via:Eleitos de Deus
Via: [ Ministério Batista Beréia ]
29.11.2010
Devocionais, Mensagens, Projetos, Testemunhos Arrebatamento da Igreja, Condenação, Deus, Diabo, Escatologia, Fim dos Tempos, Juízo de Deus, Misericórdia, Perdição, Salvação, Tribunal de Cristo, Vida Eterna 2 Comentários
AB-D.
26.11.2010
Devocionais, Mensagens, Mundo Gospel, Notícias, Projetos, Testemunhos Aflições, Conversão, Conversão Superficial, Doutrina, Espírito Santo, Fé, Instabilidade Espiritual, Nascer de Novo, Religião, Religiosidade, Resistir às Tentações, Superficialidade 1 Comentário
“Para pôr tudo em uma palavra,uma ausência do Espírito Santo é a grande causa da instabilidade religiosa.”
22.11.2010
Cultura, Devocionais, História da Igreja, Mensagens, Mundo Gospel, Orações, Projetos Amar, Apologia, Aprendizagem, Bíblia, Chamado, Cristão, Cristianismo, Curso, Defender, Denominações Evangélicas, Doutrina, Gostar, Humilhar-se, Igrejas, Jesus Cristo, Manuseio, Obedecer, Ovelhas, Pastorear, Perguntas, Querer, Questionário, Rebanho, Respostas, Seara, Seminário, Servir, Teologia Deixe o seu comentário
Às vezes, acontece que um pastor enfrenta oposição da parte daquelas pessoas que antes o promoviam de maneira entusiástica. Por que isso acontece? Com freqüência, isso ocorre por causa da comunicação superficial que houve entre o pastor em potencial e os membros da igreja, antes de ele assumir seu pastorado. Em nossos dias, é possível que um pastor seja escolhido para uma igreja sem que perguntas sérias lhe sejam dirigidas, e, menos ainda, perguntas a respeito de doutrina. Sugerimos que as igrejas tenham o mais completo diálogo possível sobre os assuntos de doutrina, prática e estilo de vida cristã. Se a igreja falhar em fazer isso, o próprio candidato ao pastorado deve procurar esse tipo de diálogo. Tal procedimento protege tanto o pastor quanto a igreja.
Dois outros assuntos são extremamente importantes. Primeiro, o candidato ao pastorado deve apresentar uma lista de referências. A igreja tem de seguir com muita atenção essas referências e solicitar que as pessoas citadas apresentem outros nomes como referência sobre o pastor. Deve-se tributar atenção ao fato de que, às vezes, pessoas deixam de gostar de outras não por causa dos erros destas. ( O próprio Senhor Jesus foi odiado.) A inquirição por meio de referências lhes assegura que o pastor tem um bom testemunho tanto da igreja como “dos de fora” (1 Tm 3.7). O questionamento das pessoas apresentadas deve centralizar-se na lista de 1 Timóteo 3.1-7 e Tito 1.5-9. Essas listas de qualificações foram escritas para servirem como instrumento de observação das vidas de candidatos à liderança das igrejas, e não como uma lista de perguntas a serem dirigidas aos candidatos. Essa observação é extremamente importante. O ideal seria que a igreja convivesse com o candidato ao pastorado, observando sua vida durante meses ou mesmo anos. Visto que, infelizmente, esse não é o padrão seguido pela maioria das igrejas, vocês têm de depender muito de atentarem às referências fornecidas. Respostas superficiais e subjetivas da parte do próprio candidato podem causar uma distorção da verdadeira situação. A avaliação que sugerimos em seguida se refere às passagens bíblicas mencionadas, mas a sua utilização pode ser mais abrangente. Vocês devem utilizá-las amplamente na conversa com as pessoas apresentadas como referências. Isso não significa que as passagens bíblicas citadas não são extremamente importantes no questionamento que o candidato pode fazer para si mesmo.
Relacionada à primeira, existe uma segunda consideração: devem ser feitos muitos esforços para apresentar à igreja os diversos aspectos da vida do pastor em perspectiva, durante tanto tempo quanto possível, antes de chegarem a alguma decisão. Esse tipo de apresentação não é um problema, quando a igreja tem de escolher pastores dentre os seus próprios membros; todavia, tal apresentação cria realmente um problema considerável para aqueles que trazem um novo pastor de fora da igreja. Um fim de semana de cultos não é suficiente para que as pessoas fiquem corretamente informadas. Devemos lembrar: o pastor, se for chamado a pastorear, estará na igreja durante um extenso período de tempo, influenciando nossas famílias e comunidade para Cristo. Sabemos que vocês estão prontos para receber um novo pastor. Mas existe algo pior do que não ter um pastor — ter o pastor errado.
Apresentamos nossa sugestão final: depois das conversas iniciais, pensem em ter gravadas ou escritas as respostas destas perguntas, por parte daquele que é o mais sério candidato ao pastorado da igreja. Perguntem-lhe se o seu interesse é tão grande, que ele aceitaria avançar para esse estágio de inquirição, dizendo-lhe que isso tomará boa parte de seu valioso tempo. Esse questionamento mais profundo é para aqueles que demonstram um nível de interesse elevado. Perguntas esclarecedoras podem ser feitas, posteriormente, por telefone ou conversas pessoais. Um grupo selecionado destas perguntas pode ser dirigido ao candidato nas grandes reuniões da igreja, a fim de permitir que o pastor em perspectiva fale sobre algumas de suas crenças e outras perguntas lhe sejam apresentadas.
As perguntas alistadas em seguida não estão colocadas em ordem de significância. Algumas delas podem não ser importantes para vocês. Talvez vocês queiram acrescentar outras perguntas. Não existe o pastor perfeito. No entanto, atenção a estas questões, juntamente com extensos períodos de oração, ou mesmo jejum, pode lhes dar garantia de encontrar o pastor certo para a sua igreja.
Para ser um ministro bom e fiel, um pastor não tem de fornecer uma resposta completa e imediata para todas essas perguntas. Em algumas dessas perguntas, será aceitável se ele apenas disser: “Eu não sei”; ou: “Ainda não tenho a minha opinião completamente desenvolvida sobre este assunto”.
Entretanto, acautelem-se de um pastor que parece estar evitando apresentar respostas claras. Certamente, em algumas dessas perguntas, ele achará necessário definir termos e esclarecer sua resposta. Sigam em frente cautelosamente, até que ele torne sua opinião tão clara quanto possível.
Se necessário, podem ser feitas outras perguntas sobre assuntos como o Movimento de Crescimento de Igreja, educação familiar, maçonaria, o Movimento Nova Era, atividade política na igreja, relacionamento com outros ministérios ou movimentos evangélicos, etc. Perguntas sobre outros assuntos doutrinários de grande importância devem ser feitas, se necessário (por exemplo, a divindade de Cristo, a aceitação da Trindade, etc.). Tanto o comitê de avaliação como a igreja devem ficar satisfeitos a respeito de qualquer assunto sobre o qual desejem discutir.
Fonte: [ editorafiel.com.br ]
Extraído do site: [ Eleitos de Deus ]
22.11.2010
Cidadania, Cultura, Devocionais, Diversos, Mensagens, Mundo Gospel, Notícias, Projetos, Saúde, Seitas Religiosas e Heresias Anjo de Luz, Condenação, Cristianismo, Educação, Gays, Genitálias, GLS, Homofobia, Homossexuais, Lésbicas, Lucifer, Pans, Perversão, Sexo, Sociedade, Trans 3 Comentários
Tenho um casal de filhos… (muitos sonham em ter um casal de filhos, mas daqui para frente, pra quê mesmo?)
pelo jeito não poderei mais destacar a diferença deles…
pelo jeito não posso mais falar para eles que um tipo de comportamento é coisa de meninA, ou de meninO…
não poderei mais orar pedindo ao Senhor um marido para minha filha, e uma esposa para meu filho… (capaz de ficarem ouvindo como aconteceu com Daniel)…
não poderei mais dizer para meu filho que ele é homem, ou como ele mesmo diz ‘homem macho’… será crime daqui uns dias… ? …
Não existe mais problema algum em meus filhos verem um ‘casal’(essa palavra é homofóbica?) de homens se beijando… Minha filha olha… ela tem seis anos, não entende… “Uai, [mineira] meu pai falava que mulher casa com homem…?” Não filha… me perdoe… agora eu não posso mais dizer isso…
Meu filho então… está todo empolgado que vai entrar num casamento junto com uma menina para levar… (aquelas coisas de casamento)… ele tem três anos, está achando que vai casar pois vai entrar de ‘noivinhO com a noivinhA’… se ele entrasse com outro menino, ele não diria que era casamento… mas ele agora estará errado?
Como explicarei a diferença e objetivos de seus órgãos sexuais… a desculpem-me… meus filhos, mas esse é o país que vocês enfrentarão quando forem adultos… Cristo, tenha misericórdia de meus filhos…
Brasil, Deus nos deu liberdade, não libertinagem…
… mas o que é isso mesmo?
Desabafo de um pai, presbiteriano…
Fonte: [ MCA ]
10.11.2010
Cidadania, Cultura, Diversos, Mensagens, Notícias Alienação, Arrogância, Artistas, Desenvolvimento, Dilma, Discriminação, Economia, Eleições, Escravatura, Funk, Intelectuais, Luiz Inácio Lula da Silva, Lula, Nordestino, Pobreza, Política, Preconceiro, Progresso, Riqueza, Serra, Skin Heads, Sul do País, Trabalho Infantil 1 Comentário
A eleição de Dilma Rousseff trouxe à tona, entre muitas outras coisas, o que há de pior no Brasil em relação aos preconceitos. Sejam eles religiosos, partidários, regionais, foram lançados à luz de maneira violenta, sádica e contraditória.
Já escrevi sobre os preconceitos religiosos em outros textos e a cada dia me envergonho mais do povo que se diz evangélico (do qual faço parte) e dos pilantras profissionais de púlpito, como Silas Malafaia, Renê Terra Nova e outros, que se venderam de forma absurda aos seus candidatos. E que fique bem claro: não os cito por terem apoiado o Serra… outros pastores se venderam vergonhosamente para apoiarem a candidata petista. A luta pelo poder ainda é a maior no meio do baixo-evangelicismo brasileiro.
Mas o que me motivou a escrever este texto foi a celeuma causada na internet, que extrapolou a rede mundial de computadores, pelas declarações da paulista, estudante de Direito, Mayara Petruso, alavancada por uma declaração no twitter: “Nordestino não é gente. Faça um favor a SP, mate um nordestino afogado!”. (clique aqui para entender o caso)
Infelizmente, Mayara não foi a única. Vários outros “brasileiros” também passaram a agredir os nordestinos, revoltados com o resultado final das eleições, que elegeu a primeira mulher presidentE ou presidentA (sim, fui corrigido por muitos e convencido pelos “amigos” Houaiss e Aurélio) do nosso país.
E fiquei a pensar nas verdades ditas por estes jovens, tão emocionados em suas declarações contra os nordestinos. Eles têm razão!
Os nordestinos devem ficar quietos! Cale a boca, povo do Nordeste!
Que coisas boas vocês têm pra oferecer ao resto do país?
Ou vocês pensam que são os bons só porque deram à literatura brasileira nomes como o do alagoano Graciliano Ramos, dos paraibanos José Lins do Rego e Ariano Suassuna, dos pernambucanos João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira, ou então dos cearenses José de Alencar e a maravilhosa Rachel de Queiroz?
Só porque o Maranhão nos deu Gonçalves Dias, Aluisio Azevedo, Arthur Azevedo, Ferreira Gullar, José Louzeiro e Josué Montello, e o Ceará nos presenteou com José de Alencar e Patativa do Assaré e a Bahia em seus encantos nos deu como herança Jorge Amado, vocês pensam que podem tudo?
Isso sem falar no humor brasileiro, de quem sugamos de vocês os talentos do genial Chico Anysio, do eterno trapalhão Renato Aragão, de Tom Cavalcante e até mesmo do palhaço Tiririca, que foi eleito o deputado federal mais votado pelos… pasmem… PAULISTAS!!!
E já que está na moda o cinema brasileiro, ainda poderia falar de atores como os cearenses José Wilker, Luiza Tomé, Milton Moraes e Emiliano Queiróz, o inesquecível Dirceu Borboleta, ou ainda do paraibano José Dumont ou de Marco Nanini, pernambucano.
Ah! E ainda os baianos Lázaro Ramos e Wagner Moura, que será eternizado pelo “carioca” Capitão Nascimento, de Tropa de Elite, 1 e 2.
Música? Não, vocês nordestinos não poderiam ter coisa boa a nos oferecer, povo analfabeto e sem cultura…
Ou pensam que teremos que aceitar vocês por causa da aterradora simplicidade e majestade de Luiz Gonzaga, o rei do baião? Ou das lindas canções de Nando Cordel e dos seus conterrâneos pernambucanos Alceu Valença, Dominguinhos, Geraldo Azevedo e Lenine? Isso sem falar nos paraibanos Zé e Elba Ramalho e do cearense Fagner…
E Não poderia deixar de lembrar também da genial família Caymmi e suas melofias doces e baianas a embalar dias e noites repletas de poesia…
Ah! Nordestinos…
Além de tudo isso, vocês ainda resistiram à escravatura? E foi daí que nasceu o mais famoso quilombo, símbolo da resistência dos negros á força opressora do branco que sabe o que é melhor para o nosso país? Por que vocês foram nos dar Zumbi dos Palmares? Só para marcar mais um ponto na sofrida e linda história do seu povo?
Um conselho, pobres nordestinos. Vocês deveriam aprender conosco, povo civilizado do sul e sudeste do Brasil. Nós, sim, temos coisas boas a lhes ensinar.
Por que não aprendem conosco os batidões do funk carioca? Deveriam aprender e ver as suas meninas dançarem até o chão, sendo carinhosamente chamadas de “cachorras”. Além disso, deveriam aprender também muito da poesia estética e musical de Tati Quebra-Barraco, Latino e Kelly Key. Sim, porque melhor que a asa branca bater asas e voar, é ter festa no apê e rolar bundalelê!
Por que não aprendem do pagode gostoso de Netinho de Paula? E ainda poderiam levar suas meninas para “um dia de princesa” (se não apanharem no caminho)! Ou então o rock melódico e poético de Supla! Vocês adorariam!!!
Mas se não quiserem, podemos pedir ao pessoal aqui do lado, do Mato Grosso do Sul, que lhes exporte o sertanejo universitário… coisa da melhor qualidade!
Ah! E sem falar numa coisa que vocês tem que aprender conosco, povo civilizado, branco e intelectualizado: explorar bem o trabalho infantil! Vocês não sabem, mas na verdade não está em jogo se é ou não trabalho infantil (isso pouco vale pra justiça), o que importa mesmo é o QUANTO esse trabalho infantil vai render. Ou vocês não perceberam ainda que suas crianças não podem trabalhar nas plantações, nas roças, etc. porque isso as afasta da escola e é um trabalho horroroso e sujo, mas na verdade, é porque ganha pouco. Bom mesmo é a menina deixar de estudar pra ser modelo e sustentar os pais, ou ser atriz mirim ou cantora e ter a sua vida totalmente modificada, mesmo que não tenha estrutura psicológica pra isso… mas o que importa mesmo é que vão encher o bolso e nunca precisarão de Bolsa-família, daí, é fácil criticar quem precisa!
Minha mensagem então é essa: – Calem a boca, nordestinos!
Calem a boca, porque vocês não precisam se rebaixar e tentar responder a tantos absurdos de gente que não entende o que é, mesmo sendo abandonado por tantos anos pelo próprio país, vocês tirarem tanta beleza e poesia das mãos calejadas e das peles ressecadas de sol a sol.
Calem a boca, e deixem quem não tem nada pra dizer jogar suas palavras ao vento. Não deixem que isso os tire de sua posição majestosa na construção desse povo maravilhoso, de tantas cores, sotaques, religiões e gentes.
Calem a boca, porque a história desse país responderá por si mesma a importância e a contribuição que vocês nos legaram, seja na literatura, na música, nas artes cênicas ou em quaisquer situações em que a força do seu povo falou mais alto e fez valer a máxima do escritor: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte!”
Que o Deus de todos os povos, raças, tribos e nações, os abençoe, queridos irmãos nordestinos!
Autor: José Barbosa Junior, na madrugada de 03 de novembro de 2010.
Fonte: [ Crer e Pensar ]
Via: [ Púlpito Cristão ]
24.10.2010
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A Bíblia não esconde o fato de que além do cristianismo verdadeiro, legítimo, renascido da “água e do espírito”, há também um cristianismo aparente, formado por “cristãos” que não estão ligados a Jesus, não estão enraizados nEle, não vivem nEle e nem por Ele. Mesmo que tudo pareça legítimo, eles não passam de uma imitação. É desses “cristãos” que Paulo fala ao escrever a Timóteo, em sua segunda carta: “…tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes” (2 Tm 3.5). A Edição Revista e Corrigida diz: “…tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te”. Na Nova Versão Internacional lemos: “…tendo aparência de piedade, mas negando o seu poder. Afaste-se desses também”.
De acordo com pesquisas nos EUA, quase metade dos americanos se dizem cristãos renascidos. Mas uma análise mais aprofundada revelou que muitos confundem o novo nascimento com uma sensação positiva a respeito de Deus e de Jesus.
Um levantamento estatístico entre os cristãos praticantes nos EUA apresenta resultados desanimadores, o que também é representativo em relação à Europa:
Se a situação já é assim na América marcada pela influência do puritanismo, quanto mais na superficial Europa.
O próprio Senhor Jesus advertiu a respeito da confissão nominal, que carece de conteúdo verdadeiro, ou seja, que não está de acordo com o que vai no coração: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade” (Mt 7.21-23). Com isso, o Senhor esclarece quatro pontos básicos: há duas coisas que não são de forma alguma suficientes para que alguém seja salvo, e outras duas são imprescindíveis para que alguém seja redimido.
Nem a simples confissão “Senhor, Senhor” (1) nem as obras em nome de Jesus (2) são suficientes para alcançar a salvação eterna. Em muitas igrejas, denominações e entidades cristãs as orações são meramente formais, os atos de caridade são feitos em nome de Jesus sem que aqueles que os realizam pertençam a Ele ou sejam filhos de Deus. Quantos indivíduos “cristãos” realizam atos cristãos sem pertencerem a Cristo! É assustador que no fim Jesus até mesmo condena as suas ações como sendo iníquas: “Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade”.
Precisamos fazer a vontade de Deus (1) e precisamos ser conhecidos por Deus (2).
1. Fazer a vontade do Pai celeste não é realizar muitas boas ações, pequenas e grandes, mas ter fé em Jesus Cristo, entregar conscientemente a vida a Ele e obedecer-Lhe na prática.
O judaísmo da época de Jesus tinha “boas ações” para apresentar: muitos eram fanáticos em seguir a lei, lidavam com a Palavra de Deus, expulsavam maus espíritos e faziam milagres. Mas uma coisa eles não queriam: crer em Jesus Cristo e, assim, aceitar a misericórdia que recebemos por meio dEle. Pensavam que chegariam ao céu sem Ele, que Deus reconheceria as suas obras e lhes permitiria entrar. Porém, foi justamente nesse ponto que Jesus tratou de contrariar seus planos. Eles tinham de aprender e aceitar que a vontade de Deus era que reconhecessem sua própria falência espiritual e cressem em Jesus.
Nós enfrentamos o mesmo problema hoje. “Cristãos” nascidos em um ambiente cristão pensam que conseguirão ir para o céu por meio de obras cristãs. Ao lhes dizermos que nada disso serve, que no fim das contas as suas ações são iniqüidades inaceitáveis aos olhos de Deus e que eles continuam perdidos, a grande maioria reage de forma irritada, por pensar que não precisam de Jesus pessoalmente. Quando Jesus foi questionado: “Que faremos para realizar as obras de Deus?”, Ele respondeu: “A obra de Deus é esta: que creiais naquele que por ele foi enviado” (Jo 6.28-29).
2. Precisamos ser conhecidos por Deus. Haverá pessoas das quais Jesus dirá naquele dia:“Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade”.
Não é suficiente crer em Jesus de forma superficial, reconhecê-lO, acreditar em Sua existência ou aceitá-lO até certo ponto. Não – é preciso que haja um encontro pessoal com Ele.
Posso dizer: “Conheço o presidente do Brasil”. De onde o conheço? De suas aparições na mídia. Mas será que ele me conhece? Claro que não! No entanto, se eu fosse convidado a visitá-lo, teria a oportunidade de ser conhecido por ele.
O Senhor Jesus convida cada ser humano, de forma pessoal, a entregar-se a Ele: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt 11.28). Quem aceita esse convite, quem se achega a Ele com todos os seus pecados, quem O aceita em seu coração e em sua vida e crê em Seu nome (Jo 1.12), esse é conhecido por Ele. Quem fez isso reconheceu o Pai e o Filho de Deus e entrará no céu: “E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3).
“Tens nome de que vives…
…e estás morto” (Ap 3.1). Há muitos que se chamam de “cristãos”, mas o são apenas nominalmente. O Senhor Jesus falou de pessoas que imaginariam servir a Deus matando justamente Seus verdadeiros filhos: “Eles vos expulsarão das sinagogas; mas vem a hora em que todo o que vos matar julgará com isso tributar culto a Deus. Isto farão porque não conhecem o Pai, nem a mim” (Jo 16.2-3).
Em muitas igrejas, denominações e entidades cristãs as orações viraram rotinas, sem que aqueles que oram pertençam a Jesus.
Eles reivindicam autoridade teológica, pensam servir a Deus, mas não conhecem nem o Pai nem Jesus Cristo. Isso aconteceu, por exemplo, na época das Cruzadas e da Inquisição. Hoje também existe uma teologia que reivindica toda autoridade para si e rejeita os que se baseiam na Palavra de Deus. Basta lembrar das muitas seitas e do islamismo, que afirmam que Deus não tem um Filho.
Já no século VII antes de Cristo, na época do profeta Jeremias, havia dignitários religiosos meramente nominais. Ouvimos o lamento de Jeremias: “Os sacerdotes não disseram: Onde está o Senhor? E os que tratavam da lei não me conheceram, os pastores prevaricaram contra mim, os profetas profetizaram por Baal e andaram atrás de coisas de nenhum proveito” (Jr 2.8).
Mesmo um cristão pode apostatar da fé. Quem com sua boca confessa ser cristão, mas não pratica o cristianismo no dia-a-dia, precisa aceitar que outros lhe perguntem se não está enganando a si mesmo.
Não é exatamente isso que vemos hoje? Muitos teólogos abandonaram a fé bíblica e correm atrás de convicções que não servem para nada. Eles se abriram para religiões e correntes espirituais que não têm absolutamente nada a ver com Jesus Cristo. Isso também já aconteceu na época em que o povo de Israel peregrinou pelo deserto. Depois de ter louvado a grandeza e a soberania de Deus (Dt 32.3-4), Moisés emendou uma declaração sobre os infiéis: “Procederam corruptamente contra ele, já não são seus filhos, e sim suas manchas; é geração perversa e deformada” (v.5). Portanto, realmente é possível que aqueles que não são Seus filhos se tornem infiéis a Ele.
É dito a respeito dos filhos de Eli: “Eram, porém, os filhos de Eli filhos de Belial e não se importavam com o Senhor… Era, pois, mui grande o pecado destes moços perante o Senhor, porquanto eles desprezavam a oferta do Senhor” (1 Sm 2.12,17). Não reconheceram ao Senhor porque desprezaram o sacrifício. Enquanto uma pessoa (por mais cristã que se considere) desprezar o sacrifício de Jesus pelo pecado, não reconhecerá o Senhor.
Todos os israelitas saíram do Egito, mas da maior parte deles Deus não se agradou, motivo pelo qual tiveram de morrer no deserto (veja 1 Co 10.1-12).
Como exemplo especial de alguém que era crente nominal e que realizava obras, mas que ainda assim estava espiritualmente morto, lembro de Balaão (veja Nm 22-24):
Apesar de tudo isso, a Bíblia chama Balaão de falso profeta, vidente e sedutor (veja Nm 31.16; Js 13.22; Ne 13.1-3; 2 Pe 2.15-16; Jd 11; Ap 2.14-16). Por quê? Porque Balaão fazia concessões e aceitava comprometimentos, e levou o povo de Deus a se misturar com outros povos. Havia uma discrepância entre suas palavras e ações. “Habitando Israel em Sitim, começou o povo a prostituir-se com as filhas dos moabitas. Estas convidaram o povo aos sacrifícios dos seus deuses; e o povo comeu e inclinou-se aos deuses delas. Juntando-se Israel a Baal-Peor, a ira do SENHOR se acendeu contra Israel” (Nm 25.1-3). Balaão havia levado Israel a essa prostituição (Nm 31.16; Ne 13.1-3). Pedro chama Balaão de alguém que“amou o prêmio da injustiça”. Na Epístola de Judas ele é chamado até mesmo de enganador (“erro de Balaão”) e no Apocalipse ele é apresentado como alguém que “armou ciladas”.
A Bíblia diz a respeito das pessoas nos últimos tempos que “os homens perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados” (2 Tm 3.13). Quem tende a prostituir-se espiritualmente ou a comprometer sua fé e suporta, permite e pratica essas coisas sem que sua consciência o acuse, tem motivo para crer que, apesar das aparências, não é um cristão verdadeiro. Com isso não estou me referindo à luta contra o pecado, que qualquer filho de Deus enfrenta. Não, aqui não se trata de “derrotas” na fé e na obediência, mas de lidarmos com o pecado de forma consciente e indiferente, de deliberadamente escolhermos a prática pecaminosa.
Não somos salvos por nossas próprias obras, mas somente pela fé em Jesus Cristo, pela conversão a Ele. Só aqueles que O aceitam, ao Filho de Deus, em seu coração e em sua vida, com fé infantil, poderão realizar obras que testemunhem a veracidade de sua fé. Essa fé precisa estar “enraizada” na Palavra de Deus. Em Sua parábola sobre o semeador, Jesus diz que há pessoas que aceitam a Palavra de Deus com alegria, mas não criam raízes para ela e mais tarde a abandonam (Mt 13.20-21). A raiz liga a planta à terra, da qual ela vive, lhe dá firmeza, extrai alimento e o conduz à planta. A raiz é um símbolo do Espírito Santo, por meio do qual estamos enraizados em Deus. O Espírito Santo nos traz a vida em Deus, à medida que extrai alimento das Escrituras.
Podemos aceitar a Palavra de Deus de forma superficial, podemos simpatizar com o Senhor, podemos acompanhar os cristãos durante algum tempo, mas depois nos afastar novamente, porque nunca nascemos realmente de novo e por isso nunca tivemos “raízes”.
Jesus disse aos Seus discípulos, àqueles que O seguiam: “Contudo, há descrentes entre vós. Pois Jesus sabia, desde o princípio, quais eram os que não criam e quem o havia de trair” (Jo 6.64). De acordo com Hebreus 6.4-6, há pessoas que foram “iluminadas”, que “provaram o dom celestial”, e que até “se tornaram participantes do Espírito Santo” e ainda assim caíram. Por quê?
É possível que pessoas assim imitem o cristianismo durante algum tempo, acompanhem e participem de uma igreja local. Mas um dia elas “cairão” e negarão a Jesus. Então muitos se perguntam espantados: “Como isso é possível?”
Quando o Senhor Jesus falou de comer Sua carne e beber Seu sangue para ganhar a vida eterna (Jo 6.53-59), muitos de Seus discípulos disseram: “Duro é este discurso; quem o pode ouvir?” (v. 60) e se afastaram dEle (v. 66), apesar dEle ter lhe explicado de antemão o que isso significava: “O espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida” (v. 63).
Enganam-se a si mesmos os que pensam que todos são cristãos! Muitas vezes, quando questionei pessoas que davam a entender isso, a resposta era: “Meus pais são cristãos”, ou: “Minha família é cristã!” Um conhecido evangelista costumava responder a essas afirmativas: “Se alguém nasce em uma garagem, isso não significa que seja um automóvel! E quando alguém nasce em uma família cristã, ainda falta muito para que se torne cristão!” (extraído de um livro de Wilhelm Busch).
Jesus disse a Pedro: “Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; tu, pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos” (Lc 22.32). Por um lado, o Senhor confirmou a fé de Pedro. Por outro lado, porém, Ele falou da necessidade de sua conversão futura. Pedro poderia ter retrucado: “Senhor, sou judeu, um filho de Abraão. Cumpro os mandamentos, fui circuncidado ao oitavo dia, guardo o sábado, oro três vezes ao dia, celebro a Páscoa e faço os sacrifícios. E já Te sigo há três anos…” Mesmo assim, ele ainda precisava converter-se. Da mesma forma Paulo, o grande defensor da lei, precisou se converter, assim como todos os outros apóstolos e discípulos.
Toda pessoa precisa se converter se quiser ser salva – inclusive os “cristãos”, sejam eles membros da igreja católica romana, protestantes, evangélicos ou de uma família cristã. Não são poucos os que nascem no cristianismo, da mesma forma como os judeus nascem no judaísmo. Mas, não é esse nascimento que dá a salvação, alcançada somente através de um “novo nascimento”: “Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (Jo 3.3). Precisamos nos converter mesmo que tenhamos sido batizados quando pequenos, freqüentado aulas de catecismo ou participado de cultos. Se não nascermos de novo, continuaremos perdidos.
Mais tarde, quando o apóstolo Pedro se converteu e experimentou o novo nascimento, ele escreveu em sua primeira carta: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus para vós outros” (1 Pe 1.3-4).
Quem carrega em si o testemunho do Espírito Santo a respeito de seu novo nascimento (Rm 8.16) deve alegrar-se com essa certeza e agradecer a Jesus Cristo por ela. Mas quem não possui esse testemunho inconfundível do Espírito Santo e ainda assim pensa ser cristão, está sujeito a um grande engano. Mas hoje esses “cristãos”, e qualquer pessoa que queira ser salva, pode alcançar a certeza da salvação, se converter-se de forma muito séria a Jesus Cristo. Então, por que esperar mais?
Norbert Lieth
Fonte: Título original, “O Grande Engano”, Publicado anteriormente na revista Chamada da Meia-Noite, dezembro de 2006.
in Discernimento Cristão (blog)
15.10.2010
CATOLICISMO, Catolicismo: Respostas Bíblicas !, Humor, Mensagens Católico, Catolicismo, Demônio, Doutrinas, Heresias, Igreja, Ladainha, Nossa Senhora, Resa, Reza, Rosário, Santa Sé, Santos, Seitas, Terço, Vaticano Deixe o seu comentário
1) Introdução
A Igreja Católica Apostólica Romana presta uma espécie de veneração especial a Maria, chamada hiperdulia (algo como hiper veneração). Todos os demais santos são merecedores apenas de dulia (veneração) e apenas a Deus é reservada a latria, que é a adoração.
Teoricamente estas definições podem até ser compreensíveis, porém a prática nos revela algo totalmente diferente.
João Paulo II, grande devoto de Nossa Senhora e que demonstrou isto em toda a sua trajetória como pontífice disse o seguinte no encontro com os jovens na Basílica Vaticana em 10 de janeiro de 1979:
“O assunto, para o qual desejaria chamar a vossa atenção neste momento, está muito perto da vossa sensibilidade. Quereria, de fato, deter-me convosco a contemplar ainda a cena maravilhosa que o mistério do Natal nos colocou diante dos olhos. É cena que vos é familiar: muitos de vós reviveram-na ativamente nestes dias, construindo o presépio nas suas casas. Pois bem, entre os protagonistas desta cena, convido-vos esta manhã a olhar para Maria, a Mãe de Jesus e nossa Mãe.”
A Igreja mesma nos sugere esta atenção particular para com Nossa Senhora: quis que o Último dia da oitava do Natal, e primeiro dia do ano novo, fosse consagrado à celebração da Maternidade de Maria. É evidente, pois, a intenção de dar realce ao “lugar” da Mãe, diria à “dimensão maternal” de todo o mistério do nascimento humano de Deus.
Não é intenção sua que isto se manifeste só neste dia. A veneração da Igreja para com Nossa Senhora — veneração que supera o culto de qualquer outro santo e toma o nome de “hiperdulia” — invade todo o ano litúrgico.” [1]
Esta é uma pequena demonstração de como a ICAR tem voltado o seu foco sistematicamente para Maria, tirando-o do único e verdadeiro Salvador, Jesus Cristo.
2) O surgimento do rosário
Um instrumento poderoso para este desvio do foco em Cristo, o Santo Rosário, surgiu aproximadamente no ano 800 e consistia na reza de 150 pais-nossos pelos leigos que não sabiam ler, de forma a imitar os monges que rezavam os Salmos (150). Com o passar do tempo formaram-se outros três saltérios com 150 aves-Maria, 150 louvores em honra a Jesus e 150 louvores em honra a Maria. O Rosário como conhecemos hoje surgiu em 1206, quando a Virgem teria supostamente aparecido a São Domingos e revelado que era uma arma poderosa para a conversão dos hereges e outros pecadores. O primeiro documento impresso que explica claramente como rezar o rosário surgiu em Colônia, na Alemanha, em 1476.
Ao longo do tempo recebeu algumas implementações, sendo a última em 16/10/2002 através da Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae [2] publicada pelo papa João Paulo II em que adicionou-se mais 50 aves-Maria e 5 pais-Nosso sob o título de Mistérios Luminosos [3] aos já rezados mistérios gozosos, mistérios dolorosos e mistérios gloriosos. Desde tal data o rosário passou a ser composto por 212 aves-Maria, 4 salve-rainhas e 24 pais-nosso [4]. Pela distribuição das rezas fica notável que o foco não é Cristo, mas sim Maria.
3) “Revelações” acerca do rosário
Muitas são as informações que os católicos recebem acerca de diversas supostas aparições de Maria com uma mensagem de estímulo à reza do seu rosário:
“Quero que saiba que, a principal peça de combate tem sido sempre o saltério Angélico (Rosário) que é a pedra fundamental do novo testamento. Assim quero que alcances estas almas endurecidas e as conquiste para Deus, com a oração do meu saltério” esta frase teria sido dita a São Domingo em uma aparição da Virgem Maria dos Católicos.
À Beata Alexandrina de Balasar, nascida em 1904 e falecida em 1955, a ICAR afirma que Nossa Senhora muitas vezes lhe falou do rosário, recomendando-o como arma eficaz contra as ciladas do demônio e como oração que agrada a Jesus, porque honra Maria, sua Mãe.
A ICAR diz que a reza do rosário agrada a Cristo, porém ela leva seus praticantes a distanciarem-se do nosso Senhor e Salvador e ter como foco principal a mãe de Jesus.
Dentre as muitas “revelações” dadas pela senhora dos católicos acerca do seu rosário, uma em especial é objeto deste artigo, pois faz com que os rezadores do terço deixem de depositar sua confiança em Cristo, nosso Senhor e único Salvador, e passem e esperar em Maria.
4) As 15 promessas do Santo Rosário
Alain de la Roche, titulado beato pela ICAR, nascido na França em 1428 e falecido na Holanda em 1475, afirma ter recebido uma mensagem especial de Maria acerca do seu rosário. Segundo ele, a senhora dos católicos lhe revelou 15 promessas para os que rezassem o rosário devotamente. Abaixo faremos um confronto entre estas promessas e o que a Bíblia nos diz acerca do que foi prometido:
1) A todos aqueles que recitarem o meu Rosário prometo a minha especialíssima proteção.
O SENHOR é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei? O SENHOR é a força da minha vida; de quem me recearei? [Sl 27:1]
O SENHOR está comigo; não temerei o que me pode fazer o homem. [Sl 118:6]
Eu, porém, cantarei a tua força; pela manhã louvarei com alegria a tua misericórdia; porquanto tu foste o meu alto refúgio, e proteção no dia da minha angústia. [Sl 59:16]
2) Quem perseverar na reza do meu Rosário, receberá graças potentíssimas.
Porque o SENHOR Deus é um sol e escudo; o SENHOR dará graça e glória; não retirará bem algum aos que andam na retidão. [Sl 84:11]
O homem de bem alcançará o favor do SENHOR, mas ao homem de intenções perversas ele condenará. [Pv 12:2]
Bem-aventurado o homem que me dá ouvidos, velando às minhas portas cada dia, esperando às ombreiras da minha entrada. Porque o que me achar, achará a vida, e alcançará o favor do SENHOR. [Pv 8:34-35]
3) O Rosário será uma arma potentíssima contra o inferno, destruirá os vícios, dissipará o pecado e derrubará as heresias.
Tenho posto o SENHOR continuamente diante de mim; por isso que ele está à minha mão direita, nunca vacilarei. Portanto está alegre o meu coração e se regozija a minha glória; também a minha carne repousará segura. Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção. [Sl 16:8-10]
Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores, assim pela obediência de um muitos serão feitos justos. Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse; mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça; Para que, assim como o pecado reinou na morte, também a graça reinasse pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor. [Rm 5:19-21]
Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: adultério, prostituição, impureza, lascívia, Idolatria, feitiçaria, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, Invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus. Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança. Contra estas coisas não há lei. [Gl 5:19-23]
4) O Rosário fará reflorir as virtudes, as boas obras e obterá às almas as mais abundantes misericórdias de Deus.
E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição;
Para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou [Rm 9:22-23]
Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), E nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus; [Ef 2:4-6]
As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; Novas são cada manhã; grande é a tua fidelidade. [Lm 3:22-23]
5) Quem confiar-se a Mim, com o Rosário, não será nunca oprimido pelas adversidades.
Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo. [Jo 16:33]
E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus. [Fp 4:7]
Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. [Mateus 11:28,29]
6) Quem quer que recitar devotadamente o Santo Rosário, com a meditação dos Mistérios, se converterá se pecador, crescerá em graça se justo e será feito digno da vida eterna.
Todavia digo-vos a verdade, que vos convém que eu vá; porque, se eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, quando eu for, vo-lo enviarei. E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça e do juízo. [Jo 16:7-8]
Antes crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. A ele seja dada a glória, assim agora, como no dia da eternidade. Amém. [2Pe 3:18]
Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie; [Ef 2:8-9]
7) Os devotos do Meu Rosário na hora da morte, não morrerão sem os sacramentos.
A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. [Rm 10:9-10]
8 ) Aqueles que rezam o Meu Rosário encontrarão, durante sua vida e na hora de sua morte, a luz de Deus e a plenitude das suas graças e participarão aos méritos dos abençoados no Paraíso.
Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim. [João 14:6]
9) Eu libertarei, todos os dias, do Purgatório, as almas devotas do Meu Rosário.
Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie; [Ef 2:8-9]
Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; (…) Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; (…) E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna. [Mt 25:34,41,46] (não existe purgatório na Bíblia)
10) Os verdadeiros filhos do Meu Rosário gozarão de uma grande alegria no Céu.
…eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância. [João 10:10b]
Nunca mais terão fome, nunca mais terão sede; nem cairá sobre eles o sol, nem calor algum; porque o Cordeiro que está no meio, diante do trono, os apascentará e os conduzirá às fontes das águas da vida; e Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima. [Apoc. 7:16,17]
11) Aquilo que se pedir com o Rosário se obterá.
E tudo quanto pedirdes em meu nome eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. [Jo 14:13]
Eu sou o SENHOR; este é o meu nome; a minha glória, pois, a outrem não darei, nem o meu louvor às imagens de escultura. [Is 42:8]
12) Aqueles que propagarem o Meu Rosário serão por mim socorridos em todas as suas necessidades.
Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia. [Is 46:1]
13) Eu consegui do Meu Filho que todos os devotos do Rosário tenham, por irmãos em sua vida e na hora de sua morte, os Santos do Céu.
E em nenhum outro há salvação; porque debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, em que devamos ser salvos. [Atos 4:12]
14) Aqueles que recitarem o Meu Rosário fielmente serão todos filhos meus amantíssimos, irmãos e irmãs de Jesus.
Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes em temor, mas recebestes o Espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai.O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados. [Rm 8:15]
15) A devoção do Santo Rosário é um grande sinal de predestinação.
Nele (Cristo), digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade; [Ef 1:11]
Estes combaterão contra o Cordeiro, e o Cordeiro os vencerá, porque é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis; vencerão os que estão com ele, chamados, e eleitos, e fiéis. [Ap 17:14]
5) Conclusão
É notório que a ICAR tem permitido e incentivado que seus fiéis afastem-se da verdadeira adoração ao único e exclusivo Senhor e Salvador Jesus Cristo ao desviarem seu foco para a mãe de Jesus, Maria, transformando-a em objeto de esperança [Rm 5:1-2] [Ef 4:4-6] [Cl 1:26-28] [1Ts 1:2-4] [2Ts 2:16] [1Tm 1:1] [Hb 10:23] [1Pe 1:21]
O conhecimento da Bíblia Sagrada, lida sem o filtro da tradição e do magistério, mas sim sob a iluminação do Espírito Santo nos revela o quão equivocada é a atitude de rezar para quem não pode salvar e esperar nas promessas de quem não pode cumpri-las.
Somente o Senhor Jesus é capaz de nos proteger, salvar, livrar do mal e dar Sua graça e misericórdia, pois em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos. [At 4:12]
Caminhemos firmes olhando sempre para o autor e consumador de nossa fé, Jesus Cristo [Hb 12:2], esperando apenas Nele.
Notas
[1] http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/1979/january/documents/hf_jp-ii_spe_19790110_giovani_po.html acessado em 23/08/2008.
[2]http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/apost_letters/documents/hf_jp-ii_apl_20021016_rosarium-virginis-mariae_po.html acessada em 23/08/2008
[3] http://www.vatican.va/special/rosary/documents/misteri_luminosi_po.html acessada em 23/08/2008
[4] Além das 50 aves-Maria e dos 5 pais-nosso de cada terço, há também outras repetições destas rezas e de algumas outras no decorrer de cada terço rezado.
Fonte: [ NAPEC ]
30.09.2010
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“Tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus.”
Romanos 3.26
O problema que somente Deus podia resolver é o perdão do pecado. Muitas pessoas, criadas segundo a tradição cristã, nunca reconheceram ser isto um problema. Seu conceito de Deus e suas idéias sobre o pecado são tão confusos que não percebem qual é a dificuldade da questão. A atitude de milhões de pessoas no que diz respeito ao pecado é refletida na observação zombeteira de certo crítico que disse: “Certamente creio que Deus perdoa pecados; afinal, é negócio dele mesmo”. Outros não sentem a necessidade do perdão. O poeta americano, Walt Whitman, diz: “Os animais não ficam acordados a noite inteira chorando por causa dos seus pecados, e nós também não devemos fazê-lo”.
Embora milhões de pessoas não tenham sentido qualquer problema quanto ao perdão dos pecados, considerando o assunto como matéria vencida, outras tantas rejeitam inteiramente o conceito de pecado. Os grandes pensadores de outras eras reconheceram a realidade da culpa, e compreenderam que existe uma dificuldade real. Lutero percebeu claramente o problema. Lutou com ele durante muitos anos amargos e angustiantes, e quando, finalmente achou a solução na carta de Paulo aos Romanos, foi o maior reavivamento que a igreja já experimentou desde o derramamento do Espírito Santo no Pentecostes. A Lutero devemos não somente a redescoberta da solução do problema, como também a maneira de exprimi-la em palavras. O problema é: como Deus pode ser justo e ao mesmo tempo perdoar os pecados? F.F. Bruce, no seu comentário sobre Romanos, mostra-nos como o poeta romano, Horácio, oferecendo diretrizes básicas para os escritores de tragédias daquela época, critica os que apelam com demasiada facilidade ao artifício de trazer ao palco um deus para solucionar os emaranhados detalhes desenvolvidos no decurso do enredo. O conselho que Horácio dá aos dramaturgos contemporâneos é no sentido de não colocarem em cena um deus, a não ser que o problema seja tão grave, que haja necessidade da presença de um deus para soluciona-lo. Lutero tomou para si estas palavras, aplicando-as ao perdão dos pecados: “Temos aqui um problema que precisa de Deus para a sua solução”.
Chegamos neste capítulo à passagem em Romanos onde Lutero descobriu a solução. Nesta parte de Romanos, no capítulo 3, Paulo nos oferece, antes de qualquer coisa, uma declaração exata da natureza do problema, e em seguida, uma explicação exata da solução.
Examinemos em primeiro lugar a definição que Paulo nos dá do problema da salvação dos pecadores. O primeiro requisito para a solução de qualquer problema é saber qual é realmente o problema. Se você tem lutado com um problema por muito tempo, levando-o a um amigo, você já sabe o que significa receber uma resposta fácil que oferece uma solução errônea e artificial. Quando isso acontece, você fala um pouco contrariado: “Mas você não entende o problema…”. Há hoje em dia um grande número de pessoas com respostas fáceis e inconseqüentes para o problema humano; no entanto, suas respostas demonstram que realmente elas não entendem do que falam. E é a falha do entender o problema do pecado que levou o homem às dificuldades que enfrenta atualmente. Parece que o pecado não constitui problema algum para milhões de pessoas. Caso encontram alguém que se preocupa com isso, alguém que se perturba pela culpabilidade do próprio pecado, têm-no na conta de um fanático, pensam que tal pessoa precisa da psicanálise e não da salvação. O exame clássico de uma consciência culpada acha-se na grande obra de Bunyan, “Graça Abundante”, mas é considerado hoje – até por muitos membros de igrejas – como exagero, ou mórbida e trágica obsessão. É um truísmo dizer que nenhum problema pode ser solucionado até ser entendido, e que nenhuma solução ao problema humano se nos apresentará até que entendamos o problema do pecado.
O pecado é problema por duas razões: a primeira é que a natureza do homem, conforme demonstramos no capítulo passado, é totalmente depravada. Ele é corrupto; é totalmente incapaz de salvar-se a si mesmo. Não pode remover a culpa do seu próprio pecado, e não consegue se desvencilhar do poder que o pecado exerce sobre ele, prendendo-o. Não pode sarar as chagas, não pode curar a doença. Do ponto de vista humano, o pecado não tem solução nem cura. Esta é a primeira parte do problema.
Há, porém, outra dificuldade no problema do pecado, que existe em conexão com a natureza de Deus, e é este um ponto central que a maioria dos homens modernos deixa de perceber. O pecado se constitui em problema justamente porque Deus é justo. Foi este o problema de Lutero. Como pode o Deus absolutamente justo perdoar o pecado? Ele é o Juiz de toda a terra, e, “Não agirá retamente o Juiz de toda a terra?” Deixar passar uma injustiça, ignorar um crime, não tomando conhecimento dele, é um ato de injustiça tão grande quanto a condenação de inocentes. A dificuldade quanto ao perdão dado ao homem acha-se na justiça divina. A pergunta não é somente: Quem pode perdoar pecados senão somente Deus: e sim mais profundamente: Como pode o próprio Deus perdoar pecados? Deus é justo, e a justiça significa que as exigências da lei devem ser cumpridas. A penalidade do pecado precisa ser paga. Isto é necessário num universo moral, e é este problema que somente Deus, onipotente e onisciente poderia resolver. Ele o solucionou mesmo, e o resultado disto é um evangelho glorioso para ser pregado aos pecadores.
Vamos agora examinar a solução do problema. Nesta seção de Romanos 3 não somente anuncia o fato do perdão, como também se nos apresenta uma declaração cuidadosa e analítica que demonstra como Deus perdoa nosso pecado.
Antes de examinarmos a declaração integral da solução do problema da culpa e do pecado, quero fazer uma pequena pausa para dirigir a atenção do leitor à coisa maravilhosa que é o perdão. Um dos grande estudiosos do Novo Testamento, que viveu no século XIX, disse: “Quanto mais vivo, quanto mais importante e maravilhoso me parece o perdão dos pecados.” O fato do perdão é proclamado tanto no Antigo Testamento como no Novo. O sinal da nova aliança, segundo a descrição de Jeremias é: “Não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao SENHOR, porque todos me conhecerão, desde o menor até o maior deles, diz o SENHOR. Pois perdoarei as suas iniqüidades, e dos seus pecados jamais me lembrarei” (Jr 31.34). Deus anuncia ao Seu povo: “Desfaço as tuas transgressões como a névoa, e os teus pecados como a nuvem; torna-te para mim, porque eu te remi” (Is 44.22). As riquezas da graça perdoadora de Deus são proclamadas em todas as partes do Novo Testamento, e são demonstradas na terra através do ministério público de Jesus Cristo, que disse aos pecadores: “São perdoados os teus pecados; vai e não peques mais”. O perdão, portanto, é um fato, uma realidade. É ponto central da fé cristã, sendo sui generis e distinto, porque se encontra somente no Evangelho glorioso de Jesus Cristo.
Este Evangelho de Cristo, no entanto, não proclama somente o fato do perdão; ensina-nos como Deus perdoa os pecados. Pelo Evangelho, ficamos sabendo que Deus solucionou o problema do pecado e da desobediência através do Seu Filho, Jesus Cristo. Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo (II Coríntios 5.19). Jesus Cristo é o único Mediador entre Deus e o homem. Ele é o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por Ele (João 14.6).
O Evangelho, no entanto, faz algo mais do que nos ensinar de modo geral que Deus nos aceita por amor a Jesus. O Novo Testamento é muito mais exato do que isso. Descrevendo como Deus perdoa os nossos pecados, indica-nos a cruz. É na morte de Cristo que a expiação é feita. Segue-se aqui a transcrição da declaração exata que responde à questão do problema que somente Deus poderia solucionar. Solucionou-o em Cristo, e foi da seguinte maneira:
“Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas; isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que crêem; porque não há diferença. Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus, ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus.”
Esta é uma passagem que cada crente deve saber de memória. É a passagem que cada pregador deve ter como base de todos os seus ensinos e na pregação do Evangelho de Cristo. O Evangelho muitas vezes é descrito em termos gerais como demonstração do amor de Deus; este amor, porém, esta misericórdia e graça de Deus, que resulta no perdão dos pecados, deve ser sempre interpretada à luz do restante da revelação da Bíblia, demonstrando como e por que Deus pode perdoar o pecado. O pecado é apagado porque a sua penalidade já foi paga pelo sangue de Jesus derramado na cruz. Na morte de Cristo Jesus, foi cumprida aquela maravilhosa profecia: “Encontram-se a graça e a verdade, a justiça e a paz se beijaram” (Salmos 85.10). Deus resolveu o problema do pecado, tomando sobre Si a culpa pelo pecado na Pessoa de Seu Filho, Jesus Cristo. “Aquele que não conheceu o pecado ele o fez pecado por nós; para que nós fôssemos feitos justiça de Deus” (II Coríntios 5.21). Sua justiça foi satisfeita em quem foi paga a penalidade: houve uma morte para expiar o pecado, e era a morte do próprio Filho de Deus, e, quando foi cumprida, Ele exclamou triunfante, “Está consumado!” Por essa razão, todo crente pode agora cantar alegre:
“Completou-se a grande transação, Sou do Senhor, e Ele é meu.”
Ainda acima, eu disse que os homens que mais claramente perceberam o problema do pecado – homens como Lutero e Bunyan – são os mesmos que exprimiram a mais sublime alegria e gratidão na solução do mesmo. Bunyan fala em nome de todos os crentes que já compreenderam o problema do pecado quando diz, em sua autobiografia clássica: “Enquanto andava para cima e para baixo na casa, como quem chegou ao limite da angústia, aquele trecho da Palavra de Deus tomou posse do meu coração: ‘sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus’ (Romanos 3.24). Mas, oh, quão grande o transtorno que isso me causou. De repente eu fiquei como alguém que desperta de um sonho perturbador. Ouvindo a sentença celestial, senti-me como se estivesse escutando a seguinte explicação: ‘Pecador, tu pensas que, por causa dos teus pecados e das tuas enfermidades, Eu não posso salvar a tua alma, mas eis que o Meu Filho está ao Meu lado e é para Ele que Eu olho, e não para ti, e, assim, Minha maneira de tratar contigo é de acordo com a minha satisfação nEle’.”
Nosso interesse aqui, no entanto, não é meramente doutrinário ou acadêmico. Minha preocupação não é oferecer-lhe uma solução intelectual à dificuldade que há no perdão dos pecados. Minha preocupação é no sentido de você tirar benefício da solução, e você pode fazer isso, se confessar seus próprios pecados em Nome de Jesus, pedindo o perdão da parte de Deus. Nesta matéria a Bíblia é muito explícita. Depois de ser declarada a promessa de que o sangue de Jesus, o Filho de Deus, nos purifica de todo pecado, registra-se a seguinte orientação: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda injustiça” (I João 1.9). Se você ainda não fez assim, não quer fazê-lo agora? Curve a sua cabeça em oração e entregue sua vida a Deus em Jesus Cristo.
Estudos em Romanos 1.18 – 5.21
Dr. Henry Bast
27.09.2010
Devocionais, Mensagens, Mundo Gospel, Testemunhos Amor, Apóstolo Pedro, Coragem, Covardia, Discípulo, Fé, Maluco por Jesus, Medo, Práticas Judaizantes no Cristianismo verdadeiro, Presença de Deus, Sermão 1 Comentário









Pedro é esse que nos dá exemplo de nossa humanidade, de nossas fragilidades e limitações. Sua jornada com o Mestre, fala a respeito de nossa própria jornada.
Quando observamos este discípulo em suas afirmações, questionamentos e ações tempestivas de seu temperamento sanguíneo, vemos que Pedro era este para quem num instante o Mestre dizia, “foi Deus quem te revelou” para logo em seguida ser repreendido por apresentar ideias que vieram do inferno. (Mateus 16:16)
Podemos ver em Pedro o desejo de seguir os passos de Jesus, como ele mesmo dizia: “estou disposto a morrer por ti ou contigo”, no entanto, nos momentos de provas reais, vacilou, acovardou-se e fugiu da luta e exposição pública. (Mateus 26:69)
Era um homem como nós, de duplo ânimo, inconstante, incapaz de levar os seus compromissos até o fim, como vemos em várias passagens de sua caminhada com Jesus.
Mas num determinado momento da vida deste apóstolo, algo ocorreu e Pedro passou a ser o grande líder da igreja naqueles primeiros passos.
Aquele que havia negado o amigo e Mestre diante do confronto foi quem se levantou e fez uma das maiores exposições do plano eterno de Deus. O homem que se acovardara agora está cheio de ousadia, se expõe sem medo e restrições. Naquele primeiro sermão de Pedro mais de 3 mil pessoas se agregaram à Igreja. (Atos:14)
O que ocorreu com o Pedro para que tal mudança acontecesse? Como podemos ver estas mudanças em nossa própria vida no dia-a-dia? Como podemos viver a vida que Deus, o Pai, propõe para nós? Como vencer o medo, a timidez, o pecado que tão de perto nos cerca?
Como ter um vida constante diante dos homens e na presença de Deus?
O segredo está na experiência pessoal com o Espírito Santo de Deus que agora já não é mais um Deus distante e externo, mas a vida de Deus em nós. O Espírito de Deus passa habitar no nosso ser. Se quisermos viver a vida de Deus temos que ter uma experiência com o Espírito Santo e precisamos de ser cheios Dele. (Atos 2:3)
Foi isso que mudou a vida de Pedro, ele foi cheio do Espírito Santo e deixou de ser o que se acovardava para ser o homem cheio de coragem que Deus usa.
E se pedirmos do seu Espírito, o Pai nos dará.
Trocando idéias – Olgálvaro Bastos Jr. - Aug 7, 2009
27.09.2010
Devocionais, Mensagens, Mundo Gospel, Testemunhos Amor, Cair, Decepção, Erguer-se, Errar, Erro, Exortação, Fé, Idolatria, Igreja, Líderes Religiosos, Limite, Maluco por Jesus, Misericórdia de Deus, Obediência, Pastor, Perdão, Reflexão, Salvação, Super-Herói Deixe o seu comentário

Crescemos vendo super-heróis na TV. Eles eram sempre perfeitos, com seus poderes inimagináveis. A humanidade busca homens perfeitos, que nunca erram. Crescemos, contudo, continuamos buscando esses “super-heróis”. Cobramos muito daqueles que são autoridade sobre nós. Chega a ser uma perfeição subumana. Sejam essas pessoas nossos líderes, pastores, chefes, professores, e principalmente, os nossos pais. Não suportamos ou não sabemos lidar com o erro de quem está num patamar acima do nosso em autoridade. Tudo isso, não justifica as falhas, os erros. E não tira a responsabilidade dos erros das pessoas. Existe uma diferença entre o erro moral e erro comportamental (comportamentos que adquirimos ao longo da vida). Mas esta reflexão serve para alertar, para estimular o amor e o perdão e considerar aqueles que são lideres sobre as nossas vidas. Além disso, traz à tona a velha discussão acerca de alguns crentes que saem de suas igrejas devido à alguma decepção.
Lembremo-nos de Elias, profeta de Israel. Na época de Elias, Acabe e Jezabel reinavam em Israel. Baal era o deus adorado por eles. O capítulo 18 do livro de 1 Reis retrata algumas relatos sobre Elias. Ele era um homem de Deus que foi usado de uma forma maravilhosa. Ele também passou por maus momentos, muitas dificuldades. No entanto, ele permaneceu fiel diante de Deus e dos homens. Elias foi arrebatado por Deus, ele não morreu – 2 Rs 2.9. Quando analisamos a história deste homem de Deus, parece que não conseguimos observar erros em sua trajetória, mas ele errou. Nem por isso, sua história deixa de ter sua importância.
Cada um tem seu limite (vs. 1 a 4)
A rainha Jezabel ficou sabendo de tudo o que Elias fez no monte Carmelo com os profetas de Baal. Ela mandou dizer a ele que iria dar o troco. Com muito medo Elias fugiu para Berseba, ele andou aproximadamente 210 km e depois foi ao deserto. Lá ele assentou debaixo de um zimbro (árvore juniperácea), pegou uma sombra e clamou pela morte. Elias afinou para Jezabel. Ele não esperou pacientemente no Senhor. Ele se sentiu só e errou em não confiar em Deus. E Deus em seu amor e compaixão esperou o momento certo para confrontar Elias e mostrar a ele que há sempre um caminho, cuidando dele em amor e zelo.
Muitas vezes cobramos que as pessoas não errem. E quando elas erram não aceitamos e muitas vezes as rejeitamos, tratando-as com indiferença. Pessoas decepcionadas, em muitos casos até desviam-se da fé que professam, ou da igreja que frequentam, por causa dos erros do próximo. Está escrito na Bíblia em Jeremias 17.5: “Maldito o homem que confia no homem”. Achamos muitas vezes que o próximo é perfeito, um super-herói. Outra coisa que acontece é que achamos que os líderes são perfeitos, como super-heróis. Os líderes geralmente são alvo desses atos de insubmissão e rebeldia, ou ainda, retaliação.
Da mesma forma, os pais: alguns magoam com palavras, ficam muito nervosos, fazem diferença entre os filhos. Cobram demais, exigem tudo (estudo, casa, trabalho, irmãos). Além disso, descontam nos filhos os problemas pessoais. Muitos não têm tempo para estar com os filhos, substituindo a companhia dos filhos por outras coisas. Tantas razões levam muito adolescentes e até mesmo jovens dizerem: “Quero outro pai, outra mãe. Não agüento mais meus pais, não quero morar em casa”. Então o ódio, a raiva, o rancor e mágoa tomam conta do coração
Quem também geralmente enfrenta problemas de submissão e respeito à autoridade, são os professores e patrões. Há muita dificuldade por parte de muitos em respeitá-los e até mesmo em amá-los. Contudo, a maior parte das pessoas esquece que esses também erram. Eles são alvos de comentários e atos de julgamento.
Procure considerar (vs. 5 a 8)
Elias, o personagem dessa reflexão, teve seu limite. Deus buscou ajudá-lo no momento de agonia. Deus mostrou paciência, zelo, cuidado e amor para com Elias, ao enviar alimento e direcionamento a ele por diversas vezes, por meio de um anjo.
Aplicação
Procure compreender os limites dos outros, cada um tem o seu. Entender, considerar, passar por cima reflete o caráter de Deus em nós.
Algumas coisas a considerar:
Busque entender o momento (crise finaceira, problema no trabalho, TPM, pressão, tristeza) das pessoas. Você também erra, porque as autoridades em sua vida não podem errar? Busque considerar a história do próximo (na família, no trabalho etc). Procure enxergar as coisas boas também. Quando consideramos algumas questões para entender o outro, entendemos a linguagem do amor e mudamos nosso parâmetro de cobrança. Não é fácil ser mãe, pai, padrasto, madrasta, líder, pastor, professor, patrão etc.
Perdão e Amor (vs. 9 a 13)
Depois de tudo, Deus ainda fala com Elias. Elias foi para Horebe, foi envidado por Deus. Ele é levado para que Deus se revelasse, e assim voltaria aos momentos de origem do seu ministério como profeta. Deus se revela a Elias através de um ciclo suave. Deus não queria que Elias estivesse na situação difícil eu estava vivendo. O amor e o perdão são marcas fortes na atitude de Deus para com Elias.
Aplicação
“O amor encobre multidões de pecados”. Existem coisas que só o amor e o perdão podem resolver. Encarar, discutir, ódio, rancor, responder mal, não resolve nada. Ame apesar do erro. Líderes, Pai, mãe não deixam de ser seus pais por causa dos erros. Líderes, pastores, professores não deixarão de ser autoridades por causa do erro deles. As autoridades não aguentam tudo, como você também, mesmo que às vezes eles se mostrem super- heróis. Se coloque um minuto no lugar do próximo, e você será um pouco mais compreensivo.
Reflita
Como tem sido a minha relação com as autoridades que tenho em minha vida? Será que tenho buscado nas autoridades super-heróis? Seja mais compreensivo, paciente, amoroso, considere algumas coisas. Perdão e amor são atitudes que devem ser presentes na sua relação com as pessoas. A cura para qualquer dor e trauma familiar passa pelo perdão. Os maiores problemas que temos são dentro família e em nosso relacionamentos mais próximo. Se você deseja crescer, busque o perdão como remédio. Faça da mesma forma que Deus fez com Elias, exerça amor e zelo por aquelas pessoas que Deus colocou próximo a você, e que de alguma forma exercem autoridade a vocês.
::Pastor Bruno Barcelar
Integrante da liderança da Rede de Adolescentes da Lagoinha
Contato: (31) 8404-6457 – E-mail: bruno.barcelar@lagoinha.com
Texto adaptado: Redação Atos Hoje.
21.09.2010
Cultura, Devocionais, Mensagens, Saúde, Seitas Religiosas e Heresias, Testemunhos Adultério, Aliança, Bigamia, Concubinato, Condenação, Falsas Doutrinas, Idolatria, Infidelidade, Obediência, Pecado, Poligamia, Prostituição, Restauração, União Estável 1 Comentário
Conceito - União ilegítima do homem e da mulher.
a) o direito de não ser vendida a um povo estrangeiro:
“Se um homem vender sua filha para ser serva, ela não sairá como saem os servos.
Se ela não agradar ao seu senhor, de modo que não se despose com ela, então ele permitirá que seja resgatada; vendê-la a um povo estrangeiro, não o poderá fazer, visto ter usado de dolo para com ela.” Êxodo 21: 7, 8
b) se desposada obter todos direitos de esposa:
“Mas se a desposar com seu filho, fará com ela conforme o direito de filhas.” Êxodo 21: 9
c) direito a sair livre caso não se cumpra os direitos de esposa:
“Se lhe tomar outra, não diminuirá o mantimento daquela, nem o seu vestido, nem o seu direito conjugal.
E se não lhe cumprir estas três obrigações, ela sairá de graça, sem dar dinheiro.” Êxodo 21: 10, 11
d) direito de seus filhos serem reconhecidos como legítimos herdeiros dos bens do pai:
“Se um homem tiver duas mulheres, uma a quem ama e outra a quem despreza, e ambas lhe tiverem dado filhos, e o filho primogênito for da desprezada, quando fizer herdar a seus filhos o que tiver, não poderá dar a primogenitura ao filho da amada, preferindo-o ao filho da desprezada, que é o primogênito; mas ao filho da aborrecida reconhecerá por primogênito, dando-lhe dobrada porção de tudo quanto tiver, porquanto ele é as primícias da sua força; o direito da primogenitura é dele.” Deuteronômio 21 15-17
“É necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, temperante, sóbrio, ordeiro, hospitaleiro, apto para ensinar;
Os diáconos sejam maridos de uma só mulher, e governem bem a seus filhos e suas próprias casas.” 1 Timóteo 3: 2, 12
17.09.2010
Devocionais, Mensagens, Orações, Projetos, Saúde, Testemunhos Abominação, Aliança, Amor, Casamento, Condenação, Divórcio, Exortação, Fé, Fidelidade às Sagradas Escrituras, Filhos, Igreja, Noivos, Obediência, Separação Deixe o seu comentário
ESTUDO SOBRE O DIVÓRCIO
As estatísticas afirmam que dez anos atrás, havia menos de 100.000 divórcios o Brasil. Hoje são cerca de 200.000. Um em cada quatro casamentos no Brasil acaba em separação. Num período de quase 10 anos, o número de casamentos caiu, e de separações dobrou no país.
As causas do divórcio:
Se divórcio é o atestado do pecado humano, precisamos agora colocar algumas das mais freqüentes razões humanas para a separação. Quais são as razões ou causas da separação entre os casais? Gostaria de mencionar pelo menos quatro causas:
O A. T. já tratava com relação ao divórcio. A grande questão debatida está em Deuteronômio 24:1-4 “Quando um homem tomar uma mulher e se casar com ela, se ela não achar graça aos seus olhos por haver ele encontrado nela coisa vergonhosa, far-lhe-á uma carta de divórcio e lha dará na mão, e a despedirá de sua casa”.
O SIGNIFICADO DA PALAVRA “COISA INDECENTE” DE Dt 24.1
1 – A palavra hebraica, para “indecente” é ‘ervar davar (composto de ‘ervâh, nudez e davar, palavra), “Nudez de Palavra”.
Dando a entender que se trata de algo comprometedor, que a mulher expressa com palavras (palavra nua); palavrões; expressões grosseiras, que revelam falta de respeito; agressividade verbal; rebeldia; insubordinação.
TALMUDE – Doutrina e jurisprudência comentada da lei mosaica com explicações dos textos jurídicos do Pentateuco. O Talmud foi redigido durante aproximadamente mil anos, entre 450 a.C. e 500 d.C. É reconhecido pelos judeus como tendo a mesma autoridade do Antigo Testamento. Esse complexo literário rege a vida judaica até o dia de hoje, e desde longas datas tem exercido forte influência na vida do povo. Define “coisa indecente” de Dt 24:1 de várias maneiras e isso causou um desprezo e banalização do casamento, principalmente para as mulheres, que, logicamente se tornaram as maiores vítimas. Com isso, um judeu poderia dar a carta de divórcio por qualquer coisa, como por exemplo:
a) Abriga atitudes impróprias como andar com o cabelo solto;
b) Andar sozinha pela rua;
c) Conversar com outro homem;
d) Maltratar sogros;
e) Gritar com o marido;
f) Ter má reputação;
g) Revelar hábitos condenáveis.
Tudo isso, segundo pensamento judaico, está ligado à falta de respeito, a agressividade e à insubordinação da mulher para o casamento.
2 – É evidente que a “coisa indecente” não se referia ao adultério, pois esta era, nesse tempo, condenado com pena de morte – (DT 22.22) – “Se um homem for achado deitado com uma mulher que tem marido, então, ambos morrerão, o homem que se deitou com a mulher e a mulher; assim, eliminarás o mal de Israel”.
O QUE JESUS PREGOU?
MT 19.9 – “Quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra comete adultério…“. Gr. “porneia” – dultério, fornicação, homossexualidade, lesbianismo, relação sexual com animais, relação sexual com parentes próximos – Lv 18. A palavra explícita para adultério é “moichao” – ter relação ilícita com a mulher do outro – Mc 10.11-12.
O QUE DEUS PENSA SOBRE O DIVÓRCIO?
Ml 2.16 – “Porque o Senhor Deus de Israel diz que odeia o divórcio (repúdio)…“
ANÁLISE DO TEXTO DE 1CORÍNTIOS 7
O texto de 1Coríntios 7 é que trata de forma mais extensa sobre o divórcio. Algumas questões respondidas por Paulo neste capítulo: sexo no casamento, celibato, divórcio, sobre as virgens e viúvas. Tem três coisas que precisamos ter em mente para entendermos as questões levantadas:
(1) O dualismo grego. Os coríntios eram cheios de filosofias. A cidade de Corinto só perdia em termos de cultura e literatura para Atenas. Havia várias escolas filosóficas. A idéia que predominava era o dualismo grego: uma visão de mundo que via a realidade sob duas óticas ou o andar de cima e o andar de baixo. Dizia que o que era “espiritual” era bom e tudo que era material era secundário, inferior. Valoriza a alma em detrimento do corpo. Essa idéia influenciava no casamento. Principalmente o sexo. Alguns crentes achavam que o sexo era algo inferior e sem importância no casamento.
(2) O ambiente sexual da cidade de Corinto. Havia o templo de Afrodite e envolvia a prática da relação sexual com as sacerdotisas (prostituição cultual). Dizem que à noite as sacerdotisas saiam em busca de práticas sexuais na cidade. Um cristão sofria uma pressão muito grande nessa cidade.
(3) As perseguições aos cristãos corintianos. Poderiam ter os seus bens tomados pelas autoridades da cidade. O que deve um homem fazer? Casar e deixar sua esposa e filhos sujeitos a morte e prisões por causa da perseguição ou ficar solteiro? Posso me separar para servir a Deus? Meu marido não é crente, posso me separar dele para servir melhor a Deus? O que é melhor para os solteiros e as viúvas? Minha filha virgem deve casar-se ou manter-se pura para o Senhor?
O cap. 7 todo é a resposta de Paulo às perguntas feitas pela igreja de Corinto a respeito da vida conjugal. Suas instruções devem ser lidas à luz do versículo 26: “Tenho, pois, por bom, por causa da instante necessidade”. Um período de grande aflição e perseguição estava para vir sobre os cristãos de então, e nessa situação, a vida conjugal seria difícil.
Podemos inferir do texto algumas perguntas que o Apóstolo Paulo teve que responder.
Resposta a perguntas acerca do casamento
Pergunta: Paulo eu quero servir a Deus, mas o que é melhor, casar ou permanecer solteiro? Resposta: v. 1 e 2.
7.1 – “Ora, quanto às coisas que me escrevestes, bom seria que o homem não tocasse em mulher”.
QUE O HOMEM NÃO TOCASSE EM MULHER. Note-se que “não tocar em mulher” significa, aqui, não ter relações ou contato físico com as mulheres, ou seja, casar-se. É o ato sexual (Gn 20.6; Pv 6.29).
7.2 – “mas, por causa da prostituição, cada um tenha a sua própria mulher, e cada uma tenha o seu próprio marido”.
Um dos objetivos do casamento é a satisfação legítima do desejo sexual. Alternativa para a impureza sexual. O padrão aqui é monogâmico. Paulo não era machista, pensa na mulher.
Pergunta: Como deve ser o sexo para nós casados? Isso não é pecaminoso? Posso casar sem praticar o sexo? Resposta: v. 3 e 4.
7.3 – “O marido pague à mulher a devida benevolência, e da mesma sorte a mulher, ao marido”. Êx 21.10; 1Pe 3.7.
O MARIDO PAGUE À MULHER. Casou, sexo é dívida. O compromisso do casamento importa em cada cônjuge abrir mão do direito exclusivo ao seu próprio corpo e conceder esse direito ao outro cônjuge. Isso significa que nenhum dos cônjuges deve deixar de atender os desejos sexuais normais do outro. Tais desejos, dentro do casamento são naturais e providos por Deus, e evadir-se da responsabilidade de satisfazer as necessidades maritais do outro cônjuge é expor o casamento às tentações de Satanás no campo do adultério (v.5). A idéia que a abstenção é mais santa veio do paganismo (1Pe 3.7; Hb 13.4).
7.4 – “A mulher não tem poder sobre o seu próprio corpo, mas tem-no o marido; e também, da mesma maneira, o marido não tem poder sobre o seu próprio corpo, mas tem-no a mulher”.
Poder, i.e., autoridade. Cada cônjuge pertence um ao outro.
Pergunta: Mas Paulo eu gostaria de me santificar me abstendo do sexo, o que fazer? Resposta: v. 5 e 6.
7.5 – “Não vos defraudeis (priveis) um ao outro, senão por consentimento mútuo, por algum tempo, para vos aplicardes à oração; e, depois, ajuntai-vos outra vez, para que Satanás vos não tente pela vossa incontinência”.
Priveis. Defraudeis. Abstenção temporária, com consentimento mútuo e para uma finalidade boa, está certo. Assemelha-se ao jejum (Ec 3.5; Jl 2.16).
7.6 – “Digo, porém, isso como que por permissão e não por mandamento”.
Isto. 7.2-5. Geralmente o homem deve casar-se. Paulo prefere o celibato por boas razões (29, 32, 35) e porque tem um dom (gr charisma) de Deus. O casamento exige dons também (Mt 19.10-12).
Pergunta: O casamento e o celibato são dons ou uma opção? Resposta: v. 7.
7.7 – “Porque quereria que todos os homens fossem como eu mesmo; mas cada um tem de Deus o seu próprio dom, um de uma maneira, e outro de outra”. At 26.29; 1Co 9.5; 12.11; Mt 19.12. Os Eunucos do Reino (Mt 19.9-12).
Pergunta: Os solteiros e as viúvas devem casar ou não? Resposta: v. 8 e 9.
7.8 – “Digo, porém, aos solteiros e às viúvas, que lhes é bom se ficarem como eu”.
O ideal: ficar livre para melhor servir a Deus (32).
7.9 – “Mas, se não podem conter-se, casem-se. Porque é melhor casar do que abrasar-se”. 1Tm 5.14
Viver abrasado. Lit. estar no fogo, queimar.
Pergunta: E aos que são casados o que tem que fazer? Quando não dá realmente certo? Resposta: v. 10 e 11.
7.10 – “Todavia, aos casados, mando, não eu, mas o Senhor, que a mulher se não aparte do marido”. 1Co 7.12,25,40; Ml 2.14,16; Mt 5.32; 19.6,9; Mc 10.11; Lc16,18
7.11 – “Se, porém, se apartar, que fique sem casar ou que se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher”.
SE, PORÉM, SE APARTAR, QUE FIQUE SEM CASAR. Paulo está falando da separação sem divórcio formal. Talvez isso se refira a situações em que o cônjuge age de modo a pôr em perigo a vida física ou espiritual da esposa e dos filhos.
Pergunta: E quando um dos dois não é crente, o que fazer? Resposta: v. 12-17.
7.12 – “Mas, aos outros, digo eu, não o Senhor: se algum irmão tem mulher descrente, e ela consente em habitar com ele, não a deixe”.
DIGO EU, NÃO O SENHOR. Não se trata de Paulo meramente dar sua opinião aqui, antes; está declarando que não tem uma citação de Jesus para confirmar o que ele vai escrever. No entanto, o que ele passa a escrever, procede de quem tem autoridade apostólica, sob inspiração divina (25,40; 14.37).
7.13 – “E se alguma mulher tem marido descrente, e ele consente em habitar com ela, não o deixe”.
7.14 – “Porque o marido descrente é santificado pela mulher, e a mulher descrente é santificada pelo marido. Doutra sorte, os vossos filhos seriam imundos; mas, agora, são santos”.
MARIDO… MULHER… FILHOS. Por ser crente o marido ou a mulher, ele, ou ela poderá ter uma influência especial para levar o outro cônjuge a aceitar Cristo (1Pe 3.1,2). Isto não significa, todavia, que os filhos de tal lar sejam automaticamente crentes. Eles são santos no sentido de serem separados pela presença de um pai ou mãe crente. Deus por amor do conjugue crente faz uma distinção com relação ao incrédulo. P.ex. Potifar foi abençoado por causa da presença de José em sua casa – Gn 39.3. Abraão intercede por Sodoma e se lá tivesse dez justos o Senhor não a teria destruído – Gn 10.
O Apóstolo Paulo fala no verso seguinte aquilo que os estudiosos entendem como a “exceção Paulina”:
7.15 – “Mas, se o descrente se apartar, aparte-se; porque neste caso o irmão, ou irmã, não está sujeito à servidão; mas Deus chamou-nos para a paz”. Rm 12.18; 14.19; 1Co 14.33; Hb 12.14
NÃO ESTÁ SUJEITO À SERVIDÃO. Se o cônjuge incrédulo escolher a separação, o crente deve aceitá-la, depois de ter feito todo o possível para evitá-la. “não está sujeito à servidão”, significa que o crente fica desobrigado do contrato conjugal. A palavra “servidão” (gr. douloo) significa literalmente “escravizar”. Nesse caso, o crente fiel já não está escravizado aos seus votos conjugais. Tal cônjuge crente abandonado fica livre para casar-se de novo, mas só com um crente (v.39).
7.16 – “Porque, donde sabes, ó mulher, se salvarás teu marido? Ou, donde sabes, ó marido, se salvarás tua mulher?”
Este verso pode ser interpretado em duas maneiras: (1) em favor de não dar o divórcio; e, (2) em favor de dar o divórcio. Ou seja, se o descrente quer ir embora não deixe, pode ser que você seja um instrumento para a conversão dele. Ou, se o incrédulo quiser ir embora, deixe que vá, como saberás se salvarás o teu marido? Deus te chamou para paz.
7.17 – “E, assim, cada um ande como Deus lhe repartiu, cada um, como o Senhor o chamou. É o que ordeno em todas as igrejas”.
Pergunta: E no que se refere as ordenanças judaicas, como devemos proceder? Resposta: v. 18-24.
7.18 – “É alguém chamado, estando circuncidado? Fique circuncidado. É alguém chamado, estando incircuncidado? Não se circuncide”. Gl 5.2
7.19 – “A circuncisão é nada, e a incircuncisão nada é, mas, sim, a observância dos mandamentos de Deus”. Gl 5.6; Jo 15.14; 1Jo 2.3
7.20 – “Cada um fique na vocação em que foi chamado”.
O evangelho pode ser vivido em quaisquer circunstâncias.
7.21 – “Foste chamado sendo servo? Não te dê cuidado; e, se ainda podes ser livre, aproveita a ocasião”.
7.22 – “porque o que é chamado pelo Senhor, sendo servo, é liberto do Senhor; e, da mesma maneira, também o que é chamado, sendo livre, servo é de Cristo”. Jo 8.36; Rm 6.18; Fm 16; Gl 5.13; Ef 6.6; 1Pe 2.16
7.23 – “Fostes comprados por bom preço; não vos façais servos dos homens”. 1Co 6.20; 1Pe 1.18-19; Lv 25.42
7.24 – “Irmãos, cada um fique diante de Deus no estado em que foi chamado”. 1Co 7.20
Pergunta: E com relação às filhas virgens? Resposta: v. 25-28.
7.25 – “Ora, quanto às virgens, não tenho mandamento do Senhor; dou, porém, o meu parecer, como quem tem alcançado misericórdia do Senhor para ser fiel”. 1Co 7.6,10,40; 8.8,10; 1Tm 1.12,16.
O celibato é apresentado como algo desejável, embora não necessário.
7.26 – “Tenho, pois, por bom, por causa da instante necessidade, que é bom para o homem o estar assim”.
Provavelmente uma circunstância extremamente difícil pela qual passavam os cristãos em Corinto.
7.27 – “Estás ligado à mulher? Não busques separar-te. Estás livre de mulher? Não busques mulher”.
7.28 – “Mas, se te casares, não pecas; e, se a virgem se casar, não peca. Todavia, os tais terão tribulações na carne, e eu quereria poupar-vos”.
“RAZÕES GERAIS DAS RESPOSTAS DE PAULO”
7.29 – “Isto, porém, vos digo, irmãos: que o tempo se abrevia; o que resta é que também os que têm mulheres sejam como se as não tivessem”. Rm 13.11; 1Pe 4.7; 2Pe 3.8-9
7.30 – “e os que choram, como se não chorassem; e os que folgam, como se não folgassem; e os que compram, como se não possuíssem”.
7.31 – “e os que usam deste mundo, como se dele não abusassem, porque a aparência deste mundo passa”.
7.32 – “E bem quisera eu que estivésseis sem cuidado. O solteiro cuida das coisas do Senhor, em como há de agradar ao Senhor”. 1Tm 5.5
7.33 – “mas o que é casado cuida das coisas do mundo, em como há de agradar à mulher”.
7.34 – “Há diferença entre a mulher casada e a virgem: a solteira cuida das coisas do Senhor para ser santa, tanto no corpo como no espírito; porém a casada cuida das coisas do mundo, em como há de agradar ao marido”.
7.35 – “E digo isso para proveito vosso; não para vos enlaçar, mas para o que é decente e conveniente, para vos unirdes ao Senhor, sem distração alguma”.
7.36 – “Mas, se alguém julga que trata dignamente a sua virgem, se tiver passado a flor da idade, e se for necessário, que faça o tal o que quiser; não peca; casem-se”.
7.37 – “Todavia, o que está firme em seu coração, não tendo necessidade, mas com poder sobre a sua própria vontade, se resolveu no seu coração guardar a sua virgem, faz bem”.
7.38 – “De sorte que, o que a dá em casamento faz bem; mas o que a não dá em casamento faz melhor”. Hb 13.4
7.39 – “A mulher casada está ligada pela lei todo o tempo em que o seu marido vive; mas, se falecer o seu marido, fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor”. Rm 7.2; 2Co 6.14
7.40 – “Será, porém, mais bem-aventurada se ficar assim, segundo o meu parecer, e também eu cuido que tenho o Espírito de Deus”. 1Co 7.25; 1Ts4.8
Neste v., Paulo não duvida da sua autoridade, mas ironicamente combate os líderes que negaram sua autoridade em Corinto (cf. 1.1, 7; 9.1s; 12.25).
“CONSIDERAÇÕES FINAIS”
1 – Seja qual for a situação dos cônjuges, o divórcio só deveria ser pleiteado depois de esgotados todos os recursos, sob todos os pontos de vista. Daí é permitido o divórcio em caso de adultério e, segundo Paulo, de abandono do lar por parte do descrente.
2 – Cada casal deve procurar, com ajuda de Deus e da Igreja, resolver seus problemas conjugais, antes que estes destruam seu matrimônio.
3 – A luz da Bíblia, o fim do casamento deve ser a morte de um dos cônjuges, mas nunca o divórcio.
4 – Não podemos entre nós proibir, nem impedir o divórcio, mas podemos e devemos desmotivá-lo e evitá-lo, mediante a exposição da doutrina bíblica.
5 – Deus abomina o divórcio. (Ml 2.14) “portanto cuidai de vós mesmos e não sejais infiéis”.
6 – Apesar de Deus abominar (aborrece, detesta) o divórcio, Ele permite para amparar e defender o cônjuge ferido.
7 – Mesmo se um crente se divorciar, quando realmente é comprovado que não teve condições de reconciliação, e, conforme Jesus, cometer adultério casando-se com outro, Jesus mesmo perdoa os pecados dos mesmos e os trazem a comunhão com Ele.
16.09.2010
Devocionais, Mensagens, Projetos, Testemunhos Amor, Atenção, Caminho, Carinho, Castigo, Correção, Disciplina, Discipulado, Educação, Evagélicos, Exortação, Famlia, Filhos, Hipocrisia, Igreja, Obediência, Oração, Pais, Religião, União 6 Comentários
“Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele.” (Pv. 22:6)
O provérbio acima é uma promessa ou uma advertência? Segundo o hebraico, a frase “no caminho em que deve andar” não está traduzida de maneira correta. Ela deveria ser “de acordo com seu próprio caminho”. Assim, você tem no capítulo 22, versículo 6, uma predição proverbial de que a criança educada e ensinada, desde o começo, a seguir seu próprio caminho, estará, para todo sempre, ligada a ele.
O provérbio pode ser visto como uma “promessa” encorajadora de dois modos possíveis. Um, o mais comum, o apresenta ensinando que se você “pai-storear” corretamente seu filho de acordo com o seu chamado da aliança, isto resultará em fidelidade eterna. A outra forma “positiva” de entendê-lo, revela um sentido diferente. Salomão aqui, estaria falando do reconhecimento, de antemão, da propensão vocacional existente em seu filho. Se esta propensão for cultivada, ela resultará numa devoção eterna e frutífera para o ofício escolhido. Como tal, o provérbio pode ser tomado como algum tipo de indução a um aprendizado precoce. Se você observa que seu filho gosta de cavalos, por exemplo, deixe-o, o quanto antes, ser treinado nesta área por um perito. A frase ensinar poderia ter então, o sentido de “dedicar” ou mesmo “estimular”. Deixe-o empregar seus dons naturais o quanto antes, e ele os usará naquela área por toda vida.
Mas há um terceiro modo de entender este verso, e esse não como uma promessa, mas como uma advertência. A Palavra pode estar nos ensinando que se você educar a criança de acordo com suas próprias (pecaminosas, naturais) inclinações, você a terá arruinado para a vida.
Assim, este provérbio poderia ser um complemento a muitos outros provérbios que tratam do mesmo assunto. Por exemplo, em 22:15 encontramos: “A estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da disciplina a afastará dela” e em 19:18 há a admoestação: “Corrige a teu filho, enquanto há esperança, mas não te excedas a ponto de matá-lo.” Dizendo enquanto há esperança, encontramos o autor sugerindo que haverá um tempo quando o treinamento ou a disciplina serão, humanamente falando, vãos, sem esperança, infrutíferos, inúteis. Se você deixá-lo seguir seus instintos corrompidos fora da porteira (conforme 22:6), mais tarde você não o terá de volta ao caminho.
Este último modo de interpretar Pv. 22:6 é o mais recomendado. Primeiro, ele permite a versão literal a fim de transmitir uma mensagem coerente, sem emendas. Segundo, ele é apoiado por instruções e admoestações muito similares quando o mesmo assunto (criação de filhos) é tratado no mesmo livro inspirado. Terceiro, e este é de vital importância ao testar a interpretação apropriada de um provérbio inspirado, é que ele é legítimo no que se refere à vida e a experiência comum. “Há pouca esperança para crianças que são educadas de maneira imprópria. Se a tinta respingou na lã, é muito difícil tira-la da roupa” diz Jeremiah Burroughs. E muitos são os que têm notado, como fez William Gurnall, que a “Religião cristã não cresce sem que se plante, mas murchará, mesmo onde foi plantada, se não for aguada. Ateísmo, irreligião e profanidade são ervas daninhas que crescerão sem semeadura, mas não morrerão sem que sejam arrancadas”. Deixe uma criança seguir seu próprio caminho quando for jovem e ela crescerá para ser um “jardim” de ervas daninhas.
Acima e abaixo de todas as possíveis interpretações de Provérbios 22:6, está uma pressuposição da maior importância: Como os pais lidam com as dificuldades de suas crianças. Aqueles que principiam seus conceitos com a eleição ao invés de com a aliança podem facilmente cair em alguma sorte de fatalismo não bíblico. Mas pelo fato de Provérbios (para não mencionar o restante das Escrituras) nos falar de diversas conseqüências provenientes de diferentes ações humanas, somos seguramente levados a crer que o modo pelo qual eu crio meus filhos é realmente um assunto muito importante, que, mais do que um modo de falar, pode muito bem influir na definição de onde eles passarão a eternidade.
Nunca é uma honra a Deus que Seu povo fale de Sua soberania de modo a desobrigá-los de suas responsabilidades. Somos levados a crer pelas Escrituras que podemos e devemos ter uma influência tal sobre nossos filhos que não é incomum que ela os conduza à salvação, com a bênção de Deus e o suporte da comunidade da aliança, conforme Gn 18: 16-19; 1 Tm 3: 4,5; Tt.1:6 e também 2 Tm. 3: 14,15.
Assim sendo, devemos saber que nossa ação ou inação bem pode conduzi-los à condenação. E, se falhamos em ouvir os avisos e a direção de Deus encontrados por toda a Escritura, no último dia não seremos autorizados para suplicar pelos decretos de Deus em nossa defesa!
Visto que o inferno é a eterna e atormentadora separação de Deus e do conforto, alguém poderia pensar que o mais fervoroso desejo de um pai seria educar seus filhos, rigorosa e conscientemente, para que escapassem da perdição e achassem refúgio e plenitude de vida em Deus através de Cristo e da aliança. Ainda assim, muitos são os que parecem considerar isto como sendo muito trabalhoso. Para aqueles tão completamente perversos a ponto de serem indiferentes à questão, eu apresento um método para fazer com que isto seja uma certeza. Aqui, através de 18 meios bem fáceis de seguir, está a fórmula comprovada de como mandar seus filhos para o inferno:
1) Crie seu filho para buscar seu próprio caminho. “Se você for educar seus filhos corretamente, então, em primeiro lugar, eduque-os no caminho em que devem andar e não no caminho em que eles escolheriam. Lembre-se: crianças nascem com uma inclinação decidida para o erro, e portanto, se você permitir que escolham por si mesmas, elas certamente escolherão errado”.
A mãe não pode dizer o que seu frágil infante será ao crescer: alto ou baixo, fraco ou forte, sábio ou tolo; ele pode ser qualquer uma destas coisas ou nenhuma delas, pois elas são incertas. Mas uma coisa a mãe pode dizer com certeza: ele terá um coração corrupto e pecador. É natural para nós portar-nos mal. “A estultícia”, diz Salomão, “está ligada ao coração da criança” (Pv. 22:15). “A criança entregue a si mesma vem a envergonhar a sua mãe”(Pv. 29:15). Nossos corações são como a terra que pisamos; deixe-a abandonada e certamente produzirá ervas daninhas.
Se então, você for lidar de modo sábio com seu filho, não deve deixá-lo sujeito a sua própria vontade. Pense por ele, julgue por ele, aja por ele, do mesmo modo que você faria por uma pessoa fraca e cega; mas, pelo amor de Deus, não o entregue aos seus próprios gostos e inclinações voluntariosos. Não devem ser suas preferências e desejos que são consultados. Ele ainda não sabe o que é bom para sua mente e alma, mais do que o que é bom para seu corpo. Não o deixe decidir o que ele deve comer, o que ele deve beber, e como ele deve se vestir. Seja consistente, e lide com a mente dele da mesma maneira. Eduque-o no caminho que é bíblico e correto e não do jeito que ele imagina.
Se você não pode decidir-se a este primeiro princípio da educação cristã, é inútil continuar lendo. A vontade própria está perto de ser a primeira coisa que se manifesta na mente da criança, e precisa ser sua primeira resolução, resistir a ela.
Ignore este conselho se você for colocar seu filho rumo à destruição, e ao invés disto, ensine-lhe auto-estima positiva; ensine-o que o maior amor está dentro dele e que o mundo, de fato, gira ao seu redor”.
2) Nunca o discipline corporalmente. Os provérbios que sugerem punição corporal, são bárbaros e ultrapassados. Nós somos civilizados. Nós temos o Ano da Criança! Nós erguemos nossas consciências, não palmatórias! Provérbios 13:24 “O que retém a vara aborrece a seu filho, mas o que o ama, cedo, o disciplina” está errado. Ignore-o. O 22:15 “A estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da disciplina a afastará dela”, também. E esqueça 23:13-14 “Não retires da criança a disciplina, pois, se a fustigares com a vara, não morrerá. Tu a fustigarás com a vara e livrarás a sua alma do inferno”. Se você for tentado a discipliná-los corporalmente, tente estas desculpas: a) “Eu apanhei quando criança e não quero bater nos meus filhos”. Claro, que é o mesmo que dizer “Minha mãe era gorda, por isso eu não alimento meus filhos”; b) É contra a lei; c) Minha sogra não gosta disso. Seja criativo e pense em outras desculpas; você achará fácil criá-las.
3) Quase tão proveitoso quanto nunca discipliná-los é discipliná-los corporalmente insensata e/ou severamente. A correção bíblica é amorosa, firme e controlada. Excesso de correção bíblica o conduziria à outra direção.
4) Esta é a favorita de muitos pais: nunca use a Escritura na correção. Nunca explique para seus filhos qual é a vontade de Deus sobre o assunto. Não tome Deuteronômio 6: 4-9 literalmente (“Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força. Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te. Também as atarás como sinal na tua mão, e te serão por frontal entre os olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas”).
5) Nunca admita que você está errado. Se você deseja que seus filhos cresçam descorteses e hostis, nunca os deixe vê-lo humilhado ou aceitando correção. Nunca lhes peça desculpas; nunca reprima seu orgulho.
6) Seja hipócrita. Esta é boa para lembrar. Ensine-os através das suas ações, que suas palavras não têm valor para você.
7) Instrua-os para escolher sua própria religião. Afinal, você não pode forçá-los a crer.
8) Não ore com eles ou por eles, pública ou privadamente. Se você precisa de uma desculpa, lembre que eles acharam graça de você da primeira vez que você tentou. Normalmente isto é suficiente para fazê-lo desistir.
9) Evite cantar salmos e hinos com seus filhos. Mas se por alguma razão você achar que deve, nunca lhes explique o sentido.
10) Responda cada pergunta religiosa com “Porque nós sempre fizemos assim”. Este é um dos meios mais eficazes de convencê-los que o cristianismo é meramente uma tradição e não a Verdade.
11) Não os previna sobre evolução ou outros mitos populares. Não os informe sobre heresias da história ou suas modernas iterações. Não lhes fale nada sobre teologias antagônicas e o porquê as igrejas ortodoxas as rejeitam.
12) Deixe-os expressarem-se de qualquer modo que escolherem, seja no seu jeito de vestir, no jeito que usam seu cabelo ou no seu linguajar. As novidades sempre devem ser seguidas. Se eles desejam tatuagens ou vários piercings, relaxe e aproveite. Não interfira. Afinal a vida é deles. E nunca olhe aquilo que eles lêem. Eles têm direitos, você sabe. Você não lê os boletins da ACLU (União Americana para Liberdades Civis)?
13) Não os faça trabalhar por nada. O amor, apesar de tudo, deve ser incondicional, certo? Então, lhes dê tudo e não espere nada. (Isto é exatamente o que você obterá).
14) Desde a infância, use uma linguagem simples ao falar com eles. Não espere que alcancem a maturidade e eles satisfarão suas expectativas!
15) Não os abrace ou beije ou lhes faça cócegas, e seja muito parcimonioso com respeito a lhes dizer que os ama. Evite por completo, se possível. Afinal, isto não é muito másculo.
16) Deixe-os mentir sem sofrer punição. Prove com isto que a verdade tem pouco valor em sua casa.
17) Deixe-os desperdiçar tempo, a esmo e sem propósito. Prive-os daquela idéia puritana que descansamos bem para melhor trabalhar. Tente incutir neles a moderna noção que trabalho existe a fim de custear nossa diversão nos fins de semana; damos duro para podermos “badalar”!
18) Mantenha a TV sempre ligada, especialmente durante os comerciais. Este é o meio mais fácil e certo de guiar seus filhos para o inferno. Pense! Ela pode ser pode ser o terceiro (e o único realmente presente) “pai” delas, e a sua melhor amiga. Duas horas na igreja aos domingos não terão um papel eficiente na formação do caráter delas, quando confrontadas com 25 horas de televisão. Todo absoluto, de qualquer fonte, será “relativizado” para sempre. A televisão tem sido a melhor amiga do diabo, então a deixe possuir a sala de estar e a cozinha também. Se possível, deixe-a ligada durante o jantar, assim ela pode reivindicar, sozinha, o título de senhora e mediadora da verdade em sua casa.
Se você seguir estes 18 passos, há pouca dúvida de que seu filho estará entre aquela população infernal.
Mas eu, particularmente, penso que você rejeitará toda esta horrenda insensatez acima e se curvará a mais solene responsabilidade que Deus já lhe deu: Ser pai e mãe. Se Deus nos concede a aptidão de conduzir nossas crianças à perdição, porque alguém duvidaria que Ele nos dá a habilidade, a responsabilidade, na verdade, o privilégio, de conduzi-los ao céu? Se nós fielmente seguirmos Seu método de criação de crianças da aliança, elas estarão entre a população celeste por toda a eternidade. Que incentivo à fidelidade!
A aliança continua por gerações, mas ela continua junto ao caminho da fidelidade, não o da presunção. Nós temos incomparavelmente grandes e preciosas promessas da parte de Deus, bem como admoestações. Ele nos exorta que não fazer nada é a coisa errada. Ensine a criança em seus próprios caminhos, e quando ela for velha, não se desviará dele. Mas Ele promete que fazer a coisa certa ocasionará a uma colheita de promessas cumpridas. Ouça Deus meditando consigo mesmo concernente a Seu amigo Abraão: “Porque eu o escolhi para que ordene a seus filhos e a sua casa depois dele, a fim de que guardem o caminho do SENHOR e pratiquem a justiça e o juízo; para que o SENHOR faça vir sobre Abraão o que tem falado a seu respeito” (Gênesis 18:19).
Esta promessa é para você e para seus filhos, e para tantos quantos o Senhor, nosso Deus, vier a chamar. É uma promessa com condições; que alegria é cumpri-las, visando a recompensa a que elas conduzem! Amém.
Por Steve M. Schissel.
15.09.2010
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At. 17.28 e Salmos 114.1-35.
Nós não cremos em um deus criador que fez este mundo e depois virou as costas para sua criação, entregando-a à sorte a ao destino. Não, O Deus das Escrituras é o Criador de tudo o que veio a existir e, ainda, mantém o controle absoluto sobre tudo. Este ato divino é denominado “providência de Deus”. Por providência de Deus entendemos o permanente exercício do poder divino, pelo qual o Criador preserva todas as suas criaturas, operando em tudo que se passa no mundo e dirigindo todas as coisas para o seu determinado fim. Esta providência Divina é refletida nos seus atos de preservação, governo e cooperação.
I – Preservação
O primeiro reflexo da providência Divina é a preservação. L. Berkhof a definiu como “ a obra contínua de Deus pela qual ele mantém as coisas que criou, juntamente com as propriedades e poderes de que as dotou”. Isto quer dizer que Deus mantém a ordem e a existência da criação, conforme as leis que ele próprio impôs desde o princípio. Nada foge ao seu controle e à sua vontade. Deus não cria continuamente, mas preserva o que já criou, conforme as leis estabelecidas no ato da criação.
1 – Deus está sustentando e controlando ativamente todas as coisas criadas.
A terra, o mar e os céus são mantidos pela determinação e ação de Deus (Hb 1:3; Cl 1:17; At 17:28).
2 – Deus mantém a ordem da natureza nos reinos animal, vegetal e mineral
A provisão e o sustento para a vida terrena dependem da interferência divina (Mt 5:45; At 14:17; Sl 104:14).
3 – Deus preserva a vida dentro do seu propósito estabelecido
A essência e o tempo da vida estão submissos ao controle de Deus (Ne 9:6; Jó 34:14-15; Sl 104:29, 139:16).
II – Governo
O segundo reflexo da providência Divina é o governo. Governo é a “contínua atividade de Deus pela qual ele rege as coisas a fim de garantir a realização do propósito divino”. Isto quer dizer que Deus tem um propósito estabelecido em tudo o que fez e faz no mundo, de maneira que conduz todas as coisas em direção aos seus divinos propósitos. A idéia de governo implica a execução ou cumprimento da sua vontade.
1 – Deus governa universalmente suas criaturas
Conforme a sua vontade, Deus opera no mundo e entre as pessoas, individualmente (Ef 1:1; Dn 4:35; 1 Sm 2:6-7; Pv 16:9; At 17:26).
2 – Deus domina universalmente com onipotência infalível
Não somente o indivíduo está sujeito à vontade de Deus, as também as grandes nações! (Sl 47:9, 66:7; Dn 2:21; Is 10:5-6).
3 – Deus dirige universalmente com sabedoria e santidade
Os planos divinos são projetados e executados em favor do bem daqueles que O temem (sl 103:17-19; Mt 10:29-31; Rm 8:28; Fp 2:13).
Dias instáveis, nos quais imperam as guerras, desemprego, preços altos, instabilidade financeira, violência ou problema familiares, tendem a gerar crises entre as pessoas. Existem momentos em que Deus permite que dificuldades venham sobre seus filhos. Jô perdeu a família, fazenda, fortuna, fama, mas não perdeu a fé.
III – cooperação
O terceiro reflexo da providência divina é a cooperação. Cooperação é a ação do poder divino aliado aos poderes subordinados, vistos nas leis estabelecidas na criação de todas as coisas. Ou seja, Deus pode tomar uma lei da natureza e direcioná-la para executar algum proprósito.
1 – Deus ordena que as leis naturais se cumpram
As leis naturais (chuva, neve, vapor) são movidas por Deus (Sl 148:8; Jô 37:6-13, 38:22-30; Sl 135:6-7).
2 - Deus sustenta a vida dos animais no mundo
A própria cadeia alimentar natural é exercida mediante ação ordenada de Deus (Sl 104:7-29; Jó 38:39-41; Mt 6:26).
3 – Deus usa as circunstâncias particulares da vida
Situações, circunstâncias, “coincidências” ou aparentes fatalidades podem servir para um objetivo maior (Gn 45:5-8; Êx 4:11-12; Js 11:6; Ed 6:22; Pv 21:1).
Deus pode nos socorrer através de atos milagrosos e sobrenaturais, mas pode muito bem usar os meios naturais e normais que ele mesmo estabeleceu. Esperar que Deus faça aquilo que, conforme determinado na Bíblia , é da competência humana, implica desobediência e irresponsabilidade pessoal. De modo “natural e normal ”, Deus usa o trabalho para prover o sustento, a medicina para tratar da saúde, etc…
Conclusão
Como filhos de Deus, temos a confiança de que servimos a um Deus ativo em todo este universo, o qual promove o bem maior daquilo que lhe pertence, conforme sua perfeita vontade. AMEM GLORIA A DEUS.
10.09.2010
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SETE MOTIVOS PARA ABANDONAR SUA IGREJA
A cada ano milhares de brasileiros se convertem e ingressam numa igreja evangélica. Mas, também, a cada ano, muitos abandonam suas igrejas, fazendo-as parecer um imenso corredor: muitos entrando pela porta da frente; um bom tanto deles saindo pela porta dos fundos.
Conversando com os “desviados” (é assim que nós os chamamos), ouvimos diversas explicações. Alguns dos motivos apresentados até que são relevantes; outros, porém, são meras desculpas. Mas, no fundo nós sabemos que “… nada pode nos separar do amor de Deus“; em outras palavras, nada é suficientemente forte para afastar da casa de Deus um verdadeiro filho de Deus.
Este fenômeno, no entanto, não é novo. Se considerarmos que a igreja cristã nasceu na manhã da Páscoa, no dia da ressurreição de Jesus, então, à tarde daquele mesmo dia ela já tinha dois “desviados”. Leia atentamente o relato bíblico:
“Naquele mesmo dia, dois deles estavam de caminho para uma aldeia chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios (+ ou – 12 km). E iam conversando a respeito de todas as coisas sucedidas. Aconteceu que, enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e ia com eles. Os seus olhos, porém, estavam como que impedidos de o reconhecer. Então, lhes perguntou Jesus: Que é isso que vos preocupa e de que ide tratando à medida que caminhais? E eles pararam entristecidos. Um, porém, chamado Cleopas, respondeu, dizendo: És o único, porventura, que, tendo estado em Jerusalém, ignora as ocorrências destes últimos dias? Ele lhes perguntou: Quais? E explicaram: O que aconteceu a Jesus, o Nazareno, que era varão profeta, poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo, e como os principais sacerdotes e as nossas autoridades o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. Ora, nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel; mas, depois de tudo isto, é já este o terceiro dia desde que tais coisas sucederam. É verdade também que algumas mulheres, das que conosco estavam, nos surpreenderam, tendo ido de madrugada ao túmulo; e, não achando o corpo de Jesus, voltaram dizendo terem tido uma visão de anjos, os quais afirmam que ele vive. De fato, alguns dos nossos foram ao sepulcro e verificaram a exatidão do que disseram as mulheres; mas não o viram. Então, lhes disse Jesus: Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! Porventura, não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras. Quando se aproximavam da aldeia para onde iam, fez ele menção de passar adiante. Mas eles o constrangeram, dizendo: Fica conosco, porque é tarde, e o dia já declina. E entrou para ficar com eles. E aconteceu que, quando estavam à mesa, tomando ele o pão, abençoou-o e, tendo-o partido, lhes deu; então, se lhes abriram os olhos, e o reconheceram; mas ele desapareceu da presença deles. E disseram um ao outro: Porventura, não nos ardia o coração, quando ele, pelo caminho, nos falava, quando nos expunha as Escrituras? E, na mesma hora, levantando-se, voltaram para Jerusalém, onde acharam reunidos os onze e outros com eles, os quais diziam: O Senhor ressuscitou e já apareceu a Simão! Então, os dois contaram o que lhes acontecera no caminho e como fora por eles reconhecido no partir do pão”. Lucas 24.13-35
Aos que abandonaram suas igrejas ou estão pensando em fazê-lo, quero dizer-lhes as mesmas palavras de Jesus àqueles dois discípulos a caminho de Emaús: Vocês são LOUCOS E DUROS DE CORAÇÃO! Sei que estas palavras são pesadas, mas é exatamente isto que significa a frase de Jesus: “Néscios e tardos de coração para crer…”.
LOUCOS E DUROS DE CORAÇÃO!
Porque Jesus foi tão severo com eles? Porque seus motivos para abandonar a igreja eram banais e fruto de seus corações endurecidos.
Inacreditavelmente, estes mesmos motivos podem ser encontrados nas conversas com os “desviados”.
As palavras de Cleopas e de seu companheiro de viagem revelam-nos toda a verdade de seus corações. Vamos analisar o texto? Vemos ver quais motivos levaram estes dois a fazer tal loucura?
1o Motivo: Dar ouvidos à conversa fiada – vs. 13-14
Para que alguém se converta e una-se a uma igreja evangélica, muitas pessoas, de muitas igrejas diferentes, colaboram para isso: Um lhe fala de Jesus pela primeira vez, outro lhe entrega alguma literatura, alguém ora por ele e com ele, outro o socorre numa hora de aflição, alguém o convida, outro o traz ao templo, e assim por diante.
No entanto, quando alguém chega a se afastar do Caminho, geralmente é pelas mãos de uma única pessoa. Muitas vezes pelas mãos de alguém que ele conheceu na própria igreja e que se fez seu amigo. Alguém que conversa muito ele, mas, ao invés de o encorajar, como recomendam as Escrituras, leva-o a se desviar.
Repare no texto bíblico:
“Naquele mesmo dia, dois deles estavam de caminho para uma aldeia chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios. E iam conversando a respeito de todas as coisas sucedidas”.
O que havia em Emaús? Nada! Emaús era uma aldeia tão pequena e inexpressiva, em termos históricos, que só sabemos que ela existiu por causa deste relato bíblico; mas, mesmo que Emaús fosse uma grande cidade, o quê poderia haver lá que fosse mais importante que a notícia da ressurreição? Nada! Absolutamente, nada!
A verdade é que, enquanto a igreja estava reunida lá em Jerusalém, tentando assimilar os últimos acontecimentos e esclarecer o sumiço do corpo de Jesus, estes dois discípulos estavam voltando para sua antiga vidinha, lá em Emaús. Abandonaram a igreja.
Porque? Por vários motivos e um deles foi por causa de conversa fiada, pois, como o texto bíblico relata, eles “… iam conversando” pelo caminho.
O texto bíblico não diz quem desviou quem, mas, como a repreensão de Jesus foi muito severa e somente o nome de um deles é citado, não corremos muito risco em afirmar que Cleopas era o conversador e, o outro, aquele que lhe deu ouvidos.
Ter amigos na igreja é muito saudável e recomendável, mas, cuide-se, há muitos “Cleopas” em nosso meio; pessoas mal resolvidas em sua fé em Nosso Senhor Jesus, pessoas que querem sair da igreja, mas, como seus motivos são meras desculpas, precisam de alguém que lhe dê ouvidos, alguém que concorde com ele e, de preferência, que saia da igreja junto com ele, para que ele se senta menos mal e culpado.
2o Motivo: Cegueira espiritual – vs. 15-16
O texto fala de uma espécie de “cegueira espiritual”. Repare.
“Aconteceu que, enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e ia com eles. Os seus olhos, porém, estavam como que impedidos de o reconhecer”.
Eles estavam tão compenetrados em si mesmos, tão envolvidos em suas próprias desculpas e justificativas, tão convictos em sua discussão, que nem puderam notar que era o Cristo ressurreto que caminhava com eles.
Imaginem o ridículo da situação. Iremos ver, logo adiante, que eles não aceitaram a notícia da ressurreição. Provavelmente estavam dizendo: Esta coisa de ressurreição é coisa de louco! É histerismo coletivo! E, ali ao seu lado, estava aquele de quem eles estavam falando.
Observe outra coisa muito interessante: eles (que estavam cegos) julgaram-se mais informados que o próprio Cristo: “És o único, porventura, que, tendo estado em Jerusalém, ignora as ocorrências destes últimos dias?”.
As pessoas que abandonam o Caminho encontram-se em condições espirituais semelhantes, isto é, cegos. Estão tão preocupadas consigo mesmos que, literalmente, se tornam incapazes de perceber a realidade. Pior que isso, além de estarem cegas, acreditam que são as únicas que enxergam. Enchem o peito de razão, mas, fazem papel de ridículos ao discutirem temas sobre os quais não tem o menor conhecimento e ao classificarem como fanáticos ou histéricos os que ficaram firmes em suas igrejas.
3o Motivo: Tristeza – vs. 17
“Então, lhes perguntou Jesus: Que é isso que vos preocupa e de que ide tratando à medida que caminhais? E eles pararam entristecidos”.
Porque eles estavam tristes? Pela morte de Jesus, é claro!
Mas, também, pela injustiça praticada pelas autoridades (Como puderam colocar Jesus e Barrabás lado a lado?).
Pela ingratidão do povo de Israel (Como puderam escolher Barrabás?).
E, pelos problemas do grupo de Jesus (Como é que Pedro, que era tão valente, não morreu de vergonha por negar o Mestre três vezes? E quanto aos demais, não se acovardaram também, deixando o Cristo padecer sozinho? E as mulheres, então, que na hora da crucificação até que foram valentes, mas, agora, vêm com esta história de que viram e conversaram com anjos, parecendo loucas, alucinadas?).
Estavam tristes por muitos motivos. Por isso não puderam suportar a pressão. A Bíblia diz que “… a alegria do Senhor é a nossa força”. Crente triste é crente fraco! E, quando estamos fracos, temos a tendência de nos isolarmos, de fugir, de virar a mesa, de abandonar a carreira da fé.
Cuide-se, meu irmão. Não se entristeça! Nem com as autoridades, nem com a ingratidão do povo e, muito menos ainda, com sua igreja, pois todas as igrejas do mundo são iguais: são formadas por seres humanos fracos e frágeis; valentes numa hora, covardes noutra; maravilhosos num instante, desprezíveis noutro; inspiradores em certas atitudes, desastrosos em outras.
É verdade que nenhuma igreja pode viver em pecado alegando que “… toda igreja tem problemas, que nenhuma é perfeita” e não fazer nada para mudar esta situação. Se uma igreja admite isso (e a maioria admite) é porque está reconhecendo que tem problemas. Logo, tem a obrigação de dar uma parada e fazer um conserto com Deus, senão, certamente é falsa e hipócrita.
Por outro lado, no entanto, nenhum crente tem o direito de ficar triste por causa dos problemas de sua igreja, a ponto de abandoná-la. Deve, sim, orar, jejuar e promover a santidade do seu grupo, com paciência e amor. Muito amor! Se, depois de agir assim, sua igreja insistir em permanecer no pecado, então chegou a hora de pedir a Deus licença para sair em busca de um outro lugar para adorar. Porém, jamais ficar sem igreja.
4o Motivo: Saudosismo – vs. 19
“És o único, porventura, que, tendo estado em Jerusalém, ignora as ocorrências destes últimos dias? Ele lhes perguntou: Quais? E explicaram: O que aconteceu a Jesus, o Nazareno, que era varão profeta, poderoso em obras e palavras”.
Jesus falou diversas vezes que iria voltar para o Pai e que seus discípulos iriam fazer obras maiores do que as que ele fez, mas, mesmo assim estes dois abandonaram a Igreja, pois aquele “… que era varão profeta, poderoso em obras e palavras…” havia morrido. Jesus já era. Estava morto. Suas obras pertenciam ao passado.
O dicionário define saudosismo como culto ao passado. Este é um dos principais motivos pelos quais muitas abandonam suas igrejas: Eles vivem do passado. Ah! No tempo daquele outro pastor, sim, a gente via o poder de Deus. Ah! Antigamente a Igreja orava mais, buscava mais a presença de Deus. Ah! No tempo dos apóstolos é que havia poder. Ah! No tempo de Jesus… E, assim vão caminhando e se distanciando, sem entender que o poder de Deus está à disposição de todo aquele que se santifica e que Deus se manifesta hoje em dia no meio do seu povo com a mesma graça e misericórdia de outrora.
É interessante observar que foi exatamente no momento do maior dos milagres de todos os tempos, a ressurreição, que este dois pensavam que o poder de Deus havia cessado.
Meu irmão, você acha que sua Igreja anda sem poder? Cuidado! Pode ser que você esteja virando as costas e esteja perdendo de ver as maravilhas de Deus. Mas, se for mesmo verdade que sua igreja anda assim, meio sem poder, não a abandone nesta hora difícil. Seja você aquele que vai iniciar um incêndio espiritual ali. Dedique-se ao estudo da Palavra de Deus, à oração e ao jejum, às boas obras e ao amor fraternal. Pague o preço. Não use isto como desculpa, pois, pode ser que quem está frio e sem poder seja você mesmo.
5o Motivo: Perda da esperança – vs. 20-21
“Ora, nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel; mas, depois de tudo isto, é já este o terceiro dia desde que tais coisas sucederam”.
Naquela época os defuntos eram colocados em cavernas e não enterrados, como fazemos hoje em dia, e a morte era oficialmente confirmada somente após três dias do sepultamento. Tudo isso para evitar que alguém fosse enterrado vivo, pois não tinham como diagnosticar os casos de morte aparente. Mas, depois de três dias, a morte era decretada e acabava-se qualquer raio de esperança dos amigos e parentes.
Cleopas e seu amigo haviam depositado todas as suas esperanças em Jesus, mas ele morreu. E, após três dias do seu sepultamento, suas esperanças se foram.
Muitas pessoas abandonam suas igrejas porque perderem a esperança. Toda igreja passa por crises e nestas épocas, ao invés de procurar levantar o moral dos membros, muitos se apresentam como profetas, “Profetas-Só-De-Coisas-Ruins”, sempre anunciando que “há uma nuvem escura sobre a Igreja”, que Deus “está pesando a mão”, que “há pecado na igreja”, etc, etc e tal.
Desconhecem a história da Igreja Cristã, que já passou por verdadeiras crises e superou cada uma delas, pois “Maior é o que está em nós, que aquele que está no mundo”. Esquecem que “… em Cristo, somos mais que vencedores”.
As coisas andam feias em sua Igreja? Arregace as mangas e ajude aqueles poucos que ainda estão lutando. Se você parar de reclamar, já está ajudando. Mas, se resolver colocar a mão na massa, a coisa vai!
Mesmo que sua Igreja já tenha morrido, Deus a pode ressuscitar, pois, no dicionário de Deus não consta a palavra IMPOSSÍVEL.
A esperança é a última que morre, mas, quando morre, mata o homem.
Cuide-se para não perder a esperança! Olhe sua Igreja com olhos espirituais; procure ver o que ela será, pela graça de Deus e não sua situação atual.
6o Motivo: Decepção – vs. 21
“Ora, nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel; mas, depois de tudo isto, é já este o terceiro dia desde que tais coisas sucederam”.
Quantas vezes Jesus afirmou que seu reino não é deste mundo? Ele deixou claro que não veio para formar um exército, para ser o governador ou o rei de uma nação, para criar uma dinastia ou qualquer destas coisas que os poderosos tanto apreciam. Apesar disto, os apóstolos pensavam que Jesus iria ser coroado e enfrentar os romanos e “redimir” (libertar) Israel.
Havia, é claro, um interesse pessoal em cada um deles, para acreditar nisso. Como amigos íntimos do Mestre, certamente eles seriam nomeados generais, ministros, secretários. Imagine, um grupo de pescadores analfabetos nomeados para os altos escalões do novo governo, o governo de Jesus. Fantástico, não é mesmo?
Mas, eles estavam confusos. Jesus nunca disse isso, nunca lhes deu qualquer esperança neste sentido.
Ora, a Bíblia diz que quem crê em Jesus jamais será confundido. O quê aconteceu com os apóstolos, para ficaram tão confusos?
Eles deixaram de ouvir as palavras de Jesus e passaram a acreditar em suas próprias ambições e devaneios.
Muitas pessoas abandonam suas Igrejas quando se decepcionam com alguma coisa. Mas, como chegam a este ponto?
Quando deixam de ouvir as verdades de Deus para ouvir seus próprios corações. Quando enganam a si mesmos, afirmando e acreditando que Deus lhes prometeu alguma coisa, quando, no fundo, eles estão apenas tentando satisfazer suas ambições pessoais.
A Bíblia diz que só há um mediador entre Deus e os homens, Jesus. Porém, infelizmente, muitos se decepcionam porque deixam de procurar em Jesus as respostas para suas vidas e vão atrás de certos “homens e mulheres de Deus”, mendigando oração e em busca de “revelação”. Passam a dar ouvidos aos profetas e profetizas de plantão. Passam a dar mais valor a sonhos, visões e sinais, que à presença de Deus e seus ensinos.
Outros evangélicos organizam suas vidas função de suas Igrejas e de seus líderes, de tal forma que abandonam a família, os amigos, o estudo, o auto-desenvolvimento, o laser, etc. Então, num belo dia, suas Igrejas e seus líderes traem sua confiança, e a decepção vem à cavalo. Daí, não dá mais para segurar a barra. O único jeito de enfrentar a realidade é… bem, é fugindo dela. Abandonando tudo.
Decepcionado? A culpa é sua, se acreditou em suas próprias ambições e se organizou sua vida em função de homens e Igrejas.
Jesus nunca decepcionou alguém que tenha organizado sua vida em favor dele.
É hora de reconhecer os erros, para não cair mais.
7o Motivo: Falta de fé, descrença – vs. 22-25
“… mas, depois de tudo isto, é já este o terceiro dia desde que tais coisas sucederam. É verdade também que algumas mulheres, das que conosco estavam, nos surpreenderam, tendo ido de madrugada ao túmulo; e, não achando o corpo de Jesus, voltaram dizendo terem tido uma visão de anjos, os quais afirmam que ele vive. De fato, alguns dos nossos foram ao sepulcro e verificaram a exatidão do que disseram as mulheres; mas não o viram”.
Quase que dá para ouvir o tom de desprezo deles em relação ao testemunho das mulheres, quando se referiram a elas como “algumas mulheres”.
Não eram apenas algumas mulheres. Eram mulheres bem conhecidas do grupo. Mulheres respeitadas, que tinham nome e sobrenome. Mulheres que apoiaram o ministério de Jesus todo o tempo, não só financeiramente, mas, principalmente, com o serviço de suas próprias vidas. Mas, nada disso tinha qualquer valor para Cleopas e seu companheiro. Imediatamente, eles desqualificaram o testemunho delas, por serem apenas mulheres.
Mas, sua descrença não parou por aí. Descreram, também, do testemunho dos homens (De fato, alguns dos nossos foram ao sepulcro e verificaram a exatidão do que disseram as mulheres; mas não o viram). À primeira vista parece que o testemunho dos homens os deixou propensos a crer, mas, não! Se tivessem crido no testemunho daqueles verdadeiros servos de Deus, JAMAIS TERIAM IDO EMBORA para Emaús.
Descreram da própria ressurreição, apesar dela ter sido apregoada por Jesus.
Em resumo, descreram das mulheres, dos homens e do poder de Deus. Não é à toa que a repreensão de Jesus foi tão severa.
Um dos motivos que levam as pessoas a abandonar suas igrejas é quando elas passam a agir de modo semelhante.
É verdade que nas igrejas têm muita gente exagerada, doidas para dar um “tremendo testemunho”, tentando impressionar, para conquistar o respeito do grupo.
Por outro lado, no entanto, há os casos verdadeiros. Testemunhos verídicos, comedidos, isentos de exageros. Pessoas que, de fato, têm experimentando uma dose maior da graça de Deus.
Como diferenciar o falso do verdadeiro? A Bíblia nos ensina a agir com prudência, sobriedade e discernimento.
Alguém certa vez disse: Para quem quer crer, nenhuma prova é preciso; para quem não quer crer, nenhuma prova basta.
Seja crente, de verdade. Seja sábio e prudente, mas crente. Jamais acredite em tudo; jamais duvide de tudo.
O crente vive pela fé e não por preconceitos.
Por ser que, neste ponto desta mensagem, você já tenha compreendido porque abandonou sua ou porque está pensando em fazê-lo. A pergunta que vem a seguir é natural: E agora, como voltar? Como sentir de novo a mesma alegria que eu sentia no início?
Eu estaria mentindo, se lhe dissesse que é fácil voltar ou recuperar a alegria do primeiro amor. Não é nada fácil; mas não é impossível. Vou fazer uma lista dos eventos que motivaram aqueles dois a voltar correndo para Jerusalém:
a) Jesus foi atrás deles;
b) Jesus ouviu suas queixas;
c) Jesus falou aos seus corações:
“E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras”, de tal modo que seus “corações ardiam”;
d) Eles convidaram Jesus a entrar em sua casa;
e) Jesus restaurou a comunhão (no partir do pão);
f) Jesus abriu seus olhos (tirou a cegueira espiritual);
g) Eles voltaram correndo para Jerusalém.
Note que, dos sete eventos que os culminaram na volta deles, somente dois foram de iniciativa humana; quanto aos demais, foram de iniciativa e Jesus.
Em outras palavras: Se Deus não tiver misericórdia de sua vida, você jamais conseguirá voltar à sua igreja ou jamais conseguirá voltar a sentir a mesma alegria do início.
Meu conselho é que você dobre seu joelho e clame em alta voz:
Jesus, por favor, venha me buscar!
E, quando algum irmão ou pastor o procurar e lhe convidar para ir a um culto, vá! E, se o seu coração começar a arder, ao ouvir a Palavra de Deus, convide Jesus a entrar em seu coração e ficar com você nesta “noite fria” que se instalou em seu espírito.
Aceite o perdão de Deus (coma do pão que Jesus lhe der) e…
VOLTE PARA SUA IGREJA.
Se não for possível nem recomendável voltar para sua igreja, peça a Deus para lhe mostrar seu novo lugar de adoração.
Não seja LOUCO E DURO DE CORAÇÃO!
Seja crente!
Crê somente!
20.08.2010
Devocionais, História da Igreja, Mensagens, Mundo Gospel, Seitas Religiosas e Heresias Arrogância, Autoritarismo Religioso, Corrupção, Denominações, Espírito Santo, Frieza Espiritual, Igreja, Iniquidade, Legalismo, Pastor, Presença do Senhor 2 Comentários
O problema principal da Igreja hoje não é a falta de oração, de estudo da Bíblia, de fé ou de dedicação. O problema é mais profundo. Algo tornou-nos tão fracos, que não queremos orar, ou ler a Bíblia. Eliminou-se, de nós, o entusiasmo pelas coisas de Deus.
Onde está o problema? Quando o cerne do Evangelho não é bem entendido ou bem ensinado, o esgotamento espiritual alcança-nos mais cedo ou mais tarde. Os sintomas deste esgotamento são Igrejas sem nenhum entusiasmo; Igrejas que não refletem o amor de Deus, pois nunca o experimentaram de verdade; igrejas onde Cristo está do lado de fora.
O que aconteceu? Onde se perdeu o fabuloso legado espiritual, que deveria chegar até nós, já que, por ele, foi pago um alto preço na cruz e um alto preço pelos milhares de mártires, mortos por amor de Cristo?
No princípio da história da Igreja, ocorreram dois graves desvios que alcançaram até a Igreja de hoje:
1) O Cristianismo como religião e não como relacionamento com Cristo
Jesus Cristo debateu veementemente o farisaísmo, pois eles ensinavam ao povo que deveriam buscar a aceitação de Deus, mediante méritos pessoais. As palavras mais duras de Jesus foram dirigidas aos fariseus, pois uma carga muito grande estava sobre o povo, dificultando o acesso dos mesmos a Deus. E Jesus debateu esse desvio, pois Ele sabia que ao longo da história da sua Igreja, muitos ficariam no meio do caminho por causa do cansaço espiritual.
Jesus ensinava ao povo que eles eram livres para amar a Deus, e que o Evangelho era simples:…“amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.” Não ao legalismo, não à religiosidade. “Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados que eu vos aliviarei…”.
Se alguém encara a vida com Deus entendendo que precisa fazer de tudo para agradá-LO; que precisa trabalhar muito no Reino para tirar um sorriso dos lábios do Senhor; que precisa melhorar o desempenho espiritual visando garantir um terreninho no céu… Saiba que todo esse sacrifício é vão!
A graça é tudo de maravilhoso que poderia acontecer para o ser humano. É de tirar o fôlego! Estamos livres para amá-LO. Não precisamos, desesperadamente, buscar agradar a Deus, pois Ele morreu por saber que nós NUNCA conseguiríamos agradá-LO por nós mesmos. Por causa da cruz, somos declarados puros, diante de Deus, mesmo não o sendo. Fantástico! O esgotamento espiritual vai embora, se as pessoas souberem que Deus quer um coração conquistado, por essa graça, não um coração ansiando arrumar um jeito de escapar do inferno.
Este é o primeiro desvio que têm minado a Igreja de Cristo hoje. O legalismo dos fariseus alcançou-nos, afastando-nos do entendimento do puro Evangelho.
2) A graça foi barateada
O teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer nos sinaliza o segundo desvio sério que alcançou a Igreja de hoje. A graça foi barateada. Que é graça barata? É a pregação do perdão sem arrependimento, graça sem cruz, graça sem Jesus Cristo vivo, encarnado, graça sem discipulado. Significa justificação do pecado e não do pecador. Graça sem preço, sem custo.
O que é graça preciosa? É o tesouro por amor do qual o ser humano sai e vende tudo o que tem com alegria; é o amor tão intenso a Jesus Cristo pelo qual, o ser humano arranca o olho que o faz tropeçar; é o chamado de Jesus, pelo qual o discípulo larga suas redes e o segue. É preciosa por condenar o pecado, e é graça por justificar o pecador. É preciosa por ter custado a Deus a vida de seu Filho. “Vocês foram comprados por preço”. É preciosa porque não pode ser barato a nós aquilo que custou caro a Deus.
Com a expansão do Cristianismo e a secularização crescente da Igreja, a consciência da graça preciosa perdeu-se gradualmente. Tornou-se barata. O mundo estava cristianizado, a graça passou a ser propriedade comum de um “mundo cristão”. Mas a Igreja católica, ainda bem, manteve o monasticismo, pois nele se mantinha viva a consciência da preciosidade da graça. Por amor de Cristo, homens e mulheres abandonavam tudo quanto possuíam. Mas a vida monástica era uma coisa para poucos, não para a massa do povo cristão. Era duro demais. Passaram a serem encaradas essas duas esferas de obediência cristã: uma mais severa e outra mais branda.
Qual o erro do monasticismo e onde ele se distanciou do Cristianismo? Não foi no caminho do discipulado rigoroso e na tentativa de obediência perfeita, mas foi por deixar-se transformar ele próprio na realização excepcional, voluntária, de uns poucos, reivindicando, assim, mérito especial para si. A mudança tinha que acontecer nos recônditos mais íntimos do ser e não em demonstrações superficiais.
Esse desvio tem minado a vida da igreja, pois ela não passa apenas de uma opção morna, enfraquecida, que nos constrange ao lembrarmos-nos dos milhares de cristãos que morreram porque entendiam que ser cristão significava renúncia, significava morrer por Cristo. Tudo infinitamente mais do que encontrarmos com os irmãos, uma vez por semana, para reclamarmos do Pastor e da vida medíocre que levamos no Reino.
Não estejamos no time de cristãos que, por não compreenderem a graça, pensam que precisam se superar para agradar a Deus. E também não fiquemos entre aqueles que pensam que tudo já foi feito na cruz e por isso podem levar uma vida onde a convivência com o pecado é tranquila, sem crise. Fiquemos no ponto de equilíbrio, caro leitor, o qual a graça o alcançou e é preciosa demais, pela qual, por amor, você é impulsionado a largar tudo por Jesus e dizer, sem titubear: “Já estou crucificado com Cristo e vivo não mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2.20).
A-BD
03.08.2010
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Veja também o artigo: Falar em Línguas Estranhas (clique aqui)
Uma análise atenta dos discursos de alguns pregadores dentro do pentecostalismo, ou melhor, do pseudopentecostalismo contemporâneo, mostra um quadro preocupante. Algumas técnicas usadas nas preleções são distantes do cristianismo historio que adoecem o entendimento correto da kerigma. Vejamos algumas dessas técnicas:
- Entonação emotiva na voz
Esse aspecto é largamente usado. Tais pregadores querem conquistar suas platéias pelo despertar das emoções em detrimento da razão. Não existe nada de errado no exercício da emoção durante um culto, mas o uso excessivo desse aspecto humano esconde muitas irracionalidades propagadas por meio dos microfones.
Para uma boa comunicação é necessário voz melosa e emotiva, ou gritos estridentes? É claro que não. O que é essencial para a comunicação, certamente está na clareza, simplicidade, profundidade e transparência do discurso.
- Uso de propagandas populistas
Muitas vezes dá até nojo ouvir alguns programas evangélicos nas rádios paulistanas. A propaganda em cima “do grande homem de Deus” chega ao ridículo da bajulação barata e idólatra. Algumas expressões são comuns, tais como “apóstolo da fé”, “o homem que Deus ouve suas orações”, “ o grande missionário”, “o maior pregador de cura desse país” , “o pregador das multidões”, “o profeta que Deus atende” etc. Certamente são propagandas de si mesmo, sendo uma total autopromoção.
- Maniqueísmo
Sempre esses pregadores dividem o mundo entre o Bem e o Mal. Eles, como agentes do Bem estão prontos para enfrentar o Mal em qualquer situação, como macumbas, maldições, feitiçarias e se colocam como “libertadores” desses males. Nada mais longe das Escrituras, já que não existe em toda a Bíblia uma batalha equivalente em forças entre Deus e o diabo.
- O uso excessivo de clichês e palavras de ordem
Como parte de um apelo populesco e emotivo, os pregadores usam e abusas de palavras de ordem e clichês. Imagine o tempo desperdiçado com tais coisas, enquanto a exposição das Escrituras fica em quinto ou sexto plano.
É necessário rever essas questões. Pentecostalismo não pode ser confundido com esse discurso tão distante das Escrituras, com uma metodologia no mínimo duvidosa.
Devemos empregar o melhor de nossa razão para conhecer quais são as verdadeiras Escrituras canônicas, para expandir o texto para traduzi-lo verdadeiramente, para agregar inferências exatas e justas das declarações das Escrituras, e então aplicar tudo isso em questões de doutrina e adoração.
Richard Baxter – líder puritano
Em nossa revolta contra a razão, mudamos a “fé de uma vez por toda confiada aos santos” (Jd 3) e fracassamos em nos preparar para defender essa fé.
Embora a razão, a lógica e o pensamento crítico não sejam nossas únicas ferramentas, sem eles somos inclinados a interpretar erroneamente a palavra de Deus, possuindo zelo sem conhecimento e utilizando de modo equivocado os dons celestiais.
Ondas de romantismo, relativismo e individualismo têm desencadeado uma ênfase crescente no sentimento em prejuízo do pensamento, na emoção em detrimento da doutrina e na experiência em detrimento do intelecto.
Onde quer que esses valores encontrem adeptos,encontram-nos à custa de se atirarem fora os lemes da razão. Conseqüentemente, isso leva muitos cristãos às correntes da desobediência, para dentro do grande mar da subjetividade, onde nuvens carregadas de misticismo ditam a jornada espiritual.
Quando isso ocorre, ventos turbulentos de meias verdades sopram, empurrando os náufragos indefesos contra os penhascos violentos da confusão e da espiritualidade insensata.
É uma pena que tão poucos autores pentecostais- carismáticos escrevam sobre a a natureza e os perigos do misticismo e da intuição subjetiva.
Com essa lacuna, parecemos dizer que o problema é raro em nosso meio ou que é comum, todavia insignificante. O misticismo é, de maneira geral, o modo de julgar a verdade e a realidade por meio de sentimentos, impressões e experiências pessoais, formulando assim a visão de vida e ditando as decisões de alguém.
Aqueles que abordam a vida espiritual desse modo freqüentemente assumem “que sabem que sabem” e se colocam acima do escrutínio da razão e dos bons conselhos.
Mesmo quando a “verdade” acolhida por eles não é aceita, tendem a questionar a não aceitação ou alterar a “verdade” de modo que se ajuste ao que tem que ser.
Em sua avaliação, a impressão que eles têm apresenta autoridade porque vem de seu interior; e, como vem do interior, deve ter a autoridade do Espírito Santo; e, sendo do Espírito Santo, essa voz não mente.
Esse tipo de raciocínio circular não apenas prejudica o testemunho cristão como também causa tremenda dor de cabeça para amigos, familiares e congregações que ficam refém de tais absurdos.
Qualquer um de nós provavelmente consegue se recordar de numerosas ocasiões estranhas que presenciamos de numerosas ocasiões estranhas que presenciamos como resultado de fortes impressões questionáveis, intuição pessoal e vozes interiores. Isso mostra o tipo de loucura que pode ocorrer quando se descarta a razão.
Não podemos esquecer também, das multidões que se sentem firmemente guiadas por Deus a determinada igreja, mas que, convenientemente, não se envolvem com ela e se sentem à vontade para ir para outra igreja poucas semanas depois.
É de vital importância crermos que o Espírito Santo ainda fala ao corpo de Cristo e que o direcionamento pessoal é um dos métodos pelo qual Deus dirige seus filhos. Há algo de errado conosco se não nos alegrarmos diante do pensamento de sermos conduzidos pelo Espírito de Deus.
Entretanto, há também algo de errado se rejeitamos nossa razão, confundindo cada firme opinião interna com a voz de Deus, fundamentando assim nosso sistema de crença em fenômenos sobrenaturais ininterruptos (reais ou imaginários).
Certamente devemos estar abertos a acontecimentos extraordinários, mas devemos acreditar apenas no que é claramente ensinado nas Escrituras.
Teste cada espírito, avalie todas as coisas, e, evite todas as formas de ser diferente, porque na maioria das vezes isso é mera vaidade.
Precisamos ser cuidadosos para não seguir toda unção interior (especialmente quando essa é egoísta), não nos inclinarmos a buscar sinais e maravilhas e não nos desvencilharmos da lógica e da razão como se elas fossem inimigas do sobrenatural.
Os dois grandes extremos entre os quais devemos operar são o ato de apagar o Espírito por um lado e o sensacionalismo pelo outro.
Devemos conhecer nossas próprias fraquezas e tendências a fim de trazer equilíbrio para nossa vida espiritual. Sem estar aberto a outras visões e sem honestidade diante dos próprios preconceitos, uma pessoa nunca conseguirá descobrir tal equilíbrio.
Há muito trabalho a ser feito a fim de dar assistência adequada aos seguidores do Evangelho, para que tenham uma vida plenamente consciente e correta em uma sociedade tão enganadora e confusa.
Um dos primeiros passos para se atingir esse objetivo é ajudar nosso povo a perceber que razão e fé não são inimigas mortais, ensinando-os também a limitar suas convicções doutrinárias ao campo dos ensinamentos bíblicos explícitos.
Autor: Rick Nañez é pastor assembleiano (EUA) e missionário no Equador.

Pentecostais sinceros me perguntam por que o “cair no Espírito” e a “unção do riso” não são manifestações genuinamente pentecostais. O motivo da dúvida desses irmãos é compreensível: quando lemos a respeito do avivamento de Azusa Street, em Los Angeles (1906), e acerca do início da Assembleia de Deus no Brasil (1911), são comuns as menções a momentos em que irmãos caíam sob o poder de Deus ou riam sem parar. Como explicar isso?
Em primeiro lugar, é preciso fazer distinção entre cair por não suportar a glória de Deus e ser lançado ao chão por um milagreiro, mediante uso de força, persuasão ou sugestão psicológica. E também é necessário distinguir entre alegrar-se na presença do Senhor e rir sem parar, irracionalmente, sem nenhum controle.
Segundo, as experiências relacionadas com o Movimento Pentecostal de Azusa (Estados Unidos) e de Belém do Pará (Brasil), ainda que envolvam santos como William Seymour e Gunnar Vingren, não devem ser supervalorizadas, a ponto de as equipararmos às incontestáveis verdades da Bíblia (Gl 1.6; 1 Co 4.6; 15.1,2). Respeito esses pioneiros do pentecostalismo, porém, ao escrever este artigo, minha fonte de autoridade — primária, inquestionável, primacial, infalível, inerrante — continua sendo a Palavra de Deus.
Muitos defensores dos “moveres” em apreço apegam-se a interpretações errôneas da Bíblia, inclusive para compor canções pelas quais dizem que não conseguirão ficar de pé ante a glória do Senhor. Baseiam-se, por exemplo, em 2 Crônicas 5.14 e 1 Reis 8.10,11 e dizem, com a boca cheia: “Os sacerdotes não resistiram a glória de Deus e caíram no poder”. Que engano! Veja o que a Bíblia realmente diz: “E sucedeu que saindo os sacerdotes do santuário, uma nuvem encheu a Casa do SENHOR. E não podiam ter-se em pé os sacerdotes para ministrar, por causa da nuvem, porque a glória do SENHOR enchera a Casa do SENHOR” (1 Rs 8.10,11).
Como se vê, a frase “não podiam ter-se em pé” tem sido entendida como “caíram no poder”. Mas ela, na verdade, denota que os sacerdotes “não puderam permanecer ali”, o que fica ainda mais claro na versão Almeida Revista e Atualiza (ARA). Eles não suportaram permanecer no local ministrando! Não tinham como resistir a glória divina presente ali. Por isso, não permaneceram no local. Onde está escrito que eles caíram no poder?
O que as Escrituras afirmam em 1 Coríntios 14 acerca do culto pentecostal?
Primeiro: o propósito principal da multíplice manifestação do Espírito em um culto coletivo é a edificação do povo de Deus (vv.4,5,12).
Risos intermináveis e supostas quedas de poder edificam em que?
A faculdade do intelecto não pode ser desprezada no culto em que o Espírito Santo age (vv.15,20). Ninguém genuinamente usado pelo Espírito deixa de raciocinar normalmente, em um culto coletivo a Deus.
Segundo: um culto a Deus não deve levar os incrédulos a pensarem que os crentes estão loucos (v.23).
O que pensam os não-crentes que assistem a certos “cultos” em que pessoas caem ao chão, riem sem parar, rosnam, latem, mugem, rugem, uivam e rolam umas sobre as outras?
O culto coletivo deve ter ordem e decência; tudo deve ocorrer a seu tempo: louvor, exposição da Palavra, manifestações do Espírito (vv.26-28,40). Um culto que não tem ordem nem decência é dirigido pelo Espírito?
Terceiro: no culto genuinamente pentecostal deve haver julgamento, discernimento, a fim de se evitar falsificações (v.29). Leia também 1 Coríntios 2.15 e 1 João 4.1. Haja vista o espírito do profeta estar sujeito ao próprio profeta, é inadmissível que aconteçam manifestações consideradas do Espírito Santo em que pessoas fiquem fora de si (v.32).
Quarto: o Deus que se manifesta no culto coletivo não é Deus de confusão, senão de paz (v.33). Quando um show-man derruba pessoas carentes de uma bênção ou os seus supostos opositores com golpes de seu “paletó mágico”, além da confusão que se instala no “culto”, tal atitude não é nada pacificadora. E quem recebe a glória, indutivamente, é o próprio show-man.
Quinto: Se alguém cuida ser profeta ou espiritual, deve reconhecer os mandamentos do Senhor (v.37). O leitor está disposto a submeter-se aos mandamentos do Senhor? Ou é um daqueles que, irresponsavelmente, dizem: “Não podemos pôr Deus em uma caixinha. Ele sempre faz coisa nova”. Por que temos a Bíblia, para nada? Não é ela a nossa fonte primária de autoridade? Perderam as Escrituras o primado? Não são mais a nossa regra de fé, de prática e de vida? Gálatas 1.8 perdeu a validade?
Diante dessas verdades bíblicas, não há como considerar o “cair no Espírito” e a “unção do riso” manifestações genuinamente do Espírito Santo. Não nos enganemos; o verdadeiro avivamento só ocorre quando há submissão à Palavra de Deus e ao Deus da Palavra, e não mediante “moveres” e “unções” que suprimem a exposição das Escrituras.
Ciro Sanches Zibordi
Fonte: http://www.cpadnews.com.br
Sou pentecostal, membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus desde 1987. Neste ano, fui batizado com o Espírito Santo e nas águas, nessa ordem. Creio em milagres, minha vida é um milagre, tenho visto muitos milagres. Nasci num lar pentecostal e cresci em meio a visões, revelações, curas, línguas estranhas, etc. E, por mais que eu tenha hoje um lado contestador — que não é exclusividade minha, posto que Paulo (2 Co 11.3-15) e o próprio Senhor Jesus (Mt 23; Ap 2-3), só para exemplificar, também se opuseram a heresias e modismos —, sempre cri na multíplice obra do Espírito Santo mediante a diversidade de dons, ministérios e operações (1 Co 12.4-11).
Mesmo assim, sou contra — por que a Palavra de Deus também o é — ao movimento neoassembleiano, que é experiencialista e prioriza manifestações como “cair no poder”, “unção do riso”, “unção do leão”, “unção da lagartixa”, além da ênfase exagerada à prosperidade financeira, que muitos chamam de uma “unção financeira dos últimos dias”.
Na adolescência e na juventude, tive contato com todo o tipo de manifestação pentecostal e pseudopentecostal. Sei o que são cultos no monte; conheço vigílias do “reteté”, que na minha época não recebiam esse adjetivo grotesco e vulgarizante. Fui dirigente de duas congregações em São Paulo e conheci todo o tipo de crente, dos mais frios aos mais fervorosos; desde os mais céticos até os mais fanáticos.
Por graça de Deus, sou ministro do Evangelho desde 1992, ano em que fui consagrado a presbítero (ministro local), mas recebi o título de ministro pela CGADB (Convenção Geral das Assembleias de Deus) somente em 1997, na Assembleia de Deus do Belenzinho em São Paulo. Na ocasião, tendo o meu nome apresentado pelo saudoso pastor e pregador do Evangelho Valdir Nunes Bícego, fui consagrado ao santo ministério numa reunião presidida pelo pastor José Wellington Bezerra da Costa.
Que fique clara uma coisa: não sou um teórico, frio, gelado. Tenho plena convicção bíblica e experiencial de que o “cair no Espírito” e outras manifestações que ora ocorrem no meio da quase-centenária Assembleia de Deus não têm aprovação divina. Não estou sendo apressado em minhas conclusões. Falo com conhecimento de causa, depois de ter analisado cuidadosamente as bases e os resultados das tais manifestações.
Como tenho dito em meus livros editados pela CPAD, pessoas sinceras e tementes a Deus estão certas de que o “cair no Espírito” e a “unção do riso” são bíblicos. E algumas se apegam ao fato de manifestações similares às mencionadas terem ocorrido na Rua Azusa, em Los Angeles, no começo do século XX, e no início da Assembleia de Deus no Brasil. Mas é claro que as experiências relacionadas com o reavivamento do Movimento Pentecostal não se comparam com as aberrações que vemos hoje.

Naquela época, não havia paletó e sopro “ungidos”, empurrões “sutis”, uivos, rugidos, latidos, pessoas rastejando pelo chão, grudadas na parede, etc. Além disso, não se deve supervalorizar as experiências vividas pelos pentecostais do começo do século XX, a ponto de as equipararmos às incontestáveis verdades da Bíblia. Devemos, sim, respeitar os pioneiros, mas a nossa fonte primacial, precípua, de autoridade tem de ser a Palavra de Deus.
O “cair no poder”, a “unção do riso” e manifestações afins não se coadunam com os princípios e mandamentos contidos em 1 Coríntios 14. Essas manifestações aberrantes não edificam (v.12); contrapõem-se ao uso da razão, necessário num culto genuinamente pentecostal (vv.15,20,32); levam os incrédulos a pensarem que os crentes estão loucos (v.23); e promovem desordem generalizada (vv.26-28,40).
Muitos neoassembleianos, defensores dessas manifestações, dizem que estão na liberdade do Espírito, porém o texto de 1 Coríntios 14 não avaliza toda e qualquer manifestação. No culto genuinamente pentecostal deve haver julgamento, discernimento, análise, exame (vv.29,33). Por isso, no versículo 37, está escrito: “Se alguém cuida ser profeta ou espiritual, reconheça que essas coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor”. Leia também 1 Tessalonicenses 5.21 (ARA); João 7.24 e 1 João 4.1.
Não tenho dúvidas de que o Senhor opera milagres extraordinários em nosso meio. Ele é o mesmo (Hb 13.8). Mas o que temos visto hoje em algumas Assembleias de Deus são práticas viciosas e repetitivas. Jesus curou um cego com lodo que fez com a sua própria saliva, porém Ele não metodizou esse modo de dar vista aos cegos. A obra de Deus surpreende, impressiona, positivamente, e deixa todos maravilhados (Lc 5.26). As falsificações são viciosas, premeditadas, propagandeadas, a fim de que o milagreiro receba a glória que é exclusivamente de Deus (Is 42.8).
O “cair no poder”, a “unção do riso” e outros “moveres” não têm apoio das Escrituras e não podem ser equiparados ao batismo com o Espírito Santo, com a evidência inicial de falar em outras línguas, mencionado com clareza na Palavra de Deus (Jl 2.28,29; Mc 16.15-20; At 2; 10; 19; 1 Co 12-14, etc.). Por isso, os neoassembleianos recorrem a passagens que nada têm que ver com o assunto.
Citam textos como 2 Crônicas 5.14 e 1 Reis 8.10,11 e dizem, com a boca cheia: “Os sacerdotes não resistiram a glória de Deus e caíram no poder”. Que engano! Veja o que a Bíblia realmente diz: “E sucedeu que saindo os sacerdotes do santuário, uma nuvem encheu a Casa do SENHOR. E não podiam ter-se em pé os sacerdotes para ministrar, por causa da nuvem, porque a glória do SENHOR enchera a Casa do SENHOR” (1 Rs 8.10,11). Observe que eles saíram do local; não ficaram ali caídos. Não houve também um “arrebatamento em grupo”.
A frase “não podiam ter-se em pé” tem sido empregada de modo errôneo e abusivo pelos neoassembleianos. Eles a interpretam como “caíram no poder”. Mas ela, na verdade, denota que os sacerdotes “não puderam permanecer ali”, o que fica ainda mais claro na versão Almeida Revista e Atualiza (ARA). Eles não suportaram permanecer no local ministrando! Não tinham como resistir a glória divina presente ali. Por isso, não permaneceram no local. Onde está escrito que eles caíram no poder?
Outro texto citado erroneamente em abono às manifestações neoassembleianas é João 14.12, pelo fato de mencionar “coisas maiores” do que as realizadas por Jesus. Mas o termo “obras” (gr. ergon) significa: “trabalho”, “ação”, “ato” (VINE. W.E., Dicionário Vine, CPAD, pp.764,827), e não “milagres” ou “manifestações”, estritamente. Essas obras maiores incluem tanto a conversão de pessoas a Cristo, como a operação de milagres (At 2.41,43; 4.33; 5.12; Mc 16.17,18). Exegeticamente, são obras maiores em número e em alcance. Dizem respeito à quantidade em lugar de qualidade. João 14.12, por conseguinte, não avaliza truques, trapaças, experiências exóticas e antibíblicas, além de fenômenos “extraordinários” (cf. Dt 13.1-4; 2 Ts 2.9; Mt 7.21-23).
O paradigma, o modelo, dos pregadores da Assembleia de Deus deve ser o Senhor Jesus Cristo, que andou na terra fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do Diabo porque Deus era com Ele (At 10.38). É perigoso quando resolvemos ter um ministério “sem limites”, em que nada pode ser contestado, à luz da Bíblia. Tudo deve, sim, ser regulado, controlado pelo Espírito Santo e pela vontade de Deus esposada em sua Palavra (Mt 7.15-23; 1 Jo 4.1; 1 Ts 5.21; 1 Co 14.29; Jo 7.24, etc.).
Na Palavra de Deus não há nenhum fundamento para o “cair no poder” e outras aberrações. O Senhor Jesus nunca derrubou ninguém. Ele não arremessa pessoas ao chão mediante sopros “ungidos” e golpes de paletó. Quem gosta de lançar as pessoas ao chão é o Diabo (Mc 9.17-27). Em Lucas 4.35, está escrito: “E Jesus o repreendeu, dizendo: Cala-te e sai dele. E o demônio, lançando-o por terra no meio do povo, saiu dele, sem lhe fazer mal”. Jesus, o maior Pregador que já andou na terra, e seus apóstolos nunca impuseram as mãos sobre pessoas para levá-las ao chão. Eles jamais sopraram sobre elas ou lançaram parte de suas roupas a fim de derrubá-las.
Considero importantes os milagres e as curas, no nosso meio, Mas, na hierarquização feita por Deus, o Ministério da Palavra tem prioridade (1 Co 12.28; Jo 10.41). Os sinais, prodígios e maravilhas devem ocorrer naturalmente, como consequência da pregação do Evangelho (Mc 16.15-20). E Deus precisa estar no controle, sempre. Mas hoje há muita imitação, falsificação, misticismo no meio dito assembleiano, que é na verdade neoassembleiano.
“Converte-nos, SENHOR, a ti, e nós nos converteremos; renova os nossos dias como dantes” (Lm 5.21).
Ciro Sanches Zibordi
Muitos concluem que não temos como distinguir entre a obra do Espírito e as operações naturais de nossas próprias mentes.
É verdade que não temos direito de esperar que o Espírito de Deus opere em nós se negligenciarmos coisas como o estudo bíblico e a oração. É também verdade que o Espírito opera de formas diferentes – às vezes silenciosa e invisivelmente.
Mesmo assim, se a experiência de salvação nos vem de Deus, por que não deveríamos senti-la? Não produzimos salvação por nossos próprios esforços. A operação natural de nossas mentes não produz salvação. É o Espírito do Todo-poderoso que produz salvação em nossos corações. Por que, então, não deveríamos sentir que o Espírito opera em nós? Se sentimos isso, sentimos somente o que é verdadeiro.
Estamos, portanto, errados ao tacharmos as pessoas de iludidas somente por dizerem que sentiram o Espírito Santo operando nelas. Chamar a isso de ilusão é como dizer: “Você sente que sua experiência é de Deus. Bem, isto prova que sua experiência não vem de Deus!”
As Escrituras descrevem a salvação de um pecador como um renascimento (João 3:3), uma ressurreição da morte (Ef. 2:5), uma nova criação (II Cor. 5:17). Essas descrições têm uma coisa em comum. Todos descrevem eventos que não poderiam ser produzidos pela pessoa que os experimentou.
Somente Deus é autor da regeneração do pecador, ressurreição espiritual e nova criação. Porventura um pecador que tem a experiência de Deus operando em sua vida desse modo, não perceberá que é Ele que o está salvando? Sem dúvida é por isso que as Escrituras descrevem a salvação como regeneração, ressurreição e nova criação. Essas palavras testemunham o fato de que a experiência de salvação não se origina em nós mesmos.
Na salvação, Deus opera com um poder que é, obviamente mais que humano. Dessa forma Ele nos impede de nos vangloriar do que nós fizemos.
Por exemplo, quando Deus salvou a Seu povo, nos dias do Velho Testamento, sua experiência tornou claro que não haviam salvo a si próprios. Quando Deus os tirou do Egito, por ocasião do êxodo, primeiro permitiu que sentissem seu próprio desamparo; então os redimiu por Seu poder miraculoso. Ficou claro para eles que Deus era seu Salvador.
Vemos a mesma experiência do poder de Deus na maioria das conversões descritas no Novo Testamento. O Espírito Santo não convertia as pessoas de modo silencioso, oculto e gradual. Geralmente convertia-as com uma demonstração gloriosa de poder sobrenatural. Hoje as pessoas muitas vezes vêem tais experiências de conversão como um sinal certo de ilusão.
Por outro lado, não devemos pensar que nossas emoções sejam verdadeiramente espirituais somente porque não as produzimos com os nossos próprios esforços. Algumas pessoas tentam provar que suas emoções são do Espírito Santo com o seguinte argumento: “Não produzi esta experiência por mim mesmo. A experiência veio a mim quando não a estava buscando. Não posso fazê-la voltar de novo por meus próprios esforços.”
Esse argumento não é saudável. Uma experiência que não venha de nós mesmos pode vir de um espírito falso. Existem muitos espíritos falsos que se disfarçam como anjos de luz (II Cor. 11:14). Imitam o Espírito de Deus com grande maestria e poder. Satanás pode operar em nós, e podemos diferenciar a obra dele do funcionamento natural de nossas mentes. Por exemplo, satanás enche as mentes de algumas pessoas com blasfêmias terríveis e sugestões vis. Essas pessoas têm certeza que essas blasfêmias e sugestões satânicas não vêm de suas próprias mentes. Penso que é igualmente fácil para o poder de satanás encher-nos de confortos e alegrias falsos. Certamente sentiríamos que esses confortos e alegrias não vieram de nós mesmos. Entretanto, isso não provaria que vieram de Deus!
Também podemos ter experiências que vêm do Espírito de Deus, as quais não nos salvam nem provam que somos salvos. Lemos em Heb. 6:4-5 sobre pessoas “que uma vez foram iluminadas e provaram o dom celestial e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro”, mas que enfim se revelaram ser incrédulas, (vers. 6-8). Experiências religiosas também podem ocorrer sem a influência de um espírito bom ou mau. Pessoas impressionáveis e com imaginação viva podem ter emoções estranhas e impressões que não foram produzidas por seus próprios esforços. Não produzimos sonhos por nossos esforços quando estamos dormindo. Pessoas imaginativas podem ter sentimentos e impressões religiosas que são como sonhos, embora estejam acordadas.
Fonte: http://www.jonathanedwards.com.br/
Um grande equívoco cometido pelos sociólogos da religião é o de por sob a mesma rubrica de “pentecostalismo” dois fenômenos distintos. De um lado, o pentecostalismo propriamente dito, tipificado, no Brasil, pelas Assembléias de Deus; e do outro, o impropriamente denominado “neopentecostalismo”, melhor tipificado pela Igreja Universal do Reino de Deus. Um estudioso propôs denominar essas últimas de pós-pentecostais: um fenômeno que se seguiu a outro, mas que com ele não se conecta, pois “neo” se refere a uma manifestação nova de algo já existente. Correntes de sociologia argentina já os denominaram de “iso-pentecostalismo”: algo que parece, mas não é. Lucidez e coragem teve Washington Franco, em sua dissertação de mestrado na Universidade Federal de Alagoas, quando classificou o fenômeno representando pela IURD de “pseudo-pentecostalismo”: algo que não é. Um estudo acurado dos tipos ideais, Assembléia de Deus e Igreja Universal do Reino de Deus, sob uma ótica sociológica, ou uma ótica teológica, nos levará à conclusão que se trata de duas manifestações religiosas diversas, que não podem — nem devem — ser colocadas sob uma mesma classificação. Ao se somar, a partir do Censo Religioso, esses dois agrupamentos, tem-se um alto índice de “pentecostais”, constituídos, contudo, pelos que o são e pelos que não o são. Equiparar ambos os fenômenos não faz justiça à Igreja Universal e ofende a Assembléia de Deus.
Podemos afirmar, ainda, um segundo equívoco dos analistas: considerar a IURD e suas congêneres como “evangélicas”. Elas próprias, por muito tempo, relutaram em se ver como tal, pretendendo ser tidas como um fenômeno religioso distinto, e terminaram por aceitar a classificação “evangélica” por uma estratégia política de hegemonizar um segmento religioso mais amplo no cenário do Estado e da sociedade civil. O evangelicalismo é marcado pela credalidade histórica e pela ênfase doutrinária reformada na doutrina da expiação dos pecados na cruz e na necessidade de conversão, ou novo nascimento.
Se o pseudo-pentecostalismo não é pentecostalismo, nem, tampouco, evangelicalismo, também não é protestantismo. O discurso e a prática dessa expressão religiosa indicam a inexistência de vínculos ou pontos de contatos com a Reforma Protestante do Século 16: as Escrituras, Cristo, a graça, a fé. Chamar o bispo Macedo de protestante é de fazer tremer o Muro da Reforma, em Genebra, e os ossos de Lutero e Calvino em seus túmulos. Muita gente tem incluído a IURD, e assemelhadas, como pentecostais, evangélicas ou protestantes, para inflar, de forma triunfalista, os números, ou por temor de retaliações legais, ou extralegais, vindas daquelas instituições. Se sociólogos têm denominado manifestações novas na cristandade, como as Testemunhas de Jeová, os Mórmons, ou a Ciência Cristã, como “seitas para-cristãs”, podemos denominar a Igreja Universal e congêneres de “seitas para-protestantes”.
O que se constata, cada vez mais, é que o fenômeno pseudo-pentecostal tem concorrido para uma maior aproximação entre os pentecostais (já tidos como históricos, por sua antigüidade e mobilidade social e cultural) e as igrejas históricas. De um lado, os pentecostais redescobrem o valor da história, de uma confessionalidade e de uma teologia sólida; do outro, os históricos vão flexibilizando (ou ampliando) a sua pneumatologia, reconhecendo a contemporaneidade dos dons do Espírito Santo. O fosso entre pentecostais e pseudo-pentecostais tende a aumentar, não só pela aproximação entre pentecostais e históricos, mas também pela crescente adesão dos pseudo-pentecostais a ensinos e práticas sincréticas, com o catolicismo romano popular e os cultos afro-ameríndios. Quando estudantes de teologia assembleianos, batistas nacionais ou presbiterianos renovados aprendem com teólogos anglicanos (John Stott, J.I. Packer, Michael Greene, Alister McGrath, N.T. Wright), e anglicanos, luteranos ou presbiterianos usam de um louvor mais exuberante e oram por cura e libertação, na expressão de Gramsci, um novo “bloco histórico” vai se formando (retardado pelo extremo fracionamento entre ambos os segmentos), do qual, é claro, não faz parte o pseudo-pentecostalismo. Esse “bloco histórico” em formação, para se consolidar, não apenas deve se conhecer mais mutuamente, somando conceitos e subtraindo preconceitos, mas também responder aos desafios de um pluralismo que inclui a diversidade do catolicismo romano, o pseudo-pentecostalismo, o esoterismo, os sem-religião e um agressivo secularismo, emoldurado pelo relativismo pós-moderno. Isso passa, necessariamente, pelo aprender com a história da igreja — durante, depois e “antes” da Reforma — e pela superação de uma iconoclastia que, equivocadamente, equipara o artístico com o idolátrico.
Contamos com estadistas do reino de Deus, com humildade, visão e coragem para consolidar esse bloco?
• Dom Robinson Cavalcanti é bispo anglicano da Diocese do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política — teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo — desafios a uma fé engajada.
www.dar.org.br
Fonte: Revista Ultimato
03.08.2010
Cultura, Evangélicos, História da Igreja, Mensagens, Mundo Gospel, Seitas Religiosas e Heresias Beréia, Bereiano, Cartel, Corpo de Cristo, Descompromisso, Desobediência, Eleitoral, Evangélico, Exército, Força Inimiga, Grupos Guerrilheiros, Hierarquia e Disciplina, Ideologia, Igreja, Ironia, Luta, Ministério, Missionários, Pecado, Política, Rebelde, Seitas e Heresias, Soldado, Traição, Usos e Costumes, Verdades, Vergonha 4 Comentários
O recente pronunciamento de Índio da Costa sobre o envolvimento de partidos políticos e as FARC, grupo terrorista colombiano, embora não seja nenhuma novidade, tem levantado o debate sobre a legitimidade da guerrilha da Colômbia. Antes de continuar, permita-me esclarecer que não defendo Sendero, nem FARC, nem Fidel Castro. Sou a favor da liberdade de consciência, e me oponho a tudo aquilo que restrinja meu direito de pensar. Lugar de terrorista é na cadeia, e quem se vale da ilegalidade do tráfico de drogas e armas não deveria ser chamado de soldado.
Agora, não pense que eu estou escrevendo isso para fazer uma defesa do Exército Brasileiro ou apenas para demonstrar minha discordância com a guerrilha colombiana ou com os partidos políticos. Eu apenas tomei emprestada essa analogia para exemplificar uma realidade comum ao cristianismo, pois cada dia que passa eu me dou conta que os guerrilheiros estão se apoderando do evangelho, enquanto está cada vez mais raro deparar-se com um verdadeiro soldado.
Mas qual é a diferença entre um soldado e um guerrilheiro? A linha que os divide parece um tanto tênue. Observe que os membros de uma guerrilha quase sempre têm uniformes, coturnos, armas e munição, rádios comunicadores e até se falam com jargões militares. Eles também possuem uma hierarquia, passam por um treinamento severo, tudo muito parecido com um exército “formal”. Apesar disso, não possuem a legitimidade de um verdadeiro exército. Por que razão? Ora, o motivo é simples: Os grupos guerrilheiros lutam por sua própria ideologia, por seus interesses comuns, enquanto soldados lutam pela pátria, estão sob comando da nação e a serviço do seu país. Deu para entender? Vou repetir a idéia: grupos guerrilheiros lutam por sua própria ideologia, por seus interesses comuns, por sua utopia particular, enquanto soldados lutam pela pátria. Captou?
Diante dessa confirmação, eu pergunto a você: Quais os interesses que movem os pastores, missionários e a liderança evangélica de modo geral? Por quem lutam? Seriam eles soldados ou guerrilheiros? Em um conflito de ideologias, qual força prevalece: a claridade das Escrituras ou a força de um estatuto? A palavra de Deus ou as palavras dos homens? O amor à Deus ou o apego à tradição denominacional? Por quem nossos líderes estão lutando?
Ainda lembro com tristeza das muitas vezes que tive que abster-me de gostos e gestos, de interesses e afinidades não porque a bíblia condenava minha conduta, mas porque o mesmo ia contra os famigerados “usos e costumes denominacionais”. Quantas vezes, na minha adolescência e juventude deixei de jogar bola, de freqüentar a piscina do clube, de tomar banho de cachoeira e outras diversões inocentes só para não ir contra as imposições do ministério? Transformaram-me em alguém que eu não era, violentaram a minha individualidade, e eu, simplesmente me deixei levar pela ideologia do grupo, pensando que ao final do treinamento me converteria em um bom soldado. Qual não foi a minha decepção quando descobri que haviam me transformado em um guerrilheiro!
Colegas pastores, ouçam por um momento este jovem que não tem direito sobre vocês, mas que os adverte e exorta com amor de um irmão: Por quem é que nós lutamos? Pelo reino de Deus ou pelos “reinos” dos homens? E se é pela glória de Deus, então alguém me diz, por favor, por que raios os imperativos deste reino não prevalecem nas discussões de Ministério ou nas mesas das Convenções? Porque é que nos recusamos a ensinar certos princípios bíblicos por reverencia a tradições retrógradas que muitas vezes estão em aberta oposição aos princípios do Reino? Será que já não lutamos pelo Reino? Já não defendemos nossa Pátria? Já não somos soldados dAquele Senhor?
Vejo em nossos dias homens e mulheres dispostos a morrer por um ministério, tatuando o rosto do seu apóstolo predileto nas costas, marchando (literalmente marchando!) alienados pelas idéias particulares de coronéis do evangelho, batendo continência para bispos, bispas, apóstolos e patriarcas cuja honra há muito se perdeu, e pergunto se não estamos rodeados por guerrilheiros, os quais andam muito preocupados com “seus evangelhos”, com “suas verdade”, com “seus reinos”, quando deveriam marchar como verdadeiros soldados aos quais somente importam as ordens do verdadeiro General.
Não quero dizer com isso que não se deve obedecer pastores, nem que seja um pecado honrá-los. O mandamento é bíblico, mas não existe nas Escrituras nenhuma razão que nos obrigue a honrar aqueles que negociaram o evangelho, mercadejaram a fé, se corromperam no poder e perderam a honra. Devemos obedecer àqueles que, orientados pela ideologia do Reino, nos guiam na batalha e demonstram fidelidade ao Deus que os comissionou. Quanto à geração de líderes caídos, vendidos e reprovados, valho-me das palavras de Pedro: “É mais importante obedecer a Deus do que aos homens”.
Há tempos venho observando essa guerrilha boba, e há muito já não cedo à suas ideologias e interesses. E como sempre acontece nas ditaduras comunistas, todos aqueles que ousam se opor ao status quo e lutar pela liberdade são taxados de rebeldes, são a “força inimiga”, os “traidores”. Assim, por uma grande ironia, no dia em que decidi lutar pelo meu Senhor aceitando o desafio de ser um autêntico soldado, meu antigo exército me perseguiu, me humilhou, me chamou de rebelde. Quando desejei com toda minha alma ser soldado, a “igreja” “evangélica” me transformou em um guerrilheiro subversivo. Que contradição!
Mas isso já não me importa, pois soldado que é soldado não teme enfrentar um grande exército. Prefiro ir à guerra com 300 valentes que amam à Deus do que lutar ao lado de 32 mil que buscam seus próprios interesses. Nem sempre a verdade está com a maioria, e tratando-se do evangelicismo brasileiro, está cada vez mais provado que a lógica não prevalece.
Mas e você, amigo leitor? Você é Soldado ou Guerrilheiro? De que lado você está?
02.08.2010
Mensagens, Sermões - Pregações Bem Aventuranças, Cristão, Espírito Quebrantado, Espírito Santo, Fé, Filhos de Deus, Fome, Gentil, Humildes, Injúria, Justiça, Limpos de Coração, Mansos, Misericordioso, Paciência, Perdão, Perseguidos, Pobres, Pregação, Recompensa, Reino dos Céus, Sede de Justiça, Vida Reta Deixe o seu comentário
1 Jesus, vendo as multidões, subiu a um monte; e, assentando-se, aproximaram-se dEle os seus discípulos,
2 e abrindo a boca, os ensinava, dizendo:
3 Bem-aventurados os pobres (humildes) de espírito, porque deles é o reino dos céus.
Não é pobreza de bens materiais. Os que deixam para trás sua auto-suficiência e procuram a Graça de Deus como único meio legítimo às qualidades que servem unicamente para glorificar o nome do Senhor, cuja conseqüência é a salvação. Reconhecer a grandeza de Deus na sua vida e sua total dependência a Ele (ESPÍRITO QUEBRANTADO).
4 Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.
O choro do arrependimento do pecado, bem como a tristeza de não ter se curvado antes ao Senhor dos Exércitos ou por não conseguir oferecer a Deus aquilo que é necessário (ESPÍRITO PENITENTE).
5 Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra.
Humildade e Auto-Disciplina (fruto do espírito). Que se dobram à vontade de Deus. Ser submisso totalmente a Jesus Cristo (ESPÍRITO CONTROLADO / GENTIL).
6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque eles serão fartos.
Necessidade de alimentação constante da Palavra do Senhor, sem a qual, todos ficam literalmente vazios, pois quem tem fome será alimentado com o Seu Espírito Santo. Os que buscam a santidade de Deus. Não confiar em si próprio (ESPÍRITO FAMINTO POR DEUS).
7 Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia.
A compaixão pelo semelhante (minoração do sofrimento alheio) gera um efeito para consigo em relação a Deus, pois Ele será misericordioso para conosco na medida em que formos para com os outros (ESPÍRITO COMPASSIVO).
8 Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus.
Os que foram libertos do “poder” do pecado pela Graça de Deus e que, agora, se esforçam em agradar a Deus, expurgando os males que por ventura possam circundar seu coração. Amor à Justiça e ódio ao mal. Ter santidade no seu íntimo (ESPÍRITO PURO).
9 Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus.
Os que se reconciliam com Deus e tem Paz com Ele mediante a Cruz do Calvário. A busca pela paz consiste também em anunciar as “Boas Novas” (os que semeiam) aqueles que ainda não conheceram a Jesus verdadeiramente (ESPÍRITO DE SABEDORIA / MEDITAÇÃO).
10 Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.
Lealdade a Jesus. Ser intransigente com o mal. Não podemos nos conformar com esta era perversa (Rom. 12. 2). Tal perseguição gera no “verdadeiro” Cristão, ALEGRIA, pois sabe que está percorrendo o caminho certo e buscam fazer a vontade de Deus, custe o que custar (ESPÍRITO PACIENTE / PERDOADOR).
11 Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós por Minha causa.
Toda a razão de ser do “verdadeiro” Cristianismo é Jesus Cristo, o grandioso nome ao qual devemos defender a nossa fé, pois, salvação, só nEle, ainda que sejamos perseguidos (etc.). O mal dito contra nós precisa ser irreal porque o “verdadeiro” Cristão tem uma vida reta (sem máculas).
12 EXULTAI E ALEGRAI-VOS, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram aos profetas que foram antes de vós.
A recompensa para os que aceitarem os caminhos anteriores são os galardões celestiais.
O chamado à vida e ao ministério do “Reino” inclui a expectativa de que o fruto e o dom gerados pelo Espírito Santo se desenvolvam no verdadeiro Cristão (João 3. 3 c/c Ef. 4. 23-34).
1ª Igreja Batista em Bezerros (PE): Rua Maj. Miguel, 193, Centro, tel. (81) 8793.9876 – CNPJ/MF nº 11.473.030/0001-31 – Pr. Vicente Paixão
(Pregação: Aldo Corrêa)
16.07.2010
Cultura, Escola Bíblica, Mensagens, Notícias, Seitas Religiosas e Heresias 2 Comentários
Uma das mais empolgantes revistas publicadas pela CPAD, em minha opinião; porém, não podemos deixar de comentar o erro encontrado.
Este artigo é uma resposta à lição A Soberania e a Autoridade de Deus
Tive contato com a revista Lições Bíblicas da CPAD, usada na EBD das Assembléias de Deus no Brasil e outras denominações pentecostais, através do meu sogro que é membro desta denominação. Ao folhear essa revista, meio que por acaso, enquanto o esperava chegar do culto no domingo, dei de cara com a lição de n° 6 que será utilizada dia 9 de maio deste ano, intitulada: A Soberania e a Autoridade de Deus. Imediatamente, como bom calvinista, o tema me chamou a atenção, e mais ainda o texto áureo: “Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para uso honroso e outro para uso desonroso? Rm 9:21” que estava em destaque. Em um primeiro momento fiquei surpreso e feliz, por ver um verso desse como tema de uma lição bíblica em uma igreja pentecostal e tendo em vista o grande número de pentecostais que têm entendido e subscrito a soteriologia reformada, imaginei que com esse tema e texto base, não tinha como não se curvar diante da clareza bíblica da soberania divina na eleição. Mas não durou muito a minha alegria, logo na introdução li a expressão: Calvinistas Extremados, então por estar acostumado aos constantes ataques de arminianos em fóruns, artigos e livros, já sabia que tipo de fundamento nortearia todo aquele estudo.
Ao continuar a intrigante leitura, as minhas suspeitas se confirmaram, não era um ataque ao hiper-calvinismo, era uma afronta a soteriologia reformada e bíblica, comumente chamada de calvinismo.A acusação inicial da lição desta revista de lições bíblicas é de que os calvinistas, ignoram o ensinamento bíblico de que Deus age e determina de acordo com seus santos e perfeito atributos, como bondade e santidade, esquecendo-se, como sempre, que a justiça é um dos atributos de Deus. Deus é Justo Juiz e conforme o contexto da parábola do oleiro em Jeremias, Deus retribui a cada um, segundo o proceder, segundo o fruto de suas as ações (Jr. 17:9). Isto também inclui a justa condenação, a reprovação divina é de acordo com o mérito humano, neste caso, a reprovação divina é de acordo com o demérito humano. Até esse ponto parecem todos estarem de acordo, mas o erro está em supor que alguém possa ser um não merecedor da condenação eterna, todos, inclusive os eleitos, são filhos da ira por natureza (Ef. 2:3), ninguém será salvo por mérito próprio . Assim Deus sempre é o Justo Juiz, diante da condição da criatura humana, mesmo que a todos encerrar-se debaixo da condenação eterna, Deus apenas estaria sendo Justo.
O calvinismo ensina que todos os seres humanos são agentes livres no sentido de que eles podem tomar suas próprias decisões a respeito daquilo que querem fazer, escolhendo de acordo com sua própria natureza e consciência. Ai está o problema do homem natural, segundo as Escrituras ele sempre escolhe mal, a não ser que Deus intervenha de forma soberana, quebrando o coração de pedra e dando-lhe o arrependimento para a vida, este continuará em sua rebeldia contra Deus, morto espiritualmente e não podendo escolher as coisas que dizem respeito a salvação da alma, o homem caído ama somente as trevas e jamais escolhe ser de Deus, não pode por si mesmo buscar o bem espiritual (Rom 3:10).
Então as Escrituras ensinam bem mais que somente o cuidado de Deus pelo seu povo, por aqueles a quem molda para serem vasos de honra, exalta também sua soberania, quando de sua livre vontade, resolve endurecer e não usar de misericórdia com alguém (Rom 9:13-18), e acertadamente, diz o autor da lição que para entender a predestinação é necessário ler romanos capítulos 9-11.
O amor de Deus pelos seus, está fundamentado em sua soberana escolha, “Como está escrito: Amei a Jacó, e aborreci a Esaú.” (Rom 9:13), e este aborrecer é mais que “amar menos” conforme Ml 1:3-4 deixa bem claro, ele traz o sentido de rejeição e antipatia.
Curiosamente a revista traz além de vários textos bíblicos maravilhosamente esclarecedores como: ”… O meu conselho subsistirá, e farei toda a minha vontade” ( Is 46:10), uma definição bíblica e ortodoxa da soberania de Deus, contudo, como é de praxe aos arminianos tentar, a todo custo, condicionar a escolha divina dos que serão salvos ao pré-conhecimento das ações de suas criaturas, isso está também presente no estudo em questão, expresso na frase “levando sempre em conta, naturalmente, o livre-arbítrio com que Ele nos dotou”. Ensino esse que não encontra fundamento nas Escrituras. A eleição segundo a presciência de Deus de que fala as Escrituras, não diz respeito as ações das pessoas, aliais, “presciência” nunca é empregada nas Escrituras em relação a eventos ou ações; em lugar disso, sempre se refere a pessoas. Pessoas é que Deus declara que “de antemão conheceu” (pré-conheceu), não as ações dessas pessoas, vejamos o texto usado na revista:
“Nossa eleição, portanto, tem como base a soberania e a presciência divinas: eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: graça e paz vos sejam multiplicadas (1Pe 1:2)”
Quem são “eleitos segundo a presciência de Deus Pai”? O versículo anterior nô-lo diz: a referência é aos “estrangeiros dispersos”, isto é, a Diáspora, a Dispersão, os judeus crentes. Portanto, aqui também a referência é a pessoas, e não aos seus atos previstos. Se Deus escolhesse os homens baseado nas futuras ações humanas, a salvação seria por méritos previstos, mas o certo é que para as boas obras fomos escolhidos e não por causa delas. (Ef 1:4).
A revista parece mais confusa ainda, quando resolve definir predestinação e como que fugindo do argumento da eleição condicionada ao pré-conhecimento, agora usa João 3:16 para afirmar que Deus predestinou todos os seres humanos à vida eterna, é isso mesmo, o texto usado para falar de predestinação é exatamente o que nada fala sobre isso, mesmo tendo a Bíblia mais de 50 versículos que claramente fazem referência a escolha de Deus daqueles a quem soberanamente salvaria, o único texto que o autor consegue enxergar como resposta a este dilema milenar da cristandade segundo ele de fácil compreensão é que “Deus amou o mundo” como se a expressão de sua benevolência significasse que Deus ama com amor eletivo toda e cada criatura humana, inclusive Esaú, enquanto que nem o verso e nem o contexto a nada disso sugere, pelo contrário, é onde Jesus a muitos confunde com sua assertiva de que ninguém pode ver o reino de Deus, sem antes nascer de novo. Outros textos que falam claramente que os nomes dos eleitos estão escritos no livro da vida antes da fundação do mundo (Ap 13:8), propositalmente ficam fora do estudo que ainda afirma que Deus jamais predestinaria alguém para a condenação eterna, contrariando claramente textos como 1Pe 2:8, Rom 9:22, Jd 1:4, At 13:48 e Prov 16:4.
A predestinação sugerida pelo autor não é a mesma ensinada pelas Escrituras, aquilo que Deus determina, ordena, predestina, tem um fim certo e não pode ser mudado, nem mesmo pela livre agência humana, que não é o mesmo que o livre arbítrio arminiano, onde supostamente Deus abre mão de sua jurisdição e governo para dar ao homem a real oportunidade de escolher e criar realidades, sendo assim uma espécie de co-criador, mas a verdade é que o homem nunca é livre metafisicamente de Deus. A revista ensina que a predestinação para a salvação (mesmo sendo baseada na onisciência como defendido antes), não é garantia de nada, não implica em uma certeza absoluta que aquela pessoa predestinada será salva, enquanto isso as Escrituras Sagradas declaram: Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou. (Rom 8:29-30).
Podemos facilmente perceber que os indivíduos são os mesmos, do início ao fim do processo, desde o conhecimento de nossas pessoas por Deus na eternidade, que entendemos ser o amor eletivo de Deus (pois conhecer no sentido de “tomar ciência”, à todos e tudo Deus conhece) até à justificação, existe uma corrente onde os elos são os mesmos, inquebráveis até o fim, ou seja, os mesmo que são predestinados para a salvação são definitivamente glorificados e levados ao céu, não pode falhar porque faz parte do plano eterno e perfeito de Deus para sua própria glória, e Jesus certamente tem poder para cumprir a vontade do Pai: “E a vontade do que me enviou é esta: Que eu não perca nenhum de todos aqueles que me deu, mas que eu o ressuscite no último dia.” (Jo 6:39).
A lição da revista Lições Bíblicas da CPAD é uma tentativa tímida e inútil de conciliar doutrinas inconciliáveis, à saber, o ensino clássico da Soberania de Deus com a tese arminiana do livre-arbítrio, para tal, é capaz de recorrer à métodos, em muito, parecidos com o das literaturas sectárias, como a revista sentinela dos Testemunhas de Jeová, onde é comum encontrarmos afirmações teológicas fundamentadas em textos claramente distorcidos, fora de seus contextos ou que simplesmente nada falam sobre o assunto ao qual é associado.
É lamentável ver uma revista aparentemente séria como esta da CPAD, além de claramente distorcer textos bíblicos para sustentar sua posição e de vetar com esse discurso autoritário qualquer possibilidade de debate, e a liberdade de pensamento e consciência de cada crente que se utiliza de seu material para estudar as Escrituras, ainda com tom de chacota distorce as palavras de Calvino, insulta os calvinistas, e estigmatiza em sua literatura a posição soteriológica reformada, sustentada por diversas denominações sérias e históricas de nosso país, isso me faz lembrar as palavras de queixa do irmão A. S. Pettie, quando ele diz: “De lábios hostis, uma afirmação justa e correta da doutrina, nunca é ouvida”.
Por Djalma Oliveira Santiago
Fonte: [ Presbiterianos Calvinistas ]
Via: [ Soberania de Deus ]
08.06.2010
A. W. Pink, Mensagens, Sermões - Pregações 2 Comentários
1. A SOLIDÃO DE DEUS. 2. OS DECRETOS DE DEUS. 3. A ONISCIÊNCIA DE DEUS. 4. A PRESCIÊNCIA DE DEUS. 5. A SUPREMACIA DE DEUS. 6. A SOBERANIA DE DEUs. 7. A IMUTABILIDADE DE DEUS. 8. A SANTIDADE DE DEUS. 9. O PODER DE DEUS. 10. A FIDELIDADE DE DEUS. 11 . A BONDADE DE DEUS. 12. A PACIÊNCIA DE DEUS. 13. A GRAÇA DE DEUS. 14. A MISERICÓRDIA DE DEUS. 15. O AMOR DE DEUS. 16. A IRA DE DEUS. 17. CONTEMPLANDO A DEUS
PREFÁCIO
”Une-te pois a ele, e tem paz, e assim te sobrevirá o bem” (Jó 22:21). “Assim diz o Senhor: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas. Mas o que se gloriar glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o Senhor…” (Jeremias 9:23-24). Um conhecimento salvador e espiritual de Deus é a maior de todas as necessidades de cada criatura humana.
O fundamento de todo conhecimento verdadeiro de Deus só pode ser a clara compreensão mental de Suas perfeições, segundo revelam as Escrituras Sagradas. Não nos é possível servir nem adorar a um Deus desconhecido, nem depositar nEle a nossa confiança. Neste breve livro fez-se um esforço para apresentar algumas das principais perfeições do caráter, divino. Para que o leitor se beneficie realmente com a leitura das páginas que se seguem, ele precisa suplicar a Deus com seriedade e determinação que as abençoe para seu proveito, que aplique Sua verdade à consciência e ao coração, a fim de que a sua vida seja transformada.
Necessitamos algo mais que um conhecimento teórico de Deus. Só conhecemos verdadeiramente a Deus em nossa alma, quando nos rendemos a Ele, quando nos submetemos à Sua autoridade e quando os Seus preceitos e mandamentos regulam todos os pormenores da nossa vida. “Conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor…” (Oséias 6:3), “Se alguém quiser fazer a vontade dele… conhecerá” (João 7:17). “… o povo que conhece ao seu Deus se esforçará e fará proezas” (Daniel 11:32).
Os capítulos que se seguem apareceram pela primeira vez na revista mensal “Studies in the Scriptures” (Estudos nas Escrituras), publicada pelo autor e totalmente dedicada à exposição da Palavra de Deus e à provisão de alimento espiritual para almas famintas. Estes artigos foram reeditados em sua presente forma graças à generosidade de um amigo cristão que financiou o custo total de sua publicação. Se Deus o permitir, o produto da venda deste livro será empregado na publicação de outros, de natureza similar. Seja sobre ele a bênção de Deus.
ARTHUR W. PINK
1. A SOLIDÃO DE DEUS
O título deste capítulo talvez não seja suficientemente claro para indicar o seu tema. Isto se deve, em parte, ao fato de que hoje em dia bem poucas pessoas estão acostumadas a meditar nas perfeições pessoais de Deus. Dos que lêem ocasionalmente a Bíblia, bem poucos sabem da grandeza do caráter divino, que inspira temor e concita à adoração. Que Deus é grande em sabedoria, maravilhoso em poder, não obstante, cheio de misericórdia, muitos acham que pertence ao conhecimento comum; contudo, chegar-se a um conhecimento adequado do Seu Ser, Sua natureza, Seus atributos, como estão revelados nas Escrituras Sagradas, é coisa que pouquíssimas pessoas têm alcançado nestes tempos degenerados. Deus é único na excelência do Seu Ser. “Ó Senhor, quem é como Tu entre os deuses? Quem é como Tu glorificado em santidade, terrível em louvores, operando maravilhas?” (Êxodo 15:11).
“No princípio… Deus…” (Gênesis 1:1). Houve tempo, se é que se lhe pode chamar “tempo”, em que Deus, na unidade de Sua natureza, habitava só (embora subsistindo igualmente em três pessoas divinas). “No princípio… Deus…”. Não existia o céu, onde agora se manifesta particularmente a Sua glória. Não existia a terra, que Lhe ocupasse a atenção, Não existiam os anjos, que Lhe entoassem louvores, nem o universo, para ser sustentado pela palavra do Seu poder. Não havia nada, nem ninguém, senão Deus; e isso, não durante um dia, um ano ou uma época, mas “desde sempre”. Durante uma eternidade passada, Deus esteve só: completo, suficiente, satisfeito em Si mesmo, de nada necessitando.
Se um universo, ou anjos, ou seres humanos Lhe fossem necessários de algum modo, teriam sido chamados à existência desde toda a eternidade. Ao serem criados, nada acrescentaram a Deus essencialmente. Ele não muda (Malaquias 3:6), pelo que, essencialmente, a Sua glória não pode ser aumentada nem diminuída.
Deus não estava sob coação, nem obrigação, nem necessidade alguma de criar. Resolver fazê-lo foi um ato puramente soberano de Sua parte, não produzido por nada alheio a Si próprio; não determinado por nada, senão o Seu próprio beneplácito, já que Ele “faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade” (Efésios 1:11). O fato de criar foi simplesmente para a manifestação da Sua glória. Será que algum dos nossos leitores imagina que fomos além do que nos autorizam as Escrituras? Então, o nosso apelo será para a Lei e o Testemunho: “… levantai-vos, bendizei ao Senhor vosso Deus de eternidade em eternidade; ora bendigam o nome da tua glória, que está levantado sobre toda a bênção e louvor” (Neemias 9:5). Deus não ganha nada, nem sequer com a nossa adoração. Ele não precisava dessa glória externa de Sua graça, procedente de Seus redimidos, porquanto é suficientemente glorioso em Si mesmo sem ela. Que foi que O moveu a predestinar Seus eleitos para o louvor da glória de Sua graça? Foi, como nos diz Efésios 1:5, “…. o beneplácito de sua vontade”.
Sabemos que o elevado terreno que estamos pisando é novo e estranho para quase todos os nossos leitores; por esta razão faremos bem em andarmos devagar. Recorramos de novo às Escrituras. No final de Romanos capítulo 11, onde o apóstolo conclui sua longa argumentação sobre a salvação pela pura e soberana graça, pergunta ele: “Por que quem compreendeu o intento do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado?” (vers. 34-35). A importância disto é que é impossível submeter o Todo-poderoso a quaisquer obrigações para com a criatura; Deus nada ganha da nossa parte. “Se fores justo, que lhe darás, ou que receberá da tua mão? A tua impiedade faria mal a outro tal como tu; e a tua justiça aproveitaria a um filho do homem” (Jó 35:7-8), mas certamente não pode afetar a Deus, que é bem-aventurado em Si mesmo. “…quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer” (Lucas 17:10) — nossa obediência não dá nenhum proveito a Deus.
De mais a mais, vamos além: nosso Senhor Jesus Cristo não acrescentou nada a Deus em Seu Ser essencial e à glória essencial do Seu Ser, nem pelo que fez, nem pelo que sofreu. É certo, bendita e gloriosamente certo, que Ele nos manifestou a glória de Deus, porém nada acrescentou a Deus. Ele próprio o declara expressamente, e não há apelação quanto às Suas palavra.; “… não tenho outro bem além de ti” (Salmo 16:2; na versão usada pelo autor, literalmente: “… a minha bondade não chega a Ti”). Em toda a sua extensão, este é um Salmo sobre Cristo. A bondade e a justiça de Cristo alcançou os Seus santos na terra (Salmo 16:3), mas Deus estava acima e além disso tudo, pois unicamente Deus é “o Bendito” (Marcos 14:61, no grego).
É absolutamente certo que Deus é honrado e desonrado pelos homens; não em Seu Ser essencial, mas em Seu caráter oficial. É igualmente certo que Deus tem sido “glorificado” pela criação, pela providência e pela redenção. Não contestamos isso, e não ousamos fazê-lo nem por um momento. Mas isso tudo tem que ver com a Sua glória declarativa e com o nosso reconhecimento dela. Todavia, se assim Lhe aprouvesse, Deus poderia ter continuado só, por toda a eternidade, sem dar a conhecer a Sua glória a qualquer criatura. Que o fizesse ou não, foi determinado unicamente por Sua própria vontade. Ele era perfeitamente bem-aventurado em Si mesmo antes de ser chamada à existência a primeira criatura. E, que são para Ele todas as Suas criaturas, mesmo agora? Deixemos outra vez que as Escrituras dêem a resposta: “Eis que as nações são consideradas por ele como a gola dum balde, e como o pó miúdo das balanças: eis que lança por ai as ilhas como a uma coisa pequeníssima. Nem todo o Líbano basta para o fogo, nem os seus animais bastam para holocaustos. Todas as nações são como nada perante ele; ele as considera menos do que nada e como uma coisa vã. A quem pois fareis semelhante a Deus: ou com que o comparareis?” (Isaías 40:15-18). Esse é o Deus das Escrituras; infelizmente Ele continua sendo o “Deus desconhecido” (Atos 17:23) para as multidões desatentas. “Ele é o que está assentado sobre o globo da terra, cujos moradores são para ele como gafanhotos; ele é o que estende os céus como cortina, e os desenrola como tenda para neles habitar; o que faz voltar ao nada os príncipes e torna coisa vã os juízes da terra” (Isaías 40.22-23). Quão imensamente diverso é o Deus das Escrituras do “deus” do púlpito comum!
O testemunho do Novo Testamento não tem nenhuma diferença do que vemos no Velho Testamento; como poderia ser, uma vez que ambos têm o mesmo Autor! Ali também lemos: “A qual a seu tempo mostrará o bem-aventurado, o único poderoso Senhor, Rei dos reis e Senhor dos senhores; aquele que tem, ele só, a imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver: ao qual seja honra e poder sempiterno. Amém” (1 Timóteo 6:15-16). O Ser que aí é descrito deve ser reverenciado, cultuado, adorado. Ele é solitário em Sua majestade, único em Sua excelência, incomparável em Suas perfeições. Ele tudo sustenta, mas Ele mesmo é independente de tudo e de todos. Ele dá bens a todos, mas não é enriquecido por ninguém.
Um Deus tal não pode ser encontrado mediante investigação; só pode ser conhecido como e quando revelado ao coração Espírito Santo, por meio da Palavra. É verdade que a criação manifesta um Criador, e isso com tanta clareza, que os homens ficam “inescusáveis” (Romanos 1:20); contudo, ainda temos que dizer com Jó: “Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos; e quão pouco é o que temos ouvido dele! Quem pois entenderia o trovão do seu poder?” (Jó 26:14). Cremos que o argumento baseado no desígnio, assim chamado, argumento apresentado por “apologetas” bem intencionados, tem causado mais dano que benefício, pois tenta baixar o grande Deus ao nível do entendimento finito e, com isso, perde de vista a Sua singular excelência.
Tem-se feito uma analogia com o selvagem que achou um relógio e que. depois de um detido exame, inferiu a existência de um relojoeiro. Até aqui, tudo bem. Tentemos ir mais longe, porém. Suponhamos que o selvagem procure formar uma concepção pessoal desse relojoeiro, de seus afetos pessoais, de suas maneira, de sua disposição, conhecimentos e caráter moral — de tudo aquilo que se junta para compor uma personalidade. Poderia ele chegar a imaginar ou pensar num homem real ___ o homem que fabricou o relógio — de modo que pudesse dizer: “Eu o conheço”? Fazer perguntas como esta parece fútil, mas estará o eterno e infinito Deus tanto mais ao alcance da razão humana? Realmente, não. O Deus das Escrituras só pode ser conhecido por aqueles a quem Ele próprio Se dá a conhecer.
Tampouco o intelecto pode conhecer a Deus. “Deus é espírito…” (João 4:24) e, portanto, só pode ser conhecido espiritualmente. Mas o homem decaído não é espiritual; é carnal, Está morto para tudo que é espiritual. A menos que nasça de novo, que seja trazido sobrenaturalmente da morte para a vida, miraculosamente transferido das trevas para a luz, não pode sequer ver as coisas de Deus (João 3:3), e muito menos entendê-las (1 Coríntios 2:14. E mister que o Espírito Santo brilhe em nossos corações (não no intelecto) para dar-nos o “… conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” (2 Coríntios 4:6). E até mesmo esse conhecimento espiritual é apenas fragmentário. A alma regenerada terá de crescer na graça e no conhecimento do Senhor Jesus (2 Pedro 3:18).
A nossa principal oração e finalidade como cristãos deve ser que possamos “… andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus” (Colossenses 1:10).
2. OS DECRETOS DE DEUS
O decreto de Deus é Seu propósito ou determinação com respeito às coisas futuras. Usamos o singular, como o fazem as Escrituras (Romanos 8:28; Efésios 3:11), porque houve somente um ato de Sua mente infinita acerca das coisas futuras. Entretanto, nós falamos como se houvesse muitos, porque as nossas mentes só conseguem pensar em ciclos sucessivos, conforme surgem os pensamentos e as ocasiões, ou com referência a vários objetos do Seu decreto, os quais, sendo muitos, parecem-nos requerer um propósito diferente para cada um deles. O entendimento infinito de Deus não avança passo a passo, ou de etapa a etapa. “Conhecidas por Deus são todas as Suas obras desde a eternidade” (Atos 15:18 versão autorizada KJ, 1611).
As Escrituras fazem menção dos decretos de Deus em muitas passagens, empregando vários termos. A palavra “decreto” acha-se no Salmo 2:7, etc. Em Efésios 3:11 lemos a respeito do Seu “eterno propósito”. Em Atos 2:23, do “… determinado conselho e presciência de Deus… “. Em Efésios 1:9, do “… mistério da sua vontade… “. Em Romanos 8:29 lemos que Ele também “predestinou”. Em Efésios 1:9, sobre “o seu beneplácito”. Os decretos de Deus são denominados Seu “conselho” para significar que são consumadamente sábios. São chamados Sua “vontade” para mostrar que Ele não estava sob nenhum outro domínio, mas agiu de acordo com o Seu beneplácito. Quando a norma de conduta de uma pessoa é a sua vontade, geralmente é caprichosa e irrazoável. Mas nos procedimentos divinos a sabedoria está sempre associada com a “vontade” e, por conseguinte, os decretos de Deus são descritos como sendo “o conselho da sua vontade” (Efésios 1:11).
Os decretos de Deus se relacionam com todas as coisas futuras, sem exceção: o que quer que seja feito no tempo, foi pré-ordenado antes de iniciar-se o tempo. O propósito de Deus dizia respeito a todas as coisas, grandes e pequenas, boas e más, conquanto, com referência a estas, devemos ter o cuidado de afirmar que, se bem que Deus é o Ordenador e Controlador do pecado, não é o seu Autor do mesmo modo como é o Autor do bem. O pecado não poderia proceder de um Deus santo por criação direta e positiva, mas somente por permissão decretatória e ação negativa. O decreto de Deus é tão abrangente como o Seu governo, estendendo-se a todas as criaturas e a todos os eventos.
Relaciona-se com a nossa vida e com a nossa morte, com o nosso estado no tempo, bem como na eternidade. Como Deus faz todas as coisas segundo o conselho da Sua vontade, ficamos sabendo por Suas obras em que consiste (ou consistiu) o Seu conselho, assim como julgamos a planta de um arquiteto inspecionando o edifício que foi construído sob sua direção.
Deus não decretou meramente criar o homem, colocá-lo na terra, e depois deixá-lo entregue à sua própria direção descontrolada; antes, fixou todas as circunstâncias do destino dos indivíduos, e todas as particularidades que a história da raça humana compreende, desde o seu início até o seu fim. Ele não decretou simplesmente o estabelecimento de leis gerais para o governo do mundo, mas dispôs a aplicação dessas leis a todos os casos particulares. Os nossos dias estão contados, como contados estão os cabelos das nossas cabeças. Podemos entender a extensão dos decretos divinos pelas distribuições providenciais, mediante as quais eles são executados. Os cuidados de Deus alcançam as criaturas, mais insignificantes e os mais diminutos eventos, como a morte de um pardal e a queda de um fio de cabelo.
Consideremos agora algumas das propriedades dos decretos divinos. Em primeiro lugar, são eternos. Supor que sequer um deles foi ditado dentro do tempo, é supor que ocorreu algum novo acontecimento, surgiu algum evento imprevisto ou alguma combinação imprevista de circunstâncias, que induziu o Altíssimo a idealizar uma nova resolução. Isto favoreceria a idéia de que o conhecimento de Deus é limitado e que Ele vai ficando mais sábio conforme o tempo avança — o que seria uma horrível blasfêmia. Ninguém que creia que o entendimento divino, é infinito, abrangendo o passado, o presente e o futuro, jamais admitirá a errônea doutrina de decretos temporais. Deus não ignora os eventos futuros que serão executados por volições humanos; Ele os predisse em inúmeros casos, e a profecia não é nada menos do que a manifestação da Sua presciência eterna. As Escrituras afirmam que os crentes foram escolhidos em Cristo antes da fundação do mundo (Efésios 1:4), sim, que foi então que a “graça” lhes foi dada (2 Timóteo 1:9).
Em segundo lugar, os decretos de Deus são sábios? A sabedoria é evidenciada na seleção dos melhores fins possíveis e dos meios mais apropriados para cumpri-los. Pelo que conhecemos dos decretos de Deus, é evidente que lhes pertence esta característica. Eles se nos revelam por sua execução, e toda evidência de sabedoria nas obras de Deus é prova da sabedoria do plano segundo o qual eles são realizados. Como declara o salmista, “O Senhor, quão variadas são as tuas obras! Todas as cousas fizeste com sabedoria…” (Salmo 104:24), Na verdade, só podemos observar uma pequeníssima parte delas, mas devemos proceder aqui como fazemos noutros casos, e julgar o todo pela amostra, o desconhecido pelo conhecido. Aquele que percebe o funcionamento admiravelmente engenhoso das partes de uma máquina que teve oportunidade de examinar, será naturalmente levado a crer que as outras partes são de igual modo admiráveis. Da mesma maneira, devemos persuadir nossas mentes quanto às obras de Deus quando nos invadem dúvidas, e repelir as objeções acaso sugeridas por alguma coisa que não podemos conciliar com as nossas noções do que é bom e sábio. Quando alcançarmos os limites do finito e contemplarmos os misteriosos domínios do infinito, exclamemos: “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus…” (Romanos 11:33).
Em terceiro lugar, são livres. “Quem guiou o Espírito do Senhor? E que conselheiro o ensinou? Com quem tomou conselho, para que lhe desse entendimento, e lhe mostrasse as veredas do juízo e lhe ensinasse sabedoria, e lhe fizesse notório o caminho — da ciência?” (Isaías 40:13-14). Deus estava sozinho quando elaborou os Seus decretos, e as Suas determinações não foram influenciadas por nenhuma causa externa. Ele era livre para decretar ou não, e para decretar uma coisa e não outra. É preciso atribuir esta liberdade Àquele que é supremo, independente e soberano em tudo que faz.
Em quarto lugar, são absolutos e incondicionais. Sua execução não depende de qualquer condição que se pode ou não cumprir. Em cada caso em que Deus tenha decretado um fim, decretou também todos os meios para esse fim. Aquele que decretou a salvação dos Seus eleitos, também decretou produzir fé neles, (2 Tessalonicenses 2:13). “…O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade” (Isaías 46:10); mas não poderia ser assim, se o Seu conselho dependesse de uma condição que não pudesse ser cumprida. No entanto Deus “…faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade” (Efésios 1:11).
Lado a lado com a imutabilidade e invencibilidade dos decretos de Deus, as Escrituras ensinam claramente que o homem é uma criatura responsável e que tem que responder por suas ações E se as nossas idéias se formam com base na Palavra de Deus a defesa de um daqueles ensinos não levará à negação do r outro (Reconhecemos sem reserva que há real dificuldade em definir onde um termina e o outro começa) Sempre acontece isto quando há uma conjunção do divino e do humano. A verdadeira-, oração é ditada pelo Espírito e, não obstante, é também o clamor do coração humano. As Escrituras são a Palavra de Deus inspirada mas foram escritas por homens que eram algo mais que máquinas nas mãos do Espírito. Cristo é Deus e homem. Ele e onisciente, mas crescia em sabedoria (Lucas 2:52). É todo-poderoso porém “… foi crucificado por fraqueza…” (2 Coríntios 13:4). É o Príncipe da vida e, contudo, morreu. Mistérios profundos são estes, mas a fé os recebe sem contestação.
Tem-se assinalado muitas vezes no passado que toda objeção contra os decretos eternos de Deus aplica-se com igual intensidade contra a Sua eterna presciência. “Se Deus decretou ou não todas as coisas que acontecem, aqueles que admitem a existência de Deus reconhecem que Ele sabe de antemão todas as coisas. Pois bem é evidente que se Ele conhece de antemão todas as coisas, Ele as aprova ou não as aprova, isto é, ou quer que se realizem, ou não quer. Mas querer que se realizem é decretá-las (Jonathan Edwards).
Finalmente, procure-se supor e depois contemplar o oposto. Negar os decretos divinos seria proclamar um mundo, e tudo que se relaciona com ele, regulado somente por acaso ou por destino cego. Então, que paz, que segurança, que consolo haveria para os nossos pobres corações e mentes? Que refúgio haveria para onde fugir na hora da necessidade e da provação? Nada disso haveria. Não haveria nada menos que as densas trevas e o abjeto horror do ateísmo. Oh meu leitor, quão agradecidos devemos estar porque tudo está determinado pela infinita sabedoria e bondade de Deus! Quanto louvor e gratidão devemos a Ele por Seus decretos! Graças a estes “… sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados por seu decreto” (Romanos 8.28). Podemos muito bem exclamar: “…glória pois a ele eternamente. Amém” (Romanos 11:36).
3. A ONISCIÊNCIA DE DEUS
Deus é onisciente. Ele sabe todas as coisas — todas as coisas possíveis, todas as coisas reais, todos os eventos, conhece todas as criaturas, todo o passado, presente e futuro. Conhece perfeitamente todos os pormenores da vida de todos os seres que há no céu, na terra e no inferno. “… conhece o que está em trevas…” (Daniel 2:22). Nada escapa à Sua atenção, nada pode ser escondido dEle, não há nada que Ele esqueça! Bem podemos dizer com o salmista: “Tal ciência é para mim maravilhosíssima; tão alta que não a posso atingir” (Salmo 139:6). Seu conhecimento é perfeito. Ele jamais erra, nem muda, nem passa por alto coisa alguma. “E não há criatura alguma encoberta diante dele: antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar” (Hebreus 4:13). Sim, tal é o Deus a quem temos de prestar contas!
“Tu conheces o meu assentar e o meu levantar: de longe entendes o meu pensamento. Cercas o meu andar, e o meu deitar; e conheces todos os meus caminhos. Sem que haja uma palavra na minha língua, eis que, ó Senhor, tudo conheces” (Salmo 139:2-4), Que maravilhoso Ser é o Deus das Escrituras! Cada um dos Seus gloriosos atributos deveria torná-lo honorável à nossa apreciação. A compreensão da Sua onisciência deveria inclinai-nos diante dEle em adoração. Contudo, quão pouco meditamos nesta perfeição divina! Será por que o só pensar nela nos enche de inquietação?
Quão solene é este fato: nada se pode esconder de Deus! :… quanto às cousas que vos sobem ao espírito, eu as conheço” (Ezequiel 11:5). Embora sendo Ele invisível para nós, não o somos para Ele. Nem as trevas da noite, nem as mais espessas cortinas, nem o calabouço mais profundo podem ocultar o pecador dos olhos do Onisciente. As árvores do jardim não puderam ocultar os nossos primeiros pais. Nenhum olho humano viu Caim assassinar seu irmão, mas o seu Criador testemunhou o crime. Sara pôde rir zombeteira, oculta em sua tenda, mas foi ouvida por Jeová. Acã roubou uma cunha de ouro e a escondeu cuidadosamente no solo, mas Deus a trouxe à luz. Davi escondeu a sua iniqüidade a duras penas, mas pouco depois o Deus que tudo vê enviou-lhe um dos Seus servos para dizer-lhe: “Tu és o homem!” E tanto ao escritor como ao leitor se diz: “… sabei que o vosso pecado vos há de achar” (Números 32:23).
Os homens despojariam a Deidade da Sua onisciência, se pudessem — prova de que “… a inclinação da carne é inimizade contra Deus… ” (Romanos 8:7). Os ímpios odeiam esta perfeição divina com a mesma naturalidade com que são compelidos a reconhecê-la. Gostariam que não houvesse nenhuma Testemunha dos seus pecados, nenhum Examinador dos seus corações, nenhum Juiz dos seus feitos. Procuram banir tal Deus dos seus pensamentos: “E não dizem no seu coração que eu me lembro de toda a sua maldade…” (Oséias 7:2). Como é solene o Salmo 90:8! Boa razão tem todo o que rejeita a Cristo para tremer diante destas palavras: “Diante de ti puseste as nossas iniqüidades: os nossos pecados ocultos à luz do teu rosto”.
Mas a onisciência de Deus é uma verdade cheia de consolação para o crente. Em tempos de aflição, ele diz com Jó: “Mas ele sabe o meu caminho…” (23:10). Pode ser profundamente misterioso para mim, inteiramente incompreensível para os meus amigos, mas “Ele sabe”! Em tempos de fadiga e fraqueza, os crentes podem assegurar-se de que Deus ” … conhece a nossa estrutura; lembra-se de que somos pó” (Salmo 103:14). Em tempos de dúvida e vacilação, eles apelam para este atributo, dizendo: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração: prova-me, e conhece os meus pensamentos. E vê se ha em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno” (Salmo 139:23-24). Em tempos de triste fracasso, quando os nossos corações foram traídos por nossos atos; quando os nossos feitos repudiaram a nossa devoção, e nos é feita a penetrante pergunta, “Amas-me?”, dizemos, como o fez Pedro: “… Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo…” (João 21:17).
Aí temos estímulo para orar. Não há motivo para temer que as petições do justo não serão ouvidas, ou que os seus suspiros e lágrimas não serão notados por Deus, visto que Ele conhece os pensamentos e as intenções do coração. Não há perigo de que um santo seja passado por alto no meio da multidão de suplicantes que todo dia e toda hora apresentam as suas variadas petições, pois a Mente infinita é capaz de prestar a mesma atenção a multidões como se apenas um indivíduo estivesse procurando obter a Sua atenção. Assim também a falta de linguagem apropriada, a incapacidade de dar expressão ao anseio mais profundo da nossa alma, não comprometerá as nossas orações, pois, “… será que antes que clamem, eu responderei: estando eles ainda falando, eu os ouvirei” (Isaías 65:24).
“Grande é o nosso Senhor, e de grande poder; o seu entendimento é infinito” (Salmo 147:5). Deus não somente sabe tudo que aconteceu no passado em todos os rincões dos Seus vastos domínios, e não apenas conhece por completo tudo o que agora está ocorrendo no universo inteiro, mas também é perfeito conhecedor de todos os acontecimentos, do menor ao maior deles, que haverão de suceder nas eras vindouras. O conhecimento que Deus tem do futuro é tão completo como o Seu conhecimento do passado e do presente, e isso porque o futuro depende totalmente dEle próprio. Se fosse possível ocorrer alguma coisa sem a ação direta de Deus ou sem a Sua permissão, então aquilo seria independente dEle, e Ele deixaria, de pronto, de ser Supremo.
Ora, o conhecimento divino do futuro não é mera abstração, mas é algo inteiramente ligado ao Seu propósito, o qual o acompanha. Deus mesmo planejou tudo que há de ser, e o que Ele planejou terá que ser efetuado. Como a Sua Palavra infalível afirma, “… segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra: não há quem possa estorvar a sua mão e lhe diga: Que fazes?” (Daniel 4:35). E de novo: “Muitos propósitos há no coração do homem, mas o conselho do Senhor permanecerá” (Provérbios 19:21). Como a sabedoria e o poder de Deus são igualmente infinitos, tudo que Deus projetou está absolutamente garantido. (Que os conselhos divinos deixem de cumprir-se, é tão impossível como seria para Deus, três vezes santo, mentir.
Quanto à realização dos conselhos de Deus relativos ao futuro, nada é incerto. Nenhum dos Seus decretos é deixado na dependência das criaturas, nem das causas secundárias. Não há evento futuro que seja apenas uma possibilidade, isto é, coisa que pode ou não vir a acontecer. “Conhecidas por Deus são todas as suas obras desde a eternidade” (Atos 15:18). O que quer que Deus tenha decretado é inexoravelmente certo, pois nEle “… não há mudança nem sombra de variação” (Tiago 1:17). Portanto, “logo no início do livro que nos desvenda tantas coisas do futuro, são nos ditas “… as coisas que brevemente devem acontecer…” (Apocalipse 1:1).
O perfeito conhecimento de Deus é exemplificado e ilustrado em todas as profecias registradas em Sua Palavra. No Velho Testamento acham-se vintenas de predições concernentes à história de Israel, as quais se cumpriram até o mínimo pormenor, séculos depois de terem sido feitas. Há também vintenas doutras mais, predizendo a carreira de Cristo na terra, e também se cumpriram literal e perfeitamente. Tais profecias só poderiam ter sido dadas por Alguém que conhecesse o fim desde o princípio, e cujo conhecimento repousasse na incondicional certeza da realização de tudo quanto fosse predito..De modo semelhante, o Velho e o Novo Testamento contêm muitos outros anúncios ainda futuros, e estes também “tem que cumprir-se” (Lucas 24:44, na versão usada pelo autor), tem que cumprir-se porque preditos por Aquele que os decretou.
Contudo, deve-se assinalar que, nem o conhecimento de Deus, nem a Sua cognição do futuro, considerados simplesmente em si mesmos, são causativos. Nada jamais aconteceu, nem acontecerá, apenas porque Deus o sabia. A causa de todas as coisas é a vontade de Deus. O homem que realmente crê nas Escrituras sabe de antemão que as estações do ano continuarão a seguir-se sucessivamente com infalível regularidade até o fim da história da terra (Gênesis 8:22); todavia, não é o seu conhecimento a causa da referida sucessão de eventos. Assim, o conhecimento de Deus não nasce das coisas porque elas existem ou existirão, mas porque Ele ordenou que existissem. Deus sabia da crucificação do Seu Filho e a predisse muitas centenas de anos antes que Ele Se encarnasse, e isto, porque, segundo o propósito divino, Ele era um Cordeiro morto desde a fundação do mundo. Portanto, lemos que Ele “… foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus…” (Atos 2:23).
Uma ou duas palavras, à guisa de aplicação. O conhecimento infinito de Deus deveria encher-nos de assombro. Quão exaltado é o Senhor, acima do mais sábio dos homens! Nenhum de nós sabe o que o dia nos trará, mas todo o futuro está aberto ao Seu olhar onisciente. O conhecimento infinito de Deus deveria encher-nos de santa reverência. Nada do que fazemos, dizemos ou mesmo pensamos, escapa à percepção dAquele a quem teremos que prestar contas: “Os olhos do Senhor estão em todo o lugar, contemplando os maus e os bons” (Provérbios 15:3). Que freio seria para nós, se meditássemos nisso mais freqüentemente! Em vez de agir descuidadamente, diríamos com Hagar: “Tu, ó Deus, me vês” (Gênesis 16:13) — segundo a versão utilizada pelo autor, A capacidade de compreensão que o conhecimento infinito de Deus tem deveria encher o cristão de adoração. Minha vida a inteira esteve aberta ante os Seus olhos desde o princípio! Ele previu todas as minhas quedas, todos os meus pecados, todas as minhas reincidências; todavia, fixou em mim o Seu coração. Como a percepção disto deveria fazer-me prostrar em admiração e adoração diante dEle!
4. A PRESCIÊNCIA DE DEUS
Que controvérsias têm sido engendradas por este assunto no passado! Mas que verdade das Escrituras Sagradas existe que não se tenha tornado em ocasião para batalhas teológicas e eclesiásticas? A deidade de Cristo, Seu nascimento virginal, Sua morte expiatória, Seu segundo advento; a justificação do crente, sua santificação, sua segurança; a Igreja, sua organização, oficiais e disciplina; o batismo, a ceia do Senhor, e uma porção doutras preciosas verdades que poderiam ser mencionadas. Contudo, as controvérsias sustentadas não fecharam a boca dos fiéis servos de Deus; então, por que deveríamos evitar a disputada questão da presciência de Deus porque, com efeito, há alguns que nos acusarão de fomentar contendas? Que outros se envolvam em contendas, se quiserem; nosso dever é dar testemunho segundo a luz a nós concedida.
Há duas coisas referentes à presciência de Deus que muitos ignoram: o significado do termo e o seu escopo bíblico. Visto que esta ignorância é tão amplamente generalizada, é fácil aos prega dores e mestres impingir perversões deste assunto, até mesmo ao povo de Deus. Só há uma salvaguarda contra o erro: estar firme na fé. Para isso, é preciso fazer devoto e diligente estudo, e receber com singeleza a Palavra de Deus infundida. Só então ficamos fortalecidos contra as investidas dos que nos atacam. Hoje em dia existem os que fazem mau uso desta verdade, com o fim de desacreditar e negar a absoluta soberania de Deus na salvação dos pecadores. Assim como os seguidores da alta crítica repudiam a divina inspiração das Escrituras e os evolucionistas a obra de Deus na criação, alguns mestres pseudo-bíblicos andam pervertendo a presciência de Deus com o fim de pôr de lado a Sua incondicional eleição para a vida eterna.
Quando se expõe o solene e bendito tema da pré-ordenação divina, e o da eterna escolha feita por Deus de algumas pessoas para serem amoldadas à imagem do Seu Filho, o diabo envia alguém para argumentar que a eleição se baseia na presciência de Deus, e esta “presciência” é interpretada no sentido de que Deus previu que alguns seriam mais dóceis que outros, que responderiam mais prontamente aos esforços do Espírito e que, visto que Deus sabia que eles creriam, por conseguinte, predestinou-os para a salvação. Mas tal declaração é radicalmente errônea. Repudia a verdade da depravação total, pois defende que há algo bom em alguns homens. Tira a independência de Deus, pois faz com que seus decretos se apóiem naquilo que Ele descobre na criatura. Vira completamente ao avesso as coisas, porquanto ao dizer que Deus previu que certos pecadores creriam em Cristo e, por isso, predestinou-os para a salvação, é o inverso da verdade. As Escrituras afirmam que Deus, em Sua soberania, escolheu alguns para serem recipientes de Seus distinguidos favores (Atos 13:48) e portanto, determinou conferir-lhes o dom da fé. A falsa teologia faz do conhecimento prévio que Deus tem da nossa fé a causa da eleição para a salvação, ao passo que a eleição de Deus é a causa, e a nossa fé em Cristo, o efeito.
Antes de continuar discorrendo sobre este tema, tão errôneamente interpretado, façamos uma pausa para definir os nossos termos. Que se quer dizer por “presciência”? “Conhecer de antemão”, é a pronta resposta de muitos. Mas não devemos tirar conclusões precipitadas, nem tampouco apelar para o dicionário do vernáculo como o supremo tribunal de recursos, pois não se trata de uma questão de etimologia do termo empregado. O que é preciso é descobrir como a palavra é empregada nas Escrituras. O emprego que o Espírito Santo faz de uma expressão sempre define. ” seu significado e escopo. Deixar de aplicar esta regra simples tem causado muita confusão e erro. Muitíssimas pessoas presumem que já sabem o sentido de certa palavra empregada nas Escrituras, pelo que negligenciam provar as suas pressuposições por meio de uma concordância. Ampliemos este ponto.
Tomemos a palavra “carne”. Seu significado parece tão óbvio, que muitos achariam perda de tempo examinar as suas várias significações nas Escrituras. Depressa se presume que a palavra é sinônima de corpo físico e, assim, não se faz pesquisa nenhuma. Mas, de fato, nas Escrituras “carne” muitas vezes inclui muito mais que a idéia de corpo. Tudo que o termo abrange, só pode ser verificado por uma diligente comparação de cada passagem em que ocorre e pelo estudo de cada contexto, separadamente.
Tomemos a palavra “mundo”. O leitor comum da Bíblia imagina que esta palavra equivale a “raça humana” e, conseqüentemente, muitas passagens que contêm o termo são interpretadas erroneamente. Tomemos a palavra “imortalidade”. Certamente esta não requer estudo! É óbvio que se refere à indestrutibilidade da alma. Ah, meu leitor, é uma tolice e um erro fazer qualquer suposição, quando se trata da Palavra de Deus. Se o leitor se der ao trabalho de examinar cuidadosamente cada passagem em que se acham “mortal” e “imortal”, verá que estas palavras nunca são aplicadas à alma, porém sempre ao corpo.
Pois bem, o que acabamos de dizer sobre “carne”, “mundo”, e “imortalidade”, aplicasse com igual força aos termos “conhecer” e “pré-conhecer”. Em vez de imaginar que estas palavras não significam mais que simples cognição, é preciso ver que as diferentes passagens em que elas ocorrem exigem ponderado e cuidadoso exame. A palavra “presciência” (pré-conhecimento) não se acha no Velho Testamento. Mas “conhecer” (ou “saber”) ocorre ali muitas vezes. Quando esse termo é empregado com referência a Deus, com freqüência significa considerar com favor, denotando não mera cognição, mas sim afeição pelo objeto em vista. “… te conheço por nome” (Êxodo 33:17). “Rebeldes fostes contra o Senhor desde o dia em que vos conheci” (Deuteronômio 9:24). “Antes que te formasse no ventre te conheci…” (Jeremias 1:5). “… constituíram príncipes, mas eu não o soube…” (Oséias 8:4). “De todas as famílias da terra a vós somente conheci…” (Amós 3:2). Nestas passagens, “conheci” significa amei ou designei.
Assim também a palavra “conhecer” é empregada muitas vezes no Novo Testamento no mesmo sentido do Velho Testamento. “E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci…” (Mateus 7:23). “Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido” (João 10:14). “Mas, se alguém ama a Deus, esse é conhecido dele” (1 Coríntios 8:3). “… o Senhor conhece os que são seus…” (2 Timóteo 2:19).
Pois bem, a palavra “presciência”, como é empregada no Novo Testamento, é menos ambígua que a sua forma simples, “conhecer”. Se cada passagem em que ela ocorre for estudada cuidadosamente, ver-se-á que é discutível se alguma vez se refere apenas à percepção de eventos que ainda estão por acontecer. O fato é que “presciência” nunca é empregada nas Escrituras em relação a eventos ou ações; em lugar disso, sempre se refere a pessoas. Pessoas é que Deus declara que “de antemão conheceu” (pré-conheceu), não as ações dessas pessoas. Para provar isto, citaremos agora cada uma das passagens em que se acha esta expressão ou sua equivalente.
A primeira é Atos 2:23. Lemos ali: “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, tomando-o vós, o crucificastes e matastes pelas mãos de injustos”. Se se der cuidadosa atenção à terminologia deste versículo, ver-se-á que o apóstolo não estava falando do conhecimento ..antecipado que Deus tinha do ato da crucificação, mas sim da Pessoa crucificada: “A este (Cristo) que vos foi entregue”, etc.
A segunda é Romanos 8:29-30. “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho; a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou”, etc. Considere-se bem o pronome aqui empregado. Não se refere a algo, mas a pessoas, que ele conheceu de antemão. O que se tem em vista não é a submissão da vontade, nem a fé .do coração, mas as pessoas mesmas.
“Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu…” (Romanos 11:2). Uma vez mais a clara referência é a pessoas, e somente a pessoas.
A última citação é de 1 Pedro 1:2: “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai…” Quem são “eleitos segundo a presciência de Deus Pai”? O versículo anterior nô-lo diz: a referência é aos “estrangeiros dispersos”, isto é, a Diáspora, a Dispersão, os judeus crentes. Portanto, aqui também a referência é a pessoas, e não aos seus atos previstos.
Ora, em vista destas passagens (e não há outras mais), que base bíblica há para alguém dizer que Deus “pré-conheceu” os atos de certas pessoas, a saber, o seu “arrependimento e fé” e que devido a esses atos Ele as elegeu para a salvação? A resposta é: absolutamente nenhuma. As Escrituras nunca falam de arrependimento e fé como tendo sido previsto ou pré-conhecido por Deus. Na verdade, Ele sabia desde toda a eternidade que certas pessoas se arrependeriam e creriam; entretanto, não é a isto que as Escrituras se referem como objeto da “presciência” de Deus. Esta palavra se refere uniformemente ao pré-conhecimento de pessoas; portanto, conservemos “…o modelo das sãs palavras.. .” (2 Timóteo 1:13).
Outra coisa para a qual desejamos chamar particularmente a atenção é que as duas primeiras passagens acima citadas mostram com clareza e ensinam implicitamente que a “presciência” de Deus não é causativa, pelo contrário, alguma outra realidade está por trás dela e a precede, e essa realidade é o Seu decreto soberano Cristo “… foi entregue pelo (1) determinado conselho e (2) presciência de Deus” (Atos 2:23). Seu “conselho” ou decreto foi a base da Sua presciência. Assim também em Romanos 8-29. Esse versículo começa com a palavra “porque”, conjunção que nos leva a examinar o que o precede Imediatamente. E o que diz o versículo anterior? “… todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles… que são chamados por seu decreto”. Assim é que a “presciência” de Deus baseia-se em seu decreto (ver Salmo 2:7).
Deus conhece de antemão o que será porque Ele decretou o que há de ser. Portanto, afirmar que Deus elege pessoas porque as pré-conhece é inverter a ordem das Escrituras, é pôr o carro na frente dos bois. A verdade é esta: Ele as “pré-conhece” porque as elegeu. Isto retira da criatura a base ou causa da eleição, e a coloca na soberana vontade de Deus. Deus Se propôs eleger certas pessoas, não por haver nelas ou por proceder delas alguma coisa boa, quer concretizada quer prevista, mas unicamente por Seu beneplácito. Quanto ao por que Ele escolheu os que escolheu, não sabemos, e só podemos dizer: “Sim, ó Pai, porque assim te aprouve” (Mateus 11:26). A verdade patente em Romanos 8:29 é que Deus, antes da fundação do mundo, elegeu certos pecadores e os destinou para a salvação (2 Tessalonicenses 2:13). Isto se vê com clareza nas palavras finais do versículo: “… os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho”, etc. Deus não predestinou aqueles que “dantes conheceu” sabendo que eram “conformes”, mas. Ao contrário, aqueles que Ele “dantes conheceu” (isto é, que Ele amou e elegeu), “predestinou para serem conformes”. Sua conformidade a Cristo não é a causa, mas o efeito da presciência e predestinação divina.
Deus não elegeu nenhum pecador porque previu que creria, pela razão simples, mas suficiente, de que nenhum pecador jamais crê enquanto Deus não lhe dá fé; exatamente como nenhum homem pode ver antes que Deus lhe dê a vista. A vista é dom de Deus, e ver é a conseqüência do uso do Seu dom. Assim também a fé é dom de Deus (Efésios 2:8-9), e crer é a conseqüência do uso deste Seu dom. Se fosse verdade que Deus elegeu alguns para serem salvos porque no devido tempo eles creriam, isso tornaria o ato de crer num ato meritório e, nesse caso, o pecador salvo teria motivo para gloriar-se, o que as Escrituras negam enfaticamente: Efésios 2:9.
Certamente a Palavra de Deus é bastante clara ao ensinar que crer não é um ato meritório. Afirma ela que os cristãos vieram a crer “pela graça” (Atos 18:27). Se, pois, eles vieram a crer “pela graça”, absolutamente não há nada de meritório em “crer”, e, se não há nada de meritório nisso, não poderia ser o motivo ou causa que levou Deus a escolhê-los. Não; a escolha feita por Deus não procede de coisa nenhuma existente em nós, ou que de nós provenha, mas unicamente da Sua soberana boa vontade. Mais uma vez, em Romanos 11:5 lemos sobre “… um resto, segundo a eleição”. Eis aí, suficientemente claro; a eleição mesma é “da graça”, e da graça é favor imerecido, coisa a que não tínhamos direito nenhum diante de Deus.
Vê-se, pois, como é importante para nós, termos idéias claras e bíblicas sobre a “presciência” de Deus. Os conceitos errôneos sobre ela, inevitavelmente levam a idéias que desonram em extremo a Deus. A noção popular da presciência divina é inteiramente inadequada. Deus não somente conheceu o fim desde o princípio, mas planejou, fixou, predestinou tudo desde o princípio. E, como a causa está ligada ao efeito, assim o propósito de Deus é o fundamento da Sua presciência. Se, pois, o leitor é um cristão verdadeiro, é porque Deus o escolheu em Cristo antes da fundação do mundo (Efésios 1:4), e o fez não porque previu que você creria, mas simplesmente porque Lhe agradou fazê-lo; você foi escolhido apesar da tua incredulidade natural. Sendo assim, toda a glória e louvor pertence a Deus somente. Você não tem base nenhuma para arrogar-se crédito algum. Você creu “pela graça” (Atos 18:27), e isso porque a tua própria eleição foi “da graça” (Romanos 11:5)
5. A SUPREMACIA DE DEUS
Numa de suas cartas a Erasmo, disse Lutero: “As tuas idéias sobre Deus são demasiado humanas”. Provavelmente o renomado erudito se ofendeu com aquela censura, ainda mais que vinha do filho de um mineiro; não obstante, foi mais que merecida.
Nós também, embora não ocupando nenhuma posição entre os líderes religiosos desta era degenerada, proferimos a mesma acusação contra a maioria dos pregadores dos nossos dias, e contra aqueles que, em vez de examinarem pessoalmente as Escrituras, preguiçosamente aceitam o ensino de outros. Atualmente se sustentam, em quase toda parte, os mais desonrosos e degradantes conceitos do governo e do reino do Todo-poderoso. Para incontáveis milhares, mesmo entre cristãos professos, o Deus das Escrituras é completamente desconhecido.
Na antigüidade, Deus queixou-se a um Israel apóstata: “… pensavas que (eu) era como tu…” (Salmo 50:21). Semelhante a essa terá que ser a Sua acusação contra uma cristandade apóstata. Os homens imaginam que o que move a Deus são os sentimentos, e não os princípios. Supõe que a Sua onipotência é uma ociosa ficção, a tal ponto que Satanás desbarata os Seus desígnios por todos os lados. Acham que, se Ele formulou algum plano ou propósito, deve ser como o deles, constantemente sujeito a mudança. Declaram abertamente que, seja qual for o poder que Ele possui, terá que ser restringido, para que não invada a cidadela do “lívre-arbítrio” humano, e o reduza a uma “máquina”. Rebaixam a toda eficaz expiação, a qual de fato redimiu a todos aqueles pelos quais foi feita, fazendo dela um mero “remédio” que as almas enfermas pelo pecado podem usar se se sentem dispostas a fazê-lo; e enfraquecem a invencível obra do Espírito Santos, reduzindo-a a um “oferecimento” do evangelho que os pecadores podem aceitar ou rejeitar a seu bel-prazer.
O Deus deste século vinte não se assemelha mais ao Soberano Supremo das Escrituras Sagradas do que a bruxuleante e fosca chama de uma vela se assemelha à glória do sol do meio-dia. O Deus de que se fala atualmente no púlpito comum, comentado na escola dominical em geral, mencionado na maior parte da literatura religiosa da atualidade e pregado em muitas das conferências bíblicas, assim chamadas, é uma ficção engendrada pelo homem, uma invenção do sentimentalismo piegas. Os idolatras do lado de fora da cristandade fazem “deuses” de madeira e de pedra, enquanto que os milhões de idolatras que existem dentro da cristandade fabricam um Deus extraído de suas mentes carnais. Na realidade, não passam de ateus, pois não existe alternativa possível senão a de um Deus absolutamente supremo, ou nenhum deus. Um Deus cuja vontade é impedida, cujos desígnios são frustrados, cujo propósito é derrotado, nada tem que se lhe permita chamar Deidade, e, longe de ser digno objeto de culto, só merece desprezo.
A distância infinita que separa do todo-poderoso Criador as mais poderosas criaturas é um argumento em favor da supremacia do Deus vivo e verdadeiro. Ele é o Oleiro, elas são em Suas mãos apenas o barro que pode ser modelado para formar vasos de honra, ou pode ser esmiuçado (Salmo 2:9), como Lhe apraz. Se todos os habitantes do céu e todos os moradores da terra se juntassem numa rebelião contra Ele, não Lhe causariam perturbação e isso teria ainda menor efeito sobre o Seu trono eterno e inexpugnável do que o efeito da espuma das ondas do Mediterrâneo sobre o alto rochedo de Gibraltar. Tão pueril e impotente .é a criatura para afetar o Altíssimo, que as próprias Escrituras nos dizem que quando os príncipes gentílicos se unirem com Israel apóstata para desafiar a Jeová e Seu Ungido, “aquele que habita nos céus se rirá; o Senhor zombará deles” (Salmo 2:4).
Muitas passagens das Escrituras afirmam clara e positivamente a absoluta e universal supremacia de Deus. “Tua é, Senhor, a magnificência, e o poder, e a honra, e a vitória, e a majestade; porque teu é tudo quanto há nos céus e na terra; teu é Senhor, o reino, e tu te exaltaste sobre todos corno chefe … e tu dominas sobre tudo…” (1 Crônicas 29:11-12). Observe-se, diz “dominas” agora, e não diz “dominarás no milênio”. “Ah! Senhor, Deus de nossos pais, porventura não és tu Deus nos céus? Pois tu és Dominador sobre todos os reinos das gentes, e na tua mão há força e poder, e não há quem te possa resistir” (nem o próprio diabo) (2 Crônicas 20:6). Perante Ele, presidentes e papas, reis e imperadores, são menos que gafanhotos. “Mas, se ele está contra alguém, quem então o desviará? O que a sua alma quiser isso fará” (Jó 23:13). Ah, meu leitor, o Deus das Escrituras não é um falso monarca, nem um mero soberano imaginário, mas Rei dos reis e Senhor dos senhores. “Sei que tudo podes, e nenhum dos teus pensamentos pode ser impedido (Jó 42:2, ou, segundo outro tradutor, “nenhum dos teus propósitos pode ser frustrado”. Tudo que designou fazer, Ele o faz. Realiza tudo quanto decretou. “Mas o nosso Deus está nos céus: faz tudo o que lhe apraz” (Salmo 115:3). Por que? Porque “não há sabedoria nem inteligência, nem conselho contra o Senhor” (Provérbios 21:30).
As Escrituras retratam vividamente a supremacia de Deus sobre as obras de Suas mãos. Toda matéria inanimada e todas as criaturas irracionais executam as ordens do seu Criador. Por Sua vontade dividiu-se o Mar Vermelho e suas águas se levantaram e ficaram eretas como paredes (Êxodo 14); e a terra abriu suas fauces e os rebeldes carregados de culpa foram tragados vivos pelo abismo (Números 14). À Sua ordem o sol se deteve (Josué 10), e, noutra ocasião, voltou atrás dez graus do relógio de Acaz (Isaías 38:8). Para exemplificar Sua supremacia, mandou corvos levarem alimento a Elias (1 Reis 17), fez o ferro flutuar (2 Reis 6:5), manteve mansos os leões quando Daniel foi lançado na cova dessas feras, fez que o fogo não queimasse os três hebreus que foram arrojados às chamas da fornalha. Assim, “Tudo o que o Senhor quis, ele o fez nos céus e na terra, nos mares e em todos os abismos” (Salmo 135:6).
O perfeito domínio de Deus sobre a vontade dos homens também demonstra a Sua supremacia, Pondere o leitor cuidadosamente sobre Êxodo 34:24, Exigia-se que todos os varões de Israel saíssem de casa e fossem a Jerusalém, três vezes por ano. Viviam entre gente hostil, que os odiava por se terem apropriado das suas terras. Então, o que é que impedia aos cananeus aproveitarem a oportunidade e, durante a ausência dos homens, matarem as mulheres e as crianças e se apossarem de suas fazendas? Se a mão do Onipotente não estivesse até mesmo sobre a vontade dos ímpios, como poderia Ele ter feito esta promessa, de que ninguém sequer cobiçaria suas terras? Ah, “Como ribeiros de águas, assim é o coração do rei na mão do Senhor; a tudo quanto quer o inclina” (Provérbios 21:1). Mas, poder-se-ia objetar, não lemos uma e outra vez nas Escrituras sobre como os homens desafiavam a Deus, resistiam à Sua vontade, transgrediam os Seus mandamentos, menosprezavam as Suas advertências e faziam ouvidos moucos a todas as Suas exortações? Certamente que sim; B isto anula tudo que dissemos acima? Se anula, então é evidente que a Bíblia se contradiz, Mas isso não pode ser. A objeção se refere simplesmente à iniqüidade do homem em rebelião contra a Palavra de Deus, escrita ao passo que mencionamos acima o que Deus se propôs em Si mesmo. A regra de conduta que Ele nos dá para seguirmos não é cumprida perfeitamente por nenhum de nós; os Seus “conselhos” eternos são realizados nos mínimos detalhes.
O Novo Testamento afirma com igual clareza e firmeza a absoluta e universal supremacia de Deus. Ali se nos diz que Deus “… faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade” (Efésios 1:11). A palavra grega traduzida por “faz” significa “fazer eficazmente”. Por esta razão, lemos: “Porque dele por ele, e para ele, são todas as coisas; glória pois a ele eternamente. Amém” (Romanos 11:56). Os homens podem jactar-se: de que são agentes livres, com vontade própria, e de que têm liberdade de fazer o que querem, mas as Escrituras dizem aos que se jactam: “…. vós que dizeis: hoje, ou amanhã, iremos a tal cidade, e lá passaremos um ano, e contrataremos, e ganharemos… em lugar do que devíeis dizer: Se o Senhor quiser (Tiago, 5:13-15),
Há aqui, pois, um lugar de repouso para o coração. A nossa vida não é, nem produto do destino cego, nem resultado do acaso caprichoso, mas todas as suas minudências foram prescritas desde toda a eternidade e agora são ordenadas por Deus que vive e reina. Nem um fio de cabelo de nossa cabeça pode ser tocado, sem a Sua permissão. “O coração do homem considera o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos” (Provérbios 16:9). Que segurança, que poder, que consolo isso deveria dar ao cristão real! “Os meus tempos estão nas tuas mãos…” (Salmo 31:15). Portanto digo a mim mesmo: “Descansa no Senhor, e espera nele…” (Salmo 37:7).
6. A SOBERANIA DE DEUS
Pode-se definir a soberania de Deus como o exercício de Sua supremacia, estudada no capítulo anterior. Sendo infinitamente elevado acima da mais elevada criatura, Ele é o Altíssimo, o Senhor dos céus e da terra. Não sujeito a ninguém, não influenciado por nada, absolutamente independente: Deus age como Lhe apraz, somente como Lhe apraz, sempre como Lhe apraz. Ninguém consegue frustrá-lo nem impedi-Lo. Assim, Sua Palavra declara expressamente: “… o meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade (Isaías 46:10). “… segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra: não há quem possa estorvar a sua mão…” (Daniel 4:35). O sentido da soberania divina é que Deus é Deus de fato, bem como o é de nome, que Ele ocupa o trono do universo dirigindo todas as coisas, fazendo todas as coisas “… segundo o conselho da sua vontade” (Efésios 1:11).
Acertadamente disse o senhor Spurgeon em seu sermão sobre Mateus 20:15; “Não há atributo mais consolador para os Seus filhos do que o da soberania de Deus, Sob as circunstâncias mais adversas, em meio às mais duras provações, eles crêem que Deus na Sua soberania ordenou as suas aflições, que Ele as dirige soberanamente, e que na Sua soberania santificará todas elas? Para os filhos de Deus não deveria haver nada por que lutar mais zelosamente do que a doutrina de que o seu Senhor domina toda a criação — do reinado de Deus sobre todas as obras de Suas mãos — do trono de Deus e Seu direito de ocupar esse trono. Por outro lado, não há doutrina mais odiada pelos mundanos, nenhuma verdade de que tenham feito joguete a tal ponto como a grandiosa, estupenda, porém certíssima doutrina da soberania do infinito Jeová. Os homens se dispõem a permitir que Deus esteja em toda parte, menos no Seu trono. Dispõem-se a deixá-lo em Sua oficina formando mundos e criando estrelas. Deixarão que esteja em Seu dispensário a distribuir esmolas e a conceder benefícios. Permitirão que fique sustentando a terra e mantendo firmes as suas colunas, que acenda os luzeiros do céu e governe as irrequietas ondas do oceano; mas quando Deus sobe ao Seu trono. Suas criaturas rangem os dentes, e quando nós proclamamos um Deus entronizado, e Seu direito de fazer o que quiser com o que lhe pertence, como também de dispor de Suas criaturas como Ele achar melhor, sem consultá-las sobre a questão, então os homens nos vaiam, nos amaldiçoam e se fazem de surdos para não nos ouvir, porquanto Deus no Seu trono não é o Deus que eles amam. Mas é Deus no Seu trono que muito nos agrada pregar. É em Deus no Seu trono que confiamos”.
“Tudo que o Senhor quis, ele o fez, nos céus e na terra, nos mares e em todos os abismos’ (Salmo 135:6). Sim, dileto leitor, tal é o imperial Potentado revelado nas Escrituras Sagradas. Sem rival em majestade, ilimitado em poder, imune de tudo quanto Lhe é alheio. Mas estamos vivendo dias em que até mesmo os mais “ortodoxos” parecem ter medo de admitir em termos próprios a deidade de Deus. Dizem que acentuar a soberania de Deus exclui a responsabilidade humana quando, na verdade, a responsabilidade humana baseia-se na soberania divina e desta é resultado.
“Mas o nosso Deus está nos céus: faz tudo o que lhe apraz” (Salmo 115:3). Ele escolheu soberanamente colocar cada uma de Suas criaturas na condição que pareceu bem aos seus olhos. Deus criou anjos: a alguns, colocou num estado condicional; a outros, deu uma posição imutável diante dEle (I Timóteo 5:21), estabelecendo Cristo como sua cabeça (Colossenses 2:10). Não passemos por alto o fato de que tanto os anjos que pecaram (2 Pedro 2:5) como os que não pecaram, eram Suas criaturas. Contudo, Deus previu que aqueles cairiam; não obstante, colocou-os num estado condicional, próprio das criaturas mutáveis, e permitiu que caíssem, embora não sendo o Autor do pecado deles.
Assim também Deus colocou soberanamente Adão no jardim do Éden num estado condicional, Se Lhe aprouvesse, tê-lo-ia colocado num estado incondicional; poderia tê-lo colocado numa posição tão firme como a dos anjos que não caíram, posição tão segura e imutável como a dos santos em Cristo. Em vez disso, porém, preferiu colocá-lo no Éden sobre a base da responsabilidade como criatura, de modo que permanecesse ou caísse conforme correspondesse ou não à sua responsabilidade — de obediência ao seu Criador. Adão foi feito responsável a Deus pela lei que o Criador lhe deu. Responsabilidade existia aí no jardim, responsabilidade intacta, submetida à prova sob as mais favoráveis condições.
Ora, Deus não colocou Adão num estado condicional e de criatura responsável porque fazê-lo era justo. Não, era justo porque Deus o fez. Tampouco Deus deu existência às criaturas porque era justo que o fizesse, isto é, porque estava obrigado a criar; mas sim era justo porque Ele o fez. Deus é soberano. Sua vontade é suprema. Longe de estar sujeito a qualquer lei sobre “direito”, Deus é lei para Si próprio, de modo que tudo quanto Ele faz é justo. E ai do rebelde que levante questão sobre a Sua soberania! — “Ai daquele que contende com o seu Criador! O caco entre outros cacos de barro! Porventura dirá o barro ao que o formou: Que fazes?…” (Isaías 45:9).
Ainda mais, o Senhor Deus colocou soberanamente Israel numa posição condicional. Os capítulos 19, 20 e 24 de Êxodo dão provas abundantes e claras disto. Israel estava sob um pacto de obras. Deus lhe deu certas leis e fez que as bênçãos para a nação dependessem da sua observância dos estatutos divinos. Mas Israel era duro de cerviz e incircunciso de coração. Rebelou-se contra Jeová, abandonou Sua Lei, voltou-se para os falsos deuses, apostatou. Em conseqüência, o juízo divino caiu sobre Israel e este foi entregue às mãos dos seus inimigos, foi disperso por toda a terra, e até hoje permanece sob a pesada severidade do desfavor de Deus.
Foi Deus que, no exercício de Sua sublime soberania, colocou Satanás e seus anjos, Adão e Israel em suas respectivas posições de responsabilidade. Entretanto, longe de acontecer que a Sua soberania retirasse das criaturas a sua responsabilidade, foi pelo exercício da mesma que Ele as colocou em estado condicional j sob as responsabilidades que julgou apropriadas; em virtude de cuja soberania, vê-se que Ele é Deus sobre todos. Assim, há perfeita harmonia entre a soberania de Deus e a responsabilidade da criatura. Muitos têm dito tolamente que é de todo impossível mostrar onde termina a soberania divina e começa a responsabilidade da criatura. A responsabilidade da criatura começa aqui: na ordenação soberana do Criador. Quanto à Sua soberania, não há e nunca haverá nenhum “fim” para ela!
Vamos dar algumas provas de que a responsabilidade da criatura baseia-se na soberania de Deus. Quantas coisas estão registradas nas Escrituras e que eram justas porque Deus as ordenou, e não seriam justas se Ele não as tivesse ordenado! Que direito tinha Adão de “comer” das árvores do jardim? Sem a permissão do seu Criador (Gênesis 2:16), Adão teria sido um ladrão! Que direito Israel tinha de pedir prata, ouro e vestes aos egípcios (Êxodo 12:35)? Nenhum, se Jeová não o tivesse autorizado (Êxodo 3:22). Que direito possuía Israel de matar tantos cordeiros para sacrifício? Nenhum, a não ser pelo fato de que Deus ordenou isso. Que direito Israel tinha de eliminar todos os cananeus? Nenhum, salvo porque Jeová mandou. Que direito tem o marido de exigir submissão da esposa? Nenhum, se Deus não o tivesse estipulado. E poderíamos prosseguir nisso mais e mais. A responsabilidade humana está baseada na soberania divina.
Mais um exemplo do exercício da absoluta soberania de Deus. Deus colocou os Seus eleitos num estado diferente do de Adão ou Israel. Colocou-os num estado incondicional. No pacto eterno Cristo foi designado a Cabeça deles, levou sobre Si as suas responsabilidades e cumpriu por eles uma justiça perfeita, irrevogável e eterna. Cristo foi colocado num estado condicional, pois Ele estava “debaixo da lei, para ganhar os que estavam debaixo da lei”, só que com esta diferença infinita: os outros falharam: Ele não falhou e não podia falhar. E quem foi que colocou Cristo naquele estado condicional? O Trino Deus. A vontade soberana O designou, o amor soberano O enviou, e a autoridade soberana determinou a Sua obra.
Certas condições foram postas diante do Mediador. Ele teria que ser feito em semelhança da carne do pecado; teria que engrandecer, e dignificar a lei; teria que levar em Seu corpo no madeiro todos os pecados do povo de Deus; teria que fazer plena expiação por eles; teria que suportar o derramamento da ira de Deus; e teria que morrer e ser sepultado. Pelo cumprimento dessas condições, era-Lhe oferecida uma recompensa: Isaías 53:10-12. Ele haveria de ser o Primogênito entre muitos irmãos; haveria de ter um povo que participaria de Sua glória. Bendito seja o Seu nome para sempre, pois Ele cumpriu essas condições e, uma vez que as cumpriu, o Pai está comprometido, com juramento solene, a preservar sempre e abençoar por toda a eternidade cada um daqueles pelos quais o Seu Filho encarnado fez mediação. Desde que Ele tomou o lugar deles» agora eles participam do dEle. Sua justiça é deles, Sua posição diante de Deus é deles. Sua vida é deles. Não lhes resta sequer uma condição para cumprir, nem uma só responsabilidade da qual desincumbir-se para alcançarem a bem-aventurança eterna. “… com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados” (Hebreus 10:14).
Eis aí, pois, a soberania de Deus exposta abertamente diante de todos nas diferentes formas pelas quais Ele se relaciona com as Suas criaturas. Alguns dos anjos, Adão e Israel foram colocados numa posição condicional, na qual a continuidade da bênção dependia da sua obediência e fidelidade a Deus. Porém, em marcante contraste com eles, o “pequeno rebanho” (Lucas 12:32) recebeu uma posição incondicional e imutável no pacto de Deus. nos Seus conselhos e em Seu Filho; a bênção dele depende do que Cristo fez por ele, “… o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: o Senhor conhece os que são seus…” (2 Timóteo 2:19), O fundamento sobre o qual estão os eleitos de Deus é perfeito; nada se lhe pode acrescentar, e nada se lhe pode tirar (Eclesiastes 3:14). Eis aqui, pois, a maior e mais elevada demonstração da absoluta soberania de Deus. Verdadeiramente, Ele “… compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer” (Romanos 9:18).
7. A IMUTABILÍDADE DE DEUS
Esta é uma das perfeições divinas não suficientemente examinadas. É uma das excelências do Criador que O distinguem de todas as Suas criaturas. Deus é perpetuamente o mesmo: não sujeito a mudança nenhuma em Seu ser, em Seus atributos e em Suas determinações. Daí, Deus é comparado a uma rocha (Deuteronômio 32:4, etc.) que permanece inamovível quando todo o oceano circundante está numa condição de contínua oscilação, exatamente assim, conquanto sendo sujeitas a mudança todas as criaturas, Deus é imutável. Visto que Deus não tem princípio nem fim, não pode experimentar mudança. Ele é eternamente o “… Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação” (Tiago 1:17).
Primeiro, Deus é imutável em Sua essência. Sua natureza e Seu ser são infinitos e, assim, são sujeitos a mutação alguma, jamais houve tempo quando Ele não era; jamais virá tempo quando Ele deixará de ser. Deus não evoluiu, nem cresceu, nem melhorou. Tudo que Ele é hoje, sempre foi e sempre será. “…eu, o Senhor, não mudo…” (Malaquias 3:6) é a Sua afirmação categórica. Ele não pode mudar para melhor, pois já é perfeito; e, sendo perfeito, não pode mudar para pior. Completamente imune de tudo quanto Lhe é alheio, é impossível melhoramento ou deterioração. Ele é perpetuamente o mesmo. Somente Ele pode dizei “…EU SOU O QUE SOU…” (Êxodo 3:14). Ele é absolutamente livre da influência do curso do tempo. Não há um vinco sequer nos sobrolhos da eternidade. Portanto, o Seu poder jamais pode diminuir, nem Sua glória desvanecer-se.
Segundo, Deus é imutável em Seus atributos. Tudo que atributos de Deus eram antes do universo ser chamado à existência, são precisamente o mesmo agora, e permanecerão assim para sempre. E isto necessariamente, pois eles são as próprias perfeições, as qualidades essenciais do Seu ser, Semper idem (sempre o mesmo) está escrito em cada um deles. Seu poder é imbatível, Sua sabedoria não sofre diminuição. Sua santidade é imaculada. Os atributos de Deus não podem sofrer mudança mais do que a Deidade pode deixar de existir. Sua veracidade é imutável, pois a Sua Palavra “…permanece no céu” (Salmo 119:89). Seu amor é eterno: “…com amor eterno te amei…” (Jeremias 31:3) e “…como havia amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até o fim” (João 13:1). Sua misericórdia não cessa, pois, é “eterna” (Salmo 100:5).
Terceiro, Deus é imutável em Seu conselho. Sua vontade nunca muda. Talvez alguns estejam prestes a objetar que lemos, “Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem.. . ” (Gênesis 6;6). Nossa primeira resposta é: então as Escrituras se contradizem? Não, isso não pode ser. Números 23:19. é suficientemente claro; “Deus não é homem, para que minta: nem filho do homem, para que se arrependa. ..” (Números 23:19). Assim também em 1 Samuel 15:29: “… a Força de Israel não mente nem se arrepende: porquanto não é um homem para que se arrependa”. A explicação é deveras simples. Quando fala de si mesmo, Deus freqüentemente acomoda a Sua linguagem às nossas capacidades limitadas. Ele Se descreve a Si mesmo como revestido de membros corporais como olhos, ouvidos, mãos, etc. Fala de Si como tendo despertado (Salmo 78:65) e como “madrugando” (Jeremias 7:13), apesar de que Ele não cochila nem dorme. Quando Ele estabelece uma mudança em Seu procedimento para com os homens, descreve a Sua linha de conduta em termos de arrepender-se.
Sim, Deus é imutável em Seu conselho. “Os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento” (Romanos 11:29). Só pode ser assim, pois, “… se ele está contra alguém, quem então o desviará? Q que a sua alma quiser isso fará” (To 23:13). “Mudança e declínio vemos em tudo ao redor; 6 Aquele que não muda, permaneça contigo onde quer que for”. O propósito de Deus nunca se altera. Uma destas duas coisas faz com que um homem mude de opinião e inverta os seus planos: falta de previsão para antecipar tudo, ou ausência de poder para executar o que planeja. Mas visto que Deus é onisciente assim como é onipotente, nunca Lhe é necessário rever Seus decretos. Não, “O conselho do Senhor permanece para sempre: os intentos do seu coração de geração em geração” (Salmo 33:11). Portanto, podemos ler sobre “… a imutabilidade do seu conselho…” (Hebreus 6:17).
Aqui podemos perceber a distância infinita que separa do Criador a criatura mais elevada. Mutabilidade e criatura são termos correlatos, Se a criatura não fosse mutável por natureza, não seria criatura; seria Deus. Por natureza tendemos para o nada, como do nada viemos. Nada detém a nossa aniquilação, exceto a vontade e o poder sustentador de Deus. Ninguém pode manter-se nem por um momento. Dependemos do Criador para cada sorvo de ar que aspiramos. Alegremente concordamos com o salmista em que o Senhor sustenta “.. . com vida a nossa alma…” (Salmo 66:9). A compreensão disto deveria fazer com que nos prostrássemos sob o senso da nossa nulidade na presença dAquele em quem “…vivemos, e nos movemos, e existimos…” (Atos 17:28).
Como criaturas decaídas, não somente somos mutáveis, mas tudo em nós é oposto a Deus. Como tais, somos “… estrelas errantes. . , ” (Judas 15), fora da nossa órbita. “… os ímpios são como o mar agitado que não se pode aquietar” (Isaías 57:20). O homem decaído é inconstante. As palavras de Jacó referentes a Rubem aplicam-se com força total a todos os descendentes de Adão; “Inconstante como a água…” (Gênesis 49:4), Desta maneira, não é apenas sinal de vida piedosa, mas também elemento de sabedoria, dar ouvido à injunção: “Deixai-vos pois do homem…”‘ (Isaías 2:22), Não se deve ficar na dependência de nenhum ser humano. “Não confieis em príncipes nem em filhos de homens, em quem não há salvação” (Salmo 146:5). Se desobedeço a Deus, mereço ser enganado por meus companheiros de i existência e decepcionar-me com eles. Pessoas que gostam de você hoje, poderão odiá-lo amanhã. A multidão que clamou “Hosana: bendito o rei de Israel que vem em nome do Senhor”, depressa passou a bradar: “… tira, tira, crucifica-o (João 12:13; 19:15).
Aqui há firme consolação. Não se pode confiar na natureza humana, mas em Deus sim! Por mais inconstante que eu seja7 por mais volúveis que os meus amigos se mostrem, Deus não muda. Se Ele mudasse como nós, se quisesse uma coisa hoje e outra amanhã, e se fosse controlado por capricho, quem poderia confiar nEle? Mas, todo o louvor ao Seu glorioso nome, Ele é_ sempre o mesmo. Seu propósito é firme, Sua vontade estável, Sua palavra segura. Aqui, pois, está uma Rocha em que podemos firmar os nossos pés, enquanto a poderosa torrente leva tudo de arrasto ao nosso redor. A permanência do caráter de Deus garante o cumprimento de Suas promessas; “Porque as montanhas se desviarão e os outeiros tremerão; mas a minha benignidade não se desviará de ti, e o concerto da minha paz não mudará, diz o Senhor, que se compadece de ti” (Isaías 54:10).
Aqui há incentivo para a oração, “Que consolo haveria em orar a um deus que, como o camaleão, mudasse de cor a cada momento? Quem elevaria uma petição a um príncipe terreno que fosse tão mutável que atenderia a um pedido um dia e o negaria no dia seguinte?” (S. Charnock, 1670), Se alguém perguntar: “Mas que utilidade hã em orar a um Ser. cuja vontade já foi fixada? Respondemos: Porque Ele o exige. Que bênçãos Deus prometeu sem que nós as busquemos? “.., se pedirmos alguma coisa, segundo a sua vontade, ele nos ouve” (1 João 5:14), e Ele sempre quis tudo que é para o bem dos Seus filhos.
Aqui há terror para os ímpios. Os que O desafiam, transgridem Suas leis, não têm interesse em Sua glória, mas vivem como se Ele não existisse, não devem imaginar que, quando no dia final clamarem a Ele por misericórdia, Ele mudará a Sua vontade, revogará a Sua Palavra e rescindirá as suas ameaças terríveis. Não. Ele declarou: “Pelo que também eu procederei com furor; o meu olho não poupará, nem terei piedade: ainda que me gritem aos ouvidos com grande voz, eu não os ouvirei” (Ezequiel 8:18). Deus não Se negará a Si próprio para gratificar a luxúria deles. Deus é santo, imutavelmente santo. Portanto, Deus odeia o pecado; eternamente odeia o pecado. Daí a eternidade do castigo de todos quantos morrem em seus pecados.
“A imutabilidade divina, como a nuvem que se interpunha entre os israelitas e o exército egípcio, tem um lado escuro, bem como um lado claro. Ela assegura a execução das Suas ameaças, como também a concretização das Suas promessas; e destrói a esperança, carinhosamente acalentada pelos culpados, de que Deus será todo brandura para as Suas frágeis e errantes criaturas, e de que serão tratados de modo muito mais leve do que as declarações da Sua Palavra nos levam a esperar. Contrapomos a estas especulações enganosas e presunçosas a solene verdade de que Deus é imutável em Sua veracidade e propósito, em Sua fidelidade e justiça” (J, Dick, 1850).
8. A SANTIDADE DE DEUS
”Quem te não temerá, ó Senhor e não magnificará o teu nome? Porque só tu és santo…” (Apocalipse 15:4). Somente Ele é independente, infinita e imutavelmente santo. Muitas vezes Ele é intitulado “O Santo* nas Escrituras. Sim, porque se acha nEle a soma total de todas as excelências morais, Ele é pureza absoluta, que nem mesmo a sombra do pecado mancha. “…Deus é luz…” (1 João 1:5). A santidade é a excelência propriamente dita da natureza divina: o grande Deus é “… glorificado em santidade…” (Êxodo 15:11). Daí lermos: “Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal, e a vexação não podes contemplar…” (Habacuque 1:15). Como o poder de Deus é o oposto da fraqueza inata da criatura, como a Sua sabedoria está em contraste com o menor defeito de entendimento ou com a menor insensatez, assim a Sua santidade é a própria antítese de toda mancha ou corrupção moral. No passado Deus designou cantores em Israel para “que louvassem a Majestade santa”, ou, na versão utilizada pelo autor, “que louvassem a beleza da santidade” (2 Crônicas 20:21). “O poder á a mão ou o braço de, Jesus, a onisciência os Seus olhos, a misericórdia as Suas entranhas, a eternidade a Sua duração, mas a santidade é a Sua beleza” (S. Charnock). É isto Que, acima de tudo. torna-O amorável aos que foram libertos do domínio do pecador.
Grande ênfase é dada a esta perfeição de Deus. “Deus é com mais freqüência intitulado Santo do que Onipotente, e é mais exposto por esta parte da Sua dignidade do que por qualquer outra. É fixada ao Seu nome como um (epitéto) mais do que qualquer outra, Você jamais o vê expresso,”Seu poderoso nome” ou “Seu sábio nome”, mas Seu grande nome e, acima de tudo, Seu santo nome. Este é o maior título de honrar neste último transparecem a majestade e a venerabilidade do Seu nome?; (S. Charnock). Como nenhuma outra, esta perfeição é celebrada diante do trono do céu, bradando os serafins: “… Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos…” (Isaías 6:3), Deus mesmo coloca em distinção esta perfeição: “Uma vez jurei por minha santidade que não mentirei a Davi” (Salmo 89:35). Deus jura por Sua “santidade porque esta é uma expressão do Seu ser, expressão mais completa que qualquer outra coisa. Eis porque somos exortados: “Cantai ao Senhor, vós que sois seus santos, e celebrai a memória da sua santidade” (Salmo 30:4). “Pode-se dizer que este atributo é transcendental e que, por assim dizer, permeia os demais e lhes dá brilho, É o atributo dos atributos” (J. Howe, 1670). Assim, lemos sobre “… a formosura do Senhor. ,.” (Salmo 27:4), que não é outra que “… a beleza da santidade.. .” (Salmo 110:3),
“Visto que esta excelência parece se colocar acima dê todas as outras perfeições de Deus, assim ela constitui a glória destas; como é a glória da Deidade, assim é a glória de cada uma das perfeições da Deidade; como o poder de Deus é a energia das Suas perfeições, a Sua santidade é a beleza delas: como todas seriam fracas sem a onipotência divina para sustentá-las, seriam todas desgraciosas sem a santidade para adorná-las. Se esta se maculasse, todas as demais perderiam a sua honra; seria como se o sol perdesse a sua luz — no mesmo instante perderia seu calor» seu poder, sua virtude geradora e vivificante. Como no cristão a sinceridade é o brilho de todas as graças, em Deus a pureza é o esplendor de todos os Seus atributos, Sua justiça é santa. Sua sabedoria é santa. Seu braço poderoso é um “braço santo” (Salmo 98:1), Sua verdade ou palavra é uma “santa palavra” (Salmo 105:42). Seu nome, que expressa todos os Seus atributos juntos, é “santo” (Salmo 103:1)” (S. Charnock).
A santidade de Deus se manifesta em Suas obras. “Justo é o Senhor em todos os seus caminhos, e santo em todas as suas obras” (Salmo 145:17), Nada senão o que é excelente pode proceder d Ele. A santidade é o padrão de todas as Suas ações. No princípio Ele declarou que tudo o que tinha feito ‘”era muito bom” (Gênesis 1:31), e não poderia ter feito o que fez se nisso houvesse algo imperfeito ou impuro. O homem foi feito “reto” (Eclesiastes 7:29), à imagem e semelhança do seu Criador. Os anjos que caíram foram criados santos, pois se nos diz que “… não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação…” (Judas 6). Sobre Satanás está escrito: “Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em, que foste criado, até que se achou iniqüidade em ti” (Ezequiel 28:15).
A santidade de Deus se manifesta em Sua lei. Essa lei proíbe o pecado em todas as suas variantes -— nas suas modalidades mais refinadas, e nas mais grosseiras, os intentos da mente, como a contaminação do corpo, o desejo secreto como o ato abertamente praticado. Pelo que lemos: “…a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom” (Romanos 7:12). Sim, “… o mandamento do Senhor é puro, e alumia os olhos. O temor do Senhor é limpo e permanece eternamente, os juízos do Senhor são verdadeiros e justos juntamente” (Salmo 19:8-9).
A santidade de Deus se manifesta na cruz. De maneira espantosa, e, contudo, a mais solene, a expiação demonstra a santidade infinita de Deus e Seu ódio ao pecado. Quão odioso para Deus” há de ser o pecado, a ponto de castigá-lo até ao limite extremo do seu merecimento, quando o imputou ao Seu Filho! “Nem todos os vasos do juízo já derramados ou por derramar sobre o mundo ímpio, nem a chama ardente da consciência do pecador, i nem a sentença irrevogável pronunciada contra os demônios rebeldes, nem o gemido das criaturas condenadas demonstram o ódio de Deus ao pecado, como o demonstra a ira de Deus derramada sobre o Seu Filho. Nunca a santidade divina parece mais bela e mais amorável do que na hora em que o semblante do Salvador ficou por demais desfigurado em meio aos estertores da Sua agonia mortal. Ele próprio o reconhece no Salmo 22. Quando o Senhor afastou dEle o Seu risonho rosto e Lhe fincou no coração aguda faca, provocando Seu terrível brado, “Deus meu, Deu meu, por que me abandonaste?” (vers. 1). Ele adora esta perfeição — “Tu és santo” (vers. 3) S. Charnock.
Desde que Deus é santo, Ele odeia todo e qualquer pecado. Ele ama tudo quanto está em conformidade com as Suas leis, e detesta tudo que lhes é contrário. Sua Palavra declara expressamente: “… o perverso é abominação para o Senhor…” (Provérbios 3:32), E ainda: “Abomináveis são para o Senhor os pensamentos do mau., ..” (Provérbios 15:26). Segue-se, pois, que Ele necessariamente tem que punir o pecado. Do mesmo modo como o pecado requer a punição por Deus, exige também o Seu ódio. Deus perdoa muitas vezes o pecador; nunca, porém, perdoa o pecado; e o pecador só é perdoado com base no fato de que Outro levou sobre Si o castigo que lhe era devido; sim, pois; “… sem derramamento de sangue não há remissão (Hebreus 9:22). Razão pela qual se nos diz: “…o Senhor toma vingança contra os seus adversários, e guarda a ira contra os seus inimigos” (Naum 1:2). Por um pecado Deus expulsou do Éden os nossos primeiros pais. Por um pecado toda a posteridade de Cão caiu sob maldição que permanece sobre ela até o dia de hoje. Por um pecado Moisés foi impedido de entrar em Canaã, o servo de Eliseu foi castigado com lepra, Ananias e Safira foram eliminados da terra dos viventes.
Temos aqui prova da divina inspiração das Escrituras. Os não regenerados não crêem realmente na santidade de Deus. O conceito que eles têm do caráter de Deus é inteiramente unilateral. Eles esperam de coração que a Sua misericórdia sobrepuje tudo mais. “… pensavas que era como tu…” (Salmo 50:21) é a acusação que Deus lhes faz. Eles pensam somente num “deus” segundo o padrão dos seus corações maus. Daí permanecerem eles no caminho de uma exacerbada insensatez. A santidade atribuída pelas Escrituras à natureza e ao caráter de Deus é tal, que demonstra com clareza a sua origem super-humana. O caráter atribuído aos deuses dos antigos e do, paganismo moderno é justamente o inverso daquela imaculada pureza que pertence ao Deus verdadeiro. Um Deus inefavelmente santo, que tem a mais intensa aversão a todo pecado, jamais foi inventado por um dos decaídos descendentes de Adão. O fato é que nada torna mais manifesta a. terrível depravação do coração do homem e a sua inimizade contra o Deus vivo, do que expor diante dele Aquele Ser único que é infinita e imutavelmente santo. A idéia que o homem faz de pecado limita-se praticamente ao que o mundo chama de “crime”. Tudo que fica aquém disso pode ser abrandado como “defeitos”, “‘enganos”, “‘fraquezas” etc. E mesmo quando se admite a existência do pecado* apresentam-se escusas e atenuantes.
“O “deus” que a imensa maioria dos cristãos professos “ama1‘ é visto como alguém muito parecido com um ancião indulgente, que pessoalmente não tem prazer nas loucuras, mas tolerantemente fecha os olhos para as “indiscrições” da mocidade. Mas a Palavra diz: “… aborreces a iodos os que praticam a maldade” (Salmo 5:5). E mais: “Deus é um juiz justo, um Deus que se ira todos os dias” (Salmo 7:11). Mas os homens se recusam a dar crédito a este Deus e rangem os dentes quando o Seu ódio ao pecado lhes é enfática e fielmente apresentado. Não, como o homem preso ao pecado jamais teria criado o lago de fogo no qual seria atormentado para todo o sempre, muito menos haveria a probabilidade dele inventar um Deus santo.
Sendo que Deus é santo, a aceitação da parte dEle, com base nas ações das criaturas, é completamente impossível. Uma criatura caída pode mais facilmente criar um mundo, do que produzir algo capaz de receber aprovação dAquele que é pureza infinita. Podem as trevas morar com a luz? Pode o Ser imaculado sentir prazer com o “trapo da imundícia”? (Isaías 64:6) O melhor que o homem pecador pode produzir vem manchado. Uma árvore contaminada não pode dar bom fruto. Deus se negaria a Si próprio, envileceria as Suas perfeições, se tivesse por justo e santo aquilo que não o é em si mesmo; e nada é santo, desde que tenha a mínima mancha do que seja contrário à natureza de Deus. Mas, bendito seja o Seu nome, pois, aquilo que a Sua santidade exigiu, a Sua graça supriu em Cristo Jesus,nosso Senhor! Todo pobre pecador que correu para Ele em busca de “refúgio, foi e permanece aceito “no Amado” (Efésios 1:6). Aleluia!
Posto que Deus é santo requer-se de nós que nos aproximemos dEle com a máxima reverência. “Deus deve ser em extremo tremendo na assembléia dos santos, e grandemente reverenciado por todos os que o cercam’” (Salmo 89:7), Portanto, “Exaltai ao Senhor nosso Deus, e prostrai-vos diante do escabelo de seus pés, porque ele ê santo” (Salmo 99:5). Sim, “diante do escabelo dos seus pés”, na postura da mais profunda humildade, prostrai-vos. Quando Moisés ia aproximar-se da sarça ardente, disse Deus: “., . tira os teus sapatos de teus pés… ” (Êxodo 3:5), É preciso servi-lO “com temor” (Salmo 2:11). A exigência que Deus fez a Israel foi: “… serei santificado naqueles que se cheguem a mim, e serei glorificado diante de todo o povo…” (Levítico 10:3), Quanto mais tomados de temor ficarmos por Sua inefável santidade, mais aceitável será o nosso acesso a Ele.
Visto que Deus é santo, devemos querer amoldar-nos a Ele. Seu mandamento é: “…sede santos, porque eu sou santo” (1 Pedro 1:16). Não somos obrigados a ser onipotentes ou oniscientes como Deus ê, mas temos que ser santos, e isto em toda a nossa “… maneira de viver” (1 Pedro 1:15). “Esta é a maneira primordial de honrar a Deus. Glorificamos a Deus pelas atitudes de elevada admiração, pelas expressões eloqüentes, pelos pomposos serviços de adoração, mas não tanto como quando aspiramos a conversar com Ele com espírito livre de mácula, e a viver para Ele vivendo como Ele vive” (S. Charnock). Então, como só Deus é a origem e a fonte da santidade, busquemos zelosamente dEIe a santidade; seja a nossa oração diária no sentido de que Ele nos “… santifique em tudo … “; e todo o nosso “espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (I Tessalonicenses 5:23),
9. O PODER DE DEUS
Não poderemos ter correto conceito de Deus, se não pensarmos nEle como onipotente, igualmente como Onisciente. Quem não pode fazer o que quer e não pode realizar o que lhe agrada, não pode ser Deus. Como Deus tem uma vontade para decidir o que julga bom, assim tem poder para executar a Sua vontade. “O poder de Deus é aquela capacidade e força pela qual Ele pode realizar tudo que Lhe agrade, tudo que a Sua sabedoria dirija, e tudo que a infinita pureza da Sua vontade resolva. “… como a santidade é a beleza de todos os atributos de Deus, assim o poder é aquilo que dá vida e movimento a todas as perfeições da natureza divina. Como seriam vãos os conselhos eternos, se o poder não interviesse para executá-los! Sem o poder, a Sua misericórdia seria apenas uma débil piedade, as Suas promessas um som vazio, as Sua ameaças mero espantalho. O poder de Deus é como Ele mesmo: infinito, eterno, incompreensível; não” pode ser refreado, nem restringido, nem frustrado pela criatura” (S. Charnock).
“Uma coisa disse Deus, duas vezes a ouvi: que o poder pertence a Deus” (Salmo 62:11). “Uma coisa disse Deus”, ou segundo a versão autorizada, KJ, 1611, “Uma vez falou Deus”: nada mais é necessário! Passarão os céus e a terra, porém a Sua palavra permanece para sempre. “Uma vez falou Deus”: como Lhe fica bem a Sua majestade divina! Nós, pobres mortais, podemos falar muitas vezes e, contudo, sem sermos ouvidos. Ele fala somente uma vez, e o trovão do Seu poder é ouvido em mil montanhas. “E o Senhor trovejou nos céus, o Altíssimo levantou a sua voz; e havia saraiva e brasas de fogo. Despediu as suas setas, e os espalhou: multiplicou ratos, e os perturbou, Então foram vistas as profundezas das águas, e foram descobertos os fundamentos do mundo; pela tua repreensão, Senhor, ao soprar das tuas narinas” (Salmo 18:13-15).
“Uma vez falou Deus”: vede a Sua imutável autoridade. “Pois quem no céu se pode igualar ao Senhor? Quem é semelhante ao Senhor entre os filhos dos poderosos?” (Salmo 89:6). “E todos os moradores da terra são reputados em nada; e segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra: não há quem possa estorvar a sua mão, e lhe diga: Que fazes?” (Daniel 4:35), Esta realidade foi amplamente descortinada quando Deus Se encarnou e tabernaculou entre os homens. Ao leproso Ele disse: “…sê limpo. E logo ficou purificado da lepra” (Mateus 8:3). A um que jazia no túmulo já fazia quatro dias, Ele bradou: “… Lázaro, sai para fora. E o defunto saiu…” (João 11:43-44). Os ventos tempestuosos e as ondas bravias se aquietaram a uma só palavra dEle, Uma legião de demônios não pôde resistir à Sua ordem repassada de autoridade.
“O poder pertence a Deus”, e somente a Ele. Nem uma só criatura, no universo inteiro, tem sequer um átomo de poder, salvo o que é delegado por Deus. Mas o poder de Deus não é adquirido, nem depende do reconhecimento de nenhuma outra autoridade. Pertence a Ele inerentemente. “O poder de Deus é como Ele mesmo, auto-existente, auto-sustentado. O mais poderoso dos homens não pode acrescentar sequer uma sombra de poder ao Onipotente. Ele não se firma sobre nenhum trono reforçado; nem se apóia em nenhum braço ajudador. Sua corte não é mantida por Seus cortesãos, nem toma Ele emprestado das Suas criaturas o Seu esplendor. Ele próprio é a grande fonte central e o originador de toda energia” (C. H. Spurgeon). Toda a criação dá testemunho, não só do grande poder de Deus, mas também da Sua inteira independência de todas as coisas criadas. Ouça o Seu próprio desafio: “Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? Faze-mo saber, se tens inteligência, Quem lhe pôs as medidas, se tu o sabes? Ou quem estendeu sobre ela o cordel? Sobre que estão fundadas as suas bases, ou quem assentou a sua pedra de esquina?” (Jó 38:4-6). Quão completamente o orgulho do homem é lançado ao pô!
“Poder é usado também como um nome de Deus, “…o Filho do homem assentado à direita do poder de Deus, e vindo sobre as nuvens do céu*’ (Marcos 14:62), isto é, à destra de. Deus. Deus e poder são tão inseparáveis que são recíprocos. Como a Sua essência é imensa, não pode ser confinada a um lugar; como é eterna, não pode ser medida no tempo; assim a Sua essência é todo-poderosa, não sofrendo limite para a ação” (S. Charnock). “Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos; e quão pouco é o que temos ouvido dele! Quem pois entenderia o trovão do seu poder?” (Jó 26:14). Quem é capaz de contar todos os monumentos do Seu poder? Mesmo aquilo que é demonstrado do Seu poder na criação visível está inteiramente fora da nossa capacidade de compreensão, e menos ainda podemos conceber da onipotência propriamente dita. Há infinitamente mais poder abrigado na natureza de Deus do que o expresso em todas as Suas obras.
“Partes dos Seus caminhos” contemplamos na criação, na providência, na redenção, mas apenas uma “pequena parte” do Seu poder se vê nessas obras. Isto nos é exposto extraordinariamente em Habacuque 3:4: “… e ali estava o esconderijo da sua força”. Dificilmente se pode imaginar algo mais grandiloqüente do que as figuras deste capítulo todo, no entanto nele nada supera a nobreza desta declaração. O profeta (numa visão) viu o poderoso Deus espalhando os outeiros e abatendo os montes, o que se julgaria espantosa demonstração de força. Nada disso, diz o nosso versículo; isso é mais o ocultamento do que a exibição do Seu poder. Que se quer dizer? Isto: é tão inconcebível» tão imenso, tão incontrolável o poder da Deidade, que as terríveis convulsões que Ele opera na natureza escondem mais do que revelam do Seu poder infinito!
É coisa bela juntar as seguintes passagens: “O que só estende os céus, e anda sobre os altos do mar” (Jó 9:8), que expressa o indomável poder de Deus. “…Ele passeia pelo circuito dos céus” (Jó 22:14), que fala da imensidade da Sua presença. “…anda sobre as asas do vento” (Salmo 104:3), que expressa a espantosa rapidez das Suas operações. Esta última expressão é deveras notável, Não é que “Ele voa” ou’”corre”, mas que Ele “anda”, e isso, nas “asas do vento” — sobre o mais impetuoso dos elementos, impelido com o máximo furor, e varrendo tudo com quase inconcebível velocidade, todavia sob os Seus pés, debaixo do Seu controle perfeito!
Consideremos agora o poder de Deus na criação. “Teus são os céus, e tua é a terra; o mundo e a sua plenitude tu os fundaste. O norte e o sul tu os criaste…” (Salmo 89:11-12). Antes de poder trabalhar, o homem precisa ter ferramentas e material, mas Deus começou com nada, e só por Sua palavra fez do nada todas as coisas. O intelecto não pode captar isto. Deus “… falou, e tudo se fez, mandou, e logo tudo apareceu” (Salmo 33:9). A matéria primeva ouviu a Sua voz. “Disse Deus: Haja… e assim foi” (Gênesis 1). Bem podemos exclamar: “Tu tens um braço poderoso; forte é a tua mão, e elevada a tua destra” (Salmo 89:13).
Quem, que olha para cima, para o céu da meia-noite e, com os olhos da razão, contempla as suas maravilhas em movimento; quem pode abster-se de indagar: do que foram feitos estes poderosos astros? Ê espantoso dizê-lo, foram produzidos sem material nenhum. Brotaram do vazio. A majestosa estrutura da natureza universal emergiu do nada. Que instrumentos foram usados pelo supremo Arquiteto para modelar as partes com tio refinada elegância e aplicar tão belo polimento ao todo? Como terá sido feita a junção de tudo numa estrutura primorosamente proporcionada e com tão magnífico acabamento? Um puro e simples fiat realizou tudo. Haja estas coisas, disse Deus. Nada acrescentou; e logo o edifício maravilhoso se ergueu, adornado com todo tipo de beleza, pondo à mostra inumeráveis perfeições, e proclamando em meio a extasiados serafins o louvor do seu grande Criador. “Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e todo o exército deles pelo espírito da sua boca” (Salmo 33:6)” (James Hervey, 1789),
Considere-se o poder de Deus na preservação. Nenhuma criatura tem poder para preservar-se a si mesma. “Porventura sobe o junco sem lodo? Ou cresce a espadana sem água?” (Jo 8:11). Tanto o homem como o animal pereceriam, se não houvesse erva para alimento, e a erva murcharia e morreria, se o solo não fosse refrescado com chuvas frutíferas. Portanto, Deus é denominado o Preservador dos “homens e os animais” (Salmo 36:6), Ele sustenta “… todas as coisas, pela palavra do seu poder…” (Hebreus 1:3). Que maravilha de poder divino é a vida pré-natal de todo ser humano! Que uma criança possa sequer viver, e por tantos meses, num alojamento apertado e estranho assim, é inexplicável sem o poder de Deus. Verdadeiramente, Ele “… sustenta com vida a nossa alma…” (Salmo 65:9).
A preservação da terra, guardando-a da violência dos mares é outro claro exemplo do poder de Deus. Como é que aqueles elementos em fúria ficaram encerrados dentro daqueles limites em que primeiro se alojaram, permanecendo em suas baías e canais sem inundar a terra e sem fazer em pedaços a parte mais baixa da criação? A condição natural da água é ficar acima da terra, por ser mais leve, e imediatamente abaixo do ar, por ser mais pesada. Quem põe restrições à qualidade natural da água? O homem certamente que não, e não tem poderes para tanto. Ê unicamente o fiat do Criador da água que a refreia. “E disse: Até aqui virás, e não mais adiante, e aqui se quebrarão as tuas ondas empoladas” (Jó 38:11). Que altaneiro monumento ao poder de Deus é a preservação do mundo!
Considere-se o poder de Deus no governo. Tome-se a restrição que Ele impõe à ruindade de Satanás, ” .., o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar” (1 Pedro 5:8). Satanás está cheio de ódio a Deus, e de diabólica inimizade contra os homens, particularmente contra os santos. Aquele que invejou a Adão no paraíso, não quer que sintamos o prazer de usufruirmos nenhuma das bênçãos de Deus. Se ele pudesse fazer o que deseja, trataria todos os homens como tratou Jó: enviaria fogo do céu sobre os frutos da terra, destruindo o gado» faria vendavais derribarem nossas casas, e cobriria de chagas os nossos corpos. Mas, embora mal percebido pelos homens, Deus o refreia em grande medida, impede-o de levar a cabo os seus maus desígnios, e lhe impõe limites dentro das Suas ordenações.
Assim também Deus restringe a corrupção natural dos homens. Ele suporta suficientes erupções do pecado para mostrar que terríveis estragos têm sido causados pela apostasia do homem, que rompeu com o seu Criador, mas quem pode conceber a que medonho extremo os homens iriam se Deus retirasse a Sua mão repressora? A boca dos ímpios “… está cheia de maldição e amargura. Os seus pés são ligeiros para derramar sangue” (Romanos 3:14-15). Esta é a natureza de cada um dos descendentes de Adão. Então, que desenfreada licenciosidade e obstinada loucura triunfariam no mundo, se o poder de Deus não se interpusesse para fechar as comportas do mal! Ver Salmo 93:3-4.
Considere o poder de Deus no juízo. Quando Ele fere, ninguém Lhe pode resistir: ver Ezequiel 22:14, Quão terrivelmente isso foi exemplificado no Dilúvio! Deus abriu as janelas do céu e rompeu as grandes fontes do abismo, e (excetuando-se os que estavam na arca) a raça humana inteira, impotente diante do furor da Sua ira, foi tragada. Uma chuva de fogo e enxofre caiu do céu, e as cidades da planície foram exterminadas. O Faraó e todos os seus exércitos nada puderam, quando Deus soprou sobre eles no Mar Vermelho. Que palavra terrificante, a de Romanos 9:22: “E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição”. Deus manifestará o Seu tremendo poder sobre os reprovados, não apenas encarcerando-os na Geena, mas preservando sobrenaturalmente os seus corpos como também as suas almas em meio às chamas eternas do Lago de Fogo,
Bem que deveriam tremer todos, diante de um Deus tal! Tratar desconsideradamente Aquele que pode esmagar-nos mais facilmente do que nós a uma traça, é suicídio. Desafiar abertamente Aquele que esta revestido de onipotência, que pode rasgar-nos em pedaços ou lançar-nos no inferno na hora que quiser, é o cúmulo da insanidade. Para reduzi-lo ao seu plano mínimo, é simplesmente parte da sabedoria dar ouvidos à Sua ordem: “Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se inflamar a sua ira…” (Salmo 2:12),
Bem que a alma iluminada deve adorar um Deus tal! As estupendas e infinitas perfeições de um Ser como Deus requerem fervoroso culto. Se homens de poder e renome reclamam a admiração do mundo, quanto mais deve o poder do Onipotente encher-nos de assombro e mover-nos a prestar-Lhe homenagem. “O Senhor, quem é como tu entre os deuses? Quem é como tu glorificado em santidade, terrível em louvores, obrando maravilhas?” (Êxodo 15:11).
Bem que o santo pode confiar num Deus tal! Ele é digno de implícita confiança. Nada Lhe é demasiado difícil, Se Deus fosse limitado em poder e força, aí sim, poderíamos ficar desesperados.
Mas, vendo que Ele Se reveste de onipotência, nenhuma oração ê tão difícil que Ele não possa responder, nenhuma necessidade é tão grande que Ele não possa suprir, nenhuma cólera é tão forte que Ele não possa subjugar, nenhuma tentação é tão poderosa que Ele não nos possa livrar dela, nenhuma miséria é tão profunda que Ele não possa aliviar, “… o Senhor é a força da minha vida; de quem me recearei?” (Salmo 27:1). “Ora, àquele que é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera, a esse glória na igreja, por Jesus Cristo, em todas as gerações, para todo o sempre. Amém” (Efésios 3:20-21),
10. A FIDELIDADE DE DEUS
A infidelidade é um dos pecados mais proeminente nestes maus dias. Com raríssimas exceções, a palavra de um homem não é mais a sua fiança, nos negócios deste mundo. No mundo social, a infidelidade conjugai ocorre por todo lado, sendo que os laços matrimoniais são desfeitos com a mesma facilidade com que uma roupa velha é rejeitada. Na esfera eclesiástica, milhares que se comprometeram solenemente a pregar a verdade, sem nenhum escrúpulo a negam e a atacam. Nem o autor, como tampouco o leitor, podem arrogar-se completa imunidade deste pecado terrível: de quantas maneiras temos sido infiéis a Cristo, e à luz e aos privilégios que Deus nos confiou1. Como é animador então, que indizível benção é erguer os olhos acima desta ruinosa cena e contemplar Aquele que, só Ele, é fiel, fiel em tudo, fiel o tempo todo.
“Saberás, pois, que o Senhor teu Deus é Deus, o Deus fiel…” {Deuteronômio 7:9). Esta qualidade é essencial ao Seu ser; sem ela Ele não seria Deus. Pois, ser Deus infiel seria agir contrariamente à Sua natureza, o que é impossível. “Se formos infiéis, ele permanece fiel: não pode negar-se a si mesmo” (2 Timóteo 2:15). A fidelidade ê uma das gloriosas perfeições do Seu ser, É como se Ele estivesse vestido com esta perfeição; “0 Senhor, Deus dos Exércitos, quem é forte como tu, Senhor, com a tua fidelidade ao redor de ri?!” (Salmo 89;8). Assim também, quando Deus Se encarnou, foi dito: “E a justiça será o cinto dos seus lombos, e a verdade o cinto dos seus rins” (Isaías 11:5).
Que palavra, a do Salmo 36:5 — “A tua misericórdia, Senhor, está nos céus, e a tua fidelidade chega até às mais excelsas nuvens”. Muito acima de toda compreensão finita está a imutável fidelidade de Deus. Tudo que há acerca de Deus é grande, vasto, incomparável. Ele nunca esquece, nunca falha, nunca vacila, nunca deixa de cumprir a Sua palavra, O Senhor Se mantém estritamente apegado a cada declaração de promessa ou profecia, faz valer cada compromisso de aliança ou de ameaça, pois “Deus não é homem, para que minta; nem filho do homem, para que se arrependa: porventura diria ele, e não o faria? Ou falaria, e não o confirmaria? (Números 23:19). Daí o crente exclama; “…as suas misericórdias não têm fim, Novas são cada manhã; grande é a tua fidelidade” (Lamentações 3:22-23).
Há nas Escrituras numerosas ilustrações da fidelidade de Deus. Hã mais de quatro mil anos Ele disse: “Enquanto a terra durar, sementeira e sega, e frio e calor, e verão e inverno, e dia e noite, não cessarão” (Gênesis 8;22). Cada novo ano dá-nos um novo testemunho de que Deus cumpre esta promessa. Em Gênesis 15 vemos que Jeová declarou a Abraão; “…peregrina será a tua semente em terra que não será tua, e servi-los-ão … E a quarta geração tornara para cá” (versículos 13-16). Os séculos percorreram o seu curso fatigante. Os descendentes de Abraão gemiam entre os fornos de tijolos do Egito. Deus esquecera a Sua promessa? Certamente que não. Leia Êxodo 12:41: “E aconteceu que, passados os quatrocentos e trinta anos, naquele mesmo dia, todos os exércitos do Senhor saíram da terra do Egito”. Por meio de Isaías o Senhor declarou: “…eis que uma virgem conceberá, e dará à luz um filho, e será o seu nome Emanuel” (7:14). De novo séculos se passaram, mas, “vindo a plenitude dos tempos,
Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gaiatas 4:4).
Deus é verdadeiro. Sua Palavra de promessa ê certa. Em todas as Suas relações com o Seu povo, Deus é fieL Pode-se confiar nEle, com segurança, Nunca houve alguém que tivesse confiado nEle em vão. Vemos esta preciosa verdade expressa em quase toda parte nas Escrituras, pois o Seu povo precisa saber que a fidelidade é uma parte essencial do caráter divino. Esta é a base da nossa confiança nEle, Mas, uma coisa é aceitar a fidelidade de Deus como uma verdade divina, e outra coisa, muito diferente, é agir com base nisso. Deus “nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas”, mas nós contamos realmente com o seu cumprimento por Deus? Esperamos de fato que Ele vai fazer por nós tudo que disse que fará? Descansamos com implícita segurança nestas palavras: ” … fiel é o que prometeu” (Hebreus 10:23)?
Há ocasiões na vida de todos em que não é fácil, nem mesmo para 05 cristãos, crer que Deus é fiel. Nossa fé é provada dolorosamente, nossos olhos ficam toldados pelas lágrimas, e não conseguimos mais encontrar o rumo dos baluartes do Seu amor. Os nossos ouvidos se distraem com os ruídos do mundo, arruinados pelos sussurros ateísticos de Satanás e não conseguimos mais ouvir a doce entonação da voz mansa e delicada do Senhor. Sonhos alimentados foram frustrados, amigos em quem confiávamos falharam conosco, um falso irmão ou irmã em Cristo nos traiu. Vacilamos. Procuramos ser fiéis a Deus, e agora uma trevosa nuvem O esconde de nós. Achamos difícil, impossível mesmo, à razão carnal harmonizar a Sua sombria providência com as promessas da Sua graça, Ah, alma titubeante, companheiro de peregrinação provado com tanto rigor, procure graça para ouvir Isaías 50:10; “Quem há entre vós que tema. a,Jeová, e ouça a voz do seu servo? Quando andar em trevas, e não tiver luz nenhuma, confie no nome do Senhor, e firme-se sobre o seu Deus”.
Quando você for tentado a duvidar da fidelidade de Deus, brade: “Para trás de mim, Satanás”. Ainda que você não possa harmonizar os misteriosos procedimentos de Deus com as Suas declarações de amor, confie nEIe e aguarde mais luz, Na hora dEIe, certa e boa, Ele fará com que você o veja com clareza, “…o que eu faço não o sabes tu agora, mas tu o saberás depois” (João 13:7). A seqüência dos fatos demonstrará que Deus não abandonou nem enganou Seu filho. “Por isso o Senhor esperará, para ter misericórdia de vós; e por isso será exalçado, para se compadecer de vós, porque o Senhor é um Deus de eqüidade: bem-aventurados todos os que nele esperam (Isaías 30:18).
“Não julgues o Senhor por tua mente,
porém, confia nEIe por Sua graça.
Por trás de uma severa providência
Ele oculta um semblante sorridente.
Animai-vos, ó santos temerosos!
As nuvens que temíveis vos parecem,
ricas são de mercês, e irromperão
em bênçãos derramadas sobre vós.”
“Os teus testemunhos que ordenaste são retos e muito fiéis” (Salmo 119:138). Deus não nos falou apenas o melhor, mas também não retirou o pior. Ele descreveu fielmente a ruína efetuada pela Queda. Ele diagnosticou fielmente o terrível estado produzido pelo pecado. Fielmente fez conhecido o Seu inveterado ódio ao mal, e que ê preciso que Ele o puna. Advertiu-nos fielmente de que Ele é “fogo consumidor” (Hebreus 12:29). Sua Palavra não contém somente numerosas ilustrações de Sua fidelidade no cumprimento de Suas promessas, mas também registra numerosos exemplos de Sua fidelidade em fazer valer as Suas ameaças. Cada estágio da história de Israel exemplifica esse fato solene. Foi assim com indivíduos: Faraó, Core, Acã e uma multidão de outros mais, são outras tantas provas. E será assim com você, meu leitor, a menos que você tenha buscado ou busque refúgio em Cristo, as chamas eternas do Lago de Fogo serão a tua porção certa e segura. Deus é fiel.
Deus é fiel na preservação do Seu povo. “Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor’” (l Coríntios 1:9). No versículo anterior foi feita a promessa de que Deus confirmará o Seu povo até o fim. A confiança do apóstolo na absoluta segurança dos crentes estava baseada não na força das resoluções deles ou em sua capacidade para perseverar, mas sim na veracidade dAquele que não pode mentir. Visto que Deus prometeu ao Seu Filho um certo povo como Sua herança, livrá-lo do pecado e da condenação e fazê-lo participante da vida eterna na glória, é certo que Ele não permitira que nenhum dos pertencentes a esse povo pereça.
Deus é fiel na disciplina ministrada ao Seu povo. Ele não é menos fiel naquilo que retira, do que naquilo que dá. É fiel quando envia tristeza como quando outorga alegria. A fidelidade de Deus é uma verdade que devemos confessar não somente quando a tranqüilidade nos bafeja, mas também quando nos afligirmos sob o castigo mais áspero. Tampouco esta confissão deve ser apenas de boca, mas também de coração, Quando Deus nos fere com a vara da punição, é a fidelidade que a maneja. Reconhecer isso significa que nos humilhamos diante dEle, confessamos que merecemos totalmente a Sua correção e, em vez de murmurar, damos-Lhe graças por isso. Deus nunca nos aflige sem algum motivo: “Por causa disto, há entre vós muitos fracos e doentes…” (1 Coríntios 11:30), ilustra este princípio. Quando a Sua vara cair sobre nós, digamos com Daniel; “A ti, ó Senhor, pertence a justiça, mas a nós a confusão de rosto…” (9:7).
“Bem sei eu, ó Senhor, que os teus juízos são justos, e que em tua fidelidade me afligiste” (Salmo 119:75), Problemas e aflições não são apenas coerentes com o amor de Deus empenhado na aliança eterna, mas são partes da sua administração. Deus é fiel não só quando afasta as aflições, mas também é fiel quando no-las envia. ‘” Então visitarei com vara a sua transgressão, e a sua iniqüidade com açoites, Mas não retirarei totalmente dele a minha benignidade, nem faltarei à minha fidelidade” (Salmo 89:32-33), O castigo não é apenas conciliável com a benignidade amorosa de Deus, mas também é seu efeito e expressão. A mente dos servos de Deus se tranqüilizaria muito se eles se lembrassem de que a aliança de Deus O obriga a aplicar-lhes correção oportuna. As aflições são-nos necessárias: “…estando eles angustiados, de madrugada me buscarão” (Oséias 5:15).
Deus é fiel na glorificação do Seu povo, “Fiel é o que vos chama, o qual também o fará” (1 Tessalonicenses 5:24), A referência imediata aqui é aos santos serem “preservados inculpáveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”. Deus nos trata, não com base em nossos méritos (pois não temos nenhum), mas por amor do Seu grande nome. Deus é constante para consigo mesmo e segundo o propósito da Sua graça, “… aos que chamou … a estes também glorificou” (Romanos 8:30). Deus dá plena demonstração da constância de Sua bondade eterna para com os Seus eleitos, chamando-os eficazmente das trevas para a Sua maravilhosa luz, e isto deveria torná-los seguros da certeza da sua continuidade. “… o fundamento de Deus fica firme…” (2 Timóteo 2; 19), Paulo estava firmado na fidelidade de Deus quando disse: “. . , eu sei em quem tenho crido, e estou certo de que é poderoso para guardar o meu depósito até àquele dia” (2 Timóteo 1:12).
A percepção desta bendita verdade nos protegera da preocupação. Estar cheio de preocupações, ver a nossa situação com prenúncios sombrios, antecipar o amanhã com ansiedade, é ofender a fidelidade de Deus. Aquele que vem cuidando do Seu filho através dos anos, não o abandonará quando o filho envelhecer. Aquele que ouviu as orações que você fez no passado, não se negará a suprir suas necessidades na presente emergência. Descanse em Jó 5:19: “Em seis angústias te livrará; e na sétima o mal te não tocará”.
A percepção desta bendita verdade catará as nossas murmurações. O Senhor sabe o que é melhor para cada um de nós, e um efeito da confiança nesta verdade será o silenciar das nossas petulantes reclamações. Deus é grandemente honrado quando, sob provação e castigo, temos bons pensamentos sobre Ele, vindicamos a Sua sabedoria e justiça, e reconhecemos o Seu amor mesmo em Suas repreensões.
A percepção desta bendita verdade gera crescente confiança em Deus. “Portanto também os que padecem segundo a vontade de Deus encomendem-lhe as suas almas como ao fiel Criador, fazendo o bem” (1 Pedro 4:19). Quando confiantemente nos resignarmos e deixarmos todos os nossos interesses nas mãos de Deus, plenamente persuadidos do Seu amor e fidelidade, tanto mais depressa ficaremos satisfeitos com as Suas providências e compreenderemos que “ele tudo faz bem”.
11. A BONDADE DE DEUS
”A bondade de Deus permanece continuamente” (Salmo 52:1). A “bondade” de Deus tem que ver com a perfeição da Sua natureza: “… Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas” (1 João 1:5). Hã uma tão absoluta perfeição na natureza e no ser de Deus que nada Lhe falta, nada nEle é defeituoso, e nada se Lhe pode acrescentar para melhorá-lO. “Ele é essencialmente bom, bom em Si próprio, o que nada mais é; pois todas as criaturas só são boas pela participação e comunicação da parte de Deus. Ele é essencialmente bom; não somente bom, mas é a própria bondade: na criatura, a bondade é uma qualidade acrescentada; em Deus, é Sua essência. Ele é infinitamente bom; na criatura a bondade é uma gota apenas, mas em Deus há um oceano infinito ou um infinito ajuntamento de bondade. Ele é eterna e imutavelmente bom, porquanto Ele não pode ser menos bom do que é; como não se pode fazer nenhum acréscimo a Ele, assim também não se Lhe pode fazer nenhuma subtração” (Thomas Manton). Deus é summum bonum, o Sumo Bem.
O significado saxônico original do vocábulo inglês. “God” (Deus) é “The Good” (O Bom ou O Bem). Deus não é somente o maior de todos os seres, mas o melhor. Toda a bondade existente em qualquer criatura foi-lhe infundida pelo Criador, mas a bondade de Deus não é derivada, pois é a essência da Sua natureza eterna. Como Deus é infinito em poder desde toda a eternidade, desde antes de ter havido alguma demonstração desse poder, ou antes de ter sido executado algum ato de onipotência, assim Ele era eternamente bom, antes de haver qualquer comunicação da Sua generosidade, ou antes de haver qualquer criatura à qual essa generosidade pudesse ser infundida ou exercida. Portanto, a primeira manifestação desta perfeição divina consistiu em dar existência a todas as coisas. “Tu és bom e abençoador…”, ou, na versão utilizada pelo autor: “Tu és bom, e fazes o bem…” (Salmo 119:68). Deus tem em Si mesmo um infinito e inexaurível tesouro de todas as bênçãos, capaz de encher todas as coisas.
Tudo que provém de Deus — os Seus decretos, a Sua criação» as Suas leis» as Suas providências — só pode ser bom, como está escrito: “E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom…” (Gênesis 1:31). Assim, vê-se a bondade de Deus primeiro na criação. Quanto mais de perto se estuda a criatura, mais visível se torna a benignidade do seu Criador, Tome a mais elevada criatura da terra, o homem. Abundantes motivos tem ele para dizer com o salmista: “Eu te louvarei, porque de um modo terrível e tão maravilhoso fui formado; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem” (Salmo 139:14). Tudo acerca da estrutura dos nossos corpos atesta a bondade do seu Criador. Que mãos apropriadas para realizar a obra a elas confiada! Que bondade do Senhor, determinar o sono para restaurar o corpo cansado! Que benévola a Sua provisão, dar aos olhos cílios e sobrancelhas para protegê-los! E assim poderíamos prosseguir indefinidamente.
E a bondade de Deus não se limita ao homem; é exercida em favor de todas as Suas criaturas. “Os olhos de todos esperam em ti, e tu lhes dás o seu mantimento a seu tempo. Abres a tua mão, e satisfazes os desejos de todos os viventes” (Salmo 145:15-16). Volumes inteiros poderiam ser escritos, na verdade têm sido, para discorrer sobre este fato. Sejam as aves do espaço, os animais das matas ou os peixes no mar, foi feita abundante provisão para suprir todas as suas necessidades. Deus “… dá mantimento a toda a carne; porque a sua benignidade é para sempre” (Salmo 136:25). Verdadeiramente, “… a terra está cheia da bondade do Senhor” (Salmo 33:5).
Vê-se a bondade de Deus na variedade de prazeres naturais que Ele providenciou para as Suas criaturas. Deus poderia ter-Se satisfeito em saciar a nossa fome sem que os alimentos fossem agradáveis ao nosso paladar — como Sua benignidade transparece-nos diversos sabores de que Ele revestiu os diferentes tipos de carne, vegetais e frutas! Deus não nos deu somente os sentidos, mas também nos deu aquilo que os agrada; e isso também revela a Sua bondade. A terra poderia ser tão fértil como é, sem a sua superfície ser tão deleitavelmente variegada, A nossa vida física poderia ser mantida sem as lindas flores para encantarem os nossos olhos e para exalarem suaves perfumes. Poderíamos andar pelos campos, sem que os nossos ouvidos fossem saudados pela música dos pássaros. Donde, pois, esta beleza, este encanto, tão livremente difundido pela face da natureza? Verdadeiramente, “O Senhor é bom para todos, e as suas ternas misericórdias são sobre todas as suas obras” (Salmo 145:9).
Vê-se a bondade de Deus em que, quando o homem transgrediu a lei do seu Criador, não começou de imediato uma dispensação de ira sem contemplação. Bem poderia Deus ter privado as Suas criaturas decaídas de todas as bênçãos, de todos os confortos e de todos os prazeres. Em vez disso, Ele introduziu um regime de natureza mista, de misericórdia e juízo. Devidamente considerado, isso é por demais maravilhoso, e quanto mais completamente se examine esse regime, mais transparecerá que ” … a misericórdia triunfa do juízo** (Tiago 2:13). Não obstante os males todos que acompanham o nosso estado decaído, o prato do bem predomina grandemente na balança. Com relativamente ratas exceções, os homens e as mulheres experimentam muito maior numero de dias de boa saúde, do que de enfermidade e dor. Há no mundo muito mais felicidade própria das criaturas do que infelicidade igualmente própria delas. Mesmo as nossas tristezas admitem considerável alívio, e Deus conferiu à mente humana uma versatilidade que lhe possibilita adaptar-se às circunstâncias e tirar delas o melhor proveito possível.
Não se pode com justiça pôr em questão a benignidade de Deus pelo fato de haver sofrimento e tristeza no mundo. Se o homem peca contra a bondade de Deus, se ele despreza “as riquezas da sua benignidade, e paciência e longanimidade” e, seguindo a dureza e a impenitência do seu coração entesoura para si mesmo ira para o dia da ira (Romanos 2:4-5), a quem deve culpar, senão a si próprio? Deus seria bom, se não punisse os que usam mal as Suas bênçãos, abusam da Sua benevolência e pisoteiam as Suas misericórdias? Não haverá a menor censura quanto à bondade de Deus, mas, ao contrário, a mais brilhante e modelar demonstração dela, quando Deus eliminar da terra os que quebrantara as Suas leis, desafiam a Sua autoridade, zombam dos Seus mensageiros, escarnecem do Seu Filho e perseguem aqueles pelos quais Ele morreu.
A bondade de Deus foi mais ilustremente visível quando Ele enviou o Seu Filho, “… nascido de mulher, nascido sob a lei, para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos” (Gaiatas 4:4-5). Foi então que uma multidão dos exércitos celestiais louvou seu Criador e disse: “Glória a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade para com os homens” (Lucas 2:14). Sim, no evangelho “a graça (em grego, a benevolência ou bondade) de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens” (Tito 2:11). Não se pode pôr em dúvida a benignidade de Deus pelo fato de não ter feito Ele a todas as criaturas pecadoras objetos da Sua graça redentora. Não o fez com os anjos decaídos. Se Ele tivesse deixado que todos perecessem, não haveria censura à Sua bondade, A quem quer que desafiasse esta afirmação faríamos lembrar a soberana prerrogativa de nosso Senhor: “Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?” (Mateus 20:15),
“Louvem ao Senhor pela sua bondade, e pelas suas maravilhas para com os filhos dos homens” (Salmo 107:8). Gratidão é o justo retorno exigido dos objetos da Sua benignidade; contudo, muitas vezes é negada ao grande Benfeitor, simplesmente porque a Sua bondade é tão constante e tão abundante. A bondade de Deus é apreciada superficialmente porque é exercida para conosco no curso comum dos eventos. Não a percebemos bem porque a experimentamos diariamente. “Ou desprezas tu as riquezas da sua begnidade?…” (Romanos 2:4). A Sua bondade é “desprezada” quando não é utilizada como um meio para levar os homens ao arrependimento, mas, ao contrário, serve para endurecê-los a partir da suposição de que fecha os olhos para o pecado deles.
A bondade de Deus é o sustentáculo da confiança do crente, É esta excelência de Deus que exerce mais atração sobre os nossos corações. Visto que a Sua bondade dura para sempre, jamais deveríamos ficar desanimados-. “O Senhor é bom, uma fortaleza no dia da angústia, e conhece os que confiam nele” (Naum 1:7). “Quando outros nos maltratam, isso deveria somente estimular-nos a dar graças mais calorosamente ao Senhor, porque Ele é bom; e quando nós mesmos nos damos conta de que estamos longe de sermos bons, somente deveríamos bendizem com maior reverência Aquele que é bom jamais deveríamos tolerar um instante de descrença na bondade, do Senhor; seja o que for que possa ser questionado, isto é absolutamente certo, que o Senhor é bom; as Suas dispensações podem variar, mas a Sua natureza é sempre a mesma” (C. H. Spurgeon).
12. A PACIÊNCIA DE DEUS
Tem-se escrito muito menos sobre esta excelência do caráter divino do que sobre as demais. Não poucos dos que têm se estendido largamente sobre os atributos divinos, deixaram de lado, sem nenhum comentário, a paciência de Deus. Não é fácil opinar sobre a razão disto, pois certamente a paciência de Deus é igualmente uma das perfeições divinas, como a Sua sabedoria, poder ou santidade, e igualmente digna de ser admirada e reverenciada por nós. É verdade que esse vocábulo não se acha numa concordância tantas vezes como os outros, mas a glória desta graça refulge em quase todas as páginas das Escrituras. O certo é que perdemos muito, se não meditamos com freqüência na paciência de Deus e se não oramos fervorosamente, rogando que os nossos corações a ela se disponham mais completamente.
O mais provável é que a principal razão pela qual tantos escritores deixaram de dar-nos algo, separadamente, sobre a paciência de Deus, é a dificuldade em distinguir este atributo da bondade e da misericórdia divinas, particularmente desta última A longaminidade de Deus é mencionada repetidamente era conjunto com a Sua graça e misericórdia, como se pode verificar consultando Êxodo 34:6; Números 14:18; Salmo 86:15 etc Não se pode negar que a paciência de Deus é realmente uma demonstração da Sua misericórdia, na verdade um modo pelo qual esta se manifesta freqüentemente; não se pode conceder, porém que ambas sejam urna só e a mesma excelência e que não se possa separar uma da outra. Embora não seja fácil distinguir entre elas as Escrituras nos autorizam plenamente a afirmar sobre uma delas algumas coisas que não podemos afirmar sobre a outra.
Stephen Charnock, o puritano, define em parte a paciência de Deus assim: “É uma parte da bondade e da misericórdia divinas e, contudo, difere de ambas. Sendo Deus a maior bondade tem a maior brandura; a brandura é sempre companheira da bondade e, quanto maior a bondade, maior a brandura. Quem houve tão santo como Cristo, e tão gentil? A lentidão de Deus para a ira é um aspecto da Sua misericórdia: “… o Senhor (é) sofredor e de grande misericórdia” (Salmo 145:8; Atualizada, semelhante à versão da citação: “… o Senhor (é) tardio em irar-se e de grande clemência”). A paciência difere da misericórdia na consideração formal do objeto: a misericórdia considera a criatura como infeliz, a paciência considera a criatura como criminosa; a misericórdia tem pena do ser humano em sua infelicidade a paciência tolera o pecado que gerou a infelicidade e deu nascimento a mais infelicidade ainda”.
Pessoalmente, definimos a paciência divina como aquele poder de controle que Deus exerce sobre Si mesmo, levando-0 a tolerar os maus e a demorar-Se a castigá-los. Em Naum 1:3 lemos: “O Senhor e tardio em irar-se, mas grande em força…”, sobre o qual disse o senhor Charnock: “Os homens que são grandes no mundo sofrem rápido impulso da paixão, e não se dispõem a perdoar logo, ou a tolerar um ofensor, como alguém de nível inferior. É a falta de poder sobre o próprio ego que os leva a fazer coisas impróprias sob provocação. Um príncipe capaz de sujeitar as suas paixões é um rei sobre si mesmo, bem como sobre os seus súditos. Deus é tardio em irar-Se porque é grande em força, Ele não tem menos poder sobre Si mesmo do que sobre as Suas criaturas’.
É na questão acima, pensamos nós, que a paciência de Deus se distingue mais claramente da Sua misericórdia. Embora a criatura seja beneficiada por ela, a paciência de Deus diz respeito principalmente a Si próprio, como uma restrição imposta por Sua vontade aos Seus atos, ao passo que a Sua misericórdia esgota-se totalmente na criatura. A paciência de Deus é aquela excelência que O leva a suportar grandes ofensas sem vingar-Se imediatamente. Ele tem um poder de paciência, como também um poder de justiça. Assim, a palavra hebraica para “longânimo” é traduzida por ‘”tardio em irar-se” em Neemias 9:17, Joel 2:13, etc. Não que haja quaisquer paixões na natureza divina, mas que à sabedoria e à vontade de Deus apraz agir com aquela dignidade e sobriedade que vem a ser a Sua exaltada majestade.
Em apoio de nossa definição acima, permita-me assinalar que foi para esta excelência do caráter divino que Moisés apelou, quando Israel pecou tão afrontosamente era Cades-Barnéia, e ali provocou ao Senhor tão dolorosamente. Ao Seu servo disse o Senhor: “Com pestilência o ferirei, e o rejeitarei…” (Números 14:12). Então foi que o mediador tipológico intercedeu: “Agora, pois, rogo-te que a força do meu Senhor se engrandeça; como tens falado, dizendo: O Senhor é Longânimo” (versículos 17 e 18). Portanto, a Sua “longanimidade”" ou paciência é a Sua “força” ou o Seu poder de auto-restrição.
Ainda em Romanos 9:22 lemos: “E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para perdição”. Se Deus imediatamente fizesse em pedaços estes vasos reprovados, o Seu poder de auto-controle não apareceria tão eminentemente; tolerando a iniqüidade deles e lhes sobre-levando demoradamente o castigo, o poder da Sua paciência fica demonstrado gloriosamente. É verdade que os ímpios interpretam a paciência de Deus de maneira muito diferente -— “Visto como se não executa logo o juízo sobre a má obra, por isso o coração dos filhos dos homens está inteiramente disposto para praticar o mal” (Eclesiastes 8:11) — mas o olhar ungido adora o que eles insultam.
“O Deus de paciência” (Romanos 15:5) é um dos títulos divinos. A Deidade é assim denominada, primeiro, porque Deus é tanto o Autor como o Objeto da graça da paciência na criatura. Segundo, porque é isto que Ele é em Si mesmo: a paciência é uma das Suas perfeições. Terceiro, como um padrão para nós: “Revesti-vos pois, como eleitos de Deus, santos, e amados, de entranhas de misericórdia, de benignidade, mansidão, longanimidade” (Colossenses 3:12). E ainda: “Sede pois imitadores de Deus como filhos amados” (Efésios 5:1). Quando tentado a aborrecer-se com a lerdeza doutrem, ou a vingar-se de alguém que o ultrajou, lembre-se da infinita paciência e longanimidade de Deus para com você.
A paciência de Deus se manifesta em Sua maneira de tratar os pecadores. Quão surpreendentemente foi demonstrada para com os antediluvianos. Quando a humanidade estava universalmente degenerada, e toda a carne havia corrompido os seus caminhos, Deus não a destruiu sem antes adverti-la. “… a longanimidade de Deus esperava…” (1 Pedro 3:20), Deus esperou não menos de cento e vinte anos (Gênesis 6:3), tempo durante o qual Noé foi “… pregoeiro da justiça… ” (2 Pedro 2:5). Assim, mais tarde, quando os gentios não só cultuavam e serviam mais a criatura do que ao Criador, mas também cometiam as mais vis abominações contrárias até mesmo aos .ditames da natureza (Romanos 1:19-26), e com isso encheram a medida da sua iniqüidade; todavia, em vez de desembainhar a Sua espada para o extermínio desses rebeldes, Deus “… deixou andar todas as gentes em seus próprios caminhos…” e lhes deu “… chuvas e tempos frutíferos…” (Atos 14:16-17).
A paciência de Deus foi maravilhosamente exercida e manifestada para com Israel. Primeiro, Ele “…suportou os seus costumes no deserto por espaço de quase quarenta anos (Atos 13.18) Posteriormente, quando os israelitas entraram em Canaã, mas seguiam os maus costumes das nações ao seu redor e pendiam para a idolatria, conquanto Deus os castigasse dolorosamente não os destruiu por completo, mas sim em sua angustia, levantava libertadores para eles. Quando a sua iniqüidade subiu a tal ponto que ninguém, senão um Deus de infinita paciência, poderia suportá-los, Ele, não obstante, poupou-os durante muitos anos antes de deixar que fossem levados para a Babilônia. Finalmente quando a sua rebelião contra Ele atingiu o clímax pela crucificação de Seu Filho, Deus esperou quarenta anos, antes de enviar os romanos contra eles, e isso, só depois deles Julgarem que não eram “…dignos da vida eterna… (Atos 13:46)
Quão maravilhosa é a paciência de Deus com o mundo hoje! Por toda parte as pessoas pecam a peito aberto. A lei divina e pisoteada e o próprio Deus é desprezado abertamente. É deveras espantoso que Ele não elimine de vez aqueles que tão descaradamente O desafiam. Por que Ele não corta da face da terra o infiel insolente e o escarnecedor verboso, como fez com Ananias e Safira? Por que não faz a terra abrir a boca e devorar os perseguidores do Seu povo para que, à semelhança de Data e Abirão fossem vivos para o Abismo? E que dizer da cristandade apóstata, em que todas as formas de pecado possíveis são agora toleradas e praticadas sob a capa do santo nome de_ Cristo? Por que a justa ira do Céu não põe fim a tais abominações? Somente uma resposta é possível: porque Deus tolera com muita paciência os vasos da ira, preparados para perdição (Romanos 9:22).
E que dizer do autor e do leitor? Façamos uma revisão em nossas vidas. Não transcorreu muito tempo desde quando nós seguíamos a multidão na prática do mal, não nos interessávamos nem um pouco pela glória de Deus e só vivíamos para gratificar o nosso ego. Quão pacientemente Ele tolerou a nossa conduta vil! E agora que a graça nos tirou como tições do fogo, dando-nos um lugar na família de Deus, e nos gerou para uma herança eterna na glória, quão miseravelmente Lhe retribuímos! Quão superficial a nossa gratidão, quão tardia a nossa obediência e quão freqüentes as nossas apostasias! Uma razão pela qual Deus tolera que o crente permaneça carnal é que Ele possa demonstrar a Sua longanimidade para conosco (2 Pedro 3:9). Desde que este atributo divino só se manifesta neste mundo, Deus se empenha mais em mostrá-lo para com “os Seus”.
Oxalá a nossa meditação nesta excelência divina abrande os nossos corações, enterneça as nossas consciências, e possamos aprender na escola da santa experiência a “paciência dos santos’1, a saber, a submissão à vontade divina e a perseverança na prática do bem. Busquemos fervorosamente a graça que nos capacite a imitar esta excelência divina. “Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus’” (Mateus 5:48); no contexto imediato Cristo nos exorta a amar os nossos inimigos, a bendizer os que nos maldizem, a fazer o bem aos que nos odeiam. Deus tolera bastante os ímpios, apesar da multidão dos seus pecados; e nós, haveremos de querer vingar-nos por causa de uma única ofensa?
13. A GRAÇA DE DEUS
Esta perfeição do caráter divino só é exercida em favor dos eleitos. Nem no Velho Testamento nem no Novo jamais se menciona a graça de Deus em conexão com a humanidade em geral, e muito menos com as ordens inferiores das Suas criaturas. Nisto a graça se distingue da “misericórdia”, pois a misericórdia é “… sobre todas as suas obras1‘ (Salmo 145:9). A graça é a única fonte da qual fluem a boa vontade, o amor e a salvação de Deus para o Seu povo escolhido. Este atributo do caráter divino foi definido por Abraham Booth em seu proveitoso livro, The Reign of Grace — O Reino da Graça, assim: “É o livre, absoluto e eterno favor de Deus, manifesto na concessão de bênçãos espirituais e eternas a culpados e indignos.
A graça divina é o soberano e salvador favor de Deus exercido na dádiva de bênçãos a pessoas que não têm em si mérito nenhum, e pelas quais não se exige delas nenhuma compensação. Não apenas isso, é ainda mais; é o favor de Deus demonstrado a pessoas que, não só não possuem merecimentos próprios, mas são totalmente merecedoras do inferno. É completamente imerecida, não é procurada de modo nenhum e não é atraída por nada que haja nos objetos aos quais é dada, por nada que deles provenha, e tampouco pelos próprios objetos. A graça não pode ser comprada, nem obtida, nem conquistada pela criatura. Se pudesse, deixaria de ser graça. Quando dizemos que uma coisa é “de graça”, queremos dizer que seu recebedor não tem direitos sobre ela, que de maneira nenhuma ela lhe era devida. Chega-lhe como pura caridade e, a princípio, não solicitada nem desejada.
A mais completa exposição da maravilhosa graça de Deus acha-se nas epístolas do apóstolo Paulo. Em seus escritos “graça” está em direta oposição a obras e merecimento, todas as obras e todo merecimento, de qualquer espécie ou grau. Vê-se isto com muita clareza em Romanos 11:6, na versão utilizada pelo autor: “E se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça. Se é por obras, já não é pela graça; de outra maneira, as obras já não são obras”. É tão impossível unir a graça e as obras, como o é unir um ácido e um álcali. “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie (Efésios 2:8-9). O absoluto favor de Deus não pode harmonizar-se com o mérito humano, mais do que o óleo e a água fundir-se num só elemento. Ver também Romanos 4:4-5.
São três às principais características da graça divina: primeira, é eterna. A graça foi planejada antes de ser exercida, e fez parte do propósito divino antes de ser infundida: “Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” (2 Timóteo 1:9). Segunda, é livre, ou gratuita, pois ninguém a pôde comprar jamais: “Sendo justificados gratuitamente pela sua graça…” (Romanos 3:24. Terceira, ê soberana, porque Deus a exerce em favor daqueles a quem Lhe apraz, e a estes a concede: “Para que… também a graça reinasse…” (Romanos 5:21). Se a graça “reina”, ocupa um trono, e o ocupante do trono é soberano. Daí o “… trono da graça…” (Hebreus 4:16).
Exatamente porque a graça é um favor imerecido, exerce-se necessariamente de maneira soberana. Portanto, o Senhor declara: “Terei misericórdia” (ou graça) “…de quem eu tiver misericórdia,..’” (Êxodo 33:19). Se Deus mostrasse graça a todos os descendentes de Adão, os homens logo concluiriam que Ele, sendo justo, estava compelido a levá-los para o céu como uma razoável compensação por ter deixado a raça humana cair em pecado. Mas o grande Deus não está sob nenhuma obrigação para com nenhuma de Suas criaturas, menos ainda para com os que são rebeldes contra Ele.
A vida eterna é um dom e, portanto, não pode ser obtida pelas boas obras, nem reivindicada como um direito. Vendo que a salvação é um “dom”, quem tem direito de dizer a Deus a quem Ele deve doá-lo? Não é que o Doador recusa este dom a qualquer que o busque de todo coração e de acordo com as regras que Ele prescreveu. Não; Ele não o recusa a ninguém que O busca de mãos vazias e da maneira determinada por Ele. Mas, se de um mundo impenitente e incrédulo Deus está resolvido a exercer o Seu direito soberano escolhendo um número limitado de pessoas para serem salvas, quem sai prejudicado? Estará Deus obrigado a impor o Seu dom aos que não lhe dão valor? Estará Deus compelido a salvar os que estão determinados a seguir o seu próprio caminho!
Nada, porém, enraivece mais o homem natural e mais contribui para trazer à tona a sua inata e inveterada inimizade contra Deus, do que insistir com ele sobre a eternidade, a gratuidade e a absoluta soberania da graça divina. Dizer que Deus formou Seu propósito desde a eternidade, sem nenhuma consulta à criatura, é demasiadamente humilhante para o coração não quebrantado Dizer que a graça não pode ser adquirida ou conquistada pelos esforços do homem, esvazia demais o ego dos que confiam em sua justiça própria. E o fato de que a graça separa os que ela quer para serem os objetos do seu favor, provoca acalorados protestos dos rebeldes arrogantes. O barro se levanta contra o Oleiro e pergunta: “Por que Tu me fizeste assim?’ Um rebelde infrator da lei atreve-se a questionar a justiça da soberania divina. Vê-se a distintiva graça de Deus no ato de salvar aqueles que Ele separou soberanamente para serem os Seus favoritos. Com “distintiva” queremos dizer que a graça discrimina, faz diferenças escolhe alguns e deixa de lado outros. Foi a distintiva graça de Deus que separou Abraão dentre os seus vizinhos idolatras e fez dele “o amigo de Deus”. Foi a distintiva graça que salvou “publicanos e pecadores”, mas disse acerca dos fariseus: Deixai-os” (Mateus 15:14). Em parte nenhuma a glória da livre e soberana graça de Deus fulge mais conspicuamente do que na indignidade e diversidade dos que a recebem. Esta verdade foi belamente ilustrada por James Hervey (1751):
“Onde o pecado abundou, diz a proclamação do tribunal do céu superabundou a graça. Manasses foi um monstro cruel, pois fez passar seus próprios filhos pelo fogo, e encheu Jerusalém de sangue inocente. Manasses foi-perito em iniqüidade, pois, não só multiplicou, chegando a extremos extravagantes, as suas impiedades sacrílegas, como também envenenou os princípios e perverteu os costumes dos seus súditos, fazendo-os agir pior do que os pagãos idolatras mais detestáveis. Veja 2 Crônicas 33. Contudo, através desta super abundante graça, ele se humilhou, mudou de vida, e se tornou um filho do amor que perdoa e um herdeiro da glória imortal.
“Vede Saulo, aquele perseguidor cruel e sanguinário, quando, respirando ameaças e disposto à matança, atormentava as ovelhas de Jesus e levava à morte os Seus discípulos. A devastação que causara e as famílias inofensivas que arruinara, não eram suficientes para mitigar o seu espírito vingativo. Eram apenas uma amostra para o paladar que, em vez de saciar a sede de sangue, fizeram-no seguir mais de perto a presa e ansiar mais ardentemente pela destruição. Continuava sedento de violência e morte. Tão ávida e insaciável era sua sede, que chegava a respirar ameaças e mortes (Atos 9:1). Suas palavras eram verdadeiras lanças e flechas, e a sua língua, uma espada afiada. Para ele, ameaçar os cristãos era tão natural como respirar. Nos propósitos do seu coração rancoroso, eles não paravam de sangrar. Só devido à falta de poder é que cada sílaba que proferia e cada sopro da sua respiração não espalhavam mais mortes nem faziam cair mais discípulos inocentes. Quem, segundo os princípios da justiça humana, não o teria pronunciado vaso da ira, destinado a inevitável condenação? E mais, quem não estaria pronto a concluir que, se houvesse cadeias mais pesadas e masmorra mais triste no mundo das torturas, certamente se reservariam para tão implacável inimigo da verdadeira religiosidade? Entretanto, admirai e adorai os inexauríveis tesouros da graça — este Saulo é admitido na santa comunhão dos profetas, é enumerado com o nobre exército de mártires e faz distinguida figura no glorioso colégio dos apóstolos.
“Era proverbial a maldade dos coríntios. Alguns deles chafurdavam em tão abomináveis libertinagens, e estavam habituados a tão ultrajantes atos de injustiça que eram uma infâmia até para a natureza humana. Contudo, até mesmo esses filhos da violência e escravos do sensualismo foram lavados, santificados, justificados (1 Coríntios 6:9-11). “Lavados” no sangue precioso do Redentor que deu Sua vida; “santificados” pelas poderosas operações do bendito Espírito; “justificados” através das misericórdias infinitamente ternas do Deus da graça. Os que outrora foram um aflitivo fardo para a terra, vieram a ser o júbilo do céu, o encanto dos anjos”.
Agora, a graça de Deus se manifesta no Senhor Jesus Cristo, por Ele e através dEle.-”Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo (João 1:17). Isto não significa que Deus nunca exercera a Sua graça em favor de alguém antes de encarnar-Se o Seu Filho, Gênesis 6:8; Êxodo 33:19; etc; mostram que a verdade é outra. Mas a graça e a verdade foram plenamente reveladas e perfeitamente exemplificadas quando o Redentor veio a esta terra e morreu na cruz por Seu povo. Ê somente através de Cristo, o Mediador, que a graça de Deus flui para os Seus eleitos. “Muito mais a graça de Deus e o dom pela graça, que é dum só homem (ou “por um SÔ homem”), Jesus Cristo… muito mais os que recebem a abundância da graça, e o dom da justiça, reinarão em vida por um só — Jesus Cristo … para que … também a graça reinasse pela justiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor” (Romanos 5:15, 17, 21).
A graça de Deus é proclamada no evangelho (Atos 20:24), o qual é para o judeu confiante em sua justiça própria um “escândalo” (ou “pedra de tropeço”), e para o grego presunçoso e filósofo “loucura”. Por quê? Porque não há nada no evangelho que se preste para gratificar o orgulho do homem. Ele anuncia que se não formos salvos pela graça, não seremos salvos de modo nenhum. Ele declara que, fora de Cristo – o Dom inefável da graça de Deus — o estado de todos os homens é desesperador, irremediável, sem esperança. O evangelho trata os homens como criminosos culpados, condenados e mortos. Declara que o moralista mais puro está na mesma condição terrível em que se acha o libertino mais voluptuoso; que o religioso confesso e zeloso, com todas as suas práticas religiosas, não é melhor do que o mais profano infiel.
O evangelho considera a todo descendente de Adão como pecador decaído, corrupto, merecedor do inferno e desvalido. A graça que o evangelho divulga é a sua única esperança. Todos permanecem diante de Deus como réus sentenciados, transgressores da Sua santa lei, como criminosos culpados e condenados, não a espera de alguma sentença, mas esperando a execução da sentença já passada sobre eles (João 3:18; Romanos 3:19). Queixar-se da parcialidade da graça é suicídio. Se o pecador insiste em que se lhe faça a pura justiça, então o “lago de fogo” terá que ser o seu quinhão eterno. Sua única esperança está em render-se a sentença que a justiça divina lhe passou, apropriar-se da retidão absoluta que a caracteriza, lançar-se à misericórdia de Deus, e estender mãos vazias para servir-se da graça de Deus, que agora chegou a conhecer por meio do evangelho.
A terceira pessoa da Deidade é o comunicador da graça pelo que e denominado “… o Espírito de graça… ” (Zacarias 12-10) Deus, o Pai, é a fonte de toda graça, pois Ele em Si mesmo determinou a aliança eterna da redenção. Deus, o Filho, é o único canal da graça. O evangelho é o divulgador da graça. O Espírito é o doador. Ele aplica o evangelho com poder salvador à alma vivificando os eleitos enquanto ainda mortos, dominando as suas vontades rebeldes, amolecendo os seus duros corações, abrindo-lhes os olhos da sua cegueira, limpando-os da lepra do pecado Podemos assim dizer com G. S. Bishop (já falecido): «A graça é uma provisão para homens que se acham tão decaídos que não podem erguer o machado da justiça, tão corruptos que não podem mudar as suas próprias naturezas, tão contrários a Deus que não podem voltar para Ele, tão cegos que não podem vê-10, tão surdos que não podem ouvi-1O, e tão mortos que Ele mesmo precisa abrir os seus túmulos e levantá-los para a ressurreição”.
14. A MISERICÓRDIA DE DEUS
”Louvai ao Senhor, porque ele é bom; porque a sua begnidade (ou misericórdia) dura para sempre” (Salmo 136-1) Deus deve ser grandemente louvado por esta perfeição do Seu caráter. Por três vezes, em três versículos, o salmista convida os santos a louvarem ao Senhor por este atributo adorável. E certamente é o mínimo que se pode pedir aos que tão copiosamente se beneficiaram dele. Quando ponderamos as características desta excelência divina, não podemos senão bendizer a Deus por ela A Sua misericórdia (ou benignidade), é “grande” (1 Reis 3-6- 1 Pedro 1:3), “abundante” (Salmo 86:5), “terna” (Lucas 1-78 ‘na versão utilizada pelo autor); “… de eternidade a eternidade sobre aqueles que o temem…” (Salmo 103:17). Bem podemos dizer com o salmista: “… louvarei com alegria a tua misericórdia … (Salmo 59:16).
“… eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti e apregoarei o nome do Senhor diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem me compadecer” (Êxodo 33:19). Em que a misericórdia de Deus difere da Sua “graça”? A misericórdia de Deus tem sua origem na bondade divina. O primeiro fruto da bondade de Deus é Sua benignidade ou generosidade, pela qual Ele dá liberalmente a Suas criaturas como criaturas; assim deu Ele o ser e a vida a todas as coisas. O segundo fruto da bondade de Deus é Sua misericórdia, que denota a pronta inclinação de Deus para aliviar a miséria das criaturas caídas. Assim, “misericórdia” pressupõe pecado.
Embora não seja fácil, à primeira consideração, perceber uma real diferença entre a graça e a misericórdia de Deus, podemos compreendê-la se ponderarmos cuidadosamente os Seus procedimentos para com os anjos que não caíram. Ele nunca exerceu misericórdia para com eles, pois jamais tiveram qualquer necessidade dela, pois não pecaram, nem ficaram debaixo dos efeitos da maldição. Todavia, eles são objetos da livre e soberana graça de Deus. Primeiro, porque Deus os elegeu do seio de toda a raça angélica (1 Timóteo 5:21), Segundo, e em conseqüência da sua eleição, porque foram preservados da apostasia, quando Satanás se rebelou e arrastou consigo um terço das hostes celestiais (Apocalipse 12:4), Terceiro, tornando Cristo a Cabeça deles (Colossenses 2:10; 1 Pedro 3:22), meio pelo qual eles permanecem eternamente seguros na santa condição em que foram criados. Quarto, devido à exaltada posição que lhes foi atribuída: viver na presença imediata de Deus (Daniel 7:10), servi-1O constantemente em Seu templo celestial, receber dEle honrosas missões (Hebreus 1:14). Isso é graça abundante para com eles, mas “misericórdia” não é.
No empenho em estudar a misericórdia de Deus como exposta nas Escrituras, é preciso fazer uma tríplice distinção, se é que a Palavra da Verdade há de ser “bem manejada” nesse ponto. Primeiro, há uma misericórdia geral de Deus, que se estende não somente a todos os homens, crentes e descrentes igualmente, mas também à criação inteira: “…as suas misericórdias são sobre todas as suas obras” (Salmo 145:9); “… de mesmo é quem dá a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas” (Atos 17:25). Deus tem compaixão da criação animal em suas necessidades, e a supre de provisão adequada. Segundo, há uma misericórdia especial de Deus, exercida para com os filhos dos homens, ajudando-os e socorrendo-os, apesar dos seus pecados. Também a estes Deus supre todas as necessidades da vida: “… porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos” (Mateus 5:45). Terceiro, há uma misericórdia soberana, reservada para os herdeiros da salvação, comunicada a estes por meio de uma aliança, através do Mediador.
Acompanhando um pouco mais a diferença entre o segundo e o terceiro pontos distintivos acima expostos, é importante notar que as misericórdias que Deus concede aos ímpios são exclusivamente de natureza temporal; quer dizer, limitam-se estritamente a presente vida. Não haverá misericórdia que se estenda a eles além-tumulo: “… este povo não é povo de entendimento- por isso aquele que o fez não se compadecera dele, e aquele que o formou não lhe mostrará nenhum favor” (Isaías 27:11) Neste ponto, porém, pode oferecer-se uma dificuldade a algum dos nossos leitores, a saber: não afirmam as Escrituras que a misericórdia de Deus, “…a sua benignidade dura para sempre”? (Salmo 13b: 1)7 E preciso assinalar duas coisas neste contexto. Deus nunca deixa de ser misericordioso, pois isto constitui uma qualidade da essência divina (Salmo 116:5); mas o exercício da Sua misericórdia e regulado por Sua vontade soberana. Tem que ser assim, pois não ha fora dEle coisa nenhuma que O obrigue a agir; se houvesse, essa “coisa” seria suprema e Deus deixaria de ser Deus. É somente a pura graça soberana que determina o exercício da misericórdia divina. Deus afirma expressamente este fato em Romanos 9:15: “Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Não e a desgraça da criatura que O leva a mostrar misericórdia, pois Deus não é influenciado por coisas alheias a Si mesmo, como nós somos. Se Deus fosse influenciado pela miséria abjeta dos pecadores leprosos, Ele os limparia e os salvaria a todos. Mas não o faz. Por quê? Simplesmente porque não é do Seu agrado e do Seu propósito agir assim. Menos ainda são os méritos da criatura que O levam a conceder-lhes misericórdias, pois é uma contradição de termos falar em merecer “misericórdia”. “Não petas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou…” (Tito 3:5) — aquelas estando em direta antítese a esta. Tampouco são os méritos de Cristo que movem Deus a conceder misericórdias aos Seus eleitos; isto seria tomar o efeito pela causa. É “através” ou por causa da misericórdia de Deus que Cristo foi enviado ao mundo, ao Seu povo (Lucas 1:78). Os méritos de Cristo tornaram possível a Deus conceder justamente misericórdias espirituais aos Seus eleitos, tendo sido satisfeita plenamente a justiça pelo Fiador! Não, a misericórdia provém unicamente da vontade soberana de Deus.
Ademais, conquanto seja verdade, bendita e gloriosa verdade, que a misericórdia de Deus “dura para sempre”, devemos observar cuidadosamente os objetos a quem Deus mostra misericórdia. Até o lançamento dos reprovados no “lago de fogo” é um ato de misericórdia. O castigo dos ímpios deve ser considerado de um tríplice ponto de vista. Do lado de Deus, é um ato de justiça, vindicando a Sua honra, A misericórdia de Deus nunca se mostra cm detrimento da Sua santidade e justiça. Do lado dos ímpios, é um ato de eqüidade, dado que são postos a sofrer a merecida recompensa das suas iniqüidades. Mas do ponto de vista dos redimidos, o castigo dos ímpios é um ato de indescritível misericórdia. Quão terrível seria se a presente ordem de coisas continuasse para sempre, quando os filhos de Deus são forçados a viver no meio dos filhos do diabo! O céu logo deixaria de ser céu, se os ouvidos dos santos ainda ouvissem a Linguagem blasfema e corrompida dos reprovados. Que misericórdia, o fato de que na Nova Jerusalém não entrará “ … coisa alguma que contamine, e cometa abominação… ” (Apocalipse 21:27)!
Para que o leitor não pense que no último parágrafo acima estivemos laborando sobre a nossa imaginação, apelemos para as Escrituras Sagradas em apoio do que foi dito. No Salmo 143:12 vemos Davi orando: “E por tua misericórdia desarraiga os meus inimigos, e destrói a todos os que angustiam a minha alma: pois sou teu servo”. Ainda, no Salmo 136:15 lemos que Deus “derribou a Faraó com o seu exército no Mar Vermelho; porque a sua benignidade (ou misericórdia) dura para sempre”. Foi um ato de castigo a Faraó e aos seus exércitos, mas foi um ato de “misericórdia” para os israelitas. Mais ainda, em Apocalipse 19:1-3 lemos: “… ouvi no céu como que uma grande voz de uma grande multidão, que dizia: Aleluia; Salvação, e glória, e honra, e poder pertencem ao Senhor nosso Deus; porque verdadeiros e justos são os seus juízos, pois julgou a grande prostituta, que havia corrompido a terra com a sua prostituição, e das mãos dela vingou o sangue dos seus servos. E outra vez disseram: Aleluia. E o fumo dela sobe para todo o sempre”.
Do que se acaba de ver diante de nós, notemos como é vã a presunçosa esperança dos ímpios que, apesar do seu continuado desafio a Deus, mesmo assim contam com uma atitude misericordiosa de Deus em favor deles. Quantos há que dizem: não acredito que Deus me lançará no inferno; Ele é muito misericordioso. Essa esperança é uma víbora que, se for acalentada no colo deles, irá feri-los com picada morta!. Deus é Deus de justiça, como de misericórdia, e Ele declarou expressamente que “… ao culpado não tem por inocente…” (Êxodo 34:7). Sim, Ele disse: “Os ímpios serão lançados no inferno e todas as gentes que se esquecem de Deus” (Salmo 9:17). Também poderiam raciocinar os homens: se se deixasse acumular o lixo, e os esgotos ficassem estagnados, e as pessoas ficassem privadas de ar renovado, não acredito que um Deus misericordioso as deixaria cair presas de uma febre mortal. O fato é que aqueles que negligenciam as leis da saúde são tomados pela doença, apesar da misericórdia de Deus. Igualmente verdade é que os que negligenciam as leis da saúde espiritual sofrerão para sempre a ”segunda morte”.
É indizivelmente grave ver tantos abusando desta perfeição divina. Continuam desprezando a autoridade de Deus, pisoteando Suas leis; continuam em pecado, e ainda se vangloriam apoiados na Sua misericórdia. Mas Deus não será injusto para Consigo mesmo. Deus mostra misericórdia para o penitente sincero, não porém para o impenitente (Lucas 13:3). É diabólico continuar em pecado e ainda contar com a misericórdia de Deus para a proscrição do castigo. Equivale a dizer: “Façamos males, para que venham bens”. Dos que falam assim, está escrito: “… A condenação desses é justa’ (Romanos 3:8). Com toda a certeza, essa presunção se verá frustrada; leia cuidadosamente Deuteronômio 29:18-20. Cristo é a propiciação espiritual, e todos quantos desprezarem e rejeitarem o Seu senhorio, perecerão “… no caminho, quando em breve se inflamar a sua ira” (Salmo 2:12).
O nosso pensamento final será sobre as misericórdias espirituais de Deus para com o Seu povo. “… a tua misericórdia é grande até aos céus…” (Salmo 57:10). As riquezas da misericórdia transcendem os nossos mais elevados pensamentos. “Pois quanto o céu está elevado acima da terra, assim é grande a sua misericórdia para com os que o temem” (Salmo 103:11). Ninguém pode medi-la. Os eleitos são designados “… vasos de misericórdia…” (Romanos 9:23). Foi a misericórdia que os vivi-ficou quando estavam mortos em pecado (Efésios 2:4-5). A misericórdia os salvou (Tito 3:5). Sua abundante misericórdia os regenerou para uma herança eterna (1 Pedro 1:3). E nos faltaria tempo para falar da misericórdia de Deus que preserva, sustenta, perdoa e supre os Seus. Para eles Deus é “… Pai das misericórdias…” (2 Coríntios 1:3).
Quando em elevação minha alma sonda
as Tuas misericórdias, ó meu Deus,
a visão me arrebata, e então me absorvo em encanto,
em amor e em louvor.
15. O AMOR DE DEUS
As Escrituras nos dizem três coisas a respeito da natureza de Deus. Primeira, “Deus é espírito” (João 4:24). No grego não há artigo indefinido. Dizer “Deus é um espírito” é sumamente repreensível, pois O coloca na mesma classificação de outros seres. Deus é “espírito” no sentido mais elevado. Como é “espírito”, é incorpóreo, não tem substância visível. Tivesse Deus um corpo tangível, não seria onipresente, estaria limitado a um lugar; sendo “espírito”, enche os céus e a terra. Segunda, “Deus é luz” (1 João 1:5), o que é oposto às trevas. Nas Escrituras as “trevas” representam o pecado, o mal, a morte; a “luz” representa a santidade, a bondade, a vida. “Deus é luz” significa que Ele é a soma de todas as excelências. Terceira, “Deus é amor” (1 João 4:8). Não é simplesmente que Deus ama, porém que ê amor mesmo. O amor não é meramente um dos Seus atributos, mas sim Sua própria natureza,
Muitos hoje falam do amor de Deus, mas são completamente alheios ao Deus de amor. Comumente se considera o amor divino como uma espécie de fraqueza amável, uma certa indulgência boazinha; fica reduzido a um sentimento enfermiço, modelado nas emoções humanas. Pois bem, a verdade é que nisto, como em tudo mais, os nossos pensamentos precisam ser formulados e regulados por aquilo que é revelado nas Escrituras Sagradas. Que há urgente necessidade disto transparece não só na ignorância que geralmente prevalece, mas também no baixo nível de espiritualidade atual que lamentavelmente se evidencia entre os cristãos professos. Quão pouco amor genuíno a Deus existe! Uma das principais razões disso é que os nossos corações pouco se ocupam com o Seu maravilhoso amor por Seu povo. Quanto melhor conheçamos o Seu amor — sua natureza, sua plenitude, sua bem-aventurança — mais os nossos corações serão impelidos a amá-1O.
1. O amor de Deus é imune de influência alheia. Queremos dizer com isso que não há nada nos objetos do Seu amor que possa colocá-lo em ação, e não há- nada na criatura que possa atraí-lo ou impulsioná-lo. O amor que uma criatura tem por outra deve-se a algo existente nelas; mas o amor de Deus é gratuito espontâneo e não causado por nada nem por ninguém. A única razão pela qual Deus ama alguém acha-se em Sua vontade soberana: “O Senhor não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vos éreis menos em número do que todos os povos: mas porque o Senhor vos amava” {Deuteronômio 7:7-8), Deus amou o Seu povo desde a eternidade e, portanto, a criatura nada tem que possa ser a causa daquilo que se acha em Deus desde a eternidade. Seu amor provém dEle próprio: “… segundo o seu próprio propósito…” (2 Timóteo 1:9).
“Nós o amamos a ele porque ele nos amou primeiro” (1 João 4:19). Deus não nos amou porque nós O amávamos, mas nos amou antes de nós termos uma só partícula de amor por Ele. Se Deus nos tivesse amado em resposta ao nosso amor, então o Seu amor não seria espontâneo; mas visto que Ele nos amou quando nós não O amávamos, é claro que o Seu amor não foi influenciado. Para que se honre a Deus, e se firme o coração do Seu Filho, é altamente importante que entendamos com absoluta clareza esta verdade preciosa. O amor de Deus por mim e por todos e cada um dos que são “Seus” não foi movido nem motivado por coisa nenhuma em nós. Que havia em mim que atraiu o coração de Deus? Absolutamente nada. Ao contrário, porém, havia tudo para O repelir, tudo na medida para levá-lO a detestar-me — sendo eu pecador, depravado, corrupto, sem “nenhum bem” em mim.
“O que existia em mim que merecesse estima
ou desse algum prazer ao Criador?
Fosse assim mesmo, ó Pai, eu sempre cantaria
por veres algo bom em mim, Senhor.”
2. É eterno. Necessariamente, Deus é eterno, e Deus é amor; portanto, como Deus não teve princípio, Seu amor também não teve. Mesmo concedendo que esse conceito transcende o alcance das nossas frágeis mentes, contudo, quando não podemos compreender, podemos inclinar-nos em adoração. Como é claro o testemunho de Jeremias 31:3: “… com amor eterno te amei, também com amorável benignidade te atraí”! Que bem-aventurança saber que o grandioso e santo Deus amava o Seu povo antes do céu e a terra terem sido chamados à existência, que Ele pusera o Seu coração neles desde toda a eternidade! Esta é uma prova clara de que o Seu amor é espontâneo, pois Ele os amou eras sem fim, antes de sequer existirem!
A mesma verdade preciosa é exposta em Efésios 1:4-5: “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em caridade; e nos predestinou…” (ou, na versão empregada pelo autor, “Havendo-nos predestinado em amor”). Que de louvores isto deveria evocar de cada um dos Seus filhos! Que tranqüilidade para o coração saber que, uma vez que o amor de Deus por mim não teve começo, certamente não terá fim! Se é certo que “de eternidade a eternidade” Ele é Deus, e é “amor”, então é igualmente certo que “de eternidade a eternidade” Ele ama a Seu povo.
3. É soberano. Isso também é evidente em si mesmo. Deus é soberano, não deve obrigação a ninguém; Ele é Sua própria lei e age sempre de acordo com a Sua vontade dominadora. Assim, pois, se Deus é soberano e é amor, infere-se necessariamente que o Seu amor é soberano. Porque Deus é Deus, faz o que Lhe agrada; porque é amor, ama a quem Lhe apraz. Eis a Sua própria afirmação expressa: “… amei Jacó e aborreci Esaú” (Romanos 9:13). Em Jacó não havia mais razão do que em Esaú para ser objeto do amor divino. Ambos tinham os mesmos pais e, gêmeos que eram, nasceram na mesma hora. Contudo, Deus amou um e aborreceu o outro. Por que? Porque assim Lhe aprouve.
A soberania do amor de Deus infere-se necessariamente do fato de que nada do que há na criatura o influencia. Portanto, afirmar que a causa do Seu amor está em Deus é outro modo de dizer que Ele ama a quem Lhe apraz. Por um momento, suponha o oposto. Suponha que o amor de Deus fosse governado por outra coisa que a Sua vontade, caso em que Ele amaria seguindo alguma norma e, amando por alguma norma, Ele estaria subordinado a uma lei do amor e, então, longe de ser livre, Deus seria governado por uma lei. “Em amor nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo” — o quê? Alguma virtude que previu neles? Não. O que, então? — “… segundo o beneplácito de sua vontade” (Efésios 1:4-5).
4. É infinito. Em Deus tudo é infinito. Sua essência enche os céus e a terra. Sua sabedoria não sofre nenhuma limitação, porquanto Ele conhece todas as coisas, do passado, do presente e do futuro. Seu poder é ilimitado, pois não há nada difícil demais para Ele. Assim, o Seu amor é sem limite. Há nele uma profundidade que ninguém consegue sondar; há nele uma altitude que ninguém consegue escalar; há nele uma largura e um comprimento que desdenhosamente desafiam a medição feita por todo e qualquer padrão humano. É declarado belamente em Efésios 2:4: “Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou”. A palavra “muito” aqui faz paralelo com a expressão “… Deus amou… de tal maneira…” (João 3:16), Diz-nos que o amor de Deus é tão transcendental que não pode ser avaliado.
“Nenhuma língua pode expressar plenamente a infinidade do amor de Deus, e nenhum intelecto pode compreendê-lo: “… excede todo o entendimento…” (Efésios 5:19). As idéias mais amplas que nossa mente finita possa conceber acerca do amor divino, estão infinitamente abaixo da sua verdadeira natureza. O céu não se acha tão distante da terra como a bondade de Deus está além das mais elevadas concepções que somos capazes de formular dela. A bondade divina é um oceano que se avoluma e se torna mais alto do que todas as montanhas de oposição nos que são objetos dela. E uma fonte da qual dimana todo o bem necessário aos que a ela estão ligados” (John Brine, 1743).
5. E imutável. Como em Deus “… não há mudança nem sombra de variação” (Tiago 1:17), assim o Seu amor não conhece mudança nem diminuição. O verme Jacó dá-nos enfático exemplo disto: “Amei Jacó”, declarou Jeová, e, a despeito de toda a sua incredulidade e obstinação, Ele nunca deixou de amá-lo. João 13:1 oferece-nos outra bela ilustração. Precisamente naquele noite um dos apóstolos diria “… mostra-nos o Pai. ..”; outro O negaria soltando maldições; todos se escandalizariam por causa dEle e O abandonariam. Todavia, “… como havia amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até ao fim”. O amor divino não se rende às vicissitudes. O amor divino é “… forte como a morte … as muitas águas não poderiam apagar este amor…” (Cantares de Salomão 8:6-7). Nada nos pode separar dele: Romanos 8:35-39.
“Seu amor não se mede e não conhece fim,
nada pode mudá-lo, nem seu curso.
Eternamente o mesmo, sem cessar dimana
do manancial eterno.”
6. É santo. O amor de Deus não é regulado por capricho, paixão ou sentimento, mas por princípio. Exatamente como a Sua graça reina, não às suas expensas, mas “pela justiça” (Romanos 5:21), assim o Seu amor nunca entra em conflito com a Sua santidade. Que “Deus é luz” (1 João 1:5) se menciona antes de dizer-se que “Deus é amor” (1 João 4:8). O amor de Deus não é mera fraqueza boazinha, nem brandura efeminada. As Escrituras declaram: “… o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho” (Hebreus 12:6). Deus não tolerará o pecado, mesmo em Seu povo. O Seu amor é puro, e não se mistura com nenhum sentimentalismo piegas.
7. É pleno de graça. O amor e o favor de Deus são inseparáveis. Esta verdade é exposta claramente em Romanos 8:32-39. O que é esse amor, do qual,nada nos pode -separar, percebe-se facilmente pelo propósito e alcance do contexto imediato: é aquela boa vontade ou beneplácito e graça de Deus que O determinou a dar Seu Filho pelos pecadores. Esse amor foi o poder impulsivo da encarnação de Cristo: “… Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito…” (João 3:16). Cristo morreu, não para fazer com que Deus nos amasse, mas porque Ele amava o Seu povo. O Calvário é a suprema demonstração do amor divino. Leitor cristão, sempre que você for tentado a duvidar do amor de Deus, volte ao Calvário.
Há aqui, pois, farta causa para confiança e paciência sob a aflição debaixo da mão de Deus. Cristo era amado pelo Pai, porém Ele não foi eximido de pobreza, humilhação e perseguição. Cristo teve fome e sede. Assim, quando Cristo permitiu que os homens cuspissem nEle e O golpeassem, isso não foi incompatível com o amor de Deus por Ele. Portanto, que nenhum cristão questione o amor de Deus quando passar por aflições e provações. Deus não enriqueceu a Cristo na terra com prosperidade temporal, pois Ele não tinha “… onde reclinar a cabeça” (Mateus 8:20). Mas Deus Lhe deu o Espírito sem medida {João 3:34). Aprenda o cristão, pois, que as bênçãos espirituais são os principais dons do amor divino. Que bênção saber que, ao passo que o mundo nos odeia, Deus nos ama!
16. A IRA DE DEUS
É triste ver tantos cristãos professos que parecem considerar a ira de Deus como uma coisa pela qual eles precisam pedir desculpas, ou, pelo menos, parece que gostariam que não existisse tal coisa. Conquanto alguns não fossem longe o bastante para admitir abertamente que a consideram uma mancha no caráter divino, contudo, estão longe de vê-la com bons olhos, não gostam de pensar nisso e dificilmente a ouvem mencionada sem que surja em seus corações um ressentimento contra essa idéia. Mesmo dentre os mais sóbrios em sua maneira de julgar, não poucos parecem imaginar que há na questão da ira de Deus uma severidade terrificante demais para propiciar um tema para consideração proveitosa. Outros dão abrigo ao erro de pensar que a ira de Deus não é coerente com a Sua bondade, e assim procuram bani-la dos seus pensamentos.
Sim, muitos há que fogem de visualizar a ira de Deus, como se fossem intimados a ver alguma nódoa no caráter divino, ou algum defeito no governo divino. Mas, o que dizem as Escrituras? Quando a procuramos nelas, vemos que Deus não fez tentativa alguma para ocultar a realidade da Sua ira. Ele não se envergonha de dar a conhecer que a vingança e a cólera Lhe pertencem. Eis o Seu desafio: “Vede agora que eu, eu o sou, e mais nenhum Deus comigo; eu mato, e eu faço viver; eu firo, e eu saro; e ninguém há que escape da minha mão. Porque levantarei a minha mão aos céus, e direi: Eu vivo para sempre. Se eu afiar a minha espada reluzente, e travar do juízo a minha mão, farei tornar a vingança sobre os meus adversários, e recompensarei aos meus aborrecedores” (Deuteronômio 32:39-41). Um estudo na concordância mostrará que há mais referências nas Escrituras à indignação, à cólera e à ira de Deus, do que ao Seu amor e ternura. Porque Deus é santo, Ele odeia todo pecado; e porque Ele odeia todo pecado, a Sua ira inflama-se contra o pecador Salmo 7:11.
Pois bem, a ira de Deus é uma perfeição divina tanto como a Sua fidelidade, o Seu poder ou a Sua misericórdia. Só pode ser assim, pois não há mácula alguma, nem o mais ligeiro defeito no caráter de Deus, porém, haveria, se nEle não houvesse “ira”! A indiferença para com o pecado é uma nódoa moral, e aquele que não o odeia é um leproso moral. Como poderia Aquele que é a soma de todas as excelências olhar com igual satisfação para a virtude e o vício, para a sabedoria e a estultícia? Como poderia Aquele que é infinitamente santo ficar indiferente ao pecado e negar-Se a manifestar a Sua “severidade” (Romanos 11:22) para com ele? Como poderia Aquele que só tem prazer no que é puro e nobre, deixar de detestar e de odiar o que é impuro e vil? A própria natureza de Deus faz do inferno uma necessidade tão real, um requisito tão imperativo e eterno como o céu o é. Não somente não há imperfeição nenhuma em Deus, mas também não há nEle perfeição que seja menos perfeita do que outra.
A ira de Deus é a Sua eterna ojeriza por toda injustiça. É o desprazer e a indignação da divina eqüidade contra o mal. É a santidade de Deus posta em ação contra o pecado. É a causa motora daquela sentença justa que Ele lavra sobre os malfeitores. Deus está irado contra o pecado porque este é rebelião contra a Sua autoridade, um ultraje à Sua soberania inviolável. Os insurgentes contra o governo de Deus saberão um dia que Deus é o Senhor. Serão levados a sentir quão grandiosa é aquela Majestade que eles desprezaram, e como é terrível aquela ira de que foram ameaçados e a que não deram a mínima importância. Não que a ira de Deus seja uma retaliação maldosa e mal intencionada, infligindo agravo só pelo prazer de infligi-lo, ou devolver a ofensa recebida. Não; embora seja verdade que Deus vindicará o domínio como Governador do universo, Ele não será revanchista.
Evidencia-se que a ira divina é uma das perfeições de Deus, não somente pelas considerações acima apresentadas, mas também fica estabelecido claramente pelas declarações expressas da Sua Palavra. “Porque do céu se manifesta a ira de Deus…” (Romanos 1:18). “Manifestou-se quando foi pronunciada a primeira sentença de morte, quando a terra foi amaldiçoada e o homem foi expulso do paraíso terrestre; e depois, mediante castigos exemplares como o dilúvio e a destruição das cidades da planície com fogo do céu, mas, especialmente pelo reinado da morte no mundo todo. Foi proclamada na maldição da lei para cada transgressão, e foi imposta na instituição do sacrifício. No capítulo 8 de Romanos, o apóstolo Paulo chama a atenção dos crentes para o fato de que a criação inteira ficou sujeita à vaidade, e geme e tem dores de parto. A mesma criação que declara que existe um Deus, e publica a Sua glória, também proclama que Ele é o inimigo do pecado e o vingador dos crimes dos homens. Acima de tudo, porém, do céu se manifestou a ira de Deus quando o Filho de Deus veio a este mundo para revelar o caráter divino, e quando essa ira foi demonstrada nos Seus sofrimentos é morte, de maneira mais terrível do que por todas as provas que Deus antes dera da Sua aversão pelo pecado. Além disso, o castigo futuro e eterno dos ímpios agora é declarado em termos mais solenes e explícitos do que antes. Sob a nova dispensação há duas revelações dadas do céu, uma da ira, a outra da graça” (Robert Haldane).
Mais: que a ira de Deus é uma perfeição divina está demonstrado claramente pelo que lemos no Salmo 95:11: “Por isso jurei na minha ira que não entrarão no meu repouso”. Duas são as ocasiões em que Deus “jura”: quando faz promessas (Gênesis 22:16), e quando faz ameaças (Deuteronômio 1:34). Na primeira, jura com misericórdia dos Seus filhos; na segunda, jura para aterrorizar os ímpios. Um juramento é feito para confirmação: Hebreus 6:16. Em Gênesis 22:16 disse Deus: “Por mim mesmo, jurei”, No Salmo 89:35 Ele declara; “Uma vez jurei por minha santidade”. Enquanto que no Salmo 95:11 Ele afirma: “Jurei na minha ira”. Assim é que o grande Jeová pessoalmente recorre à Sua “ira” como a uma perfeição igual à Sua “santidade”: tanto jura por uma como pela outra! Ainda: como em Cristo “… habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Colossenses 2:9), e como todas as perfeições divinas são notavelmente manifestadas por Ele (João 1:18), por isso lemos sobre “… a ira do Cordeiro” (Apocalipse 6:16).
A ira de Deus é uma perfeição do caráter divino sobre a qual precisamos meditar com freqüência. Primeiro, para que os nossos corações fiquem devidamente impressionados com a ojeriza de Deus pelo pecado, Estamos sempre inclinados a uma consideração superficial do pecado, a encobrir a sua fealdade, a desculpá-lo com excusas várias, Mas, quanto mais estudarmos e ponderarmos a aversão de Deus pelo pecado e a maneira terrível como se vinga dele, mais probabilidade teremos de compreender quão horrível é o pecado. Segundo, para produzir em nossas almas um verdadeiro temor de Deus: “… retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus agradavelmente com reverência e piedade (“santo temor”); porque o nosso Deus é um fogo consumidor” (Hebreus 12:28-29). Não poderemos servi-1O “agradavelmente” sem a devida “reverência” ante a Sua tremenda Majestade e sem o devido “santo temor” de Sua justa ira, e promoveremos melhor estas coisas trazendo freqüentemente à memória o fato de que “o nosso Deus é um fogo consumidor”. Terceiro, para induzir nossas almas a fervoroso louvor a Deus por ter-nos livrado “… da ira futura” (1 Tessalonicenses 1:10).
A nossa prontidão ou a nossa relutância em meditar na ira de Deus é um teste seguro de até que ponto os nossos corações reagem à Sua influência. Se não nos regozijamos verdadeiramente em Deus, pelo que Ele é em Si mesmo, e por todas as perfeições que nEle há eternamente, como poderá permanecer em nós o amor de Deus? Cada um de nós precisa vigiar o mais possível em oração contra o perigo de criar em nossa mente uma imagem de Deus segundo o modelo das nossas inclinações pecaminosas. Desde há muito o Senhor lamentou: “…pensavas que (eu) era como tu” (Salmo 50:21). Se não nos alegramos ”…em memória da sua santidade” (Salmo 97:12), se não nos alegramos por saber que num dia que logo vem, Deus fará uma demonstração sumamente gloriosa da Sua ira, tomando vingança em todos os que agora se opõem a Ele, é prova positiva de que os nossos corações não estão sujeitos a Ele, que ainda permanecemos em nossos pecados, rumo às chamas eternas.
“Jubilai, ó nações (gentios), com o seu povo, porque vingará o sangue dos seus servos, e sobre os seus adversários fará tornar a vingança…” (Deuteronômio 32:43). E ainda lemos: “E, depois destas coisas, ouvi no céu como “que uma grande voz de uma grande multidão, que dizia: Aleluia; Salvação, e glória, e honra, e poder pertencem ao Senhor nosso Deus; Porque verdadeiros e justos são os seus juízos, pois julgou a grande prostituta, que havia corrompido a terra com a sua prostituição, e das mãos dela vingou o sangue dos seus servos. E outra vez disseram: Aleluia…” (Apocalipse 19:1 -3). Grande será o regozijo dos santos naquele dia em que o Senhor irá vindicar a Sua majestade, exercer o Seu domínio formidável, magnificar a Sua justiça, e derribar os orgulhosos rebeldes que ousaram desafiá-lO.
“Se tu, Senhor, observares (imputares) as iniqüidades, Senhor, quem subsistirá?” (Salmo 130:3). Cada um de nós pode muito bem fazer esta pergunta, pois está escrito que “…os ímpios não subsistirão no juízo…” (Salmo 1:5). Quão dolorosamente a alma de Cristo padeceu ao pensar na ação de Deus observando as iniqüidades do Seu povo quando estas pesaram sobre
Ele! Ele “… começou a ter pavor, e a angustiar-se” (Marcos 14:33). Sua agonia terrível, Seu suor de sangue, Seu grande clamor e súplicas (Hebreus 5:7), Suas reiteradas orações, “Se é possível, passe de mim este cálice”, Seu último e tremendo brado, “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” — tudo manifesta que pavorosas apreensões Ele teve quanto ao que era para Deus “observar iniqüidades1‘. Bem que nós, pobres pecadores, podemos clamar: Senhor, quem subsistirá, se o próprio Filho de Deus tremeu tanto sob o peso da Tua ira? Se tu, meu leitor, ainda não correste em busca do refúgio em Cristo, o único Salvador, “… que farás na enchente do Jordão?” (Jeremias 12:5). “Quando considero como a bondade de Deus sofre abusos da maior parte da humanidade, não posso senão apoiar quem disse; “O maior milagre do mundo é a paciência e generosidade de Deus para com o mundo ingrato. Se um príncipe tem inimigos metidos numa de suas cidades, não lhes envia provisões, mas mantém sitiado o local e faz o que pode para vencê-los pela fome. Mas o grande Deus, que poderia levar todos os Seus inimigos à destruição num piscar de olhos, tolera-os e se empenha diariamente para sustentá-los. Aquele que faz o bem aos maus e ingratos, pode muito bem ordenar-nos que bendigamos os que nos maldizem. Não penseis, porém, que escapareis assim, pecadores; o moinho de Deus mói devagar, mas mói fino; quanto mais admirável é agora a Sua paciência e generosidade, mais terrível e insuportável será a fúria resultante dos abusos feitos à Sua bondade. Nada é mais brando do que o mar; contudo, quando se agita e forma temporal, nada se enfurece mais. Nada é tão suave como a paciência e bondade de Deus, e nada tão terrível como a Sua ira quando se inflama” (William Gurnall, 1660). “Fuja”, pois, meu leitor, fuja para Cristo; fuja “…da ira futura” (Mateus 3:7), antes que seja tarde demais. Nós lhe rogamos com todo o empenho, não pense que esta mensagem tem em vista outra pessoa. É para você1. Não fique satisfeito em pensar que você já fugiu para Cristo. Obtenha certeza disso! Rogue ao Senhor que sonde o teu coração e te revele o que tu és.
Uma palavra aos pregadores. Irmãos, em nosso ministério temos pregado sobre este solene assunto tanto como devíamos? Os profetas do Velho Testamento muitas vezes diziam aos seus ouvintes que as suas vidas ímpias provocavam o Santo de Israel, e que estavam entesourando para si mesmos irá para o dia da ira. E as condições do mundo hoje não são melhores do que eram então! Nada se presta mais para despertar os indiferentes e fazer com que os crentes carnais sondem os seus corações, do que alongar-nos sobre o fato de que Deus “…se ira todos os dias” com os ímpios (Salmo 7:11). O precursor de Cristo exortava os seus ouvintes a fugirem “…da ira futura” (Mateus 3:7). O Salvador ordenava a quantos O ouviam: “Temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno, sim, vos digo, a esse temei” (Lucas 12:5). O apóstolo Paulo dizia: “… sabendo o temor que se deve ao Senhor, persuadimos os homens…” (2 Coríntios 5: li). A fidelidade exige que falemos tão claramente do inferno como do céu.
17. CONTEMPLANDO A DEUS
Nos capítulos anteriores passamos em revista algumas das maravilhosas e belas perfeições do caráter divino. Dessa débil e defeituosa contemplação dos Seus atributos, deve ter ficado evidente para nós que Deus é, primeiramente, um Ser incompreensível, e, encantados e absortos ante a Sua grandeza infinita, vemo-nos constrangidos a adotar as palavras de Sofar: “Porventura alcançarás os caminhos de Deus ou chegarás à perfeição do Todo-poderoso? Como as alturas dos céus é a sua sabedoria; que poderás tu fazer? Mais profunda é ela do que o inferno; que poderás tu saber? Mais comprida é a sua medida do que a terra, e mais larga do que o mar” (Jó 11:7-9). Quando volvemos os nossos pensamentos para a eternidade de Deus,^ Sua imaterialidade, Sua onipresença, Sua onipotência, vemos que todas elas transcendem nossas mentes.
Mas a incompreensibilidade da natureza divina não é razão para desistirmos da pesquisa reverente e da luta em oração para apreender o que Ele de Si mesmo revelou por Sua graça em Sua Palavra. Dado que somos incapazes de adquirir conhecimento perfeito, seria insensato dizer que, portanto, não faremos nenhum esforço para conseguir qualquer proporção dEle. Com acerto se tem dito que “nada alargará tanto o intelecto, nada engrandecerá tanto a alma do homem, como uma investigação devota, zelosa e continuada do grande tema da Deidade. O mais excelente estudo para a expansão da alma é a ciência de Cristo, e Este crucificado, e o conhecimento do Ser divino na Trindade gloriosa” (C. H. Spurgeon). Para citar um pouco mais o príncipe dos pregadores:
“O estudo próprio do cristão é o da Deidade. A mais alta ciência, a mais elevada especulação, a mais vigorosa filosofia, com o poder de empolgar a atenção de um filho de Deus, é o nome, a natureza, a pessoa, os feitos e a existência do grande Deus, a Quem ele chama seu Pai. Na contemplação da Deidade há algo capaz de comunicar sumo progresso à mente. É um assunto tão vasto que todos os nossos pensamentos se perdem em sua imensidade; tão profundo que o nosso orgulho se submerge em sua infinidade. Outros assuntos podemos compreender e tentar assimilar; neles sentimos uma espécie de satisfação própria, e seguimos nosso caminho pensando: “Vejam como sou sábio!11 Mas quando chegamos a este assunto magistral, vendo que a nossa sonda não consegue sondar a sua profundidade e que o nosso olho de águia não consegue ver a sua altura, vamos embora pensando: “Eu sou de ontem apenas, e nada sei” (Sermão sobre Malaquias 3:6).
Sim, a incompreensibilidade da natureza divina deveria ensinar-nos humildade, cautela e reverência. Após todas as nossas pesquisas e meditações, temos que dizer com Jó: “Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos; e quão pouco é o que temos ouvido dele!…” (Jó 26:14). Quando Moisés implorou ao Senhor por uma visão da Sua glória, Ele respondeu-lhe: “. . . apregoarei o nome do Senhor diante de ti…” (Êxodo 33:19), e, como já se disse, “o nome é a coleção dos Seus atributos”. Acertadamente o puritano John Howe declarou: “Portanto, a noção que podemos formar da Sua glória é apenas como a que podemos ter de uma obra volumosa comparada com uma breve sinopse, ou de uma espaçosa região comparada com uma pequena vista panorâmica. Ele nos dá aqui um fiel relato de Si mesmo, mas não completo; o bastante para garantir — graças à orientação que por ele nos vem — que a nossa compreensão fique livre de erro, mas não de ignorância. Podemos aplicar as nossas mentes à contemplação das diversas perfeições pelas quais o Deus bendito nos revela o Seu ser, e em nossos pensamentos podemos atribuí-las todas a Ele, apesar de só termos ainda fraca e defeituosa concepção de cada uma delas. Todavia, na medida em que a nossa compreensão corresponda à revelação que Ele nos dá das Suas várias excelências, temos uma apropriada visão da Sua glória”.
Como é realmente grande a diferença entre o conhecimento de Deus que os Seus santos têm nesta vida e aquele que eles terão no céu! Contudo, como o primeiro não deve ser menosprezado por ser imperfeito, o último não deve ser engrandecido acima da realidade. Certo, as Escrituras declaram que então veremos “face a face” e conheceremos como somos conhecidos (1 Coríntios 13:12), mas inferir disto que conheceremos então a Deus tão completamente como Ele nos conhece é deixar-nos iludir pelos simples sons das palavras e não atentar para a restrição delas, restrição que o assunto exige necessariamente. Há uma imensa diferença entre serem glorificados os santos e serem eles divinizados. No seu estado glorificado, os cristãos continuarão sendo criaturas finitas, e, portanto, nunca serão capazes de compreender plenamente o Deus infinito.
“Os santos no céu verão a Deus com os olhos da mente, pois Ele sempre será invisível aos olhos do corpo; e O verão mais claramente do que poderiam vendo-O pela razão e pela fé, e mais extensamente que tudo que as Suas obras e dispensações dEle revelaram até então; mas as suas mentes não serão aumentadas a ponto de poderem contemplar de uma vez, ou minuciosamente, a excelência completa da Sua natureza. Para compreenderem a perfeição infinita, eles próprios teriam que se tornar infinitos.
Mesmo no céu, o seu conhecimento será parcial, mas ao mesmo tempo a sua felicidade será completa, porque o seu conhecimento será perfeito neste sentido: será adequado à capacidade do sujeito, sem todavia exaurir a plenitude do objeto. Cremos que será progressivo e que, à medida que se lhes amplie a visão, sua bem-aventurança aumentará; nunca, porém, chegará a um limite além do qual não haja mais nada para ser descoberto; e depois de se terem passado eras e mais eras, Ele continuará sendo o Deus incompreensível” (John Dick, 1840).
Segundo, um exame das perfeições de Deus mostrará que Ele é um Ser absolutamente suficiente. É-o em Si e para Si mesmo. Como o primeiro dos seres, Ele não precisa receber nada de outrem, nem pode ser limitado pelo poder de ninguém. Sendo infinito, possui todas as perfeições possíveis. Quando o Deus triúno existia totalmente só, Ele era tudo para Si próprio. Seu entendimento, Seu amor, Suas energias encontravam nEle mesmo um objeto adequado. Se tivesse necessidade de alguma coisa externa, não seria independente e, portanto, não seria Deus. Ele criou todas as coisas, e isso “para ele” (Colossenses 1:16); todavia, não para preencher alguma lacuna, mas para poder comunicar vida e felicidade a anjos e homens e permitir-lhes a visão da Sua glória. Ê certo que Ele exige a lealdade e os serviços de Suas criaturas dotadas de inteligência, mas não extrai benefício algum das suas funções; toda a vantagem redunda em favor delas mesmas: Jó 22:2-3. Ele faz uso de meios e instrumentos para realizar os Seus fins; não, porém, por deficiência de poder, mas muitas vezes para demonstrar mais extraordinariamente o Seu poder através da fragilidade dos instrumentos.
A absoluta suficiência de Deus faz dEle o objeto supremo, que sempre se há de buscar. A verdadeira felicidade consiste unicamente em fruir a Deus. Seu favor é vida, e Sua amorável bondade é mais que a vida. “A minha porção é o Senhor, diz a minha alma; portanto esperarei nele” (Lamentações 3:24). As nossas percepções do Seu amor, da Sua graça, da Sua glória, são os principais objetos do desejo dos santos e os mananciais da sua mais elevada satisfação. “Muitos dizem: quem nos mostrará o bem? Senhor, exalta sobre nós a luz do teu rosto. Puseste alegria. no meu coração, mais do que no tempo em que se multiplicaram o seu trigo e o seu vinho” (Salmo 4:6-7). Sim, o cristão, quando em são juízo, pode dizer: “Porquanto, ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas da malhada sejam arrebatadas, e nos currais não haja vacas: todavia eu me alegrarei no Senhor; exultarei no Deus da minha salvação” (Habacuque 3:17-18).
Terceiro, ao se fazer um exame das perfeições de Deus, vê-se que Ele é o Soberano Supremo do universo. Tem-se dito com acerto que, “Nenhum domínio é tão absoluto como o que se funda na criação. Aquele que bem podia não ter feito coisa alguma, tinha o direito de fazer todas as coisas de acordo com o Seu beneplácito. No exercício do Seu poder indomável, Ele fez algumas partes da criação simples matéria inanimada, de textura mais grosseira ou mais refinada, e distinguida por qualidades diferentes, mas sempre matéria inerte e inconsciente. Ele deu organização a outras partes, e as fez suscetíveis de crescimento e expansão, mas ainda destituídas de vida no sentido próprio do termo. A outras não só deu organização, mas também vida consciente, os órgãos dos sentidos, e energia para auto-motivação. A estas Ele acrescentou, no homem, o dom da razão e um espírito imortal, pelos quais o homem se junta a uma ordem mais elevada de seres localizados nas regiões superiores. Sobre o mundo que criou, Ele empunha o cetro da onipotência. “… eu bendisse o Altíssimo, e louvei, e glorifiquei ao que vive para sempre, cujo domínio é um domínio sempiterno, e cujo reino é de geração em geração. E todos os moradores da terra são reputados em nada; e segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra: não há quem possa estorvar a sua mão e lhe diga: Que fazes? — Daniel 4:34-35″ (John Dick).
Uma criatura, como tal considerada, não tem direitos. Nada pode exigir do seu Criador; e, seja qual for a maneira como é tratada, não lhe compete queixar-se. Contudo, quando pensamos no absoluto domínio de Deus sobre todas as coisas e sobre todos os seres, não devemos perder de vista as Suas perfeições morais. Deus é justo e bom, e sempre faz o que é reto. Não obstante, Ele exerce o Seu domínio de acordo com o beneplácito da Sua vontade soberana e justa. Atribui a cada criatura o lugar que aos Seus olhos parece bom. Ordena as diferentes circunstâncias relacionadas com cada criatura de acordo com os Seus conselhos.
Modela cada vaso segundo a Sua determinação independente de toda e qualquer influência. Tem misericórdia de quem Ele quer ter misericórdia, e endurece a quem Lhe apraz. Onde quer que estejamos, Seus olhos estão sobre nós. Quem quer que sejamos, nossa vida e tudo mais está à disposição dEle. Para o cristão, Ele é um Pai amoroso e gentil; para o pecador rebelde, Ele continuará sendo fogo consumidor. “Ora ao Rei dos séculos, imortal, invisível, ao único Deus seja honra e glória para todo o sempre. Amém” (1 Timóteo 1:17).
Editora: Bible Truth Depot
Tradução do Inglês: Odayr Olivetti
Primeira Edição em Português:1985
Reimpressão: 1990
Capa: Ailton Oliveira Lopes
Composição: Intertexto Linotipadora S/C Ltda.
Impressão: Imprensa da Fé
04.06.2010
Adventistas do 7º Dia, CATOLICISMO, Congregação Cristã no Brasil, Cultura, Devocionais, Ecumenismo, Espiritismo, Evangélicos, G 12, História da Igreja, John Piper, Mórmons, Mensagens, Mundo Gospel, TEMÁTICAS, Testemunhas de Geová, Trindade, Unicistas 1 Comentário
Veja Também:A doutrina da Trindade é fundamental para a fé cristã. Ela é crucial para um apropriado entendimento de como Deus é, como Ele se relaciona conosco e como devemos nos relacionar com Ele. Mas ela também levanta muitas questões difíceis. Como Deus pode ser um e três ao mesmo tempo? A Trindade é uma contradição? Se Jesus é Deus, por que os Evangelhos registraram ocasiões nas quais Ele orou a Deus?Apesar de não podermos entender completamente tudo sobre a Trindade (ou sobre qualquer outra coisa), é possível responder questões como essas e chegar a uma sólida compreensão do que significa ser Deus três em um.
A doutrina da Trindade significa que há um Deus que existe eternamente como três pessoas distintas: Pai, Filho e Espírito Santo. Explicando de outra maneira, Deus é único em essência e triplo em personalidade. Essas definições expressam três verdades cruciais: (1) Pai, Filho e Espírito Santo são pessoas distintas, (2) cada pessoa é totalmente Deus, (3) há somente um Deus.
Pai, Filho e Espírito Santo são pessoas distintas.
A Bíblia fala do Pai como Deus (Fp.1.2), de Jesus como Deus (Tt.2.13) e do Espírito Santo como Deus (At.5.3-4). Seriam essas, então, apenas três diferentes formas de olhar para Deus? Ou ainda, três papéis distintos que Deus desempenha?
A resposta deve ser não, porque a Bíblia também indica que Pai, Filho e Espírito Santo são pessoas distintas. Por exemplo, já que o Pai enviou o Filho ao mundo (Jo.3.16), Ele não pode ser a mesma pessoa que o Filho. Do mesmo modo, depois que o Filho retornou ao Pai (Jo.16.10), o Pai e o Filho enviaram o Espírito Santo ao mundo (Jo.14.26; At.2.33). Portanto, o Espírito Santo deve ser distinto do Pai e do Filho.
No batismo de Jesus, vemos o Pai falando dos céus e o Espírito descendo dos céus na forma de uma pomba, enquanto Jesus saia das águas (Mc.1.10-11). João 1.1 afirma que Jesus é Deus e, ao mesmo tempo, que Ele estava “com Deus”, indicando, assim, que Jesus é uma pessoa distinta de Deus o Pai (cf. Jo.1.18). E em João 16.13-15 vemos que, apesar de haver uma íntima unidade entre todos eles, o Espírito Santo também é distinto do Pai e do Filho.
O fato de Pai, Filho e Espírito Santo serem pessoas distintas significa, em outras palavras, que o Pai não é o Filho, o Filho não é o Espírito Santo e o Espírito Santo não é o Pai. Jesus é Deus, mas Ele não é o Pai nem o Espírito Santo. O Espírito Santo é Deus, mas Ele não é o Filho nem o Pai. Eles são pessoas diferentes, não três diferentes formas de olhar para Deus.
A personalidade de cada membro da Trindade significa que cada pessoa tem um distinto centro de consciência. Assim, elas relacionam-se umas com as outras pessoalmente: o Pai trata a Si mesmo como “Eu”, enquanto Ele trata ao Filho e ao Espírito Santo como “Vós”. Do mesmo modo, o Filho trata a Si mesmo como “Eu”, mas ao Pai e ao Espírito Santo como “Vós”.
Freqüentemente é objetado que “Se Jesus é Deus, então Ele deve ter orado a Si mesmo enquanto esteve na terra”. Mas a resposta a essa objeção encontra-se em simplesmente aplicar o que nós já vimos. Embora Jesus e o Pai sejam Deus, eles são pessoas diferentes. Assim, Jesus orou a Deus o Pai sem orar a Si mesmo. Na verdade, é precisamente o contínuo diálogo entre o Pai e o Filho (Mt.3.17; 17.5; Jo.5.19; 11.41-42; 17.1ss) que fornece a melhor evidência de que eles são pessoas distintas com distintos centros de consciência.
Algumas vezes a personalidade do Pai e do Filho é estimada, mas a personalidade do Espírito Santo é negligenciada, de modo que Ele é tratado mais como uma “força” do que como uma pessoa. Mas o Espírito Santo não é algo, mas Alguém (veja Jo.14.26; 16.7-15; At.8.16). A verdade de que o Espírito Santo é uma pessoa, não uma força impessoal (como a gravidade), também é mostrada pelo fato de que Ele fala (Hb.3.7), raciocina (At.15.28), pensa e compreende (I Co.2.10-11), deseja (I Co.12.11), sente (Ef.4.30) e oferece comunhão pessoal (II Co.13.14). Todas essas são qualidades de uma pessoa. Além desses textos, os outros que mencionamos acima deixam claro que a personalidade do Espírito Santo é distinta da personalidade do Filho e do Pai. Eles são três pessoas reais, não três papéis que Deus desempenha.
Outro erro sério que as pessoas têm cometido é pensar que o Pai se tornou o Filho, que, então, se tornou o Espírito Santo. Contrariamente a isso, as passagens que vimos sugerem que Deus sempre foi e sempre será três pessoas. Nunca houve um tempo em que alguma das pessoas da Divindade não existia. Todas elas são eternas.
Embora os três membros da Trindade sejam distintos, isso não significa que um seja inferior ao outro. Pelo contrário, todos eles são idênticos em atributos, tais como poder, amor, misericórdia, justiça, santidade, conhecimento e em todas as demais qualidades divinas.
Cada pessoa é totalmente Deus.
Se Deus é três pessoas, isso significa que cada pessoa é “um terço” de Deus? A Trindade significa que Deus é dividido em três partes?
Não, a Trindade não divide Deus em três partes. A Bíblia deixa claro que cada uma das três pessoas é cem por cento Deus. Pai, Filho e Espírito Santo são totalmente Deus. Por exemplo, é dito de Cristo que “nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade” (Cl.2.9). Não devemos pensar em Deus como uma torta cortada em três pedaços, cada um deles representando uma pessoa. Isso faria cada pessoa ser menos do que totalmente Deus e, assim, não ser realmente Deus. Antes, “o ser de cada pessoa é igual ao ser integral de Deus”[1]. A essência divina não é algo dividido entre as três pessoas, mas está totalmente em todas as três pessoas sem estar dividida em “partes”.
Assim, o Filho não é um terço do ser de Deus, Ele é todo o ser de Deus. O Pai não é um terço do ser de Deus, Ele é todo o ser de Deus. E, da mesma forma, o Espírito Santo. Assim, como Wayne Grudem escreve: “Quando falamos conjuntamente do Pai, do Filho e do Espírito Santo, não estamos falando de um ser maior do que quando falamos somente do Pai, ou somente do Filho, ou somente do Espírito Santo”[2].
Há somente um Deus.
Se cada pessoa da Trindade é distinta e, ainda assim, totalmente Deus, então, devemos concluir que há mais do que um Deus? Obviamente não, pois a Escritura deixa claro que há apenas um Deus: “Pois não há outro Deus, senão eu, Deus justo e Salvador não há além de mim. Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro” (Is.45.21-22; veja também 44.6-8; Ex.15.11; Dt.4.35; 6.4-5; 32.39; I Sm.2.2; I Rs.8.60).
Tendo visto que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são pessoas distintas, que cada um deles é totalmente Deus e que não há senão um só Deus, devemos concluir que todas as três pessoas são o mesmo Deus. Em outras palavras, há um Deus que existe como três pessoas distintas.
Se há uma passagem que mais claramente traz tudo isso em conjunto, ela é Mateus 28.19: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. Primeiro, note que Pai, Filho e Espírito Santo são distinguidos como pessoas distintas. Nós batizamos em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Segundo, note que cada pessoa deve ser divina porque todas elas são colocadas no mesmo nível. Na verdade, você acha que Jesus nos batizaria no nome de uma mera criatura? Certamente que não. Portanto, cada uma das pessoas em cujo nome devemos ser batizados é, necessariamente, divina. Terceiro, note que, apesar de que as três pessoas divinas são distintas, nós somos batizados em seu nome (singular), não em seus nomes (plural). As três pessoas são distintas, mas constituem um único nome. Só pode ser assim se elas compartilharem uma mesma essência.
Notas:
1. Wayne Grudem, Teologia Sistemática (Edições Vida Nova, 1999), p.189.
2. Ibid, p.187
A doutrina da Trindade é fundamental para a fé cristã. Ela é crucial para um apropriado entendimento de como Deus é, como Ele se relaciona conosco e como devemos nos relacionar com Ele. Mas ela também levanta muitas questões difíceis. Como Deus pode ser um e três ao mesmo tempo? A Trindade é uma contradição? Se Jesus é Deus, por que os Evangelhos registraram ocasiões nas quais Ele orou a Deus?Apesar de não podermos entender completamente tudo sobre a Trindade (ou sobre qualquer outra coisa), é possível responder questões como essas e chegar a uma sólida compreensão do que significa ser Deus três em um.
Essa pergunta leva-nos a investigar mais de perto uma definição muito útil da Trindade que eu mencionei anteriormente: Deus é único em essência, mas triplo em personalidade. Essa formulação pode nos mostrar por que não há três deuses e por que a Trindade não é uma contradição.
Para que alguma coisa seja contraditória, ela deve violar a lei da não-contradição. Esta lei afirma que A não pode ser A (é) e não-A (não é) ao mesmo tempo e no mesmo sentido. Em outras palavras, você se contradiz quando afirma e nega a mesma sentença. Por exemplo, se eu digo que a Lua é feita inteiramente de queijo, mas, então, também digo que a Lua não é feita inteiramente de queijo, estou me contradizendo.
Algumas afirmações podem parecer contraditórias à princípio, mas não o são realmente. O teólogo R.C. Sproul cita como exemplo uma famosa afirmação de Dickens: “Esse foi o melhor dos tempos, esse foi o pior dos tempos”. Obviamente isso é uma contradição se Dickens está dizendo que esse foi o melhor dos tempos no mesmo sentido em que esse foi o pior dos tempos. Porém, essa afirmação não é contraditória, porque ele está dizendo que em um sentido esse foi o melhor dos tempos, mas em outro sentido esse foi o pior dos tempos.
Levando esse conceito à Trindade, não é uma contradição para Deus ser tanto três quanto um porque Ele não é três e um no mesmo sentido. Ele é três num sentido diferente do qual Ele é um. Assim, não estamos falando com uma linguagem dobre. Não estamos dizendo que Deus é um e, então, negando que Ele é um ao dizer que Ele é três. Isto é muito importante: Deus é um e três ao mesmo tempo, mas não no mesmo sentido.
Como Deus é um? Ele é um em essência. Como Deus é três? Ele é três em personalidade. Essência e personalidade não são a mesma coisa. Deus é um em certo sentido (essência) e três em um sentido diferente (personalidade). Já que Deus é um em um sentido diferente do qual Ele é três, a Trindade não é uma contradição. Só haveria contradição se disséssemos que Deus é três no mesmo sentido em que Ele é um.
Então, uma olhada mais de perto para o fato de que Deus é único em essência, mas triplo em personalidade, foi útil para mostrar por que a Trindade não é uma contradição. Mas como isso nos mostra que há apenas um Deus e não três? Muito simples: Todas as três pessoas são um Deus porque, como vimos acima, todas elas são a mesma essência. Essência significa a mesma coisa que “ser”. Assim, já que Deus é uma única essência, Ele é um único ser, não três. Isso torna mais claro por que é tão importante entender que todas as três pessoas são a mesma essência. Pois se nós negamos isso, estamos negando a unidade de Deus e afirmando que há mais do que um ser de Deus (ou seja, há mais do que um Deus).
O que vimos até agora provê um entendimento básico da Trindade. Mas é possível aprofundar-nos mais. Se pudermos entender mais precisamente o significado de essência e personalidade, como esses dois termos diferem e como se relacionam, teremos um mais completo entendimento da Trindade.
Essência e Personalidade
Essência.
O que essência significa? Como eu disse anteriormente, significa o mesmo que ser. A essência de Deus é o Seu ser. Para ser mais preciso, essência é aquilo que você é. Sob o risco de soar muito físico, essência pode ser entendida como o “material” do qual você “consiste”. Certamente estamos falando por analogia aqui, pois não podemos entender essência de uma forma física em relação a Deus. “Deus é espírito” (Jo.4.24). Além disso, claramente não devemos pensar em Deus “consistindo” de outra coisa além da divindade. A “substância” de Deus é Deus, não um monte de “ingredientes” que misturados produzem a divindade.
Personalidade.
Em relação à Trindade, nós usamos o termo “pessoa” diferentemente do que usamos no dia-a-dia. Portanto, geralmente é difícil ter uma definição concreta de pessoa quando usamos esse termo em relação à Trindade. Por “pessoa” não queremos dizer um “indivíduo independente”, assim como eu e outro ser humano somos independentes e existimos separados um do outro. Por “pessoa” queremos dizer alguém que se trata como “eu” e aos outros como “vós”. Então, o Pai, por exemplo, é uma pessoa diferente do Filho porque Ele trata ao Filho como “Tu”, apesar de Se tratar como “Eu”. Assim, em relação à Trindade, podemos dizer que “pessoa” significa um sujeito distinto que Se trata como “Eu” e aos outros dois como “Vós”. Esses sujeitos distintos não são uma divisão no ser de Deus, mas “uma forma de existência pessoal que não é uma diferença no ser”[3].
Como elas se relacionam?
O relacionamento entre essência e personalidade, então, é como segue. Na unidade de Deus, o ser indiviso é um “desdobramento” em três distinções pessoais. Essas distinções pessoais são modos de existência no ser divino, mas não são divisões do ser divino. Elas são formas pessoais de existência e não uma diferença no ser. O antigo teólogo Herman Bavinck declarou algo muito útil sobre isso: “As pessoas são modos de existência no ser; conseqüentemente, as pessoas diferem entre si como um modo de existência difere de outro, e – usando uma ilustração comum – como a palma aberta difere do punho fechado”[4]. Já que cada uma dessas “formas de existência” são relacionais (e assim são pessoas), cada uma delas é um distinto centro de consciência, cada um deles Se tratando como “Eu” e aos outros como “Vós”. Porém, todas essas três pessoas “consistem” da mesma “matéria” (ou seja, o mesmo “o que”, ou essência). Como o teólogo e apologista Norman Geisler explicou, enquanto essência é “o que” você é, pessoa é “quem” você é. Então, Deus é um “o que”, mas três “quem”.
Assim, a essência divina não é algo que existe “acima” ou “separada” das três pessoas, mas a essência divina é o ser das três pessoas. Não devemos pensar nas pessoas como seres definidos por atributos acrescentados ao ser de Deus. Wayne Grudem explica:
“Mas se cada pessoa é plenamente Deus e tem todo o ser divino, então tampouco devemos pensar que as distinções pessoais são alguma espécie de atributos acrescentados ao ser divino… Em vez disso, cada pessoa da Trindade tem todos os atributos de Deus, e nenhuma das pessoas tem algum atributo que não seja também possuído pelas outras. Por outro lado, precisamos dizer que as pessoas são reais, que não são apenas modos diferentes de enxergar o ser único de Deus… a única maneira de fazê-lo é dizer que a distinção entre as pessoas não é uma diferença no “ser”, mas sim uma diferença de “relações”. Trata-se de algo bem distante da nossa experiência humana, na qual cada “pessoa” distinta é também um ser distinto. De algum modo o ser divino é tão maior que o nosso que dentro do seu ser único e indiviso pode haver um desdobramento em relações interpessoais, de forma tal que existam três pessoas distintas”.[5]
Ilustrações Trinitárias?
Há muitas ilustrações que têm sido oferecidas para nos ajudar a entender a Trindade. Embora existam algumas ilustrações úteis, devemos reconhecer que nenhuma ilustração é perfeita. Infelizmente, há muitas ilustrações que não são apenas imperfeitas, mas erradas. Uma ilustração com a qual devemos tomar cuidado diz: “Eu sou uma pessoa, mas também sou um estudante, um filho e um irmão. Isso explica como Deus pode ser tanto um quanto três”. O problema com essa ilustração é que ela reflete uma heresia chamada modalismo. Deus não é uma pessoa que desempenha três diferentes papéis, como essa ilustração sugere. Ele é um Ser em três pessoas (centros de consciência), não simplesmente três papéis. Essa analogia ignora as distinções pessoais em Deus e as transforma em meros papéis.
Resumo
Vamos revisar rapidamente o que vimos.
1. A Trindade não é uma crença em três deuses. Há um único Deus e nós nunca devemos desviar-nos disso.
2. Esse único Deus existe como três pessoas.
3. As três pessoas não são partes de Deus, mas cada uma delas é total e igualmente Deus. No ser único e indiviso de Deus há um desdobramento em três relações interpessoais, de forma tal que existam três pessoas. As distinções na Divindade não são distinções de Sua essência, nem são acréscimos à Sua essência, mas são o desdobramento da unidade de Deus, do ser indiviso, em três relacionamentos interpessoais, de modo que há três pessoas reais.
4. Deus não é uma pessoa que assume três papéis consecutivos. Essa é a heresia do modalismo. O Pai não se tornou o Filho e, então, o Espírito Santo. Pelo contrário, sempre houve e sempre haverá três pessoas distintas na Divindade.
5. A Trindade não é uma contradição porque Deus não é três no mesmo sentido em que Ele é um. Deus é um em essência e três em personalidade.
Aplicação
A Trindade é extremamente importante porque Deus é importante. Conhecer mais completamente a Deus é uma forma de honrá-Lo. Além disso, devemos admitir o fato de que Deus é triuno para aprofundar nossa adoração. Nós existimos para adorar a Deus. E Deus busca pessoas que O adorem “em espírito e em verdade” (Jo.4.24). Portanto, devemos sempre empenhar-nos em aprofundar nossa adoração a Deus, tanto em verdade quanto em nosso coração.
A Trindade tem uma aplicação muito importante na oração. O padrão geral de oração na Bíblia é orar ao Pai através do Filho e no Espírito Santo (Ef.2.18). Nossa comunhão com Deus deve ser reforçada por um conhecimento consciente de que estamos nos relacionando com um Deus tri-pessoal.
A conscientização dos papéis distintos que cada pessoa da Trindade tem em nossa salvação pode servir especialmente para nos dar grande conforto e apreciação por Deus em nossas orações, assim como nos ajudar a ser específicos ao dirigi-las a Deus. Porém, apesar de reconhecer os papéis distintos de cada pessoa, nunca devemos pensar nesses papéis de forma tão separada que as outras pessoas não estejam envolvidas. Pelo contrário, em tudo que uma pessoa está envolvida, as outras duas também estão envolvidas, de uma forma ou de outra.
Notas
3. Wayne Grudem, Teologia Sistemática (Edições Vida Nova, 1999), p.189. Apesar de eu crer que essa é uma definição útil, deve ser reconhecido que o próprio Grudem está oferecendo-a mais como uma explanação do que como uma definição de pessoa.
4. Herman Bavinck, The Doctrine of God, (Great Britain: The Banner of Truth Trust, 1991 edition), p. 303.
5. Grudem, p.187-188.
Recursos adicionais
Agostinho, A Trindade
Herman Bavinck, The Doctrine of God, p. 255-334
Edward Bickersteth, The Trinity
Wayne Grudem, Teologia Sistemática, capítulo 14
Donald Macleod, Shared Life: The Trinity and the Fellowship of God’s People
R.C. Sproul, O Mistério do Espírito Santo
R.C. Sproul , Verdades Essenciais da Fé Cristã
J.I. Packer, O Conhecimento de Deus
John Piper, The Pleasures of God, chapter 1
James White, The Forgotten Trinity
Por John Piper. © Desiring God. Website:desiringGod.org
Original: What is the doctrine of the Trinity?
Tradução e Revisão: André Aloísio e Davi Luan do blog Teologia e VidaPermissões: Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que adicione as informações acima e o link deste blog, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.
Blog: Voltemos ao Evangelho.
04.06.2010
Charles Spurgeon, Devocionais, Mensagens, Sermões - Pregações 2 Comentários
” Mas não quereis vir a mim para terdes vida” João 5:40
Este texto é usado pelos arminianos como uma das suas grandes armas e freqüentemente descarregada com um barulho terrível contra os pobres cristãos chamados calvinistas. Nesta manhã eu pretendo apontar a arma, ou melhor, vira-la contra os inimigos, porque ela nunca pertenceu a eles: jamais foi fabricada na forja deles. Pelo contrario, este texto intenciona ensinar a doutrina exatamente oposta àquela que eles sustentam.
Geralmente quando o texto é empregado, ele é dividido desta forma: primeiro, o homem tem uma vontade. Segundo, ele é inteiramente livre. Terceiro, os homens tem que querer por sua própria vontade vir a Cristo, de outra maneira eles não serão salvos. Ora, nós não utilizaremos tais divisões, mas nós empenharemos em dar uma olhada no texto com mais precaução: e não porque existam nele as palavras “querer” ou “não querer”, chegaremos à conclusão de que ele ensina a doutrina do livre-arbítrio.
LIVRE-ARBÍTRIO É SIMPLESMENTE RIDÍCULO
Já foi provado além de toda controvérsia que o livre-arbítrio é uma tolice. A liberdade não pode pertencer ao arbítrio como a ponderação não pode pertencer é eletricidade. Elas são coisas completamente diferentes Podemos crer em agente livre; porém o livre-arbítrio é simplesmente ridículo. É bem conhecido de todos que a vontade é dirigida pelo entendimento, movida por motivos, conduzida por outros componentes da alma e considerada como algo secundário.
Tanto a filosofia como a religião, descartam de uma vez a idéia de livre-arbítrio; e eu vou tão longe quanto Marinho Lutero, em sua forte afirmação, onde ele diz:”se algum homem, de alguma maneira, atribuir a salvação ao livre-arbítrio do homem – mesmo a íntima parte – nada sabe sobre a graça e não conheceu Jesus Cristo corretamente”. Pode parecer uma declaração severa; todavia, aquele que em sua alma crê que o homem faz o seu próprio livre-arbítrio voltar-se para Deus, não pode ter sido instruído por Deus, pois esse é um dos primeiros princípios que nos é ensinado quando Deus começa Sua obra em nós: não temos nem vontade nem poder, posto que Ele concede ambos; porquanto Ele é “o Alfa e o Ômega” na salvação do homem.
Sumário
Neste sermão nossos quatro pontos principais serão – Primeiro, todo homem está morto porque o texto diz: “mas não quereis vir a mim para terdes vida”. Segundo, Há vida em Jesus Cristo – “…não quereis vir a mim para terdes vida”. Terceiro, Há vida em Cristo Jesus para todo aquele que vem recebê-la” (…) “não quereis vir a mim para terdes vida”. Isso implica em que todos que vão, terão vida. Quarto e o sentido do texto é: ninguém por si mesmo jamais virá a Cristo, pois o texto diz: “…não quereis vir a mim para terdes vida”. Portanto, longe de afirmar que os homens por suas próprias vontades fariam tal coisa, o versículo nega-o categoricamente e diz: “NÃO QUEREIS vir a mim para terdes vida”. Ora, amados, estou quase pronto a exclamar: será que os defensores do livre-arbítrio tem tão pouco conhecimento a ponto de desafiar a doutrina da inspiração? Estão destituídos de senso todos aqueles que negam a doutrina da graça? Tem se afastado tanto de Deus que torcem isto para provar o livre-arbítrio onde o texto diz: “… NÃO QUEREIS vir a mim para terdes vida”?
NÃO HÁ VIDA NA MORTE
1. Primeiramente, então, nosso texto implica em que OS HOMENS POR NATUREZA ESTÃO MORTOS. Ninguém precisa ir à procura da vida se já tem vida em si mesmo. O texto fala muito fortemente quando declara: “…não quereis vir a mim para terdes vida”. Apesar de não dizê-lo explicitamente, ele afirma, com efeito. que os homens precisam de uma vida que não tem em si mesmos. Meus ouvintes, nós todos estamos mortos, a não ser que tenhamos sido gerados para uma viva esperança.
MORTE LEGAL – CONDENAÇÃO
Todos nós estamos, por natureza, legalmente mortos: “no dia que dela comeres, certamente morrerás” disse Deus a Adão: embora ele não tenha morrido fisicamente naquele momento ele morreu legalmente: isto quer dizer que a morte foi decretada contra ele. Tão logo como no OId Bailey, o juiz veste a capa preta e pronuncia a sentença, o homem é considerado morto pela lei. Talvez possa passar um mês antes dele ser trazido ao patíbulo para sofrer a sentença da lei, no entanto, a lei o considera um homem morto. E lhe impossível fazer qualquer transação. Ele não pode herdar, nem legar seus bens: ele não é nada é um homem morto. O país, de maneira alguma, o considera como vivo. Há uma eleição – não lhe é pedido seu voto porque ele é considerado legalmente morto. Ele está trancado em sua cela de condenação e está morto. Ah, e vocês pecadores sem Deus, que nunca tiveram vida em Cristo, estão vivos nesta manhã, por adiamento, mas, será que não sabem que estão legalmente mortos: que Deus os considera como tais, que no dia que seu pai Adão comeu o fruto, e vocês próprios pecaram, Deus, o eterno Juiz, colocou sobre Si o gorro preto e os condenou? Vocês falam poderosamente de sua própria posição, bondade e moralidade: onde estão elas? As Escrituras dizem que vocês “já estão condenados”. Não tem que esperar para serem condenados no dia do juízo final; ali será a execução da sentença estão condenados. No momento que pecaram, seus nomes foram escritos no livro negro da justiça: todos foram então sentenciados por Deus à morte, a não ser que tenham encontrado um substituto pelos seus pecados. na pessoa de Cristo.
O que pensariam se fossem à prisão e vissem o condenado sentado, rindo e feliz? Vocês diriam: “o homem é um tolo, pois ele está condenado e será executado: no entanto, quão alegre ele está”. Ah, e quão tolo é o homem mundano que, enquanto a sentença está sendo registrada contra ele, vive em divertimento e alegria! Vocês pensam que a sentença de Deus é sem efeito? Pensam que seu pecado que está gravado com ponteiro de aço nas rochas para sempre é isento de horrores? Deus disse que vocês já estão condenados. Se pudessem tão somente sentir isto, o amargor encheria as suas doces taças de gozo: suas danças parariam. O riso se extinguiria com um suspiro, se lembrassem de que já estão condenados. Todos nós deveríamos chorar, se compreendêssemos seriamente que por natureza não temos vida aos olhos de Deus. Estamos realmente condenados: a morte está decretada contra nós, e somos considerados aos olhos de Deus agora tão mortos como se já estivéssemos lançados no inferno: somos condenados agora pelo pecado, embora ainda não estejamos sofrendo a penalidade, porém, ela está escrita contra nós. Por isso estamos legalmente mortos. Não podemos encontrar vida, a não ser que encontremos vida legal na pessoa de Cristo.
MORTE ESPIRITUAL – CADÁVER CAMINHANDO
Mas, além de estarmos legalmente mortos, estamos também espiritualmente mortos. Isso porque a sentença não somente foi lavrada no livro, mas também no coração e entrou na consciência, operou na alma, no julgamento, na imaginação e em tudo: “…porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás”, não somente foi cumprido pela sentença decretada, mas por algo que aconteceu em Adão. Assim como num dado momento futuro, quando este corpo morrer, o sangue parará, o pulso cessará e a respiração não virá mais pelos pulmões, assim também no dia em que Adão comeu do fruto, sua alma morreu: sua imaginação perdeu seu poder de ascender às coisas celestiais e ver o céu, sua vontade perdeu para sempre seu poder de escolher aquilo que é bom, seu julgamento perdeu toda a sua habilidade de julgar entre o certo e o errado decidida e infalivelmente, ainda assim algo foi retido na consciência: sua memória tomou-se corrompida, propensa a reter coisas pecaminosas, e a deixar as coisas virtuosas deslizarem para longe todo poder que ele tinha cessou quanto a sua vitalidade moral. A bondade era a vitalidade do seu poder – isso se foi. Virtude, santidade, integridade: estas eram a vida do homem, e quando elas se foram o homem tornou-se morto. E agora, todo homem, no que concerne as coisas espirituais, “está morto em delitos e pecados”. A alma não esta menos morta num homem carnal do que o corpo quando depositado no túmulo: ela esta real e positivamente morta – não se trata de uma metáfora, pois Paulo não fala por metáforas quando afirma: “Ele vos vivificou estando vós mortos nos vossos delitos e pecados”.
Mas, meus ouvintes, oxalá eu pudesse pregar tudo aos seus corações a respeito deste assunto. Foi suficientemente ruim quando eu descrevi a morte como tendo sido decretada: porém, agora eu falo disso, como tendo de fato acontecido nos seus corações. Vocês não são o que eram antes: não são o que eram em Adão, nem o que foram gerados. O homem foi criado puro e santo. Vocês não são as criaturas perfeitas das quais alguns se gloriam, todos são totalmente caídos, todos se desviaram do caminho, tomando-se corruptos e sujos. Oh, não ouçam o canto da sereia daqueles que falam da dignidade moral e do elevado estado de vocês no tocante a salvação. Vocês não são perfeitos: a palavra tão forte – “ruína” – está escrito em seus corações: e a morte está selada em seus espíritos.
Não imagine, ó homem moral. que poderá ficar de pé diante de Deus em sua moralidade, pois você não é mais do que uma carcaça embalsamada em legalismo, um defunto enfeitado em finas roupas, porém ainda corrupto na presença de Deus. E não pense, o possuidor de religião natural, que poderá pelo seu poder e forca fazer-se aceitável a Deus. Ó homem, você esta morto e poderá vestir a morte tão gloriosamente como quiser porém, ainda assim, isso seria uma farsa solene. Ali está a rainha Cleópatra – coloque sobre a sua cabeça a coroa vista-a com mantos reais, deixe-a sentar com pompa: mas, que calafrio você sente quando passa por ela. Hoje ela é bela, até na sua morte – mas quão terrível e ficar em pé junto desse corpo, mesmo que seja de uma rainha morta, tão celebre pela sua majestosa beleza! Portanto, você poderá ser glorioso em sua beleza, agradável, maravilhoso e bondoso! Você coloca a coroa de honestidade sobre a sua cabeça. Usando todas as vestes de honra, mas a não ser que Deus o tenha vivificado, o homem, a não ser que o Espírito tenha tratado com a sua alma, você é tão detestável aos olhos de Deus como o corpo frio lhe é repugnante. Você não escolheria viver com um morto assentado a sua mesa. E Deus não tem prazer em que você esteja diante de seus olhos. Ele Se ira com você todos os dias, pois esta em pecado – está morto. Oh. creia nisso, leve-o a serio! Aproprie-se disso, pois é bem verdade que está morto, tanto espiritualmente como legalmente.
MORTE ETERNA NO INFERNO
O terceiro tipo de morte é a consumação dos outros dois. É a morte eterna. É a execução da sentença legal; e a consumação da morte espiritual. A morte eterna e a morte da alma; isto acontece depois da morte física, após a alma ter saído do corpo. Se a morte legal e terrível e por causa das suas conseqüências; e se a morte espiritual e horrível, e por causa daquilo que acontecerá depois. As duas mortes da qual falamos são as raízes, mas a morte que advirá é a arvore em plena frutificação!
Oh, se eu tivesse palavras para descrever a você neste momento o que é a morte eterna. A alma compareceu diante do seu Criador; o livro foi aberto; a sentença foi declarada: ” apartai-vos malditos”. O universo foi sacudido, e tomou as próprias galáxias obscurecidas com a desaprovação do Criador; a alma se foi as profundezas onde habitara com outras na morte eterna. Oh quão terrível e a sua posição agora. Seu leito é um leito de chamas: as visões que ela tem são horrendas horripilam-na; os sons que ouve são gritos, lamentações choros, e grunhidos; tudo que o seu corpo conhece é a imposição de dores lancinantes! Ele tem o inexprimível infortúnio da miséria não mitigada. A alma olha para baixo com medo e pavor; o remorso toma posse dela. Ela olha para sua direita. e as paredes inflexíveis da ruína a mantém dentro dos limites da tortura. Olha para sua esquerda, e ali o baluarte de fogo ardente impede a escalada de qualquer imaginado escape. Olha para dentro de si e ali procura por consolação, mas um verme torturante já penetrou nela. Ela olha em volta não tem amigos que a ajudem, nem consoladores, e sim atormentadores em abundância. Não conhece a esperança da libertação; já ouviu o eterno ferrolho do destino fechando a porta da terrível prisão, e viu Deus tomar a chave e jogá-la nas profundezas da eternidade para nunca mais ser achada. Sem esperança, desconhece escape, não conjectura libertação; suspira pelo fim, mas a morte é por demais um adversário para ali estar; deseja ardentemente que a não existência a possa tragar, mas esta morte eterna é pior do que o aniquilamento. Anseia pelo extermínio como trabalhador pelo seu dia de descanso; deseja profundamente que possa ser engolida pelo nada, assim como o escravo da galé deseja sua liberdade qual nunca chega. Está eternamente morta. Quando a eternidade tiver dado incontáveis voltas a alma perdida ainda estará morta. “Para todo o sempre” não conhecerá fim; a eternidade não pode ser soletrada a não ser na eternidade. No entanto, a alma vê assento sobre a sua cabeça; és maldita para sempre”. Ela ouve gritos que serio perpétuos; as chamas que são inextinguíveis; conhece dores que não terão alivio; ouve uma sentença que não ruge como um trovão da terra que logo cessa porém, continua sempre e sempre, retinindo os ecos da eternidade – fazendo milhares de anos tremer outra vez com o terrível estrondo do seu pavoroso ruído; “Apartai! Apartai! Apartai malditos”! Isto é na verdade a morte eterna.
VIDA EM CRISTO
2. Em segundo lugar HÁ VIDA EM CRISTO JESUS, pois Ele diz: “mas não quereis vir a mim para terdes vida”. Não há vida em Deus pai para o pecador; não há vida em Deus Espírito para o pecador longe de Jesus. A vida do pecador está em Cristo. Se vocês tomarem o Pai a parte do Filho, apesar de amar Seus eleitos e decretar que eles viverão, no entanto, a vida só está em seu Filho. Se tomarem Deus Espírito a parte de Jesus Cristo, apesar de ser o Espírito que nos dá vida, espiritual, contudo a vida está em Cristo, a vida esta no Filho. Não nos atrevemos, não podemos requerer vida espiritual em primeiro lugar, nem de Deus Pai, ou de Deus Espírito Santo. A primeira coisa que somos levados a fazer quando Deus nos tira do Egito e comer a Páscoa – a primeiríssima coisa.
Os primeiros meios pelos quais recebemos vida consiste em nos alimentar da carne e do sangue do Filho de Deus: vivendo nEle, confiando nEle, acreditando na Sua graça e poder.
O pensamento que estamos desenvolvendo e: há vida em Cristo Jesus. Quero mostrar-lhes que há três tipos de vida em Cristo, assim como há três tipos de morte em conseqüência do pecado.
VIDA LEGAL – SEM CONDENAÇÃO
Primeiro existe vida legal em Cristo. Assim como todo homem por natureza, considerado em Adão, teve uma sentença de condenação que passou para ele no momento em que Adão pecou e, mais especificamente, no momento de sua própria transgressão, igualmente se formos crentes e confiarmos em Cristo, houve uma sentença legal de absolvição atribuída a nós através do que Jesus Cristo fez. Ó pecador condenado, você pode estar sentado aqui hoje tão condenado como o prisioneiro em Newgate (prisão na Inglaterra) mas antes deste dia terminar poder estar tão livre de culpa como os anjos lá do alto. Há uma tal coisa como uma vida legal em Cristo, e bendito seja Deus, alguns de nós a desfrutamos. Sabemos que os nossos pecados são perdoados porque Cristo sofreu o castigo por eles. Sabemos que nunca seremos punidos porque Cristo sofreu em nosso lugar.
A Páscoa foi sacrificada a nosso favor: os umbrais e a verga das portas foram aspergidos, e o anjo destruidor nunca poderá nos tocar. Para nós não haverá inferno; suas chamas terríveis não nos alcançarão. Não importa que o Tofete tenha sido preparado desde há muito tempo, nem que sua pilha seja de madeira e haja muita fumaça, nunca iremos para lá – Cristo morreu por nós e em nosso lugar. Ainda que hajam horríveis tormentos, ou mesmo uma sentença que produza horrendas repercussões fragorosas, no entanto, nem tormento nem prisões, nem trovões são para nós! Em Cristo Jesus somos libertos agora. “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que andam não segundo a carne, mas, segundo o Espirito” (Rom. 8:1).
Pecador, você se sente legalmente condenado neste momento? Sente isso? Então, deixe-me dizer-lhe que a fé em Cristo lhe dará o conhecimento de sua absolvição legal. Meu amigo, não e nenhuma fantasia o fato de estarmos condenados por nossos pecados, é uma realidade. Portanto, tampouco é fantasia que fomos absolvidos de nossos pecados, é também uma realidade. Um homem prestes a ser enforcado, se recebesse pleno perdão sentiria isso como uma grande realidade. Ele dirá: “eu recebi total perdão, agora não posso ser tocado”. É assim mesmo que eu me sinto.
“Agora livre do pecado eu ando em liberdade,
O sangue do Salvador e minha completa absolvição,
Aos Seus queridos pés eu me deito,
Um pecador salvo, minha homenagem presto”.
Irmãos, nós ganhamos vida legal em Cristo, e tal vida não podemos perder. A sentença era contra nós no passado – agora tudo mudou. Esta escrito: “portanto, AGORA NENHUMA CONDENAÇÃO HÁ PARA OS QUE ESTÃO EM CRISTO JESUS”, e esse agora valerá para mim daqui a muitos anos, como o esta valendo hoje. Em qualquer tempo que estivermos vivendo, ainda estará escrito: “portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”.
VIDA ESPIRITUAL – DEFUNTO VIVIFICADO
Então, em segundo lugar, há vida espiritual em Cristo Jesus. Visto que o homem está espiritualmente morto, Deus tem vida espiritual para ele, pois não há nenhuma necessidade que não possa ser suprida por Jesus; não há vazio no coração que Cristo não possa encher: não há um ermo que Ele não possa povoar, não há deserto que Ele não possa fazer florescer como a rosa. Ó pecadores mortos, espiritualmente mortos. há vida em Cristo Jesus, pois nós temos visto – sim, estes olhos viram – os mortos viverem de novo: nós conhecemos o homem cuja visão era carnal, cujas concupiscências eram poderosas, cujas paixões eram fortes, e que de repente, por um irresistível poder do céu. consagrou-se a Cristo, e tornou-se um filho de Deus. Sabemos que há vida em Cristo Jesus, vida de ordem espiritual; sim, mas nós mesmos, em nossas próprias pessoas, temos sentido que há uma vida espiritual. Bem que podemos nos lembrar quando nos sentamos na casa de oração, tão mortos como os bancos nos quais estávamos sentados. Havíamos ouvido por muito tempo o som do evangelho, porém, nenhum efeito se seguiu, quando de repente, como se os nossos ouvidos tivessem sido abertos pelos dedos de um poderoso anjo, um som entrou em nossos corações. Pensamos ter ouvido Jesus dizer: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (Mat. 11:15). Um poder irresistível tocou nossos corações e espremeu deles uma oração. Nunca fizemos uma oração assim antes. Nós clamamos” Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!” (Lc. 18:13).
Alguns de nós sentimos a mão de Deus nos apertando durante meses, como se tivéssemos sido apanhados num torno, e as nossas almas sangraram gotas de angústia. Essa miséria era um sinal de vida que se iniciava. Quando as pessoas estão se afogando não sentem tanto a dor como quando estão sendo restauradas. Oh, podemos nos lembrar de quando recebemos a nossa vida espiritual, tão facilmente como pode um homem que fosse ressurrecto do túmulo.
Podemos supor que Lázaro se lembrava da sua ressurreição, porem, não de todas as circunstancias dela. Portanto, apesar de termos nos esquecido de muitos detalhes, podemos nos lembrar de quando nos entregamos a Cristo. Podemos dizer a todo pecador, mesmo estando morto, que há vida em Cristo Jesus, ainda que ele esteja podre e corrupto em seu túmulo espiritual. Aquele que ressuscitou a Lázaro, também nos ressuscitou; e Ele pode dizer igualmente a você: “Lázaro, saia para fora”.
VIDA ETERNA – NUNCA PERDIDO
Em terceiro lugar, há vida eterna em Cristo Jesus. Meus amigos, se a morte eterna e terrível, a vida espiritual e abençoada; pois Ele disse, “Onde Eu estiver aí o meu servo estará”(João 12:26). “Pai, desejo que onde eu estiver também estejam comigo aqueles que me tens dado, para que vejam a minha glória” (João 17:24). “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão”. (João 10:28). Ora, qualquer arminiano que pregasse sobre esse texto precisaria de lábios de borracha para esticar a sua boca, pois tenho certeza que ele não poderia falar toda a verdade sem se enrolar de um modo muito misterioso. Vida eterna – não uma vida que eles vão perder, mas vida eterna. Se eu perdi a vida em Adão, eu a ganhei em Cristo; se em Adão me perdi para sempre, em Cristo Jesus me encontro para sempre. Vida eterna! Oh, bendito pensamento! Nossos olhos reluzirão com gozo e nossas almas arderão em êxtase ao pensar que as nossas almas vão viver em alegria e gozo. Apaga seu olho, ó sol! – porém os meus olhos” verão o Rei na Sua formosura” quando esse olho solar nunca mais fizer sorrir a terra verde. E lua, toma-se em sangue! – porém o meu sangue jamais se tornará em nada; este meu espírito ainda existira quando você terá deixado de existir. E você grande mundo! – poderá desvanecer assim como a espuma desaparece de sobre a onda que a suporta, porém eu terei a vida eterna. Ó tempo! – você poderá ver montanhas gigantescas mortas ou escondidas em suas covas; poderá ver as estrelas como figos maduros caindo da árvore; mas nunca, jamais verá o meu espírito morto.
DEUS SALVA A TODOS OS QUE VÊM
3. Isto nos traz ao terceiro ponto: A VIDA ETERNA É DADA A TODOS OS QUE VÊM EM SUA BUSCA. Nunca um homem veio a Cristo buscar vida eterna, legal e espiritual, que de certo modo não a tivesse recebido, e foi lhe manifestado de que a tinha recebido logo após ter vindo. Vamos considerar um ou dois textos. “Portanto pode também salvar perfeitamente os que por Ele se achegam a Deus” (Hb. 7:25). Todo homem que se achega a Cristo, verá que Ele é capaz de salvá-lo e, não apenas capaz de salvá-lo um pouco, libertá-lo de um pequeno pecado, livrá-lo de uma pequena tribulação, carrega-lo um pouco e depois deixá-lo cair – e sim capaz de salvá-lo até a máxima extensão do seu pecado, e de suas tribulações, até ao mais profundo das suas tristezas e ao extremo da sua existência. Cristo diz a todo o que vem a Ele: “Venha, pobre pecador, não precisa perguntar se tenho poder para salvar. Eu não perguntarei quão longe foi em seu pecado; Eu posso salvá-lo completa e perfeitamente”.
SOMENTE OS ESCOLHIDOS VIRÃO
Agora vejamos outros textos: “Aquele que vem a mim (notem que as promessas são quase todas aos que vêm) de modo nenhum o lançarei fora”‘ (João 6:37). Todo homem que vem encontrará a porta da casa de Cristo aberta – e a porta do Seu coração também. Todo homem que vem – eu digo isto no mais amplo sentido – descobrirá que Cristo tem misericórdia dele. O maior absurdo do mundo e querer um evangelho mais amplo do que aquele registrado nas Escrituras. Eu proclamo que todo homem que crê será salvo – que todo homem que vem encontrara misericórdia. As pessoas me perguntam: mas, suponha que um homem venha sem ter sido escolhido, ele seria salvo? Você está supondo um absurdo, e eu não vou lhe dar uma resposta. Se um homem não for escolhido ele nunca virá. Quando ele vem é uma prova segura de que foi escolhido. Diz outro: “Suponha que alguém vá a Cristo que não tenha sido chamado pelo Espirito”. Pare, meu amigo, essa e uma suposição que você não tem o direito de fazer, pois tal coisa não pode acontecer: você só diz isso para me enredar, mas não conseguirá isso. Eu digo, todo homem que vem a Cristo será salvo. Eu posso dizer isso como um calvinista, ou como um hiper-calvinista com toda a clareza possível. Não tenho evangelho que exceda em estreiteza ao que você tem só que o meu evangelho está alicerçado sobre um fundamento sólido, ao passo que o seu está construído somente sobre ardia e podridão. Todo homem que vem a Cristo será salvo, pois, homem nenhum virá a Ele “se o Pai não o trouxer”. No entanto, diz alguém: “Suponha que o mundo todo viesse, Cristo o receberia?” Certamente, se todos viessem; mas eles não virão Eu digo, todos os que vem – sim, mesmo que eles fossem tão maus quanto os demônios, ainda assim Cristo os receberia; se eles tivessem todos os pecados e imundícies derramados nos seus corações, como dentro de um esgoto comum para o mundo todo, Cristo os receberia.
EXPIAÇÃO UNIVERSAL, UMA MENTIRA
Há quem argumente: “Eu quero saber sobre o restante das pessoas. Posso sair e dizer-lhes: Jesus Cristo morreu por cada um de vocês? Posso dizer que há vida para cada um de vocês?”. Não. Não poderá. Você poderá dizer que há vida para cada homem que vem; contudo, se disser que há vida para aqueles que não crêem, então, profere uma mentira perigosa. Se você lhes disser que Jesus Cristo foi punido pelos seus pecados e assim mesmo se perderão, você fala uma falsidade deliberada. Pensar que Deus pode punir a Cristo, e depois punir a eles – eu admiro do seu atrevimento em dizer isso! Um homem uma vez estava pregando e afirmou que havia harpas e coroas no céu para toda a sua congregação; e depois terminou de uma maneira muito solene: ” Meus queridos amigos, muitos para quem estas coisas estão preparadas não chegarão lá ”. De fato, a sua pregação foi uma coisa tão lamentável que era para fazer chorar mas eu lhes digo por quem ele deveria ter chorado – deveria ter chorado pelos anjos do céu e por todos os santos, pois isso estragaria completamente o céu para eles.
Ouçam, meus irmãos, quando vocês se reunirem no Natal, se perderam seu irmão Davi, e o seu lugar está vazio, vocês dizem: “Bem, nós sempre desfrutamos do Natal, mas agora há um vazio – pobre Davi esta morto e sepultado!” Pensem nos anjos dizendo: “Ah, este é um céu maravilhoso, mas não gostamos de ver todas estas coroas aqui com teias de aranha! Não podemos suportar essa rua desabitada nem podemos olhar para esses tronos vazios”! E então, pobrezinhos, eles poderiam começar a falar uns com os outros, e dizer: “Nenhum de nós está a salvo aqui, pois a promessa foi – ” Eu dou as minhas ovelhas a vida eterna”, e há muitas delas no inferno, as quais Deus deu vida eterna também; há um número delas pelas quais Cristo derramou Seu sangue, queimando no abismo, e se elas podem ser mandadas para lá, Ele também pode nos mandar. Se não podemos confiar numa promessa, tampouco podemos confiar noutra”. Portanto, o céu perderia o seu fundamento e cairia. Acabem com tal evangelho sem sentido! Deus nos da um evangelho seguro e sólido, construído sobre as promessas e relacionamentos da aliança, com propósitos eternos e cumprimentos seguros.
NENHUM HOMEM DESEJA VIR
4. Isto nos traz ao quarto ponto. POR NATUREZA, NENHUM HOMEM QUER VIR A CRISTO, pois o texto diz: “Não quereis vir a mim para terdes vida”. Eu afirmo sob a autoridade das Escrituras que não querem vir a Cristo para terem vida. Eu lhes digo, poderia pregar a vocês a vida toda e tomar emprestado a eloquência de Demóstenes ou de Cícero, mas vocês na desejariam vir a Cristo. Poderia lhes implorar de joelhos, com lágrimas nos meus olhos, e mostrar os horrores do inferno e o gozo do céu, como também expor a sua própria condição de perdido e a suficiência de Cristo, porém nenhum de vocês viria a Cristo por sua própria vontade, a não ser que o Espírito de Cristo o atraísse. E verdade que todos os homens, em sua condição natural, não virão Cristo.
Parece que estou ouvindo outro destes faladores perguntando: “Mas, eles não poderiam vir se quisessem”? Meu amigo, vou lhe responder numa outra ocasião. Essa não é a questão neste momento. Eu estou falando sobre eles quererem, não sobre eles poderem. Você pode notar que quando se fala de livre-arbítrio, o pobre arminiano em dois segundos começa a falar de poder, e mistura dois assuntos que deveriam ser mantidos separados. Nós não trataremos de dois assuntos de uma só vez, pois nos recusamos a lutar com dois ao mesmo tempo. Em outra oportunidade pregaremos sobre este texto: “Ninguém pode vir a mim se o Pai não o trouxer”. Entretanto, é só sobre a vontade que estamos falando agora, é certo que os homens não virão a Cristo para que tenham vida.
Poderíamos provar isso com muitos textos das Escrituras, porém usaremos uma parábola. Vocês se lembram da parábola onde um certo rei deu uma festa para seu filho, e convidou muitos a festa; os bois e os cevados foram mortos, e ele enviou seus mensageiros a chamar muitos para a ceia. Eles foram a festa? Não, não foram. Todos eles, a uma só voz, começaram a se desculpar. Um disse que havia se casado, portanto não poderia vir. E o que impediria que ele trouxesse a esposa consigo? Outro comprou uma junta de bois, e foi experimentá-los; mas a festa foi a noite, e ele não poderia experimentá-los no escuro. Outro comprou um pedaço de terra e queria vê-la; mas eu não creio que ele fosse vê-la com uma lanterna. Assim, todos apresentaram desculpas e não quiseram vir. Bem, o rei estava determinado a realizar a festa; portanto, ele disse: “Vai às ruas e becos e convida-os – espere! não convide – obriga-os a entrar”, pois mesmo os pobres das ruas nunca teriam vindo a não ser que fossem compelidos.
Examinemos outra parábola. Um certo homem tinha uma vinha; no tempo determinado enviou um dos seus servos para receber o que lhe cabia do aforamento. O que fizeram com ele? Espancaram aquele servo. Ele enviou outro, e o apedrejaram. Enviou ainda outro, e o mataram. E por último ele disse: “Eu vou enviar-lhes o meu filho, a ele terão respeito”. Mas o que foi que fizeram? Disseram: “Este e o herdeiro: vinde, matemo-lo e apoderemo-nos da sua herança”. E assim fizeram. E o mesmo com todos os homens, por causa da sua natureza. O Filho de Deus veio: no entanto, os homens O rejeitaram.” Não quereis vir a Mim para terdes vida”.
A QUEDA – ATÉ ONDE?
Levaria muito tempo para mencionarmos outras provas das Escrituras. Vamos, no entanto, nos referir à grande doutrina da Queda. Qualquer pessoa que acredita que a vontade do homem é inteiramente livre, e que pode ser salva por meio dela, não acredita na Queda. Como, às vezes, tenho lhes dito: poucos pregadores acreditam plenamente na doutrina da Queda, ou então apenas acreditam que Adão, quando caiu, quebrou seu dedo mindinho, e não seu pescoço, arruinando assim a sua raça. Ora, amados, a Queda quebrou o homem completamente. Não deixou nenhuma capacidade inalterada; todas foram despedaçadas, degradadas e manchadas. Como um poderoso templo, os pilares podem estar ali, as colunas, até o pilar principal, mas, todos eles foram quebrados, ainda que alguns retenham suas formas e posições. Às vezes a consciência do homem retam muito a sua ternura – no entanto, esta caída. A vontade também não está isenta. Embora seja o maioral de Mansoul - conforme Bunyan o chama – o maioral erra. O senhor vontade – voluntarioso – estava continuamente errando.
A natureza caída que vocês tem foi colocada fora de ordem; sua vontade, entre outras coisas, afastou-se completamente de Deus. Eu lhes direi que a melhor prova disso: é o grande fato de que nunca encontraram um cristão, em toda a sua vida, que dissesse que ele veio a Cristo, sem que antes Cristo tivesse vindo a ele.
ORAÇÕES LIVRE-ARBÍTRIO – NÃO!
Vocês tem ouvido muitos sermões arminianos, eu ouso dizer, mas nunca ouviram uma oração arminiana - pois os santos em oração se parecem iguais em palavra, ação e mente. Um arminiano de joelhos orará desesperadamente como um calvinista. Ele não pode orar a respeito do livre-arbítrio: não há lugar para isso. Imagine-o orando: “Senhor, eu Te agradeço que não sou como esses pobres calvinistas presunçosos. Senhor, eu nasci com um glorioso livre-arbítrio: eu nasci com poder pelo qual posso me voltar para Ti por conta própria; tenho melhorado minha graça. Se todos tivessem feito o mesmo que eu fiz com a Tua graça, poderiam todos ter sido salvos. Senhor, eu sei que Tu não nos fazes espiritualmente propensos se nós mesmos não queremos. Tu dás graça a todos; alguns não a melhoram, mas, eu sim. Haverá muitos que irão para o inferno, tantos quantos foram comprados pelo sangue de Cristo como eu fui; eles tinham tanto do Espírito Santo quanto me foi dado tiveram uma boa chance, e foram tão abençoados como eu sou. Não foi a Tua graça que nos diferenciou; eu sei que ela fez muito, mas eu cheguei ao ponto desejado; eu usei o que me foi dado e os outros não – essa e a diferença entre eu e eles”.
Essa é uma oração para o diabo, pois ninguém ofereceria tal oração. Ah, quando eles estão pregando e falando vagarosamente poderá haver doutrina errada: mas quando oram, a verdade escapa, eles não podem evitá-la. Se um homem fala muito devagar, ele poderá falar de modo refinado, porém, quando ele começa a falar depressa, o velho sotaque regional escapa.
E lhes pergunto: alguma vez conheceram um cristão que dissesse,” Eu vim a Cristo sem o poder do Espírito”? Se alguma vez encontraram tal homem, não precisam ter a menor hesitação em dizer: “Meu querido amigo, eu realmente admito isso – e acredito também que você se afastou dEle sem o poder do Espírito, que está em fel de amargura e no laço da iniquidade”.
Será que eu ouço um cristão dizendo: “Eu achei a Jesus antes que Ele me achasse; eu fui ao Espírito, e Ele não veio a mim”? Não, amados, somos obrigados; cada um de nós a colocar as mãos sobre os nossos corações e dizer:
“A graça ensinou minha alma a orar,
E fez meus olhos transbordar,
Foi a graça que me guardou até este dia,
E não me deixam escapar”
Há alguém aqui – ao menos um – homem ou mulher, jovem ou velho, que possa dizer: “Eu procurei a Deus antes que Ele me procurasse”? Não, mesmo você que tende para o arminianismo cantara:
” Oh sim! eu amo a Deus
Porque Ele me amou primeiro”.
Então, mais uma pergunta. Porventura não descobrimos que, mesmo após termos vindo a Cristo, a nossa alma não está livre, e sim, está guardada por Cristo? Não descobrimos que até mesmo agora, há ocasiões quando o querer não está presente? Há uma lei em nossos membros guerreando contra a lei das nossa s mentes. Ora, se esses que estão espiritualmente vivos sentem que a sua vontade esta contraria a de Deus, o que dizer do homem que esta morto em delitos e pecados? Seria um absurdo maior colocar os dois no mesmo nível; e seria ainda mais absurdo fazer os mortos precederem os vivos. Não, o texto esta certo, a experiência o imprimiu em nossos corações: ” Não quereis vir a mim para terdes vida”.
POR QUE NINGUÉM VEM
Agora devemos dizer-lhes os motivos pelos quais os homens não vem a Cristo. O primeiro e: porque nenhum homem por natureza pensa que ele precisa de Cristo. Por natureza ele concebe que não precisa de Cristo; pensa que possui um manto de justiça própria, que está bem vestido, que não está nu, que não precisa do sangue de Cristo para lavá-lo, que não está preto ou vermelho e que não precisa da graça para purificá-lo. Nenhum homem conhece a sua necessidade antes que Deus a mostre a ele; e até que o Espírito Santo lhe revele a necessidade de perdão, nenhum homem buscará o perdão. Eu posso pregar Cristo para sempre, mas, a não ser que alguém sinta que quer a Cristo, nunca virá a Ele. Um farmacêutico pode ter uma boa farmácia, mas ninguém comprará seus remédios até que sinta que precisa deles.
O motivo seguinte é: porque os homens gostam do modo pelo qual Cristo os salva. Um diz: ” Eu não gosto porque Ele me torna santo; eu não posso beber ou blasfemar, se Ele me salvar”. Outro diz: ” Isto requer que eu seja tão exato e rígido, e eu gosto de um pouco mais de licença”. Outro não gosta porque o” portão do céu” não é o suficiente alto para a sua cabeça, e ele não gosta de se agachar. Este é o motivo principal pelo qual vocês não virão a Cristo, porque não podem chegar a Ele com as suas cabeças firmemente levantadas no ar: pois Cristo os faz agacharem quando vocês vem. Outro não gosta que a salvação seja pela graça do começo ao fim. “Oh”, ele diz: “se eu pudesse ter só um pouco de honra”. Mas, quando ele ouve que tudo é Cristo. Cristo ou nada, um Cristo inteiro ou nada de Cristo, ele diz: ” Eu não virei”, vira-se então e vai embora. Ah, pecadores orgulhosos, vocês não virão a Cristo porque não conhecem nada sobre Ele. E esse é o terceiro motivo. Os homens não conhecem Seu valor, pois se o conhecessem, viriam para Ele. Porque os marinheiros não vieram para a América antes de Colombo? Porque não acreditavam que a América existia. Colombo tinha fé: portanto ele foi. Aquele que tem fé em Cristo vai a Ele. Todavia, vocês não conhecem a Jesus; muitos de vocês não viram Seu maravilhoso rosto; nunca viram o quanto Seu sangue é apropriado para um pecador, quão grande é a Sua expiação, e como Seus méritos são todos suficientes. Portanto” vocês não virão a Ele”.
SEM DESCULPA
Oh, meus ouvintes, meu último pensamento e deveras solene. Já preguei que vocês não virão. Mas, alguns vão dizer: ” É por causa dos nossos pecados que não estamos vindo”. É isso mesmo. Vocês não vêm nem podem vir porque suas vontades são pecaminosas. Alguns pensam que” costura-mos almofadas para todas as cavas” quando pregamos esta doutrina, mas não o fazemos. Não vemos isto como sendo parte da natureza original do homem, porém, como pertencente à natureza decaída. É o pecado que os trouxe a esta condição, devido a qual não virão. Se não tivessem caído, viriam a Cristo no exato momento em que Ele fosse anunciado a vocês, mas não vêm por causa dos seus pecados e delitos. As pessoas se desculpam porque têm corações maus. Essa é a desculpa mais esfarrapada do mundo. Acaso o roubo e a ladroeira não provêm de um mau coração? Suponha que um ladrão dissesse ao juiz: ” Eu não pude evitá-lo, eu tinha um mau coração”. O que diria o juiz?” Patife! se seu coração é mau então farei a sentença mais pesada, pois de fato você é um vilão. Sua desculpa não e nada”. O Todo-Poderoso vai rir deles, e os terá em escárnio. Nós não pregamos esta doutrina para desculpá-los, e sim para torná-los humildes. Possuir uma má natureza é tanto minha culpa como minha terrível calamidade.
É um pecado que será cobrado do homem. Quando eles não vêm a Cristo é o pecado que os mantém afastados. Aquele que não prega isso, duvido que seja fiel a Deus e à sua própria consciência. Vai então para casa, meu amigo, com este pensamento: ” Eu sou por natureza tão perverso que não virei a Cristo, e essa perversidade da minha natureza é o meu pecado. Eu mereço ser lançado ao inferno por isso”. E se este pensamento não humilhar, o Espírito usando o mesmo, nada poderá fazê-lo. Na pregação de hoje eu não exaltei a natureza humana, porém rebaixei-a. Deus nos humilhe a todos. Amém!
NOTA CONCLUSIVA DO PUBLICADOR
Desde que este sermão foi pregado por Spurgeon no início do seu ministério (02 de dezembro de 1855 na Capela de New Park Street, Londres), alguns oponentes da doutrina da graça soberana têm tentado ensinar que posteriormente Spurgeon mudou seu ponto de vista sobre aquilo que foi exposto em ” Livre-Arbítrio – Um Escravo”. Isto é simplesmente um absurdo, como o confirmam as seguintes breves citações (que poderiam ser multiplicadas muitas vezes), extraídas do último volume dos seus sermões, os quais ele editou pessoalmente em 1891, no Metropolitan Tabernacle Pulpit.
“Você não possui um vontade imparcial, ou inclinada para aquilo que é bom; você escolheu o mal e continua a escolhê-lo…”
” Durante o tempo que quiser, você poderá exortar um homem cego a enxergar, porém ele não enxergará. O quanto quiser, você poderá exortar um homem morto a viver, porém ele não viverá somente através de sua exortação. Algo mais é necessário” (pp. 341-342 ).”
“A intenção de Deus era que Lídia fosse salva. No entanto, você sabe que nenhuma mulher foi salva contra sua vontade. Deus nos faz dispostos no dia do Seu poder, e a Sua graça não viola a vontade humana, mas triunfa docemente sobre ela. Nunca haverá alguém arrastado para o céu pelas orelhas: saiba disso. Nós iremos para lá de coração e porque desejamos” (p. 485).
C. H. Spurgeon – Editado pela PES.
04.06.2010
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1. O significado da palavra cânon
1a. Cânon – Datas e períodos
1b. Cânon – Sua inspiração
1c. Cânon – Sua descoberta
1d. Princípios que formaram o cânon (em sumo)
1e. Os princípios da descoberta da canonicidade
1.f Teste para a inclusão de um livro do cânon
1. Data do conhecimento e fixação do cânon do Novo Testamento
1a. A necessidade da mensagem escrita do Novo Testamento
1b. Um livro no cânon do Novo Testamento
1c. Os livros canônicos do Novo Testamento
1.d Os apócrifos do Novo Testamento 32200-205
1e. Os livros apócrifos foram ou nâo inspirado?
1f. Alusões implícitos aos apócrifos
A FIDEDIGNIDADE E CONFIABILIDADE DAS ESCRITURAS
1.A confirmação do texto hitórico
1a. O teste bibliografico da credibilidade do Novo Testamento
1b. Evidêcias dos manuscritos acerca do Novo Testamento
1c.O Novo Testamento em comparação com outras obras da antiguidade
1d. Cronologia de importantes manuscritos do Novo Testamento
1f. A credibilidade dos manuscritos apoiada por vàrias traduções
1g. A credibilidade dos manuscritos apoiada pelos primeiros pais da igreja
CITAÇÕES PATRÍSTICAS DO NOVO TESTAMENTO
INTRODUÇÃO
Do estudar-mos sobre o cânon, veremos neste trabalho o seu significado, sua importância, qual o seu valor para nós os crentes. Como foi aceito pelas igrejas, como se desenvolveu, qual é a época em que envolve o cânon, qual é o papel dos lideres nisso tudo, e etc… Veremos também todo o ministério que envolveu o livro de Apocalipse a respeito de sua canonicidade. E os livros apócrifos ou os falsos livros da Bíblia? Será mesmo a Bíblia dos crentes, que contêm os livros que falam a verdade? Enfim.
1. O SIGNIFICADO DA PALAVRA CÂNON
A palavra cânon tem raiz na palavra “cana”, “junco” (do hebraico geneh, através do grego kanon ). O “junco” era usado como uma vara para medir e avaliar …” mais tarde teve o sentido de “lista” ou “rol”.15/95
Aplicada às Escrituras, a palavra cânon significa “uma lista de livros oficialmente aceitos”. 23/31
Deve-se ter em mente que a igreja não criou o cânon nem os livros que estão incluídos naquilo que chamamos de Escrituras. Ao contrário, a igreja reconheceu os livros que foram inspirados desde o princípio. Foram inspirados por Deus ao serem escritos.
E a todos quantos andarem de conformidade com esta regra, paz e misericórdia sejam sobre eles e sobre o Israel de Deus (Gl 6:6). Nos porém, não nos gloriaremos sem medida, mas respeitamos o limite da esfera de ação que Deus nos desmarcou e que se estende até vós (2Co 10:3).
“Não nos gloriando fora de medida nos trabalhos alheios, e tendo esperança, de que, crescendo a vossa fé, seremos engrandecidos entre vós, dentro da nossa esfera de ação (2Co 10:15).
A Bíblia, como o cânon sagrado, é a nossa norma ou regra de fé e prática. Diz-se dos livros da Bíblia que são canônicos para diferenciá-los dos apócrifos. O emprego do termo cânon foi primeiramente aplicados aos livros da Bíblia por origines (185-254 d.C).
1a. CÂNON – DATAS E PERÍODOS
O Novo Testamento foi completado em menos de 100 anos, pois seu último livro, o apocalipse, foi escrito cerca de 96 D.C. Isto é, dá um total de 1.142 anos para a formação de ambos os Testamentos (1046+96). (Leve em conta Que a cronologia Bíblica é sempre aproximada, pois os povos orientais não tinham um sistema fixo de computação de datas.
Quando se fala do espaço total de tempo, que vai da escrita do pentateuco ao apocalipse, é preciso intercalar os 400 anos do período interbíblico ocorrido entre os Testamentos, o que dará um total de 1542 anos (1046+96+400). Por isso se diz que a Bíblia foi escrita no espaço de 46 séculos. Este é o período no Qual o cânon foi completado.
1b. CÂNON – SUA INSPIRAÇÃO
A canonicidade é determinada pela inspiração. Os livros da Bíblia não são para Deus oriundos, isto porque eles tem valor, provieram de Deus. A processo mediante o qual Deus nos concede sua revelação chama-se inspiração. È a inspiração de Deus num livro que determina sua canonicidade. Deus dá autoridade divina a um livro, e os homens de Deus o atacam. Deus revela, e o seu povo conhece o que o Senhor revelou. A canonicidade é dada por Deus e descoberta pelos homens. A Bíblia constitui o “cânon”, pelo qual tudo mais deve ser medido e avaliado pelo fato de Ter autoridade concedida por Deus. Sejam quais foram as medidas (os cânones ) usados pela igreja para descobrir com exatidão que livros possuem essa autoridade canônica ou normativa, não se deve dizer que determinam a canonicidade dos livros. Dizer que o povo de Deus, mediante quaisquer regras de conhecimento, “determina” que livros são autorizados por regra de conhecimentos. 56 Deus pode conceder absoluta.
Só a inspiração divina determina a autoridade de um livro, se ele é canônico, de natureza normativa.
1c. CÂNON – SUA DESCOBERTA
O povo de Deus tem desempenhado um papel de grande importância no processo de canonização. A comunidade dos crentes arca com a tarefa de chegar a uma conclusão sobre quais livros são realmente de Deus. A fim de cumprir esse papel, a igreja deve procurar cartas características próprias da autoridade divina. Como poderia alguém reconhecer um livro inspirado só por vê-lo? Dai vários critérios estavam em jogo nesse processo de reconhecimento. Ao qual são eles:
1.d OS PRINCÍPIOS DA DESCOBERTA DA CANONICIDADE:
Sempre existiu falsos livros e falsas mensagens. E por representarem ameaça constante, surgiu-se a necessidade de que o povo de Deus tivesse mais cuidado com a coleção de livros sagrados guardados consigo, pois poderiam haver alguns erros. A partir daí a igreja passou a questionar esses livros sagrados mediante cinco critérios; ao qual são eles:
a)O livro é autorizado – Veio de Deus;
b)É profético – Foi escrito por um servo de Deus;
c)É digno de confiança – Fala a verdade a cerca de Deus;
d)É Dinâmico – Possui o poder que transforma vidas;
e)É aceito pelo povo de Deus para o qual foi originalmente escrito.
1. VEJAMOS AGORA CADA UM DESSES CRITÉRIOS SEPARADAMENTE:
A autoridade de um livro – Cada livro da Bíblia traz uma reivindicação de autoridade divina. A expressão “Assim diz o Senhor” está presente na Bíblia com freqüência. Sempre existe uma declaração divina. Se faltasse a um livro a Autoridade de Deus, esse era considerado não canônico , não sendo incluído no cânon sagrado.
Os livros dos profetas eram facilmente reconhecidos como canônicos por esse princípio de autoridade. A expressão repetida “e o Senhor me disse” ou ” “a palavra do Senhor veio a mim” è evidência abundante de sua autoridade divina. Alguns livros não tinham reivindicação de origem divina, pelo qual foram rejeitados e tidos como não canônicos. Talvez tenha sido o caso do livro dos justos e do livro da guerra do Senhor. Outros livros foram questionados e desafiados quanto a sua autoridade divina, mas por fim foram aceitos no cânon, como o livro de Ester.
Na verdade, o simples fato de alguns livros canônicos serem questionados quanto a sua legitimidade é uma segurança de que os crentes usavam seu discernimento. Se os crentes não estivessem convencidos da autoridade divina de um livro, este era rejeitado.
2. A AUTORIA PROFÉTICA DE UM LIVRO
Os livros proféticos só foram produzidos pela atuação do Espírito, que moveu alguns homens conhecidos como profetas. (2Pe. 1:10-21). A palavra de Deus só foi entregue a seu povo mediante os profetas de Deus. Todos os autores bíblicos tinham um Dom profético, ou uma função profética, ainda que tal pessoa não fosse profeta por ocupação. (Hb. 1:1).
Paulo exorta o povo de Deus em Gálata, dizendo que suas cartas deveriam ser aceitas porque ele era apóstolo de Paulo. Isto porque todos os livros que não proviam por profetas nomeados por Deus, deveriam ser rejeitados. Os crentes não deviam aceitar livros de alguém que falsamente afirmasse ser apóstolo de Cristo (2Ts. 2:2). Note que a Segunda carta de Pedro foi objetada por alguns da igreja primitiva. Por isso enquanto os pais da igreja não ficaram convencidos de que essa não havia sido forjada, mas de fato viera da mão do apóstolo Pedro, como seu versículo o menciona, ela não recebeu lugar permanente no cânon cristão.
3. A CONFIABILIDADE DE UM LIVRO
Outro sinal característico da inspiração é o ser um livro digno de confiança.
A vista desse princípio, os crentes de beréia aceitaram os ensinos de Paulo e pesquisaram as Escrituras, para verificar se o que o apóstolo estava ensinando , estava de fato de acordo com a revelação de Deus no Antigo Testamento. O mero fato de um texto estar de acordo com uma revelação anterior não indica que tal texto é inspirado. Grande parte dos apócrifos foi rejeitada por causa do princípio da confiabilidade. Suas anomalias históricas e heresias teológicas os rejeitaram; seriam impossível aceitá-las como vindos de Deus; a despeito de sua aparência de autorizados. Não podiam vir de Deus e ao mesmo tempo apresentar erros.
Alguns livros canônicos foram questionados a base nesse mesmo princípio como a carta de judas e a de Tiago.
4. A NATUREZA DINÂMICA DE UM LIVRO
O quarto teste canonicidade, era a capacidade do texto de transforma vidas: “… A palavra de Deus é viva e eficaz…” (Hb. 4:12) O resultado é que ela pode ser usada “para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir, em justiça” (2Tm. 3:16-17).
O apóstolo Paulo revelou-nos que a habilidade dinâmica das escrituras inspiradas estava na aceitação das Escrituras, como um todo, como mostra em 2 Timóteo 3:16-17. Disse Paulo a Timóteo :” as Sagradas Escrituras podem fazer-te sábio para a Salvação. A partir daí, outros livros e mensagens foram rejeitados porque apresentavam falsas esperanças. (1Rs. 22:6-8) ou faziam rugir alarmes falsos (2Ts. 2:2).
5. A ACEITAÇÃO DE UM LIVRO
A Marca final de um documento escrito autorizado é seu reconhecimento pelo povo de Deus ao qual originalmente se havia destinado.
A palavra de Deus, dada mediante seus profetas, e contendo sua verdade, deve ser reconhecida pelo seu povo. Se determinado livro fosse recebido, coligido e usado como força de Deus, pelas pessoas a quem originariamente se havia destinado, ficava comprovada a sua canonicidade. Sendo o sistema de transportes atrasado como era nos tempos antigos, às vezes a determinação da canonicidade de um livro da parte dos pais da igreja exigia muito tempo e esforço. É por essa razão que o reconhecimento definitivo completo, por toda a igreja cristã, dos 66 livros do cânon das Escrituras Sagradas exigiu tantos anos.
Os livros de Moisés foram aceitos imediatamente pelo povo de Deus. As cartas de Paulo foram recebidas imediatamente, recebidas pelas igrejas às quais haviam sido dirigidas (1Ts. 12:13), e até pelos demais apóstolos (2Pe. 3:16). Já alguns escritos foram rejeitados pelo povo de Deus, por não apresentarem autoridade divina. Esse princípio de aceitação levou alguns a questionar durante algum tempo certos livros da Bíblia, como 2 e 3 João são de natureza particular e de circulação restrita; É compreensível, pois que houvesse alguma relutância em aceitá-los, até que essas pessoas em dúvida tivessem absoluta certeza de que tais livros haviam sido recebidos pelo povo de Deus do século como cartas do apóstolo João.
* PRINCÍPIOS QUE FORMARAM O CÂNON: (EM S
a)Sua circulação universal – Alguns livros jamais foram aceitos por falta de circulação, enquanto outros foram aceitos tariamente por falta de circulação na igreja universal, pois circulavam somente em certos setores da igreja.
b)A autoria dos apóstolos ou dos discípulos dos apóstolos – Dentre os apóstolos temos as epístolas de Paulo e Pedro, e o Evangelho de João. Dentre os discípulos temos os evangelhos de Marcos, e de Lucas, o livro de Atos, a epístola dos Hebreus e etc…
c)Livros segundo a tradição e a doutrina dos apóstolos: Lucas, Atos, Hebreus, Apocalipse e II Pedro.
d)Houve rejeição de livros escritos mais tarde, após o tempo dos apóstolos. Isso explica a rejeição final das epístolas de Clemente e etc…
e)Também foram rejeitados os escritos ridículos ou fabulosos – Entre esses podemos enumerar a maior parte dos livros apócrifos, o evangelho de Tomé, os evangelhos de André, os Atos de Paulo, o Apocalipse de Pedro e etc…
f)Uso universal por parte da igreja inteira – Alguns livros foram aceitos apenas por determinados setores da igreja, ou somente por alguns indivíduo. Finalmente os 27 livros do Novo Testamento foram aceitos e passaram a ser universalmente usados na igreja cristã.
Os princípios da descoberta da canonicidade
1d. TESTE PARA A INCLUSÃO DE UM LIVRO DO CÂNON
Não sabemos exatamente quais foram os critérios que a igreja primitiva usou para escolher os livros canônicos. Possivelmente houve cinco princípios orientadores, empregados para determinar se um livro do Novo Testamento era ou não canônico. Se era ou não Escritura. Geisler e Nix registram esses cinco princípios: 32/141
1) Revela autoridade? – veio da parte de Deus? (Esse livro veio com o autêntico ” assim diz o Senhor”?)
2) É profético? – Foi escrito por um homem de Deus?
3) É autêntico? (Os pais da igreja tinham a prática de “em caso de dúvida, jogue fora”. Isso acentua a validade do discernimento que tinham sobre os livros canônicos.”)
4) É dinâmico? – veio acompanhado do poder divino de transformação de vidas?
5) Foi aceito, guardado, lido e usado? – foi recebido pelo povo de Deus?
Pedro reconheceu as cartas de Paulo como Escrituras em pé de igualdade com as Escrituras do Antigo Testamento (2Pedro 3:16).
O Cânon do Novo Testamento
1. TESTE PARA A INCLUSÃO DE UM LIVRO NO CÂNON DO NOVO TESTAMENTO
” Parece muito melhor concordar com Gaussen, Warfield, Charles Hodge e a maioria dos protestantes em que o teste básico de canonicidade é a autoridade apostólica, ou a aprovação apostólica, e não simplesmente autoria apostólica.” 32/1831
Há nas epístolas um constante reconhecimento de que na igreja só existe uma o fator básico para determinar a canonicidade do novo testamento foi a inspiração divina, e o principal teste da inspiração foi a apostolicidade. 32/181
Geisler e Nix detalham a respeito: “Na terminologia do Novo Testamento, a igreja foi edificada ‘sobre o fundamento dos apóstolos e profetas’ (Efésios 2:20). Os quais Cristo prometera que, pelo Espírito Santo. Iriam guiar ‘a toda a verdade’ (João 16:13). Atos 2:42 diz que a igreja em Jerusalém perseverou ‘na doutrina dos apóstolos e na comunhão’. A palavra apostolicidade, conforme empregada para designar o teste de canonicidade, não significa obrigatoriamente ‘autoria apostólica’ nem ‘aquilo que foi preparado sob a direção dos apóstolos…”
única autoridade absoluta; a autoridade do próprio Senhor. Sempre que os apóstolos falam com autoridade, fazem-no exercendo a autoridade do Senhor. Dessa forma, por exemplo, quando Paulo defende sua autoridade de apóstolo, baseia-se única e diretamente na comissão recebida do Senhor (Galatas 1 e 2); quando evoca o direito de regulamentar a vida da igreja, declara que sua palavra tem a autoridade do Senhor, mesmo quando nenhuma palavra específica do Senhor lhe tenha sido transmitida (1Coríntios 14:37; cf. 1Coríntios 7:10)…” 88/117,18
O único que, no Novo Testamento, fala com uma autoridade interna e que se impõe por si mesmo é o Senhor.” 67/18
Habitualmente, os Apóstolos fizeram referências ao Antigo testamento como autoridade divina (Rm.3.2,21; I Co.4.6; Rm.15.4; II Tm.3.15-17; II Pd.1.21). Igualmente, os Apóstolos baseavam os seus ensinos orais ou escritos na autoridade do Antigo Testamento (I Co.2.7-13; 14.17; I Ts.2.13; Ap.1.3). E ainda, ordenavam que seus escritos fossem lidos publicamente (I Ts.5.27; Cl.4.16; II Ts.2.15; II Pd.1.15; 3.1-1). Portanto, era mais do que natural e lógico que a Literatura do Novo Testamento fosse acrescentada à do Antigo Testamento, fazendo assim o Cânon do Novo Testamento. No próprio Novo testamento se vê a íntima relação existente entre ambos os testamentos (Antigo e Novo). Veja-se em I Tm. 5.18; II Pd.3.1,2,16). Na época pós-apostólica, os escritos procedentes dos apóstolos foram igualmente colecionados em um segundo volume do Cânon até se completar o que se cognomina hoje de Novo Testamento.
A coleção completa, fez-se vagarosamente e por várias razões. Alguns livros só eram reconhecidos como apostólicos em algumas igrejas; somente quando estes livros chegaram ao
conhecimento de todas as igrejas e em todo o Império Romano, foi que foram realmente aceitos como sendo de autoridade Apostólica. O processo adotado foi lento por causa do aparecimento de algumas literaturas apócrifas, heréticas e portanto, espúrias, com o intuito de ensinar outras doutrinas não cristãs. Apesar desta lentidão, os livros foram aceitos e
considerados canônicos por serem de autoria Apostólica.
Apesar da formação do Novo Testamento em um só volume de livros ter sido morosa, nunca deixou de existir a crença de se tratar de um compêndio de regra de fé primitiva e Apostólica. A história da formação do Cânon do Novo Testamento serve para mostrar como se chegou gradualmente a conhecer e reconhecer estes mesmos livros como inspirados por Deus.
As diferenças de opinião acerca de quais livros seriam aceitos como canônicos, foram constatadas nos escritos das igrejas ao longo do segundo século de nossa era
1a. OS LIVROS CANÔNICOS DO NOVO TESTAMENTO
Há três razões que mostram a necessidade de se definir o cânon do Novo Testamento. 23/24
1)Um herege, Marcião (cerca de 140 A.D.), desenvolveu seu próprio cânon e começou a divulgá-lo. A igreja precisava contrabalançar essa influência decidindo qual era o verdadeiro cânon das Escrituras do Novo Testamento.
2)Muitas igrejas orientais estavam empregando nos cultos livros que eram claramente espúrios. Isso requeria uma decisão concernente ao cânon.
3)O edito de Diocleciano (303 A.D.) determinou a destruição dos livros sagrados dos cristãos. Quem desejava morrer por um simples livro religioso? Eles precisavam saber quais eram os verdadeiros livros.
Atanásio de Alexandria (367 A.D.) nos apresenta a mais antiga lista de livros do Novo Testamento que é exatamente igual à nossa atual. A lista faz parte do texto de uma carta comemorativa escrita às igrejas.
Logo após atanásio, dois escritores, Jerônimo e Agostinho, definiram o cânon de 27 livros. 15/112
Policarpo (115 A.D.), Clemente e outros referem-se aos livros do Antigo e do Novo Testamento com a expressão “como está escrito nas Escrituras”.
Justino Mártir (100-165 A.D.), referindo-se à Eucaristia, escreve em primeira Apologia 1.67: “E no Domingo todos aqueles que vivem nas cidades ou no campo se reúnem num só local, e, durante o tempo que for possível, lêem-se as memórias dos apóstolos ou escritos dos profetas. Então, quando o leitor termina a leitura, o presidente faz uma admoestação e um convite a que todos imitem essas boas coisas”.
Irineu (180 A.D).F.F. Bruce escreveu acerca do significado de Irineu: “A importância de Irineu está no seu vínculo com a era apostólica e nos seus relacionamentos ecumênicos. Educado na Ásia menor, aos pés de Policarpo, o discípulo de João, Irineu tornou-se bispo de Lion, Gália, em 180 A.D. Seus escritos confirmam o reconhecimento canônico dos quatro evangelhos, Atos, Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1 e 2 Timóteo, Tito, 1 Pedro e 1 João e Apocalipse.
Inácio (50-115 A.D.): “Não quero dar-lhes mandamentos tal como fizeram Pedro e Paulo; eles foram apóstolos…” (Aos Tralianos 3.3).
Os concílios da igreja. É uma situação bastante parecida com a do Antigo Testamento (veja capítulo 3, 6C, o concílio de Jâmnia).
F.F. Bruce afirma que “quando finalmente um concílio da igreja – o sínodo de Hipona (393 A.D.) – elaborou uma lista dos vinte e sete livros do Novo Testamento, não conferiu-lhes qualquer autoridade que já não possuíssem, mas simplesmente registrou a canonicidade previamente estabelecida.
Desde então não tem havido qualquer restrição séria aos 27 livros aceitos do Novo Testamento, quer por católico – romanos quer por protestantes.
1b. OS APÓCRIFOS DO NOVO TESTAMENTO 32/200-205
A Epistola de pseudo – Barnabé (cerca de 70-79 A.D.)
Epístola aos Corítios (cerca de 96 A.D.)
Antiga Homília, também chamada Segunda Epístola de Clemente (cerca de 20-140 A.D.)
Pastor de Hermas (cerca de 115-140 A.D.)
Didaquê, ou o Ensino dos Doze Apóstolos (cerca de 100-120 A.D.)
Apocalipse de Pedro (cerca de 150 A.D.)
Os Atos de Paulo e Tecla (170 A.D.)
Epístola aos Laodicenses (século quarto?)
O Evangelhos Segundo os Hebreus (65-100 A.D.)
As Sete Epístolas de Inácio 9cerca de 100 A.D.)
E muitos outros.
1.C OS LIVROS APÓCRIFOS FORAM OU NÃO INSPIRADOS ?
Você poderia dizer: Já que você diz que os apócrifos não foram inspirados, então me dê provas. Pois bem, o problema dos livros apócrifos cresce de importância, na medida em que a Igreja Católica Romana afirma que a Bíblia dos Evangélicos é falsa; justamente a partir do fato da não aceitação dos tais livros apócrifos, e que, por via de conseqüência, é a Bíblia dos católicos a que é realmente verdadeira e canônica.
Veja bem! O Cânon dos Judeus foi aceito pela comunidade cristã e consiste nos mesmos livros que aparecem nas Bíblias dos Evangélicos, num total de 39 livros no Antigo Testamento e 27 no Novo Testamento, perfazendo assim um total de 66 livros e não 73 como pretende a igreja Católica Romana, a partir da inclusão dos apócrifos.
Os 66 livros existentes nas Bíblias Evangélicas foram aprovados pelos judeus, pela Igreja Primitiva e inclusive, pela própria Igreja Católica Romana em alguns dos seus Concílios, tais como:
1. O Concílio de Damause I (366 a 384 A.D.)
2. O Concílio de Inocente I (402 a 417 A.D.)
3. O Concílio de Gelasius I (492 a 496 A.D.)
4. O Concílio de Hermidas (520 a 523 A.D.)
5. O Concílio de Laodicéia (363 A.D.)
6. O Concílio de Hipo (393 A.D.)
7. O Concílio de Cartago (397 A.D.)
8. O Concílio de Florença (1441 A.D.)
Em todos estes Concílios, os livros aceitos como canônicos foram os mesmos 66 que constam nas Bíblias Evangélicas, e não os 73 constantes das Bíblias Católicas. Porém, no Concílio de Trento, em 1546, depois da reforma Protestante (Lutero) foi que a Igreja Católica Romana decidiu incluir os tais 7 livros apócrifos e alguns fragmentos aos livros de Ester e Daniel. Ora, o Cânon, ou seja, as Escrituras medidas e achadas certas, foi estabelecido pelos judeus que
examinaram os livros e os acharam conforme a inspiração divina. Depois daquele exame, os mesmos sábios separaram alguns livros e os consideraram apócrifos, espúrios, falsos, justamente por não se enquadrarem dentro das normas pré-estabelecidas para a sua canonicidade.
Quando se lê qualquer um dos livros apócrifos, logo se nota as fantasias ali colocadas. Consideramos um absurdo, por exemplo, o fato do autor pedir perdão pelo que escreveu, como se nota num dos apócrifos (Eclesiástico).
1.d ALUSÕES IMPLÍCITAS AOS APÓCRIFOS:
para condená-los e para repudiá-los. Por exemplo, em Ap.21.8 encontramos algo que é frontalmente contrário a Tobias 6.4. como explicar isto? É que em Apocalipse diz que quanto aos feiticeiros, a sua parte será no lago de enxofre; já em Tobias lemos a enfatização à prática da feitiçaria, respaldada na atitude de pegar o fígado de um peixe fisgado nas águas do rio Tigre, e, depois de passá-lo na brasa, provocando uma fumaça estranha e miraculosa; com ela, espantar os demônios. Mais adiante o mesmo Tobias 3.8 informa que o fel do peixe foi passado nos olhos do pai de Tobias, que também se chamava Tobias e este fora curado de uma cegueira. Isto é uma autêntica bobagem, além de ser uma grande mentira. Em Ap.21.8 lemos que os mentirosos não entrarão no reino dos Céus.
Em Dt. 18.9-14 vamos encontrar uma condenação à prática destas coisas, enquanto que em Tobias encontramos os benefícios pela prática destas mesmas coisas. No livro de Tiago 3.11 lemos “Porventura a fonte deita da mesma abertura água doce e água amargosa?” Pois bem, como explicar que Deus que é a nossa fonte, proíba a feitiçaria em Deuteronômio e a recomende em Tobias, um livro apócrifo? Isto se constituiria numa tremenda contradição.
Outra contradição flagrante em Tobias e em mais alguns livros apócrifos está no fato de sugerirem eles a salvação pela prática das obras; entretanto, lendo em At.10.2 e Ef.2.8-9 vamos concluir que a salvação acontece exclusivamente pela graça Divina, mediante a fé e não pelas obras; e mais, que o ato salvívico vem de deus e não dos homens. Como é absurda a doutrina pregada pela Igreja Católica Romana, principalmente a partir do Concílio de
Trento, através das páginas enlameadas e espúrias dos livros apócrifos.
2. CÂNON DO NOVO TESTAMENTO (SEU DESENVOLVIMENTO)
A princípio os 27 livros do canônicos do Novo Testamento foram reconhecidos oficialmente. A partir daí não houve movimentos dentro do Cristianismo no sentido de acrescentar ou eliminar livros. O cânon do Novo Testamento encontrou acordo geral no seio da igreja universal.
* Os Estímulos para que se coligissem oficialmente os livros – Varias forças contribuíram para que se oficiasse os 27 livros do Novo Testamento. As quais foram:
* O Estímulo eclesiástico a lista dos canônicos – A igreja primitiva tinha necessidades internas e externas que exigiam o reconhecimento dos livros canônicos. Sem uma lista dos livros reconhecidos, aprovados seria difícil para a igreja primitiva a execução dessa tarefa. A combinação dessas forças exerceu pressão sob os primeiros pais da igreja para produzirem uma lista oficial dos livros canônicos.
Sabemos também que os cristãos foram advertidos quanto as falsas cartas que lhe teriam sido enviadas em nome do apóstolo Paulo.
João, em seu evangelho destrui uma crendice que circulava no seio da igreja do século I, segundo o qual ele jamais morreria (Jo. 21: 23,24).
Em sumo, podemos dizer que no seio da igreja havia um processo seletivo em operação. Toda e qualquer palavra de Cristo, era submetido ao ensino apostólico, de tal autoridade. Se tal palavra ou obra não pudesse er comprovada pelas testemunhas oculares (Lc. 1:2; At, 1:21-22), era rejeitada.
A leitura em público das palavras autorizadas de Deus era um costume antigo. Moisés e Josué o praticaram ( Ex. 24:7; Js. 8:34). Enfim, em suma, as igrejas estavam envolvidas num processo incipiente de canonização. Essa aceitação original de um livro, o qual era autorizadamente lido nas igrejas, teria importância crucial para o reconhecimento posterior de um livro canônico.
* A circulação e a compilação dos livros – Enfim o processo de canonização desde o início da igreja estava em andamento. Os livros só eram circulados pelas igrejas, caso fossem examinados e dado por autêntico, Isso tomou-se forma nos tempos dos apóstolos, lá pelo final do século I, já todos os 27 livros do Novo Testamento haviam sido recebidos e reconhecidos pelas igrejas cristãs. O cânon estava completo, e aceito por todos os crentes de todas as cidades. Mas, por motivo da multiplicidade dos falsos escritos, e da falta de acesso imediato as condições relacionadas ao recebimento inicial de um livro, o debate a respeito do cânon prosseguiu por vários séculos, até que universalmente a igreja reconheceu a canonicidade dos 27 livros do Novo Testamento.
A Credibilidade da Bíblia
1.A FIDEDIGNIDADE E CONFIABILIDADE DAS ESCRITURAS
TÓPICO 1 – A CONFIRMAÇÃO DO TEXTO HISTÓRICO
1b. Introdução
Estamos provando aqui não a inspiração, mas a credibilidade histórica das Escrituras.
Deve-se testar a credibilidade histórica das Escrituras pelos mesmos critérios usados para testar todos os documentos históricos.
C. Sanders, em Introduction to Research in English Literary History (introdução à pesquisa em História da Literatura Inglesa), relaciona e explica os três princípios básicos da historiografia. São, a saber, o teste bibliográfico, o teste das evidências internas e o das evidências externas. 81/143ss.
2b. OTESTE BIBLIOGRAFICO DA CREDIBILIDADE DO NOVO TESTAMENTO
O teste bibliográfico é um exame da transmissão textual pela qual os documentos chegam até nós. Em outras palavras, uma vez que não dispomos dos documentos originais, qual a credibilidade das cópias que temos em relação ao número de manuscritos e ao intervalo de tempo transcorrido entre o original e a cópia existente? 64/26
F.E Peters ressalta que “baseando-se apenas na tradição dos manuscritos, as obras que formam o Novo Testamento dos cristãos foram os livros antigos mais freqüentemente copiados e mais amplamente divulgados.” 69/50
1c. EVIDÊNCIAS DOS MANUSCRITOS ACERCA DO NOVO TESTAMENTO
Atualmente sabe-se da existência de mais de 5.300 manuscritos gregos do Novo Testamento. Acrescentam-se a esse número mais de 10.000 manuscritos da Vulgata Latina e, pelo menos, 9.300 de outras antigas versões, e teremos mais de 24.000 cópias de porções do Novo Testamento.
Nenhum outro documento da história antiga chega perto desse números e dessa confirmação. Em comparação, a Ilíada de Homero vem em segundo lugar, com apenas 643 manuscritos que sobreviveram até hoje. O primeiro texto completo e preservado de Homero data do século treze. 58/145
A seguir apresentamos um quadro estatístico dos manuscritos remanescentes do Novo Testamento:
| Gregos | ||
| Unciais | 267 | |
| Minúsculas | 2.764 | |
| Lecionários | 2.143 | |
| Papiros | 88 | |
| Achados recentes | 47 | Manuscritos |
| TOTAL | 5.309 | Gregos existentes |
| Versão Vulgata Latina | Mais de 10.000 |
| Etiópico | Mais de 2.000 |
| Eslavônico | 4.101 |
| Armênio | 2.587 |
| Versão Siríaca (peshita) | Mais de 350 |
| Copta | 100 |
| Árabe | 75 |
| Versão Velha Latina | 50 |
| Anglo – Saxônico | 7 |
| Gótico | 6 |
| Sogdiano | 3 |
| Siríaco Antigo | 2 |
| Medo – Persa | 2 |
| Frâncico | 1 |
As informações para os gráficos acima foram extraídas das seguintes fontes:
ALAND, Kurt. Journal of Biblical Literature (Revista de Literatura Bíblica),v. 87, 1968.
ALAND, Kurt. Kurzgefasste Liste Der Griegrischen Handschriften Des Neuen Testaments (Breve Lista dos Manuscritos Gregos do Novo Testamento). W. De Gruyter, 1963.
ALAND, Kurt. “Neue Neutestamentliche Papyrii III” (Novos Papiros Terceira Parte). In. New Testament Studies (Estudos do Novo Testamento). Jul. de 1976.
METZGER, Bruce. The Early Versins of the New Testament As Antigas Versões do Novo Testamento). Oxford: Clarendon 1977.
PARVIS, Merrill M. e WIKGREN, Allen, ed. New Testament Manuscript Studies (Estudos do Manuscritos do Novo Testamento). Chicago University of Chicago, 1950.
RHODE, Eroll F. An Annotated List of Amenian New Testament Manuscripts (Uma Lista Comentada de Manuscritos Armênios do Novo Testamento). Tóquio: IKEBURO, 1959.
HYATT, J. Phillip. The Bible and Modern Scholarship (A Bíblia e a Erudição Moderna). A bingdon, 1965.
John Warwick Montgomery afirma que “ter uma atitude cética quanto ao texto disponível dos livros do Novo Testamento é permitir que toda a antigüidade clássica se torne desconhecida, pois nenhum documento da história antiga é tão bem confirmado bibliograficamente como o Novo Testamento.” 64/29
Sir Frederic G. Kenyon, que foi diretor e bibliotecário – chefe do Museu britânico, reconhecido como uma das maiores autoridades em manuscritos, diz: “…além da quantidade, os manuscritos do Novo Testamento diferi das obras dos autores clássicos em outro aspecto, e mais uma vez a diferença é bem clara.os livros do Novo Testamento foram escritos na última parte do século primeiro; com exceção de fragmentos muitos pequenos, os manuscritos mais antigos existentes são do quarto século – cerca de 250 a 300 anos depois”. Cremos que, em todos os pontos essenciais, temos um texto bastante fiel das sete peças remanescentes de Sófocles; no entanto, o manuscrito mais antigo e substancioso de ´Sófocles foi copiado mais de 1.400 anos depois de sua morte.” 48/4
Em The Bible and Archaeology (A Bíblia e a Arqueoloiga), Kekyon afirma: “De modo que o intervalo entre as datas da composição do original e os mais antigos manuscritos existentes se torna tão pequeno a ponto de, na prática ser insignificante. Assim, já não há base qualquer dúvida de que as Escrituras tenham chegado até nós tal como foram escritas. Pode-se considerar que finalmente estão comprovadas tanto a autenticidade como a integridade dos livros do Nono Testamento.” 46/288
F.J.A. Hort acrescenta, com acerto, que “na variedade e multiplicidade de provas sobre as quais repousa, o texto do Novo Testamento destaca-se de um modo absoluto e inigualável entre os textos em prosa da antigüidade.” 43/561
J. Harold Greennlee declara: “…o número de manuscritos néo – testamentários disponíveis é surpreendentemente maior do que os de qualquer outra obra da literatura antiga. Em terceiro lugar os mais antigos manuscritos existentes do Novo Testamento foram escritos numa data muito mais próxima da composição do texto original do que no caso de qualquer outro texto da literatura antiga”. 37/15
2. O NOVO TESTAMENTO EM COMPARAÇÃO COM OUTRAS OBRAS DA ANTIGÜIDADE
2a. A Comparação de manuscritos
Em Merece Confiança o Novo Testamento?, F.F. Bruce faz comparações entre o Novo Testamento e antigos textos de história, e apresenta uma descrição marcante a respeito: “Talvez possamos avaliar melhor quão rico é o Novo Testamento em matéria de evidência manuscrita, se compararmos o material textual subsistente com outras obras históricas da antigüidade. O texto das porções existentes das duas grandes obras históricas de tácito depende totalmente de dois manuscritos, um do século nono e outro do século onze.
Os manuscritos remanescentes das obras menores de tácito (Dialogus de Oratoribus (Diálogo sobre os Oradores), Agricola e Germania) Provêm todos de um códice do século décimo. Conhecemos a história de Tucídedes (cerca de 460-400 a.C.) a partir de oito manuscritos, dos quais o mais antigo data de 900 A.D., e de uns poucos fragmentos de papiros, escritos aproximadamente no início da era cristã. O mesmo se dá com a História de Heródoto (cerca de 480-425 a.C.). No entanto, nenhum conhecedor profundo dos clássicos daria ouvidos à tese de que a autenticidade de Heródoto ou Tucídedes é questionável porque os mais antigos manuscritos de suas obras foram escritos mais de 1.300 anos depois dos originais.” 16/23,24
Em Introduction to New Testament Textual Criticism (Introdução à crítica Textual do Novo Testamento), Greenlee escreve acerca do hiato de tempo entre o manuscrito original (o autógrafo) e o manuscrito existente (a velha cópia remanescente), afirmando que “os mais antigos e conhecidos dos manuscritos da maioria dos autores gregos clássicos foram escritos pelo menos mil anos depois da morte do seu autor. O intervalo de tempo para os escritores latinos é um pouco menor, reduzindo-se a um mínimo de três séculos no caso de Virgílio. Todavia, no caso do Novo Testamento, dois dos mais importantes manuscritos foram escritos em prazo não superior a 300 anos após o Novo Testamento estar completo, e manuscritos virtualmente completos, de alguns livros do Novo Testamento, bem como manuscritos incompletos, mas longos, de muitas partes do Novo Testamento, foram copiados em datas tão remotas quanto um século após serem originalmente escritos.” 37/36
Greenlee acrescenta que “uma vez que os estudiosos aceitam que os escritos dos antigos clássicos são em geral fidedignos, muito embora os mais antigos manuscritos tenham sido escritos tanto tempo depois da redação original e o número de manuscritos remanescentes seja, em muitos casos, tão pequeno, está claro que da mesma forma, fica assegurada a credibilidade no texto do Novo Testamento “. 37/16
Mesmo em relação aos Anais do famoso historiador Tácito, no que diz respeito aos seis primeiros livros dessa obra, ela só sobreviveu devido a um único manuscrito, do século nono. Em 1870 o único manuscrito conhecido da Epístola a Diogneto, um texto cristão bem antigo que os compiladores geralmente incluem entre os escritos dos pais Apostólicos, perdeu-se num incêndio na biblioteca municipal de Estrasburgo. Em contraste com esses dados estatísticos, o crítico textual do Novo Testamento fica perplexo diante da riqueza de material disponível “. 62/34
F.F. Bruce declara “No mundo não há qualquer corpo de literatura antiga que, à semelhança do Novo Testamento, desfrute uma tão grande riqueza de confirmação textual”. 15/178
| AUTOR | Data do Original | Cópia mais Antiga | Intervalo em anos | N.º de Cópias |
| César | 100-44 a.C. | 900 A.D. | 1.000 | 10 |
| Lívio | 59 a.C. – 17A.D. | 20 | ||
| Platão | 7 | |||
| (Tetralogias) | 427 – 347 a.C.. | 900 A.D. | 1.200 | |
| Tácito (Anais) | . | 100 A.D. | 1100 A.D. | 1.000 |
| Obras | 20(-) 100 A.D. | 1100 A.D. | 1.000 | 1 |
| Plínio Jovem | ||||
| (História) | 61 – 113 A.D. | 850 A.D. | 750 | 7 |
| Tucídedes | ||||
| (História) | 460 – 400 a.C. | 900 A.D. | 1.300 | 8 |
| Suetônio | ||||
| (De Vita Caesarum) | . | 75 – 160 A.D | 950 A.D. | 800 |
| Heródoto | ||||
| (História) | 480 – 425 a.C. | 900 A.D. | 1.300 | 8 |
| Horácio | 900 | |||
| Sófocles | 496 – 406 a.C. | 1000 A.D. | 1.400 | 193 |
| Lucrécio | Morto 75 – 160 A.D o | 1.100 | 2 | |
| Cátulo | 54 a.C. | 1550 A.D. | 1.600 | 3 |
| Eurípides | 480 – 406 a.C. | 1100 | 1.300 | 200 |
| Desmóstenes | 383 – 322 a.C. | 1100 A.D. | 1.300 | 200* |
| Aristóteles | 384 – 322 a.C. | 1100 A.D. | 1.400 | 49+ |
| Aristófanes | 450 – 385 a.C. | 900 A.D. | 1.200 | 10 |
* Todos de uma única cópia
+ De qualquer obra isolada
2b. A Comparação Textual
Bruce Metzger comenta: “Dentre todas as composições literárias escritas pelo povo grego, os poemas homéricos são os mais adequados para uma comparação com a Bíblia “.61/144 Ele acrescenta: “Em todo o corpo de literatura antiga, tanto grega como latina, a Ilíada é a que mais se aproxima do Novo Testamento por possuir a maior quantidade de testemunho de manuscritos”. 61/144
Metzger continua: “Na antigüidade os homens (1) memorizavam Homero assim como mais tarde iriam memorizar as Escrituras.(2) Tanto Homero como as Escrituras foram tidos na mais alta estima, sendo citados na defesa de argumentos acerca do céu, da terra e do Hades. (3) Homero e a Bíblia serviram de cartilha para diferentes gerações de escolares que neles aprenderam a ler. (4) Ao redor de ambos cresceu um grande volume de notas marginais e comentários. (5) Ambos tiveram glossários. (6) Ambos caíram nas mãos dos alegoristas. (7) Ambos foram imitados e tiveram suplementos – um com os hinos e escritos homéricos, tais como o Batracomiomáquia, e o outro com os livros Apócrifos. (8) Homero foi analisado e prosado; o evangelho de João foi versificado em hêxametros épicos por Nono de Panópolis. (9) Os manuscritos tanto de Homero como da Bíblia foram ilustrados. (10) As descrições homéricas apareceram nos murais de Pompéia; as basílicas cristãs foram decoradas com mosaicos e afrescos de episódios bíblicos”. 61/144,145
E.G. Tuner destaca que, sem dúvida alguma, Homero foi o autor mais lido na antigüidade. 92/97
Geisler e Nix comparam as variações textuais existentes entre os documentos do Novo Testamento e as obras antigas: “Em seguida ao Novo Testamento, existem mais manuscritos remanescentes da Ilíada (643) do que de qualquer outro livro.
Eles prosseguem dizendo que “a Ilíada tem cerca de 15.600. Há dúvidas sobre apenas 40 linhas (ou 400 palavras) do Novo Testamento, enquanto que, no caso da Ilíada, questionam-se 764 linhas. Esses cinco por cento de corrupção textual contrastam-se com o meio por cento de emendas no texto do Novo Testamento.”
No livro Introduction to Textual Criticism of the Testament (Intrdução à critica do Novo Testamento), Benjamin Warfield cita a opinião de Ezra Abbot sobre noventa e cinco por cento das variações textuais do Novo Testamento, afirmando que elas: “… possuem base tão insignificante… embora haja várias leituras possíveis ; e noventa e cinco por cento das variações textuais do Novo Testamento, afirmando que elas: “… possuem base tão insignificante… embora haja várias leituras possíveis; e noventa e cinco por cento das variações restantes são de importância tão ínfima que sua aceitação ou rejeição não provocaria qualquer diferença significativa no sentido das passagens onde elas ocorrem”. 100/14
Geisler e Nix fazem a seguinte observação sobre como são contadas as variações textuais: “É ambíguo dizer que existem umas 200.000 variantes nos manuscritos existentes do Novo Testamento, desde que elas dizem respeito apenas 10.000 lugares no Novo Testamento. Se uma única palavra é escrita de modo errado em 3.000 manuscritos, isso é contado como sendo 3.000 variantes ou leituras”. 32/361
Fenton John Anthony Hort, que passou a vida lidando com manuscritos diz: “É bem grande a proporção de palavras que, sem que haja qualquer dúvida sobre elas, são virtualmente aceitas em todos os manuscritos.
“Se os princípios seguidos nesta edição estão corretos, pode-se reduzir bastante esse número. Reconhecendo plenamente o dever de nos abstermos de decisões categóricas, em casos em que os dados deixam em suspenso o julgamento entre duas ou mais leituras, descobrimos que, pondo de lado as diferenças de ortografia, em nossa opinião as palavras ainda sujeitas a dúvida constituem cerca de seis por cento de todo o Novo Testamento.
Um estudo cuidadoso das variações (ou leituras diferentes) dos várias manuscritos mais antigos revela que nenhuma delas afeta uma única doutrina das Escrituras. O sistema de verdades espirituais contido no texto hebraico geralmente aceita do Antigo Testamento não é alterado nem deturpado por qualquer uma das diferentes leituras encontradas nos manuscritos hebraicos de datas mais antigas e que foram descobertas nas cavernas do mar Morto ou em qualquer outro lugar.
Benjamin Warfield disse: “Se compararmos a situação atual do texto do Novo Testamento com a de qualquer outro escrito antigo, precisaremos declarar que o texto é maravilhosamente correto, tão grande é o cuidado com que o Novo Testamento tem sido copiado – um cuidado que, sem dúvida alguma, é fruto de uma verdadeira reverência para com suas santas palavras – tão grande tem sido a providência de Deus em preservar para a sua igreja em todas as épocas um texto suficientemente exato, que o Novo Testamento não tem rival entre os escritos antigos, não apenas em termos de pureza de texto pela maneira como foi transmitido e mantido em uso, como também em termos de abundância de testemunhos, os quais chegaram até nós para corrigir falhas relativamente esporádicas.” 100/12,13
2c. CRONOLOGIA DE IMPORTANTES MANUSCRITOS DO NOVO TESTAMENTO
Métodos de Datação: Alguns dos fatores que ajudam a determinar a idade dos manuscritos são: 32/242 – 246
1)Materiais 5) Ornamentação
2)Tamanho e forma das letras 6) Cor da tinta
3)Pontuação 7) Textura e cor do pergaminho
4)Divisões do texto
O manuscrito de John Rylands (130 A.D.) encontra-se na biblioteca John Rylands, na cidade de Manchester, na inglaterra, e é o mais antigo fragmento existente do Novo Testamento.
Bruce Metzger fala de uma crítica abandonada: “Caso se tivesse conhecido esse pequeno fragmento durante meadas do século passado, aquela escola de crítica do Novo Testamento, a qual foi inspirada pelo brilhante professor de Tubinga, Ferdinand Chriastian Baur, não poderia Ter defendido que o quarto Evangelho só foi escrito por volta de 160 A.D.” 62/39
No antigo “Zur Datierung des Papyrus Bodmer II (P.66)” (A Respeito da Datação do Papiro Bodmer II) (In: Anzeiger Der Osterreichischen Akademie Der Wissenschaften (Informativo da Academia Austríaca de Ciências) n 4, 1960, p. 12033), “Herbert Hunger, diretor das coleções papirológicas da Biblioteca Nacional de Viena, atribui ao papiro 66 uma data anterior, meados do século segundo, ou até mesmo a primeira metade desse século; veja o artigo que ele escreveu.” 62/39,40
O códice Vaticano (325 – 350 A.D.), situado na Biblioteca do Vaticano, contém quase toda a Bíblia.
O códice Sinaítico (350 A.D.) encontra-se no Museu Britânico. Esse manuscrito, que contém quase todo o Novo Testamento e mais da metade do Antigo Testamento, foi descoberto em 1859, no mosteiro do Monte Sinai pelo Dr. Constantin von Tischendorf, sendo presenteado ao Czar da Rússia pelo mosteiro. Posteriormente, no dia de Natal de 1933, o povo e o governo britânicos o adquiriram da União Soviética por 100.000 libras.
Em 1853, uma Segunda visita de Tischendorf ao mosteiro não resultou em novos manuscritos porque os monges estavam desconfiados devido ao entusiasmo que Tischendorf demonstrava diante do manuscrito que vira por ocasião de sua primeira visita, em 1844. Escondendo suas emoções, Tischendorf casualmente pediu permissão para examiná-lo mais vagarosamente aquela noite. Com a permissão concedida e tendo-se retirado para seu quarto, Tischendorf passou a noite toda tendo prazer de estudar o manuscrito – pois, como escreveu em seu diário (que, sendo um erudito, mantinha em latim), quippe dormire nefas videbatur (‘ na verdade, dormir parecia um sacrilégio ‘)! Logo descobriu que o documento continha muito mais do que ele até mesmo esperara; pois não apenas a maior parte do Antigo Testamento estava ali, como também o Novo Testamento estava intacto e em excelentes condições, havendo também duas antigas obras cristãs do segundo século, a Epístola de Barnabé (anteriormente conhecida só através de uma tradução latina bem deficiente) e uma grande porção de Pastor de Hermes, obra até então só conhecida de nome”.
2d. A CREDIBILIDADE DOS MANUSCRITOS APOIADA POR VÁRIAS TRADUÇÕES
As traduções antigas constituem um outro forte apoio em favor do testemunho e exatidão dos textos. Em sua maior parte, “raramente a literatura antiga era traduzida para um outro idioma”. 37/45
“As primeiras versões do Novo Testamento foram preparados por missionários, para auxiliarem na propagação da fé cristã entre os povos cujas línguas nativas eram siríaco, o latim ou o copta.” 62/67
As versões (traduções) do Novo Testamento em siríaco e em latim foram feitas por volta de 150 A.D. Isso nos deixa bem próximos da época da composição dos originais.
Existem mais de 15.000 cópias de várias versões
1 .a Versões siríacas
A velha versão siríaca contém os quatro evangelhos, copiada por volta do século quarto. É preciso explicar que “siríaca é o nome geralmente dado ao aramaico cristão. É escrito numa variação distinta do alfabeto aramaico”. 15/193
Teodoro de Mopsuéstia (século quinto) escreveu: “Foi traduzida para línguas dos sírios”. 15/193
Peshita. O sentido básico dessa palavra é “simples”. Foi a versão padrão, preparada por volta de 150-250 A.D. Hoje existe mais de 350 manuscritos conhecidos, copiados no século quinto. 32/317
Siríaca Palestinense. A maioria dos estudiosos atribuem a essa versão a data de aproximadamente 400-450 A.D. (século quinto). 62/68-71
2b. Versões Latinas
Velha Latina. Existem testemunhas, a partir do século quarto até o século treze, de que, no século terceiro, “uma velha versão latina circulou no norte da África e na Europa…”
Velha Latina Africana (códice Bobbiense) 400 A.D. Metzger diz que “.E.A. Lowe revela indícios paleográficos de Ter sido copiada de um papiro do século segundo”. 62/72-74
O Códice Corbiense (400-500 A.D.) contém os quatro evangelhos.
Códice Vercelense (360 A.D.).
Códice Palatino (século quinto A.D.).
Vulgata Latina (vulgata é palvra que significa “comum” ou “popular”). Jerônimo era secretário de Damásio, bispo de Roma. Entre 366 e 384, Jerônimo atendeu a um pedido do bispo para que preparasse uma versão. 15/201
2c. Verões Coptas (ou Egípcias)
F.F. Bruce escreveu que é próvavel que a primeira versão egípcia foi traduzida no século terceiro ou quarto. 15/214
Bohaírica. Rodalphe Kasser, que editou o texto impresso dessa versão, calcula que ela deve datar do século quarto. 37/50
2d. Outras versões Antigas
Armênia (a partir de 400. A.D.). Parecer Ter sido traduzido de uma Bíblia em grego obtida em Constantinopla.
Gótica. Século quarto. Geórgica. Século quinto.
Etiópica. Século sexto.
Núbia. Século sexto.
1.A CREDIBILIDADE DOS MANUSCRITOS APOIADA
PELOS PRIMEIROS PAIS DA IGREJA
A Enciclopédia Britânica afirma: “Após Ter examinado os manuscritos e versões, crítico textual ainda assim não esgotou o estudo das provas em favor do texto do Novo Testamento. Freqüentemente os escritos dos primeiros pais da igreja refletem uma forma de texto diferente da de um ou outro manuscrito… os testemunhos que dão do texto, especialmente quando corroboram leituras oriundas de outras fontes, são algo que o crítico textual deve consultar antes de formar juízo a respeito”. 25/579
Em refência às citações em comentários, sermões, etc. , Bruce Metzger reitera a declaração acima, dizendo: “De fato, essas citações são tão vastas que, se todas as demais fontes de conhecimento sobre o texto do Novo Testamento fossem destruídas, sozinhas essas citações seriam suficientes para a reconstituição de praticamente todo o Novo Testamento”. 62/86
Após uma prolongada investigação, Darlymple chegou à seguinte conclusão: “Veja aqueles livros. Você se lembra da pergunta que me fez sobre o Novo Testamento e os pais? Aquela pergunta despertou a minha curiosidade, e, como eu conhecia todas as obras existentes dos pais do segundo e terceiro séculos, comecei a pesquisar e, até agora, já encontrei todo o Novo Testamento, com exceção de onze versículos”. 58/35,36
Uma advertência: Joseph Angus, em História, Doutrina e Interpretação da Bíblia ; Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1971,1953. 2 vol., apresenta algumas limitações dos escritos patrísticos antigos:
1.Às vezes se fazem citações sem exatidão verbal.
2.Alguns copistas tinham tendências para erros ou para alterações intencionais.
Clemente de Roma (95 A.D.). Origines, em De Principus (sobre o principio), livro II, capítulo 3 , chama-o de discípulo dos apóstolos. 8/28
Irineu, prossegue, em Contra Heresias, livro III, capítulo 3, dizendo que “ainda tinha o ensino dos apóstolos ecoando em seus ouvidos e a doutrina deles diante de seus olhos”. Ele faz citações de:
Mateus 1Coríntios
Marcos 1Pedro
Lucas Hebreus
Atos Tito
Inácio (70-110 A.D.)foi bispo de Antioquia e foi martirizado, tendo conhecido bem os apóstolos. Suas sete cartas contêm citações de:
Mateus Efésios 1 e 2 Tessalonicenses
João Filipenses 1 e 2 Timóteo
Atos Gálatas 1 Pedro
Romanos Colossenses
1Coríntios Tiago
Policarpo (70-156 A.D.), martirizado aos 86 anos de idade, foi bispo de Esmirna e discípulo do apóstolo João.
Entre outros que também citaram o Novo Testamento encontram-se Barnabé (cerca de 70 A.D.), Hermas (cerca de 95 A.D.), Taciano (cerca de 170 A.D.) e Irineu (cerca de170 A.D.).
Clemente de Alexandra (150-212 A.D.). Dentre as citações que faz, 2.4000 são do Novo Testamento. Ele cita todos os livros, com exceção de três.
Tertuliano (160-220 A.D.) foi presbítero da igreja em Cartago, tendo citado mais de 7.000 vezes o Novo Testamento, das quais 3.800 são citações dos Evangelhos.
Hipólito (170-235 A.D.) faz mais de 1.300 referências ao Novo Testamento.
Justino Mártir (133 A.D.) combateu o herege Marcião.
Geisler e Nix acertadamente concluem dizendo que, “a esta altura, um rápido apanhado estatístico mostrará a existência de umas 32.000 citações do Novo Testamento feitas até a época do concílio de Nicéia (325 A.D.). Essas 32.000 são apenas um número parcial, e nem mesmo incluem os escritores do século quarto. Apenas acrescentando-se as citações feitas por um outro escritor, Eusébio, que escreveu prolificamente num período que vai até o concílio de Nicéia, teremos o total de citações do Novo Testamento aumentando para mais de 36.000″. 32/353,354
A todos esse ainda se pode acrescentar os nomes de Agostinho, Amábio, Latâncio, Crisostomo, Jerônimo, Gaio Romano, Atanásio, Ambrosósio de Milão, Cirilo, de Alexandria, Efraim o Sírio, Hilário de Poitiers, Gregório de Nissa, etc.
Sobre as citações patrísticas do Novo Testamento, Leo Jaganay escreve: “Dentro as volumosas obras de material não publicado que o deão Burgon deixou ao morrer, destaca-se o índice de citações do Novo Testamento, feitas pelos pais da igreja antiga. Consiste de dezesseis espessos volumes que se encontram no Museu Britânico, e contém 86.489 citações”. 44/48
CITAÇÕES PATRÍSTICAS DO NOVO TESTAMENTO
| ESCRITOR
|
Evangelhos | Atos | Epístolas Paulinas | Epístolas Gerais | Apocalipse | Total |
| Justino Mártir | 268 | 10 | 43 | 6 | 3 266 alusões | 330 |
| Irineu | 1.038 | 194 | 499
|
23 | 65 | 1.819 |
| Clemente de Alex. | 1.017 | 44 | 1.127 | 207 | 11 | 2.406 |
| Orígenes | 9.231 | 349 | 7.778 | 399 | 165 | 17.992 |
| Tertuliano | 3.822 | 502 | 2.609 | 120 | 205 | 7.258 |
| Hipólito | 734 | 42 | 387 | 27 | 188 | 1.378 |
| Eusébio | 3.258 | 211 | 1.592 | 88 | 27 | 5.176 |
| Totais | 19.368 | 1.352 | 14.035 | 870 | 664 | 36.289 |
| *14/357 | ||||||
1b. A CREDIBILIDADE DOS MANUSCRITOS APOIADA PELOS LECIONÁRIOS
Essa é uma grandemente negligenciada, e, no entanto, o segundo maior grupo de manuscritos gregos do Novo Testamento é o dos lecionários.
Bruce Metzger explica a origem dos lecionários: “Seguindo o costume das sinagogas, mediante o qual em todos os sábados, por ocasião do culto religioso, liam-se trechos da lei e dos profetas, a igreja Cristã adotou a prática de ler trechos do Novo Testamento por ocasião dos cultos. Desenvolveu-se um sistema regular de lições dos Evangelhos e das Epístolas, e surgiu o costume de prepará-las de acordo com uma ordem fixa de domingos e outros dias santificados do ano cristão”. 62/30
Em geral, os lecionários refletiam uma atitude bem conservadora e utilizavam textos mais antigos. Isto os torna muito valiosos na crítica textual. 62/31
CONCLUSÃO
Como foi estudado, o cânon surgiu para que houvesse uma separação entre o certo e o errado. Pois não podemos viver-nos indecisos? Não é verdade? Então a questão do cânon, que significa, regra de fé, apareceu, surgiu, para que falasse não só a igreja, mais as pessoas, acerca de que quias livros da Bíblia, das Santas Escrituras, foram realmente inspiradas, feitos por uma autoridade divina. Mais não foi só isso não; para que tudo finalizasse bem (em relação aos livros), a igreja precisou de muita luta. Os pais da igreja (os lideres questionaram muito sobre isso. Pois se podia dizer que um livro era canônico mediante alguns critérios, como por exemplo: Foi preciso provar que tal livro possuía autoridade e era dinâmico; como nós sabemos muito bem que a Bíblia tem o poder, autoridade de salvar vidas.
Se ele era digno de confiança a aBíblia fala mesmo a verdade? Podemos nós seguir-mos o que está escrito na Bíblia? Seus ensinamentos (como o de Paulo) possuem mesmo confiança? Enfim era preciso que fosse lido, guardado, usado e principalmente aceito pelo povo.
Outra questão também que envolvia os livros da Bíblia; foi aquestão do Novo Testamento. A onde foi preciso provar se tal livro possuía inspiração e era apóstolico. Pois nós sabemos muito bem que a maioria das cartas relacionadas a igreja foram escritos pelos apóstolos do Senhor, que eram homens dotados pelo Espírito Santo; pelo qual eles foram guiados a escrever somente a verdad. Então o que foi questionado foi o seguinte: So se era considerado o livro (como as épistolas de Paulo aos Hebreus), caso fosse provado que foi Paulo realmente que escrevera. Caso contrário não era apóstolica, nem muito menos canônico.
Enfim até os políicos perseguirem a igreja a respeito da canonicidade dos livros.
Vimos também o aparecimento, o crescimento de outros livros daBíblia considerados como (apócrifos-falsos). Daí surge a questão:”E os católicos? A onde ficam nessa história. Será que só os cristões tem razão? Somente os livros da Bíblia deles falam a verdade? Mas é a partir daí que surgiram as brigas; quanto mais a igreja católica afirmava que a nossa Bíblia é que era falsa, mais surgiam-se os falsos livros. Mais tudo isso resultou-se no seguinte: Até hoje os 66 livros constados na Bíblia dos evangélicos é que são oficialmente oficializados como canônicos; e não os 7 a mais da Bíblia dos católicos. Que por sinal em um dos seus livros apócrifos, o próprio autor pede perdâo pelo que escreve.
Enfim resumidamente essas foram as questões que envolveram a canoicidade dos livros. Sabendo-se que tanto como o livro do Antigo como o do Novo são considerados até hoje como livros inspirados e Sagrados por Deus. E que cabe a nós, seguidores e ouvintes da palavra, dar-mos glória a Deus por por tudo que esses livros pôde e pode trazer a nós.
BIBLIOGRAFIAS:
A Bíblia Através dos Séculos – Antônio gilberto
Introdução Bíblica – Norman Geisler
Enciclópedia Bíblica
Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia – R. N Champlin, Ph.D
J. M. Bentes
31.05.2010
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O CAMINHO DO PERDÃO
“Também os frutos que a tua alma cobiçava foram-se de ti e todas as coisas delicadas e suntuosas se foram de ti e nunca mais serão achadas.” (Ap 18:14)
Assim está escrito e assim deveria se cumprir, se o Pai Celestial não fosse um Deus Vivo de perdão e amor, capaz de reconhecer as falhas de um filho seu e se rejubilar com a sua volta, ainda que tenha vivido mergulhado nas trevas e chegada ao fundo do mais escuro dos poços a que um homem pode chegar.
Em meus muitos anos de pregação, tenho visto muita alma se perder por sua própria vontade, pelo seu orgulho, pela deliberada intenção de se deixar atrair pelas ilusões do diabo, que enche suas armadilhas de luzes e atrações cheias de beleza para esconder o horror e a danação que esperam aqueles que se deixam enganar.
“Contudo se tu avisares o ímpio e ele não se converter da sua impiedade e do seu mau caminho, ele morrerá na sua iniqüidade, mas tu livraste a tua alma.”(Ez 3:19)
É bem clara a citação de Ezequiel, que tranqüiliza aquele que tenta salvar da iniqüidade o pecador, mas isso não o livra da dor de ver um irmão se perder, fugindo da proteção de Deus para se deixar iludir pelo demônio. Como pregador, sofre-se em dobro a cada ovelha perdida, mas há tantas a serem salvas que a perda de uma pode ser compensada pela salvação de centenas. Aquela que se perdeu, no entanto, é um duro golpe no coração do pastor, que jamais há de se conformar com essa perda. A fé no Deus vivo e na sua obra, a crença na força de sua palavra, no entanto, não devem ser esquecidas. Se o diabo seduz, o poder de Deus cura o deslumbramento. Se o diabo destrói, a fé no Senhor Jesus reconstrói. Se o diabo arrasta para a lama, o Espírito Santo purifica. É assim que tem que ser.
Em minhas pregações, vejo pessoas que hoje participam e oram juntas na igreja, num testemunho vivo do poder e da glória do Senhor Deus, de seu Filho e do Espírito Santo. Poucos sabem, porém, de seus dramas e de suas histórias. Quem os vê hoje, esbanjando saúde, prósperos, com uma empresa em expansão ou com um bom emprego, com uma boa casa, carro do ano, celular, parabólica e todo o conforto que o dinheiro pode comprar, pode achar que são pessoas de sorte, que nasceram em berço de ouro.
Poucos conhecem suas jornadas ao fundo do poço da qual jamais esperavam sair, não fosse a o milagre da palavra e o infinito perdão do Pai e da graça do Espirito Santo. Descrentes e desesperados, quando mais nada lhes restava, o poder da Palavra os tocou e eles abriram seus corações para Jesus, que os resgatou das trevas. Tenho certeza, como tenho certeza no poder de Deus, que neste momento há muita pessoas assim, em desespero, mas orando e perseverando, enquanto choram lágrimas de sangue e de sofrimento. A elas a minha bênção e o meu conforto e a certeza de que Ele não deixará que suas orações sejam em vão.
Conheçam esses testemunhos. A pedidos, nomes e sobrenome foram mudados. Que a Glória de Deus recaia sobre todos vocês!
Capítulo 1
“E o Senhor vos espalhará entre os povos e ficareis poucos em número entre as nações para as quais o Senhor vos conduzirá.
Lá servireis a deuses que são obra de mãos de homens, madeira e pedra, que não vêem, nem ouvem, nem comem, nem cheiram.
Mas de lá buscarás ao Senhor teu Deus e o acharás, quando o buscares de todo o teu coração e de toda a tua alma.
Quando estiveres em angústia e todas estas coisas te alcançarem, então nos últimos dias voltarás para o Senhor teu Deus e ouvirás a sua voz, porquanto o Senhor teu Deus é Deus misericordioso e não te desamparará, nem te destruirá, nem se esquecerá do pacto que jurou a teus pais.”(Dt 4:27-31)
Naquela manhã quente de primavera, quando as lojas começavam a se enfeitar para as festas de fim de ano, os empregados da Salgado & Filhos Ltda. esperavam pelas ordens do patrão que, naquele momento, iniciava um estranho ritual.
— Que cheiro ruim, seu Salgado! — protestou uma das empregadas.
— Não é tão ruim assim, Maria! É um defumador que espanta o azar e atraí dinheiro, clientes e lucro. Neste final de ano eu espero vender como nunca. Tenho certeza que vamos arrebentar no faturamento.
— Ao invés de fazer toda essa fumaceira, porque a gente não reza simplesmente? Meu pastor disse que…
— Eu sei o que o seu pastor disse, Maria. Bota dinheiro na sacolinha que tudo vai mudar! Eu sei disso. Vai mudar para ele!
— Não fala assim, seu Salgado! O senhor está falando de um homem de Deus.
— Esse aqui é o deus dele — falou o comerciante, retirando uma nota de cem reais do bolso e mostrando para a empregada que, naquelas alturas, achou melhor se calar para evitar confusão.
Com um prato de barro cheio de brasas na mão, Salgado percorria as dependências da loja, jogando um pozinho malcheiroso, que se transformava numa fumaça esverdeada e nauseante.
Algumas das moças que ali trabalhavam preferiram sair, pois não estavam suportando o mau cheiro. Quando terminou aquele ritual, Salgado apanhou sete velas e as colocou ao redor de um prato. Dentro do prato ele colocou um punhado de sal grosso, açúcar e sete moedas do mesmo valor. Acendeu as velas e rezou uma oração esquisita, que trazia escrita numa folha de papel.
— Jesus Cristo, seu Salgado! O que é isso agora? — quis saber Maria, já horrorizada com tudo aquilo.
— Estou lhe dizendo, Maria, este vai ser o nosso ano. Quero ganhar muito dinheiro e…
— Que adianta ganhar dinheiro e perder a alma?
— Pára com isso, Maria! Esse negócio de igreja está deixando você muito medrosa. Isso aqui não faz mal para ninguém, só ajuda!
— Só ajuda? E se os seus concorrentes fizerem o mesmo, como é que fica?
— Quem tiver mais fé, sai ganhando e, nesses assuntos, eu sou mais eu. Ainda mais que tenho mais uma coisinha para me ajudar — falou o comerciante, começando a desembrulhar um pacote. — Enquanto eu preparo isto aqui, mande as meninas começarem a fazer a decoração de natal. Vamos abrir mais tarde hoje, depois que eu terminar minhas simpatias e minhas rezas.
— Se quer tanta ajuda para se sair bem, por que não chama um pastor para vir orar aqui?
— Que pastor, que nada, Maria! Chamei um benzedor dos bons. Meu motorista foi buscá-lo. Deve chegar daqui a pouco. Enquanto isso, olhe o que tenho aqui para me ajudar.
Quando ele terminou de desmanchar o embrulho, Maria sentiu um nó no estômago. Eram imagens de santos de todos os tamanhos, feitas de gesso e pintadas grotescamente, sem beleza e sem serventia alguma.
— O senhor já leu a Bíblia, seu Salgado? — perguntou-lhe Maria.
— Já li mais de dez vezes. Quando eu fazia catecismo, tinha que ler toda semana.
— E por acaso se lembra do que estava escrito em Deuteronômio:6.
O comerciante interrompeu seu trabalho de arrumar as imagens num pequeno altar, olhou para a empregada e começou a rir.
— E por acaso você se lembra, Maria?
— Pois eu me lembro. Diz assim: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra; não te encurvarás diante delas, nem as servirás, porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam e uso de misericórdia com milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos.”
— Meus parabéns, Maria! Tem uma boa memória. Espero que se lembre de me agradecer, quando receber as comissões das vendas que vamos fazer neste final de ano. Estas imagens aqui são apenas a lembrança dos santos, uma espécie de recordação, como a fotografia do seu namorado que eu sei que você traz na carteira e olha de vez em quando.
— É diferente, seu Salgado. Eu não presto culto ao meu namorado. Eu tenho amor por ele, entende?
— No fim, é tudo a mesma coisa, Maria. Agora deixa para lá. Esse que está chegando aí é o benzedor. Vou recebê-lo.
Horrorizada, Maria viu o patrão, um homem aparentemente inteligente e culto, bem vestido e bem falante, ir ao encontro de um indivíduo esquisito, com uma roupa cheia de penduricalhos, um rosário no pescoço e olhos escuros e profundos.
Conversaram por alguns instantes, depois o homem retirou um ramo de arruda de uma velha mala e começou a agitá-lo no ar, enquanto caminhava pelo estabelecimento, murmurando algo que parecia ser uma oração, mas que ninguém entendia.
— Isso me parece coisa do diabo! — comentou Maria com sua amiga Sandra.
— Deixa de pegar no pé do patrão, Maria. Você está ficando muito chata com esse negócio de igreja. Se der certo toda essa maluquice que ele está fazendo, nós só temos a ganhar. Vamos ter ótimas vendas e passar um final de ano tranqüilo. Estou precisando de dinheiro e não me importa se tiver que aturar todo esse fedor e essas loucuras para conseguí-lo.
— Que proveito terá o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? O que dará o homem em troca da sua alma? — comentou Maria, lembrando Mateus 16:26.
— Não embaça, Maria! Não se faça de santa, porque eu sei que você precisa tanto de dinheiro quanto qualquer uma de nós. Agora vamos trabalhar, antes que o patrão fique bravo com a gente.
A contragosto, Maria atendeu a recomendação da amiga. A loja, depois da defumação e da passagem do benzedor, ficara com um clima esquisito, que provocava calafrios. A cada vez que ela olhava para o altar cheio de imagens que o patrão tinha montado num canto da loja, ela se sentia mal.
Como precisava do emprego, resolveu usar o bom senso e esperar uma ocasião mais adequada para voltar ao assunto. Antes, porém, pretendia pedir orientação ao seu pastor já que, naquele ambiente, estava difícil para ela trabalhar.
Terminaram de fazer a decoração natalina na loja e as portas foram abertas. Enquanto isso acontecia, silenciosamente Maria fez uma oração, pedindo que o Espírito Santo iluminasse a todos ali e que tudo que o patrão havia feito fosse perdoado.
Poucos clientes apareceram. O Plano Real ainda era uma incógnita e todos diziam que a vida iria melhorar, principalmente para as classes menos privilegiadas.
Maria torcia para que isso acontecesse, pois pretendia, com o fruto do seu trabalho, dar um pouco mais de conforto a sua família, já que seu pai era aposentado por invalidez e recebia muito pouco. No fim, ela arcava sozinha com o orçamento da casa. Sua irmã mais nova apenas estudava. Maria fazia questão que ela se empenhasse nisso, pois acreditava que o estudo era a maneira mais digna e correta de ser alguma coisa na vida.
Ultimamente, porém, andava preocupada com a irmã, que demonstrava uma certa revolta com tudo e com todos. Parecia que, de uma hora para outra, havia se desiludido com a vida modesta que viviam, aspirando coisas além de suas possibilidades.
Maria se preocupava com ela. Como freqüentava um bom colégio, graças ao sacrifício da irmã, com certeza via as colegas bem vestidas, sempre exibindo novidades e queria fazer o mesmo. Além disso, havia arrumado um namorado que, pelo que Maria sabia, não era uma boa pessoa.
Havia rumores de que se tratava de um traficante. Andava num carro do ano, vestia-se bem e, com certeza, tinha tudo para impressionar uma garota inocente e ingênua como Úrsula, a irmã de Maria.
— Senhor Jesus, dê juízo a minha irmãzinha! — costumava rezar.
*
No seu escritório, Salgado conversava com o benzedor, que havia percorrido todas as dependências da loja, observado o estoque, os móveis e tudo o mais que ali havia. Agora olhava seriamente para o comerciante, fazendo um ar de preocupação.
— Está muito carregado, meu filho. Parece que fizeram um trabalho grande para prejudicar sua vida.
— Sério mesmo, Pai Nozinho?
— Dá para sentir. É coisa de sapo costurado em terreiro de macumba. Sangue e baba foram jogados aqui. Tem gente forte na parada. Você está incomodando muita gente.
O comerciante pensou por instantes, depois se debruçou sobre a escrivaninha para falar mais de perto.
— Na verdade, Pai Nozinho, eu estou fazendo uma grande jogada. Acertei com um fornecedor que ele venderia suas mercadoria apenas para mim e para nenhum de meus concorrentes. É coisa grande. Vou ter estoque e preço. Tive de garantir uma venda mínima, mas sei que vou conseguir, com a sua ajuda. O que nós temos que fazer para isso tudo dar certo?
— É muito dinheiro na parada?
— Muito! Se eu vender, fico rico. Se não vender, vou quebrar, com tanto estoque.
O benzedor pensou por instantes, olhando ao seu redor.
— Vai ter que fazer trabalho pesado.
— Eu faço!
— Custa caro!
— Quanto?
O benzedor deu mais uma olhada do seu redor.
— Uns cinco mil reais…
— Eu pago!
— Daí para mais! — completou o benzedor, ao perceber que o negócio estava para ele.
— Mais quanto?
— Se o filho tirar essa mandinga que tem em cima dele, vai ganhar muito, mas muito dinheiro. Vejo você viajando…
— Longe?
— É, nem longe. Tem que ir de avião?
— Não é a Disneilândia? Minha filha quer que eu a leve para lá nas férias. Se tudo der certo, eu vou levar.
— É isso mesmo! Viagem longa, com a filhinha… Posso ver todo mundo feliz, dando risada, brincando. É, meu filho, tira essa mandinga e sua filhinha não vai esquecer dessa viagem nunca mais na vida!
— Está certo, Pai Nozinho. Vou lhe dar um cheque de cinco mil reais para começar, mas espere uns dias antes de soltá-la. Estou usando o cheque especial e o juro é pesado. Pode ser?
— Não tem problema, filho. Só vou fazer o trabalho na próxima sexta-feira. Eu mando avisar o filho, para ele estar presente. Vai precisar, viu?
— Está certo, Pai Nozinho. Eu estarei lá.
— Vou pedir para o meu boiadeiro que faça um trabalho especial. É o melhor de todos, você vai ver!
— Deixo esses detalhes por sua conta, Pai Nozinho.
— Então confia. E já pode ir tirando os passaportes para a viagem, meu filho.
Satisfeito e empolgado, Salgado se despediu do benzedor, que ficou de lhe dar mais detalhes sobre o trabalho que seria feito na próxima sexta-feira. Se no início estava temeroso, agora estava confiante. Com um benzedor poderoso como Pai Nozinho, ia ser fácil dar de dez a zero na concorrência.
Fechou a porta do seu gabinete, apanhou o telefone e discou. Uma voz feminina delicada e provocante atendeu do outro lado.
— Michele, acho que vou dar a maior tacada da minha vida. Neste final de ano eu arrebento de ganhar dinheiro.
— Que maravilha, meu amor! Então você vai me dar aquele carro que prometeu?
— Claro que sim, meu doce! Pode ir escolhendo a cor.
— Eu já vi um na loja. O vendedor diz que vende em condições.
— Sei, mas não posso dar nada de entrada agora, meu bem. Tenho de começar a vender primeiro…
— Não tem importância. Eles disseram que podem dividir em parcelas. Se for empresa, melhor ainda. Pode fazer um tal de leasing e pagar em vinte e quatro prestações…
— Não sei, o leasing tem juro muito alto, pode ficar difícil pagar as parcelas.
— Bobo! Nem parece que meu docinho é comerciante. Você faz o tal do leasing só para tirar o carro. Quando ganhar o dinheiro, você vai lá e paga, tolinho.
Ele pensou por instantes. Aquela sua amante era terrível, mas tudo valia a pena para contentá-la. Não conseguia entender o que ela vira nele. Uma menina de vinte e cinco anos se apaixonar por um quarentão como ele era uma bênção. Ele se sentia remoçado vinte anos. Ela era exigente, mas como não atender àqueles pedidos, se ela era tão carinhosa e o fazia se sentir tão bem?
Já não vivia bem com sua esposa havia alguns anos. O amor e o romantismo haviam se acabado. Por muitos e muitos anos, Salgado se dedicara ao seu negócio, procurando ganhar dinheiro. Com isso deixara de aproveitar a vida e, agora, sentia que tinha o direito de se dar a esses pequenos luxos.
— Está bem, meu amor! Pode encomendar o carro, então. Hoje à tarde, depois que eu sair daqui, nós vamos até lá buscar. Veja que documentos será preciso e peça ao meu contador. Eu vou ligar para ele e mandar que providencie tudo.
— Oh, Salgado, querido, não sei o que você viu numa garota tão sem graça como eu. Puxa, como eu adoro você! — exclamou Michele, com seu tom de voz mais meigo e doce.
Salgado sorriu, enlevado e enternecido. Era mesmo um homem de sorte. O que mais poderia esperar da vida?
*
Soninha tinha sete anos e freqüentava o primeiro ano de um colégio evangélico, um dos melhores do bairro, onde a educação, além de preparar as crianças para os primeiros anos escolares, preocupava-se também em desenvolvê-las e abrir-lhes a mente para as coisas espirituais.
Além das brincadeiras com as amiguinhas, havia atividades de recreação, alfabetização e leitura. O que ela mais gostava, porém, eram gravuras com cenas bíblicas, coloridas avidamente por suas mãozinhas ainda inseguras, mas criativas. Adorava, também, quando a professora lia trechos da Bíblia, comentando passagens, de um jeito cativante e fácil de entender.
Soninha chamava a atenção pela sua habilidade e sensibilidade na pintura e pela sua esperteza e interesse pelas histórias contadas pelas professoras. Algumas passagens ficaram marcadas em sua mente e ela pedia, sempre que possível, para que lhe fossem repetidas.
— Tia, o que Jesus disse mesmo para os apóstolos que não queriam deixar as crianças se aproximarem dele?
Esta era sua passagem favorita.
— Jesus ficou bravo com eles e disse: deixai vir a mim as criancinhas e não as impeçais, porque delas é o reino de Deus.
A menina tinha seu próprio entendimento daquela passagem e, naquela manhã quente de primavera, resolveu ir além em seus questionamentos.
— Tia, se um dia eu precisar falar com Jesus, não preciso pedir para ninguém, não é mesmo?
— Sim, claro, querida. Basta você abrir seu coração para ele e ele ouvirá e atenderá todos os seus pedidos. Por que você pergunta isso. Tem alguma coisa incomodando você?
— Não, tia. É que meu pai vai me levar na Disneilândia nas férias, mas só se ele vender bastante na loja dele. Acha que posso pedir para Jesus dar uma ajuda para ele?
— Eu acho que Jesus tem coisas mais importantes para fazer do que ajudar alguém a fazer negócios — disse a professora. — Você já pensou, Soninha, se todo comerciante fosse pedir isso para ele? Aí ele não teria tempo para cuidar das criancinhas como você!
Em sua inocência, achou sentido nas palavras da professora. Pensou até que se Jesus fosse agir daquela forma, ajudando a todos os comerciantes, seria melhor que ele mesmo abrisse sua própria loja. Com certeza venderia mais barato e todos poderiam comprar tudo o que precisassem.
Resolveu não pensar mais nisso e pouco depois já estava envolvida numa outra atividade, esquecendo-se da observação da sua professora. A viagem para a Disneilândia estava assegurada, tinha certeza disso. Jesus não a deixaria na mão.
Era uma garota feliz. Tinha tudo que queria. Era amada por seus pais e por seu irmão mais velho. Viajaria para conhecer a Disneilândia e se divertiria muito.
Toda noite, antes de dormir, orava pedindo isso.
Capítulo 2
“Quando teu irmão, filho da tua mãe, ou teu filho, ou tua filha, ou a mulher do teu seio, ou teu amigo que te é como a tua alma, te incitar em segredo, dizendo:
— Vamos e sirvamos a outros deuses! — deuses que nunca conheceste, nem tu nem teus pais, dentre os deuses dos povos que estão em redor de ti, perto ou longe de ti, desde uma extremidade da terra até a outra, não consentirás com ele, nem o ouvirás, nem o teu olho terá piedade dele, nem o pouparás, nem o esconderás, mas certamente o matarás.
A tua mão será a primeira contra ele para o matar e depois a mão de todo o povo e o apedrejarás, até que morra, pois procurou apartar-te do Senhor teu Deus, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão. (Dt 6:6-10)
Em sua casa, Michele conversava alegremente com Míriam, sua amiga, contando a grande novidade. Estava muito feliz com o carro que havia ganho de seu amante.
— É certeza mesmo, Michele?
— Garantido! Já falei com o vendedor e com o contador. Vou sair daqui a pouco para apanhar os papéis com ele e levar para a concessionária de automóveis. À tarde eu e o Salgado vamos passar lá para acertar tudo.
— E como você vai explicar esse carro para sua mãe? — quis saber Míriam.
Uma expressão de preocupação desenhou-se no rosto de Michele, enquanto pensava. Era órfã e sua mãe trabalhava fora o dia todo. Imaginava que a garota também trabalhasse durante o dia e estudasse à noite, sem saber que a menina era sustentada por um homem com idade para ser o pai dela.
— Vou ter que contar que comprei. Não está tão difícil assim comprar um carro a prestação. Vou dizer que economizei, que tinha na poupança, qualquer coisa assim.
A expressão no rosto de Míriam se tornou mais inquiridora. Aproximou-se bem da amiga para perguntar;
— E para o Alfredo, o que vai dizer?
O rosto de Michele se tornou sério. Por um instante um brilho de ternura e carinho cintilou, embelezando-a. Depois seu rosto se endureceu.
— Vou dizer a mesma coisa. Tenho que mentir para todo mundo agora, não é mesmo? Mas que se importa? Vou ter meu carro, tenho dinheiro e se tudo der certo, arranco também um apartamento do Salgado.
— Um apartamento?! — surpreendeu-se Míriam.
— Por que esse espanto? Acha que não sou capaz? Sou muito mais eu, menina. Aquele homem está comendo aqui, na palma da minha mão. E tem mais: vou mandar fazer um trabalho contra a mulher dele para ela secar e sumir. Já pensou se ele ficar viúvo? Eu o faço casar comigo fácil, muito fácil mesmo.
— Me conta como. Estou precisando arrumar um Salgado desses na minha vida.
— Não é difícil, boba! Esses coroas andam loucos para provar que não estão velhos. É só encostar neles, fazer uns agradinhos e começar a tomar o dinheiro dos trouxas. Faça com que eles pensem que são os maiores, os conquistadores, os bons. No fundo são ridículos e se gastam todo o dinheiro conosco, merecemos cada centavo. Agüentar esses tipos é difícil, minha amiga. Mas tem suas compensações. Quer ver só? — indagou Michele, apanhando um porta-jóias e abrindo-o sobre a cama.
Anéis, pulseiras, colares e todo tipo de jóias se espalharam. Brilhantes, esmeraldas e rubis cintilaram naquele pequeno tesouro.
— Minha mãe pensa que isso é bijuteria, mas é tudo de verdade. Vale uma nota, minha filha!
— Michele, esse homem é bom demais para você. Não tem remorso de fazer isso com ele?
— Remorso? Que remorso, que nada, querida. Estou na minha. E ele ainda vai abrir mais a mão ainda. Encomendei um trabalho com a Pomba Gira. É para a mulher dele. Os dois já andam meio separados mesmo. Espere só para ver.
Mexendo nas jóias, Míriam encontrou uma fotografia. Olhou-a. Era o rosto sorridente e honesto de Alfredo, um rapaz que gostava muito de Michele. Ficou olhando por algum tempo e, quando levantou os olhos para a amiga, percebeu que os dela estavam marejados. Por trás de toda aquela frieza e de toda aquela determinação, Michele ainda conservava alguma pureza de sentimentos.
— Você ainda gosta muito dele, não é? — perguntou Míriam.
— Sim, gosto muito. Imagine o que o bobo fez esses dias — comentou, enxugando disfarçadamente os olhos.
— O que foi? — quis saber Míriam.
— Disse que orou por mim na igreja. Que participou de uma corrente pela minha felicidade. Pode uma coisa dessas?
— Você é uma pessoa de sorte, Michele — comentou Míriam. — Tem dois homens maravilhosos em sua vida.
— Pouco com Deus é muito, muito sem Deus é nada! — murmurou Michele, com o olhar distante.
— O que foi? — perguntou Míriam.
— Nada, bobagem minha! O Alfredo é um bom rapaz, bom demais para mim. Honesto, trabalhador, cristão, mas pobre, Míriam. E eu não quero ser pobre o resto de minha vida. Olhe para mim. Sou bonita, não sou? Tenho de usar isso, é a única mercadoria que tenho para negociar os favores de que preciso para subir na vida.
— Esses dias atrás o Alfredo me disse uma passagem interessante da Bíblia — lembrou-se Míriam.
— É? E qual foi?
— Está em Tiago 1:11 e diz assim: “O sol se levanta em seu ardor e faz secar a erva; a sua flor cai e a beleza do seu aspecto perece. Assim murchará também o rico em seus caminhos.”
— E o que isso quer dizer?
— Que a beleza como a riqueza são vazias e frágeis. Acho que foi isso que ele disse.
— O Alfredo não entende nada dessas coisas. Fica mexendo muito com esse negócio de igreja e esquece das coisas mais importantes.
— E que coisas são mais importantes que o trabalho dele na igreja?
— Eu, por exemplo!
— Você não sabe o que está dizendo, Michele. Acha que o Alfredo é ingênuo, que não sabe o que está acontecendo?
— Só se você contou…
— Eu jamais contaria seu segredo, Michele, mas o Alfredo é inteligente e sincero. Já deve ter percebido como você mudou. Ao invés de criticar você, de procurá-la e xingá-la, sabe o que ele faz? — indagou Míriam, olhando a amiga frente a frente.
Por algum tempo, Michele conseguiu sustentar o olhar. Depois de algum tempo, porém, abaixou o rosto. Lágrimas começaram a pingar na fotografia sorridente de Alfredo.
*
Úrsula ficou no portão da escola, quando as aulas terminaram. Os outros alunos foram passando, enquanto ela olhava com atenção para os carros que se aproximavam. De repente, seu semblante se alegrou e ela correu para o meio-fio. Pouco depois um carro novo encostava e ela entrava alegremente.
Beijou o rapaz que estava no volante, depois respirou fundo, olhando ao seu redor. As amiguinhas na calçada olhavam com inveja para ela. Isso a fazia se sentir muito bem.
— E como vai a minha gatinha hoje? — indagou Rodrigo, com sua voz mais melosa.
Era um rapaz de vinte e cinco anos, boa pinta, com a camisa aberta no peito, exibindo uma corrente grossa de ouro, onde pendia um amuleto do Exu Caveira, de quem se dizia protegido.
— Ele me protege de faca, de bala, de soco, de chute, de qualquer tipo de agressão — costumava dizer.
— Hoje, quando eu vinha para a escola, passei na frente daquela loja de roupas. Tinha uns biquínis maravilhosos na vitrine. Vou pedir dinheiro para a Maria para comprar um.
— Se você quiser, eu posso dar um jeito de você ganhar seu próprio dinheiro — disse ele, com desinteresse.
— Verdade? Muito dinheiro?
— Bastante!
— Para fazer o quê?
Ele sorriu.
— Não é para vender meus bagulhos, que nisso não quero você envolvida. É um outro lance legal. Sabia que uma menina como você, com esses dezesseis aninhos lindos que tem, pode ganhar muito dinheiro… Principalmente se for virgem?
— Você sabe que eu sou virgem, Rodrigo. Jamais deixei você avançar o sinal.
— Eu sei disso, minha gatinha, e sempre respeitei você. Só que acho isso uma bobagem, sabia? Uma grande bobagem. O verdadeiro amor não está numa coisinha dessas, mas aqui, no peito, no coração da gente — disse ele, batendo com o punho fechado sobre seu amuleto.
A garota o olhou com admiração, mas com um certo receio também.
— Eu gosto muito de você, Rodrigo, mas tenho muito medo das coisas que você faz.
— E o que eu faço?
— Esse negócio de drogas, de armas, isso tudo.
Ele riu, retirando a carteira do bolso. Abriu-a e despejou um monte de cédulas de cem reais no colo da menina.
— Esse é o meu negócio, Úrsula. Pegue, é tudo seu. Compre o biquíni e fique bem bonita para mim. Quando chegar o verão, vou levar você à praia. Tenho um apartamento lá, sabia?
— Sério? Nunca me falou disso — falou ela, recolhendo com deslumbramento as notas que ele jogara em seu colo.
— Tenho tantas coisas que nem me lembro de contar sobre todas elas. Você saberá com o tempo.
— Puxa, gostaria de ter tanto dinheiro assim! — suspirou ela, começando a contar as notas.
— E pode, se quiser!
Ela parou de contar e levantou os olhos lentamente para ele.
— Como?
Ele a olhou no fundo dos olhos, sondando-a. Sabia que já tinha domínio sobre ela. O importante era não forçar demais a situação. Úrsula era muito valiosa para ele, àquelas alturas. Era, em sua opinião, a mercadoria mais cara que ele tinha para vender. E saberia vendê-la com um lucro excelente.
— Ah, esquece isso, minha gatinha! Já tem o dinheiro para comprar o biquíni. Não precisa se preocupar. E vou dizer o que nós vamos fazer. Vou levá-la àquela churrascaria que você gosta para almoçar. Depois vamos ao cinema, o que acha?
— Preciso avisar em casa e…
— Tome, ligue para sua irmã no meu celular — disse ele, passando o aparelho para ela. — Se quiser, pode ligar também para suas amiguinhas, enquanto a gente vai para a churrascaria.
— Verdade? Não fica muito caro para você depois?
— Nada é caro demais para a minha gatinha — sorriu ele, fazendo um carinho no rosto dela.
Úrsula segurou a mão dele e levou-a aos lábios, beijando-a inocentemente. Longe de enternecer o coração endurecido do traficante, aquele beijo apenas confirmou o acerto de sua escolha. Úrsula iria lhe render um bom dinheiro.
*
Miguel Salgado era o filho mais velho do casal e, apesar do xodó que todos tinham por Soninha, a caçula, ele era muito querido pelos pais e também pela irmã. Ajuizado, inteligente e estudioso, apesar dos seus quinze anos estava sempre atento a tudo que se referia a seus entes queridos, como se fosse o anjo protetor de todos eles.
Nos últimos dias vinha notando, com preocupação, que o semblante de sua mão andava muito sério e tenso. Como a conhecia bem, sentia a falta daqueles sorrisos carinhosos e daqueles olhares cheios de bondade e amor. O que via, eram olhos vermelhos e lacrimejantes.
Estava tentando descobrir uma forma de se aproximar dela e tentar fazer com que ela falasse. Ouvira-a ao telefone algumas vezes naquela semana, conversando com o médico dela. Eram conversas entrecortadas, como se fosse difícil para ela falar com ele.
Dentro de si tinha uma grande preocupação. Juntando tudo que havia observado, desde as conversas com o médico até aqueles remédios com tarja preta que ela escondia em sua penteadeira, podia deduzir que sua mãe estava doente. Mas o que seria que nem ao marido ela havia contado?
Passou a observá-la mais de perto. Reparou, então, que as roupas que a mão usava estavam mais folgadas. Sua mãe havia emagrecido alguns quilos. Começava a perceber isso inclusive no rosto dela. Além disso, perdia muito cabelo.
Naquela tarde, quando foi à loja, tentou falar com o pai a respeito do assunto.
— Doente? Sua mãe? Que nada, meu filho! Deve ser aqueles remédios para emagrecer que ela anda tomando. Está querendo voltar a ser uma menininha, não percebe como isso é ridículo.
— Eu não sei, pai, acho que é mais do que isso.
— Está certo, filho, eu vou falar com ela hoje à noite. Agora tenho trabalho. Está acabando de chegar um grande estoque para a loja. Se tudo der certo, vamos ficar ricos, meu filho. Agora deixa o papai ir trabalhar, está bem?
O garoto viu seu pai se dirigir aos fundos da loja, onde ficava o depósito. Foi até a porta e ficou olhando o movimento da rua. Nas outras lojas, a decoração de natal também havia sido instalada, criando conjunto feérico e chamativo.
Maria se aproximou, olhando-o.
— O que foi, Miguel? Parece preocupado, meu anjo?
Ele tentou sorrir. Maria era a única que o tratava de anjo e ele gostava daquilo. Dizia que seu nome era o nome de um Anjo.
— Está em Apocalipse 12:7-8: “Então houve guerra no céu: Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão. E o dragão e os seus anjos batalhavam, mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou no céu” — explicara ela para o rapaz. — Sabe o que isso significa? Que Miguel é um grande anjo, chefiando muitos outros anjos e que juntos enfrentaram o diabo, vencendo-o.
Maria passou o braço pelos ombros do rapazinho e balançou-o, animando-o.
— Vamos lá, meu anjo, o que está acontecendo com você? — insistiu ela.
— Puxa, Maria, você me conhece só de me ver, não é mesmo?
— É porque gosto muito de você, Miguel. Agora me conta o que tanto o preocupa.
— É a minha mãe. Acho que ela está doente. E acho que é doença séria — disse ele.
— Como sabe?
— Está emagrecendo, o cabelo dela está caindo e ela anda tomando este remédio aqui — disse ele, exibindo uma bula que havia retirado da caixinha, na penteadeira da mãe.
Ao ver o nome do remédio, um arrepio percorreu o corpo de Maria. Conhecia aquele nome. Seu pai tomara muitos vidros daquele remédio, antes de morrer de uma doença terrível: câncer.
Apanhou o papel das mãos de Miguel, dobrou-o e guardou-o no seu bolso.
— Não precisa se preocupar, Miguel. Vou levar comigo esta bula e vou pedir ao meu pastor para incluir o nome de sua mãe na nossa próxima corrente da saúde. Seria ótimo se ela pudesse ir à igreja e participar, mas vou tentar ajudá-la.
— Verdade mesmo, Maria? Olhe, se for mesmo preciso, eu a levo até a igreja. Amo demais minha mãe e não quero vê-la sofrendo.
— Então fale com ela. Na próxima sexta-feira vamos ter um culto especial, pela saúde dos enfermos. Se puder levá-la será ótimo!
— Obrigado, Maria! Você me deixou mais tranqüilo agora — falou o rapaz, despedindo-se da amiga e voltando para casa.
Procurou pela mãe, que estava deitada. Ao vê-la no leito, na penumbra do quarto, teve certeza de que ela estava mesmo doente. Aproximou-se lentamente.
— Está tudo bem, mãezinha? — indagou, sentando-se na beirada da cama.
— Sim, filhinho. Mamãe estava cansada e resolveu deitar um pouco — disse ela, abrindo os braços.
O menino se aninhou nos braços dela, abraçando-a também. Ficou ali, trêmulo, sentindo uma angústia interior muito grande.
— Mamãe, se eu pedir uma coisa, você faz para mim?
— Claro, meu filho. Você sabe que eu faço qualquer coisa por vocês.
— Você conhece a Maria, não é?
— A empregada da loja?
— Essa mesmo.
— Claro que conheço, filho.
— Ela nos convidou para ir à igreja dela e eu fiquei com vontade de ir. Você me leva? Eu prometi para ela que iria.
A mãe ficou surpresa.
— Mas a Maria freqüenta uma igreja evangélica, que eu sei. Nós somos de outra doutrina…
— Tudo é cristianismo, mãe. Eles acreditam em Cristo e nós também, não é? Não fará mal algum, nem será nenhum pecado.
A mulher pensou por alguns instantes.
— Vou pensar no assunto. Se eu estiver boa, talvez eu vá.
O garoto remoeu por alguns instantes a pergunta que trazia guardada.
— Mãe, você está doente? — indagou, afinal.
Ela demorou um pouco para responder.
— Sim, mas não é grave. Vai passar.
No tom de voz dela ele sentiu a insegurança. O medo se tornou maior dentro dele. Apertou com força os braços ao redor do corpo da mãe e sufocou o soluço que ameaçava brotar de seu peito.
De seus olhos inocentes, no entanto, lágrimas mornas de dor brotaram e rolaram sem que ele pudesse impedí-las.
Capítulo 3
“Que proveito traz a imagem esculpida, tendo-a esculpido o seu artífice, e a imagem de fundição, que ensina a mentira? Pois o artífice confia na sua própria obra, quando forma ídolos mudos.
Ai daquele que diz ao pau:
— Acorda!
E à pedra muda:
— Desperta!
Pode isso ensinar? Eis que está coberto de ouro e de prata e dentro dele não há espírito algum, mas o Senhor está no seu santo templo. Cale-se diante dele toda a terra.” (Hb 2:18-20)
Sexta-feira, próximo da meia-noite. José Salgado chegou com seu carro no terreiro de Pai Nozinho, onde seria feito o trabalho. Trouxe uma porção de coisas consigo, compradas numa casa especializada, sem contar com aquelas que o benzedor compraria, com o dinheiro adiantado.
Além disso, seguindo instruções que o homem lhe dera naquela tarde, trouxera cinco mil reais num maço de notas novas, trocadas no banco, para ofertar à entidade que faria o serviço de limpeza de todos os empecilhos que estorvavam o seu caminho.
O telefonema naquela tarde fora bem assustador:
— Meu filho, estive consultando os búzios e a coisa está feia para você. Se não fizer um trabalho de primeira, vai perder tudo que tem. Os negócios vai dar para trás. O trabalho que foi feito aí é coisa muito poderosa mesmo. Vamos ter que recorrer ao Exu Caveira para remover os empecilhos. Com esse não tem acordo. O que tiver pela frente ele desmancha.
— Mas quem fez isso comigo, Pai Nozinho?
— Concorrente, meu filho. Concorrente seu. Pessoa de sua simpatia, mas gente má, perversa.
Salgado pensou por instantes.
— Ah, se eu pudesse dar o troco!
— E pode! Quando se lida com o Exu Caveira, é preciso ir fundo no trabalho. Vou lhe dar uma lista de coisas que vai ter que me trazer. Além disso, vou precisar de mais cinco mil reais, tudo em notas novas, tirada do Banco, embrulhadas num pedaço de seda vermelha e amarrada com uma fita da mesma cor. Não esqueça: tem que ser nota nova e tem que estar embrulhada no pano, porque o Exu Caveira não põe a mão direto no dinheiro.
— Pode deixar, Pai Nozinho. Eu faço tudo direitinho.
Salgado anotou em seguida a relação de materiais que teria de levar, depois desligou o telefone. Ficou pensando, muito preocupado com a situação. Havia gastado todo o seu cheque especial e, agora, não sabia como arrumar cinco mil reais em dinheiro vivo.
Poderia fazer um empréstimo, mas o crédito de sua firma estava esgotado. Tivera de descontar umas duplicatas frias para dar de entrada na compra do carro de sua jovem amante.
Lembrou-se, então, de um amigo agiota. Ligou para ele.
— Souza, seu malandro, como vai essa força? — cumprimentou-o o outro.
— Pois é, Salgado, vou indo. E você? Essa loja para que não pára de crescer?
— E não pára mesmo, rapaz. Investi um bom dinheiro no estoque. Com o Plano Real, é certeza que vamos ter boas vendas neste final de ano. O pessoal vai comprar como nunca.
— Isso é muito bom. Mas o que eu posso fazer pelo amigo?
— Você ainda troca aqueles chequinhos para os amigos?
— Se for para amigos como você, a toda hora, quando você quiser. O que é que você precisa?
— Preciso de uns dez mil… Não, dez mil não. Com cinco mil limpo eu resolvo o problema, porque tenho um dinheiro para receber até o final do mês — argumentou Salgado, fingindo que não estava tão apertado quanto parecia.
— Sem problema, Salgado. Você comigo tem crédito. Como quer fazer? Você vem aqui ou quer que eu passe por ai?
— Na verdade, se for possível, eu passo aí, porque logo vai fechar o Banco e eu preciso fazer o depósito…
— Então estou esperando.
— Falando nisso, que juro você está cobrando?
— Para os amigos como você, quatorze por cento.
Salgado sentiu um golpe no estômago. Quatorze por cento de juros, numa economia estabilizada, não era apenas um roubo: era um crime. Engoliu seco. Aquilo significava setecentos reais de juros num só mês.
— Tudo isso, Moura? — protestou, desejando negociar.
— Pois é, rapaz, os Bancos não estão emprestando e o pessoal está procurando a gente. Aliás, para poder emprestar para você, que é meu amigo, vou ter que deixar de atender um sujeito aí que me pediu. Veja só como você é importante.
Salgado hesitou. Quatorze por cento, para ele, que era um comerciante, significava um custo muito alto.
— Alfredo, vou fazer o caixa aqui e ligo em meia hora, está bem?
— Olha, Salgado, posso lhe dar uns dez minutos para pensar, pois se você não quiser, tenho para quem passar agora mesmo — disse o outro.
— Certo, certo! Em dez minutos então! — concordou Salgado, desligando.
Parou e ficou pensando. De um lado, todo um investimento feito na loja, esperando pelo sucesso das vendas. Poderia ficar rico! Milionário! Estava com a faca e o queijo na mão, mas não podia ceder a uma chantagem, a uma extorsão como aquela, de pagar quatorze por cento de juros.
Pela porta de seu escritório viu sua empregada preferida, a Maria, circulando pela loja, sempre muito atenciosa e muito carinhosa com todos. Aquela menina sempre lhe dizia coisas boas, coisas bonitas, alertando-o para fugir das mentiras e das enganações do diabo, atento a todos aqueles que vacilam em sua fé ou que não tem fé.
O telefone tocou. Atendeu. Era Soninha, sua filhinha querida, que falou soluçando ao telefone:
— Paizinho, é verdade que não vou poder ir à Disneilândia?
— Filhinha, o que está acontecendo? Por que você está chorando?
— É que eu quero ir na Disneilândia!
— E você vai! O papai já não falou que você vai?
— Mas a Aline, aquela boba, disse que é mentira, que você não tem dinheiro para me mandar para a Disneilândia, que o pai dela falou para ela…
Salgado mordeu os lábios para não falar um palavrão. O pai de Aline era nada menos que o gerente do Banco onde o comerciante mantinha suas contas bancárias.
— Aline é mentirosa, minha filha! Pode falar isso para ela. O papai disse que você vai para a Disneilândia, então você vai para a Disneilândia. Em quem você acredita mais, no papai ou na Aline?
— Em você — falou a menina, ainda soluçando.
— Então pare de chorar e mande um beijo para o papai.
— Está bom, paizinho! Um beijo para você! — disse ela, estalando ao telefone um beijo carinhoso.
Salgado desligou, sentindo o coração apertado. Não podia decepcionar sua filha. Com um pouquinho de sorte, tudo daria certo. Venderia como nunca e teria muita sorte. Tinha de confiar em si mesmo. Estava fazendo tudo certo. Não tinha como errar.
Ligou de novo para o amigo agiota.
— Moura, sou eu! Vou passar por aí!
— Puxa vida, Salgado! Não sei como lhe contar isso agora — disse o outro, fazendo seu papel.
Vivia do desespero alheio. A agiotagem sempre foi a arte dos canalhas e Moura era o maior dos canalhas. Percebera que seu amigo Salgado não tinha outra alternativa. Assim, resolveu jogar pesado com ele.
— O que aconteceu, Moura? — quis saber Salgado, preocupado.
— Eu tinha prometido para um outro amigo emprestar um dinheiro, garanti e ele está aqui, na minha frente, para trocar uns cheques que ele tem. Ofereceu-me pagar dezoito por cento de juros. Não tenho como recusar, até porque ele estava na frente…
Salgado desesperou-se. Precisava daquele dinheiro. Agiu impulsivamente, então:
— Eu pago vinte por cento, Moura!
Do outro lado da linha, sozinho em sua sala, Moura sorriu, satisfeito. Aquela brincadeira o fizera ganhar mais trezentos reais.
— Só um instantinho, Salgado. Vou ver como o meu amigo fica nessa parada agora.
Salgado torceu e rezou para todos os santos que conhecia, prometendo velas e fitas para todos eles.
— Ele desistiu, Salgado, O dinheiro é seu. Passe aqui agora mesmo que o dinheiro vai estar disponível.
— Então me faz o seguinte, Moura. Como você está aí perto do banco, troque tudo em notas novas para mim.
— Notas novas? Isso me parece coisa de trabalho para o Exu Caveira — brincou Moura.
Salgado riu forçadamente.
— Não, não é nada disso. É uma brincadeira que vou fazer com uma pessoa — descartou.
— Tudo bem, Salgado. Então é só passar aqui e me trazer um cheque de seis mil, duzentos e cinqüenta reais e…
— Espere aí, Salgado! Por que seis mil, duzentos e cinqüenta reais, se o empréstimo é de cinco mil?
— Puxa, Salgado! Você não sabe como essas coisas funcionam? Coloque aí na sua calculadora o valor de seis mil, duzentos e cinqüenta reais!
— Certo, coloquei! — obedeceu Salgado, sem entender.
— Aplique vinte por cento em cima!
— Certo, dá um mil, duzentos e cinqüenta!
— Diminua de seis mil, duzentos e cinqüenta! Não dá os cinco mil?
— Sim, mas se você analisar que estou pegando cinco mil e pagando mil, duzentos e cinqüenta de juros, na realidade, a taxa que você está usando é de vinte e cinco por cento!
— Salgado, meu amigo, até parece que você nunca trabalhou com Banco. Se for fazer um empréstimo no Banco, é assim que eles calculam. Além disso, não estou forçando você a fazer o empréstimo. Se quiser está a disposição, se não quiser, empresto ao meu amigo, que ainda está aqui, na minha frente.
Salgado percebeu a armadilha em que estava entrando, mas não podia decepcionar a filhinha. Além disso, não podia nadar tanto e morrer na praia. Estava com um estoque bom. As perspectivas de vendas eram excelentes. Conseguira exclusividade do fabricante e poderia vender num preço competitivo. O que poderia dar errado?
— Está certo, Moura. Vou passar aí daqui a pouco! — resignou-se ele, apanhando o talão de cheque.
*
Nas sextas-feiras, os terreiros ficavam lotados. Michele acompanhava o som dos atabaques e os passos daquela dança cadenciada no meio do salão. No centro, uma mulher, vestida de vermelho, com lenços, colares, anéis e um véu escuro diante do rosto, ria e dançava mais rápido do que as outras. Era a Pomba Gira, gargalhando como se estivesse embriagada.
O som dos tambores foi aumentando. O ritmo foi se tornando mais rápido até que, finalmente, cessasse de repente. A mulher que incorporaria a Pomba Gira caiu de joelhos, com a cabeça apoiada sobre os braços, no assoalho. Ficou por instantes imóveis, depois começou a gargalhar, erguendo-se.
Sua voz era estranha, totalmente diferente da voz da mulher que dançava. Seu riso era histérico e assustador. Ela foi se sentar uma espécie de trono. Mulheres, em fila, aproximavam-se e ajoelhavam-se diante dela.
Quando chegou a vez de Michele, ela fez o mesmo. Embrulhadas num lencinho de seda, ela trazia algumas notas de cem reais. Era o preço do trabalho que pediria.
— E o que a minha filha quer? — indagou a Pomba Gira, como voz zombeteira.
— Quero que a mulher do meu amante seque e morra, para ele ficar comigo.
A Pomba Gira deu um gargalhada.
— Trabalho caro!
— O dinheiro está aqui! — disse, estendendo o lencinho.
— Pomba Gira não pega em dinheiro!
Imediatamente uma das mulheres que prestavam assistência ao lado apanhou o lencinho e conferiu o dinheiro.
— Está certo! — garantiu.
— Então minha filha pode ficar sossegada que o trabalho vai ser feito. Ela vai secar e morrer. Trouxe uma fotografia dela?
— Sim, é esta aqui! — falou, entregando uma foto que roubara da carteira de Salgado, na noite anterior, quando lhe tirara também o dinheiro para o trabalho.
— Essa já tá seca e morta. Se prepara para o casório. E não esqueça de me convidar — falou a Pomba Gira, com voz zombeteira. — Mais alguma coisa, minha filha?
— Sim, eu queria ganhar um apartamento do meu amante.
— Ih, é trabalho pesado. Vai precisar gastar muito. Se pedir, eu faço, mas vai custar caro.
— Quanto?
— A Pomba Gira não mexe com esse negócio de dinheiro. Fale aí com ela e combina tudo. Agora chega! Minha filha já pediu muito.
Michele fez uma reverência e se afastou, seguida por uma das assistentes da Pomba Gira.
— Quanto vai custar o trabalho? — indagou a jovem.
— Mil e quinhentos. Tem que trazer o mais breve possível, para aproveitar que a Pomba Gira gostou de você e quer ajudar. Traz também uma fotografia dele, uma cueca, uma meia e um lenço usados por ele.
— Eu já tenho tudo isso.
— Então é só trazer. Coloque o dinheiro num porta-jóia, daqueles que tocam musiquinha e embrulha com papel vermelho. Amarre com uma fita amarela. Coloque junto com as roupas num saquinho de papel e entrega para a Pomba Gira, quando vier. Mas não deixe passar muitos dias. Quando mais cedo, melhor.
Michele concordou, agradeceu e saiu. Míriam, sua amiga, a esperava lá fora. Não agradava o caminho que a amiga vinha tomando. Apesar das roupas, das jóias, do dinheiro e do carro, Michele não demonstrava ser uma pessoa feliz. Parecia possuía pelo espírito da ambição e da maldade.
Enquanto Michele dirigia o carro, satisfeita por ter seus planos encaminhados, Míriam sondava a amiga, sem coragem para dizer o que gostaria de lhe dizer.
— O que foi, Míriam? Por que está tão quieta assim?
— Você é louca, Michele!
— Louca? Louca por quê?
— Mexendo com essas coisas do diabo!
Michele deu uma gargalhada, zombando da amiga. Míriam abaixou a cabeça, entristecida. Sua amiga mudara muito. Era uma jovem tão cheia de vida, tão cheia de planos. Não entendia como aquilo havia acontecido.
— Escreve uma coisa que vou lhe dizer — falou Michele. — Não dou trinta dias e o Salgado vai me dar o apartamento.
— Como pode ter tanta certeza disso?
— Falei com a Pomba Gira. Já está tudo certo. Tenho que arrumar um dinheirinho, mas isso não é problema. Tomo do Salgado.
Míriam ficou calada mais um pouco. Estava realmente incomodada com tudo aquilo que a amiga vinha fazendo e com o que ela vinha se envolvendo. Pensou no Alfredo, um rapaz tão bom, que gostava tanto dela.
— Encontrei o Alfredo hoje — comentou.
O rosto de Michele se transformou. Bastava falar no Alfredo para isso acontecer. O rapaz tinha algo que tocava profundamente. Isso durou pouco tempo, porém. Seu rosto demonstrou desprezo e orgulho.
— O Alfredo é um pobre! Não quero me casar com um pobre e ser pobre o resto da vida. Acho que mereço um pouco mais. Sou jovem, sou bonita e quero aproveitar a vida.
Míriam fingiu não ter ouvido. Esperou um pouco, antes de falar de novo.
— Ele disse que iria orar por você no culto desta noite!
— Alfredo, Alfredo, Alfredo! Para de falar nele, Míriam. Não quero pensar nele, não quero falar nele, aliás, não quero nem saber dele. E essa conversa já me aborreceu. Tenho que deixar você em casa em ir esperar o Salgado. Depois vou para um boteco encher a cara de uísque e cerveja.
Míriam olhou a amiga com os cantos dos olhos. Em momentos como aquele, simplesmente não a reconhecia. Era como se um demônio, ou mesmo uma legião dele, falassem pelos lábios de sua amiga. Ficou arrependida de tê-la acompanhado até aquele lugar. Deveria ter ido orar por ela também. Era disso que Michele precisava.
— É melhor mesmo você me deixar em casa, Michele. Aquele lugar me deixou deprimida e triste.
— Pois eu fiquei muito contente. Já ganhei um carro e vou ganhar um apartamento — arrematou Michele , dando de ombros.
Ficaram em silêncio o resto do caminho. Michele ligou o toca-fitas de seu carro, ouvindo um som em alto volume, requebrando e dançando em seu assento.
Quando chegaram na casa de Míriam, por coincidência Alfredo ia passando na rua. Ao vê-las, aproximou-se. Michele empalideceu. Todo o seu corpo estremeceu e ficou inquieta. Míriam percebeu isso. A presença dele era muito forte e mexia com ela. Toda a calma e a fé que ele trazia no seu coração incomodavam alguma coisa nela.
— Eu não vou nem falar com ele! — falou Michele, acelerando o carro e arrancando, assim que Míriam desceu.
Capítulo 4
“Ó filho do Diabo, cheio de todo o engano e de toda a malícia, inimigo de toda a justiça, não cessarás de perverter os caminhos retos do Senhor?” (At 13:10)
Alfredo acompanhou Míriam até o portão da casa da amiga. Estava intrigado com o comportamento de Michele, saindo daquela forma. Gostava dela e lhe doía o coração perceber o que ela estava fazendo. Sabia que, bonita como era, com certeza se revoltava por desejar mais da vida e ela lhe oferecer tão pouco, no ponto de vista dela. Para ele, Michele tinha muito mais a agradecer do que a cobrar. Tinha beleza, tinha saúde, podia estudar e, mesmo vindo de uma família humilde, tinha inteligência o bastante para prosperar por seus méritos, com a graça de Deus.
— Se eu lhe contar onde fui agora com a Michele, você não vai acreditar — disse Míriam, constrangida. — Eu me sinto péssima por não ter conseguido convencer minha amiga a não fazer isso. Só que você conhece o gênio dela, não?
— Quando a Michele põe uma coisa na cabeça, não adianta mesmo. Ela anda tão estranha. Tenho certeza que você foi com ela naquela sucursal do inferno onde ela gosta de ir, não?
— Sim, lá mesmo. Que lugar horrível, Alfredo. Eu me senti muito mal mesmo.
— Vamos ter de orar muito por nossa amiga, se quisermos salvá-la. Que acha de fazermos uma corrente de oração para ela? — sugeriu Alfredo.
— Eu estava mesmo para lhe propor isso. Eu aceito. Vamos falar com o restante de nossos amigos e tratar disso o mais depressa possível.
Alfredo se despediu de Míriam e foi para casa. Moravam todos no mesmo bairro e freqüentavam a mesma igreja. Ele se lembrava de um tempo não muito distante, quando Michele os acompanhava e era uma das mais atuantes do grupo. Não podia entender como ela se deixara iludir pelo brilho de uma vida de facilidades e pecado.
Quando chegou a sua casa, a primeira coisa que fez fazer uma oração por Michele e depois abrir sua Bíblia ao acaso, em busca de uma orientação para poder ajudar ainda mais aquela garota de quem ele gostava muito.
A resposta lhe veio em 1Pe 5:5-11.
“Semelhantemente vós, os mais moços, sede sujeitos aos mais velhos! Cingi-vos todos de humildade uns para com os outros, porque Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes!
Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte! Lançai sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós!
Sede sóbrios, vigiai! O vosso adversário, o Diabo, anda em derredor, rugindo como leão e procurando a quem possa tragar. Resisti a ele, firmes na fé, sabendo que os mesmos sofrimentos estão-se cumprindo entre os vossos irmãos no mundo!
O Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de haverdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, confirmar e fortalecer.
A Ele seja o domínio para todo o sempre. Amém.”
Tudo o que precisava saber estava ali, naquela mensagem clara e insofismável e isso era algo que sempre o maravilhava, quando lia a Palavra de Deus. Ali encontrava as respostas para suas dúvidas e questionamentos. Em momento algum se sentia perdido ou desorientado, pois desde que recebera Jesus em seu coração, convivendo com ele a todos os momentos, tornando-O parte inseparável de sua vida, jamais se sentira desamparado.
Para aquele momento, o caminho a seguir estava ali, naquele trecho da Palavra. O pastor, mais velho e mais sábio, iria orientá-lo corretamente, na melhor maneira de salvar Michele daquele caminho de perdição que ela estava trilhando. Deus Pai saberia fazê-la voltar à humildade, deixando de lado toda a soberba e todo o convencimento. A fé que havia nela tinha de ser resgatada, para que, fortalecida pelas orações e pelo apoio de seus irmãos em Cristo ela pudesse enfrentar e vencer o diabo de uma vez por todas.
Decidiu que, no dia seguinte, logo pela manhã, procuraria o Pastor Messias, líder de sua igreja. Juntos encontrariam uma forma de resgatar aquela pobre alma para Cristo, devolvendo a ela a fé e a humildade.
*
Chegou, finalmente, o momento de Salgado ser recebido pelo Exu Caveira. Numa sala enfumaçada e na penumbra, recendendo a cachaça e fumaça de charuto, ele foi recebido por Pai Nozinho, que o levou até um trono enfeitado com fitas e tecido vermelhos. Ali, todo vestido de preto, com uma batina que ia até o chão, uma máscara, por onde só se viam os olhos e a abertura da boca, e um gorro pontudo, estava a temível entidade, responsável por tantos males.
Pai Nozinho fez Salgado se ajoelhar diante do Exu Caveira.
— O dinheiro! — avisou.
Salgado estendeu o pacotinho, embrulhado em vermelho, e um dos assistentes o apanhou rapidamente.
— O filho nem precisa dizer nada. Já vi tudo na vida dele — falou o Exu, com uma voz rouca e zombeteira, bebendo mais um gole de aguardente, direto no gargalo do litro. — Tranca-Rua, aquele safado, está atormentando sua vida, mas eu cuido dele. É cupincha meu e não atrapalha mais. Mas tem coisa mais forte na parada e eu vou limpar tudinho da sua vida. Tudo vai dar certo, nos negócios e no amor. O filho tem problema nos negócios, não tem?
— Pois é, comprei um estoque grande e preciso vender, senão vou quebrar — explicou Salgado, intimidado.
— Concorrente não vai passar por cima de filho meu. Vou proteger você. Vai vender como nunca. Todo mundo vai pagar direitinho e o meu filho vai ficar mais rico. E o negócio do amor, como é que é?
— Pois é, seu Exu, é uma menininha aí, novinha, que eu arrumei. É linda, coisinha fina e…
— O filho não precisa explicar nada para mim. Eu sei tudo. Sei dela direitinho. Ela gosta muito de você e vai ficar tudo bem. Vou cuidar desse romance. Ninguém se intromete. Pode ficar tranqüilo — assegurou o Exu, tomando mais um gole de cachaça.
Depois baforando seu charuto, assoprou a fumaça fétida para cima de Salgado. Só então ele reparou que o assento do trono onde se assentava a entidade era todo feito de pregos pontudos.
Isso o fez respeitar ainda mais aquele ser poderoso que tinha diante de si.
Saiu dali pouco mais tarde fedendo a cachaça e charuto, mas estava tranqüilo. Fizera todo o possível e o impossível para acertar de uma vez por todas a sua vida. Agora era só esperar e deixar acontecer.
Quando voltou para casa, seu filho, Miguel, o esperava.
— Preciso falar com você, pai. É assunto sério!
— Tem que ser hoje? Ando tão cansado, meu filho. Agora mesmo preciso tomar um banho e ir participar de uma reunião ainda.
— Tão tarde assim, pai? — indagou Miguel, desconfiado.
— Para você ver, Miguel. Não tenho mesmo sossego. Mas o que você tem para conversar comigo?
— É mamãe, estou cada vez mais preocupado com a saúde dela.
— Miguel, meu filho, você se preocupa à toa. Está tudo bem com a saúde dela. Não se preocupe. Vai passar logo. Agora deixa o papai ir tomar um banho, porque vou ter que sair — despediu-se Salgado, deixando o menino preocupado atrás de si.
Tinha de se apressar. Havia combinado se encontrar com Michele num motel, onde passariam a noite. A garota estava muito feliz com o carro que ganhara e com certeza iria transformar essa gratidão em muitos carinhos.
Entrou no quarto silenciosamente. Sua esposa dormia. Acendeu a luz do banheiro e ficou olhando para ela. Estava mesmo muito magra, com o rosto encovado e os cabelos ralos. Embora isso lhe causasse certo sofrimento, esforçou-se ao máximo para não se deixar afetar.
Sabia o que estava acontecendo com ela. Sabia que um câncer a corroía por dentro e que tudo era questão de tempo. Ela morreria em breve, por isso havia decidido ignorá-la e tratar de sua vida. Michele era importante para ele, naquele momento, pois o ajudava a fugir desse problema.
Para Salgado, mesmo se tornando um novo problema em sua vida, a garota era uma forma de encontrar forças para superar seus dramas interiores. Mal sabia ele, porém, que isso o estava levando cada vez mais fundo no poço das iniqüidades.
Entrou no banheiro e trancou a porta. Apanhou seu aparelho de barbear para escanhoar-se com cuidado. Enquanto fazia isso, olhando-se no espelho, sentiu-se incomodado. Era como se alguém estivesse ali, com ele. Alguém perverso, de coração duro e alma corrompida.
Olhou ao redor, assustado. Seu corpo todo se arrepiou e, de algum ponto que ele não conseguiu identificar, veio uma gargalhada sinistra que ficou ecoando nos azulejos.
Ele voltou a se olhar no espelho e, por um breve instante, em lugar de seu rosto ele viu a máscara horrenda do Exu Caveira. O susto foi grande que ele deslizou o barbeador no rosto, cortando-se.
Ficou imóvel, olhando o espelho. Seu rosto surgiu em lugar da máscara e um filete de sangue marcava uma das faces. Benzeu-se, persignando-se sete vezes, conforme uma simpatia que lhe fora ensinada pelo Pai Nozinho.
Depois, para se garantir, apanhou a figa de madeira que trazia no bolso da calça e apertou-a na mão direita. Decidiu que, antes de sair para se encontrar com Michele, acenderia sete velas diante das imagens de seus santos e guias protetores, no altar que tinha, montado numa das salas de sua casa.
*
Maria olhou pela janela, preocupada. Úrsula ainda não havia chegado, embora passasse da meia-noite. Preocupada, abriu a sua Bíblia aleatoriamente, procurando uma palavra de conforto ou uma mensagem para entender o que estava acontecendo com sua irmã.
A resposta veio na forma de um alerta, em Jo 8:44-47:
Por que não compreendeis a minha linguagem? É porque não podeis ouvir a minha palavra. Vós tendes por pai o Diabo e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele é homicida desde o princípio e nunca se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.
Mas porque eu digo a verdade, não me credes. Quem dentre vós me convence de pecado? Se digo a verdade, por que não me credes? Quem é de Deus ouve as palavras de Deus. Vós não as ouvis, porque não sois de Deus.”
Era exatamente isso o que estava lhe acontecendo. Por mais que alertasse sua irmãzinha, ela não lhe dava ouvidos. Preferia o deslumbramento em que o namorado traficante a estava envolvendo. Temia por ela e precisava fazer alguma coisa para ajudá-la. O que fazer, no entanto? Como evitar que aquela alma inocente fosse pervertida por obra do demônio? Como fazê-la entender de novo as palavras de Deus e voltar a ser dEle?
Estava desanimada com a irmã. Deixara-se seduzir pela falsa riqueza e pelo luxo ostentado pelo seu namorado, sem perceber os perigos. Maria já tentara inúmeras vezes convencê-la do perigo, mas Úrsula não queria ouví-la.
Intimamente, Maria estava a ponto de desistir, entregando a irmão à própria sorte, já que nada do que fazia podia ajudar. Se Úrsula se achava dona do próprio nariz e capaz de dirigir sua vida, embora não tivesse idade para isso, que assim fosse.
Maria sabia, no entanto, que tinha de perseverar, que tinha de insistir naquela cruzada contra o diabo que arrastava sua irmãzinha para o mal.
Com muita confiança, apanhou sua Bíblia, orou a Deus pedindo uma orientação, depois abriu-a. Leu de um fôlego 1 Co 11:19-30.
“Sendo vós sensatos e de boa mente, tolerais os insensatos. Se alguém vos escraviza, se alguém vos devora, se alguém vos defrauda, se alguém se ensoberbece, se alguém vos fere no rosto, vós o suportais.
Falo com vergonha, como se nós fôssemos fracos, mas naquilo em que alguém se faz ousado, com insensatez falo, também eu sou ousado.
São hebreus? Também eu! São israelitas? Também eu! São descendência de Abraão? Também eu! São ministros de Cristo? Falo como fora de mim: eu o sou ainda mais. Em trabalhos? Muito mais. Em prisões? Muito mais. Em açoites? Sem medida. Em perigo de morte? Muitas vezes.
Dos judeus, cinco vezes recebi quarenta açoites menos um. Três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio, uma noite e um dia passei no abismo.
Em viagens, muitas vezes em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos dos da minha raça, em perigos dos gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre falsos irmãos. Em trabalhos e fadiga, em vigílias muitas vezes. Em fome e sede, em jejuns muitas vezes, em frio e nudez.
Além dessas coisas exteriores, há o que diariamente pesa sobre mim, o cuidado de todas as igrejas. Quem enfraquece, que eu também não enfraqueça? Quem se escandaliza, que eu me não abrase?
Se é preciso gloriar-me, gloriar-me-ei no que diz respeito à minha fraqueza.”
Quando terminou a leitura, Maria se sentiu envergonhada de ter pensado, ainda que por um breve momento, em deixar sua irmã a sua própria sorte. O Apóstolo João dava, na Palavra, um testemunho edificante e convincente do poder da perseverança. Se ele sofrera tanto para, sem desistir, para espalhar o Evangelho e salvar tantas almas, por que ela, Maria, não podia também, com a força da sua fé e o poder da oração, livrar sua irmão das garras do diabo?
Agradeceu ao Senhor Jesus pela mensagem, enchendo-se de coragem e disposição para lutar e vencer. Enquanto isso, não longe dali, Rodrigo fechava o cerco ao redor de sua presa. Úrsula estava deslumbrada com aquela vida de facilidades que ele lhe proporcionava, valorizando tudo isso pelo fato de que, até aquele momento, o máximo que ele fizera fora beijá-la, mesmo assim com certo respeito. Em momento algum ele a tocara ou lhe fizera qualquer proposta indecorosa.
Na noite anterior, inclusive, haviam ido jantar e ele deixara que ela tomasse um pouco de vinho. Ele ficou embriagada facilmente, pois não estava acostumada a beber. Tornou-se uma presa fácil para ele, que poderia tê-la levado a um motel e abusado dela, que ela não resistiria. Todo aquele clima de romantismo e carinho a havia envolvido completamente.
— Tome, isto é para você comprar uma roupa bem bonita, mas bonita mesmo! — disse ele, entregando algumas cédulas de cem para ela.
— Tudo isso, Rodrigo? — surpreendeu-se ela.
— Sim, quero que compre coisa fina mesmo. Um vestido bem bonito, calcinha, sutiã, meia e sapatos, tudo novo. Compre também um biquíni novo, que lá tem piscina. Dê um trato nas unhas e nos cabelos porque amanhã vamos a uma festa chique.
— Sério? — deslumbrou-se ela, admirada.
Rodrigo tinha amigos poderosos e conhecia gente influente. Ela se julgava a garota mais feliz e agradecida do mundo por ele gostar dela tanto quanto gostava.
— De verdade. Um político, amigo meu, está dando uma festa na sua cobertura amanhã. Coisa reservada, só para os mais chegados. Vou apresentar você para algumas pessoas. Faça o possível para não me envergonhar, está bem? Quero ter orgulho de você.
— Quem mais vai lá?
— Vai ter uma porção de meninas como você. Pode ir se enturmando, que vão se encontrar com freqüência. Mas nada de espalhar isso por aí, está certo?
— Pode confiar em mim, Rodrigo. O que você pedir, eu faço — respondeu a garota, agradecida, beijando as mãos de seu benfeitor.
Satisfeito, Rodrigo a levou para casa, despedindo-se dela com um beijo respeitoso. Assim que se afastou de carro, ele apanhou o celular e ligou.
— Mônica? Tudo certo, tenho uma novilha de primeira. Coisa fina, você vai gostar. Sua proposta me interessou muito e acho que vou entrar nesse ramo também. Se dá para ganhar tanto dinheiro, não vejo como ficar fora. Vou levá-la na festa para você avaliar, mas tenho certeza que vai gostar muito dela. Certo?
Quando desligou, um sorriso de satisfação pairava em seu rosto. A maldade se espelhava em seus olhos frios e sem brilho.
Capítulo 5
“E não te pouparei, nem terei piedade. Conforme os teus caminhos, assim te punirei, enquanto as tuas abominações estiverem no meio de ti e sabereis que eu, o Senhor, castigo.” (Ez 7:9)
Estavam num dos motéis mais luxuosos da cidade. Salgado, satisfeito da vida, não percebia o ridículo que era um homem como ele, com sua idade e sua aparência, fazer-se acompanhar de uma menina que poderia ser sua filha.
Era um par que destoava totalmente. Ele era gordo, com uma barriga saliente, rosto corado, cabelos ralos e rugas se formando no rosto. Michele era jovem, transbordando beleza e vitalidade.
Naqueles momentos, quando estava com seu amante, ela via apenas dinheiro a sua frente e encarava aquilo tudo, até certo ponto doloroso para ela, como um trabalho sujo que tinha de fazer para ter tudo aquilo que julgava merecer.
Naquela noite, Salgado tinha motivos para estar feliz. Afinal, tudo parecia estar muito bem encaminhado em sua vida. A ação do Exu Caveira seria decisiva para afastar seus concorrentes e o sucesso estava garantido. Não tinha mais com que se preocupar.
Michele estava particularmente carinhosa naquela noite, porque tinha um interesse especial. Precisava arrumar mil e quinhentos reais para entregar à Pomba Gira, para que fizesse um malfeito contra a esposa do Salgado.
Percebeu que ele estava contente e incentivou-o, fazendo-o beber algumas doses a mais de uísque. Quando ele estava bem relaxado, ela atacou.
— Benzinho, vou precisar de um dinheirinho a mais — disse ela, toda melosa.
— Mais dinheiro, amorzinho? Você vai deixar o velho Salgado quebrado, sabia?
— Você não é velho e não vai quebrar nunca. É homem rico e vai ficar ainda mais rico.
— Pode ter certeza que sim, meu bem. Andei tomando as minhas providências para nada dar errado. De quanto você precisa?
— Mil e quinhentos!
— Tudo isso?
— É… Preciso equipar o carro… Comprar umas roupinhas novas… Você, um homem rico e poderoso, não vai querer sair comigo se eu estiver toda molambenta, vai?
Ele riu, sem preocupações. O que era uma quantia como aquela para um homem que em poucos meses teria centenas de milhares de reais de lucro?
— Para quando você precisa desse dinheiro? — quis ele saber.
— Para quando for possível, benzinho.
— Vou lhe dar um cheque, mas você só solta na terça-feira. A conta está no vermelho, mas tenho algumas duplicatas para receber na segunda. Está bom?
— Tudo bem! — concordou ela, satisfeita.
— Então dá um beijinho de agradecimento no seu Salgadinho — exigiu ele.
Michele fechou os olhos, ignorou o bafo de uísque e fez o que precisava fazer para merecer seu dinheiro. Afinal, aquilo não deixava de ser uma espécie de profissão.
Quando se separou de Salgado, já de madrugada, foi para um bar e, sozinha num canto, ficou bebendo, sentindo-se vazia. O cheque que ele lhe dera, para fazer o trabalho com a Pomba Gira, parecia não ter muito sentido. Que vida era aquela, afinal?
*
Naquela manhã alegre de sábado, a caminho do trabalho, Alfredo passou pela casa do Pastor Messias, seu grande amigo e confidente. Contou-lhe o que vinha acontecendo com Michele. O pastor o ouviu atentamente, demonstrando preocupação.
Conhecia aquela menina desde criança. Fora uma das mais atuantes na escola dominical. Quando ficou mocinha, participava do coro e era um encanto ver a alegria e amor que transbordavam de seus olhos, quando participava do culto.
Depois que ela se afastou, ele não desistira. Continuou insistindo, tentando trazê-la de volta, mas era inútil. Michele se esquivava. Havia se transformado. Num curto espaço de tempo, passou de uma menina doce e meiga para uma mulher sofrida e vazia.
— O que podemos fazer para ajudá-la, pastor? Gosto muito dela. Muito mesmo e me entristece ver o que ela está fazendo consigo mesma.
— Participo do seu sofrimento, meu irmão, mas só podemos ajudar a quem deseja ser ajudado. O diabo a cegou e ensurdeceu. Ela não ouve a Palavra nem vê o Verdadeiro Caminho. Concordo totalmente com você. Não podemos deixá-la se perder bem diante dos nossos olhos, sem nada fazer.
— Pensei em fazermos uma corrente de oração por ela.
— Uma só, não. Muitas. Todas que se fizerem necessárias. A partir do culto de hoje, vamos nos unir em oração por ela. De minha parte, vou continuar insistindo com ela. Quero ver o que se pode fazer.
Assim que Alfredo foi embora, o pastor se recolheu com sua Bíblia. Cortava-lhe o coração ver o amor que o rapaz dedicava a Michele ser desprezado daquela forma, tanto quanto o revoltava ver a obra de Satanás imperar sobre uma criatura de Deus.
Buscou inspiração em sua Bíblia, abrindo-a em Da 9:19.
Ó Senhor, ouve; ó Senhor, perdoa! Ó Senhor, atende-nos e põe mãos à obra sem tardar, por amor de ti mesmo, ó Deus meu, porque a tua cidade e o teu povo se chamam pelo teu nome!”
Mal terminou de ler e meditar rapidamente sobre esse trecho, a campainha tocou. Foi atender. Desta vez era Maria, apressada, a caminho do trabalho.
— Pastor, orei muito ontem à noite pela minha irmãzinha, a Úrsula. Estou preocupado com ela. Está namorando o Rodrigo e ficou deslumbrada com toda aquela ostentação que é marca registrada dele. O que podemos fazer por ela, pastor?
— Continue orando, minha irmã. Vamos cuidar disso. Os problemas são muitos porque a obra de Deus não pode parar. Se o diabo quer nos atrapalhar, mais fé e mais perseverança ainda devemos demonstrar. Vá em paz, na graça de Deus, que o Seu poder é maior que toda a maldade do universo.
Assim que Maria se afastou, o pastor foi apanhar sua Bíblia. Os tempos estavam cada vez mais sombrios. Satanás atacava em diversas frentes e seu alvo principal, naquele momento, eram os jovens que, ainda vacilantes em sua fé, deixavam-se iludir pelo brilho do ouro e pelo falso poder do dinheiro.
Foi meditar um pouco e, para isso, consultou novamente sua Bíblia, abrindo-a em At 9:15-18.
“Disse eu:
— Quem és, Senhor?
Respondeu o Senhor:
— Eu sou Jesus, a quem tu persegues, mas levanta-te e põe em pé; pois para isto te apareci, para te fazer ministro e testemunha tanto das coisas em que me tens visto como daquelas em que te hei de aparecer, livrando-te deste povo e dos gentios, aos quais te envio, para lhes abrir os olhos a fim de que se convertam das trevas à luz e do poder de Satanás a Deus, para que recebam remissão de pecados e herança entre aqueles que são santificados pela fé em mim.”
Não era preciso aprofundar-se no entendimento daquele trecho, pois a mensagem divina era clara. A sua missão estava bem definida e cabia a ele realizá-la. Como enviado de Cristo, tinha de enfrentar Satanás e vencê-lo, pelo poder e pela graça de Deus.
*
Naquele sábado, quando fechou o caixa, Salgado estava eufórico. Vendera horrores, graças à promoção, à propaganda e aos preços e condições bastante acessíveis. Os clientes vieram em peso e a loja esteve cheia o tempo todo.
Uma parte da venda fora à vista e o restante a prazo. Era, para um dia como aqueles, um recorde difícil de ser quebrado, tamanho foi o sucesso e o volume de mercadorias. Os caminhões de entrega não pararam, o dia todo circulando de um lado para outro.
Pedira a um dos seus empregados que fosse dar uma olhada nas lojas de seus concorrentes, para ver se estava acontecendo o mesmo.
— Patrão, está tudo vazio! Os vendedores estão na porta, um olhando para a cara do outro, sem fazer nada.
— Isso é ótimo! — afirmou Salgado, satisfeito.
Tinha motivos de sobra para confiar no trabalho de Pai Nozinho e na força do Exu Caveira. Custara um bom dinheiro, mas tinha valido a pena. Só num dia já havia recuperado dez vezes o dinheiro que investira no trabalho. Tinha dinheiro para cobrir a conta devedora, pagar o cheque de Michele e até resgatar o empréstimo que fizera com o agiota, saindo por cima de toda aquela situação.
— Que dia, seu Salgado! — falou Maria, antes de ir embora.
— Eu não disse para você? Aquele benzimento e aquelas simpatias valeram mesmo a pena.
— Eu também orei muito pelo senhor, seu Salgado!
— Ah, Maria, mas o que conta mesmo foi o trabalho que fiz ontem à noite. Coisa brava, poderosa mesmo! — disse ele, em tom confidente.
— Seu Salgado, por favor, só espero que não esteja mexendo com forças que não conseguirá controlar depois.
— Do que você está falando, Maria? Deixa de ser boba, menina! Com isto aqui em controlo o que eu quiser! — assegurou ele, mostrando um maço de notas de cem para ela.
— Em Atos 8, versículos 14 a 23, há uma passagem interessante, seu Salgado. Os apóstolos Pedro e João foram até Samária orar para que as pessoas de lá recebessem o Espírito Santo, porque sobre nenhum deles havia Ele descido ainda, mas já haviam sido batizados em nome do Senhor Jesus. Eles lhes impuseram as mãos e eles receberam o Espírito Santo. Quando irmãzinha viu que pela imposição das mãos dos apóstolos se dava o Espírito Santo, ofereceu-lhes dinheiro, dizendo: “Dai-me também esse poder, para que aquele sobre quem eu impuser as mãos, receba o Espírito Santo.” Disse-lhe Pedro: “Vá tua prata contigo à perdição, pois cuidaste adquirir com dinheiro o dom de Deus. Tu não tens parte nem sorte neste ministério, porque o teu coração não é reto diante de Deus. Arrepende-te, pois, dessa tua maldade e roga ao Senhor para que porventura te seja perdoado o pensamento do teu coração. Vejo que estás em fel de amargura e em laços de iniqüidade.”
— E daí, Maria? O que você quer provar com isso, além de demonstrar que tem boa memória e que lê a Bíblia? Eu já lhe disse que também li a Bíblia e muitas vezes mais do que você. Lembra-se do que eu lhe falei no começo da semana? Que queria ver sua boa memória, quando estivesse recebendo as comissões de suas vendas. Pelo que sei, você foi uma das que mais vendeu hoje.
— Graças a Deus, seu Salgado. Só que o senhor não entendeu nada do que eu quis lhe dizer. Ninguém pode comprar o poder do Espírito Santo. Quanto às vendas, já que o senhor leu muitas vezes a Bíblia, será que se lembra de uma passagem no Livro do Eclesiastes, capítulo 3, versículo 13, que diz: que todo homem coma, beba e goze do bem de todo o seu trabalho é dom de Deus.
— Ah, Maria, você está muito petulante, sabia? Se não fosse uma de minhas melhores vendedoras, juro como cortava suas asinhas de uma vez por todas. Não seja mal agradecida. Se quiser trazer seu pastor aqui, para abençoar a loja, fique à vontade. Desde que ele me garanta vendas, não faço questão.
— Acho que era isso mesmo que se deveria fazer, seu Salgado. Isto aqui está cheio de coisas que nem sei explicar o que é — finalizou ela, saindo.
Na saída encontrou Miguel, com seu semblante preocupado.
— E daí, Miguel, tudo bem?
— Tudo bem, Maria!
— Você continua preocupado, não?
— É minha mãe…
— Não quer levá-la à igreja hoje à noite?
— Eu falei com ela, mas não sei se a convenci.
— Insista com ela. O poder de Deus opera milagres. Tenho visto coisas maravilhosas acontecerem, pela graça do Espírito Santo.
— Vou tentar. Se conseguir, eu telefono para você, está bem?
— Faça um esforço, Miguel. Pode ser muito importante para ela.
— Vou tentar.
Enquanto isso, em seu escritório, Salgado ligava, satisfeito da vida, para Michele.
— Minha queridinha, não sabe o que aconteceu hoje na loja. Vendi horrores. Nunca vendi tanto quanto hoje. Agora acho que acertei.
— Que ótimo, amorzinho! — falou ela, com sua voz mais melosa.
Tinha traçado seus planos e iria realizá-los.
— Olha, aquele cheque, você pode soltar na segunda-feira — avisou ele.
— Que bom, amor! Vou poder fazer o que preciso, então. A gente vai se ver hoje à noite?
— Sim, no motel de sempre, só que mais cedo hoje. Preciso comemorar. Estou muito contente com as vendas.
Ela pensou um pouco e achou que era hora de começar a sondar suas possibilidades.
— Ah, amor, estou ficando cansada de freqüentar motéis.
— Por que isso agora, queridinha?
— Não, sei, eu fico sentida de não poder receber você direitinho, fazer uma comidinha. Sabia que eu sei cozinhar?
— Pára com isso, Michele! Quero você como uma bonequinha, como uma manequim, que não tem que ficar se engordurando na beira de um fogão. Já pensou eu chegar e, ao lhe dar um abraço, sentir cheiro de óleo nos seus cabelos?
— Tolinho! Tem uma porção de coisas que a gente pode preparar no microondas.
— No motel é mais cômodo. A gente consulta o cardápio e pede. Não tem que se preocupar com nada, nem em lavar a louça. Já pensou você com as unhas todas estragadas, de mexer com as panelas? Não, Michele, isso não fica bem em você.
— Tudo bem, não cozinho, então, mas gostaria de ter um cantinho só nosso, que eu pudesse deixar assim com a cara do nosso amor. O que me diz?
— Ah, não sei. Acho que não precisa. Está tão bom assim!
Ele não havia entendido ainda onde ela pretendia chegar, por isso Michele achou por bem parar por ali mesmo. Combinou com ele o encontro e, assim que desligou, telefonou para o terreiro que visitara na noite anterior.
— Dá para fazer o trabalho hoje à noite mesmo? — indagou ela.
— Se estiver com tudo na mão…
— O dinheiro pode ser em cheque? É quente!
— De quem é?
— Do Salgado, da loja de móveis e eletrodomésticos. Aquela enorme, na avenida.
— Ah, sim, dele pode. Traz tudo direitinho que eu encaixo logo no primeiro trabalho da Pomba Gira.
— Que ótimo! Vou me encontrar com ele logo mais e quero tocar nesse assunto bem de perto com ele.
— A que horas você vai se encontrar com ele?
— Às oito!
— Nesse horário a Pomba Gira vai fazer o trabalho. Pode insistir que você conseguirá o que deseja e merece.
Michele estava confiante e radiante, quando desligou. Naqueles momentos, uma falsa euforia invadia seu corpo, dando-lhe uma alegria passageira. Sabia, porém, que no fim da noite estaria triste, bêbada e acabada, como estivera na noite anterior.
Saiu à janela. Pessoas chegavam e saíam de suas casas, naquele começo de noite. Alfredo passava, com sua Bíblia na mão, a caminho da igreja. Ao vê-lo, Michele teve um estremecimento. Ele a viu também e, por instantes, parou em frente da casa dela. Ficaram se olhando.
— Tudo bem, Michele? — indagou ele.
— É, tudo bem! — respondeu ela, sentindo-se perturbada diante daquele olhar.
Havia uma força interior enorme em Alfredo e isso fazia o coração de Michele pulsar de forma diferente. Seu rosto se abrandou e se encheu de ternura. Lágrimas brilharam em seus olhos e ela sentiu uma vontade enorme de chorar pelo que estava deixando escapar pelos vãos dos dedos, embora não conseguisse identificar o que era.
Parecia que o olhar de Alfredo se transformava numa areia fina, que ela sentia cair em suas mãos, mas que não conseguia reter. Aquela areia era morna e cheia de amor, um amor que podia transformá-la.
Teve medo disso, desviando os olhos e fitando o céu. Nuvens escuras anunciavam uma chuva próxima.
— Vai chover muito! — disse ela, sem olhá-lo.
— Tomara que chova bênçãos! — falou ele, esboçando um sorriso. — Não quer ir à igreja comigo?
Ao ver que ela não respondia e ainda evitava olhá-lo, ele se despediu e se afastou, com o coração pequenino no peito. Michele ficou na janela, sentindo a mesma coisa, sem vontade de ir se preparar para seu encontro com Salgado que, naquele momento, chegava em casa, com o filho. Miguel correu ao quarto da mãe. Pretendia insistir com ela para ir à igreja. Quando entrou, ela estava no leito, contorcendo-se em dores.
— Pai! — gritou ele, em desespero.
Salgado subiu dois a dois os degraus da escadaria que levava aos quartos de sua mansão. Mal sabia ele que o castigo começava a se abater sobre ele.
Capítulo 6
Mas os que querem tornar-se ricos caem em tentação, em laço e em muitas concupiscência loucas e nocivas, as quais submergem os homens na ruína e na perdição. (1Tm 6:9)
Úrsula estava absolutamente fascinada por aquele mundo novo, que acabava de descobrir. Sentiu-se desajeitada e fora de seu ambiente natural no início, mas depois, ao perceber como todos lhe davam atenção e ao concluir que era a menina mais bem vestida e mais bonita da festa, deixou que a vaidade lhe subisse à cabeça.
Rodrigo, ao seu lado, policiava todas as suas atitudes. Não a deixou tomar nenhuma bebida alcoólica e apresentou-a a todos os homens presentes na festa.
Eram industriais, executivos, profissionais liberais, todos muito bem vestidos, exibindo anéis de formatura, sapatos extremamente polidos, ternos de corte impecável. Eram homens perfumados, bem penteados, com unhas feitas e, mesmo aqueles que já haviam passado dos cinqüenta, não deixavam de exibir charme e educação.
Quando chegaram, Úrsula reparou que só havia carros importados, último tipo, todos brilhando. Isso a fez concluir que ali estava a nata da sociedade, os homens mais ricos e poderosos que se poderia encontrar.
Não estranhou que eles estivessem sozinhos, sem as esposas. A cobertura estava cheia de meninas novas, algumas adolescentes ainda, mas reinava total respeito. Ninguém tocava ninguém e isso foi o que lhe deu segurança e que a fez admirar ainda mais Rodrigo.
— E então, não lhe disse que seria uma festa legal? — indagou ele, quando saíram à sacada para tomar ar.
— Rodrigo, que gente distinta. Você viu?
— Maior respeito, percebeu? — ressaltou ele, convencido.
— E como. Nenhuma cantada, ninguém me disse nada mal educado, todos eles foram finos.
— São esses os meus amigos. Se você gostou do ambiente, eu posso levá-la a outras festas como esta. Aliás, estive conversando com a dona da casa, minha amiga Mônica, e ela está organizando um concurso de beleza entre as garotas conhecidas. O prêmio é uma viagem a Cancun, com um acompanhante, mais dois mil dólares para os gastos.
— Está brincando!
— Verdade! Pensei até em sugerir que você participasse, mas não sei se gostara.
Os olhos dela brilharam, cheios de interesse.
— Acha que eu tenho chances?
Ele riu, como se ela tivesse dito uma bobagem.
— Olhe na sala — ordenou ele, segurando-a pelos ombros e fazendo-a se voltar para olhar as pessoas lá dentro.
— O que tem? — quis ela saber.
— Você é a menina mais bonita da festa. Se entrar, vai ganhar esse concurso na certa.
— Uma viagem a Cancun…
— Com um acompanhante?
— Sim, com um acompanhante.
— Você vai comigo?
— Se tudo der certo…
— Então eu quero participar.
Ele sorriu, convencido de seu poder sobre ela.
— Eu tinha tanta certeza que você participaria que até já fiz sua inscrição.
— Sério?
— Claro que sim, querida. Não existe outra mais bonita do que você. Só que o concurso é daqui a três meses ainda. Até lá, vou matricular você numa academia e você vai malhar legal, fazer uma consulta médica, seguir uma dieta, cuidar-se muito bem, porque esse concurso vai dar o que falar. Com certeza teremos a presença de produtores, fotógrafos, diretores de agências de modelos e toda essa gente. Se você se destacar, pode se tornar uma top-model facilmente.
Os olhinhos dela continuavam brilhando. Em sua mente desfilavam imagens de ambientes glamorosos, cenários chiques, pessoas famosas e viagens fantásticas. Era o mundo dos sonhos de qualquer garota bonita e ingênua como ela, à espera de uma transformação radical em sua vida.
— Vamos ter que produzir você e torná-la conhecida. Por isso é importante que você circule nessas festas comigo. Daqui a quinze dias teremos outra, no sítio de um amigo meu. Mônica tem uma boutique de aluguel de roupas e vou abrir uma conta para você lá. A cada festa você vai usar roupas, sapatos e bolsas diferentes, sempre muito chiques.
Os olhos dela se encheram de lágrimas, olhando Rodrigo.
— Puxa, Rodrigo, você é tão legal comigo! — afirmou ela, abraçando-o.
Ele a segurou junto de si, sorrindo cinicamente. Naquele momento, Mônica, a dona da casa, apareceu.
— Vocês dois não estão gostado da festa? — indagou.
— Oh, sim, estamos adorando! — afirmou Úrsula.
— Então vá conhecer o pessoal que acabou de chegar. Preciso trocar uma palavrinha com o Rodrigo.
— Vai lá, querida. Eu já vou. Só vou confirmar uns detalhes com a Mônica.
Úrsula se afastou cheia de felicidade, sentindo-se a rainha da festa, a garota mais bonita e mais desejada de todas ali presentes. Os olhares de Mônica e de Rodrigo a seguiram, acompanhando os movimentos graciosos de seu corpo jovem e perfeito.
— Essa aí promete — comentou Mônica.
— Estou investindo nisso.
— Não está se apaixonando por ela, não é? — indagou Mônica, num tom zombeteiro.
— Pare com isso, Mônica! Você me conhece, não? Não misturo as coisas.
— E daí, convenceu a menina a participar do leilão?
— Concurso de beleza, Mônica — corrigiu-a ele.
Mônica riu, divertida com a observação.
— Certo, do concurso de beleza.
— Sim, vai participar.
— Explicou os detalhes para ela?
— Somente aquilo que interessava para ela saber. Disse que é um concurso, que o prêmio é uma viagem a Cancun, mais dois mil e quinhentos dólares e que vai haver fotógrafos e gente ligada ao ramo da moda, de olho nela.
— Pobrezinha! Quando der por si, já estará vendida e entregando sua virgindade para algum desses safados aí — falou Mônica, com uma ponta de desprezo.
— Você, que tem experiência no ramo, diga-me a quanto podem chegar os lances por ela?
Mônica ficou em silêncio por instantes, avaliando.
— No último leilão, uma garota foi trocada por um Tipo zero. Essa aí deve valer um Tempra.
— Se eu soubesse que esse negócio dava tanto lucro, já teria entrado nele há mais tempo.
— Você é bom nisso, Rodrigo. Tem um olho clínico para escolher as meninas. Por que não traz mais duas ou três como essa?
— Já estou cuidando disso — afirmou ele, rindo satisfeito.
— Mas não esqueça, elas têm que ser virgens.
— Para me certificar, todas as garotas que eu trouxer passarão por um exame médico antes. Tenho um amigo ginecologista que vai me dar até atestado de virgindade, se eu pedir.
— Isso, acima de tudo, segurança! Vou gostar de trabalhar de parceria com você, Rodrigo.
*
Naquela noite, quando fazia sua pregação, o Pastor Messias via o rostos de Maria e de Alfredo, juntos na primeira fila, lembrando-o das duas ovelhas ameaçadas. Uma era Úrsula, outra era Michele. Tinha uma grande afeição pelas duas, pois as conhecia pessoalmente. Quando orou, incluiu em sua oração um pedido especial para aqueles que se deixavam deslumbrar pela ostentação e pelas falsas aparências. Ao término do culto, Maria e Alfredo se aproximaram, agradecendo pela oração. Eles sabiam que ela havia sido especial e feita a pedido deles.
Estavam conversando, quando uma amiga de Maria, que trabalhava com ela na loja, entrou na conversa.
— Maria, soube o que aconteceu? — perguntou.
— Não, o que aconteceu? — quis saber Maria, percebendo a expressão preocupada da outra.
— A mulher do seu Salgado foi internada. Está passando mal mesmo.
— O Miguelzinho me disse mesmo que ela estava doente, mas não pensei que estivesse tão mal — comentou Maria.
— E se nós fôssemos visitá-la? Talvez consigamos levar conforto — propôs Alfredo.
— Eu levo vocês no meu carro — prontificou-se o pastor.
Meia hora mais tarde estavam na sala de espera do hospital. Salgado estava preocupado, olhando o relógio a todo momento. Miguel, a um canto, tinha os olhos vermelhos e o olhar entristecido. Ao ver Maria chegando, correu ao encontro dela, abraçando-a.
— Fique tranqüilo, Miguel, tudo vai acabar bem — confortou-o ela.
— Ela ficou ruim, Maria. Você precisava ver. Eu fiquei com medo. Quando vi minha mãe daquele jeito eu nem sei o que fiz…
— Calma, vai passar. Como está ela?
— Está lá dentro ainda. Os médicos nada disseram. Parece que vão ter que operar.
— Venha, vamos até o corredor tomar um pouco de água. Assim você se acalma.
Enquanto Maria levava o menino dali, Salgado aproveitou para pegar seu celular e ligar para Michele.
— Não pude ligar antes…
— Você me deixou morrendo de preocupação! — protestou ela.
— Foi minha mulher. Teve uma crise. Está na mesa de operação. Não sei… Acho que não escapa!
Do outro lado da linha, Michele sentiu um calafrio percorrer seu corpo, lembrando-se do trabalho que encomendara para a Pomba Gira. Fora fulminante. Isso a deixou sem reação. Não sabia se ficava alegre com isso ou se deixava que o medo tomasse conta dela. Percebeu que havia mexido com forças acima de seu controle e que isso poderia custar uma vida.
— Michele, você está aí? — insistiu Salgado.
— Sim… Fiquei chocada — gaguejou ela, desejando desligar ou acordar para perceber que fora um pesadelo, que nada daquilo estava acontecendo.
— Assim que der, eu ligo de novo — falou ele, percebendo que Maria retornava com Miguel.
O pastor havia observado a cena e percebido o que se passava. Conhecia a história e se sentiu até certo ponto revoltado com aquele papel desempenhado pelo comerciante. Pediu forças e paciência ao Senhor e se aproximou.
— Com a graça de Deus, tudo vai correr bem, Salgado — disse.
— Tomara que sim, pastor — respondeu o comerciante, que não queria muita conversa.
Ambos já se conheciam. O pastor sabia que Salgado havia sido batizado na igreja católica, mas era, na verdade, um homem sem uma crença definida e sólida, pois acreditava em tudo que lhe fosse apresentado.
Era só freqüentar sua loja para ver imagens, amuletos e talismãs espalhados por todos os cantos. Havia tentado alguma vezes atraí-lo para a igreja, mas Salgado era resistente e parecia se sentir bem na companhia dos representantes do mal.
— Se houver alguma coisa que a gente possa fazer — disse o pastor.
— Vocês não tem uma reza poderosa aí para fazer médico cobrar barato?
O pastor ficou chocado com a frieza daquele homem diante dele. Naquele momento, quando sua esposa estava correndo risco de vida, ele estava mais preocupado com o dinheiro que gastaria com ela do que com sua saúde.
— Quem ama o dinheiro não se fartará de dinheiro nem o que ama a riqueza se fartará do ganho. Também isso é vaidade — disse o pastor, citando Eclesiastes 5:10.
— Já comentamos a respeito disso, pastor, e nossas opiniões não são iguais. Não me venha dizer que não gosta de dinheiro, que eu não engulo. Esse negócio de dízimo, para mim, sinceramente, é roubalheira, é tomar dinheiro dos pobres e dos trouxas, sabia? Desculpe a grosseria, mas hoje não estou muito bem. Dá para entender, não é?
— Este pode não ser o momento oportuno, Salgado, mas quem conhece os caminhos do Senhor. Ele pode estar me mostrando agora como abrir as portas do seu coração para ele. Se o assunto dinheiro lhe chama a atenção, leia isto aqui — disse o pastor, abrindo a sua Bíblia num trecho grifado de 1 Crônicas 29:10-17.
A contragosto, Salgado apanhou para ler. Miguel se aproximou e acompanhou a leitura feita pelo pai.
“Bendito és tu, ó Senhor, Deus de nosso pai Israel, de eternidade em eternidade. Tua é, ó Senhor, a grandeza, o poder, a glória, a vitória e a majestade, porque teu é tudo quanto há no céu e na terra.
Teu é, ó Senhor, o reino e tu te exaltaste como chefe sobre todos. Tanto riquezas como honra vêm de ti, tu dominas sobre tudo e na tua mão há força e poder. Na tua mão está o engrandecer e o dar força a tudo. Agora, pois, ó nosso Deus, graças te damos e louvamos o teu glorioso nome. Mas quem sou eu, e quem é o meu povo, para que pudéssemos fazer ofertas tão voluntariamente? Porque tudo vem de ti e do que é teu to damos, porque somos estrangeiros diante de ti e peregrinos, como o foram todos os nossos pais.
Como a sombra são os nossos dias sobre a terra e não há permanência. Ó Senhor, Deus nosso, toda esta abundância, que preparamos para te edificar uma casa ao teu santo nome, vem da tua mão e é toda tua. Bem sei, Deus meu, que tu sondas o coração e que te agradas da retidão. Na sinceridade de meu coração voluntariamente ofereci todas estas coisas e agora vi com alegria que o teu povo, que se acha aqui, ofereceu voluntariamente.
— Tudo bem, pastor, e o que isso prova?
— Eu não sei, Salgado, estou lhe dando a Palavra de Deus. Leia e tire suas conclusões. Já que o dízimo lhe incomoda tanto, leia mais este trecho somente — insistiu o pastor, abrindo sua Bíblia em 1 Coríntios 9:4-14.
“Não temos nós direito de comer e de beber? Não temos nós direito de levar conosco esposa crente, como também os demais apóstolos, os irmãos do Senhor e Cefas? Ou será que só eu e Barnabé não temos direito de deixar de trabalhar?
Quem jamais vai à guerra à sua própria custa? Quem planta uma vinha e não come do seu fruto? Ou quem apascenta um rebanho e não se alimenta do leite do rebanho? Porventura digo eu isto como homem? Ou não diz a lei também o mesmo?
Na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca do boi quando debulha. Porventura está Deus cuidando dos bois? Ou não o diz certamente por nós? Com efeito, é por amor de nós que está escrito, porque o que lavra deve lavrar com esperança e o que debulha deve debulhar com esperança de participar do fruto.
Se nós semeamos para vós as coisas espirituais, será muito que de vós colhamos as materiais? Se outros participam deste direito sobre vós, por que não nós com mais justiça? Mas nós nunca usamos deste direito. Antes suportamos tudo, para não pormos impedimento algum ao evangelho de Cristo.
Não sabeis vós que os que administram o que é sagrado comem do que é do templo? E que os que servem ao altar, participam do altar? Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho.”
— Eu não quero discutir esse negócio de religião, não aqui — protestou Salgado, percebendo que havia sido injusto para com o pastor.
Este, por seu turno, percebeu que, de alguma forma, havia tocado o coração daquele homem. Por um só momento, percebeu a sua frente uma ovelha desgarrada, solitária e confusa, num cenário desconhecido.
— Só para finalizar, Salgado. Sei de gente que vai a esses terreiros e paga verdadeiras fortunas para o Exu Caveira, o Tranca Ruas, a Pomba Gira e mais um monte de outros servos do demônio, para que lhes façam trabalhos que nem vale a pena citar aqui — disse o pastor, olhando o comerciante nos olhos.
Salgado estremeceu.
— Essas mesmas pessoas, Salgado, não contribuem com um centavo para que um servo de Senhor divulgue a Palavra, promova curas e salvação. Não acha isso uma tremenda injustiça.
Salgado ficou sem resposta. Nesse momento, um médico surgiu na sala de espera. Era amigo de Salgado e do pastor. Seu olhar era de consternação.
— Abrimos… Mas achamos melhor fechar. Não há nada que possamos fazer. O câncer já se espalhou — disse, em voz baixa. — Ela vai ter que ficar internada até… Bem, você sabe do que eu estou falando.
Salgado estremeceu e respirou fundo. Sabia que tudo aquilo iria lhe custar um rio de dinheiro. Tinha de confiar, mais do que nunca, no trabalho do Exu Caveira para sair daquela situação.
Capítulo 7
“No amor não há medo. O perfeito amor lança fora o medo, porque o medo envolve castigo e quem tem medo não está aperfeiçoado no amor.” (1Jo 4:18)
Michele conheceu o inferno em vida a partir daquele telefone de Salgado. Nos três meses que se seguiram, ela sentiu pairar sobre si uma asa negra, uma sombra tenebrosa e ameaçadora, que parecia gargalhar de seus atos e do sofrimento interior que se abateu sobre ela.
Tinha certeza que era a causadora dos tormentos que agora assaltavam a esposa de seu amante. Entrevada numa cama, ela urrava de dor, sentindo o câncer corroer-lhe as entranhas. Os medicamentos mais poderosos não aliviavam suas dores e nem os médicos sabiam explicar o que acontecera.
Procurou o terreiro. Para desmanchar o trabalho, teria de pagar muito dinheiro, mas não queria pedir ao Salgado. Sabia que ele estava gastando uma fortuna para manter a mulher internada.
Evitava vê-lo. Não conseguia se aproximar dele, sabendo que tudo aquilo fora culpa dela. Ao invés de se livrar da rival, arrumara uma dor de cabeça a mais para o amante.
Para aliviar sua consciência, bebia e dormia embriagada. Quando acordava, a ressaca era terrível e ela se sentia ainda mais culpada, por isso bebia mais. Sua beleza foi perdendo o viço. Ela fichou inchada, feia, desleixada.
Só sabia entrar no seu carro e rodar pelo bairro, parando de bar em bar, até estar tão bêbada que mal conseguia voltar para casa.
Alfredo a viu assim, um dia, num fim de tarde, quando voltava para casa. Ela estava num bar, bebendo sozinha. Não era mais nem um pálido reflexo da menina bonita e adorável que ele conhecera e amara um dia.
Ficou com pena dela. Pena pelo amor que ainda sentia. Ia se afastar, com o coração aos pedaços, mas viu-a se levantar da mesa do bar e caminhar até a calçada. Ao fazer isso, tropeçou e caiu. Todos riram e zombaram ela.
Alfredo sentiu vontade de sumir dali, mas viu Michele tentar se levantar e não conseguir, de tão bêbada que estava. Ficou sentada na sarjeta, soluçando, com a maquilagem dos olhos se desfazendo e transformando seu rosto numa máscara.
Ele se deixou levar pelo coração. Aquele farrapo humano fora, um dia, a garota dos seus sonhos. Isso parecia ter acontecido havia tanto tempo, mas ele não podia deixar de sentir algo por ela. Nem que fosse piedade, mas seu coração ainda batia mais rápido na presença dela.
Foi até lá. Ao vê-lo, ela escondeu o rosto entre as mãos e chorou ainda mais. Os outros bêbados no bar continuavam rindo e zombando. Ela apanhou as chaves do carro na bolsa e tentou se levantar. Cambaleou e quase caiu. Alfredo a amparou.
Ao sentir a firmeza dos braços dele, aparando-a, ela soluçou e se deixou guiar gentilmente. Ele a pôs no carro e assumiu o volante. Não podia levá-la para a casa dela naquele estado. Lembrou-se de Míriam, a amiga dos dois. Rumou para lá.
— Ela está mal! — comentou, enquanto ajudava Míriam a levá-la até o banheiro.
— Vou dar um banho nela. Não vá embora. Espere, talvez a gente consiga conversar com ela.
— Pobrezinha! Eu tenho tanta pena dela. Que pecado ela pode ter cometido para estar nesse estado?
— Seja qual for, o que ela precisa saber é que o perdão a espera. Basta querer receber o Senhor Jesus em seu coração. Conversei com ela um dia desses. Disse-me que estava ficando cada vez mais desesperada, queria parar de beber e não conseguia. Acho que ela está pedindo ajuda, Alfredo. Se com a graça de Deus isso se confirmar, podemos ter a nossa Michele de volta.
Os dois acomodaram Michele na banheira. A mãe de Míriam providenciou um café bem forte. Alfredo foi até a farmácia e comprou um remédio para ressaca. Demorou-se um pouco conversando com um amigo e, quando chegou, Michele estava numa cama, no quarto de Míriam.
Foi ter com ela, levando o remédio para bebedeira. Ao vê-lo entrar, ainda sob o efeito do álcool, Michele murmurou:
— Eis que chegou meu bom Anjo da Guarda.
Alfredo se aproximou.
— Fique aqui comigo — pediu ela, estendendo uma das mãos.
Alfredo, emocionado, segurou a mão dela.
— Diga alguma coisa boa… Alguma coisa doce… Alguma coisa que alegre a minha alma — pediu ela. — Estou tão triste! Tão desesperada! — soluçou ela.
Alfredo estendeu a mão, apanhando a Bíblia de Míriam, que estava sobre um móvel. Abriu-a ao acaso. Leu o Salmo 4.
“Responde-me quando eu clamar, ó Deus da minha justiça! Na angústia me deste alívio. Tem misericórdia de mim e ouve a minha oração.
Filhos dos homens, até quando convertereis a minha glória em infâmia? Até quando amareis a vaidade e buscareis a mentira? Sabei que o Senhor separou para si aquele que é piedoso. O Senhor me ouve quando eu clamo a ele. Irai-vos e não pequeis. Consultai com o vosso coração em vosso leito e calai-vos. Oferecei sacrifícios de justiça e confiai no Senhor.
Muitos dizem: Quem nos mostrará o bem? Levanta, Senhor, sobre nós a luz do teu rosto. Puseste no meu coração mais alegria do que a deles no tempo em que se lhes multiplicam o trigo e o vinho.
Em paz me deitarei e dormirei, porque só tu, Senhor, me fazes habitar em segurança.”
Quando ele terminou a leitura, Michele dormia profundamente, ainda segurando a mão dele. Alfredo tentou soltá-la, mas ela a havia prendido firmemente. Ele sorriu, olhando-a. Havia paz no rosto dela, trazendo de volta aquela beleza que ele conhecera.
Ao lado da cama, Míriam olhava com admiração aquela cena, pois percebera a transformação que se operara em Michele, a partir do momento em que Alfredo segurara a mão dela e lera a Palavra.
— Ela vai ser salva, Alfredo. O Senhor está me dizendo isso — falou Míriam, com convicção.
— Glória a Deus, então, Míriam. Você não sabe o quanto isso me faz feliz — disse ele e lágrimas brotaram em seus olhos.
— Vamos tentar levá-la à igreja. Vai ser muito bom se ela for, tenho certeza.
— Vou ficar aqui com ela, se não se importa, até que ela solte a minha mão — decidiu ele, arrumando, com carinhos, os cabelos de Michele, que dormia placidamente agora.
*
Em seu escritório, naquele começo de noite, Salgado vivia seu inferno particular, julgando que o céu desabava sobre sua cabeça. Estava tudo dando errado. Havia vendido, naqueles três meses, quase todo o seu estoque. Uma pequena parte à vista, mas o restante à prazo. O que não fora através de duplicatas fora em cheques pré-datados. Descontara as duplicatas no banco e trocara os cheques com seu amigo agiota.
O problema era que as duplicatas descontadas não estavam sendo pagas e os cheques pré-datados estavam sendo devolvidos. Houve uma explosão nas vendas, com todo mundo deslumbrado com o Plano Real, comprando como verdadeiros loucos.
Ninguém esperava, no entanto, que a inadimplência crescesse daquela forma. Todos haviam assumido prestações acima de suas possibilidades. A recessão que se insinuava no comércio em geral, com a liberação das importações e da concorrência estrangeira provocou muitas demissões.
Setores como a construção civil, bancos, indústrias e serviços em geral demitiram trabalhadores em massa. Essa gente toda agora, cheia de prestações, provocava um verdadeiro caos no comércio.
Em breve teria que pagar o estoque que comprara e não teria como. Estava com um monte de papéis sem valor nas mãos. Para complicar, o agiota cobrava um juro absurdo e a dívida crescia cada vez mais. Não conseguiria pagar a viagem de Soninha. O hospital estava lhe tirando até o último centavo. Sua mulher não melhorava. Continuava sofrendo naquele quarto. Michele não queria vê-lo.
Pai Nozinho vivia insistindo para fazer um outro trabalho, porque um concorrente havia feito algo muito forte, por isso tudo aquilo estava acontecendo. Só que esse trabalho custaria agora vinte mil reais para ser desfeito. Salgado estava cada vez mais desesperado.
Havia empenhado tudo que tinha e que não tinha naquela jogada. Se desse certo, ficaria rico, mas, da forma como acontecera, não apenas quebraria, como perderia tudo que ainda tinha.
Não sabia o que fazer. A cada vez que abria uma das gavetas de sua escrivaninha e via aquele revólver carregado, tinha vontade de fazer uma loucura. A única coisa que ainda o segurava eram os filhos. Não podia deixá-los na miséria, mas não sabia o que fazer.
Maria chegou até a porta.
— Seu Salgado, a loja está fechada e o pessoal já foi embora. Precisa de mais alguma coisa?
— Não, Maria, nada! — respondeu ele, distante.
Ela ia se afastando, quando ele levantou a cabeça.
— Maria! — chamou-a ele.
Ela se voltou. Ele hesitou, como se fosse muito difícil para ele dizer o que pretendia. Seus olhos se encheram de lágrimas.
— Você vai à igreja hoje?
— Sim, vou. Por quê?
Ele hesitou novamente, engolindo seco algumas vezes.
— Reze por mim, Maria. Estou precisando — pediu ele, com humildade.
Para Maria aquilo foi algo inesperado, que ela jamais sonhara ouvir. Olhou-o longamente, percebendo as lágrimas nos olhos dele. Depois olhou ao redor dele. Nos móveis e prateleiras havia imagens, amuletos e talismãs de todos os tipos. Nenhum deles podia ajudá-lo e ele, graças a Deus, estava começando a perceber isso.
Maria caminhou até a mesa dele.
— Seu Salgado, o Miguelzinho vive pedindo para eu orar pela mãe dele e me diz sempre que ele gostaria de poder ir à igreja fazer isso pessoalmente. Por que o senhor não o leva? Pode ser bom para os dois.
— O que eu vou fazer lá, Maria? Olhe para mim, olhe ao meu redor. Sou um homem sem crença e sem fé. Naquela noite, quando o pastor foi lá no hospital, eu o destratei com a minha ignorância…
— Vinde a mim, todos os que estão cansados e oprimidos e eu os aliviarei — disse Maria, citando Mateus 11:28.
— Não, Maria, não acho que exista solução para mim. Eu mexi com coisas que não devia.
— No tempo aceitável te escutei e no dia da salvação te socorri. Eis aqui, agora, o tempo aceitável. E eis aqui, agora, o dia da salvação — tornou ela, agora citando 2 Coríntios 6:2.
Um sorriso de bondade e reconhecimento brotou nos lábios de Salgado.
— Essa memória sua é um dom de Deus, Maria. Desculpe-me se a critiquei um dia por isso.
Ela o olhou com um sorriso nos lábios, feliz por ter percebido que havia tocado o coração daquele homem.
— E então, seu Salgado? Vamos à igreja, nem que seja só para levar o Miguelzinho.
— Eu tenho que ir ao hospital e…
— Seu Salgado, sua esposa está sofrendo muito, mas o senhor sabe que poderia salvá-la, se tivesse fé e acreditasse no poder de Cristo?
— Maria, ela já foi desenganada. Não é uma unha encravada nem uma verruga que a incomoda. É um câncer que a está comendo por dentro…
— Seu Salgado, lembra da passagem de Lázaro, no Novo Testamento?
— Claro que sim.
— Lázaro estava enterrado há quatro dias. Nesse tempo, as células de seu corpo já estavam se decompondo. Não havia mais vida. O Senhor Jesus, no entanto, restaurou a vida de cada uma daquelas células mortas. Se Ele tem o poder de fazer isso, curar sua esposa é muito mais fácil ainda.
— Se os meus problemas fossem só esses…
— Lança o teu fardo sobre o Senhor e ele te susterá e nunca permitirá que o justo seja abalado — lembrou Maria, desta vez mencionando o Salmo 55:22.
— Como se eu pudesse ser chamado de justo…
— Não seja tão severo consigo mesmo, pois não há homem justo sobre a terra, que faça o bem e nunca peque — continuou ela, lembrando Eclesiastes 7:20.
— Ah, Maria, gostaria que as coisas fossem tão simples assim…
— E elas são, seu Salgado. Nós é que temos a péssima mania de complicar tudo. Pense bem. Cristo pode estar lhe estendendo a mão neste momento, esperando que o senhor o aceite como Salvador.
— Vou pensar, Maria. Vou pensar — afirmou ele, agradecendo.
Quando ela saiu, Salgado respirou fundo, sentindo-se leve pela primeira vez nos últimos tempos. Olhou ao seu redor. Aquelas imagens e símbolos não tinham sentido nenhum. Pensou por instantes, depois apanhou o cesto de lixo e começou a jogar tudo lá dentro. Quando terminou, fechou o escritório e foi para o hospital.
Quando entrou no quarto, viu sua esposa na cama, o rosto crispado de dor, tubos enfiados em seu nariz e em sua boca, agulhas espetadas em seus braços magros.
Ficou ali, em silêncio, olhando para ela, que já não reconheci ninguém. Era um corpo à espera da morto.
Algo estranho aconteceu. Olhando o rosto dela, por trás de todo o sofrimento, por trás da máscara de dor e sofrimento em que ele se transformara, Salgado viu ali a mulher por quem se apaixonara um dia e que amara profundamente.
Milhares de cenas passaram por sua mente. O casamento, os primeiros tempos, os filhos, os planos todos que haviam feito juntos, a vida que esperavam levar. Eram recordações demais, tantas que sufocaram seu coração e fizeram as lágrimas brotarem generosamente de seus olhos, escorrendo de suas faces.
— Salgado! — ouviu ele, reconhecendo a voz da esposa.
Levantou os olhos para ela, mas ela continuava imóvel, com a mesma expressão distante de antes. Abaixou a cabeça e soluçou.
— Salgado! — repetiu a voz.
Ele se levantou num salto, olhando ao redor. Foi até a cama. Debruçou-se sobre o corpo da esposa, que não demonstrou nenhuma reação. Ele foi até a janela, depois até a porta do corredor.
— Leve o Miguelzinho à igreja! — disse a voz e, desta vez, um arrepio percorreu o corpo do comerciante, dos pés à cabeça, arrepiando seus cabelos e fazendo seu coração disparar.
— É você? É você que está falando comigo? — indagou ele, correndo até a cama.
A mulher continuava imóvel, com o rosto impassível. Salgado começou a tremer.
*
Maria estava se aprontando para ir à igreja, quando Úrsula chegou. Estava maquilada, com os cabelos penteados e as unhas feitas. Ao ver a irmã toda produzida, indagou:
— Puxa, Úrsula, é você mesma? Nem parece a minha irmãzinha!
— Estou bonita?
— Você está linda. Onde vai?
— Vou a uma festa.
— Com o Rodrigo?
— Sim, eu só saio com ele.
Maria não tinha o que recriminar. No fundo, já estava até começando a aceitar Rodrigo, apesar de seus antecedentes. Podia julgá-lo pelo que Úrsula dizia. Ele a protegia, cuidava dela, dava-lhe roupas, levava a passeios e festas e nunca tocara nela. A própria Úrsula havia confessado que não fora por falta de iniciativa dela. Bem que tentara seduzí-lo, mas Rodrigo havia digo que só a tocaria quando se casassem. Como recriminar um homem desses?
— Onde vai ser a festa hoje? — indagou à irmã.
— Numa casa de campo, fora da cidade.
— Deve ser uma festa especial, porque nunca vi você tão produzida.
— Na realidade, vai haver um concurso de beleza.
— E você vai participar?
— O que tem? Posso ganhar uma viagem a Cancun, dois mil e quinhentos dólares, fora um contrato, se algum caça-talentos for com a minha cara. Já pensou este rostinho aqui saindo nas capas de revistas do mundo inteiro? — indagou Úrsula, vaidosa, indo se postar diante do espelho e conferir a maquilagem.
Era pura vaidade. Maria pensou em lhe dizer algumas coisas, mas desistiu. Úrsula era tão nova e estava deslumbrada com a vida. Felizmente nada a ameaçava. O melhor a fazer era deixá-la viver a vida da forma como queria e, na medida do possível, ir pondo-a em contato com a Palavra.
Quando chegasse o momento certo, com a graça de Deus, Úrsula também entregaria seu coração a Cristo.
Capítulo 8
“Autoridades do povo e vós, anciäos, se nós hoje somos inquiridos acerca do benefício feito a um enfermo e do modo como foi curado, seja conhecido de vós todos e de todo o povo de Israel, que em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, aquele a quem vós crucificastes e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, nesse nome está este aqui, säo diante de vós.
Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta como pedra angular. Em nenhum outro há salvaçäo, porque debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, em que devamos ser salvos. (At 4:8-12)
Miguel estava eufórico com tudo o que via. O templo era enorme, com um espaço amplo onde circulavam os pastores. Obreiros cuidavam para que todos permanecessem acomodados, levando-os até as cadeiras vazias, orientando-os.
Segurando a mão do pai, ele olhava para este e para Soninha, sua irmãzinha, que ele conduzia pela mão. Ela também estava deslumbrada com tanta grandiosidade, com a receptividade, com a maneira cordial com que todos se cumprimentavam.
Quando o culto começou, os dois se olhavam, contagiados pela alegria e pela animação com que todos cantavam. Um obreiro lhes entregou um livro de orações. Miguel começou a acompanhar a música, ensinando o refrão para sua irmã.
Ao lado, com o rosto ainda sombrio e o coração compungido, Salgado se sentia indigno de estar ali, no meio daquelas pessoas de fé. Ele estava mais acostumado a freqüentar os terreiros, onde as entidades das trevas circulavam livremente. Ali havia luzes, rostos sorridentes e amigos, num ambiente que não o deixava à vontade.
Viu, porém, a animação de seus filhos e isso por si só já justiricava sua presença.
Após o hino, o pregador pediu que as pessoas se apresentassem e se cumprimentassem. As crianças adoraram conhecer tantas pessoas, que ficaram encantadas com a graça e com a educação dos dois. Salgado, aos poucos, foi se deixando envolver por aquele clima, sem o perceber.
O pastor pediu que as pessoas que ali estavam pela primeira vez se identificassem.
— Levanta a mão, papai! — pediu Soninha, cutuvando-o.
Ele olhou. Ela e Miguel tinham levantados as duas mãos. Um anto sem graça, ele fez o mesmo. Foram saudados e o culto teve prosseguimento. Salgado olhava ao seu redor, observando como aqelas pessoas pareciam tão tranqüilas.
Chegou o momento do pastor Messias assumir o púlpito. Até então ele estava a um canto, meditando e orando. Ao chegar ao microfone, ainda de cabeça baixa, ele ficou em silêncio por instantes. Todos ficaram em silêncio com ele e se uma agulha tivesse caído no chã, naquele momento, o som seria ouvido por todos.
— Obrigado, Senhor, por trazer até nós o nosso irmão, que estava perdido entre as imagens e ídolos e agora está aqui, à procura do Deus Vivo, do verdadeiro Deus! Obrigado, Senhor, por esta jovem que resgatas da solidão, do vício, das influências maléficas e a coloca, renovada e ansiosa pela Palavra, aqui entre nós…
Salgado sabia que as primeiras palavras eram para ele, tanto quanto Michele, no canto oposto do templo, sabia que o segundo agradecimetno era pela sua presença. Ao seu lado, feliz e confiante, estavam Alfredo e Míriam, amparando-a e dando-lhe forças.
Enquanto ele continuava seus agradecimentos, Maria acompanhava com fervor, pois vira Salgado e as crianças entrando. Ficou muito feliz por eles.
A pregação continuou. O pastor Messias falou sobre as ilusões do mundo, sobre o dinheiro, sobre o pecado, sobre as obras do diabo e como tudo isso se entrelaçava, enganando as pessoas. Falou sobre a justiça divina e sobre o perdão. Descreveu como um cristão pode mudar sua vida, simplesmente aceitando o Deus Vivo em seu coração, reconhecendo o Senhor Jesus como seu único salvador.
Salgado via no rosto das pessoas como eles bebiam aquelas palavras e como seus rostos se iluminavam. Sentiu-se pequeno, um grão de areia no deserto, invejando a fé que transbordava dos olhos de cada um dos presentes.
Acreditou que jamais poderia ser como um deles. Havia pecado demais. Havia descido fundo demais no poço das iniqüidades e agora não havia salvação. Cometera adultério, entregara sua vida ao diabo, através de seus asseclas, estava desesperado, prestes a cometer um ato de loucura.
Numa cama de hospital sua esposa agonizava. Sua amante desparecera de sua vida. Seus bens estavam sendo dilapidados pelos juros exorbitantes cobrados pelo agiota e pelos bancos. Tinha uma dívida enorme e não sabia como pagá-la. Prometera à filha mandá-la para a Disneilândia e não poderia cumprir a promessa. Tinha dois carros e os perderia. A casa teria de ser vendida para pagar as dívidas e, mesmo assim, não conseguiria sair do buraco, com o monte de duplicatas e cheques sem fundo em que se transformara todo o seu estoque.
O pastor chamou à frente pessoas para darem seus testemunhos. Muitas falaram de doenças que haviam sido curadas pela fé. Miguel e Soninha acompanhavam com atenção, principalmente a garotinha, que havia ido apenas uma vez ao hospital e, ao ver a mãe ligada a tubos e aparelhos, ficara chocada.
Um menino disse que o pai havia sido curado de um tumor. Uma senhora afirmou que sua filha tinha um câncer do cérebro e ficara curada. As maravilhas operadas por obra do Espírito Santo iam sendo relacionadas e aplaudidas.
Assim que terminaram, o pastor indagou:
— Há alguém aqui que gostaria de fazer um pedido especial por algum familiar ou amigo doente? Escrevam o pedido nos papéis que os obreiros vão distribuir, depois entreguem de volta. Vamos fazer uma corrente de oração e…
Interrompeu-se. Toda a igreja parou, observando o que acontecia. Soninha havia deixado seu pai e seu irmão e subia decididamente os degraus que a levavam ao local onde estava o púlpito. Ao vê-la, o pastor Messias a reconheceu.
— Eu quero! — disse ela.
Um obreiro se adiantou para dizer a ela que os pedidos tinham de ser escritos, mas o pastor o impediu com um gesto.A menina se aproximou. O pastor apanhou o microfone e se abaixou junto dela.
— Como é seu nome, querida?
— Soninha!
— Você veio sozinha, Soninha?
— Não, estou com meu pai e meu irmão. Olhe os dois ali — apontou ela.
O pastor olhou na direção de Salgado, que se viu embaraçado pelo que a filha estava fazendo.
— E que pedido você quer fazer, Soninha?
— Quero pedir a Jesus que cure a minha mãe. Ela está no hospital, sofrendo muito e eu não quero que ela sofra mais. Você pede para Jesus curar ela?
Lágrimas vieram aos olhos do pastor.
— Sim, querida, eu peço. Mas você acha que Ele pode mesmo curar sua mãe?
— Ele curou toda essa gente, não curou? Então é claro que Ele pode curar a minha mãe.
O pastor se levantou, sem disfarçar sua emoção.
— Oh, Senhor, tu que disseste deixai vir a mim as criancinhas e não as impeçais, porque delas é o reino dos céus, aceita a nossa oração e atenda ao pedido desta inocente que confia em Ti, tanto quanto nós confiamos. Meus irmãos, peço a todos que se unam a mim em oração pela saúde da mãe desta criança. Se ela está aqui, pedindo isso, é porque o Espírito Santo assim o determinou. Ergamos nossos braços para implorar a Ele — pediu o pastor.
O silêncio da igreja foi quebrado por um murmúrio que foi aumentando, seguindo o tom ditado pela oração do pastor. Em questão de minutos, toda a igreja orava e o som parecia o estrondo de mil trovões, afugentando demônios e espíritos imundos.
Sem perceber, Salgado fazia a mesma coisa, seguido por Miguel, que orava com muito fervor. A oração durou alguns minutos, mas pareceu ter durado séculos, tamanha foi a intensidade com que o comerciante se entregou a ela. Quanto terminou, sentiu-se leve e contente. Começou a rir, sem entender o que se passava.
Naquele momento, o celular que estava preso a sua cintura, ligado para vibrar se fosse chamado, deu o sinal. Ele ficou sem saber o que fazer. No mesmo momento, porém, pensou na esposa. Podia ser o hospital informando que ela havia falecido.
Como todos estavam em pé ainda, ele se sentou e atendeu, falando baixinho.
— Salgado, venha para o hospital agora mesmo. Aconteceu um milagre!
*
Maria estava muito feliz com o que acontecera. Salgado saíra apressado, com os filhos, rumando para o hospital. O médico que ligara informara que, por mais incrível que pudesse parecer, sua esposa havia melhorado, pedido para retirar os tubos e aparelhos e para que lhe trouxessem uma canja. Em agradecimento, ela orou com todo o seu fervor.
O culto chegava ao fim, quando uma amiga sua chegou até ela.
— Maria, tenho uma coisa para lhe contar e você não vai gostar — disse, demonstrando preocupação. — Vamos lá fora.
Maria a acompanhou, assustada.
— Maria, é a Úrsula. Ela foi numa festa, não foi?
— Sim, foi com o Rodrigo. Aconteceu alguma coisa? Meu Deus! Um acidente, não foi?
— Não, Maria, antes fosse! — afirmou a amiga, causando estranheza na moça, que a encarou sem entender.
— Maria, sabe que tipo de festa é essa?
— Não tenho a menor idéia, mas sei que é só de gente fina e…
— Não é gente fina. As meninas que estão lá vão ser leiloadas. São todas virgens e quem dar o maior lance fica com elas, você entendeu?
Maria não podia acreditar em tamanha sordidez. Isso não podia estar acontecendo com sua irmã, não com Úrsula, tão inocente, tão ingênua, tão envolvida pelos encantos de Rodrigo.
— Como você ficou sabendo disso?
— Uma das meninas descobriu e pulou fora. Só me contou agora, pedindo segredo.
— E onde vai ser isso?
— Ninguém sabe.
— Tenho que avisar a polícia…
— É bobagem, Maria. Só tem gente importante envolvida. Se fizer isso, quem acaba se enrolando toda é você, entendeu?
— Mas não posso deixar que uma coisa dessas aconteça a minha irmã — disse Maria, levantando os olhos.
Relâmpagos iluminavam o céu. Aquele tempo fechado persistira todo o dia. Possivelmente desabaria uma tempestade em breve. Aflita, ela não soube o que fazer.
Lá dentro encerrava-se o culto. Maria apertou sua Bíblia ao peito e orou:
— Senhor Jesus, Deus Vivo e nosso Salvador, zela por minha irmãzinha, esteja ela onde estiver. Traga-a em segurança para casa. Não permita que a maldade dos homens destrua a sua inocência. Oh, Senhor, eu te peço de todo o meu coração, atenda o pedido de sua serva, para glória do teu nome…
Enquanto isso, longe dali, numa passarela, vestindo um biquíni minúsculo, com os olhos vermelhos de chorar, Úrsula era empurrada e obrigada a iniciar seu desfile, sob os olhares cheios de cobiça de todos os homens ali presentes.
*
Sempre acompanhada de seus amigos, Michele deixou a igreja, sentindo-se renovada. Era como estar de volta ao lar, revendo pessoas queridas, sentindo de novo aquele clima gostoso e conhecido.
— Como se sente agora? — indagou Alfredo.
— Estou bem, muito aliviada.
— Acha que vai conseguir superar seus problemas?
— Com amigos como vocês me ajudando, com toda certeza farei isso. Amanhã vou ao médico, cuidar da minha saúde. Vou precisar de ajuda para parar de beber,mas vou conseguir.
— Vai encontrar toda a ajuda aqui, entre nós, Michele — afirmou Alfredo.
Miriam se despediu. Michele e Alfredo caminharam juntos, de volta para casa.
— Tem alguma coisa incomodando você, Alfredo? — perguntou ela.
— Sim, posso lhe fazer uma pergunta?
— Claro que sim. O que é?
— O que sentiu quando viu o Salgado lá na igreja?
Ela pensou por instantes.
— Vi a loucura que eu estava fazendo. Fiquei com pena de mim e com pena dele. Está tão acabado quanto eu.
— Soube que ele anda com muitos problemas, não só em relação à esposa, mas também na firma. Está com uma dívida muito grande.
— Eu me sinto culpada por tanta coisa… — lamentou-se a garota.
— Não, você não deve se sentir assim. O que aconteceu deve ser esquecido. Você deve buscar agora o perdão e abrir-se de novo para receber Cristo de volta em seu coração.
— Acho que devemos orar por todos nós, então — concluiu ela.
— Sim, faremos isso. Vamos pedir ao pastor para sugerir ao seu Salgado participar de uma corrente de prosperidade. Tenho certeza que tudo se resolverá, com a graça de Deus.
— Sim, Alfredo, com a graça de Deus! — confirmou a garota, estendendo a mão e segurando a dele.
Caminharam juntos e confiantes em direção ao futuro.
*
Desabou uma verdadeira tempestade. Em sua casa, Maria não sabia o que fazer. Ligara para a polícia, mas nem quiseram lhe dar ouvidos, porque ela não tinha nenhuma informação concreta. O policial que a atendeu achou até que fosse um trote.
Ela estava desesperada e não queria contar nada a seus pais para não lhes causar desgosto. Orou o tempo todo, pedindo ao seu Deus Vivo que abrandasse o coração daqueles que haviam levado sua irmãzinha a tão sórdido espetáculo.
Na janela, olhando a chuva cair com violência, punha-se no lugar da irmã e tentava imaginar o terror que ela deveria estar enfrentando. Para uma criatura inocente como Úrsula, entrar em contato com o que havia de mais sujo no mundo seria um trauma de difícil recuperação.
— Senhor, tu que disseste, em Lucas 11, versículos 9 e 10, pedi e dar-se-vos-á, buscai e achareis, batei e abrir-se-vos-á, pois todo o que pede, recebe e quem busca, acha e ao que bate, abrir-se-lhe-á, eu te peço, traze de volta, sã e salva, minha irmãzinha! Ouve, ó Senhor, a súplica de tua serva, pela graça de Deus e pela proteção do Espírito Santo.
Nesse instante, Maria sentiu como se um véu suave descesse sobre ela, tirando-lhe todo o medo e toda a preocupação. Lá fora o vento deixou de soprar e chuva parou. Ele teve certeza que sua irmão estava bem.
Saiu ao portão. A enxurrada ainda corria pela sarjeta, provando a força daquela chuva. Ela não soube quanto tempo ficou ali, esperando. Quando aquele carro parou e um jovem desceu, indo abrir a porta para que Úrsula descesse, Maria caiu de joelhos e agradeceu ao Senhor.
— Maria, está tudo bem — disse Úrsula, ajoelhando-se junto da irmã e abraçando-a.
O rapaz se aproximou. Maria se levantou, encarando-o, sem saber se o recriminava ou se o agradecia.
— Eu a encontrei na estrada e a trouxe — explicou ele.
Maria voltou os olhos cheios de interrogações para a irmã.
— Maria, foi tudo mentira, o Rodrigo é um canalha. A festa não era nada daquilo…
— Sim, eu fiquei sabendo. Aconteceu alguma coisa com você?
— Não, nada. Quando eu estava desfilando, começou a chuva. Caiu um poste e acabou a luz. Eu fugi pela porta. Corri no meio da chuva, até passar esse rapaz, que me trouxe…
— Glória a Deus! — murmurou Maria, convidando o rapaz para entrar.
Ele se apresentou. Seu nome era Mário e era um recém-convertido.
— Se eu lhe contar uma coisa, vocês prometem que não vão rir de mim? — falou ele, com gravidade, enquanto tomava um café passado na hora.
— Conte, o que pode ser tão engraçado assim.
— Eu moro nas proximidades do local onde encontrei Úrsula. Eu estava lendo a Bíblia, coisa que faço sempre antes de dormir, quando me deu vontade de pegar o carro e sair. Olhei pela janela. Os relâmpagos e trovões não recomendavam sair, mas havia uma força me empurrando. Eu até disse: Senhor, se for por tua vontade, farei o que me pedes. E saí. Começou a chuva. Eu nem sabia para que lado ir. Simplesmente dirigi na chuva, até ver Úrsula, desesperada, pedindo carona. Vocês são capazes de acreditar numa coisa dessas?
Maria olhou para ele e para Úrsula. Sorriu e seu sorriso demonstrava que acreditava em cada palavra que Mária havia dito.
Epílogo
Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, näo temerei mal algum, porque tu estás comigo. A tua vara e o teu cajado me consolam. (Sl 23:4)
A esposa de Salgado sarou. Assim que se recuperou totalmente, a família toda foi à igreja e recebeu Jesus com muita fé e muita alegria. Homens de negócio de nossa igreja, sabedores do problema enfrentado por ele em sua empresa, prontificaram-se a ajudar, já que também enfrentavam os mesmos problemas. Organizaram uma empresa de cobrança e renegociaram seus débitos e créditos, organizando sua vida financeira rapidamente. Soninha adorou a Disneilândia e Miguel é hoje um dos jovens mais atuantes do seu grupo. Maria é gerente da firma agora e está toda feliz, ajudando Úrsula com o enxoval. Ela e Mário estão namorando sério.
Alfredo e Michele estão de casamento marcado. Ela não só se recuperou do vício da bebida como fez algo que surpreendeu às paoucas pessoas que ficaram sabendo. Reuniu tudo que Salgado havia lhe dado ao longo do tempo, inclusive o carro, vendeu e entregou o dinheiro no hospital, terminando o resto da dívida da internação da esposa do Salgado.
Rodrigo foi preso. Pai Nozinho está sendo procurado por charlatanismo.
L P BAÇAN.
27.05.2010
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Estas páginas são uma tradução de um dos capítulos do livro do Rev. Richard Baxter, intitulado Direções e Persuasões para uma Conversão Segura (Directions and Persuasions to a Sound Conversion). Dentre as doze instruções que ele fornece no livro, a fim de que uma conversão não venha a ser abortada, mas sim firme, segura, sólida e saudável, a quarta, aqui traduzida, é a seguinte: “Atente para que a obra de humilhação seja feita de modo completo, e não fuja do Espírito de contrição antes que Ele complete Sua obra em você”.
O capítulo é, portanto, um tratado sobre quebrantamento, sobre a obra de humilhação que o Espírito quer realizar no entendimento, vontade e sentimentos de um pecador, a fim de habilitar seu coração a receber a Cristo com a solicitude e dignidade imprescindíveis, porque Cristo, escreve Richard Baxter, “não virá através da Sua graça salvadora à alma, para ser recebido ali com desprezo: porque Ele veio na carne com o propósito de ser humilhado, mas veio no Espírito com o propósito de ser exaltado”.
O Rev. Richard Baxter foi um conhecido pastor reformado, o qual viveu na Inglaterra durante o século XVII (1615-1691). Era um não-conformista, que tentou reformar a Igreja da Inglaterra, sendo muitas vezes preso por isso. Dentre os seus livros mais importantes estão: O Pastor Reformado, O Descanso Eterno dos Santos, A Vida Divina, Um Tratado sobre a Conversão, Um Apelo ao não Convertido, Agora ou Nunca, e muitos outros clássicos evangélicos.
Os escritos, a pregação e a vida de Richard Baxter produziram um inegável reavivamento espiritual na cidade de Kidderminster, onde realizou o seu ministério. Quando ele chegou à cidade, eram poucos os crentes e duvidosas as suas conversões. Algum tempo depois, entretanto, o templo de sua igreja teve que ser aumentado – ainda assim não comportava mais as pessoas, que escalavam as janelas para ouvir suas pregações. Muitas ruas da cidade tiveram todos os seus moradores convertidos: podia-se ouvir centenas de pessoas cantando hinos de louvor a Deus em plena rua; e as conversões davam provas suficientes de serem sinceras e profundas.
O propósito da Editora Clássicos Evangélicos[1][1][1], como o próprio nome indica, é traduzir e editar obras (sermões, biografias, obras práticas e teológicas) de homens de reconhecida estatura espiritual dos períodos mais gloriosos da História da Igreja, tais como: Jonathan Edwards, John Owen, Richard Sibbes, Thomas Goodwin, mais recentemente Martyn Lloyd-Jones, e outros, como o volume aqui apresentado de Richard Baxter, que introduz a série.
Vemos os escritos desses irmãos do passado como um tesouro espiritual valiosíssimo, mas ao mesmo tempo perdido ou quase inacessível aos leitores brasileiros. Desejamos resgatar alguns desses tesouros e compartilhar suas jóias (conselhos, interpretações, ensinos, experiências, luz e calor), tornando-os mais acessíveis.
O Editor
A firmeza da conversão e santificação é uma consideração tão importante que o nosso cuidado e diligência em confirmá-las não podem ser demasiadamente grandes. Tanto os ateístas professos, pagãos e infiéis lá fora, como os hipócritas auto-enganadores dentro da igreja, entregam-se deliberadamente à ruína eterna ao negligenciarem tal assunto de conseqüência eterna, enquanto têm tempo, advertência e assistência para considerarem a questão com urgência. Multidões vivem como brutos ou ateístas, esquecendo-se de que são nascidos em pecado e miséria, deliberadamente acomodados nesta situação, os quais devem ser convertidos, ou serão condenados. Muitos deles não sabem a necessidade que têm de conversão, nem o que é conversão ou santificação. Além disso, alguns pregadores do Evangelho têm sido tão lamentavelmente ignorantes quanto a um assunto de tal importância que têm persuadido o pobre e iludido povo de que apenas os pecadores grosseiros e odiosos necessitam de conversão, dessa forma prometendo salvação àqueles, aos quais Cristo, com muitas asseverações, declarou que não entrariam no reino de Deus. Outros, embora confessem que uma profunda santificação é algo necessário, iludem suas almas com alguma coisa que apenas se assemelha a isso.
Aí está a causa da miséria e desonra da igreja. A própria santidade é desonrada por causa dos pecados daqueles que, se dizendo santos, pretextam aquilo que não têm. Por isso, temos milhares que se chamam cristãos vivendo uma vida mundana e carnal; alguns deles odiando o caminho da piedade, pensando, contudo, que são convertidos por sentirem alguma tristeza quando pecam; desejam, quando o pecado já é passado, que não houvesse acontecido aquilo, imploram a misericórdia de Deus por isso, e se confessam pecadores. Isto, eles tomam por verdadeiro arrependimento; embora o pecado nunca tenha sido mortificado nas suas almas, nem os seus corações tenham sido levados a odiar e abandonar o pecado. Após haverem usufruído e se deleitado no pecado, ficam tristes por causa do perigo, mas nunca são regenerados e feitos novas criaturas pelo Espírito de Cristo.
É por isso, também, que temos tanta abundância de meros “opinionistas”, que se consideram pessoas religiosas porque mudaram de opinião ou de denominação, porque podem tagarelar contenciosamente contra aqueles que não pensam como eles, e porque se unem àqueles que parecem ser os mais piedosos, assim assumindo serem realmente santificados. Isto promove tamanho corre-corre de uma opinião à outra, e tal reprovação, injúria, e divisões, pelo seguinte: a religião deles consiste especialmente nas suas opiniões, sendo que nunca mortificaram suas inclinações e paixões carnais e egoístas. Isto sim, produziria neles uma mente santa e celestial.
Por isso também há tantos mestres licenciosos, os quais parecem ser religiosos, mas que não refreiam suas línguas, seus apetites, suas cobiças, sendo antes escarnecedores, caluniadores, beberrões, glutões, imundos e lascivos, ou de algum modo escandalosos para a sua santa profissão, porque desconhecem uma real conversão e apegam-se a uma mudança falsa ou superficial.
Esta é a razão pela qual há tantos mundanos que se consideram homens religiosos, os quais fazem de Cristo apenas um servo dos seus interesses mundanos, e buscam os céus apenas como uma reserva para quando nada mais lhes restar na terra, e são apegados a certas coisas deste mundo, as quais lhes são tão queridas, a ponto de não poderem abandoná-las pela esperança da glória; mas entregam-se a Cristo com secretas exceções e reservas, por causa de sua prosperidade no mundo. Tudo isso porque nunca conheceram uma conversão genuína, a qual deveria ter arrancado dos seus corações este interesse mundano, e tê-los libertado inteira e absolutamente para Cristo.
É por isso também que há tão poucos mestres que podem desvencilhar-se do seu orgulho, suportar desconsideração ou ofensa, amar os seus inimigos, e abençoar aqueles que os amaldiçoam; sim, ou amar seus amigos piedosos que os irritam ou desonram; e tão poucos que podem negar a si mesmos pela honra de outros, ou fazer qualquer coisa considerável por amor a Cristo, em obediência e conformidade com a Sua vontade. E tudo isso, porque nunca experimentaram esta transformação salvadora, que rebaixa o “eu”, e estabelece a Cristo como soberano na alma.
Aí está também a razão pela qual se observa, atualmente, tanto exemplo terrível de apostasia. Tantos ultrajando a Escritura, que pensam um dia tê-los convertido; ultrajando o caminho da santidade, o qual um dia professaram; negando o próprio Senhor que os comprou; e tudo porque anteriormente se apegaram a uma conversão superficial e falsa.
Oh, quão comumente, e quão lamentavelmente esta miséria se manifesta entre os mestres, nos seus discursos insípidos, nas suas contendas e invejas, nas suas pretensões religiosas, nas suas formalidades mortas e divisões impetuosas, ou nas suas mentes egoístas, soberbas e carnais! Uma conversão genuína teria curado tudo isso, ou, pelo menos, curado do domínio dessas coisas.
Assim sendo, tendo no meu livro “Apelo ao Não Convertido” (Call to lhe Unconverted) me esforçado no sentido de despertar almas descuidadas, e persuadir os obstinados a se voltarem para Deus a fim de que vivam, eu aqui me dirijo àqueles que parecem estar sob a obra de conversão. Tenciono dar-lhes algumas direções e persuasões para preveni-los de virem a perecer no nascimento, e, assim, prevenir a hipocrisia, na qual, provavelmente, se formarão. Prevenir também o engano de seus corações, o engano nas suas vidas, e a miséria na hora da morte, coisas estas, que provavelmente se seguiriam, para que não vivam como aqueles que honram a Deus com a sua boca e com os seus lábios, mas o seu coração não está correto diante Dele, nem são firmes à Sua aliança[3][3][3]. Para que, por não se entregarem a uma consideração profunda, nem enraizarem a semente de vida, ou por abafarem-na com um amor e cuidado predominantes pelo mundo, venham a secar quando o fogo da perseguição surgir. Para que, edificando sobre a areia, não venham a cair quando os ventos e as tempestades se levantarem, e a sua ruína seja grande, e assim “Saiam do nosso meio, a fim de que se manifeste que não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco”.[4][4][4]
Atentem, portanto, para esta grande e importante questão, e “procurai, com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição”,[5][5][5] e não dêem crédito aos seus corações tão fácil e confiantemente; “mas voltem-se para o Senhor de todo o seu coração”. Apeguem-se a Ele resolutamente e com propósito de coração, e atentem a fim de que vendam tudo, comprem a pérola, e não hesitem diante do preço, mas se rendam totalmente a Cristo, e voltem-se para Ele – como fez Zaqueu e outros convertidos da igreja primitiva – renunciando a tudo o que não tem a Sua vontade.
Não deixem que nenhuma raiz de amargura permaneça; não façam exceções ou reservas; mas neguem-se a si mesmos; abandonem tudo, e sigam Aquele que os tem guiado a este caminho de autonegação; e confiem no Seu sangue, méritos e promessas, por um tesouro nos céus; e, assim, vocês serão Seus discípulos, e cristãos de fato.
Leitor, se tu, de coração, tomares estas resoluções e as guardares, descobrirás, que nas tuas situações mais críticas, Cristo não te enganará, enquanto que o mundo engana aqueles que o escolhem. Mas, se desistires, e pensares que estes termos são demasiadamente duros, lembra-te de que a vida eterna te foi oferecida; e lembra-te por que, e pelo que a rejeitaste. Se nesta vida terrena buscares o teu próprio benefício, espera ser atormentado, enquanto que as almas crentes, as quais trilharam o caminho da autonegação, estarão sendo confortadas.
Richard Baxter
A Verdadeira Natureza da Humilhação
Há uma humilhação preparatória que acontece antes de uma transformação salvífica, que não deve ser desprezada, visto que nos aproxima de Deus, mas que, contudo, não consiste numa total submissão a Ele.
Esta humilhação preparatória, a qual muitos vêem fenecer, consiste principalmente nas seguintes coisas: em primeiro lugar, ela reside principalmente no temor de ser condenado – este temor se assemelha mais à sensação de medo. Consiste também em uma certa apreensão da grandeza dos nossos pecados, da ira de Deus que ameaça cair sobre nossas cabeças, e do perigo em que nos encontramos de sermos condenados para sempre. Ela consiste ainda em certa compreensão da loucura da qual somos culpados ao pecar, e de algum arrependimento por ter um dia cometido tais coisas, e algum remorso de consciência por isto. A isto pode se unir um certo sentimento de tristeza, sendo este expresso através de gemidos e lágrimas. Isso tudo pode ser acompanhado com confissões de pecado a Deus e a homens, lamentações por nossa miséria; em alguns, isto precede o próprio desespero. E, finalmente, isto pode levar a uma indignação contra nós mesmos, e à adoção de uma atitude de severa vingança sobre nós mesmos; sim, mais do que Deus levaria o homem a adotar; como Judas fez em se autodestruir. Este desespero e auto-execução não são parte da humilhação preparatória, mas o excesso, o seu erro, e a entrada do inferno.
Mas há também uma humilhação que é própria ao convertido, a qual acompanha a salvação, e que inclui tudo o que há na anterior, e muito mais – assim como a alma racional inclui o sensitivo, o vegetativo, e muito mais. Esta humilhação salvífica consiste nos seguintes particulares: ela começa no entendimento, e é enraizada na vontade. Opera nos sentimentos e, quando há oportunidade, manifesta-se em expressões e atitudes exteriores.
1. A humilhação do entendimento consiste em uma baixa apreciação de nós mesmos, num auto-rebaixamento, e num auto-julgamento condenatório; e isto nas seguintes particularidades:
Consiste numa apreensão profunda, sólida, habitual e real da hediondez dos nossos próprios pecados, e de nós mesmos por causa deles; isto porque eles são contrários à bendita natureza e lei de Deus, e tão contrários à nossa própria perfeição e bem principal. Também consiste em uma sólida e fixa apreensão da nossa própria ruína por causa desses pecados, de tal modo que os nossos julgamentos subscrevem a eqüidade da sentença condenatória da lei, e nos julgamos indignos da menor misericórdia, e dignos de punição eterna. Consiste em uma apreensão da nossa condição arruinada e miserável: visto que nós não apenas somos herdeiros de tormento, como também, destituídos da imagem e Espírito de Deus, perdemos Seu favor, estamos debaixo do Seu desagrado e inimizade. Por causa do nosso pecado, perdemos o direito da nossa parte na glória eterna, e grande é nossa incapacidade de nos ajudar a nós mesmos.
Isto se dá em tal medida, que nós julgamos realmente os nossos pecados e a nós mesmos, por causa do pecado, mais odiosos do que qualquer outra coisa que algum outro mal pudesse nos tornar. Consideramos a nossa miséria, por causa do pecado nas particularidades referidas anteriormente, maior do que qualquer calamidade exterior na carne, e do que qualquer perda terrena que viesse a nos atingir. Isto nós apreendemos através de um julgamento prático e não apenas por mera especulação ineficaz. A fonte disto está em um certo conhecimento do próprio Deus, cuja majestade é tão gloriosa, e cuja sabedoria é tão infinita. O qual é tão bom em Si mesmo e para conosco, cuja santa natureza é contrária ao pecado. O qual tem em nós uma propriedade absoluta, e também é soberano sobre nós. Isto é também proveniente de um conhecimento do verdadeiro estado da felicidade humana, que foi arruinada pelo homem em conseqüência do pecado, a qual consiste em agradar, glorificar e gozar a Deus em amor, deliciar-se Nele, e louvá-Lo para sempre, e em ter uma natureza perfeitamente santa e adequada a este propósito. Ver que o pecado é contrário a esta felicidade e que nos tem privado dela, é uma das fontes da verdadeira humilhação.
Esta humilhação no entendimento provém também de um conhecimento pela fé de Cristo crucificado, o qual foi morto pelos nossos pecados, o qual declarou na maneira mais viva possível ao mundo através de Sua cruz e sofrimentos o que é o pecado, o que ele faz, e a situação em que nós nos colocamos.
Assim, muito da humilhação salvífica se processa no entendimento.
2. A sede principal desta humilhação é na vontade, e aí ela consiste nos seguintes atos: ao pensarmos humildemente a respeito de nós mesmos, nós temos um constante desagrado por nós mesmos e pelos nossos pecados, e uma certa indignação contra nós por causa das nossas abominações. Um pecador humilhado é um inquiridor de si mesmo, e como ele é mau, seu coração é contra ele próprio.
Há também na vontade um profundo arrependimento por termos pecado, ofendido a Deus, abusado da Sua graça, e por termos nos colocados em tal situação; de tal modo que a alma humilhada desejaria gastar seus dias na prisão, a esmolar, ou em miséria corporal, ao invés de gastá-los no pecado; e se pudesse começar de novo, ela preferiria escolher uma vida de vergonha e calamidade no mundo, do que uma vida de pecado, e ficaria alegre pela troca.
Uma alma humilhada deseja realmente se entristecer por causa dos pecados que cometeu, e por causa deles ser sensível e afligida tão profundamente quanto fosse agradável a Deus. Mesmo quando ela não pode derramar uma lágrima, ainda assim a sua vontade é derramá-las. Quando ela não consegue sentir nenhuma profunda aflição por causa do pecado, seu sincero desejo é que possa senti-la. Ela preferiria cem vezes chorar no desejo, quando não o faz em ato.
Uma alma humilhada deseja realmente mortificar a própria carne pelo uso daqueles meios indicados como sendo aqueles através dos quais Deus a subjuga, como através do jejum, abstinência, vestuário simples, trabalho duro e negando-se prazeres desnecessários.
É uma dúvida digna de consideração se quaisquer destes atos de humilhação devem ser usados propositadamente em revide contra nós mesmos por causa do pecado. A isto respondo que nós não podemos fazer nada, a título de revide, que Deus não o permita, ou que torne nossos corpos menos habilitados para o Seu serviço, pois esta atitude receberia revide de Deus e da nossa alma. Mas aqueles meios de humilhação necessários para domar o corpo podem bem ser usados com dupla intenção: primeiro e especialmente, como um meio para nossa segurança e como precaução, a fim de que a carne não venha a prevalecer; e então, paralelamente, nós deveríamos ficar mais contentes em ver mais sofrimento ser imposto à carne, porque ela foi e ainda é um grande inimigo de Deus e nosso, e a causa de todo o nosso pecado e miséria. Este é o revide que é permitido ao penitente, e que alguns pensam ser tencionado.
Visto que a alma humilhada tem pensamentos humildes de si mesma, então ela deseja que outros a avaliem e a considerem desse modo, mesmo que seja um pecador vil e indigno, desde que a sua desgraça não prejudique o Evangelho ou a outros, ou venha a desonrar a Deus. Seu orgulho é humilhado a tal ponto que ela não pode suportar ser depreciada com alguma condescendência. Não que aprove o pecado de qualquer homem que faça isso maliciosamente, mas consentindo com o julgamento e repreensão daqueles que façam isto com sinceridade, e consentindo com o julgamento de Deus, ainda que através daqueles que o façam maliciosamente. A alma humilhada não fica se defendendo e atenuando injustamente seus pecados, se desculpando, e se inflamando contra o reprovador; o que quer que ela faça em uma tentação, se esta atitude for predominante, seu orgulho, e não humilhação, acabará por predominar. Mas ela se julga a si mesma o tanto quanto outros possam justamente julgá-la, e humildemente consente em ser humilhada aos olhos humanos até que Deus venha a levantá-la e a recuperar sua dignidade.
A raiz de toda essa humilhação na vontade é um amor a Deus, a quem ofendemos, um ódio ao pecado que O ofendeu, e que nos fez odiosos; um senso confiante do amor e dos sofrimentos de Cristo, O qual condenou o pecado na Sua carne.
Assim vocês vêem no que consiste a humilhação da vontade, a qual é a própria vida e alma da verdadeira humilhação.
3. A humilhação também inclui os sentimentos: uma genuína tristeza pelo pecado que cometemos; pela corrupção que há no pecado; uma vergonha por estes pecados; um santo temor a Deus quando nós O ofendemos, e dos Seus julgamentos os quais merecemos, e uma apropriada aversão aos nossos pecados. Mas, como mostrarei adiante, não é pelo grau, mas pela sinceridade destes sentimentos que você deve fazer um julgamento do seu estado; e isto dificilmente será discernido pelos próprios sentimentos. Assim, portanto, a vontade é o meio mais seguro através do qual podemos nos avaliar.
4. A humilhação também consiste expressivamente em ações exteriores, quando é oferecida oportunidade. Não há humilhação verdadeira no coração, se ela se recusa a aparecer no exterior, quando Deus a requer no seu curso ordinário. Os atos exteriores da humilhação são: uma confissão voluntária dos pecados a Deus e aos homens, quando Deus o requer, isto é, quando isto se torna necessário à Sua honra, ao bem daqueles a quem ofendemos, e satisfação do ofendido. Isto deve ser feito pelo menos quando confessamos os pecados abertamente a Deus na presença dos homens. Uma alma não humilhada se recusaria a fazê-lo por vergonha; mas o humilhado aceitaria livremente ser envergonhado, se isso viesse a advertir seus irmãos, e justificar a Deus, e Lhe dar glória. “Se confessarmos os nossos pecados Ele é fiel e justo para nos perdoar…” (1 Jo 1:9). “Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros, e orai uns pelos outros, para serdes curados…” (Tg 5:16). “O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa, alcançará misericórdia” (Prov 28:13). Não que a pessoa precise confessar seus pecados secretos a outros, a não ser quando não possa alcançar alívio; não que a pessoa deva publicar as suas ofensas, vindo a desonrar a Deus ainda mais, e a ser empecilho para o Evangelho. Mas quando o pecado já é público e especialmente quando a ofensa de outros, o endurecimento dos ímpios, a satisfação da igreja com relação ao nosso arrependimento, requer nossa confissão e lamentação pública, então a alma humilde deve e se submeterá a isto.
O homem de coração corrompido, hipócrita, não humilhado, entretanto, confessará apenas nos seguintes casos: quando o sigilo da confissão, ou a insignificância da falta, ou a freqüência de tal confissão não traga grande vergonha sobre si. Ou quando a falta já é tão pública que seria vã qualquer tentativa de escondê-la, e a confissão não aumentaria em nada a sua desgraça. Ou quando a consciência está pesada, ou à beira da morte, ou forçado por algum terrível julgamento de Deus. Em todos estes casos o ímpio pode confessar seus pecados. Assim Judas confessou: “Pequei traindo sangue inocente” (Mt 27:4). Faraó confessou: “Eu e o meu povo somos ímpios” (Ex 9:27). Um ladrão à beira da forca confessará; e o mais vil e desprezível ser, no seu leito de morte, também confessará. Mas nós temos mais confissões no leito de morte do que confissões voluntárias diante da igreja. Infelizmente,o orgulho e a hipocrisia têm prevalecido de tal modo, e a antiga disciplina da igreja tem sido tão negligenciada, que eu penso que na maioria dos lugares na Inglaterra há muito mais pessoas que fazem confissão na forca do que pessoalmente em uma congregação.
A humilhação também deve ser expressa através de todos aqueles meios e sinais externos, aos quais Deus, através das Escrituras ou da nossa própria natureza, nos conclama. Como, por exemplo, através de lágrimas e gemidos, tanto quanto oportunamente nos ocorra; através de jejum, e da atitude de prostrar-se por causa de nossa pompa e tolice mundanas, e uso de roupas humildes, porém decentes; condescendendo com os mais desfavorecidos, e se sujeitando aos mais humildes; usando linguagem e carruagem simples; e perdoando outros, por sermos sensíveis à grandeza dos nossos débitos para com Deus.
Assim eu mostrei brevemente a vocês a verdadeira natureza da humilhação, a fim de que possam saber a que lhes estou persuadindo, e a que precisam submeter os seus corações.
Capitulo 2
Utilidade e Propósito da Humilhação
Quando eu houver falado sobre a utilidade e propósito da humilhação, vocês entenderão mais do porquê da necessidade dela para vocês mesmos.
1. Um dos usos da humilhação é ajudar na mortificação da carne, ou do “eu” carnal, e aniquilá-la, visto ser esta o ídolo da alma. A natureza do estado pecaminoso e miserável do homem consiste no fato de haver se afastado de Deus, e de estar entregue a si mesmo, vivendo agora para si mesmo, estudando, amando e satisfazendo a si mesmo, ao seu “eu” natural mais do que a Deus. Um pecador se livrará de muitos pecados exteriores e se libertará de obras exteriores antes que venha a se libertar do seu “eu” carnal, e se livre da fortaleza e poder do pecado. Não há parte da mortificação tão necessária e tão difícil como a autonegação - na verdade, ela virtualmente compreende todo o resto, e se isto for feito, tudo estará feito. Se fosse apenas uma questão dos seus amigos, seus supérfluos, sua casa, suas terras, talvez um coração carnal pudesse abrir mão disso. Mas abrir mão da sua vida, do seu tudo, do seu “eu”, é uma palavra dura para ele, e suficiente para fazê-lo ir embora pesaroso. Assim sendo, aqui aparece a necessidade da humilhação; ela coloca todo o fardo sobre o “eu”, e quebra o coração do velho homem, e faz um homem não tolerar a si mesmo, a quem anteriormente amava sobremaneira.
A humilhação transforma esta torre de Babel em pó, e faz com que nos detestemos até o pó e cinzas. Ela toca fogo na casa, na qual confiávamos e nos deleitávamos, diante dos nossos olhos; e nos faz não apenas ver, mas sentir, que é tempo de nos rendermos. O orgulho é o pecado mestre do ímpio, e é parte da humilhação fazê-lo cair por terra. A auto-satisfação é o propósito de suas vidas, até que a humilhação ajude a mudar o curso do rio; e aí, então, se você pudesse ler os pensamentos deles, veria que eles agora se consideram os mais indignos; e se você pudesse ouvir suas orações e lamentos, você os ouviria clamar por si mesmos como se fossem os seus maiores inimigos.
2. A próxima utilidade da humilhação, e implícita na utilidade anterior, é mortificar aqueles pecados dos quais o “eu” carnal depende e pelos quais é nutrido, e bloquear todas as avenidas e passagens através das quais eles são supridos. O pecado é doce e querido por todos os que não são santificados; mas a humilhação faz com que se tornem amargos e vis.
Assim como as crianças são dissuadidas de brincar com uma colméia de abelhas quando são uma ou duas vezes ferradas por elas, ou de brincar com cães bravios quando são mordidas por eles, assim Deus ensina Seus filhos a saberem o que significa brincar com o pecado, quando são golpeados por ele. Eles distinguirão uma urtiga de arbustos inofensivos quando sentirem o seu ardor. Nós estamos tão acostumados a viver pelos sentidos, que Deus considera necessário que nossa fé tenha a ver com os sentidos para ajudá-la. Quando a consciência acusa, o coração sofre, geme de dor, e sentimos que nenhum expediente ou esforço nos livrará disso, então começamos a nos tornar mais sábios do que antes, e a conhecer o que é realmente o pecado, e o que ele nos causa. Quando aquilo que era o nosso deleite se torna a nossa aflição, e uma aflição pesada demais para suportarmos, isto cura o nosso deleite no pecado. Quando Davi estava encharcando o seu leito com lágrimas, e teve que beber delas, o seu pecado não era mais a mesma coisa para ele, como o foi quando o cometeu. A humilhação retira a pintura desta prostituta que é o pecado e mostra-a em sua deformidade. Ela desmascara o pecado, o qual assumiu uma máscara de virtude, ou de algo irrelevante, ou de uma coisa inofensiva. Ela desmascara Satanás, o qual foi transformado num amigo, ou em um anjo de luz, e revela o seu caráter maligno.
Quão difícil é curar um mundano do amor ao dinheiro! Mas quando Deus coloca tal peso em sua consciência, a ponto de fazê-lo gemer e clamar por socorro, o dinheiro perderá o seu atrativo. Quando ele começa a chorar e gemer por causa das misérias que vêm sobre si, e vê os efeitos da sua riqueza corrupta, e a gangrena do seu ouro e prata começar a comer a sua carne como fogo, e seu ídolo se torna nada menos do que um testemunho contra si, então estará melhor habilitado do que antes para avaliar o pecado. O devasso pensa que tem uma vida feliz quando os lábios da prostituta destilam favos de mel, mas quando ele percebe que o fim dela é amargoso como o absinto, agudo como a espada de dois gumes, que os seus pés descem à morte, e que os seus passos conduzem-na ao inferno[6][6][6], e ele jaz em tristeza, lamentando-se da sua loucura, estará então em mais condições de julgar corretamente do que antes estava. O Manassés humilhado em cadeias não é o mesmo que era quando estava no trono; embora a graça tenha contribuído mais para isso do que seus grilhões, estes foram úteis para este fim. A humilhação abre a porta do coração, e lhe diz o que o pecado faz à vida, e introduz a palavra de vida, a qual não havia ainda penetrado além dos ouvidos ou do cérebro.
É um trabalho cansativo falar a homens mortos, os quais perderam os seus sentimentos; especialmente quando se trata de uma doutrina efetiva e prática, a qual devemos lhes comunicar, e que será perdida se não for sentida e praticada. Até que a humilhação opere, nós falamos a homens mortos, ou pelo menos a homens profundamente adormecidos. Quantos sermões eu tenho ouvido que se pensava viriam a transformar os corações dos homens internamente, a fazê-los chorar por causa dos seus pecados, com tristeza e vergonha diante da congregação, levando-os a nunca mais se envolverem com o pecado; e, no entanto, os ouvintes quase que nem foram tocados por eles, mas saíram como vieram, como se não soubessem do que o pregador estava falando, porque os seus corações estavam o tempo todo sonolento dentro deles.
Uma alma humilhada, entretanto, é uma alma despertada. Ela considerará aquilo que é dito; especialmente quando percebe que vem do Senhor, e diz respeito à sua salvação. É um grande encorajamento para nós pregar para um homem que tem ouvidos, vida e sentimentos, que recebe a palavra com apetite, saboreando-a, engolindo a comida que é colocada na sua boca. A vontade é a principal fortaleza do pecado. Se nós pudermos alcançá-la, nós poderemos fazer alguma coisa, mas se ela bloquear o coração, e nós não pudermos chegar mais perto do que o ouvido ou o cérebro, não haverá benefício algum. A humilhação nos abre uma passagem para o coração, a fim de que possamos tomar de assalto o pecado em seu vigor. Eu lhes falo da natureza abominável do pecado, que causou a morte de Cristo, e leva ao inferno, e que é melhor correr para o fogo do que, de maneira propositada, cometer o menor pecado, embora se trate de algo tal que o mundo nem note. Mas, ao lhes falar, se você não for humilhado, pode ouvir tudo isto e superficialmente crer nisso, e dizer que é verdade, mas é a alma humilhada que pode sentir o que lhe está sendo dito. Que luta nós temos com um beberrão, ou com um mundano, ou com qualquer outro pecador frívolo, na tentativa de persuadi-lo a abandonar seus pecados com abominação; e tudo com tão pouco resultado! Às vezes ele deseja abandoná-los, mas é tentado a provar do pecado de novo; e assim fica adiando, porque a palavra não se assenhoreou do seu coração. Mas quando Deus vem sobre a alma como uma tempestade, arrebentará as portas, e como se fossem relâmpagos e trovões na consciência, apodera-se do pecador e o sacode todo em pedaços com o Seu terror e lhe pergunta: O pecado é bom para ti? Uma vida carnal e descuidada é boa? Tu, verme desprezível! Tu, tolo pedaço de barro! Ousas abusar de Mim face a face? Ignoras que Eu estou te olhando? É esta a obra para a qual continuas vivo? Fora com o pecado, sem mais delongas, ou jogarei fora a tua alma e te entregarei aos atormentadores. Isto o desperta da sua demora e procrastinação, faz com que veja que Deus tem boa vontade para com ele, e que, portanto, ele deve ter boa vontade para com Deus.
Se um médico tem um paciente amante da comida que sofre da gota ou de pedra nos rins, ou de qualquer outra doença, e lhe proibir do vinho, bebida forte e outros alimentos que deseja, logo que ele se sentir melhor se aventurará a prová-los, e não se sujeitará às palavras do médico; mas, quando for atacado pela doença e sentir o tormento, então se submeterá às prescrições médicas. A dor o ensinará mais efetivamente do que as palavras poderiam fazê-lo. Quando ele sente o que lhe é doloroso, e que aquilo sempre o faz adoecer, ele se reprimirá mais do que faria por atenção às recomendações médicas.
Assim, quando a humilhação quebrar o seu coração e lhe fizer sentir que está doente de pecado, e encher a sua alma com dores agudas e sofrimentos, então você terá mais desejo de que Deus destrua o pecado em você. Quando o pecado pesar sobre você, a ponto de não lhe permitir levantar os olhos, quando fizer com que vá a Deus com gemidos e lágrimas clamando: Oh, Senhor, tem misericórdia de mim porque sou pecador! Quando você ficar feliz em procurar os ministros para aliviar a sua consciência, encher os ouvidos deles com acusações a si mesmo, e revelar até os pecados mais odiosos e vergonhosos, então você ficará feliz em se desvencilhar dos pecados. Antes disso não adianta lhe falar sobre mortificação e sobre rejeição resoluta dos seus pecados; os preceitos do Evangelho parecerão rigorosos demais para que você se submeta a eles. Mas um coração quebrantado mudaria a sua mente.
Um saudável lavrador diria: “Eu como o que quero”; “os médicos só querem tirar o nosso dinheiro”; “eu nunca seguirei o conselho deles”. Mas quando a enfermidade vier sobre ele, e houver tentado em vão tudo que estava ao seu alcance e a dor não lhe der descanso, e for levado ao médico, então ele fará qualquer coisa, e tomará qualquer remédio que ele lhe der, a fim de que possa ter algum alívio e se recupere.
Assim, quando o seu coração estiver endurecido e não humilhado, estes pregadores e as Escrituras lhes parecerão severos demais. O que vocês desejam realmente são ministros afetados e presunçosos, que preguem o que bem quiserem. Vocês nunca acreditarão que Deus concorda com as coisas duras que os ministros fiéis pregam, nem que Deus condenará vocês pelas coisas às quais dispõem seus corações. Mas quando aqueles pecados se tornarem como que espadas no seu coração, e você começar a sentir aquilo de que os ministros haviam lhe alertado, então a sua reação será outra. Portanto, fora com o pecado! Não há nada tão odioso, tão maligno, tão intolerável. Oh, se você pudesse se livrar dele, custasse o que custasse! Então você teria por seu melhor amigo aquele que lhe pudesse dizer como matar o pecado, e se livrar dele; e aquele que afastasse você desse amigo lhe seria como o próprio Satanás. A humilhação cava tão profundamente que mina o pecado, e a fortaleza do mal; e quando o alicerce está profundamente enraizado, a humilhação o destroçará. Quando os assassinos de Cristo tiveram o seu coração golpeado, eles clamaram por um conselho dos apóstolos. Quando um assassino dos santos é jogado cego por terra, e o Espírito, além disso, humilha a sua alma, então ele é levado a clamar: “Senhor, o que tu queres que eu faça?” Quando um cruel carcereiro que açoita os servos de Cristo é levado por um tremor de terra a um tremor de coração, ele então clamará: “Que devo fazer para que seja salvo?”
Aqui se manifesta o uso das aflições; e mesmo o porquê delas favorecerem tanto a humilhação: os homens são trazidos à razão em momentos de crise. Quando eles jazem num leito de morte, alguém pode falar-lhes, que eles não vão, tão soberbamente, fazer pouco caso do que lhes é dito, ou escarnecer da Palavra do Senhor, como o fizeram na prosperidade. Deus será mais considerado quando Ele pleitear com eles com uma vara na mão. Os açoites são a melhor lógica e o melhor discurso para um tolo. Quando o pecado leva cativa a razão deles pela carne, o argumento que poderá convencê-los deverá ser tal que a carne seja capaz de entender. A carnalidade brutifica o homem de tal modo que, tornando-se brutos, não são mais as razões mais claras que prevalecerão; e se Deus não houvesse mantido no homem corrompido algum resquício de razão, nós pregaríamos aos animais com tanta esperança como pregamos aos homens. Mas as aflições tendem por enfraquecer o inimigo que os cativa; assim como a prosperidade tende a fortalecê-lo. A carne entende a linguagem da vara melhor do que a linguagem da razão e da Palavra de Deus.
Como a parte sensível da nossa humilhação promove a mortificação, assim a humilhação racional e voluntária, que é própria ao santificado, é a parte principal da mortificação. Assim, como você vê, é necessário que sejamos totalmente humilhados, a fim de que o pecado possa ser plenamente aniquilado em nós.
3. Outro uso da humilhação é o de preparar a alma para encontrar mais graça, para a honra de Cristo e para o nosso próprio bem.
(1) Com relação a Cristo, é de se esperar que Ele habite apenas em almas que estejam preparadas para recebê-Lo. Nem a Sua pessoa, nem a Sua obra são tais que possam se coadunar com um coração não humilhado. Até que a humilhação faça um pecador sentir o seu pecado e miséria, não é possível que Cristo, como Cristo, venha a ser bem-vindo ou recebido com a honra que Ele espera. Quem liga para o médico quando não está doente e nem teme a morte? Ele pode passar pela porta de tal homem, e este não o chamará, mas quando a dor e o temor da morte estão sobre si, ele irá atrás, procurará e implorará para que venha. Correria para Cristo, em busca de socorro, aquele que não sente sua própria necessidade ou perigo? Agarrar-se-iam Nele como o único refúgio das suas almas, achegando-se a Ele como sua única esperança, aqueles que não sentem necessidade Dele? Prostar-se-iam aos Seus pés mendigando misericórdia aqueles que passam muito bem sem Ele?
Quando os homens ouvem acerca do pecado e da miséria, e crêem apenas superficialmente, eles podem procurar Cristo e graça com frieza, e sentem tão pouco o valor do segundo, como sentem a importância do primeiro. Mas Cristo não é nunca valorizado e procurado como Cristo, até que a tristeza nos ensine como valorizá-Lo; nem é Ele recebido com a honra devida a um Redentor, até que a humilhação quebre todas as portas; nem um homem pode buscá-Lo de todo o seu coração, se não o fizer com o coração quebrantado.
Também é certo que Cristo não baixará o custo para vir a uma alma. Embora Ele venha para o nosso bem, receberá honra ao fazer isso. Embora Ele venha para curar-nos, e não porque tenha qualquer necessidade de nós, terá que receber as boas vindas devidas a um médico. Ele veio para nos salvar, mas será honrado na nossa salvação. Ele convida a todos para a festa do casamento, e até mesmo compele-os a vir; mas espera que tragam a veste nupcial, e não venham com uma roupa ordinária que desonraria Sua casa. Embora a Sua graça seja livre, Ele não a expõe ao desprezo, mas terá a Sua plenitude e liberdade glorificadas. Embora Ele não venha para redimir a Si mesmo, mas a nós, ainda assim vem para ser glorificado na obra da nossa redenção. A Sua graça não é tão livre a ponto de salvar aqueles que não a valorizam, e não dão graças por ela.
Assim sendo, apesar da fé ser suficiente para aceitar o dom, a fé deve ser uma fé grata, que magnificará o doador, e uma fé humilde que reconheça o Seu valor, e uma fé obediente que responda ao Seu propósito. Assim, a fé que é a condição de nossa justificação é apropriada tanto à honra do doador, como à necessidade do recebedor. E como a razão nos diz que deveria ser, assim confirma a experiência cristã. A alma que é verdadeiramente unida a Cristo e compartilha da Sua natureza, valoriza mais a obra da Sua salvação, onde a honra de Cristo é maior. Ela não consegue sentir prazer na idéia de uma graça tal que venha a desonrar o próprio Senhor da graça. Assim como Cristo é solícito para a salvação da alma, assim Ele faz a alma solícita em receber corretamente Aquele que a salva. Deste modo, foi através do Seu sangue, e não da nossa aceitação do Seu ensino ou governo, que obtivemos o resgate da nossa alma. Mas, por outro lado, Ele está resolvido a não justificar a ninguém através do Seu sangue, exceto sob a condição desta fé, que é um assentimento do coração ao Seu ensino e senhorio. A virtude não está tanto na aplicação ou concessão dos benefícios de Cristo quanto está na Sua obra de adquirir para nós esses benefícios.
Quando Ele veio para nos resgatar, consentiu em ser um sofredor, a dar a Sua face ao golpeador, e a se submeter ao opróbrio. Suportou a cruz, desprezando a vergonha, e sendo injuriado não injuriou, mas orou por Seus perseguidores. Todavia, Ele não virá através da Sua graça salvadora à alma para ser recebido ali com desprezo, porque Ele veio na carne com o propósito de ser humilhado, mas veio no Espírito com o propósito de ser exaltado. Cristo veio na carne para condenar o pecado que reinava na nossa carne, e assim foi feito pecado por nós, isto é, um sacrifício pelo pecado. Mas no Espírito, Ele veio para conquistar a nossa carne e, através da lei do Seu Espírito vivificador, para nos libertar da lei do pecado e da morte[7][7][7], a fim de que a justiça da lei se cumprisse em nós, e também para que não fôssemos condenados, nós os que andamos não segundo a carne, mas segundo o Espírito.
O reino de Cristo não era deste mundo, porque, se o fosse, Ele procuraria estabelecê-lo pela força das armas e da luta, que são os meios mundanos. Mas o Seu reino é dentro em nós; é um reino espiritual, e assim, apesar de estar no mundo, Ele foi tratado com desdém, como um tolo, como um pecador, e como um infortunado. Mas dentro em nós Ele deve ser tratado com honra, e reverência, como um Rei e Senhor absoluto. A vez do executor e do poder das trevas foi quando Ele estava em agonia; mas quando Ele vem através da Sua graça salvadora a uma alma, é a vez do Seu triunfo e casamento, e do poder prevalecente da luz celestial. Na cruz, Ele era como um pecador, e tomou o nosso lugar, e suportou o que era a nossa culpa, e não Sua. Mas na alma Ele é o conquistador de pecados, e vem para tomar posse do que é Seu, e para realizar a obra que pertence a Ele na Sua dignidade; e, assim, Ele será ali reconhecido e honrado. Na cruz, Ele estava derrubando o reino de Satanás, e estabelecendo o Seu próprio, apenas de um modo preparatório; mas na alma, Ele faz ambos serem executados imediatamente. Na cruz, o pecado e Satanás se vangloriaram; mas quando Ele penetra a alma, é Ele quem Se vangloria sobre eles, e não cessa até os haver destruído. Na redenção, Ele Se consumiu; mas na conversão, Ele toma posse do que remiu. Em uma palavra, Ele veio ao mundo em carne para ser humilhado, mas Ele vem à alma, através do Seu Espírito, para a Sua merecida exaltação. Assim sendo, embora Ele houvesse suportado ser cuspido na carne, não suportará ser desprezado na alma. Assim como no mundo Ele foi escarnecido com um título de rei, coroado com espinhos, e vestido com tais roupas reais a fim de que fosse feito objeto de opróbrio, assim, quando Seu Espírito entra em uma alma, Ele é ali entronizado com a nossa consideração mais reverente, subjetiva, e profunda. Ele é ali coroado com o nosso mais elevado amor, e gratidão, e adorado com a ternura da nossa obediência e do nosso louvor. A cruz haverá de ser a porção dos Seus inimigos; a coroa e o cetro serão a Sua. E assim como tudo foi preferido em detrimento Dele na terra, até mesmo o próprio Barrabás, assim também todas as coisas haverão de ser subjugadas a Ele na alma santificada, e Ele obterá a primazia diante de todas as coisas.
Este é o propósito da humilhação: preparar o coração para um maior gozo do Senhor, e preparar o caminho diante Dele, e habilitar a alma para ser o templo do Seu Espírito. Uma alma humilhada nunca se desvencilharia Dele usando bois, fazendas, ou casamentos como desculpas. Aquele, porém, que não é humilhado fará muito pouco caso Dele.
(2) Assim como o próprio Cristo será recebido com honra, ou então nem será recebido, assim deve acontecer com a misericórdia e com a graça que Ele oferece. Ele não aplicará o Seu sangue e a Sua justiça àqueles que não lhes dão valor. Ele não perdoará tamanha quantidade de iniqüidades, nem removerá tais montanhas que caem sobre a alma daqueles que não sentem a necessidade de tal misericórdia. Ele não resgatará do poder do mal, da opressão do pecado, dos arrabaldes do inferno e não fará membros de Seu próprio corpo, filhos de Deus e herdeiros dos céus, aqueles que não aprenderam a valorizar estes benefícios, mas são mais voltados para os seus pecados, misérias e frivolidades do mundo. Cristo não despreza Seu sangue, Seu Espírito, Sua aliança, Seu perdão, nem Sua herança celestial e assim Ele não as dará a ninguém que as despreze, até que Ele os ensine melhor a conhecer o Seu valor. Você pensa que estaria de acordo com a sabedoria de Cristo dar bênçãos indizíveis como estas a homens que não têm coração para valorizá-las? Porque dar a um homem justificação e adoção é mais do que lhe dar todo este mundo visível: o sol, a lua, o firmamento, e a terra. Deveriam estas graças ser dadas a alguém que não liga para elas? Porque assim Deus perderia Seu propósito. Ele não obteria o amor, a honra nem a gratidão tencionada no Seu dom. É necessário, portanto, que a alma seja totalmente humilhada, a fim de que o perdão seja recebido como perdão, e a graça como graça, e não negligenciados indevidamente.
(3) Assim como a humilhação é necessária tanto para a honra de Cristo e de Sua graça, assim também ela é necessária para o nosso próprio benefício e consolação. A misericórdia não pode ser realmente nossa, se a humilhação não nos habilitar a isso. Estas bênçãos devem ser engolidas por um estômago vazio, e não tomadas na vaidade e impiedade. Um homem à beira da forca se regozijará com um perdão; mas um mero observador que se julgue inocente, não daria valor a isso, mas tomaria o perdão como uma acusação. Não há muita doçura no nome de um redentor para uma alma não humilhada. Ela não valoriza o Espírito. O Evangelho não é evangelho para ela. As boas novas de salvação não são tão alegres para tal pessoa quanto as boas novas de riquezas ou deleites mundanos. Assim como um estômago sadio é o que faz a refeição parecer agradável a nós, e assim como o cardápio rústico é mais agradável para o sadio do que as refeições suculentas ao doente, da mesma forma, se não formos esvaziados de nós mesmos, vis e perdidos nas nossas próprias prisões, e se a contrição não estimular os nossos apetites espirituais, o próprio Senhor e todos os milagres da Sua graça salvadora seriam aos nossos olhos coisa sem valor, e ouvir ou pensar sobre estas coisas apenas nos aborreceriam. Oh, que tesouro inestimável é Cristo para uma alma humilhada! Que vida nas Suas promessas! Que doçura em cada experiência da Sua graça, e que festa no Seu imensurável amor!
(4) Outro uso da humilhação, implícito no item anterior, é que ela é necessária para fazer com que o homem se submeta aos termos do pacto da graça. O homem natural se agarra aos prazeres da carne, e vive pelos sentidos e é apegado às coisas do presente. Ele não sabe como viver apegado às coisas invisíveis através de uma vida de fé. Esta é a nova vida que todos os que vivem em Cristo devem viver. Assim, portanto, Ele os convoca a abandonar tudo, a crucificar o mundo e a carne, e negar a si mesmos, se quiserem ser Seus discípulos. Mas quão relutante é o homem natural para renunciar a tudo e se entregar totalmente a Cristo! Mas quão ansioso ele é para se agarrar às coisas do presente, por falta de confiança nas promessas celestiais, tendo os céus, em última análise, apenas como uma reserva. É nestes termos que os hipócritas são religiosos, e é assim que enganam as suas almas. Mas quando o coração é verdadeiramente quebrantado, ele não mais permanecerá desse modo com relação a Cristo, mas se submeterá totalmente aos Seus termos. Não estabelecerá condições com Ele, mas aceitará com gratidão as Suas condições. Com Cristo, com graça, e com a esperança da glória, qualquer coisa lhe satisfaz a alma.
(5) Outro uso da humilhação é nos preparar para reter e progredir na graça quando nós a recebemos. O ditado diz: “O que é conseguido com facilidade, facilmente se perde”. Se Deus desse o perdão dos pecados ao que não é humilhado, quão cedo Ele seria desprezado! Quão facilmente tal pessoa daria ouvidos à tentação, e retornaria ao seu próprio vômito! Como nós dizemos: “A criança queimada teme o fogo”. Quando o pecado o golpear, e quebrar o seu coração, você o abominará enquanto viver. Quando a tentação vier, você se lembrará da sua dor aguda: “Não é isto aquilo que me custou tantos gemidos, me deixou no pó, e quase me condenou, e vou eu cometê-lo novamente? Foi tão difícil para eu ser restaurado por um milagre de misericórdia, vou eu agora correr novamente para a miséria da qual eu fui salvo? Não tive eu tristezas, temor e inquietação suficientes para que vá agora buscar mais disso, e renovar o meu transtorno?” Assim, a lembrança dos seus sofrimentos será um contínuo alerta para você. Um espírito contrito, que é esvaziado de si mesmo, e ao qual é ensinado o valor de Cristo e da misericórdia, não apenas se agarrará a eles, mas saberá como usá-los, com gratidão a Deus e benefício para si mesmo.
(6) Outro uso da humilhação é preparar a alma para se aproximar do próprio Deus, de quem ela se afastou. Assim como a nenhuma criatura é permitido se aproximar do Deus dos céus, a não ser que o faça com reverente humildade, assim também a nenhum pecador é permitido se aproximar Dele, a não ser que o faça em contrita humildade. Quem é que pode sair de tal estado de impiedade e miséria, e não trazer consigo o senso disso em seu coração? Não é permitido a um filho pródigo encontrar seu pai com tanta confiança e ousadia, como se ele nunca o tivesse abandonado, a não ser que diga: “Pai, pequei contra os céus e contra ti, e já não sou digno de ser chamado teu filho”[8][8][8]. Não é sem falta que uma alma culpada, ou que alguém que é resgatado do fogo, olhará para Deus com uma face soberba, mas com a cabeça baixa de vergonha e tristeza, batendo no peito e dizendo: “Ó Senhor, tem misericórdia de mim, pecador!”[9][9][9]; “Porque Deus resiste aos soberbos, contudo aos humildes concede a Sua graça”[10][10][10]; “O Senhor é excelso, contudo atenta para os humildes; os soberbos, Ele os conhece de longe”[11][11][11]; “Porque assim diz o Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e vivificar o coração dos contritos”[12][12][12]; “…mas o homem para quem olharei é este: o aflito e abatido de espírito, e que treme da minha palavra”[13][13][13]; “Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito contrito”[14][14][14]; “Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito; não o desprezarás, ó Deus”[15][15][15]. Não há retorno para Deus, a menos que não nos toleremos por causa das nossas abominações.
Quanto mais nos aproximamos de Deus, mais nós devemos nos detestar até o pó e cinzas. Ele não aceita um pecador em seus pecados; mas primeiro o lava e limpa. A conversão deve nos fazer humildes como crianças, as quais são ensináveis e não procuram por grandes coisas no mundo ou, de outro modo, não podem entrar no reino de Deus.
Estes são os usos e a necessidade da humilhação.
Capítulo 3
Erros sobre a Humilhação a Serem Cuidadosamente Evitados
Pelo que já foi dito, você pode perceber quais os erros a serem cuidadosamente evitados com relação à sua humilhação, e com que cuidados ela deve ser buscada.
(1) Um erro com o qual você deve tomar cuidado, é o de não encarar a humilhação como algo irrelevante, ou como apenas um apêndice à fé, que pode ser dispensado. Não pense que uma alma não humilhada, enquanto tal, pode ser santificada. Alguns corações carnais supõem que apenas os pecadores mais atrozes precisam ser contristados e ter o coração quebrantado, mas que isto não é necessário para eles, que foram criados descente e religiosamente desde a mocidade. Mas é tão possível ser salvo sem fé e sem arrependimento quanto sem esta humilhação especial, a qual eu já descrevi, e que é parte da sua santificação.
(2) Outro erro a ser cuidadosamente evitado é o de colocar a sua humilhação somente ou principalmente na parte emocional, ou nas expressões externas dessas emoções. Eu me refiro tanto a uma dor aguda, como à tristeza de coração, ou ainda às lágrimas. Mas você deve se lembrar que o valor dela, como eu disse antes, está na sua reação ao julgamento e na vontade. Não é o grau de uma tristeza ou angústia de sentimentos que mostrará melhor o grau de sinceridade da sua humilhação, e muito menos as suas lágrimas ou expressões exteriores. Mas é a baixa avaliação que você faz de si próprio, e a aceitação em ser visto como vil aos olhos dos outros. É o seu descontentamento, e o desejo de gemer e chorar por causa do pecado o tanto quanto Deus gostaria que você o fizesse, juntamente com a aceitação do julgamento e vontade antes descritos que demonstram realmente a sua humilhação.
Há dois grandes perigos aqui, diante de você, a serem evitados. Há alguns que podem ter terríveis angústias de tristeza, e estão a ponto de arrancar os próprios cabelos, sim, e até mesmo de darem um fim a si próprios, como Judas, por causa do horror da sua consciência; e isto poderia lhes parecer que eles teriam verdadeira humilhação. Mas mesmo assim não a têm. Alguns podem chorar abundantemente em um sermão, ou em uma oração, ou ao mencionar seus pecados a outros, e, portanto, pensar que estão realmente humilhados; mas ainda assim podem não estar. Pois, se ao mesmo tempo, seu coração ama o pecado e prefere apegar-se a ele do que se livrar dele, ou não tem um ódio habitual pelo pecado e um amor predominantemente muito maior a Deus, a sua humilhação nada tem a ver com a obra de salvação. Os seus sentimentos e as suas lágrimas podem até ser forçados contra a sua vontade. Se você não deseja realmente odiar o pecado, os sentimentos e as lágrimas dificilmente significariam mais do que uma graça comum.
Muitos podem chorar por causa dos sentimentos, e por causa da natureza feminina sensível, e ainda assim permanecerem não humilhados, podendo até estar em um grau muito elevado de orgulho. Quão regularmente vemos tantos que são assim! As mulheres, especialmente, podem chorar mais em um culto ou conversa, do que alguém que está realmente quebrantado poderia fazê‑lo em toda a sua vida, e ainda assim estarem tão longe de se verem vis aos seus próprios olhos e desejarem ser vistas assim aos olhos dos outros que elas odiarão, reprovarão e criticarão todos aqueles que as acusarem com as faltas que elas mesmas parecem se lamentar. Também, ao serem acusadas de horrendos pecados, estas pessoas se desculparão e suavizarão seus pecados, fazendo deles assunto de menor importância e se apegando àqueles que tenham um alto conceito delas. É assim que o pecado reina regularmente em seus corações: manifesta-se nas suas palavras e vidas; faz com que odeiem aqueles que com fidelidade as reprovam; e que vivam em contenda com qualquer um que venha a desonrá-las, apesar de todas as lágrimas que caem dos seus olhos. Assim, portanto, não julgue pelos sentimentos, ou apenas pelas lágrimas, mas pela reação aos julgamentos e pela vontade, como foi dito acima.
Um outro caso, que é muito melhor e mais feliz do que o primeiro, mas que produz grande dificuldade, é o erro daqueles que pensam que não têm uma verdadeira humilhação por não experimentarem tais sentimentos e liberdade de lágrimas como outros experimentam quando o coração deles é contristado, pois não conseguem derramar sequer uma lágrima.
Diga‑me apenas isto: “Você se vê como vil aos seus próprios olhos por ser culpado de pecados, e isto contra o Senhor, a quem você realmente ama? Você odeia os seus pecados, por causa das suas abominações, e desejaria de coração sofrer quando estivesse pecando? E se você tivesse que escolher de novo, você preferiria sofrer do que pecar? Você sente o desejo de se entristecer por causa do pecado mesmo quando não pode sentir tristeza, e deseja chorar, ainda que não consiga? Pode você suportar calmamente quando é ofendido, porque sabe que é realmente vil? É você grato a um reprovador sincero, apesar dele lhe mostrar o mais terrível pecado? Você considera as suas próprias palavras e feitos indignos, e as palavras e feitos dos outros melhores, desde que haja a menor razão para isso? Você atribui justiça às aflições que vêm de Deus e às reprimendas verdadeiras de homens, e se considera indigno da comunhão dos santos, ou de ver a justiça de Deus se Ele viesse a condená-lo?”
Este é o estado de uma alma humilhada. Se você puder responder afirmativamente a estas perguntas, então não precisa duvidar da sua aceitação por parte de Deus, mesmo que você não derrame uma lágrima. Há mais humilhação em uma baixa estima de nós mesmos do que em mil lágrimas, e mais em uma vontade ou desejo de chorar pelo pecado do que nas lágrimas que vêm motivadas pelo terror, por uma consciência pesada, ou pelos sensíveis sentimentos naturais. Se a vontade estiver correta, você não precisa temer. É aquele que mais odeia o pecado e é mais severo para com o pecado que é humilhado por causa dele. Aquele que lamenta o pecado hoje e o comete amanhã é muito menos humilhado e penitente do que aquele que não é atraído para o pecado na esperança dos prazeres do mundo, nem o comete, mesmo que fosse para salvar sua vida.
(3) Para evitar isto alguns incorrem no erro oposto e pensam que a tristeza e lágrimas são desnecessárias, e que podem se arrepender com ou sem lágrimas. Estes, fundamentam tudo em alguns desejos vagos e ineficazes; e assim, pensam que o coração foi mudado. Mas certamente Deus não criou os sentimentos em vão. É impossível que um homem possa ter uma vontade santificada e as suas emoções não manifestem alguma correspondência, e sejam controladas pela vontade. Embora não possamos gemer naquele grau que desejaríamos, ainda assim terá de haver alguma tristeza sempre que o coração for verdadeiramente mudado, e, aparentemente, esta tristeza deveria ser grande. Ninguém pode crer de coração que o pecado é o maior mal para sua alma sem ser afligido por isto. Na verdade, os nossos sentimentos mais vivos deveriam ser afetados por estas coisas tão importantes. É uma vergonha ver um homem gemer por um amigo e lamentar por uma provação, que afeta apenas a carne, e, no entanto, ser tão insensível à praga do pecado, à ira do Senhor, e sorrir e gracejar com tais pesos sobre a sua alma.
Embora a tristeza e as lágrimas não sejam o coração e a parte principal de nossa humilhação, ainda assim elas devem ser buscadas como um dever. Sim, certo grau de tristeza é absolutamente necessário, e a falta de lágrimas não é um bom sinal naqueles que as derramam por outras coisas. Na verdade, a convicção da nossa loucura e crueldade deveria ser tão grande a ponto de quebrar o nosso coração de tristeza, derreter o nosso peito, e produzir rios de lágrimas dos nossos olhos. Se nós não podemos produzir isso em nós, devemos antes lamentar a dureza do nosso coração, ao invés de nos desculparmos.
(4) Neste item, trataremos de como responder à questão, se é possível a um homem ser humilhado e se arrepender em demasia.
A manifestação exterior da humilhação, que consiste nos atos que provêm do entendimento e da vontade, não podem ser maiores do que o próprio entendimento e a vontade que produziram estes atos. Se as manifestações externas forem maiores do que a própria vontade, elas não apenas serão erradas como também nada terão a ver com a verdadeira humilhação salvadora. Um homem pode se considerar pior do que ele realmente é, pensando falsamente de si mesmo como se ele fosse culpado de pecados dos quais realmente ele não é; e isto não é a mesma coisa que verdadeira humilhação. Mas, se ele tiver uma clara apreensão da maldade do seu pecado e da sua própria vileza, a isto ele não deve temer.
No âmbito da vontade é mais claro: nenhum homem pode estar querendo livrar-se do pecado em demasia, nem ter a mesma aversão ao pecado quanto o próprio Senhor o tem. Mas, quanto à outra parte da humilhação que consiste em aguda tristeza ou lágrimas, pode muito bem ocorrer em demasia, embora eu conheça muito poucos que incorrem neste erro ou precisem temer isso, pois o homem normal do mundo é estúpido e duro de coração, e até a maioria dos piedosos são lamentavelmente insensíveis.
Ainda assim, há alguns poucos que necessitam desse conselho, a fim de que não se agonizem em grau excessivo de tristeza. Permita que o seu coração se disponha o mais possível contra o pecado, mas permita também algum limite às suas tristezas e lágrimas. Este conselho é necessário aos seguintes tipos de pessoas: (1) Às pessoas melancólicas, as quais estão em perigo de serem perturbadas, e agirem de modo irracional e sem propósito por excessiva tristeza. Seus pensamentos são fixos, confusos, sombrios, escuros e cheios de temores, e acabam tornando as coisas piores do que já são, sendo mais profundamente afetadas por estes sentimentos do que suas cabeças podem suportar. (2) Este é o caso também de algumas mulheres fracas de espírito, as quais não são melancólicas, mas ainda assim, por fraqueza natural de seus cérebros e por serem altamente sensíveis, não têm condições de suportar estas comoções sentimentais sérias e profundas que outros podem desejar, pois a profundidade da sua sensibilidade e a intensidade das suas paixões representam um perigo de serem lesadas pelos seus julgamentos, e serem facilmente lançadas à melancolia, ou a algo ainda pior.
Ser destituído da razão é uma das grandes calamidades corporais nesta vida, e isto seria um grande problema tanto para a própria pessoa como para os que a cercam. Trata-se de uma questão de vergonha e desonra para o Evangelho aos olhos dos ímpios que não entendem o caso. Quando eles vêem alguma tristeza excessiva e desmesurada, ou alguém cair em perturbação, isto representa uma grande tentação para que fujam da religião, evitem a tristeza que vem de Deus e todos os pensamentos sérios a respeito das coisas celestiais. Faz com que os tolos escarnecedores digam que a religião torna o homem maluco, e que esta humilhação e conversão para as quais os conclamamos é o caminho para fazê-los perder o juízo. Assim sendo, por causa da tristeza dos piedosos, e do endurecimento dos impiedosos, o caso se reveste de seriedade a ponto de requerer nosso maior cuidado em evitá-lo.
Pergunta: Mas se é tão perigoso entristecer-se, tanto de modo insuficiente como em demasia, o que fará um pobre pecador em tal desfiladeiro, e como pode ele saber quando deve restringir sua tristeza?
Resposta: Há pouquíssimas pessoas no mundo que têm razão em temer o excesso deste tipo de tristeza. A situação geral do homem é ser insensível; a tristeza do mundo provoca muito mais melancolia e perturbação do que a tristeza que vem de Deus. Mas, para aqueles poucos que estão em perigo de excesso, eu primeiramente direi como discernir o perigo e, depois, como remediá-lo.
Quando a sua tristeza é maior do que o seu julgamento pode suportar, com aparente perigo de perturbação ou de distúrbio melancólico e diminuição de seu entendimento, então a tristeza é certamente demasiada e deve ser restringida. Porque se você arruinar a sua razão, você se constituirá em opróbrio para a religião, e não estará habilitado para nada que seja realmente bom: nem para sua edificação, nem para o serviço do reino de Deus.
Se você estiver com uma séria doença a qual a tristeza poderia aumentar o risco para sua vida, você então tem razão para restringi-la; embora não deva abster-se de arrepender-se, ou descuidar-se da sua salvação; mas, o sentimento de tristeza, esta você deve moderar ou reduzir.
Quando a tristeza é tão grande a ponto de transtornar a sua mente, ou enfraquecer o seu corpo, de modo a incapacitá-lo para o serviço de Deus, e a torná-lo mais despreparado para fazer o bem, você tem razão então para moderar e restringir a tristeza.
Quando a intensidade da sua tristeza sobrepuja a medida necessária do seu amor, ou alegria, ou gratidão, deixando estes de lado, apossando-se mais do seu espírito do que deveria, não deixando espaço para os seus outros deveres, então esta tristeza é excessiva, e precisa ser restringida. Há alguns que se esforçariam e lutariam com seus corações para arrancar algumas lágrimas e aumentar sua tristeza, os quais, entretanto, fazem pouco caso de outros sentimentos e não se esforçariam a metade para aumentar sua fé, amor e alegria.
Quando o seu sofrimento, por causa da sua intensidade, o conduz à tentação ou ao desespero, ou a pensar que Deus e o Seu serviço são duros demais, ou a desvalorizar Sua graça e a satisfação de Cristo, como se fossem deficientes e insuficientes para você, neste caso, você tem razão para moderar e restringir o sofrimento.
Quando a sua tristeza é inoportuna e a vontade precisa de impulso em momentos quando você é conclamado à gratidão e à alegria, você tem então razão em moderá-la e restringi-la durante estas épocas. Não que devamos eliminar toda tristeza, seja qual for o dia de alegria ou gratidão, a menos que possamos suprimir todos os nossos pecados nos deveres daquele dia. Também não devemos suprimir todo conforto espiritual e prazer nos dias de maior humilhação. Porque assim como o nosso estado aqui é um misto de graça e pecado, assim também todos os nossos deveres religiosos devem ser um misto de alegria e tristeza. É apenas no céu que teremos alegria absoluta, assim como é apenas no inferno que há tristezas absolutas, ou, pelo menos, em nenhum estado de graça. Mas, por enquanto, por causa disso tudo, há épocas agora quando um destes sentimentos deve ser exercido de modo mais preponderante, e o outro em menor grau. Em tempos de calamidades, por exemplo, e após uma queda, nós somos tão conclamados à humilhação que o conforto deveria apenas moderar nossas tristezas, e o seu exercício deveria estar submisso nestas épocas. Assim também em épocas de especial misericórdia da parte do Senhor nós podemos ser conclamados a exercitar nossa gratidão, louvor e alegria tão preponderantemente que a tristeza deve nos manter humildes, e ser, por assim dizer, serviçal às nossas alegrias.
Quando graça e misericórdia são mais eminentes, então a alegria e o louvor deveriam ser predominantes, o que se verifica com mais freqüência em uma vida cristã que anda erguida a cuidadosamente com Deus. Quando pecado e julgamento são mais eminentes, a tristeza deve então ser predominante, visto ser um meio necessário para uma sólida alegria. Assim sendo, normalmente um pecador que ainda está passando pela obra de conversão, e é recém-chegado a Deus de um estado de rebelião, deve estimular mais tristeza, e se dar mais a gemidos e lágrimas do que posteriormente, quando for trazido à reconciliação com Deus, a andar com integridade.
Pergunta: Mas quando é, por outro lado, que eu posso saber que a minha humilhação é pequena demais, e que deveria me esforçar para aumentá-la?
(1) Quando, aparentemente, não há os perigos acima mencionados, quais sejam de destruir seu corpo, perturbar sua mente, transformar suas faculdades, afogar as outras graças, deveres, etc. Não havendo estes perigos você tem pouca razão de temer o excesso.
(2) Quando você não se humilhou o suficiente para levá-lo a valorizar o amor de Cristo, a ter estima pelo Seu sangue e seus efeitos, a ter fome e sede Dele e de Sua justiça e a mendigar ardentemente pelo perdão de seus pecados. Então você tem razão de desejar mais humilhação. Se você não sente grande necessidade de Cristo, mas passa por Ele tão desinteressadamente, como o estômago cheio passa pela comida, como se você pudesse passar muito bem sem Ele, então você pode estar certo de que precisa ser mais quebrantado. Se você não é tão movido pelo amor de Deus, a ponto de se desvencilhar de qualquer coisa para gozá-Lo, e de não considerar nada mais querido do que os céus, você necessita ficar sob convicção dos seus pecados e miséria um pouco mais, e de implorar ao Senhor que o salve do seu coração de pedra. Se você pode ouvir do amor e dos sofrimentos do seu Redentor sem ferver de amor por Ele novamente, e pode ler ou ouvir as promessas de graça, sobre os dons de Cristo, e sobre a vida eterna sem nenhuma considerável alegria ou gratidão, é tempo de implorar a Deus por um coração mais humilhado.
(3) Quando há muitos altos e baixos na obra da sua conversão, e você fica às vezes num bom estado, e novamente num mau estado, como se ainda estivesse irresoluto quanto a se deve mudar ou não; quando você hesita diante dos termos que Cristo estabelece quanto à autonegação, à crucificação da carne, e a abandonar tudo pela esperança da glória, e acha estas coisas duras, e está ainda considerando se deveria submeter-se a elas ou não, ou está ainda reservando secretamente alguma coisa para você mesmo. Isto tudo certamente mostra que você ainda não foi suficientemente humilhado, caso contrário você não estaria agindo tão levianamente para com Deus. Ele ainda deve colocar os seus pecados diante de você, e segurá-lo por um pouco sobre o fogo do inferno, e fazer soar em sua consciência tal estampido, a ponto de fazer com que você se submeta e acabe com suas dúvidas, e o ensine a não mais procrastinar com seu Criador.
O próprio Faraó ficava submisso e insubmisso a Deus, e às vezes deixava Israel ir, às vezes não, sendo necessário que Deus o humilhasse com praga sobre praga, até fazê-lo submeter-se e ficar até feliz em permitir que o povo partisse. Mesmo quando Deus usa dos meios de graça, quando o coração é duro, Ele faz tanto uso das tristezas quanto seja necessário para fazer com que o homem se submeta o mais cedo possível aos Seus termos e se alegre em obter misericórdia em tais termos.
(4) Quando você está insensível e desanimado quanto às ordenanças de Deus e a Escritura tem pouca vida ou doçura para você; quando se encontra quase que indiferente se invoca a Deus em secreto ou não, se vai à igreja ou não para ouvir a Palavra e unir-se em louvor a Deus na comunhão dos santos; quando não sente grande gosto nos cultos e nos sacramentos, mas pratica-os quase que meramente por costume, ou para aliviar a sua consciência, e não por uma grande necessidade que sinta dessas práticas, ou do bem que encontra nelas. Isto mostra, por certo, que você carece de mais um pouco da vara e da espora de Deus. Seu coração ainda não foi suficientemente quebrantado, mas Deus precisa tomá-lo novamente em Suas mãos.
(5) Quando você está esquecido de Deus, e da vida por vir, e esquece tanto dos seus pecados como do sangue do Salvador, e coloca os seus pensamentos quase que continuamente nas vaidades a nas coisas deste mundo, como se estivesse crescendo mais nestas coisas do que na sua necessidade de Cristo. Isto mostra que a pedra ainda está no seu coração, que Deus precisa fazer com que você se alimente de um cardápio mais difícil, para corrigir os seus apetites, e fazê-lo sentir o seu pecado e miséria até que Ele retire os pensamentos que você tem nas coisas que são na realidade pouco importantes, e o ensine a preocupar-se mais com o seu estado eterno. Se você começa a se esquecer do seu próprio estado e de Deus, é tempo de ser lembrado disto.
(6) Quando você começa a sentir mais doçura na criação, e a ser mais lisonjeado com aplausos a honras, e a sentir mais prazer na abundância, e mais impaciência com a pobreza ou necessidade, ou com os erros dos homens, e com as cruzes do mundo; quando você se dedica a ser bem sucedido, e está desejoso de se tornar rico e cai de amor pelo dinheiro; quando você se atira aos cuidados e negócios do mundo, e fica oprimido com muitas coisas por sua própria escolha. Isto mostra, na verdade, que você está perigosamente não humilhado. Se Deus tiver misericórdia de você, Ele o rebaixará e fará com que a sua riqueza se torne em amargura e absinto para você, abaterá o seu apetite e ensinará que uma coisa é realmente necessária: “Desejar ardentemente a comida que não perece”. Ensiná-lo-á daí em diante a escolher a melhor porção.
(7) Quando você percebe que poderia voltar a brincar com as circunstâncias propícias ao pecado, ou a olhar para elas com disposição na mente como se ainda tivesse a mente voltada para isso e quase que pudesse voltar o seu coração querendo novamente aquilo; quando você começa a ter a mente novamente voltada para suas velhas companhias e caminhos, ou começa a se aproximar o mais possível novamente dessas coisas, e a olhar com fixação para a isca na tentativa de provar daquilo que é proibido, e quase que não pode dizer como negar as suas inclinações, apetites, sentimentos e desejos. Isto mostra que você carece de uma obra de despertamento. Parece que Deus precisa ler para você mais um pouco da Palavra, e fazer com que você soletre aquelas linhas de sangue, as quais, ao que parece, você se esqueceu. Ele precisa acender o fogo da sua consciência, até que você sinta e entenda se é realmente bom brincar com o pecado, com a ira de Deus, e com o fogo eterno.
(8) Quando você começa a se tornar indiferente com relação a sua comunhão com Deus. Você começa a não pensar mais muito se Ele lhe aceitou realmente e se de fato lhe manifestou o Seu amor, mas começa a deixar de lado as suas orações e a não mais atentar para elas ou ao que acontece com elas. Passa a fazer uso dos sacramentos raramente questionando o resultado desta prática. Quando você pode dispensar o consolo espiritual dos santos e extrai pouco conforto espiritual de Cristo e dos céus, e cada vez mais dos seus amigos, bens, prosperidade e situações materiais, talvez comece a sentir-se tão bem na companhia de pessoas do mundo, falando e agindo como elas, com a mesma satisfação que antes tinha ao meditar no amor de Cristo. Isto mostra que você ainda não tem um real senso do perigo que corre. A humilhação ainda tem uma grande obra a realizar em você. Você precisa ser ensinado a conhecer mais a sua casa, a ter mais prazer em seu Pai, a conhecer mais o seu marido, seus irmãos em Cristo, mais a sua herança, do que os estranhos ou inimigos de Deus e seus.
(9) Quando você começa a fazer pouco caso das ordenanças ou de outras misericórdias, e ao invés de recebê-las com gratidão e se alimentar delas passa a queixar-se delas, e nada lhe agrada, dizendo: “O pastor é muito fraco”, ou “o pastor é muito exigente”, ou “o pastor é muito formal”, “isso deveria ser desse ou daquele modo”, “o culto é muito ou pouco formal”, “ele gesticula muito ou pouco”, “esta ordem não está boa”, “isto ou aquilo não é apropriado”. Isto tudo mostra que você carece ser humilhado, e que você está mais preparado para a vara do que para o alimento. Se Deus pudesse apenas abrir a porta do seu coração e mostrar claramente a maldade e o vazio que há nele, você veria que o erro não está no pastor nem no culto, e mesmo que houvesse erro neles, o erro maior ainda seria o seu. A causa da sua relutância e contenda com o mundo está no seu próprio estômago cheio, e Deus precisa lhe dar um remédio, que faça o seu coração doer antes que Ele termine a Sua obra. Então o seu apetite será corrigido, a sua frivolidade terá fim, e aquilo que você antes criticava passará a lhe ser doce.
(10) Quando você começa a tufar de orgulho, a pensar muito alto de si mesmo, a ter bons conceitos sobre o seu próprio talento e desempenho, ter prazer em ser notado e visto como alguém que desponta entre os piedosos, e não pode suportar ser esquecido ou ser deixado de lado. Quando você considera os talentos e desempenho dos outros inferiores em comparação com os seus, se considera tão sábio quanto seus mestres e passa a ouvi-los como se fosse juiz deles, com espírito de julgamento, e achando que poderia fazer tão bem quanto eles. Quando você começa a encontrar falta naquilo que deveria estar lhe nutrindo, e não encontra nada em cada sermão a não ser defeitos, e a acha que não cometeria tais erros. Quando você deseja veementemente ser seu próprio mestre e se considera mais habilitado a pregar do que a aprender, a dirigir do que ser dirigido, a responder do que a perguntar. Quando você pensa tão bem de si mesmo que a igreja não é mais boa nem pura o suficiente para sua companhia, embora Cristo não seja ali negado, e você não seja ali induzido a pecar. Quando você se torna crítico e passa a agravar mais e mais a falta dos outros, diminuindo as suas virtudes. Pode ver um cisco nos olhos dos outros, mas não consegue discernir as virtudes deles, a não ser que sejam altas como uma montanha, e ninguém pode passar por piedoso ao seu julgamento, a não ser os santos mais eminentes. Quando você passa a desejar veementemente as novidades na religião e a se achar mais sábio do que a igreja presente e antiga, e se considera excepcional por não ser como os demais. Quando você não pode ouvir nem este nem aquele pastor, embora sejam na verdade ministros de Cristo. Quando você fica batendo sempre na mesma tecla: “Saí dentre eles, e separai-vos deles”, como se Cristo houvesse chamado você a sair da igreja, quando na verdade o chama a sair da companhia dos infiéis. Tudo isso indica que você necessita de mais humilhação.
Você tem um inchaço que precisa ser aberto para permitir que o ar saia e ele seque. Para que você não venha a se perder, para que não venha a ser abandonado por Deus e ser entregue a si mesmo, você precisa ser trazido à humilhação novamente com um testemunho. Quando Deus lhe revirar e lhe mostrar que você é um pobre, miserável, cego e nu, e que está inchado sem razão e se enchendo de si mesmo, Ele fará você parar diante daqueles que você despreza. Ele fará você se considerar indigno da comunhão com aqueles que antes você julgava indignos de você. Fará com que se considere indigno de ouvir aqueles pastores aos quais você antes virava as costas. Ele jogará por terra o seu ensino, coisas tolas, e o tornará feliz em ser ensinado de novo. Numa só palavra, por meio da conversão Ele o fará novamente como criança, ou você nunca entrará no reino dos céus.
Este orgulho espiritual é uma doença lamentável, e consiste em algo excessivamente triste. Para muitos, é o prelúdio de condenação e apostasia. Deus os entrega aos seus próprios conceitos e à sabedoria que eles tanto estimam, até que estes os levem à perdição. E dentre aqueles que são curados, há muitos que o são da maneira mais triste, pois é comum Deus deixá-los sozinhos até que se lancem a erros abomináveis ou caiam em algum pecado vergonhoso e escandaloso, até que se tornem objeto de escândalo e comentários entre os homens. Esta vergonha e confusão podem, entretanto, despertá-los, a fim de que venham a compreender o que foi que os tornou tão orgulhosos, e a reconhecerem que não passam de simples vermes.
Desse modo eu mostrei quando é que você deve buscar uma humilhação mais profunda, e quando pode concluir que ainda não foi suficientemente humilhado. Sim, quando uma humilhação em maior grau é necessária à sua alma.
Pergunta: Bem, mas ainda assim, você ainda não nos disse que caminho um pobre pecador deveria tomar em tal desfiladeiro, quando não sabe se sua humilhação, no que diz respeito à parte emocional, é insuficiente ou demasiada.
Resposta: 1. Vocês mesmos podem discernir parcialmente pelo que foi dito, se têm necessidade de mais ou menos humilhação, apenas testando o coração por essas indicações. 2. Mas, ainda assim, eu os aconselharia e persuadiria veementemente, em caso de dificuldade, a recorrerem a algum ministro capaz e fiel, para uma resolução.
Se você sente que a tristeza se apodera demasiadamente do seu espírito, que põe em perigo o seu entendimento ou a sua saúde, especialmente se você é uma mulher sentimental ou uma pessoa melancólica, não permaneça neste estado por muito tempo, para que a demora não venha a fazer aquilo que não poderá ser facilmente desfeito, mas vá e converse sobre o seu caso, e peça conselho. Esta é uma das principais funções dos pastores: que você possa tê-los à disposição para se aconselhar com eles a respeito das doenças e perigos da sua alma, assim como você faz com os médicos com relação às doenças e perigos do corpo. Desvencilhe-se de toda timidez pecaminosa, e não continue a confiar em si mesmo e nas suas habilidades, mas vá àqueles aos quais Deus designou com superintendência sobre você para estas situações, e conte-lhes o seu caso.
Este é o modo de Deus, e Ele abençoará a Sua própria ordenança. Pessoas melancólicas, sensíveis e irritadiças não são juízes habilitados para avaliar sua própria situação. Neste caso, você deve desconfiar do seu próprio entendimento e não ser orgulhoso, nem se agarrar obstinadamente a cada capricho que venha à sua cabeça, mas, ao sentir a sua fraqueza, confie-se à direção dos seus fiéis ministros, até que o seu problema seja superado, e você se torne mais capaz de discernir por você mesmo.
Outro erro do qual você será aqui alertado é o de pensar que a tristeza e as lágrimas são desejáveis em si mesmas. Elas são desejáveis apenas como expressão de uma disposição sincera da vontade, e quando elas ajudam a atingir o fim para o qual a humilhação é designada. Assim, aqui você poderá aprender o caminho pelo qual deve buscá-las.
(1) Você não deve colocar a ênfase da sua religião nelas, como se fôssemos chamados pelo Evangelho apenas para uma vida de tristeza. Mas deve fazer da tristeza e das lágrimas servas da sua fé, amor, e alegria no Espírito Santo, e de outras graças. Assim como o uso da agulha é apenas para abrir caminho para a linha, e então é a linha, e não a agulha, que faz a costura, assim, a nossa tristeza serve apenas como preparação para a fé e amor, sendo estes os que unem a alma a Cristo. É, portanto, um triste erro que alguns fiquem muito preocupados por sua falta de tristeza, mas pouco preocupados por sua falta de fé e amor, e orem e se esforcem para quebrar seus corações, ou chorem pelos pecados, sem, contudo, fazerem o mesmo para obter aquelas graças maiores, às quais a tristeza deveria conduzi-los. Um deveria ser feito sem se deixar de lado o outro.
(2) Visto que as lágrimas são uma expressão do coração, elas deveriam ser espontâneas e sinceras, fluindo voluntariamente do sentimento interior por causa do mal que lamentamos. Se você vier a chorar bastante, meramente por pensar que as lágrimas são em si mesmas necessárias, e não por causa do ódio que sente pelo pecado e pelo sentimento da sua natureza vil e assassina, isto não tem nada a ver com a verdadeira humilhação. Se o coração estiver humilhado diante do Senhor, não é a falta de lágrimas que fará com que Deus o despreze. Alguns são, por natureza, tão pouco dados ao choro que não podem chorar por nenhuma coisa externa, nem pela perda do mais querido amigo, embora fossem capazes de fazer dez vezes mais para salvar a vida dele do que alguns que choram à vontade. Gemidos, assim como as lágrimas, também são expressões de tristeza, mas a rejeição e ódio sinceros ao pecado, são evidências ainda melhores do que ambos.
Quando, entretanto, a pessoa tem uma disposição natural para chorar, mesmo que seja por dificuldades materiais, e ainda assim não pode derramar uma lágrima pelo pecado, aí o caso é mais questionável.
(3) A razão principal pela qual vocês devem se esforçar para ter uma tristeza mais profunda é para que possam obter o fim ao qual a tristeza deveria levar: que o pecado vos seja mais odioso e mortificado com mais efetividade; que o “eu” seja humilhado, para que Cristo possa ser mais valorizado, desejado e exaltado, e para que você seja melhor habilitado a uma maior comunhão com Deus no tempo por vir, seja salvo do orgulho, e mantido vigilante.
Pelo que foi dito, você tem uma regra pela qual pode acertadamente discernir que grau de humilhação deve ser alcançado: ela deve ir tão profundamente a ponto de minar o nosso orgulho. O coração deve ser tão quebrantado quanto necessário para nos afastar do pecado e nos desvencilhar do “eu” carnal. Se isso não for alcançado, ainda que você chore os próprios olhos, isso não valerá nada. Você precisa ser rebaixado a tal ponto que o sangue de Cristo e o favor de Deus venham a ser mais preciosos a seus olhos do que o mundo inteiro, e em seu próprio coração preferira antes aqueles do que este. Aí, então, você pode estar seguro de que a sua humilhação é sincera, quer você derrame lágrimas ou não.
Pelo que foi dito, você também pode concluir que deve fugir da idéia de atribuir às suas próprias humilhações qualquer valor da honra devida apenas a Cristo. Não pense que você pode satisfazer a justiça da lei ou merecer qualquer coisa da parte de Deus pelo valor dos seus sofrimentos, mesmo que você venha a chorar lágrimas de sangue. Isto não será uma verdadeira humilhação, se não consistir no senso de reconhecimento da sua indignidade e merecida condenação, e se não levá-lo a buscar por perdão e vida em Cristo, e se não levá-lo a se ver perdido e totalmente incapaz em si mesmo. Portanto, seria clara contradição se a verdadeira humilhação viesse a ser tida como satisfação ou mérito, ou algo em que confiar ao invés de Cristo.
Capítulo 4
Conselho Principal: Não Recuse Ser Totalmente Humilhado
Tendo tratado amplamente da natureza e razões da verdadeira humilhação, eu quero concluir com o conselho que é minha principal intenção aqui: não recuse ser total e profundamente humilhado. Não se canse da obra de humilhação do Espírito.
A aflição não é um convidado bem-vindo à natureza humana; mas a graça pode achar razão para lhe dar boas-vindas. A graça é sincera e não pode tomar consciência de impiedade sem se dispor a se lamentar por isso. Há alguma coisa de Deus na tristeza piedosa, por isso a alma a aceita, procura por ela e clama por ela. Sim, a alma até se entristece quando não consegue mais se entristecer. Não que a tristeza, como tal, seja desejável, mas como uma conseqüência necessária da nossa aflição por causa do pecado, e como um antecedente necessário para a restauração que se seguirá.
Assim como podemos nos submeter à própria morte com acalentada expectativa, porque ela é santificada para ser a passagem para a glória, embora seja dolorosa em si mesma para a natureza humana, assim muito mais nós podemos nos submeter à humilhação e ao quebrantamento do coração com um santo desejo, porque ela é santificada para que seja a entrada para o estado de graça.
A título de incentivo, considere o que se segue:
1. A maior parte dos seus sofrimentos ocorrerá apenas no início. Uma vez que você se estabeleça em um caminho santo, você encontrará mais paz e conforto do que em qualquer outro caminho que possa seguir. Eu sei que se você se envolver com o pecado novamente, ele provocará mais sofrimento em você. Mas uma vida piedosa é uma vida de retidão, conversão é um abandono do pecado e conseqüentemente um abandono da causa dos sofrimentos. Você não pode suportar tais sofrimentos por um pouco mais?
2. Considere de onde você está vindo. Não é de um estado de ira? Onde você esteve todo este tempo, não foi sob o poder de Satanás? O que você fez durante toda a sua vida, não foi se submeter à escravidão do pecado, e ofender o seu Senhor, e destruir‑se a si mesmo? Seria próprio, seria razoável, seria sincero, vir de tal estado sem lamentar ter permanecido por tanto tempo nele?
3. Considere, também, que a humilhação é necessária a sua própria restauração e salvação. Você pensa que cometeria tão grande excesso, e então seria curado sem nenhum propósito? Você suportaria, para a saúde do seu corpo, o comprimido mais amargo, e o remédio mais repugnante, a dieta mais rigorosa, e até retirar o seu sangue, porque sabe que a sua vida depende disto e não há outro remédio. Não deveria você, então, suportar, para a salvação da sua alma, os sofrimentos mais amargos, as reprimendas mais duras, as confissões mais francas, e a abundância de lágrimas? O pecado não será vencido de modo mais fácil, o “eu” não será conquistado de outra maneira, o coração do pecado não será quebrado, até que o seu coração seja quebrado.
Nós sabemos que não há nenhum mérito em seus sofrimentos, e que não são eles que farão com que Deus perdoe seus pecados. Nem tão pouco a sua tristeza é requerida por ser o sangue de Cristo insuficiente. Mas ela é parte do fruto do Seu sangue sobre a sua alma. Se o sangue Dele não derreter e quebrar o seu coração, você não tem parte Nele. É preciso que você lamente por Aquele que você traspassou, e este fruto do Seu sangue é um preparativo para mais. É tão impossível você ser salvo sem fé, como sem arrependimento e humilhação.
Considere quanta ruindade havia nas suas obras; poderia você ser grato por isso? Quem foi que o trouxe a essa necessidade de sofrimento? Você passou toda a sua vida abusando da sua natureza, e causando o seu próprio mal, e agora você tem má vontade para com o transtorno necessário para a sua cura? A quem você acusaria, e em quem encontraria falta, senão em você mesmo? Não foi você quem pecou? Não foi você quem alimentou o fogo do seu sofrimento e semeou as sementes deste fruto amargo, e acariciou a causa dos seus próprios transtornos? Não foi Deus quem fez isto, foi você mesmo. Ele quer apenas desfazer aquilo que você fez. Não tenha, portanto, má vontade para com o Seu médico, se você precisa ser purgado, sangrado, e tem que passar pela mais rigorosa dieta, mas “agradeça” a si mesmo o ter que passar por isto.
4. Considere também que você tem um sábio e meigo médico, o qual conheceu Ele mesmo o que são a tristeza e o sofrimento, pois por sua causa Ele foi feito um homem de dores[16][16][16], e, portanto, pode se compadecer daqueles que estão em sofrimento. Ele não se deleita no seu sofrimento e dores, mas na sua cura e subseqüente consolação. Por conseguinte, você pode estar seguro de que Ele o tratará da maneira mais gentil e moderada, e não colocará sobre você mais do que o necessário para o seu próprio bem, nem lhe dará um cálice mais amargo do que a sua doença o requeira.
Quando Ele mostra a sua grande simpatia para com o contrito, é para que possa vivificar o seu coração. Além disto, Ele diz: “não contenderei para sempre, nem me indignarei continuamente; porque do contrário o espírito definharia diante de Mim e o fôlego da vida que Eu criei”[17][17][17]… Ele chama para Si “todos os que estão cansados e sobrecarregados, e Eu os aliviarei”[18][18][18]. Ele foi enviado para curar os quebrantados de coração; proclamar libertação aos cativos; para recobrar a vista aos cegos e para pôr em liberdade os algemados. Quando Ele quebrar o seu coração, Ele também o unirá da forma mais terna e segura do que você possa razoavelmente desejar.
Até mesmos os seus ministros, quando se esforçam para quebrar o coração de vocês, e humilhar vocês até o pó, não têm outro propósito que não o de trazê-los a Cristo, à vida e ao conforto. Embora eles fiquem felizes em ver os olhos chorosos dos seus ouvintes e em ouvir as suas confissões e lamentações, ainda assim, não é porque eles tenham prazer nas suas aflições, mas porque antevêem os seus frutos de salvação. Eles sabem ser isto necessário para a paz eterna de vocês. Você pode ler quais são os pensamentos deles nas palavras de Paulo: “Agora me alegro, não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para arrependimento; pois fostes contristados segundo Deus, para que de nossa parte nenhum dano sofrêsseis, pois a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte. Porque quanto cuidado não produziu isto mesmo em vós que segundo Deus fostes contristados! Que defesa, que indignação, que temor, que saudades, que zelo, que vindita!”[19][19][19].
A verdade é que nem Cristo, nem seus ministros têm aquele amor tolo e apaixonado por vocês, e piedade de vocês, como vocês têm por si mesmos. Eles não são tão dóceis, a ponto de evitar que sofram as tristezas que são necessárias para livrá-los do inferno. Não obstante, eles não colocariam sobre vocês mais tristezas do que é necessário, nem têm vocês experimentado uma gota de vinagre ou fel, ou derramado uma lágrima, a não ser que tenha servido para o vosso conforto e salvação.
5. Considere também que sofrimentos são aqueles que os presentes sofrimentos evitam, e que sofrimentos serão aqueles no inferno, os quais são evitados por estes sofrimentos que vêm de Deus, na terra. Comparados com os sofrimentos do inferno, os sofrimentos do arrependimento são alegrias. Os seus sofrimentos produzem esperança, mas os sofrimentos daqueles que perecem no inferno conduzem ao desespero. Os seus sofrimentos são pequenos e não mais do que uma gota, comparados com o oceano deles. Os seus curam, mas os deles atormentam. Os seus são a vara de um pai, mas os deles são instrumentos de tortura e forcas. Os seus estão misturados com amor, mas o deles não, antes oprimem-nos em confusão. Os seus são curtos, mas os deles não têm fim. Você preferiria o sofrimento deles, em vez do sofrimento que vem de Deus? Preferiria você uivar com os demônios e rebeldes, do que chorar com os santos e filhos? Preferiria você ser quebrado no inferno por tormentos, do que na terra pela graça?
Não é algo razoável de sua parte rebelar-se por causa dos sofrimentos que acabarão por salvá-lo, se você lembrar do que eles irão salvá-lo e do que sofrem todos aqueles que não são humilhados aqui pela graça! O quão diferente é o sofrimento que outros estão agora suportando. Não resmungue por causa da abertura de uma veia enquanto que muitos milhares estão agora sangrando até o coração.
6. Considere também que quanto mais você for corretamente humilhado, mais doce Cristo e todas as suas misericórdias serão para você enquanto viver. Uma prova do amor de Cristo fará com que você bendiga aqueles sofrimentos que o prepararam para isto. O próprio Cristo não é igualmente valorizado, nem mesmo por todos aqueles que Ele salvará. Não deveria você ser antes esvaziado de você mesmo mais e mais, para que seja mais cheio de Cristo daqui em diante? Quando você sentir os Seus braços envolvendo-o, e vê-Lo naquela postura em que se encontrava o pai do filho pródigo, você agradecerá àqueles sofrimentos que o habilitaram para os Seus braços.
Se você for totalmente humilhado, viverá todos os seus dias de modo muito mais seguro. A humilhação lhe fará odiar o pecado, por causa do qual você veio a sentir dor aguda, e lhe fará fugir de ocasiões que lhe foram tão caras.
O pecado do orgulho é um dos pecados mais mortais e danosos no mundo; e é a razão de milhares de mestres serem mal sucedidos. A humilhação é totalmente contrária a ele, e, portanto, precisa ser algo bem-vindo e desejável. Valeria a pena suportar todo o sofrimento que cem homens suportam aqui para salvá-lo deste perigoso pecado do orgulho.
7. Uma humilhação profunda é usualmente um sinal de uma maior exaltação futura. “Porque quem a si mesmo se exaltar, será humilhado; e quem a si mesmo se humilhar, será exaltado”[20][20][20]. “Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que Ele em tempo oportuno vos exalte”[21][21][21].
Quanto mais alto um homem pretenda construir, mais profundamente ele deve cavar para fazer o alicerce. As suas consolações serão provavelmente maiores quanto maiores forem seus sofrimentos. Você pode livrar-se daquelas hesitações que acompanham outros por todos os seus dias e que acabam fazendo com que nunca sejam verdadeiramente humilhados. Você não precisa estar ainda questionando, ou arrancando seus alicerces, como se você tivesse que começar tudo novamente. Se muitas coisas concorrem para o seu sofrimento, isto é um sinal de que você poderá ser grandemente usado. Paulo deve ter sido humilhado profundamente na sua conversão, a fim de que pudesse ser habilitado como um “instrumento escolhido para levar o Meu nome perante os gentios e reis”[22][22][22] .
Coloque tudo isto diante de você, e considere quantos motivos você tem para acalentar a obra de humilhação da graça, e não, ao invés disso, apagá-la.
Quando o seu coração começar a se afligir por causa do pecado, não procure a companhia dos tolos para beber ou se distrair, com o propósito de se esquecer da aflição do pecado. Não expulse estes sentimentos da sua mente, como se fossem indesejáveis, como se eles houvessem vindo para magoá-lo. Mas fique sozinho, e considere o assunto, e de joelho, em secreto, clame ao Senhor para visitá-lo e para quebrar o seu coração e para prepará-lo para estas consolações salvadoras, para que não o deixe neste Mar Vermelho, mas traga-o à outra margem e coloque em sua boca os cânticos de louvor.
[1][1][1] Versão on-line do livro Richard Baxter, Quebrantamento: Espírito de Humilhação, 2 ed., trad. Paulo R. B. Anglada (Belém-PA: Editora Classicos Evangélicos, 1991). Direitos da traduçào reservados.
[2][2][2] Esta é a introdução ao livro inteiro: Direções e Persuasões para uma Conversão Segura (Directions and Persuasions to a Sound Conversion)
[3][3][3] Is 29:13
[4][4][4] 1 Jo 2:19
[5][5][5] 2 Pe 1:1O
[6][6][6] Pv 5:3-5
[7][7][7] Rm 8:2
[8][8][8] Lc 15:18,19
[9][9][9] Lc 18:13
[10][10][10] 1 Pe 5:5
[11][11][11] Sl 138:6
[12][12][12] Is 57:15
[13][13][13] Is 66:2
[14][14][14] Sl 34:18
[15][15][15] Sl 51:17
[16][16][16] Is 53:3
[17][17][17] Is 57:16
[18][18][18] Mt 11:28
[19][19][19] 2 Cor 7:9-11
[20][20][20] Mt 23:12
[21][21][21] 1 Pe 5:6
[22][22][22] At 9:15
RICHARD BAXTER – bglk@stprj.br - www.stprj.br
Rio de Janeiro
2003
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