O Caráter de Deus

1 Comentário

http://malucoporjesus.wordpress.com

ÍNDICE

O Caráter de Deus

A justiça

O abuso humano

A justiça de Deus rejeitada pelos judeus

 A justiça de Deus

 A justiça de Deus através dos tempos

Como se aplica a justiça de Deus no cristão

A verdade

___________________________________________________

Capítulo 1

O Caráter de Deus

São os olhos a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas. Portanto, caso a luz que em ti há sejam trevas, que grandes trevas serão!”

Mateus 6.22,23

      Essas simples palavras revelam todo o caráter de Deus e, por isso mesmo, o Senhor Jesus as proferiu a fim de fazer com que Seus seguidores pudessem compreender a natureza do Criador.

Assim como os olhos são a lâmpada do corpo, também o espírito do homem é a lâmpada do Senhor, a qual esquadrinha todo o mais íntimo do corpo (Provérbios 20.27). Ora, da mesma forma que o espírito do homem revela para Deus o seu íntimo, também os olhos do homem revelam exteriormente o seu caráter, o que ele tem dentro de si.

       Torna-se fácil saber o que está acontecendo com uma pessoa, quando se olha no fundo dos seus olhos. Se ela tem alguma coisa oculta no seu interior, naturalmente procura desviá-los, revelando incons­cientemente sua preocupação; mas se ela encara e não se intimida perante o outro, então, os seus olhos logo refletem a sua tranqüilidade por não estar escondendo nada.

 Diz-se que há uma raça de urubus, que somente comem a carniça depois que o urubu-rei, come­çando pela análise dos olhos do animal morto, liberar o corpo.

Quando o Senhor Jesus ensinou dessa maneira, certamente queria exortar os seus discípulos a tomarem todo o cuidado possível como seu interior, a fim de que este refletisse no exterior a plenitude da presença de Deus. Sim, porque não adianta anunciarmos a Palavra de Deus ao mundo apenas teoricamente, e viver- mos uma vida diferente daquilo que pregamos.

E preciso que tenhamos atitudes semelhantes às do nosso Senhor, pois de que vale pregarmos a Cristo e vivermos o anticristo? De que vale mani­festarmos amabilidade e simpatia no púlpito, se quando descemos dele, ou saímos da igreja, mudamos nossas atitudes?

Não podemos ser como o camaleão, que muda de cor conforme o ambiente em que se encontra. Nossos olhos retratam toda a nossa intimidade, o que está no coração, ainda que a boca esteja calada. Eles não apenas revelam o nosso caráter aos outros, como também nos fazem ver as coisas de acordo com o que temos no coração.

               Observemos os olhos de Deus na pessoa do seu Filho, o Senhor Jesus, quando Ele encontrou a prostituta Maria Madalena. Se os seus olhos fossem maus, certamente Ele a condenaria, a repreenderia e chamaria a sua atenção apenas para que ela não agisse daquela maneira; entretanto, Ele a compreendeu, porque olhou para ela com “bons olhos”, os olhos de amor, ternura e compaixão:

“Não podemos ser como o camaleão que muda de cor conforme o ambiente em que se encontra”

                Ela, como tantos outros que têm sido vistos pelo Mestre, possui o lado bom, isto é, as qualidades também. E é assim que nós cristãos devemos cultivar o nosso interior – fazê-lo acostumar-se a ver as pessoas, quer sejam cristãs ou contrárias à fé, pelo seu lado positivo e bom; com “bons olhos” para que todo o nosso interior seja iluminado.

Se olharmos as pessoas com preconceitos, é cer­to que, mais cedo ou mais tarde, a nossa língua, que vive a coçar, se manifestará e acabará por provocar uma inimizade contra aquela pessoa, chegando até a “vaciná-la” contra o Senhor Jesus, em quem nós tanto cremos.

Se os nossos olhos forem bons, por onde quer que formos, haveremos de manifestar a luz que há em nós… e todos os que nos verem saberão que somos diferentes das demais pessoas desse mundo, pois testemunharemos de modo eficaz d’Aquele que está em nós!

Do modo como vemos, seremos vistos. Como julgamos, seremos julgados; se amamos, seremos amados; se perdoamos, seremos perdoados; se abençoarmos, seremos abençoados.               

Capítulo 2

A justiça

A justiça é a virtude moral que inspira o respeito dos direitos de outrem e que faz dar a cada um o que lhe pertence. Ela revela o que é absolutamente correto, íntegro e verdadeiro e jamais pode se desviar, ainda que seja por uma insignificância, quer para a direita, quer para a esquerda, pois se isto acontecer, então, mais tarde, verificar-se-á o quão longe da verdade se coloca.

Se hoje, por exemplo, tomamos uma decisão de juízo e cometemos um mínimo de injustiça, certamente amanhã constataremos o estrago de todo o resto de justiça exercido. Quer dizer, muitas vezes uma injustiça, por menor que seja, atingindo uma parte, prejudica grandemente o todo

O abuso humano

O ser humano tem abusado, e muito, do amor de Deus, da Sua paciência e compaixão; e talvez por isso mesmo, ele tem omitido a mensagem do Evangelho, negado a fé total no Senhor Jesus Cristo, enfim, se marginalizado em relação a Deus.

Creio que, no fundo, ele acredita que a miseri­córdia divina abafará todos os erros e pecados, e que Deus não terá coragem de lançar os “filhos” desobedientes no lago do fogo.

Apoiado nas Suas misericórdias, muitos se esquecem de que Ele antes de ser amor, bondade, etc., é justiça, e por força da própria justiça ficará impedido de justificar a todos, até porque não poderá permitir que o injusto receba o mesmo tra­tamento que o justo; que aqueles que deram suas vidas por causa da fé cristã, vivam a eternidade com aqueles que lhes tiraram as suas vidas por causa da própria fé cristã.

Bem, o certo é que aqueles que pensam dessa forma desconhecem a Palavra de Deus, que afirma:

“O reino de Deus não consiste no comer e no beber, mas na justiça, na paz, e na alegria no Espírito Santo.”

Romanos 14.17 

Quer dizer: a paz e a alegria não poderiam existir no reino de Deus sem que houvesse a justiça, pois aquelas dependem diretamente desta. E impossível se viver com a consciência tranqüila, sabendo-se que o tipo de vida que se está levando comporta ou é produto da injustiça.

A justiça de Deus rejeitada pelos judeus

O apóstolo Paulo, escrevendo aos cristãos romanos, disse:

“Irmãos, o bom desejo do meu coração e a minha súplica a Deus por Israel é para sua salvação. Porque lhes dou testemunho de que têm zelo por Deus, mas não com entendimento. Porquanto, não conhe­cendo a justiça de Deus, e procurando estabelecer a sua própria, a, não se sujeitaram à justiça de Deus. Pois Cristo é o fim da lei para justificar a todo aquele que crê.”

Romanos 10.1-4

“E certo que se alguém

conseguisse cumprir

todos, menos um

preceito da lei, ainda

assim estaria em débito”

Ora, isso significa que os judeus, desconhecendo a justiça de Deus, muito embora com zelo e cuidado, têm procurado guardar toda a Lei que Moisés lhes deu sem, entretanto, conseguir cumpri-la toda. Assim, perderam a visão dos propósitos de Deus com respeito à justificação pela fé no Senhor Jesus Cristo, pois, como está escrito:

“O meu justo viverá da fé”.

Hebreus 10.38

“É evidente que pela lei ninguém é justificado diante de Deus, porque: o justo viverá da fé; ora, a lei não é da fé, mas: O que fizer estas cousas, por elas viverá”.

Gálatas 3.11,12

Mas, pergunto eu, qual foi o judeu que durante toda a sua carreira aqui na terra conseguiu cumprir toda a lei? É certo que se alguém conseguisse cumprir todos, menos um preceito da lei, ainda assim estaria em débito. Esta é a principal razão pela qual o Senhor Jesus veio ao mundo, a fim de que cumprisse toda a Lei e assim pudesse servir como Salvador da humanidade, pois, conforme está escrito:

“Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro; para que aos gentios viesse a bênção de Abraão em Jesus Cristo, a fim de que nós recebêssemos pela fé a promessa do Espírito. “

Gálatas 3.13,14

Muitos judeus sinceros querem ser justificados diante de Deus, mas cometem um grave erro, porque desejam-no pela obediência à Lei, esquecendo-se de que, mediante ela, ninguém foi ou será justificado.

Como exemplo, temos o pai da nação de Israel, Abraão, que, segundo a Bíblia, creu no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça (Gênesis 15.6).

Diante do exposto, há que se perguntar: Quais foram, então, os propósitos da Lei? Ora, ela serviu de freio contra os pecados mais grosseiros, conforme 1 Timóteo 1.9,10:

“Tendo em vista que não se promulga lei para quem é justo, mas para transgressores e rebeldes, irreverentes e pecadores, ímpios e profanos, parricidas e matricidas, homicidas, impuros, sodomitas, raptores de homens, mentirosos, perjuros, e para tudo quanto se opõe à sã doutrina.

A lei também mostra o pecado de todos os homens, como está escrito:

“Visto que ninguém será justificado diante d’Ele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado. “

Romanos 3.20

Além de tudo isso, a Lei é uma clara demonstração da justiça de Deus para com os homens, servindo como base do próprio Direito Humano.

Infelizmente, o mesmo espírito judeu tem se aplicado também àqueles que se consideram cristãos e não o são, pois absorvem mais os mandamentos e preceitos humanos do que propriamente o que diz a Palavra de Deus. Estão mais preocupados no zelo de suas tradições religi­osas do que em abraçar a pureza da fé no Senhor Jesus e nas suas promessas.

Por isso mesmo, não se opõem a qualquer imposição sacrificial ou penitências por acharem que essas práticas trazem a justiça, ou méritos da parte de Deus para com elas; acreditam mais em suas obras de caridade do que na graça de Deus pela fé… Tudo isso é compreensível, pois que lhes têm sido negado, pelas suas próprias tradições, o conhecimento da verdade através da Escritura Sagrada.

Como vemos, não é nova a prática de certas lideranças religiosas em esconder propositalmente a verdade pois, assim sendo, podem controlar as mentes dos seus seguidores para fazerem aquilo que desejam os seus maus instintos (cobiçosos). Enquanto as pessoas leigas desconhecem as verdades eternas, continuarão na prática de

É consumir velas, santos e toda sorte de quinquilharias religiosas, enchendo assim os bolsos daqueles que lhes impõem filosofias baratas.

Uma ocasião o Senhor Jesus propôs a seguinte parábola para as pessoas desse tipo:

“Propôs também esta parábola a alguns que confiavam  em si mesmos por se considerarem justos, e desprezavam outros: Dois homens subiram ao templo como propósito de orar: um fariseu e o outro publicano. O fariseu, posto em pé, orava de si  para si mesmo, desta forma: Ó Deus, graças te dou porque e não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto, ganho.

O publicano, estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, sê propício a mim, pecador! Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que se exalta, será humi­lhado; mas o que se humilha, será exaltado. “

Lucas 18.9-14

A parábola surte o efeito esperado para aquilo que se propõe este estudo: sobre a justiça de Deus pela fé e a justiça humana pelas obrigações religiosas.

O publicano (coletor de impostos) representa a justiça de Deus pela fé, pura e simplesmente; enquanto que o fariseu (religioso erudito, prati­cante da lei e, aos seus próprios olhos, justificado pelos seus próprios esforços religiosos) apresenta-se como merecedor de todas as bênçãos de Deus, através de suas caridades. Este, representa uma determinada classe de religiosos hipócritas, que arregalavam os olhos para as suas supostas perfei­ções, mas que só tinham pensamentos contrários à misericórdia e à graça de Deus, através da fé salvadora no Senhor Jesus.

“Não é nova a prática
de certas lideranças
religiosas em esconder
propositalmente a verdade”

Capítulo 3

A justiça de Deus

Se pudéssemos registrar em ordem cronológica as atribuições ou qualificações de Deus, certamente teríamos de considerar, em primeiro lugar, Deus, o Senhor da Justiça. A própria Escritura aponta a base do Trono de Deus:

“Justiça e direito são o fundamento do teu trono; graça e verdade te precedem.’

                                      Salmos 89.14

Todo aquele que leu ou lê a Bíblia Sagrada, de Gênesis ao Apocalipse, pode sentir a maneira pela qual Deus faz o seu julgamento, ou seja, como Ele opera nas Suas ações e reações para com a Sua criatura, e em tudo isso pode-se constatar um Senhor perfeitamente justo, na Sua maneira de ser e agir.

Ele é um Deus justo, e, por isso mesmo, odeia a injustiça, assim também como nós a odiamos. Aliás, no plano amoroso de Deus, acreditamos ser esta a razão principal por que muitos têm a oportunidade de serem salvos. Devido ao fato de Deus odiar a injustiça, e de ter fome e sede de justiça. O Senhor Jesus disse:

“Bem-aventurado os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos. “

Mateus 5.6

Somente aqueles que têm o caráter voltado à justiça  é que são fartos, e essa fartura é exatamente a salvação pela fé no Senhor Jesus Cristo.

O que é a justiça de Deus?

Justiça é uma virtude ou qualidade que consiste na conformidade com o que é direito, correto ou legal. Dentro destes parâmetros, somente poderemos encontrar justiça perfeita e imparcial no próprio Deus. que é a personificação da justiça.

De fato, se o ser humano deseja encontrar uma definição própria para o Senhor, quer seja pelo caráter divino, mostrado pela ações de Deus desde a criação do mundo até o Apocalipse, ou mesmo pelas próprias experiências com Ele, sem dúvida alguma, iniciar-se-á pela Sua Justiça.

Deus é justo, e é isso o que o povo de Israel compreendia como a maior diferença entre Ele e os falsos “deuses” dos outros povos.

A justiça de Deus através dos tempos

Deus sempre usou homens cheios de fé, tementes e corretos no seu caráter, para manifestar a Sua justiça para com eles. Depois da morte de Josué, durante os primeiros 300 anos em Israel, Deus suscitou cerca de 13 juízes para julgarem o Seu povo, porque “naqueles dias não havia rei em Israel: cada um fazia o que achava mais reto” (Juízes 21.25).

Estes juízes eram ungidos para fazer justiça, e assim promover no povo judeu a disciplina que envolve o respeito mútuo entre seus cidadãos e as tribos, com a finalidade de encaminhá-los a Deus. Aqui vemos uma característica importante da verdadeira justiça: a aplicação de uma disciplina que reflita o caráter divino.

Depois vieram os reis que, também ungidos, eram considerados juízes de toda a nação de Israel. Dentre eles se destaca a pessoa de Davi, “um homem segundo o coração de Deus”.

Hoje, Deus tem também os seus “juízes” na terra que, imbuídos de autoridade concedida pelo próprio Senhor Jesus, e ungidos pelo Espírito Santo, procuram levar aos povos a justiça divina através da fé, de acordo com a Palavra de Deus. Por isso é que o Senhor, com vista à implantação do Reino de Justiça ou Reino de Deus entre os homens:

A uns pôs na igreja, primeiramente apóstolos, em segundo lugar profetas, em terceiro mestres, depois operadores de milagres, depois dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas. “

                           1 Coríntios 12.28

Como se aplica a justiça de Deus no cristão

Este é um dos pontos mais controvertidos na vida cristã, não porque Deus se mantém omisso às injustiças promovidas contra o Seu povo por parte dos não-cristãos ou dos próprios cristãos, absolu­tamente. A verdade é que quando o cristão se vê injustiçado, se ele não tem o caráter do Senhor Jesus Cristo, então, logo procura, pelos seus próprios meios ou recursos, tomar atitudes concernentes ao seu próprio caráter, isto é, defen­dendo-se com unhas e dentes, observando sua própria justiça ou, pior ainda, pagando a injustiça coma injustiça. Ora, temos aprendido que:

“Não resistais ao perverso, mas a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; e ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigara andar uma milha, vai com ele duas. “

                                  Mateus 5.39-41

E o que significa isso, senão, que devemos compreender a injustiça, uma vez que é nelas, e por meio delas, que sofremos e somos provados. Se desejamos conhecer o caráter verdadeiro de uma pessoa, devemos lhe observar, cuidadosamente, nos momentos da provação. O rei Davi disse:

“Fira-me o justo, será isso mercê; repreenda-me, será como óleo sobre a minha cabeça, a qual não há de rejeitá-lo”.

                                   Salmos 141.5

Se quisermos ter um caráter de acordo com o de Davi, o homem segundo o coração de Deus, então aprendamos esta lição: de que a nossa causa esteve, está e sempre estará diante dos olhos do Deus Justo.

Se alguém cometer alguma injustiça conosco, por mais cruel que ela seja, devemos confiar no nosso Justo Juiz que, mais cedo ou mais tarde, fará com que a injustiça cometida contra nós torne-se em justiça, e esta dará a vez ao gozo e à alegria de termos passado na provação.

Portanto, jamais devemos nos defender com nossas próprias forças mediante qualquer ofensa; pelo contrário, devemos nos humilhar confiando que o Justo Juiz defenderá a nossa causa e nos dará a vitória. Se procurarmos nos defender, não só estaremos deixando de lado o nosso Juiz Justo, mas também incorremos no grande erro de manifestar o velho homem corrupto e destinado ao fracasso total na vida cristã.

Para o homem natural é impossível ceder às injustiças cometidas contra ele, e até existem aqueles que afirmam categoricamente: “Pelos meus direitos eu vou até as últimas conseqüências.. .” É por isso mesmo que os cemitérios estão cheios. Quantos não perderam suas vidas defendendo “seus direitos”?! E o caráter deles é este: defender, defender… O Senhor Jesus disse:

“Se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus. “

Mateus 5.20

Ora, não é a nossa justiça a própria justiça de Deus? Não é o caráter divino que tem que fluir através de nós? Não somos o bom perfume de Cristo? A luz do Mundo? O sal da terra? Então, como poderemos permitir-nos perder a chance de exercer em muito a justiça que vem de Deus diante dos escribas e fariseus?

Sabemos de muitos cristãos e até ministros de Deus. cujas, vidas jamais podem expressar o caráter do Senhor Jesus Cristo. Isso porque jamais admitem ..perder”, e não podendo agredir fisicamente a quem lhe ofendeu, então o fazem com a língua; não podendo fazer pessoalmente, então fazem pelas costas, criando assim animosidade na própria igreja. Para estes está escrito:

“E quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal, e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo.”

Mateus 5.22

Finalmente, aprendamos que a justiça de Deus se revela no Evangelho, de fé em fé, como está escrito:

0justo viverá por fé. “

Romanos 1.17

-Todavia, o meu justo viverá pela fé, e: se retroceder, nele não se compraza minha alma. “

Hebreus 10.38

Capítulo 4

A verdade

A verdade é a conformidade com o que é real ou exato. Biblicamente, o Senhor Jesus é a personificação da verdade, como Ele mesmo se auto definiu:

“Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim”.

                                 João 14.6

A verdade jamais pode ser escondida. Nem o tempo consegue encobri-la; é como o óleo na água: está sempre em destaque, não se mistura. Pode até, por um breve período de tempo, parecer ter a mesma substância de outros elementos nos quais está inserida; entretanto, mais cedo ou mais tarde, flutua, assume a sua posição e aparece, conforme o próprio Senhor afirmou:

 ”Pois nada há encoberto, que não venha a ser revelado; nem oculto, que não venha a ser conhecido. “

Mateus 10.26

Assim é a verdade. Uma vez conhecida não admite meio termo. Não existem meias verdades. Há quem concorde que a meia verdade, muitas vezes, é pior do que a mentira.

Todo pecado que se comete está fundamentado na omissão da verdade. Normalmente, ao cometer um pecado, a pessoa, de antemão, já preparou uma mentira a fim de escondê-lo. Por isso mesmo, o Senhor Jesus faz-nos uma séria advertência, quando repreendeu os judeus dizendo:

“Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe aos desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.

João 8.44

Ora, se o cristão tem o caráter de Deus, então a Sua palavra é como a do seu Deus, isto é, a verdade. Mas se o cristão anda e profere a mentira, então já não tem o caráter divino, mas diabólico, uma vez que ele satisfaz aos desejos de seu pai, que é o diabo.

A verdade é como Deus, provém d’Ele e está no caráter de Deus. Eis, então, a razão pela qual muitas vezes o Senhor Jesus usou a expressão: “Em verdade, em verdade vos digo…” Por outro lado, a mentira é como o diabo, provém do diabo e está

no caráter do diabo, razão por que a humanidade vive na mentira, satisfazendo assim ao seu im­perador da mentira. O Espírito Santo declara que:

A ira de Deus se revela do céu contra toda impie­dade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça. “

Romanos 1.18

“Pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura, em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. “

Romanos 1.25

A verdade é também a base da armadura que Deus nos tem outorgado, a fim de vencermos os principados e potestades espirituais do mal; ela é a firmeza do caráter divino, onde estão assentados todos os demais componentes da armadura com­pleta de Deus, conforme Efésios 6.14 diz:

“Estai, pois, firmes, cingindo-vos com a verdade, e vestindo-vos da couraça da justiça.

Quando o Senhor Jesus disse:

 “Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar, vem do maligno.”

Mateus 5.37

 Naturalmente que neste conselho está o âmago de uma atitude cristã genuína, pois que há uma definição do comportamento do seguidor do Senhor Jesus Cristo. É óbvio que  num  mundo incrivelmente injusto, onde se procura aparentar algo que realmente não é, a hipocrisia tem se alas­trado até mesmo dentro da igreja cristã, visto que as pessoas estão buscando a qualquer preço assumir posições de destaque, sem se preocupar com a vida espiritual, e por isso mesmo fingem, mentem, enganam, dizem meias verdades, enfim, estão sempre procurando uma maneira incorreta para alcançar seus objetivos.

Até parecem aqueles estudantes que não se importam com os meios para passar a um grau superior, desde que o façam; não tem, então, tanta importância a “cola”.

Infelizmente, tenho visto candidatos a obreiros e a pastores se apresentarem com o ar mais sonso possível, aparentando santidade, mas no íntimo estão cheios de engano. Pensam eles que o santo ministério é feito à base de engodo; o líder espiritual pode facilmente se enganar e permitir que isso aconteça. Entretanto, mais cedo ou mais tarde, toda a maledicência, engano e mentira aparecerão, porque o próprio Senhor já determinou:

 “Nada há encoberto, que não venha a ser revelado… “

Mateus 10.26

 Portanto, segui a verdade, porque nela está a Justiça de Deus!

Fim

Editora GRÁFICA UNIVERSAL LTDA.

Estrada Velha da Pavuna, 3.610

Inhaúma –Rio   de Janeiro, RJ

Tel: (021) 592-5911

Código para pedidos: 112

Caixa Postal: 264

Rio de Janeiro – RJ

CEP 20001-970

O Pior Homem do Mundo e o Perdão de Deus

Deixe o seu comentário

http://malucoporjesus.wordpress.com

A Conversão do Pior Homem do Mundo

 2 Cr. 33.1-16. 

INTRODUÇÃO

1. A história está eivada de homens maus

Os anais da história estão repletos de homens que deixaram um rastro sombrio na nossa lembrança: Homens facínoras, assassinos, feiticeiros, monstros bestiais, pervertidos celerados e déspotas sanguinários. Homens incendiários como Nero. Homens traidores como Judas. Homens perversos como Hitler. Homens truculentos como Mao Tse Tung.

Mas, talvez, nenhum homem tenha excedido em perversidade a Manassés. Esse rei foi o décimo terceiro rei de Judá. Reinou 55 anos, de 697 a 642 a.C. Seu nome significa “Aquele que esquece” e ele esqueceu-se de Deus.

2. Poderia a graça de Deus alcançar aqueles que descem até às profundezas da degradação?

Normalmente achamos que há pessoas irrecuperáveis. Que há pecadores que estão fora do alcance da graça. A história de Manassés vai nos mostrar que não há poço tão fundo que a graça de Deus não possa ser mais profunda. A graça é maior do que o pecado. Onde abundou o pecado superabundou a graça.

I. OS PRIVILÉGIOS DE MANASSÉS

1. Ele era filho de um pai piedoso

Ele cresceu bebendo o leite da verdade e sugando o néctar da piedade. Ele cresceu num lar onde Deus era conhecido e amado. Mas a piedade dos pais não é garantia que os filhos seguirão o mesmo caminho. Manassés tinha exemplo. Tinha modelo dentro de casa. Seu pai promoveu uma grande reforma espiritual em Judá depois do desastrado reinado de Acaz. Ele limpou a casa de Deus.

2. Ele assumiu o trono ainda jovem – v. 1

Manassés nasceu num berço de ouro e começou e assumiu o trono de Jerusalém com doze anos de idade. Ele só teve privilégios na vida. Ele esbanjou suas oportunidades. Ele desperdiçou todas as coisas boas que Deus estava lhe dando desde cedo na vida.

3. Ele teve o reinado mais longo de Judá – v. 1

Ele teve muito tempo para andar com Deus, para fazer o que era certo e para arrepender-se dos seus pecados. Ele governou 55 anos e nesse tempo ele fez o que era mau perante o Senhor. Ele entupiu Jerusalém e a Casa de Deus de idolatria e se prostrou em altares de estranhos deuses, provocando o Senhor à ira.

4. Ele teve a advertência de Deus – v. 10

Deus não o deixou errar sem advertência. Deus o alertou, o corrigiu. Enviou-lhe profetas, mas ele e o povo não quiseram ouvir a voz de Deus. Fecharam o coração. Endureceram a cerviz. Taparam os ouvidos à Palavra e à voz da consciência.

II. OS PECADOS DE MANASSÉS

1. Ele liderou o povo a pecar contra Deus v. 2,9

Manassés foi um líder mau. Ele usou sua influência para desviar as pessoas de Deus. Ele levou sua nação a fazer coisas piores do que as nações pagãs (v. 9). Ele tornou a edificar os altos, liderou o povo na adoração de Baal. Ele se prostrou diante de todo o exército dos céus (v. 3). Ele adorava as estrelas. Ele tornou-se um viciado em astrologia. Ele tornou-se um místico inveterado. Tornou-se um apóstata, um náufrago na fé.

2. Manassés profanou a Casa de Deus – v. 4,5,7

Ele fez pior que Acaz que fechou a casa de Deus. Ele introduziu ídolos abomináveis dentro da Casa de Deus. Ele profanou a Casa de Deus. Ele insultou a santidade de Deus e do culto.

3. Ele se tornou um feiticeiro inveterado – v. 6

A feitiçaria de Manassés chegou a ponto dele sacrificar seus próprios filhos a Moloque. Ele era adivinho. Era agoureiro. Praticava feitiçaria. Tratava com necromantes. Ele consultava os mortos. Ele era feiticeiro, espírita, pai de santo. Ele provocava o Senhor à ira.

Há muitas pessoas mergulhadas até o pescoço com feitiçaria, com espiritismo, com astrologia, com consulta aos mortos, com misticismo pagão.

4. Ele derramou muito sangue inocente – 2 Rs 21.16

Ele matou seus próprios filhos. Matou filhos de outras pessoas. Ele mandou cerrar ao meio o profeta Isaías. Flávio Josefo diz que todos os dias se sacrificavam pessoas em Jerusalém a mando de Manassés. Ele era um homem mau, virulento, truculento, assassino e sanguinário.

III. O JUÍZO DE DEUS SOBRE MANASSÉS

1. A prisão de Manassés – v. 11

Quem não escuta a voz da Palavra, escuta a voz da chibata. Quem não atende a voz do amor, é arrastado pela dor. O rei da Assíria prende Manassés com ganchos, amarra-o com cadeias e o leva cativo para a Babilônia.

2. A humilhação de Manassés – v. 11,12

Manassés desceu ao fundo do poço. Ele é arrancado do trono, de Jerusalém. É levado como um bicho, com canga no pescoço, em anzóis em sua boca e jogado numa prisão. Ele é levado para a Babilônia, o centro da feitiçaria do mundo. Os ídolos da Babilônia que ele adorava não puderam livrá-lo.

3. A angústia de Manassés – v. 12

O pecado não compensa. Quem zomba do pecado é louco. O homem será apanhado pelas próprias cordas do seu pecado. Manassés está cativo, algemado, angustiado. Quem não escuta a voz, escuta a vara.

IV. A CONVERSÃO DE MANASSÉS

1. A infinita graça de Deus – v. 13

Quando lemos essa história temos a vontade de dizer: agora bem feito! Ele deve pagar por todas as suas atrocidades. Mas, este homem clama a Deus e o Senhor o salva. Deus é rico em perdoar. Ele tem prazer na misericórdia. Não há causa perdida para ele.

Deus mandou Manassés para a prisão, para não mandá-lo para o inferno. É um acidente, uma doença, uma tragédia familiar. Deus está pronto a mover o céu e a terra para que você não pereça.

2. A humilhação de Manassés – v. 12

A conversão começa com o arrependimento, com a tristeza pelo pecado, com a consciência de que temos feito o que é mau perante o Senhor. Manassés muito se humilhou perante Deus. Ele caiu em si. Ele reconheceu seu erro. Ele não se justificou, nem endureceu seu coração. Ele se curvou, se humilhou. Se arrependeu.

3. A oração de Manassés – v. 12

Manassés vivera toda a sua vida invocando os mortos, adorando os ídolos, levantando altares aos deuses pagãos. Mas, agora, na hora do aperto, ele ora ao Deus do céu e este atende ao seu clamor. Clame por Deus. Grite por socorro. Levante a sua voz. Ainda há esperança para a sua alma.

4. A salvação de Manassés – v. 13

Quando Manassés voltou-se para Deus, Deus voltou-se para ele. Restaurou sua vida, seu reino, sua alma. Manassés, então reconheceu que o Senhor é Deus. Deus o aceitou. Deus o restaurou. Deus o levantou. Deus restituiu o seu reino.

5. As provas do arrependimento de Manassés – v. 13-16

a) Aceitação – (v. 13) – Os ouvidos de Deus estão abertos, suas mãos estão estendidas para você. O Pai está pronto a receber o pródigo de volta e fazer uma festa. Não importa quão longe você tenha ido e quando profundo o poço que você tenha caído, Deus está pronto a perdoar você e aceitar você de volta para ele.

b) Iluminação – (v. 13) – “Então reconheceu Manassés que o Senhor era Deus”. Deus pode abrir os olhos da sua alma nesta noite. Ele pode abrir seu coração para crer. Ele pode tirar a cortina dos seus olhos. Ele pode dar a você entendimento espiritual. Ele pode revelar a você a glória do seu Filho Jesus Cristo.

c) Reforma – (v. 15) – Manassés fez uma faxina na Casa de Deus e na sua vida. Ele tirou toda a abominação que ele mesmo tinha colocado na Casa de Deus. Arrependimento implica em mudança.

d) Consagração – (v. 16) – Manassés não apenas tirou o que estava errado, mas restaurou o altar do Senhor. Ele começou a buscar a Deus novamente. Ele se voltou para Deus de todo o seu coração. Ele foi convertido a Deus e passou a consagrar-se a Deus, liderando sua nação a voltar-se para o Senhor.

CONCLUSÃO

Vamos ver algumas lições:

1) A piedade dos pais não é garantia que os filhos vão andar com Deus;
2) A vida longa não é segurança do favor de Deus;
3) Não há grau de impiedade que esteja além do alcance da graça de Deus e do perdão de Deus;
4) Não espere uma tragédia em sua vida para você voltar-se para Deus.
5) O pecado é algo que Deus abomina e jamais ficará sem julgamento;
6) Hoje é o dia de você voltar-se para Deus de todo o seu coração;
7) Se você voltar-se para ele nesta noite, agora mesmo, ele ouvirá seu clamor e restaurará a sua alma, dando-lhe a salvação!

Rev. Hernandes Dias Lopes

in http://malucoporjesus.wordpress.com

REFORMA PROTESTANTE: Sempre reformando e sempre protestando – EM NOME DE JESUS !

Deixe o seu comentário

Hoje se comemora no mundo todo os 493 anos da Reforma Protestante – mas, o que significa seu lema “igreja reformada, sempre se reformando”?

Há vários lemas que os reformados gostam de usar para identificar e resumir as marcas da Reforma: Sola Scriptura, Sola Fides, Solus Christus, Sola Gratia, Soli Deo Gloria e o moto Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est. Mas, como tudo na vida, eles têm sido entendidos e usados de maneira diferente pelos que se consideram herdeiros da Reforma.

É o caso especialmente do “Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est”, de autoria do reformado holandês Gisbertus Voetius (1589-1676), à época do Sínodo de Dort (1618-1619). Este slogan, que pode ser traduzido como “A Igreja é reformada e está sempre se reformando”, tem sido interpretado como se Voetius estivesse dizendo que uma característica da Igreja Reformada é que ela está sempre mudando. Contudo, é difícil imaginar que Voetius, calvinista estrito, que participou em Dordrecht da disputa contra os discípulos de Armínio, tivesse usado este lema para encorajar a abertura da Igreja para novas idéias de qualquer tipo – seria o mesmo que dizer que os seguidores de Armínio estavam certos e que a Igreja Reformada deveria se abrir para uma reforma de natureza arminiana na sua soteriologia! Voetius estava tentando qualificar o argumento deles de que a Igreja deveria estar aberta para receber novas luzes sobre pontos que pareciam imutáveis. Voetius não negou o princípio da reforma constante, mas destacou que o alvo era sempre retornar às Escrituras, que tinham sido a base da Reforma. E na compreensão dele e do Sínodo de Dort, as idéias dos seguidores de Armínio certamente não representariam um retorno às Escrituras.

É importante notar que o aforismo de Voetius não foi “ecclesia reformans”, que significaria que a Igreja se reforma a si mesma, mas “ecclesia reformanda”, que está na voz passiva e indica que o agente da reforma não é ela própria, mas sim o Espírito de Deus. E este certamente promove o crescimento e a compreensão das Escrituras a cada nova geração, sem com isso admitir que a verdade muda.

As palavras de Voetius vêm sendo reinterpretadas ao longo dos anos e usadas de formas que nunca passaram pela mente do teólogo calvinista holandês. A Igreja Católica, no Concílio Vaticano II, tomou para si a parte final do aforismo de Voetius, “reformanda est”, após reinterpretá-lo para justificar as mudanças que introduziu no catolicismo tradicional. Os seguidores de Helen White, fundadora do Adventismo, usam-no para justificar sua reivindicação de serem uma reforma da Reforma. E mais recentemente, o lema ressoa distorcido, mais uma vez. Uma ala da própria Reforma protestante tem usado o moto para justificar mudanças e inovações na Igreja Reformada que certamente não estão de acordo com as Escrituras.

Só para ilustrar, “Semper Reformanda” é o nome de uma organização religiosa nos Estados Unidos que defende a inclusão de gays e lésbicas no ministério pastoral e o casamento homossexual. O grupo adotou este lema porque entendeu que ele expressa o princípio mater da Reforma, que as igrejas reformadas devem mudar a cada geração, para se contextualizar às mudanças da sociedade, da cultura e das novas compreensões.

Essa, na verdade, sempre foi o entendimento daqueles que acham que o mais importante na Reforma Protestante não foi ter voltado no passado para resgatar as antigas doutrinas da graça, mas de ter ido em frente, promovendo uma mudança no status quo (não estou dizendo que todos os que pensam assim são a favor da agenda GLT). A idéia subjacente é que o novo sempre é melhor. Querem o reformanda mas não o Sola Scriptura. Torcem Voetius.

Na verdade, reformados não podem ser contra a continuidade da Reforma, pois sabem que a Igreja é composta de pecadores. Sabem também que a cada geração novos desafios se erguem contra ela. Todavia, só podem aceitar reformas e mudanças que nos tragam mais para perto da Palavra de Deus. Acho que o ponto central aqui é que os reformados crêem que a verdade não muda e que as reformas que a Igreja deve buscar almejam sempre um melhor entendimento da verdade e uma aplicação relevante dela para seus dias. Há quem acredite que a verdade muda, e quando falam em ecclesia reformanda, estão pensando em mudanças inclusive das antigas verdades professadas pelos reformadores. Para eles, nenhuma delas é intocável. Todas estão sujeitas a reinterpretações tão radicais a ponto de se tornarem totalmente outras. É aqui que está a principal diferença entre os reformados e os reformandos ou reformistas.

[post originalmente publicado em 2006 aqui neste blog]

Autor: Augustus Nicodemus Lopes
Fonte: [ O Tempora, O Mores ]

Quem são os Demônios ?

8 Comentários

A origem de todos os males que afligem a humanidade.

Doenças, miséria, desastres e todos os problemas que afligem o ser humano desde que este iniciou sua vida na Terra têm uma origem: o diabo.

Os deuses famosos da Antigüidade, tanto no Egito, quanto na Mesopotâmia, bem como os da mitologia africana, são, na realidade, demônios que nunca deixaram em paz o homem, seu alvo principal. Os demônios, em sua maioria, personificam os males, atuam como espíritos sem cor, sexo, dimensões, enfim, sem corpos. Procuram seres vivos para através deles se exprimir, e o homem é o seu principal alvo. Como não possuem corpos, vivem se apossando daqueles que não têm cobertura de Deus; são inimigos de Deus e do homem, por ser este a coroa da criação divina.

Possuem os homens não somente para afastá-los de Deus, mas também porque desejam se expressar no mundo físico em que vivemos. São entidades espirituais que atuam organizadamente, atingindo e destruindo constantemente a humanidade, tendo satanás por chefe.

O homem, como já afirmamos, é o alvo principal dos demônios, pois criado à imagem e semelhança do Altíssimo, tem a faculdade de se expressar através dos cinco (ou seis) sentidos que o fazem distinto de todos os animais. Os demônios, em casos especiais, se utilizam dos animais, para possuir os homens, como está registrado no Evangelho de Mateus, capítulo 8.31.

 

Satanás

 

A Bíblia descreve satanás como um anjo caído. Quando foi criado, recebeu a unção de “querubim da guarda”, sendo o chefe de todos os demais anjos. Tinha acesso à presença de Deus. Era chamado de “filho da manhã”; “estrela da manhã”. A palavra lúcifer significa “cheio de luz”. Lúcifer era coberto de pedras preciosas e andava no brilho dessas pedras; era perfeito em sabedoria e em formosura, e foi ungido para proteger, tendo sido estabelecido no Monte Santo de Deus.

No capítulo 28 de Ezequiel, encontramos uma descrição completa da figura de satanás, onde pode-se compreender a sua posição diante dos demais anjos. Lúcifer foi assim até que se achou iniqüidade nele. Esta iniqüidade se deve basicamente ao orgulho, pois desejava, no seu coração, ficar acima das estrelas e estabelecer um trono acima do trono de Deus.

Desejava, no mínimo, ser semelhante ao Altíssimo; queria assumir o trono de Deus e o seu lugar; por isso foi expulso dos céus juntamente com todos os seus seguidores. Em referência a Lúcifer, Isaías diz o seguinte:

“Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas as nações!

Tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do Norte; subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo.

Contudo, serás precipitado para o reino dos mortos, no mais profundo do abismo.”

Isaías 14.12-15

Lúcifer foi lançado por terra e trouxe consigo uma grande parte de anjos. Lúcifer se tornou no diabo ou satanás e os que o acompanharam tornaram-se demônios.

“Ora, se Deus não poupou anjos quando pecaram, antes, precipitando-os no inferno os entregou a abismos de trevas, reservando-os para juízo.”

2 Pedro 2.4

 

“E a anjos, os que não guardaram o seu estado original,mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas,em algemas eternas, para o juízo do grande Dia.”

Judas 1.6

 

“Crês, tu, que Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios crêem e tremem.”

Tiago 2.19

 

“Então, o Rei dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos.”

Mateus 25.41

Quando, no princípio, Deus criou os céus e a Terra (Gênesis 1.1), Ele o fez em toda a sabedoria e resplendor.

Tudo foi muito bem planejado e os céus e a Terra foram criados com perfeição. Nada era disforme; tudo foi feito corretamente e tudo estava em seu devido lugar.

Não sabemos há quantos milhões de anos o mundo foi criado, entretanto, a narrativa de Gênesis 1 está de acordo com as mais recentes descobertas da Ciência. Interessante é que, quando Deus começa a criar todas as coisas, a Bíblia declara que a Terra “estava sem forma e vazia” e que “havia trevas sobre a face do abismo”. Isto se deve a um estado caótico do mundo que havia passado por grande convulsão. Foi a rebelião de satanás que causou tão grande cataclismo na Terra, deixando-a sem forma e vazia! Vejam que Deus criou tudo perfeito, porém, satanás perverteu a ordem divina, provocando o desastre, que Deus começa a arrumar para criar o homem, de acordo com o livro de Gênesis. Da mesma forma, podemos avaliar a obra de satanás na vida das pessoas.

Deus fez o homem perfeito, porém o diabo, a quem o Senhor Jesus associa com o ladrão (João 10.10), mata, rouba e destrói a criatura, quando esta, sem forças para resistir, não está em harmonia com o seu Criador e fatalmente pode ser derrotada.

“O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.”

João 10.10

 

Anjos decaídos

 

A palavra anjo significa “mensageiro”. Quando os anjos foram criados, o foram para servir a Deus, mas alguns, rebelando-se contra o Criador e seguindo Lúcifer, se tornaram anjos decaídos, isto é, anjos desprovidos das qualidades que Deus lhes havia outorgado.

Todo o senso de bondade, de amor e de ajuda que eles tinham foi perdido, passando a dar lugar ao ódio, a maldade e à destruição. A Bíblia fala que eles não guardaram o seu estado original e abandonaram o seu próprio domicílio (Judas 1.6).

A situação destes anjos foi semelhante a de seu chefe.

Ficaram desprovidos do amparo divino e passaram a viver errantes à procura do que fazer. São, como o próprio Lúcifer, anjos decaídos, espíritos que vivem a procurar corpos para através deles poderem levar avante seu intento maligno.

Satanás pode facilmente, como também os seus anjos, se transformar em anjo de luz. Por esta razão, muitas pessoas têm enveredado por caminhos que a princípio parecem bons, mas no final são trevas e trazem tristeza, miséria e tragédia.

Muitos procuram os demônios e abrem a vida para eles, porque pensam que são “anjos de luz”. Com nomes bonitos e cheios de aparatos, os demônios vêm enganando as pessoas com doutrinas diabólicas. Chamam-se: orixás, caboclos, pretos-velhos, guias, espíritos familiares, espíritos de luz, etc.

Dizem ser exus, erês, espíritos de crianças, médicos famosos, poetas famosos, etc., mas na verdade são anjos decaídos, na diabólica missão de afastar o homem de Deus e destruí-lo, sendo que, enquanto não fazem isso, se aproveitam dele.

O gato e o rato

 

Certa vez observei como o gato faz com o camundongo. O bichano corre atrás do rato, prende-o entre suas patas e começa a brincar com ele, jogando-o de um lado para o outro. Se o rato fosse de brincadeira, poderia por alguns momentos gozar dos “tapinhas” do gato. O gato brinca, se enrola com o rato; por vezes deixa-o dar uma corridinha e quando o rato pensa que está livre… lá está o bichano, que de um salto, prende o rato em suas garras outra vez. O final da “brincadeira” é a morte. Do rato, é claro.

Assim também os demônios fazem com o homem. No princípio, brincam com ele, dão-lhe tapinhas, e se o homem concorda em brincar, se tornam bons amigos. Mas o homem está sempre sob suas garras e mais cedo ou mais tarde não agüenta a “brincadeira” e os demônios acabam por levá-lo à morte.

Espíritos sem corpos

 

Os demônios, como já dissemos, são espíritos sem corpos. Para se expressarem, precisam de corpos, sem os quais pouco podem fazer. Sempre, na história da humanidade, satanás arranjou um “jeitinho” para conseguir entrar no corpo do homem e usá-lo como lhe convém.

O espiritismo atual, na sua fase “científica”, teve início em 1848. A família Fox tomou posse como inquilina de uma casa em Hydesville, estado de Nova Iorque, EUA. Casa muito pobre, construída principalmente de madeira. Quando tudo parecia tranqüilo, em meados de março, duas entre as seis filhas do casal, Margarette (Maggie) e Kate, com 11 e 13 anos, respectivamente, começaram a ouvir ruídos de pancadas e de móveis sendo removidos. Na noite de 21 de março de 1848, Kate provocou o tal espírito com o estalido dos dedos. A provocação foi aceita e cada estalo era completado no mesmo instante por uma pancada. Assim, os espíritos ganharam a confiança da família e a notícia se espalhou rapidamente.

Muitos acreditaram que eram espíritos sem corpos, de pessoas que haviam falecido, quando na realidade eram os anjos decaídos, mensageiros de satanás, demônios, estabelecendo contato com o mundo físico.

Essas irmãs passaram a ser habitação daqueles espíritos, que se utilizaram dos seus corpos para espargir a mais sórdida e destrutiva doutrina que o mundo já conheceu, a que mais tem levado pessoas aos manicômios, cemitérios, etc. Não

é de admirar que as meninas, vasos para estes demônios, morressem embriagadas, numa vida miserável.

Os espíritos demoníacos ganharam fama e se utilizam de vários métodos para se apossar de um corpo. No espiritismo científico, ou no “alto” espiritismo, eles se apresentam como um ente querido que já tenha falecido à procura de comunicação com seus familiares.

Fazem-se passar por maridos, esposas, filhos ou parentes. Muitas vezes, pessoas são aconselhadas a invocar seus antepassados para resolverem um “problema”. É a maior farsa existente em nosso mundo. Os demônios atuam desde as seitas mais primitivas vindas da África até os salões da sociedade moderna. Atuam também nas religiões orientais e nas ocidentais ligadas ao secretismo.

Vivem procurando penetrar até mesmo nas religiões cristãs onde têm conseguido algum resultado. Perturbam, destroem ou se apossam das pessoas, causando os maiores malefícios possíveis, pois são demônios, mensageiros de satanás.

Espíritos revoltados

 

Imagine uma pessoa que ocupa um lugar relevante na sociedade; tem um cargo invejável, possui um excelente status e é respeitada por todos. Agora, pense o leitor nessa pessoa que após ter tido essa posição se vê na miséria, com a perda dos amigos, dos títulos, do prestígio, das posições, etc.

Assim aconteceu com os demônios, que depois de serem ministros, mensageiros de Deus, o Altíssimo, com toda beleza e resplendor, se viram destituídos de tudo.

Tornaram-se espíritos revoltados; querem fazer o possível e o impossível para verem as outras criaturas de Deus perdidas e sem a imagem do seu Criador. Eles (os demônios) não podem fazer nada contra Deus, mas podem tocar nas Suas criaturas.

Movidos por uma inveja muito grande dos seres humanos, que foram criados menores que eles e acabaram por tomar suas posições, os demônios desencadeiam uma feroz luta contra os homens desejando aproveitar-se destes e levá-los à destruição, a fim de cumprirem seus intentos malignos, o que, quase sempre, implica em um total afastamento de Deus, e à conseqüente submissão a eles.

Graças a Deus por Jesus Cristo, que venceu a potestade maligna e nos dá condições para fazermos o mesmo através do Seu poderoso nome! Aqueles que rejeitam a soberania do Senhor Jesus são presas fáceis para os espíritos demoníacos; aqueles que rejeitam o amor de Deus estão aceitando

indiretamente o ódio dos espíritos revoltados; aqueles que não estão servindo a Deus como templos do Espírito Santo, estão à mercê dos demônios.

Alguns estão servindo como cavalos, aparelhos ou vasos. Que Deus exerça Sua misericórdia sobre essas pessoas.

Edir Macedo, in ORIXÁS, CABOCLOS E GUIAS: Deuses ou Demônios ?

Sobre o Pecado nos Crentes

5 Comentários

 

John Wesley     

‘Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo’. (II Corintios 5:17)

 I. O pecado permanece em alguém que crê em Cristo?

 II. Qual as diferenças entre o pecado interior e o pecado exterior?

 III.  A carne – a natureza má – opõe-se ao Espírito, até mesmo nos crentes.

 IV. Um homem não pode ser limpo, consagrado, santo, ao mesmo tempo em que é impuro, não consagrado e não santo. 

V. Existe em cada pessoa dois princípios contraries: natureza e graça.

PRIMEIRO

1. Existe, então, pecado naquele que está em Cristo? O pecado permanece naqueles que crêem Nele? Existe algum pecado naqueles que são nascidos de Deus, ou eles estão totalmente livres dele? Que ninguém imagine que esta seja uma questão de mera curiosidade; ou que seja de pequena importância, se for determinado um caminho ou o outro. Antes, é um ponto de extrema relevância para todos os cristãos sérios; decidirem o que mais proximamente concerne à sua felicidade presente e eterna.

2. E, ainda assim, eu não sei se isto foi, alguma vez, discutido na igreja primitiva. Decerto, não existiu espaço para disputas concernentes a ela, já que todos os cristãos estavam de acordo. E, até onde eu tenho observado, todo o corpo de cristãos do passado, que nos deixaram algo escrito, declararam a uma só voz, que, mesmo os crentes em Cristo, até que eles estejam ‘fortalecidos no Senhor, e no poder de sua força’, têm necessidade de ‘lutar com a carne e sangue’, com uma natureza pecaminosa, assim como, ‘com principados e potestades’.        

3. E neste contexto, nossa Igreja (como realmente na maioria dos termos) copia exatamente segundo a igreja primitiva; declarando em seu Nono Artigo: ‘O pecado original é a corrupção da natureza de todo homem, de forma que ele está inclinado ao mal, pela sua própria natureza; assim sendo, a carne cobiça, contrariamente ao Espírito. E esta influência da natureza permanece; sim, naqueles que estão regenerados; de maneira que, a luxúria da carne não é objeto da lei de Deus. E, embora não exista condenação para aqueles que crêem, ainda assim, esta luxúria tem em si mesma a natureza do pecado’.

4. O mesmo testemunho é dado, através de todas as outras igrejas; não apenas, através da igreja grega e romana, mas através de toda igreja reformada na Europa, de qualquer que seja a denominação. De fato, alguns desses parecem levar a coisa muito longe; descrevendo a corrupção do coração do crente, como que dificilmente admitindo que ele tem domínio sobre ela, mas que, antes, é seu escravo; e, por esses meios, eles fazem uma pequena distinção entre um crente e um descrente.

5. Para evitarem este extremo, os muitos homens bem intencionados, particularmente esses, debaixo da direção do recente Conde Zinzendorf [líder Morávio (denominação Protestante, surgida no século XVIII, pela renovação do antigo movimento dos Irmãos Boêmios, que dá ênfase à vida cristã pura e simples e à fraternidade dos homens. Mais comumente conhecida como Irmãos Morávios)], foram para o outro lado, afirmando que ‘todos os crentes verdadeiros não são apenas salvos do domínio do pecado, mas da existência do pecado interior, assim como exterior; de maneira que ele não mais permanece neles’:E desses, por volta de vinte anos atrás, muitos de nossos compatriotas absorveram a mesma opinião de que, até mesmo a corrupção da natureza, não está mais, naqueles que crêem em Cristo.

6. É verdade que, quando os alemães foram pressionados, eles logo admitiram (muitos deles, pelo menos) que ‘o pecado ainda permanece na carne, mas não no coração de um crente’; e, depois de um tempo, quando o absurdo disto foi mostrado, eles razoavelmente desistiram do ponto; admitindo que o pecado ainda permanecia, embora não reinasse, naquele que é nascido de Deus.

7. Mas o inglês que recebeu isto deles (alguns diretamente, alguns de segunda e terceira mão) não foi tão facilmente convencido a se desfazer de uma opinião favorita. E, até mesmo quando a generalidade deles se convenceu de que ela era extremamente indefensável, alguns poucos não puderam ser persuadidos a desistir, mas mantiveram-na até hoje.

SEGUNDO

 1. Por causa desses que realmente temem a Deus, e desejam conhecer ‘a verdade que está em Jesus’; não pode ser impróprio considerar o ponto com calma e imparcialidade. Ao fazer isto, eu uso indiferentemente as palavras, regenerado, justificado, ou crentes; desde que, embora eles não tenham precisamente o mesmo significado (o Primeiro, implicando uma mudança interior, verdadeira; o Segundo, uma mudança relativa; e o Terceiro, os meios pelos quais, tanto uma quanto a outra é forjada); ainda assim, elas convergem para a mesma coisa; já que todos os que crêem são ambos, justificados e nascidos de Deus.

2. Por pecado, eu entendo aqui pecado interior; qualquer temperamento pecaminoso, paixão ou afeição, como orgulho, vontade própria, amor ao mundo, de algum tipo, ou em algum grau; tal como cobiça, ira, impertinência; qualquer disposição contrária à mente que estava em Cristo. 

3. A questão não é concernente ao pecado exterior; quer um filho de Deus cometa pecado ou não. Nós todos concordamos e sinceramente mantemos ‘que ele que comete pecado é do diabo’. Nós concordamos, ‘que quem é nascido de Deus não comete pecado’. Nem agora inquirimos, se o pecado interior irá permanecer sempre nos filhos de Deus; se ele irá continuar na alma, por quanto tempo ela continue no corpo: Nem, ainda assim, inquirimos, se uma pessoa justificada possa reincidir em um pecado interior ou exterior; mas, simplesmente isto: um homem justificado ou regenerado está liberto de todo pecado, tão logo ele seja justificado? Não existe, então, pecado algum em seu coração? – nem mesmo depois, a não ser, se ele cair da graça?

4. Nós admitimos que o estado de uma pessoa justificada é inexprimivelmente grande e glorioso. Ele é nascido novamente, ‘não do sangue; nem da carne; nem da vontade do homem, mas de Deus’. Ele é filho de Deus, um membro de Cristo, um herdeiro do trono dos céus. ‘A paz de Deus, que ultrapassa todo entendimento, mantém seu coração e mente em Jesus Cristo’. Mesmo seu corpo é um ‘templo do Espírito Santo’,  e uma ‘morada de Deus, através do Espírito’. Ele é ‘feito novo em Jesus Cristo’: Ele é lavado; ele é santificado. Seu coração é purificado pela fé; ele é limpo ‘de toda corrupção que está no mundo’; ‘o amor de Deus espalha-se em seu coração, pelo Espírito Santo que é dado a ele’. E, por quanto tempo ele ‘caminha no amor’ (o que ele pode sempre fazer), ele adora a Deus em espírito e em verdade. Ele mantém Seus mandamentos, e faz todos as coisas que são agradáveis aos olhos de Deus; assim, exercitando a si mesmo, como para ‘ter a consciência que evita a ofensa, em direção a Deus, e em direção ao homem’: E ele tem poder, tanto sobre o pecado exterior quanto interior, até mesmo, do momento em que ele é justificado.

TERCEIRO 

1. ‘Mas ele não está, então, liberto de todo pecado, de modo que não exista pecado em seu coração?’.Eu não posso dizer isto; eu não posso acreditar nisso; porque Paulo diz o contrário. Ele está falando para crentes e descrevendo o estados dos crentes em geral, quando ele diz: (Gálatas 5:17) ‘Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes se opõem um ao outro, para que não façais o que quereis’. Nada pode ser mais explícito. O Apóstolo afirma aqui diretamente que a carne – a natureza pecaminosa, se opõe ao Espírito, mesmos nos crentes; que, mesmo no regenerado, existem dois princípios, ‘contrários um ao outro’.

2. Novamente: Quando ele escreve para os crentes em Corinto; para aqueles que foram santificados em Jesus Cristo, (I Corintios 1:2) ‘À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso’, ele diz: (I Corintios 3:1) ‘E eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo. Com leite vos criei, e não com carne, porque ainda não podíeis, nem tampouco ainda agora podeis, Porque ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissensões, não sois porventura carnais, e não andais segundo os homens?’. Agora aqui o Apóstolo fala junto àqueles que eram inquestionavelmente crentes; a quem,  no mesmo fôlego,  ele denominou seus irmãos em Cristo, — como sendo ainda, em uma medida – carnais. Ele afirma que existia inveja (um temperamento pecaminoso), ocasionando contenda entre eles, e ainda assim, ele não fez a menor insinuação de que eles tivessem perdido sua fé. Mais do que isto, ele manifestadamente declara que eles não haviam perdido; porque, então, eles não seriam bebês em Cristo. E (o que é mais notável de tudo), ele fala de serem carnais, e bebês em Cristo, como uma e a mesma coisa; mostrando plenamente que todo crente que todo crente é (em um grau) carnal, enquanto ele é apenas um bebê em Cristo.  

3. De fato, este grande ponto, o de que existem dois princípios contrários nos crentes, — natureza e graça; a carne e o Espírito, mencionados, através de todas as Epistolas de Paulo; sim, através de todas as Escrituras; quase todas as direções e exortações, neste contexto, estão alicerçadas nesta suposição; apontando para os temperamentos e práticas errôneos naqueles que eram, não obstante, reconhecidos pelos escritores inspirados, serem crentes. E eles eram continuamente exortados a combater e conquistar estes, pelo poder da fé que estava neles.  

4. E quem pode duvidar, a não ser que existia fé no anjo da igreja de Efésios, quando nosso Senhor disse a ele: (Apocalipse 2:2-4) ‘Conheço as tuas obras, e o teu trabalho, e a tua paciência, e que não podes sofrer os maus; e puseste à prova os que dizem ser apóstolos, e eles não são, e tu os achaste mentirosos. E sofreste, e tens paciência; e trabalhaste pelo meu nome, e não te cansaste’. Mas existia, nesse meio tempo, nenhum pecado em seu coração? Existia, ou Cristo não teria acrescentado: ‘Não obstante, tenho contra ti que deixaste o teu primeiro amor’. Este foi um pecado real que Deus viu em seu coração; do qual, adequadamente, ele é exortado a se arrepender. E ainda assim, nós não temos autoridade para dizer, que, mesmo então, ele não tem fé.

5. Mais do que isso, o anjo da igreja de Pérgamo, também é exortado a se arrepender, o que sugere pecado, embora nosso Senhor expressamente diga: (Apocalipse 2:13, 16) ‘Conheço as tuas obras, e onde habitas, que é onde está o trono de Satanás; e reténs o meu nome, e não negaste a minha fé, ainda nos dias de Antipas, minha fiel testemunha, o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita. (…) Arrepende-te, pois, quando não em breve virei a ti, e contra eles batalharei com a espada da minha boca’. E ao anjo na igreja de Sardes, ele diz: (Apocalipse 3:2) ‘Sê vigilante, e confirma os restantes, que estavam para morrer; porque eu não achei tuas obras perfeitas diante de Deus’. O bem que ainda restava estava pronto para morrer; mas estava verdadeiramente morto. De modo que ainda havia uma faísca de fé, mesmo nele; o que está de acordo ordenando para segurar firme: (Apocalipse 3:3) ‘Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, e guarda-o, e arrepende-te. E, se não vigiares, virei sobre ti como um ladrão, e não saberás a que hora sobre ti virei’.  

6. Uma vez mais: Quando o Apóstolo exorta os crentes em (2 Coríntios 7:1) ‘Ora, amados, pois que temos tais promessas, purifiquemo-nos de toda a imundícia da carne e do espírito; aperfeiçoando a santificação no temor de Deus’, ele plenamente ensina que esses crentes não estavam ainda limpos disso.

Você irá perguntar: ‘Mas ele que se abstêm de toda a aparência do mal, ipso facto, limpa a si mesmo de toda imundícia?’. Não, de maneira alguma. Por exemplo: um homem me insulta: eu sinto ressentimento, o que é imundícia do espírito; ainda assim, eu não digo uma palavra. Aqui, eu ‘me abstenho de toda a aparência do mal’;  mas isto não me limpa da imundícia do espírito, como eu experimento para minha tristeza.

7. E, como esta posição: ‘Não existe pecado em um crente; nenhuma mente carnal; nenhuma inclinação à apostasia’, é, então, contrária à palavra de Deus, assim, é para a experiência de seus filhos. Esses continuamente sentem um coração inclinado à apostasia; uma tendência natural para o mal; uma predisposição a separar-se de Deus, e se aderirem às coisas da terra. Eles estão diariamente conscientes do pecado permanecendo em seus corações, — orgulho, vontade própria, descrença; e do pecado, aderindo a tudo o que eles falam ou fazem, até mesmo, às suas melhores ações, e as mais santas obrigações. Ainda assim, ao mesmo tempo em que eles ‘sabem que são de Deus’; eles não duvidam disto, por um momento. Eles sentem seu Espírito, claramente, ‘testemunhando com o espírito deles, que eles são filhos de Deus’. Eles ‘se regozijam em Deus, através de Jesus Cristo, por meio de quem, eles têm agora recebido a redenção’. De modo que eles igualmente garantiram que o pecado está neles, e que ‘Cristo é neles, a esperança da glória’.

8. ‘Mas Cristo pode estar no mesmo coração, em que o pecado está?’. Sem dúvida que pode; do contrário ele nunca poderia ser salvo disto. Onde está a doença, lá está o médico, exercendo seu trabalho; lutando, até que lance fora o pecado. Decerto que Cristo não pode reinar, onde o pecado reina; nem Ele irá habitar onde algum pecado é permitido. Mas Jesus está e habita no coração de todo crente que esteja lutando contra todo o pecado; embora não seja ainda purificado, de acordo com a purificação do santuário.

9. Foi observado antes, que a doutrina oposta, — a de que não existe pecado nos crentes, — é completamente nova na igreja de Cristo; já que nunca foi ouvida, durante cento e dezessete anos; nunca, até que foi descoberta pelo conde Zinzendorf. Eu não me lembro de ter visto a menor insinuação dela, tanto nos escritores antigos, quanto modernos; exceto, talvez, em alguns dos selvagens e entusiastas antinomianos [os que acreditavam que, pela fé e a graça de Deus anunciadas no Evangelho, os cristãos são libertados, não só da lei de Moisés, mas de todo o legalismo e padrões morais de qualquer cultura]. E esses, igualmente, dizem e desdizem, admitindo que existe pecado na sua carne, embora nenhum pecado em seus corações. Mas, apesar da doutrina ser nova, ela está errada; porque a religião antiga é a única verdadeira; e nenhuma doutrina pode ser correta, a menos que seja exatamente a mesma ‘que fora desde o início’.

10. Um argumento a mais contra essa doutrina nova e não bíblica, pode ser esboçada das conseqüências terríveis dela. Se alguém diz: ‘Eu sinto ira hoje’. Eu devo replicar: ‘Então, você não tem fé?’. Um outro diz: ‘Eu sei que o que você aconselha é bom, mas minha vontade é completamente contrária a isto’. Eu devo dizer a ele: ‘Então, você é um descrente, debaixo da ira e maldição de Deus?’. Qual será a conseqüência natural disto? Porque, se ele acredita no que eu digo, sua alma não apenas será afligida e magoada, mas, talvez, seja totalmente destruída, visto que, como ele ‘irá lançar fora’ aquela ‘confiança que tem na grande recompensa de galardão’: E, tendo lançado fora sua proteção, como ele irá ‘extinguir os dados certeiros do iníquo?’. Como ele irá superar o mundo? – vendo que ‘essa é a vitória que domina o mundo, até mesmo nossa fé?’.

Ele se encontra desarmado, em meio aos seus inimigos; exposto a todos os assaltos deles. Qual a surpresa então, se ele for totalmente dominado; se eles o tornarem escravos da vontade deles; sim, se ele cair, de uma maldade para outra, e nunca mais ver o bem? Por conseguinte, eu não posso, por nenhum meio, receber essa afirmação, de que não existe pecado no crente, do momento em que ele é justificado.

Em Primeiro Lugar, porque é contrário a todo o teor das Escrituras; — Em Segundo Lugar, porque é contrário à experiência dos filhos de Deus, — Em terceiro lugar, porque é absolutamente novo, nunca ouvido no mundo, até ontem; — e, em Último Lugar, porque é naturalmente atendido com as mais fatais conseqüências; não apenas afligindo aqueles a quem Deus não tem afligido, mas, talvez, arrastando-os para a perdição eterna.

QUARTO

 1. Contudo, permita-nos ouvir atentamente aos principais argumentos desses que se esforçam para sustentar isto. Primeiro, é das Escrituras que eles tentam provar que não existe pecado no crente. Eles argumentam assim: ‘As Escrituras dizem que todo crente é nascido de Deus, é limpo, santo e consagrado; é puro no coração; tem um novo coração; e é um templo do Espírito Santo. Agora, como ‘aquele que é nascido da carne, é carne’, é completamente mal, assim, ‘aquele que é nascido do Espírito é espiritual’, e completamente bom. Novamente: Um homem não pode ser limpo, consagrado, santo, e, ao mesmo tempo, impuro, não consagrado, não santo. Ele não pode ser puro e impuro; ou ter um coração novo e velho, juntos. Nem pode sua alma ser não santa, enquanto ele é o templo do Espírito Santo.

Eu tenho colocado essa objeção, tão fortemente quanto possível, para que todo seu peso possa aparecer. Permita-nos examiná-la, parte por parte.

(1) ‘Que aquele que é nascido do Espírito é espiritual, é completamente bom’. Eu admito o texto, mas não a observação. Porque o texto afirma isto, e não mais, — que todo homem que ‘é nascido do Espírito’, é um homem espiritual. Ele o é: Mas embora ele seja, ainda assim, não será completamente espiritual. Os cristãos de Corinto eram homens espirituais; ou eles não teriam sido cristãos, afinal; e, ainda assim, eles não eram completamente espirituais: eles eram, em parte, ainda carnais. — ‘Mas eles eram caídos da graça’. Paulo diz que não. Eles eram até mesmo, bebês em Cristo.

(2) ‘Mas um homem não pode ser limpo, consagrado, santo, e ao mesmo tempo, impuro, não consagrado, não santo’.  Decerto que ele pode. Assim eram os Coríntios: ‘Vocês estão lavados’, diz o Apóstolo, ‘vocês estão consagrados’; ou seja, limpos da ‘fornicação, idolatria, bebedeira’, e todos os outros pecados exteriores.

(I Corintios 6:9) Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus. E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido consagrados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito do nosso Deus’;  e, ainda assim, ao mesmo tempo, em outro sentido da palavra, eles eram não consagrados; eles não estavam lavados; não interiormente limpos de toda inveja, conjecturas diabólicas, parcialidade, — ‘Mas certo, eles não tinham um novo coração e um velho coração, juntos’. Na verdade, eles tinham, porque, naquele mesmo momento, seus corações eram verdadeiramente, embora que não inteiramente, renovados. A mente carnal deles foi pregada na cruz; ainda assim, não estava totalmente destruída. – (I Corintios 6:19) ‘Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?’; e é igualmente certo, que eles eram, em algum grau, carnais, ou seja, não santos.

2. ‘Entretanto, existe uma Escritura a mais que irá colocar esse assunto fora de questão’: (II Corintios 5:17) ‘Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo’. ‘Agora certamente um homem não pode ser uma nova criatura, e uma velha criatura de uma só vez’. Sim, ele pode: Ele pode ser parcialmente renovado, o que foi o mesmo caso com aqueles em Corinto. Eles foram, inegavelmente, ‘renovados no espírito de suas mentes’, ou eles não poderiam ter sido ‘bebês em Cristo’. Ainda assim, eles não tinham a mente total que estava em Cristo, porque eles invejavam um ao outro. “Mas é dito expressamente: ‘as velhas coisas se passaram: todas as coisas se fizeram novas’”. Mas nós não devemos interpretar as palavras do Apóstolo, de maneira a que ele contradiga a si mesmo.  E se nós o tornarmos consistente consigo mesmo, o significado claro das palavras é este: Seu velho julgamento, concernente à justificação, santidade, felicidade, de fato, concernentes a todas as coisas de Deus, em geral, são agora passadas; assim como seus velhos desejos, objetivos, afeições, temperamentos e conversa. Todos esses se tornaram inegavelmente novos; grandemente mudados do que eles eram; e, ainda assim, embora eles sejam novos, eles não estão totalmente novos. Ainda, ele sente, para sua tristeza e vergonha, restos do velho homem, também a decadência manifesta de seus temperamentos e afeições, anteriores, posto que eles não podem obter vantagem alguma sobre ele, por quanto tempo ele vigia junto à oração. 

3. Todo este argumento: ‘Se ele está limpo, ele é limpo’; ‘Se ele está, ele é santo’; (e vinte expressões mais desse mesmo tipo podem ser facilmente empilhadas). É realmente nada melhor, do que brincar com palavras. É uma falácia argumentar do particular para o geral; inferir uma conclusão geral, de premissas particulares. Proponha a sentença inteira, e ela ficará assim: ‘Se ele é santo, afinal, ele é santo completamente’. Isto não procede: todo bebê em Cristo é santo, e ainda assim, não completamente. Ele está salvo do pecado; ainda assim, não inteiramente: O pecado permanece, embora não reine. Se você pensar que ele não reina (nos bebês, pelo menos, quer seja este o caso com homens jovens ou adultos), você certamente não tem considerado a altura, a profundidade, a largura, e comprimento da lei de Deus; (mesmo a lei do amor, escrita por Paulo, no décimo-terceiro capítulo de Corintios); e que toda anomia, desconformidade, ou desvio, para com esta lei, é pecado. Agora, não existe desconformidade a ela, no coração ou vida de um crente? O que pode ser em um cristão adulto, é outra questão; mas que estranho deve ser para a natureza humana, aquele que pode possivelmente imaginar que este é o caso com todo bebê em Cristo! 

4. ‘Portanto agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito’. (Romanos 8:1).

[O que se segue, por algumas páginas, é uma resposta a um documento, publicado na Cristian Magazine, p. 577-592. Eu estou surpreso que o Sr. Dodd tenha dado a tal documento um lugar em sua revista, o que é diretamente contrário ao Nono Artigo – Editor]    

[Esta é a carta escrita por John Wesley ao Sr. Dodd – acréscimo da tradutora] – 05 de Março, 1767

 Ao Editor de Lloyd´s Evening Post       

“Senhor”,

“Muitas vezes, o redator da Christian Magazine tem me atacado sem medo ou finura; e, por este meio, ele tem convencido seus leitores imparciais de uma coisa, pelo menos — que (como, vulgarmente, se diz) seus dedos comicham, para estar diante de mim; que ele tem o desejo passional de medir espadas comigo. Mas eu tenho um outro trabalho em minhas mãos: eu posso aplicar o pouco que resta da minha vida em propósitos melhores!”

 “Os fatos de seu último ataque são esses: Trinta e cinco, ou, trinta e seis anos atrás, eu admirava muito o caráter do cristão perfeito desenhado por Clemens Alexandrinus. Há vinte e cinco, ou, vinte e seis anos, um pensamento me veio à mente: esboçar tal caráter, por mim mesmo; apenas, que de uma maneira mais bíblica e, principalmente, nas próprias palavras da Escrituras: isto eu intitulei: ‘O Caráter de um Metodista, acreditando que, curiosamente, poderia incitar mais pessoas a ler isso, e, também, que alguns preconceitos pudessem, desse modo, ser removidos do homem sincero”.

“Mas, para que ninguém imaginasse que eu pretendia um elogio a mim, ou aos meus amigos, eu me resguardei contra isso, no próprio título da página, dizendo tanto em meu nome como no deles:’Não como se eu já tivesse atingindo, tampouco como se já fosse perfeito’”.

“Para o mesmo efeito, eu falo na conclusão: ‘Esses são os mesmos princípios e práticas de nossa religião; sãos as marcas de um verdadeiro Metodista’; que é, um verdadeiro cristão; como eu, imediatamente, depois, expliquei: ‘por esses princípios apenas fazer com que aqueles que estão no ridículo, assim chamados, desejem ser distinguidos de outros homens’. ‘Por essas marcas fazer com que nós trabalhemos, para distinguir a nós mesmos daqueles, cujas mente e vida, não estão de acordo com o Evangelho de Cristo’”.

“Este inferior, ou Dr. Dodd, diz, ‘Um metodista é, de acordo com o Sr. Wesley, um que é perfeito, e não peca em pensamento, palavra, ou ação’. Senhor, queira me desculpar! Isso não é ‘de acordo com o Sr. Wesley’. Eu tenho dito com todas as palavras que eu não sou perfeito; e, ainda você me permite ser um Metodista! Eu disse a você, categoricamente, que eu não consegui o caráter que eu esbocei. Você irá fixar isso em mim, apesar dos meus dentes? ‘Mas o Sr. Wesley diz que outros Metodistas têm’, Eu não digo tal coisa! O que eu digo, depois de ter dado um relato bíblico de um perfeito cristão, é isso: ‘Por essas marcas o Metodista deseja ser distinguido de outros homens; por essas marcas nós trabalhamos para distinguir a nós mesmos’. E você não deseja e trabalha para o mesmo propósito?”.

“Mas você insiste: ‘O Sr. Wesley afirma que o Metodista (isto é, todos os Metodistas) é, perfeitamente, santo e íntegro’. Onde eu afirmei isso? Não, em alguma propaganda religiosa! Diante disso, eu afirmo justo o contrário; e que eu afirmo isso, seja lá onde for, é mais do que eu sei.  Fique à vontade, senhor, de assinalar o local: até que isso seja feito, tudo o que você acrescentou (amargo, o suficiente) é mera ‘trovoada’; e os Metodistas (assim chamados) podem ainda declarar (sem qualquer punição de sua sinceridade) que eles não vêm à mesa santa ‘confiando em sua própria retidão, mas nas múltiplas e grandiosas misericórdias de Deus’”.

Eu sou, senhor,

Seu,

John Wesley

®            Esses são reunidos, como se eles fossem a mesma coisa. Mas eles não o são. A culpa é uma coisa, o poder outra, e a existência outra, ainda. Que os crentes estão livres da culpa e poder do pecado nós admitimos; que eles estão livres da existência dele, nós negamos. Nem isto, de alguma maneira, se conclui desses textos. Um homem pode ter o Espírito de Deus habitando nele, e pode ‘caminhar, segundo o Espírito’,  embora ele sinta ainda ‘a carne entregando-se à luxúria, contra o Espírito’.

5. “Mas a ‘igreja é o corpo de Cristo’(Colossenses 1:24) ‘Regozijo-me agora no que padeço por vós, e na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo seu corpo, que é a igreja’; isto implica que seus membros são lavados de todas as suas sujidades; do contrário irá se seguir que Cristo e Belial estão incorporados um com o outro”. 

®            Não. Pelo fato de ‘aqueles que são o corpo místico de Cristo, ainda sentirem a carne cobiçando contra o Espírito’, isto não quer dizer que Cristo tem alguma camaradagem com o diabo; ou com aquele pecado que ele os capacita a resistir e dominar!

6. Mas os cristãos ‘chegaram ao monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial’, onde ‘nada corrompido entra?”.(Hebreus 12:22): Ou seja, céu e terra, todos concordam, todos são uma grande família.

®            E são igualmente santos e corrompidos, enquanto eles ‘caminham segundo o Espírito’; embora conscientes que existe um outro princípio neles, e que ‘estes são contrários um ao outro’.

7. ‘Mas os cristãos estão reconciliados para Deus. Agora isto não poderia ser, se alguma mente carnal restasse; porque esta é inimiga contra Deus: Conseqüentemente, nenhuma reconciliação pode ser efetiva, a não ser através de sua total destruição’.

®            Nós estamos ‘reconciliados para Deus, através do sangue na cruz’: E, naquele momento, a corrupção da natureza, que é inimiga de Deus, foi colocada debaixo de nossos pés; a carne não teve mais domínio sobre nós. Mas ela ainda existe; e ela ainda é, em sua  natureza, inimiga com Deus, cobiçando contra seu Espírito. 

8. “Mas em (Gálatas 5:24) ‘E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências’”. “Mais do que isto’, (Colossenses 3:9) ‘eles já despiram o velho homem com seus feitos’”.

®            Eles o fizeram; e, no sentido acima descrito, ‘as coisas velhas são passadas, e todas as coisas se tornaram novas’. Existe ema centena de textos, e eles  podem ser citados, para o mesmo efeito; e todos irão admitir a mesma resposta “Mas, para dizer tudo em uma só palavra’: (Efésios 5:25) Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra; para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível’”. E, assim, será no final: Mas não foi, ainda, desde o começo.

9. ‘Mas que a experiência fala: Todos os que são justificados encontram, naquele momento, uma liberdade absoluta de todos os pecados’.

®            Isto eu duvido; mas se eles encontram, isto acontece, mesmo depois? Caso não alcancem coisa alguma. – ‘Se eles não encontram, é culpa deles’. Isto necessita ser provado.  

10. ‘Mas, na própria natureza das coisas, um homem pode ter orgulho nele, e não ser orgulhoso; ter ira, e ainda assim, não estar irado?’

®            Um homem pode ter orgulho nele; pode pensar, em algumas particularidades, acima do que deveria pensar, (e, assim, ser orgulhoso, naquele particular), mas, no entanto, não ser um homem orgulhoso, em seu caráter geral. Ele pode ter raiva nele; sim, e uma forte inclinação para uma raiva furiosa, sem dar oportunidade a ela. – ‘Mas a ira e o orgulho podem estar naquele coração, onde apenas a mansidão e humildade são sentidos?’. Não. Mas algum orgulho e ira podem estar no coração, onde existe humildade e mansidão.

‘É não é proveitoso dizer que esses temperamentos estão lá, mas que eles não reinam:porque o pecado não pode, em alguma espécie ou grau, existir onde ele não reina; porque a culpa e o poder são propriedades essenciais do pecado. Portanto, onde um deles está, todos deverão estar’.

®            De fato, estranho! ‘O pecado não pode, em alguma espécie ou grau, existir, onde ele não reina?’. Absolutamente contrário, a toda experiência, a todas as Escrituras, a todo bom-senso. Ressentimento de uma afronta é pecado; é anomia, desconformidade para com a lei do amor. Isto tem existido em mim milhares de vezes. Ainda assim, ele não reinou, e não reina. 

‘Mas a culpa e poder são propriedades essenciais do pecado; portanto, onde um está, todos deverão estar’.  

®            Não. No exemplo, diante de nós, se o ressentimento que eu sinto não prolifera, mesmo por um momento, não existe culpa, afinal; nenhuma condenação de Deus sobre esse assunto. E, neste caso, ele não tem poder: embora ele ‘cobice contra o Espírito’,  ele não pode prevalecer. Aqui, portanto, como, em milhares de exemplos, existe pecado, sem tanto culpa ou poder.

11. ‘Mas a suposição de haver pecado em um crente, é significativo com todas as ciosas assustadoras e desanimadoras. Isto sugere a contenda com o poder que tem a possessão de nossa força; mantêm usurpação dele de nossos corações; e lá promove a guerra contra nosso Redentor’.

®            Não assim: A supondo-se que o pecado esteja em nós, isto não implica que ele tem a possessão de nossas forças; não mais do que um homem crucificado tem a posse daqueles que o crucificaram. Como implica pouco que ‘o pecado mantenha sua usurpação de nossos corações’. O usurpador é destronado. Ele permanece, de fato, onde ele uma vez reinou; mas permanece algemado. De maneira que se, em algum sentido, ele ‘efetua a guerra’, ainda assim, ele vai se tornando mais e mais fraco, enquanto o crente segue de força e força, em vitória, em vitória.

12. ‘Eu ainda não estou satisfeito: Ele que tem pecado nele, é um escravo do pecado. Portanto, você supõe que um homem seja santificado, enquanto ele é escravo do pecado. Agora, se você admite que os homens possam ser justificados, enquanto eles têm orgulho, ira, ou descrença neles; mais ainda, se você afirma que esses estão (pelo menos por um tempo), em todo aquele que é justificado; qual a surpresa de termos tantos crentes orgulhosos, irados, descrentes?!

®            Eu não suponho que algum homem que seja justificado, seja um escravo do pecado. Ainda assim, eu suponho que o pecado permaneça (pelo menos por um tempo), em todo aquele que está justificado.

‘Mas, se o pecado permanece em um crente, ele é um homem pecador: Se o orgulho, por exemplo, ele é orgulhoso; se obstinação, então, ele é obstinado; se descrença, então, ele é um descrente; conseqüentemente, não é um crente, afinal. Como, então, ele se difere dos descrentes, dos homens degenerados?’.

®            Isto ainda é brincar com as palavras. Significa não mais do que, se existe pecado, orgulho, obstinação nele, então – existe pecado, orgulho, obstinação. E isto, ninguém pode negar. Neste sentido, então, ele é orgulho, ou obstinado. Mas ele não é orgulhoso ou obstinado, no mesmo sentido que os descrentes são; ou seja, governados pelo orgulho e vontade própria. Neste contexto, ele difere dos homens degenerados. Estes obedecem ao pecado. Ele não. A carne está em ambos. Mas eles caminham ‘segundo a carne’; e ele ‘caminha segundo o Espírito’.

‘Mas como um descrente pode ser um crente?’.

®            Estas ´palavras têm dois significados. Elas significam tanto nenhuma fé, quanto pouca fé; tanto a ausência da fé, ou a fraqueza dela. No primeiro sentido,  o descrente não é um crente; no segundo, eles são todos bebês. A fé deles está comumente misturada com dúvida e temor; ou seja, no segundo sentido, com descrença. ‘Por que temeis’, diz o Senhor, ‘ó homens de pouca fé?’ (Mateus 8:26). Novamente: ‘Ó tu, homem de pouca fé, porque motivo duvidais?’. Vocês vêem aqui, que havia descrença nos crentes; pouca fé e muita fé.

13. ‘Mas esta doutrina de que o pecado permanece no crente; de que um homem pode estar no favor de Deus, enquanto ele tem pecado em seu coração; certamente, tende a encorajar os homens ao pecado’.

®            Entenda a proposição corretamente, e tal conseqüência não irá se seguir. Um homem pode estar no favor de Deus, embora ele sinta pecado; mas não se ele se entrega a ele. Ter pecado não significa perder o favor de Deus; mas dar oportunidade a ele, sim. Embora a carne em vocês ‘cobicem contra o Espírito’, vocês podem ainda ser filhos de Deus; mas, se vocês ‘caminham segundo a carne’, vocês são filhos do diabo. Agora, esta doutrina não encoraja a obedecer ao pecado, mas a resistir a ele, com todas as nossas forças.

QUINTO

 1. A somatória de tudo é esta: Existem, em cada pessoa, mesmo depois que ela é justificada, dois princípios contrários: natureza e graça, denominada por Paulo, de carne e Espírito. Por isso, embora os bebês em Cristo estejam santificados, ainda assim, será apenas em parte. Em um grau, de acordo com a medida da sua fé, eles são espirituais; mas, em outro, são carnais. Desta forma, os crentes são continuamente exortados a vigiar contra a carne, tanto quanto contra o mundo e o diabo. E isto concorda com a experiência constante dos filhos de Deus. Enquanto eles sentem esse testemunho, em si mesmos, eles sentem sua vontade, não totalmente resignada à vontade de Deus. Eles sabem que eles estão Nele; mas ainda, encontram um coração pronto para se separar de Dele; uma propensão para o mal, em muitas instâncias, e uma relutância para o que é bom. A doutrina contrária é totalmente nova; nunca ouvida na Igreja de Cristo, desde o tempo de sua vinda para o mundo, até o tempo do Conde Zinzendorf; e ela é atendida com as mais fatais conseqüências. Ela remove a vigilância contra nossa natureza pecaminosa; contra a Dalila que nos disseram que tinha ido, embora ela ainda esteja em nosso seio. Ela faz em pedaços a proteção dos crentes fracos, despojados de sua fé, e, assim, deixando-os expostos a todos os assaltos do mundo, da carne e do diabo.

2. Que possamos, portanto, segurar firme a doutrina perfeita, ‘uma vez entregue para os santos’, e concedida aos oráculos de Deus na terra, para todas as gerações que se seguiram: A de que, embora estejamos renovados, limpos, purificados, santificados, e verdadeiramente crermos em Cristo, no momento; ainda assim, nós não estamos renovados, limpos, purificados, completamente; já que a carne; a natureza pecaminosa, ainda permanece (embora dominada), e guerreia contra o Espírito. Quanto mais usamos de toda diligência para ‘lutar a boa luta da fé’. Quanto mais sinceramente ‘vigiamos e oramos’ contra o inimigo nela. Quanto mais cuidadosamente permitimos nos ‘colocar no amor total de Deus’; embora, ‘contendamos com a carne, e sangue e principados, e com poderes, e espíritos pecaminosos, nos altos lugares’, mais seremos capazes de resistir, no dia de tentação; e, tendo feito tudo, permanecermos.

 [Editado por Angel Miller, estudante da Northwest Nazarene College (Nampa, ID), com correções por George Lyons para a Wesley Center for Applied Theology.]

www.esnips.com

in Maluco por Jesus

A Conversão do PIOR Homem do Mundo

Deixe o seu comentário

INTRODUÇÃO

1. A história está eivada de homens maus

Os anais da história estão repletos de homens que deixaram um rastro sombrio na nossa lembrança: Homens facínoras, assassinos, feiticeiros, monstros bestiais, pervertidos celerados e déspotas sanguinários. Homens incendiários como Nero. Homens traidores como Judas. Homens perversos como Hitler. Homens truculentos como Mao Tse Tung.

Mas, talvez, nenhum homem tenha excedido em perversidade a Manassés. Esse rei foi o décimo terceiro rei de Judá. Reinou 55 anos, de 697 a 642 a.C. Seu nome significa “Aquele que esquece” e ele esqueceu-se de Deus.

2. Poderia a graça de Deus alcançar aqueles que descem até às profundezas da degradação?

Normalmente achamos que há pessoas irrecuperáveis. Que há pecadores que estão fora do alcance da graça. A história de Manassés vai nos mostrar que não há poço tão fundo que a graça de Deus não possa ser mais profunda. A graça é maior do que o pecado. Onde abundou o pecado superabundou a graça.

I. OS PRIVILÉGIOS DE MANASSÉS

1. Ele era filho de um pai piedoso

Ele cresceu bebendo o leite da verdade e sugando o néctar da piedade. Ele cresceu num lar onde Deus era conhecido e amado. Mas a piedade dos pais não é garantia que os filhos seguirão o mesmo caminho. Manassés tinha exemplo. Tinha modelo dentro de casa. Seu pai promoveu uma grande reforma espiritual em Judá depois do desastrado reinado de Acaz. Ele limpou a casa de Deus.

2. Ele assumiu o trono ainda jovem – v. 1

Manassés nasceu num berço de ouro e começou e assumiu o trono de Jerusalém com doze anos de idade. Ele só teve privilégios na vida. Ele esbanjou suas oportunidades. Ele desperdiçou todas as coisas boas que Deus estava lhe dando desde cedo na vida.

3. Ele teve o reinado mais longo de Judá – v. 1

Ele teve muito tempo para andar com Deus, para fazer o que era certo e para arrepender-se dos seus pecados. Ele governou 55 anos e nesse tempo ele fez o que era mau perante o Senhor. Ele entupiu Jerusalém e a Casa de Deus de idolatria e se prostrou em altares de estranhos deuses, provocando o Senhor à ira.

4. Ele teve a advertência de Deus – v. 10

Deus não o deixou errar sem advertência. Deus o alertou, o corrigiu. Enviou-lhe profetas, mas ele e o povo não quiseram ouvir a voz de Deus. Fecharam o coração. Endureceram a cerviz. Taparam os ouvidos à Palavra e à voz da consciência.

II. OS PECADOS DE MANASSÉS

1. Ele liderou o povo a pecar contra Deus v. 2,9

Manassés foi um líder mau. Ele usou sua influência para desviar as pessoas de Deus. Ele levou sua nação a fazer coisas piores do que as nações pagãs (v. 9). Ele tornou a edificar os altos, liderou o povo na adoração de Baal. Ele se prostrou diante de todo o exército dos céus (v. 3). Ele adorava as estrelas. Ele tornou-se um viciado em astrologia. Ele tornou-se um místico inveterado. Tornou-se um apóstata, um náufrago na fé.

2. Manassés profanou a Casa de Deus – v. 4,5,7

Ele fez pior que Acaz que fechou a casa de Deus. Ele introduziu ídolos abomináveis dentro da Casa de Deus. Ele profanou a Casa de Deus. Ele insultou a santidade de Deus e do culto.

3. Ele se tornou um feiticeiro inveterado – v. 6

A feitiçaria de Manassés chegou a ponto dele sacrificar seus próprios filhos a Moloque. Ele era adivinho. Era agoureiro. Praticava feitiçaria. Tratava com necromantes. Ele consultava os mortos. Ele era feiticeiro, espírita, pai de santo. Ele provocava o Senhor à ira.

Há muitas pessoas mergulhadas até o pescoço com feitiçaria, com espiritismo, com astrologia, com consulta aos mortos, com misticismo pagão.

4. Ele derramou muito sangue inocente – 2 Rs 21.16

Ele matou seus próprios filhos. Matou filhos de outras pessoas. Ele mandou cerrar ao meio o profeta Isaías. Flávio Josefo diz que todos os dias se sacrificavam pessoas em Jerusalém a mando de Manassés. Ele era um homem mau, virulento, truculento, assassino e sanguinário.

III. O JUÍZO DE DEUS SOBRE MANASSÉS

1. A prisão de Manassés – v. 11

Quem não escuta a voz da Palavra, escuta a voz da chibata. Quem não atende a voz do amor, é arrastado pela dor. O rei da Assíria prende Manassés com ganchos, amarra-o com cadeias e o leva cativo para a Babilônia.

2. A humilhação de Manassés – v. 11,12

Manassés desceu ao fundo do poço. Ele é arrancado do trono, de Jerusalém. É levado como um bicho, com canga no pescoço, em anzóis em sua boca e jogado numa prisão. Ele é levado para a Babilônia, o centro da feitiçaria do mundo. Os ídolos da Babilônia que ele adorava não puderam livrá-lo.

3. A angústia de Manassés – v. 12

O pecado não compensa. Quem zomba do pecado é louco. O homem será apanhado pelas próprias cordas do seu pecado. Manassés está cativo, algemado, angustiado. Quem não escuta a voz, escuta a vara.

IV. A CONVERSÃO DE MANASSÉS

1. A infinita graça de Deus – v. 13

Quando lemos essa história temos a vontade de dizer: agora bem feito! Ele deve pagar por todas as suas atrocidades. Mas, este homem clama a Deus e o Senhor o salva. Deus é rico em perdoar. Ele tem prazer na misericórdia. Não causa perdida para ele.

Deus mandou Manassés para a prisão, para não mandá-lo para o inferno. É um acidente, uma doença, uma tragédia familiar. Deus está pronto a mover o céu e a terra para que você não pereça.

2. A humilhação de Manassés – v. 12

A conversão começa com o arrependimento, com a tristeza pelo pecado, com a consciência de que temos feito o que é mau perante o Senhor. Manassés muito se humilhou perante Deus. Ele caiu em si. Ele reconheceu seu erro. Ele não se justificou, nem endureceu seu coração. Ele se curvou, se humilhou. Se arrependeu.

3. A oração de Manassés – v. 12

Manassés vivera toda a sua vida invocando os mortos, adorando os ídolos, levantando altares aos deuses pagãos. Mas, agora, na hora do aperto, ele ora ao Deus do céu e este atende ao seu clamor. Clame por Deus. Grite por socorro. Levante a sua voz. Ainda há esperança para a sua alma.

4. A salvação de Manassés – v. 13

Quando Manassés voltou-se para Deus, Deus voltou-se para ele. Restaurou sua vida, seu reino, sua alma. Manassés, então reconheceu que o Senhor é Deus. Deus o aceitou. Deus o restaurou. Deus o levantou. Deus restituiu o seu reino.

5. As provas do arrependimento de Manassés – v. 13-16

a) Aceitação – (v. 13) – Os ouvidos de Deus estão abertos, suas mãos estão estendidas para você. O Pai está pronto a receber o pródigo de volta e fazer uma festa. Não importa quão longe você tenha ido e quando profundo o poço que você tenha caído, Deus está pronto a perdoar você e aceitar você de volta para ele.

b) Iluminação – (v. 13) – “Então reconheceu Manassés que o Senhor era Deus”. Deus pode abrir os olhos da sua alma nesta noite. Ele pode abrir seu coração para crer. Ele pode tirar a cortina dos seus olhos. Ele pode dar a você entendimento espiritual. Ele pode revelar a você a glória do seu Filho Jesus Cristo.

c) Reforma – (v. 15) – Manassés fez uma faxina na Casa de Deus e na sua vida. Ele tirou toda a abominação que ele mesmo tinha colocado na Casa de Deus. Arrependimento implica em mudança.

d) Consagração – (v. 16) – Manassés não apenas tirou o que estava errado, mas restaurou o altar do Senhor. Ele começou a buscar a Deus novamente. Ele se voltou para Deus de todo o seu coração. Ele foi convertido a Deus e passou a consagrar-se a Deus, liderando sua nação a voltar-se para o Senhor.

CONCLUSÃO

Vamos ver algumas lições:

1) A piedade dos pais não é garantia que os filhos vão andar com Deus;
2) A vida longa não é segurança do favor de Deus;
3) Não há grau de impiedade que esteja além do alcance da graça de Deus e do perdão de Deus;
4) Não espere uma tragédia em sua vida para você voltar-se para Deus.
5) O pecado é algo que Deus abomina e jamais ficará sem julgamento;
6) Hoje é o dia de você voltar-se para Deus de todo o seu coração;
7) Se você voltar-se para ele nesta noite, agora mesmo, ele ouvirá seu clamor e restaurará a sua alma, dando-lhe a salvação!

Rev. Hernandes Dias Lopes

Em julho de 2007 
 

Os Atributos de Deus

2 Comentários

1.   A SOLIDÃO DE DEUS. 2.   OS DECRETOS DE DEUS. 3.   A ONISCIÊNCIA DE DEUS. 4.   A PRESCIÊNCIA DE DEUS. 5.   A SUPREMACIA DE DEUS. 6.   A SOBERANIA DE DEUs. 7.   A IMUTABILIDADE DE DEUS. 8.   A SANTIDADE DE DEUS. 9.   O PODER DE DEUS. 10.   A FIDELIDADE DE DEUS. 11 .   A BONDADE DE DEUS. 12.   A PACIÊNCIA DE DEUS. 13.   A GRAÇA DE DEUS. 14.   A MISERICÓRDIA DE DEUS. 15.   O AMOR DE DEUS. 16.   A IRA DE DEUS. 17.   CONTEMPLANDO A DEUS

 

PREFÁCIO

 ”Une-te pois a ele, e tem paz, e assim te sobrevirá o bem (Jó 22:21). “Assim diz o Senhor: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas. Mas o que se gloriar glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o Senhor…” (Jeremias 9:23-24). Um conhecimento salvador e espiritual de Deus é a maior de to­das as necessidades de cada criatura humana.

O fundamento de todo conhecimento verdadeiro de Deus só pode ser a clara compreensão mental de Suas perfeições, segundo revelam as Escrituras Sagradas. Não nos é possível servir nem adorar a um Deus desconhecido, nem depositar nEle a nossa confiança. Neste breve livro fez-se um esforço para apresentar algumas das principais perfeições do caráter, divino. Para que o leitor se beneficie realmente com a leitura das páginas que se seguem, ele precisa suplicar a Deus com seriedade e determinação que as abençoe para seu proveito, que aplique Sua verdade à consciência e ao coração, a fim de que a sua vida seja transfor­mada.

Necessitamos algo mais que um conhecimento teórico de Deus. Só conhecemos verdadeiramente a Deus em nossa alma, quando nos rendemos a Ele, quando nos submetemos à Sua auto­ridade e quando os Seus preceitos e mandamentos regulam todos os pormenores da nossa vida. “Conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor…” (Oséias 6:3), “Se alguém quiser fazer a vontade dele… conhecerá” (João 7:17). “… o povo que co­nhece ao seu Deus se esforçará e fará proezas” (Daniel 11:32).

Os capítulos que se seguem apareceram pela primeira vez na revista mensal “Studies in the Scriptures” (Estudos nas Escrituras), publicada pelo autor e totalmente dedicada à exposição da Palavra de Deus e à provisão de alimento espiritual para almas famintas. Estes artigos foram reeditados em sua presente forma graças à generosidade de um amigo cristão que financiou o custo total de sua publicação. Se Deus o permitir, o produto da venda deste livro será empregado na publicação de outros, de natureza similar. Seja sobre ele a bênção de Deus.

ARTHUR W. PINK

1. A SOLIDÃO DE DEUS

O título deste capítulo talvez não seja suficientemente claro para indicar o seu tema. Isto se deve, em parte, ao fato de que hoje em dia bem poucas pessoas estão acostumadas a meditar nas perfeições pessoais de Deus. Dos que lêem ocasionalmente a Bí­blia, bem poucos sabem da grandeza do caráter divino, que ins­pira temor e concita à adoração. Que Deus é grande em sabedo­ria, maravilhoso em poder, não obstante, cheio de misericórdia, muitos acham que pertence ao conhecimento comum; contudo, chegar-se a um conhecimento adequado do Seu Ser, Sua natu­reza, Seus atributos, como estão revelados nas Escrituras Sagra­das, é coisa que pouquíssimas pessoas têm alcançado nestes tem­pos degenerados. Deus é único na excelência do Seu Ser. “Ó Senhor, quem é como Tu entre os deuses? Quem é como Tu glorificado em santidade, terrível em louvores, operando maravi­lhas?” (Êxodo  15:11).

“No princípio… Deus…” (Gênesis 1:1). Houve tempo, se é que se lhe pode chamar “tempo”, em que Deus, na unidade de Sua natureza, habitava só (embora subsistindo igualmente em três pessoas divinas). “No princípio… Deus…”. Não existia o céu, onde agora se manifesta particularmente a Sua glória. Não existia a terra, que Lhe ocupasse a atenção, Não existiam os anjos, que Lhe entoassem louvores, nem o universo, para ser sustentado pela palavra do Seu poder. Não havia nada, nem ninguém, senão Deus; e isso, não durante um dia, um ano ou uma época, mas “desde sempre”. Durante uma eternidade passada, Deus esteve só: com­pleto, suficiente, satisfeito em Si mesmo, de nada necessitando.

Se um universo, ou anjos, ou seres humanos Lhe fossem necessá­rios de algum modo, teriam sido chamados à existência desde toda a eternidade. Ao serem criados, nada acrescentaram a Deus essen­cialmente. Ele não muda (Malaquias 3:6), pelo que, essencial­mente, a Sua glória não pode ser aumentada nem diminuída.

Deus não estava sob coação, nem obrigação, nem necessidade alguma de criar. Resolver fazê-lo foi um ato puramente soberano de Sua parte, não produzido por nada alheio a Si próprio; não determinado por nada, senão o Seu próprio beneplácito, já que Ele “faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade” (Efésios 1:11). O fato de criar foi simplesmente para a manifestação da Sua glória. Será que algum dos nossos leitores imagina que fomos além do que nos autorizam as Escrituras? Então, o nosso apelo será para a Lei e o Testemunho: “… levantai-vos, bendizei ao Senhor vosso Deus de eternidade em eternidade; ora bendigam o nome da tua glória, que está levantado sobre toda a bênção e louvor” (Neemias 9:5). Deus não ganha nada, nem sequer com a nossa adoração. Ele não precisava dessa glória externa de Sua graça, procedente de Seus redimidos, porquanto é suficientemente glorioso em Si mesmo sem ela. Que foi que O moveu a predes­tinar Seus eleitos para o louvor da glória de Sua graça? Foi, como nos diz Efésios 1:5, “…. o beneplácito de sua vontade”.

Sabemos que o elevado terreno que estamos pisando é novo e estranho para quase todos os nossos leitores; por esta razão faremos bem em andarmos devagar. Recorramos de novo às Es­crituras. No final de Romanos capítulo 11, onde o apóstolo con­clui sua longa argumentação sobre a salvação pela pura e sobe­rana graça, pergunta ele: “Por que quem compreendeu o intento do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu pri­meiro a ele, para que lhe seja recompensado?” (vers. 34-35). A importância disto é que é impossível submeter o Todo-poderoso a quaisquer obrigações para com a criatura; Deus nada ganha da nossa parte. “Se fores justo, que lhe darás, ou que receberá da tua mão? A tua impiedade faria mal a outro tal como tu; e a tua justiça aproveitaria a um filho do homem” (Jó 35:7-8), mas cer­tamente não pode afetar a Deus, que é bem-aventurado em Si mesmo. “…quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos  servos  inúteis,   porque  fizemos  somente  o  que  devíamos fazer”   (Lucas   17:10)  — nossa  obediência não dá nenhum   proveito a Deus.

De mais a mais, vamos além: nosso Senhor Jesus Cristo não acrescentou nada a Deus em Seu Ser essencial e à glória essencial do Seu Ser, nem pelo que fez, nem pelo que sofreu. É certo, bendita e gloriosamente certo, que Ele nos manifestou a glória de Deus, porém nada acrescentou a Deus. Ele próprio o declara expressamente, e não há apelação quanto às Suas palavra.; “… não tenho outro bem além de ti” (Salmo 16:2; na versão usada pelo autor, literalmente: “… a minha bondade não chega a Ti”). Em toda a sua extensão, este é um Salmo sobre Cristo. A bondade e a justiça de Cristo alcançou os Seus santos na terra (Salmo 16:3), mas Deus estava acima e além disso tudo, pois unicamente Deus é “o Bendito” (Marcos  14:61, no grego).

É absolutamente certo que Deus é honrado e desonrado pelos homens; não em Seu Ser essencial, mas em Seu caráter oficial. É igualmente certo que Deus tem sido “glorificado” pela criação, pela providência e pela redenção. Não contestamos isso, e não ousamos fazê-lo nem por um momento. Mas isso tudo tem que ver com a Sua glória declarativa e com o nosso reconhecimento dela. Todavia, se assim Lhe aprouvesse, Deus poderia ter continuado só, por toda a eternidade, sem dar a conhecer a Sua glória a qualquer criatura. Que o fizesse ou não, foi determinado unicamente por Sua própria vontade. Ele era perfeitamente bem-aventurado em Si mesmo antes de ser chamada à existência a primeira criatura.   E,  que  são para Ele todas  as   Suas  criaturas,   mesmo agora? Deixemos outra vez que as Escrituras dêem a resposta: “Eis que as nações são consideradas por ele como a gola dum balde, e como o pó miúdo das balanças: eis que lança por ai as ilhas como a uma coisa pequeníssima. Nem todo o Líbano basta para o fogo, nem os seus animais bastam para holocaustos. Todas as nações são como nada perante ele; ele as considera menos do que nada e como uma coisa vã. A quem pois fareis semelhante a Deus: ou com que o comparareis?”  (Isaías 40:15-18). Esse é o Deus das Escrituras; infelizmente Ele continua sendo o “Deus desconhecido” (Atos 17:23) para as multidões desatentas. “Ele é o que está assentado sobre o globo da terra, cujos moradores são para ele como gafanhotos; ele é o que estende os céus como cor­tina, e os desenrola como tenda para neles habitar; o que faz voltar ao nada os príncipes e torna coisa vã os juízes da terra” (Isaías 40.22-23). Quão imensamente diverso é o Deus das Escri­turas do “deus” do púlpito comum!

O testemunho do Novo Testamento não tem nenhuma dife­rença do que vemos no Velho Testamento; como poderia ser, uma vez que ambos têm o mesmo Autor! Ali também lemos: “A qual a seu tempo mostrará o bem-aventurado, o único poderoso Senhor, Rei dos reis e Senhor dos senhores; aquele que tem, ele só, a imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver: ao qual seja honra e poder sempiterno. Amém” (1 Timóteo 6:15-16). O Ser que aí é descrito deve ser reverenciado, cultuado, adorado. Ele é solitário em Sua majestade, único em Sua excelência, incomparável em Suas perfeições. Ele tudo sustenta, mas Ele mesmo é independente de tudo e de todos. Ele dá bens a todos, mas não é enriquecido por ninguém.

 Um Deus tal não pode ser encontrado mediante investigação; só pode ser conhecido como e quando revelado ao coração Espírito Santo, por meio da Palavra. É verdade que a criação manifesta um Criador, e isso com tanta clareza, que os homens fi­cam “inescusáveis” (Romanos 1:20); contudo, ainda temos que dizer com Jó: “Eis que isto são apenas as orlas dos seus cami­nhos; e quão pouco é o que temos ouvido dele! Quem pois en­tenderia o trovão do seu poder?” (Jó 26:14). Cremos que o argumento baseado no desígnio, assim chamado, argumento apre­sentado por “apologetas” bem intencionados, tem causado mais dano que benefício, pois tenta baixar o grande Deus ao nível do entendimento finito e, com isso, perde de vista a Sua singular excelência.

Tem-se feito uma analogia com o selvagem que achou  um relógio e que. depois de um detido exame, inferiu a existência de um  relojoeiro.  Até aqui, tudo bem. Tentemos ir mais longe, porém. Suponhamos que o selvagem procure formar uma concepção pessoal desse relojoeiro, de seus afetos pessoais, de suas maneira, de sua   disposição,   conhecimentos  e  caráter   moral — de tudo aquilo que se junta para compor uma personalidade.  Poderia ele chegar a imaginar ou pensar num homem real ___ o homem que fabricou o relógio — de modo que pudesse dizer: “Eu o conhe­ço”? Fazer perguntas como esta parece fútil, mas estará o eterno e infinito Deus tanto mais ao alcance da razão humana? Real­mente, não. O Deus das Escrituras só pode ser conhecido  por aqueles a quem  Ele próprio Se dá a conhecer.

Tampouco o intelecto pode conhecer a Deus. “Deus é espí­rito…” (João 4:24) e, portanto, só pode ser conhecido espiri­tualmente. Mas o homem decaído não é espiritual; é carnal, Está morto para tudo que é espiritual. A menos que nasça de novo, que seja trazido sobrenaturalmente da morte para a vida, miraculosamente transferido das trevas para a luz, não pode sequer ver as coisas de Deus (João 3:3), e muito menos entendê-las (1 Coríntios 2:14. E mister que o Espírito Santo brilhe em nossos cora­ções (não no intelecto) para dar-nos o “… conhecimento da gló­ria de Deus, na face de Jesus Cristo” (2 Coríntios 4:6). E até mesmo esse conhecimento espiritual é apenas fragmentário. A alma regenerada terá de crescer na graça e no conhecimento do Senhor  Jesus (2 Pedro 3:18).

A nossa principal oração e finalidade como cristãos deve ser que possamos “… andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda a boa obra, e crescendo no conhecimento de Deus” (Colossenses 1:10).

 

2. OS DECRETOS DE DEUS

 O decreto de Deus é Seu propósito ou determinação com respeito às coisas futuras. Usamos o singular, como o fazem as Escrituras (Romanos 8:28; Efésios 3:11), porque houve somente um ato de Sua mente infinita acerca das coisas futuras. Entre­tanto, nós falamos como se houvesse muitos, porque as nossas mentes só conseguem pensar em ciclos sucessivos, conforme sur­gem os pensamentos e as ocasiões, ou com referência a vários objetos do Seu decreto, os quais, sendo muitos, parecem-nos re­querer um propósito diferente para cada um deles. O entendi­mento infinito de Deus não avança passo a passo, ou de etapa a etapa. “Conhecidas por Deus são todas as Suas obras desde a eternidade”  (Atos   15:18 versão autorizada KJ,   1611).

As Escrituras fazem menção dos decretos de Deus em muitas passagens, empregando vários termos. A palavra “decreto” acha-se no Salmo 2:7, etc. Em Efésios 3:11 lemos a respeito do Seu “eterno propósito”. Em Atos 2:23, do “… determinado conselho e presciência de Deus… “. Em Efésios 1:9, do “… mistério da sua vontade… “. Em Romanos 8:29 lemos que Ele também “predestinou”. Em Efésios 1:9, sobre “o seu beneplácito”. Os decretos de Deus são denominados Seu “conselho” para significar que são consumadamente sábios. São chamados Sua “vontade” para mostrar que Ele não estava sob nenhum outro domínio, mas agiu de acordo com o Seu beneplácito. Quando a norma de conduta de uma pessoa é a sua vontade, geralmente é caprichosa e irrazoável. Mas nos procedimentos divinos a sabedoria está sempre associada com a  “vontade”  e,  por  conseguinte,  os  decretos   de  Deus  são  descritos como sendo “o conselho da sua vontade” (Efésios 1:11).

Os decretos de Deus se relacionam com todas as coisas futuras, sem exceção: o que quer que seja feito no tempo, foi pré-ordenado antes de iniciar-se o tempo. O propósito de Deus dizia respeito a todas as coisas, grandes e pequenas, boas e más, conquanto, com referência a estas, devemos ter o cuidado de afirmar que, se bem que Deus é o Ordenador e Controlador do pecado, não é o seu Autor do mesmo modo como é o Autor do bem. O pecado não poderia proceder de um Deus santo por criação direta e positiva, mas somente por permissão decretatória e ação negativa. O decreto de Deus é tão abrangente como o Seu governo, estendendo-se a todas as criaturas e a todos os eventos.

Relaciona-se com a nossa vida e com a nossa morte, com o nosso estado no tempo, bem como na eternidade. Como Deus faz todas as coisas segundo o conselho da Sua vontade, ficamos sabendo por Suas obras em que consiste (ou consistiu) o Seu conselho, assim como julgamos a planta de um arquiteto inspecionando o edifício que foi construído sob sua direção.

Deus não decretou meramente criar o homem, colocá-lo na terra, e depois deixá-lo entregue à sua própria direção descontro­lada; antes, fixou todas as circunstâncias do destino dos indiví­duos, e todas as particularidades que a história da raça humana compreende, desde o seu início até o seu fim. Ele não decretou simplesmente o estabelecimento de leis gerais para o governo do mundo, mas dispôs a aplicação dessas leis a todos os casos par­ticulares. Os nossos dias estão contados, como contados estão os cabelos das nossas cabeças. Podemos entender a extensão dos decretos divinos pelas distribuições providenciais, mediante as quais eles são executados. Os cuidados de Deus alcançam as criaturas, mais insignificantes e os mais diminutos eventos, como a morte de um pardal e a queda de um fio de cabelo.

Consideremos agora algumas das propriedades dos decretos divinos.  Em primeiro lugar, são eternos. Supor que sequer um deles foi ditado dentro do tempo, é supor que ocorreu algum novo acontecimento, surgiu algum evento imprevisto ou alguma combinação imprevista de circunstâncias, que induziu o  Altíssimo a idealizar uma nova resolução. Isto favoreceria a idéia de que o conhecimento de Deus é limitado e que Ele vai ficando mais sábio conforme o tempo avança — o que seria uma horrível blasfêmia. Ninguém que creia que o entendimento divino, é infinito, abrangendo o passado, o presente e o futuro, jamais admitirá a errônea doutrina de decretos temporais. Deus não ignora os eventos futuros que serão executados por volições humanos; Ele os predisse em inúmeros casos, e a profecia não é nada menos do que a manifestação da Sua presciência eterna. As Escrituras afirmam que os crentes foram escolhidos em Cristo antes da fundação do mundo (Efésios 1:4), sim, que foi então que a “graça” lhes foi dada (2 Timóteo  1:9).

Em segundo lugar, os decretos de Deus são sábios? A sabe­doria é evidenciada na seleção dos melhores fins possíveis e dos meios mais apropriados para cumpri-los. Pelo que conhecemos dos decretos de Deus, é evidente que lhes pertence esta característica. Eles se nos revelam por sua execução, e toda evidência de sabe­doria nas obras de Deus é prova da sabedoria do plano segundo o qual eles são realizados. Como declara o salmista, “O Senhor, quão variadas são as tuas obras! Todas as cousas fizeste com sabedoria…” (Salmo 104:24), Na verdade, só podemos observar uma pequeníssima parte delas, mas devemos proceder aqui como fazemos noutros casos, e julgar o todo pela amostra, o desconhe­cido pelo conhecido. Aquele que percebe o funcionamento admiravelmente engenhoso das partes de uma máquina que teve opor­tunidade de examinar, será naturalmente levado a crer que as outras partes são de igual modo admiráveis. Da mesma maneira, devemos persuadir nossas mentes quanto às obras de Deus quan­do nos invadem dúvidas, e repelir as objeções acaso sugeridas por alguma coisa que não podemos conciliar com as nossas no­ções do que é bom e sábio. Quando alcançarmos os limites do finito e contemplarmos os misteriosos domínios do infinito, excla­memos: “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus…” (Romanos 11:33).

Em terceiro lugar, são livres. “Quem guiou o Espírito do Senhor? E que conselheiro o ensinou? Com quem tomou conse­lho, para que lhe desse entendimento, e lhe mostrasse as veredas do juízo e lhe ensinasse sabedoria, e lhe fizesse notório o caminho — da ciência?” (Isaías 40:13-14). Deus estava sozinho quando elaborou os Seus decretos, e as Suas determinações não foram influenciadas por nenhuma causa externa. Ele era livre para decretar ou não, e para decretar uma coisa e não outra. É preciso atribuir esta liberdade Àquele que é supremo, independente e soberano em tudo que faz.

Em quarto lugar, são absolutos e incondicionais. Sua execução não depende de qualquer condição que se pode ou não cumprir. Em cada caso em que Deus tenha decretado um fim, decretou também todos os  meios  para esse fim.  Aquele que decretou a salvação dos Seus eleitos, também decretou produzir fé neles, (2 Tessalonicenses 2:13). “…O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade” (Isaías 46:10); mas não poderia ser assim, se o Seu conselho dependesse de uma condição que não pudesse ser cumprida. No entanto Deus “…faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade” (Efésios 1:11).

Lado a lado com a imutabilidade e invencibilidade dos de­cretos de Deus, as Escrituras ensinam claramente que o homem é uma criatura responsável  e que  tem que  responder por suas ações   E se as nossas idéias se formam com base na Palavra de Deus   a defesa de um daqueles ensinos não levará à negação do r outro (Reconhecemos   sem   reserva   que  há   real   dificuldade   em definir onde um termina e o outro começa) Sempre acontece isto quando há uma conjunção do divino e do humano. A verdadeira-, oração é ditada pelo Espírito e, não obstante, é também o clamor do coração humano. As Escrituras são a Palavra de Deus inspi­rada mas  foram escritas por homens  que eram algo mais que máquinas nas mãos do Espírito. Cristo é Deus e homem.  Ele e onisciente, mas crescia em sabedoria (Lucas 2:52). É todo-poderoso porém “…   foi  crucificado por fraqueza…”  (2  Coríntios 13:4). É o Príncipe da vida e, contudo, morreu. Mistérios profun­dos são estes, mas a fé os recebe sem contestação.

Tem-se assinalado muitas vezes no passado que toda objeção contra os decretos eternos de Deus aplica-se com igual intensidade contra a Sua eterna presciência. “Se Deus decretou ou não todas as coisas que acontecem, aqueles que admitem a existência de Deus reconhecem que Ele sabe de antemão todas as coisas. Pois bem é evidente que se Ele conhece de antemão todas as coisas, Ele as aprova ou não as aprova, isto é, ou quer que se realizem, ou não quer. Mas querer que se realizem é decretá-las  (Jonathan Edwards).

Finalmente, procure-se supor e depois contemplar o oposto. Negar os decretos divinos seria proclamar um mundo, e tudo que se relaciona com ele, regulado somente por acaso ou por destino cego. Então, que paz, que segurança, que consolo haveria para os nossos pobres corações e mentes? Que refúgio haveria para onde fugir na hora da necessidade e da provação? Nada disso haveria. Não haveria nada menos que as densas trevas e o abjeto horror do ateísmo. Oh meu leitor, quão agradecidos devemos estar por­que tudo está determinado pela infinita sabedoria e bondade de Deus! Quanto louvor e gratidão devemos a Ele por Seus decre­tos! Graças a estes “… sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados por seu decreto” (Romanos 8.28). Podemos muito bem exclamar: “…glória pois a ele eternamente. Amém”  (Romanos  11:36).

 3. A ONISCIÊNCIA DE DEUS

 Deus é onisciente. Ele sabe todas as coisas — todas as coisas possíveis, todas as coisas reais, todos os eventos, conhece todas as criaturas, todo o passado, presente e futuro. Conhece perfeita­mente todos os pormenores da vida de todos os seres que há no céu, na terra e no inferno. “… conhece o que está em tre­vas…” (Daniel 2:22). Nada escapa à Sua atenção, nada pode ser escondido dEle, não há nada que Ele esqueça! Bem podemos dizer com o salmista: “Tal ciência é para mim maravilhosíssima; tão alta que não a posso atingir” (Salmo 139:6). Seu conhecimen­to é perfeito. Ele jamais erra, nem muda, nem passa por alto coisa alguma. “E não há criatura alguma encoberta diante dele: antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar” (Hebreus 4:13). Sim, tal é o Deus a quem temos de prestar contas!                                                                          

“Tu conheces o meu assentar e o meu levantar: de longe entendes o meu pensamento. Cercas o meu andar, e o meu deitar; e conheces todos os meus caminhos. Sem que haja uma palavra na minha língua, eis que, ó Senhor, tudo conheces” (Salmo 139:2-4), Que maravilhoso Ser é o Deus das Escrituras! Cada um dos Seus gloriosos atributos deveria torná-lo honorável à  nossa apreciação. A compreensão da Sua onisciência deveria inclinai-nos diante dEle em adoração. Contudo, quão pouco meditamos nesta perfeição divina! Será por que o só pensar nela nos enche de inquietação?

Quão solene é este fato: nada se pode esconder de Deus! :… quanto às cousas que vos sobem ao espírito, eu as conheço” (Ezequiel 11:5). Embora sendo Ele invisível para nós, não o so­mos para Ele. Nem as trevas da noite, nem as mais espessas cor­tinas, nem o calabouço mais profundo podem ocultar o pecador dos olhos do Onisciente. As árvores do jardim não puderam ocul­tar os nossos primeiros pais. Nenhum olho humano viu Caim assassinar seu irmão, mas o seu Criador testemunhou o crime. Sara pôde rir zombeteira, oculta em sua tenda, mas foi ouvida por Jeová. Acã roubou uma cunha de ouro e a escondeu cuidado­samente no solo, mas Deus a trouxe à luz. Davi escondeu a sua iniqüidade a duras penas, mas pouco depois o Deus que tudo vê enviou-lhe um dos Seus servos para dizer-lhe: “Tu és o homem!” E tanto ao escritor como ao leitor se diz: “… sabei que o vosso pecado vos há de achar” (Números 32:23).

Os homens despojariam a Deidade da Sua onisciência, se pu­dessem — prova de que “… a inclinação da carne é inimizade contra Deus… ” (Romanos 8:7). Os ímpios odeiam esta perfeição divina com a mesma naturalidade com que são compelidos a reco­nhecê-la. Gostariam que não houvesse nenhuma Testemunha dos seus pecados, nenhum Examinador dos seus corações, nenhum Juiz dos seus feitos. Procuram banir tal Deus dos seus pensamentos: “E não dizem no seu coração que eu me lembro de toda a sua mal­dade…” (Oséias 7:2). Como é solene o Salmo 90:8! Boa razão tem todo o que rejeita a Cristo para tremer diante destas pala­vras: “Diante de ti puseste as nossas iniqüidades: os nossos pe­cados ocultos à luz do teu rosto”.

Mas a onisciência de Deus é uma verdade cheia de consolação para o crente. Em tempos de aflição, ele diz com Jó: “Mas ele sabe o meu caminho…” (23:10). Pode ser profundamente misterioso para mim, inteiramente incompreensível para os meus amigos, mas “Ele sabe”! Em tempos de fadiga e fraqueza, os crentes podem assegurar-se de que Deus ” … conhece a nossa estru­tura; lembra-se de que somos pó” (Salmo 103:14). Em tempos de dúvida e vacilação, eles apelam para este atributo, dizendo: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração: prova-me, e conhe­ce os meus pensamentos. E vê se ha em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno” (Salmo 139:23-24). Em tempos de triste fracasso, quando os nossos corações foram traídos por nossos atos; quando os nossos feitos repudiaram a nossa devo­ção, e nos é feita a penetrante pergunta, “Amas-me?”, dizemos, como o fez Pedro: “… Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo…” (João 21:17).

Aí temos estímulo para orar. Não há motivo para temer que as petições do justo não serão ouvidas, ou que os seus suspiros e lágrimas não serão notados por Deus, visto que Ele conhece os pensamentos e as intenções do coração. Não há perigo de que um santo seja passado por alto no meio da multidão de suplicantes que todo dia e toda hora apresentam as suas variadas petições, pois a Mente infinita é capaz de prestar a mesma atenção a mul­tidões como se apenas um indivíduo estivesse procurando obter a Sua atenção. Assim também a falta de linguagem apropriada, a incapacidade de dar expressão ao anseio mais profundo da nossa alma, não comprometerá as nossas orações, pois, “… será que antes que clamem, eu responderei: estando eles ainda falando, eu os ouvirei” (Isaías 65:24).

“Grande é o nosso Senhor, e de grande poder; o seu enten­dimento é infinito” (Salmo 147:5). Deus não somente sabe tudo que aconteceu no passado em todos os rincões dos Seus vastos domínios, e não apenas conhece por completo tudo o que agora está ocorrendo no universo inteiro, mas também é perfeito conhe­cedor de todos os acontecimentos, do menor ao maior deles, que haverão de suceder nas eras vindouras. O conhecimento que Deus tem do futuro é tão completo como o Seu conhecimento do passado e do presente, e isso porque o futuro depende totalmente dEle próprio. Se fosse possível ocorrer alguma coisa sem a ação direta de Deus ou sem a Sua permissão, então aquilo seria independente dEle, e Ele deixaria, de pronto, de ser Supremo.

Ora, o conhecimento divino do futuro não é mera abstração, mas é algo inteiramente ligado ao Seu propósito, o qual o acom­panha. Deus mesmo planejou tudo que há de ser, e o que Ele planejou terá que ser efetuado. Como a Sua Palavra infalível afirma, “… segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra: não há quem possa estorvar a sua mão e lhe diga: Que fazes?” (Daniel 4:35). E de novo: “Muitos propósitos há no coração do homem, mas o conselho do Senhor permanecerá” (Provérbios 19:21). Como a sabedoria e o poder de Deus são igualmente infinitos, tudo que Deus projetou está absolutamente garantido. (Que os conselhos divinos deixem de cumprir-se, é tão impossível como seria para Deus, três vezes santo, mentir.

Quanto à realização dos conselhos de Deus relativos ao fu­turo, nada é incerto. Nenhum dos Seus decretos é deixado na dependência das criaturas, nem das causas secundárias. Não há evento futuro que seja apenas uma possibilidade, isto é, coisa que pode ou não vir a acontecer. “Conhecidas por Deus são todas as suas obras desde a eternidade” (Atos 15:18). O que quer que Deus tenha decretado é inexoravelmente certo, pois nEle “… não há mudança nem sombra de variação” (Tiago 1:17). Portanto, “logo no início do livro que nos desvenda tantas coisas do futuro, são nos ditas “… as coisas que brevemente devem acontecer…” (Apocalipse   1:1).

O perfeito conhecimento de Deus é exemplificado e ilustrado em todas as profecias registradas em Sua Palavra. No Velho Tes­tamento acham-se vintenas de predições concernentes à história de Israel, as quais se cumpriram até o mínimo pormenor, séculos depois de terem sido feitas. Há também vintenas doutras mais, predizendo a carreira de Cristo na terra, e também se cumpriram literal e perfeitamente. Tais profecias só poderiam ter sido dadas por Alguém que conhecesse o fim desde o princípio, e cujo conhecimento repousasse na incondicional certeza da realização de tudo quanto fosse predito..De modo semelhante, o Velho e o Novo Testamento contêm muitos outros anúncios ainda futuros, e estes também “tem que cumprir-se” (Lucas 24:44, na versão usada pelo autor),  tem que cumprir-se porque preditos por  Aquele que  os decretou.

Contudo, deve-se assinalar que, nem o conhecimento de Deus, nem a Sua cognição do futuro, considerados simplesmente em si mesmos, são causativos. Nada jamais aconteceu, nem acontecerá, apenas porque Deus o sabia. A causa de todas as coisas é a vontade de Deus. O homem que realmente crê nas Escrituras sabe de antemão que as estações do ano continuarão a seguir-se suces­sivamente com infalível regularidade até o fim da história da terra (Gênesis 8:22); todavia, não é o seu conhecimento a causa da referida sucessão de eventos. Assim, o conhecimento de Deus não nasce das coisas porque elas existem ou existirão, mas porque Ele ordenou que existissem. Deus sabia da crucificação do Seu Filho  e  a  predisse muitas  centenas  de  anos   antes   que Ele   Se encarnasse, e isto, porque, segundo o propósito divino, Ele era um Cordeiro morto desde a fundação do mundo. Portanto, lemos que  Ele   “…   foi entregue  pelo   determinado   conselho   e   presciência de Deus…” (Atos 2:23).

Uma ou duas palavras, à guisa de aplicação. O conhecimen­to infinito de Deus deveria encher-nos de assombro. Quão exal­tado é o Senhor, acima do mais sábio dos homens! Nenhum de nós sabe o que o dia nos trará, mas todo o futuro está aberto ao Seu olhar onisciente. O conhecimento infinito de Deus deveria encher-nos de santa reverência. Nada do que fazemos, dizemos ou mesmo pensamos, escapa à percepção dAquele a quem teremos que prestar contas: “Os olhos do Senhor estão em todo o lugar, contemplando os maus e os bons” (Provérbios 15:3). Que freio seria para nós, se meditássemos nisso mais freqüentemente! Em vez de agir descuidadamente, diríamos com Hagar: “Tu, ó Deus, me vês” (Gênesis 16:13) — segundo a versão utilizada pelo autor, A capacidade de compreensão que o conhecimento infinito de Deus tem deveria encher o cristão de adoração. Minha vida a inteira esteve aberta ante os Seus olhos desde o princípio! Ele previu todas as minhas quedas, todos os meus pecados, todas as minhas reincidências; todavia, fixou em mim o Seu coração. Como a percepção disto deveria fazer-me prostrar em admiração e ado­ração diante dEle!

 

 4. A PRESCIÊNCIA DE DEUS

 Que controvérsias têm sido engendradas por este assunto no passado! Mas que verdade das Escrituras Sagradas existe que não se tenha tornado em ocasião para batalhas teológicas e eclesiásti­cas? A deidade de Cristo, Seu nascimento virginal, Sua morte expiatória, Seu segundo advento; a justificação do crente, sua santificação, sua segurança; a Igreja, sua organização, oficiais e dis­ciplina; o batismo, a ceia do Senhor, e uma porção doutras pre­ciosas verdades que poderiam ser mencionadas. Contudo, as con­trovérsias sustentadas não fecharam a boca dos fiéis servos de Deus; então, por que deveríamos evitar a disputada questão da presciência de Deus porque, com efeito, há alguns que nos acusa­rão de fomentar contendas? Que outros se envolvam em conten­das, se quiserem; nosso dever é dar testemunho segundo a luz a nós concedida.

Há duas coisas referentes à presciência de Deus que muitos ignoram: o significado do termo e o seu escopo bíblico. Visto que esta ignorância é tão amplamente generalizada, é fácil aos prega dores e mestres impingir perversões deste assunto, até mesmo ao povo de Deus. Só há uma salvaguarda contra o erro: estar firme na fé. Para isso, é preciso fazer devoto e diligente estudo, e receber com singeleza a Palavra de Deus infundida. Só então ficamos fortalecidos contra as investidas dos que nos  atacam.  Hoje em dia existem os que fazem mau uso desta verdade, com o fim de desacreditar e negar a absoluta soberania  de Deus na salvação dos pecadores. Assim como os seguidores da alta crítica repudiam a divina inspiração das Escrituras e os evolucionistas a obra de Deus na  criação,  alguns mestres pseudo-bíblicos  andam  pervertendo a presciência de Deus com o fim de pôr de lado a Sua incondicional eleição para a vida eterna.

Quando se expõe o solene e bendito tema da pré-ordenação divina, e o da eterna escolha feita por Deus de algumas pessoas para serem amoldadas à imagem do Seu  Filho,  o diabo envia alguém para argumentar que a eleição se baseia na presciência de Deus, e esta “presciência” é interpretada no sentido de que Deus previu que alguns seriam mais dóceis que outros, que responderiam mais prontamente aos esforços do Espírito e que, visto que Deus sabia que eles creriam, por conseguinte, predestinou-os para a salvação. Mas tal declaração é radicalmente errônea. Repudia a verdade da depravação total, pois defende que há algo bom em alguns homens. Tira a independência de Deus, pois faz com que seus decretos se apóiem naquilo que Ele descobre na cria­tura. Vira completamente ao avesso as coisas, porquanto ao dizer que Deus previu que certos pecadores creriam em Cristo e, por isso, predestinou-os para a salvação, é o inverso da verdade. As Escrituras afirmam que Deus, em Sua soberania, escolheu alguns para serem recipientes de Seus distinguidos favores (Atos 13:48) e portanto, determinou conferir-lhes o dom da fé. A falsa teologia faz do conhecimento prévio que Deus tem da nossa fé a causa da eleição para a salvação, ao passo que a eleição de Deus é a causa, e a nossa fé em Cristo, o efeito.

Antes de continuar discorrendo sobre este tema, tão errôneamente interpretado, façamos uma  pausa  para  definir os nossos termos. Que se quer dizer por “presciência”? “Conhecer de antemão”, é a pronta resposta de muitos. Mas não devemos tirar conclusões precipitadas, nem tampouco apelar para o dicionário do vernáculo como o supremo tribunal de recursos, pois não se trata de uma questão de etimologia do termo empregado. O que é preciso é descobrir como a palavra é empregada nas Escrituras. O emprego que o Espírito Santo faz de uma expressão sempre define. ” seu significado e escopo. Deixar de aplicar esta regra simples tem causado muita confusão e erro.  Muitíssimas pessoas  presu­mem que já sabem o sentido de certa palavra empregada nas Escrituras, pelo que negligenciam provar as suas pressuposições por meio de uma  concordância.  Ampliemos  este ponto.

Tomemos a palavra “carne”. Seu significado parece tão óbvio, que muitos achariam perda de tempo examinar as suas várias significações nas Escrituras. Depressa se presume que a palavra é sinônima de corpo físico e, assim, não se faz pesquisa nenhuma. Mas, de fato, nas Escrituras “carne” muitas vezes inclui muito mais que a idéia de corpo. Tudo que o termo abrange, só pode ser verificado por uma diligente comparação de cada passagem em que ocorre e pelo estudo de cada contexto, separadamente.

Tomemos a palavra “mundo”. O leitor comum da Bíblia ima­gina que esta palavra equivale a “raça humana” e, conseqüente­mente, muitas passagens que contêm o termo são interpretadas erroneamente. Tomemos a palavra “imortalidade”. Certamente esta não requer estudo! É óbvio que se refere à indestrutibilidade da alma. Ah, meu leitor, é uma tolice e um erro fazer qualquer su­posição, quando se trata da Palavra de Deus. Se o leitor se der ao trabalho de examinar cuidadosamente cada passagem em que se acham “mortal” e “imortal”, verá que estas palavras nunca são aplicadas à alma, porém sempre ao corpo.

Pois bem, o que acabamos de dizer sobre “carne”, “mundo”, e “imortalidade”, aplicasse com igual força aos termos “conhecer” e “pré-conhecer”. Em vez de imaginar que estas palavras não significam mais que simples cognição, é preciso ver que as dife­rentes passagens em que elas ocorrem exigem ponderado e cuida­doso exame. A palavra “presciência” (pré-conhecimento) não se acha no Velho Testamento. Mas “conhecer” (ou “saber”) ocorre ali muitas vezes. Quando esse termo é empregado com referência a Deus, com freqüência significa considerar com favor, denotando não mera cognição, mas sim afeição pelo objeto em vista. “… te conheço por nome” (Êxodo 33:17). “Rebeldes fostes contra o Se­nhor desde o dia em que vos conheci” (Deuteronômio 9:24). “Antes que te formasse no ventre te conheci…” (Jeremias 1:5). “… constituíram príncipes, mas eu não o soube…” (Oséias 8:4). “De todas as famílias da terra a vós somente conheci…” (Amós 3:2). Nestas passagens, “conheci” significa amei ou designei.

Assim também a palavra “conhecer” é empregada muitas vezes no Novo Testamento no mesmo sentido do Velho Testa­mento. “E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci…” (Mateus 7:23). “Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ove­lhas, e das minhas sou conhecido” (João 10:14). “Mas, se al­guém ama a Deus, esse é conhecido dele” (1 Coríntios 8:3). “… o Senhor conhece os que são seus…” (2 Timóteo 2:19).

Pois bem, a palavra “presciência”, como é empregada no Novo Testamento, é menos ambígua que a sua forma simples, “conhecer”. Se cada passagem em que ela ocorre for estudada cuidadosamente, ver-se-á que é discutível se alguma vez se refere apenas à percepção de eventos que ainda estão por acontecer. O fato é que “presciência” nunca é empregada nas Escrituras em relação a eventos ou ações; em lugar disso, sempre se refere a pessoas. Pessoas é que Deus declara que “de antemão conhe­ceu” (pré-conheceu), não as ações dessas pessoas. Para provar isto, citaremos agora cada uma das passagens em que se acha esta expressão ou sua equivalente.

A primeira é Atos 2:23. Lemos ali: “A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, tomando-o vós, o crucificastes e matastes pelas mãos de injustos”. Se se der cuidadosa atenção à terminologia deste versículo, ver-se-á que o apóstolo não estava falando do conhecimento ..anteci­pado que Deus tinha do ato da crucificação, mas sim da Pessoa crucificada: “A este (Cristo) que vos foi entregue”, etc.

A segunda é Romanos 8:29-30. “Porque os que dantes co­nheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho; a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou”, etc. Considere-se bem o pronome aqui empregado. Não se refere a algo, mas a pessoas, que ele conheceu de antemão. O que se tem em vista não é a submissão da vontade, nem a fé .do coração, mas as pessoas mesmas.

“Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu…” (Ro­manos 11:2). Uma vez mais a clara referência é a pessoas, e so­mente a pessoas.

A última citação é de 1 Pedro 1:2: “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai…” Quem são “eleitos segundo a presciência de Deus Pai”? O versículo anterior nô-lo diz: a referência é aos “estrangeiros dispersos”, isto é, a Diáspora, Dispersão, os judeus crentes. Portanto, aqui também a referência é a pessoas, e não aos seus atos previstos.

Ora, em vista destas passagens (e não há outras mais), que base bíblica há para alguém dizer que Deus “pré-conheceu” os atos de certas pessoas, a saber, o seu “arrependimento e fé” e que devido a esses atos Ele as elegeu para a  salvação?   A  resposta é:   absolutamente nenhuma. As Escrituras nunca falam de arrependimento e fé como tendo sido previsto ou pré-conhecido por Deus. Na verdade, Ele sabia desde toda a eternidade que certas pessoas se arrependeriam e creriam; entretanto,  não é a isto que as Escrituras se referem como objeto da “presciência” de Deus.  Esta palavra se refere uniformemente  ao  pré-conhecimento de pessoas; portanto, conservemos “…o modelo das sãs palavras.. .” (2 Timóteo 1:13).

Outra coisa para a qual desejamos chamar particularmente a atenção é que as duas primeiras passagens acima citadas mostram com clareza e  ensinam   implicitamente  que  a   “presciência” de Deus não é causativa, pelo contrário, alguma outra realidade está por trás dela e a precede, e essa realidade é o Seu decreto soberano   Cristo “…   foi entregue pelo  (1) determinado conselho e (2) presciência de Deus” (Atos 2:23). Seu “conselho” ou decreto foi  a base  da  Sua presciência.  Assim  também em  Romanos 8-29. Esse versículo começa com a palavra “porque”, conjunção que nos leva a examinar o que o precede Imediatamente. E o que diz o versículo anterior?  “… todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles… que são chamados por seu decreto”. Assim é que a “presciência” de Deus baseia-se em seu decreto (ver Salmo 2:7).

Deus conhece de  antemão o que será porque  Ele decretou o que há de ser. Portanto, afirmar que Deus elege pessoas porque as pré-conhece é inverter a ordem das Escrituras, é pôr o carro na frente dos bois. A verdade é esta:  Ele as  “pré-conhece” porque as  elegeu. Isto retira da criatura a base ou causa da eleição, e a coloca na soberana vontade de Deus. Deus Se propôs eleger certas pessoas, não por haver nelas ou por proceder delas alguma coisa boa, quer concretizada quer prevista, mas unicamente por Seu beneplácito. Quanto ao por que Ele escolheu os que escolheu, não sabemos, e só podemos dizer: “Sim, ó Pai, porque assim te aprouve” (Mateus 11:26). A verdade patente em Romanos 8:29 é que Deus, antes da fundação do mundo, elegeu certos pecadores e os destinou para a salvação (2 Tessalonicenses 2:13). Isto se vê com clareza nas palavras finais do versículo: “… os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho”, etc. Deus não predestinou aqueles que “dantes conheceu” sabendo que eram “conformes”, mas. Ao contrário, aqueles que Ele “dantes conheceu” (isto é, que Ele amou e elegeu), “predestinou para serem conformes”. Sua conformidade a Cristo não é a causa, mas o efeito da presciência e predestinação divina.

Deus não elegeu nenhum pecador porque previu que creria, pela razão simples, mas suficiente, de que nenhum pecador jamais crê enquanto Deus não lhe dá fé; exatamente como nenhum homem pode ver antes que Deus lhe dê a vista. A vista é dom de Deus, e ver é a conseqüência do uso do Seu dom. Assim também a fé é dom de Deus (Efésios 2:8-9), e crer é a conseqüência do uso deste Seu dom. Se fosse verdade que Deus elegeu alguns para serem salvos porque no devido tempo eles creriam, isso tornaria o ato de crer num ato meritório e, nesse caso, o pecador salvo teria motivo para gloriar-se, o que as Escrituras negam enfaticamente: Efésios 2:9.

Certamente a Palavra de Deus é bastante clara ao ensinar que crer não é um ato meritório. Afirma ela que os cristãos vieram a crer “pela graça” (Atos 18:27). Se, pois, eles vieram a crer “pela graça”, absolutamente não há nada de meritório em “crer”, e, se não há nada de meritório nisso, não poderia ser o motivo ou causa que levou Deus a escolhê-los. Não; a escolha feita por Deus não procede de coisa nenhuma existente em nós, ou que de nós provenha, mas unicamente da Sua soberana boa vontade. Mais uma vez, em Romanos 11:5 lemos sobre “… um resto, segundo a eleição”. Eis aí, suficientemente claro; a eleição mesma é “da graça”, e da graça é favor imerecido, coisa a que não tínhamos direito nenhum diante de Deus.

Vê-se, pois, como é importante para nós, termos idéias claras e bíblicas sobre a “presciência” de Deus. Os conceitos errôneos sobre ela, inevitavelmente levam a idéias que desonram em extremo a Deus. A noção popular da presciência divina é inteiramente inadequada. Deus não somente conheceu o fim desde o princípio, mas planejou, fixou, predestinou tudo desde o princípio. E, como a causa está ligada ao efeito, assim o propósito de Deus é o fundamento da Sua presciência. Se, pois, o leitor é um cristão verdadeiro, é porque Deus o escolheu em Cristo antes da fundação do mundo (Efésios 1:4),  e o fez não porque previu que você creria, mas simplesmente porque Lhe agradou fazê-lo; você foi escolhido apesar da tua incredulidade natural. Sendo assim, toda a glória e louvor pertence a Deus somente. Você não tem base nenhuma para arrogar-se crédito algum. Você creu “pela graça” (Atos 18:27), e isso porque a tua própria eleição foi “da graça” (Romanos 11:5)

5. A SUPREMACIA DE DEUS

 Numa de suas cartas a Erasmo, disse Lutero: “As tuas idéias sobre Deus são demasiado humanas”. Provavelmente o renomado erudito se ofendeu com aquela censura, ainda mais que vinha do filho de um mineiro; não obstante, foi mais que merecida.

Nós também, embora não ocupando nenhuma posição entre os líderes religiosos desta era degenerada, proferimos a mesma acusação contra a maioria dos pregadores dos nossos dias, e con­tra aqueles que, em vez de examinarem pessoalmente as Escri­turas, preguiçosamente aceitam o ensino de outros. Atualmente se sustentam, em quase toda parte, os mais desonrosos e degra­dantes conceitos do governo e do reino do Todo-poderoso.  Para incontáveis milhares, mesmo entre cristãos professos, o Deus das Escrituras é completamente desconhecido.

Na antigüidade, Deus queixou-se a um Israel apóstata: “… pensavas que (eu) era como tu…” (Salmo 50:21). Semelhan­te a essa terá que ser a Sua acusação contra uma cristandade após­tata. Os homens imaginam que o que move a Deus são os senti­mentos, e não os princípios. Supõe que a Sua onipotência é uma ociosa ficção, a tal ponto que Satanás desbarata os Seus desígnios por todos os lados. Acham que, se Ele formulou algum plano ou propósito, deve ser como o deles, constantemente sujeito a mu­dança. Declaram abertamente que, seja qual for o poder que Ele possui, terá que ser restringido, para que não invada a cidadela do “lívre-arbítrio” humano, e o reduza a uma “máquina”. Re­baixam a toda eficaz expiação, a qual de fato redimiu a todos aqueles pelos quais foi feita, fazendo dela um mero “remédio” que as almas enfermas pelo pecado podem usar se se sentem dis­postas a fazê-lo; e enfraquecem a invencível obra do Espírito Santos, reduzindo-a a um “oferecimento” do evangelho que os pecadores podem aceitar ou rejeitar a seu bel-prazer.

O Deus deste século vinte não se assemelha mais ao Soberano Supremo das Escrituras Sagradas do que a bruxuleante e fosca chama de uma vela se assemelha à glória do sol do meio-dia. O Deus de que se fala atualmente no púlpito comum, comentado na escola dominical em geral, mencionado na maior parte da lite­ratura religiosa da atualidade e pregado em muitas das conferên­cias bíblicas, assim chamadas, é uma ficção engendrada pelo ho­mem, uma invenção do sentimentalismo piegas. Os idolatras do lado de fora da cristandade fazem “deuses” de madeira e de pedra, enquanto que os milhões de idolatras que existem dentro da cris­tandade fabricam um Deus extraído de suas mentes carnais. Na realidade, não passam de ateus, pois não existe alternativa possí­vel senão a de um Deus absolutamente supremo, ou nenhum deus. Um Deus cuja vontade é impedida, cujos desígnios são frustra­dos, cujo propósito é derrotado, nada tem que se lhe permita chamar Deidade, e, longe de ser digno objeto de culto, só merece desprezo.

A distância infinita que separa do todo-poderoso Criador as mais poderosas criaturas é um argumento em favor da supremacia do Deus vivo e verdadeiro. Ele é o Oleiro, elas são em Suas mãos apenas o barro que pode ser modelado para formar vasos de honra, ou pode ser esmiuçado (Salmo 2:9), como Lhe apraz. Se todos os habitantes do céu e todos os moradores da terra se juntassem numa rebelião contra Ele, não Lhe causariam perturba­ção e isso teria ainda menor efeito sobre o Seu trono eterno e inexpugnável do que o efeito da espuma das ondas do Mediter­râneo sobre o alto rochedo de Gibraltar. Tão pueril e impotente .é a criatura para afetar o Altíssimo, que as próprias Escrituras nos dizem que quando os príncipes gentílicos se unirem com Israel apóstata para desafiar a Jeová e Seu Ungido, “aquele que habita nos céus se rirá; o Senhor zombará deles” (Salmo 2:4).

Muitas passagens das Escrituras afirmam clara e positivamen­te a absoluta e universal supremacia de Deus. “Tua é, Senhor, a magnificência, e o poder, e a honra, e a vitória, e a majestade; porque teu é tudo quanto há nos céus e na terra; teu é Senhor, o reino, e tu te exaltaste sobre todos corno chefe … e tu dominas sobre tudo…” (1 Crônicas 29:11-12). Observe-se, diz “dominas” agora, e não diz “dominarás no milênio”. “Ah! Senhor, Deus de nossos pais, porventura não és tu Deus nos céus? Pois tu és Dominador sobre todos os reinos das gentes, e na tua mão há força e poder, e não há quem te possa resistir” (nem o pró­prio diabo) (2 Crônicas 20:6). Perante Ele, presidentes e papas, reis e imperadores, são menos que gafanhotos. “Mas, se ele está contra alguém, quem então o desviará? O que a sua alma quiser isso fará” (Jó 23:13). Ah, meu leitor, o Deus das Escrituras não é um falso monarca, nem um mero soberano imaginário, mas Rei dos reis e Senhor dos senhores. “Sei que tudo podes, e nenhum dos teus pensamentos pode ser impedido (Jó 42:2, ou, segundo outro tradutor, “nenhum dos teus propósitos pode ser frustrado”. Tudo que designou fazer, Ele o faz. Realiza tudo quanto decretou. “Mas o nosso Deus está nos céus: faz tudo o que lhe apraz” (Salmo 115:3). Por que? Porque “não há sabedoria nem inteligência, nem conselho contra o Senhor” (Provérbios 21:30).

As Escrituras retratam vividamente a supremacia de Deus sobre as obras de Suas mãos. Toda matéria inanimada e todas as criaturas irracionais executam as ordens do seu Criador. Por Sua vontade dividiu-se o Mar Vermelho e suas águas se levantaram e ficaram eretas como paredes (Êxodo 14); e a terra abriu suas fauces e os rebeldes carregados de culpa foram tragados vivos pelo abismo (Números 14). À Sua ordem o sol se deteve (Josué 10), e, noutra ocasião, voltou atrás dez graus do relógio de Acaz (Isaías 38:8). Para exemplificar Sua supremacia, mandou corvos levarem alimento a Elias (1  Reis  17), fez o ferro flutuar (2 Reis 6:5), manteve mansos os leões quando Daniel foi lançado na cova des­sas feras, fez que o fogo não queimasse os três hebreus que foram arrojados às chamas da fornalha. Assim, “Tudo o que o Senhor quis, ele o fez nos céus e na terra, nos mares e em todos os abismos” (Salmo 135:6).

O perfeito domínio de Deus sobre a  vontade dos homens também demonstra a Sua supremacia, Pondere o leitor cuidadosa­mente sobre Êxodo 34:24, Exigia-se que todos os varões de Israel saíssem de casa e fossem a Jerusalém, três vezes por ano. Viviam entre gente hostil, que os odiava por se terem apropriado das suas terras. Então, o que é que impedia aos cananeus aproveitarem a oportunidade e, durante a ausência dos homens, matarem as mu­lheres e as crianças e se apossarem de suas fazendas? Se a mão do Onipotente não estivesse até mesmo sobre a vontade dos ímpios, como poderia Ele ter feito esta promessa, de que ninguém sequer cobiçaria suas terras? Ah, “Como ribeiros de águas, assim é o coração do rei na mão do Senhor; a tudo quanto quer o inclina” (Provérbios 21:1). Mas, poder-se-ia objetar, não lemos uma e outra vez nas Escrituras sobre como os homens desafiavam a Deus, re­sistiam à Sua vontade, transgrediam os Seus mandamentos, me­nosprezavam as Suas advertências e faziam ouvidos moucos a todas as Suas exortações? Certamente que sim; B isto anula tudo que dissemos acima? Se anula, então é evidente que a Bíblia se contradiz, Mas isso não pode ser. A objeção se refere simples­mente à iniqüidade do homem em rebelião contra a Palavra de Deus, escrita ao passo que mencionamos acima o que Deus se propôs em Si mesmo. A regra de conduta que Ele nos dá para seguirmos não é cumprida perfeitamente por nenhum de nós; os Seus “conselhos” eternos são realizados nos mínimos detalhes.

O Novo Testamento afirma com igual clareza e firmeza a absoluta e  universal  supremacia   de  Deus.   Ali se nos  diz que Deus “…  faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade” (Efésios 1:11). A palavra grega traduzida por “faz” significa “fazer eficazmente”.  Por esta razão, lemos:   “Porque  dele por ele, e para ele, são todas as coisas; glória pois a ele eternamente. Amém” (Romanos 11:56). Os homens podem jactar-se: de que são agentes livres, com vontade própria, e de que têm liberdade de fazer o que querem, mas as Escrituras dizem aos que se jactam:  “…. vós que dizeis: hoje, ou amanhã, iremos a tal cidade, e lá passaremos um ano, e contrataremos, e ganharemos… em   lugar  do  que devíeis dizer:  Se o  Senhor quiser   (Tiago, 5:13-15),

Há aqui, pois, um lugar de repouso para o coração. A nossa vida não é, nem produto do destino cego, nem resultado do acaso caprichoso, mas todas as suas minudências foram prescritas desde toda a eternidade e agora são ordenadas por Deus que vive e reina. Nem um fio de cabelo de nossa cabeça pode ser tocado, sem a Sua permissão. “O coração do homem considera o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos” (Provérbios 16:9). Que segurança, que poder, que consolo isso deveria dar ao cristão real! “Os meus tempos estão nas tuas mãos…” (Salmo 31:15). Portanto digo a mim mesmo: “Descansa no Senhor, e espera nele…” (Salmo 37:7).

6. A SOBERANIA DE DEUS

 Pode-se definir a soberania de Deus como o exercício de Sua supremacia, estudada no capítulo  anterior.  Sendo infinitamente elevado acima da mais elevada criatura, Ele é o Altíssimo, o Senhor dos céus e da terra. Não sujeito a ninguém, não influenciado por nada, absolutamente independente: Deus age como Lhe apraz, somente como Lhe apraz, sempre como Lhe apraz. Ninguém con­segue frustrá-lo nem impedi-Lo. Assim, Sua Palavra declara ex­pressamente: “… o meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade (Isaías 46:10). “… segundo a sua vontade ele ope­ra com o exército do céu e os moradores da terra: não há quem possa estorvar a sua mão…” (Daniel 4:35). O sentido da sobe­rania divina é que Deus é Deus de fato, bem como o é de nome, que Ele ocupa o trono do universo dirigindo todas as coisas, fazendo todas as coisas “… segundo o conselho da sua vontade” (Efésios 1:11).

Acertadamente disse o senhor Spurgeon em seu sermão sobre Mateus 20:15; “Não há atributo mais consolador para os Seus filhos do que o da soberania de Deus, Sob as circunstâncias mais adversas, em meio às mais duras provações, eles crêem que Deus na Sua soberania ordenou as suas aflições, que Ele as dirige soberanamente, e que na Sua soberania santificará todas elas? Para os filhos de Deus não deveria haver nada por que lutar mais zelosamente do que a doutrina de que o seu Senhor domina toda a criação — do reinado de Deus sobre todas as obras de Suas mãos — do trono de Deus e Seu direito de ocupar esse trono. Por outro lado, não há doutrina mais odiada pelos mundanos, nenhuma verdade de que tenham feito joguete a tal ponto como a grandiosa, estupenda, porém certíssima doutrina da soberania do infinito Jeová. Os homens se dispõem a permitir que Deus esteja em toda parte, menos no Seu trono. Dispõem-se a deixá-lo em Sua oficina formando mundos e criando estrelas. Deixarão que esteja em Seu dispensário a distribuir esmolas e a conceder be­nefícios. Permitirão que fique sustentando a terra e mantendo firmes as suas colunas, que acenda os luzeiros do céu e governe as irrequietas ondas do oceano; mas quando Deus sobe ao Seu trono. Suas criaturas rangem os dentes, e quando nós proclamamos um Deus entronizado, e Seu direito de fazer o que quiser com o que lhe pertence, como também de dispor de Suas criaturas como Ele achar melhor, sem consultá-las sobre a questão, então os homens nos vaiam, nos amaldiçoam e se fazem de surdos para não nos ouvir, porquanto Deus no Seu trono não é o Deus que eles amam. Mas é Deus no Seu trono que muito nos agrada pregar. É em Deus no Seu trono que confiamos”.

“Tudo que o Senhor quis, ele o fez, nos céus e na terra, nos mares e em todos os abismos’ (Salmo 135:6). Sim, dileto leitor, tal é o imperial Potentado revelado nas Escrituras Sagradas. Sem rival em majestade, ilimitado em poder, imune de tudo quanto Lhe é alheio. Mas estamos vivendo dias em que até mesmo os mais “ortodoxos” parecem ter medo de admitir em termos pró­prios a deidade de Deus. Dizem que acentuar a soberania de Deus exclui a responsabilidade humana quando, na verdade, a responsabilidade humana baseia-se na soberania divina e desta é  resultado.

“Mas o nosso Deus está nos céus: faz tudo o que lhe apraz” (Salmo 115:3). Ele escolheu soberanamente colocar cada uma de Suas criaturas na condição que pareceu bem aos seus olhos. Deus criou anjos: a alguns, colocou num estado condicional; a outros, deu uma posição imutável diante dEle (I Timóteo 5:21), estabe­lecendo Cristo como sua cabeça (Colossenses 2:10). Não passemos por alto o fato de que tanto os anjos que pecaram (2 Pedro 2:5) como os que não pecaram, eram Suas criaturas. Contudo, Deus previu que aqueles cairiam; não obstante, colocou-os num estado condicional, próprio das criaturas mutáveis, e permitiu que caíssem, embora não sendo o Autor do pecado deles.

Assim também Deus colocou soberanamente Adão no jardim do Éden num estado condicional, Se Lhe aprouvesse, tê-lo-ia colo­cado num estado incondicional; poderia tê-lo colocado numa po­sição tão firme como a dos anjos que não caíram, posição tão segura e imutável como a dos santos em Cristo. Em vez disso, porém, preferiu colocá-lo no Éden sobre a base da responsabili­dade como criatura, de modo que permanecesse ou caísse con­forme correspondesse ou não à sua responsabilidade — de obe­diência ao seu Criador. Adão foi feito responsável a Deus pela lei que o Criador lhe deu. Responsabilidade existia aí no jardim, responsabilidade intacta, submetida à prova sob as mais favoráveis condições.

Ora, Deus não colocou Adão num estado condicional e de criatura responsável porque fazê-lo era justo. Não, era justo porque Deus o fez. Tampouco Deus deu existência às criaturas porque era justo que o fizesse, isto é, porque estava obrigado a criar; mas sim era justo porque Ele o fez. Deus é soberano. Sua vontade é suprema. Longe de estar sujeito a qualquer lei sobre “direito”, Deus é lei para Si próprio, de modo que tudo quanto Ele faz é justo. E ai do rebelde que levante questão sobre a Sua soberania! — “Ai daquele que contende com o seu Criador! O caco entre outros cacos de barro! Porventura dirá o barro ao que o formou: Que fazes?…” (Isaías 45:9).

Ainda mais, o Senhor Deus colocou soberanamente Israel numa posição condicional. Os capítulos 19, 20 e 24 de Êxodo dão provas abundantes e claras disto. Israel estava sob um pacto de obras. Deus lhe deu certas leis e fez que as bênçãos para a nação dependessem da sua observância dos estatutos divinos. Mas Israel era duro de cerviz e incircunciso de coração. Rebelou-se contra Jeová, abandonou Sua Lei, voltou-se para os falsos deu­ses, apostatou. Em conseqüência, o juízo divino caiu sobre Israel e este foi entregue às mãos dos seus inimigos, foi disperso por toda a terra, e até hoje permanece sob a pesada severidade do desfavor de Deus.

Foi Deus que, no exercício de Sua sublime soberania, colo­cou Satanás e seus anjos, Adão e Israel em suas respectivas posi­ções de responsabilidade. Entretanto, longe de acontecer que a Sua soberania retirasse das criaturas a sua responsabilidade, foi pelo exercício da mesma que Ele as colocou em estado condicio­nal j sob as responsabilidades que julgou apropriadas; em virtude de cuja soberania, vê-se que Ele é Deus sobre todos. Assim, há perfeita harmonia entre a soberania de Deus e a responsabilidade da criatura. Muitos têm dito tolamente que é de todo impossível mostrar onde termina a soberania divina e começa a responsabi­lidade da criatura. A responsabilidade da criatura começa aqui: na ordenação soberana do Criador. Quanto à Sua soberania, não há e nunca haverá nenhum “fim” para ela!

Vamos dar algumas provas de que a responsabilidade da criatura baseia-se na soberania de Deus. Quantas coisas estão re­gistradas nas Escrituras e que eram justas porque Deus as orde­nou, e não seriam justas se Ele não as tivesse ordenado! Que direito tinha Adão de “comer” das árvores do jardim? Sem a permissão do seu Criador (Gênesis 2:16), Adão teria sido um la­drão! Que direito Israel tinha de pedir prata, ouro e vestes aos egípcios (Êxodo 12:35)? Nenhum, se Jeová não o tivesse autori­zado (Êxodo 3:22). Que direito possuía Israel de matar tantos cordeiros para sacrifício? Nenhum, a não ser pelo fato de que Deus ordenou isso. Que direito Israel tinha de eliminar todos os cananeus? Nenhum, salvo porque Jeová mandou. Que direito tem o marido de exigir submissão da esposa? Nenhum, se Deus não o tivesse estipulado. E poderíamos prosseguir nisso mais e mais. A responsabilidade humana está baseada na soberania divina.

Mais um exemplo do exercício da absoluta soberania de Deus. Deus colocou os Seus eleitos num estado diferente do de Adão ou Israel. Colocou-os num estado incondicional. No pacto eterno Cristo foi designado a Cabeça deles, levou sobre Si as suas responsabilidades e cumpriu por eles uma justiça perfeita, irre­vogável e eterna. Cristo foi colocado num estado condicional, pois Ele estava “debaixo da lei, para ganhar os que estavam debaixo da lei”, só que com esta diferença infinita: os outros falharam: Ele não falhou e não podia falhar. E quem foi que colocou Cristo naquele estado condicional? O Trino Deus. A vontade soberana O designou, o amor soberano O enviou, e a autoridade soberana determinou a Sua obra.

Certas condições foram postas diante do Mediador. Ele teria que ser feito em semelhança da carne do pecado; teria que en­grandecer, e dignificar a lei; teria que levar em Seu corpo no madeiro todos os pecados do povo de Deus; teria que fazer plena expiação por eles; teria que suportar o derramamento da ira de Deus; e teria que morrer e ser sepultado. Pelo cumprimento des­sas condições, era-Lhe oferecida uma recompensa: Isaías 53:10-12. Ele haveria de ser o Primogênito entre muitos irmãos; haveria de ter um povo que participaria de Sua glória. Bendito seja o Seu nome para sempre, pois Ele cumpriu essas condições e, uma vez que as cumpriu, o Pai está comprometido, com juramento solene, a preservar sempre e abençoar por toda a eternidade cada um daqueles pelos quais o Seu Filho encarnado fez mediação. Desde que Ele tomou o lugar deles» agora eles participam do dEle. Sua justiça é deles, Sua posição diante de Deus é deles. Sua vida é deles. Não lhes resta sequer uma condição para cumprir, nem uma só responsabilidade da qual desincumbir-se para alcançarem a bem-aventurança eterna. “…  com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados” (Hebreus 10:14).

Eis aí, pois, a soberania de Deus exposta abertamente diante de todos nas diferentes formas pelas quais Ele se relaciona com as Suas criaturas. Alguns dos anjos, Adão e Israel foram coloca­dos numa posição condicional, na qual a continuidade da bênção dependia da sua obediência e fidelidade a Deus. Porém, em mar­cante contraste com  eles,  o  “pequeno  rebanho”   (Lucas   12:32) recebeu uma posição incondicional e imutável no pacto de Deus. nos Seus conselhos e em Seu Filho; a bênção dele depende do que Cristo fez por ele, “… o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: o Senhor conhece os que são seus…” (2 Timó­teo 2:19), O fundamento sobre o qual estão os eleitos de Deus é perfeito; nada se lhe pode acrescentar, e nada se lhe pode tirar (Eclesiastes 3:14). Eis aqui, pois, a maior e mais elevada demons­tração da absoluta soberania de Deus. Verdadeiramente, Ele “… compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer” (Ro­manos 9:18).

  

 7. A IMUTABILÍDADE DE DEUS

 Esta é uma das perfeições divinas não suficientemente exa­minadas. É uma das excelências do Criador que O distinguem de todas as Suas criaturas. Deus é perpetuamente o mesmo: não sujeito a mudança nenhuma em Seu ser, em Seus atributos e em Suas determinações. Daí, Deus é comparado a uma rocha (Deuteronômio 32:4, etc.) que permanece inamovível quando todo o oceano circundante está numa condição de contínua oscilação, exatamente assim, conquanto sendo sujeitas a mudança todas as criaturas, Deus é imutável. Visto que Deus não tem princípio nem fim, não pode experimentar mudança.   Ele é eternamente o “… Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação” (Tiago  1:17).

Primeiro, Deus é imutável em Sua essência. Sua natureza  e Seu  ser   são  infinitos  e,  assim,  são   sujeitos   a mutação  alguma, jamais houve tempo quando Ele não era; jamais virá tempo quando Ele deixará de ser. Deus não evoluiu, nem cresceu, nem melhorou. Tudo que Ele é hoje, sempre foi e sempre será. “…eu, o Senhor, não mudo…” (Malaquias 3:6) é a Sua afirmação categórica. Ele não pode mudar para melhor, pois já é perfeito; e, sendo perfeito, não pode mudar para pior. Completamente imune de tudo quanto Lhe é alheio, é impossível melhoramento ou deterioração. Ele é perpetuamente o mesmo. Somente Ele pode dizei “…EU SOU O QUE SOU…” (Êxodo 3:14). Ele é absolutamente livre da influência do curso do tempo. Não há um vinco sequer nos sobrolhos da eternidade. Portanto, o Seu poder jamais pode diminuir, nem Sua glória desvanecer-se.

Segundo, Deus é imutável em Seus atributos. Tudo que atributos de Deus eram antes do universo ser chamado à existência, são precisamente o mesmo agora, e permanecerão assim para sempre. E isto necessariamente, pois eles são as próprias perfeições, as qualidades essenciais do Seu ser, Semper idem (sempre o mesmo) está escrito em cada um deles.  Seu poder é imbatível, Sua sabedoria não sofre diminuição. Sua santidade é imaculada. Os atributos de Deus não podem sofrer mudança mais do que a Deidade pode deixar de existir. Sua veracidade é imutável, pois a Sua Palavra “…permanece no  céu” (Salmo   119:89).   Seu amor é eterno:  “…com  amor  eterno  te amei…”   (Jeremias 31:3) e “…como havia amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até o fim” (João 13:1). Sua misericórdia não cessa, pois, é “eterna” (Salmo 100:5).

Terceiro, Deus é imutável em Seu conselho. Sua vontade nunca muda. Talvez alguns estejam prestes a objetar que lemos, “Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem.. . ” (Gê­nesis 6;6). Nossa primeira resposta é: então as Escrituras se con­tradizem? Não, isso não pode ser. Números 23:19. é suficiente­mente claro; “Deus não é homem, para que minta: nem filho do homem, para que se arrependa. ..” (Números 23:19). Assim tam­bém em 1 Samuel 15:29: “… a Força de Israel não mente nem se arrepende: porquanto não é um homem para que se arrepen­da”. A explicação é deveras simples. Quando fala de si mesmo, Deus freqüentemente acomoda a Sua linguagem às nossas capa­cidades limitadas. Ele Se descreve a Si mesmo como revestido de membros corporais como olhos, ouvidos, mãos, etc. Fala de Si como tendo despertado (Salmo 78:65) e como “madrugando” (Jeremias 7:13), apesar de que Ele não cochila nem dorme. Quan­do Ele estabelece uma mudança em Seu procedimento para com os homens, descreve a Sua linha de conduta em termos de arre­pender-se.

Sim, Deus é imutável em Seu conselho. “Os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento” (Romanos 11:29). Só pode ser assim, pois, “… se ele está contra alguém, quem então o desviará? Q que a sua alma quiser isso fará” (To 23:13). “Mu­dança e declínio vemos em tudo ao redor; 6 Aquele que não muda, permaneça contigo onde quer que for”. O propósito de Deus nunca se altera. Uma destas duas coisas faz com que um homem mude de opinião e inverta os seus planos: falta de pre­visão para antecipar tudo, ou ausência de poder para executar o que planeja. Mas visto que Deus é onisciente assim como é onipotente, nunca Lhe é necessário rever Seus decretos. Não, “O conselho do Senhor permanece para sempre: os intentos do seu coração de geração em geração” (Salmo 33:11). Portanto, podemos ler sobre “… a imutabilidade do seu conselho…” (Hebreus 6:17).

Aqui podemos perceber a distância infinita que separa do Criador a criatura mais elevada. Mutabilidade e criatura são ter­mos correlatos, Se a criatura não fosse mutável por natureza, não seria criatura; seria Deus. Por natureza tendemos para o nada, como do nada viemos. Nada detém a nossa aniquilação, exceto a vontade e o poder sustentador de Deus. Ninguém pode manter-se nem por um momento. Dependemos do Criador para cada sorvo de ar que aspiramos. Alegremente concordamos com o salmista em que o Senhor sustenta “.. . com vida a nossa alma…” (Salmo 66:9). A compreensão disto deveria fazer com que nos prostrássemos sob o senso da nossa nulidade na presença dAquele em quem “…vivemos, e nos movemos, e existimos…” (Atos 17:28).

Como criaturas decaídas, não somente somos mutáveis, mas tudo em nós é oposto a Deus. Como tais, somos “… estrelas errantes. . , ” (Judas 15), fora da nossa órbita. “… os ímpios são como o mar agitado que não se pode aquietar” (Isaías 57:20). O homem decaído é inconstante. As palavras de Jacó referentes a Rubem aplicam-se com força total a todos os descendentes de Adão; “Inconstante como a água…” (Gênesis 49:4), Desta ma­neira, não é apenas sinal de vida piedosa, mas também elemento de sabedoria, dar ouvido à injunção: “Deixai-vos pois do ho­mem…”‘ (Isaías 2:22), Não se deve ficar na dependência de nenhum ser humano. “Não confieis em príncipes nem em filhos de homens, em quem não há salvação” (Salmo 146:5). Se desobedeço a Deus, mereço ser enganado por meus companheiros de i existência e decepcionar-me com eles. Pessoas que gostam de você hoje, poderão odiá-lo amanhã. A multidão que clamou “Hosana: bendito o rei de Israel que vem em nome do Senhor”, depressa passou a bradar: “…  tira, tira, crucifica-o (João 12:13;  19:15).

Aqui há firme consolação. Não se pode confiar na natureza humana, mas em Deus sim! Por mais inconstante que eu seja7 por mais volúveis que os meus amigos se mostrem, Deus não muda. Se Ele mudasse como nós, se quisesse uma coisa hoje e outra amanhã, e se fosse controlado por capricho, quem poderia confiar nEle? Mas, todo o louvor ao Seu glorioso nome, Ele é_ sempre o mesmo. Seu propósito é firme, Sua vontade estável, Sua palavra segura. Aqui, pois, está uma Rocha em que podemos firmar os nossos pés, enquanto a poderosa torrente leva tudo de arrasto ao nosso redor. A permanência do caráter de Deus garante o cumprimento de Suas promessas; “Porque as montanhas se des­viarão e os outeiros tremerão; mas a minha benignidade não se desviará de ti, e o concerto da minha paz não mudará, diz o Senhor, que se compadece de ti” (Isaías 54:10).

Aqui há incentivo para a oração, “Que consolo haveria em orar a um deus que, como o camaleão, mudasse de cor a cada momento? Quem elevaria uma petição a um príncipe terreno que fosse tão mutável que atenderia a um pedido um dia e o negaria no dia seguinte?” (S. Charnock, 1670), Se alguém perguntar: “Mas que utilidade hã em orar a um Ser. cuja vontade já foi fi­xada? Respondemos: Porque Ele o exige. Que bênçãos Deus prome­teu sem que nós as busquemos? “.., se pedirmos alguma coisa, segundo a sua vontade, ele nos ouve” (1 João 5:14), e Ele sempre quis tudo que é para o bem dos Seus filhos.

Aqui há terror para os ímpios. Os que O desafiam, transgridem Suas leis, não têm interesse em Sua glória, mas vivem como se Ele não existisse, não devem imaginar que, quando no dia final clamarem a Ele por misericórdia, Ele mudará a Sua von­tade, revogará a Sua Palavra e rescindirá as suas ameaças terrí­veis. Não. Ele declarou: “Pelo que também eu procederei com furor; o meu olho não poupará, nem terei piedade: ainda que me gritem aos ouvidos com grande voz, eu não os ouvirei” (Ezequiel 8:18). Deus não Se negará a Si próprio para gratificar a luxúria deles. Deus é santo, imutavelmente santo. Portanto, Deus odeia o pecado; eternamente odeia o pecado. Daí a eternidade do castigo de todos quantos morrem em seus pecados.

“A imutabilidade divina, como a nuvem que se interpunha entre os israelitas e o exército egípcio, tem um lado escuro, bem como um lado claro. Ela assegura a execução das Suas ameaças, como também a concretização das Suas promessas; e destrói a esperança, carinhosamente acalentada pelos culpados, de que Deus será todo brandura para as Suas frágeis e errantes criaturas, e de que serão tratados de modo muito mais leve do que as declara­ções da Sua Palavra nos levam a esperar. Contrapomos a estas especulações enganosas e  presunçosas  a  solene  verdade  de  que Deus é imutável em Sua veracidade e propósito, em Sua fidelidade e justiça” (J, Dick, 1850).

 

 8. A SANTIDADE DE DEUS

 ”Quem te não temerá, ó Senhor e não magnificará o teu nome? Porque só tu és santo…” (Apocalipse 15:4). Somente Ele é independente, infinita e imutavelmente santo. Muitas vezes Ele é intitulado “O Santo* nas Escrituras. Sim, porque se acha nEle a soma total de todas as excelências morais, Ele é pureza absoluta, que nem mesmo a sombra do pecado mancha. “…Deus é luz…” (1 João 1:5). A santidade é a excelência propriamente dita da natureza divina: o grande Deus é “… glorificado em santidade…” (Êxodo 15:11). Daí lermos: Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal, e a vexação não podes contem­plar…” (Habacuque 1:15). Como o poder de Deus é o oposto da fraqueza inata da criatura, como a Sua sabedoria está em contraste com o menor defeito de entendimento ou com a menor insensatez, assim a Sua santidade é a própria antítese de toda mancha ou corrupção moral. No passado Deus designou cantores em Israel para “que louvassem a Majestade santa”, ou, na versão utilizada pelo autor, “que louvassem a beleza da santidade” (2 Crônicas 20:21). “O poder á a mão ou o braço de, Jesus, a  onisciência os Seus olhos, a misericórdia as Suas entranhas, a eter­nidade a Sua duração, mas a santidade é a Sua beleza” (S. Charnock). É isto Que, acima de tudo. torna-O amorável aos que fo­ram libertos do domínio do pecador.

Grande ênfase é dada a esta perfeição de Deus. “Deus é com mais freqüência intitulado Santo do que Onipotente, e é mais exposto por esta parte da Sua dignidade do que por qualquer outra. É fixada ao Seu nome como um (epitéto) mais do que qual­quer outra, Você jamais o vê expresso,”Seu poderoso nome” ou “Seu sábio nome”, mas Seu grande nome e, acima de tudo, Seu santo nome. Este é o maior título de honrar neste último transpa­recem a majestade e a venerabilidade do Seu nome?; (S. Charnock). Como nenhuma outra, esta perfeição é celebrada diante do trono do céu, bradando os serafins: “… Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos…” (Isaías 6:3), Deus mesmo coloca em distinção esta perfeição: “Uma vez jurei por minha santidade que não mentirei a Davi”  (Salmo 89:35). Deus jura por Sua “santidade porque esta é uma expressão do Seu ser, expressão mais completa que qualquer outra coisa. Eis porque somos exortados: “Cantai ao Senhor, vós que sois seus santos, e celebrai a memória da sua santidade” (Salmo 30:4). “Pode-se dizer que este atributo é transcendental e que, por assim dizer, permeia os demais e lhes dá brilho, É o atributo dos atributos” (J. Howe, 1670). Assim, lemos sobre “… a formosura do Senhor. ,.” (Salmo 27:4), que não é outra que “…  a beleza da santidade.. .” (Salmo  110:3),

“Visto que esta excelência parece se colocar acima dê todas as outras perfeições de Deus, assim ela constitui a glória destas; como é a glória da Deidade, assim é a glória de cada uma das perfeições da Deidade; como o poder de Deus é a energia das Suas perfeições, a Sua santidade é a beleza delas: como todas seriam fracas sem a onipotência divina para sustentá-las, seriam todas desgraciosas sem a santidade para adorná-las. Se esta se maculasse, todas as demais perderiam a sua honra; seria como se o sol perdesse a sua luz — no mesmo instante perderia seu calor» seu poder, sua virtude geradora e vivificante. Como no cristão a sinceridade é o brilho de todas as graças, em Deus a pureza é o esplendor de todos os Seus atributos, Sua justiça é santa. Sua sabedoria é santa. Seu braço poderoso é um “braço santo” (Salmo 98:1), Sua verdade ou palavra é uma “santa palavra” (Salmo 105:42). Seu nome, que expressa todos os Seus atributos juntos, é “santo”  (Salmo  103:1)” (S. Charnock).

A santidade de Deus se manifesta em Suas obras. “Justo é o Senhor em todos os seus caminhos, e santo em todas as suas obras” (Salmo 145:17), Nada senão o que é excelente pode pro­ceder d Ele. A santidade é o padrão de todas as Suas ações. No princípio Ele declarou que tudo o que tinha feito ‘”era muito bom” (Gênesis 1:31), e não poderia ter feito o que fez se nisso houvesse algo imperfeito ou impuro. O homem foi feito “reto” (Eclesiastes 7:29), à imagem e semelhança do seu Criador. Os anjos que caíram foram criados santos, pois se nos diz que “… não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua pró­pria habitação…” (Judas 6). Sobre Satanás está escrito: “Per­feito eras nos teus caminhos, desde o dia em, que foste criado, até que se achou iniqüidade em ti” (Ezequiel 28:15).

A santidade de Deus se manifesta em Sua lei. Essa lei proíbe o pecado em todas as suas variantes -— nas suas modalidades mais refinadas, e nas mais grosseiras, os intentos da mente, como a contaminação do corpo, o desejo secreto como o ato abertamente praticado. Pelo que lemos: “…a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom” (Romanos 7:12). Sim, “… o mandamento do Senhor é puro, e alumia os olhos. O temor do Senhor é limpo e permanece eternamente, os juízos do Senhor são verdadeiros e justos juntamente” (Salmo 19:8-9).

A santidade de Deus se manifesta na cruz. De maneira espan­tosa, e, contudo, a mais solene, a expiação demonstra a santidade infinita de Deus e Seu ódio ao pecado. Quão odioso para Deus” há de ser o pecado, a ponto de castigá-lo até ao limite extremo do seu merecimento, quando o imputou ao Seu Filho! “Nem to­dos os vasos do juízo já derramados ou por derramar sobre o mundo ímpio, nem a chama ardente da consciência do pecador, i nem a sentença irrevogável pronunciada contra os demônios re­beldes, nem o gemido das criaturas condenadas demonstram o ódio de Deus ao pecado, como o demonstra a ira de Deus derra­mada sobre o Seu Filho. Nunca a santidade divina parece mais bela e mais amorável do que na hora em que o semblante do Salvador ficou por demais desfigurado em meio aos estertores da Sua agonia mortal. Ele próprio o reconhece no Salmo 22. Quando o Senhor afastou dEle o Seu risonho rosto e Lhe fincou no coração aguda faca, provocando Seu terrível brado, “Deus meu, Deu meu, por que me abandonaste?” (vers. 1). Ele adora esta perfei­ção — “Tu és santo” (vers. 3) S. Charnock.

Desde que Deus é santo, Ele odeia todo e qualquer pecado. Ele ama tudo quanto está em conformidade com as Suas leis, e detesta tudo que lhes é contrário. Sua Palavra declara expressa­mente: “… o perverso é abominação para o Senhor…” (Pro­vérbios 3:32), E ainda: “Abomináveis são para o Senhor os pen­samentos do mau., ..” (Provérbios 15:26). Segue-se, pois, que Ele necessariamente tem que punir o pecado. Do mesmo modo como o pecado requer a punição por Deus, exige também o Seu ódio. Deus perdoa muitas vezes o pecador; nunca, porém, perdoa o pecado; e o pecador só é perdoado com base no fato de que Outro levou sobre Si o castigo que lhe era devido; sim, pois; “… sem derramamento de sangue não há remissão (Hebreus 9:22). Razão pela qual se nos diz: “…o Senhor toma vingança contra os seus adversários, e guarda a ira contra os seus inimigos” (Naum 1:2). Por um pecado Deus expulsou do Éden os nossos primeiros pais. Por um pecado toda a posteridade de Cão caiu sob maldição que permanece sobre ela até o dia de hoje. Por um pecado Moisés foi impedido de entrar em Canaã, o servo de Eliseu foi castigado com lepra, Ananias e Safira foram elimi­nados da terra dos viventes.

Temos aqui prova da divina inspiração das Escrituras. Os não regenerados não crêem realmente na santidade de Deus. O conceito que eles têm do caráter de Deus é inteiramente unila­teral. Eles esperam de coração que a Sua misericórdia sobrepuje tudo mais. “… pensavas que era como tu…” (Salmo 50:21) é a acusação que Deus lhes faz. Eles pensam somente num “deus” segundo o padrão dos seus corações maus. Daí permanecerem eles no caminho de uma exacerbada insensatez. A santidade atri­buída pelas Escrituras à natureza e ao caráter de Deus é tal, que demonstra com clareza a sua origem super-humana. O caráter atri­buído aos deuses dos antigos e do, paganismo moderno é justa­mente o inverso daquela imaculada pureza que pertence ao Deus verdadeiro. Um Deus inefavelmente santo, que tem a mais intensa aversão a todo pecado, jamais foi inventado por um dos decaídos descendentes de Adão. O fato é que nada torna mais manifesta a. terrível depravação do coração do homem e a sua inimizade contra o Deus vivo, do que expor diante dele Aquele Ser único que é infinita e imutavelmente santo. A idéia que o homem faz de pecado limita-se praticamente ao que o mundo chama de “crime”. Tudo que fica aquém disso pode ser abrandado como “de­feitos”, “‘enganos”, “‘fraquezas” etc. E mesmo quando se admite a existência do pecado* apresentam-se escusas e atenuantes.

“O “deus” que a imensa maioria dos cristãos professos “ama1‘ é visto como alguém muito parecido com um ancião indulgente, que pessoalmente não tem prazer nas loucuras, mas tolerantemente fecha os olhos para as “indiscrições” da mocidade. Mas a Palavra diz: “… aborreces a iodos os que praticam a maldade” (Salmo 5:5). E mais: “Deus é um juiz justo, um Deus que se ira todos os dias” (Salmo 7:11). Mas os homens se re­cusam a dar crédito a este Deus e rangem os dentes quando o Seu ódio ao pecado lhes é enfática e fielmente apresentado. Não, como o homem preso ao pecado jamais teria criado o lago de fogo no qual seria atormentado para todo o sempre, muito menos haveria a probabilidade dele inventar um Deus santo.

Sendo que Deus é santo, a aceitação da parte dEle, com base nas ações das criaturas, é completamente impossível. Uma criatura caída pode mais facilmente criar um mundo, do que pro­duzir algo capaz de receber aprovação dAquele que é pureza infinita. Podem as trevas morar com a luz? Pode o Ser imaculado sentir prazer com o “trapo da imundícia”? (Isaías 64:6) O me­lhor que o homem pecador pode produzir vem manchado. Uma árvore contaminada não pode dar bom fruto. Deus se negaria a Si próprio, envileceria as Suas perfeições, se tivesse por justo e santo aquilo que não o é em si mesmo; e nada é santo, desde que tenha a mínima mancha do que seja contrário à natureza de Deus. Mas, bendito seja o Seu nome, pois, aquilo que a Sua san­tidade exigiu, a Sua graça supriu em Cristo Jesus,nosso Senhor! Todo pobre pecador que correu para Ele em busca de “refúgio, foi e permanece aceito “no Amado” (Efésios 1:6). Aleluia!

Posto que Deus é santo requer-se de nós que nos aproxime­mos dEle com a máxima reverência. “Deus deve ser em extremo tremendo na assembléia  dos santos, e  grandemente  reverenciado por todos os que o cercam’” (Salmo 89:7), Portanto, “Exaltai ao Senhor nosso Deus, e prostrai-vos diante do escabelo de seus pés, porque ele ê santo” (Salmo 99:5). Sim, “diante do escabelo dos seus pés”, na postura da mais profunda humildade, prostrai-vos. Quando Moisés  ia   aproximar-se   da  sarça   ardente,  disse  Deus: “., . tira os teus sapatos de teus pés… ” (Êxodo 3:5), É preciso servi-lO “com temor” (Salmo 2:11). A exigência que Deus fez a Israel foi: “… serei santificado naqueles que se cheguem a mim, e serei glorificado diante  de  todo o  povo…”   (Levítico   10:3), Quanto mais tomados de temor ficarmos por Sua inefável santi­dade, mais aceitável será o nosso acesso a Ele.

Visto que Deus é santo, devemos querer amoldar-nos a Ele. Seu mandamento é: “…sede santos, porque eu sou santo”  (1 Pedro 1:16). Não somos obrigados a ser onipotentes ou oniscien­tes como Deus ê, mas temos  que ser santos, e isto em  toda a nossa “… maneira de viver” (1 Pedro 1:15). “Esta é a maneira primordial de honrar a Deus. Glorificamos a Deus pelas atitudes de elevada admiração, pelas expressões eloqüentes, pelos pompo­sos serviços de adoração, mas não tanto como quando aspiramos a conversar com Ele com espírito livre de mácula, e a viver para Ele vivendo como Ele vive” (S. Charnock). Então, como só Deus é a origem e a fonte da santidade, busquemos zelosamente dEIe a santidade; seja a nossa oração diária no sentido de que Ele nos “…  santifique em tudo … “; e todo o nosso  “espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vin­da de nosso Senhor Jesus Cristo” (I  Tessalonicenses  5:23),

 

9. O PODER DE DEUS

 Não poderemos ter correto conceito de Deus, se não pensarmos nEle como onipotente, igualmente como Onisciente. Quem não pode fazer o que quer e não pode realizar o que lhe agrada, não pode ser Deus. Como Deus tem uma vontade para decidir o que julga bom, assim tem poder para executar a Sua vontade. “O poder de Deus é aquela capacidade e força pela qual Ele pode realizar tudo que Lhe agrade, tudo que a Sua sabedoria dirija, e tudo que a infinita pureza da Sua vontade resolva. “… como a santidade é a beleza de todos os atributos de Deus, assim o poder é aquilo que dá vida e movimento a todas as perfeições da natu­reza divina. Como seriam vãos os conselhos eternos, se o poder não interviesse para executá-los! Sem o poder, a Sua misericór­dia seria apenas uma débil piedade, as Suas promessas um som vazio, as Sua ameaças mero espantalho. O poder de Deus é como Ele mesmo: infinito, eterno, incompreensível; não” pode ser re­freado, nem restringido, nem frustrado pela criatura” (S. Charnock).

“Uma coisa disse Deus, duas vezes a ouvi: que o poder pertence a Deus” (Salmo 62:11). “Uma coisa disse Deus”, ou segundo a versão autorizada, KJ, 1611, “Uma vez falou Deus”: nada mais é necessário! Passarão os céus e a terra, porém a Sua palavra permanece para sempre. “Uma vez falou Deus”: como Lhe fica bem a Sua majestade divina! Nós, pobres mortais, pode­mos falar muitas vezes e, contudo, sem sermos ouvidos. Ele fala somente uma vez, e o trovão do Seu poder é ouvido em mil mon­tanhas. “E o Senhor trovejou nos céus, o Altíssimo levantou a sua voz; e havia saraiva e brasas de fogo. Despediu as suas setas, e os espalhou: multiplicou ratos, e os perturbou, Então foram vistas as profundezas das águas, e foram descobertos os fundamen­tos do mundo; pela tua repreensão, Senhor, ao soprar das tuas narinas”  (Salmo  18:13-15).

“Uma vez falou Deus”: vede a Sua imutável autoridade. Pois quem no céu se pode igualar ao Senhor? Quem é semelhan­te ao Senhor entre os filhos dos poderosos?” (Salmo 89:6). “E todos os moradores da terra são reputados em nada; e segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra: não há quem possa estorvar a sua mão, e lhe diga: Que fazes?” (Daniel 4:35), Esta realidade foi amplamente descortinada quando  Deus Se encarnou e tabernaculou entre os homens. Ao leproso Ele disse: “…sê limpo. E logo ficou purificado da le­pra” (Mateus 8:3). A um que jazia no túmulo já fazia quatro dias, Ele bradou: “… Lázaro, sai para fora. E o defunto saiu…” (João 11:43-44). Os ventos tempestuosos e as ondas bravias se aquietaram a uma só palavra dEle, Uma legião de demônios não pôde resistir à Sua ordem repassada de autoridade.

“O poder pertence a Deus”, e somente a Ele. Nem uma só criatura, no universo inteiro, tem sequer um átomo de poder, salvo o que é delegado por Deus. Mas o poder de Deus não é ad­quirido, nem depende do reconhecimento de nenhuma outra auto­ridade. Pertence a Ele inerentemente. “O poder de Deus é como Ele mesmo, auto-existente, auto-sustentado. O mais poderoso dos homens não pode acrescentar sequer uma sombra de poder ao Onipotente. Ele não se firma sobre nenhum trono reforçado; nem se apóia em nenhum braço ajudador. Sua corte não é mantida por Seus cortesãos, nem toma Ele emprestado das Suas criaturas o Seu esplendor. Ele próprio é a grande fonte central e o originador de toda energia” (C. H. Spurgeon). Toda a criação dá testemunho, não só do grande poder de Deus, mas também da Sua inteira independência de todas as coisas criadas. Ouça o Seu próprio de­safio: “Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? Faze-mo saber, se tens inteligência, Quem lhe pôs as medidas, se tu o sabes? Ou quem estendeu sobre ela o cordel? Sobre que estão fundadas as suas bases, ou quem assentou a sua pedra de es­quina?” (Jó 38:4-6). Quão completamente o orgulho do homem é lançado ao pô!

“Poder é usado também como um nome de Deus, “…o Filho do homem assentado à direita do poder de Deus, e vindo sobre as nuvens do céu*’ (Marcos 14:62), isto é, à destra de. Deus. Deus e poder são tão inseparáveis que são recíprocos. Como a Sua essência é imensa, não pode ser confinada a um lugar; como é eterna, não pode ser medida no tempo; assim a Sua essência é todo-poderosa, não sofrendo limite para a ação” (S. Charnock). “Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos; e quão pouco é o que temos ouvido dele! Quem pois entenderia o trovão do seu  poder?”  (Jó  26:14). Quem  é capaz de  contar  todos  os monumentos do Seu poder? Mesmo aquilo que é demonstrado do Seu poder na criação visível está inteiramente fora da nossa ca­pacidade de compreensão, e menos ainda podemos conceber da onipotência propriamente dita. Há infinitamente mais poder abri­gado na natureza de Deus do que o expresso em todas as Suas obras.

“Partes dos Seus caminhos” contemplamos na criação, na providência, na redenção, mas apenas uma “pequena parte” do Seu poder se vê nessas obras. Isto nos é exposto extraordinaria­mente em Habacuque 3:4: “… e ali estava o esconderijo da sua força”. Dificilmente se pode imaginar algo mais grandiloqüente do que as figuras deste capítulo todo, no entanto nele nada supera a nobreza desta declaração. O profeta (numa visão) viu o pode­roso Deus espalhando os outeiros e abatendo os montes, o que se julgaria espantosa demonstração de força. Nada disso, diz o nosso versículo; isso é mais o ocultamento do que a exibição do Seu poder. Que se quer dizer? Isto: é tão inconcebível» tão imenso, tão incontrolável o poder da Deidade, que as terríveis convulsões que Ele opera na natureza escondem mais do que revelam do Seu poder infinito!

É coisa bela juntar as seguintes passagens: “O que só esten­de os céus, e anda sobre os altos do mar” (Jó 9:8), que expressa o indomável poder de Deus. “…Ele passeia pelo circuito dos céus (Jó 22:14), que fala da imensidade da Sua presença. “…anda sobre as asas do vento” (Salmo 104:3), que expressa a espantosa rapidez das Suas operações. Esta última expressão é deveras notável, Não é que “Ele voa” ou’”corre”, mas que Ele “anda”, e isso, nas “asas do vento” — sobre o mais impetuoso dos elementos, impelido com o máximo furor, e varrendo tudo com quase inconcebível velocidade, todavia sob os Seus pés, de­baixo do Seu controle perfeito!

Consideremos agora o poder de Deus na criação. “Teus são os céus, e tua é a terra; o mundo e a sua plenitude tu os fundaste. O norte e o sul tu os criaste…” (Salmo 89:11-12). Antes de poder trabalhar, o homem precisa ter ferramentas e material, mas Deus começou com nada, e só por Sua palavra fez do nada todas as coisas. O intelecto não pode captar isto. Deus “… falou, e tudo se fez, mandou, e logo tudo apareceu” (Salmo 33:9). A matéria primeva ouviu a Sua voz. “Disse Deus: Haja… e assim foi” (Gênesis 1). Bem podemos exclamar: “Tu tens um braço po­deroso; forte é a tua mão, e elevada a tua destra” (Salmo 89:13).

Quem, que olha para cima, para o céu da meia-noite e, com os olhos da razão, contempla as suas maravilhas em movimento; quem pode abster-se de indagar: do que foram feitos estes pode­rosos astros? Ê espantoso dizê-lo, foram produzidos sem material nenhum. Brotaram do vazio. A majestosa estrutura da natureza universal emergiu do nada. Que instrumentos foram usados pelo supremo Arquiteto para modelar as partes com tio refinada ele­gância e aplicar tão belo polimento ao todo? Como terá sido feita a junção de tudo numa estrutura primorosamente proporcionada e com tão magnífico acabamento? Um puro e simples fiat realizou tudo. Haja estas coisas, disse Deus. Nada acrescentou; e logo o edifício maravilhoso se ergueu, adornado com todo tipo de beleza, pondo à mostra inumeráveis perfeições, e proclamando em meio a extasiados serafins o louvor do seu grande Criador. “Pela pala­vra do Senhor foram feitos os céus, e todo o exército deles pelo espírito da sua boca” (Salmo 33:6)” (James Hervey,  1789),

Considere-se o poder de Deus na preservação. Nenhuma cria­tura tem poder para preservar-se a si mesma. “Porventura sobe o junco sem lodo? Ou cresce a espadana sem água?” (Jo 8:11). Tanto o homem como o animal pereceriam, se não houvesse erva para alimento, e a erva murcharia e morreria, se o solo não fosse refrescado com chuvas frutíferas. Portanto, Deus é denominado o Preservador dos “homens e os animais” (Salmo 36:6), Ele sus­tenta “… todas as coisas, pela palavra do seu poder…” (Hebreus 1:3). Que maravilha de poder divino é a vida pré-natal de todo ser humano! Que uma criança possa sequer viver, e por tantos meses, num alojamento apertado e estranho assim, é inex­plicável sem o poder de Deus. Verdadeiramente, Ele “… sustenta com vida a nossa alma…” (Salmo 65:9).

A preservação da terra, guardando-a da violência dos mares é outro claro exemplo do poder de Deus. Como é que  aqueles elementos em fúria ficaram encerrados dentro daqueles limites em que primeiro se alojaram, permanecendo em suas baías e canais sem inundar a terra e sem fazer em pedaços a parte mais baixa da criação? A condição natural da água é ficar acima da terra, por ser mais leve, e imediatamente abaixo do ar, por ser mais pesada. Quem põe restrições à qualidade natural da água? O ho­mem certamente que não, e não tem poderes para tanto. Ê uni­camente o fiat do Criador da água que a refreia. “E disse: Até aqui virás, e não mais adiante, e aqui se quebrarão as tuas ondas empoladas” (Jó 38:11). Que altaneiro monumento ao poder de Deus é a preservação do mundo!

Considere-se o poder de Deus no governo. Tome-se a restri­ção que Ele impõe à ruindade de Satanás, ” .., o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar” (1 Pedro 5:8). Satanás está cheio de ódio a Deus, e de diabólica inimizade contra os homens, particularmente contra os santos. Aquele que invejou a Adão no paraíso, não quer que sintamos o prazer de usufruirmos nenhuma das bênçãos de Deus. Se ele pudesse fazer o que deseja, trataria todos os homens como tratou Jó: enviaria fogo do céu sobre os frutos da terra, destruindo o gado» faria vendavais derribarem nossas casas, e co­briria de chagas os nossos corpos. Mas, embora mal percebido pelos homens, Deus o refreia em grande medida, impede-o de levar a cabo os seus maus desígnios, e lhe impõe limites dentro das Suas ordenações.

Assim também Deus restringe a corrupção natural dos ho­mens. Ele suporta suficientes erupções do pecado para mostrar que terríveis estragos têm sido causados pela apostasia do homem, que rompeu com o seu Criador, mas quem pode conceber a que medonho extremo os homens iriam se Deus retirasse a Sua mão repressora? A boca dos ímpios “… está cheia de maldição e amargura. Os seus pés são ligeiros para derramar sangue” (Ro­manos 3:14-15). Esta é a natureza de cada um dos descendentes de Adão. Então, que desenfreada licenciosidade e obstinada lou­cura triunfariam no mundo, se o poder de Deus não se interpu­sesse para fechar as comportas do mal! Ver Salmo 93:3-4.

Considere o poder de Deus no juízo. Quando Ele fere, nin­guém Lhe pode resistir: ver Ezequiel 22:14, Quão terrivelmente isso foi exemplificado no Dilúvio! Deus abriu as janelas do céu e rompeu as grandes fontes do abismo, e (excetuando-se os que estavam na arca) a raça humana inteira, impotente diante do fu­ror da Sua ira, foi tragada. Uma chuva de fogo e enxofre caiu do céu, e as cidades da planície foram exterminadas. O Faraó e todos os seus exércitos nada puderam, quando Deus soprou sobre eles no Mar Vermelho. Que palavra terrificante, a de Romanos 9:22: “E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição”. Deus manifestará o Seu tremendo poder sobre os reprovados, não apenas encarcerando-os na Geena, mas preservando sobrenaturalmente os seus corpos como também as suas almas em meio às chamas eternas do Lago de Fogo,

Bem que deveriam tremer todos, diante de um Deus tal! Tratar desconsideradamente Aquele que pode esmagar-nos mais fa­cilmente do que nós a uma traça, é suicídio. Desafiar abertamen­te Aquele que esta revestido de onipotência, que pode rasgar-nos em pedaços ou lançar-nos no inferno na hora que quiser, é o cúmulo da insanidade. Para reduzi-lo ao seu plano mínimo, é simplesmente parte da sabedoria dar ouvidos à Sua ordem: “Bei­jai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se inflamar a sua ira…”  (Salmo 2:12),

Bem que a alma iluminada deve adorar um Deus tal! As estupendas e infinitas perfeições de um Ser como Deus requerem fervoroso culto. Se homens de poder e renome reclamam a admi­ração do mundo, quanto mais deve o poder do Onipotente en­cher-nos de assombro e mover-nos a prestar-Lhe homenagem. “O Senhor, quem é como tu entre os deuses? Quem é como tu glorificado em santidade, terrível em louvores, obrando maravilhas?” (Êxodo 15:11).

Bem que o santo pode confiar num Deus tal! Ele é digno de implícita confiança. Nada Lhe é demasiado difícil, Se Deus fosse limitado em poder e força, aí sim, poderíamos ficar desesperados.

Mas, vendo que Ele Se reveste de onipotência, nenhuma oração ê tão difícil que Ele não possa responder, nenhuma necessidade é tão grande que Ele não possa suprir, nenhuma cólera é tão forte que Ele não possa subjugar, nenhuma tentação é tão poderosa que Ele não nos possa livrar dela, nenhuma miséria é tão pro­funda que Ele não possa aliviar, “… o Senhor é a força da minha vida; de quem me recearei?” (Salmo 27:1). “Ora, àquele que é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera, a esse glória na igreja, por Jesus Cristo, em todas as gera­ções, para todo o sempre. Amém” (Efésios 3:20-21),

 

10. A FIDELIDADE DE DEUS

 A infidelidade é um dos pecados mais proeminente nestes maus dias. Com raríssimas exceções, a palavra de um homem não é mais a sua fiança, nos negócios deste mundo. No mundo social, a infidelidade conjugai ocorre por todo lado, sendo que os laços matrimoniais são desfeitos com a mesma facilidade com que uma roupa velha é rejeitada. Na esfera eclesiástica, milhares que se comprometeram solenemente a pregar a verdade, sem nenhum es­crúpulo a negam e a atacam. Nem o autor, como tampouco o lei­tor, podem arrogar-se completa imunidade deste pecado terrível: de quantas maneiras temos sido infiéis a Cristo, e à luz e aos privilégios que Deus nos confiou1. Como é animador então, que indizível benção é erguer os olhos acima desta ruinosa cena e contemplar Aquele que, só Ele, é fiel, fiel em tudo, fiel o tempo todo.

“Saberás, pois, que o Senhor teu Deus é Deus, o Deus fiel…” {Deuteronômio 7:9). Esta qualidade é essencial ao Seu ser; sem ela Ele não seria Deus. Pois, ser Deus infiel seria agir contrariamente à Sua natureza, o que é impossível. “Se formos infiéis, ele permanece fiel: não pode negar-se a si mesmo” (2 Timóteo 2:15). A fidelidade ê uma das gloriosas perfeições do Seu ser, É como se Ele estivesse vestido com esta perfeição; “0 Se­nhor, Deus dos Exércitos, quem é forte como tu, Senhor, com a tua fidelidade ao redor de ri?!” (Salmo 89;8). Assim também, quando Deus Se encarnou, foi dito: “E a justiça será o cinto dos seus lombos, e a verdade o cinto dos seus rins” (Isaías 11:5).

Que palavra, a do Salmo 36:5 — “A tua misericórdia, Se­nhor, está nos céus, e a tua fidelidade chega até às mais excelsas nuvens”. Muito acima de toda compreensão finita está a imutável fidelidade de Deus. Tudo que há acerca de Deus é grande, vasto, incomparável. Ele nunca esquece, nunca falha, nunca vacila, nun­ca deixa de cumprir a Sua palavra, O Senhor Se mantém estrita­mente apegado a cada declaração de promessa ou profecia, faz valer cada compromisso de aliança ou de ameaça, pois “Deus não é homem, para que minta; nem filho do homem, para que se ar­rependa: porventura diria ele, e não o faria? Ou falaria, e não o confirmaria? (Números 23:19). Daí o crente exclama; “…as suas misericórdias não têm fim, Novas são cada manhã; grande é a tua fidelidade” (Lamentações 3:22-23).

Há nas Escrituras numerosas ilustrações da fidelidade de Deus. Hã mais de quatro mil anos Ele disse: “Enquanto a terra durar, sementeira e sega, e frio e calor, e verão e inverno, e dia e noite, não cessarão” (Gênesis 8;22). Cada novo ano dá-nos um novo testemunho de que Deus cumpre esta promessa. Em Gênesis 15 vemos que Jeová declarou a Abraão; “…peregrina será a tua semente em terra que não será tua, e servi-los-ão … E a quarta geração tornara para cá” (versículos 13-16). Os séculos percorreram o seu curso fatigante. Os descendentes de Abraão gemiam entre os fornos de tijolos do Egito. Deus esquecera a Sua promessa? Certamente que não. Leia Êxodo 12:41: “E aconteceu que, passados os quatrocentos e trinta anos, naquele mesmo dia, todos os exércitos do Senhor saíram da terra do Egito”. Por meio de Isaías o Senhor declarou: “…eis que uma virgem conceberá, e dará à luz um filho, e será o seu nome Emanuel” (7:14). De novo séculos se passaram, mas, “vindo a plenitude dos tempos,

Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gaiatas 4:4).

Deus é verdadeiro. Sua Palavra de promessa ê certa. Em todas as Suas relações com o Seu povo, Deus é fieL Pode-se con­fiar nEle, com segurança, Nunca houve alguém que tivesse con­fiado nEle em vão. Vemos esta preciosa verdade expressa em quase toda parte nas Escrituras, pois o Seu povo precisa saber que a fidelidade é uma parte essencial do caráter divino. Esta é a base da nossa confiança nEle, Mas, uma coisa é aceitar a fide­lidade de Deus como uma verdade divina, e outra coisa, muito diferente, é agir com base nisso. Deus “nos tem dado grandíssi­mas e preciosas promessas”, mas nós contamos realmente com o seu cumprimento por Deus? Esperamos de fato que Ele vai fazer por nós tudo que disse que fará? Descansamos com implícita se­gurança nestas palavras: ” … fiel é o que prometeu” (Hebreus 10:23)?

Há ocasiões na vida de todos em que não é fácil, nem mes­mo para 05 cristãos, crer que Deus é fiel. Nossa fé é provada dolorosamente, nossos olhos ficam toldados pelas lágrimas, e não conseguimos mais encontrar o rumo dos baluartes do Seu amor. Os nossos ouvidos se distraem com os ruídos do mundo, arruina­dos pelos sussurros ateísticos de Satanás e não conseguimos mais ouvir a doce entonação da voz mansa e delicada do Senhor. So­nhos alimentados foram frustrados, amigos em quem confiávamos falharam conosco, um falso irmão ou irmã em Cristo nos traiu. Vacilamos. Procuramos ser fiéis a Deus, e agora uma trevosa nu­vem O esconde de nós. Achamos difícil, impossível mesmo, à razão carnal harmonizar a Sua sombria providência com as pro­messas da Sua graça, Ah, alma titubeante, companheiro de pere­grinação provado com tanto rigor, procure graça para ouvir Isaías 50:10; “Quem há entre vós que tema. a,Jeová, e ouça a voz do seu servo? Quando andar em trevas, e não tiver luz nenhuma, confie no nome do Senhor, e firme-se sobre o seu Deus”.

Quando você for tentado a duvidar da fidelidade de Deus, brade: “Para trás de mim, Satanás”. Ainda que você não possa harmonizar os misteriosos procedimentos  de Deus com as  Suas declarações de amor, confie nEIe e aguarde mais luz, Na hora dEIe, certa e boa, Ele fará com que você o veja com clareza, “…o que eu faço não o sabes tu agora, mas tu o saberás de­pois” (João 13:7). A seqüência dos fatos demonstrará que Deus não abandonou nem enganou Seu filho. “Por isso o Senhor espe­rará, para ter misericórdia de vós; e por isso será exalçado, para se compadecer de vós, porque o Senhor é um Deus de eqüidade: bem-aventurados todos os que nele esperam (Isaías 30:18).

“Não julgues o Senhor por tua mente,

porém, confia nEIe por Sua graça.

Por trás de uma severa providência

Ele oculta um semblante sorridente.

Animai-vos, ó santos temerosos!

As nuvens que temíveis vos parecem,

ricas são de mercês, e irromperão

em bênçãos derramadas sobre vós.”

“Os teus testemunhos que ordenaste são retos e muito fiéis” (Salmo 119:138). Deus não nos falou apenas o melhor, mas tam­bém não retirou o pior. Ele descreveu fielmente a ruína efetuada pela Queda. Ele diagnosticou fielmente o terrível estado produ­zido pelo pecado. Fielmente fez conhecido o Seu inveterado ódio ao mal, e que ê preciso que Ele o puna. Advertiu-nos fielmente de que Ele é “fogo consumidor” (Hebreus 12:29). Sua Palavra não contém somente numerosas ilustrações de Sua fidelidade no cumprimento de Suas promessas, mas também registra numerosos exemplos de Sua fidelidade em fazer valer as Suas ameaças. Cada estágio da história de Israel exemplifica esse fato solene. Foi as­sim com indivíduos: Faraó, Core, Acã e uma multidão de outros mais, são outras tantas provas. E será assim com você, meu lei­tor, a menos que você tenha buscado ou busque refúgio em Cristo, as chamas eternas do Lago de Fogo serão a tua porção certa e segura. Deus é fiel.

Deus é fiel na preservação do Seu povo. “Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor’” (l Coríntios 1:9). No versículo anterior foi feita a promessa de que Deus confirmará o Seu povo até o fim. A con­fiança do apóstolo na absoluta segurança dos crentes estava ba­seada não na força das resoluções deles ou em sua capacidade para perseverar, mas sim na veracidade dAquele que não pode mentir. Visto que Deus prometeu ao Seu Filho um certo povo como Sua herança, livrá-lo do pecado e da condenação e fazê-lo participante da vida eterna na glória, é certo que Ele não permi­tira que nenhum dos pertencentes a esse povo pereça.

Deus é fiel na disciplina ministrada ao Seu povo. Ele não é menos fiel naquilo que retira, do que naquilo que dá. É fiel quando envia tristeza como quando outorga alegria. A fidelidade de Deus é uma verdade que devemos confessar não somente quan­do a tranqüilidade nos bafeja, mas também quando nos afligirmos sob o castigo mais áspero. Tampouco esta confissão deve ser ape­nas de boca, mas também de coração, Quando Deus nos fere com a vara da punição, é a fidelidade que a maneja. Reconhecer isso significa que nos humilhamos diante dEle, confessamos que merecemos totalmente a Sua correção e, em vez de murmurar, damos-Lhe graças por isso. Deus nunca nos aflige sem algum mo­tivo: “Por causa disto, há entre vós muitos fracos e doentes…” (1 Coríntios 11:30), ilustra este princípio. Quando a Sua vara cair sobre nós, digamos com Daniel; “A ti, ó Senhor, pertence a justiça, mas a nós a confusão de rosto…” (9:7).

“Bem sei eu, ó Senhor, que os teus juízos são justos, e que em tua fidelidade me afligiste” (Salmo 119:75), Problemas e afli­ções não são apenas coerentes com o amor de Deus empenhado na aliança eterna, mas são partes da sua administração. Deus é fiel não só quando afasta as aflições, mas também é fiel quando no-las envia. ‘” Então visitarei com vara a sua transgressão, e a sua iniqüidade com açoites, Mas não retirarei totalmente dele a minha benignidade, nem faltarei à minha fidelidade” (Salmo 89:32-33), O castigo não é apenas conciliável com a benignidade amorosa de Deus, mas também é seu efeito e expressão. A mente dos servos de Deus se tranqüilizaria muito se eles se lembrassem de que a aliança de Deus O obriga a aplicar-lhes correção oportuna. As aflições são-nos necessárias: “…estando eles angustiados, de madrugada me buscarão” (Oséias 5:15).

Deus é fiel na glorificação do Seu povo, “Fiel é o que vos chama, o qual também o fará” (1 Tessalonicenses 5:24), A refe­rência imediata aqui é aos santos serem “preservados inculpáveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”. Deus nos trata, não com base em nossos méritos (pois não temos nenhum), mas por amor do Seu grande nome. Deus é constante para consigo mesmo e segundo o propósito da Sua graça, “… aos que chamou … a estes também glorificou” (Romanos 8:30). Deus dá plena demons­tração da constância de Sua bondade eterna para com os Seus eleitos, chamando-os eficazmente das trevas para a Sua maravilho­sa luz, e isto deveria torná-los seguros da certeza da sua conti­nuidade. “… o fundamento de Deus fica firme…” (2 Timóteo 2; 19), Paulo estava firmado na fidelidade de Deus quando disse: “. . , eu sei em quem tenho crido, e estou certo de que é pode­roso para guardar o meu depósito até àquele dia” (2 Timóteo 1:12).

A percepção desta bendita verdade nos protegera da preo­cupação. Estar cheio de preocupações, ver a nossa situação com prenúncios sombrios, antecipar o amanhã com ansiedade, é ofen­der a fidelidade de Deus. Aquele que vem cuidando do Seu filho através dos anos, não o abandonará quando o filho envelhecer. Aquele que ouviu as orações que você fez no passado, não se negará a suprir suas necessidades na presente emergência. Descanse em Jó 5:19: Em seis angústias te livrará; e na sétima o mal te não tocará”.

A percepção desta bendita verdade catará as nossas murmurações. O Senhor sabe o que é melhor para cada um de nós, e um efeito da confiança nesta verdade será o silenciar das nossas petulantes reclamações. Deus é grandemente honrado quando, sob provação e castigo, temos bons pensamentos sobre Ele, vindicamos a Sua sabedoria e justiça, e reconhecemos o Seu amor mes­mo em Suas repreensões.

A percepção desta bendita verdade gera crescente confiança em Deus. “Portanto também os que padecem segundo a vontade de Deus encomendem-lhe as suas almas como ao fiel Criador, fazendo o bem” (1 Pedro 4:19). Quando confiantemente nos re­signarmos e deixarmos todos os nossos interesses nas mãos de Deus, plenamente persuadidos do Seu amor e fidelidade, tanto mais depressa ficaremos satisfeitos com as Suas providências e compreenderemos que “ele tudo faz bem”.

 11. A BONDADE DE DEUS

 ”A bondade de Deus permanece continuamente” (Salmo 52:1). A “bondade” de Deus tem que ver com a perfeição da Sua natureza: “… Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas” (1 João 1:5). Hã uma tão absoluta perfeição na natureza e no ser de Deus que nada Lhe falta, nada nEle é defeituoso, e nada se Lhe pode acrescentar para melhorá-lO. “Ele é essencialmente bom, bom em Si próprio, o que nada mais é; pois todas as cria­turas só são boas pela participação e comunicação da parte de Deus. Ele é essencialmente bom; não somente bom, mas é a pró­pria bondade: na criatura, a bondade é uma qualidade acrescen­tada; em Deus, é Sua essência. Ele é infinitamente bom; na cria­tura a bondade é uma gota apenas, mas em Deus há um oceano infinito ou um infinito ajuntamento de bondade. Ele é eterna e imutavelmente bom, porquanto Ele não pode ser menos bom do que é; como não se pode fazer nenhum acréscimo a Ele, assim também não se Lhe pode fazer nenhuma subtração” (Thomas Manton). Deus é summum bonum, o Sumo Bem.

O significado saxônico original do vocábulo inglês. “God” (Deus) é “The Good”  (O Bom ou O Bem). Deus não é somente o maior de todos os seres, mas o melhor. Toda a bondade exis­tente em qualquer criatura foi-lhe infundida pelo Criador, mas a bondade de Deus não é derivada, pois é a essência da Sua natu­reza eterna. Como Deus é infinito em poder desde toda a eterni­dade, desde antes de ter havido alguma demonstração desse poder, ou antes de ter sido executado algum ato de onipotência, assim Ele era eternamente bom, antes de haver qualquer comunicação da Sua generosidade, ou antes de haver qualquer criatura à qual essa generosidade pudesse ser infundida ou exercida. Portanto, a primeira manifestação desta perfeição divina consistiu em dar exis­tência a todas as coisas. “Tu és bom e abençoador…”, ou, na versão utilizada pelo autor: “Tu és bom, e fazes o bem…” (Sal­mo 119:68). Deus tem em Si mesmo um infinito e inexaurível tesouro de todas as bênçãos, capaz de encher todas as coisas.

Tudo que provém de Deus — os Seus decretos, a Sua cria­ção» as Suas leis» as Suas providências — só pode ser bom, como está escrito: “E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom…” (Gênesis 1:31). Assim, vê-se a bondade de Deus primeiro na criação. Quanto mais de perto se estuda a criatura, mais visível se torna a benignidade do seu Criador, Tome a mais elevada criatura da terra, o homem. Abundantes motivos tem ele para dizer com o salmista: “Eu te louvarei, porque de um modo terrível e tão maravilhoso fui formado; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem” (Salmo 139:14). Tudo acerca da estrutura dos nossos corpos atesta a bondade do seu Criador. Que mãos apropriadas para realizar a obra a elas confiada! Que bondade do Senhor, determinar o sono para restau­rar o corpo cansado! Que benévola a Sua provisão, dar aos olhos cílios e sobrancelhas para protegê-los! E assim poderíamos pros­seguir indefinidamente.

E a bondade de Deus não se limita ao homem; é exercida em favor de todas as Suas criaturas. “Os olhos de todos esperam em ti, e tu lhes dás o seu mantimento a seu tempo. Abres a tua mão, e satisfazes os desejos de todos os viventes” (Salmo 145:15-16). Volumes inteiros poderiam ser escritos, na verdade têm sido, para discorrer sobre este fato. Sejam as aves do espaço, os animais das matas ou os peixes no mar, foi feita abundante provisão para suprir todas as suas necessidades. Deus “… dá mantimento a toda a carne; porque a sua benignidade é para sempre” (Salmo 136:25). Verdadeiramente, “… a terra está cheia da bondade do Senhor” (Salmo 33:5).

Vê-se a bondade de Deus na variedade de prazeres naturais que Ele providenciou para as Suas criaturas. Deus poderia ter-Se satisfeito em saciar a nossa fome sem que os alimentos fossem agradáveis ao nosso paladar — como Sua benignidade transparece-nos diversos sabores de que Ele revestiu os diferentes tipos de carne, vegetais e frutas! Deus não nos deu somente os sentidos, mas também nos deu aquilo que os agrada; e isso também revela a Sua bondade. A terra poderia ser tão fértil como é, sem a sua superfície ser tão deleitavelmente variegada, A nossa vida física poderia ser mantida sem as lindas flores para encantarem os nos­sos olhos e para exalarem suaves perfumes. Poderíamos andar pelos campos, sem que os nossos ouvidos fossem saudados pela música dos pássaros. Donde, pois, esta beleza, este encanto, tão livremente difundido pela face da natureza? Verdadeiramente, “O Senhor é bom para todos, e as suas ternas misericórdias são sobre todas as suas obras” (Salmo 145:9).

Vê-se a bondade de Deus em que, quando o homem trans­grediu a lei do seu Criador, não começou de imediato uma dispensação de ira sem contemplação. Bem poderia Deus ter privado as Suas criaturas decaídas de todas as bênçãos, de todos os con­fortos e de todos os prazeres. Em vez disso, Ele introduziu um regime de natureza mista, de misericórdia e juízo. Devidamente considerado, isso é por demais maravilhoso, e quanto mais com­pletamente se examine esse regime, mais transparecerá que ” … a misericórdia triunfa do juízo** (Tiago 2:13). Não obstante os males todos que acompanham o nosso estado decaído, o prato do bem predomina grandemente na balança. Com relativamente ratas exceções, os homens e as mulheres experimentam muito maior numero de dias de boa saúde, do que de enfermidade e dor. Há no mundo muito mais felicidade própria das criaturas do que infelicidade igualmente própria delas. Mesmo as nossas tristezas admitem considerável alívio, e Deus conferiu à mente humana uma versatilidade que lhe possibilita adaptar-se às circunstâncias e tirar delas o melhor proveito possível.

Não se pode com justiça pôr em questão a benignidade de Deus pelo fato de haver sofrimento e tristeza no mundo.  Se o homem peca contra a bondade de Deus, se ele despreza “as ri­quezas da sua benignidade, e paciência e longanimidade” e, se­guindo a dureza e a impenitência do seu coração entesoura para si mesmo ira para o dia da ira (Romanos 2:4-5), a quem deve culpar, senão a si próprio? Deus seria bom, se não punisse os que usam mal as Suas bênçãos, abusam da Sua benevolência e pisoteiam as Suas misericórdias? Não haverá a menor censura quanto à bondade de Deus, mas, ao contrário, a mais brilhante e modelar demonstração dela, quando Deus eliminar da terra os que quebrantara as Suas leis, desafiam a Sua autoridade, zombam dos Seus mensageiros, escarnecem do Seu Filho e perseguem aque­les pelos quais Ele morreu.

A bondade de Deus foi mais ilustremente visível quando Ele enviou o Seu Filho, “… nascido de mulher, nascido sob a lei, para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos” (Gaiatas 4:4-5). Foi então que uma multidão dos exércitos celestiais louvou seu Criador e disse: “Glória a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade para com os homens” (Lucas 2:14). Sim, no evangelho a graça (em grego, a benevolência ou bondade) de Deus se há manifestado, trazendo salvação a to­dos os homens” (Tito 2:11). Não se pode pôr em dúvida a be­nignidade de Deus pelo fato de não ter feito Ele a todas as criaturas pecadoras objetos da Sua graça redentora. Não o fez com os anjos decaídos. Se Ele tivesse deixado que todos perecessem, não haveria censura à Sua bondade, A quem quer que desafiasse esta afirmação faríamos lembrar a soberana prerrogativa de nosso Senhor: “Ou não me é lícito fazer o que quiser do que é meu? Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?” (Mateus 20:15),

“Louvem ao Senhor pela sua bondade, e pelas suas mara­vilhas para com os filhos dos homens” (Salmo 107:8). Gratidão é o justo retorno exigido dos objetos da Sua benignidade; con­tudo, muitas vezes é negada ao grande Benfeitor, simplesmente porque a Sua bondade é tão constante e tão abundante. A bon­dade de Deus é apreciada superficialmente porque é exercida para conosco no curso comum dos eventos. Não a percebemos bem porque a experimentamos diariamente.  “Ou desprezas  tu as riquezas da sua begnidade?…” (Romanos 2:4). A Sua bondade é “desprezada” quando não é utilizada como um meio para levar os homens ao arrependimento, mas, ao contrário, serve para en­durecê-los a partir da suposição de que fecha os olhos para o pecado deles.

A bondade de Deus é o sustentáculo da confiança do crente, É esta excelência de Deus que exerce mais atração sobre os nos­sos corações. Visto que a Sua bondade dura para sempre, jamais deveríamos ficar desanimados-. “O Senhor é bom, uma fortaleza no dia da angústia, e conhece os que confiam nele” (Naum 1:7). “Quando outros nos maltratam, isso deveria somente estimular-nos a dar graças mais calorosamente ao Senhor, porque Ele é bom; e quando nós mesmos nos damos conta de que estamos longe de sermos bons, somente deveríamos bendizem com maior reverência Aquele que é bom jamais deveríamos tolerar um ins­tante de descrença na bondade, do Senhor; seja o que for que possa ser questionado, isto é absolutamente certo, que o Senhor é bom; as Suas dispensações podem variar, mas a Sua natureza é sempre a mesma” (C. H. Spurgeon).

 

12. A PACIÊNCIA DE DEUS

 Tem-se escrito muito menos sobre esta excelência do caráter divino do que sobre as demais. Não poucos dos que têm se es­tendido largamente sobre os atributos divinos, deixaram de lado, sem nenhum comentário, a paciência de Deus. Não é fácil opinar sobre a razão disto, pois certamente a paciência de Deus é igual­mente uma das perfeições divinas, como a Sua sabedoria, poder ou santidade, e igualmente digna de ser admirada e reverenciada por nós. É verdade que esse vocábulo não se acha numa concor­dância tantas vezes como os outros, mas a glória desta graça refulge em quase todas as páginas das Escrituras. O certo é que perdemos muito, se não meditamos com freqüência na paciência de Deus e se não oramos fervorosamente, rogando que os nossos corações a ela se disponham mais completamente.

O mais provável é que a principal razão pela qual tantos escritores deixaram de dar-nos algo, separadamente, sobre a pa­ciência de Deus, é a dificuldade em distinguir este atributo da bondade e da misericórdia divinas, particularmente desta última A longaminidade de Deus é mencionada repetidamente era con­junto com a Sua graça  e misericórdia,  como  se pode  verificar consultando Êxodo 34:6; Números 14:18; Salmo 86:15 etc   Não se pode negar que a paciência de Deus é realmente uma demons­tração da Sua misericórdia, na verdade um modo pelo qual esta se manifesta freqüentemente;  não se pode conceder, porém   que ambas sejam urna só e a mesma excelência e que não se possa separar uma da outra. Embora não seja fácil distinguir entre elas as Escrituras nos autorizam plenamente a afirmar sobre uma delas algumas coisas que não podemos afirmar sobre a outra.

Stephen Charnock, o puritano, define em parte a paciência de Deus assim: “É uma parte da bondade e da misericórdia di­vinas e, contudo, difere de ambas. Sendo Deus a maior bondade tem a maior  brandura; a brandura é   sempre  companheira   da bondade e,  quanto maior a  bondade,  maior a  brandura. Quem houve tão santo como Cristo, e tão gentil? A lentidão de Deus para a ira é um aspecto da Sua misericórdia: “… o Senhor (é) sofredor e de grande misericórdia” (Salmo 145:8; Atualizada, se­melhante à versão da citação: “… o Senhor (é) tardio em irar-se e de grande clemência”). A paciência difere da misericórdia na consideração formal  do  objeto:  a  misericórdia  considera a  cria­tura como infeliz, a paciência considera  a criatura como crimi­nosa; a misericórdia tem pena do ser humano em sua infelicidade a paciência tolera o pecado que gerou a infelicidade e deu nasci­mento a mais infelicidade ainda”.

Pessoalmente, definimos a paciência divina como aquele po­der de controle que Deus exerce sobre Si  mesmo,  levando-0  a tolerar os maus e a demorar-Se a castigá-los. Em Naum 1:3 lemos: “O Senhor e tardio em irar-se, mas grande em força…”, sobre o qual disse o senhor Charnock: “Os homens que são grandes no mundo sofrem rápido impulso da paixão, e não se dispõem a perdoar logo, ou a tolerar um ofensor, como alguém de nível inferior. É a falta de poder sobre o próprio ego que os leva a fazer coisas impróprias sob provocação. Um príncipe capaz de su­jeitar as suas paixões é um rei sobre si mesmo, bem como sobre os seus súditos. Deus é tardio em irar-Se porque é grande em força, Ele não tem menos poder sobre Si mesmo do que sobre as Suas criaturas’.

É na questão acima, pensamos nós, que a paciência de Deus se distingue mais claramente da Sua misericórdia. Embora a cria­tura seja beneficiada por ela, a paciência de Deus diz respeito principalmente a Si próprio, como uma restrição imposta por Sua vontade aos Seus atos, ao passo que a Sua misericórdia esgota-se totalmente na criatura. A paciência de Deus é aquela excelência que O leva a suportar grandes ofensas sem vingar-Se imediata­mente. Ele tem um poder de paciência, como também um poder de justiça. Assim, a palavra hebraica para “longânimo” é tradu­zida por ‘”tardio em irar-se” em Neemias 9:17, Joel 2:13, etc. Não que haja quaisquer paixões na natureza divina, mas que à sabedoria e à vontade de Deus apraz agir com aquela dignidade e sobriedade que vem a ser a Sua exaltada majestade.

Em apoio de nossa definição acima, permita-me assinalar que foi para esta excelência do caráter divino que Moisés apelou, quando Israel pecou tão afrontosamente era Cades-Barnéia, e ali provocou ao Senhor tão dolorosamente. Ao Seu servo disse o Se­nhor: “Com pestilência o ferirei, e o rejeitarei…” (Números 14:12). Então foi que o mediador tipológico intercedeu: “Agora, pois, rogo-te que a força do meu Senhor se engrandeça; como tens falado, dizendo: O Senhor é Longânimo” (versículos 17 e 18). Portanto, a Sua “longanimidade”" ou paciência é a Sua “for­ça” ou o Seu poder de auto-restrição.

Ainda em Romanos 9:22 lemos: “E que direis se Deus, que­rendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para perdição”. Se Deus imediatamente fizesse em pedaços estes vasos reprova­dos, o Seu poder de auto-controle não apareceria tão eminentemente; tolerando a iniqüidade deles e lhes sobre-levando demoradamente o castigo, o poder da Sua paciência fica demonstrado gloriosamente. É verdade que os ímpios interpretam a paciência de Deus de maneira muito diferente -— “Visto como se não exe­cuta logo o juízo sobre a má obra, por isso o coração dos filhos dos homens está inteiramente disposto para praticar o mal” (Eclesiastes 8:11) — mas o olhar ungido adora o que eles insultam.

“O Deus de paciência” (Romanos 15:5) é um dos títulos divinos. A Deidade é assim denominada, primeiro, porque Deus é tanto o Autor como o Objeto da graça da paciência na criatura. Segundo, porque é isto que Ele é em Si mesmo: a paciência é uma das Suas perfeições. Terceiro, como um padrão para nós: “Revesti-vos pois, como eleitos de Deus, santos, e amados, de en­tranhas de misericórdia, de benignidade, mansidão, longanimida­de” (Colossenses 3:12). E ainda: “Sede pois imitadores de Deus como filhos amados” (Efésios 5:1). Quando tentado a aborrecer-se com a lerdeza doutrem, ou a vingar-se de alguém que o ultra­jou, lembre-se da infinita paciência e longanimidade de Deus para com você.

A paciência de Deus se manifesta em Sua maneira de tratar os pecadores. Quão surpreendentemente foi demonstrada para com os antediluvianos. Quando a humanidade estava universal­mente degenerada, e toda a carne havia corrompido os seus ca­minhos, Deus não a destruiu sem antes adverti-la. “… a longa­nimidade de Deus esperava…” (1 Pedro 3:20), Deus esperou não menos de cento e vinte anos (Gênesis 6:3), tempo durante o qual Noé foi “… pregoeiro da justiça… ” (2 Pedro 2:5). Assim, mais tarde, quando os gentios não só cultuavam e serviam mais a criatura do que ao Criador, mas também cometiam as mais vis abominações contrárias até mesmo aos .ditames da natureza (Ro­manos 1:19-26), e com isso encheram a medida da sua iniqüida­de; todavia, em vez de desembainhar a Sua espada para o exter­mínio desses rebeldes, Deus “… deixou andar todas as gentes em seus próprios caminhos…” e lhes deu “… chuvas e tempos frutíferos…” (Atos 14:16-17).

A paciência de Deus foi maravilhosamente exercida e mani­festada  para   com   Israel.   Primeiro,   Ele  “…suportou  os   seus costumes  no deserto por espaço de quase quarenta anos     (Atos 13.18)   Posteriormente, quando os israelitas entraram em Canaã, mas seguiam os maus costumes das nações ao seu redor e pen­diam para a idolatria, conquanto Deus os castigasse dolorosamen­te    não   os   destruiu   por   completo,   mas   sim   em   sua   angustia, levantava libertadores para eles. Quando a sua iniqüidade subiu a tal ponto que ninguém, senão um Deus de infinita paciência, po­deria   suportá-los,  Ele,   não  obstante,   poupou-os   durante   muitos anos   antes de deixar que fossem levados para a Babilônia. Final­mente   quando a sua rebelião contra  Ele atingiu o clímax pela crucificação de Seu Filho, Deus esperou quarenta anos, antes de enviar os romanos contra eles, e isso, só depois deles Julgarem que não eram “…dignos da vida eterna…     (Atos  13:46)

Quão maravilhosa é a paciência de Deus com o mundo hoje! Por toda parte as pessoas pecam a peito aberto. A lei divina e pisoteada e o próprio Deus é desprezado abertamente. É deveras espantoso que Ele não elimine de vez aqueles que tão descarada­mente O desafiam. Por que Ele  não  corta  da face  da  terra o infiel insolente e o escarnecedor verboso, como fez com Ananias e  Safira?   Por que não faz a  terra  abrir  a boca  e  devorar  os perseguidores do Seu povo para  que,  à  semelhança  de Data  e Abirão   fossem vivos para o Abismo? E que dizer da cristandade apóstata, em que todas as formas de pecado possíveis são agora toleradas e praticadas sob a capa do santo nome de_ Cristo? Por que a justa ira do Céu não põe fim a tais abominações? Somente uma resposta é possível: porque Deus tolera com muita pa­ciência os  vasos  da  ira,  preparados   para   perdição  (Romanos 9:22).

E que dizer do autor e do leitor? Façamos uma revisão em nossas vidas. Não transcorreu muito tempo desde quando nós seguíamos a multidão na prática do mal, não nos interessávamos nem um pouco pela glória de Deus e só vivíamos para gratificar o nosso ego. Quão pacientemente Ele tolerou a nossa conduta vil! E agora que a graça nos tirou como tições do fogo, dando-nos um lugar na família de Deus, e nos gerou para uma herança eterna na glória, quão miseravelmente Lhe retribuímos! Quão superficial a nossa gratidão, quão tardia a nossa obediência e quão freqüen­tes as nossas apostasias! Uma razão pela qual Deus tolera que o crente permaneça carnal é que Ele possa demonstrar a Sua longanimidade para conosco (2 Pedro 3:9). Desde que este atributo divino só se manifesta neste mundo, Deus se empenha mais em mostrá-lo para com “os Seus”.

Oxalá a nossa meditação nesta excelência divina abrande os nossos corações, enterneça as nossas consciências, e possamos aprender na escola da santa experiência a “paciência dos santos’1, a saber, a submissão à vontade divina e a perseverança na prática do bem. Busquemos fervorosamente a graça que nos capacite a imitar esta excelência divina. “Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus’” (Mateus 5:48); no con­texto imediato Cristo nos exorta a amar os nossos inimigos, a bendizer os que nos maldizem, a fazer o bem aos que nos odeiam. Deus tolera bastante os ímpios, apesar da multidão dos seus pe­cados; e nós, haveremos de querer vingar-nos por causa de uma única ofensa?

 

 13. A GRAÇA DE DEUS

 Esta perfeição do caráter divino só é exercida em favor dos eleitos. Nem no Velho Testamento nem no Novo jamais se men­ciona a graça de Deus em conexão com a humanidade em geral, e muito menos com as ordens inferiores das Suas criaturas. Nisto a graça se distingue da “misericórdia”, pois a misericórdia é “… sobre todas as suas obras1‘ (Salmo 145:9). A graça é a única fonte da qual fluem a boa vontade, o amor e a salvação de Deus para o Seu povo escolhido. Este atributo do caráter divino foi definido por Abraham Booth em seu proveitoso livro, The Reign of Grace — O Reino da Graça, assim: “É o livre, absoluto e eterno favor de Deus, manifesto na concessão de bênçãos espirituais e eternas a culpados e indignos.

A graça divina é o soberano e salvador favor de Deus exercido na dádiva de bênçãos a pessoas que não têm em si mérito nenhum, e pelas quais não se exige delas nenhuma compensação. Não apenas isso, é ainda mais; é o favor de Deus demonstrado a pessoas que, não só não possuem merecimentos próprios, mas são totalmente merecedoras do inferno. É completamente imere­cida, não é procurada de modo nenhum e não é atraída por nada que haja nos objetos aos quais é dada, por nada que deles pro­venha, e tampouco pelos próprios objetos. A graça não pode ser comprada, nem obtida, nem conquistada pela criatura. Se pudes­se, deixaria de ser graça. Quando dizemos que uma coisa é “de graça”, queremos dizer que seu recebedor não tem direitos sobre ela, que de maneira nenhuma ela lhe era devida. Chega-lhe como pura caridade e, a princípio, não solicitada nem desejada.

A mais completa exposição da maravilhosa graça de Deus acha-se nas epístolas do apóstolo Paulo. Em seus escritos “graça” está em direta oposição a obras e merecimento, todas as obras e todo merecimento, de qualquer espécie ou grau. Vê-se isto com muita clareza em Romanos 11:6, na versão utilizada pelo autor: “E se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça. Se é por obras, já não é pela graça; de outra maneira, as obras já não são obras”. É tão impossível unir a graça e as obras, como o é unir um ácido e um álcali. “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie (Efésios 2:8-9). O absoluto favor de Deus não pode harmonizar-se com o mérito humano, mais do que o óleo e a água fundir-se num só elemento. Ver também Romanos 4:4-5.

São três às principais características da graça divina: primei­ra, é eterna. A graça foi planejada antes de ser exercida, e fez parte do propósito divino antes de ser infundida: “Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” (2 Timóteo 1:9). Segunda, é livre, ou gratuita, pois ninguém a pôde comprar jamais: “Sendo justificados gratuitamente pela sua graça…” (Ro­manos 3:24. Terceira, ê soberana, porque Deus a exerce em favor daqueles a quem Lhe apraz, e a estes a concede: “Para que… também a graça reinasse…” (Romanos 5:21). Se a graça “reina”, ocupa um trono, e o ocupante do trono é soberano. Daí o “…   trono da graça…” (Hebreus 4:16).

Exatamente porque a graça é um favor imerecido, exerce-se necessariamente de maneira soberana. Portanto, o Senhor declara: “Terei misericórdia” (ou graça) “…de quem eu tiver misericór­dia,..’” (Êxodo 33:19). Se Deus mostrasse graça a todos os des­cendentes de Adão, os homens logo concluiriam que Ele, sendo justo, estava compelido a levá-los para o céu como uma razoável compensação por ter deixado a raça humana cair em pecado. Mas o grande Deus não está sob nenhuma obrigação para com nenhu­ma de Suas criaturas, menos ainda para com os que são rebeldes contra Ele.

A vida eterna é um dom e, portanto, não pode ser obtida pelas boas obras, nem reivindicada como um direito. Vendo que a salvação é um “dom”, quem tem direito de dizer a Deus a quem Ele deve doá-lo? Não é que o Doador recusa este dom a qualquer que o busque de todo coração e de acordo com as re­gras que Ele prescreveu. Não; Ele não o recusa a ninguém que O busca de mãos vazias e da maneira determinada por Ele. Mas, se de um mundo impenitente e incrédulo Deus está resolvido a exercer o Seu direito soberano escolhendo um número limitado de pessoas para serem salvas, quem sai prejudicado? Estará Deus obrigado a impor o Seu dom aos que não lhe dão valor? Estará Deus compelido a salvar os que estão determinados a seguir o seu próprio caminho!

Nada, porém, enraivece mais o homem natural e mais con­tribui para trazer à tona a sua inata e inveterada inimizade con­tra Deus, do que insistir com ele sobre a eternidade, a gratuidade e a absoluta soberania da graça divina. Dizer que Deus formou Seu propósito desde a eternidade, sem nenhuma consulta à cria­tura, é demasiadamente humilhante para o coração não quebrantado Dizer que a graça não pode ser adquirida ou conquistada pelos esforços do homem, esvazia demais o ego dos que confiam em sua justiça própria. E o fato de que a graça separa os que ela quer para serem os objetos do seu favor, provoca acalorados protestos  dos  rebeldes  arrogantes.  O  barro se  levanta  contra  o Oleiro e pergunta: “Por que Tu me fizeste assim?’   Um rebelde infrator da lei atreve-se a questionar a justiça da soberania divina. Vê-se a distintiva graça de Deus no ato de salvar aqueles que Ele separou  soberanamente  para  serem os  Seus  favoritos.  Com “distintiva” queremos dizer que a graça discrimina, faz diferenças   escolhe alguns e deixa de lado outros. Foi a distintiva graça de Deus que separou Abraão dentre os seus vizinhos idolatras e fez dele “o amigo de Deus”. Foi a distintiva graça que salvou “publicanos e  pecadores”, mas disse acerca dos fariseus: Deixai-os”   (Mateus   15:14).  Em parte nenhuma a glória da livre e soberana graça de  Deus  fulge mais conspicuamente  do que na indignidade e diversidade dos que a recebem. Esta verdade foi belamente ilustrada por James Hervey (1751):

“Onde o pecado abundou, diz a proclamação do tribunal do céu superabundou a graça. Manasses foi um monstro cruel, pois fez passar seus próprios filhos pelo fogo, e encheu Jerusalém de sangue inocente. Manasses foi-perito em iniqüidade, pois, não só multiplicou, chegando a extremos extravagantes, as suas impiedades sacrílegas, como também envenenou os princípios e perver­teu os costumes dos seus súditos, fazendo-os agir pior do que os pagãos idolatras mais detestáveis. Veja 2 Crônicas 33. Contudo, através desta super abundante graça, ele se humilhou, mudou de vida, e se tornou um filho do amor que perdoa e um herdeiro da glória imortal.

“Vede Saulo, aquele perseguidor cruel e sanguinário, quan­do, respirando ameaças e disposto à matança, atormentava as ove­lhas de Jesus e levava à morte os Seus discípulos. A devastação que causara e as famílias inofensivas que arruinara, não eram su­ficientes para mitigar o seu espírito vingativo. Eram apenas uma amostra para o paladar que, em vez de saciar a sede de sangue, fizeram-no seguir mais de perto a presa e ansiar mais ardentemente pela destruição. Continuava sedento de violência e morte. Tão ávida e insaciável era sua sede, que chegava a respirar amea­ças e mortes (Atos 9:1). Suas palavras eram verdadeiras lanças e flechas, e a sua língua, uma espada afiada. Para ele, ameaçar os cristãos era tão natural como respirar. Nos propósitos do seu coração rancoroso, eles não paravam de sangrar. Só devido à falta de poder é que cada sílaba que proferia e cada sopro da sua respiração não espalhavam mais mortes nem faziam cair mais discípulos inocentes. Quem, segundo os princípios da justiça hu­mana, não o teria pronunciado vaso da ira, destinado a inevitável condenação? E mais, quem não estaria pronto a concluir que, se houvesse cadeias mais pesadas e masmorra mais triste no mundo das torturas, certamente se reservariam para tão implacável ini­migo da verdadeira religiosidade? Entretanto, admirai e adorai os inexauríveis tesouros da graça — este Saulo é admitido na santa comunhão dos profetas, é enumerado com o nobre exército de mártires e faz distinguida figura no glorioso colégio dos apóstolos.

“Era proverbial a maldade dos coríntios. Alguns deles cha­furdavam em tão abomináveis libertinagens, e estavam habituados a tão ultrajantes atos de injustiça que eram uma infâmia até para a natureza humana. Contudo, até mesmo esses filhos da violência e escravos do sensualismo foram lavados, santificados, justificados (1 Coríntios 6:9-11). “Lavados” no sangue precioso do Redentor que deu Sua vida; “santificados” pelas poderosas operações do bendito Espírito; “justificados” através das misericórdias infini­tamente ternas do Deus da graça. Os que outrora foram um afli­tivo fardo para a terra, vieram a ser o júbilo do céu, o encanto dos anjos”.

Agora, a graça de Deus se manifesta no Senhor Jesus Cristo, por Ele e através dEle.-”Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo (João 1:17). Isto não significa que Deus nunca exercera a Sua graça em favor de al­guém antes de encarnar-Se o Seu Filho, Gênesis 6:8; Êxodo 33:19; etc; mostram que a verdade é outra. Mas a graça e a verdade foram plenamente reveladas e perfeitamente exemplifica­das quando o Redentor veio a esta terra e morreu na cruz por Seu povo. Ê somente através de Cristo, o Mediador, que a graça de Deus flui para os Seus eleitos. “Muito mais a graça de Deus e o dom pela graça, que é dum só homem (ou “por um ho­mem”), Jesus Cristo… muito mais os que recebem a abundância da graça, e o dom da justiça, reinarão em vida por um só — Jesus Cristo … para que … também a graça reinasse pela jus­tiça para a vida eterna, por Jesus Cristo nosso Senhor” (Roma­nos 5:15, 17, 21).

A graça de Deus é proclamada no evangelho  (Atos 20:24), o qual é para o judeu confiante em sua justiça própria um “es­cândalo” (ou “pedra de tropeço”), e para o grego presunçoso e filósofo   “loucura”. Por quê? Porque não há nada no evangelho que se preste para gratificar o orgulho do homem. Ele anuncia que se não formos salvos pela graça, não seremos salvos de modo nenhum. Ele declara que, fora de Cristo – o Dom inefável da graça de Deus — o estado de todos os homens é desesperador, irremediável, sem esperança. O evangelho trata os homens como criminosos culpados, condenados e mortos. Declara que o mora­lista mais puro está na mesma condição terrível em que se acha o libertino mais  voluptuoso;  que o religioso confesso e zeloso, com todas as suas práticas religiosas, não é melhor do que o mais profano infiel.

O evangelho considera a todo descendente de Adão como pe­cador decaído, corrupto, merecedor do inferno e desvalido. A gra­ça que o evangelho divulga é a sua única esperança. Todos per­manecem diante de Deus como réus sentenciados, transgressores da Sua santa lei, como criminosos culpados e condenados, não a espera de alguma sentença, mas esperando a execução da sentença já passada sobre eles (João 3:18; Romanos 3:19). Queixar-se da parcialidade da graça é suicídio. Se o pecador insiste em que se lhe faça a pura justiça, então o “lago de fogo” terá que ser o seu quinhão eterno. Sua única esperança está em render-se a sen­tença que a justiça divina lhe passou, apropriar-se da retidão abso­luta que a caracteriza, lançar-se à misericórdia de Deus, e esten­der mãos vazias para servir-se da graça de Deus, que agora chegou a conhecer por meio do evangelho.

A terceira pessoa da Deidade é o comunicador da graça  pelo que e denominado “… o Espírito de graça… ” (Zacarias 12-10) Deus, o Pai, é a fonte de toda graça, pois Ele em Si mesmo deter­minou a aliança eterna da redenção. Deus, o Filho, é o único canal da graça. O evangelho é o divulgador da graça. O Espírito é o doador. Ele aplica o evangelho com poder salvador à alma vivificando os eleitos enquanto ainda mortos, dominando as suas von­tades rebeldes, amolecendo os seus duros corações,  abrindo-lhes os olhos da sua cegueira, limpando-os da lepra do pecado   Pode­mos assim dizer com G. S. Bishop (já falecido): «A graça é uma provisão para homens que se acham tão decaídos que não podem erguer o machado da justiça, tão corruptos que não podem mudar as suas próprias naturezas, tão contrários a Deus que não podem voltar para Ele, tão cegos que não podem vê-10, tão surdos que não podem ouvi-1O, e tão mortos que Ele mesmo precisa abrir os seus túmulos e levantá-los para a ressurreição”.

 

14. A MISERICÓRDIA DE DEUS

 ”Louvai ao Senhor, porque ele é bom; porque a sua begnidade (ou misericórdia) dura para sempre” (Salmo 136-1) Deus deve ser grandemente louvado por esta perfeição do Seu caráter. Por três vezes, em três versículos, o salmista convida os santos a louvarem ao Senhor por este atributo adorável. E cer­tamente é o mínimo que se pode pedir aos que tão copiosamente se beneficiaram dele. Quando ponderamos as características desta excelência divina, não podemos senão bendizer a Deus por ela A Sua misericórdia (ou benignidade), é “grande” (1 Reis 3-6- 1 Pedro 1:3), “abundante” (Salmo 86:5), “terna” (Lucas 1-78 ‘na versão utilizada pelo autor); “… de eternidade a eternidade so­bre aqueles que o temem…” (Salmo 103:17). Bem podemos dizer com o salmista: “… louvarei com alegria a tua misericór­dia …  (Salmo 59:16).

“… eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti e apregoarei o nome do Senhor diante de ti; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem me compadecer” (Êxodo 33:19). Em que a misericórdia de Deus difere da Sua “graça”? A misericórdia de Deus tem sua origem na bon­dade divina. O primeiro fruto da bondade de Deus é Sua benigni­dade ou generosidade, pela qual Ele dá liberalmente a Suas criaturas como criaturas; assim deu Ele o ser e a vida a todas as coisas. O segundo fruto da bondade de Deus é Sua misericór­dia, que denota a pronta inclinação de Deus para aliviar a miséria das criaturas caídas. Assim, “misericórdia” pressupõe pecado.

Embora não seja fácil, à primeira consideração, perceber uma real diferença entre a graça e a misericórdia de Deus, podemos compreendê-la se ponderarmos cuidadosamente os Seus procedi­mentos para com os anjos que não caíram. Ele nunca exerceu misericórdia para com eles, pois jamais tiveram qualquer neces­sidade dela, pois não pecaram, nem ficaram debaixo dos efeitos da maldição. Todavia, eles são objetos da livre e soberana graça de Deus. Primeiro, porque Deus os elegeu do seio de toda a raça angélica (1 Timóteo 5:21), Segundo, e em conseqüência da sua eleição, porque foram preservados da apostasia, quando Satanás se rebelou e arrastou consigo um terço das hostes celestiais (Apocalipse 12:4), Terceiro, tornando Cristo a Cabeça deles (Colossenses 2:10; 1 Pedro 3:22), meio pelo qual eles permanecem eter­namente seguros na santa condição em que foram criados. Quarto, devido à exaltada posição que lhes foi atribuída: viver na pre­sença imediata de Deus (Daniel 7:10), servi-1O constantemente em Seu templo celestial, receber dEle honrosas missões (Hebreus 1:14). Isso é graça abundante para com eles, mas “misericórdia” não é.

No empenho em estudar a misericórdia de Deus como ex­posta nas Escrituras, é preciso fazer uma tríplice distinção, se é que a Palavra da Verdade há de ser “bem manejada” nesse ponto. Primeiro, há uma misericórdia geral de Deus, que se estende não somente a todos os homens, crentes e descrentes igualmente, mas também à criação inteira: “…as  suas  misericórdias  são sobre todas as suas obras” (Salmo 145:9); “… de mesmo é quem dá a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas” (Atos 17:25). Deus tem compaixão da criação animal em suas necessi­dades, e a supre de provisão adequada. Segundo, há uma mise­ricórdia especial de Deus, exercida para com os filhos dos homens, ajudando-os e socorrendo-os, apesar dos seus pecados. Também a estes Deus supre todas as necessidades da vida: “… porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos” (Mateus 5:45). Terceiro, há uma miseri­córdia soberana, reservada para os herdeiros da salvação, comu­nicada a estes por meio de uma aliança, através do Mediador.

Acompanhando um pouco mais a diferença entre o segundo e o terceiro pontos distintivos acima expostos, é importante notar que as misericórdias que Deus concede aos ímpios são exclusiva­mente de natureza temporal; quer dizer, limitam-se estritamente a presente vida. Não haverá misericórdia que se estenda a eles além-tumulo: “… este povo não é povo de entendimento- por isso aquele que o fez não se compadecera dele, e aquele que o formou não lhe mostrará nenhum favor” (Isaías 27:11) Neste ponto, porém, pode oferecer-se uma dificuldade a algum dos nos­sos leitores, a saber: não afirmam as Escrituras que a misericórdia de Deus, “…a sua benignidade dura para sempre”?   (Salmo 13b: 1)7 E preciso assinalar duas coisas neste contexto. Deus nunca deixa de ser misericordioso, pois isto constitui uma qualidade da essência divina (Salmo 116:5); mas o exercício da Sua misericór­dia e regulado por Sua vontade soberana. Tem que ser assim, pois não ha fora dEle coisa nenhuma que O obrigue a agir;  se hou­vesse, essa “coisa” seria suprema e Deus deixaria de ser Deus. É somente a pura graça soberana que determina o exercício da misericórdia divina. Deus afirma expressamente este fato em Romanos 9:15: “Pois diz a Moisés:  Compadecer-me-ei de quem compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericór­dia. Não e a desgraça da criatura que O leva a mostrar misericórdia,  pois  Deus não é influenciado por coisas  alheias  a  Si mesmo, como nós somos. Se Deus fosse influenciado pela miséria abjeta dos pecadores leprosos, Ele os limparia e os salvaria a todos. Mas não o faz. Por quê? Simplesmente porque não é do Seu agrado e do Seu propósito agir assim. Menos ainda são os méritos da criatura que O levam a conceder-lhes misericórdias, pois é uma contradição de termos falar em merecer “miseri­córdia”. “Não petas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou…” (Tito 3:5) — aquelas estando em direta antítese a esta. Tampouco são os méritos de Cristo que movem Deus a conceder misericórdias aos Seus elei­tos; isto seria tomar o efeito pela causa. É “através” ou por causa da misericórdia de Deus que Cristo foi enviado ao mundo, ao Seu povo (Lucas 1:78). Os méritos de Cristo tornaram possí­vel a Deus conceder justamente misericórdias espirituais aos Seus eleitos, tendo sido satisfeita plenamente a justiça pelo Fiador! Não, a misericórdia provém unicamente da vontade soberana de Deus.

Ademais, conquanto seja verdade, bendita e gloriosa verdade, que a misericórdia de Deus “dura para sempre”, devemos obser­var cuidadosamente os objetos a quem Deus mostra misericórdia. Até o lançamento dos reprovados no “lago de fogo” é um ato de misericórdia. O castigo dos ímpios deve ser considerado de um tríplice ponto de vista. Do lado de Deus, é um ato de justiça, vindicando a Sua honra, A misericórdia de Deus nunca se mostra cm detrimento da Sua santidade e justiça. Do lado dos ímpios, é um ato de eqüidade, dado que são postos a sofrer a merecida re­compensa das suas iniqüidades. Mas do ponto de vista dos redi­midos, o castigo dos ímpios é um ato de indescritível misericórdia. Quão terrível seria se a presente ordem de coisas continuasse para sempre, quando os filhos de Deus são forçados a viver no meio dos filhos do diabo! O céu logo deixaria de ser céu, se os ouvi­dos dos santos ainda ouvissem a Linguagem blasfema e corrom­pida dos reprovados. Que misericórdia, o fato de que na Nova Jerusalém não entrará “ … coisa alguma que contamine, e cometa abominação… ” (Apocalipse 21:27)!

Para que o leitor não pense que no último parágrafo acima estivemos laborando sobre a nossa imaginação, apelemos para as Escrituras Sagradas em apoio do que foi dito. No Salmo 143:12 vemos Davi orando: “E por tua misericórdia desarraiga os meus inimigos, e destrói a todos os que angustiam a minha alma: pois sou teu servo”. Ainda, no Salmo 136:15 lemos que Deus “derribou a Faraó com o seu exército no Mar Vermelho; porque a sua benignidade (ou misericórdia) dura para sempre”. Foi um ato de castigo a Faraó e aos seus exércitos, mas foi um ato de “mise­ricórdia” para os israelitas. Mais ainda, em Apocalipse 19:1-3 lemos: “… ouvi no céu como que uma grande voz de uma gran­de multidão, que dizia: Aleluia; Salvação, e glória, e honra, e poder pertencem ao Senhor nosso Deus; porque verdadeiros e jus­tos são os seus juízos, pois julgou a grande prostituta, que havia corrompido a terra com a sua prostituição, e das mãos dela vingou o sangue dos seus servos. E outra vez disseram: Aleluia. E o fumo dela sobe para todo o sempre”.

Do que se acaba de ver diante de nós, notemos como é vã a presunçosa esperança dos ímpios que, apesar do seu continuado desafio a Deus, mesmo assim contam com uma atitude misericor­diosa de Deus em favor deles. Quantos há que dizem: não acre­dito que Deus me lançará no inferno; Ele é muito misericordio­so. Essa esperança é uma víbora que, se for acalentada no colo deles, irá feri-los com picada morta!. Deus é Deus de justiça, como de misericórdia, e Ele declarou expressamente que “… ao culpa­do não tem por inocente…” (Êxodo 34:7). Sim, Ele disse: “Os ímpios serão lançados no inferno e todas as gentes que se esque­cem de Deus” (Salmo 9:17). Também poderiam raciocinar os homens: se se deixasse acumular o lixo, e os esgotos ficassem estagnados, e as pessoas ficassem privadas de ar renovado, não acredito que um Deus misericordioso as deixaria cair presas de uma febre mortal. O fato é que aqueles que negligenciam as leis da saúde são tomados pela doença, apesar da misericórdia de Deus. Igualmente verdade é que os que negligenciam as leis da saúde espiritual sofrerão para sempre a ”segunda morte”.

É indizivelmente grave ver tantos abusando desta perfeição divina. Continuam desprezando a autoridade de Deus, pisoteando Suas leis; continuam em pecado, e ainda se vangloriam apoiados na Sua misericórdia.   Mas Deus não será injusto para Consigo mesmo. Deus mostra misericórdia para o penitente sincero, não porém para o impenitente (Lucas 13:3). É diabólico continuar em pecado e ainda contar com a misericórdia de Deus para a proscrição do castigo. Equivale a dizer: “Façamos males, para que venham bens”. Dos que falam assim, está escrito: “… A con­denação desses é justa’ (Romanos 3:8). Com toda a certeza, essa presunção se verá frustrada; leia cuidadosamente Deuteronômio 29:18-20. Cristo é a propiciação espiritual, e todos quantos des­prezarem e rejeitarem o Seu senhorio, perecerão “… no caminho, quando em breve se inflamar a sua ira” (Salmo 2:12).

O nosso pensamento final será sobre as misericórdias espiri­tuais de Deus para com o Seu povo. “… a tua misericórdia é grande até aos céus…” (Salmo 57:10). As riquezas da miseri­córdia transcendem os nossos mais elevados pensamentos. “Pois quanto o céu está elevado acima da terra, assim é grande a sua misericórdia para com os que o temem” (Salmo 103:11). Nin­guém pode medi-la. Os eleitos são designados “… vasos de mi­sericórdia…” (Romanos 9:23). Foi a misericórdia que os vivi-ficou quando estavam mortos em pecado (Efésios 2:4-5). A mi­sericórdia os salvou (Tito 3:5). Sua abundante misericórdia os regenerou para uma herança eterna (1 Pedro 1:3). E nos faltaria tempo para falar da misericórdia de Deus que preserva, sustenta, perdoa e supre os Seus. Para eles Deus é “… Pai das misericór­dias…” (2 Coríntios  1:3).

Quando em elevação minha alma sonda

as Tuas misericórdias, ó meu Deus,

a visão me arrebata, e então me absorvo em encanto,

em amor e em louvor.

15. O AMOR DE DEUS

 As Escrituras nos dizem três coisas a respeito da natureza de Deus. Primeira, “Deus é espírito” (João 4:24). No grego não há artigo indefinido. Dizer “Deus é um espírito” é sumamente repreensível, pois O coloca na mesma classificação de outros se­res. Deus é “espírito” no sentido mais elevado. Como é “espíri­to”, é incorpóreo, não tem substância visível. Tivesse Deus um corpo tangível, não seria onipresente, estaria limitado a um lugar; sendo “espírito”, enche os céus e a terra. Segunda, “Deus é luz” (1 João 1:5), o que é oposto às trevas. Nas Escrituras as “trevas” representam o pecado, o mal, a morte; a “luz” representa a san­tidade, a bondade, a vida. “Deus é luz” significa que Ele é a soma de todas as excelências. Terceira, “Deus é amor” (1 João 4:8). Não é simplesmente que Deus ama, porém que ê amor mes­mo. O amor não é meramente um dos Seus atributos, mas sim Sua própria natureza,

Muitos hoje falam do amor de Deus, mas são completamente alheios ao Deus de amor. Comumente se considera o amor divino como uma espécie de fraqueza amável, uma certa indulgência boazinha; fica reduzido a um sentimento enfermiço, modelado nas emoções humanas. Pois bem, a verdade é que nisto, como em tudo mais, os nossos pensamentos precisam ser formulados e regulados por aquilo que é revelado nas Escrituras Sagradas. Que há ur­gente necessidade disto transparece não só na ignorância que ge­ralmente prevalece, mas também no baixo nível de espiritualidade atual que lamentavelmente se evidencia entre os cristãos profes­sos. Quão pouco amor genuíno a Deus existe! Uma das principais razões disso é que os nossos corações pouco se ocupam com o Seu maravilhoso amor por Seu povo. Quanto melhor conheçamos o Seu amor — sua natureza, sua plenitude, sua bem-aventurança — mais os nossos corações serão impelidos a amá-1O.

1. O amor de Deus é imune de influência alheia. Queremos dizer com isso que não há nada nos objetos do Seu amor que possa colocá-lo em ação, e não há- nada na criatura que possa atraí-lo ou impulsioná-lo. O amor que uma criatura tem por outra deve-se a algo existente nelas; mas o amor de Deus é gratuito espontâneo e não causado por nada nem por ninguém. A única razão pela qual Deus ama alguém acha-se em Sua vontade sobe­rana: “O Senhor não tomou prazer em vós,  nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vos éreis menos em número do que todos os povos: mas porque o Senhor vos amava” {Deuteronômio 7:7-8), Deus amou o Seu povo desde a eternidade e, portanto, a criatura nada tem que possa ser a causa daquilo que se acha em Deus desde a eternidade. Seu amor provém dEle próprio: “… segundo o seu próprio propósito…” (2 Timóteo 1:9).

“Nós o amamos a ele porque ele nos amou primeiro” (1 João 4:19). Deus não nos amou porque nós O amávamos, mas nos amou antes de nós termos uma só partícula de amor por Ele. Se Deus nos tivesse amado em resposta ao nosso amor, então o Seu amor não seria espontâneo; mas visto que Ele nos amou quando nós não O amávamos, é claro que o Seu amor não foi influenciado. Para que se honre a Deus, e se firme o coração do Seu Filho, é altamente importante que entendamos com absoluta clareza esta verdade preciosa. O amor de Deus por mim e por todos e cada um dos que são “Seus” não foi movido nem moti­vado por coisa nenhuma em nós. Que havia em mim que atraiu o coração de Deus? Absolutamente nada. Ao contrário, porém, havia tudo para O repelir, tudo na medida para levá-lO a detes­tar-me — sendo eu pecador, depravado, corrupto, sem “nenhum bem” em mim.

“O que existia em mim que merecesse estima

ou desse algum prazer ao Criador?

Fosse assim mesmo, ó Pai, eu sempre cantaria

por veres algo bom em mim, Senhor.”

2. É eterno. Necessariamente, Deus é eterno, e Deus é amor; portanto, como Deus não teve princípio, Seu amor também não teve. Mesmo concedendo que esse conceito transcende o alcance das nossas frágeis mentes, contudo, quando não podemos com­preender, podemos inclinar-nos em adoração. Como é claro o tes­temunho de Jeremias 31:3: “… com amor eterno te amei, tam­bém com amorável benignidade te atraí”! Que bem-aventurança saber que o grandioso e santo Deus amava o Seu povo antes do céu e a terra terem sido chamados à existência, que Ele pusera o Seu coração neles desde toda a eternidade! Esta é uma prova clara de que o Seu amor é espontâneo, pois Ele os amou eras sem fim, antes de sequer existirem!

A mesma verdade preciosa é exposta em Efésios 1:4-5: “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em caridade; e nos predestinou…” (ou, na versão empregada pelo autor, “Havendo-nos predestinado em amor”). Que de louvores isto deveria evocar de cada um dos Seus filhos! Que tranqüilidade para o coração saber que, uma vez que o amor de Deus por mim não teve começo, certamente não terá fim! Se é certo que “de eter­nidade a eternidade” Ele é Deus, e é “amor”, então é igualmente certo que “de eternidade a eternidade” Ele ama a Seu povo.

3. É soberano. Isso também é evidente em si mesmo. Deus é soberano, não deve obrigação a ninguém; Ele é Sua própria lei e age sempre de acordo com a Sua vontade dominadora. Assim, pois, se Deus é soberano e é amor, infere-se necessariamente que o Seu amor é soberano. Porque Deus é Deus, faz o que Lhe agrada; porque é amor, ama a quem Lhe apraz. Eis a Sua pró­pria afirmação expressa: “… amei Jacó e aborreci Esaú” (Ro­manos 9:13). Em Jacó não havia mais razão do que em Esaú para ser objeto do amor divino. Ambos tinham os mesmos pais e, gêmeos que eram, nasceram na mesma hora. Contudo, Deus amou um e aborreceu o outro. Por que? Porque assim Lhe aprouve.

A soberania do amor de Deus infere-se necessariamente do fato de que nada do que há na criatura o influencia. Portanto, afirmar que a causa do Seu amor está em Deus é outro modo de dizer que Ele ama a quem Lhe apraz. Por um momento, su­ponha o oposto. Suponha que o amor de Deus fosse governado por outra coisa que a Sua vontade, caso em que Ele amaria se­guindo alguma norma e, amando por alguma norma, Ele estaria subordinado a uma lei do amor e, então, longe de ser livre, Deus seria governado por uma lei. “Em amor nos predestinou para fi­lhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo” — o quê? Alguma virtude que previu neles? Não. O que, então? — “…  segundo o beneplácito de sua vontade” (Efésios  1:4-5).

4. É infinito. Em Deus tudo é infinito. Sua essência enche os céus e a terra. Sua sabedoria não sofre nenhuma limitação, porquanto Ele conhece todas as coisas, do passado, do presente e do futuro. Seu poder é ilimitado, pois não há nada difícil demais para Ele. Assim, o Seu amor é sem limite. Há nele uma profun­didade que ninguém consegue sondar; há nele uma altitude que ninguém consegue escalar; há nele uma largura e um compri­mento que desdenhosamente desafiam a medição feita por todo e qualquer padrão humano. É declarado belamente em Efésios 2:4: “Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou”. A palavra “muito” aqui faz paralelo com a expressão “… Deus amou… de tal maneira…” (João 3:16), Diz-nos que o amor de Deus é tão transcendental que não pode ser avaliado.

“Nenhuma língua pode expressar plenamente a infinidade do amor de Deus, e nenhum intelecto pode compreendê-lo: “… ex­cede todo o entendimento…” (Efésios 5:19). As idéias mais am­plas que nossa mente finita possa conceber acerca do amor divino, estão infinitamente abaixo da sua verdadeira natureza. O céu não se acha tão distante da terra como a bondade de Deus está além das mais elevadas concepções que somos capazes de formular dela. A bondade divina é um oceano que se avoluma e se torna mais alto do que todas as montanhas de oposição nos que são objetos dela. E uma fonte da qual dimana todo o bem necessário aos que a ela estão ligados” (John Brine, 1743).

5. E imutável. Como em Deus “… não há mudança nem sombra de variação” (Tiago 1:17), assim o Seu amor não conhe­ce mudança nem diminuição. O verme Jacó dá-nos enfático exem­plo disto: “Amei Jacó”, declarou Jeová, e, a despeito de toda a sua incredulidade e obstinação, Ele nunca deixou de amá-lo. João 13:1 oferece-nos outra bela ilustração. Precisamente naquele noite um dos apóstolos diria “… mostra-nos o Pai. ..”; outro O ne­garia soltando maldições; todos se escandalizariam por causa dEle e O abandonariam. Todavia, “… como havia amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até ao fim”. O amor di­vino não se rende às vicissitudes. O amor divino é “… forte como a morte … as muitas águas não poderiam apagar este amor…” (Cantares de Salomão 8:6-7). Nada nos pode separar dele: Romanos 8:35-39.

“Seu amor não se mede e não conhece fim,

nada pode mudá-lo, nem seu curso.

Eternamente o mesmo, sem cessar dimana

do manancial eterno.”

6.   É santo. O amor de Deus não é regulado por capricho, paixão ou sentimento, mas por princípio. Exatamente como a Sua graça reina, não às suas expensas, mas “pela justiça” (Romanos 5:21), assim o Seu amor nunca entra em conflito com a Sua san­tidade. Que “Deus é luz” (1 João 1:5) se menciona antes de di­zer-se que “Deus é amor” (1 João 4:8). O amor de Deus não é mera fraqueza boazinha, nem brandura efeminada. As Escritu­ras declaram: “… o Senhor corrige o que ama, e açoita a qual­quer que recebe por filho” (Hebreus 12:6). Deus não tolerará o pecado, mesmo em Seu povo. O Seu amor é puro, e não se mis­tura com nenhum sentimentalismo piegas.

7.   É pleno de graça. O amor e o favor de Deus são inseparáveis. Esta verdade é exposta claramente em Romanos 8:32-39. O que é esse amor, do qual,nada nos pode -separar, percebe-se facilmente pelo propósito e alcance do contexto imediato: é aque­la boa vontade ou beneplácito e graça de Deus que O determinou a dar Seu Filho pelos pecadores. Esse amor foi o poder impulsivo da encarnação de Cristo: “… Deus amou o mundo de tal ma­neira que deu o seu Filho unigênito…” (João 3:16). Cristo morreu, não para fazer com que Deus nos amasse, mas porque Ele amava o Seu povo. O Calvário é a suprema demonstração do amor divino. Leitor cristão, sempre que você for tentado a duvi­dar do amor de Deus, volte ao Calvário.

Há aqui, pois, farta causa para confiança e paciência sob a aflição debaixo da mão de Deus. Cristo era amado pelo Pai, po­rém Ele não foi eximido de pobreza, humilhação e perseguição. Cristo teve fome e sede. Assim, quando Cristo permitiu que os homens cuspissem nEle e O golpeassem, isso não foi incompatível com o amor de Deus por Ele. Portanto, que nenhum cristão ques­tione o amor de Deus quando passar por aflições e provações. Deus não enriqueceu a Cristo na terra com prosperidade temporal, pois Ele não tinha “… onde reclinar a cabeça” (Mateus 8:20). Mas Deus Lhe deu o Espírito sem medida {João 3:34). Aprenda o cristão, pois, que as bênçãos espirituais são os principais dons do amor divino. Que bênção saber que, ao passo que o mundo nos odeia, Deus nos ama!

 

 16. A IRA DE DEUS

 É triste ver tantos cristãos professos que parecem considerar a ira de Deus como uma coisa pela qual eles precisam pedir des­culpas, ou, pelo menos, parece que gostariam que não existisse tal coisa. Conquanto alguns não fossem longe o bastante para admitir abertamente que a consideram uma mancha no caráter divino, contudo, estão longe de vê-la com bons olhos, não gostam de pensar nisso e dificilmente a ouvem mencionada sem que surja em seus corações um ressentimento contra essa idéia. Mesmo den­tre os mais sóbrios em sua maneira de julgar, não poucos parecem imaginar que há na questão da ira de Deus uma severidade terrificante demais para propiciar um tema para consideração provei­tosa. Outros dão abrigo ao erro de pensar que a ira de Deus não é coerente com a Sua bondade, e assim procuram bani-la dos seus pensamentos.

Sim, muitos há que fogem de visualizar a ira de Deus, como se fossem intimados a ver alguma nódoa no caráter divino, ou al­gum defeito no governo divino. Mas, o que dizem as Escrituras? Quando a procuramos nelas, vemos que Deus não fez tentativa alguma para ocultar a realidade da Sua ira. Ele não se envergo­nha de dar a conhecer que a vingança e a cólera Lhe pertencem. Eis o Seu desafio: “Vede agora que eu, eu o sou, e mais nenhum Deus comigo; eu mato, e eu faço viver; eu  firo, e eu saro; e ninguém há que escape da minha mão. Porque levantarei a minha mão aos céus, e direi: Eu vivo para sempre. Se eu afiar a minha espada reluzente, e travar do juízo a minha mão, farei tornar a vingança sobre os meus adversários, e recompensarei aos meus aborrecedores” (Deuteronômio 32:39-41). Um estudo na concor­dância mostrará que há mais referências nas Escrituras à indigna­ção, à cólera e à ira de Deus, do que ao Seu amor e ternura. Porque Deus é santo, Ele odeia todo pecado; e porque Ele odeia todo pecado, a Sua ira inflama-se contra o pecador Salmo 7:11.

Pois bem, a ira de Deus é uma perfeição divina tanto como a Sua fidelidade, o Seu poder ou a Sua misericórdia. Só pode ser assim, pois não há mácula alguma, nem o mais ligeiro defeito no caráter de Deus, porém, haveria, se nEle não houvesse “ira”! A indiferença para com o pecado é uma nódoa moral, e aquele que não o odeia é um leproso moral. Como poderia Aquele que é a soma de todas as excelências olhar com igual satisfação para a virtude e o vício, para a sabedoria e a estultícia? Como poderia Aquele que é infinitamente santo ficar indiferente ao pecado e negar-Se a manifestar a Sua “severidade” (Romanos 11:22) para com ele? Como poderia Aquele que só tem prazer no que é puro e nobre, deixar de detestar e de odiar o que é impuro e vil? A própria natureza de Deus faz do inferno uma necessidade tão real, um requisito tão imperativo e eterno como o céu o é. Não somente não há imperfeição nenhuma em Deus, mas também não há nEle perfeição que seja menos perfeita do que outra.

A ira de Deus é a Sua eterna ojeriza por toda injustiça. É o desprazer e a indignação da divina eqüidade contra o mal. É a santidade de Deus posta em ação contra o pecado. É a causa motora daquela sentença justa que Ele lavra sobre os malfeitores. Deus está irado contra o pecado porque este é rebelião contra a Sua autoridade, um ultraje à Sua soberania inviolável. Os in­surgentes contra o governo de Deus saberão um dia que Deus é o Senhor. Serão levados a sentir quão grandiosa é aquela Majes­tade que eles desprezaram, e como é terrível aquela ira de que foram ameaçados e a que não deram a mínima importância. Não que a ira de Deus seja uma retaliação maldosa e mal intencionada, infligindo agravo só pelo prazer de infligi-lo, ou devolver a ofensa recebida. Não; embora seja verdade que Deus vindicará o domínio como Governador do universo, Ele não será revanchista.

Evidencia-se que a ira divina é uma das perfeições de Deus, não somente pelas considerações acima apresentadas, mas também fica estabelecido claramente pelas declarações expressas da Sua Palavra. “Porque do céu se manifesta a ira de Deus…” (Roma­nos 1:18). “Manifestou-se quando foi pronunciada a primeira sen­tença de morte, quando a terra foi amaldiçoada e o homem foi expulso do paraíso terrestre; e depois, mediante castigos exem­plares como o dilúvio e a destruição das cidades da planície com fogo do céu, mas, especialmente pelo reinado da morte no mundo todo. Foi proclamada na maldição da lei para cada transgressão, e foi imposta na instituição do sacrifício. No capítulo 8 de Roma­nos, o apóstolo Paulo chama a atenção dos crentes para o fato de que a criação inteira ficou sujeita à vaidade, e geme e tem dores de parto. A mesma criação que declara que existe um Deus, e publica a Sua glória, também proclama que Ele é o inimigo do pecado e o vingador dos crimes dos homens. Acima de tudo, po­rém, do céu se manifestou a ira de Deus quando o Filho de Deus veio a este mundo para revelar o caráter divino, e quando essa ira foi demonstrada nos Seus sofrimentos é morte, de maneira mais terrível do que por todas as provas que Deus antes dera da Sua aversão pelo pecado. Além disso, o castigo futuro e eterno dos ímpios agora é declarado em termos mais solenes e explícitos do que antes. Sob a nova dispensação há duas revelações dadas do céu, uma da ira, a outra da graça” (Robert Haldane).

Mais: que a ira de Deus é uma perfeição divina está demons­trado claramente pelo que lemos no Salmo 95:11: “Por isso jurei na minha ira que não entrarão no meu repouso”. Duas são as ocasiões em que Deus “jura”: quando faz promessas (Gênesis 22:16), e quando faz ameaças (Deuteronômio 1:34). Na primeira, jura com misericórdia dos Seus filhos; na segunda, jura para aterrorizar os ímpios. Um juramento é feito para confirmação: Hebreus 6:16. Em Gênesis 22:16 disse Deus: “Por mim mesmo, jurei”, No Salmo 89:35 Ele declara; “Uma vez jurei por minha santidade”. Enquanto que no Salmo 95:11 Ele afirma: “Jurei na minha ira”. Assim é que o grande Jeová pessoalmente recorre à Sua “ira” como a uma perfeição igual à Sua “santidade”: tanto jura por uma como pela outra! Ainda: como em Cristo “… ha­bita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Colossenses 2:9), e como todas as perfeições divinas são notavelmente mani­festadas por Ele (João 1:18), por isso lemos sobre “… a ira do Cordeiro” (Apocalipse 6:16).

A ira de Deus é uma perfeição do caráter divino sobre a qual precisamos meditar com freqüência. Primeiro, para que os nossos corações fiquem devidamente impressionados com a ojeriza de Deus pelo pecado, Estamos sempre inclinados a uma consi­deração superficial do pecado, a encobrir a sua fealdade, a des­culpá-lo com excusas várias, Mas, quanto mais estudarmos e pon­derarmos a aversão de Deus pelo pecado e a maneira terrível como se vinga dele, mais probabilidade teremos de compreender quão horrível é o pecado. Segundo, para produzir em nossas almas um verdadeiro temor de Deus: “… retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus agradavelmente com reverência e piedade (“san­to temor”); porque o nosso Deus é um fogo consumidor” (Hebreus 12:28-29). Não poderemos servi-1O “agradavelmente” sem a devida “reverência” ante a Sua tremenda Majestade e sem o devido “santo temor” de Sua justa ira, e promoveremos melhor estas coisas trazendo freqüentemente à memória o fato de que “o nosso Deus é um fogo consumidor”. Terceiro, para induzir nossas almas a fervoroso louvor a Deus por ter-nos livrado “… da ira futura” (1 Tessalonicenses  1:10).

A nossa prontidão ou a nossa relutância em meditar na ira de Deus é um teste seguro de até que ponto os nossos corações reagem à Sua influência. Se não nos regozijamos verdadeiramente em Deus, pelo que Ele é em Si mesmo, e por todas as perfeições que nEle há eternamente, como poderá permanecer em nós o amor de Deus? Cada um de nós precisa vigiar o mais possível em oração contra o perigo de criar em nossa mente uma imagem de Deus segundo o modelo das nossas inclinações pecaminosas. Desde há muito o Senhor lamentou: “…pensavas que (eu) era como tu” (Salmo 50:21). Se não nos alegramos ”…em memória da sua santidade” (Salmo 97:12), se não nos alegramos por saber que num dia que logo vem, Deus fará uma demonstração suma­mente gloriosa da Sua ira,  tomando vingança em todos os que agora se opõem a Ele, é prova positiva de que os nossos corações não estão sujeitos a Ele, que ainda permanecemos em nossos pe­cados, rumo às chamas eternas.

“Jubilai, ó nações (gentios), com o seu povo, porque vingará o sangue dos seus servos, e sobre os seus adversários fará tornar a vingança…” (Deuteronômio 32:43). E ainda lemos: “E, depois destas coisas, ouvi  no céu  como “que uma grande voz  de uma grande multidão, que dizia: Aleluia; Salvação, e glória, e honra, e poder pertencem ao Senhor nosso Deus; Porque verda­deiros e justos são os seus juízos, pois julgou a grande prostituta, que havia corrompido a terra com a sua prostituição, e das mãos dela vingou o sangue dos seus servos. E outra vez disseram: Aleluia…” (Apocalipse 19:1 -3). Grande será o regozijo dos san­tos naquele dia em que o Senhor irá vindicar a Sua majestade, exercer o Seu domínio formidável, magnificar a Sua justiça, e derribar os orgulhosos rebeldes que ousaram desafiá-lO.

“Se tu, Senhor, observares (imputares) as iniqüidades, Senhor, quem subsistirá?” (Salmo 130:3). Cada um de nós pode muito bem fazer esta pergunta, pois está escrito que “…os ím­pios não subsistirão no juízo…” (Salmo 1:5). Quão dolorosa­mente a alma de Cristo padeceu ao pensar na ação de Deus observando as iniqüidades do Seu povo quando estas pesaram sobre

Ele! Ele “… começou a ter pavor, e a angustiar-se” (Marcos 14:33). Sua agonia terrível, Seu suor de sangue, Seu grande cla­mor e súplicas (Hebreus 5:7), Suas reiteradas orações, “Se é pos­sível, passe de mim este cálice”, Seu último e tremendo brado, “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” — tudo ma­nifesta que pavorosas apreensões Ele teve quanto ao que era para Deus “observar iniqüidades1‘. Bem que nós, pobres pecadores, podemos clamar: Senhor, quem subsistirá, se o próprio Filho de Deus tremeu tanto sob o  peso da Tua  ira?  Se tu, meu leitor, ainda não correste em busca do refúgio em Cristo, o único Sal­vador, “… que farás na enchente do Jordão?” (Jeremias 12:5). “Quando considero como a bondade de Deus sofre abusos da maior parte da humanidade, não posso senão apoiar quem disse; “O maior milagre do mundo é a paciência e generosidade de Deus para com o mundo ingrato. Se um príncipe tem inimigos metidos numa de suas cidades, não lhes envia provisões, mas mantém sitiado o local e faz o que pode para vencê-los pela fome. Mas o grande Deus, que poderia levar todos os Seus inimigos à destruição num piscar de olhos, tolera-os e se empenha diaria­mente para sustentá-los. Aquele que faz o bem aos maus e in­gratos, pode muito bem ordenar-nos que bendigamos os que nos maldizem. Não penseis, porém, que escapareis assim, pecadores; o moinho de Deus mói devagar, mas mói fino; quanto mais ad­mirável é agora a Sua paciência e generosidade, mais terrível e insuportável será a fúria resultante dos abusos feitos à Sua bon­dade. Nada é mais brando do que o mar; contudo, quando se agita e forma temporal, nada se enfurece mais. Nada é tão suave como a paciência e bondade de Deus, e nada tão terrível como a Sua ira quando se inflama” (William Gurnall, 1660). “Fuja”, pois, meu leitor, fuja para Cristo; fuja “…da ira futura” (Ma­teus 3:7), antes que seja tarde demais. Nós lhe rogamos com todo o empenho, não pense que esta mensagem tem em vista outra pessoa. É para você1. Não fique satisfeito em pensar que você já fugiu para Cristo. Obtenha certeza disso! Rogue ao Senhor que sonde o teu coração e te revele o que tu és.

 

Uma palavra aos pregadores. Irmãos, em nosso ministério temos pregado sobre este solene assunto tanto como devíamos? Os profetas do Velho Testamento muitas vezes diziam aos seus ouvintes que as suas vidas ímpias provocavam o Santo de Israel, e que estavam entesourando para si mesmos irá para o dia da ira. E as condições do mundo hoje não são melhores do que eram então! Nada se presta mais para despertar os indiferentes e fa­zer com que os crentes carnais sondem os seus corações, do que alongar-nos sobre o fato de que Deus “…se ira todos os dias” com os ímpios (Salmo 7:11). O precursor de Cristo exortava os seus ouvintes a fugirem “…da ira futura” (Mateus 3:7). O Sal­vador ordenava a quantos O ouviam: “Temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno, sim, vos digo, a esse temei” (Lucas 12:5). O apóstolo Paulo dizia: “… sabendo o temor que se deve ao Senhor, persuadimos os homens…” (2 Coríntios 5: li). A fidelidade exige que falemos tão claramente do inferno como do céu.

 17. CONTEMPLANDO A DEUS

Nos capítulos anteriores passamos em revista algumas das maravilhosas e belas perfeições do caráter divino. Dessa débil e defeituosa contemplação dos Seus atributos, deve ter ficado evi­dente para nós que Deus é, primeiramente, um Ser incompreen­sível, e, encantados e absortos ante a Sua grandeza infinita, vemo-nos constrangidos a adotar as palavras de Sofar: “Porventura alcançarás os caminhos de Deus ou chegarás à perfeição do Todo-poderoso? Como as alturas dos céus é a sua sabedoria; que poderás tu fazer? Mais profunda é ela do que o inferno; que poderás tu saber? Mais comprida é a sua medida do que a terra, e mais larga do que o mar” (Jó 11:7-9). Quando volvemos os nossos pensamentos para a eternidade de Deus,^ Sua imaterialidade, Sua onipresença, Sua onipotência, vemos que todas elas transcendem nossas mentes.

Mas a incompreensibilidade da natureza divina não é razão para desistirmos da pesquisa reverente e da luta em oração para apreender o que Ele de Si mesmo revelou por Sua graça em Sua Palavra. Dado que somos incapazes de adquirir conhecimento perfeito, seria insensato dizer que, portanto, não faremos nenhum esforço para conseguir qualquer proporção dEle. Com acerto se tem dito que “nada alargará tanto o intelecto, nada engrandecerá tanto a alma do homem, como uma investigação devota, zelosa e continuada do grande tema da Deidade. O mais excelente estudo para a expansão da alma é a ciência de Cristo, e Este crucificado, e o conhecimento do Ser divino na Trindade gloriosa” (C. H. Spurgeon). Para citar um pouco mais o príncipe dos pregadores:

“O estudo próprio do cristão é o da Deidade. A mais alta ciência, a mais elevada especulação, a mais vigorosa filosofia, com o poder de empolgar a atenção de um filho de Deus, é o nome, a natureza, a pessoa, os feitos e a existência do grande Deus, a Quem ele chama seu Pai. Na contemplação da Deidade há algo capaz de comunicar sumo progresso à mente. É um as­sunto tão vasto que todos os nossos pensamentos se perdem em sua imensidade; tão profundo que o nosso orgulho se submerge em sua infinidade. Outros assuntos podemos compreender e ten­tar assimilar; neles sentimos uma espécie de satisfação própria, e seguimos nosso caminho pensando: “Vejam como sou sábio!11 Mas quando chegamos a este assunto magistral, vendo que a nos­sa sonda não consegue sondar a sua profundidade e que o nosso olho de águia não consegue ver a sua altura, vamos embora pen­sando: “Eu sou de ontem apenas, e nada sei” (Sermão sobre Malaquias 3:6).

Sim, a incompreensibilidade da natureza divina deveria ensi­nar-nos humildade, cautela e reverência. Após todas as nossas pesquisas e meditações, temos que dizer com Jó: “Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos; e quão pouco é o que temos ouvido dele!…” (Jó 26:14). Quando Moisés implorou ao Senhor por uma visão da Sua glória, Ele respondeu-lhe: “. . . apregoarei o nome do Senhor diante de ti…” (Êxodo 33:19), e, como já se disse, “o nome é a coleção dos Seus atri­butos”. Acertadamente o puritano John Howe declarou: “Por­tanto, a noção que podemos formar da Sua glória é apenas como a que podemos ter de uma obra volumosa comparada com uma breve sinopse, ou de uma espaçosa região comparada com uma pequena vista panorâmica. Ele nos dá aqui um fiel relato de Si mesmo, mas não completo; o bastante para garantir — graças à orientação que por ele nos vem — que a nossa compreensão fique livre de erro, mas não de ignorância. Podemos aplicar as nossas mentes à contemplação das diversas perfeições pelas quais o Deus bendito nos revela o Seu ser, e em nossos pensamentos podemos atribuí-las todas a Ele, apesar de só termos ainda fraca e defeituosa concepção de cada uma delas. Todavia, na medida em que a nossa compreensão corresponda à revelação que Ele nos dá das Suas várias excelências, temos uma apropriada visão da Sua glória”.

Como é realmente grande a diferença entre o conhecimento de Deus que os Seus santos têm nesta vida e aquele que eles te­rão no céu! Contudo, como o primeiro não deve ser menosprezado por ser imperfeito, o último não deve ser engrandecido acima da realidade. Certo, as Escrituras declaram que então veremos “face a face” e conheceremos como somos conhecidos (1 Coríntios 13:12), mas inferir disto que conheceremos então a Deus tão completamente como Ele nos conhece é deixar-nos iludir pelos simples sons das palavras e não atentar para a restrição delas, restrição que o assunto exige necessariamente. Há uma imensa diferença entre serem glorificados os santos e serem eles divinizados. No seu estado glorificado, os cristãos continuarão sendo cria­turas finitas, e, portanto, nunca serão capazes de compreender plenamente o Deus infinito.

“Os santos no céu verão a Deus com os olhos da mente, pois Ele sempre será invisível aos olhos do corpo; e O verão mais claramente do que poderiam vendo-O pela razão e pela fé, e mais extensamente que tudo que as Suas obras e dispensações dEle revelaram até então; mas as suas mentes não serão aumentadas a ponto de poderem contemplar de uma vez, ou minuciosamente, a excelência completa da Sua natureza. Para compreenderem a per­feição infinita, eles próprios teriam que se tornar infinitos.

Mesmo no céu, o seu conhecimento será parcial, mas ao mesmo tempo a sua felicidade será completa, porque o seu co­nhecimento será perfeito neste sentido: será adequado à capaci­dade do sujeito, sem todavia exaurir a plenitude do objeto. Cremos que será progressivo e que, à medida que se lhes amplie a visão, sua bem-aventurança   aumentará;   nunca,   porém,  chegará a um limite além do qual não haja mais nada para ser descoberto; e depois de se terem passado eras e mais eras, Ele continuará sendo o Deus incompreensível” (John Dick,  1840).

Segundo, um exame das perfeições de Deus mostrará que Ele é um Ser absolutamente suficiente. É-o em Si e para Si mes­mo. Como o primeiro dos seres, Ele não precisa receber nada de outrem, nem pode ser limitado pelo poder de ninguém. Sendo infinito, possui todas as perfeições possíveis. Quando o Deus triúno existia totalmente só, Ele era tudo para Si próprio. Seu entendimento, Seu amor, Suas energias encontravam nEle mesmo um objeto adequado. Se tivesse necessidade de alguma coisa ex­terna, não seria independente e, portanto, não seria Deus. Ele criou todas as coisas, e isso “para ele” (Colossenses 1:16); toda­via, não para preencher alguma lacuna, mas para poder comunicar vida e felicidade a anjos e homens e permitir-lhes a visão da Sua glória. Ê certo que Ele exige a lealdade e os serviços de Suas criaturas dotadas de inteligência, mas não extrai benefício algum das suas funções; toda a vantagem redunda em favor delas mes­mas: Jó 22:2-3. Ele faz uso de meios e instrumentos para realizar os Seus fins; não, porém, por deficiência de poder, mas muitas vezes para demonstrar mais extraordinariamente o Seu poder atra­vés da fragilidade dos instrumentos.

A absoluta suficiência de Deus faz dEle o objeto supremo, que sempre se há de buscar. A verdadeira felicidade consiste uni­camente em fruir a Deus. Seu favor é vida, e Sua amorável bon­dade é mais que a vida. “A minha porção é o Senhor, diz a minha alma; portanto esperarei nele” (Lamentações 3:24). As nossas percepções do Seu amor, da Sua graça, da Sua glória, são os principais objetos do desejo dos santos e os mananciais da sua mais elevada satisfação. “Muitos dizem: quem nos mostrará o bem? Senhor, exalta sobre nós a luz do teu rosto. Puseste alegria. no meu coração, mais do que no tempo em que se multiplicaram o seu trigo e o seu vinho” (Salmo 4:6-7). Sim, o cristão, quando em são juízo, pode dizer: “Porquanto, ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas da malhada sejam arrebatadas, e nos currais não haja vacas: todavia eu me ale­grarei no Senhor; exultarei no Deus da minha salvação” (Habacuque 3:17-18).

Terceiro, ao se fazer um exame das perfeições de Deus, vê-se que Ele é o Soberano Supremo do universo. Tem-se dito com acer­to que, “Nenhum domínio é tão absoluto como o que se funda na criação. Aquele que bem podia não ter feito coisa alguma, tinha o direito de fazer todas as coisas de acordo com o Seu be­neplácito. No exercício do Seu poder indomável, Ele fez algumas partes da criação simples matéria inanimada, de textura mais grosseira ou mais refinada, e distinguida por qualidades diferen­tes, mas sempre matéria inerte e inconsciente. Ele deu organiza­ção a outras partes, e as fez suscetíveis de crescimento e expan­são, mas ainda destituídas de vida no sentido próprio do termo. A outras não só deu organização, mas também vida consciente, os órgãos dos sentidos, e energia para auto-motivação. A estas Ele acrescentou, no homem, o dom da razão e um espírito imortal, pelos quais o homem se junta a uma ordem mais elevada de seres localizados nas regiões superiores. Sobre o mundo que criou, Ele empunha o cetro da onipotência. “… eu bendisse o Altíssimo, e louvei, e glorifiquei ao que vive para sempre, cujo domínio é um domínio sempiterno, e cujo reino é de geração em geração. E todos os moradores da terra são reputados em nada; e segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra: não há quem possa estorvar a sua mão e lhe diga: Que fazes? — Daniel 4:34-35″ (John Dick).

Uma criatura, como tal considerada, não tem direitos. Nada pode exigir do seu Criador; e, seja qual for a maneira como é tratada, não lhe compete queixar-se. Contudo, quando pensamos no absoluto domínio de Deus sobre todas as coisas e sobre todos os seres, não devemos perder de vista as Suas perfeições morais. Deus é justo e bom, e sempre faz o que é reto. Não obstante, Ele exerce o Seu domínio de acordo com o beneplácito da Sua vontade soberana e justa. Atribui a cada criatura o lugar que aos Seus olhos parece bom. Ordena as diferentes circunstâncias rela­cionadas com cada criatura de acordo com os Seus conselhos.

Modela cada vaso segundo a Sua determinação independente de toda e qualquer influência. Tem misericórdia de quem Ele quer ter misericórdia, e endurece a quem Lhe apraz. Onde quer que estejamos, Seus olhos estão sobre nós. Quem quer que sejamos, nossa vida e tudo mais está à disposição dEle. Para o cristão, Ele é um Pai amoroso e gentil; para o pecador rebelde, Ele continuará sendo fogo consumidor. “Ora ao Rei dos séculos, imortal, invisível, ao único Deus seja honra e glória para todo o sempre. Amém” (1 Timóteo 1:17).

Editora: Bible Truth Depot

Tradução do Inglês: Odayr Olivetti

Primeira Edição em Português:1985

Reimpressão: 1990

Capa: Ailton Oliveira Lopes

Composição: Intertexto Linotipadora S/C Ltda.

Impressão: Imprensa da Fé

O que é a Doutrina da Trindade ?

1 Comentário

Veja Também:
 
A doutrina da Trindade é fundamental para a fé cristã. Ela é crucial para um apropriado entendimento de como Deus é, como Ele se relaciona conosco e como devemos nos relacionar com Ele. Mas ela também levanta muitas questões difíceis. Como Deus pode ser um e três ao mesmo tempo? A Trindade é uma contradição? Se Jesus é Deus, por que os Evangelhos registraram ocasiões nas quais Ele orou a Deus?
Apesar de não podermos entender completamente tudo sobre a Trindade (ou sobre qualquer outra coisa), é possível responder questões como essas e chegar a uma sólida compreensão do que significa ser Deus três em um.

O que significa ser Deus uma Trindade?

A doutrina da Trindade significa que há um Deus que existe eternamente como três pessoas distintas: Pai, Filho e Espírito Santo. Explicando de outra maneira, Deus é único em essência e triplo em personalidade. Essas definições expressam três verdades cruciais: (1) Pai, Filho e Espírito Santo são pessoas distintas, (2) cada pessoa é totalmente Deus, (3) há somente um Deus.

Pai, Filho e Espírito Santo são pessoas distintas.
A Bíblia fala do Pai como Deus (Fp.1.2), de Jesus como Deus (Tt.2.13) e do Espírito Santo como Deus (At.5.3-4). Seriam essas, então, apenas três diferentes formas de olhar para Deus? Ou ainda, três papéis distintos que Deus desempenha?

A resposta deve ser não, porque a Bíblia também indica que Pai, Filho e Espírito Santo são pessoas distintas. Por exemplo, já que o Pai enviou o Filho ao mundo (Jo.3.16), Ele não pode ser a mesma pessoa que o Filho. Do mesmo modo, depois que o Filho retornou ao Pai (Jo.16.10), o Pai e o Filho enviaram o Espírito Santo ao mundo (Jo.14.26; At.2.33). Portanto, o Espírito Santo deve ser distinto do Pai e do Filho.

No batismo de Jesus, vemos o Pai falando dos céus e o Espírito descendo dos céus na forma de uma pomba, enquanto Jesus saia das águas (Mc.1.10-11). João 1.1 afirma que Jesus é Deus e, ao mesmo tempo, que Ele estava “com Deus”, indicando, assim, que Jesus é uma pessoa distinta de Deus o Pai (cf. Jo.1.18). E em João 16.13-15 vemos que, apesar de haver uma íntima unidade entre todos eles, o Espírito Santo também é distinto do Pai e do Filho.

O fato de Pai, Filho e Espírito Santo serem pessoas distintas significa, em outras palavras, que o Pai não é o Filho, o Filho não é o Espírito Santo e o Espírito Santo não é o Pai. Jesus é Deus, mas Ele não é o Pai nem o Espírito Santo. O Espírito Santo é Deus, mas Ele não é o Filho nem o Pai. Eles são pessoas diferentes, não três diferentes formas de olhar para Deus.

A personalidade de cada membro da Trindade significa que cada pessoa tem um distinto centro de consciência. Assim, elas relacionam-se umas com as outras pessoalmente: o Pai trata a Si mesmo como “Eu”, enquanto Ele trata ao Filho e ao Espírito Santo como “Vós”. Do mesmo modo, o Filho trata a Si mesmo como “Eu”, mas ao Pai e ao Espírito Santo como “Vós”.

Freqüentemente é objetado que “Se Jesus é Deus, então Ele deve ter orado a Si mesmo enquanto esteve na terra”. Mas a resposta a essa objeção encontra-se em simplesmente aplicar o que nós já vimos. Embora Jesus e o Pai sejam Deus, eles são pessoas diferentes. Assim, Jesus orou a Deus o Pai sem orar a Si mesmo. Na verdade, é precisamente o contínuo diálogo entre o Pai e o Filho (Mt.3.17; 17.5; Jo.5.19; 11.41-42; 17.1ss) que fornece a melhor evidência de que eles são pessoas distintas com distintos centros de consciência.

Algumas vezes a personalidade do Pai e do Filho é estimada, mas a personalidade do Espírito Santo é negligenciada, de modo que Ele é tratado mais como uma “força” do que como uma pessoa. Mas o Espírito Santo não é algo, mas Alguém (veja Jo.14.26; 16.7-15; At.8.16). A verdade de que o Espírito Santo é uma pessoa, não uma força impessoal (como a gravidade), também é mostrada pelo fato de que Ele fala (Hb.3.7), raciocina (At.15.28), pensa e compreende (I Co.2.10-11), deseja (I Co.12.11), sente (Ef.4.30) e oferece comunhão pessoal (II Co.13.14). Todas essas são qualidades de uma pessoa. Além desses textos, os outros que mencionamos acima deixam claro que a personalidade do Espírito Santo é distinta da personalidade do Filho e do Pai. Eles são três pessoas reais, não três papéis que Deus desempenha.

Outro erro sério que as pessoas têm cometido é pensar que o Pai se tornou o Filho, que, então, se tornou o Espírito Santo. Contrariamente a isso, as passagens que vimos sugerem que Deus sempre foi e sempre será três pessoas. Nunca houve um tempo em que alguma das pessoas da Divindade não existia. Todas elas são eternas.

Embora os três membros da Trindade sejam distintos, isso não significa que um seja inferior ao outro. Pelo contrário, todos eles são idênticos em atributos, tais como poder, amor, misericórdia, justiça, santidade, conhecimento e em todas as demais qualidades divinas.

Cada pessoa é totalmente Deus.
Se Deus é três pessoas, isso significa que cada pessoa é “um terço” de Deus? A Trindade significa que Deus é dividido em três partes?

Não, a Trindade não divide Deus em três partes. A Bíblia deixa claro que cada uma das três pessoas é cem por cento Deus. Pai, Filho e Espírito Santo são totalmente Deus. Por exemplo, é dito de Cristo que “nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade” (Cl.2.9). Não devemos pensar em Deus como uma torta cortada em três pedaços, cada um deles representando uma pessoa. Isso faria cada pessoa ser menos do que totalmente Deus e, assim, não ser realmente Deus. Antes, “o ser de cada pessoa é igual ao ser integral de Deus”[1]. A essência divina não é algo dividido entre as três pessoas, mas está totalmente em todas as três pessoas sem estar dividida em “partes”.

Assim, o Filho não é um terço do ser de Deus, Ele é todo o ser de Deus. O Pai não é um terço do ser de Deus, Ele é todo o ser de Deus. E, da mesma forma, o Espírito Santo. Assim, como Wayne Grudem escreve: “Quando falamos conjuntamente do Pai, do Filho e do Espírito Santo, não estamos falando de um ser maior do que quando falamos somente do Pai, ou somente do Filho, ou somente do Espírito Santo”[2].

Há somente um Deus.
Se cada pessoa da Trindade é distinta e, ainda assim, totalmente Deus, então, devemos concluir que há mais do que um Deus? Obviamente não, pois a Escritura deixa claro que há apenas um Deus: “Pois não há outro Deus, senão eu, Deus justo e Salvador não há além de mim. Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro” (Is.45.21-22; veja também 44.6-8; Ex.15.11; Dt.4.35; 6.4-5; 32.39; I Sm.2.2; I Rs.8.60).

Tendo visto que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são pessoas distintas, que cada um deles é totalmente Deus e que não há senão um só Deus, devemos concluir que todas as três pessoas são o mesmo Deus. Em outras palavras, há um Deus que existe como três pessoas distintas.

Se há uma passagem que mais claramente traz tudo isso em conjunto, ela é Mateus 28.19: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. Primeiro, note que Pai, Filho e Espírito Santo são distinguidos como pessoas distintas. Nós batizamos em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Segundo, note que cada pessoa deve ser divina porque todas elas são colocadas no mesmo nível. Na verdade, você acha que Jesus nos batizaria no nome de uma mera criatura? Certamente que não. Portanto, cada uma das pessoas em cujo nome devemos ser batizados é, necessariamente, divina. Terceiro, note que, apesar de que as três pessoas divinas são distintas, nós somos batizados em seu nome (singular), não em seus nomes (plural). As três pessoas são distintas, mas constituem um único nome. Só pode ser assim se elas compartilharem uma mesma essência.

Notas:
1. Wayne Grudem, Teologia Sistemática (Edições Vida Nova, 1999), p.189.
2. Ibid, p.187

A doutrina da Trindade é fundamental para a fé cristã. Ela é crucial para um apropriado entendimento de como Deus é, como Ele se relaciona conosco e como devemos nos relacionar com Ele. Mas ela também levanta muitas questões difíceis. Como Deus pode ser um e três ao mesmo tempo? A Trindade é uma contradição? Se Jesus é Deus, por que os Evangelhos registraram ocasiões nas quais Ele orou a Deus?
Apesar de não podermos entender completamente tudo sobre a Trindade (ou sobre qualquer outra coisa), é possível responder questões como essas e chegar a uma sólida compreensão do que significa ser Deus três em um.

A Trindade é contraditória?

Essa pergunta leva-nos a investigar mais de perto uma definição muito útil da Trindade que eu mencionei anteriormente: Deus é único em essência, mas triplo em personalidade. Essa formulação pode nos mostrar por que não há três deuses e por que a Trindade não é uma contradição.

Para que alguma coisa seja contraditória, ela deve violar a lei da não-contradição. Esta lei afirma que A não pode ser A (é) e não-A (não é) ao mesmo tempo e no mesmo sentido. Em outras palavras, você se contradiz quando afirma e nega a mesma sentença. Por exemplo, se eu digo que a Lua é feita inteiramente de queijo, mas, então, também digo que a Lua não é feita inteiramente de queijo, estou me contradizendo.

Algumas afirmações podem parecer contraditórias à princípio, mas não o são realmente. O teólogo R.C. Sproul cita como exemplo uma famosa afirmação de Dickens: “Esse foi o melhor dos tempos, esse foi o pior dos tempos”. Obviamente isso é uma contradição se Dickens está dizendo que esse foi o melhor dos tempos no mesmo sentido em que esse foi o pior dos tempos. Porém, essa afirmação não é contraditória, porque ele está dizendo que em um sentido esse foi o melhor dos tempos, mas em outro sentido esse foi o pior dos tempos.

Levando esse conceito à Trindade, não é uma contradição para Deus ser tanto três quanto um porque Ele não é três e um no mesmo sentido. Ele é três num sentido diferente do qual Ele é um. Assim, não estamos falando com uma linguagem dobre. Não estamos dizendo que Deus é um e, então, negando que Ele é um ao dizer que Ele é três. Isto é muito importante: Deus é um e três ao mesmo tempo, mas não no mesmo sentido.

Como Deus é um? Ele é um em essência. Como Deus é três? Ele é três em personalidade. Essência e personalidade não são a mesma coisa. Deus é um em certo sentido (essência) e três em um sentido diferente (personalidade). Já que Deus é um em um sentido diferente do qual Ele é três, a Trindade não é uma contradição. Só haveria contradição se disséssemos que Deus é três no mesmo sentido em que Ele é um.

Então, uma olhada mais de perto para o fato de que Deus é único em essência, mas triplo em personalidade, foi útil para mostrar por que a Trindade não é uma contradição. Mas como isso nos mostra que há apenas um Deus e não três? Muito simples: Todas as três pessoas são um Deus porque, como vimos acima, todas elas são a mesma essência. Essência significa a mesma coisa que “ser”. Assim, já que Deus é uma única essência, Ele é um único ser, não três. Isso torna mais claro por que é tão importante entender que todas as três pessoas são a mesma essência. Pois se nós negamos isso, estamos negando a unidade de Deus e afirmando que há mais do que um ser de Deus (ou seja, há mais do que um Deus).

O que vimos até agora provê um entendimento básico da Trindade. Mas é possível aprofundar-nos mais. Se pudermos entender mais precisamente o significado de essência e personalidade, como esses dois termos diferem e como se relacionam, teremos um mais completo entendimento da Trindade.

Essência e Personalidade

Essência.
O que essência significa? Como eu disse anteriormente, significa o mesmo que ser. A essência de Deus é o Seu ser. Para ser mais preciso, essência é aquilo que você é. Sob o risco de soar muito físico, essência pode ser entendida como o “material” do qual você “consiste”. Certamente estamos falando por analogia aqui, pois não podemos entender essência de uma forma física em relação a Deus. “Deus é espírito” (Jo.4.24). Além disso, claramente não devemos pensar em Deus “consistindo” de outra coisa além da divindade. A “substância” de Deus é Deus, não um monte de “ingredientes” que misturados produzem a divindade.

Personalidade.
Em relação à Trindade, nós usamos o termo “pessoa” diferentemente do que usamos no dia-a-dia. Portanto, geralmente é difícil ter uma definição concreta de pessoa quando usamos esse termo em relação à Trindade. Por “pessoa” não queremos dizer um “indivíduo independente”, assim como eu e outro ser humano somos independentes e existimos separados um do outro. Por “pessoa” queremos dizer alguém que se trata como “eu” e aos outros como “vós”. Então, o Pai, por exemplo, é uma pessoa diferente do Filho porque Ele trata ao Filho como “Tu”, apesar de Se tratar como “Eu”. Assim, em relação à Trindade, podemos dizer que “pessoa” significa um sujeito distinto que Se trata como “Eu” e aos outros dois como “Vós”. Esses sujeitos distintos não são uma divisão no ser de Deus, mas “uma forma de existência pessoal que não é uma diferença no ser”[3].

Como elas se relacionam?
O relacionamento entre essência e personalidade, então, é como segue. Na unidade de Deus, o ser indiviso é um “desdobramento” em três distinções pessoais. Essas distinções pessoais são modos de existência no ser divino, mas não são divisões do ser divino. Elas são formas pessoais de existência e não uma diferença no ser. O antigo teólogo Herman Bavinck declarou algo muito útil sobre isso: “As pessoas são modos de existência no ser; conseqüentemente, as pessoas diferem entre si como um modo de existência difere de outro, e – usando uma ilustração comum – como a palma aberta difere do punho fechado”[4]. Já que cada uma dessas “formas de existência” são relacionais (e assim são pessoas), cada uma delas é um distinto centro de consciência, cada um deles Se tratando como “Eu” e aos outros como “Vós”. Porém, todas essas três pessoas “consistem” da mesma “matéria” (ou seja, o mesmo “o que”, ou essência). Como o teólogo e apologista Norman Geisler explicou, enquanto essência é “o que” você é, pessoa é “quem” você é. Então, Deus é um “o que”, mas três “quem”.

Assim, a essência divina não é algo que existe “acima” ou “separada” das três pessoas, mas a essência divina é o ser das três pessoas. Não devemos pensar nas pessoas como seres definidos por atributos acrescentados ao ser de Deus. Wayne Grudem explica:

“Mas se cada pessoa é plenamente Deus e tem todo o ser divino, então tampouco devemos pensar que as distinções pessoais são alguma espécie de atributos acrescentados ao ser divino… Em vez disso, cada pessoa da Trindade tem todos os atributos de Deus, e nenhuma das pessoas tem algum atributo que não seja também possuído pelas outras. Por outro lado, precisamos dizer que as pessoas são reais, que não são apenas modos diferentes de enxergar o ser único de Deus… a única maneira de fazê-lo é dizer que a distinção entre as pessoas não é uma diferença no “ser”, mas sim uma diferença de “relações”. Trata-se de algo bem distante da nossa experiência humana, na qual cada “pessoa” distinta é também um ser distinto. De algum modo o ser divino é tão maior que o nosso que dentro do seu ser único e indiviso pode haver um desdobramento em relações interpessoais, de forma tal que existam três pessoas distintas”.[5]

Ilustrações Trinitárias?

Há muitas ilustrações que têm sido oferecidas para nos ajudar a entender a Trindade. Embora existam algumas ilustrações úteis, devemos reconhecer que nenhuma ilustração é perfeita. Infelizmente, há muitas ilustrações que não são apenas imperfeitas, mas erradas. Uma ilustração com a qual devemos tomar cuidado diz: “Eu sou uma pessoa, mas também sou um estudante, um filho e um irmão. Isso explica como Deus pode ser tanto um quanto três”. O problema com essa ilustração é que ela reflete uma heresia chamada modalismo. Deus não é uma pessoa que desempenha três diferentes papéis, como essa ilustração sugere. Ele é um Ser em três pessoas (centros de consciência), não simplesmente três papéis. Essa analogia ignora as distinções pessoais em Deus e as transforma em meros papéis.

Resumo

Vamos revisar rapidamente o que vimos.

1. A Trindade não é uma crença em três deuses. Há um único Deus e nós nunca devemos desviar-nos disso.

2. Esse único Deus existe como três pessoas.

3. As três pessoas não são partes de Deus, mas cada uma delas é total e igualmente Deus. No ser único e indiviso de Deus há um desdobramento em três relações interpessoais, de forma tal que existam três pessoas. As distinções na Divindade não são distinções de Sua essência, nem são acréscimos à Sua essência, mas são o desdobramento da unidade de Deus, do ser indiviso, em três relacionamentos interpessoais, de modo que há três pessoas reais.

4. Deus não é uma pessoa que assume três papéis consecutivos. Essa é a heresia do modalismo. O Pai não se tornou o Filho e, então, o Espírito Santo. Pelo contrário, sempre houve e sempre haverá três pessoas distintas na Divindade.

5. A Trindade não é uma contradição porque Deus não é três no mesmo sentido em que Ele é um. Deus é um em essência e três em personalidade.

Aplicação

A Trindade é extremamente importante porque Deus é importante. Conhecer mais completamente a Deus é uma forma de honrá-Lo. Além disso, devemos admitir o fato de que Deus é triuno para aprofundar nossa adoração. Nós existimos para adorar a Deus. E Deus busca pessoas que O adorem “em espírito e em verdade” (Jo.4.24). Portanto, devemos sempre empenhar-nos em aprofundar nossa adoração a Deus, tanto em verdade quanto em nosso coração.

A Trindade tem uma aplicação muito importante na oração. O padrão geral de oração na Bíblia é orar ao Pai através do Filho e no Espírito Santo (Ef.2.18). Nossa comunhão com Deus deve ser reforçada por um conhecimento consciente de que estamos nos relacionando com um Deus tri-pessoal.

A conscientização dos papéis distintos que cada pessoa da Trindade tem em nossa salvação pode servir especialmente para nos dar grande conforto e apreciação por Deus em nossas orações, assim como nos ajudar a ser específicos ao dirigi-las a Deus. Porém, apesar de reconhecer os papéis distintos de cada pessoa, nunca devemos pensar nesses papéis de forma tão separada que as outras pessoas não estejam envolvidas. Pelo contrário, em tudo que uma pessoa está envolvida, as outras duas também estão envolvidas, de uma forma ou de outra.

Notas

3. Wayne Grudem, Teologia Sistemática (Edições Vida Nova, 1999), p.189. Apesar de eu crer que essa é uma definição útil, deve ser reconhecido que o próprio Grudem está oferecendo-a mais como uma explanação do que como uma definição de pessoa.
4. Herman Bavinck, The Doctrine of God, (Great Britain: The Banner of Truth Trust, 1991 edition), p. 303.
5. Grudem, p.187-188.

Recursos adicionais

Agostinho, A Trindade
Herman Bavinck, The Doctrine of God, p. 255-334
Edward Bickersteth, The Trinity
Wayne Grudem, Teologia Sistemática, capítulo 14
Donald Macleod, Shared Life: The Trinity and the Fellowship of God’s People
R.C. Sproul, O Mistério do Espírito Santo
R.C. Sproul , Verdades Essenciais da Fé Cristã
J.I. Packer, O Conhecimento de Deus
John Piper, The Pleasures of God, chapter 1
James White, The Forgotten Trinity

 

Por John Piper. © Desiring God. Website:desiringGod.org
Original:
What is the doctrine of the Trinity?
Tradução e Revisão:
 André Aloísio e Davi Luan do blog Teologia e VidaPermissões: Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que adicione as informações acima e o link deste blog, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.

Blog: Voltemos ao Evangelho.

Livre Arbítrio: Um Escravo

2 Comentários

” Mas não quereis vir a mim para terdes vida” João 5:40

Este texto é usado pelos arminianos como uma das suas grandes armas e freqüentemente descarregada com um barulho terrível contra os pobres cristãos chamados calvinistas. Nesta manhã eu pretendo apontar a arma, ou melhor, vira-la contra os inimigos, porque ela nunca pertenceu a eles: jamais foi fabricada na forja deles. Pelo contrario, este texto intenciona ensinar a doutrina exatamente oposta àquela que eles sustentam.

Geralmente quando o texto é empregado, ele é dividido desta forma: primeiro, o homem tem uma vontade. Segundo, ele é inteiramente livre. Terceiro, os homens tem que querer por sua própria vontade vir a Cristo, de outra maneira eles não serão salvos. Ora, nós não utilizaremos tais divisões, mas nós empenharemos em dar uma olhada no texto com mais precaução: e não porque existam nele as palavras “querer” ou “não querer”, chegaremos à conclusão de que ele ensina a doutrina do livre-arbítrio.

LIVRE-ARBÍTRIO É SIMPLESMENTE RIDÍCULO

Já foi provado além de toda controvérsia que o livre-arbítrio é uma tolice. A liberdade não pode pertencer ao arbítrio como a ponderação não pode pertencer é eletricidade. Elas são coisas completamente diferentes Podemos crer em agente livre; porém o livre-arbítrio é simplesmente ridículo. É bem conhecido de todos que a vontade é dirigida pelo entendimento, movida por motivos, conduzida por outros componentes da alma e considerada como algo secundário.

Tanto a filosofia como a religião, descartam de uma vez a idéia de livre-arbítrio; e eu vou tão longe quanto Marinho Lutero, em sua forte afirmação, onde ele diz:”se algum homem, de alguma maneira, atribuir a salvação ao livre-arbítrio do homem – mesmo a íntima parte – nada sabe sobre a graça e não conheceu Jesus Cristo corretamente”. Pode parecer uma declaração severa; todavia, aquele que em sua alma crê que o homem faz o seu próprio livre-arbítrio voltar-se para Deus, não pode ter sido instruído por Deus, pois esse é um dos primeiros princípios que nos é ensinado quando Deus começa Sua obra em nós: não temos nem vontade nem poder, posto que Ele concede ambos; porquanto Ele é “o Alfa e o Ômega” na salvação do homem.

Sumário

Neste sermão nossos quatro pontos principais serão – Primeiro, todo homem está morto porque o texto diz: “mas não quereis vir a mim para terdes vida”. Segundo, Há vida em Jesus Cristo – “…não quereis vir a mim para terdes vida”. Terceiro, Há vida em Cristo Jesus para todo aquele que vem recebê-la” (…) “não quereis vir a mim para terdes vida”. Isso implica em que todos que vão, terão vida. Quarto e o sentido do texto é: ninguém por si mesmo jamais virá a Cristo, pois o texto diz: “…não quereis vir a mim para terdes vida”. Portanto, longe de afirmar que os homens por suas próprias vontades fariam tal coisa, o versículo nega-o categoricamente e diz: “NÃO QUEREIS vir a mim para terdes vida”. Ora, amados, estou quase pronto a exclamar: será que os defensores do livre-arbítrio tem tão pouco conhecimento a ponto de desafiar a doutrina da inspiração? Estão destituídos de senso todos aqueles que negam a doutrina da graça? Tem se afastado tanto de Deus que torcem isto para provar o livre-arbítrio onde o texto diz: “… NÃO QUEREIS vir a mim para terdes vida”?

NÃO HÁ VIDA NA MORTE

1. Primeiramente, então, nosso texto implica em que OS HOMENS POR NATUREZA ESTÃO MORTOS. Ninguém precisa ir à procura da vida se já tem vida em si mesmo. O texto fala muito fortemente quando declara: “…não quereis vir a mim para terdes vida”. Apesar de não dizê-lo explicitamente, ele afirma, com efeito. que os homens precisam de uma vida que não tem em si mesmos. Meus ouvintes, nós todos estamos mortos, a não ser que tenhamos sido gerados para uma viva esperança.

MORTE LEGAL – CONDENAÇÃO

Todos nós estamos, por natureza, legalmente mortos: “no dia que dela comeres, certamente morrerás” disse Deus a Adão: embora ele não tenha morrido fisicamente naquele momento ele morreu legalmente: isto quer dizer que a morte foi decretada contra ele. Tão logo como no OId Bailey, o juiz veste a capa preta e pronuncia a sentença, o homem é considerado morto pela lei. Talvez possa passar um mês antes dele ser trazido ao patíbulo para sofrer a sentença da lei, no entanto, a lei o considera um homem morto. E lhe impossível fazer qualquer transação. Ele não pode herdar, nem legar seus bens: ele não é nada é um homem morto. O país, de maneira alguma, o considera como vivo. Há uma eleição – não lhe é pedido seu voto porque ele é considerado legalmente morto. Ele está trancado em sua cela de condenação e está morto. Ah, e vocês pecadores sem Deus, que nunca tiveram vida em Cristo, estão vivos nesta manhã, por adiamento, mas, será que não sabem que estão legalmente mortos: que Deus os considera como tais, que no dia que seu pai Adão comeu o fruto, e vocês próprios pecaram, Deus, o eterno Juiz, colocou sobre Si o gorro preto e os condenou? Vocês falam poderosamente de sua própria posição, bondade e moralidade: onde estão elas? As Escrituras dizem que vocês “já estão condenados”. Não tem que esperar para serem condenados no dia do juízo final; ali será a execução da sentença estão condenados. No momento que pecaram, seus nomes foram escritos no livro negro da justiça: todos foram então sentenciados por Deus à morte, a não ser que tenham encontrado um substituto pelos seus pecados. na pessoa de Cristo.

O que pensariam se fossem à prisão e vissem o condenado sentado, rindo e feliz? Vocês diriam: “o homem é um tolo, pois ele está condenado e será executado: no entanto, quão alegre ele está”. Ah, e quão tolo é o homem mundano que, enquanto a sentença está sendo registrada contra ele, vive em divertimento e alegria! Vocês pensam que a sentença de Deus é sem efeito? Pensam que seu pecado que está gravado com ponteiro de aço nas rochas para sempre é isento de horrores? Deus disse que vocês já estão condenados. Se pudessem tão somente sentir isto, o amargor encheria as suas doces taças de gozo: suas danças parariam. O riso se extinguiria com um suspiro, se lembrassem de que já estão condenados. Todos nós deveríamos chorar, se compreendêssemos seriamente que por natureza não temos vida aos olhos de Deus. Estamos realmente condenados: a morte está decretada contra nós, e somos considerados aos olhos de Deus agora tão mortos como se já estivéssemos lançados no inferno: somos condenados agora pelo pecado, embora ainda não estejamos sofrendo a penalidade, porém, ela está escrita contra nós. Por isso estamos legalmente mortos. Não podemos encontrar vida, a não ser que encontremos vida legal na pessoa de Cristo.

MORTE ESPIRITUAL – CADÁVER CAMINHANDO

Mas, além de estarmos legalmente mortos, estamos também espiritualmente mortos. Isso porque a sentença não somente foi lavrada no livro, mas também no coração e entrou na consciência, operou na alma, no julgamento, na imaginação e em tudo: “…porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás”, não somente foi cumprido pela sentença decretada, mas por algo que aconteceu em Adão. Assim como num dado momento futuro, quando este corpo morrer, o sangue parará, o pulso cessará e a respiração não virá mais pelos pulmões, assim também no dia em que Adão comeu do fruto, sua alma morreu: sua imaginação perdeu seu poder de ascender às coisas celestiais e ver o céu, sua vontade perdeu para sempre seu poder de escolher aquilo que é bom, seu julgamento perdeu toda a sua habilidade de julgar entre o certo e o errado decidida e infalivelmente, ainda assim algo foi retido na consciência: sua memória tomou-se corrompida, propensa a reter coisas pecaminosas, e a deixar as coisas virtuosas deslizarem para longe todo poder que ele tinha cessou quanto a sua vitalidade moral. A bondade era a vitalidade do seu poder – isso se foi. Virtude, santidade, integridade: estas eram a vida do homem, e quando elas se foram o homem tornou-se morto. E agora, todo homem, no que concerne as coisas espirituais, “está morto em delitos e pecados”. A alma não esta menos morta num homem carnal do que o corpo quando depositado no túmulo: ela esta real e positivamente morta – não se trata de uma metáfora, pois Paulo não fala por metáforas quando afirma: “Ele vos vivificou estando vós mortos nos vossos delitos e pecados”.

Mas, meus ouvintes, oxalá eu pudesse pregar tudo aos seus corações a respeito deste assunto. Foi suficientemente ruim quando eu descrevi a morte como tendo sido decretada: porém, agora eu falo disso, como tendo de fato acontecido nos seus corações. Vocês não são o que eram antes: não são o que eram em Adão, nem o que foram gerados. O homem foi criado puro e santo. Vocês não são as criaturas perfeitas das quais alguns se gloriam, todos são totalmente caídos, todos se desviaram do caminho, tomando-se corruptos e sujos. Oh, não ouçam o canto da sereia daqueles que falam da dignidade moral e do elevado estado de vocês no tocante a salvação. Vocês não são perfeitos: a palavra tão forte – “ruína” – está escrito em seus corações: e a morte está selada em seus espíritos.

Não imagine, ó homem moral. que poderá ficar de pé diante de Deus em sua moralidade, pois você não é mais do que uma carcaça embalsamada em legalismo, um defunto enfeitado em finas roupas, porém ainda corrupto na presença de Deus. E não pense, o possuidor de religião natural, que poderá pelo seu poder e forca fazer-se aceitável a Deus. Ó homem, você esta morto e poderá vestir a morte tão gloriosamente como quiser porém, ainda assim, isso seria uma farsa solene. Ali está a rainha Cleópatra – coloque sobre a sua cabeça a coroa vista-a com mantos reais, deixe-a sentar com pompa: mas, que calafrio você sente quando passa por ela. Hoje ela é bela, até na sua morte – mas quão terrível e ficar em pé junto desse corpo, mesmo que seja de uma rainha morta, tão celebre pela sua majestosa beleza! Portanto, você poderá ser glorioso em sua beleza, agradável, maravilhoso e bondoso! Você coloca a coroa de honestidade sobre a sua cabeça. Usando todas as vestes de honra, mas a não ser que Deus o tenha vivificado, o homem, a não ser que o Espírito tenha tratado com a sua alma, você é tão detestável aos olhos de Deus como o corpo frio lhe é repugnante. Você não escolheria viver com um morto assentado a sua mesa. E Deus não tem prazer em que você esteja diante de seus olhos. Ele Se ira com você todos os dias, pois esta em pecado – está morto. Oh. creia nisso, leve-o a serio! Aproprie-se disso, pois é bem verdade que está morto, tanto espiritualmente como legalmente.

MORTE ETERNA NO INFERNO

O terceiro tipo de morte é a consumação dos outros dois. É a morte eterna. É a execução da sentença legal; e a consumação da morte espiritual. A morte eterna e a morte da alma; isto acontece depois da morte física, após a alma ter saído do corpo. Se a morte legal e terrível e por causa das suas conseqüências; e se a morte espiritual e horrível, e por causa daquilo que acontecerá depois. As duas mortes da qual falamos são as raízes, mas a morte que advirá é a arvore em plena frutificação!

Oh, se eu tivesse palavras para descrever a você neste momento o que é a morte eterna. A alma compareceu diante do seu Criador; o livro foi aberto; a sentença foi declarada: ” apartai-vos malditos”. O universo foi sacudido, e tomou as próprias galáxias obscurecidas com a desaprovação do Criador; a alma se foi as profundezas onde habitara com outras na morte eterna. Oh quão terrível e a sua posição agora. Seu leito é um leito de chamas: as visões que ela tem são horrendas horripilam-na; os sons que ouve são gritos, lamentações choros, e grunhidos; tudo que o seu corpo conhece é a imposição de dores lancinantes! Ele tem o inexprimível infortúnio da miséria não mitigada. A alma olha para baixo com medo e pavor; o remorso toma posse dela. Ela olha para sua direita. e as paredes inflexíveis da ruína a mantém dentro dos limites da tortura. Olha para sua esquerda, e ali o baluarte de fogo ardente impede a escalada de qualquer imaginado escape. Olha para dentro de si e ali procura por consolação, mas um verme torturante já penetrou nela. Ela olha em volta não tem amigos que a ajudem, nem consoladores, e sim atormentadores em abundância. Não conhece a esperança da libertação; já ouviu o eterno ferrolho do destino fechando a porta da terrível prisão, e viu Deus tomar a chave e jogá-la nas profundezas da eternidade para nunca mais ser achada. Sem esperança, desconhece escape, não conjectura libertação; suspira pelo fim, mas a morte é por demais um adversário para ali estar; deseja ardentemente que a não existência a possa tragar, mas esta morte eterna é pior do que o aniquilamento. Anseia pelo extermínio como trabalhador pelo seu dia de descanso; deseja profundamente que possa ser engolida pelo nada, assim como o escravo da galé deseja sua liberdade qual nunca chega. Está eternamente morta. Quando a eternidade tiver dado incontáveis voltas a alma perdida ainda estará morta. “Para todo o sempre” não conhecerá fim; a eternidade não pode ser soletrada a não ser na eternidade. No entanto, a alma vê assento sobre a sua cabeça; és maldita para sempre”. Ela ouve gritos que serio perpétuos; as chamas que são inextinguíveis; conhece dores que não terão alivio; ouve uma sentença que não ruge como um trovão da terra que logo cessa porém, continua sempre e sempre, retinindo os ecos da eternidade – fazendo milhares de anos tremer outra vez com o terrível estrondo do seu pavoroso ruído; “Apartai! Apartai! Apartai malditos”! Isto é na verdade a morte eterna.
VIDA EM CRISTO

2. Em segundo lugar HÁ VIDA EM CRISTO JESUS, pois Ele diz: “mas não quereis vir a mim para terdes vida”. Não há vida em Deus pai para o pecador; não há vida em Deus Espírito para o pecador longe de Jesus. A vida do pecador está em Cristo. Se vocês tomarem o Pai a parte do Filho, apesar de amar Seus eleitos e decretar que eles viverão, no entanto, a vida só está em seu Filho. Se tomarem Deus Espírito a parte de Jesus Cristo, apesar de ser o Espírito que nos dá vida, espiritual, contudo a vida está em Cristo, a vida esta no Filho. Não nos atrevemos, não podemos requerer vida espiritual em primeiro lugar, nem de Deus Pai, ou de Deus Espírito Santo. A primeira coisa que somos levados a fazer quando Deus nos tira do Egito e comer a Páscoa – a primeiríssima coisa.

Os primeiros meios pelos quais recebemos vida consiste em nos alimentar da carne e do sangue do Filho de Deus: vivendo nEle, confiando nEle, acreditando na Sua graça e poder.

O pensamento que estamos desenvolvendo e: há vida em Cristo Jesus. Quero mostrar-lhes que há três tipos de vida em Cristo, assim como há três tipos de morte em conseqüência do pecado.

VIDA LEGAL – SEM CONDENAÇÃO

Primeiro existe vida legal em Cristo. Assim como todo homem por natureza, considerado em Adão, teve uma sentença de condenação que passou para ele no momento em que Adão pecou e, mais especificamente, no momento de sua própria transgressão, igualmente se formos crentes e confiarmos em Cristo, houve uma sentença legal de absolvição atribuída a nós através do que Jesus Cristo fez. Ó pecador condenado, você pode estar sentado aqui hoje tão condenado como o prisioneiro em Newgate (prisão na Inglaterra) mas antes deste dia terminar poder estar tão livre de culpa como os anjos lá do alto. Há uma tal coisa como uma vida legal em Cristo, e bendito seja Deus, alguns de nós a desfrutamos. Sabemos que os nossos pecados são perdoados porque Cristo sofreu o castigo por eles. Sabemos que nunca seremos punidos porque Cristo sofreu em nosso lugar.

A Páscoa foi sacrificada a nosso favor: os umbrais e a verga das portas foram aspergidos, e o anjo destruidor nunca poderá nos tocar. Para nós não haverá inferno; suas chamas terríveis não nos alcançarão. Não importa que o Tofete tenha sido preparado desde há muito tempo, nem que sua pilha seja de madeira e haja muita fumaça, nunca iremos para lá – Cristo morreu por nós e em nosso lugar. Ainda que hajam horríveis tormentos, ou mesmo uma sentença que produza horrendas repercussões fragorosas, no entanto, nem tormento nem prisões, nem trovões são para nós! Em Cristo Jesus somos libertos agora. “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que andam não segundo a carne, mas, segundo o Espirito” (Rom. 8:1).

Pecador, você se sente legalmente condenado neste momento? Sente isso? Então, deixe-me dizer-lhe que a fé em Cristo lhe dará o conhecimento de sua absolvição legal. Meu amigo, não e nenhuma fantasia o fato de estarmos condenados por nossos pecados, é uma realidade. Portanto, tampouco é fantasia que fomos absolvidos de nossos pecados, é também uma realidade. Um homem prestes a ser enforcado, se recebesse pleno perdão sentiria isso como uma grande realidade. Ele dirá: “eu recebi total perdão, agora não posso ser tocado”. É assim mesmo que eu me sinto.

“Agora livre do pecado eu ando em liberdade,
O sangue do Salvador e minha completa absolvição,
Aos Seus queridos pés eu me deito,
Um pecador salvo, minha homenagem presto”.

Irmãos, nós ganhamos vida legal em Cristo, e tal vida não podemos perder. A sentença era contra nós no passado – agora tudo mudou. Esta escrito: “portanto, AGORA NENHUMA CONDENAÇÃO HÁ PARA OS QUE ESTÃO EM CRISTO JESUS”, e esse agora valerá para mim daqui a muitos anos, como o esta valendo hoje. Em qualquer tempo que estivermos vivendo, ainda estará escrito: “portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”.

VIDA ESPIRITUAL – DEFUNTO VIVIFICADO

Então, em segundo lugar, há vida espiritual em Cristo Jesus. Visto que o homem está espiritualmente morto, Deus tem vida espiritual para ele, pois não há nenhuma necessidade que não possa ser suprida por Jesus; não há vazio no coração que Cristo não possa encher: não há um ermo que Ele não possa povoar, não há deserto que Ele não possa fazer florescer como a rosa. Ó pecadores mortos, espiritualmente mortos. há vida em Cristo Jesus, pois nós temos visto – sim, estes olhos viram – os mortos viverem de novo: nós conhecemos o homem cuja visão era carnal, cujas concupiscências eram poderosas, cujas paixões eram fortes, e que de repente, por um irresistível poder do céu. consagrou-se a Cristo, e tornou-se um filho de Deus. Sabemos que há vida em Cristo Jesus, vida de ordem espiritual; sim, mas nós mesmos, em nossas próprias pessoas, temos sentido que há uma vida espiritual. Bem que podemos nos lembrar quando nos sentamos na casa de oração, tão mortos como os bancos nos quais estávamos sentados. Havíamos ouvido por muito tempo o som do evangelho, porém, nenhum efeito se seguiu, quando de repente, como se os nossos ouvidos tivessem sido abertos pelos dedos de um poderoso anjo, um som entrou em nossos corações. Pensamos ter ouvido Jesus dizer: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (Mat. 11:15). Um poder irresistível tocou nossos corações e espremeu deles uma oração. Nunca fizemos uma oração assim antes. Nós clamamos” Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!” (Lc. 18:13).

Alguns de nós sentimos a mão de Deus nos apertando durante meses, como se tivéssemos sido apanhados num torno, e as nossas almas sangraram gotas de angústia. Essa miséria era um sinal de vida que se iniciava. Quando as pessoas estão se afogando não sentem tanto a dor como quando estão sendo restauradas. Oh, podemos nos lembrar de quando recebemos a nossa vida espiritual, tão facilmente como pode um homem que fosse ressurrecto do túmulo.

Podemos supor que Lázaro se lembrava da sua ressurreição, porem, não de todas as circunstancias dela. Portanto, apesar de termos nos esquecido de muitos detalhes, podemos nos lembrar de quando nos entregamos a Cristo. Podemos dizer a todo pecador, mesmo estando morto, que há vida em Cristo Jesus, ainda que ele esteja podre e corrupto em seu túmulo espiritual. Aquele que ressuscitou a Lázaro, também nos ressuscitou; e Ele pode dizer igualmente a você: “Lázaro, saia para fora”.

VIDA ETERNA – NUNCA PERDIDO

Em terceiro lugar, há vida eterna em Cristo Jesus. Meus amigos, se a morte eterna e terrível, a vida espiritual e abençoada; pois Ele disse, “Onde Eu estiver aí o meu servo estará”(João 12:26). “Pai, desejo que onde eu estiver também estejam comigo aqueles que me tens dado, para que vejam a minha glória” (João 17:24). “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão”. (João 10:28). Ora, qualquer arminiano que pregasse sobre esse texto precisaria de lábios de borracha para esticar a sua boca, pois tenho certeza que ele não poderia falar toda a verdade sem se enrolar de um modo muito misterioso. Vida eterna – não uma vida que eles vão perder, mas vida eterna. Se eu perdi a vida em Adão, eu a ganhei em Cristo; se em Adão me perdi para sempre, em Cristo Jesus me encontro para sempre. Vida eterna! Oh, bendito pensamento! Nossos olhos reluzirão com gozo e nossas almas arderão em êxtase ao pensar que as nossas almas vão viver em alegria e gozo. Apaga seu olho, ó sol! – porém os meus olhos” verão o Rei na Sua formosura” quando esse olho solar nunca mais fizer sorrir a terra verde. E lua, toma-se em sangue! – porém o meu sangue jamais se tornará em nada; este meu espírito ainda existira quando você terá deixado de existir. E você grande mundo! – poderá desvanecer assim como a espuma desaparece de sobre a onda que a suporta, porém eu terei a vida eterna. Ó tempo! – você poderá ver montanhas gigantescas mortas ou escondidas em suas covas; poderá ver as estrelas como figos maduros caindo da árvore; mas nunca, jamais verá o meu espírito morto.

DEUS SALVA A TODOS OS QUE VÊM

3. Isto nos traz ao terceiro ponto: A VIDA ETERNA É DADA A TODOS OS QUE VÊM EM SUA BUSCA. Nunca um homem veio a Cristo buscar vida eterna, legal e espiritual, que de certo modo não a tivesse recebido, e foi lhe manifestado de que a tinha recebido logo após ter vindo. Vamos considerar um ou dois textos. “Portanto pode também salvar perfeitamente os que por Ele se achegam a Deus” (Hb. 7:25). Todo homem que se achega a Cristo, verá que Ele é capaz de salvá-lo e, não apenas capaz de salvá-lo um pouco, libertá-lo de um pequeno pecado, livrá-lo de uma pequena tribulação, carrega-lo um pouco e depois deixá-lo cair – e sim capaz de salvá-lo até a máxima extensão do seu pecado, e de suas tribulações, até ao mais profundo das suas tristezas e ao extremo da sua existência. Cristo diz a todo o que vem a Ele: “Venha, pobre pecador, não precisa perguntar se tenho poder para salvar. Eu não perguntarei quão longe foi em seu pecado; Eu posso salvá-lo completa e perfeitamente”.

SOMENTE OS ESCOLHIDOS VIRÃO

Agora vejamos outros textos: “Aquele que vem a mim (notem que as promessas são quase todas aos que vêm) de modo nenhum o lançarei fora”‘ (João 6:37). Todo homem que vem encontrará a porta da casa de Cristo aberta – e a porta do Seu coração também. Todo homem que vem – eu digo isto no mais amplo sentido – descobrirá que Cristo tem misericórdia dele. O maior absurdo do mundo e querer um evangelho mais amplo do que aquele registrado nas Escrituras. Eu proclamo que todo homem que crê será salvo – que todo homem que vem encontrara misericórdia. As pessoas me perguntam: mas, suponha que um homem venha sem ter sido escolhido, ele seria salvo? Você está supondo um absurdo, e eu não vou lhe dar uma resposta. Se um homem não for escolhido ele nunca virá. Quando ele vem é uma prova segura de que foi escolhido. Diz outro: “Suponha que alguém vá a Cristo que não tenha sido chamado pelo Espirito”. Pare, meu amigo, essa e uma suposição que você não tem o direito de fazer, pois tal coisa não pode acontecer: você só diz isso para me enredar, mas não conseguirá isso. Eu digo, todo homem que vem a Cristo será salvo. Eu posso dizer isso como um calvinista, ou como um hiper-calvinista com toda a clareza possível. Não tenho evangelho que exceda em estreiteza ao que você tem só que o meu evangelho está alicerçado sobre um fundamento sólido, ao passo que o seu está construído somente sobre ardia e podridão. Todo homem que vem a Cristo será salvo, pois, homem nenhum virá a Ele “se o Pai não o trouxer”. No entanto, diz alguém: “Suponha que o mundo todo viesse, Cristo o receberia?” Certamente, se todos viessem; mas eles não virão Eu digo, todos os que vem – sim, mesmo que eles fossem tão maus quanto os demônios, ainda assim Cristo os receberia; se eles tivessem todos os pecados e imundícies derramados nos seus corações, como dentro de um esgoto comum para o mundo todo, Cristo os receberia.

EXPIAÇÃO UNIVERSAL, UMA MENTIRA

Há quem argumente: “Eu quero saber sobre o restante das pessoas. Posso sair e dizer-lhes: Jesus Cristo morreu por cada um de vocês? Posso dizer que há vida para cada um de vocês?”. Não. Não poderá. Você poderá dizer que há vida para cada homem que vem; contudo, se disser que há vida para aqueles que não crêem, então, profere uma mentira perigosa. Se você lhes disser que Jesus Cristo foi punido pelos seus pecados e assim mesmo se perderão, você fala uma falsidade deliberada. Pensar que Deus pode punir a Cristo, e depois punir a eles – eu admiro do seu atrevimento em dizer isso! Um homem uma vez estava pregando e afirmou que havia harpas e coroas no céu para toda a sua congregação; e depois terminou de uma maneira muito solene: ” Meus queridos amigos, muitos para quem estas coisas estão preparadas não chegarão lá ”. De fato, a sua pregação foi uma coisa tão lamentável que era para fazer chorar mas eu lhes digo por quem ele deveria ter chorado – deveria ter chorado pelos anjos do céu e por todos os santos, pois isso estragaria completamente o céu para eles.

Ouçam, meus irmãos, quando vocês se reunirem no Natal, se perderam seu irmão Davi, e o seu lugar está vazio, vocês dizem: “Bem, nós sempre desfrutamos do Natal, mas agora há um vazio – pobre Davi esta morto e sepultado!” Pensem nos anjos dizendo: “Ah, este é um céu maravilhoso, mas não gostamos de ver todas estas coroas aqui com teias de aranha! Não podemos suportar essa rua desabitada nem podemos olhar para esses tronos vazios”! E então, pobrezinhos, eles poderiam começar a falar uns com os outros, e dizer: “Nenhum de nós está a salvo aqui, pois a promessa foi – ” Eu dou as minhas ovelhas a vida eterna”, e há muitas delas no inferno, as quais Deus deu vida eterna também; há um número delas pelas quais Cristo derramou Seu sangue, queimando no abismo, e se elas podem ser mandadas para lá, Ele também pode nos mandar. Se não podemos confiar numa promessa, tampouco podemos confiar noutra”. Portanto, o céu perderia o seu fundamento e cairia. Acabem com tal evangelho sem sentido! Deus nos da um evangelho seguro e sólido, construído sobre as promessas e relacionamentos da aliança, com propósitos eternos e cumprimentos seguros.

NENHUM HOMEM DESEJA VIR

4. Isto nos traz ao quarto ponto. POR NATUREZA, NENHUM HOMEM QUER VIR A CRISTO, pois o texto diz: “Não quereis vir a mim para terdes vida”. Eu afirmo sob a autoridade das Escrituras que não querem vir a Cristo para terem vida. Eu lhes digo, poderia pregar a vocês a vida toda e tomar emprestado a eloquência de Demóstenes ou de Cícero, mas vocês na desejariam vir a Cristo. Poderia lhes implorar de joelhos, com lágrimas nos meus olhos, e mostrar os horrores do inferno e o gozo do céu, como também expor a sua própria condição de perdido e a suficiência de Cristo, porém nenhum de vocês viria a Cristo por sua própria vontade, a não ser que o Espírito de Cristo o atraísse. E verdade que todos os homens, em sua condição natural, não virão Cristo.

Parece que estou ouvindo outro destes faladores perguntando: “Mas, eles não poderiam vir se quisessem”? Meu amigo, vou lhe responder numa outra ocasião. Essa não é a questão neste momento. Eu estou falando sobre eles quererem, não sobre eles poderem. Você pode notar que quando se fala de livre-arbítrio, o pobre arminiano em dois segundos começa a falar de poder, e mistura dois assuntos que deveriam ser mantidos separados. Nós não trataremos de dois assuntos de uma só vez, pois nos recusamos a lutar com dois ao mesmo tempo. Em outra oportunidade pregaremos sobre este texto: “Ninguém pode vir a mim se o Pai não o trouxer”. Entretanto, é só sobre a vontade que estamos falando agora, é certo que os homens não virão a Cristo para que tenham vida.

Poderíamos provar isso com muitos textos das Escrituras, porém usaremos uma parábola. Vocês se lembram da parábola onde um certo rei deu uma festa para seu filho, e convidou muitos a festa; os bois e os cevados foram mortos, e ele enviou seus mensageiros a chamar muitos para a ceia. Eles foram a festa? Não, não foram. Todos eles, a uma só voz, começaram a se desculpar. Um disse que havia se casado, portanto não poderia vir. E o que impediria que ele trouxesse a esposa consigo? Outro comprou uma junta de bois, e foi experimentá-los; mas a festa foi a noite, e ele não poderia experimentá-los no escuro. Outro comprou um pedaço de terra e queria vê-la; mas eu não creio que ele fosse vê-la com uma lanterna. Assim, todos apresentaram desculpas e não quiseram vir. Bem, o rei estava determinado a realizar a festa; portanto, ele disse: “Vai às ruas e becos e convida-os – espere! não convide – obriga-os a entrar”, pois mesmo os pobres das ruas nunca teriam vindo a não ser que fossem compelidos.

Examinemos outra parábola. Um certo homem tinha uma vinha; no tempo determinado enviou um dos seus servos para receber o que lhe cabia do aforamento. O que fizeram com ele? Espancaram aquele servo. Ele enviou outro, e o apedrejaram. Enviou ainda outro, e o mataram. E por último ele disse: “Eu vou enviar-lhes o meu filho, a ele terão respeito”. Mas o que foi que fizeram? Disseram: “Este e o herdeiro: vinde, matemo-lo e apoderemo-nos da sua herança”. E assim fizeram. E o mesmo com todos os homens, por causa da sua natureza. O Filho de Deus veio: no entanto, os homens O rejeitaram.” Não quereis vir a Mim para terdes vida”.

A QUEDA – ATÉ ONDE?

Levaria muito tempo para mencionarmos outras provas das Escrituras. Vamos, no entanto, nos referir à grande doutrina da Queda. Qualquer pessoa que acredita que a vontade do homem é inteiramente livre, e que pode ser salva por meio dela, não acredita na Queda. Como, às vezes, tenho lhes dito: poucos pregadores acreditam plenamente na doutrina da Queda, ou então apenas acreditam que Adão, quando caiu, quebrou seu dedo mindinho, e não seu pescoço, arruinando assim a sua raça. Ora, amados, a Queda quebrou o homem completamente. Não deixou nenhuma capacidade inalterada; todas foram despedaçadas, degradadas e manchadas. Como um poderoso templo, os pilares podem estar ali, as colunas, até o pilar principal, mas, todos eles foram quebrados, ainda que alguns retenham suas formas e posições. Às vezes a consciência do homem retam muito a sua ternura – no entanto, esta caída. A vontade também não está isenta. Embora seja o maioral de Mansoul - conforme Bunyan o chama – o maioral erra. O senhor vontade – voluntarioso – estava continuamente errando.

A natureza caída que vocês tem foi colocada fora de ordem; sua vontade, entre outras coisas, afastou-se completamente de Deus. Eu lhes direi que a melhor prova disso: é o grande fato de que nunca encontraram um cristão, em toda a sua vida, que dissesse que ele veio a Cristo, sem que antes Cristo tivesse vindo a ele.

ORAÇÕES LIVRE-ARBÍTRIO – NÃO!

Vocês tem ouvido muitos sermões arminianos, eu ouso dizer, mas nunca ouviram uma oração arminiana - pois os santos em oração se parecem iguais em palavra, ação e mente. Um arminiano de joelhos orará desesperadamente como um calvinista. Ele não pode orar a respeito do livre-arbítrio: não há lugar para isso. Imagine-o orando: “Senhor, eu Te agradeço que não sou como esses pobres calvinistas presunçosos. Senhor, eu nasci com um glorioso livre-arbítrio: eu nasci com poder pelo qual posso me voltar para Ti por conta própria; tenho melhorado minha graça. Se todos tivessem feito o mesmo que eu fiz com a Tua graça, poderiam todos ter sido salvos. Senhor, eu sei que Tu não nos fazes espiritualmente propensos se nós mesmos não queremos. Tu dás graça a todos; alguns não a melhoram, mas, eu sim. Haverá muitos que irão para o inferno, tantos quantos foram comprados pelo sangue de Cristo como eu fui; eles tinham tanto do Espírito Santo quanto me foi dado tiveram uma boa chance, e foram tão abençoados como eu sou. Não foi a Tua graça que nos diferenciou; eu sei que ela fez muito, mas eu cheguei ao ponto desejado; eu usei o que me foi dado e os outros não – essa e a diferença entre eu e eles”.

Essa é uma oração para o diabo, pois ninguém ofereceria tal oração. Ah, quando eles estão pregando e falando vagarosamente poderá haver doutrina errada: mas quando oram, a verdade escapa, eles não podem evitá-la. Se um homem fala muito devagar, ele poderá falar de modo refinado, porém, quando ele começa a falar depressa, o velho sotaque regional escapa.

E lhes pergunto: alguma vez conheceram um cristão que dissesse,” Eu vim a Cristo sem o poder do Espírito”? Se alguma vez encontraram tal homem, não precisam ter a menor hesitação em dizer: “Meu querido amigo, eu realmente admito isso – e acredito também que você se afastou dEle sem o poder do Espírito, que está em fel de amargura e no laço da iniquidade”.

Será que eu ouço um cristão dizendo: “Eu achei a Jesus antes que Ele me achasse; eu fui ao Espírito, e Ele não veio a mim”? Não, amados, somos obrigados; cada um de nós a colocar as mãos sobre os nossos corações e dizer:

“A graça ensinou minha alma a orar,
E fez meus olhos transbordar,
Foi a graça que me guardou até este dia,
E não me deixam escapar”

Há alguém aqui – ao menos um – homem ou mulher, jovem ou velho, que possa dizer: “Eu procurei a Deus antes que Ele me procurasse”? Não, mesmo você que tende para o arminianismo cantara:

” Oh sim! eu amo a Deus
Porque Ele me amou primeiro”.

Então, mais uma pergunta. Porventura não descobrimos que, mesmo após termos vindo a Cristo, a nossa alma não está livre, e sim, está guardada por Cristo? Não descobrimos que até mesmo agora, há ocasiões quando o querer não está presente? Há uma lei em nossos membros guerreando contra a lei das nossa s mentes. Ora, se esses que estão espiritualmente vivos sentem que a sua vontade esta contraria a de Deus, o que dizer do homem que esta morto em delitos e pecados? Seria um absurdo maior colocar os dois no mesmo nível; e seria ainda mais absurdo fazer os mortos precederem os vivos. Não, o texto esta certo, a experiência o imprimiu em nossos corações: ” Não quereis vir a mim para terdes vida”.

POR QUE NINGUÉM VEM

Agora devemos dizer-lhes os motivos pelos quais os homens não vem a Cristo. O primeiro e: porque nenhum homem por natureza pensa que ele precisa de Cristo. Por natureza ele concebe que não precisa de Cristo; pensa que possui um manto de justiça própria, que está bem vestido, que não está nu, que não precisa do sangue de Cristo para lavá-lo, que não está preto ou vermelho e que não precisa da graça para purificá-lo. Nenhum homem conhece a sua necessidade antes que Deus a mostre a ele; e até que o Espírito Santo lhe revele a necessidade de perdão, nenhum homem buscará o perdão. Eu posso pregar Cristo para sempre, mas, a não ser que alguém sinta que quer a Cristo, nunca virá a Ele. Um farmacêutico pode ter uma boa farmácia, mas ninguém comprará seus remédios até que sinta que precisa deles.

O motivo seguinte é: porque os homens gostam do modo pelo qual Cristo os salva. Um diz: ” Eu não gosto porque Ele me torna santo; eu não posso beber ou blasfemar, se Ele me salvar”. Outro diz: ” Isto requer que eu seja tão exato e rígido, e eu gosto de um pouco mais de licença”. Outro não gosta porque o” portão do céu” não é o suficiente alto para a sua cabeça, e ele não gosta de se agachar. Este é o motivo principal pelo qual vocês não virão a Cristo, porque não podem chegar a Ele com as suas cabeças firmemente levantadas no ar: pois Cristo os faz agacharem quando vocês vem. Outro não gosta que a salvação seja pela graça do começo ao fim. “Oh”, ele diz: “se eu pudesse ter só um pouco de honra”. Mas, quando ele ouve que tudo é Cristo. Cristo ou nada, um Cristo inteiro ou nada de Cristo, ele diz: ” Eu não virei”, vira-se então e vai embora. Ah, pecadores orgulhosos, vocês não virão a Cristo porque não conhecem nada sobre Ele. E esse é o terceiro motivo. Os homens não conhecem Seu valor, pois se o conhecessem, viriam para Ele. Porque os marinheiros não vieram para a América antes de Colombo? Porque não acreditavam que a América existia. Colombo tinha fé: portanto ele foi. Aquele que tem fé em Cristo vai a Ele. Todavia, vocês não conhecem a Jesus; muitos de vocês não viram Seu maravilhoso rosto; nunca viram o quanto Seu sangue é apropriado para um pecador, quão grande é a Sua expiação, e como Seus méritos são todos suficientes. Portanto” vocês não virão a Ele”.

SEM DESCULPA

Oh, meus ouvintes, meu último pensamento e deveras solene. Já preguei que vocês não virão. Mas, alguns vão dizer: ” É por causa dos nossos pecados que não estamos vindo”. É isso mesmo. Vocês não vêm nem podem vir porque suas vontades são pecaminosas. Alguns pensam que” costura-mos almofadas para todas as cavas” quando pregamos esta doutrina, mas não o fazemos. Não vemos isto como sendo parte da natureza original do homem, porém, como pertencente à natureza decaída. É o pecado que os trouxe a esta condição, devido a qual não virão. Se não tivessem caído, viriam a Cristo no exato momento em que Ele fosse anunciado a vocês, mas não vêm por causa dos seus pecados e delitos. As pessoas se desculpam porque têm corações maus. Essa é a desculpa mais esfarrapada do mundo. Acaso o roubo e a ladroeira não provêm de um mau coração? Suponha que um ladrão dissesse ao juiz: ” Eu não pude evitá-lo, eu tinha um mau coração”. O que diria o juiz?” Patife! se seu coração é mau então farei a sentença mais pesada, pois de fato você é um vilão. Sua desculpa não e nada”. O Todo-Poderoso vai rir deles, e os terá em escárnio. Nós não pregamos esta doutrina para desculpá-los, e sim para torná-los humildes. Possuir uma má natureza é tanto minha culpa como minha terrível calamidade.

É um pecado que será cobrado do homem. Quando eles não vêm a Cristo é o pecado que os mantém afastados. Aquele que não prega isso, duvido que seja fiel a Deus e à sua própria consciência. Vai então para casa, meu amigo, com este pensamento: ” Eu sou por natureza tão perverso que não virei a Cristo, e essa perversidade da minha natureza é o meu pecado. Eu mereço ser lançado ao inferno por isso”. E se este pensamento não humilhar, o Espírito usando o mesmo, nada poderá fazê-lo. Na pregação de hoje eu não exaltei a natureza humana, porém rebaixei-a. Deus nos humilhe a todos. Amém!

 

NOTA CONCLUSIVA DO PUBLICADOR

Desde que este sermão foi pregado por Spurgeon no início do seu ministério (02 de dezembro de 1855 na Capela de New Park Street, Londres), alguns oponentes da doutrina da graça soberana têm tentado ensinar que posteriormente Spurgeon mudou seu ponto de vista sobre aquilo que foi exposto em ” Livre-Arbítrio – Um Escravo”. Isto é simplesmente um absurdo, como o confirmam as seguintes breves citações (que poderiam ser multiplicadas muitas vezes), extraídas do último volume dos seus sermões, os quais ele editou pessoalmente em 1891, no Metropolitan Tabernacle Pulpit.

“Você não possui um vontade imparcial, ou inclinada para aquilo que é bom; você escolheu o mal e continua a escolhê-lo…”

” Durante o tempo que quiser, você poderá exortar um homem cego a enxergar, porém ele não enxergará. O quanto quiser, você poderá exortar um homem morto a viver, porém ele não viverá somente através de sua exortação. Algo mais é necessário” (pp. 341-342 ).”

“A intenção de Deus era que Lídia fosse salva. No entanto, você sabe que nenhuma mulher foi salva contra sua vontade. Deus nos faz dispostos no dia do Seu poder, e a Sua graça não viola a vontade humana, mas triunfa docemente sobre ela. Nunca haverá alguém arrastado para o céu pelas orelhas: saiba disso. Nós iremos para lá de coração e porque desejamos” (p. 485).

C. H. Spurgeon – Editado pela PES.

Contracultura Cristã – A Mensagem do Sermão do Monte

Deixe o seu comentário

 

Prefácio Geral 4

Prefácio do Autor. 5

Principais Abreviações e Bibliografia. 6

Mateus 5:1, 2 Introdução: Que sermão é este?. 7

Mateus 5:3-12 O caráter do cristão: as bem-aventuranças. 14

Mateus 5:13-16 Á influência do cristão: o sal e a luz. 27

Mateus 5:17-20 A justiça do cristão: Cristo, o cristão e a lei 33

Mateus 5:21-30 A justiça do cristão: esquivando-se à cólera e à concupiscência. 39

Mateus 5:31-37 A justiça do cristão: fidelidade no casamento e honestidade nas palavras. 43

Mateus 5:38-48 A justiça do cristão: não-vingança e amor ativo. 48

Mateus 6:1-6, 16-18 A religião do cristão: não hipócrita, mas real 58

Mateus 6:7-15 O oração do cristão: não mecânica, mas refletida. 66

Mateus 6:19-34 A ambição do cristão: não a segurança material, mas a direção de Deus. 71

Mateus 7:1-12 Os relacionamentos do cristão: com os seus irmãos e com o seu Pai 81

Mateus 7:13-20 Os relacionamentos do cristão: os falsos profetas. 90

Mateus 7:21-27 O compromisso cristão: uma escolha radical 95

MATEUS 7:28, 29 Conclusão: quem é esse pregador?. 98

Prefácio do Autor

 

O Sermão do Monte exerce um fascínio sem par. Ele parece encerrar a essência do ensino de Jesus. Ele torna a justiça atra­tiva; envergonha o nosso fraco desempenho; gera sonhos de um mundo melhor.

É como expressou John Donne, num sermão pregado na qua­resma de 1629, não sem uma pequena mas perdoável hipérbole: “Todos os artigos de nossa religião, todos os cânones de nossa igreja, todas as injunções de nossos príncipes, todas as homílias de nossos pais, todo o corpo de doutrinas estão contidos nestes três capítulos, neste Sermão do Monte.”[1]

Devo confessar que me rendi ao seu fascínio, ou antes ao fas­cínio daquele que o pregou. Durante os últimos sete anos, pelo menos, tenho constantemente meditado nele. Em conseqüência, minha mente tem se debatido com os seus problemas, e o meu coração se abrasou pela nobreza dos seus ideais. Durante esse período, tentei compartilhar meus pensamentos e meu entu­siasmo com estudantes da Universidade de Cambridge, com outros grupos de estudantes nos Estados Unidos e no Canadá, com a congregação da Igreja de All Souls, e com aquelas cen­tenas de peregrinos de todo o mundo, na Convenção de Keswick, em 1972.

É claro que sobre o Sermão do Monte já se escreveram cen­tenas de comentários. Eu mesmo pude estudar cerca de vinte e cinco deles, e o leitor irá notar minha dívida para com eles. De fato, meu texto está liberalmente salpicado de citações desses comentários, pois penso que devemos valorizar a tradição muito mais do que freqüentemente o fazemos, e que devemos assentar-nos mais humildemente aos pés dos mestres.

Meu propósito com esta exposição foi atentar cuidadosamente para o texto. Acima de tudo, o meu propósito foi deixar o próprio texto falar, ou melhor, deixar Cristo proferi-lo novamente, desta vez ao mundo contemporâneo. Assim, procurei encarar com integridade os dilemas que o Sermão levanta para os cristãos de hoje, e não esquivar-me deles, já que Cristo não nos deu um tratado acadêmico, calculado simplesmente para estimular a mente. Creio que ele desejava que o seu Sermão do Monte fosse obedecido. De fato, se a Igreja tivesse aceitado realisticamente os seus padrões e valores, como aqui demonstrados, e tivesse vivido segundo eles, ela teria sido a sociedade alternativa que sempre tencionou ser, e poderia oferecer ao mundo uma autên­tica contracultura cristã.

Sou extremamente grato a John Maile, professor de Novo Testamento na Faculdade Spurgeon, em Londres, pela leitura do manuscrito e por várias proveitosas sugestões. Da mesma forma devo agradecimentos a Frances Whitehead e Vivienne Curry pela datilografia do texto.

JOHN R. W. STOTT

Mateus 5:1, 2
Introdução: Que sermão é este?

 

O Sermão do Monte é provavelmente a parte mais conhecida dos ensinamentos de Jesus, embora se possa argumentar que seja a menos compreendida e, certamente, a menos obedecida. De tudo o que ele disse, essas suas palavras são as que mais se apro­ximam de um manifesto, pois descrevem o que ele desejava que os seus seguidores fossem e fizessem. Penso que nenhuma outra expressão resume melhor a intenção de Jesus, ou indica mais cla­ramente o seu desafio para o mundo moderno, do que a expressão “contracultura cristã”. Vou lhes dizer por quê.

Os anos que se seguiram ao fim da segunda guerra mundial, em 1945, foram marcados por um idealismo inocente. O horrível pesadelo terminara. “Reconstrução” era o alvo universal. Seis anos de destruição e devastação eram coisas do passado; a tarefa agora era construir um novo mundo de cooperação e paz. Mas a irmã gêmea do idealismo é a desilusão, desilusão com aqueles que não participam do ideal, ou (pior) com os que se lhe opõem, ou (pior ainda) com os que o traem. E a desilusão com o que é continua alimentando o idealismo do que poderia ser.

Parece que atravessamos décadas de desilusão. Cada geração que se levanta odeia o mundo que herdou. Às vezes, a reação tem sido ingênua, embora não possamos dizer que tenha sido hipócrita. Os horrores do Vietnã não terminaram com aqueles que distribuíam flores e rabiscavam o seu lema “Faça amor, não faça guerra”, embora o seu protesto não tenha passado despercebido. Hoje em dia, há pessoas que repudiam a opulência ávida do ocidente, que parece ficar cada vez mais gordo, através do esbulho do meio-ambiente natural, ou através da exploração de nações em desenvolvimento, ou através de ambas as coisas ao mesmo tempo; essas pessoas exprimem a totalidade da sua rejeição vivendo com simplicidade, vestindo-se negli­gentemente, andando descalças e evitando o desperdício. Em lugar do simulacro da socialização burguesa, estão famintas de relacionamentos de amor autênticos. Desprezam a superficialidade, tanto do materialismo descrente como do conformismo religioso, pois sentem que há uma “realidade” impressionante muito maior do que essas trivialidades, e buscam essa dimensão “transcendental” ilusória através da meditação, de drogas ou do sexo. Abominam até o próprio conceito do corre-corre da sociedade de consumo e acham que é mais honesto “cair fora” do que participar. Tudo isso é sintoma da incapacidade da gera­ção mais jovem de adaptar-se ao status quo ou de aclimatar-se à cultura prevalecente. Não se sentem à vontade. Estão alie­nados.

E em sua busca de uma alternativa, “contracultura” é a pala­vra que usam. Ela expressa um amplo raio de ação de idéias ou ideais, experiências e alvos. Encontramos uma boa docu­mentação a esse respeito em The Making of a Counter-culture (A Criação de uma Contracultura, 1969) de Theodore Roszak; em The Dust of Death (A Poeira da Morte, 1973) de Os Guinness, e em Youthquake (Terremoto Jovem, 1973) de Kenneth Leech.

De um certo modo, os cristãos consideram esta busca de uma cultura alternativa um dos mais promissores, e até mesmo exci­tantes, sinais dos tempos. Pois reconhecemos nisso a atividade do Espírito, o qual, antes de confortar, perturba; e sabemos a quem a busca deles conduzirá, se quiserem encontrar a resposta. Na verdade, é significativo que Theodore Roszak, encontrando dificuldade para expressar a realidade que a juventude contem­porânea procura, alienada como está pela insistência dos cien­tistas quanto à “objetividade”, sente-se obrigado a recorrer às palavras de Jesus: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”[2]

Mas, ao lado da esperança que esta disposição de protesto e busca inspira aos cristãos, há também (ou deveria haver) um sentimento de vergonha. Pois, se a juventude de hoje está à procura das coisas certas (significado, paz, amor, realidade), ela as tem procurado nos lugares errados. O primeiro lugar onde deveriam procurar é um lugar que normalmente ignoram, isto é, a Igreja. Pois, com demasiada freqüência, o que vêem nas igrejas não é a contracultura, mas o conformismo; não uma nova sociedade que concretiza seus ideais, mas uma versão da velha sociedade a que renunciaram; não a vida, mas a morte. Prontamente endossariam o que Jesus disse de uma igreja do primeiro século: “Tens nome de que vives, e estás morto”.[3]

Urge que não somente vejamos, mas também sintamos, a grandeza dessa tragédia, pois, na medida em que uma igreja se conforme com o mundo, e as duas comunidades pareçam ser meramente duas versões da mesma coisa, essa igreja está contra­dizendo a sua verdadeira identidade. Nenhum comentário po­deria ser mais prejudicial para o cristão do que as palavras: “Mas você não é diferente das outras pessoas!”

O tema essencial de toda a Bíblia, desde o começo até o fim, é que o propósito histórico de Deus é chamar um povo para si mesmo; que este povo é um povo “santo”, separado do mundo para lhe pertencer e obedecer; e que a sua vocação é permanecer fiel à sua identidade, isto ê, ser “santo” ou “diferente” em todo o seu pensamento e em todo o seu comportamento.

Foi assim que Deus falou ao povo de Israel logo depois que o tirou da escravidão egípcia e fez dele o seu povo especial através da aliança: “Eu sou o Senhor vosso Deus. Não fareis segundo as obras da terra do Egito, em que habitastes, nem fareis se­gundo as obras da terra de Canaã, para a qual eu vos levo, nem andareis nos seus estatutos. Fareis segundo os meus juízos, e os meus estatutos guardareis, para andardes neles: Eu sou o Senhor vosso Deus.”[4] Este apelo que Deus fez a seu povo, é preciso notar, tanto começou como terminou com a declaração de que ele era o Senhor seu Deus. Pelo fato de ser o seu Deus, com quem eles firmaram um pacto, e porque eles constituíam o seu povo especial, tinham de ser diferentes de quaisquer outras pessoas. Tinham de seguir os mandamentos de Deus e não os padrões daqueles que os cercavam.

Através dos séculos seguintes, o povo de Israel continuou se esquecendo da sua singularidade como povo de Deus. Embora nas palavras de Balaão fosse “povo que habita só, e (que) não será reputado entre as nações”, na prática, entretanto, eles con­tinuaram assimilando-se aos povos que os rodeavam: “Antes se mesclaram com as nações, e lhes aprenderam as obras”.[5] Por isso exigiram que um rei os governasse “como todas as nações”, e quando Samuel os advertiu com base no fato de ser Deus o rei deles, foram obstinados em sua insistência: “Não, mas tere­mos um rei sobre nós. Para que sejamos também como todas as nações.”[6] Pior ainda do que o estabelecimento da monarquia foi a sua idolatria. “Seremos como as nações”, diziam para si mesmos, “. . . servindo ao pau e à pedra.”[7] Por isso Deus con­tinuou lhes enviando os seus profetas para que lembrassem quem eram e para insistir com eles a seguirem o caminho de Deus. “Não aprendais o caminho dos gentios”, falou-lhes através de Jeremias e Ezequiel, “não vos contamineis com os ídolos do Egito; eu sou o Senhor vosso Deus.”[8] Mas o povo de Deus não queria ouvir-lhe a voz, e o motivo específico apresentado, pelo qual o juízo de Deus caiu primeiro sobre Israel e, depois, cerca de 150 anos mais tarde, sobre Judá, foi o mesmo: “Os filhos de Israel pecaram contra o Senhor seu Deus . . . andaram nos esta­tutos das nações . . . Também Judá não guardou os manda­mentos do Senhor seu Deus; antes, andaram nos costumes que Israel introduziu.”[9]

Tudo isso constitui um cenário essencial para se compreender o Sermão do Monte. O Sermão encontra-se no Evangelho de Mateus, logo no começo do ministério público de Jesus. Ime­diatamente após o seu batismo e tentação, Cristo começou a anunciar as boas novas de que o reino de Deus, há muito prome­tido no período do Velho Testamento, estava agora às portas. Ele mesmo viera para inaugurá-lo. Com ele nascia a nova era e o reinado de Deus irrompia na História. “Arrependei-vos”, clamava, “porque está próximo o reino dos céus.”[10] Na verdade, “percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino” (v. 23). O Sermão do Monte, então, deve ser visto neste contexto. Descreve o arrependimento (metanóia, a total transformação da mente) e a retidão, que fazem parte do reino; isto é, descreve como ficam a vida e a comuni­dade humana quando se colocam sob o governo da graça de Deus.

E como é que ficam? Tornam-se diferentes! Jesus enfatizou que os seus verdadeiros discípulos, os cidadãos do reino de Deus, tinham de ser inteiramente diferentes. Não deveriam tomar como padrão de conduta as pessoas que os cercavam, mas sim Deus, e assim provar serem filhos genuínos do seu Pai celestial. Para mim, o texto-chave do Sermão do Monte é 6:8: “Não vos asse­melheis, pois, a eles.” Imediatamente nos faz lembrar a palavra de Deus a Israel, na antigüidade: “Não fareis como eles.”[11] É o mesmo convite para serem diferentes. E este tema foi desenvol­vido através de todo o Sermão do Monte. O caráter deles teria de ser completamente diferente daquele que era admirado pelo mundo (as bem-aventuranças). Deveriam brilhar como luzes nas trevas reinantes. A justiça deles teria de exceder à dos escribas e fariseus, tanto no comportamento ético quanto na devoção religiosa, enquanto que o seu amor deveria ser maior, e a sua ambição mais nobre do que a dos pagãos vizinhos.

Não há um parágrafo no Sermão do Monte em que não se trace este contraste entre o padrão cristão e o não-cristão. É o tema subjacente e unificador do Sermão; tudo o mais é uma variação dele. Às vezes, Jesus contrasta os seus discípulos com os gentios ou com as nações pagãs. Assim, os pagãos amam-se e saúdam-se uns aos outros, mas os cristãos têm de amar os seus inimigos (5:44-47); os pagãos oram segundo um modelo, com “vãs repetições”, mas os cristãos devem orar com a humilde reflexão de filhos do seu Pai no céu (6:7-13); os pagãos estão preocupados com as suas próprias necessidades materiais, mas os cristãos devem buscar primeiro o reino e a justiça de Deus (6:23, 33).

Em outros pontos, Jesus contrasta os seus discípulos, não com os gentios, mas com os judeus, ou seja, não com pessoas pagãs mas com pessoas religiosas; especificamente, com os “escribas e fariseus”. O Professor Jeremias, sem dúvida, está certo ao dizer que são “dois grupos de pessoas totalmente diferentes”, pois “os escribas são os mestres de teologia que tiveram alguns anos de estudo; os fariseus, por outro lado, não são teólogos, mas sim grupos de leigos piedosos de todas as camadas da socie­dade”.[12] Certamente Jesus opõe a moral cristã à casuística ética dos escribas (5:21-48) e a devoção cristã à piedade hipócrita dos fariseus (6:1-18).

Assim, os discípulos de Jesus têm de ser diferentes: tanto da igreja nominal, como do mundo secular; tanto dos religiosos, como dos irreligiosos. O Sermão do Monte é o esboço mais com­pleto, em todo o Novo Testamento, da contracultura cristã. Eis aí um sistema de valores cristãos, um padrão ético, uma devoção religiosa, uma atitude para com o dinheiro, uma ambição, um estilo de vida e uma teia de relacionamentos: tudo completa­mente diferente do mundo que não é cristão. E esta contra­cultura cristã é a vida do reino de Deus, uma vida humana real­mente plena, mas vivida sob o governo divino.

Chegamos à introdução editorial dada por Mateus ao Sermão, a qual é breve mas impressionante: indica a importância que ele lhe atribuía.

Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e como se assentasse, aproximaram-se os seus discípulos, e ele passou a ensiná-los, dizendo. .. (5:1, 2)

Não há dúvida de que o propósito principal de Jesus ao subir uma colina ou montanha para ensinar era fugir das “numerosas multidões” da Galiléia, Decápolis, Jerusalém, Judéia e dalém do Jordão[13], que o seguiam. Ele passara os primeiros meses do seu ministério público vagando por toda a Galiléia, “ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo”. Como resultado, “sua fama correu por toda a Síria”, e o povo vinha em grandes multidões, trazendo os seus doentes para serem curados.[14] Por isso Jesus precisava fugir, não só para ter uma oportunidade de ficar sozinho e orar, mas também para dar uma instrução mais concentrada aos seus discípulos.

Além disso, parece (conforme muitos comentaristas antigos e modernos têm sugerido) que ele deliberadamente subiu ao monte para ensinar, a fim de traçar um paralelo entre Moisés (que recebeu a lei no Monte Sinai) e ele próprio (que então expli­cou aos seus discípulos as conseqüências dessa lei, no chamado “Monte das Bem-aventuranças”, o local tradicional do Sermão, junto às praias ao norte do Lago da Galiléia). Pois, embora Jesus fosse maior do que Moisés, e embora a sua mensagem fosse mais evangelho do que lei, ele também escolheu doze apóstolos para formar o núcleo de um novo Israel, em correspondência aos doze patriarcas e tribos da antigüidade. Ele também proclamou ser Mestre e Senhor, deu a sua própria interpretação autorizada da lei de Moisés, enunciou mandamentos e esperou obediência. Até mesmo convidou, mais tarde, os seus discípulos a tomarem o seu “jugo”, ou submeterem-se aos seus ensinamentos, assim como anteriormente carregaram o jugo do Torá.[15]

Alguns mestres desenvolveram esquemas muito elaborados para demonstrar este paralelo. B. W. Bacon, em 1918, por exemplo, argumentou que Mateus deliberadamente estruturou o seu Evangelho em cinco partes, cada uma terminando com a fórmula “quando Jesus acabou . . .” (7:28; 11:1; 13:53; 19:1; 26:1), a fim de que os “cinco livros de Mateus” correspondessem aos “cinco livros de Moisés” e fossem uma espécie de Pentateuco do Novo Testamento.[16]

Um paralelismo diferente foi sugerido por Austin Farrer, a saber, que Mateus 5-7 teve por modelo Êxodo 20-24, as oito bem-aventuranças correspondendo aos dez mandamentos, com o restante do Sermão dissertando sobre as mesmas e aplicando-as, assim como os mandamentos também foram dissertados e explicados.[17]

Estas tentativas engenhosas de descobrir paralelos são com­preensíveis porque em muitas passagens do Novo Testamento a obra salvadora de Jesus está descrita como um novo êxodo,[18] e a vida cristã como uma alegre celebração disso: “Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado. Por isso celebremos a festa.”[19] Embora Mateus não compare explicitamente Jesus a Moisés, e não possamos reivindicar mais do que isso no Sermão, “a essência da Nova Lei, o Novo Sinai, o Novo Moisés estão presentes”.[20]

Em todos os eventos, Jesus assentou-se, assumindo a posição de um rabi ou legislador, e seus discípulos aproximaram-se dele, para aprender dos seus ensinamentos. Então ele passou (uma expressão que indica a solenidade do seu pronunciamento) a ensiná-los.

Três perguntas básicas formam-se imediatamente na mente do leitor moderno, ao estudar o Sermão do Monte. Tal pessoa não se sentirá receptiva para com os ensinamentos desse sermão se não receber respostas satisfatórias às seguintes perguntas: Primeiro, o Sermão do Monte é um autêntico pronunciamento de Jesus? Foi realmente pregado por ele? Segundo, o seu con­teúdo é relevante para o mundo contemporâneo, ou é totalmente fora de moda? Terceiro, os seus padrões são atingíveis, ou devemos esquecê-los por serem em larga escala um ideal im­praticável?

 

1. O Sermão é autêntico?

O Sermão do Monte aparece só no primeiro Evangelho (Mateus). No terceiro Evangelho (Lucas) há um sermão semelhante, às vezes chamado de “o Sermão da Planície”.[21] Lucas diz que foi pregado “numa planura” à qual Jesus “desceu” depois de retirar-se “para o monte” a fim de orar.[22] Mas a aparente dife­rença de localização não deve nos deter, pois a “planura” pode muito bem ter sido um platô sobre os montes e não uma planície ou um vale.

Uma comparação do conteúdo dos dois sermões revela imedia­tamente que não são idênticos. O de Lucas é consideravelmente mais curto, consistindo de apenas 30 versículos, em contraste com os 107 de Mateus, e cada um inclui matérias que estão ausentes no outro. Não obstante, há também óbvias semelhanças entre eles. Os dois sermões começam com “bem-aventuranças”, terminam com a parábola dos dois construtores, e no meio con­têm a regra áurea, a ordem para amar os nossos inimigos e ofe­recer a outra face, a proibição de julgar as pessoas, e as vivas ilustrações da trave no olho e da árvore com os seus frutos. Esta matéria comum aos dois sermões, com um começo e um final em comum, sugere que os dois são versões do mesmo sermão. Qual é, entretanto, a relação entre eles? Como explicar a combi­nação de semelhanças e variações?

Muitos têm negado que o Sermão do Monte tenha sido um “sermão” (qualquer que seja o sentido desta palavra) pregado por Jesus numa ocasião específica. É um aspecto bem conhecido da prática editorial do primeiro evangelista a reunião, no texto de um capítulo, de ensinamentos de Jesus que são relacionados entre si. O melhor exemplo disto é a sua série de sete parábolas de Jesus.[23] Há quem tenha argumentado, assim, que Mateus 5 a 7 representa uma coleção de pronunciamentos de Jesus, habil­mente ligados em forma de sermão pelo evangelista, ou por uma comunidade cristã primitiva, da qual ele o teria recebido. Até Calvino acreditava nisso: “O plano desses dois evangelistas era o de reunir num só lugar os pontos principais da doutrina de Cristo que se relacionam com uma vida devota e santa.”[24] Como resultado, o Sermão é “um pequeno resumo . . . extraído de seus muitos e variados discursos”.[25]

Alguns comentaristas modernos foram mais francos. Bastará citar um exemplo. W. D. Davies chama o Sermão de “simples­mente uma coleção de pronunciamentos não relacionados entre si, de diversas origens, uma colcha de retalhos”; e, depois de fazer uma crítica da fonte, da forma e da liturgia neste texto, ele conclui: “Assim, o impacto da recente crítica em todas as suas formas é lançar dúvidas sobre a conveniência de procurar enten­der este trecho . . . como um todo inter-relacionado que se ori­gina dos ensinamentos genuínos de Jesus.”[26] Mais tarde, ele admite que a maré se virou para a chamada “crítica de redação”, o que pelo menos concede aos próprios evangelistas o mérito de verdadeiros autores, que deram forma à tradição que preser­varam. Não obstante, continua cético sobre quanto dos ensinamentos originais de Jesus está contido no Sermão do Monte.

A reação a esta espécie de crítica literária depende das pres­suposições teológicas fundamentais que se tenha sobre o pró­prio Deus, sobre a natureza e o propósito da revelação de Deus em Cristo, sobre a obra do Espírito Santo e sobre o senso de verdade do evangelista. Pessoalmente, acho difícil aceitar qual­quer ponto de vista sobre o Sermão que atribua o seu conteúdo à igreja primitiva e não a Jesus, ou que até mesmo o considere como uma amálgama de seus pronunciamentos em diversas ocasiões. A razão principal é que tanto Mateus como Lucas apresentam essa matéria como um sermão de Cristo, e parecem pretender que seus leitores o entendam assim. Ambos lhe dão um contexto histórico e geográfico preciso, atribuindo-o ao começo do ministério de Jesus na Galiléia e declarando que ele o transmitiu “no monte” e “numa planura” sobre os montes. Mateus registra a reação de perplexidade das multidões, quando Jesus terminou de proferi-lo, destacando que foi por causa da autoridade com que ele falava.[27] E ambos dizem que, quando terminou, “entrou em Cafarnaum”.[28]

Isto não significa, entretanto, que os dois evangelistas nos tenham transmitido todo o sermão ipsissima verba. Está claro que não o fizeram, pois, em ambos os casos, Jesus falou em aramaico, e os dois Evangelhos têm uma versão grega. Além disso, conforme já vimos, suas versões diferem uma da outra. Há di­versos outros modos possíveis de explicá-lo. Assim também ambos apresentaram a sua seleção e tradução individual, de uma fonte comum ou de fontes independentes. Ou Lucas apresenta um resumo menor, omitindo grande parte, enquanto que Mateus registra mais, senão a maior parte dele; ou Mateus elabora um sermão originalmente mais curto, aumentando-o com o acrés­cimo de outros contextos autênticos e pronunciamentos apro­priados de Jesus. Podemos ainda afirmar que o Espírito Santo orientou a seleção e o arranjo.

Quanto a mim, prefiro a sugestão que o Professor A. B. Bruce fez em seu comentário de 1897. Ele acreditava que o material contido em Mateus 5 a 7 representa a instrução “não de uma simples hora ou dia, mas de um período de retiro”.[29] Conjecturava que Jesus poderia ter reunido consigo os discípulos no monte para uma espécie de “Acampamento de Verão”. Por isso não chamava aqueles capítulos de “Sermão do Monte” (expres­são usada pela primeira vez por Agostinho), mas de “Ensina­mentos do Monte”.[30] Mais ainda, o Sermão, conforme regis­trado em Mateus, teria a duração de apenas cerca de dez minu­tos, por isso é possível que os evangelistas nos tenham dado apenas versões condensadas.

 

2. O Sermão é relevante?

Se o Sermão é ou não relevante para a vida moderna, só se pode julgar através de um detalhado exame do seu conteúdo. O que salta à vista é que, não importando como ele foi composto, forma um todo maravilhosamente coerente. Descreve o comportamento que Jesus esperava de cada um dos seus discípulos, que são também cidadãos do reino de Deus. Vemos como Jesus é em si mesmo, em seu coração, em suas motivações, em seus pensa­mentos, e também quando afastado, sozinho com o seu Pai. Vemo-lo na arena da vida pública, relacionando-se com o pró­ximo, exercendo misericórdia, patrocinando a paz, sendo perse­guido, agindo como sal, deixando a sua luz brilhar, amando e servindo aos outros (até mesmo aos seus inimigos), e dedicando-se acima de tudo à expansão do reino de Deus e da sua justiça no mundo.

Talvez uma rápida análise do Sermão ajude a demonstrar a sua relevância para nós, no século vinte.

 

a. O caráter do cristão (5:3-12)

As bem-aventuranças enfatizam oito sinais principais da conduta e do caráter cristãos, especialmente em relação a Deus e aos homens, e as bênçãos divinas que repousam sobre aqueles que externam estes sinais.

 

b. A influência do cristão (5:13-16)

As duas metáforas do sal e da luz indicam a influência que os cristãos devem exercer para o bem na comunidade se (e tão somente se) mantiverem o seu caráter distinto, conforme descrito nas bem-aventuranças.

 

c. A justiça do cristão (5:17-48)

Qual deve ser a atitude do cristão para com a lei moral de Deus? Ficaria a lei propriamente dita abolida na vida cristã, como estranhamente afirmam os advogados da filosofia da “nova moralidade” e da escola dos “não-mais-sob-a-lei”? Não. Jesus não tinha vindo para abolir a lei e os profetas, disse ele, mas para cumpri-los. E mais, ele chegou a declarar que a grandeza no reino de Deus se media pela conformidade com os ensinamentos morais da lei e dos profetas, e que até mesmo entrar no reino era impossível sem uma justiça maior do que a dos escribas e fariseus (5:17-20). Jesus deu, então, seis ilustrações desta justiça cristã melhor (5:21-48), relacionando-a com o homicídio, com o adul­tério, com o divórcio, com o juramento, com a vingança e com o amor. Em cada antítese (“Ouvistes que foi dito … eu, porém, vos digo . . .”), rejeitou a acomodada tradição dos escribas, reafirmou a autoridade das Escrituras do Velho Testamento e apresentou as decorrências plenas e exatas da lei moral de Deus.

 

d. A piedade do cristão (6:1-18)

Em sua “piedade” ou devoção religiosa, os cristãos não devem se acomodar nem com o tipo hipócrita dos fariseus, nem com o formalismo mecânico dos pagãos. A piedade cristã deve destacar-se acima de tudo pela realidade, pela sinceridade dos filhos de Deus que vivem na presença de seu Pai celestial.

 

e. A ambição do cristão (6:19-34)

O “mundanismo” do qual os cristãos devem fugir pode ter apa­rência religiosa ou secular. Por isso, devemos ser diferentes dos não-cristãos, não apenas em nossas devoções, mas também em nossas ambições. Cristo modifica especialmente a nossa atitude para com a riqueza e os bens materiais. É impossível adorar a Deus e ao dinheiro; temos de escolher um dos dois. As pessoas do mundo estão preocupadas com a busca do alimento, da bebida e do vestuário. Os cristãos devem ficar livres destas ansie­dades materiais ego-centralizadas e, em lugar disso, devem dedicar-se à expansão do governo e da justiça de Deus. É o mes­mo que dizer que a nossa ambição suprema deve ser a glória de Deus e não a nossa própria glória, nem mesmo o nosso próprio bem-estar material. É uma questão do que buscamos “em pri­meiro lugar”.

 

f. Os relacionamentos do cristão (7:1-20) Os cristãos estão presos em uma complexa teia de relaciona­mentos, todos eles partindo do nosso relacionamento com Cristo. Quando nos relacionamos devidamente com ele, os nossos de­mais relacionamentos são todos afetados. Novos relacionamentos surgem, e os antigos se modificam. Assim, não devemos julgar o nosso irmão, mas servi-lo (vs. 1-5). Devemos também evitar oferecer o evangelho àqueles que decididamente o rejeitam (v. 6); devemos continuar orando ao nosso Pai celestial (vs. 7-12) e tomar cuidado com os falsos profetas, que impedem que muita gente encontre a porta estreita e o caminho difícil (vs. 13-20).

 

g.  Uma dedicação cristã (7:21-27)

O último item apresentado pelo todo do Sermão relaciona-se com a autoridade do pregador. Não basta chamá-lo de “Senhor” (vs. 21-23) ou ouvir os seus ensinamentos (vs. 24-27). A questão básica é se nós somos sinceros no que dizemos e se fazemos o que ouvimos. Deste compromisso depende o nosso destino eter­no. Só quem obedece a Cristo como Senhor é sábio. Pois quem assim procede está edificando a sua casa sobre o alicerce da rocha, que as tempestades da adversidade e do juízo não serão capazes de solapar.

As multidões ficaram perplexas com a autoridade com que Jesus ensinava (vs. 28, 29). É uma autoridade à qual os discí­pulos de Jesus de cada geração devem submeter-se. A questão do senhorio de Cristo é relevante hoje em dia, tanto com refe­rência a princípios como à aplicação prática, da mesma maneira que o era quando originalmente ele pregou o Sermão do Monte.

 

3. O Sermão é prático?

A terceira questão é pragmática. Uma coisa é convencer-se da relevância do Sermão em teoria; mas outra totalmente diferente é ter a certeza de que funcionará na prática. Seus padrões são atingíveis? Ou devemos quedar-nos satisfeitos, admirando-os melancolicamente à distância?

Talvez a maioria dos leitores e comentaristas, encarando a realidade nua e crua da perversidade humana, tenha chegado à conclusão de que os padrões do Sermão do Monte são inatin­gíveis. Dizem que os seus ideais são nobres mas impraticáveis, atraentes à imaginação mas impossíveis de se cumprir. Conhe­cendo bastante o agressivo egoísmo humano, questionam: como pode, então, alguém ser manso? Conhecem a imperiosa paixão sexual humana; como pode, então, alguém refrear os seus olha­res e os seus pensamentos concupiscentes? Conhecem a preocu­pação humana com os problemas da vida; como, então, proibir-se a apreensão? Sabem da prontidão humana em irar-se e em ter sede de vingança; como então, esperar que alguém ame seus inimigos? Mais do que isto: a exigência não é voltar a outra face a um assaltante, o que é perigoso para o bem-estar da própria sociedade? E não ultrapassa essa exigência a capacidade indi­vidual? Provocar mais a violência dessa maneira não só permite que ela permaneça sem castigo, mas até a incentiva. Não! O Sermão do Monte não teria valor prático para os indivíduos ou comunidades. Na melhor das hipóteses, representaria o idea­lismo impraticável de um visionário. Seria um sonho que jamais se poderia realizar.

Uma modificação deste ponto de vista, pela primeira vez ex­pressa por Johannes Weiss em 1892, e mais popularizada por Albert Schweitzer, é que Jesus fazia exigências excepcionais para uma situação excepcional. Acreditando eles que Jesus esperava que o fim da História acontecesse quase imediatamente, argu­mentavam que ele dava a seus discípulos uma “ética provisória”, que exigia deles sacrifícios totais, como abandonar as suas pro­priedades e amar os seus inimigos, sacrifícios apropriados só para aquele momento de crise. Neste caso, o Sermão do Monte trans­forma-se numa espécie de “lei marcial”,[31] que só uma emer­gência maior poderia justificar. Enfaticamente, não seria uma ética para o quotidiano.

E tem havido muitas tentativas de acomodar o Sermão do Monte aos baixos níveis de nossa capacidade moral. Nos capí­tulos quarto e quinto do seu livro Understanding the Sermon on the Mount (Compreendendo o Sermão do Monte), Harvey McArthur primeiro examina e depois avalia nada menos de doze maneiras diferentes de interpretar o Sermão.[32] Diz que poderia muito bem intitular esta seção de “Versões e Evasivas do Ser­mão do Monte”, pois todas menos uma das doze interpretações oferecem qualificações prudentes de suas exigências aparente­mente absolutas.

No extremo oposto ficam aquelas almas superficiais que de­sembaraçadamente afirmam que o Sermão do Monte expressa padrões éticos que são manifestamente verdadeiros, comuns a todas as religiões e fáceis de obedecer. “Eu vivo de acordo com o Sermão do Monte”, dizem. A reação mais caridosa para com essa gente é presumir que nunca leram o Sermão que tão confiantemente consideram uma coisa comum, normal. Bem diferente foi Leo Tolstoy (embora ele também cresse que o Ser­mão foi pregado a fim de ser obedecido). É verdade que ele se reconhecia um fracasso sem limites, mas continuava crendo que os preceitos de Jesus poderiam ser postos em prática, e colocou a sua convicção nos lábios do Príncipe Nekhlyudov, o herói de sua última grande obra, Ressurreição, publicada em 1899-1900.

O príncipe de Tolstoy geralmente é considerado como um auto-retrato, e muito mal disfarçado. No final da novela, Nekhlyudov relê o Evangelho de Mateus. Vê no Sermão do Monte “não lindos pensamentos abstratos, que apresentam prin­cipalmente exigências exageradas e impossíveis, mas manda­mentos simples, claros, práticos que, se fossem obedecidos (e isto parecendo ser bastante exeqüível), estabeleceriam uma ordem completamente nova na sociedade humana, onde a violência que enchia Nekhlyudov de indignação não só cessaria sozinha, mas também a maior de todas as bênçãos que o homem pode esperar, o reino dos céus na terra, seria alcançada.”

“Nekhlyudov ficou parado olhando para a luz da lâmpada que bruxuleava, e seu coração parou de bater. Lembrando toda a monstruosa confusão da vida que levamos, imaginou como esta vida poderia ser, caso as pessoas fossem ensinadas a obedecer a estes mandamentos; e sua alma foi invadida por um êxtase ja­mais sentido antes, Foi como se, depois de muito anelar e sofrer, finalmente encontrasse paz e libertação.

Não dormiu naquela noite e, como acontece com a imensidão dos que lêem os Evangelhos, compreendeu pela primeira vez o pleno significado das palavras tantas vezes lidas no passado, mas não entendidas. Como uma esponja que chupa a água, ele bebeu aquela vital, importante e alegre novidade que o livro lhe revelou. E tudo o que lia lhe parecia familiar, confirmando e tornando real o que já conhecia há muito tempo mas que jamais compreendera totalmente nem crera realmente. Mas agora entendia e cria…

Disse para si mesmo: ‘Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça; e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Mas nós buscamos todas estas coisas e obviamente fracassamos em alcan­çá-las. Esta, portanto, deve ser a tarefa de minha vida. Uma tarefa foi completada e outra está por fazer.’

Naquela noite uma vida inteiramente nova teve início em Nekhlyudov, não tanto porque penetrasse em novas condições de vida, mas porque tudo o que lhe acontecia daquele momento em diante estava revestido de um significado totalmente dife­rente para ele. Como este novo capítulo de sua vida terminará, o futuro há de mostrar.”[33]

Tolstoy personificava a tensão entre o ideal e a realidade. De um lado estava convencido de que obedecer ao Sermão do Monte é “realidade exeqüível”, enquanto que, de outro lado, a sua própria atuação medíocre dizia-lhe que não é. A verdade não se encontra em nenhuma das posições extremas. Os padrões do Sermão não podem ser imediatamente atingidos por todo o mundo, nem totalmente alcançados por qualquer um. Colocá-los além do alcance de qualquer pessoa é ignorar o propósito do Sermão de Cristo; colocá-los como sendo atingíveis por qualquer pessoa é ignorar a realidade do pecado. Esses padrões são atin­gíveis, mas só por aqueles que experimentaram o novo nasci­mento, condição esta que Jesus disse a Nicodemos ser indispen­sável para se ver e para se entrar no reino de Deus. Pois a justiça que ele descreveu no Sermão é uma justiça interior. Embora se manifeste externa e visivelmente em palavras, em atos e em relacionamentos, continua sendo essencialmente uma justiça do coração. O que se pensa no coração, e onde o coração é colocado, isso é o que realmente importa.[34] E aqui também que jaz o pro­blema, pois os homens são “maus” por natureza.[35] Pois é do seu coração que saem as coisas más[36] e do seu coração é que saem as suas palavras, assim como é a árvore que estabelece os frutos que produzirá. Portanto, só há uma solução: “Fazei a árvore boa, e o seu fruto será bom”.[37] Um novo nascimento é essencial. Só a crença na necessidade e na possibilidade de um novo nascimento pode evitar que leiamos o Sermão do Monte com um tolo otimismo ou um desespero total. Jesus proferiu o Sermão para aqueles que já eram seus discípulos e, portanto, também cidadãos do reino de Deus e filhos da família de Deus.[38] O alto padrão que estabeleceu só é apropriado para tais pessoas. Não podemos, e na verdade é impossível, alcançar este status privi­legiado por obedecer ao padrão estabelecido por Cristo. Antes, quando seguimos o seu padrão ou, pelo menos, quando nos apro­ximamos dele, damos prova de que a livre graça e o dom de Deus já operaram em nós.

Mateus 5:3-12
O caráter do cristão: as bem-aventuranças

3 Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus.

4 Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.

5 Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.

6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serãofartos.

7 Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.

8 Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.

9 Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.

10 Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, por­que deles é o reino dos céus.

11 Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos inju­riarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós.

12 Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós.

Quem é que, tendo ouvido falar de Jesus de Nazaré, e sabendo um pouco acerca do que ele ensinou, não está familiarizado com as bem-aventuranças que dão início ao Sermão do Monte? A simplicidade de palavras e a profundidade de idéias deste Sermão têm atraído cada nova geração de cristãos, além de mui­tas outras pessoas. Quanto mais exploramos suas implicações, mais fica por ser explorado. Suas riquezas são inexauríveis. Não podemos sondar suas profundezas. Na verdade, “Aproximamo-nos do céu”.[39]

Antes de estarmos prontos para considerar separadamente cada bem-aventurança, há três perguntas de caráter geral que precisamos responder. Referem-se às pessoas descritas, às quali­dades recomendadas e às bênçãos prometidas.

 

a. As pessoas descritas

As bem-aventuranças descrevem o caráter equilibrado e diversi­ficado do povo cristão. Não existem oito grupos separados e distintos de discípulos, alguns dos quais são mansos, enquanto outros são misericordiosos e outros, ainda, chamados para supor­tarem perseguições. São, antes, oito qualidades do mesmo grupo de pessoas que, ao mesmo tempo, são mansas e misericordiosas, humildes de espírito e limpas de coração, choram e têm fome, são pacificadoras e perseguidas.

Além disso, o grupo que exibe estes sinais não é um conjunto elitista, uma pequena aristocracia espiritual distante da maioria dos cristãos. Pelo contrário, as bem-aventuranças são especi­ficações dadas pelo próprio Cristo quanto ao que cada cristão deveria ser. Todas estas qualidades devem caracterizar todos os seus discípulos. Da mesma forma que o fruto do Espírito, descrito por Paulo, deve amadurecer em seus nove aspectos no caráter de cada cristão, também as oito bem-aventuranças que Cristo menciona descrevem o seu ideal para cada cidadão do reino de Deus. Ao contrário dos dons do Espírito, que ele dis­tribui a diferentes membros do corpo de Cristo a fim de equipá-los para diferentes espécies de serviço, o mesmo Espírito está interessado em produzir todas estas graças cristãs em todos nós. Não podemos fugir à nossa responsabilidade de cobiçá-las todas.

 

b. As qualidades recomendadas

Sabemos muito bem que há uma discrepância, pelo menos verbal, entre as bem-aventuranças do Evangelho de Mateus e as de Lucas. Assim, Lucas diz: “Bem-aventurados vós os po­bres”, enquanto que Mateus declara:  “Bem-aventurados os humildes (pobres) de espírito”. Em Lucas temos: “Bem-aventu­rados vós os que agora tendes fome”, e em Mateus: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça”.

Por causa disto, alguns argumentam que a versão de Lucas é a verdadeira; que Jesus estava julgando os pobres e os famintos do ponto de vista social ou sociológico; que ele estava prome­tendo alimento aos subnutridos e ao proletariado no reino de Deus; e que Mateus espiritualizou o que constituía original­mente uma promessa material.

Mas esta interpretação é impossível, a não ser que estejamos prontos a crer que Jesus se contradisse ou que os evangelistas foram demasiado ineptos para fazê-lo parecer assim. No deserto da Judéia, nas tentações descritas por Mateus no capítulo ante­rior, Jesus recusou-se a transformar pedras em pão e repudiou a idéia de estabelecer um reino material. De maneira consis­tente, através de todo o seu ministério, rejeitou a mesma tenta­ção. Quando alimentou os cinco mil e, por causa disto, induziu a multidão a “arrebatá-lo para o proclamarem rei”, Jesus imediatamente se retirou sozinho para o monte.[40] E quando Pilatos perguntou-lhe se havia qualquer verdade nas acusações dos líderes judeus contra ele, e se realmente tinha alguma ambição política, sua resposta foi inequívoca: “O meu reino não é deste mundo.”[41] Isto é, tinha uma origem diferente e, portanto, caráter diferente.

Com isso não sugerimos que Jesus ficasse indiferente à pobreza e fome físicas. Pelo contrário, ele sentia compaixão pelos neces­sitados e alimentava os famintos, e disse aos seus discípulos que fizessem o mesmo. Mas a bênção do seu reino não era em pri­meiro lugar uma vantagem econômica.

Mais ainda, se ele não oferecia alívio físico imediato, não o prometia tampouco num céu futuro e, enquanto isso, anunciava que os pobres e famintos eram “bem-aventurados”. Na verdade, em algumas circunstâncias, Deus pode usar a pobreza como instrumento de bênção espiritual, exatamente como a riqueza pode ser um impedimento à mesma. Mas isto não transforma a pobreza por si mesma em condição desejável, que Jesus abençoe.

A igreja sempre esteve errada quando usou a primeira bem-aventurança para fechar os olhos diante da pobreza das massas, ou para elogiar a pobreza voluntária dos monges e de outros que fizeram voto de renúncia aos bens materiais. Cristo pode, realmente, chamar alguns para uma vida de pobreza, mas essa chamada não pode ser, honestamente, percebida nesta bem-aventurança.

A pobreza e a fome a que Jesus se refere nas bem-aventuranças são condições espirituais. São “os humildes (pobres) de espírito” e aqueles que “têm fome e sede de justiça” que ele declara bem-aventurados. E podemos certamente deduzir disso que as outras qualidades por ele mencionadas também são espirituais. É ver­dade que a palavra aramaica que Jesus usou poderia significar simplesmente os “pobres”, como na versão de Lucas. Mas “os pobres”, os pobres de Deus, já constituíam um grupo claramente definido no Velho Testamento, e Mateus estaria correto tradu­zindo para “pobres de espírito”. Pois “os pobres” não eram tanto os maltratados pela pobreza, mas os piedosos, assim chamados em parte porque passavam necessidades, eram opri­midos, tiranizados e afligidos de outras maneiras, mas tinham firmado a sua fé e esperança em Deus.

 

c. As bênçãos prometidas

Cada qualidade foi elogiada, enquanto cada pessoa que a possui foi declarada “bem-aventurada”. A palavra grega makarios significa “feliz”. A Bíblia na Linguagem de Hoje assim tra­duz as palavras iniciais de cada bem-aventurança: “Felizes os que . . .”. E diversos comentaristas têm explicado que essas palavras constituem a receita de Jesus para a felicidade humana. A explicação mais simples que conheço foi feita por Ernest M. Ligon, do Departamento de Psicologia do “Union College”, de Schenectady, Nova Iorque, em seu livro The Psychology of Christian Personality[42] (A Psicologia da Personalidade Cristã). Reconhecendo sua dívida para com Harry Emerson Fosdick, ele traça a interpretação do Sermão do Monte “do ponto de vista da saúde mental”. “O erro mais significativo que se tem cometido interpretando estes versículos  de Jesus (sc.   as bem-aventuranças)”, ele escreve, “foi deixar de perceber a primeira palavra de cada um deles: ‘felizes’”[43] No seu ponto de vista, “constituem a teoria de Jesus sobre a felicidade”.[44] Não constituem tanto deveres éticos, mas “uma série de oito atitudes emocionais fun­damentais. O homem que reagir ao seu ambiente com esse espí­rito terá uma vida feliz”,[45] pois terá descoberto a “fórmula básica para a saúde mental”.[46] De acordo com o Dr. Ligon, o Sermão enfatiza as “forças” da fé e do amor, da “fé experimental” e do “amor paternal”. Estes dois princípios são indispensáveis para o desenvolvimento de uma “personalidade sadia e forte”.[47] Não só o caos do medo pode ser vencido pela fé, e a ira destrutiva pelo amor, mas também “o complexo de inferioridade e seus muitos subprodutos” pela Regra Áurea.[48]

Não é preciso rejeitar esta interpretação como totalmente ilu­sória. Ninguém melhor do que o nosso Criador sabe como pode­mos nos tornar humanos verdadeiros. Ele nos criou. Ele sabe como funcionamos melhor. É através da obediência às suas pró­prias leis morais que nos encontramos e nos realizamos. E todos os cristãos podem testemunhar da experiência de que há uma relação íntima entre a santidade e a felicidade.

Não obstante, traduzir makarios por “feliz” induz a um erro sério, pois a felicidade é um estado subjetivo, enquanto que Jesus está julgando objetivamente essas pessoas. Ele não está decla­rando como se sentirão (“felizes”), mas sim o que Deus pensa delas e o que são por causa disso: são “bem-aventuradas”.

Que bênção é essa? A segunda parte de cada bem-aventurança elucida a questão. Possuem o reino dos céus e herdarão a terra. Os que choram são consolados e os famintos satisfeitos. Recebem misericórdia, vêem a Deus, são chamados filhos de Deus. Sua recompensa celestial é grande. E todas estas bênçãos estão reu­nidas. Exatamente como as oito qualidades descrevem cada cristão (pelo menos em ideal), da mesma forma as oito bênçãos são concedidas a cada cristão. É verdade que a bênção especí­fica prometida em cada caso é apropriada à qualidade particular­mente mencionada. Ao mesmo tempo, é totalmente impossível herdar o reino dos céus sem herdar a terra, ser consolado sem ser satisfeito ou ver a Deus sem alcançar sua misericórdia e ser chamado seu filho. As oito qualidades juntas constituem as responsabilidades; e as oito bênçãos, os privilégios, a condição de cidadão do reino de Deus. Este é o significado do desfrutar do governo de Deus.

Estas bênçãos são para o presente ou para o futuro? Pessoal­mente, penso que a única resposta possível é “tanto para o pre­sente como para o futuro”. Alguns comentaristas, entretanto, têm insistido que são para o futuro, e têm enfatizado a natureza “escatológica” das bem-aventuranças. É verdade que a segunda parte da última bem-aventurança promete que os perseguidos receberão uma grande recompensa no céu, e isto deve referir-se ao futuro (v. 12). Certamente também é apenas na primeira e na oitava bem-aventuranças que a bênção foi expressa no tempo presente, “deles ê o reino dos céus” (vs. 3, 10); e, mesmo assim, este verbo não se encontrava aí quando Jesus falou em aramaico. As outras seis beatitudes contêm um verbo no futuro simples (serão, herdarão, alcançarão). Não obstante, está claro nos demais ensinamentos de Jesus que o reino de Deus é uma reali­dade presente que podemos “receber”, “herdar” ou “entrar” agora. Do mesmo modo, podemos alcançar misericórdia e con­solo agora, podemos nos tornar filhos de Deus agora e podemos, nesta vida, ter a nossa fome satisfeita e a nossa sede mitigada. Jesus prometeu todas estas bênçãos a seus discípulos aqui e agora. A promessa de que “verão a Deus” pode parecer uma referência à “visão beatífica” final,[49] e sem dúvida a inclui. Mas nós já começamos a ver Deus nesta vida, na pessoa do seu Cristo[50] e com a visão espiritual.[51] Já começamos a “herdar a terra” nesta vida, considerando que, se somos de Cristo, todas as coisas já são nossas, “seja o mundo, seja a vida, seja a morte, sejam as cousas presentes, sejam as futuras”.[52]

Portanto, as promessas de Jesus nas bem-aventuranças têm cumprimento presente e futuro. Desfrutamos agora das primícias; a colheita propriamente dita ainda está por vir. E, como destacou acertadamente o Professor Tasker, “O tempo verbal futuro. . . enfatiza sua certeza, e não simplesmente o seu aspecto futuro. Os que choram serão certamente consolados, etc.”[53]

Isto nos coloca diante de mais uma pergunta sobre as “bên­çãos” que Jesus prometeu. É um problema que não podemos evitar. Será que as bem-aventuranças não ensinam uma doutrina de salvação pelos méritos humanos e pelas boas obras, o que é incompatível com o evangelho? Será que Jesus não declara expli­citamente, por exemplo, que os misericordiosos alcançarão misericórdia e que os limpos de coração verão a Deus? E será que isto não dá a entender que é demonstrando misericórdia que recebemos misericórdia e que, tornando-nos limpos de coração, recebemos uma visão de Deus?

Alguns intérpretes têm ousadamente defendido esta tese. Tentaram apresentar o Sermão do Monte como nada mais que uma débil forma cristianizada da lei do Velho Testamento e da ética do Judaísmo. Eis aí Jesus, o Rabi, o legislador, dizem, enunciando mandamentos, esperando obediência e prometendo salvação àqueles que lhe atendem. Provavelmente o expoente máximo desta opinião seja Hans Windisch, no seu The Meaning of the Sermon on the Mount (1929, “O Significado do Sermão do Monte”). Ele enfatiza a “exegese histórica” e rejeita o que chama de “exegese paulinizante”, referindo-se à tentativa de interpretar o Sermão de maneira que harmonize com o evangelho da graça de Paulo. Na opinião dele, isto não pode ser feito: “Do ponto de vista de Paulo, Lutero e Calvino, a soteriologia do Sermão do Monte é irremediavelmente herética.”[54] Em outras palavras, prega a lei, não o evangelho, e oferece justiça pelas obras e não pela fé. Portanto, “aqui há entre Jesus e Paulo um abismo que nenhum artifício de exegese teológica pode trans­por”.[55] Mas Windisch vai mais além. Especula que a ênfase de Paulo sobre a salvação pela graça tem levado muitos a considerar as boas obras como supérfluas, e que Mateus deliberadamente compôs o Sermão do Monte como uma espécie de tratado anti-paulino! [56]

Foi esse mesmo temor de que as promessas do Sermão do Monte dependessem dos méritos humanos para o seu cumpri­mento, que levou J. N. Darby a relegá-las para a futura “dispensação do reino”. Seu dispensacionalismo ficou popularizado pela “Scofield Reference Bible” (1909), a qual, comentando 5:2, chama o Sermão de “lei pura”, embora admitindo que os seus princípios têm “uma linda aplicação moral para o cristão”.

Mas tanto as especulações de Windisch quanto os temores dos dispensacionalistas são infundados. Na verdade, a primeira das bem-aventuranças proclama a salvação pela graça e não pelas obras, pois ela promete o reino de Deus aos “humildes de espí­rito”, isto é, às pessoas que são tão pobres espiritualmente que nada têm a oferecer para mérito seu. O leitor pode imaginar com que veemente indignação Lutero repudiou a sugestão, feita por alguns contemporâneos seus, de que o Sermão do Monte ensina a salvação pelos méritos! Acrescentou à sua exposição um longo pós-escrito de dez páginas, a fim de se opor a esta idéia mons­truosa. Nele, criticou severamente “aqueles estúpidos falsos mestres” que “chegaram à conclusão de que entramos no reino dos céus e somos salvos por nossas próprias obras e ações”.[57] Esta “abominação dos sofistas” inverte o evangelho de tal forma, ele declara, que “se compara a jogar o telhado no chão, a tombar os alicerces, a edificar a salvação sobre simples água, a der­rubar Cristo completamente do seu trono, colocando em seu lugar as nossas obras”.[58]

Como, então, podemos explicar as expressões que Jesus usou nas bem-aventuranças, toda a ênfase que deu à justiça no Ser­mão? A resposta certa parece ser que o Sermão do Monte, como uma espécie de “nova lei”, igual à antiga, tem dois propósitos divinos, os quais o próprio Lutero entendia claramente. Pri­meiro, mostrar a quem não é cristão que não pode agradar a Deus por si mesmo (porque não consegue obedecer à lei), conduzindo-o, então, a Cristo para ser justificado. Segundo, mostra ao cristão, que buscou em Cristo a justificação, como deve viver para agradar a Deus. Mais simplesmente, de acordo com a sín­tese dos reformadores puritanos, a lei nos envia a Cristo para sermos justificados, e Cristo nos manda de volta à lei para ser­mos santificados.

Não pode haver dúvidas de que o Sermão do Monte tem, sobre muitas pessoas, o primeiro efeito já notado. Quando o lêem, ficam desesperadas. Vêem nele um ideal inatingível. Como poderiam desenvolver esta justiça de coração, voltar a outra face, amar os seus inimigos? E impossível! Exatamente! Neste sentido, o Sermão é “Moisíssimo Moisés” (expressão de Lutero); “é Moisés quadruplicado, é Moisés multiplicado ao mais alto grau”,[59] porque é uma lei de justiça interior a que nenhum filho de Adão jamais pode obedecer. Portanto, apenas nos condena e torna indispensável o perdão de Cristo. Não poderíamos dizer que esta é uma parte do propósito do Sermão? É verdade que Jesus não o disse explicitamente, embora esteja na primeira bem-aventurança, como já mencionamos. Mas a implicação está em toda a nova lei, exatamente como na antiga.

Lutero é ainda mais explícito quanto ao segundo propósito do Sermão: “Cristo nada diz neste Sermão sobre como nos tor­namos cristãos, mas apenas sobre as obras e os frutos que nin­guém pode produzir se já não for um cristão e não estiver em estado de graça.”[60] Todo o Sermão realmente pressupõe uma aceitação do evangelho (como Crisóstomo e Agostinho o enten­deram), uma experiência de conversão e de novo nascimento, e a habitação do Espírito Santo. Descreve as pessoas nascidas de novo que os cristãos são (ou deveriam ser). Portanto, as bem-aventuranças apresentam as bênçãos que Deus concede (não como uma recompensa aos méritos, mas como um dom da graça) àqueles nos quais ele está desenvolvendo um caráter assim.

O Professor Jeremias, que se refere à primeira explicação (“a teoria do ideal impossível”), chamando-a de “ortodoxia luterana”,[61] deixando de mencionar que o próprio Lutero tam­bém deu esta segunda explicação, sugere que o Sermão foi usado como “um catecismo cristão primitivo” e, portanto, pressupõe que os ouvintes já eram cristãos: “Foi precedido pela proclamação do Evangelho; e foi precedido pela conversão, pelo po­der das Boas Novas.”[62] Assim, o Sermão “foi dirigido a ho­mens que já tinham recebido o perdão, que encontraram a pé­rola de grande preço, que foram convidados para as bodas, que mediante a sua fé em Jesus pertenciam à nova criação, ao novo mundo de Deus”.[63] Neste sentido, então, “o Sermão do Monte não é Lei, mas Evangelho”. Para tornar clara a diferença entre ambos, ele prossegue, é preciso fugir de termos tais como “moralidade cristã”, falando, outrossim, em “fé vivida”, pois “fica claramente explícito que o dom de Deus precede suas exigências”.[64]

O Professor A. M. Hunter insere este assunto no contexto de todo o Novo Testamento: “O Novo Testamento torna claro que a mensagem da Igreja primitiva sempre . . . teve dois aspectos, um teológico, outro ético: (1) o Evangelho que os apóstolos pre­gavam; e (2) o Mandamento, produto do Evangelho, que eles ensinavam àqueles que aceitavam esse Evangelho. O Evangelho era uma declaração do que Deus, na sua graça, tinha feito pelos homens através de Cristo; o Mandamento era uma declaração do que Deus exigia dos homens que se tornaram objeto de sua graciosa ação.”[65] O apóstolo Paulo costumava dividir as suas cartas desse jeito, com uma parte doutrinária seguida de outra, prática. “Mas nisto”, continua Hunter, “Paulo só estava fazendo o que o seu Senhor fizera antes dele. Jesus não só proclamou que o reino de Deus viera com ele e com sua obra; também apresentou aos seus discípulos o ideal moral do reino . . . É o ideal esboçado no Sermão do Monte”.[66]

Resumindo estes três pontos introdutórios relacionados com as bem-aventuranças, podemos dizer que as pessoas descritas são de modo geral os discípulos cristãos, pelo menos em ideal; que as qualidades elogiadas são qualidades espirituais; e que as bênçãos prometidas(como dons da graça imerecida) são as bên­çãos gloriosamente compreendidas pelo governo de Deus, experi­mentadas agora e consumadas depois, incluindo a herança de ambos, terra e céu, consolo, satisfação e misericórdia, visão e filiação de Deus.

Agora estamos prontos para examinar detalhadamente as bem-aventuranças. Diversas tentativas de classificação foram experimentadas. Não são certamente um catálogo fortuito, mas, nas palavras de Crisóstomo, “uma espécie de cadeia de ouro”.[67] Talvez a divisão mais simples seja considerar as quatro primeiras descritivas do relacionamento do cristão com Deus, e as outras quatro, do seu relacionamento e deveres para com o próximo.

 

1. Os humildes de espírito (v. 3)

Já mencionamos que o Velho Testamento fornece os antece­dentes necessários para a interpretação desta bem-aventurança. No princípio, ser “pobre” significava passar necessidades literal­mente materiais. Mas, gradualmente, porque os necessitados não tinham outro refúgio a não ser Deus,[68] a “pobreza” recebeu nuances espirituais e passou a ser identificada como uma hu­milde dependência de Deus. Por isso o salmista intitulou-se “este aflito” que clamou a Deus em sua necessidade, “e o Senhor o ouviu, e o livrou de todas as suas tribulações”.[69] O “aflito” (ho­mem pobre) no Velho Testamento é aquele que está sofrendo e não tem capacidade de salvar-se por si mesmo e que, por isso, busca a salvação de Deus, reconhecendo que não tem direito à mesma. Esta espécie de pobreza espiritual foi especialmente elogiada em Isaías. São “os aflitos e necessitados”, que “buscam águas, e não as há”, cuja “língua se seca de sede”, aos quais Deus promete abrir “rios nos altos desnudos, fontes no meio dos vales” e tornar “o deserto em açudes de águas, e a terra seca em mananciais”.[70] O “pobre” também foi descrito como “o contrito e abatido de espírito”,  para quem Deus olha (embora seja “o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo”), e com quem se deleita em habitar.[71] É para esse que o ungido do Senhor proclamaria as boas novas da salvação, uma profecia que Jesus conscientemente cumpriu na sinagoga de Nazaré: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu, para pregar boas-novas aos quebrantados.”[72] Mais ainda, os ricos inclinavam-se a transigir com o paganismo que os rodeava; eram os pobres que permaneciam fiéis a Deus. Por isso, a riqueza e o mundanismo, bem como a pobreza e a piedade, andavam juntas.

Assim, ser “humilde (pobre) de espírito” é reconhecer nossa pobreza espiritual ou, falando claramente, a nossa falência espi­ritual diante de Deus, pois somos pecadores, sob a santa ira de Deus, e nada merecemos além do juízo de Deus. Nada temos a oferecer, nada a reivindicar, nada com que comprar o favor dos céus.

“Nada em minhas mãos eu trago, Simplesmente à tua cruz me apego; Nu, espero que me vistas; Desamparado, aguardo a tua graça; Mau, à tua fonte corro; Lava-me, Salvador, ou morro.”

Esta é a linguagem do pobre (humilde) de espírito. Nosso lugar é ao lado do publicano da parábola de Jesus, clamando com os olhos baixos: “Deus, tem misericórdia de mim, pecador!” Como Calvino escreveu: “Só aquele que, em si mesmo, foi reduzido a nada, e repousa na misericórdia de Deus, é pobre de espírito.”[73]

Esses, e tão somente esses, recebem o reino de Deus. Pois o reino de Deus que produz salvação é um dom tão absolutamente de graça quanto imerecido. Tem de ser aceito com a dependente humildade de uma criancinha. Assim, bem no começo do Ser­mão do Monte, Jesus contradisse todos os juízos humanos e todas as expectativas nacionalistas do reino de Deus. O reino é concedido ao pobre, não ao rico; ao frágil, não ao poderoso; às criancinhas bastante humildes para aceitá-lo, não aos soldados que se vangloriam de poder obtê-lo através de sua própria bra­vura. Nos tempos de nosso Senhor, quem entrou no reino não foram os fariseus, que se consideravam ricos, tão ricos em mé­ritos que agradeciam a Deus por seus predicados: nem os zelotes, que sonhavam com o estabelecimento do reino com sangue e espada; mas foram os publicanos e as prostitutas, o refugo da sociedade humana, que sabiam que eram tão pobres que nada tinham para oferecer nem para receber. Tudo o que podiam fazer era clamar pela misericórdia de Deus; ele ouviu o seu clamor.

Talvez o melhor exemplo desta mesma verdade seja a igreja nominal de Laodicéia, à qual João recebeu ordem de enviar uma carta do Cristo glorificado. Ele citou as complacentes palavras dela, e acrescentou o seu próprio comentário: “Pois dizes: Estou rico e abastado, e não preciso de cousa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu.”[74] Esta igreja visível, apesar de toda a sua profissão cristã, não era de modo algum verdadeiramente cristã. Auto-satisfeita e superficial, era composta (de acordo com Jesus) de cegos e mendigos nus. Mas a tragédia era que não o admitiam. Eram ricos, não pobres, de espírito.

Ainda hoje, a condição indispensável para se receber o reino de Deus é o reconhecimento de nossa pobreza espiritual. Deus continua despedindo vazios os ricos.[75] Como disse C. H. Spurgeon: “Para subirmos no reino é preciso rebaixarmo-nos em nós mesmos.”[76]

 

2. Os que choram (v. 4)

Quase que se poderia traduzir esta segunda bem-aventurança por “Felizes os infelizes”, a fim de chamar a atenção para o surpreendente paradoxo que contém. Que espécie de tristeza é essa que pode produzir a alegria da bênção de Cristo naqueles que a sentem? Está claro no contexto que aqueles que receberam a promessa do consolo não são, em primeiro lugar, os que choram a perda de uma pessoa querida, mas aqueles que choram a perda de sua inocência, de sua justiça, de seu respeito próprio. Cristo não se refere à tristeza do luto, mas à tristeza do arre­pendimento.

Este é o segundo estágio da bênção espiritual. Uma coisa é ser espiritualmente pobre e reconhecê-lo; outra é entristecer-se e chorar por causa disto. Ou, numa linguagem mais teológica, confissão é uma coisa, contrição é outra.

Precisamos, então, notar que a vida cristã, de acordo com Jesus, não é só alegria e risos. Há cristãos que parecem imaginar, especialmente se estão cheios do Espírito, que devem exibir um sorriso perpétuo no rosto e viver continuamente exuberantes e borbulhantes. Que atitude antibíblica! Na versão de Lucas, Jesus acrescentou a esta bem-aventurança uma solene adver­tência: “Ai de vós os que agora rides!”[77] A verdade é que existem lágrimas cristãs e são poucos os que as vertem.

Jesus chorou pelos pecados de outros, pelas amargas conse­qüências que trariam no juízo e na morte, e pela cidade impenitente que não o receberia. Nós também deveríamos chorar mais pela maldade do mundo, como os homens piedosos dos tempos bíblicos. “Torrentes de águas nascem dos meus olhos”, o salmista podia dizer a Deus, “porque os homens não guardam a tua lei”.[78] Ezequiel ouviu o povo de Deus descrito como aqueles que “suspiram e gemem por causa de todas as abominações que se cometem no meio (de Jerusalém)”.[79] E Paulo escreveu sobre os falsos mestres que perturbavam as igrejas do seu tempo: “Pois muitos andam entre nós . . . e agora vos digo até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo.”[80]

Mas não são apenas os pecados dos outros que deveriam nos levar às lágrimas, pois temos os nossos próprios pecados para chorar. Ou será que eles nunca nos entristeceram? Será que Thomas Cranmer exagerou quando, num culto comemorando a Ceia do Senhor, em 1662, colocou nos lábios das pessoas da igreja as palavras: “Reconhecemos e lamentamos nossos múl­tiplos pecados e maldades”? Será que Esdras errou quando orava fazendo confissão, “chorando prostrado diante da casa de Deus”?[81] Será que Paulo errou ao gemer: “Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” e quando escreveu à pecadora igreja de Corinto: “Não chegastes a lamentar?”[82] Penso que não. Temo que os cristãos evangélicos, exagerando a graça, às vezes fazem pouco do pecado por causa disso. Não existe suficiente tristeza por causa do pecado entre nós. Deveríamos experimentar mais “tristeza segundo Deus” no arrependimento cristão,[83] como aconteceu com o sensível missio­nário cristão junto aos índios americanos do século dezoito, David Brainerd, que escreveu em seu diário, a 18 de outubro de 1740: “Em minhas devoções matinais minha alma desfez-se em lágrimas, e chorou amargamente por causa da minha extrema maldade e vileza.” Lágrimas como estas são a água santa que se diz Deus guardar em seu odre.[84]

Tais pessoas que choram, que lamentam a sua própria mal­dade, serão consoladas pelo único consolo que pode aliviar o seu desespero, isto é, o perdão da graça de Deus. “O maior de todos os consolos é a absolvição enunciada sobre cada pecador contrito que chora.”[85] “Consolação” de acordo com os profetas do Velho Testamento, seria uma das missões do Messias. Ele seria “o Consolador” que curaria “os quebrantados de cora­ção”.[86] Por isso, homens piedosos como Simeão esperavam an­siosos “a consolação de Israel”.[87] E Cristo derrama óleo sobre nossas feridas e concede paz às nossas consciências magoadas e marcadas. Mas ainda choramos pela devastação do sofrimento e da morte que o pecado alastra pelo mundo inteiro! Só no estado final de glória o consolo de Cristo será completo, pois só então o pecado não existirá mais e “Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima”.[88]

 

3. Os mansos (v. 5)

O adjetivo grego praüs significa “gentil”, “humilde”, “aten­cioso”, “cortês” e, portanto, o que exerce autocontrole, sem o qual estas qualidades seriam impossíveis. Embora imediata­mente recuemos ante a imagem de nosso Senhor quando intitu­lado “Jesus, suave e meigo”, porque evoca uma figura fraca e efeminada, ele mesmo descreveu-se como “manso (praüs) e humilde de coração”; e Paulo falou de sua “mansidão e benignidade”.[89] Portanto, lingüisticamente falando, podemos para­frasear esta bem-aventurança dizendo: “aqueles que têm um espírito gentil”. Mas que espécie de gentileza é esta, para que seus possuidores sejam declarados bem-aventurados?

(Parece importante notar que, nas bem-aventuranças, “os mansos” encontram-se entre aqueles que choram por causa do pecado e entre aqueles que têm fome e sede de justiça. A forma particular de mansidão que Cristo exige de seus discípulos está certamente relacionada com esta seqüência. Creio que o Dr. Martin Lloyd-Jones está certo ao enfatizar que essa mansidão denota uma atitude humilde e gentil para com os outros, deter­minada por uma estimativa correta de si mesmo. Ele destaca que é comparativamente fácil ser honesto consigo mesmo diante de Deus e se reconhecer pecador diante dele. E prossegue: “Mas como é muito mais difícil permitir que as outras pessoas digam uma coisa dessas de mim! Instintivamente eu me ofendo. Todos nós preferimos nos condena”r a nós mesmos do que permitir que outra pessoa nos condene.”[90]

Por exemplo, vamos aplicar este princípio à prática eclesiás­tica cotidiana. Sinto-me muito feliz ao recitar a confissão de pecados na igreja, chamando-me de “miserável pecador”. Não há problema algum. Nem me incomodo. Mas se alguém vier a mim, depois do culto, e me chamar de miserável pecador, vou querer dar-lhe um soco no nariz! Em outras palavras, não estou preparado para permitir que outras pessoas pensem ou falem de mim aquilo que acabei de reconhecer diante de Deus. É uma grande hipocrisia, e sempre será, quando a mansidão estiver ausente. O Dr. Lloyd-Jones resume isso admiravelmente: “A mansidão é, em essência, a verdadeira visão que temos de nós mesmos, e que se expressa na atitude e na conduta para com os outros . . . O homem verdadeiramente manso é aquele que fica realmente pasmo ante o fato de Deus e os homens poderem pensar dele tão bem quanto pensam, e de que o tratem tão bem.[91] Isto o torna gentil, humilde, sensível, paciente em todos os seus relaciona­mentos com os outros.

Essas pessoas “mansas”, Jesus acrescentou, “herdarão a terra”. Era de se esperar o contrário. Achamos que as pessoas “mansas” nada conseguem porque são ignoradas por todos, ou, então, tratadas com descortesia ou desprezo. São os valen­tões, os arrogantes, que vencem na luta pela existência; os covar­des são derrotados. Até mesmo os filhos de Israel tiveram de lutar por sua herança, embora o Senhor seu Deus lhes desse a terra prometida. Mas a condição pela qual tomamos posse de nossa herança espiritual em Cristo não é a força, mas a mansidão, pois, conforme já vimos, tudo é nosso se somos de Cristo.[92]

Era esta a confiança dos homens de Deus, santos e humildes, no Velho Testamento, quando os perversos pareciam triunfar. Isto jamais foi expresso com mais exatidão do que no Salmo 37, o qual parece que Jesus citou nas bem-aventuranças: “Não te indignes por causa dos malfeitores … os mansos herdarão a terra . . . Aqueles a quem o Senhor abençoa possuirão a terra . . . Espera no Senhor, segue o seu caminho, e ele te exaltará para possuíres a terra; presenciarás isso quando os ímpios forem exter­minados.”[93] O mesmo princípio continua operando hoje em dia. Os ímpios podem vangloriar-se e exibir-se, mas a verdadeira possessão foge ao seu controle. Os mansos, por outro lado, em­bora sejam despojados e privados dos seus direitos pelos homens, sabem o que é viver e reinar com Cristo, e podem desfrutar e até mesmo “possuir” a terra, a qual pertence a Cristo. Então, no dia da “regeneração”, haverá “um novo céu e uma nova terra” para herdar.[94] Portanto, o caminho de Cristo é diferente do caminho do mundo, e cada cristão, mesmo sendo como Paulo e “nada tendo”, pode dizer-se “possuindo tudo”.[95] Conforme Rudolf Stier: “A auto-renúncia é o caminho para o domínio do mundo.”[96]

 

4. Os que têm fome e sede de justiça (v. 6)

Já no cântico de Maria, o Magnificat, os espiritualmente humil­des e famintos foram associados, e ambos declarados bem-aventurados: pois Deus “encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos”.[97] Este princípio generalizado ficou aqui particularizado. Os famintos e os sedentos que Deus satisfaz são aqueles que “têm fome e sede de justiça”. Tal fome espiritual é uma característica do povo de Deus, cuja ambição suprema não é material, mas espiritual. Os cristãos não são como os pagãos, que vivem absorvidos pela busca dos bens materiais; eles se determinaram a “buscar primeiro” o reino de Deus e a sua justiça.[98]

A justiça na Bíblia tem pelo menos três aspectos: o legal, o moral e o social. A justiça legal é a justificação, um relacionamento certo com Deus. Os judeus “buscavam a lei da justiça”, escreveu Paulo mais tarde, mas não a alcançaram porque a buscaram pelo modo errado. Procuraram “estabelecer a sua própria” justiça e “não se sujeitaram à que vem de Deus”, que é o próprio Cristo.[99] Alguns comentaristas acham que Jesus se refere a isso, mas é provável que não, pois Jesus está se dirigindo àqueles que já lhe pertencem.

A justiça moral é aquela justiça de caráter e de conduta que agrada a Deus. Jesus prossegue, depois das bem-aventuranças, contrastando essa justiça cristã com a do fariseu (v. 20). Esta última era uma conformidade exterior às regras; a primeira é uma justiça interior, do coração, da mente e das motivações. É desta que devemos sentir fome e sede.

É um erro, entretanto, supor que a palavra bíblica “justiça” significa apenas um relacionamento correto com Deus, de um lado, e uma justiça moral de caráter e conduta, do outro. Pois a justiça bíblica é mais do que um assunto particular e pessoal; inclui também a justiça social. E a justiça social, conforme aprendemos na lei e nos profetas, refere-se à busca pela libertação do homem da opressão, junto com a promoção dos direitos civis, da justiça nos tribunais, da integridade nos negócios e da honra no lar e nos relacionamentos familiares. Assim, os cristãos estão empenhados em sentir fome de justiça em toda a comunidade humana para agradar a um Deus justo.

Lutero expressou este conceito com o costumeiro vigor: “A ordem para você não é rastejar para um canto ou para o deserto mas, sim, sair correndo e oferecer as suas mãos e os seus pés e todo o seu corpo, e empenhar tudo o que você tem e pode fa­zer.”62 É preciso ter, ele prossegue, “uma fome e sede de justiça que jamais possam ser reprimidas, ou sustadas, ou saciadas, que não procurem nada e não se importem com nada a não ser com a realização e a manutenção do que é justo, desprezando tudo o que possa impedir a sua consecução. Se você não puder tornar o mundo completamente piedoso, então faça o que você puder.”[100]

“Talvez não exista um segredo maior no progresso da vida cristã do que um apetite sadio e robusto. As Escrituras repetem muitas vezes as promessas aos famintos. Deus “dessedentou a alma sequiosa e fartou de bens a alma faminta”.[101] Se estamos conscientes de um crescimento lento, não será devido a um apetite embotado? Não basta chorar o pecado cometido no passado; precisamos também ter fome de justiça futura.

Mas, nesta vida, a nossa fome nunca será totalmente satis­feita, nem a nossa sede plenamente mitigada. É verdade que recebemos a satisfação que a bem-aventurança promete. Mas a nossa fome é satisfeita apenas para tornar a se manifestar. Até mesmo a promessa de Jesus, de que todo aquele que beber da água que ele dá “nunca mais terá sede”, só é cumprida se con­tinuarmos bebendo.[102] Cuidado com aqueles que proclamam estar satisfeitos e que olham para as experiências do passado mais do que para o desenvolvimento do futuro! Como todas as qualidades incluídas nas bem-aventuranças, a fome e a sede são características perpétuas dos discípulos de Jesus, tão perpé­tuas como a humildade de espírito, a mansidão e as lágrimas. Só lá no céu “jamais terão fome” e “nunca mais terão sede”, pois só então Cristo, nosso Pastor, nos levará às “fontes da água da vida”.[103]

Mais do que isso, Deus prometeu um dia de juízo, em que a justiça triunfará e a injustiça será derrotada, e após o qual haverá “novos céus e nova terra, nos quais habita justiça”.[104] Por esta vindicação final da justiça também aspiramos e não seremos desapontados.

Voltando os olhos para trás, podemos ver que as quatro pri­meiras bem-aventuranças revelam uma progressão espiritual de inexorável lógica. Cada passo conduz ao seguinte e pressupõe o anterior. Começando, temos de ser “humildes de espírito”, reconhecendo nossa completa e total falência espiritual diante de Deus. Depois, temos de “chorar” por causa disto, por causa dos nossos pecados, sim, por causa do nosso pecado: a corrupção de nossa natureza decaída, e o poder do pecado e da morte no mundo. Terceiro, temos de ser “mansos”, humildes e gentis para com os outros, permitindo que nossa pobreza espiritual (confessada e chorada) condicione o nosso comportamento em relação a eles e também para com Deus. E, quarto, temos de ter “fome e sede de justiça”. Pois de que vale confessar e lamentar o nosso pecado, ou reconhecer a verdade a nosso respeito diante de Deus e dos homens, se pararmos aí? A confissão do pecado deve levar à fome de justiça.

Na segunda metade das bem-aventuranças (as quatro últimas), parece que nos afastamos ainda mais de nossa atitude para com Deus e nos voltamos para os seres humanos. Certamente os “misericordiosos” demonstram misericórdia para com os homens, e os “pacificadores” procuram reconciliar os homens uns com os outros, e aqueles que são “perseguidos” são perse­guidos por homens. Do mesmo modo, parece que a sinceridade demonstrada na “pureza do coração” também diz respeito à nossa atitude e ao nosso relacionamento com os demais seres humanos.

 

5. Os misericordiosos (v. 7)

“Misericórdia” é compaixão pelas pessoas que passam necessi­dade. Richard Lenski proveitosamente distinguiu-a da “graça”: “O substantivo eleos (misericórdia) . . . sempre trata da dor, da miséria e do desespero, que são resultados do pecado; e charis (graça) sempre lida com o pecado e com a culpa propriamente ditos. A primeira concede alívio; a segunda, perdão; a primeira cura e ajuda, a segunda purifica e reintegra.”[105]

Aqui, Jesus não especifica as categorias de pessoas que tinha em mente e a quem os seus discípulos deveriam demonstrar misericórdia. Não indica se está pensando principalmente na­queles que foram derrotados pela desgraça, corno o viajante que ia de Jerusalém a Jericó e foi assaltado e a quem o bom samaritano “demonstrou misericórdia”; ou se pensa nos famintos, nos doentes e nos rejeitados pela sociedade, dos quais ele mesmo costumava apiedar-se; ou ainda naqueles que nos fazem mal, de modo que a Justiça clama por castigo, mas a misericórdia concede perdão. Não havia necessidade de Jesus desenvolver o assunto. Nosso Deus é um Deus misericordioso e dá provas de misericórdia continuamente; os cidadãos do seu reino também devem demonstrar misericórdia.

Naturalmente, o mundo (pelo menos quando é fiel à sua própria natureza) é cruel, como também a Igreja freqüentemente o tem sido em seu mundanismo. O mundo prefere isolar-se da dor e da calamidade dos homens. Acha que a vingança é deli­ciosa e que o perdão é sem graça quando comparado a ela. Mas os que demonstram misericórdia encontram misericórdia. “Felizes os que tratam os outros com misericórdia — Deus os tratará com misericórdia também! (BLH).[106] Não que possamos merecer a misericórdia através da misericórdia, ou o perdão através do perdão, mas porque não podemos receber a misericórdia e o perdão de Deus se não nos arrependermos, e não podemos pro­clamar que nos arrependemos de nossos pecados se não formos misericordiosos para com os pecados dos outros. Nada nos impulsiona mais ao perdão do que o maravilhoso conhecimento de que nós mesmos fomos perdoados. Nada prova mais claramente que fomos perdoados do que a nossa própria prontidão em perdoar. Perdoar e ser perdoado, demonstrar misericórdia e receber misericórdia andam indissoluvelmente juntos, como Jesus ilus­trou em sua parábola do credor incompassivo.[107] Ou, interpre­tando no contexto das bem-aventuranças, “o manso” também é “o misericordioso”. Pois ser manso é reconhecer diante dos outros que nós somos pecadores; ser misericordioso é ter com­paixão pelos outros, pois eles também são pecadores.

 

6. Os limpos de coração (v. 8)

Fica imediatamente óbvio que as palavras “de coração” indicam a que espécie de pureza Jesus se refere, assim como as palavras “de espírito” indicam o tipo de humildade que ele tinha em mente. Os “humildes de espírito” são os espiritualmente pobres, que diferem daqueles cuja pobreza é apenas material. De quem, então, os “limpos de coração” estão sendo distinguidos?

A interpretação popular considera a pureza de coração como uma expressão de pureza interior, a qualidade daqueles que foram purificados da imundície moral, em oposição à imundície cerimonial. E temos bons antecedentes bíblicos acerca disso, especialmente nos Salmos. Sabe-se que ninguém podia subir ao monte do Senhor ou ficar no seu santo lugar se não fosse “limpo de mãos e puro de coração”. Por isso Davi, consciente de que o seu Senhor desejava “a verdade no íntimo”, orou: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova dentro em mim um espírito inabaljavel.”[108] Jesus adotou este tema na sua controvérsia com os fariseus e queixou-se da obsessão deles pelo exte­rior e pela pureza cerimonial: “Vós, fariseus, limpais o exterior do copo e do prato; mas o vosso interior está cheio de rapina e perversidade.” Eles eram como “sepulcros caiados, que por fora se mostram belos, mas interiormente estão cheios de hipocrisia e de iniqüidade”.[109]

Lutero deu a esta diferença entre a pureza interior e a exterior uma interpretação caracteristicamente natural, contrastando a pureza de coração não só com a contaminação cerimonial, mas também com a simples sujeira física. “Cristo . . . quer um co­ração limpo, embora exteriormente a pessoa possa estar con­finada à cozinha encardida e cheia de fuligem, fazendo toda espécie de trabalho sujo.”[110] E novamente: “Embora um traba­lhador comum, um sapateiro ou um ferreiro possa estar sujo e cheio de fuligem ou mesmo cheirar mal porque está coberto de pó e piche, . . . e embora cheire mal externamente, no interior é puro incenso diante de Deus” porque, em seu coração, medita na palavra do Senhor e lhe obedece.[111]

Esta ênfase dada ao interior e à moral, quando comparado com o exterior e cerimonial, ou com o exterior e físico, certa­mente torna-se consistente com o todo do Sermão do Monte, que exige justiça de coração em lugar de simples justiça prove­niente de regras. Não obstante, no contexto das outras bem-aventuranças, “pureza de coração” parece referir-se, num certo sentido, aos nossos relacionamentos . O Professor Tasker define os limpos de coração como “os íntegros, livres da tirania e um ‘eu’ dividido”.[112] Neste caso, o coração limpo é o coração sincero que abre o caminho para o “olho bom” mencionado por Jesus no capítulo seguinte.[113]

Mais precisamente, a referência primária é à sinceridade. Já no Salmo 24, nos versículos que citamos, a pessoa “limpa de mãos e pura de coração” é aquela “que não entrega a sua alma à falsidade (sc. um ídolo), nem jura dolosamente” (v. 4). Isto é, em seu relacionamento com Deus e com o homem, está livre de falsidade. Portanto, os limpos de coração são os inteiramente sinceros. Toda a sua vida, pública e particular, é transparente diante de Deus e dos homens. O íntimo do seu coração, incluindo pensamentos e motivações, é puro, sem mistura de nada que seja desonesto, dissimulado ou desprezível. A hipocrisia e a fraude lhes são repugnantes, e não têm malícia.

Contudo, como são poucos os que, dentre nós, vivem uma vida aberta! Somos tentados a usar uma máscara diferente e a representar um papel diferente, de acordo com cada ocasião. Isto não ê realidade, mas representação, que é a essência da hipocrisia. Algumas pessoas tecem à sua volta um tal emara­nhado de mentiras que já não conseguem mais dizer qual a parte real e qual a criada pela imaginação. Só Jesus Cristo, entre os homens, foi absolutamente limpo de coração, foi inteiramente sem malícia.

Só os limpos de coração verão a Deus (vêem-no agora com os olhos da fé e, no porvir, verão a sua glória), pois só os total­mente sinceros podem suportar a deslumbrante visão, em cuja luz as trevas da mentira têm de se desvanecer, e em cujas chamas todas as simulações são consumidas.

 

7. Os pacificadores (v. 9)

A seqüência de idéias — de “limpos de coração” para “pacifi­cadores” — é natural, pois uma das mais freqüentes causas de conflito é a intriga, enquanto que a franqueza e a sinceridade são essenciais a todas as reconciliações verdadeiras.

Cada cristão, de acordo com esta bem-aventurança, tem de ser um pacificador, tanto na igreja como na sociedade. É verdade que Jesus diria mais tarde que não viera “trazer paz, mas espa­da”, pois veio “causar divisão entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra”, de modo que os ini­migos do homem seriam “os da sua própria casa”.[114] E com isso ele queria dizer que o conflito seria o resultado inevitável da sua vinda, até mesmo dentro da família, e que, para sermos dignos dele, teríamos de amá-lo mais e colocá-lo em primeiro lugar, até mesmo acima de nossos entes mais próximos e mais que­ridos.[115] Entretanto fica mais do que explícito, através dos ensi­namentos de Jesus a seus apóstolos, que jamais deveríamos nós mesmos procurar o conflito ou ser responsáveis por ele. Pelo contrário, somos chamados para pacificar, devemos ativamente “buscar” a paz, “seguir a paz com todos” e, até onde depender de nós, “ter paz com todos os homens”.[116]

Mas a pacificação é uma obra divina, pois paz significa recon­ciliação, e Deus é o autor da paz e da reconciliação. Na verdade, exatamente o mesmo verbo que foi usado nesta bem-aventurança o apóstolo Paulo aplicou ao que Deus fez através de Cristo. Através de Cristo, Deus se agradou em “reconciliar consigo mesmo todas as cousas”, “havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz”. E o propósito de Cristo foi “que dos dois (sc. judeu e gentio) criasse em si mesmo novo homem, fazendo a paz”.[117] Portanto, quase não nos surpreende que a bênção particularmente asso­ciada aos pacificadores é que eles “serão chamados filhos de Deus”, pois estão procurando fazer o que seu Pai fez, amando as pessoas com o amor dele, como Jesus logo tornaria explícito.[118] O diabo é que é agitador; Deus ama a reconciliação e, através dos seus filhos, tal como fez antes através do seu Filho unigênito, está inclinado a fazer a paz.

Isto nos faz lembrar que as palavras “paz” e “apaziguamento” não são sinônimas; e a paz de Deus não é paz a qualquer preço. Ele fez a paz conosco a um preço imenso, o preço do sangue que era a vida do seu Filho unigênito. Nós também, embora em escala menor, vamos descobrir que fazer a paz é um empreendi­mento custoso. Dietrich Bonhoeffer tornou-nos familiarizados com o conceito de “graça barata”;[119] existe também um tipo de “paz barata”. Proclamar “paz, paz”, onde não há paz, é obra do falso profeta, não da testemunha cristã. Muitos exemplos poderiam ser dados de paz através do sofrimento. Quando nós mesmos estamos envolvidos numa disputa, ou haverá a dor do pedido de desculpas à pessoa que prejudicamos, ou a dor de repreender a pessoa que nos prejudicou. Às vezes, há a dor importuna de termos de nos recusar a perdoar a parte culpada até que esta se arrependa. É claro que uma paz barata pode ser comprada por um perdão barato. Mas a verdadeira paz e o ver­dadeiro perdão são tesouros caros. Deus só nos perdoa quando nos arrependemos. Jesus nos disse para fazer o mesmo: “Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; se ele se arrepender, perdoa-lhe.”[120] Como podemos perdoar uma injúria se ela não foi admi­tida nem lastimada?

Ou, então, podemos não estar pessoalmente envolvidos numa disputa, porém lutando pela reconciliação de duas pessoas ou dois grupos que estão separados, em divergência. Neste caso, será o sofrimento de ouvir, de despir-se de preconceitos, de tentar entender com simpatia os dois pontos de vista oponentes, de arriscar-se a ser mal interpretado, de receber ingratidão, ou de até fracassar.

Outros exemplos de pacificação são o trabalho pela união e a evangelização, isto é, procurando de um lado unir igrejas e, de outro, levar pecadores a Cristo. Nos dois casos, a verdadeira reconciliação pode ser aviltada a um baixo preço. A visível união da igreja compete ao cristão buscar, mas só quando tal união não é buscada às expensas da doutrina. Jesus orou pela união do seu povo. Ele também orou que fossem guardados do mal e na verdade. Não temos nenhuma ordem de Cristo para buscarmos a união sem a pureza, pureza de doutrina e de conduta. Havendo uma coisa tal como a “união barata”, também há a “evangeli­zação barata”, isto ê, a proclamação do evangelho sem o custo do discipulado, a exigência da fé sem o arrependimento. São atalhos proibidos. Transformam o evangelista em um fraudu­lento. Degradam o evangelho e prejudicam a causa de Cristo.

 

8. Os perseguidos por causa da justiça (vs. 10-12)

Pode parecer estranho que Jesus passasse dos pacificadores para a perseguição, da obra de reconciliação à experiência de hostili­dade. Mas, por mais que nos esforcemos em fazer a paz com determinadas pessoas, elas se recusam a viver em paz conosco. Nem todas as tentativas de reconciliação têm sucesso. Na ver­dade, alguns tomam a iniciativa de opor-se a nós e, particular­mente, de nos injuriar e perseguir. Não por causa de nossas fra­quezas ou idiossincrasias, mas “por causa da justiça” (v. 10) e “por minha causa” (v. 11), isto é, porque não gostam da justiça, da qual sentimos fome e sede (v. 6), e porque rejeitaram o Cristo que procuramos seguir. A perseguição é simplesmente o conflito entre dois sistemas de valores irreconciliáveis.

Como Jesus esperava que os seus discípulos reagissem diante da perseguição? O versículo 12 diz: Regozijai-vos e exultai! Não devemos nos vingar como o incrédulo, nem ficar de mau humor como uma criança, nem lamber nossas feridas em autopiedade como um cão, nem simplesmente sorrir e suportar tudo como um estóico, e muito menos fazer de conta que gostamos disso como um masoquista. Então, como agir? Devemos nos regozijar como um cristão, e até mesmo “pular de alegria”[121] Por quê? Em parte porque, Jesus acrescentou, é grande o vosso galardão nos céus (y. 12a). Podemos perder tudo aqui na terra, mas her­daremos tudo nos céus, não como uma recompensa meritória, mas porque “a promessa da recompensa é gratuita”.[122] E, por outro lado, porque a perseguição é um sinal de genuinidade, um certificado da autenticidade cristã, pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós (v. 12b). Se somos perse­guidos hoje, pertencemos a uma nobre sucessão. Mas o motivo principal pelo qual deveríamos nos regozijar é porque estamos sofrendo, disse ele, por minha causa (v.) 11), por causa de nossa lealdade para com ele e para com os seus padrões de verdade e de justiça. Certamente os apóstolos aprenderam esta lição muito bem, pois, tendo sido açoitados pelo Sinédrio, “eles se retira­ram . . . regozijando-se por terem sido considerados dignos de sofrer afrontas por esse Nome”.[123] Eles sabiam, assim como nós devemos saber, que “ferimentos e contusões são medalhas de honra”[124]

É importante notar que esta referência à perseguição é uma bem-aventurança como as demais. Na verdade, tem o privilégio de ser uma bem-aventurança dupla, pois Jesus primeiro decla­rou-a na terceira pessoa como as outras sete (Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, v. 10) e, então, repetiu-a na oração direta da segunda pessoa (Bem-aventurados sois quando . . . vos injuriarem e vos perseguirem . . ., v. 11). Con­siderando que todas as bem-aventuranças descrevem o que cada discípulo cristão deve ser, concluímos que a condição de ser desprezado e rejeitado, injuriado e perseguido, é um sinal do discipulado cristão, da mesma forma que um coração puro ou misericordioso. Cada cristão deve ser um pacificador, e cada cristão deve esperar oposição. Aqueles que têm fome de justiça sofrerão por causa da justiça que anseiam. Jesus disse que seria assim em qualquer lugar. Também o disseram seus apóstolos Pedro e Paulo.[125] Tem sido assim em todas as épocas. Não deve­remos nos surpreender se a hostilidade anticristã aumentar, mas, antes, se ela não existir. Precisamos nos lembrar do infor­túnio complementar registrado por Lucas: “Ai de vós, quando vos louvarem!”[126] A popularidade universal está para os falsos profetas, assim como a perseguição para os verdadeiros. Poucos homens deste século têm entendido melhor a inevitabilidade do sofrimento do que Dietrich Bonhoeffer. Ele parece nunca ter vacilado em seu antagonismo cristão contra o regime nazista, embora isto significasse prisão,  ameaça de tortura,

perigo para a sua própria família e, finalmente, morte. Ele foi executado por ordem direta de Heinrich Himmler, em abril de 1945, no campo de concentração de Flossenburg, a apenas poucos dias antes da libertação. Era o cumprimento do que ele sempre crera e ensinara: O sofrimento é, pois, a característica dos seguidores de Cristo. O discípulo não está acima do seu mestre. O discipulado é “passio passiva”, é sofrimento obrigató­rio. Por isso também o Dr. M. Lutero incluiu o sofrimento no rol dos sinais da verdadeira Igreja. Um anteprojeto da Confissão de Augsburg definiu a Igreja como comunidade dos que são ‘per­seguidos e martirizados por causa do Evangelho’ … O discipu­lado é união com Cristo sofredor. Por isso nada há de estranho no sofrimento do cristão, antes é graça, ê alegria.”[127] As bem-aventuranças pintam um retrato compreensivo do discípulo cristão. Primeiro, vemo-lo de joelhos diante de Deus, reconhecendo sua pobreza espiritual e chorando por causa dela. Isto o torna manso ou gentil em todos os seus relacionamentos, considerando que a honestidade o compele a permitir que os outros pensem dele aquilo que, diante de Deus, já confessou. Mas longe dele aquiescer em seu pecado, pois ele tem fome e sede de justiça; anseia crescer na graça e na bondade.

Vemo-lo, depois, junto aos outros, lá fora, na comunidade humana. Seu relacionamento com Deus não o faz fugir da socie­dade nem o isola do sofrimento do mundo. Pelo contrário, per­manece no meio deste, demonstrando misericórdia àqueles que foram golpeados pela adversidade e pelo pecado. Ele é transpa­rentemente sincero em todos os seus relacionamentos e procura desempenhar um papel tão construtivo como pacificador. Mas ninguém lhe agradece pelos esforços; antes, é hostilizado, inju­riado, insultado e perseguido por causa da justiça que defende e por causa do Cristo com o qual se identifica.

Tal é o homem ou a mulher que é “bem-aventurado”, isto é, que tem a aprovação de Deus e alcança realização própria como ser humano.

Mas, nisso tudo, os valores e padrões de Jesus estão em con­flito direto com os valores e padrões comumente aceitos pelo mundo. O mundo considera bem-aventurados os ricos, não os pobres, tanto na esfera material como na espiritual; os des­preocupados e folgazões, não aqueles que consideram o mal com tanta seriedade que choram por causa dele; os fortes e impe­tuosos, não os mansos e gentis; os saciados, não os famintos; aqueles que cuidam de sua própria vida, não aqueles que se envolvem nos assuntos dos outros e se ocupam em fazer o bem, “demonstrando misericórdia” e “fazendo a paz”; aqueles que alcançam seus propósitos, mesmo apelando para meios escusos, e não os limpos de coração, que se recusam a comprometer sua integridade; aqueles que são confiantes e populares e que vivem sossegados, não aqueles que têm de sofrer perseguição.

Provavelmente ninguém odiou mais a “suavidade” do Sermão do Monte do que Friedrich Nietzsche. Embora sendo filho e neto de pastores luteranos, rejeitou o Cristianismo quando estu­dante. O seu livro, The Anti-Christ (O Anticristo, um título que ele ousou aplicar a si mesmo em seu esboço autobiográfico Ecce homo),[128] é a sua mais violenta polêmica, escrita em 1888, um ano antes de ficar louco. Nele, define como sendo “bom” “tudo o que eleva o sentimento de poder, a força de vontade, o poder propriamente dito no homem”, considerando “mau” “tudo o que procede da fraqueza”.[129] Conseqüentemente, em resposta à sua própria pergunta, “O que é mais prejudicial do que qual­quer vício?”, ele responde: “Simpatia ativa pelo que é mal cons­tituído e fraco: o Cristianismo.”[130] Ele considera o Cristianismo como uma religião de piedade e não uma religião de poder; por isso, “nada em nossa modernidade doentia é mais doentio do que a piedade cristã”.[131] Ele despreza “o conceito cristão de Deus, Deus como espírito”, um conceito do qual “tudo o que é forte, cora­joso, dominador, orgulhoso”, foi eliminado.[132] “Em todo o Novo Testamento, só encontramos uma única figura solitária que é preciso respeitar”, ele afirma, e esta é Pôncio Pilatos, o gover­nador romano.[133] Jesus, por outro lado, é desprezado como sendo o “Deus sobre a cruz”, e o Cristianismo como “a maior das desgraças da humanidade”.[134] A razão de sua malevolência está clara. O ideal que Jesus elogiou é a criancinha. Ele não deu apoio algum ao elogio do “super-homem” de Nietzsche. Por isso, este repudiou todo o sistema de valores de Jesus. “Eu condeno o Cris­tianismo”, escreveu. “A igreja cristã não deixou nada intacto com sua depravação; transformou cada valor em um desvalor.”[135] Ele, pelo contrário (nas últimas palavras do seu livro), convocou a uma “reavaliação de todos os valores”.[136]

Mas Jesus não transigirá nos seus padrões para acomodar-se a Nietzsche, ou aos seus seguidores, ou a qualquer um de nós que possa, inconscientemente, ter assimilado traços ou partes da filosofia do poder de Nietzsche. Nas bem-aventuranças, Jesus apresenta um desafio fundamental ao mundo não-cristão e ao seu ponto de vista, e exige que seus discípulos adotem o seu sis­tema de valores, totalmente diferente. Como Thielicke disse, “qualquer pessoa que entre em comunhão com Jesus tem de passar por uma reavaliação de valores”.[137]

Foi isto que Bonhoeffer (que, aliás, foi criado na mesma tra­dição luterana de Nietzsche) chamou de os “extraordinários” da vida cristã. “A cada nova bem-aventurança aprofunda-se o abismo entre os discípulos e o povo. A separação do discipulado torna-se cada vez mais evidente.” Isso é particularmente óbvio na bênção dos que choram. Jesus está falando dos que “não sintonizam com o mundo, os que não podem equiparar-se ao mundo. Choram sobre o mundo, sua culpa, seu destino e sua sorte. Enquanto o mundo festeja, ficam à parte; enquanto o mundo chama: ‘Gozai a vida!’, os discípulos choram. Sabem que o navio festivamente engalanado já faz água. O mundo sonha com o progresso, com o poder, com o futuro — os discí­pulos sabem do fim, do juízo e da vinda do reino dos céus para o qual o mundo não está apto. Por esta razão são os discípulos estranhos ao mundo, hóspedes indesejáveis, perturbadores que são rejeitados.”[138]

Tal inversão dos valores humanos é básica na religião bíblica. Os métodos do Deus das Escrituras parecem uma confusão para os homens, pois exaltam o humilde e humilham o orgulhoso; chamam de primeiros, os últimos, e de últimos, os primeiros; atribuem grandeza ao servo, despedem o rico de mãos vazias e declaram que os mansos serão seus herdeiros. A cultura do mundo e a contracultura de Cristo estão em total desarmonia uma com a outra. Resumindo, Jesus parabeniza aqueles que o mundo mais despreza, e chama de “bem-aventurados” aqueles que o mundo rejeita.

Mateus 5:13-16
Á influência do cristão: o sal e a luz

Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens.

14 Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; 15 nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos que se encontram na casa.

16 Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.

As bem-aventuranças descrevem o caráter essencial dos discí­pulos de Jesus; o sal e a luz são metáforas que denotam a sua influência para o bem no mundo.

Ademais, a simples idéia de que os cristãos podem exercer uma influência sadia no mundo deveria nos causar um sobres­salto. Que influência poderiam exercer as pessoas descritas nas bem-aventuranças, neste mundo violento e agressivo? Que bem duradouro poderiam proporcionar o humilde e o manso, os que choram e os misericordiosos, ou aqueles que tentam fazer paz e não guerra? Não seriam simplesmente tragados pela en­chente do mal? O que poderiam realizar aqueles cuja única paixão é um apetite pela justiça, e cuja única arma é a pureza de coração? Essas pessoas não seriam frágeis demais para con­seguir realizar alguma coisa, especialmente se constituem uma minoria no mundo?

É evidente que Jesus não participava desse ceticismo. Antes, o contrário. O mundo, sem dúvida, perseguirá a igreja (10-12); apesar disso, a igreja é chamada para servir a este mundo que a persegue (13-16). “Vossa única vingança”, expressou Rudolf Stier, “deve ser o amor e a verdade contra o ódio e as mentiras”.[139] Por mais incrível que pareça, Jesus referiu-se àquele punhado de camponeses palestinos, chamando-os de sal da terra e luz do mundo, por causa do alcance que sua influência teria. Tam­bém é notável providência divina que, neste mais judaico dos quatro Evangelhos, haja uma tal alusão a toda a terra, ao poder benéfico de alcance mundial dos discípulos de Cristo.

A fim de definir a natureza de sua influência, Jesus recorreu a duas metáforas domésticas. Todo lar, por mais pobre que seja, usava e ainda usa tanto o sal como a luz. Durante a sua própria infância, Jesus devia ter observado freqüentemente sua mãe usando o sal na cozinha e acendendo as luzes quando o sol se punha. Sal e luz são utilidades domésticas indispensáveis. Di­versos comentaristas citam o ditado de Plínio, de que nada é mais útil do que “o sal e o sol” (sale et sole).[140] A necessidade da luz é óbvia. O sal, por outro lado, tem uma variedade de usos. É con­dimento e preservativo. Parece que já era reconhecido desde os tempos imemoriais como componente essencial da dieta humana e um tempero ou condimento alimentar: “Comer-se-á sem sal o que é insípido? “[141] Entretanto, particularmente nos séculos antes do invento da refrigeração, ele era usado para preservar a carne do apodrecimento. E na verdade ainda o é. Qual é o brasileiro que nunca comeu ou pelo menos não ouviu falar da famosa carne-de-sol, ou charque, jabá, carne-do-ceará . . .? Qualquer que seja o nome dado, de acordo com a região, o segredo é sempre o mesmo: o sal, que a conserva e lhe dá sabor. A verdade básica que jaz por trás destas metáforas, sendo comum às duas, é que a Igreja e o mundo são comunidades separadas. De um lado está “a terra”; de outro, “vós” que sois

O sal da terra. De um lado está “o mundo”; de outro, “vós” que sois a luz do mundo. É verdade que as duas comunidades (“eles” e “vós”) estão relacionadas uma com a outra, mas essa relação depende da sua diferença. É importante declará-lo hoje em dia, quando é teologicamente elegante tornar obscuras as fronteiras entre a Igreja e o mundo, bem como referir-se a toda a humani­dade indiscriminadamente como “o povo de Deus”.

Mais ainda, as metáforas nos dizem algo sobre as duas comu­nidades. O mundo é evidentemente um lugar escuro, com pouca ou nenhuma luz própria, pois precisa de uma fonte de luz externa para iluminá-lo. É verdade que ele “sempre está falando sobre a sua iluminação”,[142] mas na realidade grande parte de sua pre­tensa luz não passa de trevas. O mundo manifesta também uma tendência constante à deterioração. A idéia não é que o mundo seja insípido e que os cristãos o tornam menos insípido (“a idéia de que se possa tornar o mundo mais agradável a Deus é total­mente absurda”),[143] mas que o mundo está apodrecendo. Ele não pode impedir a sua própria deterioração. Apenas o sal, quando introduzido de fora, pode fazê-lo. A Igreja, por outro lado, foi colocada no mundo com duplo papel: como sal, para interromper, ou pelo menos retardar, o processo da corrupção social; e, como luz, para desfazer as trevas.

Quando examinamos mais detalhadamente as duas metá­foras, vemos que foram deliberadamente proferidas a fim de serem comparadas uma com a outra. Nos dois casos, Jesus pri­meiro faz uma afirmação (“Vós sois o sal da terra”, “Vós sois a luz do mundo”). Depois, ele acrescenta um apêndice, a condição da qual depende a afirmação (o sal deve manter sua qualidade de salgar e a luz deve brilhar). O sal para nada serve se perder a sua salinidade; a luz torna-se inútil, se for escondida.

 

1. O sal da terra (v. 13)

A afirmação é direta: “Vós sois o sal do mundo”. Isto significa que, quando cada comunidade se revela tal como é, o mundo se deteriora como o peixe ou a carne estragada, enquanto que a Igreja pode retardar a sua deterioração.

É claro que Deus estabeleceu outras influências restringentes na comunidade. Em sua graça comum, ele mesmo estabeleceu certas instituições, que controlam as tendências egoístas do homem e evitam que a sociedade acabe na anarquia. A principal delas é o Estado (com a sua autoridade de estruturar e executar leis) e o lar (incluindo o casamento e a vida em família). Estes exercem uma influência sadia sobre a comunidade. Não obstan­te, Deus planejou que a mais poderosa coibição de todas, dentro da sociedade pecadora, fosse o seu próprio povo redimido, rege­nerado e justificado. Como R. V. G. Tasker o explicou, os discí­pulos são “chamados a ser um purificador moral em um mundo onde os padrões morais são baixos, instáveis, ou mesmo ine­xistentes.”[144]

A eficácia do sal, entretanto, é condicional: tem de conservar a sua salinidade. Mas, em termos precisos, o sal nunca pode perder a sua salinidade. Entendo que o cloreto de sódio é um produto químico muito estável, resistente a quase todos os ata­ques. Não obstante, pode ser contaminado por impurezas, tor­nando-se, então, inútil e até mesmo perigoso.[145] O sal que perdeu a sua propriedade de salgar não serve nem mesmo para adubo, isto é, fertilizante. O Dr. David Turk me explicou que, naquele tempo, chamava-se de “sal” um pó branco (talvez apanhado à volta do Mar Morto), o qual, embora contivesse cloreto de sódio, também continha muita coisa mais, pois antigamente não exis­tiam refinarias. Nesse pó, o cloreto de sódio era provavelmente o componente mais solúvel e, portanto, o que mais facilmente desaparecia. O resíduo de pó branco ainda parecia ser sal, e sem dúvida era chamado de sal, mas não tinha o seu gosto nem agia como tal. Não passava de pó do chão.

Da mesma forma, o cristão. “Tende sal em vós mesmos”, disse Jesus em outra ocasião.[146] A salinidade do cristão é o seu caráter conforme descrito nas bem-aventuranças, é discipulado cristão verdadeiro, visível em atos e palavras.[147] Para ter eficácia, o cristão precisa conservar a sua semelhança com Cristo, assim como o sal deve preservar a sua salinidade. Se os cristãos forem assimilados pelos não-cristãos, deixando-se contaminar pelas impurezas do mundo, perderão a sua capacidade de influen­ciar. A influência dos cristãos na sociedade e sobre a sociedade depende da sua diferença e não da identidade. O Dr. Lloyd-Jones enfatizou: “A glória do Evangelho é que, quando a Igreja é abso­lutamente diferente do mundo, ela invariavelmente o atrai. É então que o mundo se sente inclinado a ouvir a sua mensagem, embora talvez no princípio a odeie. “[148] Caso contrário, se nós, os cristãos, formos indistinguíveis dos não-cristãos, seremos inúteis. Teremos de ser igualmente jogados fora, como o sal sem salinidade, “lançado fora” e “pisado pelos homens”. “Mas que decadência!”, comenta A. B. Bruce, “De salvadores da sociedade a material de pavimentação de estradas!”[149]

 

2. A luz do mundo (vs. 14-16)

Jesus apresentou a sua segunda metáfora com uma afirmação semelhante: vós sois a luz do mundo. É verdade, mais tarde ele diria: “Eu sou a luz do mundo.”[150] Mas, por derivação, nós tam­bém o somos, pois brilhamos com a luz de Cristo no mundo, como estrelas no céu à noite.[151] Às vezes, fico imaginando como seria esplêndido se os não-cristãos, curiosos por descobrir o se­gredo e a fonte de nossa luz, viessem a nós e nos indagassem sobre isso.

Jesus esclarece que essa luz são as nossas “boas obras”. Que os homens vejam as vossas boas obras, disse, e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus, pois é através dessas boas obras que a nossa luz tem de brilhar. Parece que “boas obras” é uma ex­pressão generalizada, que abrange tudo o que o cristão diz e faz porque é cristão, toda e qualquer manifestação externa e visível de sua fé cristã. Considerando que a luz é um símbolo bíblico comum da verdade, a luz do cristão deve certamente incluir o seu testemunho verbal. Assim, a profecia do Velho Testamento de que o Servo de Deus seria uma “luz para os gentios”, cumpriu-se não só no próprio Cristo, a luz do mundo, mas também nos cristãos que dão testemunho de Cristo.[152] A evangelização deve ser considerada como uma das “boas obras” pelas quais a nossa luz brilha e o nosso Pai é glorificado.

Lutero tinha razão quando enfatizava isto, mas errou (na minha opinião) ao fazer disto referência exclusiva: “Mateus não tem em mente as obras comuns que as pessoas deveriam fazer umas pelas outras por causa do amor . . . Antes, ele estava pen­sando principalmente na obra que distingue o cristão quando ensina corretamente, quando dá ênfase à fé e quando mostra como fortalecê-la e preservá-la; é assim que testemunhamos de que realmente somos cristãos.” Ele prossegue em seu comen­tário traçando um contraste entre as primeiras e as últimas tá­buas do decálogo, isto é„ os dez mandamentos que expressam o nosso dever para com Deus e o nosso próximo. “As obras que agora comentamos tratam dos três primeiros grandes manda­mentos, que se referem à honra, ao nome e à Palavra de Deus.”[153] É bom lembrar-se de que crer, confessar e ensinar a verdade também fazem parte das “boas obras” que evidenciam a nossa regeneração pelo Espírito Santo.[154] Contudo, não devemos nos limitar a isto. “Boas obras” são obras também do amor, além da fé. Elas expressam não só a nossa lealdade a Deus, mas tam­bém o nosso interesse pelos nossos semelhantes. Na verdade, o significado primário de “obras” tem de ser atos práticos e visí­veis gerados pela compaixão. Quando os homens vêem tais obras, disse Jesus, glorificam a Deus, pois elas encarnam as boas novas do seu amor que nós proclamamos. Sem elas, o nosso evangelho perde a sua credibilidade!; e Deus, a sua honra.

Assim como acontece: com o sal, também a afirmação refe­rente à luz foi seguida de uma condição: Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens. Se o sal pode perder a sua salini­dade, a luz em nós pode transformar-se em trevas.[155] Mas nós temos de permitir que a. luz de Cristo dentro de nós brilhe para fora, a fim de que as pessoas a vejam. Não devemos ser como uma cidade ou vila aninhada em um vale, cujas luzes ficam ocultas, mas sim como uma cidade edificada sobre um monte, que não se pode esconder e cujas luzes são claramente visíveis a quilômetros de distância. E mais, devemos ser como uma lâm­pada acesa, como João Batista,[156] “que ardia e alumiava”, colo­cada no velador, numa posição de destaque na casa a fim de iluminar a todos que se encontram na casa, e não ficando “debaixo da gamela” ou “debaixo do balde”, onde não produz bem algum.

Isto é, na qualidade de discípulos de Jesus, não devemos es­conder a verdade que conhecemos ou a verdade do que somos. Não devemos fingir que somos diferentes;, mas devemos desejar que o nosso Cristianismo seja visível a todos. “Refugiar-se no invisível é uma negação do chamado. Urna comunidade de Jesus que procura esconder-se deixou de segui-lo.”[157] Antes, nós de­vemos ser cristãos autênticos, vivendo abertamente a vida des­crita nas bem-aventuranças, sem nos envergonhar de Cristo. Então as pessoas nos verão, e verão as nossas boas obras e, assim, glorificarão a Deus, pois reconhecerão inevitavelmente que é pela graça de Deus que somos assim, que a nossa luz é a luz dele, e que as nossas obras são obras dele feitas em nós e através de nós. Desse modo, louvarão a luz, e não a lâmpada que a trans­mite, glorificarão a nosso Pai que está nos céus, e não aos filhos que ele gerou e que têm traços da sua família. Até mesmo aqueles que nos injuriam não poderão deixar de glorificar a Deus por causa da própria justiça pela qual eles nos perseguem (vs. 10-12).

 

3. Lições a aprender

As metáforas usadas por Jesus, referentes ao sal e à luz têm mui­to a nos ensinar sobre nossas responsabilidades cristãs no mun­do. Três lições se destacam.

 

a. Há uma diferença fundamental entre os cristãos e os não-cristãos, entre a igreja e o mundo É verdade que alguns não-cristãos adotam uma falsa aparência de cultura cristã. Por outro lado, alguns cristãos professos pa­recem indiscerníveis dos não-cristãos e, assim, negam o nome de cristão através do seu comportamento não-cristão. Mas a diferença essencial permanece. Podemos dizer que são tão dife­rentes quanto o alho do bugalho. Jesus disse que são tão dife­rentes como a luz e as trevas, tão diferentes como o sal e a dete­rioração ou a doença. Quando tentamos obliterar, ou até mesmo reduzir ao mínimo esta diferença, não servimos a Deus, nem a nós mesmos, nem ao mundo.

Este tema é básico no Sermão do Monte. O Sermão foi ela­borado na pressuposição de que os cristãos são por natureza diferentes, e convoca-nos a sermos diferentes na prática. Prova­velmente, a maior de todas as tragédias da Igreja através de sua longa história, cheia de altos e baixos, tem sido a sua cons­tância de conformar-se à cultura prevalecente, em lugar de desen­volver uma contracultura cristã.

 

b.  Temos de aceitar a responsabilidade que esta diferença coloca sobre nós Quando em cada metáfora reunimos a afirmação e a condição, a nossa responsabilidade se destaca. Cada afirmação começa, em grego, com o enfático pronome “vocês”, que seria o mesmo que dizer “vocês e tão somente vocês” são o sal da terra e a luz do mundo. E, portanto, (a condição segue-se com lógica inexo­rável), vocês simplesmente não podem falhar para com o mundo ao qual foram chamados a servir. Vocês têm de ser o que são. Vocês são o sal e, por isso, têm de conservar a sua salinidade e não podem perder o seu sabor cristão. Vocês são a luz e, por isso, devem deixar que a sua luz brilhe e não devem escondê-la de modo algum, quer seja através do pecado ou da transigência, pela preguiça ou pelo medo.

Esta vocação para assumir a nossa responsabilidade cristã, por causa do que Deus fez de nós e por causa de onde ele nos colocou, é particularmente relevante aos jovens que se sentem frustrados no mundo moderno. Os problemas da comunidade humana são tão grandes e eles se sentem tão pequenos, tão frá­geis, tão ineficientes! “Alienação”, um termo popularizado por Marx, é a palavra comumente usada hoje para descrever estes sentimentos de frustração.

Que mensagem temos, então, para essas pessoas que se sen­tem estranguladas pelo “sistema”, esmagadas pela máquina da moderna tecnologia, dominadas pelas forças políticas, sociais e econômicas que as controlam e sobre as quais elas não têm controle? Sentem-se vítimas de uma satisfação que não têm poder de mudar. O que podemos fazer? É no solo desta frustração que os revolucionários são produzidos, dedicados à violenta sub­versão do sistema. É exatamente deste mesmo solo que podem brotar os revolucionários de Jesus, igualmente ativistas dedicados, e até mais; mas antes, comprometidos a propagar a sua revolução do amor, da alegria e da paz. E esta revolução pací­fica é mais radical do que qualquer programa de violência, por causa dos seus padrões incorruptíveis e porque modifica as pes­soas e as estruturas. Perdemos a nossa confiança no poder do evangelho de Cristo? Então, ouçam Lutero: “Com a simples palavra de Cristo eu posso ser mais desafiador e mais jactancioso do que eles com todo o seu poder, suas espadas e suas armas.”[158] Portanto, apesar de tudo, não somos indefesos e impotentes! Temos Jesus Cristo, o seu evangelho, seus ideais e o seu poder. E Jesus Cristo é todo o sal e toda a luz de que este mundo tene­broso e arruinado precisa. Mas precisamos ter o sal em nós mes­mos, e devemos deixar que a nossa luz brilhe.

 

c.  Temos de considerar a nossa responsabilidade cristã como sendo dupla “O sal e a luz têm uma coisa em comum: eles se dão e se gastam, e isto é o oposto do que acontece com qualquer tipo de religiosi­dade egocentralizada.”[159]

Não obstante, o tipo de serviço que cada um presta é dife­rente. Na verdade, seus efeitos são complementares. A função do sal é principalmente negativa: evitar a deterioração. A função da luz é positiva: iluminar as trevas.

Assim, Jesus chama os seus discípulos para exercerem uma influência dupla na comunidade secular: uma influência nega­tiva, de impedir a sua deterioração, e uma influência positiva, de produzir a luz nas trevas. Pois impedir a propagação do mal é uma coisa; e promover a propagação da verdade, da beleza e da bondade é outra.

Reunindo as duas metáforas, parece-nos legítimo discernir nelas a relação correta entre a evangelização e a ação social, na totalidade da missão de Cristo no mundo, uma relação que deixa perplexos muitos crentes hoje em dia. Somos chamados a ser as duas coisas, sal e luz, na comunidade secular.

Examinemos, primeiro, a nossa vocação para sermos sal. O apóstolo Paulo pinta um quadro sinistro no final do primeiro capítulo da sua carta aos Romanos, falando do que acontece quando a sociedade abafa (por causa do amor ao mal) a verdade que conhece por natureza. Ela deteriora. Seus valores e padrões declinam rapidamente, até ficar totalmente corrompida. Quando os homens rejeitam o que sabem de Deus, ele os abandona às suas próprias noções distorcidas e paixões perversas, até que a sociedade cheire mal às narinas de Deus e de todas as pessoas honestas.

Os cristãos foram colocados por Deus numa sociedade secular para retardar este processo. Deus pretende que penetremos no mundo. O sal cristão não tem nada de ficar aconchegado em elegantes e pequenas dispensas eclesiásticas; nosso papel é o de sermos “esfregados” na comunidade secular, como o sal é esfregado na carne, para impedir que apodreça. E quando a sociedade apodrece, nós, os cristãos, temos a tendência de levan­tar as mãos para o céu, piedosamente horrorizados, reprovando o mundo não-cristão; mas não deveríamos, antes, reprovar-nos a nós mesmos? Ninguém pode acusar a carne fresca de dete­riorar-se. Ela não pode fazer nada. O ponto importante é: onde está o sal?

Jesus ensinava em algum ponto perto do mar da Galiléia. Menos de 160 quilômetros ao sul, o Rio Jordão corre para outro mar, que, por ser tão salgado, é chamado de Mar Morto. E, do lado ocidental, vivia naquele tempo uma Comunidade do Mar Morto, cuja biblioteca de pergaminhos causou verdadeira sensação ao ser acidentalmente descoberta há alguns anos atrás. Era uma comunidade monástica de essênios que tinham se afas­tado do mundo iníquo. Eles se intitulavam “os filhos da luz”, mas não tomavam providência alguma para que a sua luz bri­lhasse. Assim, no seu gueto, seu sal era tão inútil como os depó­sitos de sal sobre as praias do mar ali perto. Será que Jesus estava pensando neles? W. D. Davies pensa que Jesus deu “uma olha-dela de lado” na direção deles.[160] É uma conjectura atraente.

O que significa, na prática, ser o sal da terra? Em primeiro lugar, nós, o povo cristão, deveríamos ser mais corajosos, mais francos na condenação do mal. A condenação é negativa, é ver­dade, mas a ação do sal é negativa. Às vezes, os padrões de uma comunidade afrouxam-se por falta de um explícito protesto cristão. Lutero deu grande importância a isto, enfatizando que a denúncia e a proclamação andam de mãos dadas, quando o evangelho é verdadeiramente pregado: “O sal arde. Embora eles nos critiquem como sendo desagradáveis, sabemos que é assim que tem de ser e que Cristo ordenou que o sal fosse forte e continuamente cáustico … Se você quiser pregar o Evangelho e ajudar as pessoas, terá de ser rude e esfregar sal nas feridas, mostrando o outro lado e denunciando o que não está certo . . . O verdadeiro sal é a verdadeira exposição das Escrituras, que denuncia todo o mundo e não deixa nada de pé a não ser a sim­ples fé em Cristo. “[161]

Helmut Thielicke aborda este mesmo tema da necessária qualidade incisiva ou “ardida” do verdadeiro testemunho cris­tão. Ao olharmos para alguns cristãos, diz ele, “poderíamos pensar que a sua ambição é ser a cumbuca de mel do mundo. Eles adoçam e açucaram a amargura da vida com um conceito demasiadamente complacente de um Deus amoroso. Mas Jesus, evidentemente, não disse: ‘Vocês são o mel do mundo.’ Ele disse: ‘Vocês são o sal da terra.’ O sal arde, e a mensagem não adulterada do juízo e da graça de Deus sempre tem sido uma coisa que machuca”.[162]

E ao lado desta condenação do que é falso e mau, deveríamos com ousadia apoiar o que é verdadeiro, bom e decente, em nossa vizinhança, em nosso colégio, profissão ou negócio, ou na esfera mais ampla da vida nacional, incluindo os meios de comuni­cação de massa.

O sal cristão faz efeito através de atos e também de palavras. Já vimos que Deus criou a ambos, o Estado e a família, como estruturas sociais para reprimir o mal e incentivar o bem. E os cristãos têm a responsabilidade de verificar se essas estruturas estão sendo preservadas, e também se estão operando com jus­tiça. Com demasiada freqüência, os cristãos evangélicos têm interpretado a sua responsabilidade social em termos de apenas ajudar às vítimas de uma sociedade doente, nada fazendo para mudar as estruturas que provocam os acidentes. Exatamente como os médicos não se preocupam apenas com o tratamento dos pacientes, mas também com a medicina preventiva e a saúde pública, nós deveríamos nos preocupar com o que poderíamos chamar de “medicina social preventiva” e padrões mais elevados de higiene moral. Por menor que seja a nossa contribuição, não podemos optar pela dispensa da busca da criação de melhores estruturas sociais, que garantam a justiça na legislação e o cum­primento das leis, a liberdade e a dignidade do indivíduo, os direitos civis para as minorias e a abolição da discriminação social e racial. Não devemos nem desprezar essas coisas nem fugir de nossa responsabilidade para com elas. Isso faz parte do propósito de Deus para o seu povo. Sempre que os cristãos são cidadãos conscientes, agem como sal numa comunidade. Como Sir Frederick Catherwood expôs em sua contribuição ao simpósio Is Revolution Change? (A Revolução Muda Alguma Coisa?): “Tentar melhorar a sociedade não é mundanismo, mas amor. Lavar as mãos diante da sociedade não é amor, mas mun­danismo.”[163]

Mas os seres humanos decaídos precisam de mais do que barri­cadas que os impeçam de se tornarem tão maus quanto possível. Precisam de regeneração, vida nova através do Evangelho. Por isso, nossa segunda vocação é para sermos “a luz do mundo”, pois a verdade do Evangelho é a luz, contida, é verdade, em frágeis lâmpadas de barro, mas brilhando através de nossa mor­talidade com a mais conspícua das claridades. Fomos chamados a propagar o Evangelho e estruturar nosso modo de viver de um jeito que seja digno do Evangelho.[164]

Portanto, nunca deveríamos colocar nossas duas vocações (sal e luz) e nossas responsabilidades cristãs (social e evangelística) em posições antagônicas, como se tivéssemos de escolher entre as duas. Não podemos exagerar uma delas, nem desa­creditar uma às expensas da outra. Uma não pode substituir a outra. O mundo precisa de ambas. Ele está em decomposição e precisa de sal; ele é trevas e precisa de luz. Nossa vocação cristã é para sermos ambas. Jesus Cristo o declarou, e isso basta.

Nos Estados Unidos da América do Norte, um dos ministérios que se diz ter sido formado sob os auspícios do chamado “Jesus Movement” é chamado de “Casa de Luz e Força de Jesus Cristo”.

É uma comunidade cristã em Westwood, administrada por Hal Lindsey e Bill Counts, que ministra ensino bíblico aos seus residentes. “Luz e Força” é uma ótima combinação, e ambas se encontram em Jesus Cristo. Mas quando alguém organizará na América uma “Sociedade do Sal e Luz de Jesus Cristo”?

Na Inglaterra surgiu nestes últimos anos um movimento quase espontâneo conhecido como o “Festival da Luz”. Agradeço a Deus pelo testemunho corajoso e exuberante dos seus compo­nentes, na sua maioria jovens. Procuram combinar um protesto contra a pornografia e uma campanha pela lei moral de Deus na vida pública, ao lado de um testemunho claro de Jesus Cristo. Talvez pudesse transformar-se em um “Festival de Sal e Luz” mais autoconsciente.

De qualquer modo, não devemos nos envergonhar de nossa vocação de sermos sal e também luz, ou seremos culpados de separar o que Jesus uniu.

O caráter do cristão, conforme descrito nas bem-aventuranças, e a influência do cristão, conforme definida nas metáforas do sal e da luz, estão organicamente relacionados um com o outro. Nossa influência depende de nosso caráter. Mas as bem-aventu­ranças apresentam um padrão extremamente elevado e exigente. Seria útil, portanto, como conclusão deste capítulo, examinar novamente os dois parágrafos e observar os incentivos que Jesus deu à justiça.

Primeiro, é assim que nós mesmos seremos abençoados. As bem-aventuranças identificam aqueles a quem Deus declara “bem-aventurados”, aqueles que lhe agradam e que se realizam. A verdadeira bem-aventurança se encontra na bondade, e em nenhum outro lugar.

 

Segundo, é assim que o mundo será melhor servido. Jesus oferece aos seus seguidores o imenso privilégio de serem o sal e a luz do mundo, contanto que vivam pelas bem-aventuranças.

 

Terceiro, é assim que Deus será glorificado. Aqui, no começo do seu ministério, Jesus diz aos seus discípulos que se deixarem a sua luz brilhar de modo que as suas obras sejam vistas, seu Pai no céu será glorificado. No fim do seu ministério, no cenáculo, ele expressou a mesma verdade com palavras semelhantes: “Nisto é glorificado meu Pai, em que deis muito fruto; e assim vos tomareis meus discípulos.”[165]

Esta, então, é a grande vantagem da vida honesta e seme­lhante à de Cristo, e também da contracultura cristã. Produz bênçãos para nós mesmos, salvação para os outros e, finalmente, glória para Deus.

Mateus 5:17-20
A justiça do cristão: Cristo, o cristão e a lei

Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. 18Porque em verdade vos digo: Até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da lei, até que tudo se cumpra. l9Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no reino dos céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será considerado grande no reino dos céus. 20Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus.

Até então, Jesus falara sobre o caráter do cristão e sobre a influ­ência que este teria no mundo, caso manifestasse tal caráter, produzindo, assim, o fruto de “boas obras”. Agora, ele pros­segue definindo melhor este caráter e estas boas obras em termos de justiça. Ele explica que a justiça, já duas vezes mencionada, e da qual os seus discípulos têm fome (v. 6) e por cuja causa eles sofrem (v, 10), é uma correspondência à lei moral de Deus e ultrapassa a justiça dos escribas e fariseus (v. 20). As “boas obras” são obras da obediência. Ele começou o seu Sermão com as bem-aventuranças na terceira pessoa (“Bem-aventurados os humildes de espírito”); continuou na segunda pessoa (“Vós sois o sal da terra”); e, agora, muda para a primeira pessoa, usando, pela primeira vez, sua fórmula característica e dogmática: Por­que . . . (eu) vos digo (vs. 18 e 20).

Este parágrafo é de grande importância, não só por causa da definição que ele dá da justiça cristã, mas também por causa da luz que lança sobre a relação entre o Novo e o Velho Testamento, entre o Evangelho e a lei. Divide-se em duas partes: primeiro, Cristo e a lei (vs. 17, 18) e, segundo, o cristão e a lei (vs. 19, 20).

 

1. Cristo e a lei (vs. 17,18)

Ele começa dizendo-lhes que não imaginem, nem por um mo­mento, que ele veio para revogar a lei ou os profetas, isto é, todo o Velho Testamento ou qualquer parte dele.[166] O modo como Jesus enunciou esta declaração negativa dá a entender que alguns já pensavam exatamente isso que ele agora estava contradi­zendo. Embora o seu ministério público tivesse começado há tão pouco tempo, os seus contemporâneos estavam profunda­mente perturbados com a sua suposta atitude para com o Velho Testamento. Talvez a controvérsia sobre o sábado já tivesse explodido (tanto o incidente das espigas arrancadas no sábado quanto a cura do homem da mão mirrada, também no sábado, são colocados por Marcos antes mesmo da escolha dos doze).[167] Certamente, desde o começo do seu ministério, as pessoas foram atingidas por sua autoridade. “Que vem a ser isto?” pergun­tavam. “Uma nova doutrina! Com autoridade ele ordena aos espíritos imundos, e eles lhe obedecem” (Mc 1:27). Portanto, era natural que muitos perguntassem que relação havia entre a sua autoridade e a autoridade da lei de Moisés. Eles sabiam que os escribas submetiam-se à lei, pois eram “mestres da lei”. Dedicavam-se à sua interpretação e declaravam não haver qual­quer outra autoridade além daquela que citavam. Mas, com Jesus, a coisa não era tão clara assim. Ele falava com autori­dade própria. Gostava de usar uma fórmula jamais usada por qualquer profeta antigo ou escriba contemporâneo. Ele apre­sentava alguns de seus mais impressionantes pronunciamentos com “Em verdade digo”, falando em seu próprio nome e com sua própria autoridade. E que autoridade era esta? Será que estava se colocando como uma autoridade que se opunha à sa­grada lei, à palavra de Deus? Parecia assim, para alguns. Por isso a pergunta, enunciada ou não, à qual Jesus agora respondia inequivocamente: Não penseis que vim revogar a lei ou os pro­fetas.

Muita gente continua perguntando, hoje em dia, embora de diferentes maneiras, que relação existe entre Jesus e Moisés, entre o Novo e o Velho Testamento. Considerando que Jesus aproveitou a oportunidade, falando explicitamente sobre o as­sunto, não devemos nos acanhar de imitá-lo. Ele veio (observe-se, a propósito, que ele tinha consciência de que viera ao mundo com uma missão) não para revogar a lei e os profetas, deixando-os de lado ou anulando-os, nem tampouco para endossá-los de maneira estéril e literal, mas para cumpri-los.

O verbo traduzido por “cumprir” (plërösai) significa literal­mente “encher” e indica, como Crisóstomo disse, que “suas palavras (sc. de Cristo) não eram uma revogação daquelas pri­meiras, mas uma exposição e o cumprimento delas”.[168] Para cap­tarmos o sentido total dessas palavras, precisamos nos lembrar de que “a lei e os profetas”, isto é, o Velho Testamento, contêm diversos tipos de ensinamentos. A relação de Jesus Cristo com eles difere, mas a palavra “cumprimento” abrange todos eles.

 

Primeiro, o Velho Testamento contém ensinamento doutri­nário. “Tora”, geralmente traduzido por “lei”, significa, na verdade, “instrução revelada”; e o Velho Testamento realmente instrui-nos sobre Deus, sobre o homem, sobre a salvação, etc. Todas as grandes doutrinas bíblicas se encontram nele. Mas, ainda assim, foi apenas uma revelação parcial. Jesus o “cum­priu” todo, no sentido de completá-lo com a sua pessoa, seus ensinamentos e sua obra.[169] O Rev. Ryle resumiu-o assim: “O Velho Testamento é o Evangelho em botão, o Novo Testamento é o Evangelho em flor. O Velho Testamento é o Evangelho no limbo; o Novo Testamento é o Evangelho na espiga.”[170]

 

Segundo, o Velho Testamento contém profecia preditiva. Grande parte dela contempla o dia do Messias, profetizando-o por meio de palavras ou apresentando-o em figuras e tipos. Mas não passa de previsões. Jesus a “cumpriu” integralmente, no sentido de que o predito aconteceu com ele. A primeira decla­ração do seu ministério público foi: “O tempo está cumpri­do . . .” (Mc 1:14). Suas próprias palavras aqui, (Eu) vim, deno­tam essa mesma verdade. Repetidas vezes ele declarou que as Escrituras deram testemunho dele, e Mateus enfatiza isto mais do que qualquer outro evangelista, através da sua repetida fór­mula: “Ora, tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor por intermédio do profeta . . .”[171] O clímax foi a sua morte na cruz, na qual todo o sistema cerimonial do Velho Testamento, sacerdócio e sacrifício, cumpriu-se perfeita­mente. Então as cerimônias cessaram. Sim, como Calvino com razão comentou: “Apenas o uso deles foi abolido, pois o seu significado foi confirmado mais plenamente.”[172] Não passavam de uma “sombra” do que estava por vir; a “substância” per­tencia a Cristo.[173]

 

Terceiro, o Velho Testamento contém preceitos éticos, ou a lei moral de Deus. Mas eles são freqüentemente mal interpre­tados e até mesmo desobedecidos. Jesus os “cumpriu”, em pri­meiro lugar, obedecendo-os, pois ele “nasceu sob a lei” e estava determinado (como já dissera João Batista) a “cumprir toda a justiça”.[174] “Ele, na verdade, nada tinha a acrescentar aos man­damentos de Deus”, escreveu Bonhoeffer, “exceto isto, que ele os guardou”.[175] Ele fez mais do que obedecê-los pessoalmente; ele explica o que a obediência implicará para os seus discípulos. Ele rejeita a interpretação superficial da lei, dada pelos escribas c fornece ele mesmo a verdadeira interpretação. O seu propó­sito não é mudar a lei, muito menos anulá-la, mas “revelar toda a profundidade do significado que pretendia conter”.[176] Por­tanto, ele a cumpre, anunciando as exigências radicais da jus­tiça de Deus”.[177] É isto que ele destaca no restante de Mateus 5, apresentando exemplos, conforme veremos.

Em cada geração da era cristã, sempre houve aqueles que não conseguiram acomodar-se à atitude de Cristo para com a lei. O famoso herege do segundo século, Marcion, que reescreveu o Novo Testamento, eliminando as referências que este faz ao Velho, naturalmente apagou esta passagem.[178] Alguns dos seus discípulos foram mais além. Atreveram-se até a inverter o seu significado, mudando os verbos de modo que a sentença, então, passasse a dizer o seguinte: “Eu vim, não para cumprir a lei e os profetas, mas para aboli-los!” Seus correlativos hoje em dia parecem ser aqueles que abraçaram a chamada “nova morali­dade”, pois declaram que a própria categoria da lei fica abolida para o cristão (embora Cristo tenha dito que não veio para aboli-la), que nenhuma lei tolhe agora o povo cristão, exceto a lei do amor, e que na realidade a ordem para amar é agora o único absoluto. Sobre estes, voltarei a falar mais tarde. Por ora, basta enfatizar que, de acordo com este versículo (v. 17), a ati­tude de Jesus para com o Velho Testamento não foi de des­truição e descontinuidade mas, antes, de continuidade cons­trutiva, orgânica. Ele resumiu sua posição numa simples palavra: não “abolição”, mas “cumprimento”.

O apóstolo Paulo ensinou esta mesma verdade com muita clareza.[179] Sua declaração de que Cristo é “o fim da lei”,[180] não significa que agora estamos livres para desobedecê-la, mas jus­tamente o oposto.[181] Significa, antes, que a aceitação de Deus não é através da obediência à lei, mas através da fé em Cristo, e a própria lei dá testemunho destas boas novas.[182]

Após declarar que o seu propósito em vir era o cumprimento da lei, Jesus prossegue, apresentando a causa e a conseqüência disto. A causa é a permanência da lei até que seja cumprida (v. 18); e a conseqüência é a obediência à lei, que os cidadãos do reino de Deus devem prestar (vs. 19, 20).

Isto é o que Jesus tem a dizer sobre a lei que ele veio cumprir: Porque em verdade vos digo: Até que o céu e a terra passem, nem um i (yod, a menor das letras do alfabeto grego, quase tão pequena como uma vírgula) ou um til (keraia, um acento, sinal que distinguia algumas letras hebraicas de outras) passará da lei, até que tudo se cumpra. Sua referência agora era apenas “à lei” e não “à lei e aos profetas”, como no versículo anterior. Mas não temos razão para supor que estava deliberadamente omitindo os profetas; “a lei” era um termo compreensivo para o todo da revelação divina no Velho Testamento. Nenhuma parte dela passará ou será posta em desuso, diz ele, nem uma simples letra ou parte de uma letra, antes que seja inteiramente cum­prida. E este cumprimento não se completará até que o céu e a terra passem, pois um dia eles passarão, num grandioso renasci­mento do universo.[183] Então, o tempo, como nós o conhecemos, deixará de existir, e as palavras escritas da lei de Deus já não serão mais necessárias, pois todas as coisas que ela encerra esta­rão cumpridas. Assim, a lei tem a duração do universo. O cum­primento final de uma e o novo nascimento do outro coincidirão. Ambos “passarão” juntos (parelthê é repetido). Jesus não pode­ria ter declarado com mais clareza sua própria opinião sobre as Escrituras do Velho Testamento.[184]

 

2. O cristão e a lei (vs. 19,20)

A palavra “pois” introduz a dedução que Jesus agora apresenta a seus discípulos para a validade duradoura da lei e a sua pró­pria atitude com referência a ela. Revela uma conexão vital entre a lei de Deus e o reino de Deus. Porque ele não veio para aboli-la, mas para cumpri-la e, considerando que nem um i ou um til passarão da lei até que toda ela se cumpra, a grandeza no reino de Deus será medida pela conformidade à lei. A obediência pessoal não basta; o discípulo cristão deve também ensinar aos outros a natureza permanentemente obrigatória dos manda­mentos da lei. É verdade que nem todos os mandamentos têm o mesmo “peso”.[185] Mas um destes mandamentos, posto que dos menores, exatamente porque é um mandamento de Deus, o Rei, é importante. Relaxá-los, isto é, afrouxar o controle que têm sobre nossa consciência e diminuir a sua autoridade em nossa vida, é uma ofensa a Deus, pois é sua lei. Ignorar um dos “menores” mandamentos da lei (quer na obediência, quer na instrução) é rebaixar-se a um dos “menores” súditos no reino; a grandeza no reino pertence àqueles que são fiéis no cumprir e no ensinar toda a lei moral. “A nobreza no reino de Cristo”, escreveu Spurgeon, “será conferida de acordo com a obediência.”[186]

Agora Jesus vai ainda mais além. A grandeza no reino não é apenas avaliada pela justiça que se conforma à lei, mas a en­trada no reino torna-se impossível se não houver um comporta^ mento que exceda em muito (a expressão grega é mesmo bas­tante enfática) ao dos escribas e fariseus, pois o reino de Deus é um reino de justiça. Mas alguém pode protestar: não eram os escribas e fariseus famosos por sua justiça? Não era a obe­diência à lei de Deus a grande paixão de suas vidas? Não tinham calculado que a lei contém 248 mandamentos e 365 proibições, e não desejavam obedecer a todos? Como pode, então, a justiça cristã verdadeiramente exceder a justiça farisaica, e como pode essa justiça cristã superior tornar-se condição para a entrada no reino de Deus? Será que isto não ensina a doutrina da sal­vação pelas boas obras, contradizendo a primeira bem-aventurança, que afirma pertencer o reino dos “humildes de espírito”, que não têm nada, nem mesmo justiça, para apresentar?

A declaração de nosso Senhor deve, certamente, ter deixado perplexos os seus primeiros ouvintes e também nos deixa, hoje em dia. Mas a resposta a estas perguntas não é tão difícil de se achar. A justiça do cristão ultrapassa de longe a justiça dos fariseus, em espécie mais do que em grau. Poderíamos dizer que não é uma questão de os cristãos conseguirem obedecer a 248 mandamentos enquanto os melhores fariseus só conseguiram fazer 230 pontos. Não. A justiça do cristão é maior do que a justiça dos fariseus porque é mais profunda, porque é uma jus­tiça do coração. Desde Freud, fala-se muito em “psicologia profunda”; a preocupação de Jesus era pela “moralidade pro­funda”. Os fariseus contentavam-se com uma obediência externa e formal, uma conformidade rígida à letra da lei; Jesus ensina-nos que as exigências de Deus são muito mais radicais do que isto. A justiça que lhe agrada é uma justiça interna, de mente e de motivação, pois “o Senhor (vê) o coração”.[187]

Era uma nova justiça de coração, que os profetas tinham previsto como uma das bênçãos da dispensação messiânica. “Na mente lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei”, Deus prometeu através de Jeremias (31:33). Como ele o faria? Ele disse a Ezequiel: “Porei dentro em vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis” (36:27). Assim coincidem as duas promessas de Deus: de colocar a sua lei dentro de nós e de pôr em nós o seu Espírito. Não devemos imaginar (como alguns pensam hoje em dia) que, quando temos o Espírito, podemos dispensar a lei, pois o que o Espírito faz em nossos corações é exatamente escrever neles a lei de Deus. Portanto, “Espírito”, “lei”, “justiça” e “coração” todos se relacionam. Os fariseus pensavam que uma conformidade externa à lei seria uma justiça suficiente. O “Mestre da Justiça” que aparece nos pergaminhos do Mar Morto era mais rigoroso, pois “definia as exigências da lei mais exaustivamente e até mais rigorosamente do que os próprios fariseus, e impunha à seita (sc. os essênios de Qumran) obediência radical a todos eles”. Mas Jesus era ainda mais radi­cal, pois se os essênios pediam “cada vez mais obediência”, ele pedia “obediência cada vez mais profunda”.[188] Portanto é esta obediência profunda, que ê a justiça do coração e que só é pos­sível naqueles em quem o Espírito Santo operou a regeneração e nos quais agora habita. É por isso que a entrada no reino de Deus é impossível sem uma justiça maior (isto é, mais profunda) do que a dos fariseus. É porque tal justiça é evidência do novo nascimento, e ninguém entra no reino sem ter nascido de novo.[189]

O restante de Mateus 5 contém exemplos desta justiça maior, ou, antes, mais profunda. Consiste de seis parágrafos paralelos, que ilustram o princípio que Jesus acabou de propor nos versí­culos 17 a 20, sobre a perpetuidade da lei moral, da sua vinda para cumpri-la e da responsabilidade dos discípulos em obedecê-la mais completamente do que os escribas e fariseus. E cada parágrafo contém um contraste ou uma “antítese”, introduzi­da pela mesma fórmula (com variações menores): Ouvistes que foi dito aos antigos . . . Eu, porém,   vos digo . . .   (21,  22).

Qual é esta antítese? Está claro quem é o eu (egõ) enfático. Mas com quem Jesus está se contrastando? Torna-se essencial considerar esta pergunta agora, antes de, nos próximos três capítulos, examinarmos mais detalhadamente as seis antíteses propriamente ditas. Muitos comentaristas têm defendido que, nestes parágrafos, Jesus está se colocando contra Moisés; que está, aqui, deliberadamente inaugurando uma nova moralidade, e contradizendo e repudiando a antiga; e que sua fórmula intro­dutória poderia ser assim parafraseada: “Vocês sabem o que ensinava o Velho Testamento . . . Mas eu ensino uma coisa totalmente diferente.” Por mais popular que esta interpretação possa ser, não hesito em dizer que está errada. E mais do que errada; é insustentável. O que Jesus contradisse não foi a lei propriamente dita, mas certas perversões da lei, das quais os escribas e fariseus eram culpados. Longe de contradizer a lei, Jesus a endossa, insiste sobre a sua autoridade e fornece a sua verdadeira interpretação. Quatro argumentos serão suficientes para provar que isso é verdade.

Primeiro, temos a substância das próprias antíteses. A pri­meira vista, em cada exemplo o que Jesus cita parece ter vindo da lei mosaica. Todos os seis exemplos, ou consistem de algum eco, ou incluem algum eco da lei. Por exemplo: Não matarás (v. 21); Não adulterarás (v. 27); Aquele que repudiar sua mu­lher, dê-lhe carta de divórcio (v. 31). Só depois que chegamos à sexta e última antítese é que vemos claramente que alguma coisa está faltando, pois ela diz: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo (v. 43). A primeira metade desta sentença é uma ordem explícita da lei (Lv 19:18), embora também seja um mandamento truncado, que omite as palavras vitais que esta­belecem o padrão de nosso amor ao próximo, isto é, “como a ti mesmo”. A segunda metade da sentença, entretanto, não se encontra em parte alguma da lei. Não está em Levítico 19:18, nem em qualquer outro lugar. Portanto, era uma adição con­temporânea à lei, que pretendia interpretá-la, mas na verdade a distorcia. Quando examinamos mais detalhadamente as outras cinco antíteses (conforme o faremos nos próximos capítulos), torna-se claro que uma distorção semelhante está implícita. Foram estas distorções da lei que Jesus rejeitou, não a lei propria­mente dita. Afinal, as duas primeiras antíteses não dizem: “Ouvistes que foi dito ‘Não matarás e não cometerás adultério’, mas eu vos digo que podeis fazê-lo”. Antes, “mas eu vos digo que não deveis nem sequer ter pensamentos odiosos ou concupiscentes”.

Segundo, temos a fórmula introdutória, começando com ou­vistes que foi dito aos antigos (vs. 21, 33), ou ouvistes que foi dito (vs. 27, 38, 43); ou, mais resumidamente ainda, também foi dito (v. 31). As palavras comuns para estas fórmulas são foi dito, que representam o verbo grego errethé. Esta não era a palavra que Jesus usava quando citava as Escrituras. Ao apre­sentar uma citação bíblica, tanto o verbo como o tempo eram diferentes, isto é, gegraptai (perfeito, “está escrito”), e não errethé (aoristo, “foi dito”). Nas seis antíteses, o que Jesus con­tradizia não eram as Escrituras, mas a tradição; não a palavra de Deus que eles tinham “lido”,[190] mas a instrução oral que fora dada “aos antigos” e que eles também tinham “ouvido”, uma vez que os escribas continuavam ensinando-a nas sinagogas.

O Professor David Daube confirma isto com o seu conheci­mento profundo da língua hebraica usada pelos rabinos. O verbo “ouvir” está associado, diz ele, com “o significado superficial, literal, das Escrituras”. Portanto, nas duas partes da fórmula introdutória, “a primeira apresenta uma regra bíblica rigorosa­mente interpretada, e a segunda, uma exigência mais ampla feita por Jesus”. E, de novo, “estas declarações: ‘Ouvistes . . . eu, porém, vos digo’, têm a intenção de provar que Jesus é o defensor da lei, não o destruidor . . . é a revelação de um signi­ficado mais completo para uma nova época. A segunda parte tem antes a intenção de revelar do que de revogar a primeira”.[191] Poder-se-ia dizer que, em relação às distorções dos escribas, o termo “antítese” descreve corretamente o ensinamento de Jesus, enquanto que, em relação à lei propriamente dita, “exegese” seria a palavra mais exata. Sua disputa não era a respeito da lei, pois os líderes judeus e ele próprio aceitavam a autoridade divina daquela, mas sobre a sua correta interpretação.

Terceiro, temos o contexto imediato. Já vimos que, nos versí­culos precedentes e introdutórios das antíteses (vs. 17-20), Jesus afirmou, de maneira bastante inequívoca, qual era a sua pró­pria atitude para com a lei e qual deveria ser a dos seus discí­pulos. No seu caso, era “cumprimento” e, no caso deles, “obe­diência”. Nem um til ou um i passaria; tudo tinha de se cum­prir. Nenhum dos menores mandamentos podia ser ignorado; todos tinham de ser obedecidos. Será que poderíamos, com seriedade, supor que Jesus se contradissesse? Que ele praticasse o que tinha acabado de declarar categoricamente que não viera fazer, e que eles não deveriam fazer? Pois este é o dilema: se nas antíteses Jesus contradizia Moisés, estava com isso contradizendo-se a si mesmo. “Comentaristas esgotaram sua inventivi­dade”, escreve W. C. Allen, “na tentativa de explicar esta pas­sagem ao seu gosto”.[192] Ele prossegue, exercitando a sua própria engenhosidade na suposição de que os versículos 18 e 19 “não pertenciam originalmente ao sermão, mas que foram ali colo­cados pelo editor”. Ele raciocina que, sob o seu ponto de vista, “a atitude para com a lei aqui descrita é inconsistente com o teor geral do sermão”. Mas este é um julgamento inteiramente subjetivo e, além de tudo, não resolve o dilema. Tudo o que consegue fazer é remover a suposta discrepância dos ensina­mentos de Jesus, atribuindo-a ao primeiro evangelista ou, através dele, a alguma primitiva comunidade cristã. O melhor é aceitar as declarações dos versículos 17 a 20 como genuínas e demons­trar que são coerentes, não só com o Sermão como um todo, mas com o restante dos ensinamentos de Jesus que foram regis­trados. Isto nos traz ao último argumento.

Quarto, temos a conhecida atitude de Cristo para com o Velho Testamento. No capítulo anterior, Mateus apresentou a narra­tiva de suas tentações durante quarenta extenuantes dias no deserto da Judéia. Cada sutil tentação do diabo foi enfrentada com uma citação apropriada do Velho Testamento. Jesus não precisou discutir ou argumentar com o diabo. Cada questão foi resolvida cabalmente com uma simples menção do que estava escrito (gegraptai). E esta reverente submissão da Palavra encar­nada à palavra escrita continuou através de sua vida, não só no seu comportamento pessoal mas também em sua missão. Ele estava resolvido a cumprir o que estava escrito a respeito dele, e não podia ser removido do caminho que as Escrituras tinham traçado para ele. Por isso, suas declarações em Mateus 5:17, dizendo que não viera abolir mas cumprir a lei e os profetas, são totalmente coerentes com a sua atitude para com as Escrituras em qualquer outra passagem.

Dos quatro fatores apresentados, fica evidente que as antíteses não colocam Cristo e Moisés em oposição um ao outro, nem o Velho Testamento oposto ao Novo, ou o Evangelho à lei; mas que a verdadeira interpretação que Cristo apresentou da lei é que se opõe às falsas interpretações dos escribas, e, conseqüente­mente, a justiça cristã é que se opõe à dos fariseus, como o versículo 19 preconiza.

O que, então, os escribas e fariseus estavam fazendo? Quais eram os “métodos tortuosos”, como Calvino os chamou,[193] atra­vés dos quais rebaixavam a lei? De um modo geral, estavam tentando diminuir o desafio da lei, ou “relaxar” (v. 19) os man­damentos de Deus, tornando suas exigências morais mais manejáveis e menos rigorosas. Achavam que o Tora era um jogo e um fardo (na verdade, eles o chamavam assim), e desejavam tornar o jugo mais leve e o fardo menos pesado. O modo como eles o faziam variava de acordo com a forma de cada lei, espe­cialmente se era um mandamento (preceito ou proibição) ou uma permissão. Quatro das seis antíteses encaixam-se na cate­goria de “mandamentos”, sendo as três primeiras negativas (proibindo o homicídio, o adultério e o falso juramento) e a última, positiva (prescrevendo o amor ao próximo). Estas quatro são ordens explícitas de Deus para fazer ou deixar de fazer alguma coisa. As duas antíteses restantes (a quarta e a quinta) descrevem-se melhor como “permissões”. Não pertencem à mesma categoria de ordem moral das outras quatro. Ambas não têm as palavras imperativas. A quarta antítese é relativa ao divórcio, que jamais foi ordenado, mas sim permitido em determinadas circunstâncias e sob certas condições. A quinta refere-se à vingança (“Olho por olho . . .”), que era permitida nos tribunais e que se restringia ao equivalente exato das penali­dades que os juizes israelitas poderiam impor. Portanto, ambas as permissões ficavam circunscritas por limites definidos.

O que os escribas e fariseus estavam fazendo, a fim de tornar a obediência mais fácil de praticar, era restringir os manda­mentos e esticar as permissões da lei. Tornavam as exigências da lei menos exigentes e as permissões da lei mais permissivas. O que Jesus fez foi inverter as duas tendências. Insistiu que fos­sem aceitas todas as implicações dos mandamentos de Deus sem a imposição de quaisquer limites artificiais, enquanto que os limites que Deus estabelecera às suas permissões também deviam ser aceitos e não arbitrariamente ampliados. Talvez seja útil observar a aplicação destes princípios às antíteses, resumida­mente, antes de considerá-las em detalhe.

Os escribas e fariseus estavam evidentemente restringindo as proibições bíblicas do homicídio e do adultério apenas ao ato; Jesus estendeu-as incluindo pensamentos coléricos, palavras insultuosas e olhares concupiscentes. Eles restringiam o man­damento sobre o juramento apenas a certos votos (envolvendo o nome divino), e o mandamento sobre o amor ao próximo ape­nas a certas pessoas (às da mesma raça e religião). Jesus disse que todas as promessas têm de ser cumpridas e todas as pessoas amadas, sem limitações.

Mas os escribas e fariseus não se contentavam simplesmente em restringir os mandamentos da lei para que se adaptassem às suas conveniências; procuravam atender às suas conveniências ainda mais, ampliando as permissões. Assim, tentavam ampliar a permissão do divórcio além do simples fundamento de “alguma indecência” para incluir qualquer capricho do marido, e alargar a permissão da vingança além dos tribunais para incluir a vin­gança pessoal. Jesus, entretanto, reafirmou as restrições ori­ginais. Chamou o divórcio de “adultério”, se baseado em outros fundamentos, e insistiu nos relacionamentos pessoais com a renúncia de qualquer vingança.

Este exame preliminar das antíteses mostrou-nos que Jesus não contradisse a lei de Moisés. Pelo contrário, os fariseus é que o estavam fazendo. O que Jesus fez foi explicar o verdadeiro significado da lei moral, com todas as suas implicações inquietantes. Ele ampliou os mandamentos que eles estavam restrin­gindo e restringiu as permissões que eles estavam alargando. Para ele, a lei de Moisés era a lei de Deus, cuja validade era permanente e cuja autoridade tinha de ser aceita. No Sermão do Monte, como Calvino já expressou corretamente, vemos Jesus não “como um novo legislador, mas como o fiel explanador da lei que já fora dada”.[194] Os fariseus tinham “obscurecido” a lei; Jesus “restaurou-a em sua integridade”.[195]

E, neste assunto, os discípulos cristãos têm de seguir a Cristo, não aos fariseus. Não temos liberdade de tentar rebaixar os padrões da lei para torná-la mais fácil de obedecer. Essa era a casuística dos fariseus, não dos cristãos. A justiça cristã tem de exceder à justiça dos fariseus.

Mas os defensores da “nova moralidade” ou da “ética situacional” estão, em princípio, tentando fazer exatamente o que os fariseus faziam. É verdade que proclamam estarem do lado de Cristo contra os fariseus, mas parecem-se com fariseus em sua antipatia à lei. Consideram a lei rígida e autoritária e (exata­mente como os fariseus) tentam “relaxar” a sua autoridade, afrouxar o seu poder. Declaram que a lei foi abolida (quando Jesus disse que não veio para aboli-la) e colocam a lei e o amor em mútua discrepância (de uma maneira tal como Jesus nunca o fez). Mas não é assim. Jesus discordou da interpretação farisaica da lei; ele jamais discordou de aceitarem a autoridade dela. Antes, o contrário. Com os termos mais fortes possíveis, Jesus afirmou a autoridade da lei por ser a Palavra de Deus escrita, e convocou os seus discípulos a aceitarem a sua verda­deira e profunda interpretação.

Mateus 5:21-30
A justiça do cristão:
esquivando-se à cólera e à concupiscência

 

As duas primeiras ilustrações que Jesus apresentou sobre o seu tema (isto é, que estava aprofundando e não destruindo as exi­gências da lei) relacionam-se com o sexto e o sétimo dos dez mandamentos, que proíbem o homicídio e o adultério.

 

1. Esquivando-se à cólera (vs. 21-26)

Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar estará sujeito a julgamento. 22Eu, porém, vos digo que todo aquele que (sem motivo) se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, esta­rá sujeito ao inferno de fogo. 23Se, pois, ao trazeres ao altar a tua oferta, ali te lembrares de que teu irmão tem alguma cousa contra ti, 24deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro recon­ciliar-te com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta. 25Entra em acordo sem demora com o teu adversário, enquanto estás com ele a caminho, para que o adversário não te entregue ao juiz, o juiz ao oficial de justiça, e sejas recolhido à prisão. 26Em verdade te digo que não sairás dali, enquanto não pagares o último centavo.

O mandamento Não matarás seria melhor expresso assim: “Não cometerás homicídio”, pois não é uma proibição contra a su­pressão da vida humana em qualquer circunstância, mas parti­cularmente contra o homicídio ou assassinato. Isto fica claro diante do fato de que a mesma lei de Moisés, que no Decálogo proibia matar, em outro lugar ordena a morte, tanto na forma da pena capital como nas guerras, cuja finalidade era exterminar as corruptas tribos pagãs que habitavam a terra prometida. A guerra e a pena de morte, ambas são questões debatidas que sempre deixaram perplexas as consciências de cristãos sensíveis. E sempre houve cristãos a favor ou contra esta ou aquela posi­ção. O que sempre se torna necessário frisar pelos cristãos envol­vidos nesses debates é que, se o conceito de “guerra justa” é defensável e se a retenção da pena de morte é justificável, a vida humana não é uma coisa insignificante e facilmente descartável, mas exatamente o oposto, isto é, ela é preciosa por ser a vida de uma criatura feita à imagem de Deus. Aqueles que lutam pela abolição da pena de morte com base no fato de a vida hu­mana (a do homicida) não poder ser tirada, esquecem-se do valor da vida da vítima do homicida: “Se alguém derramar o sangue do homem, pelo homem se derramará o seu; porque Deus fez o homem segundo a sua imagem “.[196] E aqueles que lutam pelo pacifismo incondicional esquecem que, embora o mutilamento e a morte indiscriminada dos civis seja totalmente indefensável, Deus deu à sociedade (quer ao Estado ou, por extensão, a alguma organização internacional) o direito e a responsabilidade de punir os malfeitores.[197] Menciono estas coisas agora, não porque as complexas questões envolvidas na guerra e na pena de morte possam ser aqui resolvidas, mas para argumentar que não podem ser resolvidas através de um apelo simplista ao mandamento Não matarás.

Os escribas e fariseus estavam evidentemente procurando restringir a aplicação do sexto mandamento apenas ao ato do homicídio, isto é, ao derramamento de sangue humano. Se pu­dessem esquivar-se disso, achavam que tinham obedecido ao mandamento. E, evidentemente, era o que os rabinos ensinavam ao povo. Mas Jesus discordou deles. A verdadeira aplicação da proibição era muito mais ampla, assegurou; incluía pensamentos e palavras, além de atos; cólera e insultos, além do homicídio.

A ira foi mencionada no começo do versículo 22: todo aquele que (sem motivo) se irar contra seu irmão.  As palavras adi­cionais sem motivo aparecem na maioria dos manuscritos gregos, mas não nos melhores. Provavelmente são um comentário pos­terior e, portanto, foram omitidas nas revisões e traduções mo­dernas. Não obstante, temos motivos para crer que a interpre­tação do que Jesus quis dizer é correta. Nem toda ira é maligna, conforme evidencia-se da ira de Deus, que sempre é santa e pura. E até mesmo os seres humanos pecadores podem, às vezes, sentir a ira justa. Contudo, sendo pecadores, devemos assegurar que até mesmo esta ira justa seja tardia em aparecer e rápida em desaparecer.[198] Lutero certamente sabia, de sua própria expe­riência, qual o significado da ira justa. Ele a chamava de “ira do amor, aquela que não deseja mal algum a ninguém, aquela que é simpática para com a pessoa, mas hostil para com o pe­cado”.[199] A referência de Jesus, então, é à ira injusta, à ira do orgulho, da vaidade, do ódio, da malícia e da vingança.

Os insultos foram mencionados no final do versículo 22. Jesus nos adverte contra o chamar a nosso irmão de raça (provavel­mente o equivalente à palavra aramaica que significa “oco”) ou more (a palavra grega para “tolo”). Parece que “raça” é um insulto à inteligência da pessoa, dizendo que ela é “cabeça-oca”, e os comentaristas rivalizam-se entre si, propondo para­lelos, tais como “pateta”,[200] “estúpido”,[201] “parvo” ou “cabeça-dura”![202] Um débil mental também é tolo, mas dificilmente a palavra seria usada neste sentido, pois até Jesus chamou os fariseus e seus discípulos de “tolos”[203] e os apóstolos, em determi­nadas ocasiões, acusaram seus leitores de estultícia.[204] Por isso, é preciso lembrar que a palavra adquiriu uma nuance religiosa e moral, tendo sido aplicada no Velho Testamento àqueles que negavam a existência de Deus e, como resultado, mergulhavam na prática temerária do mal.[205] Alternativamente, como alguns mestres sugerem, möre pode transliterar uma palavra hebraica que significa “rebelde”, “apóstata” ou “renegado”[206]1 Neste caso, Tasker propõe seu parecer: “O homem que diz a seu irmão que este está condenado ao inferno, está ele mesmo em perigo de ir para o inferno. “[207]

Fica alguma dúvida sobre o significado preciso destes dois termos de insulto. Eram claramente derrisórios, epítetos insultuosos e a BLH assim se expressa: Quem disser a seu irmão: “Você não vale nada . . . quem chamar seu irmão de idiota.” Ao mesmo tempo, A. B. Bruce provavelmente preserva a prin­cipal diferença entre as palavras, ao escrever: “Raça expressa desprezo pela cabeça da pessoa: Você, seu estúpido! Möre ex­pressa desprezo pelo seu coração e caráter: você, seu patife!”[208]

Estas coisas, pensamentos coléricos e palavras insultuosas, talvez não levem nunca à consumação do ato homicida. Mas, diante de Deus, são equivalentes ao homicídio. Conforme João escreveria mais tarde: “Todo aquele que odeia a seu irmão é assassino.”[209] A ira e o insulto são maus sintomas do desejo de acabar com uma pessoa que está no nosso caminho. Nossos pensamentos, olhares e palavras indicam que, como algumas vezes nos atrevemos a dizer, “gostaríamos que morresse”. Um desejo assim é uma infração do sexto mandamento. E torna a pessoa culpada sujeita às mesmas penalidades às quais o homi­cida se expõe, não literalmente em um tribunal humano (pois nenhum tribunal poderia acusar um homem por causa da ira), mas diante do tribunal de Deus.

O significado exato dos vários julgamentos tem sido muito discutido, mas pelo menos está claro que Jesus estava profe­rindo uma solene advertência quanto ao julgamento divino. Os rabinos talvez estivessem ensinando não só que o homicídio era a única infração ao sexto mandamento, mas também que a única penalidade para o homicídio era a sentença humana: Quem matar estará sujeito a julgamento (v. 21). Por isso Jesus acres­centou que todo aquele que sem motivo se irar também estará sujeito a julgamento. Embora as mesmas palavras gregas sejam usadas para “julgamento”, no versículo 22 e no versículo 21, agora a referência deve ser ao julgamento de Deus, uma vez que nenhum tribunal humano é competente para julgar um caso de ira interna. Semelhantemente, Jesus continuou, o insulto não só nos exporá a julgamento do tribunal, mas também ao inferno de fogo (v. 22). Em ambos os casos, Jesus ampliava tanto a natu­reza da penalidade como a do crime. Não só a ira e o insulto são equivalentes ao homicídio, disse ele, mas o castigo ao qual nos deixam sujeitos é nada menos que o juízo divino do inferno.

“Se, pois . . .”, continuou Jesus dizendo (v. 23), e prosseguiu dando uma aplicação prática dos princípios que acabava de enunciar. Seu tema era que, sendo a,ira e o insulto tão sérios e tão perigosos, então devemos fugir deles como se fossem praga e tomar precauções o mais rapidamente possível. Ele apresentou duas ilustrações: a primeira, da pessoa que vai ao templo ofe­recer sacrifícios a Deus (vs. 23, 24); e a segunda, da pessoa que vai ao tribunal responder a acusações (vs. 25, 26). Jesus expressou-as em termos culturais do seu tempo, quando o templo ainda existia e quando ainda se ofereciam sacrifícios. Talvez seja bom traduzir suas ilustrações em palavras um pouco mais modernas:

“Se você estiver na igreja, no meio de um culto de adoração, e de repente se lembrar de que seu irmão tem um ressentimento contra você, saia da igreja imediatamente e vá fazer as pazes com ele. Não espere que o culto termine. Procure seu irmão e peça-lhe perdão. Primeiro vá, depois venha. Primeiro vá recon­ciliar-se com o seu irmão, depois venha e ofereça sua adoração a Deus.”

E, ainda: “Se você tiver uma dívida e o seu credor levá-lo ao tribunal para receber o dinheiro dele de volta, acerte as contas com ele rapidamente. Entre num acordo antes de chegarem ao tribunal. Faça-o enquanto ainda estiverem a caminho do tribu­nal e pague a sua dívida. Caso contrário, ao chegarem no tribu­nal, será tarde demais. O seu acusador o processará diante do juiz e o juiz o entregará à polícia e você acabará na cadeia. Você não sairá de lá até que tenha pago o último centavo. Por isso, o pagamento antes da prisão seria muito mais sensato.”

As figuras são diferentes: uma é extraída da igreja; a outra, do tribunal. Uma diz respeito a um “irmão” (v. 23) e a outra refere-se a um inimigo (v. 25). Mas, em ambos os casos, a situa­ção básica é a mesma (alguém tem um ressentimento contra nós) e a lição básica é também a mesma (a necessidade de ação ime­diata, urgente). No próprio ato da adoração, se nos lembrarmos da ofensa, deveremos interromper a nossa adoração, sair e acertar a situação. No próprio ato de irmos para nos apresentar ao tribunal, enquanto estamos nos dirigindo para lá, devemos acertar a nossa dívida.

Mas com que raridade atendemos à chamada de Cristo para a ação imediata! Se o homicídio é um crime horrível, a ira e o insulto malévolos também o são. E, do mesmo modo, é qualquer atitude, palavra, olhar ou pensamento através do qual ferimos ou ofendemos um outro ser humano. Precisamos ser mais sensí­veis no que se refere a essas coisas. Nunca deveríamos permitir que uma desavença permanecesse, muito menos que se desen­volvesse. Não devemos retardar o fazer as pazes. Não devemos nem permitir que o sol se ponha sobre a nossa ira. Mas, imedia­tamente, logo que tivermos consciência de um relacionamento estremecido, devemos tomar a iniciativa de restaurá-lo, de pedir desculpas pelo ressentimento que provocamos, de pagar a nossa dívida, de fazer restituições. E Jesus extraiu estas instruções extremamente práticas do sexto mandamento como suas impli­cações lógicas! Se queremos evitar o homicídio perante Deus, devemos tomar todas as possíveis medidas positivas para viver­mos em paz e em amor com todos os homens.

 

2. Esquivando-se à concupiscência (vs. 27-30)

Agora Jesus volta-se do sexto para o sétimo mandamento, da proibição do homicídio para a proibição do adultério.

Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. 28Eu, porém, vos digo: Qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração já adulterou com ela. 295e o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não seja todo o teu corpo lançado no inferno. 30E se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros e não vá todo o teu corpo para o inferno.

Novamente os rabinos estavam tentando limitar o alcance do mandamento: Não adulterarás. Embora o pecado de cobiçar a mulher de outro homem esteja incluído no décimo mandamento, que trata da cobiça, eles evidentemente achavam mais confor­tável ignorá-lo. No seu ponto de vista, eles e seus alunos guar­davam o sétimo mandamento contanto que evitassem o ato do adultério propriamente dito. Assim, davam uma definição convenientemente estreita ao pecado sexual e uma definição conve­nientemente ampla à pureza sexual.

Mas Jesus ensinou diferente. Ele estendeu as implicações da proibição divina. Antes, afirmou que o verdadeiro significado da ordem divina era muito mais amplo do que á mera proibição de atos de imoralidade sexual. Assim como a proibição do homi­cídio incluía o pensamento colérico e a palavra insultuosa, a proibição do adultério incluía o olhar concupiscente e a imagi­nação. Podemos cometer assassinato com nossas palavras; podemos cometer adultério em nossos corações ou mentes. Na verdade, (v. 28) qualquer que olhar para uma mulher com inten­ção impura, no coração já adulterou com ela.

Talvez seja necessário destacar dois pontos antes de prosse­guirmos. Não há aqui a mais leve sugestão de que as relações sexuais naturais dentro dos votos do casamento não sejam algo lindo que Deus nos deu. Podemos agradecer a Deus pelos Cantares de Salomão, que foram incluídos no cânon das Escrituras, pois ali não encontramos puritanismo vitoriano, mas, pelo con­trário, o prazer desinibido de dois amantes, o esposo e a esposa, um com o outro. Os ensinamentos de Jesus aqui referem-se ao sexo ilegal fora do casamento, praticado por pessoas casadas ou solteiras. Ele não nos proíbe de olhar para uma mulher, mas, sim, de fazê-lo concupiscentemente. Todos nós sabemos a dife­rença que há entre o olhar e o cobiçar.

Isto nos leva ao segundo ponto. A alusão de Jesus é a todas as formas de imoralidade. Argumentar que a referência apenas diz respeito a um homem cobiçando uma mulher e não vice-versa, ou que só se refere ao homem casado e não ao solteiro, uma vez que o transgressor está cometendo “adultério” e não “fornicação”, é incorrer na mesma casuística que Jesus condenou nos fariseus. Ele enfatizou que toda e qualquer prática sexual que é imoral no ato, também é imoral no olhar e no pensamento.

O que é particularmente importante é assimilar a sua equação de olhar concupiscentemente para uma mulher e cometer adul­tério com ela no coração. É esta relação entre os olhos e o coração que leva Jesus, nos dois versículos seguintes, a dar algumas instruções muito práticas sobre como manter a pureza sexual. O argumento é o seguinte: se olhar concupiscentemente é co­meter adultério no coração, em outras palavras, se o adultério do coração é o resultado do adultério dos olhos (os olhos do coração sendo estimulados pelos olhos da carne), então a única maneira de tratar do problema é no início, isto é, no nosso olhar. Jó, o justo, declarou que já tinha aprendido esta lição. “Fiz aliança com meus olhos”, ele disse, “como, pois, os fixaria numa donzela?” Depois ele prossegue falando a respeito do seu cora­ção: “Se o meu coração segue os meus olhos … Se o meu co­ração se deixou seduzir por causa de mulher . . .”, ele reconhe­ceria que tinha pecado e que merecia o juízo de Deus.[210] Mas Jó não fizera tais coisas. O controle do seu coração se devia ao controle dos seus olhos.

Este ensinamento de Jesus, confirmado na experiência de Jó, continua sendo verdade atualmente. Atos vergonhosos procedem de pensamentos vergonhosos, e a imaginação se inflama por causa da indisciplina dos olhos. Nossa vivida imaginação (uma das muitas faculdades que distinguem os humanos dos animais) é um precioso dom de Deus. Nenhuma das artes do mundo e poucas das mais nobres realizações teriam sido possíveis se não fosse ela. A imaginação enriquece a qualidade da vida. Mas todos os dons de Deus precisam ser usados com responsabili­dade; podem facilmente ser aviltados e abusados. Isto certa­mente se aplica à nossa imaginação. Duvido que os seres hu­manos seriam vítimas da imoralidade, se antes não abrissem as comportas da paixão através dos seus olhos. Do mesmo modo, sempre que os homens e as mulheres aprendem a controlar o sexo na prática, é porque antes aprenderam a fazê-lo nos olhos da carne e do pensamento. Este pode ser um momento apro­priado para mencionar de passagem como as jovens se vestem. Seria tolo legislar sobre modas, mas sábio (creio eu) é pedir-lhes que façam esta distinção: uma coisa é fazer-se atraente; outra coisa é fazer-se deliberadamente sedutora. As jovens sabem qual ê a diferença; e nós, os homens, também.

Isto nos leva aos versículos 29 e 30: Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti. . . E se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a de ti. . . Evidentemente esse era um ditado de que Jesus gostava, pois ele o citou mais de uma vez. Ele torna a citá-lo mais tarde neste mesmo Evangelho,[211] onde acrescenta o pé, o olho e a mão, e a referência é generali­zada às “tentações”, não explicitamente à tentação sexual. Portanto, o princípio tem uma aplicação mais ampla. Não obstante, foi neste setor específico que Jesus o aplicou no Sermão do Monte. O que ele quis dizer com isto?

Superficialmente parece um mandamento assustador: arrancar um olho transgressor, cortar uma mão ou um pé infra­tor. Alguns cristãos, cujo zelo excedia grandemente a sua sabe­doria, tomaram as palavras de Jesus ao pé da letra e se muti­laram. Talvez o mais conhecido exemplo seja o do mestre Orígenes de Alexandria, do terceiro século. Ele foi aos extremos do ascetismo, renunciando propriedades, alimento e até mesmo sono e, numa interpretação supra literal desta passagem e de Mateus 19:12, tornou-se realmente um eunuco. Algum tempo depois, em 325 d.C, o Concilio de Nicéia acertadamente proibiu esta prá­tica bárbara.

A ordem de desfazer-se dos olhos, das mãos e dos pés que causam problemas é um exemplo do uso dramático que o nosso Senhor fazia das figuras de linguagem. O que ele pretendia não era uma automutilação literal física, mas uma abnegação moral sem concessões. Não mutilação, mas mortificação, é o caminho da santidade que ele ensinou; e “mortificação” ou “tomar a cruz” para seguir a Cristo significa rejeitar as práticas do pecado com tal resolução que ou morremos para elas ou as condenamos à morte.[212]

O que isto envolve, na prática? Vou explanar e interpretar o ensinamento de Jesus assim: “Se o seu olho o faz pecar porque a tentação o assola através dos seus olhos (os objetos que você vê), então arranque os seus olhos. Isto é, não olhe! Comporte-se como se você realmente tivesse arrancado os seus olhos e os tivesse jogado fora, e estivesse agora cego e sem poder ver os objetos que anteriormente o levavam a pecar. Repito, se a sua mão ou o seu pé o fazem pecar, porque a tentação o assola através de suas mãos (coisas que você faz) ou de seus pés (lugares que você visita), então corte-os fora. Isto é: não faça! Não vá! Comporte-se como se na realidade você tivesse cortado e jogado fora seus pés e suas mãos, e estivesse agora aleijado e sem poder fazer as coisas ou visitar os lugares que anteriormente o levavam a pecar.” Este é o significado de “mortificação”.

Ficamos imaginando se já houve uma geração na qual este ensinamento de Jesus foi mais necessário ou mais obviamente aplicável do que na nossa, quando o rio de obscenidades (litera­tura pornográfica e filmes sobre sexo) está transbordando e inundando. A pornografia ofende os cristãos (e, dizendo a ver­dade, a qualquer pessoa de mente sadia) em primeiro lugar e principalmente porque rebaixa a mulher da sua condição de ser humano para a de objeto sexual, mas também porque oferece ao espectador um estímulo sexual que não é natural. Se temos um problema de falta de controle sexual e se, apesar disso, nossos pés nos levam a ver tais filmes, nossas mãos manejam tal literatura e nossos olhos deleitam-se com as figuras que nos oferecem, não só estamos pecando, como também abrindo as portas à tragédia.

Ao dizer estas palavras, longe de mim desejar estabelecer leis ou criar regras humanas sobre que livros ou revistas o cristão pode ler, a que peças de teatro ou a quais filmes pode assistir (ao vivo ou na TV), ou que exposições de arte pode visitar. Pois nós temos de reconhecer que todos os homens e mulheres foram criados diferentes. O desejo sexual é mais facilmente despertado em alguns do que em outros, e coisas diferentes o estimulam. A autodisciplina sexual e o autocontrole é mais fácil para uns do que para outros. Alguns podem olhar abertamente para quadros sexuais (em revistas ou filmes) e permanecer totalmente ilesos, enquanto outros os acham terrivelmente corruptores. Nossos temperamentos variam e, conseqüentemente, também as nossas tentações. Por isso, não temos o direito de julgar os outros sobre o que sentem que podem permitir-se.

O que temos liberdade de dizer é apenas isto (pois é o que Jesus disse): se o seu olhar o faz pecar, não olhe; se o seu pé o faz pecar, não vá; e se a sua mão o faz pecar, não faça. A regra que Jesus estabeleceu é hipotética, não universal. Não exigiu que todos os seus discípulos (metaforicamente falando) arrancassem os olhos ou se mutilassem, mas só aqueles cujos olhos, mãos e pés eram a causa do pecado. São eles que devem agir; outros podem manter os dois olhos, ambas as mãos e ambos os pés, impunemente. É claro que até estes devem refrear-se de certas liberdades por causa do amor por aqueles que têm a consciência ou a vontade mais fraca; mas este é um outro princípio de que não se trata aqui.

O que se torna necessário a todos àqueles que têm forte ten­tação sexual e, na verdade, a todos nós, em princípio, é a disci­plina na vigilância contra o pecado. A colocação de sentinelas é comum nas táticas militares; colocar sentinelas morais é igual­mente indispensável. Será que somos tão tolos a ponto de dei­xarmos que o inimigo nos domine, simplesmente porque não colocamos sentinelas para nos advertir de sua aproximação?

Obedecer a este mandamento de Jesus envolverá, para muitos de nós, um certo “mutilamento”. Teremos de eliminar de nossas vidas determinadas coisas que (embora algumas possam ser inocentes em si mesmas) são, ou poderiam facilmente tornar-se, fontes de tentação. Em sua própria linguagem metafórica, podemos tornar-nos sem olhos, sem mãos ou sem pés. Isto ê, deliberadamente declinaremos da leitura de determinada litera­tura, de assistir a certos filmes, e visitar certas exposições. Se o fizermos, seremos considerados por alguns dos nossos contem­porâneos como pessoas de mentalidade estreita, como bárbaros filisteus. “O quê?”, eles dirão com incredulidade, “Você não leu esse livro? Não viu aquele filme? Você está por fora, cara!” Talvez estejam certos. Talvez tenhamos de nos tornar culturalmente “mutilados” a fim de preservar a nossa pureza de mente. A única pergunta que permanece é se, por amor a tal proveito, estamos prontos a suportar essa perda e esse ridículo.

Jesus foi bastante claro sobre isso. É melhor perder um mem­bro e entrar na vida mutilado, disse ele, do que conservar todo o nosso corpo e ir para o inferno. É o mesmo que dizer: é melhor perder algumas das experiências que esta vida oferece, a fim de entrar na vida que é vida realmente; é melhor aceitar alguma amputação cultural neste mundo do que arriscar-se à destruição no outro. É claro que este ensinamento vai totalmente contra os padrões modernos da permissividade. Baseia-se no princípio de que a eternidade é mais importante do que o tempo, que a pureza é mais do que a cultura, e que qualquer sacrifício é válido nesta vida se for necessário para assegurar a entrada na outra. Temos simplesmente de decidir se queremos viver para este mundo ou para o outro, se queremos seguir a multidão ou a Jesus Cristo.

Mateus 5:31-37
A justiça do cristão:
fidelidade no casamento e honestidade nas palavras

 

A terceira antítese (sobre o divórcio) é uma seqüência natural da segunda (sobre o adultério). Pois, em determinadas circuns­tâncias, Jesus diz agora, um novo casamento de uma pessoa divorciada, ou com uma pessoa divorciada, é equivalente a adul­tério. Esta terceira antítese é essencialmente um chamamento à fidelidade matrimonial.

Confesso minha relutância básica em tentar fazer a expo­sição destes versículos. Parcialmente porque o divórcio é um assunto complexo e controvertido, mas muito mais porque é um assunto que afeta profundamente as emoções das pessoas. Pode-se dizer que talvez não haja infelicidade tão pungente quanto a de um casamento infeliz. Talvez não haja tragédia maior que a degeneração, numa separação de amargura, discórdia e deses­pero, do relacionamento que Deus pretendia que fosse cheio de amor e satisfação. Embora eu creia que o caminho divino, em muitos casos, não é o divórcio, espero escrever com sensibili­dade, pois conheço a dor de muitos e não desejo contribuir ainda para o seu desespero. Mas, como estou convencido de que o ensinamento de Jesus sobre este assunto, como sobre qualquer outro, é bom, intrinsecamente bom, tanto para cada indivíduo como para a sociedade, encho-me de coragem para escrever.

 

1. A fidelidade no casamento (vs. 31,32)

Também foi dito: Aquele que repudiar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio. 32Eu, porém, vos digo: Qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de adultério, a expõe a tornar-se adúl­tera; e aquele que casar com a repudiada, comete adultério.

Estes dois versículos dificilmente poderiam ser considerados como a totalidade das instruções dadas por nosso Senhor a res­peito do divórcio, ali no monte. Parece serem um sumário abre­viado dos seus ensinamentos, dos quais Mateus registra uma versão mais completa no capítulo 19. É melhor reunir as duas passagens para interpretar a mais curta à luz da mais longa. Foi assim que, mais tarde, aconteceu o debate de Cristo com os fariseus:

19:3 Vieram a ele alguns fariseus, e o experimentavam, pergun­tando: E lícito ao marido repudiar a sua mulher por qualquer motivo? 4Então respondeu ele: Não tendes lido que o Criador desde o princípio os fez homem e mulher, 5e que disse: Por esta causa deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne? 6De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem. 7Replicaram-lhe: Por que mandou então Moisés dar carta de divórcio e repudiar? 8Respondeu-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração ê que Moisés vos permitiu repudiar vossas mulheres; entretanto, não foi assim desde o princípio. 9Eu, porém, vos digo: Quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra, comete adultério.

Sabemos que havia uma controvérsia sobre o divórcio entre as duas escolas rabínicas rivais de Hillel e de Shammai. O Rabi Shammai adotava uma linha rigorosa e ensinava, com base em Deuteronômio 24:1, que a única base para o divórcio era grave ofensa matrimonial, algo evidentemente “impróprio” ou “inde­cente”. O Rabi Hillel, por outro lado, defendia um ponto de vista muito relaxado. Se é que podemos confiar no historiador judeu Josefo, esta era a atitude comum, pois ele aplicava a pro­visão mosaica a um homem que “deseja divorciar-se de sua esposa por qualquer motivo”.[213] Do mesmo modo, Hillel, argu­mentando que a base para o divórcio era alguma coisa “impró­pria”, interpretava este termo da maneira mais ampla possível para incluir as mais triviais ofensas de uma esposa. Se ela se ordem de toda a passagem; naturalmente não há ordem alguma para o marido divorciar-se de sua esposa, nem qualquer incen­tivo para que o faça. Tudo o que temos, por outro lado, é uma referência a certos procedimentos necessários se o divórcio acon­tecer; e, conseqüentemente, uma permissão muito relutante fica implícita e uma prática costumeira é tolerada.

Como, então, Jesus respondeu à pergunta dos fariseus sobre a regulamentação de Moisés? Ele a atribuiu à dureza dos cora­ções das pessoas. Fazendo assim, não negou que a regulamen­tação vinha de Deus. Deu a entender, entretanto, que não era uma instrução divina, mas apenas uma concessão de Deus por causa da fraqueza humana. Foi por isso que “Moisés vos per­mitiu repudiar . . .”, disse ele (v. 8). Mas, então, imediatamente referiu-se de novo ao propósito original de Deus, dizendo: “En­tretanto, não foi assim desde o princípio.” Assim, até mesmo a própria concessão divina era, em princípio, incoerente com a divina instituição.

c. Os fariseus tratavam o divórcio com leviandade; Jesus o consi­derou tão seriamente que, com uma única exceção, chamou a todo novo casamento depois do divórcio de adultério

Esta foi a conclusão da sua discussão com os fariseus, e isto é o que se registrou no Sermão do Monte. Talvez seja conveniente ver os seus dois argumentos conjuntamente.

5:32 Eu porém, vos digo: Qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera; e aquele que casar com a repudiada, comete adultério. 19:9 Eu, porém, vos digo: Quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra, comete adultério.

Parece que se presume que o divórcio levava ao novo casa­mento das partes divorciadas. Só esta presunção explica a declaração de que um homem que se divorcia de sua esposa sem motivo “a expõe a tornar-se adúltera”. Sua ação teria tal resul­tado apenas se ela se casasse novamente. Além disso, uma sepa­ração sem divórcio — em termos legais, a mensa et toro (de mesa e cama) mas não a vinculo (dos laços matrimoniais) — é um arranjo moderno desconhecido no mundo antigo.

Considerando que Deus instituiu o casamento como uma união exclusiva e permanente, uma união que ele faz e que o homem não deve quebrar, Jesus chega à inevitável conclusão de que divorciar-se de um parceiro e casar-se com outro, ou casar-se com uma pessoa divorciada, é assumir um relaciona­mento proibido, adúltero, pois a pessoa, que conseguiu um di­vórcio aos olhos da lei humana, ainda está casada, aos olhos de Deus, com o seu primeiro parceiro.

Apenas uma única exceção foi feita a este princípio: exceto em caso de relações sexuais ilícitas (5:32) ou sendo por causa de relações sexuais ilícitas (19:9). A chamada “cláusula de exceção” é um enigma muito conhecido. Os comentaristas não são unâ­nimes quanto à sua autenticidade ou quanto ao seu significado.

Em primeiro lugar, esta cláusula é autêntica. Eu gostaria de argumentar, como o fazem quase todos os comentaristas conser­vadores, que temos de aceitar esta cláusula não só como parte genuína do Evangelho de Mateus (pois nenhum manuscrito a omite), mas também como palavra autêntica de Jesus. O motivo por que muitos a rejeitaram, considerando-a como uma interpolação de Mateus, é que está ausente de passagens paralelas nos evangelhos de Marcos e Lucas. Mas Plummer estava certo quando taxou de “hipótese violenta”[214] essa rejeição apressada da cláusula de exceção, considerando-a um acréscimo editorial. Parece muito mais provável que a sua ausência em Marcos e Lucas deve-se não à ignorância deles, mas por pressuporem que esta cláusula fosse assunto do conhecimento de todos. Afinal de contas, sob a lei mosaica o adultério era punido com a morte (embora a pena de morte para esta transgressão possivelmente tenha caído em desuso no tempo de Jesus)[215]; portanto, ninguém teria duvidado que a infidelidade conjugai fosse motivo para o divórcio. Até mesmo os rabinos rivais, Shammai e Hillel, con­cordavam com isso. Só discordavam quanto à amplitude com que esta expressão “alguma coisa indecente” em Deuteronômio 24:1 poderia ser interpretada.

A segunda dúvida sobre a cláusula de exceção refere-se ao que significa por causa de relações sexuais ilícitas, conforme traduz a Edição Revista e Atualizada. A palavra grega é porneia. Normalmente é traduzida por “fornicação”, indicando a imora­lidade dos que não são casados, e freqüentemente distingue-se de moicheia (“adultério”), a imoralidade dos casados. Por causa disto, alguns têm argumentado que a cláusula de exceção per­mite o divórcio no caso de descobrir-se algum pecado sexual pré-marital. Alguns acham que “a coisa indecente” de Deute­ronômio 24:1 tem o mesmo significado. Mas a palavra grega não é bastante precisa para ficar assim limitada. Ponteia deriva de ponte, prostituta, sem especificar se esta é casada ou solteira. Também não especifica o estado civil do seu cliente. Mais ainda, foi usada na Septuaginta referindo-se à infidelidade de Israel, a esposa de Jeová, conforme exemplificado em Gomer, esposa de Oséias.[216] Devemos, então, concordar com R. V. G. Tasker, que concluiu que ponteia é um “termo abrangente, incluindo adultério, fornicação e perversão sexual”.[217] Ao mesmo tempo, não temos liberdade de cair no extremo oposto e argumentar que ponteia abranja toda e qualquer ofensa que tenha de alguma forma até mesmo vaga, qualquer coisa a ver com o sexo. Isto seria praticamente o mesmo que igualar porneia com “incompa­tibilidade”, e não temos apoio etimológico para isso. Não; porneia significa “falta de castidade”, algum ato de imoralidade sexual física.

O que, então, Jesus ensinou? N. B. Stonehouse oferece uma boa paráfrase da primeira parte da antítese do Sermão do Monte: “Vocês ouviram a apelação dos mestres judeus sobre Deutero­nômio 24:1, com a intenção de consubstanciar uma prática que permita aos maridos divorciar-se, livremente e a seu bel-prazer, de suas esposas, fornecendo-lhes simplesmente um estúpido documento legal de transação.”[218] “Mas eu digo a vocês”, con­tinuou Jesus, que tal comportamento irresponsável da parte do marido fará com que ele, sua esposa e os novos parceiros tenham uniões que não constituem casamentos, mas adultérios. Neste princípio geral, temos uma exceção. A única situação em que o divórcio e o novo casamento são possíveis sem transgredir o sétimo mandamento é quando o casamento já foi quebrado por algum sério pecado sexual. Neste caso, e só neste caso, Jesus parece ter ensinado que o divórcio seria permissível, ou pelo menos poderia ser obtido sem que a parte inocente adquirisse mais tarde o estigma do adultério. A tendência moderna dos países ocidentais de estruturar a legislação para o divórcio com base, antes, na “separação irrecuperável” ou “morte” do casa­mento e não na “ofensa matrimonial” precisa de leis melhores e mais justas; não se pode dizer que seja compatível com os ensinamentos de Jesus.

Não obstante, o assunto não pode ser abandonado aqui, pois esta relutante permissão de Jesus continua precisando ser consi­derada pelo que é, a saber, uma acomodação sustentada por causa da dureza dos corações humanos. Além disso, deve-se sempre ler no contexto imediato (o endosso enfático de Cristo à permanência do casamento no propósito de Deus) e também no contexto mais amplo do Sermão do Monte e de toda a Bíblia, que proclama um evangelho de reconciliação. Não significa muito o fato de que o Amante Divino estivesse sempre pronto a atrair novamente Israel, sua esposa adúltera?[219] Portanto, que ninguém comece uma discussão sobre este assunto, indagando sobre a legitimidade do divórcio. Estar preocupado com os mo­tivos para o divórcio é ser culpado daquele mesmo farisaísmo que Jesus condenou. Toda a sua ênfase na discussão com os rabinos foi positiva, isto é, foi colocada sobre a instituição ori­ginal divina do casamento como um relacionamento exclusivo e permanente, no qual Deus junta duas pessoas numa união que nenhum homem pode interromper; e (é preciso acrescentar) ele enfatizou a sua ordem dada a seus seguidores para amarem-se e se perdoarem uns aos outros, e para serem pacificadores em cada situação de luta e discórdia. Crisóstomo reuniu, adequada­mente, esta passagem às bem-aventuranças e comentou em sua homília: “Pois aquele que é manso, pacificador, humilde de espírito e misericordioso, como poderia repudiar sua esposa?

Aquele que está acostumado a reconciliar os outros, como po­deria discordar daquela que é a sua própria carne?”[220] Com este ideal, propósito e chamamento divinos, o divórcio só pode ser considerado uma trágica deterioração.

Portanto, falando pessoalmente como pastor cristão, sempre que alguém me pede para conversar sobre o divórcio, já há alguns anos me recuso firmemente a fazê-lo. Adotei como regra não falar com ninguém sobre o divórcio, sem antes falar sobre dois outros assuntos, isto é, casamento e reconciliação. Às vezes, uma discussão destes tópicos torna desnecessária a outra. Final­mente, apenas depois de se ter compreendido e aceitado o ponto de vista divino do casamento e o chamamento divino à recon­ciliação, é que há a possibilidade de se criar um contexto dentro do qual se possa falar com pesar sobre o divórcio. Acho que este princípio de prioridades pastorais é coerente com os ensina­mentos de Jesus.[221]

 

2. Honestidade no falar (v. 33)

Os rabinos não só pendiam para a permissividade em sua atitude para com o divórcio, mas também eram permissivos em seus ensinamentos sobre o juramento. É outro exemplo de como se desviaram das Escrituras do Velho Testamento, a fim de as tornarem mais fáceis de serem obedecidas. Precisamos primeiro examinar a lei mosaica, depois a distorção farisaica e, final­mente, as verdadeiras aplicações da lei sobre as quais Jesus insistiu.

Também ouvistes que foi dito aos antigos: Não jurarás falso, mas cumprirás rigorosamente para com o Senhor os teus jura­mentos.

Esta não é uma citação exata de nenhuma lei de Moisés. Ao mesmo tempo, não se trata de um resumo impreciso de diversos preceitos do Velho Testamento, de preceitos que exigem das pessoas o cumprimento dos votos que fizeram. E tais votos são, estritamente falando, “juramentos” nos quais a pessoa invoca a Deus como testemunha do seu voto para puni-lo se não o cumprir. Moisés freqüentemente parecia enfatizar o perigo do juramento falso e o dever de cumprir os votos feitos ao Senhor. Eis alguns exemplos:

“Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão” (Ex. 20:7, o terceiro mandamento). “Não jurareis falso pelo meu nome, pois profanaríeis o nome do vosso Deus” (Lv 19:12). “Quando um homem fizer voto ao Senhor, . . . não violará a sua palavra” (Nm 30:2). “Quando fizeres algum voto ao Senhor teu Deus, não tardarás em cumpri-lo” (Dt 23:21).

Até mesmo uma leitura superficial destes mandamentos torna clara a sua intenção. Proíbem o juramento falso ou perjúrio, isto é, fazer um voto e, depois, quebrá-lo.

Mas os fariseus casuístas trabalhavam sobre estas proibições incômodas e tentavam limitá-las. Afastavam a atenção das pes­soas do voto propriamente dito e da necessidade de cumpri-lo, destacando a fórmula usada no voto. Argumentavam que o que a lei realmente proibia não era tomar o nome do Senhor em vão, mas tomar o nome do Senhor em vão. “Jurar falsamente”, eles concluíram, significava profanação (um uso profano do nome divino), não perjúrio (empenhar a palavra desonestamente). Por isso, desenvolveram regras elaboradas para fazer votos. Fizeram listas de quais fórmulas eram permissíveis, e acrescentaram que apenas aquelas fórmulas que incluíam o nome de Deus tornavam o voto obrigatório. Ninguém precisa ser tão cuidadoso, diziam, sobre a guarda de votos nos quais o nome de Deus não fora usado.

Jesus expressou o seu desprezo por esse tipo de sofisticaria num dos “ais” contra os fariseus (“guias cegos”, ele os chamou) que Mateus registrou mais tarde (23:16-22):

Ai de vós, guias cegos! que dizeis: Quem jurar pelo santuário, isso é nada; mas se alguém jurar pelo ouro do santuário, fica obrigado pelo que jurou. 17Insensatos e cegos!Pois, qual é maior: o ouro, ou o santuário que santifica o ouro? 16E dizeis: Quem jurar pelo altar, isso é nada; quem, porém, jurar pela oferta que está sobre o altar, fica obrigado pelo que jurou. 19Cegos! Pois, qual é maior: a oferta, ou o altar que santifica a oferta? 20Portanto, quem jurar pelo altar, jura por ele e por tudo o que sobre ele está. 21Quem jurar pelo santuário, jura por ele e por aquele que nele habita; 22e quem jurar pelo céu, jura pelo trono de Deus e por aquele que no trono está sentado.

Os ensinamentos de nosso Senhor no Sermão do Monte são semelhantes. A segunda parte de sua antítese, na qual ele apre­senta os seus ensinamentos em oposição aos dos rabinos, diz o seguinte:

5:34 Eu, porém, vos digo: De modo algum jureis: Nem pelo céu, por ser o trono de Deus; 35nem pela terra, por ser estrado de seus pés; nem por Jerusalém, por ser cidade do grande Rei; 36 nem jures pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco ou preto. 37Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar, vem do maligno.

Ele começa argumentando que a pergunta sobre a fórmula usada para se fazer votos é totalmente irrelevante e, particularmente, que a diferença feita pelos fariseus entre a fórmula que menciona Deus e aquelas que não o mencionam é inteiramente artificial. Contudo, por mais que vocês tentem, disse Jesus, não podem evitar alguma referência a Deus, pois o mundo todo é mundo de Deus e vocês não O podem eliminar, de modo algum. Se vocês jurarem pelo “céu”, é o trono de Deus; se pela “terra”, é o es­trado dos seus pés; se por “Jerusalém”, é a sua cidade, cidade do grande Rei. Se vocês jurarem por sua cabeça, na verdade é sua no sentido de não pertencer a qualquer outra pessoa, mas ainda assim é criação de Deus e está sob o seu controle. Você não pode sequer mudar a cor natural de um simples fio de cabelo, preto na juventude e branco na velhice.

Portanto, sendo irrelevante o enunciado preciso de uma fór­mula para fazer votos, então a preocupação com as fórmulas não é ponto importante da lei. Na verdade, considerando que todo aquele que faz um voto deve cumpri-lo (seja qual for a fórmula usada para sua confirmação), falando estritamente todas as fórmulas são supérfluas, pois a fórmula nada acrescenta à solenidade do voto. Um voto é obrigatório, independentemente da fórmula utilizada. Sendo assim, a verdadeira implicação da lei é que devemos cumprir as nossas promessas e ser pessoas de palavra. Então os votos se tornam desnecessários. De modo algum jureis (v. 34), seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não (v. 37). Como diria mais tarde o apóstolo Tiago: “Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não.”[222] E o que disto passar, Jesus acrescentou, vem do maligno, tanto da maldade dos nossos co­rações com o seu grande engano, como do maligno, que Jesus descreveu como “mentiroso e pai da mentira”.[223] Assim como o divórcio é devido à dureza do coração humano, os juramentos se devem à falsidade humana. Ambos foram permitidos por lei; nenhum foi ordenado;[224] nem seriam necessários.

Duas perguntas podem surgir em nossas mentes, a esta altura. Primeira, se os juramentos são proibidos, por que Deus mesmo usou juramentos nas Escrituras? Por que, por exemplo, ele disse a Abraão: “Jurei por mim mesmo . . . que deveras te abençoa­rei .. .”?[225] A isto creio que devemos responder que o propósito dos votos divinos não foi aumentar a sua credibilidade (consi­derando que ‘Deus não é homem para que minta’),[226] mas sim despertar e confirmar a nossa fé. A falha que levou Deus a condescender com o nível humano não se deve a qualquer falsidade da parte dele, mas da nossa incredulidade.

Em segundo lugar, se os juramentos ficam proibidos, esta proibição é absoluta? Por exemplo, deveriam os cristãos, a fim de ser coerentes em sua obediência, abster-se de jurar em alguma declaração juramentada diante de um oficial da justiça, e teste­munhar sob juramento num tribunal legal? Os anabatistas ado­tavam esta linha de comportamento, no século dezesseis, e a maioria dos quakers ainda o faz hoje em dia. Embora admiremos o seu desejo de não transigir, surge a questão: tal interpretação não é excessivamente literal? Afinal nem mesmo Jesus, Mateus registra mais tarde, se recusou a responder quando o principal dos sacerdotes o colocou sob juramento, dizendo: “Eu te conjuro pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus.” Jesus confessou que era e que, mais tarde, eles o veriam entronizado à direita de Deus.[227] O que Jesus enfatizou em seus ensina­mentos foi que os homens honestos não precisam recorrer a juramentos; não que eles devam recusar-se a prestar juramento, se tal coisa for exigida por alguma autoridade externa.

A aplicação moderna não é difícil de se achar, pois os ensina­mentos de Jesus são eternos. Jurar (isto é, assumir votos) é real­mente uma confissão patética de nossa própria desonestidade. Por que achamos necessário introduzir nossas promessas com alguma fórmula tremenda: “eu juro pelo arcanjo Gabriel e todo o exército dos céus”, ou “eu juro pela Santa Bíblia”? O único motivo é que sabemos que as nossas simples palavras não são dignas de crédito. Por isso, tentamos induzir as pessoas a acredi­tarem em nós, acrescentando um juramento solene. Interessante é notar que os essênios (uma seita judaica contemporânea de Jesus) tinham altos padrões neste ponto. Josefo escreveu sobre eles: “São conhecidos pela fidelidade e são ministros da paz. Qualquer coisa que digam é mais firme que um juramento. Mas eles evitam o juramento e o consideram pior que o perjúrio, pois dizem que aquele em quem não se pode crer sem (jurar por) Deus, já está condenado.”[228] O mesmo acontece com todas as formas de exagero, hipérboles e o uso de superlativos. Nós não nos contentamos em dizer que passamos horas agradáveis; temos de descrevê-las como “fantásticas” ou “fabulosas” ou até mesmo “fantabulosas” ou qualquer outra invenção. Mas quanto mais recorremos a tais expressões, mais desvalorizamos a linguagem e as promessas humanas. Os cristãos deveriam dizer o que pre­tendem e pretender o que dizem. Nosso “sim” e “não” sem adornos deveria ser o suficiente. E quando um monossílabo é suficiente, por que perder tempo e fôlego acrescentando algo mais?

Mateus 5:38-48
A justiça do cristão: não-vingança e amor ativo

 

As duas antíteses finais levam-nos ao ponto mais alto do Sermão do Monte, pelo qual ele tem sido mais admirado e, ao mesmo tempo, objeto da maior indignação. Trata-se da atitude de amor total que Cristo manda que demonstremos ao perverso (v. 39) e aos nossos inimigos (v. 44). Em nenhum outro ponto o Sermão é mais desafiador do que neste. Em nenhum outro ponto a niti­dez da contracultura cristã é mais óbvia. Em lugar nenhum nossa necessidade do poder do Espírito Santo (cujo primeiro fruto é o amor) é mais constrangedora.

 

1. Atitude passiva e sem vingança (vs. 38-42)

Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente. 39Eu, porém, vos digo: Não resistais ao perverso; mas a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; 40 e ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. 41Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas. 42Dá a quem te pede, e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes.

O extrato dos ensinamentos orais dos rabinos, que Jesus citou, vem direto da lei mosaica. Ao examiná-lo, precisamos lembrar que a lei de Moisés era um código civil, além de moral. Por exemplo, Êxodo 20 contém os dez mandamentos (a destilação da lei moral). Êxodo 21 a 23, por outro lado, contém uma série de “ordenanças”, nas quais os padrões dos dez mandamentos são aplicados à vida da jovem nação. Uma grande variedade de “casos legais” é apresentada, com ênfase sobre prejuízos causados a pessoas e propriedades. É no decorrer desta legis­lação que aparecem as palavras: “Se homens brigarem … se houver dano grave, então darás vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por quei­madura, ferimento por ferimento, golpe por golpe.”[229]

O contexto torna claro que, sem dúvida alguma, esta era uma instrução para os juizes de Israel. Na verdade, eles são mencionados em Deuteronômio 19:17, 18. É uma expressão da lex talionis, o princípio de uma retribuição exata, cujo propósito era estabelecer o fundamento da justiça, especificando o castigo que o culpado merecia, e limitar a compensação de sua vítima a um equivalente exato e não mais. Assim, tinha o duplo efeito de caracterizar a justiça e refrear a vingança. Também proibia que membros de famílias inimigas tomassem a lei em suas pró­prias mãos para atos de vingança.

Semelhantemente, na lei islâmica, a lex talionis especificava o máximo castigo admissível. Este era administrado literalmente (e ainda o é, por exemplo, na Arábia Saudita), a não ser que a pessoa ferida desistisse de cobrar a penalidade, ou que seus herdeiros (em caso de assassinato) preferissem o dinheiro de sangue.[230]

É quase certo que, no tempo de Jesus, a retaliação literal pelos prejuízos já fora substituída pela prática legal judaica das penali­dades em dinheiro ou “custos”. Já temos evidência disso muito mais cedo. Os versículos logo após a lex talionis em Êxodo de­cretam que, se um homem ferir seu escravo de modo a lhe des­truir o olho ou quebrar-lhe um dente, em lugar de perder o seu próprio olho ou dente (o que ele bem mereceria, mas que não representaria compensação alguma para o escravo incapacitado), deveria perder o seu escravo: “deixá-lo-á ir forro pelo seu olho (ou dente)”.[231] Podemos ter toda certeza de que, em outros casos, esta penalidade não era fisicamente executada, exceto no caso do homicídio (“vida por vida”), sendo convertida em pagamento de prejuízos.

Mas os escribas e fariseus evidentemente estendiam este princípio da justa retribuição dos tribunais legais (aos quais per­tencia) para o reino dos relacionamentos pessoais (ao qual não pertencia). Tentavam usá-lo para justificação de vingança pessoal, embora a lei o proibisse explicitamente: “Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo.”[232] Assim, “este excelente, ainda que severo, princípio de retribuição judi­cial estava sendo utilizado com desculpa exatamente para aquilo que devia abolir, isto é, a vingança pessoal”.[233]

Em sua resposta, Jesus não contradisse o princípio da retri­buição, pois é um princípio verdadeiro e justo. Mais tarde, no Sermão, ele mesmo o expôs da seguinte maneira: “Não julgueis, para que não sejais julgados” (7:1), e todos os seus ensinamentos sobre a terrível realidade do juízo divino, no último dia, repousam sobre o mesmo princípio fundamental. O que Jesus afirmou na antítese era, antes, que este princípio, embora pertença aos tri­bunais legais e ao juízo de Deus, não é aplicável aos nossos rela­cionamentos pessoais. Estes têm de se basear no amor, não na justiça. Nosso dever para com os indivíduos que nos prejudicam não é a vingança, mas a aceitação da injustiça (v. 39).

Mas qual é exatamente o significado deste chamamento à não-resistência? O verbo grego (anthistëmi) é explícito: é resistir, opor-se, enfrentar ou indispor-se com alguém ou com alguma coisa. Portanto, a quem ou a que somos proibidos de resistir?

Talvez outros usos do verbo no Novo Testamento nos ajudem a formar o contexto do nosso pensamento. De acordo com seu principal uso negativo, não devemos acima de tudo resistir a Deus, à sua vontade, à sua verdade ou à sua autoridade.[234] Entre­tanto, constantemente somos instados a resistir ao diabo. Os apóstolos Paulo, Pedro e Tiago nos dizem que nos oponhamos àquele que é “o maligno” por excelência e a todos os poderes do mal que estão à sua disposição.[235] Então, como é possível que Jesus nos tenha mandado não resistir ao perverso? Não podemos absolutamente interpretar este mandamento como um convite a transigir com o pecado ou com Satanás. A primeira pista para a compreensão correta deste seu ensinamento é reconhecer que as palavras tö ponërö (“o perverso”) aqui são masculinas e não neutras. Não estamos proibidos de resistir ao mal propriamente dito, ao mal abstrato, “ao maligno” (que significa o diabo), mas à pessoa má, ou “os que fazem mal a vocês” (BLH). Jesus não nega que a pessoa é má. Ele não nos pede que imaginemos que essa pessoa seja diferente do que é, nem que fechemos os olhos ao seu mau comportamento. O que ele não nos permite é a vin­gança.

As quatro mini-ilustrações que se seguem, todas se aplicam ao princípio da não-retaliação cristã, e indicam até onde deve ir. São pequenos vividos camafeus extraídos de diferentes situa­ções da vida. Cada um deles apresenta uma pessoa (no contexto, uma pessoa que, sob um certo aspecto, é “perversa”) que pro­cura nos fazer o mal, uma nos batendo na face, outra levando-nos às barras da justiça, a terceira recrutando nossos serviços compulsoriamente e a quarta pedindo-nos dinheiro. Todos têm um toque muito atual, exceto o terceiro, que parece um pou­quinho arcaico. O verbo traduzido para obrigar (angareusei), de origem persa, foi usado por Josefo, referindo-se ao “trans­porte compulsório da bagagem militar”.[236] Poderia ser aplicado hoje a qualquer forma de serviço ao qual fôssemos recrutados e não voluntários. Em cada uma das quatro situações, Jesus disse, nosso dever cristão é abster-nos tão completamente da vingança que até permitamos à pessoa “perversa” dobrar a injúria.

Vamos dizer logo de início, não obstante nosso grande descon­forto, que haverá ocasiões em que não poderemos nos esquivar desta exigência e teremos de obedecê-la literalmente. Pode pa­recer fantástica a idéia de oferecermos a face esquerda a alguém que já nos tenha batido na direita, especialmente quando nos lembramos de que “bater na face direita, com as costas da mão, continua sendo ainda hoje, no Oriente, um golpe insultuoso” e que Jesus provavelmente tinha em mente não um insulto comum, mas “um golpe insultuoso bastante específico: o golpe desferido contra os discípulos de Jesus na qualidade de heréticos”.[237] Mas esse é o padrão que Jesus exige, e é o padrão que ele mesmo cumpriu. As Escrituras do Velho Testamento disse­ram sobre ele: “Ofereci as costas aos que me feriam, e as faces aos que me arrancavam os cabelos; não escondi o meu rosto dos que me afrontavam e me cuspiam.” E na ocasião do aconteci­mento, primeiro a polícia judia cuspiu nele, vendou-lhe os olhos e bateu-lhe no rosto e, então, os soldados romanos fizeram o mesmo. Coroaram-no com espinhos, vestiram-no com um manto imperial, colocaram em sua mão um cetro de cana, zombaram dele: “Salve, rei dos judeus!” Ajoelharam-se diante dele, em reverência zombeteira, cuspiram-lhe no rosto e bateram-lhe com as mãos.[238] E Jesus, com a infinita dignidade do autocontrole e do amor, permaneceu calado. Demonstrou sua total recusa em vingar-se, permitindo que continuassem naquela zombaria cruel por quanto tempo quisessem. Mais ainda, antes de nos apres­sarmos em fugir ao desafio do seu ensino e comportamento, declarando-os como um mero idealismo impraticável, preci­samos lembrar que Jesus chamou os seus discípulos para o que Bonhoeffer intitulou de “comunhão da cruz”, uma participação visível da cruz.[239] Foi assim que Pedro o expressou: “Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos . . . pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje, quando maltratado não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente.”[240] No dizer impressionante de Spurgeon, nós “temos de ser como a bigorna quando homens perversos são martelos”.[241]

Sim, mas uma bigorna é uma coisa, e um capacho é outra. As ilustrações de Jesus e o seu exemplo pessoal não se referem ao covarde que não oferece resistência; ele mesmo desafiou o principal dos sacerdotes, quando foi por este interrogado na corte.[242] Antes, referem-se ao homem forte, cujo controle de si mesmo e cujo amor aos outros é tão poderoso que rejeita absolu­tamente qualquer forma concebível de retaliação. Mais ainda, por mais conscientes que estejamos em nossa determinação de não fugir às implicações do ensinamento de Jesus, não podemos aceitar os quatro pequenos camafeus com literalismo inexpressivo, sem imaginação. Em parte porque não foram apresentados como regulamentos detalhados, mas como ilus­trações de um princípio; e em parte porque devem ser aceitos em apoio ao princípio que pretendem ilustrar. Esse princípio é o amor, o amor altruísta de uma pessoa que, quando ferida, recusa-se a satisfazer o seu ego através da vingança, mas con­templa o supremo bem-estar da outra pessoa e da sociedade, e determina reagir de acordo. Certamente jamais revidará, pa­gando o mal com o mal, pois está totalmente liberta da animosi­dade pessoal. Pelo contrário, procura pagar o mal com o bem. Por isso está pronta a dar o máximo de seu corpo, de suas roupas, de seu trabalho, de seu dinheiro, até onde estes dons forem requisitados pelo amor.

Portanto, o único limite para a generosidade cristã é o limite estabelecido pelo próprio amor. Por exemplo, o apóstolo Paulo “resistiu” (a mesma palavra grega), certa vez, ao apóstolo Pedro “face a face”. O comportamento de Pedro fora errado, mau. Ele fugira da confraternização com os irmãos gentios, contra­dizendo, assim, o Evangelho. Será que Paulo se deu por vencido e deixou que Pedro escapasse impune? Não. Opôs-se, publica­mente, repreendendo-o e denunciando a atitude de Pedro. E acho que temos de defender a atitude de Paulo como verdadeira expressão de amor, pois, de um lado, não havia qualquer animo­sidade pessoal para com Pedro (ele não o espicaçou, nem o in­sultou, nem o machucou), enquanto que, por outro lado, havia um grande amor pelos cristãos gentios, a quem Pedro desres­peitara, e um grande amor pelo Evangelho que Pedro negara.[243]

Do mesmo modo, as ilustrações de Cristo não devem ser to­madas como carta patente de algum tirano, desordeiro, mendigo ou assassino inescrupuloso. Seu propósito foi proibir a vingança, não incentivar a injustiça, a desonestidade ou o vício. Como podem aqueles que procuram, com prioridade suprema, a ex­pansão do reino justo de Deus, contribuir ao mesmo tempo para a expansão da injustiça? O verdadeiro amor, que tanto se im­porta com o indivíduo como com a sociedade, age para deter o mal e promover o bem. E a ordem de Cristo foi “um preceito de amor, não de insensatez”.[244] Ele não ensina a irresponsabilidade que incentiva o mal, mas a paciência que renuncia à vingança. A autêntica não-resistência cristã é a não-retaliação.

As familiares palavras da ERC “não resistais ao mal” têm sido aceitas por alguns como base para um pacifismo inflexível, com a proibição do uso da força em toda e qualquer situação.

Um dos exemplos mais absurdos disto é “o santo louco” que Lutero descreveu, “que deixava que os piolhos o beliscassem, recusando-se a matá-los, com base neste texto, declarando que tinha de sofrer e que não podia resistir ao mal”![245]

Um exemplo mais respeitável, embora também extremo, foi Leon Tolstoy, o reformador social e notável novelista russo do século XIX. Em sua obra O que eu Creio, 1884, ele descreve co­mo, num período de profunda perplexidade pessoal sobre o signi­ficado da vida, ficou “sozinho com o meu coração e o livro mis­terioso”. Enquanto lia e relia o Sermão do Monte, “subitamente compreendi o que antes não compreendia” e o que, segundo sua opinião, toda a Igreja não havia entendido durante 1.800 anos. “Compreendi que Cristo diz exatamente o que declara”, parti­cularmente na ordem “não resistais ao mal”. “Estas pala­vras . . ., entendidas corretamente, foram para mim uma verda­deira chave para tudo o mais.”[246] No segundo capítulo (“O Man­damento da Não-Resistência”), ele interpreta as palavras de Jesus como proibição a toda violência física contra pessoas e instituições. “E impossível confessar, ao mesmo tempo, que Cristo é Deus, cujo ensinamento básico é a não-resistência ao mal, e, consciente e calmamente, trabalhar para o estabeleci­mento da propriedade, dos tribunais legais, do governo e das forças armadas . . .”.[247] E, outra vez, “Cristo proíbe completa­mente a instituição humana de qualquer tribunal legal” porque estes tribunais resistem ao mal e até mesmo retribuem o mal com o mal.[248] Os mesmos princípios se aplicam, diz ele, à polícia e ao exército. Quando os mandamentos de Cristo forem finalmente obedecidos, “todos os homens serão irmãos, e todos estarão em paz uns com os outros . . . Então o Reino de Deus terá che­gado”.[249] Quando, no último capítulo, tenta defender-se da acusação de ingenuidade porque “os inimigos virão … e, se não os enfrentarmos, eles nos matarão”, ele mesmo contradiz sua cândida, na verdade equivocada doutrina de que os seres hu­manos são basicamente sensatos e afáveis. Até os “chamados criminosos e ladrões . . . amam o bem e odeiam o mal como eu”. E quando eles perceberem, através do ensino e das atitudes dos verdadeiros cristãos, que os não-violentos dedicam suas vidas ao serviço dos outros, “nenhum homem será tão insensato a ponto de privar de comida ou matar aqueles que lhe servem”.[250]

Um homem que foi profundamente influenciado pelas obras de Tolstoy foi Gandhi. Já em criança aprendera a doutrina do ahimsa, “a abstenção de prejudicar aos outros”. Mas, depois, como jovem, leu em Londres pela primeira vez o Baghavad Gita e o Sermão do Monte (“Foi esse Sermão que me fez estimar tanto a Jesus”), e depois, na África do Sul, O Reino de Deus Está em Vós, de Tolstoy. Quando retornou à Índia, cerca de dez anos mais tarde, estava resolvido a pôr em prática as idéias deste último. Falando francamente, sua política não foi nem “resis­tência passiva” (que ele considerava negativa demais), nem “desobediência civil” (que era muito desafiante), mas satyagraha ou “a força da verdade”, a tentativa de vencer os seus oponentes pelo poder da verdade e “pelo exemplo do sofrimento volun­tariamente suportado”. Sua teoria aproximava-se muito da anarquia. “O Estado representa violência numa forma concen­trada e organizada.” No estado perfeito que ele imaginava, em­bora existisse polícia, esta raramente usaria da força; o castigo acabaria; as prisões seriam transformadas em escolas; e o litígio seria substituído pela arbitragem.[251]

E impossível não admirar a humildade e a sinceridade de propósito de Gandhi. Mas a sua política tem de ser considerada irrealista. Ele disse que resistiria aos invasores japoneses (se viessem) com uma brigada de paz, mas a sua declaração jamais precisou ser posta à prova. Ele insistia com os judeus que ofere­cessem uma resistência não-violenta a Hitler, mas estes não o atenderam. Em julho de 1940, enviou um apelo a todos os ingleses para uma cessação de hostilidades, no qual declarava: “Tenho praticado, com precisão científica, a não-violência e suas possibilidades por um período ininterrupto de mais de cinqüenta anos. Eu a tenho aplicado em todos os aspectos da vida: vida doméstica, vida institucional, vida econômica e vida política. Não conheço um só caso no qual tenha fracassado.”[252] Mas o seu apelo caiu em ouvidos moucos. Jacques Ellul faz um perceptivo comentário, dizendo que “um fator essencial para o sucesso de Gandhi” foi o povo com quem estava envolvido. De um lado estavam os hindus, “um povo moldado por séculos de preocu­pação com a santidade e a espiritualidade, . . . um povo . . . capaz de entender de maneira única a sua mensagem e aceitá-la” e, do outro lado, os ingleses, que “oficialmente se declaravam uma nação cristã”, que “não podia permanecer insensível à pregação da não-violência de Gandhi”. “Mas coloquem Gandhi na Rússia de 1925 ou na Alemanha de 1933. A solução teria sido simples: depois de alguns poucos dias ele teria sido preso e nin­guém mais ouviria falar dele.”[253]

Nossa principal divergência com Tolstoy e Gandhi, entre­tanto, não se deve ao fato de seus pontos de vista serem irrea­listas, mas de não serem bíblicos. Não podemos aceitar a ordem de Jesus, “não resistais ao mal”, como proibição absoluta contra o uso de toda a força (incluindo a polícia), a não ser que este­jamos preparados para dizer que a Bíblia se contradiz e que os apóstolos interpretaram mal a Jesus. O Novo Testamento ensina que o Estado é uma instituição divina, comissionada (através de suas autoridades executivas) para punir o malfeitor (isto é, “resistir ao mal”, a ponto de fazê-lo pagar a penalidade pelo mal cometido) e recompensar aqueles que fazem o bem.[254] Esta ver­dade revelada não pode ser distorcida, entretanto, para justificar a violência institucionalizada de um regime opressor. Longe disso. Na verdade, o mesmo Estado, o Império Romano, que em Romanos 13 é chamado de “ministro de Deus”, tendo autori­dade dada por Deus, foi descrito em Apocalipse 13 como aliado do diabo, empunhando a autoridade deste. Mas estes dois aspec­tos do Estado complementam-se mutuamente; não são contra­ditórios. O fato de o Estado ter sido instituído por Deus não o preserva do abuso do poder e de tornar-se instrumento de Satanás. Nem a verdade histórica de que o Estado tem às vezes perseguido homens bons altera a verdade bíblica de que a sua verdadeira função é punir os homens maus. E quando o Estado exerce a sua autoridade, concedida por Deus, para punir, é “ministro de Deus, vingador, para castigar quem pratica o mal”.[255]

Como pode este princípio ser aplicado à guerra? Nenhuma resposta astuta ou fácil, a favor ou contra a guerra, parece pos­sível, embora todos os cristãos certamente concordem que, por sua própria natureza, a guerra é horrível e brutalizante. Na­turalmente, também o conceito de “guerra justa” desenvolvi­do por Tomás de Aquino, uma guerra cuja causa, métodos e resultados devem ser “justos”, dificilmente se relaciona com o mundo moderno. Não obstante, gostaria de argumentar, por um lado, que a guerra não pode ser absolutamente repudiada com base no “não resistais ao mal”, assim como não podemos acabar com a polícia e as cadeias; e, por outro lado, que a sua única justificativa (do ponto de vista bíblico) seria como uma es­pécie de ação policial em escala maior. Além disso, é da essência da ação policial ser discriminatória: prender malfeitores específi­cos a fim de lhes fazer justiça. É porque grande parte da ação bé­lica moderna se desvia muito desses pontos, quer na definição dos malfeitores, ou na punição do mal, que as consciências cristãs re­voltam-se contra ela. Certamente, os horrores indiscriminados da guerra atômica, levando os inocentes de roldão junto com os culpados, bastariam para condená-la totalmente.

O ponto que estou examinando é que os deveres e as funções do Estado são totalmente diferentes daqueles do indivíduo. A responsabilidade individual para com o malfeitor foi estipulada pelo apóstolo Paulo, no final de Romanos 12: “Não torneis a ninguém mal por mal (certamente um eco de “não resistais ao perverso”); esforçai-vos por fazer o bem perante todos os ho­mens . . . não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira (de Deus); porque está escrito: A mim me pertence a vin­gança; eu retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se o teu ini­migo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua ca­beça” (isto é, envergonhando-o, farás que se arrependa). Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.”[256] Veremos que Paulo proíbe a prática da vingança, não porque seja errada em si mesma, mas porque é prerrogativa de Deus, não do ho­mem. “A mim me pertence a vingança”, diz o Senhor. O seu propósito é expressar a ira ou a vingança, agora, através dos tribunais legais (como Paulo prossegue escrevendo em Romanos 13) e, finalmente, no dia do juízo.

Esta diferença das funções dadas por Deus aos dois “ministros de Deus” — o estado para punir o malfeitor, e o cristão para não pagar o mal com o mal, mas vencer o mal com o bem — provoca fatalmente uma dolorosa tensão em todos nós, espe­cialmente porque todos nós, em diferentes graus, somos indivíduos e cidadãos do estado, e, portanto, participamos de ambas as funções. Por exemplo, se minha casa for assaltada uma noite e eu pegar o ladrão, tenho a obrigação de fazê-lo sentar-se e lhe dar alguma coisa para comer e beber mas, ao mesmo tem­po, tenho de telefonar à polícia.

Lutero explicou esta tensão, fazendo uma distinção útil entre a nossa “pessoa” e o nosso “ofício”. Fazia parte do seu ensina­mento sobre os “dois reinos”, o qual foi, entretanto, criticado de maneira justa. Ele o extraiu do texto “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Lutero viu nestas palavras uma dupla existência: um reino divino e espiritual, “o reino de Deus”; e um reino secular e temporal, “o reino do mundo” (ou “do imperador”). No primeiro, que ele também chamou de “o reino à mão direita de Deus”, o cristão vive como “pessoa”; no segundo, “o reino à esquerda de Deus”, o cristão ocupa um “ofício” qualquer, como “pai”, “patrão”, “príncipe” ou “juiz”. “É preciso não confundir os dois”, escreveu Lutero, “a pessoa e o seu ofício”.[257]

Eis aqui parte de como interpretou, na prática, essas duas colocações feitas à ordem de não resistir ao mal: um cristão “vive simultaneamente como cristão para com todos, pessoalmente sofrendo toda sorte de coisas no mundo, e, na qualidade de pessoa secular, mantendo, usando e executando todas as fun­ções necessárias exigidas pela lei de seu país ou cidade . . .” “Um cristão não deve resistir ao mal; mas, dentro dos limites de seu ofício como pessoa secular, deve opor-se a todo o mal.” Resumindo, a regra no reino de Cristo é tolerar tudo, perdoar e recompensar o mal com o bem. Por outro lado, no reino do imperador, não deve haver tolerância para com a injustiça mas, antes, defesa contra o mal e castigo para o mesmo, … de acordo com as exigências do ofício ou a posição de cada pessoa.” “Cris­to .. . não disse: ‘Jamais alguém deve resistir ao mal’, pois solaparia completamente todo o governo e toda a autoridade. Mas ele disse: ‘Vocês, vocês não o farão’.”[258]

A diferença precisa que Lutero fez entre os dois “reinos” foi certamente exagerada. “É difícil fugir ao sentimento”, escreve Harvey McArthur, “que este seu ensinamento concede à esfera secular uma autonomia à qual não tem direito”.[259] Ele chegou ao ponto de dizer ao cristão que, no reino secular, “você não tem de consultar a Cristo qual é o seu dever”, pois é o imperador que lhe diz. Mas as Escrituras não nos permitem colocar os dois reinos um contra o outro num contraste desses, como se a Igreja fosse esfera de Cristo governada pelo amor, e o Estado do impe­rador fosse governado pela justiça. Jesus Cristo tem autoridade universal, e nenhuma esfera pode ser excluída do seu governo. Mais ainda, a administração da justiça pelo Estado precisa ser temperada com amor, enquanto que, na Igreja, o amor precisa, às vezes, ser expresso em termos de disciplina. O próprio Jesus falou da necessidade dolorosa de excluir um transgressor obsti­nado e não arrependido.

Não obstante, acho que a distinção que Lutero fez entre a “pessoa” e o “ofício” ou, como diríamos, entre o indivíduo e a instituição, procede. O cristão tem de sentir-se totalmente livre do desejo de vingança, não só na ação, mas também no seu coração; mas, na posição de oficial do Estado ou da Igreja, poderá receber autoridade de Deus para resistir ao mal e puni-lo.

Para resumir o ensinamento desta antítese, Jesus não proibiu a administração da justiça, mas antes proibiu-nos de tomar a lei em nossas próprias mãos. “Olho por olho” é o princípio de justiça que pertence aos tribunais legais. Na vida pessoal, deve­mos nos livrar não só de toda retaliação em palavras e atos, mas também de toda animosidade de espírito. Podemos e de­vemos entregar nossa causa ao Juiz bom e justo, como o próprio Jesus fez,[260] mas não devemos procurar nem desejar qualquer vingança pessoal. Não devemos retribuir o mal, mas suportá-lo e, assim, vencer o mal com o bem.

Portanto, a ordem de Jesus de não resistir ao mal não deveria ser usada para justificar uma fraqueza de caráter, uma transigên­cia moral ou uma anarquia política, ou até mesmo o pacifismo total. Pelo contrário, o que Jesus exige aqui de todos os seus discí­pulos é uma atitude pessoal para com os malfeitores, que seja fruto da misericórdia, não da justiça; que renuncie à retaliação a ponto de expor-se a custosos sofrimentos futuros; que jamais seja governada pelo desejo de causar o mal, mas sempre com a deter­minação de servir e proporcionar o mais alto bem.

Não conheço ninguém que tenha expressado isso em termos mo­dernos mais relevantes do que Martin Luther King, que aprendeu tanto de Gandhi quanto este de Tolstoy, embora ele entendesse os ensinamentos de Jesus melhor do que aqueles. Não temos dúvidas quanto aos sofrimentos injustos que Luther King teve de suportar. O Dr. Benjamin Mays fez uma lista deles no seu fune­ral: “Se algum homem conheceu o significado do sofrimento, este foi King. A sua casa foi bombardeada; viveu, durante treze anos, dia após dia, sob constantes ameaças de morte; foi malicio­samente acusado de ser comunista; foi falsamente acusado de ser um hipócrita . . .; foi esfaqueado por um membro de sua própria raça; foi esmurrado no vestíbulo de um hotel; foi preso mais de vinte vezes; uma vez foi profundamente magoado porque os seus amigos o traíram, e, não obstante, este homem não guardava amargura em seu coração, nem rancor em sua alma, espírito de vingança em sua mente; e ele andou por este mundo pre­gando a não-violência e o poder redentor do amor.”[261]

Um dos seus mais comoventes sermões, baseado em Mateus 5:43-45, intitulava-se “Amando os seus Inimigos” e foi escrito numa cadeia da Geórgia. Lutando com as perguntas por quê e como os cristãos devem amar, descreveu como “o ódio multiplica o ódio … em uma espiral descendente de violência” e que é “exatamente tão perigoso para a pessoa que odeia” como para a sua vítima. Mas, acima de tudo, “o amor é a única força capaz de transformar um inimigo em um amigo”, pois tem poder “criativo” e “redentor”. Ele prosseguiu aplicando o seu tema à crise racial nos Estados Unidos. Por mais de três séculos, os negros americanos sofreram opressão, frustração e discrimi­nação. Mas Martin Luther King e seus amigos estavam deter­minados a “enfrentar o ódio com amor”. Então, ganhariam não somente a liberdade como também seus próprios opressores, “e a nossa vitória será uma vitória dupla”.[262]

 

2. Amor ativo (vs. 43-48)

Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. 44Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; 45para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e vir chuvas sobre justos e injustos. 46Porque se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo? 47E se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo? 48Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.

Já vimos como é gritante a distorção da lei, feita com a instrução: “Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo”, considerando-se o que omite e o que acrescenta ao mandamento. Deliberadamente estreita tanto o padrão do amor (deixando de fora as palavras cruciais “como a ti mesmo”, que elevam imensamente o padrão) quanto os destinatários desse amor (qualificando a categoria de próximo com a exclusão específica dos inimigos e acrescentando a ordem de odiá-los). Digo que a perversão é “gritante” porque lhe falta qualquer justificativa, apesar de os rabinos   a   defenderem   como   interpretação   legítima.   Eles apegavam-se ao contexto imediato da inconveniente ordem de amar o próximo, destacando que Levítico 19 dirigia-se “a toda a congregação do povo de Israel”. São instruções para os israe­litas sobre seus deveres para com seus pais e, de maneira mais ampla, para com seus “próximos” e seus “irmãos”. Não deviam oprimi-los nem roubá-los, qualquer que fosse a sua posição social. “Não aborrecerás a teu irmão no teu íntimo . . . Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo” (vs. 17,18).

Era bastante fácil para a casuística ética (consciente ou incons­cientemente ansiosa em aliviar o peso deste mandamento) torcê-lo para sua própria conveniência. “Meu próximo”, argumen­tavam, “é alguém do meu próprio povo, um companheiro judeu, de minha própria parentela, que pertence a meu povo e à minha religião. A lei nada diz sobre estrangeiros ou inimigos. Portanto, considerando que o mandamento é de amar apenas o meu pró­ximo, posso aceitar como permissão, até mesmo injunção, odiar o meu inimigo, pois ele não é meu próximo para que o ame.” O raciocínio é bastante razoável para convencer aqueles que querem ser convencidos, e para confirmá-los em seu próprio preconceito racial. Mas é uma racionalização, e bastante espe­ciosa. Eles evidentemente ignoravam a instrução anterior, dada no mesmo capítulo, de deixar as respigaduras dos campos e das vinhas “para o natural e para o forasteiro”, que não era judeu mas um estrangeiro residente, bem como a declaração inequívoca contra a discriminação racial, no final do capítulo: “Como o natural será entre vós o estrangeiro que peregrina convosco; amá-lo-eis como a vós mesmos” (v. 34). Do mesmo modo, “a mesma lei haja para o natural e para o forasteiro que pere­grinar entre vós” .[263]

Eles também faziam olhos cegos para os outros mandamentos que regulavam a sua conduta para com os inimigos. Por exem­plo: “se encontrares o boi do teu inimigo, ou o seu jumento, desgarrado, lho reconduzirás. Se vires prostrado debaixo da sua carga o jumento daquele que te aborrece, não o abandonarás, mas ajudá-lo-ás a erguê-lo”.[264] Instruções quase idênticas foram dadas em relação ao boi ou jumento de um irmão,[265] indicando que as exigências do amor eram as mesmas para com os animais que pertenciam a um “irmão” ou a um “inimigo”. Os rabinos também deviam saber muito bem os ensinamentos dos Provérbios, que o apóstolo Paulo citaria mais tarde como ilus­tração de como vencer o mal ao invés de se vingar: “Se o que te aborrece tiver fome, dá-lhe pão para comer; se tiver sede, dá-lhe água para beber”.[266]

Não deixa de ser verdade que os escribas e fariseus podem ter acrescido, como se fosse concessão bíblica, o ódio aos ini­migos, por causa das guerras dos israelitas contra os cananeus ou devido aos salmos imprecatórios. Mas, nesse caso, entenderam mal tanto as guerras como os salmos. Os cananeus eram, segundo estudos modernos sobre o Oriente próximo, povos totalmente corruptos na religião e na cultura. Tão nojentas eram as suas abomináveis práticas que foi dito que a própria terra “vomitou os seus moradores”. Na verdade, se Israel se­guisse os costumes deles, partilharia do seu destino.[267] “As guer­ras de Israel”, escreveu Bonhoeffer, “são as únicas guerras santas da História. Eram as guerras de Deus contra o mundo da ido­latria. Esta inimizade Jesus não a condena, pois que com ela condenaria toda a história de Deus com seu povo. Antes Jesus confirma a antiga aliança … Já não pode mais haver guerras santas”.[268]

Quanto aos salmos imprecatórios, neles o salmista fala não com alguma animosidade pessoal, mas como representante do povo escolhido de Deus, Israel, considerando os ímpios como inimigos de Deus e como seus próprios inimigos apenas por se ter identificado completamente com a causa de Deus; ele os odeia porque ama a Deus e está tão confiante que este “ódio” é um “ódio perfeito”, que invoca a Deus no próximo instante para que sonde o seu coração, para que o esquadrinhe e examine os seus pensamentos, a fim de ver se há neles alguma coisa má.[269] Porque não podemos facilmente aspirar a algo assim é uma indicação não de nossa espiritualidade, mas de nossa falta dela; não de nosso amor superior pelos homens, mas de nosso amor inferior a Deus; na verdade, de nossa incapacidade de odiar os maus com um ódio que é “perfeito” e não “pessoal”.

A verdade é que os homens deveriam constituir o objeto do nosso “amor” e do nosso “ódio” ao mesmo tempo, pois são, simultaneamente, objeto do amor e do ódio de Deus (embora o seu “ódio” seja expresso como “ira”). “Amá-los” ê desejar ardentemente que se arrependam e creiam para serem salvos. “Odiá-los” é desejar, com idêntico ardor, que incorram no juízo divino se, obstinadamente, se recusarem a arrepender-se e crer. Você já orou alguma vez pela salvação de homens perversos (por exemplo, de homens que blasfemam contra Deus ou que ex­ploram os seus companheiros como se estes fossem animais), pedindo que, se recusarem a salvação, o juízo de Deus recaia sobre eles? Eu já. É uma expressão natural de nossa fé em Deus, de que ele é o Deus da salvação e do juízo, e que nós desejamos que a sua vontade perfeita se faça.

Portanto, existe algo assim como o ódio perfeito, exatamente como existe algo assim como a ira justa. Mas é o ódio contra os inimigos de Deus, não os nossos próprios. É totalmente livre de qualquer malevolência, rancor e espírito de vingança, e é ateado exclusivamente pelo amor à honra e glória de Deus. En­contra expressão na oração dos mártires por causa da palavra de Deus e do seu testemunho.[270] E será expresso no último dia por todo o grupo do povo redimido de Deus que, vendo o juízo divino recair sobre os maus, vai concordar com sua justiça per­feita e exclamará em uníssono: “Aleluia! A salvação, e a glória e o poder são do nosso Deus, porquanto verdadeiros e justos são os seus juízos . . . Amém, Aleluia!”[271]

Certamente teremos de concordar que um “ódio” assim puro, contra o mal e contra os homens perversos, isento de qualquer traço de malícia pessoal, não concedia aos rabinos qualquer justificativa possível para modificar a ordem divina de amar os nossos próximos, transformando-a em permissão de também odiar aqueles que nos odeiam, os nossos inimigos pessoais. As palavras “e odiarás o teu inimigo” foram um “acréscimo para­sita”[272] à lei de Deus; eram completamente estranhos àquela passagem. Deus não ensinou «ao seu povo um padrão duplo de moral, um para o próximo e outro para o inimigo.

Assim, Jesus contestou aquela adição como grosseira distorção da lei, que era: Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos (v. 44). Pois o nosso próximo, como ele mais tarde exemplificou tão claramente na parábola do bom samaritano,[273] não é neces­sariamente um membro de nossa própria raça, classe social ou religião. Pode até nem ter qualquer ligação conosco. Pode ser nosso inimigo, que está à nossa procura com um punhal ou com uma arma de fogo. Nosso “próximo”, no vocabulário de Deus, inclui o nosso inimigo. O que o faz ser nosso próximo é simplesmente o fato de ser um ser humano em necessidade, da qual tenhamos tomado conhecimento, estando em nós a possi­bilidade de aliviá-la de alguma forma.

Qual é, então, a nossa obrigação para com o nosso próximo, seja amigo ou inimigo? Temos de amá-lo. Mais ainda, se acres­centarmos as cláusulas da narrativa do Sermão do Monte em Lucas, o nosso amor por ele será expresso em atos, palavras e orações.

Primeiro, nossos atos. “Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam… Amai os vossos inimigos, fazei o bem.. .”[274] Os praticantes do bem (filantropos) são desprezados no mundo de hoje e, para se dizer a verdade, mesmo sendo a filantropia obrigatória e condescendente, ela não é o que Jesus quis dizer com “fazer o bem”. O que ele quis dizer é que o verdadeiro amor não é tanto um sentimento mas, antes, um trabalho prático, humilde, sacrificial. Conforme Dostoyevsky disse: “O amor em ação é muito mais fatal do que o amor em sonhos.” Nosso ini­migo está procurando nos fazer mal; nós temos de procurar o bem dele, pois é assim que Deus nos tem tratado. Foi “enquanto ainda éramos inimigos” que Cristo morreu por nós para nos reconciliar com Deus.[275] Se ele se deu pelos seus inimigos, nós temos de nos dar pelos nossos.

As palavras também podem expressar o nosso amor, palavras dirigidas diretamente aos nossos inimigos e palavras dirigidas a Deus em benefício deles. “Bendizei aos que vos maldizem.” Mesmo que eles invoquem o desastre e a catástrofe sobre as nossas cabeças, expressando em palavras o seu desejo de nos ver cair, devemos retribuir invocando as bênçãos dos céus sobre eles, declarando em palavras que só lhes desejamos o bem. Final­mente, dirigimos nossas palavras a Deus. Ambos os evange­listas registraram esta ordem de Jesus: “Orai pelos que vos per­seguem.”[276] Crisóstomo viu esta responsabilidade de orar por nossos inimigos como “o ápice do autocontrole”.[277] Na verdade, quando voltamos os olhos para as exigências destas duas últimas antíteses, vemos nove degraus ascendentes, com a intercessão no alto. Primeiro, não devemos tomar qualquer iniciativa per­versa. Segundo, não devemos nos vincar do mal. Terceiro, temos de ficar quietos, e, quarto, temos de sofrer a injustiça. Quinto, temos de conceder ao malfeitor mais do que ele exige. Sexto, não devemos odiá-lo, mas (degraus 7 e 8) devemos amá-lo e lhe fazer o bem. Como nosso nono dever, temos de “suplicar a Deus em benefício dele”.[278]

Os comentaristas modernos também têm considerado tal inter­cessão como o auge do amor cristão. “Isto é o máximo”, escreveu Bonhoeffer. “Na oração colocamo-nos ao lado do inimigo, es­tamos com ele, junto dele, por ele diante de Deus.”[279] Mais ainda, se a oração intercessória for uma expressão do nosso amor, desenvolverá ainda mais esse amor. É impossível orar por al­guém sem amar essa pessoa, e é impossível continuar orando por ela sem descobrir que nosso amor está crescendo e amadu­recendo. Não devemos, portanto, esperar para orar pelo inimigo até que ele desperte algum amor em nosso coração. Devemos começar a orar por ele antes de tomarmos consciência de que o amamos, e descobriremos que o nosso amor está começando a brotar e, depois, a florir. Parece que Jesus orou por seus atormentadores enquanto os cravos de ferro estavam sendo intro­duzidos em suas mãos e pés; realmente o tempo imperfeito sugere que ele continuou orando, repetindo sua súplica: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23:34).[280] Se a cruel tortura da crucificação não pôde silenciar a oração de nosso Senhor pelos seus inimigos, que dor, orgulho, preconceito ou preguiça poderia justificar o nosso silêncio?

Sinto que neste capítulo estou citando Bonhoeffer mais do que qualquer outro comentarista. Suponho que isto se deva ao fato de que, apesar de ter escrito antes do começo da guerra, ele percebeu para onde o Nazismo caminhava e nós sabemos qual foi o destino do seu testemunho cristão. Ele citou um certo A. F. C. Villmar de 1880, mas suas palavras soavam tão profé­ticas quanto as do próprio Bonhoeffer: “Os mandamentos do amor ao próximo e da renúncia à vingança ficarão bem evidentes na luta divina que está iminente . . . Todo aquele que con­fessar o nome de Deus vivo será excluído da sociedade por causa desta confissão, será perseguido de cidade em cidade, será agre­dido fisicamente, maltratado e, eventualmente, assassinado. Está iminente uma perseguição geral aos cristãos . . . Tempos virão em que elevaremos nossas mãos em oração . . . Será a oração do amor mais íntimo para com esses perdidos que nos cercam e nos olham com ódio, com as mãos já erguidas para o golpe de misericórdia … A Igreja que de fato aguarda o Senhor, que compreende os sinais decisivos dos tempos, há de lançar-se à oração do amor com todas as suas forças da alma, com todas as forças conjugadas de sua vida santificada. “[281]

Tendo mostrado que o nosso amor pelos nossos inimigos expressar-se-á em atos, palavras e orações, Jesus prossegue decla­rando que só então provaremos conclusivamente de quem somos filhos, pois só então estaremos exibindo um amor como o amor de nosso Pai celestial. Porque ele faz nascer o seu sol (a propó­sito, observe a quem o sol pertence!) sobre maus e bons, e vir chuvas sobre justos e injustos (v. 45). O amor divino é amor indiscriminado, para com os bons e maus indistintamente. Os teólogos (segundo Calvino) chamam a isto de “graça comum” de Deus. Não é a “graça salvadora”, que leva os pecadores ao arrependimento, à fé e à salvação; mas a graça demonstrada para com toda a humanidade, para com o arrependido e para com o não-arrependido; para com o crente e para com o incré­dulo, igualmente. Esta graça comum de Deus expressa-se, en­tão, não no dom da salvação, mas nos dons da criação, e nas não menos importantes bênçãos da chuva e do sol, sem as quais não poderíamos comer, nem poderia a vida no planeta con­tinuar. Isto, então, deve ser o padrão do amor cristão. Devemos amar como Deus, não como os homens.

Pois se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Qual seria o crédito? “Até os pecadores amam aos que os amam.”[282] Os homens decaídos não são incapazes de amar. A doutrina da depravação total não significa (e jamais significou) que o pecado original deixou o homem incapaz de fazer qual­quer coisa boa, mas, antes, que todo o bem que faz está até certo ponto manchado pelo mal. Os pecadores não redimidos podem amar. O amor paterno, o amor filial, o amor conjugai, o amor entre amigos, todos estes, que tão bem conhecemos, são experiências normais de homens e mulheres sem Cristo. Até os publicanos (os mesquinhos cobradores de impostos que, por causa de sua extorsão, tinham a reputação de gananciosos) amavam a quem os amava. Até os gentios (aqueles “cães”, como os judeus os chamavam, esses intrusos que odiavam os judeus e que desviavam o olhar ao verem um deles na rua) até eles se saúdam entre si. Nada disso estava sendo posto em dúvida.

Mas todo o amor humano, até o mais elevado, o mais nobre e o melhor, está até certo ponto contaminado pelas impurezas do interesse próprio. Nós, os cristãos, somos especificamente chamados para amar os nossos inimigos (amor no qual não há interesse próprio), e isto torna-se impossível sem a graça sobre­natural de Deus. Se amamos apenas aqueles que nos amam, não somos melhores do que os vigaristas. Se cumprimentamos apenas os nossos irmãos e irmãs, apenas os nossos companheiros cristãos, não somos melhores do que os pagãos; eles também se cumprimentam uns aos outros. A pergunta de Jesus foi: O que vocês estão fazendo mais do que os outros? (v. 47). Esta simples palavra, mais, foi o ponto culminante do que ele estava dizendo. Não basta aos cristãos parecer-se com os não-cristãos; nossa vocação ê para ultrapassá-los em virtude. Nossa justiça tem de exceder (perisseusê . . . pleion) a dos fariseus (v. 20) e o nosso amor deve ultrapassar, ser mais do que (perisson) o dos gentios (v. 47). Bonhoeffer explica bem isso: “O fator especificamente cristão consiste no ‘extraordinário, no perisson, no invulgar, não natural . . . É o muito mais, o muito superior. O natural é to auto (a mesma coisa) tanto para gentios como para cristãos; o especificamente cristão começa com o perisson … O essencialmente cristão consiste no ‘extraordinário’.”[283]

E o que é operisson, este “mais” ou “extra” que os cristãos devem exibir? Bonhoeffer responde assim: “É o próprio amor de Jesus Cristo, o amor que sofrendo e obedecendo vai à cruz . . . A essência, o extraordinário do cristianismo é a cruz.”[284] O que ele escrever é verdade. Mas, para sermos mais precisos, a ma­neira como Jesus o expôs declara que este “super-amor” não é o amor dos homens, mas o amor de Deus que, pela graça co­mum, concede o sol e a chuva aos ímpios. Portanto, sede vós (o “vós” é enfático, fazendo a distinção entre os cristãos e os não-cristãos) perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste (v. 48). O conceito de que o povo de Deus deve imitar a Deus e não aos homens não é novo. O livro de Levítico repete cerca de cinco vezes este mandamento como um refrão: “Eu sou o Senhor vosso Deus: portanto . . . sereis santos, porque eu sou santo.”[285] Mas, aqui, Cristo nos chama para sermos “perfeitos”, não apenas “santos”.

Alguns mestres que ensinam a santidade têm erigido sobre este versículo grandes sonhos quanto à possibilidade de se atin­gir nesta vida um estado de perfeição sem pecado. Mas as pala­vras de Jesus não podem ser forçadas para significar algo assim sem provocar discordância no Sermão, pois ele já indicou nas bem-aventuranças que a fome e a sede de justiça são uma carac­terística perpétua dos seus discípulos[286] e, no capítulo seguinte, ele nos ensina a orar constantemente “perdoa-nos as nossas dívidas”.[287] A fome de justiça e a oração pelo perdão, sendo con­tínuas, são indicações claras de que Jesus não esperava que seus seguidores se tornassem moralmente perfeitos nesta vida. O contexto mostra que a “perfeição” à qual ele se refere rela­ciona-se com o amor, esse perfeito amor de Deus que é demons­trado até mesmo àqueles que não o retribuem. Na verdade, os mestres nos dizem que a palavra aramaica que Jesus teria usado significava “tudo-abrangente”. O versículo paralelo da narrativa de Lucas sobre o Sermão confirma isso: “Sede misericordiosos, como também ê misericordioso vosso Pai.”[288] Somos chamados para ser perfeitos em amor, isto é, para amar até os nossos ini­migos com o amor misericordioso e abrangente de Deus.

O chamado que Cristo nos faz é novo, não apenas porque é uma ordem para sermos “perfeitos”, mais do que “santos”, mas também por causa da descrição que faz do Deus que de­vemos imitar. No Velho Testamento encontramos sempre: “Eu sou o Senhor, que vos faço subir da terra do Egito, para que eu seja vosso Deus; portanto vós sereis santos, porque eu sou santo.” Mas, agora, nos dias do Novo Testamento, não é mais ao único Redentor de Israel que somos chamados a seguir e obedecer; mas ao Pai celeste (vs. 45, 48). E nossa obediência virá dos nossos corações como manifestação de nossa nova natureza; pois somos filhos de Deus, através da fé em Jesus Cristo, e podemos de­monstrar de quem somos filhos apenas quando exibimos a seme­lhança familiar, somente quando nos tornamos pacificadores como ele é (v. 9), apenas quando amamos com um amor todo-abrangente como o seu (vs. 45, 48).

As duas últimas antíteses da série revelam uma progressão. A primeira é uma ordem negativa: Não resistais ao perverso; a segunda é positiva: Amai os vossos inimigos e procurai o seu bem. A primeira é um chamado para uma não-retaliação pas­siva, a segunda para um amor ativo. Ou, nas palavras de Agos­tinho: “Muitos têm aprendido a oferecer a outra face, mas não sabem como amar a pessoa que os esbofeteou.”[289] Portanto, temos de ir além da paciência, até o serviço; além da recusa de retribuir o mal, até a determinação de vencer o mal com o bem. Alfred Plummer resumiu as alternativas como admirável sim­plicidade: “Retribuir o bem com o mal ê demoníaco; retribuir o bem com o bem é humano; retribuir o mal com o bem é di­vino.”[290]

Através de toda a sua exposição, Jesus apresenta-nos os mo­delos alternativos com os quais contrasta a cultura secular à contracultura cristã. Arraigada na cultura não-cristã está a noção de retribuição, a retribuição tanto do mal como do bem. A primeira é óbvia, pois significa vingança. Mas a segunda, às vezes, é sobrelevada. Jesus expressou-a com a frase “fazer o bem aos que vos fazem o bem”.[291] Portanto, a primeira diz: “Você me prejudicou, e eu vou lhe fazer o mesmo”, e a segunda: “Você me fez um benefício, e eu lhe farei outro”, ou (mais coloquial­mente) “amor com amor se paga”. Portanto, a retribuição é o método do mundo; a vingança, de um lado, e a recompensa, de outro, devolvendo injúrias e devolvendo favores. Então fica­mos quites, nada devendo a ninguém, e acertamos as nossas contas. É o expediente do orgulhoso que não suporta ficar de­vendo nada a ninguém. É uma tentativa de ordenar a sociedade através de uma justiça dura e imediata que nós nos adminis­tramos, de modo que ninguém consegue, de forma alguma, ser melhor do que nós.

Mas isso não funciona no reino de Deus! Os pecadores, os gentios e os cobradores de impostos comportam-se assim. É o máxi­mo que eles podem atingir. Mas esse perdão não é suficiente­mente alto para os cidadãos do reino de Deus: o que vocês fazem mais do que os outros?, Jesus pergunta (v. 47). Portanto, o mode­lo que ele coloca diante de nós como alternativa do mundo à nos­sa volta é o Pai que está acima de nós. Considerando que ele é bondoso para com o mau e o bom, igualmente, seus filhos tam­bém o devem ser. A vida da velha e decaída humanidade baseia-se na justiça rude, que se vinga das injúrias e retribui os favores. A vida da nova e redimida humanidade baseia-se no amor divino, recusando-se. à vingança, mas vencendo o mal com o bem.

Jesus acusou os fariseus por duas sérias restrições ao amor. Naturalmente eles criam no amor. Todas as pessoas crêem no amor. Sim, mas não o amor por aqueles que os tenham mal­tratado, e nem tampouco o amor pelos gentios intrusos. O espí­rito do farisaísmo continua difuso. É o espírito da vingança e do racismo. O primeiro diz: “Eu amo gente agradável, que não faz mal a ninguém, mas não vou me calar diante daqueles que me prejudicam.” O segundo diz: “Eu amo meus amigos e pa­rentes, mas não esperem que eu ame quem eu não conheço.” Na verdade, Jesus espera que os seus discípulos façam exata­mente aquelas coisas que as pessoas acham que não podem ser esperadas de ninguém que tenha a cabeça no lugar. Ele nos convoca a renunciar a todas aquelas restrições convenientes que gostamos de impor ao amor (especialmente a vingança e o ra­cismo), para amarmos de maneira todo-inclusíva e construtiva, como Deus.

Examinando todas as seis antíteses, torna-se claro qual é a justiça “melhor” para a qual os cristãos são chamados. E uma justiça profunda, que vem do coração onde o Espírito Santo gravou a lei de Deus. É um fruto novo que exibe a novidade da árvore, vida nova desabrochando da nova natureza. Portanto, não temos liberdade para esquivar-nos ou fugir das sublimes exigências da lei. Esquivar-se à lei é um passatempo dos fariseus; a característica dos cristãos é um ávido apetite para a justiça, uma contínua fome e sede dela. E esta justiça, quer seja expressa na pureza, na honestidade ou na caridade, demonstrará a quem pertencemos. Nossa vocação cristã não ê para imitar o mundo, mas o Pai. E é por meio dessa imitação que a contracultura cristã se torna visível.

Mateus 6:1-6, 16-18
A religião do cristão: não hipócrita, mas real

 

Jesus começou a falar no monte, descrevendo nas bem-aventuranças os elementos essenciais do caráter cristão, e prosseguiu indicando, através das metáforas do sal e da luz, a influência para o bem que os cristãos exercerão na comunidade, se pos­suírem esse caráter. Descreveu, então, a justiça do cristão, que deve exceder à justiça dos escribas e fariseus na aceitação de todas as implicações da lei de Deus, sem esquivar-se de coisa alguma e sem criar limites artificiais. A justiça do cristão é uma justiça sem limites. Deve ter liberdade de penetrar além dos nossos atos e palavras, até o nosso coração, pensamentos e moti­vações, e deve nos dirigir até mesmo nessas partes escondidas e secretas.

Depois, Jesus continua a ensinar sobre a “justiça”. O capí­tulo 6 começa (literalmente) com “Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens”. A palavra usada nos me­lhores manuscritos é dikaiosuné,  a mesma de 5:6 e 20. Mas muito embora a palavra seja a mesma, a ênfase mudou de lugar. Antes, a “justiça” estava relacionada com a bondade, a pureza, a honestidade e o amor; agora, relaciona-se com práticas tais como esmolas, oração e jejum. Assim, Jesus passa da justiça moral do cristão para a sua justiça “religiosa”. A maior parte das versões reconhece esta mudança de assunto. A ERAB diz: “Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens”, e a BLH: “Cuidado! Não pratiquem seus deveres religiosos em público a fim de serem vistos pelos outros.”

É importante reconhecer que, de acordo com Jesus Cristo, a “justiça” tem estas duas dimensões, a moral e a religiosa. Algumas pessoas falam em comportamento como se achassem que sua maior obrigação na vida cristã estivesse na esfera da ativi­dade religiosa, quer em público (freqüência à igreja) ou em par­ticular (exercícios devocionais). Outros reagiram tão fortemente contra essa superenfatização da piedade, que falam de Cristia­nismo “sem religião”. Para eles, a igreja é a cidade secular, e a oração um encontro cheio de amor com os seus vizinhos. Mas não há necessidade de se escolher entre a piedade e a morali­dade, entre a devoção religiosa na igreja e o serviço ativo no mundo, entre o amor a Deus e o amor ao nosso próximo, já que Jesus ensinou que a “justiça” cristã autêntica inclui as duas coisas.

Mais ainda, nas duas esferas da justiça, Jesus profere seu chamado insistente a seus discípulos para que sejam diferentes. Em Mateus 5, ele ensina que a nossa justiça deve ser maior do que a dos fariseus (porque eles obedeciam à letra da lei, en­quanto a nossa obediência deve incluir o nosso coração) e maior também (na forma do amor) do que a dos pagãos (porque eles se amam uns aos outros, enquanto o nosso amor deve incluir nossos inimigos também). Mas em Mateus 6, no que se refere à justiça “religiosa”, ele traça os mesmos dois contrastes. Ele fala primeiro da ostentação religiosa e diz: Não sereis como os hipócritas (v. 5). Depois prossegue referindo-se ao formalismo mecânico dos pagãos e diz: Não vos assemelheis, pois, a eles (v. 8). Assim, novamente, os cristãos têm de ser diferentes, tanto dos fariseus quanto dos pagãos, dos religiosos e dos irreligiosos, da igreja e do mundo. Que os cristãos não devem se conformar com o mundo é um conceito familiar no Novo Testamento. O que muitas vezes passa desapercebido é que Jesus também viu (e previu) o mundanismo da própria igreja, e exortou os seus discípulos a não se conformarem tampouco com a igreja formal, constituindo, pelo contrário, uma comunidade cristã distinta em sua vida e prática, separada da religião organizada, uma ecclësiola (igrejinha) na ecclesia. A diferença essencial na reli­gião como na moralidade é que a justiça cristã autêntica não é uma simples manifestação, mas uma coisa escondida no coração.

6:1 Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles; doutra sorte não ter eis galar­dão junto de vosso Pai celeste.

A advertência fundamental de Jesus é contra o praticar a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles. A primeira vista, estas palavras parecem contradizer o seu man­damento anterior: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam . . .”[292] Nos dois versículos, ele fala de praticar boas obras “diante dos homens” e, em ambos, o objetivo fica declarado, isto é, ser “vistos” por eles. Mas, no primeiro caso, ele ordena que o façam, enquanto que, no outro, ele o proíbe. Como resolver esta discrepância? A contradição ê apenas verbal, não substancial. A pista está no fato de Jesus falar sobre diferentes pecados. Foi nossa covardia humana que o levou a dizer: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens”, e a nossa vaidade humana que o fez dizer que tomás­semos o cuidado de não praticar nossa piedade diante dos ho­mens. A. B. Bruce resume a questão muito bem, escrevendo que devemos “mostrar quando tentados a esconder” e “esconder quando tentados a mostrar”.[293] Nossas boas obras devem ser pú­blicas para que a nossa luz brilhe; nossa devoção religiosa deve ser secreta para não nos vangloriarmos dela. Além disso, a fina­lidade de ambas as instruções de Jesus é a mesma, isto é, a glória de Deus. Por que devemos manter secreta a nossa piedade? É para que essa glória seja dada a Deus e não aos homens. Por que devemos fazer a nossa luz brilhar e praticar abertamente as boas obras? Para que os homens possam glorificar ao nosso Pai celestial.

Os três exemplos de justiça “religiosa” apresentados por Jesus — as esmolas, a oração e o jejum — aparecem de alguma forma em todas as religiões. Destacam-se, por exemplo, no Alcorão. Certamente esperava-se de todos os judeus que dessem esmolas aos pobres, que orassem e jejuassem; e todos os judeus devotos O faziam. Evidentemente, Jesus esperava que os seus discípulos fizessem o mesmo, já que ele não começou cada parágrafo di­zendo: “Se vocês derem esmolas, se orarem, se jejuarem, então façam assim . . .”, mas “Quando” vocês o fizerem . . . (vs. 2, 5, 16). Ele tomou como certo que assim os seus discípulos agiriam.

Mais ainda, este trio de obrigações religiosas expressa, num certo grau, nossa obrigação para com Deus, para com os outros e para com nós mesmos, pois dar esmolas é procurar servir ao nosso próximo, especialmente ao necessitado. Orar é buscar a face de Deus e reconhecer a nossa dependência dele. E jejuar (isto é, abster-se de alimentos por razões espirituais) é, pelo menos em parte, um modo de autonegação e autodisciplina. Jesus não levantou a questão se os seus discípulos iam se ocupar destas coisas mas, presumindo que o fariam, ensina-lhes por quê e como fazê-lo.

Os três parágrafos seguem um padrão idêntico. Em imagens pitorescas e deliberadamente humorísticas, Jesus pinta um quadro do hipócrita religioso. É o quadro da ostentação. Esse tal recebe a recompensa que deseja, o aplauso dos homens. Com este, ele contrasta o cristão, que age em segredo, e que deseja, em recompensa, tão somente a bênção de Deus, que é o seu Pai celeste e que vê em segredo.

 

1. A esmola cristã (vs. 2-4)

Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que eles já rece­beram a recompensa. 3Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua esquerda o que faz a tua direita; 4para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai que vê em secreto, te recompensará.

O Velho Testamento ensina muito sobre a compaixão para com os pobres. A palavra grega para esmola no versículo 2 (eleèmo-suné) significa um ato de misericórdia ou piedade. Conside­rando que o nosso Deus é um Deus misericordioso, como Jesus acabou de enfatizar, “benigno até para com os ingratos e maus”,[294] o seu povo deve também ser bom e misericordioso. Jesus obvia­mente esperava que os seus discípulos fossem doadores generosos. Suas palavras condenam “a egoísta sovinice de muitos”, como diz Ryle.[295]

Mas só generosidade não basta. Nosso Senhor está preocu­pado do começo ao fim deste Sermão com as motivações, com os pensamentos escondidos no coração. Em sua exposição do sexto e do sétimo mandamentos, ele mostra que ambos, o homi­cídio e o adultério, podem ser cometidos no coração, sendo que a ira injustificada é uma espécie de homicídio do coração e os olhares concupiscentes uma espécie de adultério do coração. Na questão das esmolas, ele tem a mesma preocupação sobre os pensamentos secretos. A questão não é tanto sobre o que a mão está fazendo (passando algum dinheiro ou um cheque), mas o que o coração está pensando enquanto a mão age. Há três possibilidades: ou estamos querendo o louvor dos homens, ou preservamos o nosso anonimato mas silenciosamente congratulamo-nos pelo que fizemos, ou estamos apenas desejosos da aprovação de nosso Pai divino.

Uma fome voraz pelo louvor dos homens era o pecado habitual dos fariseus. “Vós . . . aceitais glória uns dos outros”, Jesus lhes disse, “e contudo, não procurais a glória que vem do Deus único”.[296] Semelhantemente João, o evangelista, comentou: “Amaram mais a glória dos homens, do que a glória de Deus.”[297] Tão insaciável era o apetite deles pelos elogios humanos que prejudicava totalmente suas esmolas. Jesus ridicularizou o modo como eles as transformavam num acontecimento público. Ele descreve um fariseu pomposo a caminho do templo ou da sina­goga, onde vai depositar o seu dinheiro numa caixa especial, ou indo levar uma esmola aos pobres. Na sua frente, marcham os tocadores de trombeta, rapidamente atraindo a multidão com suas clarinadas. “Eles davam a entender, sem dúvida”, comenta Calvino, “que era para chamar a atenção dos pobres, pois desculpas nunca faltam; mas era perfeitamente óbvio que buscavam os aplausos e os elogios”.[298] Realmente não importa se os fariseus às vezes agiam assim literalmente, ou se Jesus estava pintando uma caricatura engraçada. De qualquer forma, ele estava condenado a nossa ansiedade infantil por ser grandemente estimados pelos homens. Como Spurgeon disse: “Ficar com um centavo em uma das mãos e uma trombeta na outra é atitude de hipócrita.”[299]

E “hipocrisia” é a palavra que Jesus usou para caracterizar essa exibição. No grego clássico, hupokrités era, primeiro, um orador e, então, um ator. Assim, figuradamente, a palavra pas­sou a ser aplicada a qualquer pessoa que trata o mundo como se fosse um palco onde ela executa um papel. Deixa de lado a sua verdadeira identidade e assume uma identidade falsa. Já não é mais ela mesma, mas disfarça-se, personalizando alguma outra pessoa. Usa uma máscara. No teatro, não há mal algum ou mentira da parte dos atores que executam os seus papéis. E uma situação convencional. O auditório sabe que veio assistir a uma peça; não é iludido. O problema com o hipócrita religioso, por outro lado, é que deliberadamente pretende enganar as pessoas. E como um ator na sua representação (de modo que o que vemos não é a pessoa real, mas um papel, uma máscara, um disfarce), mas é totalmente diferente do ator neste sentido: participa de alguma prática religiosa, que é uma atividade real, e a transforma em algo diferente daquilo que é na realidade, isto é, numa peça faz-de-conta, numa exibição teatral diante de um auditório. E tudo é feito para receber aplausos.

É fácil ridicularizar aqueles judeus fariseus do primeiro século. Nosso farisaísmo cristão não é tão engraçado. Nós não contra­tamos uma fanfarra para tocar toda vez que contribuímos para uma igreja ou uma obra de caridade. Mas, usando a metáfora familiar, gostamos de “tocar a nossa própria trombeta”. Faz bem ao nosso ego ver o nosso nome nas listas de contribuintes de obras de caridade e de mantenedores de boas causas. Caímos exatamente na mesma tentação: chamamos a atenção para a nossa esmola para sermos “glorificados pelos homens”.

Dessas pessoas que buscam a glória dos homens, Jesus disse com ênfase: já receberam a recompensa. O verbo traduzido por “receberam” (apechö) era, naquele tempo, um termo téc­nico usado nas transações comerciais; significava “receber uma quantia total e dar um recibo por ela”.[300] Era freqüentemente usado nos papiros. Portanto, os hipócritas que procuram aplausos não hão de recebê-los, mas “já terão recebido toda a recom­pensa”.[301] Nada mais têm a receber, nada mais que o juízo no último dia.

Tendo proibido a seus discípulos de contribuírem para os necessitados na maneira ostentosa dos fariseus, Jesus lhes diz, agora, qual a forma cristã, que é uma maneira secreta. Ele a expressa através de outra negativa: Tu, porém, ao dares esmola, ignore a tua esquerda o que faz a tua direita; para que a tua esmola fique em secreto. A mão direita é normalmente a mão da atividade. Assim, Jesus presume que vamos usá-la ao dar a nossa esmola. Então, ele acrescenta que a nossa mão esquerda não deve ficar olhando. Não é difícil captar o significado. Não só não devemos contar a outras pessoas sobre a nossa contri­buição cristã mas, num certo sentido, não devemos sequer contar a nós mesmos. Não devemos ser autoconscientes da nossa es­mola, pois essa atitude rapidamente deteriora-se em justiça própria. Tão sutil é a injustiça do coração que é possível tomar­mos passos deliberados para manter nossa esmola em segredo, e simultaneamente ficarmos pensando nisso com um espírito de autogratificação.

Seria difícil exagerar a perversidade disso, pois a esmola é uma atividade real que envolve gente real com necessidades reais. Seu propósito é aliviar o desespero dos necessitados. A palavra grega para o ato de dar esmolas, como já vimos, indica que é uma obra de misericórdia. Pois é possível transformar um ato de misericórdia em um ato de vaidade, de modo que a nossa motivação principal não seja o benefício da pessoa que recebe a oferta, mas o nosso próprio. O altruísmo foi desalojado por um egoísmo deformado.

Portanto, a fim de “mortificar” ou condenar à morte nossa vaidade iníqua, Jesus insiste conosco para que mantenhamos a nossa esmola em segredo, tanto dos outros como também de nós mesmos. “Com a frase ‘ignore a tua esquerda o que faz a tua direita’ “, escreve Bonhoeffer, “proclama-se a morte do velho homem”,[302] pois o egocentrismo pertence à vida do velho homem; a nova vida em Cristo é de incalculável generosidade. Naturalmente, não é possível obedecer a esta ordem de Jesus com precisão literal. Se mantemos uma contabilidade e plane­jamos nossas contribuições, como devem fazer todos os cristãos conscientes, temos de saber quanto estamos ofertando. Não podemos fechar os olhos ao assinarmos os nossos cheques! Nâo obstante, logo depois que a oferta for decidida e feita, deve­remos esquecê-la imediatamente para estarmos em harmonia com o ensinamento de Jesus. Não deveremos ficar pensando nela a fim de nos deleitarmos, nem nos orgulharmos sobre a generosidade, a disciplina ou o zelo por retidão da nossa oferta. A dádiva cristã deve ser marcada pelo auto-sacrifício e pela abnegação, não pela autogratificação.

O que deveríamos procurar, quando damos aos necessitados, não ê o louvor dos homens, nem um alicerce para a nossa auto-aprovação mas, antes, a aprovação de Deus. Isto implica na referência que nosso Senhor fez das mãos direita e esquerda. “Com esta expressão”, escreveu Calvino, “ele quis dizer que devemos ficar satisfeitos por termos a Deus como única teste­munha”.[303] Embora possamos manter a oferta em segredo diante dos outros e, até certo ponto, de nós mesmos, não podemos es­condê-la de Deus. Nenhum segredo fica encoberto diante dele. Teu Pai que vê em segredo, te recompensará.

Algumas pessoas rebelam-se contra este ensinamento de Jesus. Elas dizem que não esperam recompensa, seja qual for, de pes­soa alguma. Mais do que isto, acham que a promessa que nosso Senhor fez de recompensar é incoerente. Como pode ele proibir o desejo do louvor dos outros ou de nós mesmos para, depois, incentivar-nos a procurar o de Deus? Naturalmente, dizem, isto só muda a forma da vaidade. Será que não poderíamos dar simplesmente pela necessidade de dar? Buscar o louvor de quem quer que seja — dos homens, do ego ou de Deus — é prejudicar o ato, acham.

A primeira razão por que tais argumentos estão errados rela­ciona-se com a natureza das recompensas. Quando as pessoas dizem que a idéia da recompensa lhes é desagradável, sempre suspeito de que o quadro que têm em mente é a concessão de prêmios numa escola, com os troféus de prata cintilando na mesa sobre o estrado e todo o mundo batendo palmas! O contraste não foi estabelecido entre a esmola secreta e a recompensa pública, mas entre os homens, que não vêem nem recompensam a esmola, e Deus, que faz as duas coisas.

C. S. Lewis escreveu sabiamente em um ensaio intitulado “O Esplendor da Glória” (The Weight of Glory) o seguinte: “Não devemos ficar perturbados com os incrédulos que dizem que esta promessa de recompensa torna a vida cristã um negócio mercenário. Há diferentes tipos de recompensa. Existe a recom­pensa que não tem conexão natural com as coisas que se faz para recebê-la, e é totalmente estranha aos desejos que deveriam acompanhar aquelas coisas. O dinheiro não é a recompensa natural do amor; é por isso que dizemos que um homem é mer­cenário quando se casa com uma mulher por causa do dinheiro dela. Mas o casamento é a recompensa apropriada para quem realmente ama, e este não é mercenário quando o deseja.” Do mesmo modo, poderíamos dizer que uma taça de prata não é uma recompensa muito apropriada para um escolar que estu­dou muito, mas uma bolsa para a universidade seria o ideal. C. S. Lewis assim conclui este argumento: “As devidas recom­pensas não são simplesmente adicionadas à atividade pela qual foram concedidas, mas são a própria atividade em consu­mação.”[304]

Qual é, então, a “recompensa” que o Pai celeste dá àquele que faz a sua dádiva em secreto? Não é pública nem, necessa­riamente, futura. Provavelmente a única recompensa que o ver­dadeiro amor deseja quando dá ao necessitado é ver o alívio deste. Quando, por meio de suas dádivas, o faminto é alimen­tado, o nu é vestido, o doente é curado, o oprimido é libertado e o perdido é salvo, o amor que provocou a dádiva fica satis­feito. Esse amor (que é o próprio amor de Deus expresso através do homem) traz consigo as suas próprias alegrias secretas e não espera outra recompensa.

Resumindo, nossas dádivas cristãs não devem ser feitas nem diante dos homens (na esperança de que comecem a bater pal­mas), nem diante de nós mesmos (com a nossa mão esquerda aplaudindo a generosidade da nossa mão direita), mas “diante de Deus”, que vê o íntimo de nosso coração e nos recompensa com a descoberta de que, usando as palavras de Jesus, “Mais bem-aventurado é dar que receber.”[305]

 

2. A oração do cristão (vs. 5 e 6)

E, quando orardes, não sereis como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. 6Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, e, fechada a porta, orarás a teu Pai que está em secreto; e teu Pai que vê em secreto, te recompensará.

Neste segundo exemplo de justiça “religiosa”, Jesus descreve dois homens orando. Novamente, a diferença básica é entre a hipocrisia e a realidade. Ele põe em contraste o motivo das orações e as suas recompensas.

O que ele diz sobre os hipócritas parece ótimo à primeira vista: “gostam de orar”. Mas infelizmente não é da oração que eles gostam, nem do Deus a quem supostamente estão orando. Não, eles gostam de si mesmos e da oportunidade que a oração pública lhes dá de se exibirem.

Naturalmente, a disciplina da oração regular é uma coisa boa; todos os judeus devotos oravam três vezes por dia, como Daniel.[306] E não havia nada de errado em ficar de pé para orar, pois era a posição costumeira dos judeus para isto. Nem estavam necessariamente errados quando oravam nos cantos das praças ou nas sinagogas, se sua motivação fosse acabar com a segre­gação da religião e expressar que reconheciam Deus estar pre­sente mesmo fora dos lugares santos, isto é, na vida secular cotidiana. Mas Jesus desmascarou as suas verdadeiras moti­vações, quando ficavam de pé na sinagoga ou nas ruas com as mãos erguidas para os céus, a fim de serem vistos dos homens. Por trás da sua piedade, espreitava o seu orgulho. O que real­mente desejavam era o aplauso. E o conseguiam. “Já receberam a recompensa.”

O farisaísmo religioso não está morto. A acusação de hipo­crisia tem sido jogada inúmeras vezes sobre nós, os freqüentadores de igrejas. É possível ir à igreja pelos mesmos motivos errados que levavam o fariseu à sinagoga: não para adorar a Deus, mas para obter uma reputação de piedade. É possível vangloriar-nos de nossas devoções particulares pelo mesmo motivo. O que se destaca é a perversidade de toda prática hipó­crita. Dar louvor a Deus, tal como dar esmolas aos homens, é um ato autêntico por si só. Um outro motivo qualquer destrói os dois. Degrada o serviço prestado a Deus e aos homens a uma espécie desprezível de auto-serviço. A religião e a caridade trans­formam-se em uma exibição. Como podemos fingir que estamos louvando a Deus, quando, na realidade, estamos preocupados com o louvor dos homens?

Como, então, os cristãos devem orar? Entra no teu quarto, e, fechada a porta, orarás, disse Jesus. Devemos fechar a porta para não sermos perturbados e distraídos, mas também para fugir aos olhos dos homens e para ficarmos a sós com Deus. Só então podemos obedecer à ordem seguinte do Senhor: Orarás a teu Pai que está em secreto, ou, como a Bíblia de Jerusalém esclarece: “que está naquele lugar secreto”. Nosso Pai está lá, à nossa espera. Nada destrói mais uma oração do que olhares furtivos para os espectadores humanos, como também nada a enriquece mais do que o senso da presença de Deus. Pois ele não vê a nossa aparência externa, apenas o coração; não a pessoa que está orando, apenas o motivo por que o faz. A essência da oração cristã é buscar a Deus. Por trás de toda oração verda­deira está a conversa com Deus, que se inicia assim:

“Ao meu coração me ocorre: Buscai a minha presença; Buscarei, pois, Senhor, A tua presença.”[307]

Nós o buscamos para reconhecê-lo tal como ele é, Deus, o Cria­dor; Deus, o Senhor; Deus, o Juiz; Deus, nosso Pai celestial através de Jesus Cristo, nosso Salvador. Desejamos encontrá-lo no lugar secreto a fim de nos ajoelharmos diante dele em hu­milde adoração,  amor e confiança.  Então, Jesus prossegue, “teu Pai que vê em secreto, te recompensará.” R. V. G. Tasker destaca que a palavra grega para “quarto” no qual devemos nos retirar para orar (tameion) “era empregada para designar a sala-depósito onde podiam guardar-se os tesouros”. A impli­cação pode ser, então, que “já existem tesouros à sua espera” quando for orar.[308] Naturalmente, as recompensas secretas da oração são tantas, que não se poderiam enumerar. Nas palavras do apóstolo Paulo, quando clamamos “Aba, Pai”, o Espírito Santo dá testemunho ao nosso espírito de que realmente somos filhos de Deus, e recebemos forte certeza de sua paternidade e amor.[309] Ele nos ilumina com a luz do seu rosto e nos dá a paz.[310] Ele refrigera a nossa alma, satisfaz a nossa fome, mitiga a nossa sede. Sabemos que não somos mais órfãos, porque o Pai nos adotou; não somos mais filhos pródigos, porque fomos per­doados; não estamos mais perdidos, porque voltamos para casa.

A ênfase de nosso Senhor sobre a necessidade do segredo não deve ser levada a extremos. Interpretá-lo com literalismo rígido seria incorrer no próprio farisaísmo contra o qual ele está nos advertindo. Se todas as nossas orações fossem mantidas em segredo, teríamos de desistir de ir à igreja, de orar em família e nas reuniões de oração. Sua referência aqui é à oração parti­cular. As palavras gregas estão no singular, como indica a ERAB: “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, e, fechada a porta, orarás a teu Pai.” Jesus ainda não falara sobre a oração pública. Quando o faz, diz-nos para orarmos no plu­ral, “Nosso Pai”, e ninguém pode fazer esta oração sozinho, em segredo.

Em lugar de ficarmos preocupados com a técnica do sigilo, precisamos lembrar-nos de que o propósito da ênfase de Jesus sobre o “segredo” na oração é purificar nossas motivações. Assim como devemos dar nossas ofertas com amor genuíno pelas pes­soas, também devemos orar com genuíno amor a Deus. Jamais deveríamos usar tais exercícios como um piedoso disfarce para o narcisismo.

 

3. O jejum do cristão (vs. 16-18)

Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos ho­mens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa,17Tu porém, quando jejuares, unge a cabeça e lava o rosto; 18com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e, sim, ao teu Pai em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.

Os fariseus jejuavam “duas vezes por semana”,[311] às segundas e às quintas-feiras. João Batista e seus discípulos também jejua­vam regularmente, até mesmo “com freqüência”, mas os discí­pulos de Jesus não jejuavam.[312] Por que então, nestes versículos do Sermão do Monte, Jesus não só esperava que seus segui­dores jejuassem, mas também deu instruções sobre como fazê-lo? Eis aqui uma passagem comumente ignorada. Suspeito que alguns de nós vivemos nossa vida cristã como se estes versículos tivessem sido arrancados de nossas Bíblias. A maioria dos cris­tãos destaca a necessidade da oração diária e da contribuição sacrificial, mas poucos insistem no jejum. O Cristianismo evan­gélico, em particular, cuja ênfase característica está na religião interior, do coração e do espírito, tem dificuldade em render-se a uma prática física exterior como o jejum. Não é um hábito do Velho Testamento, perguntamos, ordenado por Moisés para o Dia da Expiação, e exigido após o retorno do exílio da Babi­lônia em outros dias do ano, mas agora revogado por Cristo? Não vieram perguntar a Jesus: “Por que os discípulos de João e os discípulos dos fariseus jejuam, mas os teus discípulos não jejuam?” E o jejum não é uma prática católico-romana, a ponto de a igreja medieval elaborar um calendário sofisticado de “dias de festa” e “dias de jejum”? Não está também associado a um ponto de vista supersticioso da missa e da “comunhão em jejum”?

Podemos dizer “sim” a todas estas perguntas. Mas ê fácil sermos seletivos em nosso conhecimento e uso das Escrituras e da história da Igreja. Eis alguns outros fatos que devemos considerar: o próprio Jesus, nosso Senhor e Mestre, jejuou por quarenta dias e quarenta noites, no deserto; em resposta à per­gunta que o povo lhe fez, disse: “Dias virão … em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias eles (os meus discípulos) hão de jejuar. [313] No Sermão do Monte ele nos disse como jejuar, pressupondo que o faríamos. E em Atos e nas cartas do No­vo Testamento, temos diversas referências aos apóstolos jejuando. Portanto, não podemos ignorar o jejum como se fosse uma prática do Velho Testamento revogada no Novo, ou como uma prática católica rejeitada pelos protestantes.

Primeiro, então, o que é o jejum? Falando estritamente, é uma total abstenção de alimento. Mas pode ser legitimamente ampliado para uma abstenção parcial ou total, durante períodos de tempo mais curtos ou mais longos. Daí, naturalmente, vem o nome da primeira refeição do dia, “desjejum”, uma vez que “quebramos o jejum” do período da noite, quando não come­mos nada.

Não temos dúvidas de que, nas Escrituras, o jejum se relacio­nava de diversos modos com a renúncia e a autodisciplina. Em primeiro lugar e principalmente, “jejuar” e “humilhar-se diante de Deus” são termos virtualmente equivalentes (por exemplo, SI 35:13; Is 58:3, 5). Às vezes era uma expressão de penitência por pecados passados. Quando as pessoas estavam profunda­mente amarguradas por seu pecado e culpa, choravam e jejua­vam. Por exemplo, Neemias reuniu o povo “com jejum e pano de saco” e “fizeram confissão dos seus pecados”; os habitantes de Nínive arrependeram-se quando Jonas pregou, proclamaram um jejum e vestiram-se de pano de saco; Daniel buscou a Deus “com oração e súplicas, com jejum, pano de saco e cinza”, orou ao Senhor seu Deus e fez confissão dos pecados do seu povo; e Saulo de Tarso, depois de sua conversão, foi levado a penitenciar-se de sua perseguição a Cristo, pois durante três dias não comeu nem bebeu.[314]

Às vezes, mesmo hoje em dia, quando o povo de Deus está convencido do pecado e é levado ao arrependimento, não é coisa fora de propósito que, em sinal de penitência e tristeza, chore e jejue. A homília anglicana intitulada “Das Boas Obras, e do Jejum” dá a entender que esse é o modo de aplicarmos a nós mesmos a palavra de Jesus: “Dias virão em que lhes será tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar.” Refere-se a Cristo, o noivo, que, pode-se dizer, está “conosco” na festa do casamento, quan­do nos regozijamos nele e na sua salvação. Mas o noivo pode ser “tirado” e a festa interrompida quando somos oprimidos pela derrota, pela aflição e pela adversidade. “Então é a hora adequada”, diz a homília, “para o homem humilhar-se diante do Deus Todo-Poderoso, jejuando, chorando e gemendo pelos seus pecados, com um coração contrito.”[315]

Não devemos, entretanto, nos humilhar diante de Deus apenas em arrependimento por pecados passados, mas também na dependência dele para a misericórdia futura. E aqui, novamente, o jejum pode expressar a nossa humildade diante de Deus. Pois se “o arrependimento e o jejum” andam juntos nas Escrituras, “a oração e o jejum” são ainda mais freqüentemente reunidos. Não constitui uma prática regular, pois nem sempre jejuamos quando oramos, mas algo ocasional e especial, quando preci­samos buscar a Deus para orientação ou bênção especial e, en­tão, nos abstemos do alimento e de outras distrações para fazê-lo. Assim, Moisés jejuou no monte Sinai imediatamente depois que foi renovada a aliança pela qual Deus aceitou a Israel como seu povo; Josafá, vendo que os exércitos de Moabe e Amom avançavam sobre ele, “se pôs a buscar ao Senhor; e apregoou jejum em todo o Judá”; a rainha Ester, antes de arriscar a sua vida apresentando-se diante do rei, insistiu com Mordecai que reunisse os judeus e que jejuassem por ela, enquanto ela e suas criadas faziam o mesmo; Esdras proclamou um jejum antes de conduzir os exilados de volta a Jerusalém, “para lhe pedirmos jornada feliz para nós, para nossos filhos e para tudo o que era nosso”; e, como já mencionamos, nosso Senhor Jesus jejuou exatamente antes de começar o seu ministério público; e a igreja primitiva seguiu-lhe o exemplo; a igreja de Antioquia jejuou antes de Paulo e Barnabé serem enviados em sua primeira viagem missionária; e eles próprios, antes de designar anciãos em cada nova igreja que iam organizando.[316] São evidências claras de que empreendimentos especiais exigem orações especiais, e que orações especiais envolvem o jejum.

Ainda há outro motivo bíblico para o jejum. A fome é um dos apetites básicos do homem, e a gula um pecado capital. Portanto, “o domínio próprio” não tem significado se não incluir o controle de nossos corpos, e é impossível sem a autodisciplina. Paulo usa o atleta como exemplo. Para participar dos jogos este tem de estar fisicamente apto, e por isso treina. Seu treinamento inclui a disciplina de um regime alimentar adequado, sono e exercí­cios: “Todo atleta em tudo se domina”. E os cristãos parti­cipantes da competição cristã devem fazer o mesmo. Paulo escreve sobre “esmurrar” o seu corpo (deixando-o todo roxo) e sobre subjugá-lo (conduzindo-o como um escravo).[317] Isto não se refere ao masoquismo (sentir prazer na dor), nem ao falso ascetismo (tal como usar uma camisa áspera ou dormir sobre uma cama de pregos), nem a uma tentativa de ganhar mérito como os fariseus no templo.[318] Paulo rejeitaria todas essas idéias, e nós também. Não temos motivos para “punir” nossos corpos, pois são criação de Deus; mas devemos discipliná-los para que nos obedeçam. E o jejum, sendo uma abstinência voluntária de alimento, é uma forma de aumentar o nosso autocontrole.

Uma outra razão para o jejum poderia ainda ser mencionada, isto é, deliberadamente deixar de participar do que poderíamos comer para partilhá-lo (ou o seu preço) com os subnutridos. Temos apoio bíblico para esta prática. Jó podia dizer que não comeu “o que os pobres desejavam”, pois o partilhou com órfãos e viúvas.[319] Em contraste, quando, através de Isaías, Deus con­denou o jejum hipócrita dos habitantes de Jerusalém, disse que eles procuravam satisfazer o seu próprio prazer, oprimindo seus empregados no dia em que jejuais. Isto significava, em parte, que não havia correlação entre suas mentes e suas ações, entre o alimento a que renunciavam e a necessidade material dos seus empregados. A religião deles era sem justiça ou caridade. Por isso Deus disse: “Não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade . . . deixes livres os oprimidos . . .? . . . Não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados . . .?”[320] Jesus deu a entender alguma coisa parecida quando falou do rico fazendo festas suntuosas todos os dias, enquanto o mendigo jazia à sua porta, desejando ser alimentado com as migalhas que caíam de sua mesa.[321]

Não é difícil encontrar outras aplicações mais atualizadas. No século dezesseis, a Inglaterra abstinha-se de carne em dias determinados e comia peixe em seu lugar, não por prescrição da Igreja mas do Estado, a fim de ajudar a manter “as cidades pesqueiras que bordejavam o mar” e, assim, reduzir “o preço dos gêneros alimentícios e assim ajudar na manutenção dos pobres”.[322] Nos nossos dias, o desespero de milhares de famintos nos países em desenvolvimento é trazido diariamente para as telas de nossos aparelhos de TV. Passar ocasionalmente (ou, melhor, regularmente) com uma refeição mais frugal, ou deixar de tomar uma refeição uma ou duas vezes por semana, e sobre­tudo evitar o excesso de peso e o comer demais são formas de jejum que agradam a Deus porque expressam um sentimento de solidariedade com os pobres.

Portanto, por arrependimento ou por oração, por autodisciplina ou por amor solidário, temos boas razões bíblicas para o jejum. Sejam quais forem as nossas razões, Jesus assumiu que o jejum teria lugar na vida cristã. Ele se preocupou com a nossa contribuição, com a nossa oração e com o nosso jejum para que nós não façamos como os hipócritas, que chamavam a atenção para si mesmos. Eles costumavam desfigurar o rosto e se mos­travam contristados. A palavra traduzida por “desfigurar” (aphanizo) significa literalmente “fazer desaparecer” e portanto “tornar invisível ou irreconhecível”.[323] Eles provavelmente negli­genciavam a higiene pessoal, ou cobriam a cabeça com panos de saco, ou talvez passavam cinza no rosto para ficarem mais pálidos, mais abatidos, mais tristes e, em conseqüência, visivel­mente “santos”. Tudo isso para que o seu jejum fosse visto e conhecido de todos. A admiração dos que passavam por eles seria a única recompensa obtida. “Mas quanto a vocês, meus discípulos”, Jesus prosseguiu, quando jejuarem, unjam a cabeça e lavem o rosto, isto é, “penteiem o cabelo e lavem o rosto”.[324] Jesus não estava recomendando nada fora do comum, como se agora eles tivessem de assumir uma expressão de alegria espe­cial. Pois, como Calvino comentou acertadamente, “Cristo não nos afasta de um tipo de hipocrisia para nos levar a outro”.[325] Ele presumiu que eles se lavavam e se penteavam todos os dias e, nos dias de jejum, fariam como de costume para que ninguém suspeitasse que estavam jejuando. Então, novamente, teu Pai, que vê em segredo, te recompensará. O propósito do jejum não é fazer propaganda de nós mesmos, mas disciplinar-nos; não obter uma reputação, mas expressar a nossa humildade diante de Deus e a nossa preocupação com os outros que estão pas­sando necessidade. Se esses propósitos forem cumpridos, se­remos bem recompensados.

Examinando estes versículos, fica evidente que Jesus esteve fazendo o contraste entre duas alternativas de piedade, a dos fariseus e a cristã. A piedade dos fariseus é ostentosa, motivada pela vaidade e recompensada pelos homens. A piedade cristã é secreta, motivada pela humildade e recompensada por Deus.

Para assimilarmos a alternativa ainda mais claramente, seria útil examinar a causa e o efeito de ambas as formas. Primeiro, o efeito. A religião hipócrita é perversa porque é destrutiva. Vimos que a oração, a contribuição e o jejum são todas ativi­dades autênticas por si mesmas. Orar ê buscar a Deus, dar é servir aos outros, jejuar é disciplinar-se. Mas o efeito da hipo­crisia é destruir a integridade destas práticas, transformando cada uma delas em oportunidades de auto-exibição.

Qual é, então, a causa? Se pudermos isolar isto, poderemos também encontrar o remédio. Embora um dos refrões desta passagem seja “diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles”, não é com os homens que o hipócrita fica obcecado, mas consigo mesmo. “Em última análise”, escreve o Dr. Lloyd-Jones, “nosso único motivo para agradar aos homens que nos rodeiam é agradar a nós mesmos”.[326] O remédio, portanto, é óbvio. Precisamos ter tal consciência de Deus que deixemos de ser autoconscientes. E é nisto que Jesus se concentra.

Talvez eu possa explicar isso dizendo que o absoluto é algo impossível para qualquer um de nós. É impossível fazer, dizer ou pensar alguma coisa sem a presença de espectadores, pois, mesmo quando nenhum ser humano está presente, Deus está nos vendo; não como uma espécie de policial celeste “bisbilhotando” a fim de nos pegar, mas como o nosso amoroso Pai celeste, que sempre está procurando oportunidades para nos abençoar. Portanto, a pergunta é: que espectadores nos são mais importantes, os terrestres ou o celeste, os homens ou Deus? O hipócrita realiza seus rituais “com o fim de ser visto pelos ho­mens”. O verbo grego é theathènai. Isto ê, estão em um teatro, representando. Sua religião é um espetáculo público. O ver­dadeiro cristão também está consciente de que está sendo obser­vado, mas, para ele, o auditório é Deus.

Mas por que, alguém pode perguntar, auditórios diferentes provocam representações diferentes? A resposta é certamente a seguinte: podemos blefar diante de um auditório humano; ele pode ser iludido pela nossa representação. Podemos enganá-lo, dando a impressão de que somos genuínos em nossas dádivas, nossas orações, nosso jejum, quando na realidade estamos apenas representando. Mas de Deus não se zomba; não podemos enganar a Deus. Ele olha para o coração. Por isso, qualquer coisa que façamos para sermos vistos pelos homens somente degrada o nosso ato, enquanto que fazê-lo para ser visto por Deus enobrece-o.

Por isso, devemos escolher nosso auditório com cuidado. Se preferimos espectadores humanos, perderemos nossa integridade cristã. O mesmo acontecerá se nós mesmos nos tornarmos o nosso auditório. Parafraseando Bonhoeffer: “É ainda mais pernicioso se eu mesmo me transformar no espectador de minha representação na oração … Eu posso apresentar um show muito bonito para mim mesmo, na intimidade do meu próprio quar­to.”‘[327] Devemos preferir que Deus seja o nosso auditório. Como Jesus observava as pessoas que colocavam suas ofertas no tesouro do templo,[328] assim Deus nos observa quando ofertamos; quando oramos e jejuamos em secreto, ele está ali, no lugar secreto. Deus odeia a hipocrisia, mas ama a realidade. É por isso que, apenas quando estamos conscientes de sua presença, a nossa dádiva, a nossa oração e o nosso jejum são reais.

Mateus 6:7-15
O oração do cristão:
não mecânica, mas refletida

E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios, porque presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos. 8Não vos assemelheis, pois, a eles; porque Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais. 9Portanto, vós orareis assim:

Pai nosso que estás nos céus,

santificado seja o teu nome;

10 venha o teu reino,
faça-se a tua vontade,

assim na terra como no céu;

11 o pão nosso de cada dia dá-nos hoje;

12  e perdoa-nos as nossas dívidas,

assim como nós temos perdoado aos nossos devedores

13  e não nos deixes cair em tentação;

mas livra-nos do mal. 14 Porque se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; 15se, porém, não perdoardes aos homens (as suas ofensas), tão pouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas.

 

A hipocrisia não é o único pecado a ser evitado na oração; as “vãs repetições”, ou a falta de significado, a oração mecânica é o outro. O primeiro é a tolice dos fariseus, o último, a dos gentios ou pagãos (v. 7). A hipocrisia ê um abuso do propósito da oração, desviando-a da glória de Deus para a glória do ego; a verbosidade é um abuso da própria natureza da oração, rebaixando-a de um real e pessoal acesso a Deus a uma mera recitação de palavras.

Vemos novamente que o método de Jesus é pintar um con­traste vivo entre duas alternativas, a fim de indicar o caminho com mais clareza. Quanto à prática da piedade em geral, ele mostrou o contraste entre o modo de ser dos fariseus (cheios de ostentação e egoístas) e o do cristão (secreto e piedoso). Agora, quanto à prática da oração em particular, ele contrasta o modo pagão da loqüacidade sem significado com a maneira cristã, a comunhão significativa com Deus. Assim, Jesus está sempre chamando os seus discípulos para algo mais elevado que as reali­zações ou feitos daqueles que os cercam, quer sejam pessoas religiosas ou seculares. Ele enfatiza que a justiça do cristão é maior, por ser interior; que o amor cristão é mais amplo, porque inclui os inimigos; e que a oração cristã, por ser sincera e refle­tida, é mais profunda do que qualquer coisa encontrada na comunidade não-cristã.

 

1. O modo pagão de orar

Não useis de vãs repetições, como os gentios, diz ele (v. 7). O verbo grego battalogeõ é raro, não só na. literatura bíblica mas de um modo geral; nenhum outro uso da palavra se conhece além das citações deste versículo. Por isso, ninguém sabe ao certo de onde se deriva e qual é o seu significado. Alguns (como Eras­mo) “supõem que a palavra se deriva de Battus, um rei de Cirene, que diziam ser gago (como Heródoto); outros de Battus, um autor de poemas tediosos e prolixos”.[329] Mas isso é um pouquinho forçado. A maioria o considera como uma expressão onomatopéica, o som da palavra indicando o seu significado. Assim, battarizõ significa gaguejar; e qualquer estrangeiro cuja língua parecesse aos ouvidos gregos como uma interminável repetição da sílaba “bar” era chamado de bárbaros, um bárbaro. Batta­logeõ talvez seja algo semelhante. Assim, não estaríamos errados, se traduzíssemos: “Não fiquem tagarelando como os pagãos.” A conhecida tradução (da ERAB) “não useis de vãs repe­tições”, é enganosa, a não ser que fique claro que a ênfase foi colocada sobre “vãs” e não sobre “repetições”. Jesus não podia estar proibindo toda repetição, pois ele mesmo repetiu sua ora­ção, notavelmente no Getsêmane, quando “foi orar pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras”;[330] a perseverança e até mesmo a importunação na oração também foram recomendadas por ele. Antes, ele está condenando a verbosidade, especialmente daqueles que “falam sem pensar”.[331] Isto quer dizer: “não amontoem palavras vazias”. A palavra descreve toda e qualquer ora­ção que só contenha palavras e nenhum significado, que só venha dos lábios e não do pensamento ou do coração. Battalogia fica explicado no mesmo versículo (v. 7) como polulogia, “muito falar”, isto é, uma torrente mecânica de palavras sem signifi­cado.

Como aplicar a proibição de nosso Senhor aos dias de hoje? Certamente se aplica às “rodas de oração” e muito mais às “bandeirolas de oração” orientais, com as quais o vento, muito con­venientemente, faz a “oração”. Penso que devemos aplicá-la à Meditação Transcendental, pois o próprio Maharishi Mahesh Yogi expressou pesar por sua errada escolha da palavra “medi­tação”. A verdadeira meditação envolve o uso consciente da mente; mas a Meditação Transcendental é uma técnica simples e essencialmente mecânica para o relaxamento, tanto do corpo como da mente. Em lugar de estimular o pensamento, tem o intuito de levar a pessoa ao estado de completa tranqüilidade e inatividade.

Voltando da prática não-cristã para a prática cristã da oração, parece que a condenação de nosso Senhor certamente incluiria a reza com o rosário, com o qual nada acontece além do manejar das contas e do recitar de palavras, sendo que o rosário antes distrai do que faz a pessoa se concentrar na oração. Será que também se aplica à forma litúrgica de culto? Será que os simpa­tizantes do culto formal tradicional são culpados de battalogia? Sim, sem dúvida alguns o são, pois o uso de formas estabelecidas permite que se aproximem de Deus com os lábios, enquanto o coração está longe. Mas também é igualmente possível usar “palavras vazias” na oração improvisada e escorregar para o jargão religioso enquanto a mente vagueia. Resumindo, o que só então poderemos aproximar-nos de nosso amoroso Pai no céu com a devida humildade, devoção e confiança.

Além disso, quando nos tivermos dado ao trabalho de gastar algum tempo orientando-nos na direção de Deus, lembrando-nos do que Deus é: nosso Pai pessoal, amoroso e poderoso; então o conteúdo de nossas orações será radicalmente afetado de duas formas. Primeiro, os interesses de Deus terão prioridade (“teu nome . . ., teu reino . . ., tua vontade”). Segundo, nossas pró­prias necessidades, embora colocadas em segundo plano, serão totalmente entregues a ele (“Dá-nos . . ., perdoa-nos . . ., livra-nos . . .”). Todos sabem que a oração do Pai-Nosso, nessas duas partes, está preocupada em primeiro lugar com a glória de Deus e, depois, com as necessidades do homem. Mas acho que foi Calvino[332] o primeiro comentarista a sugerir um paralelo com os dez mandamentos, pois eles também estão divididos em duas partes e expressam a mesma prioridade: a primeira tábua esboça nossos deveres para com Deus, e a segunda, nossos deveres para com nosso próximo.

Os três primeiros pedidos na oração do Pai-Nosso expressam a nossa preocupação com a glória de Deus em relação ao seu nome, ao seu governo e à sua vontade. Se o nosso conceito de Deus fosse de alguma força impessoal, então, naturalmente, ele não precisaria ter um nome pessoal, governo ou vontade pelo qual devêssemos zelar. Repito, se pensássemos nele como “o máximo dentre de nós mesmos”, ou como “a base de nosso ser”, seria impossível distinguir entre as suas preocupações e as nossas. Mas se ele realmente é “nosso Pai que está nos céus”, o Deus pessoal de amor e poder totalmente revelado em Jesus Cristo, o Criador de tudo, que se preocupa com as criaturas que criou e com os filhos que redimiu, então e só então se torna possível (na verdade, essencial) dar prioridade aos seus interesses e preo­cupar-se com o seu nome, com o seu reino e com a sua vontade. O nome de Deus não é uma simples combinação das letras D, E, U e S. O nome representa a pessoa que o usa, o seu caráter e a sua atividade. Portanto o “nome” de Deus é o próprio Deus, como ele é em si mesmo e se tem revelado. Seu nome já é “santo”, porque é separado e exaltado acima de qualquer outro nome. Mas nós oramos que ele seja santificado, “tratado como santo”, porque desejamos ardentemente que a devida honra lhe seja dada, isto é, àquele cujo nome representa, em nossas próprias vidas, na igreja e no mundo.

O reino de Deus é o seu governo real. Repetimos: como ele já é santo, também é Rei, reinando em soberania absoluta sobre a natureza e sobre a História. Mas quando Jesus veio, anunciou um aspecto novo e especial do governo real de Deus, com todas as bênçãos da salvação e as exigências de submissão que o go­verno divino implica. Orar que o seu reino “venha” é orar que ele cresça à medida que as pessoas se submetam a Jesus através do testemunho da Igreja, e que logo ele seja consumado com a volta de Jesus em glória para assumir o seu poder e o seu reino.

A vontade de Deus é “boa, aceitável e perfeita”,[333] pois é a von­tade de “nosso Pai que está nos céus”, que é infinito em conhe­cimento, em amor e em poder. Portanto, resistir-lhe é loucura; e discerni-la, desejá-la e fazê-la é sabedoria. Assim como o seu nome já é santo e ele já é Rei, também a sua vontade está sendo feita “no céu”. O que Jesus nos incita a orar é que a vida na terra se aproxime o mais possível da vida no céu, pois a expres­são na terra como no céu parece aplicar-se igualmente à santificação do nome de Deus, à propagação do seu reino e à con­sumação da sua vontade.

É comparativamente fácil repetir as palavras da oração do Pai-Nosso como se fôssemos papagaios (ou como “palradores” pagãos). Contudo, fazer esta oração com sinceridade tem impli­cações revolucionárias, pois expressam as prioridades do cristão. Estamos constantemente sob pressão para nos conformarmos ao egocentrismo da cultura secular. Quando isto acontece, fi­camos preocupados com o nosso próprio pequeno nome: gos­tamos de vê-lo gravado em relevo sobre os nossos papéis de carta, ou aparecendo nos cabeçalhos dos jornais, ou de defendê-lo quando é atacado. Também nos preocupa o nosso próprio pe­queno império (chefiando, “influenciando” e manipulando pessoas para fomentarem o nosso ego), e a nossa própria vontade tola (sempre desejando as coisas a seu modo e se aborrecendo quando frustrada). Na contracultura cristã, todavia, nossa prio­ridade máxima não está no nosso nome, no nosso reino ou na nossa vontade, mas em Deus. Fazer tais petições com integri­dade é um teste para sondar a realidade e a profundidade de nossa profissão de fé cristã.

Na segunda metade da oração do Pai-Nosso, o adjetivo pos­sessivo passa de “teu” para “nosso”, quando passamos das coisas divinas para as nossas próprias. Tendo expressado nossa ardente preocupação com a sua glória, expressamos agora nossa hu­milde dependência da sua graça. Quando compreendemos ver­dadeiramente que o Deus a quem oramos é o Pai celeste e o grande Rei, colocamos nossas necessidades pessoais em lugar secundário e subsidiário, sem, contudo, eliminá-las. Deixar de mencioná-las na oração (alegando que não queremos aborrecer a Deus com tais trivialidades) é um grande erro, como também o seria deixar que elas dominassem nossas orações. Visto que Deus é “nosso Pai que está nos céus”, e que nos ama com amor de pai, ele está preocupado com o bem-estar total de seus filhos e deseja que lhe apresentemos as nossas necessidades de ali­mento, de perdão e de livramento do mal, confiando nele.

O pão nosso de cada dia dá-nos hoje. Alguns comentaristas do passado não conseguiam crer que Jesus pretendesse que nosso primeiro pedido fosse literalmente o pão, pão para o corpo. Parecia-lhes impróprio, especialmente depois dos três nobres pedidos iniciais pela glória de Deus, que pudéssemos descer tão abruptamente a uma preocupação tão mundana e material. Por isso alegorizavam a petição. Diziam que o pão a que ele se referia devia ser espiritual. Os primitivos pais da Igreja, tais como Tertuliano, Cipriano e Agostinho, pensavam que a referência era ao “pão invisível da Palavra de Deus”[334] ou à Ceia do Senhor. Jerônimo traduziu, na Vulgata, a palavra grega usada para “cada dia” com o monstruoso adjetivo “supersubstancial”; ele também se referia à Santa Comunhão. Devemos ser agrade­cidos pelo entendimento maior, equilibrado e bíblico dos refor­madores. O comentário que Calvino fez sobre a espiritualização dos pais da igreja foi: “Isto é extremamente absurdo.”[335] Lutero teve a sabedoria de ver que “pão” era um símbolo de “todas as coisas necessárias para a preservação desta vida, como o ali­mento, a saúde do corpo, o bom tempo, a casa, o lar, a esposa, os filhos, um bom governo e a paz”[336] e, provavelmente, deve­ríamos acrescentar que com “pão” Jesus quis se referir às neces­sidades e não aos luxos da vida.

O pedido para que Deus nos “dê” o nosso alimento não im­pede, é claro, que as pessoas ganhem a sua própria vida, que os agricultores tenham de arar, semear e colher a fim de fornecer os cereais básicos, nem nos isenta da ordem de nós mesmos alimentarmos os famintos.[337] Pelo contrário, é uma expressão de dependência máxima de Deus, que normalmente usa meios humanos de produção e de distribuição através dos quais ele realiza os seus propósitos. Mais ainda, parece que Jesus queria que seus discípulos tomassem consciência de uma dependência diária. O adjetivo epiousios em “pão nosso de cada dia” era tão completamente desconhecido dos antigos que Orígenes pensava que os evangelistas o tivessem criado. Moulton e Milligan são da mesma opinião nesta nossa geração.[338] Provavelmente deveria ser traduzido por “deste dia de hoje” ou “do dia seguinte”.[339] Seja qual for a forma correta, é uma oração pelo imediato e não pelo futuro distante. Como A. M. Hunter comenta: “Feita de manhã, esta oração pede o pão para o dia que está começando. Feita à noite, pede o pão de amanhã.”[340] Assim, devemos viver um dia de cada vez.

O perdão é tão indispensável à vida e à saúde da alma como o alimento para o corpo. Por isso, o pedido seguinte é: Perdoa-nos as nossas dívidas. O pecado é comparado a uma “dívida”, porque merece o castigo. Mas quando Deus perdoa o pecado, ele cancela a penalidade e anula a acusação que há contra nós. A adição das palavras como nós temos perdoado aos nossos devedores está mais enfatizada nos versículos 14 e 15, que se seguem à oração e declaram que o nosso Pai nos perdoará se perdoarmos aos outros, mas não nos perdoará se nos recusarmos a perdoar aos outros. Isto certamente não significa que o per­dão que concedemos aos outros garante-nos o direito de sermos perdoados. Antes, Deus perdoa somente o arrependido, e uma das principais evidências do verdadeiro arrependimento é um espírito perdoador. Quando nossos olhos são abertos para ver­mos a enormidade de nossa ofensa cometida contra Deus, as injúrias dos outros contra nós parecem, comparativamente, muitíssimo insignificantes. Se, por outro lado, temos uma visão exagerada das ofensas dos outros, é uma prova de que dimi­nuímos muito a nossa própria. A disparidade entre o tamanho das dívidas é o ponto principal da parábola do credor incompassivo.[341] Sua conclusão é: “Perdoei-te aquela dívida toda (que era imensa) . . .; não devias tu, igualmente, compadecer-te do teu conservo, como também eu me compadeci de ti?” (v. 33).

Os dois últimos pedidos deveriam talvez ser entendidos como os aspectos negativo e positivo de um único pedido: Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal. O pecador cujo mal praticado no passado foi perdoado anseia ser libertado de sua tirania no futuro. O sentido geral do pedido é claro. Mas dois problemas se levantam. Primeiro, a Bíblia diz que Deus não nos tenta (na realidade, não pode nos tentar) com o mal.[342] Portanto, que sentido tem orar que ele não faça o que já pro­meteu nunca fazer? Alguns respondem a esta pergunta inter­pretando “tentação” como “provação”, com a explicação de que, embora Deus jamais nos induza ao pecado, ele prova nossa fé e caráter. Isto é possível. Uma explicação melhor parece-me que é entender “não nos deixes cair” à luz de sua correlativa “mas livra-nos”, e o “mal” deveria ser traduzido por “o maligno” (como em 13:19). Em outras palavras, é o diabo que está sendo considerado, que tenta o povo de Deus a pecar, e do qual precisamos ser “livrados” (rusai).

O segundo problema refere-se ao fato de que a Bíblia diz serem a tentação e a provação duas coisas boas para nós: “Meus ir­mãos, tende por motivo de toda a alegria o passardes por várias provações” ou “tentações”.[343] Se elas são benéficas, por que deveríamos orar para que não ficássemos expostos a elas? A resposta provável é que a oração é mais no sentido de podermos vencer a tentação do que de a evitarmos. Talvez poderíamos parafrasear todo o pedido assim: “Não permitas que sejamos induzidos à tentação que nos possa derrotar, mas livra-nos do maligno”. Assim, por trás dessas palavras que Jesus nos deu para orar, encontramos a implicação de que o diabo é forte demais para nós, que somos fracos demais para enfrentá-lo, mas que o nosso Pai celeste nos livrará se o invocarmos.

Os três pedidos que Jesus coloca em nossos lábios são magnificamente completos. Incluem, em princípio, todas as nossas necessidades humanas: materiais (o pão de cada dia), espirituais (perdão de pecados) e morais (livramento do mal). O que faze­mos, sempre que proferimos esta oração, é expressar nossa de­pendência de Deus em cada setor da vida humana. Além disso, um cristão trinitário é levado a perceber nestes três pedidos uma alusão velada à Trindade, uma vez que é através da criação do Pai e da sua providência que recebemos o nosso pão de cada dia, e é através da morte expiatória do Filho que recebemos o perdão, e através do poder do Espírito que habita em nós que somos livrados do maligno. Não nos causa admiração que alguns manuscritos antigos (embora não os melhores) terminem com a doxologia, atribuindo a este Deus triúno “o reino e o poder e a glória”, os quais somente a ele pertencem.

Parece, portanto, que Jesus deu a Oração do Pai-Nosso como modelo da verdadeira oração, da oração cristã, diferenciando-a das orações dos fariseus e dos pagãos. Na verdade, qualquer pessoa poderia recitar o Pai-Nosso hipócrita ou mecanicamente, ou de ambas as formas. Mas, se pensamos no que dizemos, então a oração do Pai-Nosso é a alternativa divina para as outras duas formas da falsa oração.

O erro dos hipócritas é o egoísmo. Até mesmo em suas orações estão obcecados com a sua própria imagem e com o efeito que ela produzirá naqueles que os observam. Mas, na oração do Pai-Nosso, os cristãos estão obcecados com Deus: com o seu nome, com o seu reino e com a sua vontade, não com o$ nossos nomes, reinos e vontades. A verdadeira oração cristã sempre consiste numa preocupação com Deus e sua glória. Portanto, é exatamente o oposto do exibicionismo dos hipócritas, que usam a oração como veículo de sua própria glória.

O erro do pagão é a irracionalidade. Ele simplesmente pros­segue tagarelando suas palavras litúrgicas sem significado. Ele hão pensa no que está dizendo, pois sua preocupação ê com o Volume, não com o conteúdo. Mas Deus não se deixa impres­sionar com verborragia. Em oposição a esse disparate, Jesus nos convida a levarmos ao conhecimento de nosso Pai celeste, com ponderação humilde, todas as nossas necessidades, expressando, assim, nossa dependência diária dele.

Assim,  a oração cristã contrasta com as alternativas não-cristãs. É teocêntrica (preocupada com a glória de Deus), em contraste com o egocentrismo dos fariseus (preocupados com a Sua própria glória); e é inteligente (expressão de uma depen­dência racional), em contraste com as recitações mecânicas dos pagãos. Portanto, quando nos aproximamos de Deus para orar, não o fazemos hipocritamente como os atores de teatro, que buscam o aplauso dos homens, nem mecanicamente como os pagãos tagarelas, cujo pensamento não acompanha os seus balbucios; devemos fazê-lo de forma racional, humilde e confiante, como criancinhas diante de seu pai.

Veremos que a diferença fundamental entre os diversos tipos de oração está nas imagens fundamentalmente diferentes de Deus que há por trás deles. O erro trágico dos fariseus e dos pagãos, dos hipócritas e dos que não conhecem a Deus está na falsa imagem que têm de Deus. Na verdade, nenhum deles pensa realmente em Deus, pois o hipócrita pensa apenas em si mesmo, enquanto que o pagão pensa em outras coisas. Que tipo de Deus Seria este que poderia interessar-se por tais orações egoístas ou Sem sentido? Será Deus um utensílio que podemos usar para fomentar o nosso próprio status, ou um computador que pode­mos alimentar mecanicamente com as nossas próprias palavras? Voltemo-nos destas noções desonrosas, com alívio, para o ensinamento de Jesus, que disse ser Deus o nosso Pai que está no céu. Precisamos nos lembrar de que ele ama seus filhos com a mais terna afeição, que ele vê os seus filhos até no lugar secreto, que ele conhece os seus filhos e todas as suas necessidades antes que eles lhas apresentem, e que ele age em benefício dos seus filhos com o seu poder celestial e real. Se permitirmos que as Escrituras formem assim nossa imagem de Deus, se nos lem­brarmos do seu caráter e cultivarmos sua presença, jamais ora­remos com hipocrisia mas sempre com integridade, nunca meca­nicamente mas sempre racionalmente, como filhos de Deus que somos.

Mateus 6:19-34
A ambição do cristão:
não a segurança material, mas a direção de Deus

 

Na primeira metade de Mateus 6 (vs. 1-18), Jesus descreve a vida particular do cristão “no lugar secreto” (dando, orando, jejuando); na segunda parte (vs. 19-34) ele trata dos nossos negó­cios públicos no mundo (questões de dinheiro, de propriedades, de alimento, de bebida, de roupa e de ambição). Os mesmos contrastes poderiam ser expressos em termos de nossas respon­sabilidades “religiosas” e “seculares”. Esta diferença é enganosa, porque não podemos separar estes dois aspectos em compartimentos herméticos. Na verdade, o divórcio entre o sagrado e o secular na história da Igreja tem sido desastroso. Se somos cristãos, tudo o que fazemos, por mais “secular” que possa parecer (como fazer compras, cozinhar, fazer cálculos no escritório, etc), é “religioso”, no sentido de que é feito na pre­sença de Deus e de acordo com a sua vontade. Uma ênfase de Jesus neste capítulo é exatamente sobre este ponto, que Deus está igualmente preocupado com as duas áreas da nossa vida: a particular e a pública; a religiosa e a secular. Pois, de um lado, “teu Pai celeste vê em secreto” (vs. 4, 6, 18) e, de outro, “vosso Pai celestial sabe que necessitais de alimento, bebida e roupa” (v. 32).

Ouvimos os mesmos insistentes convites de Jesus, nas duas esferas, o chamado para sermos diferentes da cultura popular: diferentes da hipocrisia do religioso (v. 1-18) e, agora, também diferentes do materialismo do irreligioso (vs. 19-34). Embora no começo do capítulo fossem principalmente os fariseus que estavam na mente de Jesus, agora é ao sistema de valores dos “gentios” que ele nos incita a renunciar (v. 32). Na verdade, Jesus coloca alternativas diante de nós em cada estágio. Há dois tesouros (na terra e no céu, vs. 19-21), duas condições físicas (luz e trevas, vs. 22, 23), dois senhores (Deus e as riquezas, v. 24) e duas preocupações (nosso corpo e o reino de Deus, vs. 25-34). E não podemos pôr os pés em duas canoas!

Mas, como fazer a escolha? A ambição do mundo nos fascina fortemente. O encanto do materialismo é difícil de se quebrar. Nesta seção, Jesus nos ajuda a escolher o melhor. Ele destaca a insensatez do caminho errado e a sabedoria do certo. Como nas seções anteriores, sobre a piedade e a oração, aqui, relativa­mente à ambição, ele coloca o falso e o verdadeiro, um em opo­sição ao outro, de tal modo que nos leva a compará-los e exa­miná-los por nós mesmos.

Este tópico coloca-nos diante da grande urgência da nossa geração. A medida que a população do mundo continua aumen­tando assustadoramente e os problemas econômicos das nações se tornam cada vez mais complexos, os ricos continuam ficando mais ricos e os pobres, mais pobres. Não podemos mais fechar os olhos diante dos fatos. A antiga complacência do Cristianismo burguês foi perturbada. A adormecida consciência social de muitos já foi despertada. Redescobriu-se que o Deus da Bíblia está do lado dos pobres e necessitados. Os cristãos responsáveis sentem desconforto quando pensam na abundância e estão pro­curando desenvolver um estilo de vida simples, que seja adequado face às necessidades do mundo e, por lealdade, de acordo com os ensinamentos e o exemplo do seu Mestre.

 

1. A questão do tesouro (vs. 19-21)

Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; 20mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam nem roubam; 21por­que onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.

Aqui, o ponto para onde Jesus dirige nossa atenção é a durabili­dade comparativa dos dois tesouros. Deveria ser fácil decidir qual dos dois ajuntar, ele dá a entender, porque tesouros sobre a terra são corruptíveis e, portanto, inseguros, enquanto que tesouros no céu são incorruptíveis e, conseqüentemente, seguros. Afinal, se nosso objetivo é ajuntar tesouros, presumivelmente nós nos concentraremos na espécie que vai durar mais e que pode ser armazenada sem depreciação ou deterioração.

E importante enfrentar franca e honestamente a questão: o que Jesus estava proibindo, quando nos disse para não ajuntarmos tesouros para nós mesmos na terra? Talvez seja melhor começarmos com uma lista do que ele não estava (e não está) proibindo. Primeiro, não há maldição alguma quanto às pro­priedades em si; as Escrituras não proíbem, em parte alguma, as propriedades particulares. Segundo, “economizar para dias piores” não foi proibido aos cristãos, nem fazer um seguro de vida, que é apenas uma espécie de economia compulsória auto-imposta. Pelo contrário, as Escrituras louvam a formiga que armazena no verão o alimento de que vai precisar no inverno, e declara que o crente que não faz provisão para a sua família é pior do que um incrédulo.[344] Terceiro, não devemos desprezar mas, antes, desfrutar as boas coisas que o nosso Criador nos con­cedeu abundantemente.[345] Portanto, nem as propriedades, nem a provisão para o futuro, nem o desfrutar dos dons de um Criador bondoso estão incluídos na proibição dos tesouros acu­mulados na terra.

O que está, então? O que Jesus proíbe a seus discípulos é a acumulação egoísta de bens (“Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra”); uma vida extravagante e luxuosa, a dureza de coração que não deixa perceber as necessidades colos­sais das pessoas menos privilegiadas neste mundo; a fantasia tola de que a vida de uma pessoa consiste na abundância de suas propriedades;[346] e o materialismo que acorrenta nossos cora­ções à terra. O Sermão do Monte repetidas vezes refere-se ao “coração” e, aqui, Jesus declara que o nosso coração sempre segue o nosso tesouro, quer para baixo para a terra, quer parao alto para o céu (v. 21). Resumindo, “acumular tesouros sobre a terra” não significa ser previdente (fazer ajuizadas provisões para o futuro), mas ganancioso (como o sovina que acumula e os materialistas que sempre querem mais). Esta é a armadilha contra a qual Jesus nos adverte aqui. “Sempre que o Evangelho é ensinado”, escreveu Lutero, “e as pessoas procuram viver de acordo com ele, surgem duas terríveis pragas: os falsos pre­gadores, que corrompem o ensino, e, então, a Sra. Ganância, que impede um viver justo.”[347]

O “tesouro na terra”, por nós cobiçado, Jesus nos lembra: “A traça e a ferrugem destroem, e … os ladrões o arrombam e roubam” (BLH). A palavra grega para “ferrugem” (brasis) sig­nifica “comer”; pode referir-se à corrosão causada pela ferru­gem, mas também a qualquer peste ou parasita devoradora. Naquele tempo, as traças entravam facilmente nas roupas das pessoas, os ratos comiam os cereais armazenados, pestes ata­cavam o que estivesse debaixo da terra, e os ladrões entravam nos lares e levavam o que fosse possível. Não havia a menor segu­rança no mundo antigo. E para nós, gente moderna, que procu­ramos proteger os nossos tesouros com inseticidas, venenos con­tra ratos, ratoeiras, tintas à prova de ferrugem e arames con­tra ladrões, mesmo assim eles se desintegram na inflação ou na desvalorização ou nos colapsos econômicos. Mesmo que uma parte permaneça através desta vida, nada podemos levar co­nosco para a outra. Jó estava certo: “Nu saí do ventre de minha mãe, e nu voltarei.”[348]

Mas o “tesouro no céu” é incorruptível. Que tesouro é esse? Jesus não explica. Mas podemos dizer com toda certeza que “ajuntar tesouros no céu” é fazer na terra alguma coisa cujos efeitos durem pela eternidade. Jesus não estava, certamente, ensinando uma doutrina de méritos ou um “tesouro de méritos” (como a Igreja Católica medieval ensinava), como se pudés­semos acumular no céu, através de boas obras praticadas na terra, uma espécie de crédito bancário do qual nós e outros pu­déssemos sacar, pois tal noção grotesca contradiz o Evangelho da graça que Jesus e seus apóstolos ensinaram coerentemente. E, de qualquer modo, Jesus estava falando a discípulos que já tinham recebido a salvação de Deus. Parece, antes, referir-se a coisas tais como: o desenvolvimento de um caráter semelhante ao de Cristo (uma vez que todos nós podemos levá-lo conosco para o céu); o aumento da fé, da esperança e da caridade, pois todas elas, segundo Paulo, “permanecem”;[349] o crescimento no conhecimento de Cristo, o qual um dia veremos face a face; a tarefa ativa, por meio da oração e do testemunho, de apresentar outros a Cristo, para que também possam herdar a vida eterna; e o uso de nosso dinheiro nas causas cristãs, que é o único inves­timento financeiro cujos dividendos são eternos.

Todas estas atividades são temporais com conseqüências eternas. Este seria, então, “o tesouro no céu”. Nenhum ladrão pode roubá-lo, e nenhuma praga pode destruí-lo, pois não há traças, nem ratos, nem assaltantes no céu. Portanto, o tesouro no céu é seguro. Medidas de precaução para protegê-lo são des­necessárias. Não precisa de apólices de seguro. É indestrutível. Portanto, parece que Jesus está nos dizendo: “É um investimento seguro para vocês; nada poderia ser mais seguro do que isto. E a única apólice de seguro que jamais perde o seu valor.”

 

2. A questão da visão (vs. 22, 23)

São os olhos a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; 23se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas. Portanto, caso a luz que em ti há sejam trevas, que grandes trevas serão!

Jesus passa da comparativa durabilidade dos dois tesouros para o benefício relativo de duas condições. O contraste agora é entre uma pessoa cega e uma pessoa que tem visão, e, conseqüente­mente, entre as trevas e a luz em que elas respectivamente vivem. São os olhos a lâmpada do corpo. Não é literal, naturalmente, como se fossem uma espécie de janela deixando a luz entrar no corpo; mas é uma figura de linguagem facilmente inteligível. Quase tudo que o corpo faz depende de nossa capacidade de ver. Precisamos ver para correr, para pular, para dirigir um carro, para atravessar uma rua, para cozinhar, para bordar, para pintar. O olho, pelo que é, “ilumina” o que o corpo faz com as mãos e os pés. É verdade que os cegos conseguem enfrentar sua situação maravilhosamente bem, aprendendo a fazer uma porção de coisas sem os olhos, e desenvolvendo suas demais faculdades para compensar a falta de visão. Mas o princípio continua: quem vê anda na luz, enquanto que o cego permanece nas trevas. E a grande diferença entre a luz e as trevas do corpo deve-se a esse pequenino mas complicado órgão, o olho. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas. Na cegueira total, as trevas são completas.

Tudo isto é uma descrição de fatos. Mas também é uma metá­fora. Com bastante freqüência, o “olho” nas Escrituras é equiva­lente ao “coração”. Isto é, “colocar o coração” e “fixar os olhos” em alguma coisa são sinônimos. Um exemplo será suficiente, no Salmo 119. No versículo 10 o salmista escreve: “De todo o coração te busquei; não me deixes fugir aos teus mandamentos” e, no versículo 18: “Desvenda os meus olhos, para que eu con­temple as maravilhas da tua lei.” Semelhantemente, aqui no Sermão do Monte, Jesus passa da importância de se ter o coração no lugar certo (v. 21) para a importância de se ter os olhos bons e sadios.

A argumentação parece ser esta: exatamente como nossos olhos afetam todo o nosso corpo, a nossa ambição (onde fixamos nossos olhos e nosso coração) afeta toda a nossa vida. Exatamente co­mo o olho que vê dá luz ao corpo, uma ambição nobre e sincera de servir a Deus e aos homens aumenta o significado da vida e lança luz sobre tudo que fazemos. Repito: exatamente como a cegueira leva às trevas, uma ambição ignóbil e egoísta (por exemplo, ajuntar tesouros para nós mesmos sobre a terra) faz-nos mergulhar nas trevas morais. Ficamos intolerantes, desumanos, grosseiros, despojando a vida de seu principal significado.

Tudo é uma questão de visão. Se temos visão física, podemos ver o que estamos fazendo e para onde vamos. Da mesma forma, se temos visão espiritual, se nossa perspectiva espiritual está devidamente ajustada, então nossa vida fica cheia de propósito e de incentivo. Mas se a nossa visão se torna anuviada pelos falsos deuses e pelo materialismo, e nós perdemos nosso senso de va­lores, então toda a nossa vida fica em trevas e não podemos ver para onde vamos. Talvez a ênfase esteja, com muito mais força do que já sugeri, na perda da visão causada pela ganância, porque, de acordo com o conceito bíblico, um “olho mau” é um espírito sovina, avarento, e um “olho bom” é o generoso. De qualquer forma, Jesus acrescenta novos motivos para ajuntarmos um tesouro no céu. O primeiro é a sua grande durabili­dade; o segundo resulta dos benefícios atuais, aqui na terra, de uma visão assim.

3. A questão das riquezas (v. 24)

Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um, e amar ao outro; ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.

Jesus explica, agora, que além da escolha entre dois tesouros (onde vamos ajuntá-los) e entre duas visões (onde vamos fixar os nossos olhos) jaz uma escolha ainda mais básica: entre dois senhores (a quem vamos servir). É uma escolha entre Deus e Mamom: “Não podeis servir a Deus e a Mamom” (ERC); isto é, entre o próprio Criador vivo e qualquer objeto de nossa própria criação que chamamos de “dinheiro” (“Mamom” é uma transliteração da palavra aramaica para riqueza). Não podemos servir aos dois.

Algumas pessoas discordam destas palavras de Jesus. Recu­sam-se a ser confrontadas com uma escolha tão rígida e direta, e não vêem a necessidade dela. Asseguram-nos que é perfeita­mente possível servir a dois senhores simultaneamente, por con­seguirem fazer isso muito bem. Diversos arranjos e ajustes pos­síveis parecem-lhes atraentes. Ou eles servem a Deus aos do­mingos e a Mamom nos dias úteis, ou a Deus com os lábios e a Mamom com o coração, ou a Deus na aparência e a Mamom na realidade, ou a Deus com metade de suas vidas e a Mamom com a outra.

Pois é esta solução popular de comprometimento que Jesus declara ser impossível: Ninguém pode servir a dois senhores . . . Não podeis servir a Deus e às riquezas (observe o “pode” e o “não podeis”). Os pretensos conciliadores interpretam mal este ensinamento, pois se esquecem da figura de escravo e dono de escravo que se encontra por trás destas palavras. Como McNeile disse: “Pode-se trabalhar para dois empregadores, mas nenhum escravo pode ser propriedade de dois senhores”,[350] pois “ter um só dono e prestar serviço de tempo integral são da essência da escravidão”.[351] Portanto, qualquer pessoa que divide sua devo­ção entre Deus e Mamom já a concedeu a Mamom, uma vez que Deus só pode ser servido com devoção total e exclusiva. Isto simplesmente porque ele é Deus: “Eu sou o Senhor, este é o meu nome; a minha glória, pois, não a darei a outrem.”[352] Tentar dividir a nossa lealdade é optar pela idolatria.

E quando percebemos a profundidade da escolha entre o Cria­dor e a criatura, entre o Deus pessoal glorioso e essa coisinha miserável chamada dinheiro, entre a adoração e a idolatria, parece inconcebível que alguém faça a escolha errada, pois agora ê uma questão não apenas de durabilidade e benefício compa­rativos, mas sim de valor comparativo: o valor intrínseco de um e a intrínseca falta de valor do outro.

 

4. A questão da ambição (vs. 25-34)

Por isso vos digo: Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que as vestes? 26Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo vosso Pai celeste as sustenta. Porventura, não vaieis vós muito mais do que as aves? 27Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acres­centar um cavado ao curso da sua vida? 28E por que andais an­siosos quanto ao vestuário? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam. 29Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. 30Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós outros, homens de pequena fé? 31Portanto não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? ou: Com que nos vestiremos? 32porque os gentios é que procuram todas estas cousas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas; 33buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas cousas vos serão acrescentadas. 132Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal.

É uma pena que, nas igrejas, esta passagem seja freqüentemente lida isoladamente, fora do seu contexto. E, assim, o significado do Por isso vos digo introdutório perde-se completamente. Portanto, devemos começar relacionando este “por isso”, com o ensinamento que levou Jesus a esta conclusão. Antes de nos convocar a agir, ele nos convoca a pensar. Convida-nos a exa­minar clara e friamente as alternativas que foram expostas, pesando-as cuidadosamente. Queremos acumular tesouros? Então, qual das duas possibilidades é mais durável? Queremos ser livres e objetivos em nossas atividades? Queremos servir ao melhor dos senhores? Então devemos considerar qual é o mais digno da nossa devoção. Apenas depois que tivermos assimilado em nossas mentes a durabilidade comparativa dos dois tesouros (o corruptível e o incorruptível) e o valor comparativo dos dois senhores (Deus e Mamom), estaremos prontos a fazer a escolha. E só depois que tivermos feito a nossa escolha — o tesouro ce­leste, a luz, Deus — estaremos preparados para ouvir as pala­vras que seguem: Por isso vos digo como deveis vos comportar: Não andeis ansiosos pela vossa vida. . . nem pelo vosso corpo. . . buscai, pois, em primeiro lugar o seu reino e a sua justiça (vs. 25, 33). Em outras palavras, nossa escolha básica quanto a qual dos dois mestres desejamos servir afetará radicalmente nossa atitude para com ambos. Não ficaremos ansiosos sobre um deles, já que o rejeitamos, mas nos concentraremos, mente e energia, no outro, a quem escolhemos. E, ao invés de nos perdermos em nossas próprias preocupações, buscaremos  em primeiro lugar aquilo que interessa a Deus.

A linguagem de Cristo sobre a busca (contrastando os gentios no que os seus discípulos devem buscar em primeiro lugar; vs. 32, 33) introduz-nos à questão da ambição. Jesus considerou que todos os seres humanos “buscam” alguma coisa. Não é natural que as pessoas fiquem à deriva, sem alvo na vida, co­mo um plâncton. Precisamos de alguma coisa pela qual viver, algo que dê significado à nossa existência, alguma coisa para “buscar”, alguma coisa sobre a qual colocar o nosso coração e a nossa mente. Embora poucos hoje em dia usem a linguagem dos antigos filósofos gregos, o que nós buscamos, de fato, é aquilo que eles chamavam de “o Bem Supremo”, para lhe dedi­carmos as nossas vidas. Provavelmente, “ambição” é o termo equivalente moderno. E verdade que, no dicionário, esta palavra significa “um forte desejo de alcançar o sucesso” e, portanto, de um modo geral, a sua imagem é ruim, pois tem um sabor egoísta. É neste sentido que Shakespeare, em sua peça “Hen­rique VIII”, faz este apelo a Thomas Cromwell: “Cromwell, eu te desafio, põe de lado a ambição. Por causa desse pecado caíram anjos . . .” Mas a “ambição” pode igualmente referir-se a fortes desejos, altruístas em lugar de egoístas, piedosos ao invés de mundanos. Resumindo, é possível ter “ambições para Deus”. A ambição refere-se aos alvos de nossa vida e ao incentivo que temos de atingi-los. A ambição de uma pessoa é aquilo que a impele: revela a mola principal de suas ações, suas mais secretas motivações. Isto, então, é o que Jesus estava dizendo ao definir, na contracultura cristã, o que devemos buscar “em primeiro lugar”.

Novamente, nosso Senhor simplifica o assunto para nós, redu­zindo em apenas duas as alternativas possíveis de alvos na vida.

Nesta seção, ele as confronta uma com a outra, insistindo com os seus discípulos que não se preocupem com a própria segu­rança (alimento, bebida e vestimentas), pois essa é a obsessão dos “gentios”, que não o conhecem; mas que se preocupem antes com o reino de Deus e com a justiça divina, bem como com a sua propagação e o seu triunfo no mundo.

 

a. Ambição falsa ou secular: nossa própria segurança material A maior parte deste parágrafo é negativa. Três vezes Jesus repete a sua proibição Não andeis ansiosos (vs. 25, 31, 34), ou “Não fiquem aflitos”.[353] E a preocupação que ele nos proíbe é quanto ao alimento, quanto à bebida e quanto à roupa: Que comeremos? Que beberemos? Que vestiremos? (v. 31). Mas esta é precisa­mente “a trindade dos cuidados do mundo”:[354] porque os gentios é que procuram todas estas cousas (v. 32). Basta olhar para a propaganda na televisão, nos jornais e nos transportes públicos para vermos uma vivida ilustração moderna do que Jesus ensi­nou há cerca de dois mil anos atrás.

Há alguns anos recebi um exemplar gratuito de Accent, uma nova revista, muito bem apresentada, cujo sub-título é “A Boa Vida em Foco” (Accent on Good Living). Continha atraentes anúncios de champanha, cigarros, alimentos, roupas, antigüida­des e tapetes, junto com a descrição de um fim-de-semana para compras esotéricas em Roma. Havia artigos sobre como possuir um computador na cozinha; como ganhar uma viagem de luxo por mar ou, em lugar disso, cem dúzias de uísque escocês; e como quinze milhões de mulheres não podem estar erradas na escolha de cosméticos. Prometia, então, no exemplar do mês seguinte, artigos sedutores sobre férias no Caribe, roupa de cama acon­chegante, roupa íntima elegante para o frio, e as delícias da carne de veado e de tâmaras importadas. Do começo ao fim preocupava-se com o bem-estar do corpo e como alimentá-lo, vesti-lo, aquecê-lo, refrescá-lo, relaxá-lo, entretê-lo, enfeitá-lo e estimulá-lo.

Por favor, não me entendam mal. Jesus Cristo não negou nem desprezou as necessidades do corpo. Para se dizer a verdade, foi ele que o criou, e dele ele cuida. E acabou de nos ensinar a orar: “O pão nosso de cada dia dá-nos hoje”. O que, então, ele está a dizer? Está enfatizando que ficar absorto pelo conforto material é uma falsa preocupação. De um lado, não é produtivo (exceto pelas úlceras e pelas preocupações novas que surgem); por outro, não é necessário (porque “vosso Pai celeste sabe que necessitais . . .”, vs. 8 e 32); mas especialmente porque não vale a pena. Indica uma falsa visão dos seres humanos (como se fossem apenas corpos precisando de alimento, água, roupas e casa) e da vida humana (como se fosse apenas um mecanismo fisiológico precisando de proteção, lubrificação e combustível). Uma preocupação exclusiva com alimento, bebida e roupas poderia se justificar apenas se a sobrevivência física fosse tudo nesta vida.  Se vivêssemos apenas para viver, então, sim, o sustento do nosso corpo seria a nossa principal preocupação. Por isso entende-se que, em condições críticas de fome, a luta pela sobrevivência tenha precedência sobre outras coisas. Mas fazê-lo em circunstâncias comuns expressa um conceito reducionista do homem, que é totalmente inaceitável. Degrada-o ao nível dos animais, das aves e das plantas. Mas a grande maioria dos anúncios de hoje é dirigida para o corpo: roupa íntima visando torná-lo mais atraente, desodorantes para mantê-lo perfumado, bebidas alcoólicas para animá-lo quando está cansado . . . Esta preocupação provoca as seguintes perguntas: o bem-estar físico é um objetivo válido para lhe devotarmos nossas vidas? Não tem a vida humana mais significado do que isto? Os gentios é que procuram todas estas comas. Que procurem! Mas, quanto a vocês, meus discípulos, Jesus dá a entender, essas coisas são um alvo absolutamente sem valor, pois não constituem o “Su­premo Bem” da vida.

Agora precisamos esclarecer o que Jesus está proibindo, e que motivos ele dá para essa proibição. Primeiro, não está proi­bindo o pensamento. Pelo contrário, está estimulando-o quando prossegue ordenando-nos a olhar para as aves e flores e “consi­derar” como Deus cuida delas. Segundo, não está proibindo a previdência. Já mencionei como a Bíblia aprova a formiga. Também os passarinhos, os quais Jesus elogiou, fazem provisão para o futuro, construindo ninhos, botando e chocando ovos, e alimentando os filhotes. Muitos migram para climas mais quen­tes antes do inverno (o que é um exemplo notável de previdência, embora instintiva), e alguns até armazenam alimento, como os picanços, que formam a sua própria despensa espetando insetos sobre espinhos. Portanto, não encontramos aqui nada que impeça os cristãos de fazer planos para o futuro ou de dar passos sensatos para a sua realização. O que Jesus proíbe não é o racio­cínio nem a previdência, mas a preocupação ansiosa. Este ê o significado da ordem më merimnate. É a palavra que foi usada em relação a Marta, que estava “distraída” com o serviço da casa; e também em relação à boa semente lançada entre os espi­nhos, abafada pelos “cuidados” da vida; e ainda foi usada por Paulo na injunção: “Não andeis ansiosos de cousa alguma”.[355] É como o Rev. Ryle expressou: “A provisão prudente para o futuro é boa; a fadiga, o desgaste, a ansiedade que atormenta são ruins.”[356]

Por que são ruins? Jesus replica, argumentando que esse tipo de preocupação obsessiva é incompatível, tanto com a fé cristã (vs. 25-30) como com o bom senso (v. 34); mas se detém mais no primeiro ponto.

1. A preocupação é incompatível com a fé cristã (vs. 25-30). No versículo 30 Jesus atinge aqueles que ficam ansiosos por causa de roupa e de comida, chamando-os de “homens de pe­quena fé”. Os motivos que ele apresenta, pelos quais deveríamos confiar em Deus em lugar de ficar ansiosos, são ambos argu­mentos a fortiori (“quanto mais”). Um foi extraído da experi­ência humana e argumenta partindo do maior para o menor; o outro vem da experiência sub-humana (aves e flores) e argu­menta do menor para o maior.

Nossa experiência humana é a seguinte: Deus criou e agora sustenta a nossa vida; ele também criou e continua sustentando o nosso corpo. Este é um fato da experiência diária. Nós não nos fizemos, nem nos mantemos vivos. A nossa “vida” (pela qual Deus é o responsável) é obviamente mais importante do que o alimento e a bebida que nos nutrem. Semelhantemente, o nosso “corpo” (pelo qual Deus também ê responsável) é mais impor­tante do que a roupa que o cobre e aquece. Pois bem, se Deus já cuida do maior (nossa vida e nosso corpo), não podemos con­fiar nele para cuidar do menor (nosso alimento e nossa roupa)? A lógica é inevitável e, no versículo 27, Jesus a reforça com a pergunta: Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida? Não está claro se a última pala­vra dessa pergunta (kêlikia) deveria ser traduzida por “curso da sua vida” (ERAB) ou “estatura” (ERC); pode significar as duas coisas. Acrescentar meio metro à nossa estatura seria um feito realmente notável, embora Deus o faça a todos nós entre a nossa infância e a idade adulta. Acrescentar um período de tempo ao curso de nossa vida também está fora de nosso alcance; um ser humano não pode consegui-lo sozinho. Na verdade, ao invés de alongar a vida, a preocupação “pode muito bem en­curtá-la”,[357] como todos sabemos. Por. isso, exatamente como deixamos essas coisas aos cuidados de Deus (pois certamente estão fora do nosso alcance), não seria sensato confiar nele para as coisas de menor importância, como o alimento e a roupa?

A seguir Jesus volta-se para o mundo sub-humano e argu­menta de outra maneira. Ele usa as aves como ilustração do cuidado divino em alimentar (v. 26) e as flores para ilustrar o seu cuidado no vestir (vs. 28-30). Em ambos os casos, ele nos manda “olhar” ou “considerar”, isto é, pensar sobre os fatos do cuidado providencial de Deus nesses dois casos. Alguns lei­tores sabem que eu mesmo tenho sido, desde a minha meninice, um entusiástico observador de pássaros. Sei, naturalmente, que essa atividade é considerada por alguns como um passa­tempo bastante excêntrico; olham-me com divertimento e con­descendência. Mas declaro que tenho apoio bíblico para esta atividade. “Observai as aves do céu”, disse Jesus! Na verdade, o assunto ê sério, pois o verbo grego nesta ordem de Jesus (emblepsate eis) significa “fixe os olhos em (algo), para enxergar bem”.[358] Quando nos interessamos pelas aves e pelas flores (e devemos, tal como o nosso Mestre, estar conscientes do mundo natural que nos cerca, sendo gratos por ele), ficamos sabendo que os pássaros não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros, mas mesmo assim vosso Pai celeste os sustenta, e que os lírios do campo (anemonas, papoulas, íris e gladíolos, todos têm sido sugeridos como alternativas para os lírios, embora a referência seja generalizada a todas as lindas flores da primavera na Galiléia) . . . não trabalham nem fiam, mas o nosso Pai ce­leste veste assim a todas, ainda mais suntuosamente que Salo­mão, em toda a sua glória. Sendo assim, não podemos confiar nele para nos alimentar e nos vestir, já que temos muito mais valor do que as aves e as flores? Pois ele não veste até a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno?

“Vejam”, escreve Martinho Lutero com muita beleza, “ele está fazendo das aves nossos professores e mestres. E uma grande e permanente vergonha para nós o fato de, no Evangelho, um frágil pardal se tornar teólogo e pregador para o mais sábio dentre os homens . . . Portanto, sempre que você ouvir a voz de um rouxinol, está ouvindo um excelente pregador . . . É como se ele estivesse dizendo: ‘Eu prefiro estar na cozinha do Senhor. Ele fez o céu e a terra, e ele mesmo é o cozinheiro e o anfitrião. Todos os dias ele aumenta e nutre inúmeros passarinhos em sua mão’.”[359] Semelhantemente, desta vez citando Spurgeon: “Maravilhosos lírios, como vocês reprovam o nosso tolo ner­vosismo!” [360]

Não nos tocam estas singelas rimas?

Disse a rolinha ao pardal:

“Gostaria de saber Por que os homens, ansiosos,

Nunca param de correr!”

Respondeu o pardalzinho: “Minha amiga, eu penso assim:

Não sabem que o Pai celeste Cuida de ti e de mim!”

É uma figura encantadora, mas não um reflexo estritamente exato do ensinamento de Jesus, pois ele não disse que as aves têm um Pai celeste, mas sim que nós o temos, e que, se o Criador cuida de suas criaturas, podemos ter certeza de que o Pai também cuidará dos seus filhos.

2. Problemas relacionados com a fé cristã. Preciso, a esta altura, fazer uma digressão para comentar três problemas relacionados com a fé cristã que, segundo Jesus, deve ser como a de uma criança. Todos os três são problemas grandes e só podem ser abordados de leve mas, considerando que eles surgem em nossas mentes por causa da promessa básica de nosso Senhor (de que o Pai celeste vai alimentar-nos e vestir-nos) seria errado fugir deles. Vou especificá-los negativamente, em termos de três liberdades que a fé não toma à luz da promessa de Deus, ou de três imunidades que a sua promessa não nos dá.

Primeiro, os crentes não estão isentos de ganhar a sua própria vida. Não podemos ficar sentados numa poltrona, girando os polegares, murmurando “meu Pai celestial provera”, sem fazer nada. Temos de trabalhar. Como Paulo disse mais tarde: “Se alguém não quer trabalhar, também não coma.”[361] Com sua simplicidade característica, Lutero escreve: “Deus . . . não tem nada a ver com os preguiçosos, com os glutões displicentes; eles agem como se apenas devessem ficar sentados à espera de que Deus lhes atire na boca um ganso assado.”[362]

Jesus usou as aves e as flores como evidências da capacidade de Deus para nos alimentar e vestir, conforme vimos. Mas como Deus alimenta as aves? Poderíamos responder que ele não o faz, pois elas se alimentam sozinhas! Jesus era um observador meticuloso. Ele sabia perfeitamente bem quais são os hábitos alimentares dos pássaros; sabia que alguns comem sementes, outros comem cadáveres e outros comem peixes, enquanto que outros ainda são insetívoros, predadores ou lixeiros. Deus os alimenta a todos. Mas o modo como o faz não é estendendo-lhes uma mão divina cheia de comida, mas providenciando na natu­reza os recursos para que eles se alimentem. Pode-se dizer o mesmo das plantas. “As flores não fazem o trabalho dos homens no campo (‘não trabalham’), nem o trabalho das mulheres em casa (‘não fiam’)”,[363] mas Deus as veste. Como? Não milagrosa­mente, mas através de um processo complexo que arranjou, em que elas extraem do sol e do solo o seu sustento.

O mesmo acontece com os seres humanos. Deus supre, mas nós temos de cooperar. Hudson Taylor aprendeu esta lição em sua primeira viagem à China, em 1853. Quando uma tempestade violenta na costa gaulesa ameaçou o navio, ele achou que seria desonrar a Deus usar um salva-vidas. Por isso, desfez-se do seu. Mais tarde, entretanto, percebeu o seu erro: “O uso de meios não diminui a nossa fé em Deus, e a nossa fé em Deus não im­pede que usemos quaisquer meios que ele tenha fornecido para a realização dos seus propósitos”.[364]

Semelhantemente, Deus não coloca todos os seus filhos na situação do profeta Elias, nem lhes dá alimento milagrosamente por meio de anjos ou corvos mas, antes, através de meios mais naturais: fazendeiros, moleiros, granjeiros, peixeiros, açougueiros, merceeiros e outros. Jesus insiste conosco sobre a necessidade de uma confiança despretenciosa em nosso Pai ce­leste, mas ele sabe que a fé não é ingênua (ignorante das causas secundárias) nem arcaica (incompatível com a ciência moderna). Segundo, os crentes não estão isentos da responsabilidade para com os outros. Digo isso em relação ao segundo problema, que é mais de providência do que de ciência. Se Deus promete alimentar e vestir os seus filhos, por que há tanta gente sub-nutrida e mal vestida? Eu não poderia dizer levianamente que Deus cuida só dos seus próprios filhos, e que os pobres que têm falta de alimento e roupa adequada são todos incrédulos que estão fora do seu círculo familiar, pois certamente há pessoas cristãs em algumas regiões atacadas pela seca e pela fome, as quais passam toda espécie de necessidades. Não me parece haver uma solução simples para este problema. Mas é preciso destacar um ponto importante, isto é, que a principal causa da fome não é a falta da provisão divina, mas uma injusta distribuição por parte do homem. A verdade é que Deus forneceu recursos amplos na terra e no mar. A terra produz plantas que dão sementes e árvores que dão frutos. Os animais, as aves e os peixes que ele criou são frutíferos e multiplicam-se. Mas o homem açambarca, desperdiça ou estraga esses recursos, e não os distribui. Parece significativo que, no próprio Evangelho de Mateus, o mesmo Jesus que aqui afirma que nosso Pai aumenta e veste os seus filhos, mais tarde diz que nós mesmos devemos alimentar os famintos e vestir os nus, e que seremos julgados de acordo com isso. Sempre é importante permitir que as Escrituras interpretem as Escrituras. O fato de Deus alimentar e vestir os seus filhos não nos isenta da responsabilidade de sermos seus agentes para isso. Terceiro, os crentes hão estão isentos das dificuldades. É ver­dade que Jesus proíbe que o seu povo se preocupe. Mas estar livre de preocupações e estar livre de dificuldades não é a mesma coisa. Cristo nos manda deixar de lado a ansiedade, mas não promete que seremos imunes a todos os infortúnios. Pelo con­trário, há em seus ensinamentos muitas indicações de que ele sabia o que era a calamidade. Assim, embora Deus vista a erva do campo, não impede que ela seja cortada e queimada. Deus protege até mesmo os pardais, que são tão comuns e de um valor tão mínimo que se vendem dois por um cruzeiro e cinco por dois cruzeiros, indo mais um de quebra. “Nenhum deles cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai”,[365] disse Jesus. Mas os pardais caem ao chão e são mortos. Sua promessa não foi que eles não cairiam, mas que isto não aconteceria sem o conheci­mento e consentimento de Deus. As pessoas também caem, e os aviões, também. As palavras de Cristo não podem ser tomadas como uma promessa de que a lei da gravidade será revogada em nosso benefício, mas sim que Deus sabe a respeito dos aci­dentes e que ele os permite. Mais ainda, é significativo que, no final deste parágrafo, o motivo por que Jesus diz que não deve­mos ficar inquietos com o dia de amanhã é o seguinte: basta ao dia o seu próprio mal (v. 34). Portanto, haverá “cuidados” (kakia, “males”). A libertação que um cristão tem da ansiedade não se deve a alguma garantia de ausência de cuidados, mas por ser a preocupação (que examinaremos mais tarde) uma in­sensatez, e especialmente pela confiança que temos de que Deus é nosso Pai, que até mesmo a permissão para o sofrimento está dentro da órbita do seu cuidado,[366] e que “todas as cousas coo­peram para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito”.[367]

Esta foi a certeza que fortaleceu o Dr. Helmut Thielicke, ao pregar uma série de sermões sobre o Sermão do Monte na Igreja de São Marcos, em Stuttgart, durante aqueles terríveis anos (1946-1948) imediatamente após a segunda guerra mundial. Freqüentemente aludia ao sonido das sirenes antiaéreas que durante a guerra alertavam o povo de ainda mais devastações e mortes provocadas pelas bombas dos aliados. O que a liber­tação da ansiedade poderia significar em tais circunstâncias? “Conhecemos a visão e o barulho das casas desmoronando em chamas . . . Nossos próprios olhos viram as chamas rubras e nossos próprios ouvidos ouviram os estrondos, os desmorona­mentos e os gritos.” Em tal cenário, ordenar que olhassem para as aves e os lírios poderia parecer muito falso. “Não obstante”, o Dr. Thielicke prosseguiu, “acho que devemos parar e ouvir quando este homem, cuja vida na terra teve muito pouco de ‘passarinhos e flores’, aponta-nos para a despreocupação deles. Será que as tenebrosas sombras da cruz já não se espalhavam sobre esta hora em que ele pregou o Sermão do Monte?”.[368] Em outras palavras, é razoável confiar no amor de nosso Pai celeste, até mesmo nos momentos de dificuldades cruéis, porque temos o privilégio de ver esta revelação em Cristo e na sua cruz.

Portanto, os filhos de Deus não têm a promessa de que ficarão livres do trabalho, nem da responsabilidade, nem das dificuldades, mas apenas da preocupação. Esta, sim, nos é proibida: é incompatível com a fé cristã.

3. A preocupação é incompatível com o bom senso (v. 34). Retor­nando de nossa digressão sobre os problemas da fé, temos agora de destacar que a preocupação é tão incoerente com o bom senso quanto o é com a fé cristã. No versículo 34, Jesus menciona o hoje e o amanhã. Toda a preocupação é sobre o amanhã, quer seja relacionada com a roupa ou o alimento ou qualquer outra coisa; mas toda a preocupação é experimentada hoje. Sempre que ficamos ansiosos, ficamos preocupados no momento pre­sente sobre alguma coisa que vai acontecer no futuro. Entre­tanto, esses temores sobre o amanhã, que sentimos com tanta força hoje, talvez não se concretizem. O conselho popular “não se preocupe, talvez não aconteça nunca”, sem dúvida não é nada simpático, mas perfeitamente verdadeiro. As pessoas se preocupam com os exames, ou com um emprego, ou com o casa­mento, ou com a saúde, ou com algum empreendimento . . . Mas tudo isso é fantasia. “Os temores podem ser mentirosos”; e geralmente o são. Muitas preocupações, talvez a maioria delas, jamais acontecerão.

Portanto, a preocupação é uma perda de tempo, de pensa­mentos e de energia nervosa. Precisamos aprender a viver um dia de cada vez. Devemos, naturalmente, planejar o futuro, mas não nos preocupar com ele. “Vivam um dia de cada vez”,[369] ou “Bastam a cada dia suas próprias dificuldades”.[370] Portanto, por que antecipá-las? Se o fizermos, nós as multiplicaremos, pois, se nossos temores não se concretizarem, teremos nos preo­cupado em vão; no caso de se concretizarem, estaremos nos preocupando duas vezes em vez de uma. De qualquer forma é tolice: a preocupação aumenta a nossa perturbação.

Chegou o momento de fazer uma síntese do que Jesus disse sobre as falsas ambições do mundo. Preocupar-se com coisas materiais, de modo que elas monopolizem a nossa atenção, absorvam a nossa energia e nos atormentem com ansiedade é incompatível com a fé cristã e com o bom senso. É falta de con­fiança em nosso Pai celeste e, francamente, uma estupidez. É isto que os pagãos fazem; mas é totalmente impróprio e indigno para os cristãos. Portanto, assim como Jesus já nos convocou no Sermão para uma justiça maior, para um amor mais amplo e para uma piedade mais profunda, agora ele nos convoca para uma ambição mais alta.

 

b. Ambição verdadeira ou cristã: o reino e a justiça de Deus. É importante examinar os versículos 31, 32 e 33 juntos. O versí­culo 31 repete a proibição contra a ansiedade pelo alimento, pela bebida e pela roupa. O v. 32 acrescenta: Os gentios é que procuram todas estas cousas. Isto mostra que, no vocabulário de Jesus, “procurar” e “ficar ansioso” são intercambiáveis. Ele não está falando tanto de ansiedade, mas de ambição. A ambição dos pagãos está focalizada nas necessidades materiais. Mas isto não pode acontecer com os cristãos, em parte porque vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas, mas, prin­cipalmente, porque estas coisas não constituem objetivo apro­priado ou digno da busca do cristão. Ele deve ter algo diferente, algo mais elevado, como o Bem Supremo, para procurar com toda a energia; não coisas materiais, mas valores espirituais; não o seu próprio bem, mas o de Deus; não alimento e roupa, mas o reino e a justiça de Deus. Isto nada mais é do que a contituidade dos ensinamentos implícitos na oração do Pai-Nosso. De acordo com isso, os cristãos devem reconhecer as necessi­dades do corpo (“o pão nosso de cada dia dá-nos hoje”), embora nossa preocupação prioritária seja com o nome, com o reino e com a vontade de Deus. Não podemos orar o Pai-Nosso até que nossas ambições sejam purificadas. Jesus nos diz para “buscar primeiro o reino de Deus e a sua justiça”; na oração do Pai-Nosso, transformamos esta busca suprema em oração.

1. Buscar primeiro o reino de Deus. Quando Jesus falou do reino de Deus, não se referia à soberania geral de Deus sobre a natureza e a História, mas àquele governo específico sobre o seu próprio povo, o qual ele mesmo inaugurou e que começa na vida de qualquer pessoa quando ela se humilha, se arrepende, crê, submete-se a ele e nasce de novo. O reino de Deus é Jesus Cristo governando o seu povo, com exigências e bênçãos, que desconhecem meios-termos.  “Buscar primeiro”  este reino é desejar, como coisa de primordial importância, a propagação do reino de Jesus Cristo. Tal desejo começará em nós mesmos, até que cada setor de nossa vida (lar, casamento e família, mora­lidade pessoal, vida profissional e ética comercial, saldo ban­cário, imposto de renda, estilo de vida, cidadania) seja subme­tido, prazeirosa e francamente, a Cristo. Esse desejo continuará, em nosso ambiente imediato, com a aceitação da responsabili­dade evangelística para com nossos parentes, colegas, vizinhos e amigos. E também atingirá a preocupação pelo testemunho missionário mundial da Igreja.

Temos, então, de ser claros sobre a verdadeira motivação missionária. Por que desejamos a propagação do Evangelho por todo o mundo? Não por causa de um imperalismo ou triunfalismo iníquo, quer para nós mesmos, para a Igreja ou até mesmo para o “Cristianismo”. Nem apenas porque a evangelização faz parte de nossa obediência cristã (embora o faça). Nem prima­riamente para tornar outras pessoas felizes (embora isso acon­teça). Mas especialmente porque a glória de Deus e do seu Cristo estão em jogo. Deus é Rei, inaugurou seu reino de salvação através de Cristo, e tem o direito de governar a vida de suas cria­turas. Nossa ambição, então, é buscar primeiro o seu reino, acalentar o desejo ardente de que o seu nome receba dos homens a honra a que tem direito.

Conceder prioridade aos interesses do reino de Deus aqui e agora não é perder de vista o seu alvo além da História, pois a presente manifestação do reino é apenas parcial. Jesus falou também de um reino futuro de glória e nos disse que orássemos por sua vinda. Portanto, “buscar primeiro o reino” inclui o desejo e a oração por sua consumação no fim dos tempos, quando todos os inimigos do Reino forem colocados sob os seus pés e o seu reino for incontestável.

 

2. Buscar primeiro a justiça de Deus. Não ficou claro por que Jesus fez distinção entre o seu reino e a sua justiça, como idéias gêmeas, mas de objetivos separados, em nossa prioritária busca cristã. Porque o reino de Deus é um reino justo e, já no Sermão do Monte, Jesus nos ensinou a termos fome e sede de justiça, a estarmos prontos a ser perseguidos por causa dele e a eviden­ciarmos uma justiça maior do que a dos escribas e fariseus. Agora ele nos manda buscar primeiro a justiça de Deus, além de buscar primeiro o reino de Deus.

Vou fazer uma tentativa de explicar a diferença entre os dois. O reino de Deus existe apenas onde Jesus Cristo é consciente­mente reconhecido. Estar no seu reino é sinônimo de desfrutar da sua salvação. Apenas os que nasceram de novo viram e en­traram no seu reino. E buscá-lo em primeiro lugar é propagar as boas novas da salvação em Cristo.

Mas a justiça de Deus é (pelo menos argumentavelmente) um conceito mais amplo do que o reino de Deus. Inclui aquela justiça individual e social à qual se fez referência anteriormente no Sermão. E Deus, sendo ele mesmo um Deus justo, deseja a justiça em cada comunidade humana, não apenas em cada comu­nidade cristã. Os profetas hebreus condenaram a injustiça não só em Israel e Judá, mas também entre as nações pagãs à volta. O profeta Amos, por exemplo, advertiu que o juízo de Deus cairia sobre a Síria, Filistia, Tiro, Edom, Amom e Moabe por causa de sua crueldade na guerra e outras atrocidades, como também cairia sobre o povo de Deus. Deus odeia a injustiça e ama a justiça em qualquer lugar. O Pacto de Lausanne, estru­turado no Congresso sobre Evangelização do Mundo, em julho de 1974, inclui um parágrafo sobre a “responsabilidade social cristã”, que começa assim: “Afirmamos que Deus é o Criador e Juiz de todos os homens. Portanto, partilhamos de sua preocu­pação com a justiça e com a reconciliação de toda a sociedade humana.”

Um dos propósitos de Deus para a sua comunidade nova e redimida é que, através dela, a sua justiça se faça agradável (na vida pessoal, familiar, comercial, nacional e internacional), e por isso a recomenda a todos os homens. Então as pessoas que estão fora do reino de Deus vão vê-la e desejá-la, e a justiça do reino de Deus transbordará, por assim dizer, sobre o mundo dos não-cristãos. Naturalmente a profunda justiça do coração, que Jesus enfatizou no Sermão, é impossível, a não ser nos que foram regenerados; mas certa porção de justiça é possível na sociedade não-regenerada: na vida pessoal, nos padrões fami­liares e na decência pública. Mas o cristão deseja ir muito além disso e ver as pessoas literalmente trazidas para dentro do reino de Deus através da fé em Jesus Cristo. Ao mesmo tempo, não deveríamos nos envergonhar de declarar que, fora do círculo do reino, Deus também prefere a justiça à injustiça, a liberdade à opressão, o amor ao ódio, a paz à guerra.

Se é assim (e não vejo como isso poderia ser contestado), então buscar primeiro o seu reino e a sua justiça pode-se dizer que abrange nossas responsabilidades cristãs evangelísticas e sociais, tanto quanto as metáforas do “sal” e da “luz” de Mateus 5. A fim de buscar primeiro o reino de Deus temos de evangelizar, uma vez que o reino só se propaga quando o evangelho de Cristo é pregado, ouvido, crido e obedecido. A fim de buscar primeiro a justiça de Deus, temos também de evangelizar (pois a justiça interior do coração torna-se impossível de outro modo), mas também temos de nos envolver em atividades e empreendimentos sociais para propagar por toda a comunidade aqueles padrões mais elevados de justiça que são agradáveis a Deus.

Qual é, então, a nossa ambição cristã? Todos nós somos ambi­ciosos de ser ou fazer alguma coisa, geralmente desde os mais tenros anos. As ambições da infância tendem a seguir certos protótipos; por exemplo: ser cowboy, astronauta ou bailarina. Os adultos também têm os seus próprios protótipos; por exem­plo: ficar rico, famoso ou poderoso. Mas, em última análise, só há duas ambições possíveis para os seres humanos. Vimos até agora como Jesus comparou a verdadeira com a falsa am­bição, a secular (“gentia”) com a cristã, a material com a espi­ritual, os tesouros da terra com os tesouros do céu, o alimento e a roupa com o reino e a justiça de Deus. Mas, acima e além de tudo isso, fica um contraste ainda mais fundamental. No final, exatamente como há apenas dois tipos de piedade, a ego­cêntrica e a teocêntrica, também existem apenas dois tipos de ambição: podemos ser ambiciosos para nós mesmos ou para Deus. Não há uma terceira alternativa.

As ambições voltadas para o ego podem ser bastante modestas (o suficiente para comer, beber e vestir, como no Sermão) ou podem ser grandiosas (uma casa maior» um carro mais possante, um salário melhor, uma reputação mais influente, mais poder). Mas, modestas ou não, são ambições dirigidas a mim mesmo: meu conforto, minha riqueza, meu status, meu poder.

As ambições voltadas para Deus,  entretanto,  para serem dignas dele, nunca devem ser modestas. Há algo inerentemente impróprio em se ter pequenas ambições para Deus. Como pode­ríamos nos contentar em que ele adquira só mais um pouquinho de honra no mundo? Não. Quando percebemos que Deus é Rei, então desejamos vê-lo coroado de glória e honra, no lugar a que tem direito, que é o lugar supremo. Então tornamo-nos ambi­ciosos pela propagação do seu reino e da sua justiça por toda parte.

Quando isto constitui genuinamente a nossa ambição predo­minante, então não só todas estas cousas vos serão acrescentadas (isto é, nossas necessidades materiais serão supridas), como também não haverá mal algum em ter ambições secundárias, uma vez que estas serão subservientes à nossa ambição primária e não competirão com ela. Na verdade, só então é que as ambi­ções secundárias tornam-se sadias. Os cristãos deveriam ser zelosos em desenvolver os seus talentos, alargar as suas oportu­nidades, estender a sua influência e receber promoções em seu trabalho, não mais para fomentar o seu próprio ego ou edificar o seu próprio império, mas sim para, através de tudo o que façam, glorificar a Deus. Ambições menores são sadias e cor­retas, contanto que não constituam um fim em si mesmas (isto é, em nós mesmos), mas sejam o meio de alcançar um fim maior (a propagação do reino e da justiça de Deus) e, portanto, o maior de todos, isto é, a glória de Deus. Este é o “Bem Supremo” que devemos buscar primeiro; não há outro.

Mateus 7:1-12
Os relacionamentos do cristão: com os seus irmãos e com o seu Pai

 

Mateus 7 consiste de um grupo de parágrafos aparentemente isolados. O elo existente entre eles não é óbvio. O capítulo como um todo também não segue o anterior numa seqüência explícita de pensamentos. Muitos comentaristas concluíram, portanto, que Mateus reuniu estes blocos de material que originalmente pertenciam a diferentes contextos e que ele talvez tenha feito o seu trabalho editorial um tanto desajeitadamente. Mas não é necessário chegar a tal conclusão. O fio de ligação que corre por todo o capítulo, embora de maneira solta, ê o dos relaciona­mentos. Poderia parecer bastante lógico que, tendo descrito o caráter, a influência, a justiça, a piedade e a ambição do cristão, Jesus se concentrasse finalmente nos seus relacionamentos, pois a contracultura cristã não é algo individualista, mas comuni­tário, e os relacionamentos dentro da comunidade e entre esta e os outros são de suma importância. Portanto, Mateus 7 nos dá um registro da rede de relacionamentos aos quais, como dis­cípulos de Jesus, somos atraídos. Podem ser assim apresentados:

  1. Para com o nosso irmão, em cujo olho percebemos um argueiro e a quem temos a responsabilidade de ajudar, não de julgar (vs. 1-5).
  2. Para com um grupo espantosamente designado de “cães” e “porcos”. São pessoas, é verdade, mas sua natureza animal é de tal espécie que somos instruídos a não partilhar o evangelho de Deus com elas (v. 6).
  3. Para com o nosso Pai celeste, do qual nos aproximamos em oração, confiantes de que ele não nos dará nada menos que “boas coisas” (vs. 7-11).
  4. Para com todos de maneira generalizada: a Regra Áurea deveria orientar a nossa atitude e o nosso comportamento para com eles (v. 12).
  5. Para com os nossos companheiros de viagem nesta pere­grinação pelo caminho estreito (vs. 13,14).
  6. Para com os falsos profetas, que temos de reconhecer e dos quais devemos nos acautelar (vs. 15-20).
  7. Para com Jesus, nosso Senhor, cujos ensinamentos temos de ouvir e obedecer (vs. 21-27).

 

1. Nossa atitude para com o nosso irmão (vs. 1-5)

Não julgueis, para que não sejais julgados. 2Pois com o critério com que julgardes, sereis julgados; e com a medida com que tiverdes medido vos medirão também. 3Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio? 4Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o ar­gueiro do teu olho, quando tens a trave no teu? 5Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e então verás claramente para tirar o          argueiro do olho de teu irmão.

Jesus não dá a entender que a comunidade cristã será perfeita. Pelo contrário, ele pressupõe que haverá contravenções e estas darão lugar a tensões, a problemas de relacionamento. Na prá­tica, como deveria um cristão se comportar para com um com­panheiro que agiu mal? Será que Jesus tem alguma instrução sobre a disciplina dentro da sua comunidade? Sim, em tal situa­ção ele proíbe duas alternativas e, então, aconselha a terceira, que é melhor, mais “cristã”.

 

a. O cristão não deve ser juiz (vs. 1, 2)

As palavras de Jesus Não julgueis para que não sejais julgados são muito conhecidas, mas muito mal interpretadas. Para início de conversa, devemos rejeitar a crença de Tolstoy, o qual, com base neste versículo, achava que “Cristo proíbe totalmente a instituição de qualquer tribunal legal”, e que ele “não poderia querer dizer qualquer outra coisa com essas palavras”.[371] Mas a proibição de Jesus não pode absolutamente significar isso que Tolstoy tinha em mente, pois o contexto não se refere a juizes nos tribunais, mas sim à responsabilidade dos indivíduos uns para com os outros.

Além disso, a injunção de nosso Senhor para “não julgar” não pode ser entendida como uma ordem para suspendermos nossa faculdade crítica em relação a outras pessoas, ou fechar os olhos diante de suas faltas fingindo não percebê-las, ou nos abstermos de toda critica, recusando-nos a discernir entre a verdade e o erro, entre o bem e o mal. Como podemos ter cer­teza de que Jesus não estava se referindo a estas coisas? Em parte, porque não seria honesto comportar-se assim, mas seria hipocrisia e sabemos, por esta e outras passagens, que ele ama a integridade e odeia a hipocrisia. Em parte, porque seria uma contradição da natureza do homem, o qual, criado à imagem de Deus, tem a capacidade de julgar valores. Em parte, também, porque muitos dos ensinamentos de Cristo no Sermão do Monte baseiam-se na pressuposição de que usaremos (e realmente deve­ríamos usar) o nosso poder de crítica. Por exemplo, repetidas vezes ouvimos a sua convocação a sermos diferentes do mundo que nos rodeia, desenvolvendo uma justiça que exceda a dos fariseus, fazendo “mais do que os outros” no padrão de amor que adotamos, não sendo como os hipócritas em nossa piedade ou como os pagãos em nossa ambição. Mas como poderíamos obedecer a todos estes ensinamentos sem antes avaliar o com­portamento dos outros e, então, nos assegurarmos de estar agindo de modo diferente, em um padrão mais elevado? Seme­lhantemente, em Mateus 7, esta mesma ordem de não “julgar” os outros é seguida quase imediatamente por duas outras ordens: evitar dar “o que é santo” aos cães, ou pérolas aos porcos (v. 6), e acautelar-se dos falsos profetas (v. 15). Seria impossível obe­decer a estas ordens sem usar a nossa capacidade de julgamento, pois, para determinar o nosso comportamento em relação aos “cães”, “porcos” e “falsos profetas”, primeiro precisamos ter capacidade de reconhecê-los e, para isso, precisamos de algum discernimento.

Se, então, Jesus não estava abolindo os tribunais legais, nem proibindo a crítica, o que quis dizer com não julgueis? Com outras palavras: “não censurar”. O discípulo de Jesus é um “crítico” no sentido de usar o seu poder de discernimento, mas não um “juiz” no sentido de censurar. A censura é um pecado composto, que consiste de diversos ingredientes desagradáveis. Não significa avaliar as pessoas com discernimento, mas con­dená-las severamente. O crítico que julga os outros é um desco­bridor de erros, num processo negativo e destrutivo para com as outras pessoas, e adora viver à procura de falhas nos outros. Imagina as piores intenções nas pessoas, joga água fria nos seus planos e é inexorável quanto aos erros delas.

Pior do que isso, censurar é assumir o papel de juiz, reivindi­cando assim a competência e a autoridade de fazer um julga­mento de seu próximo. Mas, se eu o fizer, estarei colocando a mim e aos meus companheiros numa posição errada. Pois desde quando são eles meus servos, subordinados a mim? E desde quando sou eu seu senhor e juiz? Como Paulo escreveu aos Romanos, aplicando a verdade de Mateus 7:1 à sua situação: “Quem és tu que julgas o servo alheio? para o seu próprio senhor está de pé ou cai” (14:4). Paulo também aplicou a mes­ma verdade a si mesmo quando se encontrou rodeado de difamadores hostis: “Pois quem me julga é o Senhor. Portanto, nada julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor, o qual não somente trará à plena luz as cousas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos corações.”[372] O ponto sim­ples mas vital que Paulo está apresentando nestes versículos é que o homem não é Deus. Nenhum ser humano está qualificado a ser o juiz de outros seres humanos, pois não podemos ler os corações dos outros nem avaliar os seus motivos. Condenar é atrever-se a agir como se fosse o dia do juízo, usurpando a prerrogativa do divino Juiz; na verdade, é “brincar de Deus”.

Não só não devemos julgar, como nos encontramos entre os julgados, e seremos julgados com muito maior severidade se nos atrevermos a julgar os outros. Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois com o critério com que julgardes, sereis julgados; e com a medida com que tiverdes medido vos medirão também. A exposição dos princípios está clara. Se assumimos a posição de juizes, não podemos invocar a ignorância da lei que estamos reivindicando ser capazes de administrar aos outros.

Se gostamos de ocupar a cátedra, não devemos ficar surpresos ao nos encontrarmos no banco dos réus. Como Paulo explicou: “Portanto, és indesculpável quando julgas, ó homem, quem quer que sejas; porque no julgar a outro, a ti mesmo te conde­nas; pois praticas as próprias cousas que condenas.”[373]

Resumindo, a ordem de não julgar não é uma exigência para que sejamos cegos, mas antes uma exortação a sermos gene­rosos. Jesus não nos diz que deixemos de ser homens (deixando de lado o poder crítico que nos distingue dos animais), mas que renunciemos à ambição presunçosa de sermos Deus, colocando-nos na posição de juizes.

 

b.  O cristão não deve ser hipócrita (vs. 3, 4) Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não re­paras na trave que está no teu próprio? 4Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu?

Agora Jesus conta a sua pequena e famosa parábola sobre o “corpo estranho” nos olhos das pessoas, partículas de pó de um lado e traves ou toras de outro. James Moffatt chamou-os de “lasca” e “tábua”. Primeiro, Jesus denunciou nossa hipocrisia para com Deus, isto é, a nossa prática de piedade diante dos homens para sermos vistos por eles. Agora, ele denuncia a nossa hipocrisia em relação aos outros, isto é, interferindo em seus pecadilhos, enquanto deixamos de resolver as nossas próprias faltas mais sérias. Eis aqui um outro motivo por que não temos capacidade para ser juizes: não apenas somos seres humanos falíveis (o que não ocorre com Deus) mas também somos seres humanos decaídos. Todos nós nos tornamos pecadores com a Queda. Portanto não estamos em posição de julgar outros peca­dores iguais a nós; estamos desqualificados para a cátedra de juiz.

A figura de uma pessoa lutando na delicada operação de re­mover um cisco do olho de um amigo, enquanto uma imensa tábua em seu próprio olho impede totalmente a sua visão, é ridícula ao extremo. Mas, quando a caricatura ê transferida para nós mesmos e para a nossa atitude ridícula de ficar procu­rando os erros dos outros, nem sempre apreciamos a brinca­deira. Temos uma tendência fatal de exagerar as faltas dos outros e diminuir a gravidade das nossas. Achamos impossível, quando nos comparamos com os outros, permanecer estrita­mente objetivos e imparciais. Pelo contrário, temos uma visão rósea de nós mesmos e uma deformada dos outros. Na verdade, o que geralmente acontece é que vemos nossas faltas nos outros e os julgamos vicariamente. Desse modo, experimentamos o prazer da justiça própria sem a dor do arrependimento. Por­tanto, hipócrita (v. 5) aqui é uma expressão chave. Pior ainda, esta espécie de hipocrisia é a mais desagradável porque, tendo até aparência de bondade (tirar um cisco do olho de alguém), transforma-se em um meio de inflar o nosso próprio ego. A con­denação, escreve A. B. Bruce, é o “vício farisaico de exaltarmo-nos amesquinhando os outros, um modo muito baixo de obter superioridade moral”.[374] A parábola do fariseu e do publicano foi o comentário de nosso Senhor sobre esta perversidade. Ele a contou “a alguns que confiavam em si mesmos por se consi­derarem justos, e desprezavam os outros”.[375] O fariseu fez uma comparação odiosa e incorreta, engrandecendo sua própria vir­tude e os erros do publicano.

O que nós deveríamos fazer é aplicar a nós mesmos um padrão pelo menos tão estrito e crítico como aquele que aplicamos aos outros. “Porque, se nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados”,[376] escreveu Paulo. Não só escaparíamos do julgamento divino, mas também estaríamos em condição de ajudar com humildade e amabilidade ao irmão que está em erro. Tendo removido antes a trave de nosso próprio olho, veríamos clara­mente como remover o cisco do olho dele.

 

c.  O cristão deve antes ser um irmão (v. 5)

Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e então verás clara­mente para tirar o argueiro do olho de teu irmão.

Algumas pessoas supõem que, na parábola dos corpos estra­nhos, Jesus estivesse proibindo-nos de agir como oculistas morais e espirituais que interferem nos olhos dos outros, e dizendo-nos que tratássemos de nossa própria vida. Mas não é assim. O fato da condenação e da hipocrisia serem proibidas não nos isenta da responsabilidade de irmãos, uns para com os outros. Pelo contrário, Jesus mais tarde ensinaria que, se nosso irmão pecar contra nós, a nossa primeira obrigação (embora geralmente negligenciada) é de “argüi-lo entre ti e ele só”.[377] A mesma obri­gação é colocada sobre nós aqui. Na verdade, em determinadas circunstâncias, somos proibidos de interferir, isto é, quando há um corpo estranho muito maior em nosso próprio olho e não o tenhamos removido. Mas, em outras circunstâncias, Jesus real­mente nos ordena que reprovemos e corrijamos nosso irmão. Depois de resolver o problema com o nosso próprio olho, po­demos ver claramente e mexer no olho do outro. Uma sujeirinha no olho dele é chamada, afinal de contas e muito corretamente, de corpo “estranho”. Não pertence ao olho. Sempre será estra­nho, geralmente doloroso e, às vezes, perigoso. Deixá-lo ali, sem nenhuma tentativa de remoção, dificilmente seria coerente com o nosso amor fraternal.

Nosso dever cristão, então, não é ver o argueiro no olho do nosso irmão, enquanto, ao mesmo tempo, não reparamos na trave (v. 3) no nosso próprio olho; e, muito menos, dizer ao nosso irmão: “Deixa-me tirar o argueiro do teu olho”, enquanto ainda não retiramos a trave de nosso próprio olho (v. 4); mas, antes, tirar primeiro a trave de nosso próprio olho, para que com a claridade de visão resultante possamos tirar o argueiro do olho de nosso irmão (v. 5). Novamente se evidencia que Jesus não está condenando a crítica propriamente dita mas, antes, a crítica desvinculada de uma concomitante autocrítica; não a correção propriamente dita mas, antes, corrigir os outros quando nós mesmos ainda não nos corrigimos.

O padrão de Jesus para os relacionamentos na contracultura cristã é alto e sadio. Em todas as nossas atitudes e no comporta­mento relativo a outras pessoas, nem devemos representar o juiz (severo, censurador e condenador), nem o hipócrita (que acusa os outros enquanto se justifica), mas o irmão, cuidando dos outros a ponto de primeiro acusar-nos e corrigir-nos para depois procurarmos ser construtivos na ajuda que lhes vamos dar. “Corrija-o”, disse Crisóstomo, referindo-se a alguém que tinha pecado, “mas não como um inimigo, nem como um adversário que exige o cumprimento da pena, mas como um médico que fornece o remédio”,[378] e, ainda mais, como um irmão amoroso e ansioso em salvar e restaurar. Precisamos ser tão críticos co­nosco como somos geralmente com os outros, e tão generosos com os outros como sempre somos conosco. Assim cumprire­mos a Regra Áurea que Jesus nos dá no versículo 12 e agi­remos em relação aos outros como gostaríamos que eles fizessem conosco.

 

2. Nossa atitude para com os “cães” e os “porcos” (v. 6)

Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis ante os porcos as vossas pérolas, para que não as pisem com os pés, e, voltando-se, vos dilacerem.

À primeira vista, parece uma linguagem chocante nos lábios de Jesus, especialmente no Sermão do Monte, logo após o seu apelo ao comportamento fraternal construtivo. Mas Jesus sempre chamou o boi pelo nome! Sua franqueza levou-o a chamar Herodes Antipas de “a raposa” e os escribas e fariseus hipócritas de “sepulcros caiados” e “raça de víboras”.[379] Aqui ele afirma que há certos seres humanos que agem como animais e podem, portanto, ser acertadamente chamados de “cães” e de “porcos”.

O contexto fornece um equilíbrio sadio. Se não devemos julgar os outros, acusá-los e condená-los de maneira hipócrita, não devemos tampouco ignorar suas faltas, fingindo que todos são iguais. Os dois extremos devem ser evitados. Os santos não são juizes, mas também “os santos não são simplórios”.[380] Se pri­meiro removermos a trave de nosso olho para, vendo claramente, podermos retirar o cisco do olho de nosso irmão, ele (se for real­mente um irmão no Senhor) apreciará a nossa solicitude. Mas nem todos gostam de críticas e correção. De acordo com o livro de Provérbios, esta é uma das óbvias diferenças entre o homem sábio e o tolo: “Não repreendas o escarnecedor, para que te não aborreça; repreende o sábio, e ele te amará.”[381]

Quem são, pois, estes “cães” e “porcos”? Dando-lhes tais nomes Jesus está indicando que, além de serem mais animais que humanos, são também animais com hábitos de sujeira. Os cães que ele tinha em mente não eram os bem comportados cachorrinhos de colo de uma casa elegante, mas os cães párias selvagens, vagabundos e vira-latas, que fuçavam no lixo da cidade. Os porcos eram animais imundos para os judeus, para não mencionar a inclinação que têm de viver na lama. O após­tolo Pedro referir-se-ia a eles mais tarde, reunindo dois provér­bios em um só: “O cão voltou ao seu próprio vômito” e “a porca lavada voltou a’ revolver-se no lamaçal”.[382] A referência deve ser aos incrédulos, cuja natureza nunca foi renovada, que possuem vida física ou animal, mas nenhuma vida espiritual ou eterna. Lembremo-nos também de que os judeus chamavam os gentios de “cães”.[383] Mas os cristãos certamente não consideram os que não são cristãos deste modo desdenhoso. Por isso, temos de penetrar mais profundamente no significado dado por Jesus.

Sua ordem é: não deis aos cães o que é santo e nem lanceis ante os porcos as vossas pérolas. A figura é clara. Um judeu jamais daria alimento “santo” (talvez alimento que fora antes oferecido como sacrifício) a cães imundos. Nem jamais sonharia em jogar pérolas aos porcos. Estes não só eram animais impuros, mas também provavelmente confundiriam as pérolas com nozes ou ervilhas e tentariam comê-las e, então, descobrindo que não eram comestíveis, pisá-las-iam e até mesmo atacariam o doador. Mas se a figura da parábola é explícita, qual o significado? O que é a coisa “santa” e o que são as “pérolas”? Alguns dos pais da Igreja achavam que a referência era à Ceia do Senhor, e argumentavam que pessoas incrédulas, ainda não batizadas, não deviam ser admitidas a ela.[384] Embora estivessem certos neste ensinamento, é extremamente duvidoso que Jesus tenha pensado nisso. É melhor encontrar um elo com a “pérola de grande valor” da sua parábola referente ao reino de Deus[385] ou à salvação e, por extensão, ao Evangelho. Não podemos deduzir disto, entretanto, que Jesus nos estivesse proibindo de pregar o Evangelho aos incrédulos. Supor tal coisa seria emborcar e esva­ziar todo o Novo Testamento e contradizer a Grande Comissão (com a qual o Evangelho de Mateus termina), que nos manda “ir e fazer discípulos de todas as nações”. Os calvinistas ex­tremos não podem usar isto como argumento contra a evangelização, pois o próprio Calvino insistia que é dever nosso “apre­sentar a doutrina da salvação indiscriminadamente a todos”.[386]

Portanto, os “cães” e “porcos” com os quais estamos proi­bidos de partilhar as pérolas do Evangelho não são simples­mente os incrédulos. Devem ser, antes, aqueles que tiveram ampla oportunidade de ouvir e aceitar as boas novas, mas que determinadamente (e até mesmo provocadoramente) as rejei­taram. “É preciso entender”, escreveu Calvino com sabedoria, “que cães e porcos são nomes que foram dados, não a toda espécie de homens debochados, ou àqueles que são destituídos do temor de Deus e da verdadeira piedade, mas àqueles que, através de evidências claras, manifestaram um desrespeito obsti­nado para com Deus, de modo que sua condição parece ser incurável”.[387] Crisóstomo usa uma expressão semelhante, iden­tificando os “cães” com pessoas “que vivem em impiedade incu­rável”;[388] e, nos dias de hoje, o Professor Jeremias definiu-os como sendo “aqueles que totalmente se entregaram a caminhos depravados”.[389]

O fato é que persistir em oferecer o Evangelho a essas pes­soas, além de um determinado ponto, é provocar sua rejeição com desprezo e até mesmo com blasfêmias. Jesus aplicou o mesmo princípio ao ministério dos doze quando os comissionou, antes de enviá-los em sua primeira missão. Ele os advertiu que, em cada cidade e casa que entrassem, embora algumas pessoas fossem receptivas e “dignas”, outras não seriam receptivas e seriam “indignas”. “Se alguém não vos receber, nem ouvir as vossas palavras, ao sairdes daquela casa ou daquela cidade”, prosseguiu, “sacudi o pó dos vossos pés”.[390]

O apóstolo Paulo também seguiu este princípio em sua obra missionária. Em sua primeira expedição, ele e Barnabé disseram aos judeus que “contradiziam” a sua pregação em Antioquia da Pisídia: “Cumpria que a vós outros em primeiro lugar fosse pregada a palavra de Deus; mas, posto que a rejeitais e a vós mesmos vos julgais indignos da vida eterna, eis aí que nos vol­vemos para os gentios.” E quando os judeus incitaram os lí­deres da cidade a que os expulsassem, Paulo e Barnabé, “sacu­dindo contra aqueles o pó de seus pés, partiram para Icônio”.[391] Quase o mesmo aconteceu em Corinto na segunda viagem mis­sionária. Quando os judeus se lhe opuseram e o injuriaram, “sacudiu Paulo as vestes” e lhes disse: “Sobre a vossa cabeça o vosso sangue! eu dele estou limpo, e desde agora vou para os gentios.”[392] Pela terceira vez Paulo reagiu da mesma maneira, quando em Roma os líderes judeus rejeitaram o Evangelho. “Tomai, pois, conhecimento”, disse, “de que esta salvação de Deus foi enviada aos gentios. E eles a ouvirão”.[393]

Nosso testemunho cristão e pregação evangelística não devem, portanto, ser totalmente indiscriminados. Se as pessoas tiveram muita oportunidade de ouvir a verdade mas não a aceitaram, se elas obstinadamente voltam suas costas a Cristo, se (em outras palavras) elas se colocam na categoria de “cães” e “porcos”, não devemos continuar pregando-lhes indefinidamente, pois assim estaremos amesquinhando o evangelho de Deus e permi­tindo que ele seja espezinhado. Pode alguma coisa ser mais depravada do que confundir a preciosa pérola de Deus com uma coisa sem valor e praticamente pisoteá-la na lama? Ao mes­mo tempo, desistir das pessoas é um passo muito sério. Eu me lembro de apenas uma ou duas ocasiões em minha experiência quando senti que devia fazê-lo. Este ensinamento de Jesus é apenas para situações excepcionais; nosso dever cristão normal é ser paciente e perseverar com as pessoas, como Deus paciente­mente perseverou conosco.

 

3. Nossa atitude para com o nosso Pai celeste (vs. 7-11)

Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achar eis; batei, e abrir-se-vos-á. 8Pois todo o que pede recebe; o que busca, encontra; e a quem bate, abrir-se-lhe-á. 9Ou qual dentre vós é o homem que, se porventura o filho lhe pedir pão, lhe dará pedra? 10Ou se lhe pedir peixe, lhe dará uma cobra? 11Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas cousas aos que lhe pedirem?

Parece natural que Jesus tenha passado de nosso relacionamento com os homens para nosso relacionamento com o nosso Pai celeste, principalmente porque o nosso dever cristão para com eles (não julgá-los, não lançar pérolas aos porcos e ser prestativos sem ser hipócritas) é por demais difícil sem a graça divina.

 

a. O que Jesus promete

Esta passagem não é a primeira instrução sobre a oração, no Sermão do Monte. Jesus já nos advertiu contra a hipocrisia dos fariseus e o formalismo dos pagãos, e nos deu o seu próprio mo­delo de oração. Agora, entretanto, ativamente nos incentiva a orar, dando-nos algumas grandes promessas de sua graça. Pois “nada é melhor para nos levar à oração do que a convicção plena de que seremos ouvidos”.[394] Ou, então, “Ele sabe que somos tímidos e acanhados, que nos sentimos indignos e inaptos para apresentar nossas necessidades a Deus . . . Pensamos que Deus é tão grande e nós tão pequeninos que não nos atrevemos a orar . . . Foi por isso que Cristo quis desviar-nos de pensamentos tão tímidos, remover nossas dúvidas e fazer-nos avançar con­fiante e ousadamente”.[395]

Jesus procura imprimir suas promessas em nossa mente e me­mória através dos golpes do martelo da repetição. Primeiro, suas promessas vêm ligadas a ordens diretas: Pedi. . . buscai. . . batei . . . (v. 7). Talvez tenham sido deliberadamente colocadas em escala ascendente de insistência. Richard Glover sugere que uma criança, estando a sua mãe perto e visível, pede; caso con­trário, ela busca; enquanto que, se a mãe estiver inacessível no seu quarto, ela bate.[396] Seja como for, todos os três verbos estão no presente do imperativo e indicam a persistência com a qual devemos fazer nossos pedidos conhecidos a Deus. Em segundo lugar, as promessas foram expressas em declarações universais: Pois todo o que pede recebe; o que busca, encontra; e a quem bate, abrir-se-Ihe-á (v. 8).

Terceiro, Jesus exemplifica suas promessas através de uma singela parábola (vs. 9-11). Ele imagina uma situação com a qual todos os seus ouvintes devem estar familiarizados, isto é, uma criança achegando-se a seu pai com um pedido. Se ela lhe pede um pedaço de pão, receberá por acaso alguma coisa pare­cida com pão, mas na realidade nocivamente diferente? Por exemplo, uma pedra em lugar de pão, ou uma cobra em lugar de peixe? Isto é, se a criança pede alguma coisa sadia para comer (pão ou peixe), receberia alguma coisa prejudicial, que não pode ser comida (uma pedra) ou perniciosa (uma cobra venenosa)? Claro que não! Os pais, ainda que sejam maus, isto é, egoístas por natureza, amam os seus filhos e lhes dão boas dádivas. Observe que Jesus aqui admite, e até mesmo declara, ser o pe­cado inerente à natureza humana. Ao mesmo tempo, ele não nega que os homens maus sejam capazes de fazer o bem. Pelo contrário, pais maus dão boas dádivas a seus filhos, pois “Deus derrama em seus corações uma porção de sua bondade”.[397] O que Jesus está dizendo é que, mesmo quando estão fazendo o bem, seguindo os nobres instintos da paternidade e cuidando dos seus filhos, mesmo assim não escapam à designação de “maus”, pois é o que os seres humanos são.

Portanto, a força da parábola jaz mais no contraste do que na comparação entre Deus e os homens. É um outro argumento a fortiori ou “com tanto mais razão”: se os pais humanos, em­bora sendo maus, sabem dar boas dádivas a seus filhos, quanto mais o nosso Pai celeste, que não é mau, mas totalmente bom, dará boas cousas aos que lhe pedirem? (v. 11). “Pois o que po­deria ele deixar de dar agora aos filhos quando pedem, uma vez que já lhes garantiu exatamente isto, a saber, que podem ser seus filhos?”.[398] Não há dúvida de que as nossas orações são transformadas quando nos lembramos de que o Deus de quem nos aproximamos é “Abba, Pai”, e infinitamente bom e gentil.

O Professor Jeremias demonstrou a novidade deste ensino de Jesus. Ele escreve que, com a ajuda dos seus assistentes, exa­minou cuidadosamente “a literatura relacionada com a oração dos judeus antigos, literatura grande e rica, muito pouco explo­rada”, mas que “em lugar nenhum dessa imensa literatura encontrou esta inovação de Deus como Abba . . . Abba era uma palavra de uso diário, uma palavra conhecida em família. Nenhum judeu teria se atrevido a dirigir-se a Deus desta ma­neira. Jesus o fazia sempre . . . e autoriza seus discípulos a repe­tirem a palavra Abba depois dele”.[399] O que poderia ser mais simples do que este conceito de oração? Se pertencemos a Cristo, se Deus é nosso Pai, somos seus filhos, e a oração é a apresen­tação que lhe fazemos de nossos pedidos. O problema é que, para muitos de nós, a coisa parece simples demais, até mesmo simplista. Em nossa sofisticação, dizemos que não podemos crer nisso, e de qualquer modo isso não corresponde absolutamente à nossa experiência. Assim, voltamo-nos das promessas de Cristo sobre a oração para os nossos problemas com a oração.

 

b.  Os problemas que se criam

Diante das promessas diretas de Jesus, Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á, são levantadas diversas objeções que precisam ser consideradas agora.

1. A oração é descabida. “Este incentivo a orar apresenta um quadro falso de Deus. Implica em que ele precisa ser informado do que precisamos ou intimidado a concedê-lo, quando o pró­prio Jesus disse antes que nosso Pai celeste sabe disso e não deixa de cuidar de nós. Além disso, é claro que ele não pode ser inco­modado com nossas trivialidades. Por que deveríamos supor que suas dádivas dependem de nossos pedidos? Será que os pais humanos esperam que seus filhos lhes peçam alguma coisa para depois suprir suas necessidades?”

A isto respondemos que Deus espera que lhe pecamos, não porque permaneça ignorante até que o informemos, nem porque seja relutante até que o persuadamos. O motivo relaciona-se conosco, não com ele; a questão não é se ele está pronto a dar, mas se nós estamos prontos a receber. Portanto, na oração, nós não “persuadimos” a Deus, mas antes persuadimos a nós mes­mos a nos submeter a Deus. É verdade que a linguagem “insistir com Deus” geralmente ê usada com referência à oração, mas é uma acomodação à fraqueza humana. Mesmo quando Jacó “prevaleceu em oração”, o que realmente aconteceu é que Deus prevaleceu sobre ele, levando-o ao ponto da submissão quando ele se tornou capaz de receber a bênção que Deus tinha estado o tempo todo desejando dar-lhe.

A verdade é que o Pai celeste jamais mima seus filhos. Ele não nos cobre de presentes, quer o desejemos ou não, quer este­jamos prontos a recebê-los ou não. Pelo contrário, ele espera que nós reconheçamos as nossas necessidades, voltando-nos para ele com humildade. É por isso que ele diz: Pedi, e dar-se-vós-á, e Tiago acrescentou: “Nada tendes, porque não pedis”.[400] A oração, então, não é “descabida”; é exatamente a maneira que o próprio Deus escolheu para expressarmos a nossa cons­ciente necessidade e a nossa humilde dependência dele.

2. A oração é desnecessária. Esta segunda objeção surge mais da experiência do que da teologia. Cristãos sérios olham à volta e vêem uma porção de pessoas vivendo bem sem oração. Na realidade, parecem receber, sem oração, exatamente as mesmas coisas que nós recebemos com ela. Obtêm o que precisam tra­balhando, não orando. O fazendeiro consegue uma boa colheita trabalhando, não orando. A mãe consegue ter um filho através da técnica médica, não da oração. A família equilibra o seu orçamento por meio do salário do pai e talvez de outros, não pela oração. “Certamente” podemos nos sentir tentados a dizer “isto prova que a oração não faz a menor diferença; é perda de tempo”.

Mas espere um pouco! Ao pensarmos nisso, é preciso dife­renciar entre as dádivas de Deus como Criador e suas dádivas como Pai, ou entre os dons da criação e os dons da redenção. É realmente verdade que ele dá certas coisas (colheita, filhos, alimento, vida), quer oremos ou não, quer creiamos ou não. Ele dá vida e respiração a todos. Ele envia chuva do céu e as estações do ano a todos. Ele faz o sol nascer para os maus e os bons igualmente.[401] Ele “visita” uma mãe quando ela concebe e, mais tarde, quando ela dá à luz. Nenhum destes dons depende do conhecimento que as pessoas têm do seu Criador ou de orarem.

Mas os dons divinos da redenção são diferentes. Deus não concede salvação a todos, mas é “rico para com todos os que o invocam”, pois, “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”.[402] O mesmo se aplica às bênçãos pós-salvação, as “boas dádivas” que Jesus diz que o Pai dá a seus filhos. Não são bênçãos materiais, mas espirituais: perdão diário, livra­mento do mal, paz, aumento de fé, esperança e amor; na verdade é a bênção completa de Deus na obra do “Espírito Santo” que habita em nós, que é, como Lucas traduz, as “boas dádivas” .[403] Por esses dons certamente devemos orar.

A oração do Pai-Nosso, que Jesus ensinou um pouco antes, no Sermão, reúne as duas espécies de dádivas, pois “pão nosso de cada dia” é uma dádiva da criação, enquanto que “perdão” e “livramento” são dádivas da redenção. Por que, então, estão reunidas na mesma oração? Provavelmente a resposta é a se­guinte: oramos pelo pão de cada dia, não porque tememos mor­rer de fome (pois milhares de pessoas conseguem o seu pão de cada dia sem orar ou agradecer antes de comer), mas por sa­bermos que, em última análise, ele vem de Deus e porque, na qualidade de seus filhos, é apropriado que regularmente reco­nheçamos nossa dependência física dele. Entretanto, oramos pedindo perdão e libertação, porque estas dádivas só são con­cedidas em resposta à oração e porque sem elas estaríamos per­didos. Portanto, a oração não é desnecessária.

3. A oração é improdutiva. O terceiro problema é um corolário óbvio do segundo. Argumenta-se que a oração é desnecessária, porque Deus dá aos que não pedem, e é improdutiva, porque ele deixa de dar a muitos que o fazem. “Eu orei para passar no exame, mas não passei. Eu orei para ser curado de uma enfer­midade, e fiquei pior. Eu orei pela paz, mas o mundo está cheio de rumores de guerra. A oração não funciona!” Este é o problema familiar da oração não respondida.

A melhor forma de resolver este problema é lembrar que as promessas de Jesus no Sermão do Monte não são incondicionais. Um pouco de meditação e ficaremos convencidos disso. É absur­do supor que a promessa “Pedi, e dar-se-vos-á”, seja uma ga­rantia absoluta, sem condições; que “Batei, e abrir-se-vos-á” seja um “Abre-te, Sésamo” para todas as portas fechadas, sem exceção; e que ao agitar da varinha mágica da oração todo desejo se realizará e todo sonho se concretizará. A idéia ê ridícula. Isto transformaria a oração em magia, e transformaria a pessoa que ora em um mágico igual a Aladim, e ainda Deus em nosso servo, que apareceria instantaneamente quando o chamássemos, como o gênio que sempre apareceu quando Aladim esfregava a sua lâmpada. Além disso, este conceito de oração abalaria qual­quer cristão sensível se soubesse que poderia obter tudo o que pedisse. “Se fosse assim”, escreve Alec Motyer, “que tudo o que pedíssemos Deus fosse obrigado a conceder, então eu nunca mais haveria de orar, pois não teria confiança suficiente em minha própria sabedoria para pedir alguma coisa a Deus; e penso que você vai concordar comigo por pensar assim. Seria um fardo intolerável para a frágil sabedoria humana se, através de suas promessas relacionadas com a oração, Deus estivesse obrigado a conceder tudo o que pedimos, quando o pedimos e exatamente nos termos em que pedimos. Como poderíamos agüentar um fardo desses?”[404]

Talvez pudéssemos apresentar o assunto assim: sendo bom, nosso Pai celeste só concede boas dádivas a seus filhos; sendo sábio, ele sabe quais dádivas são boas e quais não são. Aca­bamos de ouvir que Jesus disse que os pais humanos nunca da­riam uma pedra ou uma cobra a seus filhos quando estes lhes pedissem pão ou peixe. Mas, e se os filhos (devido a ignorância ou loucura) realmente lhes pedissem uma pedra ou uma cobra? O que fariam? Duvidamos que até mesmo um pai extremamente irresponsável atendesse ao pedido de seu filho, mas a grande maioria dos pais seria bastante sábia e amorosa para não aten­der. Certamente nosso Pai celeste jamais nos daria alguma coisa que pudesse nos prejudicar, ainda que a pedíssemos com urgên­cia e insistência, pelo simples motivo de ele dar a seus filhos “boas dádivas”. Portanto, se pedimos coisas boas, ele no-las dá; se pedimos coisas que não são boas (não boas em si mesmas, ou não boas para nós ou outras pessoas, direta ou indiretamente, imediata ou posteriormente) ele no-las nega; e somente ele sabe a diferença. Podemos agradecer a Deus porque o seu atendi­mento às nossas necessidades é condicional, não depende apenas de pedir, buscar e bater, mas também de se o que desejamos, pedindo, buscando e batendo, é bom. Graças a Deus, porque ele atende a oração. Graças a Deus, que às vezes também não a atende. “Dou graças a Deus”, escreve o Dr. Lloyd-Jones, “que ele não esteja pronto a conceder tudo que eu possa lhe pedir . . . Estou profundamente grato a Deus por não me conceder certas coisas que lhe peço, e por fechar determinadas portas na minha cara” [405]

 

c. As lições que aprendemos

A oração parece ser uma coisa muito simples, quando Jesus fala sobre ela. Simplesmente Pedi. . ., buscai. . ., batei. . ., e, em qualquer caso, receberemos a resposta. Não obstante, é uma simplicidade ilusória; há muita coisa por detrás dela. Primeiro, oração pressupõe conhecimento. Considerando que Deus só concede dádivas de acordo com a sua vontade, temos de esmerar-nos em descobri-la — pela meditação nas Escrituras e pelo exer­cício da mente cristã disciplinada nessa meditação. Segundo, oração pressupõe fé. Uma coisa é conhecer a vontade de Deus; outra é nos humilharmos diante dele e expressarmos a nossa confiança em que ele é capaz de executar a sua vontade. Terceiro, oração pressupõe desejo. Podemos conhecer a vontade de Deus e crer que ele pode executá-la, e ainda assim não desejá-la. A oração é o principal meio ordenado por Deus para a expres­são de nossos mais profundos desejos.[406] E por isso que a ordem de “pedir — buscar — bater” está no imperativo presente e em escala ascendente, para desafio de nossa perseverança.

Assim, antes de pedir, precisamos saber o que pedir e se está de acordo com a vontade de Deus; temos de crer que Deus pode concedê-lo; e precisamos genuinamente desejar recebê-lo. Então, as graciosas promessas de Jesus se realizarão.

 

4. Nossa atitude para com todos os homens (v. 12)

Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a lei, e os profetas.

A lógica do “pois” ou “portanto” (oun), com o qual este versí­culo começa, não está clara. Talvez se refira ao versículo anterior e signifique que, se Deus é bom para com todos que o buscam em oração, seus filhos devem ser igualmente bons para com todos. Ou talvez se refira à verdade anterior, à ordem não jul­gueis, e esteja retomando o argumento subjacente contra a con­denação e a hipocrisia. Em qualquer caso, parece que Jesus enunciou este princípio em diferentes ocasiões e em diferentes contextos, pois, na versão do Sermão feita por Lucas, vem ime­diatamente após os três pequenos camafeus que ilustravam o mandamento de amar os nossos inimigos.[407] Certamente, tal amor é inatingível, a não ser pela graça de Deus. É, na verdade, o seu próprio amor e é uma das “boas dádivas” que ele nos dá através do seu Santo Espírito em resposta às nossas orações.[408] Diversos comentaristas têm discutido o fato de a Regra Áurea se encontrar de forma semelhante, ainda que sempre negativa, em outros lugares. Confúcio, por exemplo, leva o crédito de ter dito: “Não faça aos outros o que você não quiser que lhe façam”; e os estóicos tinham uma máxima quase idêntica. Nos apócrifos do Velho Testamento encontramos: “Não faça a ninguém o que você mesmo odiaria.”[409] E parece que isto foi o que o Rabi Hillel citou, por volta de 20 a.C, quando um futuro prosélito pediu que lhe ensinasse toda a lei no espaço de tempo em que ele con­seguisse ficar de pé numa perna só. Seu rival, o Rabi Shammai, fora incapaz, relutando em responder, e o mandara embora. Mas o Rabi Hillel respondeu: “O que você achar odioso, não o faça a ninguém. Esta é toda a lei; o restante não passa de comen­tário. “[410]

Sendo este o exemplo mais conhecido do suposto paralelismo entre o Talmude judaico e o Sermão do Monte, um comentário mais detalhado seria apropriado. Alguns foram ao ponto de declarar que tudo que se encontra no Sermão também se en­contra no Talmude, e muitas coisas mais. O Professor Jeremias reage deste modo: “O fato é exatamente este: que no Talmude ‘há muitas coisas mais’, e que é preciso procurar os grãos no meio de muita palha, os minguados grãos dourados que possam ser comparados às palavras do Sermão do Monte.”[411] Alfred Edersheim, que escreveu no final do século passado, foi ainda mais franco. Ele concorda que há “sagacidade e lógica, vivacidade e presteza, sinceridade e zelo” no Talmude mas, ao mesmo tempo, há uma verdadeira “contradição de espírito e substância” entre ele e o Novo Testamento. Na verdade, “como um todo, não só é totalmente desprovido de espiritualidade, como também é antiespiritual”.[412]

Voltando à Regra Áurea, realmente há uma enorme diferença entre o aforismo negativo e até relutante de Hillel (“Não faça aos outros o que for odioso a você”) e a iniciativa positiva contida na instrução de Jesus (“Faça aos outros o que você quer que lhe façam”). Mesmo assim, pode parecer que é um padrão bastante baixo, como “Ame o seu próximo como a si mesmo”. Mas, na verdade, é um padrão elevado, porque o amor-próprio é uma força poderosa em nossas vidas. Edersheim chamou este amor ao próximo de “a aproximação mais achegada ao amor absoluto da qual a natureza humana é capaz”.[413] Mas também é um prin­cípio ético notavelmente flexível. A nossa própria vantagem freqüentemente nos orienta em nossos próprios negócios; pois deve também nos orientar em nosso comportamento para com os outros. Tudo que temos a fazer é usar a nossa imaginação, colocar-nos no lugar da outra pessoa e perguntar: “Como gostaria eu de ser tratado em tal situação?” Como o Rev. Ryle escreveu: “Isto esclarece uma centena de pontos difíceis . . . Evita a necessidade de estabelecer uma infinidade de pequenas regras para a nossa conduta em casos específicos.”[414] Realmente, é um princípio de aplicação tão ampla, que Jesus poderia dizer: pois esta é a lei e os profetas. Isto é, qualquer pessoa que oriente a sua conduta para com os outros de acordo com o que gostaria que fosse a conduta dos outros para consigo, cumpriu a lei e os profetas, pelo menos na questão do amor,ao próximo.[415]

Percebemos, no início deste capítulo, que a contracultura cristã não é simplesmente um sistema de valores e um estilo de vida individuais, mas uma questão de comunidade. Envolve relacionamentos. E a comunidade cristã é, em essência, uma família, a família de Deus. Provavelmente os dois elementos mais fortes de nossa consciência cristã sejam a percepção de Deus como nosso Pai e a de nossos companheiros cristãos como irmãos e irmãs em Cristo, sem jamais nos esquecermos da nossa responsabilidade para com aqueles que estão fora da família e que ansiamos que sejam introduzidos nela.

Portanto, em Mateus 7:1-12, Jesus apresentou-nos os relaciona­mentos básicos. No centro está nosso Pai celeste, Deus, do qual nos aproximamos, de quem dependemos e que nunca dá a seus fi­lhos outra coisa que não sejam boas dádivas. Logo a seguir, vêm os nossos companheiros de crença. E a anomalia de um espírito de condenação (que julga) e de um espírito hipócrita (que vê o cisco apesar da trave), é que é incompatível com a fraternidade cristã. Se nossos companheiros cristãos são verdadeiramente nos­sos irmãos e irmãs no Senhor, é inconcebível que não sejamos in­teressados e construtivos em nossa atitude para com eles.

Quanto àqueles que estão fora da família, há o caso extremo dos “cães” e “porcos”, mas não são típicos. Há um grupo excep­cional de pessoas obstinadas que se comportam como “cães” e “porcos”, poderíamos dizer, em sua rejeição decisiva de Jesus Cristo. Relutantemente temos de abandoná-las. Mas, se o versí­culo 6 é uma exceção, o versículo 12 é uma regra, a Regra Áurea. Ela transforma as nossas atitudes. Se nos colocarmos sensitiva­mente no lugar de outra pessoa, desejando-lhe o que gostaríamos para nós mesmos, jamais seremos maus, porém sempre gene­rosos; jamais rudes, mas sempre compreensivos; jamais cruéis, mas sempre bondosos.

Mateus 7:13-20
Os relacionamentos do cristão: os falsos profetas

 

Alguns comentaristas têm sugerido que a parte principal do Sermão (os ensinamentos) de Jesus termina aqui, e que com o versículo 13 começam as aplicações ou a conclusão. Certamente ele enfatiza aqui ainda mais fortemente do que antes a necessi­dade da escolha. Entrai pela porta estreita, começa. Isto é, os contrastes entre as duas espécies de justiça e devoção, os dois tesouros, os dois senhores e as duas ambições foram fielmente descritos; chegou o momento da decisão. Há que escolher entre o reino de Satanás e o reino de Deus; a cultura prevalecente ou a contracultura cristã. Jesus continua com a sua apresentação de alternativas descrevendo os dois caminhos (o largo e o es­treito), os dois mestres (o falso e o verdadeiro), os dois apelos (palavras e atos) e, finalmente, os dois fundamentos (areia e rocha).

 

1. A escolha inevitável (vs. 13,14)

Entrai pela porta estreita (larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz para a perdição e são muitos os que entram por ela), 14porque estreita é a porta e apertado o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela.

O que se nota de imediato nestes versículos é a natureza abso­luta da escolha que se nos apresenta. Todos nós preferiríamos ter muito mais opções do que uma só, ou, melhor ainda, gosta­ríamos de fundi-las todas em uma religião conglomerada, elimi­nando assim a necessidade de qualquer escolha. Mas Jesus des­carta o nosso sincretismo condescendente. Ele não nos permite as confortáveis soluções que propomos. Em lugar disso, ele insiste que, afinal de contas, há uma só escolha, porque só há duas possibilidades.

Primeiro, há dois caminhos. Este conceito já se encontra no Velho Testamento. O Salmo 1, por exemplo, contrasta “o caminho dos justos”, que se deleitam na lei de Deus, dão frutos e prosperam, com “o caminho dos ímpios”, que são levados como a palha pelo vento e perecem. Agora Jesus complementa essa figura. Um dos caminhos é fácil. A palavra significa “largo, espaçoso e confortável”[416] e alguns manuscritos combinam estas imagens e chamam este caminho de “largo e confortável”. Há muito lugar nele para a diversidade de opiniões e a frouxidão moral. É o caminho da tolerância e da permissividade. Não tem freios, nem limites de pensamento ou de conduta. Os viajantes deste caminho seguem as suas próprias inclinações, isto é, os desejos do coração humano em sua degradação. Superficialidade, egoísmo, hipocrisia, religião mecânica, falsa ambição, condenação; estas coisas não precisam ser aprendidas ou culti­vadas. É preciso esforço para lhes resistir. Nenhum esforço é necessário para praticá-las. Por isso é que o caminho largo é fácil. O caminho difícil, por outro lado, é estreito. Seus limites são claramente demarcados. Sua estreiteza se deve a uma coisa cha­mada “revelação divina”, que restringe os peregrinos às fron­teiras do que Deus tem revelado nas Escrituras como bom e verdadeiro. C. S. Lewis descreveu, em sua autobiografia, como, ainda um escolar de treze anos de idade, começou a “alargar a sua mente”. “Logo troquei (nas famosas palavras) o ‘eu creio’ pelo ‘eu sinto’. E, oh! que alívio! … Da tirania da revelação meridiana passei para o suave luscofusco do Pensamento Supe­rior, onde nada havia a ser obedecido e nada a ser crido exceto o que fosse confortante ou excitante.”[417] É um fato que a verdade revelada impõe uma limitação sobre

O que os cristãos podem crer, e a bondade revelada, sobre como podemos nos comportar. E, num certo sentido, isto é “difícil”. Mas, em outro sentido, como Crisóstomo destacou há séculos atrás, o caminho difícil e estreito de Cristo também deve ser acolhido como “jugo suave” e “fardo leve”.[418]

Em segundo lugar, há duas portas. A porta que leva ao ca­minho fácil é larga, pois é só uma questão de tomar o caminho fácil. Evidentemente, não há limites para a bagagem que po­demos levar conosco. Não precisamos deixar nada para trás, nem mesmo nossos pecados, a justiça própria ou o orgulho. A porta que leva ao caminho difícil, por outro lado, é estreita. É preciso procurar para encontrá-la. É fácil errar. Como Jesus disse em outra ocasião, é estreita como o buraco de uma agulha. Além disso, a fim de entrar por ela temos de deixar tudo para trás: o pecado, a ambição egoísta, a cobiça e, até mesmo, se for necessário, a família e os amigos, pois ninguém pode seguir a Cristo sem antes negar-se a si mesmo. A entrada também é como uma barreira de pedágio: é preciso que as pessoas entrem uma a uma. Como encontrá-la? E o próprio Jesus Cristo. “Eu sou a porta”, ele disse; “se alguém entrar por mim, será salvo”.[419]

Terceiro, há dois destinos. Já vimos isto em figura no Salmo 1, onde encontramos as duas alternativas, os que “prosperam” e os que “perecem”. Moisés também o tornou explícito: “Vê que proponho hoje a vida e o bem, a morte e o mal… a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida”.[420] Semelhantemente, Jesus ensinou que o caminho fácil, cuja entrada é a porta larga, leva à destruição. Ele não definiu o que queria dizer com isso, e presu­mivelmente a natureza exata do inferno está tão além de nosso entendimento finito quanto a natureza exata do céu. Mas a terrível palavra “destruição” (terrível porque Deus é exatamente o Criador, não o Destruidor, e porque o homem foi criado para viver, não para morrer) parece pelo menos nos conceder a liber­dade de dizer que tudo o que é bom será destruído no inferno: o amor e a beleza, o encanto e a verdade, a alegria, a paz e a esperança, e para sempre. É um futuro horrível demais para se contemplar sem lágrimas. Portanto, o caminho espaçoso é o caminho suicida.

Por outro lado, o caminho difícil, ao qual se chega pela porta estreita, leva à vida, exatamente à “vida eterna” que Jesus ex­plicou em termos de comunhão com Deus, começando aqui mas aperfeiçoada no além, na qual veremos e partilharemos de sua glória, e encontraremos a realização perfeita de seres humanos no serviço altruísta prestado a Deus e a nossos com­panheiros.

Quarto, há duas multidões. Entrando pela porta larga e via­jando pelo caminho espaçoso que leva à destruição, há muitos. O caminho largo e fácil é um lugar de muita atividade, freqüen­tado por pedestres de todo tipo. O caminho estreito e difícil que leva à vida, entretanto, parece ser comparativamente mais de­serto. São poucos os que acertam. Parece que Jesus previa que os seus seguidores seriam (ou, pelo menos, pareceriam ser e se sentiriam) um desprezado movimento de minoria. Ele viu mul­tidões na estrada larga, rindo, sem cuidados, aparentemente sem idéia alguma do fim tenebroso para o qual se destinavam, enquanto que, no caminho estreito, apenas um “feliz grupo de peregrinos”, de mãos dadas, as costas voltadas para o pecado e os rostos voltados para a direção da Cidade Celestial, “can­tando hinos de expectativa, marchava para a terra prometida”.

Penso que não podemos especular, a partir deste contraste entre os poucos e os muitos, que os remidos serão poucos. Se compararmos passagem bíblica com passagem bíblica (como sempre o fazemos), teremos de colocar este ensinamento de Jesus junto à visão que João teve dos remidos diante do trono de Deus, “grande multidão que ninguém podia enumerar”.[421] Como con­ciliar estes dois conceitos, eu não sei. Nem tenho certeza de como esta passagem se relaciona com o problema desconcertante da­queles que jamais ouviram o Evangelho, pois uma palavra co­mum às duas multidões, dos “poucos” e dos “muitos”, é o verbo “entrar”. Justamente porque muitos “entram” pela porta larga, Jesus insiste com seus ouvintes para que “entrem pela porta estreita”. Isto implica que nenhuma das duas multidões é igno­rante do que está em jogo; cada um recebeu a oportunidade da escolha e deliberadamente “entrou” pelo outro caminho. O quadro todo parece relacionar-se apenas com aqueles que tiveram oportunidade de decisão a favor ou contra Cristo; sim­plesmente deixa de fora aqueles que nunca ouviram. Devería­mos, portanto, ser sábios e não nos preocupar com essas ques­tões especulativas, como Jesus deu a entender em outra ocasião. Alguém lhe perguntou: “Senhor, são poucos os que são salvos?” Mas ele negou-se a satisfazer sua curiosidade. Apenas respon­deu: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita.”[422]

Para recapitular: de acordo com as palavras de Jesus, há apenas dois caminhos, o difícil e o fácil (não existe um caminho do meio), nos quais se entra por duas portas, a larga e a estreita (não existe outra porta), que terminam em dois destinos, a des­truição e a vida (não há uma terceira alternativa). Nem é preciso dizer que uma conversa assim é extremamente fora de moda hoje em dia. As pessoas gostam de ser sem compromisso. Toda pesquisa de opinião pública permite, além do “sim” e do “não”, um conveniente “eu não sei”. Os homens adoram Aristóteles e o seu dourado meio-termo. O caminho mais popular é a via media. Desviar-se do meio é arriscar-se a ser chamado de “extre­mista” ou “fanático”. Todos se ressentem quando são postos diante da necessidade de uma escolha. Mas Jesus não nos deixa escapar dela.

 

2. O perigo dos falsos mestres (vs. 15-20)

Acautelai-vos dos falsos profetas que se vos apresentam disfar­çados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores. 16Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? 17Assim toda árvore boa pro­duz bons frutos, porém a árvore má produz frutos maus. 18Não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore má pro­duzir frutos bons. 19Toda árvore que não produz bom fruto é cortada, e lançada ao fogo. 20Assim, pois, pelos seus frutos os conhecereis.

 

a. Suposições

Ao dizer às pessoas acautelai-vos dos falsos profetas, Jesus obvia­mente supunha que estes existiam. Não há sentido em colocar-se no portão do jardim um aviso: “Cuidado com o cachorro!”, se tudo o que você tem em casa é um casal de gatos e um piriquito! Não. Jesus advertiu os seus discípulos sobre os falsos profetas porque eles já existiam. Encontramo-los em muitas ocasiões no Velho Testamento, e parece que Jesus colocou os fariseus e saduceus no mesmo quadro. “Cegos condutores de cegos”, ele os chamou. Ele também deu a entender que aumentariam de nú­mero, e que o período precedente ao fim se caracterizaria, não só pela propagação mundial do Evangelho, mas também pelo surgimento de falsos mestres, que desviariam a muitos.[423] Lemos sobre eles em quase todas as cartas do Novo Testamento. São chamados de “pseudo-profetas”, como aqui (“profetas” presu­mivelmente porque proclamavam inspiração divina), ou “pseudo-apóstolos” (porque diziam ter autoridade apostólica),[424] ou “pseudo-mestres”,[425] ou até mesmo “pseudo-Cristos” [426](porque tinham pretensões messiânicas ou porque negavam que Jesus fosse o Cristo que veio em carne). Mas cada um deles era “pseu­do”, e pseudos é a palavra grega para mentira. A história da igreja cristã tem sido uma história longa e fatigante de contro­vérsias com falsos mestres. Seu valor, na providência soberana de Deus, é que apresentaram à Igreja um desafio para examinar e definir a verdade, mas causaram muitos prejuízos. Sinto que ainda há muitos deles nas igrejas de hoje.

Ao dizer-nos para nos acautelarmos com os falsos profetas, Jesus fez outra pressuposição, isto é, que há um padrão objetivo da verdade, do qual a falsidade dos falsos profetas se distingue. Caso contrário, a noção de profeta “falso” tornar-se-ia sem signi­ficado. Nos tempos bíblicos, um verdadeiro profeta era aquele que ensinava a verdade por inspiração divina, e o falso profeta era aquele que reivindicava a mesma inspiração divina mas pro­pagava a mentira. Jeremias contrastou-os nestes termos: falsos profetas “falam visões do seu coração”, enquanto que os ver­dadeiros profetas “permanecem no conselho do Senhor”, “ouvem a palavra de Deus”, “proclamam-na ao povo” e “falam da boca do Senhor”.[427] Novamente, “o profeta que tem sonho conte-o como apenas sonho; mas aquele em quem está a minha palavra, fale a minha palavra com verdade. Que tem a palha com o trigo?”[428] Portanto, ao referir-se a determinados mestres chamando-os de “falsos profetas”, está claro que Jesus não era sincretista, ensinando que opiniões contraditórias eram na reali­dade visões complementares da mesma verdade. Não. Ele defendeu que verdade e mentira são mutuamente excludentes, e que aqueles que propagam mentiras em nome de Deus são pro­fetas falsos, dos quais os seus discípulos deveriam se acautelar.

 

b. Advertências

Depois de anotar as pressuposições de Jesus (que existem falsos profetas, bem como uma verdade da qual eles se desviam), temos de considerar mais precisamente sua advertência: Acautelai-vos dos falsos profetas que se vos apresentam disfarçados em ove­lhas, mas por dentro são lobos roubadores (v. 15). Desta metá­fora aprendemos que os pseudo-profetas são perigosos e men­tirosos.

Seu perigo é que, na realidade, são lobos. Na Palestina do primeiro século, o lobo era o inimigo natural das ovelhas, que ficavam totalmente sem defesa diante dele. Por isso, um bom pastor, como Jesus ensinaria mais tarde, tinha de estar sempre alerta e proteger suas ovelhas contra os lobos, enquanto que o empregado contratado (o qual, não sendo dono das ovelhas, não se importava com elas) geralmente as abandonava e fugia ao primeiro sinal da fera, deixando-as ser atacadas e dispersas.[429] Exatamente da mesma forma o rebanho de Cristo está à mercê ou de bons pastores, ou de mercenários, ou de lobos. O bom pastor alimenta o rebanho com a verdade; o falso mestre, como um lobo, divide-o através do erro, enquanto o profissional tem­porário nada faz para protegê-lo, abandonando-o aos falsos mestres. “Eu sei”, disse Paulo aos anciãos de Éfeso, “que, depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos vorazes que não pouparão o rebanho. E que, dentre vós mesmos, se levantarão homens falando cousas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles. Portanto, vigiai. . .”[430]

Que “cousas pervertidas” seriam estas que constituem uma perturbação e um perigo para a Igreja? Uma das principais características dos falsos profetas no Velho Testamento era o seu otimismo amoral, sua negação de que Deus era o Deus do Juízo, como também o Deus do amor e da misericórdia cons­tantes. Eles eram culpados, disse Jeremias ao povo, pois “en­chem de vãs esperanças . . . Dizem continuamente aos que desprezam a Palavra de Deus: “O Senhor disse: Paz tereis; e a qualquer que anda segundo a dureza do seu coração, dizem: Não virá mal sobre vós”.[431] Semelhantemente, Deus se queixa: “Curam superficialmente a ferida do meu povo, dizendo: Paz, paz; quando não há paz”.[432] Tais palavras constituem um grande mau serviço ao povo de Deus, para não se dizer coisa pior. Dão-lhes um falso sentimento de segurança. Embalam-nos em seus pecados. Deixam de adverti-los sobre o juízo iminente de Deus ou sobre a maneira de como escapar dele.

Portanto, certamente não é por acaso que a advertência de Jesus sobre os falsos profetas no Sermão do Monte segue-se imediatamente após o seu ensinamento sobre as duas portas, os dois caminhos, as duas multidões e os dois destinos: os falsos profetas são peritos em tornar indistinta a questão da salvação. Alguns emporcalham ou distorcem de tal maneira o Evangelho que o tornam difícil de ser entendido pelos que tentam encontrar a porta estreita. Outros procuram demonstrar que o caminho estreito ê, na realidade, muito mais largo do que Jesus deu a entender, e que andar nele exige pouca ou nenhuma restrição na crença e no comportamento da pessoa. Outros ainda, talvez os mais perniciosos de todos, atrevem-se a contradizer Jesus, afirmando que o caminho largo não leva à destruição, mas que na verdade todos os caminhos levam a Deus, e até mesmo que os caminhos largo e estreito, embora levem a direções opostas, finalmente acabarão no mesmo destino, a vida. Não foi por menos que Jesus comparou esses mestres com lobos vorazes, não tanto porque fossem gananciosos, ávidos de prestígio ou de poder (embora geralmente o sejam), mas por serem “selvagens” (BLH), isto é, extremamente perigosos. São responsáveis pela condução de algumas pessoas à própria destruição que eles afirmam não existir.

Mais que perigosos, são também mentirosos. Os “cães” e os “porcos” do versículo 6, por causa de seus hábitos imundos, são fáceis de se reconhecer. Mas não os “lobos”, pois penetram sorrateiramente no rebanho, disfarçados de ovelhas. Como resul­tado, as ovelhas incautas os confundem com outras ovelhas e os recebem com boas vindas, de nada suspeitando. Seu verdadeiro caráter só é descoberto tarde demais, e quando o prejuízo já ocorreu.

Em outras palavras, um falso mestre não se anuncia nem faz propaganda de si mesmo como um fornecedor de mentiras; pelo contrário, reivindica ser um mestre da verdade. “Sabendo que os cristãos são um povo crédulo, disfarça seu propósito sombrio sob o manto da piedade cristã, esperando que seu inócuo disfarce evite o desmascaramento.”[433] Não só ele simula piedade, mas freqüentemente usa a linguagem da ortodoxia histórica, a fim de ganhar aceitação dos simplórios, enquanto, na verdade, suas pretensões são totalmente diferentes, algo destrutivo da própria verdade que pretende defender. Igualmente esconde-se sob o manto dos títulos altissonantes e dos graus acadêmicos impressionantes.

Portanto, “acautelai-vos!”, Jesus adverte. Devemos ficar de guarda, orando por discernimento, usando nossas faculdades de crítica e jamais relaxando nossa vigilância. Não devemos ficar fascinados com o seu exterior, com o seu encanto pessoal, com a sua cultura, com seus títulos doutorais e eclesiásticos. Não devemos ser ingênuos a ponto de supor que, sendo um Dou­tor em Filosofia ou em Teologia, um professor ou um bacharel, ele deve ser um verdadeiro e ortodoxo embaixador de Cristo. Devemos olhar por trás de sua aparência para a realidade. O que se encontra sob o pelo: uma ovelha ou um lobo?

 

c. Provas

Tendo notado as pressuposições feitas por Jesus e as advertências que deu, estamos agora prontos a examinar o teste ou testes que ele nos mandou aplicar. Ele mudou suas metáforas de ove­lhas e lobos para árvores e seus frutos, e da roupagem das ovelhas que um lobo poderia usar para o fruto que uma árvore deve dar. Fazendo assim, ele passou do risco do não-reconhecimento para os meios do reconhecimento. Embora certamente possamos confundir muitas vezes um lobo com uma ovelha, ele nos diz que não podemos cometer o mesmo engano com uma árvore. Nenhuma árvore pode esconder a sua identidade por muito tempo. Mais cedo ou mais tarde ela se trai, pelo seu fruto. Um lobo pode disfarçar-se; uma árvore, não. Ervas daninhas, como espinhos e abrolhos, simplesmente não podem produzir fruto comestível como uvas e figos. Não só o caráter do fruto fica deter­minado pela árvore (uma figueira dá figos e uma videira, uvas), mas também a sua condição (toda árvore boa produz bons frutos, porém a árvore má produz maus frutos, v. 17). Na verdade, não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore má pro­duzir frutos bons (v. 18). E o dia do juízo concluirá a diferen­ciação, quando as árvores não frutíferas serão cortadas e quei­madas (v. 19). Portanto (pois esta é a conclusão que Jesus enfa­tiza duas vezes), pelos seus frutos os conhecereis (vs. 16, 20). Que frutos são estes?

A primeira espécie de “fruto” pelo qual os falsos profetas revelam a sua verdadeira identidade está no campo do caráter e da conduta. Na alegoria do próprio Jesus, a produtividade significa semelhança com Cristo, o que Paulo mais tarde designou como “o fruto do Espírito”. Sendo assim, sempre que vemos em um mestre a mansidão e a humildade de Cristo, o seu amor, a sua paciência, a sua bondade, a sua delicadeza e auto-controle, temos motivos para considerá-lo verdadeiro, não falso. Por outro lado, sempre que estas qualidades estão ausentes, e “as obras da carne” estão mais aparentes do que “o fruto do Espírito”, especialmente a inimizade, a impureza, a inveja e a auto-indulgência, devemos suspeitar que o profeta é um impostor, por mais pretensiosas que sejam as suas reivindicações e por mais plausíveis que sejam os seus ensinamentos.

Mas os “frutos” do profeta não são apenas o seu caráter e modo de vida. Na verdade, os intérpretes “que os confinam a esta vida estão, na minha opinião, enganados”, escreveu Calvino.[434] O segundo “fruto” é o próprio ensinamento da pessoa. Isto ficou fortemente sugerido pelo outro uso que Jesus fez da mesma metáfora da árvore frutífera: “Pelo fruto se conhece a árvore. Raça de víboras! como podeis falar cousas boas, sendo maus? porque a boca fala do que está cheio o coração. O homem bom tira do tesouro bom cousas boas; mas o homem mau do mau tesouro tira cousas más. Digo-vos que toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no dia do juízo; porque pelas tuas palavras serás justificado, e pelas tuas palavras serás condenado.”[435] Portanto, se o coração de uma pessoa revela-se em suas palavras, como a árvore se conhece pelos seus frutos, temos a responsabilidade de experimentar um mestre pelos seus ensinamentos. O apóstolo João dá-nos um exemplo disto, pois as igrejas da Ásia às quais escreveu tinham sido invadidas pelos falsos mestres. Assim como Jesus, ele admoestou-as a não se deixarem enganar, mas que “provassem os espíritos” Cisto é, dos mestres que reivindicavam a inspiração) para ver se procediam de Deus.[436] Incentivou-as a buscar retidão e amor em seus mestres e a rejeitar como espúrios os injustos e os que não tivessem amor. Mas a este teste moral ele acrescentou um doutrinário. Genera­lizando, era se a mensagem dos mestres estava de acordo com a instrução apostólica original,[437] e, particularmente, se confes­sava Jesus como o Cristo que veio em carne, reconhecendo assim sua pessoa divino-humana.[438]

Os reformadores do século dezesseis, que foram acusados pela Igreja de Roma de serem inovadores e falsos mestres, defen­deram-se através deste teste doutrinário. Apelaram para as Escri­turas e declararam que os seus ensinamentos não eram a intro­dução de alguma coisa nova, mas a recuperação de uma coisa velha, a saber, o Evangelho original de Cristo e dos seus após­tolos. Foram antes os católicos medievais que se afastaram da fé, caindo no erro. “Apeguem-se à Palavra de Deus pura”, cla­mava Lutero, para serem capazes de “reconhecer o juiz” que está certo.[439] Calvino enfatizou a mesma coisa: “Todas as dou­trinas têm de ser colocadas junto ao padrão da Palavra de Deus”, pois “no julgamento dos falsos profetas, a regra da fé (isto é, das Escrituras) tem o primeiro lugar”.[440] Ele foi ainda um passo adiante, chamando a atenção para as motivações dos falsos mestres, além do conteúdo de seus ensinamentos: “Com os fru­tos, o modo de ensinar está incluído . . ., pois Cristo provou ter sido enviado por Deus, ao dizer que não estava ‘procurando a sua própria glória’, mas a glória do Pai que o tinha enviado” (João 7:18).[441]

Ao examinar as credenciais de um mestre, então, temos de observar tanto o seu caráter como a sua mensagem. O Rev. Ryle resumiu bem: “Doutrina sadia e vida santa são os sinais dos verdadeiros profetas.”[442] Penso que há um terceiro teste que devemos aplicar aos mestres, e refere-se à sua influência. Temos de nos perguntar que efeitos os seus ensinamentos estão produ­zindo nos seus discípulos. As vezes, a falsidade do ensino falso não aparece imediatamente quando olhamos para o comporta­mento ou para a doutrina de um mestre; apenas mais tarde percebemos que seus resultados foram desastrosos. Foi isto que Paulo quis dizer ao escrever que o mal tem a tendência de “cor­roer como o câncer”.[443] Seu processo canceroso progride con­forme vai perturbando a fé das pessoas,[444] promovendo a impiedade[445] e provocando divisões dolorosas.[446] O ensinamento bom, por outro lado, produz fé, amor e piedade.[447]

Naturalmente, a aplicação deste teste dos “frutos” nem é simples nem direta, pois os frutos levam tempo para crescer e amadurecer. Temos de esperar pacientemente. Precisamos tam­bém de uma oportunidade para examiná-los atentamente, pois nem sempre é possível reconhecer uma árvore e seus frutos à distância. Na verdade, até mesmo de perto podemos não per­ceber imediatamente os sintomas de uma doença na árvore ou a presença de um verme no fruto. Para aplicar isso a um mestre, precisamos, não de uma estimativa superficial de sua posição na Igreja, mas de um escrutínio íntimo e crítico do seu caráter, da sua conduta, da sua mensagem, das suas motivações e da sua influência.

Entretanto, esta advertência de Jesus não nos incentiva a fi­carmos desconfiados de todos ou a adotarmos como passatempo o esporte indecoroso de “caça à heresia”. Antes, é um lembrete solene de que há falsos mestres na Igreja e que devemos ficar em guarda. O que importa é a verdade, pois Deus é a verdade e esta edifica a igreja de Deus, enquanto que o erro é demo­níaco e destrutivo. Se damos importância à verdade de Deus e à Igreja de Deus, temos de levar a sério a advertência de Cristo.

Ele e seus apóstolos colocaram a responsabilidade da pureza doutrinária da Igreja parcialmente sobre os ombros dos líderes cristãos, mas também e especialmente sobre cada congregação. A igreja local tem mais poder do que geralmente percebe ou usa na decisão de qual dos mestres vai ouvir. O Acautelai-vos dos falsos profetas, proferido por Jesus Cristo, dirige-se a todos nós. Se a Igreja desse atenção à sua advertência e aplicasse os seus testes, não estaria nesse terrível estado de confusão moral e teológica em que se encontra atualmente.

Com este parágrafo Jesus conclui o seu esboço dos relaciona­mentos cristãos. Ao olharmos para trás, reunindo os ensina­mentos, vemos como são ricos e variados. Como irmão, o cristão odeia a hipocrisia, critica a si mesmo e procura dar apoio moral construtivo aos outros. Como evangelista, valoriza tanto a pérola do Evangelho que se recusa a expô-la à rejeição desdenhosa dos pecadores endurecidos. Como amante de todos os homens, está resolvido a comportar-se em relação a eles como gostaria de vê-los comportando-se para com ele mesmo. Como filho, olha humilde e confiantemente para o seu Pai celeste para receber as boas dádivas de que precisa. Como viajante no caminho difícil e estreito, desfruta da comunhão com os companheiros de pere­grinação e mantém os olhos no alvo da vida. Como defensor da verdade revelada de Deus, dá atenção à advertência de Cristo de acautelar-se dos falsos mestres, que poderiam pervertê-lo e assim prejudicar o rebanho de Cristo.

Mateus 7:21-27
O compromisso cristão: uma escolha radical

 

Se não foi no versículo 13 que Jesus começou a sua conclusão do Sermão do Monte, certamente agora ele o faz. Neste ponto ele não está preocupado em acrescentar mais instruções, mas deseja assegurar uma reação adequada à instrução que acaba de dar. “O Senhor Jesus finaliza o Sermão do Monte”, escreve J. C. Ryle, “com uma passagem de aplicação penetrante. Ele volta-se dos falsos profetas para os falsos professos, dos falsos mestres para os falsos ouvintes”.[448] R. V. G. Tasker comenta de maneira semelhante: “Entretanto, não são somente os falsos mestres que tornam o caminho estreito difícil de achar e mais difícil de palmilhar. Um homem também pode enganar-se dolo­rosamente.”[449]

Por isso, Jesus nos leva a um confronto próprio, colocando diante de nós a escolha radical entre a obediência e a desobe­diência, e nos convoca a um compromisso incondicional da mente, da vontade e da vida com os seus ensinamentos. Ele nos adverte quanto a duas alternativas inaceitáveis: a profissão de fé meramente verbal (vs. 21-23) e o conhecimento meramente intelectual (vs. 24-27). Nenhum dos dois pode substituir a obedi­ência; na verdade, ambos constituem um disfarce da desobe­diência. Jesus enfatiza com grande solenidade que o nosso des­tino eterno depende de uma obediência total.

No que se refere a isso, os dois parágrafos finais do Sermão são muito parecidos. Ambos contrastam as reações certa e errada aos ensinamentos de Cristo. Ambos indicam que a neutralidade é impossível e que uma decisão definida tem de ser tomada. Ambos destacam que nada pode substituir a obediência ativa e prática. E ambos ensinam que a questão da vida e da morte no dia do juízo será determinada pela nossa reação moral a Cristo e a seus ensinamentos nesta vida. A única diferença entre os parágrafos é que, no primeiro, se oferece como alternativa para a obediência uma profissão de fé com os lábios, e, no segundo, um mero ouvir, também como alternativa para a obediência.

 

1. O perigo de uma profissão de fé simplesmente verbal (vs. 21-23)

Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. 22Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? 23Então lhes direi explicitamente: Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim,  os que praticais a iniqüidade.

As pessoas que Jesus está descrevendo aqui estão confiando para a sua salvação em uma afirmação do credo, no que elas “dizem” a Cristo ou a respeito de Cristo. “Nem todo o que me diz” (v. 21). “Muitos, naquele dia, hão de dizer” (v. 22). Mas o nosso destino final será estabelecido, Jesus insiste, não pelo que lhe dizemos hoje, nem pelo que lhe diremos no último dia, mas por fazermos o que dizemos, por estar a nossa profissão verbal acom­panhada da obediência moral.

Uma profissão verbal de Cristo é indispensável. Para sermos salvos, escreveu Paulo, temos de confessá-lo com nossos lábios e crer em nossos corações.[450] E uma verdadeira profissão de fé em Jesus como Senhor é impossível sem o Espírito Santo.[451] Além disso, o tipo de profissão cristã que Jesus descreve no final do Sermão parece, pelo menos superficialmente, que é totalmente admirável. Começando, é respeitosa; chama-o de “Senhor”, exatamente como hoje em dia a maneira mais respeitosa e edu­cada de se referir a Jesus ainda é dizer “nosso Senhor”. Depois, a profissão é ortodoxa. Embora chamar Jesus de “Senhor” talvez não signifique mais do que chamá-lo de “senhor” (com minúscula), o presente contexto contém alusões a Deus como seu Pai, e a ele mesmo como Juiz, e portanto parece implicar em algo mais. Depois de sua morte e ressurreição, os cristãos primitivos certamente sabiam o que estavam fazendo, quando o chamavam de “Senhor”. Era um título divino, uma tradução da palavra judaica “Jeová” no grego do Velho Testamento. Por­tanto, dentro dessa perspectiva, podemos dizer que isto cons­titui uma confissão exata, ortodoxa de Jesus Cristo. Terceiro, é fervorosa, pois não é um “Senhor” frio ou formal, mas um “Senhor, Senhor” entusiástico, como se o orador desejasse cha­mar a atenção para a força e o zelo de sua devoção.

Quarto ponto: é uma confissão pública. Não é uma declaração particular e pessoal de fidelidade a Jesus. Alguns até “profeti­zaram” em nome de Cristo, chegando até a insinuar que pre­garam em público com a autoridade e a inspiração do próprio Jesus. Mais do que isto, a profissão de fé às vezes chega a ser espetacular. A fim de destacar este ponto, Jesus cita os mais extremos exemplos de profissão de fé verbal, a saber, o exercício de um ministério sobrenatural envolvendo profecia, exorcismo e milagres. O que essas pessoas destacam ao falar com Cristo no dia do juízo é o nome pelo qual ministraram. Três vezes usaram-no, sempre colocando-o em primeiro lugar para dar ênfase. Reivindicam que, em nome de Cristo, pública e abertamente confessado, eles profetizaram, expeliram demônios e fizeram muitas obras maravilhosas. E não temos motivo para não acre­ditar nas suas reivindicações, pois “grandes sinais e prodígios” serão realizados até mesmo pelos falsos Cristos e falsos profetas.[452] Que profissão de fé cristã poderia ser melhor? Temos aqui pessoas que chamam Jesus de “Senhor” com cortesia, ortodoxia e entusiasmo, em devoção particular e ministério público. O que poderia haver de errado nisto? Em si, nada de mau. E, não obstante, tudo está errado, porque são palavras que não contêm a verdade; é uma profissão de fé sem realidade. Não os salvará no dia do juízo. Por isso, Jesus passa do que eles dizem e dirão para o que ele lhes dirá. Ele também fará uma declaração solene. A palavra usada no versículo 23 é homologësö, “confessarei”.

A confissão de Cristo será, como a deles, em público, mas dife­rente, porque será verdadeira. Ele lhes dirigirá as terríveis palavras: Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade, pois, embora tenham usado o nome dele livremente, Jesus não conhecia seus nomes.

A razão por que Jesus os rejeita é que a profissão de fé deles foi verbal, não moral. Era uma confissão apenas de lábios, não de vida. Chamam a Jesus “Senhor, Senhor”, mas jamais se submeteram ao seu senhorio, nem obedeceram à vontade de seu Pai celeste. A versão de Lucas desta declaração é um tanto mais forte: “Por que me chamais, Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos mando?”[453] A diferença vital está entre o “dizer” e o “fazer”. A razão por que Cristo, o Juiz, os banirá de sua presença é que são malfeitores, praticam a iniqüidade. Podem alegar feitos gran­diosos em seu ministério; mas, no seu comportamento diário, as suas obras não são boas, são más. Que valor teria para tais pes­soas tomar o nome de Cristo nos lábios? Como Paulo expressou alguns anos depois: “Aparte-se da injustiça todo aquele que professa o nome de Cristo”.[454]

Nós que, atualmente, declaramos ser cristãos, fizemos uma profissão de fé em Jesus, particularmente na conversão e publi­camente no batismo. Damos a impressão de honrar a Jesus, cha­mando-o de “o Senhor” ou “nosso Senhor”. Recitamos o credo na igreja e cantamos expressivos hinos de devoção a Cristo. Até exercemos uma variedade de ministérios em seu nome. Mas ele não fica impressionado com nossas palavras piedosas e orto­doxas. Ele continua pedindo evidências de nossa sinceridade em boas obras de obediência.

 

2. O perigo de um conhecimento meramente intelectual  (vs. 24-27)

Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica, será comparado a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha; 25e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, que não caiu, porque fora edificada sobre a rocha.26 E todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica, será comparado a um homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia; 27e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, e ela desabou, sendo grande a sua ruína.

Enquanto, no parágrafo anterior, o contraste era entre o “dizer” e o “fazer”, o contraste agora é entre o “ouvir” e o “fazer”. De um lado, diz Jesus, está a pessoa que ouve estas minhas palavras e as pratica (v. 24) e, do outro, a pessoa que ouve estas minhas palavras e não as pratica (v. 26). Depois ele ilustra o contraste entre os seus ouvintes, o obediente e o desobediente, com a sua conhecida parábola dos dois construtores, o homem sábio que “cavou”[455] e construiu a sua casa sobre a rocha, e o tolo que não queria se aborrecer com alicerces e contentou-se em edificar sobre a areia. Enquanto os dois prosseguiam com a sua constru­ção, um observador casual não poderia perceber qualquer dife­rença entre as duas casas, pois a única diferença estava nos ali­cerces, e estes não podiam ser vistos. Só depois que uma tempes­tade se desencadeou sobre as duas casas com grande ferocidade: “chuva no telhado, rio nos alicerces, vento nas paredes”,[456] foi re­velada a diferença fatal e fundamental. A casa edificada sobre a rocha resistiu à tormenta, enquanto que a casa sobre a areia ficou irreparavelmente arruinada.

Da mesma maneira, os cristãos professos (os genuínos e os espúrios) freqüentemente se parecem. Não podemos facilmente distinguir qual é qual. Ambos parecem estar edificando vidas cristãs. Jesus não está fazendo uma comparação entre cristãos e não-cristãos que não fizeram nenhuma profissão de fé. Pelo con­trário, o que é comum aos dois edificadores espirituais é que eles ouvem estas minhas palavras. Portanto, os dois são membros da comunidade cristã visível. Ambos lêem a Bíblia, vão à igreja, ouvem os sermões e compram literatura cristã. O motivo por que tão freqüentemente não podemos diferençar um do outro é que os alicerces de suas vidas estão ocultos aos nossos olhos. A verda­deira pergunta não é se ouvem os ensinamentos de Cristo (nem mesmo se os respeitam ou crêem neles), mas se fazem o que ouvem. Apenas uma tempestade revelará a verdade. Às vezes, uma tempestade de crises ou calamidades revela que tipo de pessoa somos, pois “a verdadeira piedade não se distingue total­mente de sua imitação até que venham as provações”.[457] Caso contrário, a tempestade do dia do juízo certamente o fará.

A verdade sobre a qual Jesus está insistindo nestes dois pará­grafos finais do Sermão é que nem um conhecimento intelectual dele, nem uma profissão de fé verbal, embora ambos sejam essenciais em si mesmos, podem substituir a obediência. A per­gunta não é se nós dizemos coisas bonitas, polidas, ortodoxas e entusiásticas sobre Jesus; nem se ouvimos suas palavras, se prestamos atenção, se estudamos, se meditamos e se memoriza­mos até empanturrar as nossas mentes com os seus ensinamen­tos, mas se nós fazemos o que dizemos e se fazemos o que sabemos; em outras palavras, se o senhorio do Jesus que profes­samos é a grande realidade de nossa vida.

Isto não é, naturalmente, ensinar que o caminho da salvação, ou o caminho para entrar no reino dos céus (v. 21), é pelas boas obras da obediência, pois todo o Novo Testamento oferece salva­ção apenas pela graça pura de Deus mediante a fé. O que Jesus está destacando, entretanto, é que aqueles que verdadeiramente ouvem o Evangelho e professam a sua fé sempre hão de obede­cê-lo, expressando a sua fé em suas obras. Os apóstolos de Jesus jamais se esqueceram deste ensinamento. Isto se vê em suas cartas. A primeira carta de João, por exemplo, alerta muito quanto aos perigos de uma profissão de fé verbal: “Se dissermos que mantemos comunhão com ele, e andarmos nas trevas, menti­mos . . . Aquele que diz: Eu o conheço, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso”.[458] A carta de Tiago, por sua vez, avisa dos perigos de um conhecimento intelectual. Uma orto­doxia árida não pode salvar, ele escreve, mas apenas uma fé que se traduza em boas obras; por isso, devemos ser “praticantes da palavra, e não somente ouvintes”.[459]

Ao aplicar este ensinamento a nós mesmos, precisamos consi­derar que a Bíblia é um livro perigoso de se ler, e que a igreja é uma comunidade perigosa de se juntar, pois na leitura da Bíblia ouvimos as palavras de Cristo, e quando nos filiamos à igreja dizemos que cremos em Cristo. Como resultado, pertencemos a um grupo descrito por Jesus como aqueles que ouvem os seus ensinamentos e o chamam de Senhor. Nossa filiação, portanto, coloca sobre nós a séria responsabilidade de garantir que aquilo que sabemos e dizemos está sendo traduzido no que fazemos.

Assim, o Sermão termina com a mesma nota de escolha radical da qual estivemos conscientes o tempo todo. Jesus não coloca diante de seus discípulos uma lista de regras éticas fáceis de obe­decer, mas um conjunto de valores e ideais que é totalmente dife­rente do caminho do mundo. Ele nos incentiva a renunciarmos a cultura secular prevalecente em favor da contracultura cristã. Repetidas vezes, durante o nosso estudo, ouvimos o chamado que faz ao seu povo para ser diferente de todos os outros. A primeira vez que isto tornou-se claro foi na responsabilidade que nos trans­mitiu de sermos “o sal da terra” e “a luz do mundo”, pois estas metáforas colocam as comunidades cristã e não-cristã em posi­ções antagônicas, por serem reconhecida e fundamentalmente distintas. O mundo é como alimento podre, cheio de bactérias que causam a sua desintegração; os discípulos de Jesus têm de ser o seu sal, evitando o apodrecimento. O mundo é um lugar escuro e triste, sem sal, mergulhado nas trevas; os discípulos de Jesus têm de ser a luz do mundo, dissipando suas trevas e sua melancolia.

A partir de então, os padrões opostos são pitorescamente des­critos, e o caminho de Jesus é recomendado. Nossa justiça tem de ser mais profunda porque atinge também o nosso coração, e o nosso amor tem de ser mais amplo porque abrange também nossos inimigos. Na piedade devemos evitar a ostentação dos hipócritas e, na oração, a verbosidade dos pagãos. Por outro lado, nossas dádivas, nossa oração e nosso jejum têm de ser verdadeiros, sem comprometer a nossa integridade cristã. De­vemos escolher para ser nosso tesouro algo que dure por toda a eternidade, que não se desintegre na terra; e por senhor de­vemos escolher a Deus, não o dinheiro e as propriedades. Quanto às nossas ambições (aquilo que preocupa nossas mentes), não a nossa própria segurança material, mas a propagação do governo e da justiça de Deus no mundo. Em lugar de nos conformarmos com este mundo, quer na forma dos fariseus religiosos, ou dos pagãos irreligiosos, somos chamados por Jesus a imitar o nosso Pai celeste. Ele é um paci­ficador. E ele ama até mesmo os ingratos e egoístas. Por isso devemos copiá-lo, e não aos homens. Só então provaremos que verdadeiramente somos seus filhos e filhas (5:9, 44-48). Então vem a alternativa de seguir a multidão ou a nosso Pai que está nos céus, ser como a cana agitada pelos ventos da opinião pú­blica ou ser dirigido pela Palavra de Deus, pela revelação do seu caráter e pela sua vontade. E o propósito principal do Sermão do Monte é apresentar-nos esta alternativa, defrontando-nos, assim, com a necessidade indispensável da escolha.

É por isso que a conclusão do Sermão é tão apropriada: Jesus esboçando os dois caminhos (o estreito e o largo) e os dois edi­fícios (sobre a rocha e sobre a areia). Seria impossível exagerar a importância da escolha entre os dois, considerando que um deles leva à vida, enquanto que o outro termina na destruição, e que um edifício é seguro enquanto que o outro é derrubado pela calamidade. Muito mais notável que a escolha de uma carreira profissional ou de um companheiro para a vida ê a escolha da própria vida. Qual a estrada que vamos tomar para viajar? Sobre que alicerce vamos começar a construir?

MATEUS 7:28, 29
Conclusão: quem é esse pregador?

 

Muitas pessoas, inclusive os adeptos de outras religiões e os que não têm nenhuma, dizem-nos que estão preparadas para aceitar o Sermão do Monte como contendo a verdade auto-evidente. Sabem que ele inclui sentenças tais como “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”,  “Amai os vossos inimigos”, “Ninguém pode servir a dois senhores”, “Não julgueis, para que não sejais julgados” e “Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles”. Lindo! Aqui, dizem eles, Jesus de Nazaré é o mestre da moral em sua forma melhor e mais simples. Aqui está o âmago de sua mensagem antes de ser incrustada, por seus intérpretes, de adições sem valor. Aqui está o “Jesus original”, com ética simples e sem dogmas, um profeta da justiça, sem sofisticação, reivindicando ser nada mais que um mestre humano e nos dizendo que façamos o bem e que nos amemos uns aos outros. “O Jesus do dogma eu não entendo”, disse certa vez um pro­fessor hindu a Stanley Jones, “mas o Jesus do Sermão do Monte e da cruz eu amo e me sinto atraído por ele”. Semelhantemente, um mestre islâmico sufi disse-lhe que “quando lia o Sermão do Monte não podia conter as lágrimas”.[460]

Mas esta explicação popular do Sermão não pode ficar de pé após um exame detalhado. Ela está errada em dois pontos: pri­meiro, na sua opinião sobre o mestre e, segundo, na sua apresentação dos seus ensinamentos. Pois, ao examinarmos esses dois pontos mais detalhadamente, surge uma coisa muito diferente.

Consideramos no último capítulo as características dos ensina­mentos de Jesus, o seu esboço da contracultura cristã e a sua chamada para o discipulado radical. Agora resta-nos considerar a excepcionalidade do mestre propriamente dito.

O que vamos descobrir é que é impossível construir um muro entre o Jesus do Sermão do Monte e o Jesus do restante do Novo Testamento. Em lugar disso, o pregador do Sermão do Monte é o mesmo Jesus sobrenatural, dogmático, divino, que se encontra em outros lugares. Portanto, a pergunta principal que se nos impõe, não é “O que fazer com estes ensinamentos?”, mas “Quem, afinal de contas, é esse mestre?” Esta foi certamente a reação daqueles que ouviram o Sermão pregado.

Quando Jesus acabou de proferir estas palavras, estavam as mul­tidões maravilhadas da sua doutrina; 29 porque ele as ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas.

O que primeiro impressionou os ouvintes do Sermão (as multi­dões, como também os seus discípulos, 5:1) foi a autoridade extraordinária do pregador. Ele não titubeava nem hesitava. Não era inseguro, sentindo necessidade de se justificar, nem tam­pouco era extravagante ou empolado. Pelo contrário, com uma certeza calma e despretenciosa, expunha a lei para os cidadãos do reino de Deus. E estavam as multidões maravilhadas e (o termo grego aqui é muito forte) atônitas.[461] “Após mil e nove­centos anos”, comenta A. M. Hunter, “nós ainda continuamos atônitos”.[462]

Portanto, seria proveitoso tentarmos analisar esta “autori­dade” de Jesus, conforme exposta no Sermão. Sobre o que se firmava? De onde vinha a autoconsciência que o levava a falar deste modo? Que indicações o Sermão dá sobre como ele enten­dia a sua identidade e a sua missão? Não temos de procurar muito para encontrar as respostas a estas perguntas.

 

1. A autoridade de Jesus como mestre

As multidões ficaram atônitas diante da sua doutrina, pois ele as ensinava com autoridade. Sim, ele se apresentou primeiro e mais do que tudo como um mestre, e deixava os seus ouvintes per­plexos com o conteúdo, com a qualidade e com a maneira de expor a sua instrução. Mas, naturalmente, existiram milhares de outros mestres entre os judeus e outros povos. Muitos foram seus contemporâneos. O que, então, havia de tão especial nele? De uma certa forma, ele assumia o direito de ensinar a ver­dade absoluta. Ele era judeu,  mas sua mensagem não era segundo os padrões judaicos. Ele estava interpretando a lei de Moisés, mas de tal modo a mostrar que era a lei de Deus. O que ele tinha a dizer não estava culturalmente condicionado, no senti­do de ficar limitado a um povo em particular (os judeus) ou a um lugar em particular (a Palestina). Sendo absoluto, era universal. Portanto, ele falava como quem sabia o que estava falando. “Nós dizemos o que sabemos”, ele declarou em outro contexto.[463] Ele sabia quem seria grande no reino de Deus e quem seria o menor, quem era “bem-aventurado” diante de Deus e quem não o era, qual o caminho que leva à vida e qual à destruição. Com absoluta confiança em si mesmo, declarou quem herdaria o reino dos céus, quem herdaria a terra, quem obteria misericórdia, quem veria a Deus e quem estava apto a ser chamado filho de Deus. Como podia ele ter tanta certeza?

Comentaristas têm procurado uma linguagem adequada para descrever este sabor peculiar da doutrina de Jesus. Tenho cole­cionado algumas de suas tentativas, que tendem a descrever Jesus como um rei ou legislador. “Ele falou com realeza”, escreveu Spurgeon,[464] com “segurança real”,[465] ou com “soberania”. Stonehouse, p. 199. A ex­pressão de Gresham Machen foi que “ele reivindicou o direito de legislar pelo reino de Deus”,[466] enquanto James Denney com­binou as figuras de rei e legislador ao escrever sobre a sua “sobe­rania prática sobre a consciência, a vontade e os afetos do ho­mem” e a respeito de sua “autoridade moral suprema, legislando sem vacilação e exigindo obediência implícita”.[467] E Calvino dis­se que as multidões ficaram atônitas “porque uma majestade estranha, indescritível e fora do comum atraía para ele a mente dos homens”.[468]

Seus ouvintes naturalmente comparavam e contrastavam a pessoa dele com muitos mestres com os quais estavam familia­rizados, especialmente os escribas. O que mais os surpreendia era que ele os ensinava como quem tem autoridade e de modo nenhum como os escribas, pois estes não tinham autoridade pró­pria. Eles concebiam seu dever em termos de fidelidade à tra­dição que tinham recebido. Por isso, eram artiquários; mergu­lhavam em comentários, buscavam precedentes, reivindicavam o apoio de nomes famosos entre os rabinos. Sua única autori­dade encontrava-se nas autoridades que constantemente citavam. Jesus, por outro lado, que não recebera formação de escriba,[469] escandalizava o conservadorismo de então, varrendo as tradições dos anciãos, sem reverência pelas convenções sociais e falava com uma originalidade própria que cativava alguns e enfurecia ou­tros. A. B. Bruce resumia a diferença, dizendo que os escribas falavam “pela autoridade”, enquanto que Jesus falava “com autoridade”.[470]

Ele não ensinava como os escribas, e tampouco ensinava como os profetas do Velho Testamento. Estes não eram como os es­cribas, presos ao passado. Viviam no presente. Reivindica­vam falar em nome de Jeová, de modo que a voz viva do Deus vivo se ouvia através dos seus lábios. Jesus também insistia que suas palavras eram as palavras de Deus: “O meu ensino não ê meu, e, sim, daquele que me enviou”.[471] Mas havia uma dife­rença. A fórmula mais comum com a qual os profetas introdu­ziam seus oráculos era “Assim diz o Senhor”, expressão que Jesus nunca usou. Em vez disso, ele começava com “Em verdade, em verdade vos digo”, atrevendo-se assim a falar em seu próprio nome e com sua própria autoridade, a qual ele sabia ser idên­tica à do Pai.[472] Este “Em verdade, em verdade vos digo” (amëèn lego humiri), ou “Eu vos digo” (lego humin) aparece seis vezes no Sermão do Monte (5:18; 6:2, 5, 16, 25, 29). Em mais seis ocasiões, isto é, nas seis antíteses do capítulo 5, encontramos uma asserção ainda mais forte com o seu egö enfático, “Mas eu vos digo” (egó de lego humin). Não que ele estivesse contradi­zendo Moisés, como já vimos mas, antes, as corrupções que os escribas faziam de Moisés. Todavia, quando o fazia, desafiava a tradição herdada há séculos e reivindicava substituí-la com a sua própria interpretação exata e autorizada da lei de Deus. Assim, ele “apresentava-se como um legislador, não como um intérprete; ordenava e proibia, abolia e prometia, sobre a sua palavra apenas”.[473]

Tão certo estava da verdade e da validade da sua doutrina, que disse que a sabedoria e a insensatez humanas deviam ser ava­liadas pela reação àquela doutrina. As únicas pessoas sábias, deu ele a entender, eram aquelas que edificavam suas vidas sobre as suas palavras, obedecendo-lhes. Todas as outras pessoas eram néscias porque rejeitavam a sua doutrina. Ele podia até aplicar a si mesmo aquelas palavras da sabedoria personificada que apa­recem em Provérbios 1:33: “O que me der ouvidos habitará segu­ro”. É prestando atenção a ele, a sabedoria de Deus, que o homem aprende a ser sábio.

 

2. A autoridade de Jesus como o Cristo

Há evidências no Sermão do Monte, como em muitas outras partes da sua doutrina, de que Jesus sabia que viera ao mundo com uma missão. “Em vim”, ele diria[474] em diversas ocasiões no Evangelho de Mateus, referindo-se a si mesmo como o “envia­do”.[475] Ele não viera, insistia em dizer, “para abolir a lei e os profetas”, mas para “cumpri-los” (plérõsaí).

A reivindicação pode parecer bastante inocente até que refli­tamos sobre suas conseqüências. O que ele está asseverando é que todos os prenúncios e predições da lei e dos profetas encon­travam seu cumprimento nele, e que, portanto, todas as linhas do testemunho do Velho Testamento convergiam nele. Ele não pensava em si mesmo como um outro profeta, nem sequer como o maior dos profetas, mas, antes, como o cumprimento de toda a profecia. Esta crença de que os dias de expectativa tinham aca­bado e que ele tinha introduzido o período do cumprimento estava profundamente enraizada na consciência de Jesus. As primeiras palavras registradas do seu ministério público foram: “O tempo está cumprido (peplêrõtai), e o reino de Deus está próximo”.[476] No Sermão do Monte há cinco referências diretas ao reino de Deus.[477] Decorrem delas, embora com diversos graus de clareza, que ele mesmo inaugurara o reino de Deus, e que ele tinha autoridade para admitir pessoas nesse reino e conceder-lhes as bênçãos do mesmo. Tudo isto significa, resumindo, que o próprio Jesus sabia ser o Cristo, o Messias de Deus da expectativa do Velho Testamento.

 

3. A autoridade de Jesus como Senhor

Já tivemos ocasião de observar que a concessão do título “Se­nhor” a Jesus não implica necessariamente num reconhecimento dele como o divino Senhor. Como N. B. Stonehouse explicou: “A flexibilidade da palavra grega ‘Senhor’ deve realmente ser reco­nhecida: nem todo exemplo do seu uso implica em uma consciên­cia da divina autoridade. Nem todos os que se dirigiram a Jesus chamando-o de Senhor escolheram esse nome especificamente como o equivalente à divindade; como forma polida de trata­mento, poderia significar um pouco mais do que o ‘senhor’ (com s minúsculo).”[478] Não obstante, em alguns contextos, Jesus parece deliberadamente aceitar todas as implicações que o título leva, como quando ele o associou a outro título favorito seu, “Filho do homem”, o qual na visão de Daniel receberia o domí­nio universal,[479] e com o “senhor” de Davi que se assentaria à direita de Deus.[480]

Apenas o contexto pode nos ajudar a julgar quanto domínio e quanta divindade podem ser adequadamente incluídos na pala­vra “Senhor”. Tomemos como exemplo a seção do Sermão do Monte na qual Jesus se referiu às pessoas que o chamavam de “Senhor, Senhor”.[481] Ele não estava se queixando porque tinham escolhido este título, pois o aceitava como apropriado. O que ele tinha contra era que eles o usavam superficialmente, sem lhe dar o devido significado. Ele não era simplesmente um “senhor” que devia ser respeitado; ele era o “Senhor”, que devia ser obe­decido. O equivalente de Lucas torna claro este ponto: “Por que me chamais, Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos mando?”[482] Portanto, Jesus via-se a si mesmo como mais do que um mestre, dando conselhos que as pessoas podiam atender ou não, a seu bel-prazer. Ele era senhor delas; dava ordens esperando ser obedecido, e as advertia de que o bem-estar eterno delas es­tava em jogo. Explicitamente, em tudo isto, Jesus não era sim­plesmente um rabino. Os alunos de um rabino judeu assentavam-se a seus pés para estudar o Tora. Jesus era rabino num certo sentido, uma vez que ensinava a seus discípulos o verdadeiro significado do Tora. Mas sua expectativa não era que simples­mente absorvesse seus ensinamentos, mas, sim, que se lhe devo­tassem pessoalmente. Isto, sem dúvida, era a razão por que não se contentava tão somente com o título “Rabi”, pois na verdade era seu “Mestre e Senhor”.[483] Foi por isso também que eles, por sua vez, não se tornaram simplesmente “rabis”, guardando e manejando a tradição de sua doutrina; eles também foram, mui­to mais, “testemunhas” dele.

 

4. A autoridade de Jesus como Salvador

Está claro no Sermão que Jesus conhecia o caminho da salvação e o ensinava. Ele foi capaz de declarar quem era bem-aventurado e quem não o era. Ele pôde apontar para a porta estreita, que levava ao caminho difícil para a vida. E foi bastante explícito sobre que espécie de casa sobreviveria às tempestades do juízo, e qual desmoronaria.

Mas, se penetrarmos mais profundamente em sua mensagem, descobriremos que ele não só ensinou a salvação; ele também a concedeu. Mesmo nas bem-aventuranças, ele aparece no papel daquele que virtualmente distribui bênçãos e concede o reino. O Professor Jeremias cita a insistência de J. Schniewind de que “as bem-aventuranças são testemunhos ocultos que Jesus deu de si mesmo como o salvador dos pobres, dos que choram, etc.”[484]

Ou consideremos como Jesus estabeleceu que os seus ouvintes, aquele grupinho de camponeses, eram “o sal da terra” e “a luz do mundo”. Como poderiam ter uma influência restritiva e iluminadora do mundo? Só por seguirem a Jesus. Porque Jesus não era mau, como todo o mundo,[485] nem partilhava das trevas uni­versais, mas era a “luz do mundo”[486] e assim podia fazê-los sal e luz. É ainda mais significativo que, no Evangelho de Mateus, o Sermão do Monte (capítulos 5-7), característico das palavras de Jesus, é seguido da narrativa do seu ministério prático (capítulos 8 e 9), característico de suas obras. Aqui vemo-lo reivindicando autoridade para perdoar pecados e realmente conceder perdão a um paralitico (9:2-6), e então comparando-se, como salvador dos pecadores, a um médico dos doentes (9:12).

 

5. A autoridade de Jesus como Juiz

Todo o Sermão do Monte foi pregado ante o sombrio cenário do dia do juízo vindouro. Jesus sabia que este era uma realidade e desejava que o fosse nas mentes e nas vidas dos seus discípulos. Por isso declarou as condições da salvação e advertiu quanto às causas da destruição, especialmente em seu pitoresco retrato dos dois caminhos e dos dois destinos.

Muito mais notável que esta ênfase sobre a certeza de um juízo futuro foi a sua reivindicação de que ele mesmo seria o juiz.[487] O egocentrismo da cena que ele descreveu é notavelmente extra­ordinário. Três vezes usou os pronomes pessoais “eu” e “me”. Primeiro, ele mesmo seria o Juiz, ouvindo as provas indiciadoras e enunciando a sentença. Daquele solene dia, ele disse: “Muitos me dirão naquele dia, Senhor, Senhor . . . Então lhes direi…” Assim, os acusados lhe endereçarão seu caso e ele lhes respon­derá. Apenas ele, ninguém mais, decidirá e declarará o destino deles. Segundo, o próprio Jesus será o critério de julgamento. As pessoas apresentarão como evidência o uso que fizeram do seu nome, bem como os seus ministérios; mas isto será inadmis­sível como evidência. “Nunca vos conheci”, lhes dirá. O destino dos seres humanos dependerá, não do seu conhecimento e do uso que fizerem do seu nome, mas do conhecimento que tiverem dele pessoalmente. Nenhum serviço prestado a Cristo, mas o relacio­namento com Cristo, será o tema. Terceiro, a sentença que Jesus pronunciar também se relacionará com ele: “Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade.” A hediondez da “perdição”[488] e da “ruína”[489] que ele predisse será o banimento de sua presença. Destino pior não poderia ser descortinado, deu a entender, do que a eterna separação dele.

Assim, o carpinteiro de Nazaré fez-se a figura central do dia do juízo. Ele mesmo assumirá o papel de Juiz (e mais tarde, no Evangelho de Mateus, ele descreve mais detalhadamente como “se assentará no trono da sua glória”).[490] Além disso, a base do julgamento será a atitude das pessoas em relação a ele, e a natureza do julgamento será exclusão de sua presença. Seria difícil exagerar a assustadora egocentricidade destas reivindi­cações.

 

6. A autoridade de Jesus como Filho de Deus

No Sermão do Monte, Jesus dá-nos uma doutrina compreensiva de Deus. Ele é o Criador, o Deus vivo da ordem natural, que dá o sol e a chuva, que alimenta as aves, que veste as flores e supre as necessidades vitais dos seres humanos. Ele é também o Rei, cujo governo justo e salvador irrompeu nas vidas humanas atra­vés de Jesus. Mas acima de tudo (e novamente através de Jesus) ele é o nosso Pai. Dirigindo-se aos discípulos, Jesus constante­mente referia-se a ele, chamando-o de “vosso Pai que está nos céus”, de quem eram filhos, cuja misericórdia deviam copiar, em cuja amorosa providência deviam confiar e do qual deviam se aproximar em oração, sabendo que ele jamais lhes daria algu­ma coisa que não fossem “boas dádivas”.

Em todos estes discursos, Jesus chamava Deus de “vosso Pai”. E uma vez referiu-se “à vontade de meu Pai”.[491] Nunca, porém, ele se inclui entre os discípulos para falar de Deus como o “nosso Pai”. Naturalmente disse-lhes que eles orassem “Nosso Pai”,[492] mas não se associou a eles nisso. Na verdade, não poderia, pois, embora desse a seus discípulos o privilégio de dirigir-se a Deus com o mesmo título de intimidade que ele usava (“Abba, Pai”), continuava profundamente cônscio de que Deus era seu Pai em um sentido totalmente diferente, único. Mais tarde, ele expres­saria isto em palavras também registradas por Mateus: “Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai; e ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar”.[493] Esta filiação exclusiva Jesus não rei­vindicou nem declarou explicitamente no Sermão do Monte, mas ficou implícita no uso preciso dos possessivos “meu Pai”, “vosso Pai”, “nosso Pai”.

 

7. A autoridade de Jesus como Deus

Entendo que, sempre que nos aventuramos a investigar a cons­ciência que Jesus tinha de sua divindade, tentamos mergulhar em águas profundas demais para serem sondadas. Que ele co­nhecia a Deus como “meu Pai” está claro; também está claro que sabia de sua própria filiação excepcional. Mas agora pode­mos arriscar mais um passo, pois temos evidências de que ele se considerava igual a Deus, um só com Deus. Não que ele o dissesse explicitamente no Sermão, mas as reivindicações de exercer prer­rogativas divinas, bem como o seu modo de falar de si mesmo dão a entender isso. Podemos apresentar três exemplos.

O primeiro refere-se à bem-aventurança final. É preciso lembrar que as oito bem-aventuranças são generalizações na terceira pessoa (“Bem-aventurados os mansos, os misericordio­sos, os pacificadores”, etc), enquanto que a nona muda para a segunda pessoa, quando Jesus se dirige a seus discípulos: “Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós”.[494] É esta analogia com os profetas que é impressionante. A lógica parece ser esta: Jesus espera que seus discípulos tenham de sofrer por causa dele (“por minha causa”), e então compara essa perseguição com a dos profetas do Velho Testamento. Aque­les profetas sofreram por causa de sua fidelidade a Deus, en­quanto que os discípulos de Jesus sofreriam por sua fidelidade para com ele. Daí se conclui que, ao comparar os seus dis­cípulos aos profetas de Deus (e mais tarde ele os “enviou” como os profetas foram “enviados”),[495] ele está comparando-se a Deus. Como Crisóstomo explicou no fim do quarto sé­culo, “Aqui ele . . . veladamente indica a sua própria dignidade, e a sua igualdade na honra com aquele que o gerou”.[496] Um equivalente similar percebe-se em dois outros exemplos. Quando ele os advertiu de que uma pessoa que simplesmente o chamasse de “Senhor, Senhor” não entraria no reino dos céus, seria de se esperar que ele continuasse dizendo “mas aquele que se submete ao meu senhorio”, ou “mas aquele que me obedece como Senhor”. E isto é o que, de fato, encontramos na versão do Sermão em Lucas, onde chamá-lo de “Senhor, Senhor” é contrastado com o fazer o que ele diz. Mas, de acordo com Ma­teus 7:21, ele continuou: “Mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus”. Se, então, Jesus considerava o obedecer-lhe como Senhor e o fazer a vontade do Pai como coisas equi­valentes, estava se colocando no mesmo nível de Deus. É ainda mais impressionante porque Jesus não se empenhou nesta decla­ração sobre si mesmo. Este não era o seu propósito no contexto. Esta prova de consciência de sua divindade escapou quando ele falava sobre uma coisa totalmente diferente, isto é, o significado do verdadeiro discipulado.

O mesmo é verdade no terceiro exemplo. Encontra-se nos ver­sículos seguintes, que falam do dia do julgamento e já foram mencionados. Todos sabem que Deus é o Juiz. E Jesus também. Aqui, ele não antecipou uma declaração direta e específica de que Deus lhe confiara o julgamento do mundo. Ele simples­mente sabia que, no último dia, as pessoas lhe apelariam e que então ele teria a responsabilidade de declarar-lhes a sentença. E, ao dizê-lo, novamente igualou-se a Deus.

Eis aqui, portanto, o seu “Jesus original”, o seu “simples e inofensivo mestre da justiça”, cujo sermão do Monte contém “ética simples e nenhum dogma”! Ele ensina com a autoridade de Deus e declara a lei de Deus. Ele espera que as pessoas edifiquem a casa de suas vidas sobre as palavras dele, e acrescenta que só aqueles que o fazem são sábios e estarão seguros. Ele diz que veio para cumprir a lei e os profetas. Ele é o Senhor que deve ser obedecido e o Salvador que concede bênçãos. Ele se coloca no papel central do drama do dia do juízo. Ele fala de Deus, chamado-o de seu Pai num sentido único, e finalmente dá a entender que faz o que Deus faz, e que o que as pessoas lhe fazem estão fazendo para Deus.

Não se pode fugir do que em tudo isso implica. As reivindica­ções de Jesus foram verdadeiramente expostas com tanta natura­lidade e modéstia e de maneira tão indireta que muitas pessoas jamais as percebem. Mas estão aí; não podemos ignorá-las e ain­da assim manter a nossa integridade. Ou elas são verdadeiras, ou Jesus sofria de uma coisa que C. S. Lewis chamou de “megalo­mania aguda”. Mas poderia alguém defender seriamente que a ética sublime do Sermão do Monte é produto de uma mente per­turbada? É preciso um alto grau de cinismo para chegar a tal conclusão.

A única alternativa é aceitar Jesus ao pé da letra, e suas reivin­dicações pelo que realmente são. Neste caso, devemos aceitar o seu Sermão do Monte com seriedade extrema, pois aqui está o quadro que ele apresenta da sociedade alternativa de Deus. São os padrões, os valores e as prioridades do reino de Deus. Com demasiada freqüência, a Igreja tem se afastado deste desafio, mergulhando numa respeitabilidade burguesa e conformista. Nessas ocasiões fica quase impossível distingui-la do mundo: perde a sua salinidade, a sua luz se extingue e ela repele todos os idealistas, pois não dá evidências de ser a nova sociedade de Deus que já está desfrutando das alegrias e do poder da era vin­doura. Só quando a comunidade cristã viver pelo manifesto de Cristo é que o mundo será atraído e Deus, glorificado. Portanto, quando Jesus nos chama é para isto que o faz, pois ele é o Senhor da contracultura!

A Aliança Bíblica Universitária do Brasil, através da sua publicadora, a ABU Editora, se propõe a apresentar esta série que se intitula A BÍBLIA FALA HOJE, constituída somente de exposições bíblicas.

A A.B.U.B. é uma entidade interdenominacional que tem como objetivo básico a evangelização do universitário e do estudante secundarista. Sua atuação é feita principalmente através dos próprios estudantes, através dos núcleos de estudo bíblico, dos acampamentos e congressos. A fim de preservar sua característica essencialmente evangélica e bíblica, a A.B.U.B. adota as seguintes Bases de Fé, que são subscritas, sem reservas, pela sua liderança, em todos os níveis:

a)       A existência de um só Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, Um em essência e Trino em pessoa.

b)       A soberania de Deus na Criação, Revelação, Redenção e Juízo Final.

c)       A inspiração divina, veracidade e integridade da Bíblia, tal como revelada originalmente, e sua suprema autoridade em matéria de fé e conduta.

d)       A pecaminosidade universal e a culpabilidade de todos os homens, desde a queda de Adão, pondo-nos sob ira e condenação de Deus.

e)       A redenção da culpa, pena, domínio e corrupção do pecado, so­mente por meio da morte expiatória do Senhor Jesus Cristo, o Filho encarnado de Deus, nosso representante e substituto.

f)        A ressurreição corporal do Senhor Jesus Cristo e sua ascensão à direita de Deus Pai.

g)       A missão pessoal do Espírito Santo no arrependimento, na regene­ração e na santificaçâo dos cristãos.

h)       A justificação do pecador somente pela graça de Deus, por meio da fé em Jesus Cristo,

i)          A intercessão de Jesus Cristo, como único mediador entre Deus e os homens,

j)         A única Igreja, Santa e Universal, que é o Corpo de Cristo, à qual todos os cristãos verdadeiros pertencem e que na terra se manifesta nas congregações locais.

k)        A certeza da segunda vinda do Senhor Jesus Cristo em corpo glorificado e a consumação do Seu reino naquela manifestação,

l)          A ressurreição dos mortos, a vida eterna dos salvos e a condenação eterna dos injustos.

Estas Bases de Fé são conforme às da C.I.E.E. — Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos.

 

Principais Abreviações e Bibliografia

AG A Greek-English Lexicon of the New Testament and other early Christian literature de William F. Arndt e F. Wilbur Gingrich (University of Chi­cago Press e Cambridge University Press, 1957)
Allen A criticai and exegetical commentary on the Gospel according to St Matthew de W. C. Allen (Inter­national Criticai Commentary, 1907: T. and T. Clark, terceira edição, 1912). 
Antiquities The Antiquities of the Jews em The Works of Flavius Josephus, c. 75-95 d.C, traduzido por William Whiston (Londres, sem data). 
Agostinho Our Lord’s Sermon on the Mount, uma exposição feita por Agostinho de Hippo. Início do século cinco d.C. Tradução de William Findlay na série Library of Nicene and Post-Nicene Fathers, vol. VI, editada por Philip Schaff, 1887. (Eerdmans, 1974.) 
BLH A Bíblia na Linguagem de Hoje (Sociedade Bíblica do Brasil).
Bonhoeffer Discipulado de Dietrich Bonhoeffer (Sinodal, 1980).
Bruce Commentary on the Synoptic Gospels de A. B. Bruce, na série The Expositor’s Greek Testament, editada por W. Robertson Nicholl (Hodder, 1897).
Calvino Commentary on a Harmony of the Evangelists, Matthew, Mark and Luke, I,  de João Calvino (1558: traduzido por William Pringle, 1845: Eerdmans, sem data)
Crisóstomo Homilies on the Gospel of St Matthew, Part I, de João Crisóstomo (sem data: traduzido por George Prevost, Oxford, 1843).
Daube The New Testament and Rabbinic Judaism  de David Daube  (Universiry  of  London,   Athlone Press, 1956).
Davies The Setting of the Sermon on the Mount de W. D. Davies (Cambridge Universiry Press, 1964).
ERAB Edição Revista e Atualizada no Brasil (Sociedade Bíblica do Brasil).
ERC Edição Revista e  Corrigida  (Imprensa  Bíblica Brasileira).
Glover A  Teacher’s Commentary on the Gospel of St Matthew de Richard Glover (Marshall, Morgan and Scott, 1956).
Homilies The Second Book of Homilies (1571) na série Ho­milies and Canons (SPCK, 1914),
Hunter Design for Life: an Exposition of the Sermon on

the Mount de A. M. Hunter (SCM, 195,3; edição

revisada 1965).

BJ A Bíblia de Jerusalém (Edições Paulinas).
Jeremias The Sermon on the Mount de Joachim Jeremias

Universiry of London, Athlone Press, 1961).

Lenski The Interpretation of St Matthew’s Gospel de R. C. H. Lenski (1943: Augsburg, 1964).
Lloyd-Jones Studies in the Sermon on the Mount de D. Martyn Lloyd-Jones (IVP: vol. I, 1959, vol. II, 1960. As referências dadas referem-se à edição conjunta, 1977).
Lutero The Sermon on the Mount de Martinho Lutero (1521: traduzido por Jaroslav Pelikan: vol 21 de Luther’s Works, Concórdia, 1956)
McArthur Understanding the Sermon on the Mount debey McArthur (Harper,  1960; Epworth, 1961).
McNeile The Gospel according to St Matthew: the Greek text with introduction, notes and indexes de A. H. McNeile (1915: Macmillan, 1965).
NTV O Novo Testamento Vivo (Mundo Cristão).
Plummer       An exegetical commentary on the Gospel according to St Matthew de Alfred Plummer (Alliot Stock, 1910).
Ryle

 

Expository Thoughts on the Gospels de J. C. Ryle (1856:  edição de aniversário  de Matthew and Mark, Zondervan).
Spurgeon      

 

The Gospel of the Kingdom de C. H. Spurgeon (Passmore and Alabaster, 1893).
Stier

 

The Words of the Lord Jesus, I, de Rudolf Stier, traduzido por William B. Pope, 1855 (T. & T. Clark, 1874).
Stonehouse   

 

The Witness of Matthew and Mark to Christ de N. B. Stonehouse (Tyndale Press, 1944; segunda edição 1958).
Tasker

 

Evangelho Segundo Mateus de R. V. G. Tasker (Vida Nova e Mundo Cristão, 1980).
Thielicke Life can begin again: sermons on the Sermon on the Mount de Helmut Thielicke (1956: traduzido por John W. Doberstein, Fortress, 1963).
Tolstoy A Confession, The Gospel in Brief e What I Believe de Leo Tolstoy (1882-1884: traduzido por Aylmer Maude na série World’s Classics, n? 229; Oxford University Press, edição nova 1940)
War The Jewish War em The Works of Flavius Josephus, c. 75-95 d.C, traduzido por William Whiston (London, sem data).
Windisch The Meaning of the Sermon on the Mount de Hans Windisch (1929: segunda edição 1937: tradução em inglês, Westminster, 1941).

 

A Bíblia fala hoje

Editores da série: J. A. Motyer (AT)

John R.W.Stott (NT)

 

Contracultura cristã

A mensagem do Sermão do Monte

A mensagem do Sermão do Monte

John R. W. Stott

Reitor emérito de All Souls’ Church, Londres

 

 

ABU Editora

CONTRA CULTURA CRISTÃ

Traduzido do original em inglês

CHRISTIAN COUNTER-CULTURE

Inter-Varsity Press, Inglaterra

©John R.W. Stott, 1978

Direitos reservados pela

ABU Editora S/C

C. Postal 30505

01000 — S. Paulo — SP — Brasil.

A ABU Editora é a publicadora da Aliança Bíblica Universitária do Brasil —A.B.U.B.

Tradução de Yolanda M. Krievin

O texto bíblico utilizado neste livro é o da Edição Revista e Atualizada no Brasil, da Sociedade Bíblica do Brasil, exceto quando outra versão é indicada.

 

lª Edição —1981

Digitalizado, revisado e formatado por:

Fabricio Valadão Batistoni
www.portaldetonando.com.br/forumnovo/

Prefácio Geral

 

A Bíblia Fala Hoje constitui uma série de exposições, tanto do Velho como do Novo Testamento, caracterizadas por um triplo objetivo: exposição acurada do texto bíblico, relacionar o texto com a vida contemporânea, e leitura agradável.

Esses livros não são, pois, “comentários”, já que um comen­tário busca mais elucidar o texto do que aplicá-lo, e tende a ser uma obra mais de referência do que literária. Por outro lado, esta série também não apresenta aquele tipo de “sermões” que, pretendendo ser contemporâneos e de leitura acessível, deixam de abordar a Escritura com suficiente seriedade.

As pessoas que contribuíram nesta série unem-se na convicção de que Deus ainda fala através do que ele já falou, e que nada é mais necessário para a vida, para o crescimento e para a saúde das igrejas ou dos cristãos do que ouvir e atentar ao que o Espí­rito lhes diz através da sua velha (e contudo sempre atual) Palavra.

J. A. MOTYER J. R. W. STOTT Editores da série


[1] Citado por McArthur, p. 12.

[2] The Making of a Counter-Culture, Anchor Books, Doubleday, 1969, p. 233.

[3] Ap3:l.

[4] Lv 18:1-4.

[5] Nm 23:9; SI 106:35.

[6] lSm8:5,19,20.

[7] Ez 20:32.

[8] Jr 10:1, 2;Ez20:7.

[9] 2Rs 17:7, 8,19;cf. Ez5:7; 11:12.

[10] Mt4:17.

[11] Lvl8:3.

[12] p.23.

[13] 4:25.

[14] 4:23,24.

[15] Mt 11:29,30.

[16] A teoria de B. W. Bacon foi resumida e criticada por W. D. D avies, pp. 15-25.

[17] A teoria de Austin Farrer foi criticada por W. D. Davies, pp. 9-13.

[18] cf. Mt2:15.

[19] 1 Co 5:7, 8.

[20] Davies, p. 108.

[21] Lc6:17-49.

[22] Lc 6:12,17

[23] Mt 13.

[24] p. 258.

[25] p. 259.

[26] pp. 1,5

[27] 7:28,29.

[28] Mt8:5;Lc7:l.

[29] p.94.

[30] p.95.

[31] A expressão é do Prof. Jeremias (p. 14).

[32] pp. 105-148.

[33] Penguin Classics, 1966, pp. 566-568.

[34] cf. Mt 5:28; 6:21

[35] Mt7:11

[36] cf. Mc 7:21-23.

[37] Mt 7:16-20; 12:33-37

[38] p. ex. 5:16,48; 6:9,32,33; 7:11.

[39] Bruce,p.95.

[40] Jo 6:15.

[41] Jo 18:36.

[42] Macmillan, 1935; brochura, 1961.

[43] p.89.

[44] p.24.

[45] p.27

[46] p.91

[47] p. 18.

[48] pp.332ss.

[49] cf. 1 Co 13:12; Hb 12:14; 1Jo 3:2; Ap22:4

[50] Jo 14:9.

[51] 1 Jo3:6; 3Jo 11

[52] 1 Co 3:22, 23.

[53] pp.48,49

[54] p.6.

[55] P-107

[56] Por exemplo, Windisch, p. 96. W. D. Davies examina e rejeita esta recons­trução; pp. 316-341.

[57] p. 285

[58] p. 288.

[59] Jeremias, p. 12.

[60] p. 291.

[61] p. 11.

[62] p. 24.

[63] p. 30.

[64] p.32

[65] p. 110.

[66] pp. 110,111.

[67] p.209.

[68] Sf3:12.

[69] S134:6.

[70] Is 41:17,18.

[71] Is57:15;66:l,2.

[72] Is 61:1; Lc 4:18; cf. Mt 11:5.

[73] p. 261.

[74] Ap3:17.

[75] Lc 1:53

[76] p. 21.

[77] Lc 6:25.

[78] SI 119:136

[79] Ez9:4.

[80] Fp3:18.

[81] Ed 10:l.

[82] Rm 7:24; 1 Co5:2; cf. 2 Co 12:21.

[83] 2 Co 7:10.

[84] Sl 56:8.

[85] Lenski, p. 187.

[86] Is 61:1; cf. 40:1.

[87] Lc 2:25.

[88] Ap7:17.

[89] Mt 11:29; 2Co 10:1; cf.Zc9:9.

[90] p. 65.

[91] pp.68,69.

[92] 1Co 3:22.

[93] Sl 37:1,11, 22,34; cf. Is 57:13; 60:21.

[94] Mt 19:28, literalmente; 2 Pe 3:13; Ap 21:1.

[95] 2 Co 6:10.

[96] p. 105.

[97] Lc 1:53.

[98] Mt 6:33.

[99] cf. Rm 9:30-10:4.

[100] p.27

[101] Sl 107:9.

[102] Jo4:13, 14; 7:37.

[103] Ap 7:16, 17.

[104] 2Pe3:13.

[105] p. 191.

[106] 6:14

[107] Mt 18:21-35

[108] Sl 24:3,4; 51:6,10; cf. Sl 73:1; At 15:9; 1 Tm 1:5.

[109] Lc 11:39; Mt 23:25-28.

[110] p. 33.

[111] p. 50; cf. Sl 86:11, 12

[112] p.34.

[113] 6:22.

[114] Mt 10:34-36.

[115] Mt 10:37.

[116] 1 Co 7:15; Pe 3:11; Hb 12:14; Rm 12:18.

[117] Cl 1:20; Ef 2:15.

[118] 5:44,45.

[119] pp. 9ss.

[120] Lc17:3.

[121] Lc6:23.

[122] Calvino, p. 267

[123] At5:41.

[124] Lenski, p. 197.

[125] Por exemplo Jo 15:18-25; 1 Pe4:13,14; At 14:22; 2 Tm 3:12.

[126] Lc6:26.

[127] Bonhoeffer, p. 46

[128] Primeira edição 1895: Penguin Classics 1968.

[129] p.15.

[130] p. 116.

[131] pp. 118-119.

[132] pp. 127-128.

[133] p. 162.

[134] pp. 168ss

[135] p.186.

[136] p.187.

[137] p.77.

[138] pp. 58,59.

[139] p. 121

[140] Natural history, xxxi, 102.

[141] Jó 6:6.

[142] Lloyd-Jones, p. 164.

[143] Lenski, p. 199.

[144] pp.50,51.

[145] Sou devedor ao Sr. G. J. Hobson, um químico de Carnforth, Inglaterra, por me escrever em agosto de 1972 sobre este assunto, corrigindo uma cincada minha e preenchendo uma lacuna do meu conhecimento científico.

[146] Mc 9:50

[147] Lc 14:34, 35; Cl 4:6

[148] p.41.

[149] p. 102.

[150] Jo 8:12; 9:5.

[151] cf.Fp2:15.

[152] s 42:6; 49:6; Lc 2:32; At 26:23; 13:47.

[153] p.66.

[154] cf. Jo 6:28; 1 Co 12:3; IJo 3:23, 24; 5:1

[155] 6:23.

[156] Jo5:35

[157] Bonhoeffer, p. 106.

[158] p.55.

[159] Thielicke, p. 33.

[160] p.250.

[161] pp. 55,56,59.

[162] p.28.

[163] Editado por Brian Griffiths (IVP, 1972), p. 35.

[164] cf.Fpl:27.

[165] Jo 15:8.

[166] cf. 7:12.

[167] Mc 2:23-3:6.

[168] p. 229.

[169] cf.Hb 1:1,2.

[170] p. 38.

[171] 1:22; cf. 2:23; 3:3; 4:14, etc. cf. 11:13 onde se diz que a lei, assim como os profetas, “profetizaram até João”. Ambos apontavam para Cristo e ambos se cumpriram nele.

[172] p. 278; cf. Lc 22:16.

[173] Cl 2:17.

[174] Gl 4:4; Mt 3:15.

[175] p. 111.

[176] McNeile, p. 58.

[177] Stonehouse, p. 209.

[178] Veja Against Marcion de Tertuliano, iv. 7

[179] por exemplo At 26:22, 23.

[180] Rml0:4.

[181] Rm8:14.

[182] Rm3:21.

[183] Mt 24:35; cf. 19:28.

[184] cf. Lc 16:16,17.

[185] cf. 23:23.

[186] p. 25.

[187] 1 Sm 16:7; cf. Lc 16:15.

[188] Davies, p. 216.

[189] Jo3:3,5.

[190] cf. 12:3,5; 19:4; 21:16, 42; 22:31.

[191] p. 55-60.

[192] p.45.

[193] p. 282.

[194] p. 290.

[195] Institutas, I. viü. 7.

[196] Gn9:6.

[197] Rm 13:l ss.

[198] cf.Tg 1:19 e Ef 4:26,27.

[199] P-76.

[200] Tasker, p. 68.

[201] Hunter.p.50.

[202] Lenski, pp. 217, 219.

[203] Mt 23:17; Lc 24:25.

[204] p.ex. 1 Co 15:36; Gl 3:1; Tg 2:20.

[205] Sl 14:1-4; SI 53:1-4

[206] p. ex. Sl 78:8; Jr 5:23.

[207] p. 69.

[208] p. 107.

[209] Jo3:15.

[210] Jó 31:1, 7, 9. Contrastar com 2 Pe 2:14 onde os falsos mestres são descritos como tendo “olhos cheios de adultério e insaciáveis no pecado”.

[211] Mt l8:8,9.

[212] cf.Mc8:34;Rm8:13;G15:24;C13:5.

[213] Antiquities IV. viii. 23.

[214] p. 82.

[215] Dt 22:22; Jo 8:1-11. G. E. Ladd escreve: “O Velho Testamento condenou o adultério com a penalidade de morte. O Novo Testamento diz que um adúltero deve ser considerado como morto, e a parte inocente fica livre dos seus votos matrimoniais como se o seu cônjuge estivesse morto” — The Gospel of the Kingdom, (Eerdmans, 1959) p. 85.

[216] Os 1:2,3; 2:2,4.

[217] p. 146.

[218] p. 203.

[219] Jr 2:1; 3:1; 4:1; Os 2:1-23.

[220] p.260.

[221] Para informações mais completas sobre o material bíblico veja Divorce: The Biblical Teaching, (Falcon, 1972).

[222] Tg5:12.

[223] Jo8:44.

[224] cf.Dt 23:22

[225] Gn22:16,17. cf.Hb 6:13-18.

[226] Nm 23:19.

[227] Mt 26:63, 64.

[228] War, II. viii. 6.
20   p.55.

[229] Êx 21:22-25. cf. Lv 24:19, 20; Dt 19:21.

[230] Devo estes fatos a Sir Norman Anderson, um técnico em lei islâmica.

[231] Êx 21:26, 27.

[232] Lv 19:18.

[233] John W. Wenham, Christ and the Bible. (Tyndale Press, 1972) p. 35.

[234] Quanto a resistir à sua vontade, cf. Rm 9:19; sua verdade, 2 Tm 3:8; 4:15; Lc 21:15; At 6:10; 13:8; e sua autoridade delegada ao Estado, Rm 13:2.

[235] Ef 6:13; lPe 5:9; Tg 4:7.

[236] Allen, p. 54.

[237] Jeremias, pp. 27,28.

[238] Is 50:6; Mc 14:65; 15:16-20.

[239] p.84.

[240] lPe2:21-23.

[241] p. 30.

[242] Jo 18:19-23.

[243] Gl 2:11-14.

[244] Glover.p.55.

[245] p. 110.

[246] Tolstoy, pp. 315-319.

[247] p.323.

[248] p. 331.

[249] p.406.

[250] pp. 535,536

[251] A maior parte das citações foram extraídas de Gandhi de George Woodstock (Fontana “Modern Masters”, 1972).

[252] O texto de Reuter do apelo de Gandhi foi citado em Charles Raven de F. W. Dillistone (Hodder, 1975), pp. 230 ss.

[253] Violence de Jacques Ellul (SCM, 1970), p. 15.

[254] Rml3:lss

[255] Rml3:4.

[256] Rm 12:17-21.

[257] p. 83.

[258] pp. 113-114

[259] p. 135.

[260] lPe2:23.

[261] My Life with Martin Luther King Jr de Coretta Scott King (Hodder & Stoughton, 1970), pp. 365-369.

[262] Strength toLove (1963; Fontana, 1969), pp. 47-55.

[263] Êx 12:49.

[264] Êx23:4,5

[265] Dt22:l-4.

[266] Pv 25:21; cf. Rm 12:20.

[267] cf. Lv 18:25, 28; 20:22.

[268] p. 85

[269] Sl 139;19-24. cf. Homilies, p. 404.

[270] Ap6:10.

[271] Ap 19:1,3,4.

[272] Spurgeon, p. 31.

[273] Lc 10:29-37

[274] Lc 6:27, 35.

[275] Rm5:10.

[276] Mt 5:44; Lc 6:28.

[277] p.281.

[278] pp. 276ss.

[279] p.86.

[280] Lc 23:34.

[281] pp. 87ss.

[282] Lc6:32.

[283] pp. 89ss.

[284] p.89.

[285] Lv 11:4, 45; 19:2; 20:7, 26. cf .lPe 1:16.

[286] 5:6.

[287] 6:12.

[288] 6:36.

[289] I.58.

[290] p.89.

[291] Lc6:33.

[292] 5:16.

[293] p. 116.

[294] Lc 6:35, 36. cf. 5:45,48.

[295] p.47.

[296] Jo5:44.

[297] Jo 12:43.

[298] p.309.

[299] p.32.

[300] AG.

[301] NTV.

[302] p.95.

[303] p.310.

[304] They Asked for a Paper, (Bles, 1962), p. 198.

[305] At 20:35.

[306] Dn6:10.

[307] Sl 27:8.

[308] p.59.

[309] Rm 5:5; 8:16.

[310] Nm6:26.

[311] Lc 18:12.

[312] Mt9:14;Lc5:33.

[313] Mt9:15.

[314] Ne 9:1, 2; Jn 3:5; Dn 9:2ss; 10:2ss; At 9:9.

[315] p.307.

[316] Êx24:18; 2Cr20:lss; Et4:16; Ed8:21ss; Mt4:l,2; Atl3:l-3; 14:23.

[317] 1Co9:24-27.

[318] Lc 18:12.

[319] 31:16ss.

[320] 58:lss.

[321] Lc 16:19-31.

[322] Homilies. pp. 301-303.

[323] AG.

[324] BLH.

[325] p. 331.

[326] p.330.

[327] p.96.

[328] Mc l2:41ss.

[329] A Greek-English lexicon of the New Testament de C. L. W. Grimm e J. H. Thayer (T. and T. Clark, 1901).

[330] Mt 26:44.

[331] AG.

[332] pp. 316,321.

[333] Rm l2:2.

[334] É uma expressão de Agostinho. Ele começa fazendo uma lista de três outras interpretações alternativas, a saber, “todas aquelas coisas que atendem às necessidades desta vida”, “o sacramento do corpo de Cristo” e “o alimento espiritual”, isto é, “os preceitos divinos que devemos diariamente buscar e nos quais devemos meditar”. Ele mesmo preferia a última explicação. Mas conclui que se alguém deseja entender “pão nosso de cada dia” como refe­rindo-se também ao “alimento necessário ao corpo” ou aos “sacramentos do corpo do Senhor”, então, “devemos tomar todas as três coisas em con­junto”. Isto é, “devemos pedir todas estas coisas juntas com o pão nosso de cada dia: o pão necessário para o corpo, o pão visível santificado (sc. a Santa Comunhão) e o pão invisível da palavra de Deus” (VI. 25, 27).

[335] p.322.

[336] p. 147.

[337] Mt 25:35.

[338] The Vocabulary of the Greek Testament de J. H. Moulton e G. Milligan (Hodder, 1949).

[339] AG.

[340] p.75.

[341] Mt 18:23-35.

[342] Tg l:13.

[343] Tg l:2.

[344] Pv 6:6ss; lTm 5:8.

[345] lTm 4:3,4; 6:17.

[346] Lc 12:15.

[347] p. 166.

[348] Jó 1:21.

[349] 1 Co 13:13.

[350] p. 85.

[351] Tasker, p. 61.

[352] Is 42:8; 48:11.

[353] NTV

[354] Spurgeon, p. 39.

[355] Lc 10:40; 8:14; Fp 4:6.

[356] p. 59.

[357] Tasker,p.62.

[358] Bruce, p. 125.

[359] pp. 197ss.

[360] p.39.

[361] 2Ts3:10.

[362] p.21.

[363] McNeile, p. 88.

[364] The Man Who Believed God, Marshall Broomhall (China Inland Mission, 1929), p. 53.

[365] Mt 10:29; cf. 12:6.

[366] cf.Jó 2:10.

[367] Rm8:28.

[368] pp. 124,134.

[369] NTV.

[370] BLH.

[371] p.331.

[372] 1 Co 4:4,5.

[373] Rm2:l;cf.Tg3:l.

[374] p. 128.

[375] Lc l8:9.

[376] 1 Co 11:31.

[377] Mt 18:15.

[378] p.345.

[379] Lc 13:32; Mt 23:27, 33.

[380] Spurgeon, p. 42

[381] Pv9:8.

[382] 2Pe2:22.

[383] cf.Mt 15:26, 27; Fp 3:2; Ap 22:15.

[384] Por exemplo, o capítulo IX da Didache, provavelmente um primitivo docu­mento do segundo século, inclui esta instrução: “Não se permita que comam ou bebam de vossa Eucaristia, a não ser aqueles que foram batizados no nome do Senhor; pois com referência a isto também o Senhor disse: “Não deis o que ê santo aos cães”.

[385] Mt 13:46.

[386] p. 349

[387] p.349.

[388] p.348.

[389] Jesus’Promise to theNations, (1953: SCM, 1958), p. 20.

[390] Mt 10:14 = Lc 10:10,11.

[391] At 13:44-51.

[392] At 18:5, 6.

[393] At 28:17-28.

[394] Calvino, p. 351

[395] Lutero, p. 234.

[396] p. 70.

[397] Calvino, p. 353.

[398] Agostinho, 11:16.

[399] The Prayer of Jesus, de Joachim Jeremias (SCM, 1967), pp. 96,97.

[400] Tg4:2.

[401] Mt5:45.

[402] Rm 10:12,13.

[403] Mt 7:11 = Lc 11:13.

[404] Studies in the Epistle of James de Alec Motyer (New Mildmay Press, 1968), p.88.

[405] p.513.

[406] cf. Rm 10:l.

[407] Lc6:31.

[408] Versículo 11 = Lc 11:13.

[409] Tobias 4:15.

[410] Registrado no Talmude: Sabá 31a.

[411] p. 10.

[412] The Life and Times of Jesus the Messiah, Alfred Edersheim (Longmans, 1883), pp. 525ss.

[413] p.535.

[414] p.66.

[415] cf. 5:17; Rm 13:8-10.

[416] AG.

[417] Surprised by Joy, (Bles, 1955) p. 63.

[418] Mt 11:30.

[419] Jo l0:9.

[420] Dt 30:15,19; cf.Jr 21:8.

[421] Ap 7:9.

[422] Lc 13:23, 24.

[423] Mt 24:11-14.

[424] 2 Co 11:13.

[425] 2Pe2:l.

[426] Mt 24:24; Mc 13:22; cf.1Jo 2:18, 22.

[427] 23:16,18,22.

[428] 23:28.

[429] Jo 10:11-13.

[430] At20:29,30.

[431] 23:16,17

[432] 8:11.

[433] Bonhoeffer, p. 171.

[434] p.364.

[435] Mt 12:33-37; cf. Lc 6:45

[436] 1Jo 2:26; 4:1.

[437] p.ex. 1Jo 2:44; 4:6.

[438] 1Jo 2:22, 23; 4:2,3; 2: Jo 7-9

[439] p. 263.

[440] p. 365.

[441] pp. 364ss.

[442] p.68.

[443] 2Tm2:17.

[444] 2Tm2:18.

[445] 2Tm2:16.

[446] p. ex. 1 Tm6:4,5; 2Tm2:23; Tt 1:1.

[447] p. ex. 1 Tm 1:4,5; 4:7; 6:3; 2Tm3:16,17; Tt 1:1.

[448] pp. 69, 70.

[449] p. 67.

[450] Rm 10:9,10.

[451] 1 Co 12:3.

[452] Mt24:24;2Ts2:9,10.

[453] Lc6:46.

[454] 2Tm2:19.

[455] Lc6:48.

[456] Bruce, p. 135.

[457] Calvino, p. 370

[458] 1Jo 1:6;2:4

[459] Tg 1:22-25; 2:14-20.

[460] Christ at the Round Table, Stanley Jones (Abingdon, 1938), pp. 38, 60.

[461] Lenski, p. 314

[462] p. 96.

[463] Jo3:ll.

[464] p.46.

[465] Plummer, p. 117.

[466] Christianity and Liberalism, (1923; Eerdmans, s.d.), p. 36.

[467] Studies in Theology, palestras feitas em 1894; (Hodder, 1906), pp. 31, 42.

[468] p.371.

[469] cf.Jo7:15.

[470] p. 136.

[471] Jo7:16.

[472] cf. Jo 14:8-11.

[473] Plummer,p. 118.

[474] 5:17; 9:13; 10:34; 11:3,19; 20:28.

[475] 10:40; 15:24; 21:37.

[476] Mc 1:15; cf. Mt 4:17.

[477] 5:3, 10; 6:10, 33; 7:21.

[478] p.254.

[479] Dn 7:14; Mt 24:39,42, “vosso Senhor”.

[480] Mc 12:35-37.

[481] Mt 7:21-23.

[482] Lc6:46

[483] Jo 13:13

[484] Jeremias, p. 24.

[485] 7:11

[486] Jo8:12

[487] 7:22,23.

[488] Mt7:13

[489][489] Mt7:27.

[490] 25:31ss.

[491] Mt7:21.

[492] Mt6:9.

[493] 11:27.

[494] Mt5:11, 12.

[495] cf. Mt 10:1ss.

[496] pp. 207 ss.

Quando a Igreja não é “Igreja” !!!

Deixe o seu comentário

Igreja tem que ser coisa de gente de Deus, de gente livre, de gente sem medo, de gente que anda e vive, que deixa viver …, que crê sempre no amor de Deus…; e, sobretudo, é algo para gente que confia…, que entrega…, que não deseja controlar nada…; e que sabe que não sabe, mas que sabe que Deus sabe …

Somente gente com esse espírito pode ser parte sadia de uma igreja local, por exemplo …

Entretanto, para que as pessoas sejam assim seus pastores precisam ser assim …

Se o pastor é assim …, tudo ficará assim …

Ou, então, o tal pastor não emprestará a sua vida para o que não seja vida, e, assim, bem-aventuradamente deixará tal lugar de prisão disfarçada de amor fraterno …

Em igreja há problemas … É claro … Afinal, tem gente …

Mas nenhum problema humano tem que ser um escândalo para a verdadeira igreja de gente boa de Deus.

Numa igreja de Deus ninguém tem que ser humilhado …, adúlteros não tem que ser “apresentados” ao público …, ladrões são ajudados a não mais roubarem …, corruptos são tratados como Jesus tratou a Zaqueu …, e hipócritas são igualmente tratados como Jesus tratou aos hipócritas …; ou seja: com silencio que passa…, mas, ao mesmo tempo, não abre espaço …

Na igreja de gente boa de Deus fica quem quer e até quando deseje … E quem não estiver contente não precisa ser taxado de rebelde e nem de insubordinado … Ele é livre para discordar e sair … Sair em paz. Sem maldições e sem ameaças; aliás, pode sair sem assunto mesmo …

Na verdadeira igreja não há auditores, há amigos.

Nela também toda angustia humana é tratada em sigilo e paz.

Igreja é um problema ? …

Sinceramente não acho …

Pelo menos quando a igreja é assim, de gente, para gente, liderada por gente, com o propósito de fazer de toda gente um humano maduro — então, creia: não há problemas nunca, pois, os problemas em tal caso nada mais são do que situações normais da vida, como gripe, febre ou qualquer outra coisa, que só não dá em poste de ferro …

Tudo o que aqui digo decorre de minha experiência …

Não é teoria …

Pode ser assim em todo lugar …

Mas depende de quem seja o pastor …

E mais: se o povo já estiver viciado demais nem sempre tem jeito …

Entretanto, se alguém decide começar algo do zero, então, saiba: caso você seja gente boa de Deus, e que trate todos como gostaria de ser tratado …, não haverá nada que não seja normal, pois, até as maiores anormalidades são normais quando a mente do Evangelho em nós descomplicou a vida.

Pense nisso ! …

 Nele (em Jesus Cristo).

Caio Fábio.

Homossexualismo é CONTRÁRIO à Palavra do Senhor, mas é preciso respeitar socialmente os homossexuais (o PL 122/2006 é discriminatório) – PREGUE O EVANGELHO PRA “ELES” !

Deixe o seu comentário

 

POR QUÊ SERÁ QUE VOCÊ [...] CONTINUA SEM DEUS ?

2 Comentários

 
Experimente crer e confiar … Eis que estou com você todos os dias! POR QUÊ SERÁ QUE VOCÊ CONFESSA A JESUS E CONTINUA SEM DEUS ?

As garantias de Jesus foram todas. Ele não estaria mais fisicamente presente, mas, em compensação, sem limites de geografia, tempo e espaço, estaria conosco todos os dias, sem jamais nos deixar órfãos, pois, enviaria de Si mesmo, o Espírito Santo, o Consolador, Aquele que Caminha Junto, que habitaria conosco e estaria em nós, revelando a cada dia mais de Jesus, e levando-nos a conhece-Lo em todos os nossos caminhos, crescendo em verdade e graça, andando em amor, conforme o entendimento segundo o Evangelho.

Enquanto isto, como decorrência natural dos efeitos da Palavra da Vida em nós, “indo…” onde quer que fossemos, seríamos Testemunhas de Seu amor e graça, visto que Seu chamado não era para que “déssemos testemunhos”, mas antes para que “fossemos testemunhas”. Antes de ser um chamado para fazer é uma convocação para ser.

Enquanto isto, Ele garantiu que faria sinais, prodígios e maravilhas, confirmando a Palavra vivida e anunciada por nós, sendo que Ele mesmo nos levaria a realizar obras maiores que as Dele, pois, receberíamos do que é Dele, e Nele viveríamos.

Ele também garantiu de que se fôssemos postos em provas, Ele mesmo estaria alí, dando-nos sabedoria, e dizendo-nos o que dizer. E garantiu que pisaríamos com os pés a serpentes e escorpiões, e que subjugaríamos, Nele, todo poder do maligno.

Justamente em razão disso, de Sua Presença, de Seu carinho diário, de Seu amor manifesto como Verdade libertadora, como Graça para ocasião própria, e como poder de Deus em nossos corações, é que Ele manda que andemos com esperança, com fé, olhando para o alto, confessando um futuro de Glória, e até mesmo nos regozijando nas dificuldades desta existência.

Sua ordem, entretanto, era para que todo aquele que dissesse que confiava Nele, manifestasse isto mediante atos de misericórdia, verdade, justiça e amor, que são os conteúdos existenciais do Evangelho.

Isto porque o Evangelho não é um conjunto de história e nem um monte de palavras lindas, mas sim, antes de tudo, é espírito de amor, graça, justiça, paz e misericórdia.

Quem, em qualquer lugar, tiver discernido que Deus é assim, então, não importando quem seja, nem onde esteja, o que saiba ou deixe de saber, tal pessoa terá a Presença com ela.

Porém, se alguém se diz cristão, chama a Jesus de Senhor e Salvador, porém, apesar disso, e em contradição com isto, vive sem amor, compaixão, verdade a começar de si mesmo, justiça bondosa, bondade justa, e o desejo de fazer a misericórdia triunfar sobre o juízo —, então, tal pessoa, mesmo conhecendo as histórias e os ensinos do Evangelho intelectualmente e como uma bela informação, não provará a Presença, pois, o “indo…” acerca do qual Jesus falou quando mandou “fazer discípulos” e contar com Sua presença até o fim dos séculos, não é um movimento geográfico, mas, antes disso, interior, e que põe o individuo, bem antes do que no chão de alguma “missão”, no chão do coração, no qual a viagem verdadeira é feita.

Ora, neste ambiente onde a missão de ser se inicia, o que vale não é saber a história de Jesus, mas viver a história conforme o espírito de Jesus.

O que temos hoje no chamado mundo cristão é um monte de gente carente, doente, sem a experiência de Deus, sem paz, deformadas pelas ambições de falsa espiritualidade, existindo apenas no mundo das performances e das superficialidades, enquanto vivem cheias de inveja; confessando-se santas, enquanto estão taradas; dizendo-se povo de Deus, mas sem conhecer o caminho da pacificação interior; cheias de juízo, e que é do tamanho de sua falta de consciência de justificação na Graça, mediante a fé.

Ora, tais pessoas, como não conhecem a Deus, vivem buscando preencher esse vazio com cultos e mais cultos, com cargos eclesiásticos, com atividades missionárias, com corais, com mil obrigações expiatórias; e entregam-se ao comando espiritual de fabricantes de ídolos cristãos, que são as poções mágicas oferecidas em troca de contribuições em dinheiro, escondendo algo que se disfarça sob a nomenclatura de evangélico, e que é a coisa mais falsa que se poderia criar na Terra em nome de Jesus.

Esta, todavia, também é a razão das pessoas crentes serem tão infelizes, pois, trocaram Jesus pela “igreja”, deixaram o Evangelho, e se entregaram a “doutrinas e mandamentos de homens”.

Para tais pessoas, mesmo que confessem o nome de Jesus, não há paz para o coração. Sim, porque conhecem um nome, mas jamais provaram a Pessoa; e conhecem doutrinas, mas não estão tomadas pelo espírito da Palavra, que é o que se torna vida em nós.

Quando o coração discerne o Evangelho e seu significado Hoje, então, quando lê nos evangelhos a promessa que diz “eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos”, já não a lê como algo distante; e, nem tampouco diferente do significado dessas mesmas palavras para os primeiros discípulos.

Para quem conhece a Deus em espírito e em verdade, conforme Jesus, este Estou Convosco é verdade. E é verdade todos os dias, todas as horas, em todos os caminhos, e até mesmo nos enganos.

E porque Ele está presente, Ele mesmo nos corrige em Seu justo amor. E porque Ele está presente, Ele mesmo é nosso Pastor em todos as veredas. E, assim, aprende-se que não há lugar para fugir de Sua presença. Sim, Ele não só está Presente, mas Sua Presença também nos Persegue.

Quando Ele está presente não há como não viver cheio de muita esperança e alegria; e, sobretudo, olhando para o alto, de onde vem nossa Absoluta Redenção.

Enquanto isto, indo… o nosso próprio caminhar Nele gera novos discípulos, os quais, não nos pertencem, pois, somente a Ele pertencem, visto que foram comprados pelo Seu sangue, e não pelo nosso.

Experimente crer e confiar. Você verá a Tumba de Jesus vazia, e o ouvirá dizer: “Pare de Chorar! Eis que estou com você todos os dias!”

Nele,

Caio Fábio.

“Cristianismo” como o pior adversário do Evangelho

Deixe o seu comentário

 
 
O fato simples é que sem religião, Jesus é quase irresistível, quando exposto em Sua nudez de simplicidade.

Disse “quase irresistível” porque existem os que odeiam o bem e o bom.

Entretanto, na maioria das vezes, em qualquer lugar e cultura, a mera apresentação de Jesus, sem doutrinações, sem vínculos culturais, sem adereços e penduricalhos, o torna insuportavelmente desejável.

Infelizmente, salvo pequenos spots de total ignorância acerca da existência do “Cristianismo” [que é o maior dificultador de Jesus na Terra], Jesus não mais chega sem ter sido precedido pelo anti-testemunho do Evangelho feito pelo “Cristianismo” e sua história de morte, perseguições, corrupção e perversão do Evangelho.

Se a humanidade tivesse uma amnésia total acerca do “Cristianismo”, e Jesus, somente Ele, fosse pregado na simplicidade com a qual Ele mesmo anunciou o Evangelho, então, creia: uma explosão aconteceria.

O “Cristianismo”, todavia, inviabilizou o Evangelho como testemunho universal!

Assim, é a Religião dos Cristãos o poder mais cria antagonismo ao Evangelho entre os homens.

Os Judeus já teriam outra atitude frente ao Evangelho não fosse o Cristianismo.

O mesmo se pode dizer dos Islâmicos…

O mesmo se pode dizer dos Hindus e Budistas…; e de todos os demais grupos históricos importantes.

Os cultos Africanos caso não tivessem sido demonizados pelo “Cristianismo” das formas culturais, e pela impaciência religiosa do “crsistãos”, também não fariam resistência, assim como em geral os índios, quando apenas expostos ao Evangelho, não o rejeitam, antes abraçam Jesus como um menino abraça um amigo.

O “Cristianismo”, no entanto, historicamente, desfigurou Jesus de tal modo que Ele se tornou desprezível em muitos lugares, e não é por maldade humana, mas apenas pela impossibilidade de aceitar o estupro do pacote “cristão sem o espírito de Jesus”.

Desse modo, historicamente, até hoje, o pior inimigo de Jesus e do Evangelho na Terra foi o “Cristianismo”.

Sim, historicamente, quanto mais expansão do “Cristianismo”, mais dificuldades para o Evangelho de Jesus no mundo.

Quem conhece um mínimo que seja dos vasos comunicantes da História, sabe que não exagero nada.

Nele, que é Deus, e, portanto, nada tem a ver com o “Cristianismo”, assim como nada tem a ver com Religião, mas apenas com Vida e Amor.

Caio Fábio.

 

Crentes endemoniados ? E não são poucos !!!

10 Comentários

 

Este capítulo não existiria se eu não tivesse visto constantemente pessoas de várias denominações evangélicas caírem endemoninhadas, como se fossem macumbeiras, ao receberem a oração da fé. De nada adianta fazer jogo de palavras para justificar tais situações. Já li algumas obras onde os autores acham diferença entre opressão e possessão; demonismo e satanismo, alegando com bonitos intercâmbios de palavras que um cristão não pode ficar endemoninhado.

Já vimos no capítulo anterior que se alguém crê em Jesus Cristo, segue-O fielmente, ouve a Sua voz e tem a certeza da vida eterna, está imune às investidas do diabo. É claro que, nesse caso, não há lugar para nenhum demônio em seu corpo ou em sua mente. Isso, entretanto, é um estado e não uma condição.

Convém aos teólogos entenderem que toda a vida cristã é um estado sob o qual a pessoa vive. No sol causticante do deserto, aqueles que encontram uma árvore estão protegidos mas, ao saírem da sombra, se expõem novamente à ação dos raios solares. Assim acontece com quem está em Cristo.

“O que habita no esconderijo do Altíssimo e descansa à sombra do Onipotente, diz ao Senhor: Meu refúgio e meu baluarte, Deus meu, em quem confio.”

Salmos 91.1,2

Conheci uma senhora, membro de uma igreja evangélica por 18 anos consecutivos. Entendia muito bem a Bíblia; era assídua; tinha testemunho exemplar e exercia cargos na igreja. Chegou com uma Bíblia na mão e o braço direito muito inchado, parecendo flebite. Possuía também outras enfermidades e pediu que orasse em seu favor. Quando orei, aquela senhora se entortou e se tornou bastante agressiva, falando palavras desconexas e fazendo gestos estranhos.

Percebi que ela estava completamente endemoninhada. Na conversa que tivemos posteriormente em meu escritório, ela declarou ter sido uma crente fiel durante todos aqueles anos e não sabia explicar o acontecido. Foi um caso muito sério, pois por três meses aquela senhora manifestava em seu corpo os mais estranhos demônios, até ser totalmente libertada, tornando-se, posteriormente, uma fiel obreira da Igreja.

Um outro fato, dentre os milhares que presenciamos, foi o de uma senhora que freqüentou por mais de quatro anos uma denominação evangélica. Foi batizada nas águas e era uma boa auxiliar daquela igreja. Em suas gestações, entre os seis e sete meses, dava à luz uma criança prematura, a qual sobrevivia por algumas horas apenas.

Ao receber nossa oração, uma entidade se manifestou dizendo ser um caboclo e se responsabilizando diretamente pela perda de quatro crianças prematuras. Aquele espírito a acompanhava desde criança, pois seus pais a levavam sempre às sessões espíritas. Ele foi expulso de sua vida e, daquele momento em diante, aquela senhora se tornou uma mulher perfeitamente livre e normal.

Não culpamos os pastores, nem as igrejas. Poderíamos citar dezenas de denominações evangélicas cujos membros apareceram em nossas reuniões endemoninhados. Já tivemos casos de pessoas que até “profetizavam” em suas igrejas, sendo respeitadas pelos demais membros, e que estavam endemoninhadas.

Uma delas sempre assistia às nossas reuniões com uma Bíblia enorme debaixo do braço e, ao colocarmos as mãos sobre ela, caía com Bíblia e tudo no chão, embora louvasse a Deus junto conosco.

Meu cunhado, juntamente com a esposa, ambos evangélicos, dando crédito a uma senhora que se dizia profetisa, comprou uma casa comercial na cidade de Juiz de Fora. Acreditando na “profetisa”, chegou até a se mudar para aquela cidade. No princípio, tudo parecia ir bem, até que meu cunhado foi indo de mal a pior. O seu casamento começou a ruir; os negócios pioraram; ele começou a se embriagar; era o caos.

Um dos nossos pastores orou pelo casal e um demônio se manifestou na empregada dizendo ter sido ele o causador daquela “profecia”. O comércio foi fechado logo depois, o que confirmou não ter sido a vontade de Deus. Meu cunhado e sua esposa estão agora vivendo em outra dimensão de vida.

O leitor pode observar que freqüentar igrejas evangélicas, tornar-se membro delas, participar dos sacramentos, etc., não quer dizer que a pessoa esteja liberta. Uma das pessoas que mais nos deu trabalho para libertar foi uma moça muito inteligente, sobrinha de um dos maiores pregadores do Brasil. Ela também, embora conhecedora da Bíblia, havendo estudado até nos Estados Unidos, crente desde o nascimento, estava possuída por uma legião de demônios.

Depois de conversarmos, contou-nos que fazia parte do coral de sua igreja, porém, depois de se casar com um homem que professava a fé espírita, passou a assistir de vez em quando as sessões, junto com o esposo, que acabou abandonando-a, deixando-a sem dinheiro e à mercê da caridade dos vizinhos.

Poderia citar vários casos. Não estou, entretanto, querendo desmoralizar os nossos irmãos em Cristo, mas apenas denunciar o que verdadeiramente tem acontecido.

Em nossas próprias igrejas há pessoas que freqüentam as reuniões e ainda não estão totalmente libertas. Culpa nossa? Não! Uma jovem senhora que freqüentava assiduamente, já tendo sido liberta havia algum tempo, certa vez, após a oração, caiu endemoninhada. Fomos saber o que estava se passando com ela e verificamos que estava “de caso” com um homem casado. Embora estivesse freqüentando as reuniões, os demônios não a podiam deixar, visto que ainda dava lugar a eles na sua vida. Não é que existam áreas na vida do cristão nas quais os demônios possam se alojar, mas enquanto não houver uma rendição total, por dentro e por fora, a pessoa não está imune aos ataques demoníacos.

Por que existem crentes endemoninhados ?

Se observarmos atentamente as palavras da Bíblia, podemos ficar convictos de que nada, absolutamente nada, nos causará dano algum. Jesus mesmo proferiu uma parábola a respeito do homem sensato e do insensato. O sensato ouviu a palavra e praticou; o insensato ouviu, gostou, mas não a colocou em prática. Conclusão: aqueles que ouvem e praticam, quando o diabo vem com suas investidas ardilosas, têm a espada do Espírito Santo à mão para contra-atacar e o diabo, encontrando resistência, foge.

“Sujeitai-vos, portanto, a Deus; mas resisti ao diabo, e ele fugirá de vós.”

Tiago 4.7

Quanto ao homem insensato, quando o diabo investe contra ele, ou foge com medo, ou então aceita uma aliança. Nesses casos, o diabo o faz de “cavalo”, “burrinho”, “porteira”, “aparelho”, etc. Jesus disse que se alguém quisesse ir após Ele, deveria negar-se a si mesmo, tomar sua cruz e segui-Lo.

Tem gente que deseja seguir a Jesus, mas quer carregar em suas costas marido, esposa, filhos, parentes e tantos outros, que são verdadeiros fardos, encontrando muita dificuldade para tomar a sua cruz pessoal e seguir ao Mestre. Se você fizer a sua parte, pode ter certeza absoluta de que Deus, a quem cada um dará conta de si mesmo, fará a Sua.

Edir Macedo.

O que é ser SANTO ???

1 Comentário

Vejamos o que Jesus estava nos ensinando quando relacionou o tema da santidade à Palavra e aquilo que Deus faz a nosso favor.

1. O tema da Santidade conforme relacionado à Palavra de Deus (João 17:17). Para Jesus, a Palavra de Deus era o que poderia nos santificar. E para Ele não se tratava de uma definição de santificação esotérica e mágica. Ele não tinha em mente nenhum tipo de exposição mágica da alma humana à Palavra ao fim da qual a pessoa estivesse mais santa. Na sua mente não passavam aquelas “percepções” de que a mera exposição à Palavra santificava o ouvinte. Para Jesus, ser santificado tinha, na verdade, uma profunda e indissolúvel relação com a assimilação dos conceitos da verdade de Deus, mediante um aprendizado não apenas teórico e teológico da letra da Palavra, mas mediante a vivência da presença de Deus na história em conformidade com o padrão da Palavra de Deus feita verdade no coração.

Tal percepção da relação da Palavra com a vida deve nos comprometer com a confissão de que Deus é santo e com a vivência da santidade. Além disso, ela nos induz também a perguntar por dois conceitos básicos encontrados na prática de Jesus. O primeiro tem a ver com o conceito de Palavra de Deus no entendimento de Jesus. E o segundo é aquele relacionado a como Jesus, à luz de Sua interpretação da Palavra, entendia o tema da santidade.

Comecemos com o que a Palavra significava para Jesus e o que Ele chamava de Palavra de Deus. Inicialmente devemos dizer que Jesus olhava para a totalidade do Velho Testamento como Palavra de Deus (Jo. 5:39). Para Ele a questão nunca esteve entre o que era ou não Palavra de Deus no Velho Testamento, mas, apenas, em como entender, interpretar e aplicar essa Palavra ao contexto da vida humana. Ora, neste sentido Mateus 22:23-46 é o melhor exemplo disso. Nos três episódios narrados naquele texto, a grande questão não é o que é Palavra de Deus, mas como entendê-la e aplicá-la (Mt. 23:2,3). É por esta razão que nós não vemos na prática de Jesus querelas teológicas, na perspectiva seletiva a respeito do que deveria ser retirado do Velho Testamento para ser abandonado ou reforçado na prática dos seus discípulos (Lc. 24:45). Pelo contrário, para Ele, o Velho Testamento dava uma base e finalidade histórica (Lc. 4:16-19). Sua missão tinha suas raízes mais profundas nos sonhos dos profetas (Lc. 24.27). Seus sofrimentos e glórias já tinham sido vistos e saudados desde o início da caminhada histórica do povo de Israel (Lc. 22.36,37). Ele próprio tinha sido alegria existencial e a inspiração dos patriarcas e profetas (Jo. 8.56). Sua mensagem não era nova, mas o aprofundamento da revelação já existente (Mt. 22:34¬40; Lc. 10.25-28). Sua expectativa de aceitação e rejeição do seu ministério se baseava naquilo que a Palavra lhe autorizava a esperar (Mt. 13.14,15). A própria maneira sombria pela qual ele anuncia sua morte se fundamenta numa interpretação teológico-ideológico da freqüente e histórica atitude do povo de Israel, conforme descrita nas Escrituras (Lc 13.31-35). Para Ele, o Gênesis de 6 a 11 era digno de confiança histórica (Mt. 24.38-39). Além disso, o modo pelo qual ele interpretava a saúde relacional do homem e da mulher se fundamentava na originalidade do plano da criação conforme revelado no Gênesis (Mt. 19.4-6). A conexão entre pecado e queda, bem como entre ideal e realidade era para ele extraída da Escritura (Mt. 19:7-9).

Até mesmo textos do V.T. de ares místicos foram encarados por ele como absolutamente simples e reveladores do modo pelo qual Deus age na história (Mt. 16.1-4). Assim, tudo que Jesus fazia tinha seu fundamento no Velho Testamento. Seu território ministerial (Mt. 4.12-17), o exercício das curas (Mt. 8.16-17), a pregação (Lc. 4.16-19), o ensino (Mt. 6-7) e a atitude de discrição e singela misericórdia (Mt. 12.15-21) estavam fundamentados no Velho Testamento. Seu sermão do Monte era, em síntese, a pregação do sonho dos profetas. De fato, o Sermão do Monte é a condensação das utopias dos profetas. Aquilo que eles não tinham conseguido chamar de História, Jesus chamou Vida.

Concluindo, nós poderíamos dizer que, literalmente, toda a Escritura tem em Jesus sua afirmação: o Pentateuco (Mt. 22.23-29), os livros históricos (Mt. 12.1-7), os poéticos (SI. 118.26;22.8), as sabedorias (Mt. 12.42) e os profetas (Mt. 26.31). O próprio fato de as genealogias de Jesus estarem incluídas nos evangelhos com todas as ambigüidades “morais” às quais elas estavam sujeitas, pois Jesus descende de gentios (Mt. 1.3,5), adúlteros (Mt. 1.3-6), prostituta (Mt. 1.6), homicidas (Mt. 1.10) e ancestrais cheios de sincretismos (Mt. 1.7-10), nos mostra que, propositalmente, Ele quer estar ligado à História do Velho Testamento (Jo. 5.39).

Isto posto, devemos agora relacionar a Palavra com o fato de Jesus ter dito que deveríamos ser santificados por ela. Ora, nesse caso nossa visão do escopo e da profundidade da santificação muda radicalmente. Ser santo é buscar ser essencialmente humano, ser parte da história porém vivendo a presença de Deus no mundo (Lc. 7.39). Ser santo tem relação com a busca de uma sociedade sem desigualdades e onde os mais fracos jamais sejam despojados (Mt. 23.14). Ser santo é viver a alegria do conhecimento de Deus com oração e fé e é sofrer as angústias da história como resultado de nossos vínculos com um padrão que o mundo não conhece (Mt. 11.25-27; 5.11-12). Ser santo é ser separado, não dos pagãos; como Israel equivocadamente tentou, mas é viver a diferença radical dos valores do Reino em meio às sociedades pagãs (Mt. 5.43-48). Ser santo é ter na paixão dos profetas a motivação existencial para o nosso enfrentamento histórico do mal (Lc. 13.33). Ser santo é, mesmo em dia de sábado, trabalhar a favor da santidade de vida (Lc. 14. 1-6). Ser santo é colocar o valor da vida acima do valor das coisas, mesmo aquelas mais “sagradas” (Mt. 23.23). Ser santo é entender que o altar diante do qual Deus nos quer ver prostrados não é apenas o altar do templo, mas também os altares ensangüentados dos corpos dos nossos irmãos de história e que estão caídos nas esquinas da vida (Lc. 10.25-37). Ser santo é viver a misericórdia no agitado ambiente secular, ao invés de viver a quietude alienada do ambiente religioso que não tem janelas para a história da dor humana (Mt. 9.9-13). Ser santo é acreditar que a santidade não se polui quando toca com amor, aquilo que é sujo (Mt. 8.1-4; Mc. 7.1-23). Ser santo é não temer ser mal interpretado pela mente daqueles que estão sujos de pretensa santidade.(Mc.7.5;Lc.7.39).

Para Jesus, ser santo é ser verdadeiro para com a nossa condição humana: é ter a coragem de chorar em público (Jo. 11.35), de admitir perdas e saudade (Jo. 11.36), de gritar de dor (Mt. 27.50), de confessar depressão (Mt. 26.38), de pedir ajuda emocional (Mc. 27.50), de se confessar cansado (Jo. 4.6), de dizer tenho sede (Jo. 19.28), de confessar dificuldades familiares (Mc. 3.21;Jo. 7.1-9), de admitir que a privacidade é um direito e uma necessidade de sobrevivência (Mc. 6.30-32,45,46). Ser santo é admitir que o amor pode ser exercido na perspectiva da disciplina física (Mc. 11.15-19) e que o “desabafo” é um sadio escape quando se está farto de estupidez (Lc. 11.31-32). Ser santo é continuar sendo de Deus mesmo em meio ao mais profundo e inexplicável silêncio divino (Mt. 27.46).

Desse modo, não santificamos a Deus quando falamos o seu nome enquanto furtamo-nos à verdade e praticamos todas aquelas coisas que a Palavra de Deus decreta como abominações, ainda que disfarçados pela nossa pseudo-moralidade. Também não santificamos a Deus com a nossa teologia reducionista e domesticadora da divindade, que pretende reduzi-lo a dogmas, ritos, liturgias e espaços. Também não santificamos a Deus com a nossa noção de sermos secretários da divindade, achando que sabemos tudo sobre Ele, achando que discernimos toda a Sua vontade, como se tivéssemos todas as manhãs uma entrevista marcada com Ele, na qual nos mostrasse detalhadamente todos os caminhos da vida. Blasfema contra Deus quem não pode dizer como Paulo em Romanos 11:33-36, que ninguém jamais conheceu ou penetrou na totalidade dos seus caminhos. Blasfema contra Deus quem não se abriu para o ministério de Deus. Não santificamos a Deus quando todo o nosso interesse em relação a Ele é sermos “ajudados”. Ofendemos a Deus não somente pela negação do Seu poder, mas também pela súplica egocêntrica. Não se santifica a Deus quando se estabelece um lugar para ele morar, caindo nas teologias pagãs do “lugar santo”. Ora, lugares só são santos quando santificados pela presença de homens santos que cultuam ao Deus Santo. Não se santifica o nome de Deus quando se viola a sua imagem e semelhança nos seres humanos que nos cercam. Não se santifica a Deus onde os pequenos são apenas suportados e os grandes são preferidos. Não se santifica a Deus nas nossas ruas cheias de meninos nus e crus, que perambulam como cães virando latas de lixo. Não se santifica a Deus quando a Igreja se toma um “bastião” do poder religioso, capaz de favorecer influências políticas mundanas e iníquas. Não se santifica a Deus quando nossa esposa não é santificada pelo nosso convívio e os nossos filhos e amigos não provam o benfazejo resultado da nossa ligação com Deus.

2. A obra redentora de Jesus conforme relacionada ao tema da santidade: “E a favor deles eu me santifico a mim mesmo…” (v.19) A segunda idéia à qual o tema do Pai Santo e da santidade está relacionada em João 17 é a obra salvífica de Jesus. Isso porque a santificação que o Pai santo pede dos Seus filhos só pode ser vivida em Cristo. É por isso que Jesus, conquanto nos desafie concretamente à vivência da santidade, nos faz provisão espiritual para que tal santificação seja uma possibilidade. Sem tal provisão espiritual a vida cristã é simplesmente impossível. Talvez essa seja justamente a nossa principal falha histórica: tentar viver por nossa própria conta e meios a santidade para a qual somos chamados. Talvez o mais terrível exemplo disso na atualidade esteja exatamente demonstrado na queda dramática e escandalosa de pregadores cujos projetos teológicos e pessoais pregam comportamentos de santidade antropocêntrica. Ora, a única diferença entre legalismo e santidade é que o primeiro é esforço humano e o segundo é obra do Espírito.

Por que estou dizendo isso? Simplesmente para mostrar o que Jesus dissera quando afirmou que a “favor dos discípulos Ele se santificava a si mesmo”, era muito mais do que poesia sacerdotal. De fato, tratava-se da mais fundamental afirmação de segurança espiritual que a Palavra de Deus nos oferece. É sabido por todos nós, que Jesus Cristo é a única provisão de Deus para a salvação humana. E na minha maneira de ver, salvação e santificação andam extremamente ligadas. Para entendermos o tema da santificação, precisamos entender primeiro o tema da salvação e aquilo a que ela está ligada.

Ora, Deus está redimindo hoje o espírito humano de modo forense e judicial, por causa da obra de Jesus na cruz. No entanto, tal salvação também traz consigo o anúncio das boas novas de um processo redentivo, multidimensional, que Deus continua a realizar, atingindo variados segmentos da nossa própria vida. É isto que Paulo diz num texto que tem criado problemas na mente de muitos irmãos: “… desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor, porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar segundo a sua vontade” (Fp. 2.13). O fato de a salvação precisar ser desenvolvida não significa que ela tem de ser conquistada. Nós só desenvolvemos aquilo que temos, e nós temos a salvação, definitivamente, pela fé na Graça de Cristo. Tal salvação, precisa apenas expandir-se, corporificar-se e multidimensionar-se na existência humana. É também por isso que Paulo continua apresentando alguns exemplos básicos de como fazer a salvação “crescer”: “sem murmurações nem contendas”. Ora, isto tem a ver com a nossa interioridade curada e com as relações que precisam ser reconciliadas para que, na História, nos tornemos “irrepreensíveis e sinceros filhos de Deus, e inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta”.

A salvação judicial e forense, por meio da fé em Jesus, deve desembocar num processo de humanização, tendo Jesus como protótipo, conforme diz Romanos 8.29 “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu filho, a fim de que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos”. A salvação que se recebe pela fé, desse momento em diante, entra na fase de desenvoltura dentro de cada pessoa para quem Jesus é o Salvador, o projeto, o protótipo, a referência e o Mestre. Isto porque o plano de Deus é que esta salvação se multidimensione em cada um de nós, de modo a caminhar na direção de tornar cada pessoa “conforme a imagem de seu Filho, para que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos”, os quais são parecidos com Ele.

Assim é que, metafisicamente, aos olhos de Deus, nós somos uma obra acabada. Sua graça nos fez totais aos Seus olhos, de modo que judicial e forensemente estamos justificados. Mas historicamente falando, porém, veja o que Paulo diz em Filipenses 3.12,13: “Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus”. No versículo 16 diz ainda: “Todavia, andemos de acordo com o que já alcançamos”. O versículo 15 ele já havia dito: “Todos pois que somos perfeitos, tenhamos este sentimento”. Os dois elementos (salvação-forense-judicial versus salvação-histórico-processual) estão presentes nestas citações.

Veja o que se diz acerca da salvação forense-judicial: “Nós que somos perfeitos” (v.15). Ora, tal afirmação só é possível em Cristo. Fora dele, nenhum de nós, inclusive Paulo, é imperfeito e inacabado.

Veja agora o que se diz sobre a salvação histórico-processual: “não tenho obtido a perfeição…mas prossigo para conquistar…todavia andemos de acordo com o que já alcançamos…” (v.12,13,16).

Assim é que, forense e judicialmente estamos perfeitos em Cristo.

Historicamente, porém, estamos ainda a caminho, de modo que a justificação já realizada e acabada em Cristo não deve estagnar o processo histórico de continuidade de nossa salvação. Com relação a este último aspecto, Paulo utiliza em Filipenses três palavras e expressões processuais do tipo “prossigo”, “avançando”, “andemos”, “não alcancei”, e “tenho um alvo”. São palavras e expressões que nos colocam a caminho e que não permitem que a justificação se engesse no moralista religioso ou se apóie na graça barata.

Ainda em Filipenses 3, Paulo diz que a salvação, enquanto obra a ser desenvolvida, implica num processo histórico, pois tem relação com três tempos: passado, presente e futuro. Ele diz que as “coisas que para trás ficam”, para trás ficam; que as coisas do presente ao presente pertencem (“não que eu tenha alcançado”) e que as coisas do futuro, “diante de mim estão”. Ora, isto é precisamente o que compõe a História: presente, passado e futuro. Portanto, tal salvação-santificação tem que se desenvolver aqui, na História.

Paulo também afirma que este processo histórico pode ser chamado de processo de “cristificação”. Esse processo é dinâmico. Ele diz: “…não obtive, porém prossigo…”. Todos nós podemos alcançar tudo quanto Deus colocou à nossa disposição.

Ora, aqui neste ponto nós voltamos objetivamente ao tema da santificação, e com uma pergunta. Isto porque uma vez que os conceitos básicos relacionados com a salvação estão postos, nós devemos perguntar o que isso tem a ver com a nossa santificação. Não devemos nos esquecer de que em João 17, texto de nosso estudo, o Senhor Jesus disse que Ele mesmo se santificava a nosso favor. Ou seja: há algo da vicariedade de Jesus na nossa santificação também. É bom afirmar isto, pelo simples fato de que há muito legalismo com relação à perspectiva da santificação. Na maioria das vezes, a santificação tem sido entendida como sendo o “lado humano” da salvação. Ou seja: “Cristo nos salvou e cabe a nós tornarmo-nos dignos da salvação através da santificação”. No entanto, não há santificação possível que prescinda também da graça santificadora de Deus. Com isto não estou dizendo que a santificação não implica em compromissos éticos concretos na história. Se assim fosse, eu estaria negando tudo o que escrevi a respeito da necessidade das nossas vidas confirmarem a revelação da Palavra. Como diz Willian Barclay: “o cristianismo, como também o judaísmo, é essencialmente uma religião ética. Por isso se deve dizer que o cristianismo insiste que o ser humano deva viver um certo tipo de vida e ser um certo tipo de pessoa” (William Barclay; “The Mind of ST. Paul”, pág 75).

Do mesmo modo que o Novo Testamento ensina que a salvação é fruto da graça de Deus realizada e consumada em Jesus Cristo, ele nos ensina também que a realidade da santificação se alimenta da mesma fonte de eficácia espiritual: a Graça. A santificação resulta de uma vida que antes de tudo se viu morta em Jesus Cristo para o pecado (Rm. 6.11-14). Na realidade, a questão-chave da santificação se resume na expressão “estar em Cristo”. Estar em Cristo significa TUDO na vida cristã. Literalmente, não há qualquer progresso humano possível, fora desse estar “em Cristo”. Neste sentido, há uma diferença fundamental entre estar “em Cristo” e estar “na igreja”. Obviamente acredito que estar em Cristo significa também estar na IGREJA de Cristo. A questão, no entanto, é que a Igreja de Cristo se misturou com aquilo que nós chamamos de Cristandade. Foi precisamente nesse sentido que Santo Agostinho disse “que a igreja tem muitos aos quais Deus não tem e que Deus tem muitos aos quais a igreja não tem”. Para Santo Agostinho, a “igreja” não era necessariamente a IGREJA. Podia ser apenas uma deformação institucionalizada daquilo que Jesus sonhara.Isso porque, Santo Agostinho quanto nós, acreditamos que quem de fato está em Cristo está na IGREJA, e na comunhão da fé que a verdadeira Igreja promove e para a qual nos convida. No entanto, há aqueles que estão na IGREJA e que não conseguem “entrar nas igrejas”. Esses são cristãos, mas não suportam aquilo que nós chamamos de “cristianismo”.

Descrevendo esse afastamento do cristianismo em relação à IGREJA conforme exposta no Novo Testamento, Jacques Ellul afirma em “Subversion of Christianity” o momento histórico em que essa mudança teve e tem lugar. O momento é exatamente quando sai-se da perspectiva orgânico-qualitativa de igreja para a perspectiva organizacional-institucional (por exemplo, quando a comunidade da fé vira “-ismo”). Nesse caso, é como se uma fonte de água viva fosse transformada em um canal de irrigação mais ou menos regulado e estagnado, até ao ponto em que a água da fonte original torna-se totalmente poluída na medida em que ela vai sendo “mecânica e artificialmente trabalhada” pelo sistema de distribuição.

De fato, o grande segredo da santificação, como já dissemos, é estar em Cristo e tendo sempre a coragem de verificar se estamos mesmo nEle (II Co. 13.5) Este é o princípio essencial à santificação e às demais virtudes da fé cristã. Do ponto de vista do Novo Testamento, “em Cristo” nós temos:

1. Consolação: “Se há, pois, alguma exortação em Cristo, alguma consolação de amor, alguma comunhão do Espírito, se há entranhados afetos e misericórdias, completai a minha alegria…” (Fp. 2.1,2).

2. Ousadia: “Pois bem, ainda que eu sinta plena liberdade em Cristo para te ordenar o que convém ” (Fm 8).

3. Liberdade: “E isto por causa dos falsos irmãos que se intrometeram com o fim de espreitar a nossa liberdade que temos em Cristo Jesus, e reduzir-nos a escravidão” (Gl. 2.4).

4. Vitória contra a mentira: “Digo a verdade em Cristo, não minto, testemunhando comigo, no Espírito Santo, a minha própria consciência” (Rm. 9.1).

5. Promessas: “…a saber que os gentios são co-herdeiros, membros do mesmo corpo e co-participantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho” (Ef. 3.6).

6. O AMÉM de Deus à vida: “Porque quantas são as promessas de Deus tantas têm nele o sim; porquanto também por ele é o amém para a glória de Deus, por nosso intermédio” (11 Co. 1.20).

7. Somos santificados: “À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados para ser santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso” (1 Co. 12).

8. Somos sábios: “Nós somos loucos por causa de Cristo, e vós sábios em Cristo; nós fracos e vós fortes; vós nobres e nós desprezíveis” (Co. 4.10).

9. Somos novas criaturas: “E assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura: As coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (II Co. 5.17).

10. Somos chamados: “Porque o que foi chamado no Senhor, sendo escravo, é liberto do Senhor; semelhantemente o que foi chamado, sendo livre. é escravo de Cristo” (I Co. 7.22).

11. Temos o mais elevado objetivo: “Prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Fp 3.14).

12. Apesar de tantas vezes sermos imaturos, somos salvos: “Eu. porém, irmãos, não vos pude falar como a espirituais; e, sim, como a carnais. como a crianças em Cristo” (I Co. 3.1).

13. Estamos estabelecidos: “Mas aquele que nos confirma convosco em Cristo, e nos ungiu, é Deus” (11 Co. 1.21).

14. Podemos andar em vitória: “Ora, como recebestes a Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele” (Cl. 2.6).

Tudo isso parece simples demais para as mentes mais sofisticadas e teológicas, as quais, por certo, até “pularam” esta série de 14 afirmações decorrentes de se “estar em Cristo”. No entanto, as coisas acima mencionadas são seriíssimas. Senão veja: se elas são assim tão simples, por que há tão poucas evidências dessa santificação em nosso meio? Por que tanto pecado, imoralidade, roubo, mentira, descrença, administração iníqua dos bens da igreja por parte de líderes? Por que tanta traição, falsidade, calúnia, inveja e maldade? E mais: por que isso acontece tão intensamente dentro da igreja quanto acontece fora dela? E mais: por que os grupos cristãos mais legalistas são, tantas vezes, as mais desgraçadas vítimas desse fracasso?

Talvez tudo isso aconteça pela simples razão de que aquilo que o evangelho nos convida a ser tem íntima ligação com a Graça de Deus. E, nesse sentido, aquilo que o evangelho oferece é intolerável e inaceitável. Você julga que há alguma coisa aceitável na graça? Não! As pessoas não gostam da graça justamente porque a graça não lhes dá controle sobre a situação. A graça não depende de mim. Ela extrapola meu domínio. Não há nada de seguro no fato das pessoas condenadas à morte estarem livres dela porque um desconhecido e Estranho Soberano simplesmente as livrou disso, sem lhes dar qualquer razão justificável para tal ato. A graça é totalmente arbitrária: “Eu serei gracioso para quem Eu quiser ser gracioso e misericordioso para quem Eu quiser ser misericordioso…” Nesse caso não há nada que possamos fazer: não há sacrifícios, ritos, orações, atos de bondade, busca de sabedoria, ascetismo moral e religioso, etc. Nada pode ser feito para se ter controle sobre a graça. Não há trocas a serem feitas, e assim nos sentimos extremamente humilhados na nossa incapacidade de “justificar” a relação, pelo menos por um pouco. A graça exclui tudo aquilo que nos garante segurança. Nossos sacrifícios não são aceitos, nossos moralismos são ridicularizados, nossas liturgias são chamadas de cansativas, e nossas justiças próprias são chamadas de trapos de imundícia. Pode haver algo mais afrontoso para a natureza humana do que esse estado de absoluta impotência no qual a graça coloca a todos nós? Não! E por isso que o legalismo é o supremo ato de rebelião contra Deus. O legalismo é mais blasfemo do que o desconhecimento de Deus (Rm. 2.12-16). O sincretismo, o paganismo e a promiscuidade suscitaram menos a ira de Jesus do que o legalismo que lutava contra a graça. Todos nós ficamos possuídos por um desejo obcecante de justiça própria. Temos obcecante desejo por nos mostrar justos e retos. Nossa maior idolatria é aquela na qual nós mesmos somos os “nichos” e os “santos” do nosso culto moral. Nosso maior prêmio é sermos vistos como justos pela nossa comunidade. Ora, nesse sentido, nós, “religiosos”, somos menos suscetíveis à graça de Deus do que as meretrizes e os pecadores da nossa sociedade? Eles já estão “como canas quebradas e como torcidas que fumegam” (Mt 12.20). Eles já perderam a chance de lutar pela sua justiça própria. Foi por isso que eles foram os mais receptivos à graça de Deus durante o ministério de Jesus.

Eu quero dizer que a única maneira de receber o beneficio da graça de Jesus que nos santifica é mediante a aceitação da nossa total incapacidade de justificar o que Deus fez e está fazendo em nós. Somente quando nossas armas estão completamente depostas é que o Espírito pode atuar em nós, a fim de nos fazer entrar no profundo processo da santificação. Cristo já fez tudo na Cruz. O que nos resta é exorcizar os demônios das nossas pretensões religiosas, a fim de sermos suficientemente simples para receber aquilo que só os humildes de espírito admitem: a graça de Deus.

Paginas 38 a 47 de Oração Para Viver e Morrer , escrito por Caio Fábio em 1992 e publicado em 1994.

(Trecho do livro Oração para Viver e Morrer , páginas 38 a 41, por CAIO FÁBIO, 1994. Digitação de Dora Ramos)

www.caiofabio.com

http://malucoporjesus.wordpress.com

Curso Fé

Deixe o seu comentário

 

Missionário R. R. Soares

Sumário

APRESENTAÇÃO   2

OBJETIVO   3

Lição  1 – DETERMINAÇÃO   3

Lição  2 – OS CINCO PASSOS DA VITÓRIA  12

Lição  3 – OS NOSSOS DIREITOS ÀS BÊNÇÃOS  23

Lição  4 – O NOME DE JESUS  34

Lição  5 – A FÓRMULA DA ORAÇÃO   45

Lição  6 – A DERROTA DE SATANÁS  55

Lição  7 – RESISTIR AO DIABO   68

Lição  8 – MAIS QUE VENCEDORES  81

Lição  9 – AS PALAVRAS  94

Lição 10 – CONFISSÃO   105

Lição 11 – VÃS REPETIÇÕES  116

Lição 12 – REALIZANDO A OBRA DE DEUS  127

Compilado e Formatado por SusanaCap, a partir das lições individuais baixadas do site: www.ongrace.com

APRESENTAÇÃO

Durante os últimos anos, temos ministrado o Curso Fé para milhares de pessoas. Não são poucas as vezes em que pessoas vêm até nós para agradecer, afirmando que estes ensinamentos mudaram a sua maneira de crer.

Sou grato a Deus que nos permitiu conhecer os princípios que davam ao Ministério do Senhor Jesus e dos apóstolos o sucesso descrito amplamente nas páginas das Escrituras. Creio que estes mesmos princípios, se aplicados hoje, darão, também, idêntico sucesso ao povo de Deus.

Não devemos aceitar que o Evangelho — o Poder de Deus — seja igualado às religiões, obras dos homens ou, em alguns casos, dos demônios. O Evangelho é diferente; Ele é o próprio Deus em ação, curando os enfermos, expulsando os demônios, levantando os caídos e revestindo o povo dEle de santidade e de poder.

Há de se levantar um grupo de pessoas conscientes de seus direitos e princípios em Cristo, que mostrarão ao mundo que há uma diferença entre o que serve ao Senhor e o ímpio. Creio que isto já está acontecendo; o entendimento do que somos e temos é o sinal de que o verdadeiro exército de novas criaturas já se ergue para a glória do Senhor.

Esforce-se para participar destas 12 lições que, sem dúvida, farão de você uma bênção. Permita que o Senhor seja glorificado com a vida abundante que você desfrutará. É isto que Ele espera de você.

Em Cristo,

R. R. Soares

OBJETIVO

O objetivo deste curso é ajudar o nosso povo a compreender este assunto que para muitos é mistério — o mistério da fé. Seria bom que aqueles que possuem algum conhecimento sobre a fé deixassem de lado o que sabem e, numa atitude sem preconceitos, examinassem conosco as Escrituras como se estivessem iniciando esta caminhada. Não devemos tentar misturar este ensinamento com outro que nos tenha sido ministrado em qualquer outra parte. Isto, além de não ajudar em nada, irá complicar as coisas. Coloque de lado o que você sabe sobre a fé e, no final do curso, faça uma avaliação; se aquilo que você aprendeu neste curso for considerado como bom, jogue fora, então, a velha bagagem. Se o que ministramos você considerar como ineficaz ou como de pouco valor, desconsidere-o e volte a praticar o que antes conhecia.

Na verdade, nós vamos aprender algo novo: Deixar de praticar a fé da sorte para praticar a fé real. Vamos entender o que realmente significa crer em Deus, como enfrentar as situações e sair vencedor, como ter, usar e desfrutar tudo o que Cristo conquistou para nós.

Lição  1 – DETERMINAÇÃO

O caminho para se tomar posse da bênção

 

v     Uma auto valorização

v     Primeira lição

v     Com você também

v     Aprendendo a determinar

v     Determinar é exigir de quem?

v     A simplicidade das coisas de Deus

v     Um desafio para quem crê

v     Você é quem realiza a obra de Deus

v     Exemplos de pessoas que determinaram

UMA AUTOVALORIZAÇÃO

Primeiro de tudo, é preciso que você tenha uma autovalorização da sua pessoa. É ensinado em todas as partes que nós não valemos nada para Deus, que somos seres sem a mínima expressão diante dEle, e que somente por misericórdia é que Ele nos salva. Veja bem: todos crêem que Jesus pagou um alto preço para nos resgatar, o que é verdade. Mas, se o preço pago foi alto, é porque temos um alto valor para o Senhor Deus. Não se paga tanto por aquilo que tem pouco valor.

PRIMEIRA LIÇÃO

Nesta nossa primeira lição sobre a fé vamos aprender o que é determinação.

Em João 14.13, temos a seguinte promessa do Senhor Jesus: E tudo quanto pedirdes em meu nome, eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho.

Segundo os entendidos na língua grega esta palavra pedirdes está mal traduzida. Teria sido melhor determinardes. Então, aqui está a primeira lição. Não precisamos pedir a bênção e sim determinar, exigir, mandar, ou seja: tomar posse daquilo que aprendemos pela Palavra que nos pertence.

Há muita coisa nova que vamos aprender nestas lições sobre a fé, e sempre que aprendemos algo, devemos colocar logo em prática. Não devemos ser lerdos em tomar posse daquilo que é nosso. Quando o Senhor nos dá uma revelação, junto a ela Ele nos dá a bênção.

COM VOCÊ TAMBÉM

A partir de agora, não precisamos mais orar pedindo a cura, a prosperidade ou a vitória sobre as tentações. Mas, determinar ou exigir que o mal saia da nossa vida. Na cidade de Catanduva, no interior de São Paulo, um senhor me procurou para contar o que lhe aconteceu com a sua criação de porcos e galinhas, que estava morrendo. Disse-me que todos os dias tinha que enterrar pelo menos uma criação. Segundo o seu relato, ele já havia feito tudo o que sabia para tentar salvar a sua criação, que era o seu ganha-pão.

Aí, numa manhã, ele ligou a televisão e ouviu-me falar sobre a determinação. E, mesmo sem muita orientação, o que na verdade é desnecessário, abriu a porta da cozinha e foi ao quintal, onde gritou com a mão levantada: “Aqui não vai morrer mais nem porco nem galinha, em Nome de Jesus.” Três meses depois desta sua determinação, ele veio a uma reunião que realizei naquela cidade e contou-me com lágrimas a rolar pela face que nenhuma criação havia morrido mais no seu sítio.

É fácil. Pode e deve ocorrer também com você. Quem nos garante é o próprio Senhor Jesus (João 14.13).

APRENDENDO A DETERMINAR

Determinar é marcar tempo, fixar, definir, prescrever, ordenar, estabelecer, decretar e decidir.

Quantas pessoas passam o tempo todo sofrendo, enquanto oram pedindo a Deus que as cure, solucione os seus problemas, salve os pecadores e faça uma porção de coisas? Não sabem que na verdade é o Senhor que tem estado o tempo todo esperando que elas determinassem para que Ele pudesse fazer a obra.

DETERMINAR É EXIGIR DE QUEM?

É claro que não podemos exigir de Deus. Não podemos mandar que Deus faça isto ou aquilo. Ele é o Senhor e nós servos. Mas, determinar não é ordenar a Deus e sim ao diabo que tire de nós suas garras e desapareça de nossas vidas, de nosso dinheiro e de nossas famílias. Determinar é obedecer ao Senhor. Quando agimos assim, descobrimos que este é o modo de fazer o inimigo nos obedecer.

Quando determinamos em o Nome de Jesus, o poder de Deus entra em ação realizando aquilo que queremos.

A SIMPLICIDADE DAS COISAS DE DEUS

Pode parecer simples, mas este é o meio mais rápido e seguro de recebermos as bênçãos do Senhor. Quando começamos a agir por este método de Deus, não somente obedecemos ao Senhor, mas aprendemos que ele realmente funciona.

Eu creio que Deus não fez nada complicado. Os homens, sim, é que complicam o que fazem e tentam complicar também as coisas de Deus. Deus na realidade quis que as coisas espirituais fossem assim para que até as crianças, os débeis mentais e gente com raciocínio difícil pudessem receber as Suas bênçãos. As coisas de Deus são sempre simples e descomplicadas.

UM DESAFIO PARA QUEM CRÊ

Se você determinar em o Nome de Jesus, você pode estar certo de que a sua ordem não falhará. As palavras de Jesus não poderão passar, ainda que o céu e a terra passem. Veja Mateus 24.35.

Quando agimos sobre a Palavra de Jesus, podemos ter certeza da vitória.

Por mais difícil e desanimadora que a situação possa parecer, usemos a nossa fé e soltemos a declaração do que cremos, determinando o que quisermos. Após termos determinado, podemos descansar, mesmo que os sintomas permaneçam e tudo pareça atestar que não conseguiremos.

VOCÊ É QUEM REALIZA A OBRA DE DEUS

Agora que você sabe que é você quem determina, quem fixa os limites, quem diz o que terá ou não, pare de orar chorando, de se lamentar, suplicando que Deus, na Sua bondade, lembre-se de você.

Comece a se alegrar na presença do Altíssimo. Ore, sim, não para mendigar a bênção, mas para agradecer por ela, para dizer ao Senhor quão feliz você se encontra ao saber que tudo o que você determinar Ele mesmo fará por você.

Agora é como se Deus estivesse lhe mostrando as suas reais possibilidades nEle. É exatamente isto que Ele está fazendo. Você é de Deus, recriado em Cristo Jesus para o sucesso, para uma vida plena, para determinar o que quiser e vencer.

Confesse: Posso todas as coisas naquele que me fortalece (Fp 4.13).

EXEMPLOS DE PESSOAS QUE DETERMINARAM

Na Bíblia encontramos inúmeros exemplos de pessoas que determinaram, se bem que talvez pouco conhecessem este termo, e foram bem sucedidas. Podemos destacar o caso do apóstolo Paulo na cidade de Listra:

E estava assentado em Listra certo varão leso dos pés, coxo desde o ventre de sua mãe, o qual nunca tinha andado. Este ouviu falar Paulo, que, fixando nele os olhos, e vendo que tinha fé para ser curado. Disse em voz alta: Levanta-te direito sobre teus pés. E ele saltou e andou (At 14.8-10).

Como podemos observar, Paulo não orou para que este cidadão fosse curado. Ele determinou a sua cura. Podemos citar ainda o caso de Josué ordenando que o sol e a lua se detivessem, fazendo com que aquele dia se espichasse por quase mais um dia (Js 10.12).

QUESTIONÁRIO:

1. Qual o melhor significado para o verbo pedir, de acordo com João 14.13?

a) pedir

b) determinar

c) rogar

2. Há necessidade do cristão orar pedindo a cura?

a) não

b) depende

c) sim

3. Sempre que aprendemos algo, o que devemos fazer?

a) colocar logo em prática

b) esperar um pouco para praticar

c) não nos preocupar muito com o que aprendemos

4. Podemos exigir algo de Deus?

a) sim

b) não

c) depende

5. Quando determinamos algo, a quem ordenamos?

a) a Deus

b) ao diabo

c) a nós mesmos

6. Que poder entra em ação quando determinamos?

a) o de Deus

b) o da fé

c) o do diabo

7. Ao praticarmos o método da determinação, o que acontece?

a) estamos obedecendo a Deus

b) estamos agindo por conta própria

c) Deus está nos obedecendo

8. Quando determinamos, quem nos obedece?

a) Deus

b) os homens

c) o diabo

9. Como são as coisas de Deus?

a) difíceis de entender

b) fáceis para os teólogos

c) simples e descomplicadas

10. Quando determinamos alguma coisa, nós o fazemos:

a) em nome de Deus

b) em nome de Jesus

c) em nosso nome

11. Como devemos orar a Deus?

a) implorando a bênção

b) pedindo segundo a Sua vontade

c) agradecendo

12. Se cremos, podemos determinar:

a) o que quisermos

b) o que a Igreja promete

c) o que estiver ao nosso alcance

13. Se determinarmos uma cura e os sintomas persistirem, o que fazer?

a) orar mais vezes determinando até a cura acontecer

b) apelar para os remédios

c) não levar os sintomas em consideração

14. Quando Paulo curou um coxo (Atos 14.8-10), como ele agiu?

a) suplicou a Deus a sua cura

b) determinou que ele ficasse curado

c) mandou que ele rezasse 20 Pai-Nossos

15. O que foi importante no coxo para a sua cura?

a) a sua fé

b) ser amigo de Paulo

c) ser religioso

RESPOSTAS:

1) B   2) A   3) A  4) B  5) B  6) A  7) A  8) C  9) C  10) B  11) C  12) A  13) C  14) B  15) A

REFERÊNCIAS BÍBLICAS

João 14.13

“e tudo quanto pedirdes em meu nome, eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho.”

Mateus 24.35

“Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras jamais passarão”

Filipenses 4.13

“Posso todas as coisas naquele que me fortalece”

Atos 14.8-10

“Em Listra estava sentado um homem aleijado dos pés, coxo de nascença e que nunca tinha andado.

Este ouvia falar Paulo, que, fitando nele os olhos e vendo que tinha fé para ser curado, disse em alta voz: Levanta-te direito sobre os teus pés. E ele saltou, e andava.”

Josué 10.12

“Então Josué falou ao Senhor, no dia em que o Senhor entregou os amorreus na mão dos filhos de Israel, e disse na presença de Israel: Sol, detém-se sobre Gibeom, e tu, lua, sobre o vale de Aijalom.”

Lição  2 – OS CINCO PASSOS DA VITÓRIA

 

A fé que nunca removeu montanhas

v     1º Passo: Ter fé em Deus

v     2º Passo: Falar ao monte

v     3º Passo: Não duvidar em seu coração

v     4º Passo: Crer que se fará aquilo que diz

v     5º Passo: Tudo que disser lhe será feito

v     A nossa posição de filhos de Deus

Através do profeta Oséias o Senhor diz que a causa de o Seu povo estar sendo destruído é a falta de conhecimento (Os 4.6). Nesta segunda lição do Curso Fé, vamos adquirir um pouco mais do entendimento que nos ajudará na caminhada rumo à vida abundante trazida por Jesus.

Um dos pontos mais importantes e polêmicos deste estudo é a falsa declaração de que a fé remove montanhas. Por mais estranho que possa parecer, ou por mais que possa chocar, a verdade é que a fé nunca removeu um só grão de areia.

Veremos, entretanto, a importância da fé, e o que ela pode fazer por nós.

Aprenderemos que devemos nos dirigir ao problema, e ordenar-lhe que saia de nossa frente, da nossa vida e que se lance ao mar.

Ainda veremos que duvidar no coração é o bastante para que todo o trabalho seja desperdiçado, impedindo assim a realização da obra de Deus.

Uma das mais profundas declarações sobre a determinação é o tópico a ser estudado sobre a declaração do Senhor Jesus: E crer que se fará o que diz. Aqui está o segredo que produz o milagre.

Para encerrar, temos a afirmativa do Mestre de que tudo o que dissermos nos será feito.

Os Cinco Passos da Vitória são o ideal a ser seguido por quem quiser, de fato, tornar-se vencedor em todas as coisas.

Em Cristo,

R. R. Soares

E, no dia seguinte, quando saíram de Betânia, teve fome.

E, vendo de longe uma figueira que tinha folhas, foi ver se nela acharia alguma coisa; e, chegando a ela, não achou senão folhas,  porque não era tempo de figos.

E Jesus, falando, disse à figueira: Nunca mais coma alguém fruto de ti. E os seus discípulos ouviram isto.

…E eles, passando pela manhã, viram que a figueira se tinha secado desde as raízes.

E Pedro, lembrando-se, disse-lhe: Mestre, eis que a figueira, que tu amaldiçoaste, se secou.

E Jesus, respondendo, disse-lhes: Tende fé em Deus.

Porque em verdade vos digo que qualquer que disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar; e não duvidar em seu coração, mas crer que se fará aquilo que diz, tudo o que disser lhe será feito (Mc 11.12-14, 20-23).

Este texto nos fornece inúmeras lições. A parte em negrito é a que vamos estudar nesta lição.

A FÉ QUE NUNCA REMOVEU MONTANHAS

Durante séculos, milhares de pessoas têm encontrado inspiração nesta narrativa. Também foi deste relato que alguém, sem ter o trabalho de verificar bem, cunhou a célebre frase: “A FÉ REMOVE MONTANHAS.” Frase bonita, conhecida em todo o mundo. Crida e recitada por milhões de pessoas e até mesmo pêlos inimigos da fé cristã. Frase que não agüenta o menor confronto com a Escritura – por ser mentirosa.

Lembro-me bem de quando disse aos nossos pastores que a fé não removia montanhas. Eles se entreolharam e depois, numa atitude de espanto, me perguntaram: “Como é que é?” O mesmo sempre acontece quando, em nossas igrejas, eu digo ao povo que a fé não remove montanhas. É compreensível este espanto, e, na verdade, esta é uma das razões por que tanta gente com tanta fé não recebe praticamente nada de Deus.

Nesta história, relatada por Marcos, vamos estudar os versículos 22 e 23 do capítulo 11. Neles encontraremos OS CINCO PASSOS DA VITÓRIA.

1° Passo: TER FÉ EM DEUS

E Jesus, respondendo, disse-lhes: Tende fé em Deus (Mc 11.22). A nossa fé tem que estar só em Deus. Muitos crêem em Deus e também em outras coisas. Alguns na sua igreja, outros no pregador, na virgem Maria, em algum santo, em lugares especiais, e há certas pessoas que chegam ao absurdo de fazer peregrinações a cemitérios para colocar a mão no túmulo de alguém que morreu injustiçado e que, segundo elas, estaria operando milagres. Estas pessoas jamais conseguirão ter fé em Deus; pois, a fé vem por ouvir a Palavra de Deus (Rm 10.17). E quem age desta maneira, além de não estar ouvindo a Deus, está praticando exatamente o que a Bíblia condena.

A Palavra de Deus nos informa o que é fé: A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem (Hb 11.1). Quando damos ouvidos à Palavra de Deus, aparece no nosso espírito uma certeza de que aquilo que a Palavra revela nos pertence. Isto é o que é fé. É esta a fé que precisamos ter em Deus.

A nossa fé tem que estar em Deus, só nEle. Ele não aceita dividir a Sua glória com nenhum outro. Eu sou o Senhor; este é o meu nome; a minha glória pois a outrem não darei, nem o meu louvor às imagens de escultura (Is 42.8).

2° Passo: FALAR AO MONTE

… Qualquer que disser a este monte… (Mc 11.23).

Nós temos que falar ao monte, ao problema, à miséria, à doença, à dor, que saiam de nossa vida. O que remove montanhas é a nossa palavra.

Eu mesmo tenho que confessar que preguei muitas vezes dizendo que a fé removia montanhas. Eu havia aprendido a falar assim; tinha ouvido os maiores pregadores do mundo assim se expressarem. Desta forma, tenho que pedir publicamente perdão por esta mentira que ensinava, pois a fé nunca removeu um só grão de areia. O que remove montanhas é a palavra. A Palavra de Deus? Não, a nossa.

É claro que a fé é necessária. Ela é o primeiro passo para a vitória. Mas, se alguém der o primeiro passo e não der o segundo, a obra não será feita. Após termos fé em Deus, temos que falar à montanha.

Costumo exemplificar assim: “A fé é o combustível, a palavra é o veículo. Nenhum veículo anda sem combustível e nenhum combustível remove montanhas”.

Deus é um Deus de fé, isto é: Ele possui toda a fé, Ele é perfeito. No entanto, no início, quando o Senhor criou os céus e a terra, Ele não ficou dizendo para Si mesmo que tinha fé para criar o que quisesse e que assim, numa hora dessas, criaria uma porção de coisas. Ao contrário, diz a Bíblia que Ele, o Senhor, agiu segundo estes princípios que estamos estudando. E disse Deus… e o resultado nós conhecemos.

3a Passo: NÃO DUVIDAR EM SEU CORAÇÃO

… e não duvidar em seu coração… (Mc 11.23).

Aqui está praticamente a chave de tudo. Você pode ter fé em Deus, falar ao problema que saia da sua vida e esperar que assim aconteça. Mas, se lá no fundo do seu coração, no íntimo do seu espírito, você duvidar, pode esquecer o que você determinou.

Tenho observado que sempre que peço algo ao Senhor, ou quando determino que algo aconteça e não recebo, é porque lá no meu íntimo eu duvidava.

Duvidar no coração é uma declaração interior de que realmente não cremos naquilo que estamos fazendo. A mente pode estar muito bem sugestionada de todos os modos possíveis, mas, se o nosso coração duvidar, nada iremos receber.

4° Passo: CRER QUE SE FARÁ AQUILO QUE DIZ

… mas crer que se fará aquilo que diz… (Mc 11.23).

Esta é a conseqüência natural do terceiro passo. Se não duvidamos no coração, devemos crer. E, quem crê, se expressa. Observe que aqui Jesus não está dizendo que devemos crer que receberemos aquilo que pedimos ou oramos, mas, sim, o que dizemos. Muitos dizem que crerão quando receberem a bênção ou virem algum sinal. Esta não é a fórmula bíblica para recebermos as bênçãos, pois, se alguém vê, não precisa crer. Se quisermos receber o que a Bíblia promete, temos que agir conforme as normas estabelecidas na Palavra de Deus. Temos que crer que se fará o que falamos.

Podemos dizer que crer é lutar contra as evidências. Crer também significa acreditar que já está sendo feito aquilo que determinamos.

5a Passo: TUDO QUE DISSER LHE SERÁ FEITO

… tudo o que disser lhe será feito (Mc 11.23).

Este passo não é nosso, é do Senhor.

Vamos recordar a nossa parte no processo do recebimento das bênçãos. Primeiro, temos que ter fé, a certeza das coisas que se esperam, em Deus – só nEle (ela vem por ouvir a Palavra de Deus). A seguir, devemos nos dirigir ao problema e, com voz de autoridade, ordenar que saia de nossa vida. Ato contínuo, não podemos permitir que o nosso coração duvide. Em seguida, precisamos crer que aquilo que falamos nos será feito e, então, teremos a obra feita. Por quem? Certamente será pelo poder de Deus.

A NOSSA POSIÇÃO DE FILHOS DE DEUS

A nossa posição como filhos de Deus é altamente privilegiada. Somos nós que fazemos a diferença. A bênção de que precisamos não depende mais do Senhor e, sim, de nós. É diferente, não é? Pois bem, a nossa responsabilidade aumenta na proporção em que aprendemos a Verdade. Agora que sabemos como fazer o poder de Deus agir em nosso favor, não podemos ficar nos enganando, tentando fórmulas mágicas inventadas por qualquer pessoa. Aquele que quer realmente vencer há de tomar as suas decisões sobre o que a Palavra revela, pois é a própria Palavra que trará a libertação que ele deseja: E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará (Jo 8.32).

QUESTIONÁRIO:

1. A fé remove montanhas?

a) nem sempre

b) sim

c) não

2. O que significa ter fé em Deus?

a) crer em Deus e nas Suas obras

b) possuir a certeza daquilo que se espera

c) crer no que a igreja ensina

3. O que realmente remove montanhas?

a) a fé

b) a palavra

c) uma oração poderosa

4. Qual o primeiro passo para a vitória na vida do cristão?

a) ter fé em Deus

b) aceitar a Jesus

c) jejuar sempre

5. Qual é o segundo passo para a vitória?

a) esperar em Deus

b) orar até receber a bênção

c) falar ao monte

6. Qual é o terceiro passo da vitória?

a) ler a Bíblia

b) não duvidar

c) repreender o diabo

7. Qual é o quarto passo da vitória?

a) invocar o Nome do Senhor

b) recitar o Salmo 91

c) crer que se fará aquilo que diz

8. Qual é o quinto passo da vitória?

a) tudo o que disser será feito

b) tudo o que a pessoa desejar acontecerá

c) só acontece o que a pessoa crê

9. Qual é a nossa posição de filhos?

a) pobres pecadores perdoados

b) somos iguais aos anjos

c) altamente privilegiada

10. Qual é o maior inimigo da fé?

a) a preguiça

b) a dúvida

c) a razão

11. O que é crer verdadeiramente?

a) ficar repetindo que cremos

b) lutar contra as evidências

c) resignar-se com o sofrimento

12. Quando o poder de Deus executará as nossas ordens?

a) após darmos os quatro passos

b) quando entregamos os dízimos na Igreja

C) quando confessamos os nossos pecados

13. Como a fé vem ao nosso coração?

a) quando recebemos a imposição

b) através de uma visitação especial do Senhor

c) quando ouvimos a Palavra de Deus de mãos

14. Quando um problema se nos apresenta, o que devemos fazer?

a) jejuar para que ele desapareça

b) ordenar-lhe que desapareça

c) esperar que ele desapareça por si só

15. Quem faz a obra quando “determinamos”?

a) a nossa força mental

b) o poder mágico da Palavra

c) o poder de Deus

16. Quando não conseguimos a cura, a libertação e a solução dos nossos problemas, o que está acontecendo?

a) desconhecemos como as coisas espirituais funcionam

b) o diabo não se afasta de nós

c) o Espírito Santo não está nos assistindo

RESPOSTAS:

1) C   2) B   3) B  4) A  5) C  6) B  7) C  8) A  9) C  10) B  11) B  12) A  13) C  14) B  15) C  16) A

Referências Bíblicas

Oséias 4:6

“O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento. Porquanto rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos.”

Mc 11.12-14, 20.23

“No dia seguinte, depois de saírem de Betânia teve fome, e avistando de longe uma figueira que tinha folhas, foi ver se, porventura, acharia nela alguma coisa; e chegando a ela, nada achou senão folhas, porque não era tempo de figos. E Jesus, falando, disse à figueira: Nunca mais coma alguém fruto de ti. E seus discípulos ouviram isso.”

“Quando passavam na manhã seguinte, viram que a figueira tinha secado desde as raízes”.

Então Pedro, lembrando-se, disse-lhe: Olha, Mestre, secou-se a figueira que amaldiçoaste.

Respondeu-lhes Jesus: Tende fé em Deus.

Em verdade vos digo que qualquer que disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar; e não duvidar em seu coração, mas crer que se fará aquilo que diz, assim lhe será feito.”

Mc 11.22

Respondeu-lhes Jesus: Tende fé em Deus.

Rm 10.17

“Logo a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo.”

Hb 11.1

“Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem.”

Mc 11.23

“Em verdade vos digo que qualquer que disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar; e não duvidar em seu coração, mas crer que se fará aquilo que diz, assim lhe será feito.”

Fp 4.13

“Posso todas as coisas naquele que me fortalece.”

At 14.8-10

“Em Listra estava sentado um homem aleijado dos pés, coxo de nascença e que nunca tinha andado”.

Este ouvia falar Paulo, que, fitando nele os olhos e vendo que tinha fé para ser curado,  disse em alta voz: Levanta-te direito sobre os teus pés. E ele saltou, e andava.”

Js 10.12

“Então Josué falou ao Senhor, no dia em que o Senhor entregou os amorreus na mão dos filhos de Israel, e disse na presença de Israel: Sol, detém-se sobre Gibeom, e tu, lua, sobre o vale de Aijalom.”

Jo 8.32

“… e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”

Lição  3 – OS NOSSOS DIREITOS ÀS BÊNÇÃOS

 

v     Se for a Tua vontade

v     O direito de desfrutar as bênçãos

v     Como exercer este direito

v     Exerça o seu direito

v     Orar chega a ser desnecessário

No mundo jurídico, ouve-se constantemente a seguinte advertência: a lei não socorre a quem dorme.

Posso afirmar que na vida espiritual o mesmo ocorre. Se você não conhece os seus direitos em Cristo, ou se os conhece, mas não os reivindica, você não será socorrido, mesmo que seja considerado por muita gente como um cristão exemplar.

Acredito que isto explique por que tanta gente vive sofrendo, doente, passando privações financeiras e todo o tipo de apertos.

Nesta lição, veremos os nossos direitos às bênçãos, e como fazer para exercê-los.

Oro para que o Espírito Santo o fortifique e o esclareça, dando-lhe condições de exercer o mais elementar dos direitos, que é o de viver a vida abundante trazida pelo Senhor Jesus.

Quem aprende a tomar posse das bênçãos, a assumir os seus direitos, chega à conclusão de que, para ter o que lhe pertence, orar chega a ser desnecessário, pois basta determinar, seguindo a explicação dada por Jesus nos cinco passos para a vitória (Veja Mc 11.22,23).

Que, a partir desta lição, o Senhor Deus transforme a sua vida, fazendo com que você exerça o seu direito a todas as bênçãos, é a minha oração.

Em Cristo,

R. R. Soares

Para que a nossa vida cristã seja próspera, precisamos aprender quais são os nossos direitos, o que nos pertence e o que o Senhor Jesus fez para nós na Sua morte.

A idéia generalizada no seio da Igreja é que é Deus quem faz os milagres. O que é completamente verdadeira. Mas, ao estudarmos mais profundamente este assunto, veremos que, de fato, Deus já fez a parte dEle; agora somos nós que temos de fazer a nossa. Como? Exercendo os nossos direitos. Se não fizermos a nossa parte, o Senhor não a fará por nós. Por isso, é muito importante conhecer os nossos direitos.

Se você não souber que alguma coisa lhe pertence, nunca terá fé e coragem suficiente para reivindicá-la. Por outro lado, se sabemos pela Palavra de Deus que alguma coisa nos pertence, nem precisamos esperar por mais nada; basta dar a ordem determinando em o Nome de Jesus e o poder de Deus realizará aquilo que determinamos.

Há muita gente que precisa fazer uma verdadeira mudança em suas mentes e corações. Por anos foram ensinadas a temer a um Deus bravo, irado e que está sempre pronto a lançá-las no inferno. Elas O servem por medo. Estas pessoas precisam aprender que as Escrituras afirmam que o nosso Deus é amor (1 Jo 4.8) e que Jesus, nosso Senhor, é manso e humilde de coração.

Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas (Mt 11.29).

Precisam aprender também que usar a famosa frase “Se for a tua vontade”, na oração, é simplesmente demonstrar ignorância completa sobre o que a Palavra de Deus diz em relação à bênção que está sendo pedida.

SE FOR A TUA VONTADE

Na Bíblia temos registro de apenas uma pessoa que orou demonstrando não saber se era a vontade de Deus curá-la ou não. Era o pobre leproso, em Mateus capítulo oito, a quem o Senhor prontamente lhe respondeu: Quero, sê limpo.

Dizer a Deus que a bênção que você está pedindo deverá lhe ser dada se for da vontade dEle é o mesmo que Lhe dizer que você não sabe se Ele realmente é um Pai que se interessa pelo seu bem, pois pode ser que Ele o ame só de palavras, mas quer que você tenha um cancerzinho, uma tuberculosezinha, ou que viva na miséria. Que tipo de Pai é Deus para você?

O Senhor Jesus nos retratou o Pai da seguinte maneira:

E qual dentre vós é o homem que, pedindo-lhe pão o seu filho, lhe dará uma pedra? E, pedindo-lhe peixe, lhe dará uma serpente? Se, vós pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhos pedirem? (Mt 7.9-11).

O DIREITO DE DESFRUTAR AS BÊNÇÃOS

Para que entendamos bem que desfrutar todas as bênçãos constitui um direito nosso, vamos aprender primeiramente a diferença entre uma promessa e uma declaração de um fato.

– PROMESSA: É algo prometido. Na Bíblia temos inúmeras promessas que o Senhor Deus fez para nós e que algum dia Ele irá cumpri-las. Ex: A segunda vinda de Jesus.

– DECLARAÇÃO DE UM FATO: É algo que Deus declara que Ele já fez. Ex: A salvação, a cura divina, etc.

Vamos deixar as promessas de Deus para outro estudo e passemos a considerar só a declaração de um fato. Elas constituem um direito nosso.

Quando digo que temos direito de desfrutar saúde, viver afastado de pecados e prosperar, não estou me baseando em alguma promessa do Senhor. É claro que na Bíblia existem várias promessas de Deus de curar o Seu povo, principalmente o judeu, que antes da vinda de Jesus era o povo dEle, bem como promessas acerca da fidelidade do dízimo e várias outras. Mas, estou me referindo a certas declarações que o Senhor Deus fez na Bíblia Sagrada, que nos garantem que as bênçãos nos pertencem.

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo (Ef 1.3).

Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou por sua glória e virtude (2 Pe 1.3).

Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi ferido pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniqüidades: o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados (Is 53.4,5).

Aqui está claro que todas as bênçãos de que precisamos ou de que venhamos precisar já nos foram dadas. Ora, se alguém lhe declara que algo que era dele agora lhe pertence, você tem então o direito de reivindicar aquilo. É exatamente assim que se recebem as bênçãos do Senhor, sejam elas: cura, perdão, prosperidade ou quaisquer outras. Todas elas nos foram dadas.

Em relação à cura, vamos observar a declaração do Senhor, feita por intermédio do profeta Isaías:

 Pelas suas pisaduras fostes sarados. Na mente do Senhor, nós já fomos curados. Ele considera como fato consumado a obra de Cristo, em que Ele levou sobre Si mesmo as nossas doenças e dores. Então, não temos que levá-las mais. Tudo já foi feito. Logo, temos um direito legal de desfrutar saúde. O mesmo se dá em relação à prosperidade e a quaisquer outras bênçãos. Diz a Palavra que Jesus se tornou maldição em nosso lugar para que tivéssemos acesso às bênçãos de Abraão: Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro. Para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo, e para que pela fé nós recebamos a promessa do Espírito (Gl 3.13,14).

COMO EXERCER ESTE DIREITO

Todo e qualquer direito não reclamado é direito inexistente. Ler estes versículos e dizer que acredita neles sem colocá-los em prática ou exigir o cumprimento deles é o mesmo que dizer a Deus que não temos absolutamente um só pingo de fé nEle.

Exercer o direito é tomar uma atitude. Se Deus assim se expressa, declarando que já fomos sarados pelas feridas de Jesus, isto é verdade e assim tem que acontecer na nossa vida.

Exercer o direito é dizer ao diabo que já sabemos que acabou o cativeiro dele na nossa vida e que, a partir de agora, não mais permitiremos que ele nos ataque e nos destrua. É dar um basta no sofrimento.

EXERÇA O SEU DIREITO

Diga ao diabo que, de agora em diante, você não se submeterá aos seus ataques, que você acabou de conhecer a Verdade, e a Verdade está libertando você completamente. Diga-lhe que você nem vai pedir a Deus que o cure ou que lhe dê qualquer outra bênção, pois isso Ele já fez. Dirija-se ao inimigo e ao sofrimento que ele colocou em você e repreenda-os, exigindo em o Nome de Jesus que desapareçam de sua vida e saiam completamente.

Confesse que você já foi curado e liberto de todas as maldições por Cristo Jesus na Sua morte na cruz.

ORAR CHEGA A SER DESNECESSÁRIO

Para sermos curados, não precisamos orar, jejuar ou ficar pedindo a todo mundo que ore por nós. Tudo que temos a fazer é: toda vez que o diabo vier nos trazer um mal, não importa o mal que for, devemos dizer-lhe que não o aceitamos e, ao mesmo tempo, exigir que aquilo não entre em nós. O Espírito Santo lhe diz: …Resisti ao diabo, e ele fugirá de vós (Tg 4.7).

Exercer o direito é assumir o que a Palavra de Deus lhe diz que Jesus realizou em seu favor. Ela declara que Ele sofreu no Seu próprio corpo as nossas doenças e enfermidades. Então, recuse terminantemente carregar aquilo que Jesus já carregou em Seu lugar. A Palavra declara que Ele foi feito maldição em nosso lugar para que ficássemos livres das maldições da Lei; então, não permita que o inimigo traga para a sua vida nenhuma maldição. Você já está livre!

Neste momento, creia no que o Senhor afirma e, firmemente, ordene ao diabo em o Nome de Jesus que saia completamente de sua vida, levando tudo aquilo que é dele. Exerça o seu direito de desfrutar de todas as bênçãos compradas para você pelo Senhor, que o amou a tal ponto de morrer na cruz, tornando-Se maldição em seu lugar.

Entenda, Jesus sofreu as suas doenças e todas as suas maldições. Você não tem que sofrê-las mais. A Palavra de Deus afirma que, fôssemos curados, Ele Se enfermou com as nossas enfermidades:

 Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar… (Is 53.10). 

 QUESTIONÁRIO:

1. Por que precisamos conhecer os nossos direitos?

a) para sermos importantes

b) para que tenhamos a apreciação

c) para a nossa vida de fé ser próspera dos outros

2. Deus já fez a parte dEle em relação aos milagres?

a) sim

b) não

c) mais ou menos

3. O que devemos fazer quando sabemos que algo nos pertence?

a) tomar posse em o Nome de Jesus

b) orar para sentir se é de Deus

c) aguardar que aquilo nos seja dado

4. Como as Escrituras afirmam ser o nosso Deus?

a) bravo

b) irado

c) amoroso

5. O que acontece com a pessoa que vem a Jesus, toma o Seu jugo e aprende que Ele é manso e humilde de coração?

a) fica mais bonita

b) encontra descanso para a sua alma

c) continua como está

6. É certo usar a frase “Se for da Tua vontade” quando se quer receber uma bênção?

a) sim

b) depende

c) não

7. O que Jesus respondeu ao leproso que não sabia se era Sua vontade curá-lo?

a) você não merece a cura

b) quero, sê limpo  

c) jejue 40 dias

8. Onde está escrito que o Pai dará bens aos que Lho pedirem?

a) Mt8.3

b) Mt10.1

c) Mt7.11

9. A nossa cura é uma promessa?

a) não

b) sim

c) os dois

10. Como devemos encarar a nossa cura?

a) como um direito

b) como uma promessa aos bonzinhos

c) como uma dádiva aos privilegiados

11. 0 que diz Efésios 1.3?

a) que nos céus seremos abençoados

b) que Deus nos deu algumas bênçãos

c) que somos abençoados com todas as bênçãos

12. Como Pedro afirmou que o divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida?

a) pelas igrejas evangélicas

b) pelo conhecimento de Jesus

c) pelos sacrifícios

13. Segundo Isaías 53:4,5 quando se dará a nossa cura?

a) quando Deus quiser

b) quando orarmos bastante

c) já fomos curados

14. O que é exercer o direito?

a) orar pacientemente

b) é tomar uma atitude

c) é não levar em consideração os sintomas

15. O que acontece quando resistimos ao diabo?

a) ele foge de nós

b) ele nos enfrenta

c) ele nem liga

16. O que o Senhor Deus fez com Jesus para que fôssemos curados?

a) deu uma bênção para Ele

b) mandou que Ele nos curasse

c) fez com que Ele fosse moído e enfermasse

RESPOSTAS:

1) C   2) A   3) A  4) C  5) B  6) C  7) B  8) C  9) A  10) A  11) C  12) B  13) C  14) B  15) A  16) C

Referências Bíblicas

Mc 11.22,23

“Respondeu-lhes Jesus: Tende fé em Deus.

Em verdade vos digo que qualquer que disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar; e não duvidar em seu coração, mas crer que se fará aquilo que diz, assim lhe será feito.”

1 Jo 4.8

“Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor.”

Mt 11.29

“Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas.”

Mt 7.9-11

“Ou qual dentre vós é o homem que, se seu filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se lhe pedir peixe, lhe dará uma serpente? Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas dádivas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhas pedirem?”

Ef 1.3

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestes em Cristo;”

2 Pe 1.3

“Mas houve também entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá falsos mestres, os quais introduzirão encobertamente heresias destruidoras, negando até o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição.

E muitos seguirão as suas dissoluções, e por causa deles será blasfemado o caminho da verdade; também, movidos pela ganância, e com palavras fingidas, eles farão de vós negócio; a condenação dos quais já de largo tempo não tarda e a sua destruição não dormita.”

Is 53.4,5

“Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e carregou com as nossas dores; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido.

Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e esmagado por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.”

Gl 3.13,14

“Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro; para que aos gentios viesse a bênção de Abraão em Jesus Cristo, a fim de que nós recebêssemos pela fé a promessa do Espírito.”

Tg 4.7

“Sujeitai-vos, pois, a Deus; mas resisti ao Diabo, e ele fugirá de vós.”

Is 53.10

“Todavia, foi da vontade do Senhor esmagá-lo, fazendo-o enfermar; quando ele se puser como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias, e a vontade do Senhor prosperará nas suas mãos.”

Lição  4 – O NOME DE JESUS

 

v     O Nome de Jesus é a nossa suprema autoridade

v     É só usar o Nome

v     Passe a ser vencedor

v     Por que alguns fracassam?

v     Como usar o Nome de Jesus

Antes de voltar aos céus, de onde viera, o Senhor Jesus nos deu ordens para que, no Nome dEle, continuássemos a fazer a obra que Ele havia começado.

A vinda de Jesus foi o raiar de uma nova era para a humanidade. O homem estava condenado ao suplício eterno e a sofrer, ainda aqui neste mundo, todas as doenças e males que o diabo havia criado.

O Senhor Jesus começou a Sua missão nos ensinando qual era a vontade de Deus para o ser humano. Até então, acreditava-se que os sofrimentos faziam parte da punição de Deus pêlos erros praticados. Mas, o nosso Cristo mostrou que sofrer era a vontade do diabo.

Em todos os lugares, Ele não só ensinava qual era a vontade de Deus, como a fazia ser realizada: sempre estava curando os enfermos e expulsando os demônios.

Agora, prestes a partir, Ele reúne os Seus discípulos e lhes ordena que continuem a Sua obra. Para tanto, Ele lhes dá a faculdade de usar o Seu Nome para fazer o mesmo que Ele fazia. Graças a Deus por isto!

Aprenda nesta lição que o Nome de Jesus é a nossa suprema autoridade. Passe a ser um vencedor, entendendo como usar este Nome e saiba por que alguns fracassam.

Ele disse: Assim como Tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo (Jo 17.18).

Em Cristo,

R. R. Soares

Toda pessoa que quiser vencer as batalhas da vida precisa fazer um estudo intensivo do poder e da autoridade que há no Nome de Jesus. Precisa descobrir o entendimento que os heróis da fé possuíam desse Nome. O que realmente significa para nós, hoje, usar o Nome do nosso Salvador e Senhor.

Em João 14.13, o Senhor Jesus assim se expressou: E tudo quanto pedirdes em meu Nome, eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. Aqui Ele não está falando propriamente de oração como nós a conhecemos; mas, sim, sobre determinar, exigir, mandar (segundo os estudiosos da língua grega, idioma este em que o Novo Testamento foi escrito).

Usar o Nome de Jesus para o cristão deve ser algo tão comum como qualquer outro ato. Deve ser um uso constante e contínuo. Pedro e João andaram com Jesus e, certamente, estavam presentes quando o Senhor lhes disse que o que determinassem em Seu Nome, Ele o faria. Diz a Escritura, em Atos 3.1-9, o seguinte:

E Pedro e João subiam juntos ao templo à hora da oração, a nona. E era trazido um varão que desde o ventre de sua mãe era coxo, o qual todos os dias punham à porta do templo, chamada Formosa, para pedir esmola aos que entravam. O qual, vendo a Pedro e a João, que iam entrando no templo, pediu que lhe dessem uma esmola. E Pedro, com João, fitando os olhos nele, disse: Olha para nós. E olhou para eles, esperando receber deles alguma coisa. E disse Pedro: Não tenho prata nem ouro; mas o que tenho isso te dou. Em Nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda. E, tomando-o pela mão direita, o levantou, e logo os seus pés e artelhos se firmaram. E, saltando ele, pôs-se em pé, e andou, e entrou com eles no templo, andando, e saltando, e louvando a Deus. E todo o povo o viu andar e louvar a Deus.

O que foi que aconteceu? Pedro e João sabiam que aquilo que determinassem em o Nome de Jesus, o próprio Jesus faria. Quando o mendigo lhes pediu esmola, aproveitaram a ocasião e usaram o Nome de Jesus. É interessante notar que eles não deram um sermão, dizendo-lhe que estava sofrendo porque esta era a vontade de Deus, nem lhe disseram nada mais a não ser a ordem para que, em Nome de Jesus, ficasse bom.

Quando tivermos aprendido que por meio do Nome de Jesus podemos ordenar o que quisermos, começaremos a desfrutar a vida que o Senhor planejou que tivéssemos. Estaremos assim assumindo a posição que o próprio Deus declara já nos pertencer.

No mundo espiritual, nada irá funcionar a nosso favor se não utilizarmos os recursos, o poder e a autoridade do Nome do nosso Redentor. Ao usarmos o Nome de Jesus, temos acesso a Deus, somos atendidos pelo poder celestial e, neste Nome, amarramos todas as forças diabólicas. Quando usamos este Nome sobre as doenças ou qualquer outro mal, podemos estar certos de que derrotamos o mesmo. Porém, às vezes os sintomas ainda perduram por um pouco de tempo, apesar do diabo ter sido derrotado. É uma de suas últimas tentativas. Algumas vezes, ele vem e cochicha no nosso pensamento e nós nem nos apercebemos de que é ele. Ele sugere: “Bem, esta doença é diferente… este caso é mesmo difícil… esta doença é para os médicos… basta tomar um remedinho e pronto… este problema não é tão grave assim, acho que posso carregá-lo…” O diabo é mestre em influenciar pessoas e enganar aqueles que não estão firmados na Palavra de Deus.

O NOME DE JESUS É A NOSSA SUPREMA AUTORIDADE

O Senhor Jesus nos deu o direito de usar o Seu Nome. Ele disse que em Seu Nome expulsaríamos demônios e, se colocássemos as mãos sobre os enfermos, eles seriam curados, além de outros sinais:

E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios… e porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão (Mc 16.17,18).

Quando usamos o Nome de Jesus sobre a revelação da Palavra de Deus, o poder de Deus atende à nossa ordem, tal como atendia às ordens de Jesus. Usar o Nome de Jesus é agir como Seu procurador.

O poder e a autoridade que estão atrás do Nome de Jesus são o poder e a autoridade que o próprio Deus possui. O Senhor Jesus declarou que havia recebido todo o poder:

E chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra (Mt 28.18).

O Espírito Santo nos revela que este Nome é a suprema autoridade do universo.

Pelo que também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra. E toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai (Fp 2.9-11).

Todos os seres da terra, do céu e do inferno têm que se dobrar diante deste Nome. Quando isto acontece? Quando nós O usamos exercendo o nosso direito, reivindicando qualquer coisa que a Palavra de Deus nos informa pertencer.

E SÓ USAR O NOME

Quando Ele nos deu o Seu Nome para que determinássemos o que quiséssemos, Ele sabia o que isto representaria. O Senhor sabia que pessoas como eu ou você estaríamos exigindo que o diabo e seus males deixassem as nossas vidas. Sabia ainda que alguém com uma doença incurável, um problema insolúvel, iria algum dia, em algum lugar, levantar-se e exigir a sua cura. Ele não somente sabia disto: Ele espera que toda e qualquer pessoa, com qualquer sofrimento, aja deste modo. Ele aguarda que você, que de alguma maneira tem sido atacado pelo diabo, se levante e tome uma posição agora mesmo. Agir de acordo com as orientações da Palavra não é bancar o mal-educado ou o rebelde: é ser simplesmente obediente ao Senhor. Rebeldia e falta de educação tem a pessoa que sabe que o Senhor ordenou que aja de tal modo e não o faz.

PASSE A SER VENCEDOR

Qualquer cristão pode passar da noite para o dia, de um momento para o outro, de dominado a dominador. Decida agora. Use o Nome de Jesus, agradeça ao Pai por esta posição espiritual e faça com que o diabo saiba que, de agora em diante, você é um vencedor.

No mundo espiritual, nada irá funcionar a seu favor enquanto você não fizer uso de suas prerrogativas como filho de Deus. Deus não pode fazer nada por você, se você não assumir a autoridade que lhe pertence em o Nome de Jesus.

POR QUE ALGUNS FRACASSAM?

Muitos fracassam por simplesmente deixar o diabo ter vitória na vida deles. Alguns são preguiçosos e não querem agir do modo que Deus estabeleceu. Outros começam bem e chegam a alcançar algumas vitórias, mas um dia o teste é mais severo, o problema parece mais difícil, o diabo faz uma oposição maior, e eles resolvem aceitar o fracasso.

Alguns chegam a dizer mais ou menos assim: “Bem, não é que eu tenha me esquecido de Jesus ou O tenha negado. Você entende, este problema estava difícil e o diabo fez uma oposição maior; bem, eu simplesmente não consegui… Mas acredito na Palavra de Deus… Tudo o que fiz foi só usar métodos humanos que o Senhor deixou para nós”. Estas pessoas nem percebem que na verdade negaram a Jesus, descreram nEle e fizeram pior que os incrédulos. Em Hebreus 10.38, o Senhor Deus nos revela o que acontece quando recuamos ou deixamos de viver da fé:

Mas o justo viverá da fé; e, se ele recuar, a minha alma não tem prazer nele (Hb 10.38).

COMO USAR O NOME DE JESUS

Jamais usaremos o Nome de Jesus com sucesso se não estivermos agindo sobre a revelação da Palavra de Deus. É preciso que se entenda que o nosso único elo de ligação com o Pai é através da Palavra. No mundo espiritual a nossa palavra sozinha é acatada como nada. Não era assim no início; o homem tinha autoridade para reinar aqui nesta vida, mas ao pecar, perdeu tudo. Quando Jesus venceu o inferno e expulsou o “príncipe” deste mundo, Ele conquistou para Si a autoridade que o homem perdera e recebeu ainda todo o poder tanto no céu como na terra. Agora Ele nos dá este sublime privilégio de usar o Seu Nome; mas, Ele nos adverte que sem Ele nós não faremos nada. Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer (Jo 15.5).

Não importa o problema pelo qual você esteja passando. Primeiro, e antes de tudo, procure meditar na Palavra de Deus. Ao recebê-La no coração, Ela lhe dará a fé — a certeza de que aquilo de que você precisa já lhe pertence. Então, você deve, sem vacilar, usar o Nome de Jesus, reivindicando o que lhe foi revelado.

Após usar o Nome de Jesus, creia que já foi atendido e considere a obra como feita, mesmo que os sintomas atestem o contrário.

QUESTIONÁRIO:

1. Qual o nome que nos dá a vitória?

a) o Nome de Deus

b) o Nome de Jesus

c) o Nome do Espírito Santo

2. Qual o melhor significado para pedir em Nome de Jesus?

a) determinar

b) rogar

c) clamar

3. O que fazer após usar o Nome de Jesus?

a) esperar pacientemente pela resposta

b) considerar a obra feita  

c) crer que um dia será abençoado

4. O que devemos confessar em relação ao diabo?

a) que ele é um adversário forte

b) que é o nosso maior inimigo

c) que já está derrotado

5. Só pode se tornar um vencedor:

a) aquele que ora e jejua constantemente

b) quem usa o Nome de Jesus

c) quem é balizado no Espírito Santo

6. Por que Pedro ordenou ao paralítico que se levantasse e andasse?

a) porque Pedro era santo

b) porque o homem tinha fé 

c) porque Pedro sabia que Jesus faria o que Ele determinasse

7. O que precisamos utilizar para que as coisas funcionem a nosso favor no mundo espiritual?

a) os recursos, o poder e a autoridade

b) a unção dos pastores

c) a oração dos demais irmãos do Nome de Jesus

8. Cite uma das últimas tentativas do diabo:

a) aparecer em forma de assombrações

b) fazer os sintomas persistirem

c) bater as portas e janelas

9. Em que o diabo é mestre?

a) abrir os olhos dos cegos

b) ensinar a verdade

c) enganar os que não estão firmados na Palavra de Deus

10. Usar o Nome de Jesus é agir como:

a) Seu procurador

b) dono da verdade

c) verdadeiro religioso

11. Quem é rebelde e mal-educado diante do Senhor?

a) quem não ora diariamente

b) quem não lê a Bíblia

c) quem não age conforme o Senhor ordenou

12. Quanto tempo é necessário para o cristão passar a ser vencedor?

a) 40 dias e 40 noites

b) da noite para o dia — imediatamente

c) o tempo que Deus quiser

13. Para que algo funcione no mundo espiritual, o que é preciso?

a) jejuar e ser humilde

b) jejuar e orar bastante

c) usar as prerrogativas dos filhos de Deus

14. Por que muitos fracassam?

a) porque não são chamados

b) porque deixam o diabo ter vitórias em suas vidas

c) porque não são batizados

15. O que conseguiremos fazer sem Jesus?

a) tudo

b) algumas coisas

c) nada

16.O que devemos fazer após usar o Nome de Jesus?

a) fazer uma corrente de oração

b) suplicar até sermos atendidos

c) crer que já fomos curados

RESPOSTAS:

1) B   2) A   3) B  4) C  5) B  6) C  7) A  8) B  9) C  10) A  11) C  12) B  13) C  14) B  15) C  16) C

Referências Bíblicas

Jo 17.18

“Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviarei ao mundo.”

João 14.13

“… e tudo quanto pedirdes em meu nome, eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho.”

Atos 3.1-9

“Pedro e João subiam ao templo à hora da oração, a nona.

E, era carregado um homem, coxo de nascença, o qual todos os dias punham à porta do templo, chamada Formosa, para pedir esmolas aos que entravam.

Ora, vendo ele a Pedro e João, que iam entrando no templo, pediu que lhe dessem uma esmola.

E Pedro, com João, fitando os olhos nele, disse: Olha para nós.

E ele os olhava atentamente, esperando receber deles alguma coisa.

Disse-lhe Pedro: Não tenho prata nem ouro; mas o que tenho, isso te dou; em nome de Jesus Cristo, o nazareno, anda.

Nisso, tomando-o pela mão direita, o levantou; imediatamente os seus pés e artelhos se firmaram e, dando ele um salto, pôs-se em pé. Começou a andar e entrou com eles no templo, andando, saltando e louvando a Deus.

Todo o povo, ao vê-lo andar e louvar a Deus,”

Mc 16.17,18

“E estes sinais acompanharão aos que crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e estes serão curados.”

Mt 28.18

“E, aproximando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra.”

Fp 2.9-11

“Pelo que também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu o nome que é sobre todo nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.”

Hebreus 10.38

“Mas o meu justo viverá da fé; e se ele recuar, a minha alma não tem prazer nele.”

Jo 15.5

“Eu sou a videira; vós sois as varas. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.”

Lição  5 – A FÓRMULA DA ORAÇÃO

 

v     Procura lembrar-me

v     Entremos em juízo juntamente

v     Apresenta as tuas razões

v     Para que te possas justificar

Certo dia, os discípulos de Jesus ficaram maravilhados com a maneira como Ele orava. Um deles, imediatamente, pediu-lhe que os ensinasse a orar, assim como João Batista havia ensinado aos seus discípulos.

Orar de modo correto é o que fará a oração ser vitoriosa. Orar por orar não produz nenhum resultado. A oração só deve ser feita se for para ter sucesso.

Esta lição é sobre a fórmula da oração – a oração que deve ser feita para reverter uma situação considerada insolúvel.

Há que ter uma explicação para o fato de uns orarem e obterem o que desejam, enquanto outros oram e não conseguem resposta alguma. É na Palavra de Deus que vamos encontrar tal resposta.

Os heróis da fé conheciam os princípios que faziam as suas orações serem produtivas e operantes. Usando estes princípios, eles venceram reinos, praticaram a justiça, alcançaram promessas, fecharam a boca dos leões, apagaram a força do fogo, escaparam do fio da espada, da fraqueza tiraram forças, na batalha se esforçaram, puseram em fuga exércitos de estrangeiros, etc.

Que a partir desta lição não haja mais para você o dissabor de ter lutado e não ter conseguido, de ter orado e não ter obtido resposta. Que o Senhor possa sempre conduzi-lo em triunfo.

Em Cristo,

R. R. Soares

A oração é uma das coisas mais importantes da nossa vida. Ela é o recurso que temos nos momentos difíceis e dela todos os seres humanos fazem uso.

Apesar de tudo o que a oração é e representa para o cristão, são poucos os que sabem fazê-la. Quando os discípulos de Jesus viram que Ele obtinha sucesso em todas as suas orações, chegaram-se a Ele, e Lhe pediram que os ensinasse a orar. Certamente que existe uma maneira correta de fazer aquilo que Deus considera como oração. Os heróis da fé sabiam fazê-la, e, por isso, venceram reinos, praticaram a justiça, alcançaram promessas, fecharam a boca dos leões, apagaram a força do fogo, escaparam do fio da espada, da fraqueza tiraram forças, na batalha se esforçaram e puseram em fuga exércitos de estrangeiros. Sim, tudo isto e muito mais conseguiram, porque sabiam fazer aquilo que pelo Senhor é considerado como oração.

E você, já sabe fazer a oração que move a mão do Senhor e faz com que o poder celestial opere em seu favor? Há muita coisa boa esperando por você. Aprenda a fazer a oração da fé e passe a desfrutar do melhor desta vida.

Não vamos, nesta lição, estudar todos os tipos de orações, mas a fórmula da oração que devemos fazer para vencermos os males. Existe tal fórmula?

Sim. No livro de Isaías 43.26, está escrito:

Procura lembrar-me; entremos em juízo juntamente; apresenta as tuas razões, para que te possa justificar.

Temos aí nesta declaração de Isaías a fórmula da oração que nos fará vitoriosos.

1a – PROCURA LEMBRAR-ME

Ao entrarmos na presença do Senhor, devemos fazê-Lo saber que estamos ali porque somos Seus filhos, porque a Palavra dEle nos garante a bênção e porque acreditamos que Ele é poderoso para nos conceder a graça. Se quisermos ser atendidos em nossa petição, temos que entrar em Sua santa presença, lembrando-O de tudo aquilo que a Sua Palavra nos promete e garante nos pertencer.

Alguém poderá perguntar se Deus é esquecido. Poderá questionar que — desde que Ele é onisciente — Ele sabe tudo e, por isso, não precisamos lembrá-Lo. Ainda poderá argumentar que o próprio Senhor Jesus ensinou que o Pai sabe do que precisamos antes de Lhe pedirmos a bênção, pois foi assim que Jesus ensinou: …porque vosso Pai sabe o que vos é necessário antes de vós lho pedirdes (Mt 6.8).

Não é que o Senhor tenha estes ou quaisquer outros problemas, nem que existam contradições na Bíblia Sagrada. Isto nada tem a ver com o ensinamento de Jesus que acabamos de ver. O que realmente o Senhor quer dizer por lembrar-me, é o seguinte:

Quando vamos orar, nem sempre estamos desligados das coisas materiais que nos cercam. Muitas vezes, estamos tão rodea­dos pêlos problemas que não conseguimos nos concentrar, nos ligar em Deus, e a nossa oração fica vazia e destituída de fé, poder e autoridade e, por conseguinte, não recebemos o que pedimos ou determinamos.

Quando começamos a orar lembrando ao Senhor as Suas promessas, estamos na verdade fazendo mais bem a nós do que propriamente lembrando a Deus. Estamos como que “escovando” o nosso espírito, “lustrando” a nossa verdadeira pessoa — o nosso espírito. Ao lembrar ao Senhor tudo aquilo que nós conhecemos e cremos na Sua Palavra, estamos verdadeiramente de novo, ou pela primeira vez, dando ouvidos à Palavra de Deus; sabemos que é por dar ouvidos à Palavra que a fé vem ao nosso coração. Então, estamos fazendo, na verdade, um bem infinitamente maior à nossa própria pessoa.

Aqueles que usam este método sabem que isto é verdade, pois Deus não precisa de que nós O lembremos para que Ele próprio fique ciente de que nos havia prometido aquela bênção.

2° – ENTREMOS EM JUÍZO JUNTAMENTE

A oração é um julgamento. Uma batalha. Uma guerra. Ao entrarmos em oração, devemos fazê-la lembrando que estamos verdadeiramente entrando para decidir uma situação.

Deus diz que devemos entrar em juízo. Ninguém entra em juízo de qualquer maneira. Se levamos alguém a juízo, ou se somos levados por alguém, devemos nos preparar para a batalha. Certamente o nosso adversário vai usar de todos os meios e métodos imagináveis para ter vitória sobre nós. E nem sempre quem tem direito é quem ganha, mas sim quem consegue “provar” a sua “inocência” ou “razão”. Precisamos, então, nos preparar para entrarmos em juízo, e isto nos leva de volta ao primeiro passo que é o de lembrá-Lo.

Após termos “lembrado” ao Senhor, devemos entrar juntamente com Ele em juízo. Não podemos ir sozinhos nem tão pouco pedir a Deus que Ele vá por nós. Ele diz que temos que ir juntamente. A batalha é nossa e não do Senhor, e temos que fazer com Ele a nossa defesa e o nosso ataque.

Isso é certeza de vitória. Quando e onde foi registrado que Deus tenha perdido uma só batalha? Isto é simplesmente impossível de acontecer.

Entrar juntamente com o Senhor no julgamento é encontrar aquela promessa ou declaração que Ele faz a respeito da nossa posição diante daquela situação; e então, destemidamente, iniciar a oração, especificando o motivo dela – logicamente que usando o Nome de Jesus — e partir para cima do adversário, exigindo que ele e tudo o que é dele saiam de nossa vida, família e propriedade.

3° – APRESENTA AS TUAS RAZOES

Depois de termos lembrado ao Senhor o que somos e o que sabemos ser nosso direito, e de termos entrado juntamente com Ele em juízo, precisamos apresentar as nossas razões. Apresentar as nossas razões é fazer o mesmo que fazem os advogados quando estão defendendo alguém. Devemos conhecer o direito que a Palavra de Deus declara ser nosso, e aí, diante do Tribunal Supremo do Universo, que é a própria Palavra, erguer a nossa voz e não aceitar nenhum veredicto a não ser aquele que determinamos. Nesta hora, devemos ficar bem acordados e alerta, pois o inimigo vai tentar de todas as formas nos ludibriar. Às vezes, ele vem bem de mansinho, tentando passar-se pelo Senhor. Ele insinua que nós não merecemos as bênçãos, como se elas nos fossem dadas por merecimentos; e, se não conhecemos os meios pêlos quais elas nos são concedidas – pela graça, mediante a fé – nós podemos ser convencidos de que realmente não merecemos nada e aí teremos perdido tudo.

Como o demônio gosta de que vivamos na ignorância, que sejamos preguiçosos nas coisas espirituais e que não aprendamos aquilo que é nosso! Só assim ele poderá, na hora da nossa oração-julgamento, vir com as suas desculpas esfarrapadas e nos ludibriar. Muitas vezes, ele traz à memória um pecado que havíamos cometido há muito tempo, do qual já nos arrependemos, e, portanto, ele nem mais existe na memória do Senhor. Mas, por não estarmos afiados na Palavra, esquecemos que pecado confessado é pecado inexistente e, então, nos colocamos a confessá-lo de novo, assumindo uma posição de responsáveis por algo que já nem mais existe.

Veja bem a importância de conhecermos os nossos direitos, pois, a pessoa que não os conhece será facilmente enganada pelo maligno. Ela não terá condições de apresentar as suas razões e, assim, não conseguirá pleitear a sua causa, perdendo conseqüentemente a batalha. Lembre-se da lição n° 3, em que estudamos que direito não reclamado é direito inexistente. Você tem direito à bênção. O Senhor Jesus já venceu o diabo por você. Ele já levou as suas doenças para que você não tivesse que levá-las. A Bíblia garante que você é mais do que vencedor. Mas, se você não conhece as declarações da Bíblia que falam da sua posição diante de Deus, você não poderá apresentá-las no julgamento, e certamente ficará sem receber o cumprimento delas.

Quando estamos cientes dos nossos direitos – e isto podemos estar não pelo que desejamos, mas unicamente pelo que a Palavra de Deus afirma —, podemos estar certos de que aquilo que a Bíblia diz ser nosso é o que teremos; Deus não colocou qualquer declaração nas Escrituras só para enfeitá-las. Elas foram colocadas para que pudéssemos ter vida, e vida com abundância.

4° – PARA QUE TE POSSAS JUSTIFICAR

Aqui está claro que Deus não quer que brinquemos de oração nem que sejamos derrotados ao orar. O propósito da oração é que sejamos justificados, o que na linguagem bíblica significa: a vitória na oração.

Só mesmo alguém que desconhece a sua posição em Cristo e os seus direitos na presença de Deus será capaz de fracassar nas batalhas espirituais – tanto pelas bênçãos espirituais quanto físicas ou materiais.

Justificação é um termo próprio da justiça que significa não somente absolver, mas declarar alguém justo, como se esse jamais houvesse pecado em toda a sua vida. A justificação inclui mais do que o perdão dos pecados e a remoção da condenação, pois, no ato da justificação, Deus coloca o ofensor na posição de justo. O presidente da República, por ocasião do natal ou ano novo, pode indultar (perdoar) o criminoso; não pode, porém, reintegrá-lo na posição daquele que nunca desrespeitou a lei.

Ora, sem a justificação, que vem pela fé, jamais teremos paz com Deus. Se não tivermos paz com Ele, podemos esquecer: jamais seremos abençoados. Mas, graças a Deus que isso é possível. É para isso que Ele nos convida.

Sendo, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo.  (RM 5.1).

QUESTIONÁRIO:

1. O que é oração?

a) um recurso que temos nos momentos mais difíceis

b) uma obrigação religiosa

c) um dos mandamentos da igreja

2. Em que texto Bíblico encontramos a fórmula da oração?

a) Isaías 43.26

b) Isaías 9.1-11

c) João 3.16

3. Ao ver o sucesso de Jesus em suas orações, o que Lhe pediram Seus discípulos?

a) que os deixasse estar com ele

b) que os ensinasse a orar  

c) que os santificasse

4. Por que os heróis da fé obtinham sucesso?

a) eram escolhidos de Deus

b) andavam com Jesus

c) sabiam orar

5. Qual o primeiro passo da oração?

a) lembrar a Deus de Suas promessas

b) pedir tudo o que precisamos

c) louvar a Deus

6. Quando lembramos a Deus de Suas promessas…

a) evitamos que Ele se esqueça

b) confirmamos nossa fé  

c) desprendemo-nos das coisas que nos cercam

7. Qual o segundo passo da oração?

a) ajoelhar-se

b) entrar em juízo com Deus

c) fechar os olhos

8. Que significa “Entrar em juízo juntamente”?

a) cobrar de Deus o que Ele nos deve

b) uma batalha, uma guerra

c) esperar a resposta de Deus

9. Que significa ainda “entrar em juízo juntamente”?

a) significa certeza de vitória

b) significa que Deus vai nos julgar

c) significa o julgamento da nossa fé

10. O que devemos fazer para desfrutar do melhor?

a) ser obedientes até a morte

b) jejuar e nunca desfalecer

c) fazer a oração da fé

11. Qual o terceiro passo da oração?

a) esperar pacientemente

b) esperar com confiança

c) apresentar razões

12. Qual o quarto passo da oração?

a) Receber a bênção

b) Ser justificados

c) Apresentar as necessidades

13. Por que precisamos lembrar a Deus?

a) Ele não é onisciente

b) Ele não se recorda de tudo

c) Porque fazemos um bem grande a nós mesmos

14. O que devemos fazer quando somos levados ou levamos alguém a juízo?

a) cuidar da nossa aparência pessoal

b) evitar modos esquisitos e comprometedores

c) nos preparar para a batalha

15. Num julgamento, quem quase sempre sai ganhando?

a) quem não tem a consciência pesada

b) quem consegue provar a sua inocência

c) quem suborna a autoridade

16. Alguma vez o Senhor perdeu uma batalha?

a) não

b) sim

c) só uma vez

RESPOSTAS:

1) A  2) A   3) B  4) C  5) A  6) C  7) B  8) B  9) A  10) C  11) C  12) B  13) C  14) C  15) B  16) A

Referências Bíblicas

isaías 43.26

“Faz-me lembrar, entremos juntos com juízo; enumera tuas razões, para que te possas justificar”.

Mateus 6.8b

“… pois vosso Pai sabe das coisas que necessitais antes de lho pedirdes.”

Romanos 5.1

“Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo.”

Lição  6 – A DERROTA DE SATANÁS

 

v     Sua origem

v     Como o diabo entrou em nosso mundo

v     A derrota de satanás

v     O que fazer quando o diabo nos ataca?

v     Uma advertência bíblica

v     O que fazer com a nossa redenção?

Um dos assuntos mais sérios é a realidade espiritual. Existe um mundo diferente do material – o mundo espiritual. Nele há duas forças – o bem e o mal.

Nesta lição, vamos aprender a origem do ser que é o responsável por todos os sofrimentos e calamidades que existem no nosso mundo. É ele que faz com que milhares de pessoas vivam como se fossem bestas-feras, roubando do próximo, mentindo, traindo, estuprando crianças e indefesos.

Veremos o que foi que deu entrada no nosso planeta a este ser tão vil e desprezível, que, desde que aqui chegou, tem espalhado o ódio entre as pessoas e feito todo o tipo de pesadelo tornar-se realidade.

Mas, veremos também que ele hoje é derrotado, e não pode mais nos oprimir. Foi o Senhor Jesus quem o derrotou, e Ele fez isso por nós. Somos de tal maneira privilegiados que a vitória de Cristo foi lançada à nossa conta, como se nós a tivéssemos realizado.

O que fazer quando o diabo nos ataca? É um dos tópicos desta lição. É preciso que se saiba que nenhuma ação do diabo deve ser tolerada. A nossa redenção é um fato verdadeiro e glorioso.

Estudaremos uma advertência bíblica sobre procedimentos que devemos adotar para não dar chance ao maligno de nos atacar, e como viver a nossa redenção.

Aprenda a sua real posição diante de todas as coisas. Passe a ser um vencedor. Assuma os seus direitos em Cristo e viva a vida abundante que foi trazida pelo Senhor Jesus.

Em Cristo,

R. R. Soares

Apesar de muita gente considerar como inexistente o diabo, nós sabemos que ele é real e atuante. Basta olhar as páginas dos jornais para ver as suas obras, bem como visitar os hospitais e casas de recuperação, para se conhecer a sua capacidade destruidora. Se ele não existe, quem é o causador de todos estes males que vemos portadas as partes? Se ele não é real, a Bíblia e o próprio Senhor Jesus nos enganaram quando afirmaram categoricamente a sua existência.

Considerá-lo como lenda ou figura de retórica é fazer-lhe um grande bem; pois, deste modo, ele ficará livre para continuar nas suas funestas ações.

SUA ORIGEM

Satanás era originalmente um anjo de Deus. Seu nome: Lúcifer (o que leva a luz). Era um anjo glorioso; porém, permitiu que o orgulho surgisse em seu coração, aspirou ser “como o Altíssimo” e caiu na “condenação do diabo”.

Vejamos duas passagens bíblicas que falam deste ser:

Como caíste do céu, ó estrela da manha, filha da alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas as nações! E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus, exaltarei o meu trono, e, no monte da congregação, me assentarei, da banda dos lados do Norte.

Subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo. E, contudo, levado serás ao inferno, ao mais profundo do abismo (Is 14.12-15).

Filho do homem, levanta uma lamentação sobre o rei de Tiro, e dize-lhe: Assim diz o Senhor Jeová:

Tu és o aferidor da medida, cheio de sabedoria e perfeito em formosura. Estavas no Éden, jardim de Deus; toda pedra preciosa era a tua cobertura, a sardônia, o topázio, o diamante, a turquesa, o ônix, o jaspe, a safira, o carbúnculo, a esmeralda e o ouro: a obra dos teus tambores e dos teus pífaros estava em ti; no dia em que foste criado foram preparados. Tu eras querubim ungido para proteger, e te estabeleci; no monte santo de Deus estavas, no meio das pedras afogueadas andavas. Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que se achou iniqüidade em ti. Na multiplicação do teu comércio, se encheu o teu interior de violência, e pecaste; pelo que te lançarei profanado, fora do monte de Deus, e te farei perecer, ó querubim protetor, entre pedras afogueadas. Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; por terra te lancei, diante dos reis te pus, para que olhem para ti. Pela multidão das tuas iniqüidades, pela injustiça do teu comércio, profanaste os teus santuários; eu, pois, fiz sair do meio de ti um fogo, que te consumiu a ti, e te tomei em cinza sobre a terra, aos olhos de todos os que te vêem. Todos os que te conhecem entre os povos estão espantados de ti; em grande espanto te tornaste e nunca mais serás para sempre (Ez 28.12-19).

COMO O DIABO ENTROU EM NOSSO MUNDO

Deus criou a terra e a entregou ao homem. Porém, advertiu o Senhor ao homem que não Lhe desobedecesse comendo o fruto de uma certa árvore, o que acarretaria a sua morte. Apesar de ter sido advertido pelo Senhor, ao ser tentado pelo diabo, ele comeu o fruto. Diz a Bíblia:

Pelo que, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram (Rm 5.12).

A morte a que o Senhor Deus Se refere neste versículo é a natureza de Satanás. Desde então, o diabo passou a ter livre trânsito aqui na terra, realizando as suas terríveis ações. O pecado cometido por Adão deu-lhe o “direito” de agir nesta terra.

A DERROTA DE SATANÁS

Esta situação durou até o nosso Deus ter-Se encarnado, e, vindo a este mundo, aniquilado com o poder do diabo. …Para isto o Filho de Deus se manifestou: para desfazer as obras do diabo (1 Jo 3.8). E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo (Cl 2.15).

Estas Escrituras nos informam que o Senhor Jesus destruiu todas as obras do diabo. O diabo está derrotado e vencido e não pode em hipótese alguma ter poder sobre a nossa vida. Na verdade o diabo só tem poder na vida do cristão se ele o permitir ou se o cristão não conhecer os seus direitos em Cristo.

…Escrevo-vos, porque vencestes o maligno… (1 Jo2.13).

Podemos confessar que triunfamos sobre o maligno, pois quando aceitamos o Senhor Jesus como nosso Salvador, tudo que o Senhor fez foi lançado à nossa conta. Nós somos vencedores sobre o diabo. É assim que Deus nos vê. O diabo foi eternamente vencido e derrotado quando o Amor deu a Sua vida por nós lá no Calvário. É bom se lembrar sempre disto e, toda vez que ele tentar levantar a cabeça para nos atacar, devemos repreendê-lo, dizendo: “Derrotado, fora! Na minha vida não, eu não lhe permito contradizer a Palavra de Deus.”

O QUE FAZER QUANDO O DIABO NOS ATACA?

Não devemos temer as ciladas do diabo. Em Isaías 54.17 está escrito:

Toda ferramenta forjada contra ti, não prosperará…

Devemos ficar acordados e sempre identificar que atrás de todo mal que nos ocorre está a mão do maligno. É bom prevenir porque ele nunca aparece e diz: “Eu sou o diabo e vim tentá-lo.” A verdade é bem ao contrário, ele tudo fará para que você não acredite que isto que está lhe ocorrendo é dele.

Muitos são tão enganados que chegam a ponto de exclamar: “Puxa, também tudo é do diabo. Que nada, a gente tem parte nisto também. Afinal de contas quem foi que mandou que eu comesse aquela comida. Coitadinho do diabo, agora tudo que acontece de mal foi ele que fez.” É triste, mas é verdade. Declarações como essas muitas vezes saem dos lábios de pessoas que são filhas de Deus.

UMA ADVERTÊNCIA BÍBLICA

A Bíblia nos adverte em 1 Pé 5.8, o seguinte: Sede sóbrios, vigiai, porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar.

É bom levar a sério esta advertência do Espírito Santo. Ele sabe que o diabo é astuto e tem conseguido tragar muitos. No entanto, não temos que temê-lo, nem nos acovardar quando ele vier com as suas tentações, porque Cristo nos libertou completamente do seu poder.

Também não precisamos ficar suplicando a Deus que faça algo contra o diabo. Tudo que Ele tinha que fazer, já foi feito. Agora Deus não tem mais nada a fazer com o diabo. Na mente de Deus o diabo já foi vencido e derrotado. Ele nos recomenda:

Estai, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou… (Gl 5.1).

Você não deve se sujeitar mais ao diabo. É seu dever se levantar e sair do cativeiro. Pois, através da obra de Jesus, você já venceu o diabo. Faça com que o diabo ouça isto dos seus lábios.

Reconheça a sua libertação e passe a confessá-la ousadamente.

O QUE FAZER COM A NOSSA REDENÇÃO?

Deus espera que a aceitemos e passemos a agir como redimidos. O diabo sabe que tem que obedecer a todos que descobrem esta verdade. A Bíblia diz: Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus (1 Co 6.20).

Devemos exigir que a doença saia do nosso corpo, deixando-o livre. Pois, como poderemos glorificar a Deus nele, se o mesmo está sendo consumido pela moléstia?

Também devemos exigir que todo o pecado saia do nosso espírito, senão nos será impossível glorificar a Deus em nossos corações.

Quando Deus declara um fato, para Ele é assunto encerrado.

Toda vez que o diabo vier lhe trazer qualquer mal, repreenda-o em Nome de Jesus e mande-o dar o fora.

A nossa redenção é real. Somos território liberto. A escravidão sobre a nossa vida terminou. O senhorio do diabo findou. Agora temos um novo Senhor que nos comprou para Deus e nos fez mais do que vencedores…. Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro e deu dons aos homens (Ef 4.8).

A NOSSA POSIÇÃO

Temos aprendido nas lições anteriores que somos nós que fazemos a diferença. A nossa atitude é que determina o que realmente somos. Dizer da boca pra fora que somos libertos das garras do maligno e não agir de acordo com a Palavra de Deus nada nos adiantará.

Mas, se tomarmos ao pé da letra as afirmações que o Senhor faz a nosso respeito e começarmos a usar os nossos direitos, podemos ficar certos de que o nosso Deus não nos deixará sozinhos nesta luta. Bem ao contrário, Ele mesmo a tomará como Sua e nos dará a vitória.

A nossa posição é de completa vitória. Porém, vamos advertir mais uma vez: De nada valerá para nós o que Deus declara ser nosso, se não aceitarmos e não agirmos de acordo com as recomendações bíblicas.

Mas em todas estes coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou (Rm 8.37).

QUESTIONÁRIO:

1) O que nos dá a certeza da existência do diabo?

    (a) o papa crê na sua existência

    (b) a Bíblia afirma que ele existe

    (c) as suas tentações

2) Antes de se tornar o diabo, quem ele era?

    (a) um anjo de Deus

    (b) imperador

    (c) Ele sempre foi o diabo

3) Que texto de Isaías fala sobre a queda do diabo?

    (a) Is 8.20

    (b) Is 53.4,5

    (c) Is 14.12-15

4) Qual é o texto de Ezequiel que fala sobre o diabo?

    (a) Ez 12.12-19

    (b) Ez 41.12-19

    (c) Ez 28.12-19

5) O que permitiu ao diabo entrar em nosso mundo?

    (a) a desobediência do homem

    (b) a astúcia do diabo

    (c) um descuido de Deus

6) Por que Adão e Eva caíram?

    (a) porque eles eram inocentes

    (b) aceitaram a sugestão do diabo

    (c) Deus estava longe deles

7) O pecado de Adão e Eva fez com que?

    (a) nos tornássemos escravos de Satanás

    (b) Deus nos perdoasse

    (c) ficássemos mais experientes

8) Jesus Cristo veio ao mundo para…

 (a) nos ajudar na luta contra diabo

 (b) lutar contra o diabo

 (c) destruir as obras do diabo

9) O diabo usa aparecer e falar do que veio fazer contra nós?

 (a) sim

 (b) não

 (c) às vezes

10) Por que podemos considerar que fomos nós que vencemos o diabo?

 (a) porque a vitória de Jesus foi lançada à nossa conta

 (b) porque vivemos em paz com Deus

 (c) porque nós mesmos o derrotamos

11) Qual a advertência do Senhor em 1 Pé 5.8:

    (a) devemos ser sóbrios e vigilantes

    (b) devemos orar duas horas por dia

    (c) o diabo está velho e não pode fazer mais nada

12) O que devemos fazer com a liberdade que Cristo conquistou para nós?

    (a) absolutamente nada

    (b) crer nela para a eternidade

    (c) permanecer firmes nela

13) Por que o diabo, mesmo sem poder, age na vida do cristão?

    (a) porque ele é teimoso

    (b) porque o cristão permite

    (c) porque o cristão não é batizado no Espírito Santo

14) Onde está escrito que nenhuma arma forjada contra nós prosperará?

    (a) ls 54.17

    (b) ls14.12-15a

    (c) Is 8.20

15) Qual a nossa verdadeira posição diante de Deus?

    (a) de vitória quando for a vontade de Deus

    (b) de completa vitória

    (c) de meros pecadores salvos pela graça

16) Por que fomos comprados por bom preço, o que devemos fazer?

    (a) aguardar a segunda vinda de Jesus

    (b) ser fiéis nos dízimos e nas ofertas

    (c) glorificar a Deus no nosso corpo e no nosso espírito

RESPOSTAS:

1) B  2) A   3) C  4) C  5) A  6) B  7) A  8) C  9) B  10) A  11) A  12) C  13) B  14) A  15) B  16) C

Referências Bíblicas

Isaías 14.12-15

“Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva! como foste lançado por terra tu que prostravas as nações!

E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono; e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do norte; subirei acima das alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo.

Contudo levado serás ao Seol, ao mais profundo do abismo.”

Ezequiel 28.12-19

“Filho do homem, levanta uma lamentação sobre o rei de Tiro, e dize-te: Assim diz o Senhor Deus: Tu eras o selo da perfeição, cheio de sabedoria e perfeito em formosura.

Estiveste no Éden, jardim de Deus; cobrias-te de toda pedra preciosa: a cornalina, o topázio, o ônix, a crisólita, o berilo, o jaspe, a safira, a granada, a esmeralda e o ouro. Em ti se faziam os teus tambores e os teus pífaros; no dia em que foste criado foram preparados.

Eu te coloquei com o querubim da guarda; estiveste sobre o monte santo de Deus; andaste no meio das pedras afogueadas.

Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que em ti se achou iniqüidade.

Pela abundância do teu comércio o teu coração se encheu de violência, e pecaste; pelo que te lancei, profanado, fora do monte de Deus, e o querubim da guarda te expulsou do meio das pedras afogueadas.

Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; por terra te lancei; diante dos reis te pus, para que te contemplem.

Pela multidão das tuas iniqüidades, na injustiça do teu comércio, profanaste os teus santuários; eu, pois, fiz sair do meio de ti um fogo, que te consumiu a ti, e te tornei em cinza sobre a terra, à vista de todos os que te contemplavam.

Todos os que te conhecem entre os povos estão espantados de ti; chegaste a um fim horrível, e não mais existirás, por todo o sempre.”

Romanos 5.12

“Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram.”

I João 3.8 a

“Quem comete pecado é do Diabo”

Colossenses 2.15

“E, tendo despojado os principados e potestades, os exibiu publicamente e deles triunfou na mesma cruz.”

I João 2.13 b

“Jovens, eu vos escrevo, porque vencestes o Maligno.”

Isaías 54.17 a

“Não prosperará nenhuma arma forjada contra ti.”

I Pedro 5.8

“Sede sóbrios, vigiai. O vosso adversário, o Diabo, anda em derredor, rugindo como leão, e procurando a quem possa tragar.”

Gálatas 5.1 a

“Para a liberdade Cristo nos libertou.”

I Coríntios 6.20

“Porque fostes comprados por preço; glorificai pois a Deus no vosso corpo.”

Efésios 4.8

“Por isso foi dito: Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro, e deu dons aos homens.”

Romanos 8.37

“Mas em todas estas coisas somos mais que vencedores, por aquele que nos amou.”

Lição  7 – RESISTIR AO DIABO

 

v     Restrições às atividades do diabo

v     Resistir – um mandamento

v     Resistir com o quê?

Apesar de Satanás ter sido derrotado pelo Senhor Jesus, e a sua derrota ter sido lançada à nossa conta, ele ainda tem condições de oprimir o ser humano, mesmo que este tenha nascido de novo.

É certo que quem aceita Jesus como Salvador recebe o poder de se tornar filho de Deus e passa a ter direitos e privilégios em Cristo. Mas, enquanto estivermos aqui neste mundo, ainda seremos suscetíveis às tentações do maligno.

Deve, porém, ficar bem claro que o diabo não pode a seu bel-prazer investir contra qualquer dos filhos de Deus e oprimi-los. Ele pode tentar, e se o cristão não lhe resistir, ele, então, terá condições de prosseguir sua obra.

É preciso que se diga que existem limitações às operações do inimigo. Há como uma escala a ser percorrida para que ele consuma a sua obra. A Bíblia nos adverte de que a maldição sem causa não se cumpre.

Resistir ao diabo é um mandamento. Compete a todo filho de Deus barrar-lhe a ação, exigir a sua saída e proibi-lo de lhe tentar. Foi assim que o Senhor Jesus fez com o diabo, lá no deserto.

No plano do Senhor não há imperfeições. Se Ele nos informa que compete a nós resistir ao diabo, podemos estar certos de que a arma de tal resistência nos foi dada. Ela é a Palavra de Deus.

Quando resistir? Toda vez que o inimigo vier nos atacar.

Oro para que você a partir de hoje não dê ao maligno a mínima chance de oprimi-lo. Seja, em Cristo, mais que vencedor.

Em Cristo,

R. R. Soares

O ministério pessoal do Senhor Jesus se dividia em três fases distintas: ensinamento, pregação e manifestação do poder de Deus.

Examinando os relatos bíblicos, vemos que a parte de ensinamentos era a mais usada pelo Senhor. Pode-se perguntar se não reside aqui a diferença entre o nosso ministério e o do Senhor? Ou o que explica os resultados que Ele obtinha? Não disse Ele que os que nEle cressem fariam as mesmas obras que Ele fazia e outras maiores ainda fariam?

Quando o Senhor Jesus começava a ensinar, o povo se maravilhava. Nas Suas reuniões todos os tipos de milagres e de transformações ocorriam, pelo simples fato de o Senhor abrir as Escrituras e mostrar a Verdade ao povo. Hoje, em qualquer lugar em que alguém consegue abrir os olhos do povo para o que a Bíblia fala, também ocorre uma avalanche de milagres. 

RESTRIÇÕES ÀS ATIVIDADES DO DIABO

Apesar de sabermos que o diabo está mais do que nunca realizando a sua obra de destruir a humanidade, temos que ter o cuidado para não exagerar creditando a ele uma capacidade maior do que, na verdade, possui. É preciso que se saiba que existem restrições às suas operações. Ele não pode sair por aí destruindo a quem quiser. A Bíblia diz que naquele que é nascido de novo ele não pode tocar:

Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca (1 Jo 5.18).

Antes do Senhor Jesus ter derrotado o diabo, o inimigo agia aqui no mundo como se fosse o dono do nosso planeta. Mas, com a morte de Cristo, o diabo perdeu o domínio sobre a raça humana, e foi expulso desta terra:

Agora é o juízo deste mundo: agora será expulso o príncipe deste mundo (Jo 12.31).

Até mesmo antes da vinda de Jesus, quando, ainda, o diabo agia como príncipe deste mundo, ele tinha que obter permissão para atacar o povo de Deus, como por exemplo:

I – O caso de Jó: E vindo um dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles… E disse o Senhor a Satanás: Eis que tudo quanto tem está na tua mão, somente contra ele não estendas a tua mão. E Satanás saiu da presença do Senhor (Jó 1.6,12).

II - Na tentação sofrida pelo Senhor no deserto. O próprio Espírito de Deus levou o Mestre àquele lugar para que fosse tentado pelo diabo: Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo (Mt 4.1).

Ill - Chegando a hora da Sua crucificação, o Senhor Jesus informou a Pedro que o diabo havia feito um pedido para o cirandar (passar pela ciranda, peneirar):

Disse também o Senhor: Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo. Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma teus irmãos (Lc 22.31-32).

Todos esses casos ocorreram antes de o diabo ter sido despojado do seu poder. Hoje, em hipótese alguma, ele terá condições de nos oprimir, a menos que o nosso Deus o permita. Quanto a tirar-nos das mãos de Jesus, jamais conseguirá:

E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai (Jo 10.28,29).

Não devemos temer, diante de qualquer tentação que o diabo venha a nos trazer, nem sequer ficar desesperados; mas resistir, firmes na fé, usando o Nome de Jesus:

Ao qual resisti firmes na fé, sabendo que as mesmas aflições se cumprem entre os vossos irmãos no mundo (1 Pé 5.9).

Quanto à razão de o Senhor nos fazer passar por várias tentações, podemos estar certos de que Ele o faz para o nosso próprio bem. E, ao invés de nos chatearmos com elas, devemos nos encorajar no Senhor, pois Ele é fiel e não permitirá que sejamos tentados além das nossas forças:

Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que vos não deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar (1 Co 10.13).

RESISTIR – UM MANDAMENTO

Não importa como e onde o inimigo esteja nos tentando, a Palavra de Deus nos manda resistir:

A ordem dada em Tiago 4.7 é clara: …Resisti ao diabo, e ele fugirá de vós. Por esta ordem vemos que somos os responsáveis pelo sucesso ou pela derrota de nossa vida. Se resistirmos ele não somente irá embora, ele fugirá.

É oportuno lembrar que temos que resistir a todo e qualquer ataque do inimigo. Não basta resistir só aos grandes ataques, pois muitas vezes o problema começa bem pequeno e, se não for destruíste, causa um grande estrago.

…As raposinhas que fazem mal às vinhas (Ct 2.15).

Outro fato que não devemos nunca esquecer é que o diabo não deixa de nos tentar por sermos de Jesus. Apesar de saber que somos território divino, ele continua lutando para roubar, matar e destruir as nossas vidas. Enquanto não assumirmos a nossa posição de vencedores em Cristo, ele continuará tentando nos destruir.

Resistir ao diabo é simples. Basta que a todo ataque, quer seja sintoma de doença, pensamento negativo, desejo de cometer algum pecado — tudo isto são tentações —, você destemidamente não aceite, e repreenda o mal, exigindo que ele cesse de lhe perturbar e saia de sua vida.

RESISTIR COM O QUÊ?

Não há melhor exemplo de como se deve resistir ao diabo do que aquele dado pelo Senhor, lá no deserto, quando o diabo O tentou; o relato completo se encontra em Mateus cap. 4.1-11.

l – O diabo se aproximou de Jesus e disse-lhe: Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães.

O Senhor respondeu, dizendo: Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.

II-  O diabo levou Jesus até a cidade santa, colocou-o no pináculo do templo, e disse-lhe: Se tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo; porque está escrito: Aos seus anjos dará ordens a teu respeito, e tomar-te-ão nas mãos, para que nunca tropeces em alguma pedra.

O Senhor volta a responder, dizendo: Também está escrito: Não tentarás o Senhor, teu Deus.

Ill - Levou-o ainda o diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles, e disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares.

Então Jesus lhe ordenou: Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a ele servirás.

Nestas três tentativas do diabo o Senhor usou simplesmente a Palavra de Deus. Ela é a nossa única arma. Para enfrentar o diabo e as suas tentações não temos de usar nada mais, só a Palavra de Deus. Logicamente que o Senhor sabia orar, falar em línguas e tinha um conhecimento de todas as coisas mais do que qualquer mortal. No entanto, só usou a Arma infalível. Você não vai querer usar outra, não é verdade?

Não creia em nada que o diabo esteja lhe mostrando. Ele é um derrotado. A carreira dele está se aproximando do fim. No princípio ele foi expulso do céu, durante a grande tribulação será lançado da esfera celestial à terra, durante o milênio será aprisionado no abismo, e, depois de mil anos, será lançado ao lago de fogo.

Quanto a nós, qual será o nosso futuro? Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo (Mt 25.34).

QUESTIONÁRIO:

1. O que acontece com o quem é nascido de Deus?

(a) vive pecando

(b)tem sorte

(a) não peca

2. Quem conserva-se a si mesmo?

(a) os sábios

(b) o que de Deus é gerado

(a) os religiosos

3. O que acontece com quem é de Deus e conserva a si mesmo?

(a) fala em línguas

(b) profetiza

(c) o maligno não lhe toca

4. Após afirmar que agora era o juízo do mundo, o que mais afirmou o Senhor Jesus?

(a) que haveria o milênio

(b) que o príncipe do mundo seria expulso

(c) que deveríamos rezar o Pai-nosso

5. Quem se apresentou perante o Senhor, junto com os filhos de Deus?

(a) Satanás

(b) Adão e Eva

(c) Moisés

6. Onde se deu a tentação de Jesus descrita em Mt 4.1-11?

(a) no deserto

(b) casa de Caifás  

(c) na escola de Gamaliel

7. Quem levou Jesus ao deserto para ser tentado?

(a) o acaso

(b) o Espírito de Deus

(c) Maria

8. Para que o Espírito de Deus levou Jesus ao deserto?

(a) para jejuar

(b) para orar

(c) para ser tentado pelo diabo

9. O que Satanás pediu para fazer com Pedro?

(a) colocá-lo no pináculo do templo

(b) colocar uma dor de cabeça nele

(c) cirandá-lo como trigo

10. O que fez Jesus por Pedro quando o diabo pediu para cirandá-lo?

(a) rogou por ele

(b) não fez nada

(c) lamentou e chorou

11. Por que o Senhor Jesus rogou pelo apóstolo Pedro?

(a) porque o amava

(b) para que a sua fé não desfalecesse 

(c) para ele emagrecer

12. O que deveria fazer Pedro quando se convertesse?

(a) confirmar os seus irmãos

(b) orar sem chapéu

(c) não usar roupas extravagantes

13. Quando as ovelhas de Jesus perecerão?

(a) após o milênio

(b) nunca

(c) na morte

14. Quem arrebatará das mãos de Jesus as suas ovelhas?

(a) ninguém

(b) Satanás

(c) qualquer um

15. Qual o tipo de tentação que vem sobre nós?

(a) espiritual

(b) infernal

(c) humana 

16. O que acontece quando resistimos ao diabo?

(a) Ele chora

(b) Ele foge

(c) Ele nem liga

17. Quem faz mal às vinhas?

(a) as raposinhas

(b) o adubo

(c) o tempo

18. Que a arma Jesus usou para resistir ao diabo?

(a) a espada de Pedro

(a) a Palavra de Deus

(c) uma arma secreta

19. A quem o Rei Jesus dará as boas vindas?

(a) aos judeus

(b) às criaturas

(c) aos que estiverem à Sua direita

20. Desde quando está preparado o Reino de Deus?

(a) desde a fundação do mundo

(b) desde a morte de Jesus

(c) desde o dilúvio

RESPOSTAS:

1) C 2) B 3) C  4) B  5) A  6) A  7) B  8) C  9) C  10) A  11) B  12) A  13) B  14) A  15) C  16) B 17) A 18) B 19) C 20) A

Referências Bíblicas

Provérbios 26.2

“Como o pássaro em seu vagar, como a andorinha em seu vôo, assim a desgraça sem motivo não acontecerá.”

I João 5.18

“Sabemos que todo o que é nascido de Deus não vive em pecado; antes, Jesus, que nasceu de Deus o protege, e o Maligno não o atinge.”

João 12.31

“Chegou o momento de ser julgado este mundo, e agora o seu príncipe será expulso.”

Jó 1.6-12

“Certo dia os filhos de Deus vieram se apresentar perante o Senhor, e veio também Satanás, entre eles.

E disse o Senhor a Satanás: De onde vens? E Satanás respondeu ao Senhor; De passear pela terra e perambular por ela.

E disse o Senhor a Satanás: Observaste o meu servo Jó? Porque não há ninguém na terra como ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e se desvia do mal.

Respondeu Satanás ao Senhor: Teme Jó a Deus à toa?

Eis que o tens protegido, a ele, sua casa, e a tudo que possui em redor; a obra de sua mão abençoaste, e seu rebanho multiplicou-se na terra.

Mas entende tua mão, e toca-lhe em tudo o que tem, e verás se não blasfema contra ti em tua face!

Disse o Senhor a Satanás: Eis que entrego em tua mão tudo o que ele possui, mas somente contra ele não estendas a mão. E Satanás saiu da presença do Senhor.”

Mateus 4.1

“Então Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo diabo.”

Lucas 22.31

“Simão, Simão, Satanás vos reclamou para vos peneirar como trigo!”

João 10.28,29

“Eu lhes dou a vida eterna, jamais perecerão, e ninguém as arrancará da minha mão.

Meu Pai, que me deu tudo, é maior do que todos, e da mão do Pai ninguém pode arrancar.”

I Pedro 5.9

“Resisti-lhe firmes na fé, sabendo que sofrimentos iguais aos vossos acontecem entre vossos irmãos espalhados pelo mundo.”

I Coríntios 10.13

“Não vos sobreveio tentação senão humana, mas fiel é Deus, que não  permitirá que sejais tentados acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que possais agüentar.”

Tiago 4.7b

“…resisti ao diabo, e ele fugirá de vós.”

Cantares 2.15

“Caçai para nós as raposas e as raposinhas, que destroem as vinhas; nossas vinhas já estão em flor.”

Mateus 4.1-11

“Então Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo diabo.

E tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome.

E o tentador aproximou-se dele e lhe disse: Se és filho de Deus ordena a estas pedras que se transformem em pães.

Respondeu Jesus: Está escrito: Nem só de pão o homem viverá, mas de toda a Palavra que procede da boca de Deus.

Então o diabo o levou até a cidade santa e o colocou sobre a parte mais alta do templo

E Lhe disse: Se és Filho de Deus, atira-te abaixo; pois está escrito: Aos seus anjos dará ordens a teu respeito e eles te protegerão em suas mãos, para que não tropeces em nenhuma pedra.

Jesus lhe respondeu: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus.

Novamente o diabo o levou, para um monte muito alto, e lhe mostrou todos os reinos do mundo e a glória deles.

E lhe disse: Tudo isto te darei se prostrado me adorares,

Então Jesus lhe ordenou: Retira-te, Satanás! Porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele servirás.

Então o diabo o deixou, e vieram anjos e o serviram.

Mateus 25.34

“Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo”;

Lição  8 – MAIS QUE VENCEDORES

 

v     Ameaças e Perseguições

v     Doenças e enfermidades

v     Tentações e demônios

v     Mais que vencedores

v     Ser mais que vencedor é glorificar a Deus

v     A nossa posição

Está por ser entendida, pelo povo de Deus, a declaração do Senhor Jesus em que Ele fala do propósito de Sua vinda. Ele disse:… Eu vim para que tenham vida e vida com abundância (Jó 10.10).

Aqueles que conseguem um pouco de luz sobre as suas posições em Cristo, e ousam reivindicá-las, descobrem que em todas as coisas são mais que vencedores.

É claro que todos que querem viver piamente em Cristo sofrerão perseguições. Sempre haverá ameaças e perseguições, mas elas, de modo algum, poderão abalar aqueles que estão sobre a Rocha e que fazem de Cristo a razão de seu viver.

Em relação às doenças, enfermidades e a todos os sofrimentos físicos, mentais ou espirituais, o cristão pode gritar a sua independência e declarar-se mais que vencedor. Jesus é o nosso substituto completo e total. Ele já sofreu para que fôssemos libertos.

As tentações — obras dos demônios — atuam em todos os setores da vida. Porém, diante de todas elas podemos e devemos afirmar que somos mais que vencedores.

Vencer o diabo e todas as suas investidas é o ato que mais louvor traz a Deus. De pouco vale a pessoa ficar repetindo palavras conhecidas como de louvor e adoração, se permite ao maligno que a escravize e destrua.

Não se submeta mais ao inimigo. Diga a ele que em Cristo você é mais que vencedor, que você tudo pode nAquele que o fortalece. Passe a viver de acordo com esta decisão.

Nós temos a obrigação de sermos mais que vencedores. O preço pago por Cristo foi alto e supriu o pagamento completo e total da nossa redenção. Nada mais há para se pagar.

Oro para que a partir desta lição você seja mais um que declarará: Em todas estas coisas sou mais que vencedor.

Em Cristo,

R. R. Soares

Após termos aceitado o Senhor Jesus como nosso Salvador e Senhor, devemos tê-Lo, também, como nosso padrão. O Senhor Jesus é o exemplo que temos que seguir. Ele era vencedor em todos os sentidos. Nunca jamais perdeu uma só causa. Em todas as batalhas, Ele simplesmente mostrava que era Senhor. Tudo que realizava aqui na terra era por nós. Ele veio nos dar o exemplo. Era como se Ele dissesse: Vejam bem, é assim que vocês têm de proceder e agir. Façam o que Eu faço e terão o sucesso que tenho

Vejamos agora como o Senhor Se comportou diante dos mais diversos ataques malignos.

AMEAÇAS E PERSEGUIÇÕES

Depois de ter mandado matar a João Batista, Herodes decide estender as mãos sobre Jesus. Alguns fariseus vêm trazer ao Mestre a notícia das intenções deste caudilho:

Naquele mesmo dia chegaram uns fariseus, dizendo-lhe: Sai e retira-te daqui, porque Herodes quer matar-te. E lhes respondeu: Ide e dizei àquela raposa: eis que eu expulso demônios, e efetuo curas, hoje e amanhã, e no terceiro dia sou consumado (Lc 13.31,32).

Esta é a atitude que Ele espera que todos aqueles que são dEle tenham diante de quaisquer ameaças. Em relação às perseguições que nos sucedem, Ele ensinou:

Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus: porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós (Mt 5.11,12).

DOENÇAS E ENFERMIDADES

Diante de todos os tipos de doenças e enfermidades, o Senhor Jesus se colocava como o Mestre. Sabia Ele que o Pai lhe havia confiado poder e autoridade sobre todas as obras do diabo, e, uma a uma o Senhor ia desfazendo:

E, ao pôr-do-sol, todos os que tinham enfermos de várias doenças lhos traziam; e, impondo as mãos sobre cada um deles, os curava (Lc 4.40).

Para que fôssemos vencedores sobre as doenças e enfermidades, Ele as sofreu em Seu próprio corpo, levando todas elas, para que jamais tivéssemos que sofrê-las.

Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniqüidades: o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras, fomos sarados (Is 53.4,5).

TENTAÇÕES E DEMÔNIOS

Ninguém será tentado pelo diabo, na mesma extensão, como foi o Senhor Jesus. Para tentar o Filho de Deus, o diabo usou de todos os meios e, certamente não teve êxito. Por que o diabo não conseguiu derrotar o nosso Salvador? Porque Ele se firmava na Palavra de Deus e com Ela resistia ao inimigo.

O Senhor deixou o inimigo tentá-Lo e o venceu para nos dar exemplo de que nós também podemos triunfar sobre toda a força do inferno e, principalmente, para nos socorrer em todas as tentações: Porque naquilo que ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são tentados (Hb 2.18).

Além das tentações que Jesus sofreu após jejuar quarenta dias e quarenta noites, no deserto, o Senhor sofreu outras tentações tão fortes e profundas como estas que o diabo lhe infligiu após o jejum; e Ele venceu todas elas.

A Bíblia diz que Ele foi tentado em tudo: Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado (Hb 4.15).

Em Lucas 4.33-35, temos um relato de um enfrentamento direto do inferno contra o Senhor, e, mais uma vez Ele provou ser o vitorioso:

E estava na sinagoga um homem que tinha um espírito de um demônio imundo, e este exclamou em alta voz, dizendo: Ah! Que temos nós contigo, Jesus Nazareno? Vieste a destruir-nos? Bem sei quem és: o Santo de Deus. E Jesus o repreendeu, dizendo: Cala-te, e sai dele. E o demônio, lançando-o por terra no meio do povo, saiu dele, sem lhe fazer mal.

A Bíblia diz que era um homem que tinha um espírito de um demônio imundo, o qual exclamou em alta voz: que temos nós contigo, Jesus nazareno. Ele falou no plural, apesar de ser um homem com um espírito de um demônio imundo. Ele certamente representava todo o inferno. Era o porta-voz das legiões malignas. E, logo tentou confundir Jesus, afirmando que este era o seu lugar de agir; e, que, portanto, estava fazendo o que era um direito seu. Jesus não lhe deu resposta. A seguir, mais uma vez ele tentou confundir o Senhor Jesus, dizendo que ainda não havia chegado o tempo de sua destruição. Novamente o Senhor não entra em diálogo com ele. Então, ele dá a sua última cartada, tentando fazer Jesus tropeçar ao Lhe revelar que sabia ser Ele o Santo de Deus. Pois, como Deus, o Senhor não podia agir livremente aqui na terra. Tentava o diabo fazer Jesus recordar que no princípio Deus dera esta terra para Adão e este a entregou a ele, o diabo, lá no Éden, quando pecou.

O diabo queria tentar a Cristo para que o Senhor aceitasse que não havia ocorrido a encarnação. Pois, sem ter-Se encarnado, Jesus não poderia operar livremente aqui no nosso mundo. Aí então, o Senhor nos ensina o que fazer com o inimigo, dizendo aquele demônio porta-voz do inferno, que se calasse e saísse do homem; o que ele fez, saindo dele sem lhe fazer mal, depois de o ter lançado por terra.

MAIS QUE VENCEDORES

A palavra de Deus nos garante que em todas as coisas somos mais que vencedores.

Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou (Rm 8.37). Porém, para que isto ocorra é importante que o cristão saiba qual é a sua posição diante de Deus, do diabo e diante de todas as coisas, bem como quais são os seus direitos e privilégios.

Após o Senhor Deus ter criado os céus e a terra, e do pó da terra ter feito o homem, o Senhor o abençoou, dizendo:

… Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra (Gn 1.28).

Vemos por esta afirmação da Palavra que o homem era, originalmente, mais que vencedor sobres todas as circunstâncias. Foi assim que Deus o fez. Porém, ele errou, traindo ao Senhor, pecando e por conseqüência foi lançado fora da presença de Deus.

Agora Satanás tinha o “direito” de estar aqui e ser o “deus” deste mundo. Assim o diabo ficou “reinando” no mundo até que o último “Adão” aparecesse e o destronasse. Graças a Deus que isto já ocorreu:

Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo… o primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão, em espírito vivificante (1 Co 15.22,45).

Então, desde que a Palavra de Deus declara tudo já foi feito, não temos mais que nos submeter ao diabo, nem aceitar os seus sofrimentos. Além disto, somos considerados pelo Pai como idôneos para participar de Suas bênçãos.

Dando graças ao Pai que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz. Ele nos tirou da potestade das trevas e nos transportou para o Reino do Filho de seu amor (Cl 1.12,13).

O Senhor Deus espera que aceitemos esta nossa posição e que passemos a agir como mais que vencedores. O diabo sabe que esta é a nossa real posição. Ele sabe também que ele tem que obedecer a todos que descobrem esta verdade.

SER MAIS QUE VENCEDOR É GLORIFICAR A DEUS

A Bíblia diz: Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus (1 Co 6.20).

Devemos exigir que a doença saia do nosso corpo, deixando-o livre. Pois como poderemos ser considerados como mais que vencedores no corpo, se o mesmo está sendo consumido pela moléstia que a Bíblia garante não ser nossa — a nossa Jesus já levou. Também devemos exigir que todo o pecado saia do nosso espírito, se não nos será impossível ter esta classificação de mais que vencedores.

A nossa redenção é real. Somos território liberto. A escravidão sobre nossa vida terminou. O poder do diabo findou. Agora temos um novo Senhor que nos comprou para Deus e nos fez mais que vencedores.

A NOSSA POSIÇÃO

Temos aprendido nas lições anteriores que somos nós que fazemos a diferença. A nossa atitude é que determina o que realmente somos. Dizer da boca pra fora que em todas estas coisas somos mais que vencedores e não agir de acordo com a Palavra de Deus, nada adianta. Ao contrário, seremos chamados de mentirosos.

Tome agora mesmo a palavra do Senhor ao pé da letra e declare-se mais que vencedor em todas as coisas. Use os seus direitos. Você já foi considerado pelo Pai como idôneo. Tudo depende de você. Não deixe mais o diabo lhe enganar. Agora é a sua hora. Seja para a glória de Deus, mais que vencedor. Assuma sua posição no mundo espiritual.

QUESTIONÁRIO:

1. Após termos aceitado a Jesus como Salvador, o que devemos fazer?

(a) tê-Lo como nosso ídolo

(b) tê-Lo como nosso padrão

(c) Não fazer nada

2. Como o Senhor Jesus Se mostrava em todas as batalhas?

(a) como Guerreiro

(b) normal

(c) como Senhor

3. Após matar João Batista sobre quem Herodes intencionou estender as mãos?

(a) Moisés

(b) Tobias

(c) Jesus

4. Qual o conselho que os fariseus deram a Jesus quando Lhe informaram que Herodes pretendia matá-Lo?

(a) que fugisse

(b) que orasse muito

(c) que Se entregasse

5. Com qual animal Jesus comparou Herodes?

(a) urso

(b) raposa

(c) leão

6. Como devemos nos sentir diante das perseguições?

(a) como infelizes

(b) como injustiçados  

(c) como bem-aventurados

7. O que Jesus nos ensinou a fazer diante das perseguições?

(a) orar e jejuar

(b) subornar os perseguidores

(c) exultar e alegrar-se

8. O que Jesus fazia com os enfermos que Lhe eram trazidos?

(a) os curava

(b) dava a extrema unção

(c) receitava medicamentos

9. Onde Jesus sofreu as nossas doenças?

(a) em Seu próprio corpo

(b) na casa de Marta e Maria

(c) em Cafarnaum

10. Por que o diabo não teve êxito ao tentar Jesus?

(a) porque Jesus era Deus

(b) porque era incapaz

(c) porque Jesus se firmava na Palavra de Deus

11. Por que Jesus pode socorrer os que são tentados?

(a) porque Ele é Deus

(b) porque Ele foi tentado também

(c) porque Ele é forte

12. Em que Jesus foi tentado

(a) em tudo

(b) em quase tudo

(c) em algumas coisas

13. O que Jesus disse ao demônio porta-voz do Inferno que o enfrentava na sinagoga?

(a) não lhe devo satisfações

(b) a minha hora ainda não chegou

(c) cala-te e sai dele

14. Em que a Palavra de Deus garante que somos mais do que vencedores?

(a) em todas as coisas

(b) nas coisas espirituais

(c) nas tentações da carne

15. Jesus Cristo, o segundo Adão, o que veio fazer por nós?

(a) Veio ensinar o caminho da luz

(b) Veio ser uma luz nas trevas

(c) Nos comprar de volta para Deus

16. Como seremos taxados se não nos tornamos de fato mais do que vencedores?

(a) mentirosos e falsários

(b) ignorantes

(c) pobres sofredores

RESPOSTAS:

1) B 2) C 3) C 4) A 5) B 6) C 7) C 8) A 9) A 10) C 11) B 12) A 13) C 14) A 15) C 16) A

Referências Bíblicas

 

João 10.10b

“…eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.”

Romanos 8.37

“Mas em todas as coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou.”

Lucas 13.31,32

“Naquela mesma hora alguns fariseus vieram e lhe disseram: Sai e retira-te daqui, porque Herodes quer te matar.

Mas ele lhes respondeu: Ide dizer àquela raposa que, hoje e amanhã expulso demônios e curo doentes, e no terceiro dia, sou consumado.

Mateus 5.11,12

“Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem, e perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós por minha causa.

Alegrai-vos e regozijai-vos, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós.”

Lucas 4.40

“Ao pôr-do-sol, todos os que tinham enfermos de vários tipos de doença os traziam a Jesus; e ele, impondo as mãos sobre cada um, os curava.”

Isaías 53.4,5

“Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; com tudo nós o consideramos como aflito, ferido de Deus, e oprimido.

Mas ele foi ferido pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniqüidades, o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.”

Hebreus 2.18

“Pois, naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados”.

Hebreus 4.15

“Porque não temos um Sumo Sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, um que passou por todo tipo de tentação, mas sem pecado.”

Lucas 4.33-35

“Na sinagoga estava um homem possesso de um espírito de demônio imundo. Ele gritou em alta voz:

Ah! Que temos nós contigo, Jesus Nazareno? Vieste nos destruir? Bem sei quem és: o Santo de Deus!

Mas Jesus o repreendeu e disse: Cala-te e sai dele! O demônio, depois de o jogar no chão diante de todos, saiu dele sem lhe ferir.”

Filipenses 2.7

“Mas ele se esvaziou a si mesmo, tomando a forma de servo, tendo-se tornado semelhante aos homens.”

Gênesis 1.28

“Deus os abençoou e lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra.”

I Coríntios 15.22,45

“Pois como em Adão todos morrem, do mesmo modo em Cristo todos serão vivificados.

[...] Assim também está escrito: O primeiro homem, Adão, tornou-se alma vivente; o último Adão, espírito vivificante.”

Colossenses 1.12,13

“Dando graças ao Pai que vos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz, e que nos tirou do poder das trevas, e nos transportou para o reino do seu Filho amado;”

I Coríntios 6.20

“Porque fostes comprados por preço; glorificai pois a Deus no vosso corpo.”

Lição  9 – AS PALAVRAS

 

v     As nossas palavras

v     Observemos a maneira de Jesus falar

v     Comparando-nos com Jesus

v     A nossa confissão

Aqueles que descobrem a importância que as palavras exercem em suas vidas, tornam-se, inevitavelmente, vitoriosos em todos os setores do viver.

As palavras que pronunciamos produzirão o ambiente em que viveremos num futuro próximo. Elas, sem dúvida, nos governam. Somos hoje o que declaramos ser, consciente ou inconscientemente, num passado próximo ou remoto.

Se está no que pronunciamos a razão do nosso sucesso ou fracasso, podemos, então, emendar a nossa conversação para que nos dias vindouros venhamos a encontrar tempos fáceis e felizes.

Quem não se corrige, e não passa a falar positivamente, descobrirá que de nada adianta tentar qualquer outro recurso para melhorar a sua vida. A palavra mal colocada, e é mal colocada aquela que não se alinha com a Palavra de Deus, sempre anulará as mais sinceras intenções.

A pior época para se tomar uma decisão é quando se está passando por uma crise, como doenças, problemas financeiros ou conjugais, etc. Nessa fase, a pessoa deixa a emoção falar e, quase sempre, confessa o oposto à declaração bíblica.

Em qualquer situação devemos confessar o que o Senhor nos ensina. Se não temos uma Palavra inspirada, devemos cerrar os lábios e buscar na Escritura a orientação. Toda palavra sem a unção do Senhor é nula e poderá ainda criar uma situação adversa.

Jesus é o nosso exemplo e padrão. Ele jamais falava dissociado do Pai. Ao usar as Palavras Sagradas Ele Se unia ao Pai, fazendo-se um só com Ele. O mesmo acontecerá com você, se agir do mesmo modo.

A nossa confissão é que determina o que somos diante do Senhor, e de todas as coisas. Ela é quem nos faz fortes ou fracos, sadios ou doentes, vencedores ou derrotados.

Oro para que você seja um produtor de palavras que edificam.

Em Cristo,

R. R. Soares

As forças mais poderosas neste mundo não são as armas atômicas ou quaisquer outras armas. São as forças invisíveis e inaudíveis de Deus, as quais são espirituais.

O Senhor, que é Espírito, criou todas as coisas visíveis e invisíveis usando o Seu poder, por meio de Sua Palavra. Foi assim que Ele criou as montanhas, os minerais e os mais diversos tipos de seres viventes: E disse Deus…

Qualquer pessoa passará por uma verdadeira transformação quando descobrir que as palavras que falamos são mais podero­sas do que qualquer outra coisa que podemos conhecer. E que aquele que está unido a Cristo tem a seu dispor um verdadeiro exército, pronto para atuar, esperando somente as suas determinações.

AS NOSSAS PALAVRAS

Pouca coisa na nossa vida de fé tem tanta importância quanto as nossas palavras. As palavras que falamos são realmente a tradução mais fiel daquilo que cremos – elas são como um retrato perfeito do nosso espírito. Por isso, é muito importante aprender o valor que elas possuem e exercem em nosso viver.

O Senhor Jesus afirmou que nós teremos exatamente aquilo que, falando, crermos: Tende fé em Deus, porque em verdade vos digo que se qualquer que disser a este monte: Ergue-te e lança-te ao mar, e não duvidar em seu coração, mas crer que se fará aquilo que diz, tudo o que disser lhe será feito (Mc 11.22,23).

Prestemos atenção a esta última afirmação do Senhor Jesus: Tudo o que disser lhe será feito. Fica claro que as palavras podem nos edificar, ou nos destruir; nos curar, ou fazer com que fiquemos doentes, nos trazer o sucesso ou a derrota; pois, o que dissermos será o que nos será feito.

Quanto mais rápido e melhor aprendermos o papel que as palavras desempenham na nossa vida, e o que a Bíblia revela sobre elas, melhor viveremos; pois descobriremos que aquilo que tanto precisamos que nos seja concedido, aquela bênção tão necessá­ria, só depende das nossas palavras para que se materialize.

Também descobriremos que somos hoje, exatamente aquilo que, algum tempo atrás, consciente ou inconscientemente, havía­mos declarado que seríamos, e que seremos num futuro próximo tudo que agora estamos declarando.

A verdade é que podemos, a partir deste momento, ser o que quisermos. Somos nós que fazemos a diferença e que escrevemos o nosso futuro. Sem dúvida, são as nossas palavras que nos governam, que nos dão saúde, paz, prosperidade e felicidade. São também as nossas palavras que nos fazem derrotados, doentes ou miseráveis.

OBSERVEMOS A MANEIRA DE JESUS FALAR

O Senhor Jesus falava como se Ele e o Pai fossem Um. E realmente O eram: Eu e o Pai somos um (Jo 10.30). O que O fazia ser Um com o Pai? A Sua União com a Palavra. Por isso Ele não tinha falta de nada. Ele sabia que, por falar o que o Pai Lhe havia prescrito, podia ordenar aos demônios que soltassem as suas vítimas, e eles se submeteriam a Ele e sairiam delas sem lhes fazer mal algum. Sabia que podia falar às forças da natureza como Deus (Ele veio como homem), e todas estas leis Lhe obedeciam. Toda a natureza O reconhecia como Senhor; pois a Palavra de Deus em Seus lábios Lhe dava tal prerrogativa. O mar e o vento Lhe obedeciam; Ele caminhava sobre as ondas, transformava água em vinho e multiplicava pães e peixes, além de curar pessoas com todos os tipos de doenças e enfermidades.

Observando a maneira de Jesus agir e de realizar a obra de Deus, podemos ver a importância que Ele dava às palavras. É como se Ele, que veio nos dar o exemplo de como ser mais que vencedor em todas as coisas, dissesse que só conseguiremos aquilo que falarmos – determinarmos, tomarmos posse. E foi exatamente isto que Ele queria dizer. Qual era o Seu segredo? Ele assumia o que o Pai declarara a Seu respeito e confessava abertamente. Talvez tenhamos falhado em não fazer o mesmo.

COMPARANDO-NOS COM JESUS

Vamos observar como Jesus se colocava diante de Deus e o que o próprio Senhor declara a nosso respeito:

1. Jesus: Eu e o Pai somos um (Jo 10.30).

 A Palavra declara: Mas o que se ajunta com o Senhor é um mesmo espírito (l Co 6.17).

2. Jesus: …Não vim de m/m mesmo, mas ele me enviou (Jo 8.42).

A Palavra declara: Não me escolhestes vós a m/m, mas eu vos escolhia vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai ele vos conceda (Jo 15.16).

3. Jesus: O Espírito do Senhor é sobre m/m, pois que me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me a curar os quebrantados do coração, a apregoar liberdade aos cativos, e dar vista aos cegos; a pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar o ano aceitável do Senhor(Lc4.18,19).

A Palavra declara: Eis que vos dou poder para pisar serpentes, e escorpiões, e toda a força do Inimigo, e nada vos fará dano algum (Lc10.19).

4. Quando Jesus usava o poder de Deus, para realizar milagres, e se declarava filho de Deus, os invejosos judeus ficavam revoltados e diziam ao Mestre que Ele, sendo homem, Se fazia igual a Deus. Eles não entendiam que, quando alguém é usado na Palavra, ele age como se fosse o próprio Deus. Por isso, pois, os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque não só quebrantava o sábado, mas também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus (Jo 5.18). Po/s, se a lei chamou deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida (e a Escritura não pode ser anulada) (Jo 10.35).

5. Diante da perseguição, Jesus declara que se quisesse poderia pedir ao Pai legiões de anjos que viriam em Seu socorro: Ou pensas tu que eu não poderia, agora, orar a meu Pai e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos? (Mt 26.53).

A nosso respeito o Senhor diz: E tudo quanto pedirdes em meu nome, eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho (Jo 14.13).

A NOSSA CONFISSÃO

Agora está claro que não é propriamente Deus quem cura nos dias de hoje. Isto, às vezes, chega a perturbar algumas pessoas que ouviram a vida toda que deveriam orar, jejuar e pedir a Deus que as curassem. Porém, estamos aprendendo que somos nós que temos que fazer a nossa parte. Este é o caminho mais rápido e seguro para um fluir 100% do poder divino na nossa vida. Sem dúvida, aqui está a resposta que estava faltando para que desfrutássemos saúde, paz, prosperidade ou quaisquer outras bênçãos.

A palavra de autoridade que pronunciamos coloca o poder de Deus em ação.

QUESTIONÁRIO:

1. Quais são as forças mais poderosas deste mundo?

(a) as armas atômicas

(b) as forças espirituais

(c) o poder da mente

2. O que tem em seu dispor a pessoa que se une a Cristo?

(a) um verdadeiro exército

(b) tarefas a cumprir

(c) castigos sem fim

3. Por meio de que o Senhor criou todas as coisas?

(a) pelo acaso

(b) pela ciência

(c) pela sua Palavra

4. O que Jesus afirmou que teremos?

(a) o que, falamos, crermos

(b) o que desejarmos

(c) o que sonhamos

5. Que poder têm as nossas palavras?

(a) de nos fazer cultos

(b) de nos edificar, ou destruir

(c) nenhum poder

6. Do que depende a bênção para ser manifestada em nossa vida?

(a) de muita oração

(b) das nossas palavras

(c) da vontade de Deus

7. O que somos hoje?

(a) aquilo que no passado declaramos

(b) o que Deus quis que fôssemos

(c) não há nenhuma explicação plausível

8. Por que Jesus não tinha falta de nada?

(a) porque era Deus

(b) por causa da Sua união com o Pai

(c) porque era um privilegiado

9. Qual era o segredo de Jesus?

(a) a virgem Maria intercedia por Ele

(b) os anjos eram seus amigos

(c) Ele assumia o que o Pai declarava a seu respeito

10. O que acontece com quem se une ao Senhor?

(a) torna-se um com Deus

(b) fica famoso

(c) é superior aos demais

11. Quem nos escolheu para sermos de Deus?

(a) o pastor da igreja

(b) pura sorte

(c) o Senhor Jesus?

12. Que mal pode nos suceder se usarmos o poder de Deus?

(a) depende das circunstâncias

(b) nada nos fará dano algum

(c) só saberemos depois do ocorrido

13. O que acontece quando alguém é usado na Palavra de Deus?

(a) age como se fosse Deus

(b) é elevado à posição de santo

(c) deve ser cultuado como divino

14. O que são as palavras que falamos?

(a) nada

(b) veículo de comunicação

(c) a tradução fiel do que cremos

15.Do que depende para se materializar aquela bênção tão desejada?

(a) da nossa vontade

(b) das nossas palavras

(c) da Palavra de Deus

16.Qual era a relação de Jesus com o Pai?

(a) eles eram um

(b) era privilegiado

(c) o Pai O estava testando

17. O que Jesus precisaria fazer para os anjos virem ao seu socorro?

(a) Eles eram um

(b) era privilegiado

(c) o Pai O estava testando

18. Quem fará o que pedimos?

(a) o Senhor Jesus

(b) os anjos

(c) os profetas do passado

19. O que faz o poder de Deus entrar em ação?

(a) a realização de caridade

(b) o Senhor Deus

(c) a Palavra de autoridade que falamos

20. Quem tem que fazer a nossa parte?

(a) nós

(b) o pastor

(c) o Senhor Deus

RESPOSTAS:

1) B 2) A 3) C 4) A 5) B 6) B 7) A 8) B 9) C 10) A 11) C 12) B 13) A 14) C 15) B 16) A 17) B 18) A 19) C 20) A

Referências Bíblicas

Gênesis 1

“No princípio criou Deus os céus e a terra.”

Marcos 11.22,23

“Respondeu-lhes Jesus: Tende fé em Deus.

Em verdade vos digo que qualquer que disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar; e não duvidar em seu coração, mas crer que se fará aquilo que diz, assim lhe será feito.”

João 10.30

“Eu e o Pai somos um.”

I Coríntios 6.17

“Mas, o que se une ao Senhor é um só espírito com ele.”

João 8.42b

“Respondeu-lhes Jesus: Se Deus fosse o vosso Pai, vós me amaríeis, porque eu saí e vim de Deus; pois não vim de mim mesmo, mas ele me enviou.”

João 15.16

“Vós não me escolhestes a mim mas eu vos escolhi a vós, e vos designei, para que vades e deis frutos, e o vosso fruto permaneça, a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda.”

Lucas 4.18,19

“O Espírito do Senhor está sobre mim, porquanto me ungiu para anunciar boas novas aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos, e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e para proclamar o ano aceitável do Senhor.”

Lucas 10.19

“Eis que vos dei autoridade para pisar serpentes e escorpiões, e sobre todo o poder do inimigo; e nada vos fará dano algum.”

João 5.18

“Por isso, pois, os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque não só quebrantava o sábado, mas também dizia que Deus era seu própio Pai, Fazendo-se igual a Deus.”

João 10.35

“Pois, se a lei se chamou deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi diragida (e a Escritura não pode ser anulada).”

Mateus 26.53

“Ou pensas tu que não poderia, agora, orar a meu Pai e que ele não me daria mais de doze legiões de anjos?”

João 14.13

“E tudo quanto pedirdes em meu nome, eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho.”

Lição 10 – CONFISSÃO

 

v     A importância da confissão

v     O que devemos confessar

v     Um exemplo prático

v     Fé e confissão

v     A verdadeira confissão

v     Fazendo acontecer

A confissão do que cremos pode ser positiva ou negativa. Ambas são necessárias e úteis. A confissão negativa é a que abre a porta para que o Senhor entre em uma vida. A pessoa confessa que é uma pecadora, e que aceita Jesus como Salvador e Senhor de sua vida.

A confissão negativa deve ser usada somente no início da caminhada, em que a pessoa é salva, e depois quando a pessoa escorrega e cai em transgressão ou pecado. A confissão negativa dá ao Senhor condições de perdoar e levantar o penitente,

Já a confissão positiva nunca deve nos abandonar. Em todos os momentos devemos confessar o que somos em Cristo e o que nos pertence nEle. Ela é a autorização que damos ao poder de Deus para que opere a vontade do Senhor em relação a nós.

Tanto a confissão negativa como a positiva tem que estar firmadas na Palavra de Deus. Desprezá-la é o pior erro que alguém pode cometer. Pois, como o Senhor Jesus afirmou: Sem mim nada podeis fazer (Jó 15.5). Ele, o Senhor Jesus é a Palavra de Deus.

Ao confessarmos positivamente o que somos na Palavra de Deus, veremos que a Palavra operará em nosso favor tão eficientemente, quanto operava no ministério pessoal do Filho de Deus. Os mesmos resultados serão colhidos por quem agir do modo como o Senhor Jesus agia.

A vontade de Deus é que O representemos aqui neste mundo, como o Senhor Jesus O representava. Ele quer que passemos a agir como Seus representantes, como o Senhor Jesus O fazia. Esta é a nossa missão.

Oro para que a sua confissão seja, a partir desta lição, um verdadeiro louvor a Deus.

Em Cristo,

R. R. Soares

Observando a maneira como vive a maioria das pessoas, que se dizem cristãs, podemos concluir que são poucas que aprenderam a importância da confissão. Na verdade, é difícil encontrar uma pessoa que viva a vida abundante que Jesus veio nos trazer. A razão é que o povo de Deus ainda não abandonou o modo negativo de enfrentar os problemas e os ataques do diabo.

A IMPORTÂNCIA DA CONFISSÃO

Quando, ao enfrentar qualquer problema, você diz que não conseguirá ser bem sucedido, no momento em que você faz tal afirmação, sem que perceba, você assina a sua derrota. Este tipo de confissão dá ao inimigo condições para continuar oprimindo-o e para consumar a sua obra de destruição na sua vida.

Enredaste-te com as palavras da tua boca, prendeste-te com as palavras da tua boca (Pv 6.2).

Aquilo que você confessa, torna-se, invariavelmente, no que você será ou terá.

Quando você usa palavras negativas ou pessimistas, você está usando a própria linguagem do diabo, e, deste modo, você cria um envolvimento maligno ao seu redor que dificilmente conseguirá ver as oportunidades que estão à sua espera. Do fruto da boca cada um comerá o bem, mas a alma dos prevaricadores comerá a violência (Pv 13.2).

O QUE DEVEMOS CONFESSAR

A vida cristã que abraçamos é chamada pelo Santo Espírito de confissão:

Pelo que, irmãos santos, participantes da vocação celestial, considerai a Jesus Cristo, apóstolo e sumo sacerdote da nossa confissão(Hb3.1).

A palavra grega da qual foi traduzida confissão é “homologia”, que significa repetição de palavras, conceitos e figuras; falar o mesmo, ou seja: dizer exatamente o que o Senhor diz na Sua Palavra.

Devemos confessar, em todos os momentos em que uma provação vier sobre nós, o que o Senhor fala sobre aquele assunto, e sobre a nossa posição diante de todas as coisas. Fazendo assim, estaremos colocando o poder de Deus agindo em nosso favor. Ele diz: Eu velo sobre a minha palavra para a cumprir (Jr 1.12).

Ao confessarmos a Palavra do Senhor Deus, estamos assumindo a nossa posição no mundo espiritual. Se não fizermos a confissão certa, jamais assumiremos a nossa posição em Cristo, e jamais tomaremos posse de qualquer bênção. Há, ainda, um conhecimento do Senhor Deus que só nos é concedido quando nos apropriamos da Sua Palavra e A confessamos.

UM EXEMPLO PRÁTICO

No seu corpo aparecem sintomas de alguma doença. Olhando para o lado natural das coisas, você deve se cuidar, buscar ajuda na ciência, e pacientemente esperar que a sua saúde se restabeleça. Alguém encontra-se com você e, educadamente, lhe pergunta, como vai? Você responde, com a maior felicidade, que não vai bem, diz que dói aqui e acolá, confessando aquilo que aparentemente é verdade.

Este tipo de atitude, mesmo despercebidamente, dá ao inimigo autorização para continuar atacando-o. Você acabou de aceitar, embora inconsciente, aquele sofrimento.

Que fique bem claro: A tentação de doenças – sintomas – não significa que você já esteja doente; como a tentação de praticar o adultério, ou cometer qualquer crime, não o faz ser um adúltero ou criminoso. É a aceitação – a consumação – que o faz tal.

Você pode indagar: Se estou com os sintomas da doença, devo mentir que não os tenho? Não. A verdade é que só em você reconhecer que os têm já está mentindo. O Senhor Deus afirma em Sua Palavra que pelas feridas de Jesus já fomos curados. Como alguém pode estar mal se Deus declara que ele já foi curado?

O nosso problema é que cremos mais nas coisas, nos sintomas e nas pessoas, do que em Deus.

Uma pessoa é acidentada. O corpo está todo quebrado e cheio de dores. O médico entra na sala e ela pergunta: “Doutor, como estou?” Ele responde: “Ah! você está bem, muito bem mesmo. Breve vai poder sair desta casca de gesso e viver uma vida normal.”

Em seguida, entra algum amigo e lhe dirige a famosa pergunta: “Então, como está se sentindo?” A pessoa não pensa duas vezes e responde: “Oh! Estou muito bem.”

Esta pessoa acha correto falar de acordo com o médico; mas, muitos cristãos se recusam a falar de acordo com a Palavra de Deus.

Quando você se firma na Palavra e A confessa (não importa o que sente), você está se unindo ao Senhor. Quem se une ao Senhor jamais fracassará. Mas o que se ajunta com o Senhor é um mesmo espírito (1 Co 6.17).

FÉ E CONFISSÃO

Já temos aprendido que fé é a certeza das coisas que se esperam, e que ela vem quando damos ouvidos à Palavra de Deus. De nada valerá a fé – a certeza de que alguma bênção é nossa – se não agirmos de acordo com ela, confessando a posição que o Senhor declara ser nossa em relação a qualquer assunto.

A fé é como uma autorização dada pelo Senhor. Após a mesma surgir em nosso espírito, não temos mais de ficar parados, esperando o momento certo – basta agir.

A VERDADEIRA CONFISSÃO

A linguagem da fé é a que os filhos de Deus devem ter. Assim como os incrédulos e os tímidos (ambos não entrarão no reino de Deus) falam dos seus receios e temores, devemos confessar as nossas possibilidades em Cristo Jesus, nosso Senhor.

A confissão da nossa posição na Palavra de Deus é a ferramenta que nos fará invencíveis. Com ela poderemos apagar todos os dardos inflamados do maligno. Temos que ser ousados no que cremos. A confissão do que somos em Cristo fará fugir todo o exército do inferno. O Senhor Deus assim se expressa sobre a nossa confissão: Sou eu quem confirma a palavra do seu servo… (Is 44.26).

Para quem vive na derrota, o nosso modo de falar é arrogante e atrevido. Eles não entendem que esta é a linguagem de quem realmente pertence à família de Deus.

Falar a Palavra de Deus em todos os momentos e diante de todos os desafios fará com que o Deus libertador do passado entre em cena, realizando hoje o mesmo que realizava. Esta é a cura para a igreja fracassada que conhecemos nos dias de hoje. Igreja comprada por Jesus, santificada pelo Seu sangue, revestida de poder pelo Espírito Santo; mas que vive cheia de problemas, lutas, divisões, pecados e fracassos.

A confissão verdadeira fará surgir a igreja verdadeira.

FAZENDO ACONTECER

Agora que você está fervendo na “fé”, no conhecimento de quem você’é em Cristo, do que lhe pertence na Palavra de Deus, é hora de tomar uma posição firme contra as forças malignas que se levantaram para destruí-lo.

Veja ao seu redor em quantas frentes o diabo tem procurado destruí-lo. Veja todos os obstáculos que você pensava que jamais conseguiria transpor e vencer, e decididamente, com a Palavra de Deus, enfrente-os e vença-os, em o Nome de Jesus. ‘

Ao invés de ficar na defensiva, esperando nova ofensiva do inimigo, parta para cima dele agora, exigindo que ele e tudo que é dele saiam da sua vida.

Nunca mais tenha o menor receio do inimigo. Assuma agora o que Jesus comprou para você.

QUESTIONÁRIO:

1. Por que concluímos que são poucos que aprenderam a importância da confissão?

(a) pelo modo como vivem

(b) porque não se balizam

(c) porque não pertencem à Igreja da Graça

2. Por que os cristãos não vivem a vida abundante?

(a) por não terem sido balizados no Espírito Santo

(b) por não terem abandonado o modo negativo de enfrentar os problemas

(c) porque não oram três vezes ao dia

3. Quando uma pessoa assina a sua derrota?

(a) ao dizer que não conseguirá

(b) ao deixar de orar

(c) ao deixar de ir à igreja

4.O que acontece com o que você confessa?

(a) nada

(b) é coisa de valor duvidoso

(c) torna-se no que você será

5. Do que cada um comerá?

(a) do que Deus quiser dar

(b) do que a sorte prover

(c) do fruto da boca

6. Como o Espírito Santo chama a vida cristã?

(a) igreja verdadeira

(b) confissão

(c) esperança eterna

7. A palavra grega “homologia” traduzida por confissão quer dizer:

(a) dizer a mesma coisa

(b) sermão ungido

(c) paraíso

8.O que acontecerá se não fizermos a confissão certa?

(a) jamais seremos promovidos na igreja

(b) não tomaremos posse

(c) seremos como Judas Iscariotes

9. A confissão daquilo que aparenta ser a verdade fornece ao inimigo:

(a) oportunidade para ser salvo

(b) autoridade para continuar lhe atacando

(c) oportunidade para evoluir

10. A tentação de doenças, de adultério ou outra qualquer se consuma quando:

(a) nós a aceitamos

(b) o diabo a coloca em nós

(c) Jesus não responde à oração

11. Se você reconhece os sintomas, estará mentindo ou não?

(a) sim

(b) não 

(c) os dois

12.O que acontece quando você se firma na Palavra e a confessa?

(a) torna-se um cristão de destaque

(b) se torna membro da igreja

(c) se une ao Senhor

13. De nada valerá a fé se não…

(a) orarmos e jejuarmos

(b) não agirmos de acordo com ela

(c) não formos à igreja duas vezes na semana

14. Com o que podemos comparar a fé?

(a) com a salvação

(b) com o paraíso 

(c) com uma autorização dada pelo Senhor

15. Qual é a linguagem que os filhos de Deus devem ter?

(a) da fé

(b) do temor

(c) dos anjos

16. Qual é a ferramenta que nos fará invencíveis?

(a) a confissão de que Deus existe

(b) a confissão do paraíso

(c) a confissão da nossa posição na Palavra

17. Falar a Palavra de Deus em todos os momentos e diante de todos os desafios, fará…

(a) o diabo mais fraco

(b) com que Deus entre em cena

(c) os anjos construam melhores mansões

18. A confissão verdadeira fará surgir a Igreja…

(a) primitiva 

(b) verdadeira

(c) moderna

19. Ao invés de ficar na defensiva, o que deve fazer o cristão?

(a) partir para cima do diabo

(b) ficar humilde 

(c) orar, pois as coisas não estão boas

20. Quando você deve ter receio do inimigo?

(a) quando não tiver jejuado

(b) nunca 

(c) quando estiver em terra estranha

RESPOSTAS:

1) A 2) B 3) A 4) C 5) C 6) B 7) A 8) B 9) B 10) A 11) A 12) C 13) B 14) C 15) A 16) C 17) B 18) B 19) A 20) B

Referências Bíblicas

 

Provérbios 6.2

“Enredaste-te com palavras da tua boca, prendeste-te com as palavras da tua boca.”

Provérbios 13.2

“Do fruto da boca cada um comerá o bem, mas a alma dos prevaricadores comerá a violência.”

Hebreus 3.1

“Pelo, que irmãos santos, participantes da vocação celestial, considerai a Jesus Cristo, apóstolo e sumo sacerdote da nossa confissão.”

Jeremias 1.12

“Eu velo sobre a minha palavra para cumprir.”

I Coríntios 6.17 a

“Mas o que se ajunta com o Senhor é um mesmo espírito.”

Isaías 44.26

“Sou eu quem confirma a palavra do seu servo.”

Lição 11 – VÃS REPETIÇÕES

 

v     Por que Jesus sempre obtinha resposta?

v     O caso das vãs repetições

v     Úteis repetições

Uma importante advertência foi-nos dada pelo próprio Senhor Jesus: E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios, que pensam que, por muito falarem, serão ouvidos. Não vos assemelheis, pois, a eles; porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de vós lho pedirdes (Mt 6.7,8). Porém, a maioria dos cristãos não dão a menor importância a este conselho do Senhor, e “quebram a cara”.

Ora, se a necessidade de evitar as vãs repetições não fosse algo sério e imprescindível, o Senhor jamais teria transmitido tal advertência. Nela vemos além da inutilidade de tal ato, algo que chateia o nosso Pai, pois Ele já sabe do que precisamos antes de mencionarmos.

Se existem as vãs repetições, ou seja, as falsas e improdutivas, é porque existem as verdadeiras e produtivas repetições.

Repetir a nossa posição em Cristo — que cremos na Palavra e exigimos que o mal seja desfeito — não é coisa vã, falsa, móvel e improdutiva. É afirmar nossa decisão de não ceder um milímetro do nosso terreno, é reafirmar nossa determinação, é não ceder a nenhum argumento, é exigir que o nosso direito seja cumprido completamente.

Ninguém é ouvido por muito falar. De nada adianta ficar ao pé do Senhor atazanando-0 com as suas lamúrias, pois isso não dará ao Senhor condições de lhe estender a mão e o ajudar.

O que precisa ser feito é tomar uma posição sobre o que a Palavra garante ser seu e, destemidamente, entrar na presença do Pai em oração e, em Nome de Jesus, declarar como será a partir de então aquele caso, seguindo a Palavra de Deus.

Que você, não usando de vãs repetições, seja uma bênção, é a minha oração.

Em Cristo,

R. R. Soares

Sendo a oração o nosso veículo de comunicação com o Pai, devemos aprender a fazê-la de maneira eficiente e produtiva. Há princípios a serem observados para que ela seja operante. Podemos citar alguns:

I — Fé — Ora, sem fé é impossível agradar-lhe, porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que é galardoador dos que o buscam (H b 11.6).

II — O Nome de Jesus — E tudo quanto pedirdes em meu nome, eu o farei… (Jo 14.13).

Ill — O propósito — … para que o Pai seja glorificado no Filho (Jo 14.13).

IV — Crer — Por isso, vos digo que tudo o que pedirdes, orando, crede que o recebereis e tê-lo-eis (Mc 11.24).

V — Não duvidar — Peça-a, porém, com fé, não duvidando; porque o que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento e lançada de uma para outra parte (Tg 1.6).

Além destes princípios básicos, há outros, de não menos importância, que também devem ser seguidos, como o de não usar vãs repetições: E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios, que pensam que, por muito falarem, serão ouvidos. Não vos assemelheis, pois, a eles; porque vosso Pai sabe o que vos é necessário antes de vós lho pedirdes (Mt 6.7,8).

Se não forem observados estes princípios, a oração será inútil, e nós estaremos perdendo tempo em fazê-la. É preciso que se aprenda a fazer aquilo que o Pai considera como oração. Ela deve ser algo que funcione; pois, se não for para obter resultados positivos, não devemos orar. Por outro lado, se a oração funciona, vamos usá-la com mais assiduidade.

POR QUE JESUS SEMPRE OBTINHA RESPOSTA?

Sabemos que o Senhor Jesus não operava aqui na terra como Deus. Ao vir ao nosso mundo, Ele despiu-Se da Sua glória e Se fez semelhante a nós. Porém, sem pecado:

Mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens (Fp2.7).

Para não sair da presença do Pai, e cumprir sempre a Sua missão, o Senhor estava constantemente em comunhão com o Pai:

E, despedida a multidão, subiu ao monte para orar à parte. E, chegada já a tarde, estava ali só (Mt 14.23).

E, levantando-se de manhã muito cedo, estando ainda escuro, saiu, e foi para um lugar deserto, e ali orava (Mc 1.35).

E aconteceu que, naqueles dias, subiu ao monte a orar e passou a noite em oração a Deus (Lc 6.12).

Além destes períodos de consagração, o Senhor sempre agia de acordo com as regras estabelecidas pelo Pai.

Porque eu não tenho falado de m/m mesmo, mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar (Jo 12.49).

Qualquer pessoa que estiver em comunhão com o Pai, que viver uma vida de oração e agir sobre o que chamamos de princípios que norteiam a oração irá invariavelmente obter sucesso na vida.

O CASO DAS VÃS REPETIÇÕES

Os gentios – aqueles que não nasceram de novo – tentam, por todos os meios, alcançar algo de Deus. Na verdade, a maioria deles nem está interessada em saber qual é a fonte que vai lhes dar o que pedem, não se importando com o preço que terão que pagar se a fonte não for o Senhor, que não cobra nada de ninguém. É costume deles fazer repetidas orações, acompanhadas de promessas, para que o Senhor lhes dê o que por direito pertence aos que fazem Sua vontade.

É claro que o erro muitas vezes parte daqueles que são seus mestres. É comum o penitente ir ao sacerdote buscando explicação do porquê de seu sofrimento e do porquê de não conseguir o perdão, e, por conseguinte, a paz. E o sacerdote, sem o menor escrúpulo, o induz ao erro, orientando-o a fazer tantos “Pais-Nossos” ou tantas “Ave-Marias” ou quaisquer outras rezas, o que não tem valor algum. A própria oração do Pai-nosso ensinada por Jesus não é para ser “rezada” e, sim, para ser estudada e entendida. Ela é uma fórmula, um modelo de oração.

No meio evangélico também é comum as pessoas usarem vãs repetições. Quase sempre quando vamos orar para que o povo seja cheio do Espírito Santo, pedimos às pessoas que louvem ao Senhor Deus, e praticamente em 100% dos casos as ouvimos “LOUVAR” a Deus, dizendo: Aleluia, Aleluia, Aleluia, glória, glória, glória, isto quase sempre num ritmo crescente. É claro que dar aleluias e glórias a Deus é lindo, e sempre que possível deve ser praticado, mas não como é na maioria dos casos, sem o menor sentimento.

Quando formos orar, devemos pensar bem o que estamos fazendo. As nossas palavras devem ser medidas. Devemos evitar as vãs repetições que não nos aproximam do Senhor, bem ao contrário, nos afastam dEle. Não devemos ficar “lembrando” ao Senhor que estamos sofrendo, passando por necessidades etc. Isto não quer dizer que não devemos dizer ao Senhor da nossa revolta contra a miséria, contra a doença ou contra qualquer outro infortúnio. No versículo em que o Senhor Jesus nos orienta a não usar das vãs repetições, Ele nos ensina que o Pai sabe do que precisamos, antes de nós Lho pedirmos.

Aquele que não está firmado na Palavra pode questionar, dizendo: Se Deus sabe do que precisamos, antes de Lho pedirmos, e se Ele é amor e nosso Pai e Todo-poderoso, por que Ele nos deixa sofrer?

Quem assim raciocina não conhece nada da Palavra. Pois, a Escritura nos garante que isso Ele já fez:

Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou por sua glória e virtude (2 Pé 1.3).

ÚTEIS REPETIÇÕES

Se existem as vãs — inúteis — repetições é porque existem as úteis. E elas podem ser feitas? Claro que sim. Quando? Principalmente no nosso combate contra o maligno:

… resisti ao diabo, e ele fugirá de vós (Tg 4.7).

O que é resistir? É ficar curtindo o sofrimento, calado, para mostrar que temos capacidade de aceitar “A vontade de Deus”? Não, isso, além de estupidez, é desconhecimento total da nossa posição em Cristo e do que nos compete fazer, além do que a vontade do Senhor para a nossa vida será sempre o melhor.

Resistir significa: oferecer resistência, opor-se. Numa invasão, o exército do país invadido resiste com armas ao invasor. No nosso caso, que é espiritual, temos que usar as nossas palavras para fazer face aos ataques do inimigo. Devemos, neste caso, usar as úteis repetições (com bom senso) até a vitória se concretizar.

O próprio Jesus usou úteis repetições na libertação do homem que vivia nu, tomado por demônios, na terra dos gadarenos:

E, clamando com grande voz, disse: Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-te por Deus que não me atormentes. (Porque lhe dizia: Sai deste homem, espírito imundo) (Mc 5.7,8).

QUESTIONÁRIO:

1. Qual é o nosso veículo de comunicação com o Pai?

(a) a penitência

(b) a oração

(c) as ofertas

2. Onde a Bíblia diz que sem fé é impossível agradar a Deus?

(a) Marcos 1.30

(b) João 17.17

(c) Hebreus 11.6

3. Onde está escrito que Jesus garantiu que fará tudo que pedirmos ao Pai no nome dEle?

(a) Romanos 13.8

(b) João 14.13

(c) João 3.16

4. Qual é o propósito de Jesus realizar o que pedimos no nome dEle?

(a) a nossa cura

(b) que a igreja consiga mais ofertas

(c) que o Pai seja glorificado

5. Em quem o Pai deve ser glorificado?

(a) no Filho

(b) na Virgem Maria

(c) na Igreja da Graça

6. Qual é o 5° princípio delineado na lição?

(a) amar o próximo

(b) crer

(c) rezar o Pai-nosso

7. Como devemos pedir?

(a) com fé

(b) com insistência

(c) desesperadamente

8. O que não devemos fazer ao pedirmos?

(a) chorar

(b) esquecer

(c) duvidar

9. A que se assemelha quem duvida?

(a) ao vento

(b) à onda do mar

(c) a uma montanha

10. O que não devemos usar na oração?

(a) vãs repetições

(b) calça comprida para as mulheres

(c) chapéu na cabeça

11. Quem usa das vãs repetições?

(a) os judeus

(b) os cristãos

(c) os gentios

12. Para os gentios falar muito significa:

(a) ser ouvido

(b) mérito

(c) bancar o bobo

13. Quando o Pai toma conhecimento do que pedimos?

(a) ao orarmos

(b) três dias depois da oração

(c) Antes de nós pedirmos

14. O que Jesus fez consigo mesmo ao tomar a nossa forma?

(a) se promoveu

(b) aniquilou-Se

(c) não fez acontecer nada

15. A quem Jesus tornou-Se semelhante?

(a) aos homens

(b) aos anjos

(c) aos animais

16. Depois de despedir a multidão, o que Jesus foi fazer no monte?

(a) meditar

(b) dormir

(c) orar

17. Para onde Jesus foi quando ainda estava escuro?

(a) ao templo

(b) a um lugar deserto

(c) à casa de Pedro

18. O que Lucas 6.12 diz que Jesus passou a noite fazendo?

(a) trabalhando como carpinteiro

(b) em oração a Deus

(c) dormindo

19. Quem deu mandamento a Jesus sobre o que Ele deveria dizer e falar?

(a) o Pai

(b) ninguém

(c) os anjos

20. O que o Pai nos deu que diz respeito à vida?

(a) nada

(b) tudo

(c) alguma coisa

RESPOSTAS:

1) B 2) C 3) B 4) C 5) A 6) B 7) A 8) C 9) B 10) A 11) C 12) A 13) C 14) B 15) A 16) C 17) B 18) B 19) A 20) B

Referências Bíblicas

Mateus 6.7,8

“E,orando, não useis de vãs repetições, como os gentios, que pensam que, por muito  falarem, serão ouvidos. Não vos assemelheis, pois, a eles; porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes de vós lho pedirdes.”

Hebreus 11.6

“Ora, sem fé é impossível agradar-lhe, porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus  creia que ele existe que é galardoador dos que os buscam.”

João 14.13 a

“E tudo quanto pedirdes em meu nome, eu o farei.”

João 14.13 b

“Para que o Pai seja glorificado no Filho.”

Marcos 11.24

“Por isso, vos digo que tudo o que pedirdes, orando, crede que o recebereis e tê-lo-eis.”

Tiago 1.6

“Peça-a, porém, com fé, não duvidando; porque o que duvida é semelhante à onda do mar, que é levada pelo vento e lançada de uma para outra parte.”

Mateus 14.23

“E, despedida a multidão, subiu ao monte para orar à parte. E, chegada já a tarde, estava ali só.”

Marcos 1.35

“E, levantando-se de manhã muito cedo, estando ainda escuro, saiu, e foi para um lugar deserto, e ali orava.”

Lucas 6.12

“E aconteceu que, naqueles dias, subiu ao monte a orar e passou a noite em oração a Deus.”

João 12.49

“Porque eu não tenho falado de mim mesmo, mas o Pai, que me enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar.”

II Pedro 1.3

“Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou por sua glória e virtude.”

Tiago 4.7 b

“Resisti ao diabo, e ele fugirá de vós.”

Marcos 5.7,8

“Que tenho eu contigo, Jesus Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-te por Deus que não me atormentes. (Porque lhe dizia: Sai deste homem, espírito imundo).”

Lição 12 – REALIZANDO A OBRA DE DEUS

 

v     O exemplo de Jesus

v     O significado de realizar a obra de Deus

v     Hoje, mesma pergunta – mesma resposta

Milhares de pessoas em todo o mundo têm abandonado os seus empregos, casas e famílias para se dedicar a um trabalho que julgam ser a obra de Deus. Será que realmente estão certos? O que fazem é a obra de Deus?

Temos no catolicismo aqueles que abandonaram tudo, e, em alguns casos, até mesmo o convívio com a sociedade, para “servir” a Deus enclausurados em um convento. O mesmo acontece no budismo.

Também podemos citar o caso de rapazes e moças que resolvem fazer o voto do celibato, e, apesar de suas naturezas clamarem pelo relacionamento do casamento, negam a si mesmos este desejo e direito por pensarem que isto é fazer a obra de Deus.

Para o Senhor Jesus, realizar a obra de Deus era a Sua missão. A ela devotava a Sua vida, Se consagrava, viajava, e usava todo o potencial que o Pai havia lhe dado na consecução da mesma.

Nós também temos que realizá-la. O que então devemos fazer para que ela seja realizada? É o que veremos nesta lição.

Podemos ver, pelo que Jesus fez, que a realização da obra de Deus começa por uma submissão ao Pai e continua por colocar a Sua Palavra em ação. E, de uma coisa podemos estar certos: se não fizermos a obra de Deus, ela não será feita.

O Senhor Jesus nos deu o exemplo e nos ensinou como realizar a obra de Deus. Também mostrou o significado de tal realização, o qual é a resposta à pergunta que se faz em todo o mundo sobre o que fazer para realizar a obra do Senhor.

Que, a partir de hoje, você seja um realizador de tal obra, é a minha oração.

Em Cristo,

R. R. Soares

Entre aqueles que se declaram cristãos é grande o número de pessoas que vivem mal, constituindo-se num péssimo exemplo para o Evangelho; pois, como alguém poderá dar crédito à promessa de vida abundante trazida por Jesus, se aqueles que garantem que vivem debaixo de Sua graça demonstram que a vida abundante não é real. Ela é ou não é real? Pelas promessas bíblicas, sim; pelo viver de muitos, parece que não.

De quem é a culpa? Às vezes a culpa é da própria pessoa. Ela vive desleixadamente sem querer aprender o que a Palavra fala sobre a sua posição em Cristo, não assumindo os seus direitos como membro da família do Senhor.

A culpa pode cair também sobre os pregadores que não ensinam a Verdade (muitos ensinam teologia). Devemos aceitar, ainda, que a culpa pode estar em alguns casos nas pessoas que fizeram as traduções das Sagradas Escrituras. Se bem que temos que reconhecer que eles tentaram fazer o melhor e, de modo geral, foram felizes na obra que realizaram.

Mas, muitos pontos importantes foram traduzidos de um modo meio torcido, e por isso bênçãos têm sido perdidas. É o caso de João 14.13, que já temos estudado bastante neste Curso Fé, em que foi traduzido da seguinte maneira: E tudo quanto pedirdes em meu nome, eu o farei. Segundo esta tradução qualquer um pode se convencer de que basta pedir a bênção que ela lhe seja concedida. Mas, a verdade é bem outra: conhecemos muitos que vivem pedindo e nada recebem. A razão é que Jesus não falou pedir no sentido que nós conhecemos por pedir e sim determinar, exigir, mandar,

Também é o caso da cura do cego registrada em João 9. Os versículos 3 e 4 foram traduzidos deste modo:

Jesus respondeu:

Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus. Convém que eu faça as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar.

Se esta tradução fosse correta poderíamos acreditar que existem pessoas que .nascem cegas, aleijadas e que passam a vida sofrendo para que algum dia nelas se manifestem as obras de Deus. Seguindo este raciocínio, alguém poderia argumentar que Deus não é amor; pois, Ele permite que pessoas nasçam defeituosas e vivam sofrendo, sendo privadas da visão, audição, voz e de outras funções só para que algum dia elas venham a ser curadas e Ele receba a glória. Isto não parece esquisito? Isto é horrível! Este não pode ser o caráter do nosso Deus.

O EXEMPLO DE JESUS

Quando Jesus esteve aqui no mundo, curou a todos. Ele nunca aprovou o sofrimento, nem disse a ninguém que Deus queria que ele sofresse. Nesta passagem da cura do cego, Ele não falou que o homem nascera deste modo para que o Senhor Deus algum dia viesse a receber glórias pela sua cura.

Como sabemos, o Novo Testamento foi escrito na língua grega, e o grego daquela época não conhecia os sinais de pontuação como hoje nós conhecemos. Também João, ao escrever o seu Evangelho, não o dividiu em capítulos e versículos, ele o escreveu como uma carta. Atribui-se ao cardeal Hugo, falecido em 1263, ou a Stephen Langton, falecido em 1228, a divisão da Bíblia em capítulos. A divisão em versículos foi obra de Robert Steves em 1551. A tradução deste trecho teria sido melhor se tivesse sido feita deste modo:

Respondeu Jesus: Nem ele pecou, nem seus pais. Mas para que a obra de Deus seja realizada, é necessário que façamos a obra daquele que me enviou, enquanto é dia: a noite vem, quando ninguém pode trabalhar.

Há uma tradução da Bíblia, feita mediante a versão francesa dos monges beneditinos de Maredsous (Bélgica), que se aproxima deste nosso entendimento. Ela diz:

Os discípulos perguntaram: Quem pecou: este ou os seus pais para que nascesse cego? A pergunta que fizeram é bastante esquisita. Como poderia ter ele pecado antes de nascer? E, Jesus, respeitando o raciocínio deles lhes diz: Nem ele pecou, nem os seus pais. A pergunta foi respondida; porém, sobre a causa real do sofrimento, Jesus não falou nada. Talvez porque a Escritura já falara, em outras partes, que a causa de todo mal é o pecado de Adão. Porém, aproveitando a ocasião, o Senhor deu uma grande revelação: Mas para que a obra de Deus nele se manifeste, é necessário que façamos a obra daquele que me enviou.

Como é diferente, não é verdade? Quantos milhões de criaturas têm sofrido desnecessariamente durante anos, porque pensavam que os seus sofrimentos lhes foram dados para que um dia as obras de Deus nelas se manifestassem e Deus recebesse a glória.

Era Jesus, o homem, quem deveria fazer as obras de Deus. Se Ele não as fizesse, elas não seriam feitas. Durante anos, aquele cego e outros doentes sofreram, porque ninguém fazia as obras de Deus. O mesmo é verdade hoje, milhões estão sofrendo porque a obra de Deus não está sendo feita. Alguém pode sofrer durante anos mesmo sendo membro da melhor igreja: se ele não fizer a obra de Deus em sua vida, isto é, não repreender o mal, não exigir a saída das doenças e o fim do sofrimento, nada será feito.

É necessário que façamos a obra dAquele que nos enviou enquanto é dia. Para isso, recebemos essa missão do Senhor Jesus.

Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado. E estes sinais seguirão aos que crerem; em meu nome, expulsarão os demônios; falarão novas línguas; pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e imporão as mãos sobre os enfermos e os curarão (Mc 16.15-18).

Quando saíram para fazer a obra de Deus, veja o que aconteceu:

E eles, tendo partido, pregaram por todas as partes, cooperando com eles o Senhor e confirmando a palavra com os sinais que se seguiram. Amém! (Mc 16.20).

Acorde, meu irmão! Já fomos enviados. Temos uma missão. Devemos fazê-la já, a partir de agora.

O SIGNIFICADO DE REALIZAR A OBRA DE DEUS

Somos nós que realizamos a obra de Deus. Mas o que realmente significa realizar a obra de Deus? Para as pessoas que procuraram o Senhor Jesus e indagaram dEle o que era realizar a obra de Deus, Ele foi claro:

E, achando-o no outro lado do mar, disseram-lhe: Rabi, quando chegaste aqui? Jesus respondeu e disse-lhes: Na verdade, na verdade vos digo que me buscais não pêlos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes. Trabalhai não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará, porque a este o Pai, Deus, o selou. Disseram-lhe, pois: Que faremos para executarmos as obras de Deus? Jesus respondeu e disse-lhes:

A obra de Deus é esta: que creiais naquele que por ele enviou (Jo 6.25-29).

Vimos que eles procuraram Jesus porque não queriam ter trabalho para conseguir o sustento material, pois de cinco pães de cevada e dois peixinhos — um lanche de um menino, Ele fez uma multiplicação que alimentou quase 5000 homens, além das mulheres e crianças. Agora seria fácil, no raciocínio deles; quando tivessem qualquer necessidade, Ele prontamente faria o milagre.

Jesus, então, lhes adverte que deveriam trabalhar pela comida que permaneceria para a vida eterna, a qual Ele — Jesus, lhes daria. Entenderam eles que precisavam fazer algo e foram direto ao assunto, perguntando o que seria necessário para realizar as obras de Deus. Jesus lhes informou que não são as obras de Deus que temos que realizar e, sim, a obra de Deus, a qual é crer nAquele que por Ele foi enviado.

HOJE, MESMA PERGUNTA — MESMA RESPOSTA

Esta pergunta formulada ao Senhor Jesus é ouvida em todas as partes, e a resposta é a mesma: Que creiais naquele que por Ele foi enviado. Mas o que é crer nAquele que por Ele foi enviado? Muitas pessoas garantem com a boca cheia que crêem nAquele que Deus enviou, e quando lhes perguntam quem foi que Deus enviou, respondem logo: “Jesus”.

De certo modo elas estão certas. Mas, a verdade é que Deus não enviou Jesus propriamente, Deus enviou a Sua Palavra;

Ela encarnou-Se e nasceu Jesus. É certo que Jesus e a Palavra de Deus são a mesma pessoa. Mas, é preciso que se entenda a diferença, pois muitos garantem que crêem em Jesus, mas não vivem de acordo com a Palavra. Eles na verdade se enganam. Quem, de fato, crê no Senhor Jesus pratica a Palavra de Deus.

Então, o que você fará a partir de agora? Se você não fizer a obra de Deus, ela não será feita. O que você diz? Você vai fazer a obra do Senhor?

Se você está doente ou com qualquer problema, pare de ficar pedindo a todo mundo que ore por você e que lhe ajude a conseguir algo de Deus. Decida agora mesmo a fazer a obra dEle. Torne-se num filho obediente, um praticante da Palavra.

QUESTIONÁRIO:

1. A vida abundante prometida por Jesus é real ou não?

2. Por que a culpa pelo fracasso de muitos pode estar nas traduções das Sagradas Escrituras?

3. Qual seria a melhor tradução de pedir em João 14.13?

4. O homem cego de João 9 nasceu privado da visão para que um dia fosse curado e Deus recebesse a glória?

5. Qual a explicação para os erros de tradução como este de João 9?

6. Qual a versão da Bíblia que mais se aproxima do nosso entendimento de João 9?

7. Tem sentido a pergunta feita a Jesus pêlos discípulos, se o homem ou seus pais haviam pecado para que ele nascesse cego?

8. Ao responder a pergunta aos discípulos, Jesus falou sobre a causa do sofrimento?

9. Qual é a causa de todos os sofrimentos?

10. Naquele caso, quem deveria fazer a obra de Deus?

11. Por que cegos e tantas outras pessoas têm sofrido durante anos?

12. Por que devemos fazer a obra de Deus?

13. Onde está escrita esta missão?

14. O que respondeu ao grupo de pessoas que O procurou para saber como realizar a obra de Deus?

15. O que significa crer nAquele que por Deus foi enviado?

RESPOSTAS:

1) Sim.  2) Porque algumas partes foram traduzidas de modo distorcido.  3) Determinar, exigir, mandar.  4)  Não  5) O Novo Testamento foi escrito na língua grega, a qual não possuía os sinais de pontuação como temos hoje.  6) A versão francesa dos monges beneditinos de Maredsous ( Bélgica).  7) Não.  8) Não.  9) O pecado de Adão.  10) Jesus.  11) Porque poucos têm feito a obra de Deus.  12) Porque recebemos essa missão.  13) Marcos 16.15-18.  14) A obra de Deus é esta: que creias naquele que ele [Deus] enviou (Jo 6.29b).  15) Crer na Palavra de Deus.

Referências Bíblicas

João 14.13

“E tudo quanto pedirdes em meu nome, eu o farei.”

João 9.3,4

“Jesus respondeu: Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus. Convém que eu faça as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar.”

João 9.2

“Quem pecou, este ou seus pais?”

João 9.3 a

“Nem ele pecou, nem seus pais.”

Marcos 16.15-18

“E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado. E estes sinais seguirão aos que crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e imporão as mãos sobre os enfermos e os curarão.”

Marcos 16.20

“E eles, tendo partido, pregaram por todas as partes, cooperando com eles o Senhor e confirmando a palavra com os sinais que se seguirão. Amém!”

João 6.25-29

“E, achando-o no outro lado do mar, disseram-lhe: Rabi, quando chegaste aqui? Jesus respondeu e disse -lhes: Na verdade, na verdade vos digo que me buscais não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes. Trabalhai não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará, porque a este  o Pai, Deus, o selou. Disseram-lhe, pois: Que faremos para executarmos as obras de Deus? Jesus respondeu e disse-lhes: A obra de Deus é esta:? que creias naquele que ele enviou.”

Disponível também em Livro e 12 CD de áudioTelevendas: 0300 789 5044 e no Shopping do Povo Graça Editorial

Conversando com Deus

Deixe o seu comentário

 

INTERPRETAÇÃO CONDENSADA DO SALMO 23

O SENHOR É o meu pastor. Entôo o canto da alma exultante por ter escolhido Deus como meu pastor. A Inteligência Divina me orienta por todos os caminhos. Não me faltarão paz, harmonia ou orientação, porque a Sabedoria de Deus me guia. Deito sempre em verdes pastagens, pois Deus está me fazendo prosperar além dos meus sonhos mais otimistas. Encontro-me junto de águas serenas ao proclamar que a Paz Infinita de Deus flui por minha mente e coração. Minhas emoções (águas) são serenas e calmas. Minha mente está agora tranqüila e reflete a Luz e as Verdades Celestiais de Deus (minha alma está revigorada). Caminho pela trilha certa, através da devoção e atenção às Verdades Eternas de Deus. Sei que a morte não existe e não temo o mal. Sei que “Deus não nos concedeu o espírito do medo, mas sim o do amor e da força, assim como uma mente firme”. O bastão (Amor) e o cajado (Verdade) de Deus me confortam, sustentam e alimentam. A mesa do banquete de Deus está sempre posta para mim; é o lugar secreto do Altíssimo, onde em pensamento passeio e falo com Deus. Alimento-me com as Verdades de Deus sempre que o medo e a preocupação (meus inimigos) me perturbam. O pão que eu como é a idéia de paz, amor e fé de Deus, em todas as coisas boas. A carne  que como  é  a   Onipotência de Deus; o vinho que bebo é a essência da alegria. A Sabedoria de Deus unge a minha inteligência; é um Lampião sobre os meus, uma Luz em meu caminho. Minha taça (coração) é a câmara da Presença Sagrada de Deus; transborda de amor e alegria. Habito mentalmente na Bondade, Verdade e Beleza; esta é a minha Casa de Deus.

INTERPRETAÇÃO CONDENSADA DO SALMO 91

HABITO NO Lugar Secreto ao contemplar Deus e Sua Glória dentro de mim. Estou sempre à Sombra, porque sei que o Amor de Deus me cerca e envolve, tornando reto, aprazível e alegre o meu caminho. O Senhor (O Poder Espiritual) é Soberano e Supremo, o Único Poder. Responde a meu pensamento; portanto, é meu Refúgio e minha Fortaleza. Esse Poder Espiritual inspira, cura, fortalece e restaura minha mente e corpo. É Deus. É um Poder Generoso e Benéfico. Nele confio absolutamente e me responde como misericórdia, amor, inspiração e beleza. Esse Poder Divino me cobre com suas penas de Amor, Luz e Paz. É maravilhoso!

Rejeito totalmente os pensamentos negativos do mundo (a flecha durante o dia) e o Amor de Deus dissolve os padrões de medo do subconsciente (terrores à noite). Sei que estou seguro nas Mãos Invisíveis de Deus. Sempre vibro com a Mente de Deus e tudo está bem. Estou inteiramente livre do medo de acidentes ou atividades hostis (pestilências que espreitam nas trevas), porque sei que estou imunizado e inebriado por Deus. Recebi o Anticorpo Divino — a Presença de Deus em meu coração. Os milhares de pensamentos e sugestões negativos do mundo são destruídos consciente e subconscientemente, pois Deus anda e fala em mim, vivo na alegre expectativa do melhor. (Nenhum mal se abaterá sobre você.) Deus e Seus Anjos Sagrados (Idéias, Impulsos, Intuição e Orientação de Deus) me tomaram em seus cuidados e estou a salvo em todos os meus caminhos — na saúde, atividade correta, auto-expressão e companhia Divina. Contemplando a Presença de Deus, enfrento o leão e a serpente (obstáculos e dificuldades de todos os tipos). Minha salvação (solução) é revelada quando penso em Deus e no Paraíso; e todas as forças Divinas se apressam em atender, para minha alegria eterna.

VERSÃO DO MARUJO DO SALMO 23

 

SENHOR É meu Piloto; não ficarei à deriva. Ele me ilumina pelas águas escuras, me guia pelos canais profundos, mantém o diário de bordo, Orienta-me pela estrela sagrada. Embora eu navegue pelas trovoadas e tempestades da vida, não temerei o perigo, pois o Senhor está comigo. Seu amor e seus cuidados me resguardam. Reservou-me um porto seguro na terra da eternidade. Unge com óleo as ondas para que meu navio singre em paz, A luz do sol e a luz das estrelas me acolhem na viagem que empreendo e descansarei para sempre no porto de meu Deus.”*

*Por J. Rogers, comandante da marinha mercante, escrita durante a Segunda Guerra Mundial. Publicada pelo Boletim dos Capelães da Marinha, em Washington, D.C.

A ESTRADA DO REI

SEGUIREMOS pela estrada do rei, não viraremos à direita nem à esquerda.”

Meu caminho é o caminho de Deus, todos os seus caminhos são aprazíveis, todas as suas trilhas são de paz. Viajo sob a Orientação de Deus, levado pelo Espírito Santo. Meu caminho é a Estrada Real dos Antigos, a trilha intermediaria de Buda, o portão estreito de Jesus. Meu caminho é a Estrada do Rei, pois sou um Rei sobre todos os meus pensamentos, sentimentos e emoções.

Envio à frente os meus mensageiros: o Amor, Paz, Luz e Beleza de Deus, a fim de tornarem o caminho reto, belo, alegre e feliz. Sempre viajo pela Estrada do Rei encontrando por toda parte os mensageiros de paz e alegria de Deus. Sigo pela estrada para o topo da montanha sabendo que não encontrarei o mal pelo caminho, pois meus olhos estão fixados em Deus.

Guiando um carro, viajando de trem, ônibus, avião ou a pé, o Encantamento de Deus sempre me envolve. É a Couraça Invisível de Deus e sigo de um ponto a outro livremente, na alegria e amor. O Espírito do Senhor meu Deus me acompanha, fazendo com que todas as estradas sejam um caminho para Deus. É maravilhoso!

GUIE EM PAZ

É O carro de Deus. É idéia de Deus e se desloca de um ponto para outro livremente, alegremente, com amor. A Sabedoria de Deus guia este carro por todos os seus caminhos. A Ordem, Simetria e Beleza de Deus governam o mecanismo deste carro em todos os momentos. A Sagrada Presença de Deus abençoa este carro e todos os seus ocupantes. O motorista deste carro é um embaixador de Deus; está repleto de amor e boa vontade para todos. A Paz, Verdade e Compreensão de Deus sempre guiam o motorista. Deus orienta todas as decisões, tornando o caminho reto, aprazível e perfeito. O Espírito do Senhor-Deus envolve o motorista, fazendo com que todas as estradas sejam um caminho para seu Deus.

ORAÇÃO PARA GUIAR E VIAJAR

 

O SENHOR é aquele que segue à minha frente.” Meu ânimo predominante de fé e confiança é de que a Sabedoria e o Poder de Deus sempre me guiam por todos os caminhos. É o sentimento de que o Senhor segue à minha frente. Minha convicção da Presença de Deus é forte e poderosa, sei que o clima Espiritual em que habito segue à minha frente, tornando o caminho reto, aprazível, alegre e feliz. Sei que em todas as viagens, de ônibus, trem, avião, automóvel ou qualquer outro meio de transporte, o Amor e Inteligência de Deus me guiam na jornada. Todas as estradas do mundo são controladas por Deus, tornando o céu por cima e a terra por baixo um caminho para o meu Deus.

FIQUE QUIETO E SAIBA

 

FIQUE QUIETO e saiba que eu sou Deus. Aquieto agora todas as engrenagens da mente ao pensar em Deus e seu Amor. Minhas emoções estão perfeitamente controladas; estou absolutamente sereno. A mente está em paz e reflete a Luz e Verdades Celestiais de Deus. A Sabedoria de Deus aflora à superfície da minha mente enquanto me mantenho sereno, revelando-me o plano perfeito, indicando o caminho que devo seguir.

Minha devoção e atenção se concentram nas Verdades Eternas de Deus durante o dia inteiro. Proclamo constantemente que a Sabedoria, Verdade e Beleza de Deus me regem e orientam, em todas as fases da vida.

O bastão (Amor) e o cajado (Verdade) de Deus me sustentam, alimentam e fortalecem em todas as diligências. Sempre que o medo surge, viro-me imediatamente para Deus e sua Sagrada Presença, regozijando-me com esta Verdade: “Deus não me concedeu o espírito do medo, mas sim o do Amor e Poder, uma mente firme.” Como do pão do paraíso, feito de paz, harmonia e fé em Deus. Minha oração é: “Senhor, dê-nos sempre este pão.”

A SAGRADA PRESENÇA

 

EU SOU DEUS e não há outro Deus além de mim. Não sou limitado pelo tempo nem pelo espaço. Não estou restrito por nome ou forma. Estou presente em toda parte. Sou seu Deus e Senhor de hostes incontáveis. Sou o Santo dos Santos, no Coração do Verdadeiro Templo, na Montanha Sagrada. Comungo com Deus agora. Seu Amor e Luz fluem por mim, sou inundado pela Radiância da Luz Ilimitada. Sou elevado e inspirado; estou me expandindo para o Seio Divino do Pai. Sinto a Doce Fragrância de Deus; Este Perfume Interior aciona as cordas de meu coração, que tocam a Melodia de Deus. Deposito a minha fé na Presença Divina e Perfeição d’Aquele Que É. Meu Eu Superior é Deus. Ele se comunica comigo; ouço a Voz Interior. Ilumina, inspira e eleva; periodicamente, me descubro em êxtase, imerso em sua Onipresença Sagrada. Sei agora que sou um filho do Deus Vivo. Sou o Espírito Divino — um filho de Deus; n’Ele habito, existo e tenho meu ser, Sei que Ele está meditando e sou a Sua meditação.

O PODER DE DEUS

 

DEUS É A única Presença e o único Poder. Eu sou aquele que o tem. A Força de Deus é a minha força; sua Inteligência inunda a minha mente. Essa nova consciência me proporciona um domínio completo sobre todos os aspectos da minha vida. Estou agora integrado na Mente Universal. Sua Sabedoria, Poder e Glória fluem por mim. Sei que a Energia e Poder de Deus impregnam cada átomo, tecido, músculo e osso de meu ser, tornando-me perfeito agora. Deus é Vida e essa Vida é a minha vida. Minha fé se renova; a vitalidade se restaura. Ele é meu Deus; estou com Ele, unido. A Verdade é meu escudo; regozijo-me que assim seja. Sob as suas Asas confiarei. Habito no Lugar Secreto do Altíssimo e estou sob a Sombra do Todo-Poderoso.

A PAZ DE DEUS

 

 “E EM QUALQUER casa que entrar, diga primeiro: Que a Paz esteja nesta casa.” Minha mente transborda com a Vida, Amor e Verdade de Deus. Sempre que a minha atenção se desvia de Deus, eu a levo de volta pela contemplação de sua Sagrada Presença. Penetro na Câmara Secreta dentro de mim — minha própria consciência. Estou no Paraíso; sinto-me perfeitamente calmo, tranqüilo e controlado. “Que a Paz esteja dentro destas paredes e a prosperidade dentro de seus palácios. Pelo bem de meus irmãos e companheiros, eu direi: Que a paz esteja convosco.” Abato na Casa do Senhor meu Deus e procuro apenas o bem. Vivo em seu Reino. Sinto o ambiente Divino de paz, amor e alegria. Elevo a dádiva de Deus dentro de mim. Sei que eu e meu Pai somos um só; sinto essa realidade; a Vida flui por mim. Sei que em seu Paraíso, onde eu habito e tenho o meu ser, todas as minhas orações são atendidas. Estou em paz. A Pomba do Amor sussurrou em meu ouvido: “Que a paz esteja com você!”

PAZ INTERIOR

 

MINHA MENTE está serena e em paz; sou um reflexo da Sabedoria e Beleza do Altíssimo. O Espírito de Deus flui por mim neste momento, em pensamentos, palavras e ações. Estou em paz. Sou inundado pela paz que transcende à compreensão. Sinto a segurança e tranqüilidade de minha mente, sintonizada com o Infinito. Repouso nos Braços Eternos. Minha vida é a Vida de Deus e é perfeita. Sou um com meu Pai e meu Pai é Deus. Controle e equilíbrio são meus atributos agora. Minha mente é a mente de Deus e é perfeita. As idéias de Deus constantemente se desdobram dentro de mim, proporcionando harmonia, saúde e paz. Sei que o Espírito Santo está me levando para toda a Verdade. Estou seguro no conhecimento de que Deus é e tudo o que existe é Deus. Irradio o sol do Amor de Deus. Amor é a realização da lei e a lei é que eu sou aquilo que penso.

FALANDO A VERDADE

 

COMPREENDO E sei que Deus se manifesta por meu intermédio quando falo. Deus fala através do homem. Minhas palavras são “maçãs de ouro em molduras de prata”. “Minhas palavras são o espírito e são a vida, Minhas palavras são espírito e são verdade.” Conheço a Verdade e a Verdade me liberta. Quando falo, proporciono alegria e felicidade a todos. Sou um mensageiro de Deus; levo boas novas a todos; falo em paz. As idéias de Deus constantemente se desdobram dentro de mim, trazem-me harmonia, alegria e paz, Eu me expresso com vigor e confiança. Sou a articulação perfeita e a expressão da Verdade. Falo a Verdade, amo a Verdade e conheço a Verdade. A Inteligência Infinita fala por meu intermédio agora. Proclamo uma coisa agora e a faço acontecer. Obrigado, Pai,

A FÉ ME TORNA PERFEITO

 

Sou ESPIRITUAL. Sou fiel a Deus ou ao Bem. Amo apenas o Bem. Sou a consciência de Deus e reflito a sua plenitude e perfeição. Sou um reflexo da Perfeição de Deus em cada átomo do meu ser. Meu coração está alegre e projeta um semblante jovial. Meu corpo é o corpo de Deus; é perfeito agora. Estou expressando harmonia, saúde e paz em todos os aspectos da minha vida. A Luz de Deus brilha através de meus olhos; é perfeita agora. Flui através de mim com alegria, harmonia e paz. O Amor de Deus aflora dentro de mim; expresso saúde perfeita. Estou repleto de alegria e felicidade; estou repleto de confiança e fé. Minha fé é um sentimento e a convicção interior de que sou perfeito. Deus é o Eterno Agora; meu bem é neste momento. Minha fé tornou-me perfeito.

PALAVRAS DE PODER

 

MANTENHO A mente em Deus e permaneço em perfeita paz. E nessa paz de Deus encontro Ordem, Harmonia e Amor Divino.

“Nenhuma palavra de Deus será desprovida de poder.”

As palavras que falo estão cheias de espírito e vida. Reconheço Deus em todas as minhas ações e transações. Minha mente permanece em Deus. Sou abençoado e prosperei pela atividade da lei do bem em minha vida.

Todas as minhas declarações de verdade estão impregnadas de vida, amor e significado. As palavras que falo produzem grande impressão em minha mente profunda. Estou contente por saber que Deus habita em meu coração, pois Deus é a minha própria vida. Essas palavras se gravam em meu coração: “Eis que habito com você, homem de Deus, assim você também deve habitar comigo.”

Sei que estou vendo Deus sob forma humana ao olhar para meu semelhante. Abençôo e irradio pensamentos de amor para toda a humanidade. Pronuncio a palavra agora. Minhas palavras são criativas; a mente profunda em mim sempre responde. Ordeno agora perfeita saúde, harmonia e paz, em minha casa, meu coração e todas as minhas atividades.

Sei e creio que Deus está me guiando agora, por to­dos os caminhos, e que o Espírito Infinito governa todas as minhas ações. Assim determinei, assim haverá de acontecer. Encontrei a Jóia da Eternidade em meu próprio coração.

FÉ EM DEUS

 

JESUS DISSE: “Sua fé tornou-o perfeito.” Minha fé é o sentimento e convicção interior de que Deus é e tudo o que existe é Deus. Tenho uma expectativa alegre do melhor; sei que apenas o bem pode sair de mim. “A fé é a substância das coisas que se espera, a prova de coisas que não são vistas.” Embora eu não veja o que quero, sei que todas as coisas derivam do Espírito Que Originou a Si Mesmo dentro de mim. Volto-me agora para Deus; penso em suas qualidades, atributos e aspectos. Compreendo que todas as qualidades estão em mim. Contemplando a sua Presença, sei que a paz, ordem, alegria, amor, perfeição, pureza e santidade estão fluindo por minha mente e corpo. Regozijo-me por isso e dou graças que assim seja. Sinto a minha integração com Deus, a vida, o universo e todos os homens. Minha fé reside na Lei do Bem. O certo é poder. O uso correto da Lei do Bem ou Deus é o grande poder. Convoco agora as coisas que não são como se fossem, o invisível torna-se visível.

ORIENTAÇÃO DIVINA

 

TODAS AS coisas que existem são como uma ondulação na superfície da correnteza e todas são uma só Substância. Todos partilhamos a qualidade da Correnteza, que é o espelho do eu para o eu. “Há um rio que deságua alegremente na cidade de Deus.” Eu sou o rio de Deus; de mim fluem a bondade, a verdade e a beleza. Habito numa cidade de paz; essa cidade se localiza em minha mente; todos os habitantes, que são os meus pensamentos, são filhos de Deus, porque são pensamentos de Deus e o Poder de Deus se encontra em meu pensamento para o bem, A Inteligência Infinita está me guiando agora, em pensamentos, palavras e ações. Sou um canal perfeito do Divino. Sinto, sei e creio que meu Eu-Deus ilumina os meus caminhos. A Sabedoria Divina me inspira, guia, governa e orienta para toda a Verdade. Estou integrado com Deus agora; tudo está bem. Amo a Voz Sagrada interior; é a voz de meu Pai e meu Pai é Deus,

O VERDADEIRO LUGAR

 

MEU TRABALHO é perfeito e estou sempre reapresentando as idéias de Deus. Sou a consciência de Deus; minha mente é a mente de Deus. Sou a atividade de Deus; estou me expressando plenamente. Sei que há uma lei perfeita de oferta e demanda. Estou instantaneamente em contato com tudo o que preciso. Estou agora no meu verdadeiro lugar; estou distribuindo os meus talentos de maneira maravilhosa. Sou compensado Divinamente. Meu Deus é o Princípio de todo Conhecimento; sei de tudo que preciso instantaneamente. Sou integrado em meu Pai e meu Pai é Deus. Estou sempre refletindo a Glória, Amor e Atividade de Deus. Estou fazendo a coisa que amo. Meu lugar é com Deus, em todos os momentos; estou integrado n’Ele agora; assim seja, Absorvo a alegria de tudo, Eu lhe agradeço, Pai, por meu lugar perfeito. Tudo está bem.

HABITANDO COM DEUS

 

VIVO NUM estado de consciência. É a consciência de paz interior, alegria, harmonia e boa vontade para todos os homens. Sei que minha verdadeira terra não é uma locação geográfica. Um país é um local em que se mora. Eu habito no Lugar Secreto do Altíssimo; estou à Sombra do Todo-Poderoso; ando e falo com Deus em todos os dias de minha vida. Sei que só existe uma Família Divina, que é a humanidade. Deus se levanta e seus inimigos se dispersam. (Salmo 68)

Sei que meus únicos inimigos são o medo, ignorância, superstição, concessão e outros falsos deuses. Não permitirei que esses inimigos habitem em minha mente. Recuso-me a conceder um passaporte para minha mente a pensamentos negativos,

Entronizo Deus e seu Amor em minha mente. Penso, sinto e ajo do ponto de vista do amor Divino. Entro mentalmente em contato com o Poder Divino agora, que se movimenta por mim; sinto-me invencível. A paz começa em mim, Sinto o rio de paz de Deus fluindo por mim agora.

Proclamo que o amor de Deus está nos corações de todos os homens. Deus e sua Sabedoria me guiam e governam, assim como a todos os homens, em toda parte, Deus inspira a mim, a nossos líderes e aos governos de todas as

nações, a fim de que façam a sua vontade e apenas a sua vontade. A vontade de Deus é harmonia, paz, alegria, plenitude, beleza e perfeição. É maravilhoso!

HABITE NO SILENCIO

 

JESUS DISSE: “Deus é Espírito e aquele que O ama deve fazê-lo em espírito e verdade.”

Sei e compreendo que Deus está em ação dentro de mim. Sei que Deus é um sentimento ou convicção profunda de harmonia, saúde e paz; é o movimento de meu coração. O espírito ou sentimento de confiança e fé que agora me possui é o espírito de Deus e a ação de Deus sobre as águas da minha mente, Assim é Deus, o Poder criativo interior.

Vivo e tenho o meu ser na fé e confiança de que a bondade, verdade e beleza acontecerão em todos os dias da minha vida; essa fé em Deus e em todas as coisas boas é onipotente; remove todas as barreiras.

Fecho agora a porta dos sentidos; retiro toda a atenção do mundo. Viro-me para dentro, para o Único, o Belo e o Bom; aqui, habito com meu Pai, além do tempo e espaço; aqui, vivo à sombra do Todo-Poderoso. Estou livre de todo medo, do veredicto do mundo e da aparência das coisas. Sinto agora a sua Presença, que é o sentimento da prece atendida ou a presença do meu bem.

Tomo-me o que penso. Sinto agora que sou o que quero ser; esse sentimento ou consciência é a ação de Deus em mim; é o Poder criativo. Agradeço pela alegria da prece atendida e repouso no silêncio do que “Está feito”.

O PODER PARA REALIZAR

 

NADA SERÁ impossível para Deus.”A Onipotência está dentro de mim; tenho todo o Poder que existe. Toda Verdade é a Palavra de Deus. Falo a Verdade; regozijo-me com a Verdade. Reconheço Deus; minha mente está fixada em Deus. Sinto o Poder Onipotente fluindo por mim agora, tornando-me pleno e perfeito. Estou refletindo a Vida; tenho todo o poder e força. A alegria do Senhor é a minha força. Estou agora individualizando o Poder Infinito do seu Amor Infinito. Expresso a energia inesgotável de Deus. Tudo é Espírito e manifestação do Espírito. É toda sua, Ó Senhor, a Grandeza, Poder, Glória, Vitória e Majestade. Sou forte no Senhor e na Força de seu Poder. A Ação de Deus está ocorrendo em todas as minhas atividades; este é o Princípio do Bem. Sei e creio que o Deus Eterno em mim é o Criador dos fins da terra. Ele não desfalece nem cansa. Reconheço esse Poder Supremo e a ele me integro conscientemente. Regozijo-me porque virei perfeito.

DEIXE QUE DEUS FAÇA

 

FOI-LHE CONCEDIDO o livre-arbítrio. Você é o dono de seus pensamentos, emoções e reações à vida. Seu pensamento é criativo, porque o subconsciente reage à natureza do pensamento. Quando você ora, deve se comportar como um executivo eficiente; aprenda a delegar seu trabalho, de maneira sensata e criteriosa. Deus em sua Sabedoria concedeu-lhe um subconsciente que é um servidor maravilhoso. Obedece às suas ordens. Você é o comandante e o subconsciente cumpre fielmente as suas ordens. Quando tem um problema, você formula o pedido de solução à Mente Profunda, que está em contato com a Inteligência Infinita e a Sabedoria Ilimitada. A Mente Profunda sabe como resolver seu problema e oferecer-lhe a resposta. Apresente o seu pedido agora, com fé e confiança, sabendo em seu coração que tudo depende da maneira como se sente por dentro. Se confia no poder interior, está sereno e calmo. Na tranquilidade e confiança está a sua força. (Isaías, 30:15)

CÍRCULO DO AMOR DE DEUS

 

AS DÁDIVAS DE Deus me pertencem agora. Vivo na Presença de Deus, da qual fluem todas as bênçãos. Aproveito cada momento deste dia para glorificar a Deus. A harmonia, paz e abundância de Deus me pertencem agora. O amor divino flui de mim e abençoa todos aqueles que me cercam. O amor de Deus é sentido por todos os que estão presentes aqui e Seu amor os está curando agora.

Não temo o mal, pois Deus está comigo. Estou sempre cercado pelo círculo sagrado do amor e poder de Deus. Proclamo, sinto, sei e creio absolutamente que o encantamento do amor e a eterna vigilância de Deus me guiam, curam e velam por mim e por todas as pessoas de minha família.

Perdôo a todos e sinceramente irradio o amor, paz e boa vontade de Deus para todas as pessoas, em toda parte. No centro do meu ser existe paz; é a paz de Deus. Nessa tranqüilidade sinto a sua força e orientação, o amor de sua Sagrada Presença. Sou divinamente orientado por todos os caminhos. Sou um canal aberto para o amor, luz, verdade e beleza de Deus. Sinto o seu Rio de Paz fluindo por mim agora. Sei que todos os meus problemas se dissolvem na mente de Deus. Os caminhos de Deus são os meus caminhos. As palavras que pronuncio se realizam. Regozijo-me e dou graças, compreendendo que minhas preces são atendidas. Assim seja.

DEUS É O ETERNO AGORA

 

(Usando o Subconsciente)

SEI QUE O MEU bem é neste momento. Creio em meu coração que posso profetizar para mim harmonia, saúde, paz e alegria. Instalo o conceito de paz, sucesso e prosperidade em minha mente agora. Sei e creio que esses pensamentos (sementes) crescerão e se manifestarão em minha experiência.

Sou o jardineiro; como semeio, assim colherei, Semeio pensamentos Divinos (sementes); essas sementes maravilhosas são paz, sucesso, harmonia e boa vontade. É uma colheita maravilhosa.

Deste momento em diante estou depositando no Banco Universal (meu subconsciente) sementes ou pensamentos de paz, confiança, controle e equilíbrio. Estou sacando os frutos das sementes maravilhosas que deposito. Creio e aceito o fato de que meu desejo é uma semente depositada no subconsciente. Torno-o real ao sentir a sua realidade. Aceito a realidade do meu desejo da mesma maneira que aceito o fato de que a semente depositada no solo vai germinar. Sei que cresce na escuridão; também o desejo ou ideal cresce na escuridão do meu subconsciente. Em pouco tempo, como a semente, aflora à superfície, como uma condição, circunstância ou evento.

A Inteligência Infinita me orienta por todos os caminhos. Medito em tudo que é verdadeiro, honesto, justo e generoso. Penso nessas coisas e o Poder de Deus está com meus pensamentos para o bem. Estou em paz.

O CAMINHO DA ORAÇÃO

 

“TORNARÁ SEU caminho próspero e encontrará um bom resultado.” Ofereço agora um padrão de sucesso e prosperidade à minha mente mais profunda, que é a lei. Identifico-me agora com a Fonte Infinita de suprimento. Escuto a voz serena interior de Deus. Essa voz interior leva, guia e governa todas as minhas atividades. Estou integrado com a abundância de Deus. Sei e creio que há caminhos novos e melhores para a condução de minhas atividades; a Inteligência Infinita me revela os novos caminhos.

Estou crescendo em sabedoria e compreensão. Minhas atividades são as atividades de Deus. E prospero Divinamente por todos os caminhos. A Sabedoria Divina interior revela os meios e caminhos pelos quais minhas atividades se ajustam imediatamente à maneira certa.

As palavras de fé e convicção que agora expresso abrem todas as portas necessárias ao meu sucesso e prosperidade. Sei que “O Senhor (Lei) tornará perfeito tudo o que me envolve”. Meus pés se mantêm no caminho certo porque sou um filho do Deus Vivo.

A ORAÇÃO DE FÉ

 

“ORAÇÃO DE fé salvará o doente e Deus o fará levantar.” Sei que apesar da negação de ontem, minha oração ou declaração da verdade se elevará triunfante hoje. Atenho-me firmemente à alegria da prece atendida. Caminho o dia inteiro sob a Luz.

Hoje é dia de Deus; é um dia glorioso para mim, repleto de paz, harmonia e alegria. A fé no bem está gravada em meu coração. Estou absolutamente convencido de que há uma Presença e uma perfeita Lei que recebem agora a impressão do meu desejo e atraem irresistivelmente para a minha experiência todas as coisas boas que o coração deseja. Deposito toda fé e confiança no Poder e Presença de Deus em mim; estou em paz.

Sei que sou um hóspede do Infinito e que Deus é meu anfitrião. Ouço o convite do Sagrado: “Venha a mim com seu trabalho e lhe darei descanso.” Repouso em Deus; tudo está bem.

A TRANSMISSÃO DE DEUS

 

TODOS VOCÊS são irmãos, pois um só é seu pai.” Sempre levo harmonia, paz e alegria a cada situação, a todos os meus relacionamentos pessoais. Sei, creio e proclamo que a paz de Deus reina suprema na mente e coração de todos, em minha casa e meu trabalho. Não importa qual seja o problema, sempre mantenho a paz, equilíbrio, paciência e sabedoria. Perdôo plena e livremente a todos, independente do que possam ter dito ou feito. Lanço todos os meus fardos ao Eu-Deus interior; liberto-me; é um sentimento maravilhoso. Sei que a bênção me vem quando perdôo.

Vejo o anjo da Presença de Deus por trás de cada problema ou situação difícil. Sei que a solução está ali e que tudo está se resolvendo na ordem Divina. Confio implicitamente na Presença de Deus; ela possui o conhecimento da realização. A Ordem Absoluta do Paraíso e sua Sabedoria Absoluta estão agindo por mim, agora e em todas as ocasiões; sei que a ordem é a primeira lei do Paraíso.

Minha mente se concentra agora nessa harmonia perfeita, com alegria e expectativa. Sei que o resultado é a solução perfeita e inevitável; minha resposta é a resposta de Deus. É Divina, pois é a melodia da transmissão de Deus.

ORAÇÃO DE GRATIDÃO

 

DÊ GRAÇAS ao Senhor; invoque o seu nome; torne os seus feitos conhecidos entre as pessoas. Entoe salmos ao Senhor, anuncie as suas obras maravilhosas. Encontre a glória em seu santo nome. Que se regozijem os corações daqueles que procuram o Senhor.”

Dou graças sincera e humildemente por todo o bem, verdade e beleza que fluem por mim. Tenho o coração grato por todo o bem que sobreveio em minha mente, corpo e afazeres. Irradio amor e boa vontade para toda a humanidade. Elevo-me no pensamento e sentimento. Sempre demonstro minha gratidão e dou graças por minhas bênçãos. O coração agradecido leva minha mente e coração a uma união íntima com o Poder do Cosmos criativo. Meu estado de espírito agradecido e elevado me leva pelos caminhos em que todas as coisas boas sucedem.

“Passe pelos portões em gratidão e entre nos jardins em louvor. Seja grato ao Senhor e abençoe seu nome.”

LIBERDADE DIVINA

 

SE CONTINUAM em meu mundo, então são meus discípulos; e conhecerão a verdade e a verdade os libertará.”Conheço a verdade, e a verdade é que a realização de meu desejo me libertará de todo senso de servidão. Aceito a minha liberdade; sei que já está determinada no Reino de Deus.

Sei que todas as coisas em meu mundo são projeções de minhas atitudes interiores. Transformo a mente ao me concentrar nas coisas que são verdadeiras, admiráveis, nobres e Divinas. Contemplo-me agora a possuir todas as coisas boas da Vida, como paz, harmonia, saúde e felicidade.

A contemplação se eleva a ponto de aceitação; aceito totalmente os desejos de meu coração. Deus é a única Presença. Estou expressando agora a plenitude de Deus. Estou livre! Há paz em meu lar, coração e todas as minhas atividades.

A PALAVRA CRIATIVA

 

“CRIEM A PALAVRA e não apenas escutem, enganando a si mesmos.” Minha palavra criativa é a convicção silenciosa de que minha oração é atendida, Quando falo a palavra para a cura, sucesso ou prosperidade, é com a consciência da Vida e Poder, sabendo que está feito. A palavra tem poder, porque se integra na Onipotência, As palavras que falo são sempre construtivas e criativas. Quando oro, as palavras são repletas de vida, amor e sentimento; isso torna criativos os meus pensamentos, afirmações e palavras. Sei que quanto maior a fé por trás da palavra expressa, mais poder ela possui. As palavras que uso formam um molde definido, determinando a forma que meu pensamento assumirá. A Inteligência Divina opera por meu intermédio agora e revela-me o que preciso saber. Tenho a resposta agora. Estou em paz. Deus é Paz.

A ORAÇÃO CIENTÍFICA

 

ANTES QUE chamem, responderei; e enquanto ainda estão falando, ouvirei.”

Quando oro, chamo o Pai, o Filho e o Espírito Santo; o Pai é a minha consciência; o Filho é o meu desejo; o Espírito Santo é o sentimento de ser o que quero ser.

Desvio agora a atenção do problema, qualquer que seja. A mente e o coração se abrem para o fluxo do Alto.

Sei que o Reino de Deus está dentro de mim. Sinto, compreendo e sei que minha vida, consciência de ser, o Eu Sou, é o Espírito Vivo Todo-Poderoso. Volto-me agora em reconhecimento para Aquele Que É Para Sempre. A Luz de Deus ilumina o meu caminho. Sou Divinamente inspirado e guiado.

Começo agora a orar cientificamente, a fim de tornar o meu desejo manifesto, proclamando e sentindo ser e ter o que quero ser e ter. Caminho no silencioso conhecimento interior da alma, porque sei que minha oração já está atendida, na medida em que sinto a sua realidade em meu coração. Obrigado, Pai. Está feito!

O TRIUNFO DA ORAÇÃO

 

AGORA ME LIBERTO de tudo; entrego-me à realização de paz, harmonia e alegria. Deus é tudo, acima de tudo, por tudo, tudo em tudo. Levo a vida triunfante, porque sei que o Amor Divino me guia, orienta, sustenta e cura. A Presença Imaculada de Deus está no próprio centro do meu ser; manifesta-se agora em cada átomo do meu corpo. Não pode haver protelação, obstáculo ou obstrução ao desejo do meu coração. O Poder Todo-Poderoso de Deus está agora operando por minha conta. “Ninguém lhe porá a mão e indagará: O que faz?” Sei o que quero; meu desejo é definido e firme. Aceito-o plenamente em minha mente. Permaneço fiel até o fim. Tenho o conhecimento interior silencioso de que minha oração é atendida e minha mente se encontra em paz.

RENASCIMENTO ESPIRITUAL

 

HOJE RENASCI espiritualmente! Desligo-me por completo da antiga maneira de pensar e trago o amor, a luz e a verdade de Deus para a minha experiência. Sinto conscientemente amor por todos os que encontro. Mentalmente, digo a todos com quem faço contato: “Vejo Deus em você e sei que você vê Deus em mim.” Reconheço as qualidades de Deus em todos, Assim faço pela manhã, à tarde e à noite: é uma parte da minha vida.

Renasço espiritualmente agora porque durante o dia inteiro comungo com a Presença de Deus. Não importa

o que eu esteja fazendo — andando pela rua, fazendo compras ou empenhado em meu trabalho — sempre que meu pensamento se desvia de Deus ou do bem, trato de levá-lo de volta à contemplação de sua Sagrada Presença. Sinto-me nobre, digno e Divino. Sinto a união com Deus. Sua paz está em minha alma.

ORAÇÃO PARA A PAZ MUNDIAL

 

A PAZ COMEÇA COMIGO. A paz de Deus enche a minha mente; o espírito de boa vontade se irradia de mim para toda a humanidade. Deus está por toda parte e povoa os corações de todos os homens. Em verdade absoluta, todos os homens são agora espiritualmente perfeitos; estão expressando as qualidades e atributos de Deus. Essas qualidades e atributos são Amor, Luz, Verdade e Beleza.

Não há nações separadas. Todos os homens pertencem ao mesmo país, à mesma nação — a Terra de Deus. Um país é uma morada; eu habito no Lugar Secreto do Altíssimo; caminho e falo com Deus — e o mesmo fazem todos os homens, em toda parte. Há apenas uma Família Divina, que é a humanidade.

Não há fronteiras ou barreiras entre as nações, porque Deus é um, Deus é indivisível. Deus não pode ser dividido contra si mesmo. O amor de Deus envolve os corações de todos os homens. Sua Sabedoria guia a nação; Ele inspira os nossos líderes e os líderes de todas as nações a fazerem sua vontade e apenas sua vontade. A paz de Deus que transcende a toda compreensão enche a minha mente e as mentes de todos os homens, através do cosmo. Obrigado, Pai, por sua paz. Assim seja.

SOLTO

 

RELAXO agora e me sinto solto. Estou em paz. A mente se preenche com a paz que transcende à compreensão, Há paz em meu lar, em meu coração, em todos os aspectos da minha vida. Eu me solto inteiramente porque sei que existe um Poder que responde quando falo. Esse Poder flui por mim; revitaliza cada átomo do meu ser. Irradio boa vontade para toda a humanidade. Meus pensamentos são os pensamentos de Deus, o Poder de Deus está em meus pensamentos para o bem. “Esteja em paz e saiba que eu sou Deus.” Estou sereno agora, porque compreendo e sei que a única Presença e o único Poder habitam em mim. Fluem por mim; estou em paz e tudo está bem. Paz. Vejo a Verdade; amo a Verdade; conheço a Verdade. Sei que minha força está na paz e confiança. Sua Vida, Amor e Verdade fluem por mim agora e dou graças que assim seja.

CONTROLE E EQUILÍBRIO

 

MINHA MENTE está repleta de paz, controle e equilíbrio. Há em mim uma profunda serenidade interior. Estou tranqüilo agora, com uma sensação de paz e justiça Divina. Há uma solução Divina para todos os meus problemas; dou graças, habito no Lugar Secreto do Altíssimo, estou à Sombra do Todo-Poderoso. Ele é meu Refúgio e Salvação, “Meu Deus; n’Ele confiarei.” Regozijo-me por receber as idéias de Deus; estou em paz. Sei que a Inteligência Infinita me leva e guia por todos os caminhos. “Os filhos de Deus proclamam a sua alegria.” Sou um filho do Deus Vivo e tudo o que o Pai tem está em mim. Conheço a Verdade, amo a Verdade, regozijo-me com a Verdade. O Espírito da Verdade me conduz agora a toda a Verdade. Estou sempre pensando da maneira certa. A Sabedoria Divina e a Inteligência Divina se refletem em mim. “Com meus olhos fixados em você, não há mal pelo caminho.” Meus olhos estão fixados no bem e todo o bem me pertence. Ouço a voz de Deus; estou em paz.

SUPERE A DÚVIDA

 

CONHEÇO A Verdade que me liberta. Deus é a Verdade e estou expressando Deus em todas as coisas. Não duvido de meus parentes ou amigos. Cada um deles está expressando Deus agora; encontro o Cristo em todos. Concedo-lhes a liberdade, porque sei que todos pertencem a Deus. O Amor Divino em mim leva-me a saber que não receberei qualquer outra coisa que não o Amor Divino. Confio em meus amigos, pois confio no Deus que neles existe. Afasto todo sentimento de egoísmo e posse. Sei que o Amor Divino em mim percebe o Amor Divino em meus amigos. Saúdo a Divindade no outro; estou em paz. Conheço e compreendo a Verdade de Ser. Creio apenas no bem. Não há nada além de Deus e seu mundo. Sou governado por Deus. Todos ao meu redor são seres perfeitos, espirituais e Divinos. Adoro trabalhar com os outros. Adoro representar e expressar as idéias de Deus; regozijo-me por receber em troca as idéias de Deus. Estou transbordando de alegria e felicidade, pois sou a alegria infinita de Deus. Todos os meus colegas de trabalho são meus irmãos. Abençôo a todos. Sei que estão prosperando sob todos os aspectos. Estou cheio de confiança e fé.

EXPULSE O MEDO

 

TENHO ABSOLUTA confiança em Deus; espero o melhor; sei que só o bem pode me ocorrer. O Amor Divino em mim expulsa todo o medo; estou em paz. Vejo a Presença de Deus por toda parte. Estou absolutamente sem medo. Deus está sempre comigo. Se Deus está a meu favor, quem pode estar contra mim? Sei que um com Deus é maioria; isso me cura e liberta de todo sentimento de medo. Somente os pensamentos de Deus me ocorrem; esses pensamentos continuamente afloram, proporcionando-me harmonia, alegria, paz e sucesso. Sou a consciência de Deus; estou cercado pelo Amor Divino. Penso certo em todas as ocasiões. O Poder de Deus está em meus pensamentos de bem. Seu Amor, Vida e Verdade fluem por mim; estou integrado em sua Onipresença Sagrada. Estou sempre cercado pela Paz Infinita de Deus. Estou repleto de Compreensão Divina. O Amor Divino segue à minha frente, tornando o meu caminho reto, perfeito e alegre. Deus habita e fala em mim; sei que estou integrado a meu Pai; e meu Pai é Deus. Tenho fé em Deus; portanto, não tenho medo. “Não tenha medo, pequeno rebanho, pois o prazer de seu Pai é lhe oferecer o Reino.”

SUPERE O RESSENTIMENTO

 

SEI QUE todos os homens são meus irmãos. Todos possuímos um Pai comum. Vejo o Cristo Vivo em todos os homens que encontro. Saúdo a Divindade em cada pessoa. O Amor de Deus fluí através de mim para toda a humanidade, Abençôo a todos os que me criticam. Rezo por aqueles que falam mal de mim. Regozijo-me pelo sucesso dos outros, Liberto a todos e deixo que sigam em paz. Abro as janelas da mente; deixo entrar o fluxo do Espírito Santo, Estou perfeito e purificado. Estou em paz. O Amor de Deus preenche minha mente; tudo está bem. Sou o reflexo do Amor de Deus; irradio amor para todos. Estou consciente de Deus por toda parte, porque Deus existe em tudo. Sei que a ação de Deus está ocorrendo nas mentes e corações de todos. É maravilhoso!

SUPERE O SOFRIMENTO

 

O HOMEM É espiritual e vive eternamente. Não há morte; tudo é Vida. Deus é Vida e essa Vida é a minha vida agora. Não posso perder essa Vida. Deixo agora de sofrer pelas pessoas amadas, porque sei que elas vivem eternamente. Onde Deus é, não há mal; há apenas Deus. Não estou separado das pessoas amadas porque só há uma Mente e um Deus. N’Ele vivemos, agimos e temos a nossa existência. Somos todos a expressão de um único Ser — uma Consciência. Estou em contato com as pessoas amadas, pois o Espírito é Onipresente. Cada idéia que sai de mim deriva de Deus; essas idéias refletem a sua Beleza e Verdade e me deixam absolutamente alegre. “Os filhos de Deus proclamam a alegria.” Regozijo-me agora por receber a Verdade de Deus. “Em sua Presença há plenitude de alegria.” Somente as idéias de Deus afloram em mim e nas pessoas a quem amo; tudo está bem.

SUPERE A CONFUSÃO

 

SEI QUE todas as coisas são feitas pela autocontemplação do Espírito, Estou em paz. Paz é o Poder no coração de Deus. O meu Eu é o Espírito Vivo Todo-Poderoso. Tenho potencialidades infinitas. O Eu-Deus povoa minha mente agora com idéias de beleza, perfeição e equilíbrio. Tenho a chave para a felicidade e crescimento. Sou o templo de Deus; o Espírito de Deus habita em mim. Nunca me sinto confuso porque as idéias de Deus se manifestam em minha mente numa seqüência perfeita. Todas as idéias de Deus me estão sempre disponíveis; meus únicos pensamentos são os pensamentos de Deus, que são perfeitos, plenos e belos. Minha mente possui um absoluto equilíbrio. Minha mente é a Mente de Deus. As idéias de Deus me proporcionam alegria, felicidade, paz e harmonia, “Em sua Presença há uma plenitude de alegria.”

SUPERE A IRRITAÇÃO

 

AQUELE QUE é lento na ira é de grande compreensão; mas aquele que é precipitado no espírito exalta a loucura.”Estou sempre equilibrado, sereno e calmo. A paz de Deus flui por toda a minha mente e todo meu ser. Pratico a Regra Áurea e desejo sinceramente a paz e boa vontade para todos os homens.

Sei que o amor de todas as coisas que são boas penetra em minha mente e expulsa o medo. Estou agora vivendo na alegre expectativa do melhor. Minha mente está livre de toda preocupação e dúvida. Minhas palavras de verdade dissolvem cada emoção e pensamento negativo. Perdôo a todos; abro a porta de meu coração à Presença de Deus, Todo o meu ser se enche com a luz e compreensão que vêm do interior.

As coisas menores da vida não mais me irritam. Quando

o medo, preocupação e dúvida batem à minha porta, a fé na bondade, verdade e beleza abre a porta — e nada encontra. Ó Deus, és meu Deus e nada mais existe.

EXPULSE A ANSIEDADE

 

O Senhor é minha luz e minha salvação;

Ge quem terei medo? O Senhor é a força

da minha vida; De quem terei medo?

ESTE VERSÍCULO do Salmo 27 proporciona a libertação pessoal de todos os medos. Revela a fonte de todo poder, força e sabedoria. Permite rejeitar o poder dos fatores externos, remove o fardo de seus ombros e o encaminha pela estrada para a paz de espírito, saúde e felicidade.

O Senhor é a Presença de Deus, o EU SOU dentro de você. Em termos simples, psicológicos, o Senhor é a sua consciência. O que é a consciência? Seu estado de consciência é o que você pensa, sente, acredita, o raciocínio por trás de sua crença. A causa de todas as suas experiências é o pensamento e sentimento.

Recuse-se a conceder poder às condições e circunstâncias, ao mundo exterior. Seu pensamento inicia

o processo de causa e efeito. Seu pensamento é causa; as condições não são causativas. Não há poder que desafie a Onipotência; portanto, não há nada a temer. Se o medo sobrevém em sua mente, procure o Centro Divino; pense em Deus e seu Poder, compreendendo que só existe um Poder e você está integrado nele agora. Nessa serenidade, nada ex­

terior pode inibir, obstruir ou frustrar você. Pense em condições novas e melhores, na maneira como quer que as coisas sejam. Compreenda que, ao pensar, é a Onipotência pensando e agindo por sua conta. O resultado é certo, pois se trata de Deus em ação.

Deus é o nome para o Único Poder, atuando de maneira benéfica em sua vida. Esse Poder é Soberano, Supremo, Único e Indivisível, É automático. Esse Poder inspira, guia e vela por você, fortalece e protege, por meios que você nem pode imaginar. Deus vive e reina em sua vida. A compreensão dessa verdade é a sua salvação.

DISCIPLINANDO A MENTE

 

E Maria descobriu-se grávida do Espírito Santo.

(Mateus, 1:18)

O ESPÍRITO SANTO ou Deus habita nas profundezas inconscientes de todos os homens. ]osé é sua mente volitiva ou consciente. Maria representa a sua mente mais profunda, com as qualidades, atributos e potências de Deus. José, o consciente, deve ser um guia e protetor para a criança sagrada, que é a sua consciência da presença e poder de Deus dentro de você. Seu pensamento é José, e o sentimento ou emoção é Maria. Quando os dois se unem em paz e harmonia, sua oração é atendida; é Deus em ação. É a maneira como sua mente funciona, e o conhecimento disso é o nascimento da Criança Sagrada ou Sabedoria em você. Promova um relacionamento harmonioso, sincronizado e alegre entre o consciente e o subconsciente e produzirá saúde, paz, força e segurança. Instale a idéia certa em sua mente e experimentará em seu coração o verdadeiro sentimento. A união do pensamento e sentimento representa o casal em você; quando se unem, o terceiro elemento, paz (Deus), entra em cena, e você experimenta a alegria da prece atendida. Deixe que seu coração se torne um cálice para o amor de Deus e uma manjedoura para o seu nascimento; como resultado, você expressará e produzirá um filho que é Deus na terra.

SUPERE O MEDO

 

NÃO HÁ MEDO, pois “o Amor Perfeito expulsa o medo”. Permito hoje que o Amor me mantenha em perfeita harmonia e paz com todos os níveis do meu mundo. Meus pensamentos são generosos e harmoniosos. Sinto minha união com Deus, pois “n’Ele vivo e tenho

o meu ser”.

Sei que todos os meus desejos serão realizados em perfeita ordem. Confio na Lei Divina interior para fazer com que meus ideais se realizem. “O Pai faz o trabalho.” Sou divino, espiritual, alegre e absolutamente sem medo. Estou agora cercado pela paz perfeita de Deus; é “A paz de Deus, que transcende a toda compreensão”. Concentro agora toda a minha atenção na coisa desejada. Amo esse desejo e lhe concedo a minha atenção total.

Meu espírito se eleva em confiança e paz; é o espírito de Deus em mim. Proporciona uma sensação de paz e segurança. “O Amor Perfeito expulsa o medo.”

A NOVA CONSCIÊNCIA

 

O Senhor é minha luz e minha, salvação; de

quem terei medo? O Senhor é a força da

minha vida; de quem terei medo? (Salmo 27)

AFIRME TODOS os dias, com um sentimento profundo: tenho uma nova e forte convicção da Presença de Deus, que me mantém encantado, fascinado e sereno. Sinto-me confiante e sem medo. Sei que nada existe para temer — pois Deus é tudo o que existe e está em toda parte. N’Ele habito e tenho a minha existência; portanto, não tenho medo. O Amor de Deus me envolve e seu Rio Dourado de Paz flui por mim; tudo está bem. Não tenho medo de pessoas, condições, eventos ou circunstâncias, pois Deus está comigo. A fé em Deus ocupa a minha alma e não tenho medo. Habito na Presença de Deus, agora e para sempre, nenhum medo pode me afetar. Não temo o futuro, pois Deus está comigo. É minha habitação e estou cercado pela couraça de Deus. Deus me criou e me mantém. A sabedoria de Deus me conduz e guia; assim, não posso errar, Celebro agora o Ano Novo (convicção da presença de Deus), porque conheço no fundo do coração a grande verdade: “Ele é mais íntimo do que respiração, mais próximo do que mãos e pés.”

 

 

 

 

O PODER DO PENSAMENTO

 

O HOMEM É aquilo que pensa durante o dia inteiro. “Assim como um homem pensa em seu coração, assim ele é.” Tenha uma consideração saudável e um respeito integral por seus pensamentos. Sua saúde, felicidade, sucesso e paz de espírito são em grande parte determinados pela consciência do poder do pensamento. Já ouviu dizer que os pensamentos são coisas e se realizam por si mesmos. Seu pensamento é uma força definida. Quando formula o pensamento, está na verdade pondo em ação o seu poder latente.

Pense em coisas que sejam verdadeiras, admiráveis e Divinas, esteja absolutamente convencido da supremacia e autoridade do pensamento. Deve acreditar em seu próprio pensamento, não apenas como seu, mas como uma força por si mesmo; assim, tornará as suas orações eficazes.

A planta está na semente. O carvalho está na bolota. Você não dá vitalidade à semente; ela possui a sua própria matemática, mecânica e modo de expressão. Assim também o pensamento é a força; você não lhe confere força. Saiba disso e estará livre da tensão e ansiedade. Pensar com confiança no poder de seu pensamento é a ação de Deus em você e “Ele nunca falha”.

Avance para a frente e para cima pelo reconhecimen­to da supremacia do Poder Espiritual e a autoridade de seu pensamento. É o caminho para se obter resultados maravilhosos. Esse conhecimento aumenta a sua fé, permitindo-lhe experimentar a alegria da prece atendida.

PARA A FRENTE E PARA CIMA

 

MANTENHA UMA atitude mental positiva e construtiva e seguirá para a frente e para cima, ao encontro de Deus. As pessoas lhe falarão às vezes sobre as coisas ruins que inevitavelmente acontecerão; parece que não conhecem qualquer motivo para que alguma coisa boa deva acontecer. Dizem que a oração é um estado de desejo ansioso. Para elas, isso representa um desejo que não pode ser realizado ou que é bom demais para ser verdade.

Tudo o que é bom pode ser verdadeiro e tudo o que é maravilhoso pode durar. Proclame agora o seu bem e siga pela vida na pressuposição de que todas as coisas boas lhe pertencem.

O desejo bate à porta de cada coração. É a voz interior que nos diz: “Suba mais alto!” A oração é o começo da realização do desejo. Se o pensamento ansioso é desejar alguma coisa sem realizá-la, então quem é o pensador ansioso? É aquele que não compreende a oração. Deseja a saúde, riqueza, prosperidade e expressão verdadeira, mas diz em seu coração: “Não acredito; não tenho fé.” Em outras palavras, ele carece de fé e confiança, a que o princípio eterno da vida responde em todos nós.

O pensador científico sabe que há uma maneira de promover uma resposta a seus desejos. Reconhece a exis­tência de uma lei subjetiva interior, que responde à sua fé e convicção. Compreende que receberá se orar com fé. Sua fé está bem firmada; ele se encontra em paz. Uma pessoa assim formulou o seu pedido à outra mente e sabe que será atendida.

Não olhe para o topo da montanha e diga: “É impossível!” Você está na Verdade. Sua visão está no Cume e a fé o levará até lá.

A MENTE TRANQUILA

 

DEUS HABITA no centro do meu ser. Deus é paz; essa Paz me envolve em seu seio agora. Há um profundo sentimento de segurança, vitalidade e força por trás dessa paz. Esse sentimento interior de paz, em que agora habito, é a Presença Meditativa Silenciosa de Deus. O Amor e a Luz de Deus velam por mim, como uma mãe extremada vela pelo filho adormecido. No fundo de meu coração está a Sagrada Presença, que é paz, força e fonte de suprimento. Todo o meu medo desapareceu. Vejo Deus em todas as pessoas; vejo Deus se manifestar em todas as coisas. Sou um instrumento da Presença Divina. Libero agora essa paz interior; flui por todo o meu ser, dissolvendo os problemas. É a paz que transcende à compreensão.

A PAZ DE DEUS

 

TUDO É PAZ E harmonia em meu mundo, pois Deus em mim é “O Senhor da Paz”. Sou a consciência de Deus em ação; estou sempre em paz. Minha mente é equilibrada, serena e calma. Nesse clima de paz e boa vontade que me envolve sinto uma força profunda e a libertação de todos os medos. A cada dia estou mais consciente do Amor de Deus; tudo que é falso se desvanece. Vejo Deus personificado em todas as pessoas. Sei disso ao permitir que a paz interior flua pelo meu ser, resolvendo todos os problemas. Habito em Deus; portanto, repouso no seio eterno da paz. Minha vida é a vida de Deus. Minha paz é a paz profunda e inalterada de Deus. “É a paz de Deus, que transcende a toda compreensão.”

EQUILÍBRIO MENTAL

 

“PARA ONDE fugirei do seu Espírito? Onde me refugiarei de sua Presença? Se subo ao céu, lá o encontro; se faço a cama no inferno, também o descubro ali. Se vôo nas asas do vento e habito no fundo do mar, mesmo assim a sua mão me conduz e a sua mão direita me ampara.” Estou agora dominado por um entusiasmo Divino, porque estou na Presença da Divindade. Estou na Presença de Todo Poder, Sabedoria, Majestade e Amor.

A Luz de Deus ilumina minha inteligência; minha mente possui controle e equilíbrio. Há um ajustamento mental perfeito a todas as coisas. Estou em paz com meus pensamentos. Regozijo-me com meu trabalho, que me proporciona alegria e felicidade. Recorro continuamente à minha Fonte Divina, pois é a única Presença e o único Poder. Minha mente é a mente de Deus; estou em paz.

CONTROLE DAS EMOÇÕES

 

QUANDO UM pensamento negativo de medo, inveja ou ressentimento penetra em minha mente, trato de suplantá­lo com o pensamento de Deus. Meus pensamentos são os pensamentos de Deus, e o Poder de Deus está com os meus pensamentos para o bem. Sei que possuo um domínio completo sobre os meus pensamentos e emoções. Sou um veículo do Divino. Oriento agora todos os meus sentimentos e emoções por linhas harmoniosas e construtivas. “Os filhos de Deus proclamam a alegria.” Regozijo-me agora por aceitar as idéias de Deus, que são paz, harmonia e boa vontade. Sinto a maior satisfação em expressá-las, pois curam toda a discórdia em mim. Somente as idéias de Deus penetram em mim, proporcionando harmonia, saúde e paz. Deus é Amor. O Amor Perfeito expulsa o medo, o ressentimento e todos os estados negativos. Estou agora apaixonado pela verdade. Desejo para todos os homens tudo o que quero para mim; irradio amor, paz e boa vontade para todos. Estou em paz.

 

A VONTADE DE DEUS PARA MIM

 

DEUS ABRE para mim as janelas do céu e me despeja uma bênção.”

A vontade de Deus deve ser Divina; pois essa é a natureza de Deus. A vontade de Deus para mim, portanto, é saúde, bondade, harmonia e abundância.

“Se habita em mim e minhas palavras habitam em você, pedirá o que quiser e lhe será concedido.” Estou agora iluminado pela verdade; a cada dia cresço em sabedoria e compreensão. Sou um canal perfeito para as obras de Deus; estou livre de toda preocupação e confusão. A Inteligência Infinita interior é um lampião em meu caminho. Sei que sou levado a fazer a coisa certa, pois Deus está em ação em todas as minhas atividades.

A paz que transcende à compreensão povoa minha mente agora. Creio e aceito meu ideal. Sei que existe no Infinito. Dou-lhe forma e expressão pela total aceitação mental. Sinto a realidade do desejo consumado. A paz de Deus está em minha alma.

SER, FAZER E TER

NO CENTRO DO meu ser existe Paz; é a paz de Deus. Na tranqüilidade sinto a força, a orientação e o amor de sua Sagrada Presença. Estou Divinamente ativo; expresso a plenitude de Deus em todas as coisas. Sou um canal para

o Divino e agora liberto o esplendor interior aprisionado. Sou Divinamente orientado para a minha verdadeira expressão na vida; sou compensado de uma maneira maravilhosa.Vejo Deus em tudo e personificado em todos os homens, por toda parte. Ao permitir que esse rio de paz corra por meu ser, sei que todos os meus problemas estão resolvidos. Todas as coisas de que preciso para me expressar plenamente neste plano são irresistivelmente atraídas pela Lei Universal da atração. O caminho me é revelado; transbordo de alegria e harmonia.

IMPREGNANDO A MENTE SUBCONSCIENTE

O PRIMEIRO PASSO na aceitação mental da idéia, desejo ou imagem é relaxar, imobilizar a atenção, ficar quieto. Essa atitude da mente tranqüila e relaxada evita que coisas exteriores e falsas idéias possam interferir com a absorção mental do ideal; além disso, o esforço se reduz a um mínimo na atitude mental serena, passiva e receptiva. Nessa atitude relaxada proclame devagar e suavemente, várias vezes por dia, o seguinte:

“A perfeição de Deus está agora se expressando por  meu intermédio. A idéia de saúde está agora enchendo o meu subconsciente. A imagem que Deus tem de mim é uma imagem perfeita, e o subconsciente recria meu corpo em consonância perfeita com a imagem perfeita na mente de Deus.”

É uma maneira simples e fácil de transmitir a idéia de saúde perfeita a seu subconsciente.

PREVENDO MEU FUTURO

“E LHE CONCEDEU O domínio sobre as obras de suas mãos.” Sei que a fé em Deus determina meu futuro. A fé em Deus significa a fé em todas as coisas boas. Integro­me agora com as idéias verdadeiras e sei que o futuro será à imagem e semelhança do meu pensamento habitual. “Assim como pensa em seu coração, assim um homem é.” Deste momento em diante, meus pensamentos são “todas as coisas que são verdadeiras, todas as coisas que são honestas, todas as coisas que são admiráveis”. Dia e noite medito sobre essas coisas e sei que as sementes (pensamentos) que semeio me proporcionarão uma colheita abundante. Sou o comandante de minha alma; sou o dono de meu destino, pois meu pensamento e sentimento são o meu destino.

MEU DESTINO

 

SEI QUE MOLDO, oriento e crio meu destino. A fé em Deus é meu destino; isso significa uma fé permanente em todas as coisas boas. Vivo na alegre expectativa do melhor; somente o melhor me ocorre. Conheço a colheita que farei no futuro, porque todos os meus pensamentos são pensamentos de Deus, e Deus está com meus pensamentos para o bem. Os pensamentos são as sementes da bondade, verdade e beleza. Planto agora os pensamentos de amor, paz, alegria, sucesso e boa vontade no jardim da minha mente. É o jardim de Deus e produzirá uma colheita abundante. A glória e a beleza de Deus se expressarão em minha vida. Deste momento em diante, expresso vida, amor e verdade. Sou radiantemente feliz e próspero em tudo. Obrigado, Pai.

AÇÃO CERTA

 

IRRADIO BOA vontade para toda a humanidade, em pensamentos, palavras e ações. Sei que a paz e a boa vontade que irradio para cada homem me voltam mil vezes maiores. Qualquer coisa que eu precise saber me é transmitida pelo Deus interior. A Inteligência Infinita opera por meu intermédio, revelando-me o que preciso saber. Deus em mim sempre conhece a resposta. A resposta perfeita me está sendo revelada agora. A Inteligência Infinita e a Sabedoria Divina tomam todas as decisões por meu intermédio, há apenas a ação certa e a expressão certa ocorrendo em minha vida, Todas as noites me envolvo com o Manto do Amor de Deus e adormeço sabendo que conto com a Orientação Divina. E quando raia a manhã estou em paz. Inicio o novo dia com fé e confiança. Obrigado, Pai.

IMAGINAÇÃO, A OFICINA DE DEUS

 

“AS PESSOAS perecem onde não há visão.” Minha visão é o desejo de saber mais de Deus e seus caminhos. Minha visão é para a saúde perfeita, harmonia e paz. Minha visão é a fé interior de que o Espírito Infinito me leva e orienta em todos os caminhos. Sei e creio que o Poder-Deus interior atende a minhas orações; é uma convicção profunda.

Sei que a imagem mental a que permaneço fiel será revelada no subconsciente e se projetará na tela do espaço,

Todos os dias imagino apenas, para mim e para os outros, o que é nobre, maravilhoso e Divino. Imagino agora que estou fazendo a coisa pela qual anseio; imagino que possuo agora as coisas que desejo; imagino que sou o que quero ser. Para tornar real, sinto a sua realidade; sei que assim é. Obrigado, Pai.

A MENTE EQUILIBRADA

 

“AQUELE QUE permaneceu no Senhor em sua mente será mantido em perfeita paz, porque n’Ele confiou.” Sei que os desejos do meu coração vêm do Deus interior. Deus quer que eu seja feliz. A vontade de Deus para mim é vida, amor, verdade e beleza. Aceito mentalmente o meu bem agora e torno-me um canal perfeito para o Divino.

Chego à sua Presença cantando; entro em seus jardins com louvor; sou alegre e feliz; sou tranqüilo e equilibrado.

A Pequena Voz Interior sussurra em meu ouvido, revelando-me a resposta perfeita. Sou uma expressão de Deus. Estou sempre no meu verdadeiro lugar, fazendo o que amo fazer, Recuso-me a aceitar as opiniões do homem como verdades. Volto-me para dentro e sinto o ritmo do Divino. Ouço a melodia de Deus sussurrando sua mensagem de amor para mim.

Minha mente é a mente de Deus, estou sempre refletindo a sabedoria e a inteligência Divinas. Meu cérebro simboliza a capacidade de pensar sábia e espiritualmente. As idéias de Deus afloram em minha mente com uma seqüência perfeita. Estou sempre equilibrado, sereno e calmo, pois sei que Deus sempre me revelará a perfeita solução para todas as minhas necessidades.

A RESPOSTA DIVINA

 

SEI QUE A resposta a meu problema está no Deus interior. Ponho-me quieto, sereno e relaxado. Estou em paz. Sei que Deus fala em paz e não em confusão. Estou agora sintonizado com o Infinito; sei e creio que a Inteligência Infinita está me revelando a resposta perfeita. Penso a respeito da solução para os meus problemas. Vivo agora no ânimo que teria se meu problema estivesse resolvido. Vivo sinceramente nessa fé e confiança permanentes que são o ânimo da solução; é o espírito de Deus operando dentro de mim. Esse Espírito é Onipotente; manifesta-se por si mesmo; todo o meu ser se regozija na solução; estou contente. Vivo nesse sentimento e dou graças.

Sei que Deus possui a resposta. Todas as coisas são possíveis com Deus, Deus é o Espírito Vivo Todo-Poderoso dentro de mim; é a fonte de toda sabedoria e iluminação.

A indicação da Presença de Deus em mim é um senso de paz e equilíbrio. Suspendo agora todo o senso de tensão e luta; confio absolutamente em Deus. Sei que estão em mim toda a Sabedoria e Poder de que preciso para levar uma vida gloriosa e bem-sucedida. Relaxo o corpo inteiro; tenho fé em sua Sabedoria; estou livre. Proclamo e sinto a paz de Deus inundando a minha mente, coração e todo ser. Sei que a mente serena encontra a solução para

seus problemas. Apresento agora o pedido à Presença de Deus, sabendo que tem uma resposta a me oferecer. Estou em paz.

UM FUTURO MELHOR

 

Deus não nos concedeu o espírito do medo, mas sim o do poder e do amor, assim como uma mente firme.

CADA DIA É um tempo de renovação, ressurgimento e renascimento. Toda a natureza proclama a glória de um novo dia. Serve para nos lembrar que devemos despertar

o Deus interior e levantar do longo sono de inverno de limitação e caminhar pela manhã de um novo dia e uma nova vida. Medo, ignorância e superstição devem morrer em nós, devemos ressuscitar a fé, confiança, amor e boa vontade.

Comece agora a tomar a seguinte transfusão da graça e amor de Deus: “Estou repleto com a vida do Espírito Santo, purificadora, curativa, harmonizadora e revitalizadora. Meu corpo é o templo do Deus Vivo, é puro, integral e perfeito em todas as partes. Cada função da minha mente e corpo é controlada e regida pela Sabedoria Divina e Ordem Divina.”

Procuro agora um futuro glorioso. Vivo na expectativa alegre do melhor. Todos os maravilhosos pensamentos Divinos que acalento agora, neste dia, penetram no subconsciente, como numa tumba. Sei que, quando chegar o

momento, os pensamentos vão aflorar como harmonia, saúde, paz, condições, experiências e eventos.

Passo agora do medo e falta de liberdade para Deus e a vida abundante, O homem-Deus elevou-se em mim. “Eis que faço todas as coisas novas!”

PROSPERIDADE

Que as palavras de meus lábios e as meditações de meu coração sejam aceitáveis em sua presença, Senhor, minha força t redentor.

(Salmo 19:14)

UMA DAS MELHORES maneiras de atrair prosperidade para a sua vida é ter o coração agradecido. Sempre dê graças e louve tudo o que lhe couber.

Se selecionar uma roseira em seu jardim e a abençoar várias vezes por dia, ela certamente responderá, desabrochando com um viço maior do que todas as outras.

Dê graças por ter o coração grato pelo alimento maravilhoso em sua mesa. Prospere ao abençoar as pessoas em sua casa e por toda parte. Para abençoar os outros, proclame que a Presença de Deus se encontra no outro homem, que ele irradia amor e expressa mais e mais o Amor, a Luz e a Verdade de Deus. Abençoe todos os seus parentes; abençoe cada situação; abençoe sua casa, seu ambiente, seu trabalho. Você está na verdade aplicando uma das grandes leis da prosperidade.

Prosperar significa crescer espiritual, mental e materialmente. Proclame agora: “Acionarei a lei da prosperidade de maneira maravilhosa em minha vida!” Diga com freqüência: “Abençôo e faço prosperar cada pessoa de minha

família. Dou graças, louvo e exalto Deus em meu marido, esposa e em meus filhos. Abençôo tudo que eles estão fazendo. Abençôo todos os presentes que dou. Sei que é mais abençoado dar do que receber. Abençôo meu negócio. Rezo e abençôo meus empregados, fregueses e todas as pessoas. Meu trabalho prospera, se multiplica, aumenta e me volta mil vezes maior.”

COMO PROMOVER A VIDA ABUNDANTE

 

SEI QUE prosperar significa crescer espiritualmente em tu do. Deus está me fazendo prosperar agora na mente, corpo e afazeres. As idéias de Deus afloram constantemente em mim, proporcionando saúde, riqueza e perfeita expressão Divina.

Emociono-me interiormente ao sentir a Vida de Deus vitalizando cada átomo de meu ser. Sei que a Vida de Deus me anima, sustenta e fortalece agora. Estou expressando um corpo perfeito e radiante, cheio de vitalidade, energia e poder.

Minha empresa ou profissão é uma atividade Divina; como é uma atividade de Deus, é bem-sucedida e próspera. Imagino e sinto uma plenitude interior operando por meu corpo, mente e afazeres. Agradeço e me regozijo na vida abundante.

A VIDA ABUNDANTE

 

“OLHAI os LÍRIOS do campo; não aram a terra e não tecem; mas Salomão, em toda a sua glória, não foi tão magnífico quanto um deles.” Sei que Deus está me fazendo prosperar por todos os caminhos. Estou agora levando a vida abundante porque creio num Deus de abundância. Estou abastecido de tudo o que contribui para a minha beleza, bem-estar, progresso e paz. Experimento todos os dias os frutos do espírito de Deus que habita em mim; aceito o meu bem agora; caminho na compreensão de que todo o bem me pertence. Estou em paz, equilibrado e sereno. Estou integrado com a fonte da vida; todas as minhas necessidades são atendidas, em cada momento. Levo agora todas “as taças vazias” ao Pai interior. A plenitude de Deus se manifesta em todos os setores da minha vida. “Tudo o que o Pai tem é meu.” Regozijo-me que assim seja.

COMPRAR E VENDER

 

ESTOU CONSCIENTE de que existe uma lei perfeita da oferta e demanda. Adoto a regra áurea em todas as minhas atividades. Estou em paz. Qualquer coisa que eu deseje vender é uma idéia na Mente de Deus. O Princípio do Conhecimento Total existe em mim. Sei prontamente de tudo o que preciso. Sei que qualquer coisa que eu deseje comprar ou vender representa um intercâmbio de idéias na Mente Divina dentro de mim. Sei que há satisfação, harmonia e paz mútuas. O preço é certo; as pessoas são certas; tudo está em perfeita ordem. Conheço a Verdade; compreendo a Verdade e sou a consciência de Deus em ação. Todas as idéias de que preciso afloram constantemente dentro de mim, em seqüência e combinação perfeitas. Recebo e regozijo-me com as idéias Divinas e as entrego a meus semelhantes; recebo idéias em troca. A paz está comigo. Não há protelação na Mente Divina; aceito o meu bem.

DINHEIRO — IDÉIA DE DEUS

 

SEI QUE O dinheiro é uma idéia da Mente Divina. Simboliza riqueza; aceito-o como um meio de troca. Todas as idéias de Deus são boas. Deus criou todas as coisas; proclamou que a sua criação era boa e muito boa. O dinheiro é bom; eu o uso sensatamente, criteriosamente, construtivamente. Eu o uso para abençoar a humanidade. É um símbolo muito conveniente; regozijo­me por sua circulação. As idéias de Deus estão instantaneamente disponíveis sempre que delas preciso. O dinheiro me está sempre disponível; tenho um excedente Divino. Deus é minha fonte de suprimento; é meu suprimento agora; riquezas de todos os tipos fluem para mim em avalanches de abundância. Há apenas Um Deus e Uma Mente; cada idéia na Mente de Deus é Espiritual. Meu relacionamento com dinheiro é amistoso. É um símbolo da Riqueza de Deus, de sua Abundância Infinita. A idéia de dinheiro é onipresente; estou integrado a toda riqueza do mundo. Uso-a para o bem apenas e agradeço a meu Pai pelo suprimento.

A RIQUEZA ME PERTENCE

 

DEUS É MINHA fonte de suprimento e estou integrado nesse suprimento Infinito. Todas as minhas necessidades são prontamente atendidas, em todos os momentos e em todos os pontos do espaço. Manifesto a abundância agora em todas as minhas atividades. Sou entrada e saída da Mente de Deus. Não tenho medo e sou livre. Proclamo e sinto o Espírito da prosperidade. Sirvo a meus semelhantes com alegria e amor; atraio todo o bem pela Lei Imutável da atração. Não há escassez, pois Deus é a Fonte de tudo. Sou governado e abastecido por Deus. Levo todos os meus recipientes vazios ao Depósito Infinito interior; o Eu-Deus enche a todos; há um excedente Divino. A Lei Divina responde à minha fé. Minha fé e confiança se depositam em Deus e não há base melhor.

CAPACIDADE DE REALIZAR

 

SEI INSTANTANEAMENTE de tudo o que preciso saber, pois a Inteligência Infinita me leva e orienta em todos os caminhos. Sou a consciência de Deus em ação. Tenho absoluta confiança nesse Deus interior. As idéias certas afloram continuamente em mim, em seqüência perfeita, regularidade infalível. Sou inspirado do Alto; estou permanentemente me projetando para cima e para a frente. Estou continuamente com Deus. “Em sua presença há plenitude de alegria; em sua mão direita há prazeres para sempre.” Estou sempre alegre. Tenho a capacidade e

o poder para realizar. Qualquer coisa que eu concebo, posso consumar. Sou a atividade de Deus, e essa atividade é sempre boa. Estou sempre transmitindo as idéias de Deus a meus semelhantes, proporcionando alegria e felicidade. Estou agora expressando e manifestando a Luz, que é Deus. Estou sempre alerta, ativo e feliz. Obrigado, Pai!

ORAÇÃO PARA O SEU NEGÓCIO

 

HABITO AGORA na Onipresença e Oniação de Deus. Sei que essa Sabedoria Infinita guia os planetas em sua fonte. Sei que essa mesma Inteligência Divina governa e dirige todas as minhas atividades. Proclamo e creio que a compreensão Divina me pertence em todos os momentos. Sei que todos os meus afazeres são controlados por essa Presença permanente. Todos os meus motivos são Divinos e sinceros. A sabedoria, verdade e beleza de Deus expressam-se por meu intermédio em todas as ocasiões. Aquele Que Tudo Sabe dentro de mim sabe o que fazer e como fazer. Minha empresa ou profissão é completamente controlada, governada e dirigida pelo amor de Deus. A orientação Divina é minha. Conheço a resposta de Deus, pois minha mente se encontra em paz. Repouso no Seio Eterno.

PROBLEMAS DE NEGÓCIOS

 

SEI E CREIO que meu empreendimento é o empreendimento de Deus; Deus é meu sócio em todos os meus negócios. Para mim, isso significa que Sua luz, amor, verdade e inspiração povoam a minha mente e coração em todos os caminhos. Resolvo todos os meus problemas ao depositar confiança absoluta no Poder Divino interior. Sei que essa Presença me sustenta em tudo. Repouso agora na segurança e paz. Neste dia estou cercado pela compreensão perfeita; há uma solução Divina para todos os meus problemas. Compreendo a todos; sou compreendido. Sei que todos os meus relacionamentos profissionais estão de acordo com a Lei Divina da Harmonia. Sei que Deus habita em todos os meus fregueses e clientes. Trabalho harmoniosamente com os outros para que a felicidade, a prosperidade e a paz reinem supremas.

PRINCÍPIO NOS NEGÓCIOS

 

MEU EMPREENDIMENTO é o empreendimento de Deus. Estou sempre trabalhando no empreendimento do Pai, que é o de irradiar Vida, Amor e Verdade a toda a humanidade. Estou me expressando plenamente agora; estou distribuindo meus talentos de uma maneira maravilhosa. Sou Divinamente compensado.

Deus está fazendo prosperar meu empreendimento, profissão ou atividade, de maneira maravilhosa. Proclamo que todos aqueles em minha empresa são vínculos espirituais em seu crescimento, bem-estar e prosperidade; sei disso, creio nisso, regozijo-me que assim seja. Todos os que se relacionam comigo prosperam Divinamente e são iluminados pela Luz.

A Luz que ilumina todos os homens do mundo me leva e orienta por todos os caminhos. Todas as minhas decisões são controladas pela Sabedoria Divina. A Inteligência Infinita revela-me melhores caminhos para servir à humanidade. Repouso eternamente no Senhor.

COMO RESOLVER SEUS PROBLEMAS

 

“QUAISQUER QUE sejam as coisas que deseje, quando ora, creia que as receberá e lhe serão concedidas.” Sei que um problema possui a sua solução interior, sob a forma de um desejo. A realização do meu desejo é boa, é muito boa. Sei e creio que o Poder Criativo interior possui

o poder absoluto de promover o que desejo profundamente. O Princípio que me proporcionou o desejo é o Princípio que me proporciona a sua realização. Não há absolutamente qualquer dúvida em minha mente sobre isso.

Cavalgo agora o cavalo branco que é o Espírito de Deus nas águas da minha mente. Desvio a atenção do problema e me concentro na realidade do desejo realizado. Estou usando a Lei agora. Assumo o sentimento de que minha oração é atendida. Torno real ao sentir sua realidade, N’Ele eu vivo e tenho a minha existência. Vivo nesse sentimento e dou graças.

PASSOS PARA O SUCESSO

 

“QUE TODOS SAIBAM que estou empenhado nas atividade de  meu Pai.” Sei que meu empreendimento, profissão ou afazer é também de Deus. E tudo o que Deus faz é basicamente bem-sucedido. Estou crescendo em sabedoria e compreensão todos os dias. Sei, creio e aceito o fato de que a Lei da Abundância de Deus está sempre operando por mim, por meu intermédio, ao meu redor.

Meu empreendimento ou profissão segue sempre com a ação e a expressão certas. As idéias, dinheiro, mercadorias e contatos de que preciso estão ao meu alcance, agora e em todas as outras ocasiões. Todas essas coisas me são irresistivelmente atraídas pela Lei da Atração Universal. Deus é a vida do meu empreendimento; sou Divinamente orientado e inspirado em todos os caminhos. A cada dia deparo com oportunidades maravilhosas de crescer, expandir e progredir. Estou irradiando boa vontade. Sou um grande sucesso, porque trabalho com os outros assim como gostaria que trabalhassem comigo.

LEI DO SUCESSO

 

SOU A CONSCIÊNCIA de Deus em ação. Sei que é Deus operando por meu intermédio, pois Deus opera através do homem. “A Lei do Senhor é perfeita.” Há um resultado perfeito para todas as minhas atividades. Meu trabalho é sempre bem-sucedido porque é a obra de Deus, que é perfeita e divina. Tenho instantaneamente tudo o que preciso, porque sou abastecido e governado por Deus, Sempre sei como obter tudo o que preciso. “Meu Deus atenderá a todas as suas necessidades, conforme suas riquezas na glória.” Estou repleto de paz, harmonia e alegria. Irradio Amor Divino para toda a humanidade. Estou agora identificado com o sucesso; estou atraindo para mim, de acordo com uma Lei Imutável, as circunstâncias, condições, idéias, finanças e todas as coisas necessárias para a realização de meus planos. Sou Divinamente conduzido por todos os caminhos. Deus me faz prosperar na mente, corpo e negócios. Vou dormir todas as noites me sentindo bem-sucedido e feliz. “Deus concede a seu amado no sono.” Obrigado, Pai.

O ESPÍRITO PROGRESSIVO

 

“AQUELES QUE O adoram devem fazê-lo em espírito e verdade.” Contemplo agora o fato de que a Inteligência Infinita habita dentro de mim. Há uma Bondade Universal, que está por toda parte, ativa e presente: estou integrado em Deus, na vida, no universo, e em todas as coisas. A Ação de Deus está ocorrendo agora em todas as minhas atividades. Prospero na mente, corpo e negócios. Compreendo que a Lei da Vida é de progressão; estou crescendo Espiritualmente, de maneira maravilhosa. Estou sintonizado com o Infinito e Deus é meu Parceiro. O sucesso me pertence agora, pois estou identificado com

o sucesso e a prosperidade. Regozijo-me por ver todos os homens crescendo da maneira certa. Regozijo-me pelo sucesso de todos. O Espírito do bem flui de mim para toda a humanidade. Tenho confiança e paz. Estou iluminado pela Luz interior. A Compreensão Divina é um lampião que me ilumina o caminho, os Braços Eternos sempre prontos para me amparar.

DESCOBERTA DO PODER

 

VOCÊ DESCOBRIRÁ as profundas reservas de poder no momento em que assumir que existem e se comportar como se estivesse convencido daquela grande verdade: “Aquele que persevera até o fim será salvo.”

O sucesso, a resposta à sua oração, a solução que procura, qualquer coisa virá na medida em que você perseverar. Nunca desista; jamais aceite um “Não” como resposta. Avance sempre. O atleta que está disputando uma corrida muitas vezes se cansa, fica exausto, prestes a desistir. Rejeita totalmente o pensamento de fracasso ao convocar o Poder-Deus para renovar suas forças; ocorre então uma mudança espetacular. Uma grande onda de força e vitalidade o envolve. Os psicólogos dizem que é o “segundo fôlego”.

Não pare antes de alcançar o segundo fôlego ou jamais descobrirá o Poder Oculto. O Poder que move o mundo está dentro de você. Aja convencido disso e vai promover milagres em sua vida, transcendendo a seus sonhos mais delirantes.

“Mas aqueles que esperam no Senhor renovarão suas forças; subirão com asas como águias; correrão e não se cansarão; hão de caminhar sem desfalecer,” (Isaías, 40:31)

ALCANÇANDO MEU OBJETIVO

 

“RECONHEÇA O SENHOR em todos os caminhos e Ele iluminará os seus passos.” Meu conhecimento de Deus e da maneira como Ele opera está aumentando cada vez mais. Controlo e oriento todas as minhas emoções por canais serenos e construtivos. O Amor Divino enche todos os meus pensamentos, palavras e ações. Minha mente está em paz; estou em paz com todos os homens. Estou sempre relaxado e à vontade. Creio implicitamente na orientação do Espírito Santo interior. Essa Inteligência Infinita em mim revela-me o plano perfeito de expressão; eu o executo com confiança e alegria. O objetivo que tenho em mente é bom, é muito bom. Plantei em minha mente a semente da realização. O Poder Todo-Poderoso opera agora por minha conta; é a luz em meu caminho.

COMO DISPENSAR UM TRATAMENTO

O TRATAMENTO espiritual significa que você recorre ao Deus Interior e lembra a si mesmo de sua paz, harmonia, plenitude, beleza, amor infinito e Poder ilimitado. Saiba que Deus o ama e cuida de você, Ao orar dessa maneira, o medo gradativamente se desvanecerá. Se orar por um problema de coração, não pense no órgão como doente, pois não seria um pensamento espiritual. Os pensamentos são coisas. Seu pensamento espiritual assume a forma de células, tecidos, nervos e órgãos. Pensar em um coração avariado ou pressão alta tende a acarretar mais do que você já tem. Deixe de pensar nos sintomas, órgãos ou qualquer parte do corpo. Concentre a mente em Deus e seu amor. Sinta e saiba que só existe uma Presença e Poder curativo, assim como em seu corolário: Não há poder para desafiar a ação de Deus.

Proclame com serenidade e amor que o Poder da Presença curativa está fluindo por você, deixando-o absolutamente saudável. Saiba e sinta que a harmonia, beleza e Vida de Deus se manifestam em você como força, paz, vitalidade, beleza, plenitude e ação certa. Tenha uma compreensão

Glorifique a Deus em seu corpo. (I Coríntios, 6:20)

USANDO O SEU TRAJE

ENCONTREI DEUS no santuário de minha alma. Deus é Vida; essa vida é minha vida. Sei que Deus não é um corpo; não tem forma, não tem idade; vejo Deus na imaginação. Através da compreensão, vejo Deus da mesma maneira que a solução de um problema matemático,

Elevo-me agora para consciência de paz, equilíbrio e poder. O sentimento de alegria, paz e boa vontade dentro de mim é na verdade o Espírito de Deus; é Deus em ação; é o Todo-Poderoso. As coisas externas não possuem o poder de me afetar; o único Poder se encontra em minha própria mente e consciência.

Meu corpo é o traje de Deus. O Espírito Vivo Todo-Poderoso está dentro de mim; é absolutamente puro, sagrado e perfeito. Sei que esse Espírito Santo é Deus e que este Espírito flui por mim agora, curando e tornando meu corpo saudável, puro e perfeito. Tenho poder total sobre o meu corpo e meu mundo.

Meus pensamentos de paz, poder e saúde possuem

o Poder de Deus para se realizarem dentro de mim agora. “Abençoados os puros de coração, pois verão a Deus.” Tenho visto e sentido sua Sagrada Presença.É maravilhoso!

TRATAMENTO CURATIVO

 

AS DÁDIVAS de Deus me pertencem. Estamos reunidos na Presença de Deus, de que fluem todas as bênçãos. Aproveito cada momento deste dia para glorificar a Deus. A Harmonia, Paz e Abundância de Deus me pertencem. O Amor Divino que flui de mim abençoa a todos que me cercam. O Amor de Deus é sentido por todos os presentes e os está curando neste momento.

Não temo o mal, porque Deus está comigo. Estou sempre cercado pelo Círculo Sagrado do Amor e Poder de Deus. Proclamo, sinto, sei e acredito, absolutamente, que

o encantamento do Amor e Vigilância de Deus me guia, cura e protege todas as pessoas de minha família, todas as pessoas que eu amo.

Perdôo a todos e irradio com profunda sinceridade o Amor, Paz e Bondade de Deus aos homens, por toda parte. No centro do meu ser existe Paz; é a Paz de Deus. Nessa Serenidade, sinto a sua Força e Orientação, o Amor de sua Presença Divina. Sou Divinamente orientado por todos os meus caminhos. Sou um canal aberto para o Amor, Luz, Verdade e Beleza de Deus. Sinto o Seu Rio de Paz correndo por mim. Sei que todos os meus problemas se dissipam na Mente de Deus Os caminhos de Deus são os meus caminhos. As palavras que pronuncio alcançam o seu objetivo. Regozijo-me e dou graças, sabendo que minhas orações são atendidas. Assim seja.

COMO APLICAR O PRINCÍPIO CURATIVO

 

“E RESTAURAREI a sua saúde e curarei os seus ferimentos”, disse o Senhor. O Deus em mim possui possibilidades ilimitadas. Sei que todas as coisas são possíveis com Deus. Creio nisso e aceito agora com toda sinceridade. Sei que o Poder-Deus em mim transforma as trevas em luz e endireita o que está torto. Sou elevado na consciência ao saber que Deus habita em mim.

Falo agora para a cura da mente, corpo e negócios. Sei que esse Princípio interior reage à minha fé e confiança. “O Pai tudo faz.” Estou agora em contato com a vida, amor, verdade e beleza dentro de mim. Integro-me agora no Princípio Infinito do Amor e Vida dentro de mim. Sei que a harmonia, saúde e paz se expressam agora em meu corpo.

À medida que vivo e ajo na pressuposição de minha saúde perfeita, esta se torna uma realidade. Imagino e sin-to a realidade do meu corpo perfeito. Estou dominado por uma sensação de paz e bem-estar. Obrigado, Pai.

ORAÇÃO CURATIVA COLETIVA

 

ESTAMOS reunidos na Presença de Deus. Só há Um Deus, Uma Vida, Uma Lei, Uma Mente e Um Pai — nosso Pai. Somos todos irmãos, pois temos um Pai comum.

Saúdo a Divindade em cada pessoa nesta manhã. O Amor de Deus flui por mim para todos os presentes e para todas as pessoas, em toda parte. Acredito e sei que o Poder e a Inteligência Onipotente do Infinito fluem por todas as pessoas aqui presentes e que cada uma está absoluta e definitivamente curada, física e mentalmente. Sei que a Ação Certa Divina está ocorrendo em cada célula, órgão, tecido e função de cada pessoa, manifestando-se como paz, harmonia e saúde.

Creio que a Orientação Divina está sendo agora experimentada por todos nesta congregação. Deus — o Grande Conselheiro — leva a cada um por caminhos de felicidade e trilhas de paz.

As palavras que pronuncio agora alcançarão o seu objetivo e levarão a prosperidade a todos os lugares a que chegarem. Regozijo-me agora e entro num ânimo de graças, sabendo que minha oração de fé se realiza.

VISÃO PERFEITA

 

MEUS OLHOS são os olhos de Deus e enxergo perfeitamente. A Inteligência Viva que fez meus olhos está agora controlando o processo e função dos olhos e de todo o meu corpo, Creio e sei que minha visão é Espiritual, eterna e indestrutível. “Mesmo por um olho só, seu corpo estará repleto de luz.” Isso significa que vejo somente a Verdade; amo a Verdade; conheço a Verdade. Vejo Deus em todos os homens e em todas as coisas. Vejo Espiritualmente, mentalmente, fisicamente. Meus olhos refletem a Glória, Beleza e Perfeição de Deus. Deus contempla através de meus olhos, vendo as suas idéias de Perfeição. Meus olhos são as janelas da alma; são puros e se concentram permanentemente no Amor, Verdade e Beleza. O Poder Harmonizador, Curativo e Vitalizante do Espírito Santo impregna cada átomo, célula, nervo, tecido e músculo de meus olhos, tornando-os puros e perfeitos. O padrão Divino e perfeito se manifesta agora em meus olhos, cada célula e cada átomo se conformam ao padrão de perfeição. Obrigado, Pai.

OLHOS E OUVIDOS

Sou O SENHOR que me cura. Minha visão é espiritual, eterna e uma qualidade da minha consciência. Meus olhos são idéias divinas e estão sempre funcionando perfeitamente. Minha percepção da Verdade espiritual é clara e firme. A luz da compreensão raia em mim; vejo mais e mais da Verdade de Deus a cada dia que passa. Vejo espiritualmente; vejo mentalmente; vejo fisicamente. Vejo imagens de Beleza e Verdade por toda parte.

A Presença Curativa Infinita está agora, neste momento, reconstituindo meus olhos. São instrumentos perfeitos e divinos, permitindo-me receber mensagens do mundo interior e do mundo exterior. A Glória de Deus revela-se em meus olhos.

Ouço a Verdade; amo a Verdade; conheço a Verdade. Meus ouvidos são idéias perfeitas de Deus, funcionando perfeitamente, em todas as ocasiões. Meus ouvidos são os instrumentos perfeitos que me revelam a Harmonia de Deus. O Amor, a Beleza e a Harmonia de Deus fluem por meus olhos e ouvidos; estou sintonizado com o Infinito. Ouço a Voz Serena de Deus dentro de mim. O Espírito Santo aguça minha audição e meus olhos permanecem abertos e livres.

MEDICAMENTO ESPIRITUAL

 

“UM CORAÇÃO alegre faz tão bem quanto um medicamento, mas um Espírito alquebrado resseca os ossos.” Estou sempre alegre, ativo e dinâmico. Estou sempre propagando as idéias de Deus a meus semelhantes e lhes proporciono paz, alegria e felicidade. “Em sua presença há uma plenitude de alegria; em sua mão direita há prazeres para a eternidade.” “A alegria do Senhor é a minha força.” Estou sempre animado, livre e transbordando de felicidade. Tenho domínio sobre todas as coisas em meu mundo; sinto minha integração com Deus, a vida, o universo e todas as coisas. Sou perfeitamente ajustado em termos emocionais. Medito como todas as coisas são belas, boas, maravilhosas e Divinas. A Paz de Deus é minha e agito a dádiva de Deus que é a alegria. Sou um filho do Deus Vivo e “todos os filhos de Deus proclamam a sua alegria”!

UM TRATAMENTO ESPIRITUAL

TUDO É Espírito e a manifestação do Espírito, Minha vida é a Vida de Deus; sou perfeito agora. Todos os meus órgãos são idéias de Deus, a me beneficiarem. Sou um ser espiritual; sou um reflexo perfeito do Deus Perfeito. Sinto e sei que sou perfeito em todas as coisas; sou Espiritual, Divino e Sagrado. Estou integrado em meu Pai e meu Pai é Deus. Expresso harmonia, paz e alegria. Todo o crescimento em meu corpo e todas as minhas atividades são regidas pela Inteligência Infinita, que é o Princípio Ativo, Onisciente e Ordeiro chamado Deus. Sei que estou integrado na Sagrada Onipresença, cada átomo, tecido, músculo e osso do meu ser está impregnado com a Radiância da Luz Ilimitada. Meu corpo é o corpo de Deus; sou integral e perfeito. Sou uma parte de Deus. Minha mente está inundada pela paz que transcende à compreensão e tudo está bem. Eu agradeço, Pai.

O TEMPLO SAGRADO

 

“AQUELES QUE forem plantados na casa do SENHOR florescerão nos jardins de nosso Deus.” Estou tranqüilo, em paz. O coração e a mente estão motivados pelo espírito da bondade, verdade e beleza. Meu pensamento fixa-se agora na Presença de Deus interior; isso proporciona serenidade à minha mente.

Sei que a criação é o Espírito agindo por si mesmo. Meu Verdadeiro Eu age por si mesmo, criando paz, harmonia e saúde em meu corpo e atividades. Sou Divino no eu mais profundo. Sei que sou um filho do Deus vivo; crio como Deus cria, pela autocontemplação do espírito. Sei que meu corpo não age por si mesmo. É acionado por meus pensamentos e emoções.

Digo agora a meu corpo: “Esteja tranqüilo.” O corpo deve obedecer. Compreendo isso e sei que é uma Lei Divina. Afasto minha atenção do mundo físico; deleito-me na Casa de Deus interior. Medito sobre harmonia, saúde e paz, que provêm da Essência-Deus interior. Estou em paz. Meu corpo é um templo do Deus Vivo. “Deus está em seu Templo Sagrado; que toda a terra se mantenha em silêncio na sua presença.”

SUA SAÚDE

 

DEUS ANDA e fala em mim. Ele é meu Deus e é Perfeito. O Espírito em mim é sempre Perfeito, Saudável, Feliz e Completo em Si Mesmo. Sou o reflexo da Glória e Beleza do Deus Perfeito. A Luz do Que É Para Sempre brilha por meu intermédio e ao redor de mim; cada átomo do meu ser se movimenta ao ritmo do Deus Eterno. Meu coração é alegria; oferece um semblante animado. Minhas palavras são como um favo de mel; são doces à minha alma e saudáveis ao meu corpo. A Luz de Deus brilha através de meus olhos; o Amor de Deus aflora em meu coração. Sei que faço todas as coisas que me fortalecem através de Cristo. Meu corpo é o corpo de Deus; é perfeito agora. O Eu Divino interno me proporciona neste momento saúde perfeita, felicidade e harmonia. Deus me mantém em perfeita paz. “Pai, agradeço porque me ouviu. E sei que sempre me ouvirá.”

ORAÇÃO DA SAÚDE

 

JESUS DISSE: “A fé restaurou sua saúde.” Acredito absolutamente no Poder Curativo de Deus dentro de mim. Meu consciente e subconsciente estão de perfeito acordo. Aceito a verdade do que proclamo absolutamente. As palavras que falo são as palavras do espírito e são a verdade.

Determino agora que o Poder Curativo de Deus está transformando todo o meu corpo, tornando-o saudável, puro e perfeito. Creio com uma certeza interior absoluta que minha oração de fé está se manifestando agora. Sou guiado pela Sabedoria de Deus em todas as coisas. O Amor de Deus fluí em beleza e amor transcendentais em minha mente e corpo, transformando, restaurando e revitalizando cada átomo do meu ser. Sinto a paz que transcende à compreensão. A Glória de Deus me envolve e descanso para sempre nos Braços Eternos.

O PODER DE DEUS

 

O PODER que eleva, cura e fortalece da Presença Curativa está agora restaurando cada órgão de meu corpo. Deus em mim é Poderoso para curar, fortalecer, purificar, revitalizar e me tornar absolutamente perfeito.

Deposito uma confiança total no Espírito Santo, que é a Presença de Deus em mim. Sei que essa Presença Divina está promovendo a ordem em todos os aspectos da minha vida. Assumi “o homem novo, que Deus criou na probidade e santidade da verdade”.

Vejo e sei que a Vida de Deus se manifesta agora em minha carne. Vejo Deus em todo o meu ser; proclamo que a Harmonia de Deus se manifesta agora em mim como força, pureza, beleza, saúde, perfeição e juventude eterna.

O Poder do Espírito rejuvenescedor opera agora em cada célula e fibra do meu ser, tornando-me puro, vigoroso e radiante com a Vida e Integridade Divinas. Em cada momento de minha vida estou me tornando mais forte, mais saudável, mais feliz e mais jovem. A Energia Revigorante da Vida de Deus flui por mim agora; sinto­me maravilhoso.

A DÁDIVA DE DEUS

 

“UM CORAÇÃO alegre torna um semblante jovial.” O Espírito do Todo-Poderoso impregna cada átomo do meu ser, tornando-me saudável, alegre e perfeito. Sei que todas as funções do meu corpo reagem a essa alegria interior aflorando em mim. Estou agora elevando a dádiva de Deus dentro de mim; sinto-me maravilhoso. O óleo da alegria e iluminação unge a minha mente e acende um lampião em meu caminho.

Estou agora perfeitamente ajustado em termos emocionais; há um equilíbrio Divino funcionando em minha mente, corpo e atividades. Resolvo expressar daqui por diante paz e felicidade para todas as pessoas que encontrar. Sei que minha felicidade e paz vêm de Deus; à medida que distribuo Sua luz, amor e verdade a outros, também estou abençoando a mim mesmo, de incontáveis maneiras. Irradio o sol do Amor de Deus a toda a humanidade. Sua Luz brilha através de mim e ilumina o meu caminho. Estou determinado a expressar paz, alegria e felicidade.

O BÁLSAMO CURATIVO DO AMOR

 

“POR ESTA saibam todos os homens que serão meus discípulos se se amarem uns aos outros.” Deus é o Amor Absoluto. Assim, a resposta é dada antes que o apelo se faça. O Amor de Deus flui através de mim agora; estou cercado pela Paz de Deus; tudo está bem. O Amor Divino me cerca, envolve e abrange. Esse Amor Infinito está gravado em meu coração, inscrito em meu íntimo. Irradio amor em pensamento, palavras e ações. O amor unifica e harmoniza todos os poderes, atributos e qualidades de Deus dentro de mim. Amor significa alegria, paz, liberdade, bem-aventurança e louvor. Amor é liberdade. Abre portas de prisões e liberta todos os cativos. Irradio amor para todos, pois cada um representa o Amor de Deus. Saúdo a Divindade no outro. Creio e sei que o Amor Divino me cura agora. O amor é um princípio que me guia; traz para a minha experiência relações perfeitas e harmoniosas. Deus é Amor, “Aquele que habita no amor habita em Deus, e nele Deus habita.”

A VERDADEIRA AMIZADE

 

ENCONTREI O meu Companheiro Divino e Ele é Deus. Instalou-se em meu coração. Anda comigo; fala comigo; diz-me que sou seu. É maravilhoso! Encontrei meus amigos Espirituais interiores; seus nomes são amor, alegria, paz, gentileza, bondade, fé, humildade e moderação. São os únicos amigos importantes. Constituem o verdadeiro Poder Todo-Poderoso de Deus. Tendo encontrado os amigos interiores, eu agora atraio por uma Lei Imutável as pessoas que se integram comigo espiritualmente. Irradio amizade e amor para o mundo inteiro. Amo e sou amado por todos. Amo as pessoas; estou interessado em seu bem-estar e felicidade. Sei que todos os homens são meus irmãos. Dou o melhor de mim às pessoas; em troca, elas encontram alegria e prazer em minha presença e companhia. Estou agora atraindo amigos maravilhosos pela Lei Universal do Amor; Deus é Amor. Beijo a Deus agora, num abraço mental, pois Ele é meu Amado.

MEU COMPANHEIRO DIVINO

EU E MEU PAI somos um só. Sei que Deus é a minha própria vida. Sinto-me seguro agora, pois sei que a Vida, Amor e Verdade estão dentro de mim, Nunca estou sozinho. Deus está sempre comigo. “Seu bastão e seu cajado me confortam.” Essa Presença Interior, o Eu-Deus, habita e fala em mim. Encontrando meu Verdadeiro e Eterno Companheiro dentro de mim, jamais estou carente de amigos maravilhosos externamente. Deus é a Plenitude de todas as coisas. Meu Amigo Divino é mais íntimo do que a respiração; está mais próximo do que mãos e pés. Irradio amor e amizade para o mundo inteiro e o mundo reage da mesma forma. Sou afetuoso; sou bom. Tenho agora um companheiro maravilhoso. Esse companheiro se integra comigo mental e espiritualmente, por todos os meios. É maravilhoso! O Amor de Deus flui por meus pensamentos, palavras e ações. Assim por dentro, assim por fora. Encontrei meu Companheiro Divino interior e agora o reconheço no exterior.

O CORAÇÃO AGRADECIDO

 

“E UM DELES voltou ao ver que estava curado e glorificou a Deus, elevando a voz. E prostrou-se a seus pés, agradecendo.” (Lucas, 17:15, 16) “Ore sem cessar. Em tudo dê graças.” (I Tessalonicenses, 5:17, 18)

Concedo o reconhecimento supremo à Presença de Deus dentro de mim. Agradeço sinceramente por todas as bênçãos recebidas. Agradeço por todo o bem em minha vida; vivo no sentimento de regozijo agradecido. Meu coração grato produz a magia da resposta divina. Em todos os dias da minha vida agradeço pelo conhecimento das leis da mente e dos caminhos do Espírito. Sei que a gratidão é primeiro um movimento do coração, seguido por um movimento dos lábios. Meu coração abre a casa do tesouro do Infinito dentro de mim e manifesta a fé no atendimento de minhas orações. Sou sinceramente grato, porque encontrei Deus em mim. “Procurei o Senhor, Ele me ouviu e me livrou de todos os medos.” Aquele que possui um coração agradecido está sempre sintonizado com o Infinitivo e não pode suprimir a alegria que deriva de contemplar Deus e sua Sagrada Presença. Agradeça por tudo.

COMO PERDOAR

O PERDÃO deve ocorrer em seu coração e mente para ser genuíno. Perdoar é dar. Dê a si mesmo o sentimento de amor e boa vontade, em vez do ânimo de ira, ressentimento ou ódio. A atitude mental governa a sua experiência. Mantenha a mente pura, equilibrada, serena e transbordando com a expectativa do melhor. Se sentir ressentimento contra outra pessoa, estará lhe dando poder demais e prejudicando a si mesmo. Perdoar é mudar o pensamento e mantê-lo mudado. Use a técnica seguinte ao perdoar: faça uma oração pela outra pessoa, com toda sinceridade e fervor, mencionando seu nome. Ore assim: “Deus o faz prosperar, A Paz de Deus enche a sua alma; ele é inspirado e abençoado em todos os caminhos,” Regozije-se porque a Lei de Deus está funcionando por ele, através dele e ao seu redor. Continue até que seu coração e mente estejam tão repletos de amor que não haja mais espaço para o ressentimento. E agora você está livre.

O AMOR LIBERTA

 

DEUS É AMOR e Deus é Vida; essa Vida é única e indivisível. A vida se manifesta nas e através das pessoas; está no centro do meu ser.

Sei que a luz dissipa as trevas e da mesma forma o amor do bem supera todo o mal. Meu conhecimento do poder do Amor supera agora todas as condições negativas. Amor e ódio não podem habitar juntos. Acendo agora a Luz de Deus sobre todo o medo ou pensamentos ansiosos em minha mente, obrigando-os a fugir. A manhã (luz da verdade) surge, e as trevas (medo e dúvida) fogem.

Sei que o Amor Divino vela por mim, guia e abre os caminhos. Estou me expandindo para o Divino. Estou agora expressando Deus em todos os meus pensamentos, palavras e ações; a natureza de Deus é Amor. Sei que o “Amor perfeito expulsa o medo”.

O LUGAR SECRETO

“AQUELE QUE habita no lugar secreto do Altíssimo estará à sombra do Todo-Poderoso.”

Habito no lugar secreto do Altíssimo; é a minha mente, Todos os meus pensamentos são de harmonia, paz e boa vontade. Minha mente é a morada da felicidade, alegria e um profundo senso de segurança. Todos os pensamentos que me entram na mente contribuem para a minha alegria, paz e bem-estar geral. Vivo e tenho o meu ser no clima de amizade, amor e unidade.

Todos que habitam em minha mente são filhos de Deus, Estou em paz na mente com todas as pessoas da minha casa e toda a humanidade. Desejo para todos os homens o mesmo bem que desejo para mim. Estou vivendo na casa de Deus agora. Tenho a paz e felicidade, pois sei que habito na casa do Senhor para sempre.

SUBINDO CADA VEZ MAIS ALTO

 

NÃO HÁ MEDO no Amor. “O Amor Perfeito expulsa o medo,” Possuo agora uma compreensão interior profunda que me permite controlar todas as circunstâncias de minha vida. Estou agora no comando. Contemplo a Presença Divina dentro de mim; compreendo que sua Vida, Amor e Alegria fluem através de mim. Há uma nova exuberância em meus passos; há uma nova luz em meus olhos. Sou iluminado pela Luz d’Aquele Que É Para Sempre. Habito no Amor. Sou elevado para um nível superior de consciência; sinto as Belezas e Glórias Interiores de Deus. Deixo hoje o Amor me manter em paz e harmonia. Sinto o ritmo do universo; cada átomo do meu ser se movimenta ao ritmo do Deus Eterno. Minha visão se concentra na Luz, Amor e Verdade; sou Divinamente conduzido por todos os caminhos. Meus olhos estão em Deus e minha percepção é perfeita agora. Vejo Deus por toda parte. “Cheguei agora e habitarei em você”, disse o Senhor.

COMO ATRAIR O

MARIDO IDEAL

 

SEI QUE ESTOU integrado em Deus agora. N’Ele vivo e tenho o meu ser. Deus é vida; essa vida é a vida de todos os homens. Somos todos filhos do mesmo Pai.

Sei e creio que há um homem esperando para me amar e respeitar. Sei que posso contribuir para sua felicidade e paz. Ele ama meus ideais e eu amo seus ideais. Ele não quer me dominar e eu não quero dominá-lo. Há mútuo amor, liberdade e respeito.

Há uma só mente; eu o conheço agora nessa mente. Estou me integrando agora com as qualidades e atributos que admiro e quero que sejam expressados por meu marido. Integro-me na mente, já nos conhecemos e amamos na Mente Divina. Vejo o Deus nele; ele vê o Deus em mim. Depois de conhecê-lo dentro, devo encontrá-lo fora; pois essa é a lei da minha mente.

Essas palavras se irradiam e se realizam onde são enviadas. Sei que já está consumado em Deus. Obrigada, Pai.

COMO ATRAIR
A ESPOSA IDEAL

 

DEUS É UM E indivisível. N’Ele amamos e existimos. Sei e creio que Deus habita em cada pessoa. Estou unido a Deus e a todas as pessoas. Atraio agora a mulher certa, que está em completo acordo comigo. É uma união espiritual, porque é o Espírito de Deus operando através da personalidade de alguém com quem combino perfeitamente. Sei que posso dar a essa mulher amor, luz e verdade. Sei que posso tornar a vida dessa mulher plena, completa e maravilhosa.

Proclamo agora que ela possui as seguintesqualidades e atributos: é espiritual, leal, fiel e sincera. É harmoniosa, serena e feliz. Somos irresistivelmente atraídos um pelo outro. Somente o que pertence ao amor, verdade e plenitude pode entrar em minha experiência. Aceito agora a minha companheira ideal.

COMO REALIZAR MEU DESEJO

 

MEU DESEJO é a Voz de Deus me falando. É o murmúrio de meu coração. Sei que todas as coisas são possíveis com Deus. Deus é meu Eu-Profundo — o Espírito Informe e Invisível dentro de mim. Tomando consciência do desejo, sei que deve existir no Invisível para mim. Sei que é meu direito neste momento. Aceito em minha própria consciência. Sei que agora liberei o desejo para a Lei Criativa, que é a fonte de toda Criação. A Lei Criativa está dentro de mim; é meu subconsciente. Sei quando a idéia ou desejo gravados no meu interior devem ser expressos. Sei que o sentimento é a lei e a lei é o sentimento. Sinto que sou agora o que desejo ser. Ao contemplar agora o meu desejo, obtenho a reação que o satisfaz. Regozijo-me pelo senso de posse. Todo o meu ser se regozija pela realidade do desejo realizado. Estou em paz. Exulto e dou graça. “Está feito.”

A RESSURREIÇÃO DO MEU DESEJO

 

MEU DESEJO de saúde, harmonia, paz, abundância e segurança é a voz de Deus falando por meu intermédio. Opto por ser feliz e bem-sucedido. Sou orientado por todos os caminhos. Abro a mente e coração ao fluxo do Espírito Santo; estou em paz. Atraio pessoas bem-sucedidas e felizes para a minha experiência. Reconheço apenas a Presença e Poder de Deus dentro de mim.

A Luz de Deus brilha por meu intermédio e ilumina tudo ao meu redor. A emanação do Amor de Deus flui de mim; é uma radiância curativa para todos que surgem em minha presença.

Assumo agora o sentimento de ser o que quero ser. Sei que o caminho para ressuscitar meu desejo é permanecer fiel a meu ideal, sabendo que um Poder Todo-Poderoso opera por minha conta. Vivo nesse ânimo de fé e confiança; dou graças que assim seja; pois está definido em Deus e tudo está bem.

O SANTO HOMEM

 

(Adaptado de a Sombra Sagrada)

HÁ MUITO e muito tempo havia um Santo Homem, tão bom que os anjos surpresos vinham do céu para verificar como alguém podia ser tão divino. Ele levava sua vida cotidiana a irradiar amor, da mesma forma que a estrela difunde luz e as flores exalam perfume, sem mesmo estar consciente disso. Duas palavras resumiam o seu dia: ele dava e perdoava. Mas essas palavras nunca saíam de seus lábios expressavam-se em seu sorriso fácil, bondade, amor e boa vontade.

Os anjos disseram a Deus: “Ó Senhor, conceda-lhe o dom dos milagres.” Deus respondeu: “Concordo. Perguntem a ele o que deseja.”

“E então, o que você deseja?”, indagaram os anjos.

“O que posso desejar?”, perguntou o Santo Homem, sorrindo. “Deus já me concedeu Sua graça. Com isso, não tenho tudo?” Os anjos insistiram: “Deve pedir um milagre ou algum lhe será imposto.” “Está bem”, disse o Santo Homem. “Que eu possa fazer muito bem sem jamais saber.” Os anjos ficaram profundamente desconcertados. Reuniram-se e combinaram o seguinte plano: cada vez que a sombra do Santo Homem ficar para trás ou para qualquer lado, de tal forma que ele não possa vê-la, a sombra deve ter o poder de curar doenças, aliviar a dor e confortar o pesar.

E assim aconteceu. Quando o Santo Homem andava, sua sombra no chão, em qualquer lado ou por trás, fazia com que as trilhas áridas se tornassem verdejantes, levava as plantas murchas a desabrocharem, trazia água cristalina a córregos secos, cor saudável a criancinhas pálidas, alegria a mães infelizes. O Santo Homem prosseguia em sua vida cotidiana a irradiar amor, assim como a estrela difunde luz e a flor exala perfume, sem jamais ter consciência disso.

E as pessoas, respeitando sua humildade, seguiam-no em silêncio, jamais falando de seus milagres. Pouco a pouco, até esqueceram seu nome, passando a chamá-lo apenas de “O Santo Homem”.

COMO ORAR COM UM BARALHO

 

NINGUÉM CONHECE realmente a origem do misterioso e fascinante baralho moderno. Há uma lenda antiga sobre a origem das cartas de jogar, relatando que há muitos milhares de anos os sábios chineses reuniram-se, sob a liderança do maior de todos, a fim de discutir o problema apresentado por legiões de brutais invasores, que saqueavam e destruíam a Terra. A questão a ser resolvida era a seguinte: “Como poderemos preservar a sabedoria antiga da destruição nas mãos dos invasores?”

Houve muitas sugestões. Alguns achavam que os pergaminhos e símbolos antigos deveriam ser enterrados nas Montanhas do Himalaia. Outros sugeriram que a sabedoria fosse guardada em mosteiros no Tibet. Ainda outros ressaltaram que os templos sagrados da Índia eram os lugares ideais para a preservação da sabedoria de seu Deus.

O líder dos sábios manteve-se em silêncio durante toda a discussão. Chegou até a dormir no meio das conversas, roncando tão alto que deixou a todos consternados. Despertou pouco depois e declarou:

— Tao [Deus] deu-me a resposta e é a seguinte: chamaremos os grandes artistas pictóricos da China, homens dotados com a imaginação divina (que é a oficina de Deus), e lhes diremos o que desejamos realizar. Vamos iniciá-los

nos mistérios da Verdade. Eles reproduzirão em imagens as grandes verdades que preservaremos por todos os tempos e por incontáveis gerações que ainda nascerão. Quando eles acabarem a representação das grandes Verdades, Poderes, Qualidades e Atributos de Deus, através de uma série de cartões, revelaremos ao mundo que um novo jogo foi criado. Os homens do mundo inteiro, através dos tempos, usarão essas cartas como uma forma de jogo de acaso, sem saber que através desse artifício simples estarão preservando os ensinamentos sagrados para todas as gerações.

Essa teria sido a origem de nosso baralho. Muitos pesquisadores acham que as cartas de jogar são originárias do Egito, de onde derivou o nome gypsies (ciganos), uma tribo de nômades que viajou pelo mundo inteiro, lendo a mão e adivinhando o futuro pelas cartas, entre muitas outras coisas. Na verdade, não tem importância se o baralho é originário da China,Índia ou Egito. O que interessa é que as cartas representam as mais profundas verdades psicológicas e espirituais. De um modo geral, concorda-se que as nossas cartas são derivadas das antigas cartas do Tarô, que teriam sido criadas por místicos hebreus para representar simbolicamente como as Leis de Deus operam no cosmo e no homem. Consistem de varas, taças, espadas e pentagramas. Das 76 cartas do Tara, 22 são chamadas de “trunfos”. Há uma letra ou palavra hebraica atribuída a cada carta, com um significado específico e definido.

Pode-se compreender o significado interior da Bíblia pelo conhecimento do alfabeto hebraico e da ciência do simbolismo. Os antigos diziam que se todas as Bíblias do mundo fossem destruídas ainda se poderiam ressuscitar as Verdades Eternas e as Leis da Vida, através das imagens e do simbolismo das cartas do Tara, das quais derivaram as nossas cartas, As cartas têm sido usadas erroneamente ao longo dos tempos para propósitos de adivinhação, mas não resta a menor dúvida de que o objetivo original das cartas era transmitir ao homem as profundas verdades místicas. A adivinhação por diversos meios persiste ao longo dos tempos. Moisés condenou os arúspices, augures e os que depositavam fé em sons e vozes. Quando damos atenção a profecias do mal, estamos na verdade rejeitando a Causa Primeira — Deus, o Espírito Interior.

Devemos conceder suprema autoridade e reconhecimento à Presença de Deus interior e nos tornarmos os verdadeiros profetas, prevendo apenas o bem. Nosso ânimo, o sentimento interior e convicção da Presença de Deus e sua Bondade Eterna se manifestarão em nosso mundo. Nossos ânimos e convicção são nossos profetas. O que sentimos por dentro como verdade experimentamos no mundo exterior. Se começamos com Deus e compreendemos que Ele reina supremo em nossas mentes, só pode haver um resultado, o bem, pois Deus e

o Bem são sinônimos. O começo e o fim são sempre os mesmos. Comece com Deus como Poder Supremo e Amor Ilimitado e estará sempre certo do futuro. O futuro é sempre o presente desenvolvido. É o pensamento que se torna visível. Você pode estar absolutamente certo de seu futuro se plantar agora, hoje, as coisas que sejam verdadeiras, nobres e Divinas no Jardim de Deus — a sua própria mente.

Você molda, define e orienta o seu próprio destino. O futuro já existe em sua mente e pode ser mudado através da oração, meditação e visão mística. Você pode sofrer uma lavagem cerebral e ser induzido por outros a acreditar em terríveis predições de infortúnio e perda. Mas não se esqueça de que assim abdicou de sua autoridade e permitiu que os pensamentos  se tornassem negativos,

No instante em que você instala um rival de Deus em sua mente, está procurando e pedindo dificuldades. A fé em Deus e no Seu Amor é a sua sorte; daqui por diante, creia e viva na constante expectativa do melhor. O que é verdade para Deus também é para você. E isso é maravilhoso’,

Descrição do Baralho Moderno

Há 52 cartas e uma carta extra a que se dá o nome de “curinga”. O baralho está encapado e lacrado. É preciso romper o lacre para usar as cartas. Isso é simbólico do homem, pois cada um de nós é um livro lacrado. O homem aloja Deus — é o tabernáculo do Deus Vivo. Dentro do homem está a Presença de Deus. Toda a Sabedoria, Inteligência e Poder do Infinito estão nas profundezas do homem, esperando para emergirem. O homem deve romper o lacre e tomar conhecimento do esplendor aprisionado dentro de si. Quando o homem descobre os poderes do consciente e subconsciente, a lei da ação e reação, rompeu o lacre e começa a compreender que os pensamentos são coisas, que atrai o que sente e experimenta o que acredita. Se você pensa de uma maneira determinada, persistentemente, grava uma impressão ou conceito no subconsciente. Torna-se assim uma força subconsciente a governar suas ações exteriores.

O homem revelado é Espírito, Mente. Quando pensa em si mesmo fora de seu corpo, nome, nacionalidade, lar e ambiente, o que você é? Despoje-se agora de seu corpo

O curinga ou joker é a carta extra, sendo geralmente rejeitada. Mas é claro que adquire um valor maior quando se está fazendo um jogo. O curinga é Deus e geralmente é rejeitado pelo homem, porque o homem comum tem um Deus exterior — uma espécie de ser antropomórfico, vivendo no céu, uma Divindade vingativa. Ou então tem um conceito vago e confuso de Deus, baseado na ignorância, medo e superstição. O homem comum rejeita o curinga ou Deus Interior; refuta o fato de que sua própria consciência é Deus para o seu mundo e que cria e molda seu futuro pelos pensamentos e sentimentos que acalenta.

Quando você usa o curinga ou Poder Oculto interior, amplia tudo em sua vida. Comece a usar o Poder Divino interior e aumente a sua saúde, paz, felicidade e alegria; este é o significado do curinga. Não podemos negligenciar

o Poder Espiritual interior. Se não oramos, meditamos e comungamos com Deus, se não absorvemos as suas Verdades, então mergulhamos no clima negativo do mundo, manifestando-se em medo, guerra, rumor de guerra, desumanidade do homem com o homem, problemas de negócios, manchetes de jornais e assim por diante. Se continuamos a nos alimentar mentalmente com todos os tipos de problemas, doenças, calamidades, tais pensamentos alcançam um ponto de realização interior, resultando em precipitação de doença e de todos os distúrbios em nossas vidas.

Não compensa rejeitar a Pedra da Verdade. “A Pedra que os construtores rejeitaram é a base de tudo.” Instale Deus de volta no trono de sua mente, afirme a sua orientação, torne-se reabastecido, do ponto de vista da Verdade e Beleza.

São 52 cartas, e a soma é o algarismo “7″. Há 52 semanas no ano, que representam o fim de um ciclo solar. O ciclo também ocorre em nossa mente. Quando você acalenta uma idéia, abastece-a mentalmente e se torna absorvido em sua realidade, a idéia passa do consciente para o subconsciente. O ciclo está completo, porque você gravou no subconsciente o conceito, idéia, plano ou propósito. Tudo o que está gravado no subconsciente será manifestado e o ciclo se realiza. A gravação no subconsciente é chamada de “sexto dia”; ou seja, seu ato mental e emocional está completo. Segue-se o repouso, o “sétimo dia”, ou o dia do descanso em Deus. Há sempre um intervalo entre a impressão do subconsciente e a manifestação exterior de sua oração — este período de tempo é conhecido como Sabá ou certeza interior, que acompanha a alegria da oração atendida.

O baralho consiste de quatro naipes: paus, espadas, copas e ouros. Simbolizam a natureza espiritual, mental, emocional e física do homem. Os quatro naipes representam também as quatro letras do nome de Jeová, que são Yod-He-Vau-He. Yod significa Eu Sou Deus ou o Espírito interior. He é seu desejo ou imagem mental. Vau significa o sentimento e o He final é a manifestação exterior do que você viu e sentiu interiormente como verdadeiro, em sua própria mente. Em termos simples do cotidiano, significa que qualquer idéia, conceito ou imagem mental que você acalenta em sua mente, se sentir e reconhecer, vai experimentar o resultado, quer seja negativo ou positivo.

Os quatro naipes estão lhe ensinando como orar, pois esta é a maneira como você promove em sua vida todas as experiências, condições e eventos. É a maneira como todas as coisas se tornam manifestas em seu mundo. Não há nada que você experimente que não suceda assim.

Cada Naipe de Treze Cartas

 

Três cartas em cada naipe são figuras — rei, dama e valete. As outras dez são numeradas, de ás ou um a dez. O rei, a dama e o valete representam a Trindade, o Pai, Mãe e Filho, que aparecem simbolicamente em todas as grandes religiões do mundo. Em termos simples do cotidiano, a idéia ou pensamento que você tem é o pai, o sentimento é a mãe, e a união das duas produz um filho mental, que pode ser a cura da mente, do corpo ou de um problema profissional. A resposta simples, assim como a oração simples, é sempre a melhor.

Outra explicação para o rei é a de que você nasceu para ser um rei sobre a sua própria mente, corpo e circunstâncias. O consciente iluminado é rei, pois ordena, dirige e dá instruções para a dama, o subconsciente ou natureza subjetiva. O valete representa o seu desejo, idéia ou plano ainda não manifesto. Assim, deve haver uma união do consciente e subconsciente com seu desejo. Se ambos estiverem de acordo, o desejo poderá se consumar e nada será impossível.

Há dez cartas numeradas. Explicarei o dez rapidamente: “1″ representa o masculino e “o” o feminino. A união dos dois resulta no ato criativo, em termos mentais e espirituais, assim como físicos. As dez cartas numeradas representam a integração harmoniosa do consciente e subconsciente nas quatro fases de sua vida — espiritual, mental, emocional e material. As virtudes do dez são infinitas. O dez significa Deus em diferenciação infinita, pois você pode acrescentar zeros incontáveis ao algarismo um.

As Figuras

As figuras são duplas, indicando a nossa natureza dupla; vivemos num mundo mental e espiritual, mas também num mundo objetivo ou tridimensional. Quando

o mundo exterior nos desagrada, podemos ir para o reino da mente, orando e nos identificando com o nosso ideal, alimentando-o através da permanência freqüente na mente, até que ele se concretize. Quando isso acontece, o exterior e o interior se tornam um só, estamos em paz. Mudamos o exterior pela mudança do interior. O exterior é sempre um reflexo do interior. “Assim por dentro, assim por fora,” Há duas extremidades num bastão, um interior e um exterior em tudo. Vida é uma Unidade funcionando como uma dualidade; há noite e dia, fluxo e refluxo, paz e angústia, doença e saúde, objetivo e subjetivo, invisível e visível, positivo e negativo, matéria e espírito, bem e mal. Os opostos são expressões duplas do mesmo princípio eterno, que é para sempre pleno e perfeito por si mesmo.

Os Ornamentos

Os reis têm barbas, que simbolizam a Sabedoria e Poder de Deus. As coroas representam a autoridade e supremacia do Espírito operando na mente do homem. O rei de ouros com a mão levantada indica sua fidelidade a Deus — o Único Poder, Por trás dele há um machado, sugerindo que a lei do subconsciente é sempre exata, matemática e justa. “Assim como semeamos, também colheremos.” O machado também é indicativo da reação negativa da lei, se violamos a harmonia ou a ordem divina em nossa vida. Pense o mal e o mal sucede; pense o bem e o bem sucede

— esta é a lei. O rei de copas com a espada na mão indica a espada da Verdade. “Não pense que vim trazer paz à terra; não vim para trazer a paz e sim a espada.” (Mateus 10:34)

A Verdade surge em sua mente para dividi-la e separar os detritos das Verdades de Deus. A Verdade o separa das falsas convicções raciais, dirimindo assim todas as divergências e instalando a paz em seu coração. O rei de copas penetrou seu coração (subconsciente) com as Verdades Eternas. As três espadas empunhadas pelos reis de paus, espadas e copas possuem bainhas que representam a tocha da Verdade, erguida em todas as fases de nossa vida, mental, emocional e física.

O naipe de paus representa seus pensamentos e idéias, copas, o seu sentimento ou natureza emocional, espadas, a convicção profunda com que você planta idéias no subconsciente, e ouros, o mundo, a consumação exterior de seus pensamentos, sentimentos e convicções. Em outras palavras, você tem a história da oração descrita de muitas maneiras num baralho. Examinando as quatro damas em seu baralho, vai notar que elas seguram uma flor, o símbolo da pureza, amor, beleza, ordem, simetria e proporção. Copas é o cálice do Amor e Beleza de Deus. Lembra-nos que devemos encher nossos corações com o Amor de Deus e as flores da beleza, paz, alegria e felicidade aparecerão na Terra — nosso mundo.

A dama de espadas (o sentimento dominante no subconsciente) empunha uma tocha. É a Luz que ilumina cada homem que vem ao mundo. Lembra que a Inteligência Infinita de Deus está nas profundezas de seu subconsciente e que com essa Luz você pode andar pelas trevas. Quando os sentidos lhe dizem que alguma coisa é impossível, você vê por uma Luz interior, seus olhos se fixam na solução

que a Sabedoria de Deus lhe trará, ao ter fé. Deixe que essa tocha brilhe eternamente em sua cabeça.

O valete de espadas empunha uma ampulheta, indicando que estamos nos deslocando através do tempo e espaço neste plano tridimensional e que qualquer idéia que você transmitir ao subconsciente vai suceder à sua maneira e no seu próprio tempo, porque seus caminhos são misteriosos. Lembre-se de que os caminhos do subconsciente não são os seus caminhos e você não sabe a hora ou o dia — isso é um segredo do subconsciente. A pena que o valete de copas segura e o machado por trás de sua cabeça falam simbolicamente da Lei e do Verbo — a pena é o seu conceito ou idéia, e a lei o executa. Cuide para que o seu objetivo se conforme ao bem geral e não prejudique a ninguém. Quando estiver em dificuldade, pense em Deus e em sua resposta. Somente Ele conhece a resposta — é a “pena” que o salva.

As vestimentas das figuras são lindas e elegantes, indicando as sete cores do espectro solar. O branco é a pureza, plenitude e perfeição de Deus. O branco é chamado de mãe de todas as cores. As cores nas cartas nos falam da Presença imaculada interior. O vermelho indica desejo purificado e divindade. O escarlate representa o entusiasmo e absorção de Deus. O púrpura indica a realeza ou a Sabedoria de Deus reinando suprema em nossa mente. O verde é a abundância de Deus, as idéias e pensamentos proveitosos. O azul indica o subconsciente ou a Lei de Deus. O amarelo indica o Poder, a Força e a Glória do Infinito.

Números de Cartas em Cada Naipe

Há treze cartas em cada naipe para nos lembrar nossos doze poderes, doze faculdades. Você e   seus doze

poderes estão simbolizados pelo número treze. Devemos todos desenvolver e disciplinar esses doze poderes, a fim de que um homem à imagem e semelhança de Deus surja na terra, destampando os ouvidos dos surdos, abrindo os olhos dos cegos e fazendo todas as coisas que um filho de Deus deve fazer.

Há quarenta cartas numeradas. Noé passou quarenta dias na arca, Jesus jejuou por quarenta dias — todas essas histórias são simbólicas do jejum do banquete envenenado dos pensamentos raciais, falsos conceitos e da absorção mental do bem que queremos realizado. O prazo que você leva para se desligar de seu problema e alcançar uma convicção na mente é chamado de quarenta dias ou conclusão de um ciclo da consciência. Jejue dos pensamentos de pobreza e se banqueteie com a Abundância de Deus — rejeite a aparência das coisas, os veredictos ou opiniões dos outros, concentre toda a sua atenção na idéia da Opulência de Deus. Gradativamente, você qualifica sua consciência, quer leve uma hora, uma semana ou um mês. Mais cedo ou mais tarde, conseguirá impregnar o subconsciente com a idéia de riqueza. Jejue por quarenta dias e experimentará a riqueza de Deus em seu mundo.

As varetas seguradas pelo valete de paus e o valete de ouros indicam uma medida ou côvado. O homem é mente ou medidor. Você deve medir e apropriar em sua mente a Bondade Infinita e o Amor de Deus, pois seu conceito de Deus é o conceito de si mesmo. Acalente seu ideal, ame-o, torne-o vivo; terá então um padrão espiritual para medir todas as coisas.

Gostaria de falar sobre a folha pendente no valete de paus. O naipe de paus representa as idéias, planos e propósitos em sua mente, o diagrama ou planta. Vai notar como o valete de paus se inclina.  Trata-se de humildade,

conferindo toda honra e glória a Deus. Nossa atitude deve ser a seguinte: “Pai, eu agradeço porque me ouviu; sabia que sempre me ouviria.” (João 11:41)

De um modo geral, todos concordam que os valores numéricos, quantidades matemáticas, cores e simbolismos das cartas possuem uma relação muito grande com a pirâmide. Os antigos místicos que criaram as cartas, há milhares de anos, sabiam de tudo a respeito da rotação da Terra sobre o seu eixo e foram capazes de medir o céu e a Terra, o que está representado nas cartas e na pirâmide. Homens como Jó perceberam intuitivamente as leis escritas em nossos corações e gravadas em nosso interior. “Onde você estava quando eu lançava os fundamentos da terra? Responda, se tem entendimento. Quem deu as medidas, se por acaso sabe? Ou quem estendeu a linha por cima? Em que se apoiam os fundamentos? E quem fixou a pedra, angular?” (Jó 38:4-6)

POR QUE ISSO ACONTECEU COMIGO?

 

Não se lembre das coisas passadas nem considere as antigas. (Isaías 43:18) … Mas uma coisa eu faço, esquecendo as coisas que estão para trás e avançando para o que está à frente,prosseguindo para o meu objetivo..

(Filipenses ,3:13,14)

O QUE UM HOMEM semeia haverá de colher. Isso significa que se plantarmos pensamentos de paz, harmonia, saúde e prosperidade colheremos de acordo; e se semearmos pensamentos de doença, carência, necessidade e privação, também colheremos essas coisas. Devemos lembrar que o subconsciente é como o solo; faz crescer e germinar o tipo de semente que plantamos no jardim da mente. Semeamos pensamentos, em termos bíblicos, quando acreditamos neles piamente; e manifestamos tudo aquilo em que realmente cremos no fundo de nossos corações.

Eu tinha uma amiga que estava de cama, doente. Fui visitá-la num hospital em Londres e ela me disse:

— Por que isso aconteceu comigo? O que fiz para merecer uma coisa assim? Por que Deus está zangado comigo? Por que está me punindo?

Os amigos comuns me contaram que ela era generosa e profundamente espiritual, um dos esteios da igreja e muitas outras coisas.

É verdade que ela era uma excelente pessoa, sob muitos aspectos, mas acreditava na realidade de sua doença e de que se tratava de um problema incurável. Estava convencida de que seu coração era governado por leis próprias, independente de seu pensamento. Era a sua convicção, e naturalmente a demonstrava, Mas mudou a sua convicção e começou a compreender que o corpo era espiritual; ao mudar a mente, também mudava o corpo. Cessou de conferir poder à doença em seu pensamento e passou a orar da seguinte maneira: “A Presença Curativa Infinita flui por mim como harmonia, saúde, paz, plenitude e perfeição. O Amor Curativo de Deus habita cada célula do meu ser.” Repetiu a oração com freqüência e teve uma cura maravilhosa, em decorrência da mudança de convicção. Essa mulher viveu por vários anos no temor de um ataque cardíaco, sem compreender que o medo faz com que a maioria das coisas aconteça,

A lei da vida é a lei da convicção. Um problema de qualquer espécie é o sinal de alarme da natureza de que estamos pensando de maneira errada; e somen­te uma mudança no pensamento pode nos libertar. O homem é convicção expressa (Quimby) e manifestamos as coisas em que realmente acredita. Há uma lei de causa e efeito atuando em todos os momentos. Nada acontece ao homem sem o seu consentimento e participação mental. Você não precisa pensar num acidente para que lhe aconteça.

O Dr. Paul Tournier, famoso psiquiatra francês, escreveu sobre um homem que cortou a mão com uma serra e atribuiu o suposto acidente ao fato de a madeira estar molhada. O Dr. Tournier sabia que havia uma causa mental e emocional por trás do grave ferimento na mão do homem. Descobriu que ele andava irritado com o patrão. Além disso, sentia considerável rancor e hostilidade contra um patrão anterior, que o despedira. O Dr. Tournier explicou ao homem que a irritação e a perturbação emocional fazem com que os movimentos se tornem descoordenados e bruscos, o que acarretara o acidente.

Lemos o seguinte no Capítulo 13 de Lucas: Naquela mesma ocasião alguns homens procuraram Jesus t falaram dos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com os seus sacrifícios. E Jesus lhes disse: Devemos pensar que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus porque padeceram tais sofrimentos? Não eram e eu lhes garanto: se não se arrependerem, todos acabarão perecendo da mesma forma. Ou aqueles dezoito que morreram quando a torre de Siloé desabou eram por acaso mais pecadores do que todos os outros habi­

tantes de Jerusalém? Não eram e eu lhes garanto: se não se arrependerem, todos acabarão perecendo da mesma forma.

Jesus negou categoricamente que as vítimas de tais calamidades fossem pecadores piores do que os outros homens e acrescentou: Se não se arrependerem, todos acabarão perecendo da mesma forma. Infortúnios, acidentes e tragédias de todos os tipos são conseqüências de distúrbios mentais e emocionais que se manifestaram. Arrependimento significa pensar de maneira diferente, voltar a Deus e alinhar os seus pensamentos e imagens mentais com a Vida Infinita, Amor, Verdade e Beleza de Deus. Quando isso acontece, passamos a ser canais para o Divino.

Relaxe a mente várias vezes por dia e afirme, devagar, com absoluta convicção: “Deus flui por mim como harmonia, saúde, paz, alegria, plenitude e perfeição. Deus caminha e fala em mim. O encantamento de Deus me envolve sempre e a Sabedoria de Deus me guia em todos os caminhos, a ação Divina certa sempre prevalece. Todos os meus caminhos são aprazíveis, todas as minhas trilhas são de paz.”

À medida que você se fixa nessas verdades eternas, estabelece padrões de Ordem Divina em seu subconsciente. Como tudo o que você imprime no subconsciente se manifesta, estará velado em todos os momentos por uma Presença Suprema, o seu Pai Celestial, que responde sempre que é chamado.

Todos estamos imersos na mente racial, o grande mar psíquico da vida. A mente racial acredita em doença, acidente, morte, infortúnios e tragédias de todos os tipos. Se não nos arrependermos, isto é, se não tivermos o nosso próprio pensamento, a mente racial assumirá o nosso pensamento. Gradativamente, os pensamentos da mente racial, dominando o nosso consciente, podem alcançar um grau de saturação e precipitar um acidente, doença súbita ou calamidade. A maioria das pessoas não pensa, apenas pensa que pensa. Você está pensando quando diferencia entre o que é falso e o que é verdadeiro. Pensar é optar. Você possui a capacidade de dizer sim ou não. Diga sim à Verdade, rejeite tudo o que for contrário a Deus ou à Verdade, Se o instrumento mental não pudesse optar, você não seria um indivíduo. Possui a capacidade de aceitar e rejeitar. Pense em todas as coisas belas, em todas as coisas justas, em todas as coisas honestas, em todas as coisas puras… pense nessas coisas.

Você está pensando quando sabe que existe uma Inteligência Infinita que responde a seus pensamentos. Não importa qual seja o problema, à medida que você pensa numa Solução Divina e um final feliz, descobrirá uma sabedoria subjetiva interior a responder, revelando o plano perfeito e indicando o caminho que deve seguir.

Fui procurado por uma mulher há vários meses. Ela me disse que tinha uma lesão orgânica há muitos anos, não conseguia a cura. Já fizera os mais diversos tratamentos, inclusive de irradiação. Orara e procura­ra a terapia da oração de outros, sem resultados. Ela me declarou:

— É a vontade de Deus. Sou uma pecadora, es tou sendo punida.

Também me contou que procurara um homem que a hipnotizara, descobrira o seu passado e tivera a desfaçatez e audácia de dizer-lhe que era uma vítima do carma, que fizera mal a outras pessoas numa vida anterior, punindo-as injustamente, por isso estava agora sofrendo. E ela me perguntou, desesperada:

— Acha que é por isso que não fico curada?

Tudo isso não tem o menor sentido, é um absurdo monstruoso. A explicação do homem aumentou ainda mais a angústia da mulher, não lhe trazendo cura nem conforto. Expliquei-lhe a Verdade Eterna, que só existe um Poder e se chama Deus. É a Inteligência Criativa em todos nós, o que nos criou. Este Poder torna-se aquilo que acreditamos que é. Se uma pessoa pensa que Deus a está punindo e que deve sofrer, de acordo com o seu pensamento e convicção, assim será. Isso significa que os pensamentos e sentimentos da pessoa criam o seu destino. O homem é o que ele pensa durante o dia inteiro. Se um homem deixa de pensar de maneira construtiva, sensata e criteriosa, então outra pessoa ou a mente racial pensará por ele, talvez tumultuando completamente a sua vida.

Se você acredita que Deus é a Bondade Infinita, Amor Ilimitado, Harmonia Absoluta e Sabedoria Total, a Presença de Deus reagirá de acordo, pela lei do

relacionamento recíproco. Você se descobrirá, assim, abençoado de incontáveis maneiras. As forças da vida não são nefastas; tudo depende da maneira como as usamos. A energia atômica não é nociva; torna-se boa ou má de acordo com a maneira como a usamos. O homem pode usar a eletricidade para matar alguém ou para aspirar o pó do assoalho. Você pode usar a água para saciar a sede de uma criança ou afogá-la. O vento que sopra o navio para os rochedos também pode levá-lo são e salvo ao porto. Os usos de todas as coisas do mundo são determinados pelospensamentos do homem. É a mente do homem que decide o aproveitamento das forças do mundo. O bem e o mal são movimentos na mente do homem, relativos ao Poder Único, que é puro e perfeito. A Força Criativa está no homem. Não há poder no universo exterior, exceto o que lhe conferimos. A mulher a que me referi procurava justificativas e álibis para seu sofrimento. Procurava no mundo exterior, em vez de compreender que a causa estava e está sempre em seu subconsciente. Pedi-lhe que me descrevesse o seu relacionamento com os homens. Ela confessou que tivera uma ligação amorosa ilícita há cinco anos, sentira-se culpada e cheia de remorso. Este remorso insolúvel era o ferimento psíquico por trás de sua lesão orgânica. A mulher compreendeu que Deus não a estava punindo, era ela mesmo quem se punia, por seus pensamentos.A lesão era o pensamento consolidado que não conseguia eliminar. A Vida ou Deus não pune. Se você queima o dedo, a Vida trata de reduzir o edema, providencia uma pele nova e restaura a plenitude. Se você come algum alimento estragado, a Vida faz com que vomite e procura devolver-lhe a saúde perfeita. Os antigos diziam que o médico cobre a ferida e Deus a cura.

Em menos de uma semana desapareceram a lesão e os sintomas mórbidos que nenhum tratamento médico ou terapia de oração conseguia curar. Não há pior sofrimento do que uma consciência culpada, não pode haver nada mais destrutivo. Essa mulher passara cinco anos se punindo com seu pensamento destrutivo. A lesão rapidamente sumiu quando ela parou de se condenar e passou a proclamar que a Presença Curativa Infinita saturava todo o seu ser e que a Presença de Deus habitava em cada célula de seu corpo. Se você usasse de maneira errada o princípio da eletricidade ou da química, por cinqüenta anos, passando a usá-lo subitamente de modo correto, não diria que o referido princípio tinha um ressentimento contra você por causa disso. Da mesma forma, não importa por quanto tempo você tenha usado de modo errôneo a mente, de maneira negativa ou destrutiva; no momento em que passar a usá-la de modo correto, os resultados se seguirão. Não se lembre das coisas passadas nem leve em consideração as antigas. (Isaías 43:18)

Um homem procurou-me há alguns meses. Estava perdendo a visão gradativamente. Atribuía à falta de vitaminas, fatores  hereditários. Ressaltou que

o avô ficara  cego aos oitenta anos de idade. Ele pertencia a um culto estranho, cujo líder, depois de ler seu horóscopo, disse que os planetas se encontravam em configuração maléfica, sendo esta a causa de sua visão precária. Sabe-se hoje nos círculos que estudam os problemas psicossomáticos que os fatores psíquicos exercem enorme influência em todas as doenças. A miopia pode ser acarretada pelo funcionamento da mente. O tratamento dos fatores mentais e emocionais do indivíduo, em vez do olho, pode revelar o fator emocional básico, o motivo pelo qual o subconsciente está escolhendo uma aflição que tende a excluir tudo, exceto o que está imediatamente ao redor.

O Dr. Francis Dunbar declarou que determinadas reações emocionais podem fazer com que os músculos involuntários acarretem uma distorção do globo ocular. O homem me revelou, em conversa, que detestava a visão da sogra, que estava morando em sua casa. Sentia uma raiva reprimida. O sistema emocional não podia mais suportar a tensão, escolhendo os olhos como bode expiatório. A explicação foi a cura, nesse caso. Ficou surpreso ao saber que as emoções negativas, se persistentes, dominam o subconsciente; e sendo negativas precisam encontrar uma vazão negativa. As ordens negativas para o subconsciente, “Detesto a visão da minha sogra”, “Não quero mais vê-la”, foram aceitas como um pedido e se tornaram manifestas.

Ele providenciou para que a sogra fosse morar em outro lugar e orou por ela, encaminhando-a a Deus e lhe desejando todas as bênçãos do mundo. Sua vi­são começou a melhorar quase que imediatamente e duas semanas depois voltara ao normal. Ele sabia que perdoara a sogra, pois podia encontrá-la em sua mente e não experimentava mais qualquer desespero. Tentara justificar a vista em deterioração em termos de causas externas, em vez de em sua própria mente.

Uma deficiência de vitamina A pode causar a oftalmia, que é uma inflamação da conjuntiva ou do globo ocular. Mas isso pode acontecer em decorrência da ignorância, indiferença ou negligência da pessoa. A causa, nesse caso, seria a negligência e posteriormente um estado mental ou simplesmente uma carência de conhecimento. A vitamina A é onipresente e devemos ter inteligência para usá-la.

Você não pode se esquivar ou contornar a lei da mente. Tudo acontece conforme você acredita, e uma convicção é um pensamento na mente. Nenhum poder exterior ou entidade maléfica está tentando atraí-lo ou prejudicá-lo. As pessoas constantemente atribuem seus males ao clima, entidades maléficas, germes, vírus e dietas. O homem polui o ar com estranhas noções e falsas doutrinas. Se um homem acredita que a proximidade de um ventilador elétrico o deixará resfriado ou com torcicolo, esta convicção, quando aceita, passa a dominá-lo e logo se manifesta. É por isso que a Bíblia diz: De acordo com a sua fé, assim lhe sucede. O ventilador não tem o poder de deixá-lo com um torcicolo; é inofensivo. Sua fé pode ser usada de duas maneiras. Você pode ter fé num vírus invisível que provoca um resfriado ou pode ter fé no Espírito Invisível interior, fluindo por você como harmonia, saúde e paz.

Compreenda que Deus não pode ficar doente, e o Espírito em você é Deus; o que é verdade para Deus também é verdade para você. Acredite nisso e jamais ficará doente, pois de acordo com a sua fé (na saúde e felicidade), assim lhe sucede, Emerson escreveu: “Ele [o homem] pensa que seu destino é estranho, pois a união está oculta. Mas a alma contém o evento que ocorrerá. Afinal, o evento é apenas a concretização dos pensamentos e aquilo por que oramos sempre nos é concedido. O evento é a impressão de sua forma. Ajusta-se a você como a pele.” Este trecho consta do livro Destino, de Ralph Waldo Emerson.

O Demônio na Bíblia significa ignorância ou incompreensão. Seu mal é uma inversão do Princípio da Vida, que é Deus. Deus atua em nós como uma unidade e procura se expressar por intermédio de cada pessoa como beleza, amor, alegria, paz e Ordem Divina. A falsa idéia em sua mente é chamada de adversário, demônio, Satã e assim por diante. Os demônios que atormentam o homem são inimizade, discórdia, ódio, vingança, hostilidade, autocondenação e outras emoções negativas. Se o homem deixa de acreditar na bondade de Deus e num Deus de Amor, a extensão em que pensa assim pode muito bem ser o seu chamado demônio, a fonte de suas angústias, sofrimentos e infortúnios.

Recebi uma carta de uma mulher contando que sua filha assistia a uma briga numa rua de Nova York quando fora atingida por uma bala extraviada. Houvera necessidade de amputar dois dedos. Qual era a causa desse infortúnio? Seria a vontade de Deus? A ocorrência do acidente seria uma punição por seus pecados? A resposta se encontra na negativa a todas essas perguntas da mãe. Deus não julga nem pune; o bem e o mal são os movimentos da própria mente do homem. É um pensamento muito primitivo acreditar que Deus está nos punindo ou que um demônio nos tenta. Nosso estado de consciência está sempre se tornando manifesto. Homens, mulheres e crianças testemunham constantemente o nosso estado de consciência. E justamente esse estado de consciência é sempre a causa.

Não conhecemos o que está dentro da mente da moça, Se ela era cheia de ódio, ressentida, hostil, sempre se condenando, poderia atrair o infortúnio, Devemos lembrar que a maioria das pessoas não disciplina, controla ou orienta seu pensamento e imagens mentais por canais Divinos. O fracasso em pensar de maneira construtiva e harmoniosa, do ponto de vista do Poder Infinito, significa que deixam as mentes abertas à mente de massa irracional, sempre dominada por medos, ódios, invejas e todos os tipos de formulações negativas.

O fracasso do homem em pensar do modo certo é tão ruim quanto pensar negativa e destrutivamente. Lembro-me de um evento em minha infância na Irlanda. Um camponês esperou por trás de uma cerca todos os dias, durante mais de uma semana, a fim de atirar no proprietário das terras quando ele passasse. Um dia, quando se encaminhava para a cerca, tropeçou e caiu. O rifle disparou e ele foi atingido fatalmente. Não compreendi o motivo para isso na ocasião. Como os outros, pensei que fora simplesmente um acidente. Não há acidentes; há uma mente, um ânimo, um sentimento, por trás daquele carro, trem ou bicicleta, por trás também daquela arma. Aquele camponês manteve o assassinato em seu coração por um longo tempo e o subconsciente reagiu de acordo.

Nenhuma manifestação me ocorre, exceto a que eu, o Pai, projeto. O pai é o seu estado de consciência, seu próprio poder criativo Nenhuma experiência lhe ocorre se não houver antes uma afinidade em sua mente. Duas coisas antagônicas se repelem. Se você caminha e fala com Deus, se acredita que Deus o guia e que a Lei da Harmonia está sempre governando­o, então não pode estar num trem que se acidenta, porque a discórdia e a harmonia não convivem absolutamente. A mãe acrescentou em sua carta, como um post scriptum: “Minha filha não pode recuperar os dedos através da harmonia.” Não entendo por que as pessoas são tão incisivas e categóricas em suas declarações

de que um homem não pode fazer crescer uma perna ou um dedo que está faltando.

Quero citar um trecho do livro Ele Cura Hoje, de Elsie Salmon: “Mildred tinha três anos quando me foi trazida. Nascera sem a mão esquerda. O braço terminava numa ponta que não era maior do que um dedo indicador, bem acima do pulso. Um mês depois a ponta na extremidade do braço deformado dobrara de tamanho. Ao constatar esse desenvolvimento extraordinário, o pai comentou: ‘Tudo pode acontecer.’ No mês seguinte havia uma formação que parecia com um polegar. Na ocasião, julgamos que era de fato um polegar. Cerca de três meses mais tarde descobrimos que não era absolutamente um polegar. O Crescimento na extremidade do braço era a mão inteira, desabrochando como uma flor, diante de nossos olhos.”

Ela conclui com a declaração de que os céticos estão agora aceitando como um fato incontestável. Talvez devêssemos extrair uma lição do rinoceronte, Quando se retira os seus chifres e se corta as raízes,

o rinoceronte desenvolve novos chifres. Corte as pernas de um caranguejo e novas logo crescem. Se um homem acreditasse que pode desenvolver um novo dedo, perna ou qualquer outro órgão, poderia perfeitamente experimentar a sua convicção.

Vamos deixar de culpar os outros e procurar dentro de nós mesmos as causas para tudo.Acredite em Deus, acredite na bondade de Deus. Descobrirá assim que todos os seus caminhos são aprazíveis e todas as suas trilhas serão de paz. Você é a convicção manifesta.

VENENOS MENTAIS E

SEUS ANTÍDOTOS

HÁ VENENOS mentais, assim como físicos. Os venenos mentais são os pensamentos errados que operam clandestinamente na consciência, como um regato contaminado, para emergir anos depois em experiências erradas (doença, perda, infelicidade etc).

Li há algum tempo o relato de uma experiência científica realizada na Rússia. Seis gatos hipnotizados e condicionados receberam uma dose de cianureto de potássio, sem efeitos fatais. Outros seis gatos, descondicionados, tomaram a mesma dose e morreram. Se tivéssemos fé bastante no poder subjetivo de Deus dentro de nós poderíamos anular todos os venenos mortais, mentais ou de outro tipo.

O que é a profilaxia? O primeiro passo é não ter medo do câncer, tuberculose, artritismo ou distúrbio mental, a partir deste momento. O segundo passo é compreender que o estado é conseqüência do falso pensamento e não lhe conceder mais poder para con­tinuar a existir; você estará então exaltando Deus dentro de si. Isso acabará com toda a toxicidade em você ou na pessoa por quem está orando.

Proclame que o estado é “falso” e exalte Deus ao contemplar a solução perfeita, a beleza e a integridade manifestando-se no lugar do problema.

Entre os venenos mentais mais letais estão os seguintes: medo, ódio, autocompaixão, ressentimento, inveja, vingança, solidão, melancolia etc. Todos são ramificações do medo. O nome bíblico para o medo é um pensamento cego e falso chamado Golias. A palavra Golias significa um pensamento agressivo e dominador, que ostenta o seu poder, intimida, pressiona, assusta e induz você à submissão. Talvez você tenha medo de enfrentar esse criminoso em sua mente, Talvez receie os resultados e hesite em enfrentar abertamente essa ameaça sinistra e destruí-la.

É necessário assumir o papel de Davi para se livrar do criminoso chamado medo. Davi significa um homem que ama Deus, que sabe que só existe um único Poder Soberano, que é uma Unidade e não conhece divisões ou discórdias, cujo nome é Amor. Davi, que é a consciência da Presença e Poder de Deus, matou o gigante filisteu chamado Golias ou medo com uma pedra lançada de sua funda de pastor, O medo é uma sombra na mente, mantida pela ignorância e escuridão. Quando você analisa seu medo à luz da razão e da inteligência, descobre que ele não resiste e pronta­mente desaparece. Entre a prole do medo podemos destacar:

a) O ódio, que é na verdade o amor invertido ou mal-orientado, baseado na ignorância.

   b) Autocompaixão, que é na verdade o egocên trismo. Este veneno mental infiltra-se pela corrente san güínea psíquica, contaminando as fontes da esperan ça e fé, provocando a demência precoce, melancolia e outros problemas. O antídoto é encontrar o seu ou tro eu (Deus) e tornar-se intoxicado pela realização do amor a Deus. O senso de união com o Único Poder acarretará um novo nascimento, de paz, saúde, con fiança e força.

  c) O medo da velhice é outro veneno mental. A velhice não é a fuga dos anos, mas sim o amanhecer da sabedoria, verdade e beleza.

  d) A solidão é uma falta de amor. O que não tem amor sempre procura o amor, mas aquele que ama encontra o amor e a amizade por toda parte. O anti- doto é se apaixonar pelos companheiros de Deus em sua mente.Seus nomes são boa vontade, bondade, gen- tileza, paz, paciência,compreensão e interesse since­ro pelos outros. Irradie o Amor de Deus — uma por ção dupla do Espírito — sobre todos os que estão ao seu redor; estará imediatamente banindo a solidão. Deus também lhe concederá uma dupla recompensa e sua boa vontade se multiplicará.

O estado mental é o seu mestre. É um absurdo permitir que o medo cego, ignorante, estúpido e mons­truoso o domine e oriente as suas atividades. Considere­se bastante inteligente para permitir que isso aconteça. Por que não se tornar Davi? Assuma o papel. Pode estar certo de que lhe dará dividendos fabulosos. Davi significa que sua fé em Deus é maior do que o medo. O medo é a fé pelo avesso. O medo é um conglomerado de sombras escuras e sinistras em sua mente. Em suma, o medo é a fé na coisa errada. Torne-se um gigante espiritual, convoque Davi (que é a confiança em Deus) que se encontra em você. Ao mesmo tempo, convoque o Amor de Deus.

Os filhos da fé em Deus são amor, paz, gentileza, bondade, generosidade, alegria, equilíbrio, tranqüilidade e serenidade. Quando você compreende que só existe um Poder, uma Causa, o Criador, você lhe concede toda fidelidade, devoção e lealdade. Torna-se então Davi, amado de Deus. Davi (a consciência espiritual) não tinha armadura ou proteção material como se usava naquele tempo. Seu poder era a confiança no Deus dos seus pais, a certeza de que a Inteligência Infinita conhecia a resposta para qualquer problema.

Quando você proclama a orientação de Deus, sempre perceberá os pontos fracos na armadura de Golias ou na pessoa que o ameaça com terríveis desastres. Na verdade, porém, nunca é a pessoa que possui o poder para qualquer coisa, mas sim o pensamento em sua própria mente. Os inimigos são da sua própria casa (mente). E Davi enfiou a mão em sua bolsa e de lá tirou uma pedra, arremessando-a e acertando o filisteu na testa. A pedra penetrou pela carne e o filisteu tombou. (I Samuel 17:49)

A pedra é a sua convicção no Único Deus, Único Poder. Uma pedra é dura e impenetrável, o que significa que sua fé ou confiança no Poder Espiritual é inflexível. Em outras palavras, você se mantém imperturbável e irredutível em sua atitude, confia absolutamente em Deus. Com essa pedra ou convicção mental espatifa a testa do gigante chamado medo ou Golias. O medo tem a propensão para se gabar, e nisso reside a sua fraqueza. Davi (amor à Verdade) partiu com uma idéia: demonstrar a supremacia do Poder de Deus. Quando você se adianta com a certeza de que “um com Deus é maioria”, vai se descobrir guiado por todos os caminhos e se tornará o inevitável vencedor.

Não combata o medo com o medo; em vez disso, enfrente-o com uma declaração direta da Presença e Poder de Deus, o que torna o medo impotente. Diga a si mesmo: “O Senhor é minha luz e salvação; de quem terei medo? O Senhor é a força da minha vida; de quem terei medo?” (Salmo 27:1,2). Você tem medo de alguma doença que o invadiu? Perceberá que um pensamento errôneo em sua mente pode se gabar de sua pseudoforça, intimidando-o. Não permita que esses pensamentos o dominem. Enfrente-os e subjugue-os agora. Compreenda que toda discórdia é fabricada por sua própria mente; não é uma coisa que vem de fora. Você pode mudar sua mente ao compreender que a Presença curativa infinita que fez seu corpo o está curando agora. À medida que o fizer, conscientemente, estará promovendo uma reformulação dos padrões de pensamento no subconsciente; a cura será a conseqüência. Sua convicção mental atual determina o seu futuro e experiência.

Medite e ore sobre valores positivos e espirituais. Proclame o seu ideal, solução, saúde, ou paz de espírito sobre a base de que o Espírito interior é Supremo e Onipotente. Ao pensar na solução ou ideal com fé e confiança, você está condicionando sua mente a responder. Sua mente está cheia de confiança ou medo, de acordo com o que você lhe incutiu. Torne-se Davi, o pastor de rosto corado, partilhando e se apropriando de sua Divindade agora. Tenha a percepção de perseverar e saiba que encontrará na jornada da vida apenas as experiências que enviou à sua frente, consciente e inconscientemente. Envie Deus e seu Amor à frente; isso significa um ânimo de fé e confiança num Poder Todo-Poderoso que nunca falha. À medida que assim fizer, estará sendo Davi, a avançar com a armadura de Deus, conquistando a liberdade, paz de espírito e felicidade.

A história em Samuel relata que Davi cortou a cabeça de Golias. É o que o homem espiritual deve fazer com todo erro, falsa crença e superstição em sua mente;deve consumir todos os pensamentos   negativos com o fogo do Amor Divino e do pensamento certo. Golias  ou medo  é  a  fé num falso deus.Você é Davi,convenientemente  equipado, quando compreende que tem fé no Único e Verdadeiro Deus — o único Poder e Presença.

Conversei recentemente com um casal que estava convencido de que perderia tudo numa ação judicial que se arrastava há cinco anos. Estavam pessimistas. Parecia que a outra parte mentia incessantemente. O advogado lhes dissera que não tinham a menor chance e os dois estavam hipnotizados por essa sugestão. Expliquei que a declaração ou sugestão do advogado não tinha qualquer poder e que suas palavras não podiam fazer com que se concretizasse. Eles compreenderam que o único poder da sugestão do advogado estava em sua aceitação mental. Haviam aceitado a sugestão e reagido de acordo. Mas todo o processo ocorria apenas em suas mentes. Permitiram que o advogado sugerisse a perda de sua tranqüilidade. Durante todo o tempo, o poder estava em seus próprios pensamentos. Eles oraram da seguinte maneira: “Deus é Absoluta Harmonia e Absoluta Justiça; portanto, o resultado é justiça, harmonia e satisfação para todos.” Como se vê, uma oração muito simples. A premissa era verdadeira; assim, a conclusão tinha de ser verdadeira. Se um homem começa com Deus, sempre termina como Deus, O fruto está na semente. Havia uma solução harmoniosa e perfeita para o processo judicial, que foi definida fora do tribunal.

Deus nunca tarda; o segredo está em permanecer leal  e fiel ao que você sabe ser a verdade de Deus. Não  hesite em  desembainhar  a  espada  da Verdade,como Davi. Arme-se com a compreensão espiritual da Lei Divina e das Verdades Eternas. Destrua implacável e sem compaixão todos os padrões de pensamentos negativos em sua mente, ordene que desapareçam, de uma maneira vigorosa e dinâmica, deixe entrar a Luz, o Amor e a Verdade de Deus. Sua consciência espiritual age como uma espada, que o corta completamente da antiga maneira de pensar, convicção racial, outros poderes, entidades maléficas e suposições opostas ao Poder Supremo do Amor. Uma mulher me disse na semana passada: — Estou tão furiosa que poderia até matar May! Parece que May espalhara mentiras a seu respeito e tentara prejudicá-la no emprego. A mulher permitiu que May a transtornasse; em outras palavras, concedeu-lhe um poder que May não possuía. O problema estava em seu próprio pensamento. May não era responsável pelo conceito que tinha a seu respeito. Compreendeu subitamente que todo o poder estava em suas imagens mentais e padrões de pensamento. Permitira que Golias (medo) dominasse a sua mente, intimidando-a e assustando-a. O processo inteiro era de sua criação. A mulher tinha bom-senso e começou a enfrentar os vírus do medo, ódio e ressentimento em sua mente, expulsando esses venenos mentais e neutralizando os efeitos tóxicos com o pensamento e sentimento certos. Instalou Deus no trono de sua mente, dizendo a si mesma: “Não temerei o mal, pois Deus está comigo.” (Salmo 23:4)

Não pode haver mal onde Deus existe. Ela saturou a mente com a verdade simples: “Deus é, sua Presença enche a minha alma e governa a minha vida.” Todo o ressentimento se desvaneceu. Ela se recusou absolutamente a permitir que alguma outra mulher lhe provocasse enxaqueca, indigestão, insônia ou nervosismo. Ninguém possui esse poder. O poder se encontra em seu próprio pensamento. Você é o único que pode determinar o rumo de seu pensamento. O bem e o mal são movimentos de nossa mente. Não permita que os ladrões do medo, ressentimento e inadequação o restrinjam e limitem, o prendam aos grilhões da escravidão. O mundo que vemos é na verdade o mundo que somos. Contemplamos as imagens mentais e as convicções de nosso subconsciente. Colorimos tudo por nosso condicionamento interior. O homem projeta seus sentimentos, preconceitos e hostilidades sobre as outras pessoas e forma uma imagem distorcida de tudo.

Defina o seu objetivo agora. Para onde vai? Qual é o seu objetivo? Tenha um plano ou propósito definido; depois, proclame que Deus está agindo por sua conta. Sempre que qualquer sugestão negativa conteste o objetivo em sua mente, corte-lhe a cabeça, de maneira decidida, com a espada espiritual da razão, que lhe diz que só existe um Poder Espiritual e que o Deus que lhe deu o desejo é o mesmo Deus que vai realizá-lo. É fácil, pois o “Pai interior tudo faz”. Ninguém possui o poder de transtorná-lo ou acabar com sua fé e confiança n’Aquele Que É. Levante a cabeça! Fixe a vista no objetivo, no cume que deseja alcançar. Assim, acabará chegando ao lugar em que está a sua visão. Torne-se Davi ao se apaixonar pelas Verdades de Deus e confie absolutamente na Sabedoria Infinita, que sempre lhe trará a solução. Saiba que Deus agindo em você lhe proporciona beleza, paz, lugar certo Divino e harmonia. Davi era o filho de Jessé, que significa o filho de Eu Sou ou Deus. Portanto, VOCÊ é o filho do Infinito e da Eternidade. Chegue perto de seu Pai. Ele o ama, cuida de você! À medida que se virar para Ele, também Ele se virará para você. O amanhecer surge então, e todas as sombras se dissipam.

AS MARAVILHAS DO DISCURSO INTERIOR

Que as palavras de meus lábios e a meditação de meu coração sejam agradáveis em sua presença, Ó SENHOR, minha força e meu redentor. (Salmo 19:14)

OCORRERÃO maravilhas em sua vida quando seu pensamento e sentimento interior concordarem com as palavras de sua boca, Eu gostaria de contar um caso a propósito. Um homem estava envolvido numa ação judicial prolongada, que já lhe custara muito tempo, despesas e outras dificuldades, Sentia-se irritado, amargurado e hostil, contra a outra parte e contra seus próprios advogados. Seu discurso interior, que representa os seus pensamentos íntimos, silenciosos e não-expressos, era mais ou menos o seguinte: “Não há mais qualquer esperança. O processo já se arrasta há cinco

anos e estou perdendo tudo. É inútil continuar. Será melhor desistir.” E assim por diante. Expliquei-lhe que esse discurso interior era altamente destrutivo e certamente desempenhava um papel da maior importância no prolongamento do processo. Jó disse: Pois a coisa que eu tanto temia me aconteceu. (Jó 3:25)

Ele mudou completamente o discurso interior e

o exterior ao compreender o que vinha fazendo a si mesmo. Na verdade, orava contra si mesmo. Fiz-lhe uma única pergunta:

— Qual seria a sua reação se eu lhe dissesse nestemomento que se chegou a uma solução perfeita e harmoniosa e o caso foi definitivamente encerrado?

Ele concordou que daquele momento em diante cuidaria para que o seu discurso interior, como Ous­pensky ressaltou, estivesse de acordo com o objetivo. Passou a aplicar regular e sistematicamente a oração seguinte, que lhe indiquei: “Dou graças pela solução perfeita e harmoniosa que me chegou através do Onisciente.” Repetia-a com freqüência durante o dia. Quando surgiam dificuldades, protelações ou retrocessos, quando o medo ou a dúvida o atacava, ele proclamava silenciosamente esta verdade. Suspendeu por completo todas as declarações negativas verbais e também passou a vigiar o discurso interior, sabendo que este sempre acaba se manifestando. Expressamos o que sentimos por dentro. Podemos dizer uma coisa com a boca e sentir outra no coração; o que sentimos é o que se reproduz na tela do espaço. Nunca devemos

afirmar interiormente o que não queremos experimentar exteriormente. Os lábios e o coração devem concordar; quando isso acontece, a oração é atendida.

Devemos vigiar o nosso estado psicológico interior. Algumas pessoas sentem inveja e ciúme, fervilham de raiva e hostilidade. Esta atitude mental é altamente destrutiva e provoca o caos, a doença e a carência. Você conhece a pessoa que procura se justificar, dizendo a si mesma que tem todo o direito de estar com raiva e querer se vingar. Esta pessoa toca um velho disco do subconsciente, recitando todos os álibis, desculpas e justificativas para a sua fúria interior, É bem provável que não saiba que tal estado mental acarreta perda de energia psíquica em grande escala, deixando-a ineficiente e confusa. O discurso interior negativo do homem é geralmente dirigido contra si mesmo.

Conversei recentemente com um homem que me disse ter sido tratado de maneira injuriosa. Planejava se desforrar, estava furioso com o antigo patrão. Esse homem tinha úlcera no estômago em decorrência da irritação e turbilhão interior, Expliquei-lhe que estava gravando impressões altamente destrutivas de raiva e ressentimento no subconsciente, que sempre expressa o que lhe é incutido. Estas emoções destrutivas precisam de vazão e, no seu caso, manifestaram-se como úlcera e neurose.

Ele inverteu seu processo mental, entregando o ex-patrão ao oceano infinito do Amor de Deus e lhe desejando todas as bênçãos. Ao mesmo tempo, povoou a mente com as Verdades de Deus, identificando-se com a Presença Curativa Infinita e compreendendo que a Harmonia, a Paz e a Perfeição do Infinito saturavam a sua mente e corpo, deixando-o pleno. Essas vibrações espirituais impregnando sua mente se transmitiram por todo o organismo. As células do corpo adquiriram um novo tônus espiritual, e a úlcera ficou completamente curada.

A Bíblia diz: Se dois de vocês concordarem na terra sobre qualquer coisa que pedirem, serão atendidos por meu Pai que está no céu. Quem são os dois? Representam você e seu desejo. Se você aceita o seu desejo mentalmente, o subconsciente fará com que aconteça, porque consciente e subconsciente concordaram ou sincronizaram. Os dois que concordam representam pensamento e sentimento, idéia e emoção, Se você consegue emocionalizar o conceito, os aspectos masculino e feminino de sua mente concordaram e haverá um resultado ou prole mental; ou seja, o atendimento da oração.

Não se deve esquecer que tudo o que aceitamos ou sentimos como verdadeiro se grava no subconsciente. O subconsciente é o meio criativo; sua tendência, como Troward ressalta, é sempre para a vida. O subconsciente controla todos os seus órgãos vitais, é o centro da memória e o curador do corpo. O subconsciente é alimentado por fontes ocultas e se integra com a Inteligência Infinita e o Poder Infinito.

É muito importante dar instrução apropriada ao subconsciente, Por exemplo, se um homem se fixa nos obstáculos, protelações, dificuldades e obstruções em seu programa, o subconsciente assumirá isso como seu pedido e produzirá desapontamentos em sua experiência, É por isso que se deve alimentar o subconsciente com premissas que sejam verdadeiras.

Qual é a fala interior que ocorre em você durante todo o tempo em que não é expressa audivelmente? O subconsciente escuta e obedece à sua fala interior. Registra seu pensamento e sentimento silenciosos, como um gravador absolutamente fiel, Registra tudo e lhe toca de novo a gravação, sob a forma de experiências, condições e eventos. Você não precisa viajar psicologicamente com medo, dúvida, ansiedade e raiva. Não há lei que o obrigue a conviver com criminosos, assassinos, ladrões e intrusos em sua mente. Se você continua a convidar esses assaltantes para a sua mente, eles lhe roubam a saúde, a paz, a felicidade e a prosperidade, transformando-o num destroço físico e mental.

Uma mulher tinha a pressão muito alta, acompanhada por terríveis acessos de enxaqueca. A causa de tudo era a fala destrutiva interior. Ela achou que alguém não a tratara direito e tornou-se bastante negativa em relação à pessoa. Passou a ser hostil e antagônica em relação a ela, permitindo que essa condição persistisse por semanas, num profundo turbilhão emocional. A atitude negativa esvaiu suas forças, acarretando mudanças psicológicas na corrente sanguínea.

Estava prestes, como disse, a explodir de raiva. A pressão interior, a tensão crescente e a hostilidade intensa foram a causa da hipertensão, a que se somou a enxaqueca.

Essa mulher começou a praticar as maravilhas da fala interior espiritual. Compreendeu que estivera se envenenando e que a outra mulher não era absolutamente responsável pela maneira como pensava ou sentia a seu respeito. Era a única pensadora em seu universo e acalentara pensamentos destrutivos, que estavam envenenando todo o seu organismo. Passou a compreender que ninguém poderia afetá-la, exceto o seu próprio pensamento ou movimento de sua mente. Tudo o que precisava fazer, a fim de usufruir as maravilhas da fala interior espiritual, era identificar­se com seu objetivo. Seu objetivo era paz, saúde, felicidade, alegria, serenidade e tranqüilidade. Passou a se identificar com o Rio da Paz de Deus e o Amor de Deus fluindo por ela, acalmando, curando e restaurando sua mente e corpo.

Durante quinze minutos, três ou quatro vezes por dia, ela orava da seguinte maneira, silenciosamente: “Deus é Amor, e Seu Amor povoa a minha alma. Deus é Paz, e Sua Paz povoa minha mente e corpo. Deus é Saúde Perfeita, e Sua Saúde é minha Saúde. Deus é Alegria, e Sua Alegria é minha Alegria. Sinto-me maravilhosamente bem.” Este tipo de discurso interior, que representava os seus pensamentos interiores de Deus  e suas  qualidades, proporcionou­lhe total senso de equilíbrio e harmonia, na mente e no corpo, Quando pensamentos da outra mulher surgiam em sua mente, ela se identificava imediatamente com seu objetivo — a Paz de Deus, Descobriu as maravilhas da fala interior em que os lábios e coração se uniam na identificação com as Verdades Eternas de Deus, tornando-a assim imune ao impacto de idéias e pensamentos negativos,

Como encontrar as pessoas na mente? Este é o grande teste para a Verdade que liberta. Se as encontra e descobre Deus nas pessoas, isso é maravilhoso. Estará praticando as maravilhas do discurso interior de uma maneira construtiva, ao se identificar com seu objetivo, que é Deus ou o bem, Ouspensky ressaltou que seu discurso interior deve sempre estar de acordo com seu objetivo,

Um jovem tinha um objetivo — saúde perfeita. Mas o consciente lembrava-o que estivera doente por anos, com um problema de sangue. Estava dominado pela ansiedade, medo e dúvida. Os parentes comentavam que levaria muito tempo em tratamento e talvez nunca ficasse completamente curado. É claro que o subconsciente estava recebendo todas essas impressões negativas e por isso ele não podia alcançar a cura. O discurso interior tinha de estar de acordo com o objetivo. Em outras palavras, as duas fases de sua vida tinham de sincronizar e concordar, O jovem passou a falar de uma maneira diferente a seu subconsciente. Eu  lhe disse que afirmasse,  falando devagar e com absoluta convicção, várias vezes por dia, o seguinte: “A Inteligência Criativa fez meu corpo e está criando meu sangue agora. A Presença Curativa sabe como curar e está transformando cada célula de meu corpo no padrão de Deus. Ouço e vejo

o médico me dizendo que estou completamente curado. Tenho agora essa imagem na mente, vejo nitidamente, escuto a sua voz. Ele me diz: ‘John, você está curado. É um milagre.’ Sei que essa imagem construtiva vai se gravar no sub consciente, onde será desenvolvida e consumada. Sei que meu subconsciente está em contato com o Infinito, que sua Sabedoria e Poder atenderão a meu pedido, apesar de todas as evidências em contrário. Sinto e acredito, estou agora me identificando com o meu objetivo — a Saúde Perfeita. Este é o meu discurso interior, pela manhã, à tarde e à noite.”

Ele repetia essa oração durante dez a quinze minutos, quatro ou cinco vezes por dia, particularmente antes de dormir. Em decorrência do hábito, descobria a mente se descontrolando às vezes, impacientando-se, angustiando-se, preocupando-se, recordando os vereditos dos outros e os fracassos sucessivos no processo de cura. Quando esses pensamentos afloravam em sua mente, ele dava imediatamente a ordem: “Parem! Sou eu quem manda. Todos os pensamentos, imagens e respostas devem me obedecer. Daqui por diante, todos os meus pensamentos são para Deus e seu Poder Curativo Maravilhoso. É assim que alimento o subconsciente, identificando-me constantemente com Deus.

Tenho o seguinte pensamento e sentimento interior: ‘Obrigado, Pai.’ Faço isso cem vezes por dia ou até mesmo mil, se for necessário.”

O jovem alcançou a cura em três meses. Esta é a maravilha do discurso interior, quando você fala para si mesmo como se a oração já estivesse atendida. Creia que tem agora e receberá. Ele obteve o que queria pela repetição, oração e meditação, levando o subconsciente a concordar com seu desejo. O Poder Criativo de Deus reagiu então conforme a concordância. A fé restaurou a saúde.

Uma mulher de 67 anos me enumerou todos os motivos pelos quais não podia casar. Passou a praticar silenciosamente o discurso interior correto, da seguinte maneira: “Agradeço a você, Pai, por meu companheiro perfeito, ideal e divino.” Repetia isso muitas vezes por dia. Depois de algum tempo, o conceito gravou-se no subconsciente. Acabou conhecendo um farmacêutico aposentado, com quem se casou. São muito felizes. O discurso interior da mulher estava identificado com seu objetivo. Falava interiormente como se já tivesse acontecido. Aconteceu primeiro no único lugar em que poderia ocorrer: a sua própria mente.

Eis aqui um exemplo de discurso interior errado. Um membro de nossa organização estava tentando vender uma casa a três anos. Ele dizia: “Entrego essa linda casa à Mente Infinita. Sei que está vendida em Ordem Divina à pessoa certa, pelo preço certo, dou graças que assim  seja. ” Claro  que não há nada de errado nessa oração, mas ele a neutralizava constantemente ao dizer a si mesmo, em silêncio: “Os tempos estão difíceis, o preço é muito alto, as pessoas não têm tanto dinheiro. O que há de errado comigo? Por que não consigo vender a casa?” Como é fácil perceber, ele estava anulando a oração.

Conforme um Homem pensa no coração, assim ele é. O discurso interior era extremamente negativo, e era assim que ele realmente se sentia. Este estado mental manifestou-se por três anos. Ele inverteu o procedimento, todas as manhãs e à noite fechava os olhos por cinco ou seis minutos, imaginava o autor lhe dando os parabéns pela venda. Durante o dia, seu discurso interior era o seguinte: “Dou graças pela venda da casa, o comprador está prosperando por causa da compra.” A repetição dessa frase gravou-se no subconsciente e o evento se consumou. Uma semana depois um homem sentado a seu lado na igreja comprou a casa e ficou muito satisfeito. Ele compreendeu que não se pode seguir em duas direções ao mesmo tempo.

Que as palavras de meus lábios e a meditação de meu coração sejam agradáveis em sua presença, Ó SENHOR, minha força e meu redentor. (Salmo 19:14) 

Dr. Joseph Murphy, Ph.D.

A Bíblia

Deixe o seu comentário

 

Um Sermão (Nº 0015)

Pregado na Manhã de Domingo, 18 de Março de 1855 pelo Reverendo C. H. Spurgeon

No Exeter Hall, Strand— Londres —Inglaterra

“Escrevi-lhe as grandezas da minha lei, porém essas são estimadas como coisa estranha” (Oséias 8:12)

Esta é a queixa de Deus contra Efraim. Não é uma prova insignificante de Sua bondade, que Ele se incline para repreender Suas criaturas errantes; é uma grandiosa evidência de Sua disposição cheia de graça, que incline Sua cabeça para observar os assuntos da terra. Se Ele quisesse, poderia Se envolver com a noite como se fosse um vestido; poderia colocar as estrelas ao redor de Sua mão como se fossem um bracelete e unir os sóis ao redor de Sua testa como um diadema; poderia morar só, longe, muito acima deste mundo, acima do sétimo céu, e contemplar com calma e silenciosa indiferença todas as atividades das criaturas.

Poderia fazer como Júpiter que, segundo criam os pagãos, se assentava em perpétuo silêncio, fazendo cenas às vezes com sua terrível cabeça, para fazer com que os destinos se movam segundo lhe agrade, porém ignorando as coisas pequenas da terra, e considerando-as indignas de chamar sua atenção; absorto em seu próprio ser, absorto em Si mesmo, vivendo só e separado. E eu, como uma de Suas criaturas, poderia subir ao cume de uma montanha e olhar para as estrelas silenciosas e dizer-lhes: “Vós sois os olhos de Deus, porém não olhais para mim; a vossa luz é um dom de Sua onipotência, porém esses raios não são sorrisos de amor para mim. Deus, o poderoso Criador, me esqueceu; sou uma gota desprezível no oceano da criação, uma folha seca no bosque dos seres viventes, um átomo na montanha da existência. Ele não me conhece, estou só, só, só”.

Porém não é assim, amados. Nosso Deus é de uma ordem diferente. Ele observa a cada um de nós. Não existe nem mesmo um pardal ou um verme que não se encontre em Seus decretos. Não há uma pessoa sobre a qual não estejam os Seus olhos. Nossos atos mais secretos são conhecidos por Ele. Qualquer coisa que façamos, que suportemos ou soframos, o olho de Deus sempre descansa sob nós e Seu sorriso nos cobre, pois somos Seu povo; ou a Sua desaprovação nos envolve, pois temos nos apartado dEle.

Oh! Deus é dez mil vezes misericordioso, pois contemplando a raça do homem, não finda com sua existência. Vemos por nosso texto que se interessa pelo homem, porquanto disse a Efraim: “Escrevi-lhe as grandezas da minha lei, porém essas são estimadas como coisa estranha”. Porém, vejam como quando observa o pecado do homem, não o destrói ou despreza a ponta-pés, nem tampouco o sacode pelo pescoço sobre o abismo do inferno até fazer sua mente cambalear pelo terror, para, finalmente, lançá-lo nele para sempre; pelo contrário, Deus desce do céu para argumentar com Suas criaturas, discute com elas, Se rebaixa, por assim dizer, ao mesmo nível do pecador, lhe expõe Suas queixas e alega os Seus direitos. Oh! Efraim, “escrevi-lhe as grandezas da minha lei, porém essas são estimadas como coisa estranha”.

Venho esta noite como enviado de Deus, amigos meus, para tratar com vocês como embaixador de Deus, para acusar de pecado a muitos de vocês; para fazer-lhes ver sua condição, com o poder do Espírito; para convencer-lhes do pecado, da justiça e do juízo vindouro. O crime do qual vos acuso é o pecado que lemos neste texto. Deus escreveu as grandezas de Sua lei, e elas foram tidas como coisa estranha. É precisamente sobre este bendito livro, a Bíblia, que pretendo falar no dia de hoje. Aqui está meu texto: esta é a Palavra de Deus. Aqui está o tema de meu sermão, um tema que demanda mais eloqüência do que a que possuo; um assunto sobre o qual poderiam falar milhares de oradores ao mesmo tempo; um tema poderoso, amplo e um assunto inesgotável que, ainda que consumindo toda a eloqüência da eternidade, não permaneceria esgotado.

Esta noite tenho três coisas para dizer acerca da Bíblia, e as três se encontram no meu texto. Primeira, Seu autor: “[Eu] escrevi-lhes”; segunda, seus temas: as grandezas da lei de Deus; e terceira, seu tratamento generalizado: foram tidas pela maioria dos homens como coisa estranha.

I. Primeiro, então, com relação a este livro, quem é O AUTOR? O texto nos diz que é Deus. “Eu escrevi-lhes as grandezas de minha lei”. Aqui está minha Bíblia, quem a escreveu? Abro-a e observo que se compõe de uma série de tratados. Os primeiros cinco livros foram escritos por um homem chamado Moisés. Passo as páginas, e vejo que há outros escritores tais como Davi e Salomão. Aqui leio Miquéias, então Amós, então Oséias. Prossigo adiante e chego às luminosas páginas do Novo Testamento, e vejo Mateus, Marcos, Lucas e João; Paulo, Pedro, Tiago e outros; porém, quando fecho o livro, me pergunto: quem é o seu autor? Podem estes homens, juntamente, reivindicar a autoria deste livro? São eles realmente os autores deste extenso volume? Divide-se entre todos eles a honra? Nossa santa religião responde: Não!

Este volume é a escrita do Deus vivo: cada letra foi escrita por um dedo Todo-poderoso; cada palavra saiu dos lábios eternos, cada frase foi ditada pelo Espírito Santo. Ainda que Moisés tenha sido usado para escrever suas histórias com sua ardente pluma, Deus guiou essa pluma. Pode ser que Davi tenha tocado sua harpa, fazendo que doces e melodiosos salmos brotassem de seus dedos, porém Deus movia Suas mãos sobre as cordas vivas de sua harpa de ouro. Pode ser que Salomão que tenha cantado os Cânticos de amor, ou pronunciado palavras de sabedoria consumada, porém Deus dirigiu seus lábios, e fez eloqüente ao Pregador. Se sigo ao trovejador Naum, quando seus cavalos aram as águas, ou a Habacuque quando vê as tendas de Cusã em aflição; se leio Malaquias, quando a terra está ardendo como um forno; se passo para as serenas páginas de João, que nos falam de amor, ou para os severos e fogosos capítulos de Pedro, que falam do fogo que devora os inimigos de Deus, ou para Judas, que lança anátemas contra os adversários de Deus; em todas partes vejo que é Deus quem fala.

É a voz de Deus, não do homem; as palavras são as palavras de Deus, as palavras do Eterno, do Invisível, do Todo-poderoso, do Jeová desta terra. Esta Bíblia é a Bíblia de Deus; e quando a vejo, parece que ouço uma voz que surge dela, dizendo: “Sou o livro de Deus; homem, leia-me. Sou a escrita de Deus: abra minhas folhas, porque foram escritas por Deus; leia-as, porque Ele é meu autor, e O verá visível e manifesto em todas as partes”. “[Eu] escrevi-lhe as grandezas da minha lei, porém essas são estimadas como coisa estranha”.

Como sabemos que Deus escreveu este livro? Não tentarei responder a esta pergunta. Poderia fazê-lo se quisesse, porque há razões e argumentos suficientes, porém não penso em roubar o vosso tempo nesta noite, expondo esses argumentos à vossa consideração; sim, não farei isso. Se quisesse, poderia lhes dizer que a grandeza do estilo está acima de qualquer escrita mortal, e que todos os poetas que já existiram no mundo, com todas suas obras juntas, não poderiam nos oferecer uma poesia tão sublime, nem uma linguagem tão poderosa como podemos encontrar nas Escrituras.

Poderia insistir que os temas que se tratam na Bíblia estão muito acima do intelecto humano; que o homem nunca poderia ter inventado as grandes doutrinas da Trindade na Deidade; que o homem nunca poderia ter nos dito nada da criação do universo; nenhum ser humano poderia ter sido o autor da sublime idéia da Providência; que todas as coisas são ordenadas segundo a vontade de um grandioso Ser Supremo, e que todas elas cooperam juntamente para o bem. Poderia falar-lhes acerca de sua honestidade, pois relata as falhas de seus escritores; de sua unidade, pois nunca se contradiz; de sua simplicidade magistral, para que o mais simples a possa ler. E poderia mencionar centenas de coisas mais, que poderiam demonstrar com claridade que o livro é de Deus. Porém, não vim aqui para provar isso.

Sou um ministro cristão, e vocês são cristãos, ou professam sê-lo; e nenhum ministro cristão precisa provar seu ponto de vista, trazendo os argumentos dos pagãos para respondê-los. É a maior insensatez do mundo. Os infiéis, pobres criaturas, não conhecem seus próprios argumentos até que nós lhes contemos, e eles, juntando-os pouco a pouco, voltam a lançar-lhes como lanças sem pontas contra o escudo da verdade. É uma insensatez tirar estes tições do fogo do inferno, ainda que estejamos bem preparados para apagá-los. Deixemos que os homens do mundo aprendam o erro por si mesmos; não sejamos propagadores e suas falsidades. É certo que há pregadores que, não contando com os argumentos suficientes, os tiram de qualquer parte; porém os homens eleitos pelo próprio Deus não necessitam fazer isso; eles são ensinados por Deus, e Deus lhes supre os temas, as palavras e o poder.

Talvez haja alguém aqui nesta noite que tenha vindo sem fé, um homem racionalista, um livre pensador. Com esse homem não irei discutir. Confesso que não estou aqui para participar de controvérsias, mas para pregar o que conheço e sinto. Porém eu também já fui como esse homem. Houve uma hora má em minha vida, quando soltei a âncora da minha fé; eu cortei o cabo das minhas crenças e, já não querendo estar por mais tempo ao abrigo das costas da Revelação, deixei que meu navio andasse a deriva, impulsionado pelo vento. Disse à razão: “Sê minha capitã”; disse ao meu próprio cérebro: “sê meu timão”. E assim comecei minha louca viagem. Graças a Deus tudo isso já terminou. Porem, lhes contarei sua breve história.

Foi uma navegação precipitada pelo tempestuoso oceano do livre pensamento. Conforme avançava, os céus começaram a escurecer; porém, para compensar essa deficiência, as águas eram brilhantes com fulgores esplendorosos. Eu via que subiam centelhas que me agradavam, e pensei: “Se isto é o livre pensamento, é algo maravilhoso”. Meus pensamentos pareciam jóias e eu espalhava estrelas com minhas duas mãos; porém imediatamente, no lugar daqueles fulgores de glória, vi amargos amigos, ferozes e terríveis, surgindo das águas, e conforme prosseguia, eles rangiam seus dentes e zombavam de mim; eles se apegaram à proa do meu navio e me arrastaram. Enquanto eu, em parte, me gloriava da rapidez com que me movia, me estremecia, contudo, pela velocidade terrível com que deixava para trás os velhos pilares da minha fé.

Conforme seguia avançando a uma velocidade espantosa, comecei a duvidar da minha própria existência; duvidava que o mundo existisse; duvidava que houvesse tal coisa como meu próprio eu. Cheguei à própria borda dos domínios sombrios da incredulidade. Fui até ao próprio fundo do mar da infidelidade. Duvidava de tudo. Porém aqui Satanás enganou a si mesmo, porque a própria extravagância das dúvidas me demonstrou o absurdo delas. Justamente quando vi o fundo desse mar, escutei uma voz que dizia: “E pode esta dúvida ser verdade?” Por causa deste pensamento voltei à realidade. Despertei-me desse sono de morte, que, Deus o sabe, poderia ter condenado minha alma e destruído meu corpo, se não tivesse despertado.

Quando me levantei, a fé tomou o timão; a partir desse momento já não duvidei. A fé conduziu meu navio de volta; a fé gritava: “Longe daqui, longe daqui!” Lancei minha âncora no Calvário; alcei meus olhos a Deus, e eis-me aqui vivo e fora do inferno. Portanto, eu digo o que sei. Naveguei nessa viagem perigosa; regressei ao porto são e salvo. Peça-me que seja outra vez um incrédulo! Não, já o provei. Foi doce ao princípio, mas amargo depois. Agora, atado ao Evangelho de Deus mais firmemente do que nunca, parado sobre uma rocha mais dura do que o diamante, desafio os argumentos do inferno a que me movam, “porque eu sei em quem tenho crido, e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele dia” .

Porém, não vou refutar nem argumentar nesta noite. Vocês professam ser homens cristãos, pois do contrário não estariam aqui. Vossa profissão pode ser falsa; o que vocês dizem ser, pode ser exatamente o contrário do que realmente são. Porém, ainda assim, eu suponho que todos vocês admitem que esta é a Palavra de Deus. Portanto, um ou dois pensamentos sobre isto. “[Eu] escrevi-lhe as grandezas da minha lei”.

Primeiro, meus amigos, examinem este volume e admirem sua autoridade. Este não é um livro comum. Não contém os ditos dos sábios da Grécia, nem os discursos dos filósofos da antiguidade. Se estas palavras tivessem sido escritas pelo homem, poderíamos rejeitá-las; porém, oh!, deixe-me pensar um pensamento solene: que este livro é a letra de Deus, que estas são Suas palavras. Deixe-me investigar sua antiguidade: está datado das colinas do céu. Permita-me que olhe suas letras: relampejam glória em meus olhos. Deixe-me ler seus capítulos: seu significado é grandioso e contêm mistérios escondidos. Nos voltemos para as profecias: estão cheias de maravilhas inefáveis. Oh, livro dos livros! E foste tu escrito por meu Deus? Então, me prostro diante de ti. Tu, livro de vasta autoridade; tu és uma proclamação do Imperador do Céu. Longe esteja de mim exercitar minha razão para contradizer-te. Razão!, tua função é considerar e averiguar o que este volume quer dizer, e não estabelecer o que deveria dizer.

Vamos, vós, minha razão e meu intelecto, sentem-se e escutem, porque estas palavras são as palavras de Deus. Sinto-me incapaz de estender-me neste pensamento. Oh, se tu pudesses recordar sempre que esta Bíblia foi verdadeira e realmente escrita por Deus! Oh! se se lhes houvesse permitido entrar nas câmaras secretas do céu, e tivessem podido contemplar a Deus quando tomava Sua pluma e escrevia estas letras, então com seguranças as respeitariam. Porém, são efetivamente o manuscrito de Deus, tanto como se vocês tivessem visto Deus escrevendo-as. Esta Bíblia é um livro de autoridade, é um livro autorizado, pois Deus o escreveu. Oh, temam, não a desprezem; observem sua autoridade, porque é a palavra de Deus.

Então, posto que Deus a escreveu, notem sua veracidade. Se eu a tivesse escrito, haveria vermes críticos que de imediato a atropelariam, e a cobririam com suas larvas malvadas. Se eu a tivesse escrito, não faltariam homens que a despedaçassem imediatamente, e talvez com muita razão. Porém, esta é a Palavra de Deus. Aproximem-se, investiguem, vós críticos, e encontrem uma falha; examinem-na desde seu Gênesis até seu Apocalipse, e encontrem um erro. Esta é uma veia de puro ouro, sem mescla de quartzo, ou de qualquer outra substância terrena. Esta é uma estrela sem mancha, um sol de perfeição, uma luz sem sombra, uma lua sem sua palidez, uma glória sem penumbra.

Oh, Bíblia, não se pode dizer de nenhum outro livro que seja perfeito e puro; porém, nós podemos declarar de ti que toda a sabedoria se encontra encerrada em ti, e não há nenhuma partícula de insensatez. Este é o juiz que põe fim a toda discussão, ali onde a inteligência e a razão fracassam. Este livro não tem mancha de erro; mas é puro, sem mesclas, a verdade perfeita. Por que? Porque Deus o escreveu. Ah! Acusem Deus de erro, se querem; digam-Lhe que Seu livro não é o que deveria ser.

Tenho ouvido de homens cheio de orgulho e falsa modéstia, que gostariam de alterar a Bíblia, e (quase me ruborizo de dizer) tenho ouvido de alguns ministros que alteraram a Bíblia de Deus, porque tinham medo dela. Vocês nunca ouviram um homem dizer: “Aquele que crer e for batizado, será salvo; mas o que não crê” — o que a Bíblia diz? — “Será condenado”. Porém, acontece que isto é algo rude, portanto eles dizem: “será desaprovado”. Cavaleiros!, eliminem o veludo de suas bocas, e preguem a Palavra de Deus; não necessitamos de nenhuma de suas alterações. Tenho escutado algumas pessoas que, orando, ao invés de dizer: “fazer firme vossa vocação e eleição”, dizem: “fazer firme vossa vocação e salvação”. É uma lástima que não tenham nascido quando Deus morava nos tempos remotos, há muito, muito tempo, para que tivessem podido ensinar a Deus como escrever. Oh!, desonestidade além de todo limite! Oh!, orgulho desmedido! Tratar de ditar ao Sábio dos sábios, de ensinar ao Onisciente e de instruir ao Eterno! É estranho que haja homens tão vis que usem o canivete de Jeioaquim para mutilar passagem da Palavra, porque têm mau sabor. Oh, vocês que sentem aversão por certas porções da Santa Escritura, tenham a certeza de que seu gosto é corrompido e que a vontade de Deus não se sujeita à pobre opinião de vocês. Tua desaprovação é precisamente a razão pela qual Deus a escreveu; porque não se deve acomodar a ti, nem tens direito de ser agradado. Deus escreveu o que não te agrada: escreveu a verdade. Oh, prostremo-nos em reverência diante dela, pois Deus a inspirou. É verdade pura. Desta fonte manda aqua vitae — a água da vida — sem nenhuma partícula de terra; deste sol nascem raios de esplendor sem sombra alguma. Bendita Bíblia; tu és toda a verdade.

Antes de deixar este ponto, detenhamo-nos a considerar a natureza misericordiosa de Deus, em ter-nos escrito uma Bíblia. Ah! Ele poderia ter-nos deixado sem ela, que tatearíamos nosso caminho de trevas, como os cegos buscam a parede; Ele poderia ter-nos deixado em nosso extravio, com a estrela da razão como nosso único guia. Recordo uma história do Sr. Hume, que constantemente afirmava que a luz da razão é suficiente em abundância. Estando na casa de um bom ministro de Deus numa noite, havia estado discutindo sobre este assunto, manifestando sua firme convicção na suficiência da luz da natureza. Ao sair, o ministro lhe ofereceu uma vela, para iluminar, enquanto ele descia a escadaria. Ele disse: “não, a luz da natureza será suficiente; a luz me bastará”. Porém, ocorreu que uma nuvem estava ocultando a lua, e ele caiu, escadaria abaixo. “Ah!”, disse o ministro, “apesar de tudo, teria sido melhor haver tido uma pequena luz daqui de cima, Sr. Hume”.

Então, ainda que supondo que a luz natural fosse suficiente, seria melhor que tivéssemos um pouco de luz de cima, e desta maneira estaríamos seguros de estarmos certos. É melhor ter duas luzes do que uma. A luz da criação é muito brilhante. Podemos ver a Deus nas estrelas; Seu nome está escrito com letras de ouro no rosto da noite; podem descobrir Sua glória nas orlas do oceano, sim, e nas árvores do campo. Porém, é melhor ler em dois livros, do que em um. Vocês O encontrarão mais claramente revelado, porque Ele mesmo escreveu este livro e nos deu a chave para entendê-lo, se vocês têm o Espírito Santo. Amados irmãos, demos graças a Deus por esta Bíblia. Amemo-la e consideremo-la mais preciosa do que o ouro mais fino.

Porém, permitam-me dizer uma coisa, antes de passar para o segundo ponto. Se esta é a Palavra de Deus, que será de alguns de vocês que não a tem lido durante todo o último mês? “O senhor disse um mês? Eu não a li durante todo este ano!” Ah, e muitos de vocês não a leram nunca. A maioria das pessoas trata a Bíblia de uma maneira mui cortês. Têm uma edição de bolso belamente encadernada, a envolvem num pano branco, e assim a levam ao lugar do culto. Quando regressam para casa, a guardam numa gaveta até o próximo Domingo pela manhã. Então, lá voltam a tirar para um passeio, e a levam à capela; tudo quanto a pobre Bíblia recebe é este passeio dominical. Esse é seu estilo de tratar este mensageiro celestial. Há pó suficiente sobre algumas de suas Bíblias para escrever “condenação” com seus próprios dedos. Muitos de vocês nem sequer a tem folheado há muito, muito, muito tempo e, que pensam?

Digo-vos palavras duras, porém palavras verdadeiras. Que dirá Deus, finalmente? Quando chegarem a Sua presença, Ele perguntará: “Leste minha Bíblia?” “Não”.“Escrevi-te uma carta de misericórdia, a leste?” “Não”. “Rebelde! Enviei-te uma carta, convidando-te a Mim, a leste alguma vez” “Senhor, nunca rompi o selo: sempre a guardo bem fechada”. “Maldito”, diz Deus, “então, tu mereces o inferno; se te enviei uma epístola de amor, e nem sequer quiseste romper o selo, que farei contigo?” Oh! Não permitam que isso lhes suceda. Sejam leitores da Bíblia, sejam esquadrinhadores da Bíblia.

II. Nosso segundo ponto é: OS TEMAS DOS QUAIS A BÍBLIA TRATA. As palavras do texto são estas: “[Eu] escrevi-lhe as grandezas da minha lei”. A Bíblia fala de grandes coisas e somente de grandes coisas. Não há nada na Bíblia que não seja importante. Cada versículo contém um solene significado, e se todavia não o temos encontrado, esperamos fazê-lo. Vocês têm visto múmias, cobertas com dobras de pano de linho. Bem, a Bíblia é Deus é algo parecido; há numerosos rolos de linho branco, tecidos no tear da verdade; de maneira que terão que continuar desatando, rolo após rolo, até encontrar o verdadeiro significado do que está escondido; e quando crerem ter encontrado, ainda assim continuarão desatando, desatando, e durante toda a eternidade vocês estarão desatando as palavras deste grandioso volume. Não há nada na Bíblia que não seja grandioso. Permitam-me dividir, para ser mais breve. Primeiro, todas as coisas nesta Bíblia são grandiosas; segundo, algumas coisas as mais grandiosas de todas.

Todas as coisas da Bíblia são grandiosas. Algumas pessoas pensam que não importa a doutrina na qual alguém crê; que algo secundário a que igreja você assiste; que todas as denominações são iguais. Há um ser, a senhora Intolerância, a qual eu detesto mais do que ninguém neste mundo, e a qual jamais fiz algum cumprimento ou elogio; porém, há outra pessoa a qual odeio igualmente; trata-se do senhor Latitudinarismo [1], indivíduo bem conhecido que descobriu que todos somos iguais. Agora, eu creio que uma pessoa pode ser salva em qualquer igreja. Algumas têm sido salvas na igreja de Roma, uns poucos homens benditos cujos nomes poderia citar aqui. Também sei, bendito seja Deus, que grandes multidões são salvas na igreja da Inglaterra; nela há uma hoste de sinceros e piedosos homens de oração. Creio que todos os ramos do protestantismo cristão têm um remanescente segundo a eleição da graça; e que necessitam ter, algumas delas, um pouco de sal, pois do contrário se corromperiam. Porém quando disso isso, vocês imaginam que coloco todas elas no mesmo nível? Estão todas igualmente certas? Uma diz que o batismo de infantes é correto, outras afirmam que não é correto. Alguns dizem que ambas têm razão, porém eu não vejo assim. Uma ensina que somos salvos pela graça soberana, outra diz que não, senão que é nosso livre-arbítrio que nos salva; contudo, outras dizem que as duas coisas estão certas. Eu não entendo assim. Uma diz que Deus ama o Seu povo e que nunca deixará de amá-lo; outra afirma que Ele não amou o Seu povo antes que esse povo O amasse; que umas vezes o ama e outras deixam de amá-lo, e Se afasta deles. Ambas podem ter razão no essencial, porém nunca quando uma diz “Sim” e outra “Não”. Para ver assim necessitaria de um par de óculos, que me capacitassem a olhar para trás e para frente ao mesmo tempo. Não pode ser, senhores, que ambas tenham razão, apesar de que há quem diga que as diferenças não são essenciais.

Este texto diz: “[Eu] escrevi-lhe as grandezas da minha lei”. Não há nada na Bíblia de Deus que não seja grandioso. Vocês nunca pararam alguma vez para ver qual é a religião mais pura? “Oh”, dizem, “nunca nos molestamos com isso. Nós simplesmente vamos aonde nosso pai e nossa mãe foram”. Ah! Essa é certamente uma razão muito profunda. Vocês vão onde seus pais foram. Eu creia que vocês eram pessoas sensatas, e nunca pensei que se deixaram levar pelos outros, em vez de por sua própria convicção. Eu amo meus pais acima de tudo que respira, e o simples fato de que creram que uma coisa é verdade, me ajuda a pensar que o é; porém, eu não lhes segui. Pertenço a uma denominação diferente, e dou graças a Deus por isso. Posso recebê-los como irmãos e irmãs em Cristo, mas nunca pensei que, porque eles foram uma coisa, eu tinha que ser o mesmo. Nada disso. Deus me deu um cérebro e devo utilizá-lo; e se vocês têm algum intelecto, devem usá-lo também.

Nunca digam que não importa. Claro que importa. Tudo quanto Deus escreveu aqui é de importância eminente; Ele jamais teria escrito uma coisa que fosse indiferente. Tudo quanto há aqui tem um valor; portanto, esquadrinhem todos os temas, provem tudo pela Palavra de Deus. Não tenho nenhuma objeção a que tudo o que eu pregue seja provado por este livro. Dêem-me somente um auditório imparcial e nenhum favor especial, e este livro; e se digo algo contrário a ele, retratar-me-ei no domingo seguinte. Por isto me mantenho firme ou caio. Busquem e olhem, porém nunca digam: “Não importa”. Quando Deus diz algo, sempre deve ser importante.

Porém, ainda que todas as coisas na Palavra de Deus sejam importantes, nem tudo é igualmente importante. Há certas verdades vitais e fundamentais que devem ser cridas, ou do contrário o homem não poderá ser salvo. Se querem saber o que é que devem crer para serem salvos, encontrarão as grandezas da lei de Deus entre estas duas capas; todas estão contidas aqui. Como compêndio ou resumo das grandezas da lei, recordo o que um velho amigo meu disse certa vez: “Ah! Pregue os três R’s e Deus sempre te abençoará”. Eu perguntei: “O que são estes três R’s?” E ele me respondeu: “Ruína, Redenção e Regeneração”. Estas três coisas contêm a essência e o todo da teologia. “R” de Ruína. Todos fomos arruinados na queda, todos nos perdemos quando Adão pecou e todos estamos arruinados pelas nossas próprias transgressões; todos estamos arruinados pelos nossos corações perversos, por nossos desejos maus, e todos estaremos arruinados, a menos que a graça nos salve. Então, vêm o segundo “R”, de redenção. Somos redimidos pelo sangue de Cristo, um Cordeiro sem mancha, nem contaminação; somos resgatados por Seu poder, somos redimidos por Seus méritos; e resgatados por Sua força. Continuando, temos o “R” de regeneração. Se quisermos ser perdoados, temos também que ser regenerados, porque ninguém pode ser partícipe da redenção sem ser regenerado. Podemos ser tão bons como queiramos, e servir a Deus segundo o imaginemos, segundo queiramos; porém, se não tivermos sido regenerados, se não temos um coração novo, se não nascemos de novo, ainda estamos na primeira “R”, isto é, na ruína.

Este é um pequeno resumo do Evangelho, porém creio que há um outro melhor nos cinco pontos do calvinismo: Eleição segundo a presciência de Deus, a depravação natural e a pecaminosidade do homem, a redenção particular pelo sangue de Cristo, o chamado eficaz pelo poder do Espírito e a perseverança final pelo poder de Deus. Para sermos salvos, devemos crer nestes cinco pontos; porém não gostaria de escrever um credo como o de Atanásio, que começa assim: “Todo aquele que quiser ser salvo, deverá crer em primeiro lugar na fé católica, a qual é esta”; ao chegar a este ponto, teria que me deter porque não saberia como continuar. Sustento a fé católica da Bíblia, toda a Bíblia e nada mais que a Bíblia. Não me diz respeito elaborar credos; senão que suplico que esquadrinhem as Escrituras, porque elas são a palavra de vida.

Deus disse: “[Eu] escrevi-lhe as grandezas da minha lei”. Duvidam de sua grandeza? Crêem que não são dignas da atenção de vocês? Homem, penses por um momento, onde te encontras agora?

“Eis aqui, num estreito pedaço de terra,
Na metade de mares sem limites;
Uma polegada de tempo, o espaço de um momento,
Pode me alojar naquele lugar celestial,
Ou me encerrar no inferno”.

Recordo que uma vez estava na paria, numa estreita faixa de terra, sem me preocupar que a maré pudesse subir. As ondas lavavam constantemente ambos os lados, e envolto em meus pensamentos, permaneci ali por um longo tempo. Quando quis regressar, encontrei-me ante uma dificuldade: as ondas tinham cortado o caminho. Da mesma maneira, todos nos caminhamos cada dia por uma estreita senda, e há uma onda que sobe cada vez mais; vejam, como está perto de seus pés; e, veja! outra se aproxima a cada tic-tac do relógio: “Nossos corações, como surdos tambores, estão redobrando marchas fúnebres a caminho da sepultura”. Cada momento que vivemos é um avanço para a sepultura. Porém, este Livro me diz que, se sou convertido, quando morrer, receberei um céu de gozo e amor; os anjos me esperarão com seus braços abertos, e eu, levado pelas potentes asas dos querubins, ultrapassarei o relâmpago e me elevarei para além das estrelas, ao trono de Deus, para morar ali para sempre.

“ Longe de um mundo de pecado e dor,
Morarei ali sempre com Deus.

Oh!, isto faz com que meus olhos derramem lágrimas quentes, isto faz com que meu coração se torne grande demais para o meu peito, e meu cérebro gire ante um só pensamento de:

“Jerusalém, meu lugar feliz,
Teu nome é sempre doce para mim”.

Oh! essa doce cena mais acima das nuvens; doces campos revestidos de verde vivo e rios de delícia. Não são estas coisas grandiosas? Porém então, pobre alma não regenerada, a Bíblia diz que, se tu estás perdido, tu estás perdido para sempre; disse-te que se morres sem Cristo, sem Deus, não há esperança para ti; que há um lugar sem nenhum raio de esperança, onde lerás gravadas com letras de fogo: “tu conhecias teu dever, porém não o cumpriste”; elas te diz que serás lançado de Sua presença com um: “Apartai de mim, maldito”. Acaso não é grandioso tudo isto? Sim, senhores, assim como o céu é desejável, assim como o inferno é terrível, assim como o tempo é breve, assim como é eternidade infinita, assim como a alma é preciosa, assim como a dor deve ser evitada, assim como o céu deve ser buscado; assim também Deus é eterno e como Suas palavras são certas, estas coisas são grandiosas; são coisas que vocês devem escutar.
III. Nosso último ponto é: O TRATAMENTO QUE A POBRE BÍBLIA RECEBE NESTE MUNDO. A Bíblia é considerada como uma coisa estranha. O que significa a Bíblia ser considerada como uma coisa estranha? Em primeiro lugar, quer dizer que é completamente alheia a muitas pessoas, porque nunca a lêem. Recordo que, em certa ocasião, eu estava lendo a sagrada história de Davi e Golias, e estava uma pessoa presente, de idade avançada, que me disse: “Meu Deus! Que história interessante; em que livro está?”.

Também me vem à memória outra pessoa que, falando comigo em privado, lhe falei acerca de sua alma, e ela me disse quão profundo era seu sentimento, já que tinha enormes desejos de servir ao Senhor, porém encontrava outra lei em seus membros. Eu abri em Romanos e li: “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse pratico”. Ela disse: “Isto está na Bíblia? Eu não sabia disso”. Não a culpei por sua falta de interesse na Bíblia até então; porém eu não poderia deixar de me maravilhar em encontrar pessoas que não soubessem nada sobre tal passagem. Ah! Vocês sabem mais acerca dos livros de contabilidade de seus negócios do que sobre a Bíblia; mais acerca dos diários de suas vidas do que sobre o que Deus escreveu. Muitos de vocês podem ler um romance do princípio ao fim, e que proveito tiram disso? Um bocado de pura espuma ao ter terminado.

Porém, não podem ler a Bíblia; este manjar sólido, perdurável, substancioso e que satisfaz, permanece sem ser provado, guardado no armário da negligência; enquanto tudo quando o homem escreve, capturado diariamente, é devorado com avidez. “[Eu] escrevi-lhe as grandezas da minha lei, porém essas são estimadas como coisa estranha”. Vocês nunca a leram. Tenho essa dura acusação contra vocês. Talvez vocês respondam que não devo culpar-lhes por uma coisa assim; porém, sempre penso que mais vale ter uma opinião pior de vocês, do que uma demasiadamente boa. Culpo-lhes disto: vocês nunca lêem sua Bíblia. Alguns de vocês nunca a leram completamente, e seu coração lhe diz que o que estou dizendo é verdade. Não sois leitores da Bíblia. Vocês afirmam que têm uma Bíblia em casa: acaso penso que são tão pagãos que não tenham uma Bíblia em casa? Porém, quando foi a última vez que a leram? Como sabem que os óculos que perderam há três anos atrás, não estão na mesma gaveta da Bíblia? Muitos de vocês não têm lido nem uma só página desde há muito tempo, e Deus poderia dizer-lhes: “[Eu] escrevi-lhe as grandezas da minha lei, porém essas são estimadas como coisa estranha”.

Há outros que lêem a Bíblia, porém quando a lêem, dizem que é terrivelmente árida. Aquele jovem que está lá diz que ela é muito “enfadonha”; essa é a palavra que ele usa. Ele diz: “Minha mão me disse: quando for à cidade, leia um capítulo todo dia. E eu prometi para agradá-la. Oxalá não houvesse feito. Não li nenhum capítulo, nem ontem nem antes de ontem. Estive muito ocupado. Não pode evitá-lo”. Tu não amas a Bíblia, não é verdade? “Não, não encontro nela nada interessante”. Ah! isso é o que eu pensava também. Mas, há pouco tempo atrás, eu não podia ver nada nela. Sabes por que? Porque os cegos não podem ver, podem? Porém, quando o Espírito toca as escamas dos olhos, estas caem, e quando Ele põem colírio nos olhos, a Bíblia se torna preciosa.

Recordo de um ministro que foi um dia visitar uma senhora, já anciã, e se propôs de levar-lhe o consolo de algumas das preciosas promessas da Palavra de Deus. Buscando, encontrou na Bíblia da senhora, escrito na margem, um “P”, e perguntou: “Que significa isto?” “Isto quer dizer preciosa, senhor”. Pouco mais adiante descobriu um “P” e um “E”, escritos juntos, e voltou a perguntar seu significado, e ela lhe respondeu: isto quer dizer ‘provada e experimentada’, porque eu já a provei e já a experimentei”. Se vocês já provaram e experimentaram a palavra de Deus, se é preciosa para suas almas, então vocês são cristãos; porém, essas pessoas que desprezam a Bíblia, “não têm parte nem sorte neste assunto”. Se lhes parece árida, vocês estarão áridos no final, no inferno. Se não a estimam como algo melhor que seu alimento diário necessário, não há nenhuma esperança para vocês, porque carecem da maior evidência de seu Cristianismo.

Porém, ah!, ah!, o pior está por vir. Há pessoas que odeiam a Bíblia, e também a desprezam. Acaso temos algumas dessas pessoas aqui? Alguns de vocês disseram: “Vamos ouvir o que o jovem pregador tem a dizer”. Pois bem, isto é o ele tem para vos dizer: “Vede, ó desprezadores, admirai-vos e desaparecei” (Atos 13:41). Isto é o ele tem para vos dizer: “Os ímpios serão lançados no Inferno, e todas as que se esquecem de Deus” (Salmos 9:17). E também tem que vos dizer isto: “Nos últimos dias virão escarnecedores com zombaria andando segundo as suas próprias concupiscências” (2 Pedro 3:3). Porém mais ainda, lhes diz hoje que se querem ser salvos, devem encontrar a salvação aqui.

Portanto, não menosprezem a Bíblia: esquadrinhe-la, leiam-na, venham até ela. Repouse com certeza, oh zombador, que tuas gargalhadas não podem alterar a verdade, nem tuas zombarias podem te livrar da condenação inevitável. Ainda que em tua dureza fizesses um pacto com a morte e firmasses um trata com o inferno, ainda assim, a veloz justiça te alcançaria, e a poderosa vingança te fulminaria. Em vão zombas e ridicularizas, pois as verdades eternas são mais poderosas que todos teus sofismas; teus engenhosos ditos não podem alterar a verdade divina de uma só palavra deste volume de Revelação. Oh! Por que contende com teu melhor amigo e maltrata teu único refúgio? Ainda há esperança para o zombador. Esperança nas veias do Salvador. Esperança na misericórdia do Pai. Esperança na obra onipotente do Espírito Santo.

Terminarei quando tiver dito mais uma palavra. Meu amigo, o filósofo, diz que é muito bom que eu exorte as pessoas a lerem a Bíblia; porém, ele pensa que há outras muitas ciências grandiosas, mais interessantes e úteis que a teologia. Muito agradecido senhor, por sua opinião. A que ciência você se refere? À ciência de dissecar escaravelhos e colecionar mariposas? “Não, certamente não é a essa”. À ciência de analisar as rochas e de tomar mostras da terra e falar-nos de seus diferentes extratos? “Não, tampouco a essa precisamente”. À que ciência, pois? Ele me responde: “Todas as ciências em geral são mais importantes que a Bíblia”. Ah! senhor, essa é sua opinião, e fala dessa maneira porque estás longe de Deus. Pois a ciência de Jesus Cristo é a mais excelente das ciências. Que ninguém deixe a Bíblia porque não é um livro culto e de sabedoria. Ela o é. Querem saber de astronomia? Aqui está: Ela fala do Sol da Justiça e da Estrela de Belém. Querem saber de botânica? Aqui está: Ela fala de algumas de renome: o Lírio dos Vales e a Rosa de Saron. Querem saber de geologia e mineralogia? Podem aprender isso na Bíblia: podem ler acerca da Rocha dos Séculos e da Pedrinha Branca com um novo nome gravado, o qual ninguém conhece, senão aquele que o recebe. Querem estudar história? Aqui estão os anais mais antigos do gênero humano. Qualquer que seja a ciência de que se trate, venham e busquem-na neste livro. Essa ciência está aqui. Venham e bebam desta formosa fonte de conhecimento e sabedoria, e descobrirão que serão feitos sábios para salvação. Sábios e ignorantes, crianças e homens, cavalheiros de cabelos brancos, jovens e moças — a vocês falo, lhes peço e lhes suplico: respeitem suas Bíblias e esquadrinhem-nas, porque nelas vós pensais ter a vida eterna, e são elas que dão testemunho de Cristo.

Terminei. Voltemos para casa e ponhamos em prática tudo quanto ouvimos. Conheço uma senhora que, quando lhe foi perguntado sobre o que recordava do sermão do pastor, disse: “Não recordo nada do mesmo. Era sobre pesos falsos e medidas fraudulentas, e eu não recordo nada, exceto de que quando cheguei em casa, tive que queimar minhas medidas de grão”. Assim, se vocês recordarem, quando chegarem em suas casas, de queimar suas medidas de grão; se recordarem, quando chegarem em suas casas, de lerem a Bíblia, eu terei dito o suficiente. Queira Deus, em Sua infinita misericórdia, quando lerem a Bíblia, por em suas almas os raios iluminadores do Sol da Justiça, pela obra do sempre adorável Espírito; deste modo, tudo quanto lerem será de proveito e para salvação.

Podemos dizer da BÍBLIA:

“És o gabinete do conselho revelado de Deus!
Onde venturas e angústias estão de tal maneira ordenadas
Que todo homem sabe o que lhe corresponderá
Exceto por seu próprio erro ou falsa aplicação

És o índice da eternidade.
Não poderá deixar de receber a eterna felicidade.
Quem se guie por este mapa,
Nem pode se equivocar quem fale por ele.

É o livro de Deus. Quero dizer
É o Deus dos livros, e peço que aquele que olhe
Com ira para essa expressão, como muito ousada,
Abafe seus pensamentos em silêncio, até encontrar outra”.

NOTAS DO TRADUTOR:

[1] – Latitudinarismo: liberdade de opinião, especialmente em assuntos pertencentes às crenças religiosas.


Traduzido por: Felipe Sabino de Araújo Neto
Cuiabá-MT, 18 de Novembro de 2004.


http://www.monergismo.com/

Este site da web é uma realização de
Felipe Sabino de Araújo Neto®
Proclamando o Evangelho Genuíno de CRISTO JESUS, que é o poder de DEUS para salvação de todo aquele que crê.

Educação para o Pensar Autônomo

1 Comentário

Pensadores 

Filósofo alemão defende uma formação humanística, capaz de criar a consciência crítica

Theodor Adorno (1903-1969) dedicou a vida ao entendimento dos processos de formação do homem na sociedade. O filósofo e sociólogo alemão foi um dos fundadores da Escola de Frankfurt, corrente de pensamento do início da década de 1920 fundamentada na ideologia marxista. Adorno teve um papel importante na investigação das relações humanas. Queria entender a lógica da burguesia industrial para defender mu¬danças na estrutura social e, com esse propósito, acabou entrando no terreno da Pedagogia – apesar de não ser consi¬derado por especialistas como um teóri¬co da área..

Para entender o pensamento de Ador¬no em relação à Educação, é importante compreender as críticas que ele faz à in¬dústria cultural, vista como a responsável por prejudicar a capacidade humana de agir com autonomia. O tema foi trata¬do pela primeira vez em 1947 no livro A Dialética do Esclarecimento, que ele es¬creveu em parceria com Max Horkhei¬mer (1895-1973), também da Escola de Frankfurt. Os autores explicam que a consciência humana é dominada pela comercialização e banalização dos bens culturais – fenômeno batizado posterior¬mente de “semi-formação”.

“Adorno afirma que há um processo real na sociedade capitalista capaz de alienar o homem das suas condições de vida”, explica Rita Amélia Teixeira Vilela, doutora em Educação pela Universidade de Frankfurt e professora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG). É nessa discussão que está a chave para entender a crítica adorniana à escola: para o autor, a crise da Educação é, na verdade, a crise da formação cultural da sociedade capitalista como um todo. Na opinião dele, o problema da Educa¬ção está no fato de ela ter se afastado de seu objetivo essencial, que é promover o domínio pleno do conhecimento e a capacidade de reflexão. A escola, assim, se transformou em simples instrumento a serviço da indústria cultural, que trata o ensino como uma mera mer¬cadoria pedagógica em prol da “semi-for¬mação”. Essa perda dos valores, segundo o autor, anula o desenvolvimento da auto-reflexão e da autonomia humana. “Adorno critica a escola de massa por ela, segundo ele, instalar e cultuar a massifi¬cação. O resultado disso é a deformação da consciência”, diz Rita Amélia.

Numa escola em que impera a bana¬lização do conhecimento, o aluno é in¬duzido a deixar de ler com profundidade as principais obras literárias, por exem¬plo, dando lugar à absorção de apenas alguns trechos necessários para respon¬der aos exercícios escolares. “São repas¬sados nada mais do que conhecimentos fragmentados e o trabalho pedagógico está somente orientado para conseguir a aprovação em exames e um diploma”, afirma Rita Amélia. Seria a famosa “de¬coreba” de respostas prontas, em vez do estímulo ao raciocínio.

A Educação como ferramenta para a emancipação

À primeira vista, pode parecer que Ador¬no era contra a Educação. Pelo contrário. As críticas ao processo pedagógico são consequência do reconhecimento pelo autor da capacidade que ela tem de trans¬formar as relações sociais. Fica evidente em sua obra a defesa de um projeto de li¬bertação do homem por meio da forma¬ção acadêmica, porém uma formação de amplitude humanística. Para Adorno, o ensino deve ser uma arma de resistência à indústria cultural na medida em que contribui para a formação da consciência crítica e permite que o indivíduo’ desven¬de as contradições da coletividade.

O autor defende um processo educa¬cional capaz de criar e manter uma socie¬dade baseada na dignidade e no respeito às diferenças. Segundo ele, o mundo es¬taria danificado pela falta de capacidade dos indivíduos de resistir ao processo de sua própria alienação. Mesmo quando a Educação considerada ideal estiver limi¬tada e condicionada a uma realidade na¬da promissora, Adorno prega um projeto pedagógico que consiga libertar da opres¬são e da massificação. O caminho para isso é formar um indivíduo culto, com conhecimentos científicos, humanos e artísticos, preparado para uma vivência democrática. “A perspectiva sociológica de seu pensamento fazia com que ele considerasse a escola como a instituição capaz de formar o homem não domina¬do, pleno de autonomia de pensamento e ação em todas as instâncias da vida so¬cial”, diz Rita Amélia. “Esse homem re¬sistiria ao processo de massificação e de adaptação cega à ordem estabelecida”.

Adorno acredita que a cultura da so¬ciedade capitalista impõe um mecanis¬mo de construção da heteronomia (ou seja, a sujeição do individuo à vontade de terceiros), fazendo o homem ser igual ao coletivo e perder, assim, sua individuali¬dade. Sob esse ângulo, o indivíduo perde a capacidade de pensar e agir por conta própria e, consequentemente, de ser soli¬dário e respeitar o próximo. Na opinião dele, somente essa alienação poderia explicar uma situação tão grave como a barbárie presente na sociedade – Ador¬no utiliza o Holocausto e os campos de concentração como símbolos máximos da selvageria humana.

Biografia

Da crítica musical para a Teoria Crítica

Theodor Ludwig Wiesengrund Ador¬no nasceu em 11 de setembro de 1903, em Frankfurt, Alemanha. De uma família bem-sucedida, formou¬se em Sociologia, Filosofia e Artes. Filho de uma cantora lírica, estudou piano e, entre 1921 e 1932, publicou cerca de 100 artigos sobre crítica e es¬tética musical. Aos 21 anos, tornou-se doutor em Filosofia e participou da criação da Escola de Frankfurt. Sete anos depois, tornou-se professor da Universidade de Frankfurt.

Por ser judeu, foi proibido de lecio¬nar pelos nazistas e, em 1934, fugiu para Londres. Em 1941, mudou-se pa¬ra Los Angeles, nos EUA, e só voltou à Alemanha em 1949. Foi reintegrado à universidade e ali lecionou até sua morte, em 6 de agosto de 1969.

A filosofia de Adorno é marcada pela crítica à sociedade de mercado, voltada para o progresso técnico. Entre suas principais obras estão A Dialética do Esclarecimento, A Idéia de História Natural, Dialética Negativa e Teoria Estética.

Os caminhos de Adorno


Um democrata de esquerda

A Escola de Frankfurt foi fundada em 1924 com o nome de Instituto para a Pesquisa Social por Max Horkheimer (1895-1973), Herbert Marcuse (1898-1979), Friedrich Pollock (1894-1970), ¬Erich Fromm (1900-1980), Felix Weil (1898-1975) e Theodor Adorno.

Mesmo com ideais marxistas, eles negavam a “Ditadura do Proletariado” e defendiam a democracia. Combatiam ¬qualquer forma de governo totalitário e acreditavam que a tolerância era o único meio de criar relações sociais plurais, solidárias e justas. Foram os criadores dos conceitos de indústria cultural e cultura de massa.

Adorno partilhava idéias com filósofos alemães. Como Immanuel Kant (1724-1804), acreditava que homem deve usar a razão para agir sobre o seu destino. Tal qual Friedrich Nietzsche (1844-1900), alertava para a incapacidade da civilização ocidental de buscar a própria libertação.

Bibliografia
Dialética do Esclarecimento, Max Horkheimer e Theodor Adorno, 224 págs. Ed. Jorge Zahar, tel. (21) 2108-0808
Educação e Emancipação, Theodor Adorno, 190 págs., Ed. Paz e Terra, te!. (11) 3337-8399
Indústria Cultural e Sociedade, Theodor Adorno, 120 págs., Ed. Paz e Terra
Teoria Estética, Theodor Adorno, 555 págs., Ed. 70, te!. (11) 3885-6624

Fonte: Revista NOVA ESCOLA nº 227 (novembro / 2009) – Ano XXIV

João Calvino e “Os Cinco Pontos do Calvinismo”

Deixe o seu comentário

por Rev. André do Carmo Silvério 

É muito comum se ouvir falar sobre “Os Cinco Pontos do Calvinismo”. Eu mesmo, quando me tornei aluno da classe de catecúmenos, com a finalidade de ser membro da Igreja Presbiteriana do Brasil, lembro-me de ouvir por várias vezes falar sobre esse assunto. Contudo, meu raciocínio não era outro, senão, o de achar que o autor destes pontos era de fato o próprio reformador do século XVI: João Calvino. Mas somente no Seminário pude ter um contato mais próximo com obras literárias que falavam sobre o assunto, e, desta forma, creio ter sido esclarecido sobre o que realmente vem a ser “Os Cinco Pontos do Calvinismo”.  Portanto, o objetivo deste pequeno artigo é esclarecer de forma simples quem de fato escreveu os chamados “Cinco Pontos do Calvinismo”, por qual razão e porque eles são “cinco pontos” ao invés de sete ou dez. Além disso, procuraremos destacar a sua relevância para a nossa teologia.  
1. Autoria   Ao contrário do que muitos pensam, não foi João Calvino quem escreveu “Os Cinco Pontos do Calvinismo”. Talvez algumas pessoas ficarão impressionadas com esta afirmação. No entanto, a magna pergunta que se faz é: Se não foi Calvino, quem foi então? “Estes cinco pontos foram formulados pelo Sínodo de Dort, Sínodo este convocado pelos estados Gerais (da Holanda) e composto por um grupo de 84 Teólogos e 18 representantes seculares, entre esses estavam 27 delegados da Alemanha, Suíça, Inglaterra e outros países da Europa reunidos em 154 Sessões, desde 13 de novembro de 16 18 até maio de 1619” . [1] Portanto, peca por ignorância quem afirma ser João Calvino o autor destes cinco pontos, porque na verdade, a afirmação correta é que estes “pontos” foram fundamentados tão somente nas doutrinas ensinadas por ele. Aliás, este sistema doutrinário, se assim podemos chamá-lo, foi elaborado somente 54 anos após a morte do grande reformador (1509-1564).  

   

2. Razão de sua Escrita  

Os Cinco Pontos do Calvinismo foram formulados em resposta a um “documento que ficou conhecido na história como ‘Remonstrance’ ou o mesmo que ‘Protesto’”, [2]apresentado ao Estado da Holanda pelos “discípulos do professor de um seminário holandês chamado Jacob Hermann, cujo sobrenome latino era Arminius (1560-1600). Mesmo estando inserido na tradição reformada, Arminius tinha sérias dúvidas quanto à graça soberana de Deus, visto que era simpático aos ensinos de Pelágio e Erasmo, no que se refere à livre vontade do homem”. [3] Este documento formulado pelos discípulos de Arminius tinha como objetivo mudar os símbolos oficiais de doutrinas das Igrejas da Holanda (Confissão Belga e Catecismo de Heidelberg ), substituindo pelos ensinos do seu mestre. Desta forma, a única razão pela qual Os Cinco Pontos do Calvinismo foram elaborados era a de responder ao documento apresentado pelos discípulos de Arminius.  
3. Porque Cinco Pontos?  

Este documento formulado pelos alunos de Jacob Arminius tinha como teor cinco principais pontos, conhecidos como “Os Cinco Pontos do Arminianismo. E como já dissemos logo acima, em resposta a este Cinco Pontos do Arminianismo, o Sínodo de Dort elaborou também o que conhecemos como “Os Cinco Pontos do Calvinismo” ao invés de sete ou dez. Estes pontos do calvinismo são conhecidos mundialmente pela palavra TULIP, um acróstico popular que na língua inglesa significa:

T otal Depravity Total Depravação
U nconditional Election Eleição Incondicional
L imited Atonement Expiação Limitada
I rresistible Grace Graça Irresistível
P erseverance of Saints Perseverança dos Santos

   

4. Os Cinco Pontos do Arminianismo Versus Os Cinco Pontos do Calvinismo [4]

Arminianismo    Calvinismo   
    1. Vontade Livre – O arminianismo diz que a vontade do homem é “livre” para escolher, ou a Palavra de Deus, ou a palavra de Satanás. A salvação, portanto, depende da obra de sua fé.        1. Depravação Total – O calvinismo diz que o homem não regenerado é absolutamente escravo de Satanás, e, por isso, é totalmente incapaz de exercer sua própria vontade livremente (para salvar-se), dependendo, portanto, da obra de Deus, que deve vivificar o homem, antes que este possa crer em Cristo.   
    2. Eleição Condicional – O arminianismo diz que a “eleição é condicional, ou seja, acredita-se que Deus elegeu àqueles a quem “pré-conheceu”, sabendo que aceitariam a salvação, de modo que o pré-conhecimento [de Deus] estava baseado na condição estabelecida pelo homem.        2. Eleição Incondicional – O calvinismo sustenta que o pré-conhecimento de Deus está baseado no propósito ou no plano de Deus, de modo que a eleição não está baseada em alguma condição imaginária inventada pelo homem, mas resulta da livre vontade do Criador à parte de qualquer obra de fé do homem espiritualmente morto.   
    3. Expiação Universal – O arminianismo diz que Cristo morreu para salvar não um em particular, porém somente àqueles que exercem sua vontade livre e aceitam o oferecimento de vida eterna. Daí, a morte de Cristo foi um fracasso parcial, uma vez que os que têm volição negativa, isto é, os que não querem aceitar, irão para o inferno.        3. Expiação Limitada – O calvinismo diz que Cristo morreu para salvar pessoas determinadas, que lhe foram dadas pelo Pai desde toda a eternidade. Sua morte, portanto, foi cem por cento bem sucedida, porque todos aqueles pelos quais ele não morreu receberão a “justiça” de Deus, quando forem lançados no inferno.   
    4. A Graça pode ser Impedida – O arminianismo afirma que, ainda que o Espírito Santo procure levar todos os homens a Cristo (uma vez que Deus ama a toda a humanidade e deseja salvar a todos os homens), ainda assim, como a vontade de Deus está amarrada à vontade do homem, o Espírito [de Deus] pode ser resistido pelo homem, se o homem assim o quiser. Desde que só o homem pode determinar se quer ou não ser salvo, é evidente que Deus, pelo menos, “permite” ao homem obstruir sua santa vontade. Assim, Deus se mostra impotente em face da vontade do homem, de modo que a criatura pode ser como Deus, exatamente como Satanás prometeu a Eva, no jardim [do Éden].        4. Graça Irresistível – O calvinismo entende que a graça de Deus não pode ser obstruída, visto que sua graça é irresistível. Os calvinistas não querem significar com isso que Deus esmaga a vontade obstinada do homem como um gigantesco rolo compressor! A graça irresistível não está baseada na onipotência de Deus, ainda que poderia ser assim, se Deus o quisesse, mas está baseada mais no dom da vida, conhecido como regeneração. Desde que todos os espíritos mortos (= alienados de Deus) são levados a Satanás, o deus dos mortos, e todos os espíritos vivos (= regenerados) são guiados irresistivelmente para Deus (o Deus dos vivos), nosso Senhor, simplesmente, dá a seus escolhidos o Espírito de Vida. No momento que Deus age nos eleitos, a polaridade espiritual deles é mudada: Antes estavam mortos em delitos e pecados, e orientados para Satanás; agora são vivificados em Cristo, e orientados para Deus.   
    5. O Homem pode Cair da Graça – O arminianismo conclui, muito logicamente, que o homem, sendo salvo por um ato de sua própria vontade livremente exercida, aceitando a Cristo por sua própria decisão, pode também perder-se depois de ter sido salvo, se resolver mudar de atitude para com Cristo, rejeitando-o! (Alguns arminianos acrescentariam que o homem pode perder, subseqüentemente, sua salvação, cometendo algum pecado, uma vez que a teologia arminiana é uma “teologia de obras” – pelo menos no sentido e na extensão em que o homem precisa exercer sua própria vontade para ser salvo). Esta possibilidade de perder-se, depois de ter sido salvo, é chamada de “queda (ou perda) da graça”, pelos seguidores de Arminius. Ainda, se depois de ter sido salva, a pessoa pode perder-se, ela pode tornar-se livremente a Cristo outra vez e, arrependendo-se de seus pecados, “pode ser salva de novo”. Tudo depende de sua continua volição positiva até à morte!        5. Perseverança dos Santos – O calvinismo sustenta muito simplesmente que a salvação, desde que é obra realizada inteiramente pelo Senhor – e que o homem nada tem a fazer antes, absolutamente, “para ser salvo” -, é óbvio que o “permanecer salvo” é, também, obra de Deus, à parte de qualquer bem ou mal que o eleito possa praticar. Os eleitos ‘perseverarão’ pela simples razão de que Deus prometeu completar, em nós, a obra que ele começou. Por isso, os cinco pontos de TULIP incluem a Perseverança dos Santos .   

   

5. Considerações Finais   

 Para inteirar o leitor do todo da história, Spencer nos diz que após o Sínodo de Dort se reunir em 154 Sessões num “completo exame das doutrinas de Arminius e comparar cuidadosamente seus ensinos com os ensinos das Escrituras Sagradas, chegaram à conclusão que os ensinos de Arminius eram heréticos”. [5] “E não somente isto, mas o Concílio impôs censura eclesiástica aos ‘remonstrantes’ depondo-os dos seus cargos, e a autoridade civil (governo) os baniu do país por cerca de seis anos”. [6] 

Diante disso, creio que a diferença crucial entre o Arminianismo e o Calvinismo se resume na palavra Soberania. Enquanto os calvinistas entendem que Deus opera a salvação na vida do ser-humano conforme a sua livre e soberana vontade, os arminianos salientam que o homem é capaz de por si só querer ou não ser salvo. Se partirmos da premissa que o homem está completamente morto diante de Deus como nos ensina Efésios 2:1, entenderemos porque a salvação depende tão somente da graça e da misericórdia do SENHOR, pois “não depende de quem quer ou quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia” (Rm 9:16). Portanto, creio que os objetivos deste artigo foram de fato alcançados, demonstrando assim a verdadeira história dos “Cinco Pontos do Calvinismo”. Que assim, queira o Senhor nosso Deus nos abençoar e nos dar sempre a graça de sermos verdadeiros propagadores da história reformada.   


NOTAS:
 

[1] – Tradução livre e adaptada do livro The Five Points of Calvinism, www.unifil.br/teologia/arquivos/ cincopontoscalvinoesboco.pdf  

[2] – The Five Points of Calvinism, p. 1, ob.cit.  

[3] – Duane E. Spencer, TULIP, Os Cinco Pontos do Calvinismo à Luz das Escrit uras, p. 111-112, Parakletos, 2ª Edição – São Paulo – 2000.  

[4] – Esta síntese foi retirada do livro TULIP , p. 15-19.  

[5] – TULIP , p. 112.  

[6] – The Five Points of Calvinism, p. 6.  

Rev. André do Carmo Silvério

Pastor da Igreja Presbiteriana do Jardim Girassol – Guarulhos,
Professor de Teologia Sistemática no Instituto Bíblico Presbiteriano Rev. Boanerges Ribeiro e Secretário de Mocidade da Confederação Norte Paulistano



Este artigo é parte integrante do portal http://www.monergismo.com/. Exerça seu Cristianismo: se vai usar nosso material, cite o autor, o tradutor (quando for o caso), a editora (quando for o caso) e o nosso endereço. Contudo, ao invés de copiar o artigo, preferimos que seja feito apenas um link para o mesmo, exceto quando em circulações via e-mail.   


http://www.monergismo.com/ 

Este site da web é uma realização de Felipe Sabino de Araújo Neto®
Proclamando o Evangelho Genuíno de CRISTO JESUS, que é o poder de DEUS para salvação de todo aquele que crê.
Estamos

às ordens para comentários e sugestões.

Livros Recomendados 

Recomendamos os sites abaixo: 

Monergism/Arquivo Spurgeon/ Arthur Pink / IPCB / Solano Portela / Spurgeon em Espanhol / Thirdmill / Editora Cultura Cristã /Editora Fiel / Editora Os Puritanos / Editora PES / Editora Vida Nova

A Cruz de Cristo

1 Comentário

 

© 1986, de John Stott

Título do original

The Cross of Christ

 

Editora Vida

Rua Júlio de Castilhos, 280

CEP 03059-000 São Paulo, SP

Tel.:0xx 11 6618 7000

Fax: 0xx 11 6618 7050

www.editoravida.com.br

www.vidaacademica.net 

 

Capa: Douglas Lucas

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Stott, John

A cruz de Cristo / John Stott: tradução João Batista — São Paulo : Editora Vida, 2006.

Título original: The Cross of Christ.

Bibliografia

ISBN 85-7367-146-7

1. Jesus Cristo – Crucificação 2. Redenção I. Título.

 

 

Índices para catálogo sistemático

1. Jesus Cristo : Crucificação : Teologia cristã   232.963

 

Digitalização, revisão e formatação de:

Fabrício Valadão Batistoni

www.portaldetonando.com.br/forumnovo/

índice

Prefácio. 4

Primeira Parte  Aproximando-se da Cruz. 6

1 A Centralidade da Cruz. 6

2 Por que Cristo morreu?. 21

3 Olhando Abaixo da Superfície. 28

Segunda Parte O Coração da Cruz. 39

4 O Problema do Perdão. 39

5 Satisfação pelo Pecado. 51

6 A Auto-Substituição de Deus. 62

Terceira Parte A Realização da Cruz. 77

7 A Salvação dos Pecadores. 77

8 A Revelação de Deus. 95

9 A Conquista do Mal 106

Quarta Parte Vivendo sob a Cruz. 118

10 A Comunidade de Celebração. 119

11 Autocompreensão e Autodoação. 128

12 Amando a Nossos Inimigos. 139

13 Sofrimento e Glória. 147

Conclusão A Penetrante Influência da Cruz. 161

Notas. 169

Prefácio

 

Tenho como um enorme privilégio o ter sido convidado para escrever um livro sobre o maior e mais glorioso de todos os temas, a cruz de Cristo. Dos vários anos de trabalho despendidos neste tarefa, emergi espiri­tualmente enriquecido, com minhas convicções acla­radas e fortalecidas, e com uma firme resolução de gastar o restante dos meus dias na terra (assim como sei que toda a congregação dos redimidos passará a eternidade no céu) no serviço liberador do Cristo crucificado.

É oportuno que um livro sobre a cruz faça parte das celebrações do Jubileu de Ouro da Inter-Varsity Press, a quem o público leitor muito deve. Pois a cruz é o centro da fé evangélica. Deveras, como argu­mento neste livro, ela jaz no centro da fé histórica, bíblica, e o fato de que esta verdade não é sempre reconhecida em toda a parte em si mesmo é justificativa suficiente para preservar um testemunho distintamente evangélico. Os cristãos evangélicos crêem que em Cristo e através do Cristo crucificado Deus substituiu a si mesmo por nós e levou os nossos pecados, morrendo em nosso lugar a morte que merecíamos morrer, a fim de que pudéssemos ser restaurados em seu favor e adotados na sua família. O Dr. J. I. Packer com acerto escreveu que esta crença “é o marco distintivo da fraternidade evangélica mundial” (embora ‘muitas vezes seja mal compreendida e caricaturada por seus críticos’); ela “nos leva ao próprio coração do evangelho cristão”.1

É necessário que se esclareça a distinção entre uma compreensão “objetiva” e “subjetiva” da expiação em cada geração. Segundo o Dr. Douglas Johnson, esta descoberta foi um momento decisivo no mi­nistério do Dr. Martyn Lloyd-Jones, que ocupou uma posição singular de liderança evangélica nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Ele confidenciou a vários amigos que “uma mudança fundamental ocorreu em sua perspectiva e pregação no ano de 1929″. Ele tinha, é claro, dado ênfase, desde o princípio do seu ministério à necessidade indispensável do novo nascimento. Mas, certa noite, de­pois de pregar em Bridgend, South Wales, o ministro local desafiou-o dizendo que “parecia que a cruz e a obra de Cristo” ocupavam um pequeno lugar em sua pregação. Imediatamente ele foi a uma livraria que vende livros usados e pediu ao proprietário os dois livros padrão sobre a Expiação. O livreiro. . . apresentou a Expiação de R. W. Dale (1875) e A Morte de Cristo de James Denney (1903). Tendo voltado para casa, ele se entregou totalmente ao estudo, recusando o almoço e o chá, e causando tal ansiedade à esposa que esta telefonou a seu irmão perguntando se devia chamar um médico. Porém, ao emergir da reclusão, Lloyd-Jones dizia ter encontrado “o verdadeiro coração do evangelho e o segredo do significado interior da fé cristã”. De sorte que o conteúdo de sua pregação mudou, e com esta mudança o seu impacto. Nas próprias palavras dele, a questão básica não era a pergunta de Anselmo “por que Deus se tornou homem?” mas “por que Cristo morreu?”2

Por causa da importância vital da expiação, e de uma compreensão dela que retire toda falsa informação dos grandes conceitos bíblicos de “substituição”, “satisfação” e “propiciação”, duas coisas têm-me grandemente surpreendido. A primeira é a tremenda impopularidade em que a doutrina permanece. Alguns teólogos demonstram relutân­cia estranha em aceitá-la, mesmo quando compreendem claramente sua base bíblica. Penso, por exemplo, naquele notável erudito me­todista, Vincent Taylor. Sua erudição aprimorada e abrangente en­contra-se exemplificada em seus três livros sobre a cruz — Jesus e Seu Sacrifício (1937), A Expiação no Ensino do Novo Testamento (1940) e Perdão e Reconciliação (1946). Ele, ao descrever a morte de Cristo, emprega muitos adjetivos como “vicária”, “redentora”, “reconciliadora”, “ex­piatória”, “sacrificial” e especialmente “representativa”. Mas não con­segue chamá-la de “substitutiva”. Depois de um exame rigoroso do primitivo ensino e crença cristã de Paulo, de Hebreus e de João, escreve ele o seguinte acerca da obra de Cristo: “Nenhuma das pas­sagens que examinamos descreve-a como a de um substituto. . . Em lugar algum encontramos apoio para tais conceitos.”3 Não, a obra de Cristo foi um “ministério realizado em nosso favor, mas não em nosso lugar”. Contudo, embora Vincent Taylor tenha feito estas espantosas afirmativas, fê-las com grande desconforto. Sua veemência nos deixa despreparados para as concessões que mais tarde ele se sente obrigado a fazer. “Talvez o aspecto mais admirável do ensino do Novo Tes­tamento referente à obra representativa de Cristo”, escreve ele, “seja o fato de chegar bem perto dos limites da doutrina substitutiva sem, na realidade, atravessá-los. O paulinismo, em particular, encontra-se a uma distância mínima da substituição”. Ele até mesmo confessa a respeito de teólogos do Novo Testamento que “com demasiada fre­qüência nos contentamos em negar a substituição sem substituí-la”, e que é uma noção que “talvez estejamos mais ansiosos a rejeitar do que a examinar”. Entretanto, o que procurarei mostrar neste livro é que a doutrina bíblica da expiação é substitutiva do princípio ao fim. O que Vincent Taylor não quis aceitar não foi a doutrina em si, mas as cruezas de pensamento e expressão das quais os advogados da subs­tituição têm, com bastante freqüência, sido culpados.

Minha segunda surpresa, em vista da centralidade da cruz de Cristo, é que nenhum livro sobre este tópico foi escrito por um escritor evangélico para leitores sérios (até dois ou três anos atrás) por quase meio século. É verdade, surgiram vários livros pequenos, e apare­ceram algumas obras de peso. Gostaria de prestar tributo especial aos notáveis labores neste campo do Dr. Leon Morris, de Melbourne, Austrália. O seu livro Pregação Apostólica da Cruz (1955) deixou-nos todos em dívida, e alegro-me de que ele tenha trazido o conteúdo da obra ao alcance dos leigos em A Expiação (1983). Ele se tomou mestre da vasta literatura de todas as épocas sobre este tema, e seu livro A Cruz no Novo Testamento (1965) permanece, provavelmente, o exame mais completo hoje disponível. Dessa obra cito com caloroso endosso sua afirmativa de que “a cruz domina o Novo Testamento”.

Todavia, até à recente publicação do livro de Ronald Wallace inti­tulado A Morte Expiatória de Cristo (1981) e do de Michael Green A Cruz Vazia de Jesus (1984), não conheço outro livro evangélico para os leitores que tenho em mente, desde a obra de H. E. Guillebaud Por que a Cruz? (1937), que foi um dos primeiros livros editados pela IVF. Foi um livro corajoso, que enfrentou diretamente os críticos da ex­piação substitutiva com três perguntas: (1) “é cristã?”; (isto é, com­patível com os ensinos de Jesus e seus apóstolos); (2) “é imoral?” (isto é, compatível ou incompatível com a justiça); e (3) “é incrível?” (isto é, compatível ou incompatível com problemas como o tempo e a transferência da culpa.

Meu interesse é um pouco mais abrangente, pois este não é um livro apenas sobre a expiação, mas também sobre a cruz. Depois dos três capítulos introdutórios que formam a Primeira Parte, chego, na Segunda Parte, ao que chamei de “o coração da cruz”, na qual ar­gumento em favor de uma compreensão verdadeiramente bíblica das noções de “satisfação” e “substituição”. Na Terceira Parte passo a três grandes realizações da cruz, a saber, salvar os pecadores, revelar a Deus e vencer o mal. A Quarta Parte, porém, trata de áreas que muitas vezes são omitidas nos livros sobre a cruz, isto é, o que significa a comunidade cristã “viver sob a cruz”. Procuro mostrar que a cruz a tudo transforma. Ela dá um relacionamento novo de adoração a Deus, uma compreensão nova e equilibrada de nós mesmos, um incentivo novo para nossa missão, um novo amor para com nossos inimigos e uma nova coragem para encarar as perplexidades do sofrimento.

Ao desenvolver o meu tema, conservei em mente o triângulo Es­critura, tradição e mundo moderno. Meu primeiro desejo foi ser fiel à Palavra de Deus, permitindo que ela diga o que tem para dizer e não pedindo que ela diga o que eu gostaria que ela dissesse. Não há alternativa à exegese textual cuidadosa. Em segundo lugar, procurei partilhar alguns dos frutos das minhas leituras. Ao procurar com­preender a cruz, não podemos ignorar as grandes obras do passado. Desrespeitar a tradição e a teologia histórica é desrespeitar o Espírito Santo que tem ativamente iluminado a igreja em todos os séculos. Então, em terceiro lugar, tentei compreender a Escritura, não apenas à sua própria luz e à luz da tradição, mas também com relação ao mundo contemporâneo. Perguntei o que a cruz de Cristo diz para nós que vivemos no final do século vinte.

Ao ousar escrever (e ler) um livro a respeito da cruz, há, é claro, um grande perigo de presunção. Isto, em parte, advém do fato de que o que realmente aconteceu quando “Deus estava reconciliando consigo mesmo o mundo em Cristo” é um mistério cujas profundezas passaremos a eternidade examinando; e, em parte, porque seria mui­tíssimo impróprio fingir um frio desprendimento à medida que con­templamos a cruz de Cristo. Quer queiramos, quer não, estamos envolvidos. Nossos pecados o colocou aí. De sorte que, longe de nos elogiar, a cruz mina nossa justiça própria. Só podemos nos aproximar dela com a cabeça curvada e em espírito de contrição. E aí perma­necemos até que o Senhor Jesus nos conceda ao coração sua palavra de perdão e aceitação, e nós, presos por seu amor, e transbordantes de ação de graças, saíamos para o mundo a fim de viver as nossas vidas no serviço dele.

Sou grato a Roger Beckwith e a David Turner por terem lido porções do manuscrito e por terem feito úteis comentários. Agradeço a par­ticipação de meus quatro assistentes mais recentes — Mark Labberton, Steve Ingraham, Bob Wismer e Steve Andrews. Steve Andrews, como é sua característica, foi meticuloso na leitura do manuscrito, na com­pilação da bibliografia e dos índices, e na leitura e correção das provas.

Reservo, porém, para o final, meus agradecimentos sinceros a Fran­ces Whitehead, que em 1986 completou trinta anos como minha se­cretária. Este livro é um dos muitos que ela datilografou. Jamais poderei elogiar em demasia sua eficiência, ajuda, lealdade e entu­siasmo constante pela obra do Senhor. Com grande gratidão dedico­-lhe este livro.

Primeira Parte
Aproximando-se da Cruz

 

Natal de 1985

John Stott

1
A Centralidade da Cruz

 

Conhece o leitor o quadro de Holman Hunt, líder da Irmandade Rafaelita, intitulado “A Sombra da Morte”? Ele representa o interior da carpintaria de Nazaré. Jesus, nu até a cintura, está em pé ao lado de um cavalete de madeira sobre o qual colocou a serra. Seus olhos estão erguidos ao céu, e seu olhar é de dor ou de êxtase, ou de ambas as coisas. Seus braços também estão estendidos acima da cabeça. O sol da tarde, entrando pela porta aberta, lança, na parede atrás dele, uma sombra negra em forma de cruz. A pra­teleira de ferramentas tem a aparência de uma trave horizontal sobre a qual suas mãos foram crucificadas. As próprias ferramentas lembram os fatídicos prego e martelo.

Em primeiro plano, no lado esquerdo, uma mulher está ajoelhada entre as aspas de madeira. Suas mãos descansam no baú em que estão guardadas as ricas dádivas dos magos. Não podemos ver a face da mulher, pois ela se encontra virada. Mas sabemos que é Maria. Ela parece sobressaltar-se com a sombra em forma de cruz que seu filho lança na parede.

Os pré-rafaelitas têm fama de serem sentimentais. Contudo, eram artistas sérios e sinceros, e o próprio Holman Hunt estava decidido, conforme ele mesmo disse, a “batalhar contra a arte frívola da época” — o tratamento superficial de temas banais. Ele passou os anos de 1870 a 1873 na Terra Santa, onde pintou “A Sombra da Morte” em Jerusalém, no telhado da sua casa. Embora a idéia historicamente seja fictícia, é, contudo, teologicamente verdadeira. Desde a infância de Jesus, deveras desde o seu nascimento, a cruz lança uma sombra no seu futuro. Sua morte se encontrava no centro da sua missão. E a igreja sempre reconheceu essa realidade.

Imagine um estranho fazendo uma visita à Catedral de São Paulo em Londres. Tendo sido criado numa cultura não cristã, o visitante quase nada sabe a respeito do Cristianismo. Todavia, ele é mais que um simples turista; tem interesse por obras de arte e deseja aprender.

Descendo a Rua Fleet, ele se impressiona com a grandeza das pro­porções do edifício, e se admira de que Sir Christopher Wren pudesse ter concebido um prédio desses depois do Grande Incêndio de Lon­dres em 1666. A proporção que seus olhos tentam abarcar a tudo, ele não consegue deixar de perceber a enorme cruz dourada que domina a cúpula.

Ele entra na catedral e vai até seu ponto central, e pára sob a cúpula. Tentando compreender o tamanho e a forma do edifício, ele se cons­cientiza de que a planta baixa, que consiste de nave e transeptos, é cruciforme. Andando ao redor, ele observa que cada capela lateral contém o que lhe parece uma mesa, sobre a qual, proeminentemente exposta, está uma cruz. Ele desce à cripta a fim de ver os sepulcros de homens famosos como o próprio Sir Christopher Wren, Lord Nel­son e o duque de Wellington: em cada um deles encontra-se gravada ou estampada em relevo uma cruz.

Voltando para cima, ele resolve assistir ao culto que está prestes a começar. O homem ao seu lado usa uma pequena cruz na lapela, e a senhora do seu outro lado leva uma cruz no colar. Seus olhos agora observam o vitral colorido da janela ao leste. Embora de onde está ele não possa ver os detalhes, percebe, porém, que o vitral contém uma cruz.

De repente, a congregação se põe de pé. Entram o coro e os clérigos, precedidos por alguém que carrega uma cruz processional. Entram cantando um hino. O visitante olha para o boletim de culto e lê as palavras de abertura:

No calvário se ergueu uma cruz contra o céu,

Como emblema de afronta e de dor. Mas eu amo essa cruz: foi ali que Jesus

Deu a vida por mim, pecador.

Do que vem a seguir, ele chega a compreender que está testemu­nhando um culto de Santa Comunhão, e que este enfoca a morte de Jesus. Pois quando as pessoas que se encontram ao seu redor vão ao altar para receber o pão e o vinho, o ministro lhes fala do corpo e do sangue de Cristo. O culto termina com o cântico de outro hino:

Ao contemplar a tua cruz

E o que sofreste ali, Senhor, Sei que não há, ó meu Jesus,

Um bem maior que o teu amor.

Não me desejo gloriar

Em nada mais senão em ti; Pois que morreste em meu lugar,

Teu, sempre teu, serei aqui.

Embora a congregação se esteja dispersando, uma família fica para trás. Trouxeram o filho para ser batizado. Juntando-se a eles na frente, o visitante vê o ministro primeiro derramar água sobre a criança e então fazer o sinal da cruz na sua testa, dizendo: “Eu te marco com o sinal da cruz a fim de mostrar que não te deves envergonhar de confessar a fé do Cristo crucificado. . .”

O estranho deixa a catedral impressionado, mas intrigado. A in­sistência, repetida por palavra e símbolo, à centralidade da cruz foi admirável. Contudo, levantaram-se questões em sua mente. Um pouco da linguagem usada pareceu exagerada. Será que os cristãos, por causa da cruz, realmente relegam o mundo como perda, e se gloriam somente nela, sacrificando tudo por ela? Pode a fé cristã ser resumida corretamente como a “fé do Cristo crucificado”? Quais as bases, pergunta-se ele, dessa concentração na cruz de Cristo?

 

O sinal e o símbolo da cruz

Todas as religiões e ideologias têm seu símbolo visual, que exem­plifica um aspecto importante de sua história ou crenças. A flor de loto, por exemplo, embora tenha sido usada pelos chineses, egípcios e hindus antigos com outros significados, hoje está particularmente associada ao budismo. Por causa de sua forma de roda, pensa-se que represente o círculo do nascimento e da morte ou a emergência da beleza e da harmonia das águas turvas a partir do caos. Às vezes representa-se Buda entronizado na flor de loto totalmente aberta.

O judaísmo antigo, com medo de quebrar o segundo mandamento, que proíbe a fabricação de imagens, evitava sinais e símbolos visuais. O judaísmo moderno, porém, emprega o assim chamado Escudo ou Estrela de Davi, um hexagrama formado pela combinação de dois triângulos eqüiláteros. O Escudo fala da aliança de Deus com Davi de que o trono deste seria estabelecido para sempre e que o Messias viria da sua descendência. O islã, a outra fé monoteísta que se le­vantou no Oriente Médio, é simbolizado pelo crescente ou meia-lua, pelo menos na Ásia Ocidental. Originalmente o crescente represen­tava uma fase da lua e era o símbolo de soberania em Bizâncio antes da conquista muçulmana.

As ideologias seculares deste século também possuem seus sinais que são universalmente reconhecíveis. O martelo e a foice do marxismo, adotados em 1917 pelo governo soviético e retirados de um quadro belga do século dezenove, representam a indústria e a agri­cultura. O fato de serem cruzados significa a união de operários e camponeses, da fábrica e do campo. Da suástica, por outro lado, há vestígios de 6.000 anos atrás. As pontas se dobram para a direita, simbolizando ou o movimento do sol no céu, ou o ciclo das quatro estações, ou o processo de criatividade e prosperidade (“svasti” em sânscrito significa “bem-estar”). No início deste século, porém, alguns alemães adotaram a suástica como símbolo da raça ariana. Então Hitler se apossou dela e ela passou a representar a sinistra intolerância racial nazista.

O Cristianismo, portanto, não é exceção quanto a possuir um sím­bolo visual. Todavia, a cruz não foi o primeiro. Por causa das selvagens acusações dirigidas contra os cristãos, e da perseguição a que estes foram submetidos, eles tiveram de “ser muito circunspectos e evitar ostentar sua religião. Assim a cruz, agora símbolo universal do Cris­tianismo, a princípio foi evitada, não somente por causa da sua as­sociação direta com Cristo, mas também em virtude de sua associação vergonhosa com a execução de um criminoso comum.”1 De modo que nas paredes e tetos das catacumbas (sepulcros subterrâneos na periferia de Roma, onde os cristãos perseguidos provavelmente se esconderam), os primeiros motivos cristãos parecem ter sido ou pin­turas evasivas de um pavão (que se dizia simbolizar a imortalidade), uma pomba, o louro dos atletas ou, em particular, de um peixe. Somente os iniciados saberiam, e ninguém mais poderia adivinhar que ichthys (“peixe”) era o acrônimo de Iesus Christos Theou Huios Soter (“Jesus Cristo Filho de Deus Salvador”). Mas o peixe não permaneceu como símbolo cristão, sem dúvida porque a associação entre Jesus e o peixe era meramente acronímica (uma disposição fortuita de letras) e não possuía nenhuma importância visual.

Um pouco mais tarde, provavelmente durante o segundo século, os cristãos perseguidos parecem ter preferido pintar temas bíblicos como a arca de Noé, Abraão matando o cordeiro no lugar de Isaque, Daniel na cova dos leões, seus três amigos na fornalha de fogo, Jonas sendo vomitado pelo peixe, alguns batismos, um pastor carregando uma ovelha, a cura do paralítico e a ressurreição de Lázaro. Tudo isso simbolizava a redenção de Cristo e não era incriminador, uma vez que somente os entendidos teriam sido capazes de interpretar o seu significado. Além disso, o monograma Chi-Rho (as duas primeiras letras da palavra grega Christos) era um criptograma popular, muitas vezes representado em forma de cruz. Esse criptograma às vezes continha uma ovelha em pé na sua frente, ou uma pomba.

Um emblema cristão universalmente aceito teria, obviamente, de falar a respeito de Jesus Cristo, mas as possibilidades eram enormes. Os cristãos podiam ter escolhido a manjedoura em que o menino Jesus foi colocado, ou o banco de carpinteiro em que ele trabalhou durante sua juventude em Nazaré, dignificando o trabalho manual, ou o barco do qual ele ensinava as multidões na Galiléia, ou a toalha que ele usou ao lavar os pés dos apóstolos, a qual teria falado de seu espírito de humilde serviço. Também havia a pedra que, tendo sido removida da entrada do túmulo de José, teria proclamado a ressur­reição. Outras possibilidades eram o trono, símbolo de soberania di­vina, o qual João, em sua visão, viu que Jesus partilhava, ou a pomba, símbolo do Espírito Santo enviado do céu no dia do Pentecoste. Qual­quer destes sete símbolos teria sido apropriado para indicar um as­pecto do ministério do Senhor. Mas, pelo contrário, o símbolo escolhido foi uma simples cruz. Seus dois braços já simbolizavam, desde a remota antigüidade, os eixos entre o céu e a terra. Mas a escolha dos cristãos possuía uma explicação mais específica. Deseja­vam comemorar, como centro da compreensão que tinham de Jesus, não o seu nascimento nem a sua juventude, nem o seu ensino nem o seu serviço, nem a sua ressurreição nem o seu reino, nem a sua dádiva do Espírito, mas a sua morte e a sua crucificação. Parece que o crucifixo (isto é, uma cruz contendo uma figura de Cristo) não foi usado até o sexto século.

Parece certo que, pelo menos a partir do segundo século, os per­seguidos cristãos não apenas desenhavam, pintavam e gravavam a cruz como símbolo visual de sua fé, mas também faziam o sinal da cruz em si mesmos ou nos outros. Uma das primeiras testemunhas dessa prática foi Tertuliano, o advogado-teólogo do Norte da África, em cerca de 200 A.D. Escreveu ele:

A cada passo e a cada movimento dados para frente, em cada entrada e em cada saída, quando nos vestimos e nos calçamos, quando tomamos banho, quando nos assenta­mos à mesa, quando acendemos as lâmpadas; no sofá, na cadeira, nas ações corriqueiras da vida diária, traçamos na testa o sinal [da cruz]2.

Hipólito, culto presbítero de Roma, é testemunha especialmente interessante. Sabe-se que ele foi um “reacionário declarado que, em sua própria geração, era a favor do passado em vez do futuro”. Seu famoso tratado A Tradição Apostólica (cerca de 215 A.D.) “afirma ex­plicitamente estar registrando somente formas e modelos de rituais tradicionais, e costumes há muito estabelecidos, e ter sido escrito em protesto deliberado contra inovações”.3 Quando, pois, ele des­creve certas “observâncias da igreja”, podemos ter certeza de que essas já estavam sendo praticadas uma geração ou mais antes dele. Ele menciona que o sinal da cruz era usado pelo bispo ao ungir a testa do candidato durante a Confirmação, e o recomenda na oração particular: “Imitem sempre a ele (Cristo), fazendo, com sinceridade, um sinal na testa: pois este é o sinal da sua paixão”. O sinal da cruz, acrescenta ele, também é proteção contra o mal: “Quando tentado, sempre reverentemente sela a tua testa dom o sinal da cruz. Pois este sinal da paixão, quando o fizeres com fé, é mostrado e manifestado contra o diabo, não a fim de que possas ser visto pelos homens, mas, por teu conhecimento, apresenta-o como um escudo.”4

Não é necessário que tachemos este hábito de superstição. Pelo menos na sua origem, o sinal da cruz teve a finalidade de identificar e, deveras, santificar cada ato como se pertencesse a Cristo.

Na metade do terceiro século, quando Cipriano, outro africano do norte, era bispo de Cartago, o imperador Deciano (250-251 A.D.) desencadeou uma terrível perseguição, durante a qual milhares de cristãos morreram pelo fato de se terem recusado a oferecer sacrifício ao nome dele. Na ânsia de fortalecer o moral do povo, e incentivá­-los a aceitar o martírio em vez de comprometer a fé cristã, Cipriano lembrava-os da cerimônia da cruz: “tomemos também como proteção da nossa cabeça o capacete da salvação. . . para que nossa fronte possa ser fortificada, de modo que conservemos seguro o sinal de Deus.”5 Quanto aos fiéis que suportaram prisões e arriscaram a vida, Cipriano os louvava, dizendo: “as vossas frontes, santificadas pelo selo de Deus. . . foram reservadas para a coroa do Senhor”.6

Richard Hooker, teólogo anglicano e Mestre do Templo de Londres do século dezesseis, aplaudiu o fato de que os primitivos Pais da Igreja, apesar do escárnio dos pagãos para com os sofrimentos de Cristo, “escolheram o sinal da cruz (no batismo) antes que qualquer outro sinal externo, pelo qual o mundo pudesse facilmente sempre discernir o que eram”.7 Ele estava cônscio das objeções dos puritanos. “O sinal da cruz e que tais imitações do papado”, diziam eles, “as quais a igreja de Deus na época dos apóstolos jamais reconheceu”, não deviam ser usados, pois não se devem acrescentar invenções humanas às instituições divinas, e sempre houve o perigo do seu mau uso como superstição. Assim como o rei Ezequias destruiu a serpente de bronze, da mesma forma o sinal da cruz deve ser abandonado. Mas Hooker permaneceu firme na sua posição. Em “questões indi­ferentes”, que não eram incompatíveis com a Escritura, os cristãos estavam livres. Além disso, o sinal da cruz possuía uma utilidade positiva: é “para nós uma advertência. . . para que nos gloriemos no serviço de Jesus Cristo, e não baixemos a cabeça como homens que dele têm vergonha, embora o sinal da cruz nos traga opróbrio e ig­nomínia nas mãos deste mundo vil.”8

Foi Constantino, o primeiro imperador a professar a fé cristã, quem acrescentou ímpeto ao uso do símbolo da cruz. Pois (segundo Eusébio) nas vésperas da Batalha da Ponte Milviana, a qual lhe deu supremacia no Ocidente (321-313 A.D.), ele viu uma cruz iluminada no céu, acom­panhada das palavras in hoc signo vinces (“vence por este sinal”). Imediatamente ele a adotou como seu emblema e mandou brasoná­-la nos estandartes de seu exército.

Qualquer que seja a idéia que façamos de Constantino e do desen­volvimento da “cristandade” depois dele, pelo menos a igreja tem fielmente preservado a cruz como seu símbolo central. Em algumas tradições eclesiásticas o candidato a batismo ainda é marcado com esse sinal, e os parentes do cristão que, depois de morrer é enterrado e não cremado, muito provavelmente mandarão erigir uma cruz sobre a sua sepultura. Assim, desde o nascimento do cristão até a sua morte, como podíamos dizer, a igreja procura nos identificar e proteger com uma cruz.

A escolha que os cristãos fizeram da cruz como símbolo da sua fé é tanto mais surpreendente quando nos lembramos do horror com que era tida a crucificação no mundo antigo. Podemos compreender por que a mensagem da cruz que Paulo pregava era “loucura” para muitos (1 Coríntios 1:18, 23). Como poderia uma pessoa de mente sadia adorar como deus um homem morto, justamente condenado como criminoso e submetido à forma mais humilhante de execução? Essa combinação de morte, crime e vergonha colocava-o muito além do respeito, sem falar da adoração.9

Os gregos e os romanos se apossaram da crucificação que, aparen­temente, fora inventada pelos “bárbaros” que viviam à margem do mundo conhecido. E ela, com toda a probabilidade, o método mais cruel de execução jamais praticado, pois deliberadamente atrasa a morte até que a máxima tortura seja infligida. Antes de morrer, a vítima podia sofrer durante dias. Ao adotarem a crucificação, os ro­manos a reservaram para assassinos, rebeldes, ladrões, contanto que também fossem escravos, estrangeiros ou pessoas sem posição legal ou social. Os judeus, portanto, se enraiveceram quando o general romano Varus crucificou 2.000 dos seus compatriotas em 4 a.C, e quando, durante o cerco de Jerusalém, o general Tito crucificou tantos fugitivos da cidade que não se podia encontrar “espaço. . . para as cruzes, nem cruzes para os corpos”.10

Os cidadãos romanos, a não ser em casos extremos de traição, estavam isentos de crucificação. Cícero, num de seus discursos, con­denou-a como crudelissimum taeterrimumque supplicium, “um castigo muitíssimo cruel e repugnante”.11 Um pouco mais tarde ele declarou: “Atar um cidadão romano é crime, chicoteá-lo é abominação, matá­-lo é quase um ato de assassínio: crucificá-lo é — o quê? Não há palavras que possam descrever ato tão horrível”.12 Cícero foi ainda mais explícito em 63 a.C. em sua defesa bem-sucedida do idoso se­nador Gaio Rabírio, que havia sido acusado de homicídio: “a própria palavra cruz deve ser removida para longe não apenas da pessoa do cidadão romano, mas também de seus pensamentos, olhos e ouvidos. Pois não é somente a ocorrência destas coisas (os procedimentos da crucificação) ou a capacidade de suportá-las, mas a possibilidade de­las, a expectativa, deveras, a mera menção delas, que é indigna de um cidadão romano e de um homem livre”.13

Se os romanos viam com horror a crucificação, da mesma forma viam-na os judeus, embora por motivos diferentes. Os judeus não faziam distinção entre o “madeiro” e a “cruz”, entre o enforcamento e a crucificação. Eles, portanto, automaticamente aplicavam aos cri­minosos crucificados a terrível declaração da lei de que “o que for pendurado no madeiro é maldito de Deus” (Deuteronômio 21:23). Eles não podiam crer que o Messias de Deus morreria sob a maldição divina, pendurado num madeiro. No dizer de Trifo, um judeu, a Justino, apologista cristão: “Quanto a este ponto sou excessivamente incrédulo”.14

De forma que, quer de criação romana, quer judaica, ou ambas, os primitivos inimigos do Cristianismo não perdiam a oportunidade de ridicularizar a reivindicação de que a vida do ungido de Deus e Sal­vador dos homens tinha acabado numa cruz. Tal idéia era loucura. Esse sentimento é bem exemplificado por um grafito do segundo século, descoberto no monte Palatino em Roma, na parede de uma casa que, segundo alguns eruditos, foi usada como escola para os pajens imperiais. E o quadro mais antigo da crucificação, e é uma caricatura. Um desenho grosseiro representa, esticado numa cruz, um homem com a cabeça de um burro. Embaixo, rabiscado com letras desiguais, estão as palavras ALEXAMENOS CEBETE THEON, “Ale-xamenos adora a Deus”. O desenho encontra-se hoje no Museu Kir­cherian de Roma. Qualquer que tenha sido a origem da acusação do culto ao burro (atribuída tanto a judeus quanto a cristãos), era o conceito da adoração a um homem que estava sendo exposto ao mo­tejo.

Detectamos a mesma nota de escárnio em Luciano de Samosata, satirista pagão do segundo século. Em O Passamento de Peregrino (um convertido cristão fictício a quem ele apresenta como charlatão), Sa­mosata difama os cristãos, dizendo que “adoravam o próprio sofista crucificado e viviam sob suas leis”.

 

A perspectiva de Jesus

O fato de a cruz se tornar um símbolo cristão, e que os cristãos, teimosamente, se recusaram, apesar do ridículo, a descartá-lo em favor de alguma coisa menos ofensiva, só pode ter uma explicação. Significa que a centralidade da cruz teve origem na mente do próprio Jesus. Foi por lealdade a ele que seus seguidores se apegaram com tanta tenacidade a esse sinal. Que evidência há, pois, de que a cruz se encontrava no centro da perspectiva do próprio Jesus?

Nosso único vislumbre da mente em desenvolvimento do menino Jesus nos é dado na história de como, com a idade de 12 anos, ele foi levado a Jerusalém na época da Páscoa e então, por engano, dei­xado para trás. Quando seus pais o encontraram no templo, “assen­tado no meio dos mestres, ouvindo-os e interrogando-os”, eles o repreenderam. Disseram que o procuravam aflitos. “Por que me pro-curáveis?” respondeu ele com inocente espanto. “Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu Pai?” (Lucas 2:41-50). Lucas conta a história com uma agonizante economia de detalhes. Portanto, deve­mos ter cuidado em não colocar nela mais do que a própria narrativa justifica. Isto, porém, podemos afirmar, que já com a idade de 12 anos Jesus se referia a Deus como seu “Pai” e também sentia uma compulsão interior de se ocupar com os assuntos dele. Ele sabia pos­suir uma missão. Seu Pai o tinha enviado ao mundo com um pro­pósito. Essa missão ele devia realizar; esse propósito ele devia cumprir. E estes emergem gradativamente na narrativa dos Evange­lhos.

Os evangelistas sugerem que o batismo e a tentação de Jesus foram ocasiões em que ele se comprometeu em seguir o caminho de Deus em vez do caminho do diabo, o caminho do sofrimento e da morte em vez do caminho da popularidade e da fama. Contudo, Marcos (acompanhado por Mateus e Lucas) aponta um evento posterior no qual Jesus começou a ensinar claramente sua missão. Foi o ponto mais importante de seu ministério público. Tento-se retirado com os após­tolos para o distrito norte, nos arredores de Cesaréia de Filipe, aos pés do monte Hermom, ele lhes fez a pergunta direta sobre quem eles pensavam que ele era. Quando Pedro respondeu que ele era o Messias de Deus, imediatamente Jesus “advertiu-os de que a ninguém dissessem tal coisa a seu respeito” (Marcos 8:29-30). Esta ordem estava de acordo com suas instruções prévias acerca de guardarem o assim chamado “segredo messiânico”. Contudo, agora algo novo aconteceu:

Jesus então começou a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do homem sofresse muitas coisas, fosse rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas, fosse morto e que depois de três dias ressuscitasse. E isto ele expunha claramente (Marcos 8:31-32).

“Claramente” é tradução de parresia, cujo significado é “com liber­dade de discurso”, ou “abertamente”. Não devia haver segredo acerca do assunto. O fato de sua messianidade havia sido mantido em se­gredo porque o povo tinha entendido mal o seu caráter. A expectativa messiânica popular era de um líder político revolucionário. João nos diz que no auge da popularidade galiléia de Jesus, depois de alimentar os cinco mil, as multidões tinham querido “arrebatá-lo para o procla­marem rei” (João 6:15). Agora que os apóstolos haviam claramente reconhecido e confessado a sua identidade, contudo, ele podia ex­plicar a natureza de sua messianidade, e fazê-lo abertamente. Pedro censurou-o, horrorizado pelo destino que ele havia predito para si mesmo. Mas Jesus repreendeu a Pedro com palavras fortes. O mesmo apóstolo que, ao confessar a messianidade divina de Jesus, tinha recebido uma revelação do Pai (Mateus 16:17), havia sido enganado pelo diabo, com o intuito de negar a necessidade da cruz. “Arreda! Satanás”, disse Jesus, com uma veemência que deve ter assustado os seus ouvintes. “Porque não cogitas das coisas de Deus, e, sim, das dos homens” (Marcos 8:31-33).15

Em geral esse incidente é tido como a primeira “predição da pai­xão”. Já tinha havido alusões passageiras (exemplo: Marcos 2:19-20); mas essa foi bem direta. A segunda alusão foi feita um pouco mais tarde, enquanto Jesus passava, incógnito, pela Galiléia. Disse ele aos Doze:

O Filho do homem será entregue nas mãos dos homens, e o matarão; mas, três dias depois da sua morte, ressus­citará (Marcos 9:31).

Marcos afirma que os discípulos não compreenderam o que ele queria dizer, e tiveram medo de lhe perguntar. Mateus acrescenta que “se entristeceram grandemente” (Mateus 17:22-23). Foi este, pro­vavelmente, o tempo em que, segundo Lucas, Jesus “manifestou no semblante a intrépida resolução de ir para Jerusalém” (9:51). Ele estava decidido a cumprir o que fora escrito a seu respeito.

Jesus fez a terceira “predição da paixão” quando se dirigiam à Cidade Santa. Marcos a introduz com uma gráfica descrição do es­panto que a resolução do Senhor inspirou nos discípulos:

Estavam de caminho, subindo para Jerusalém, e Jesus ia adiante dos seus discípulos. Esses se admiravam e o se­guiam tomados de apreensões. E Jesus, tornando a levar à parte os doze, passou a revelar-lhes as coisas que se lhe deviam sobrevir, dizendo: Eis que subimos para Jerusalém e o Filho do homem será entregue aos principais sacerdotes e aos escribas; condená-lo-ão à morte e o entregarão aos gentios; hão de escarnecê-lo, cuspir nele, açoitá-lo e matá-lo; mas depois de três dias ressuscitará.

Lucas acrescenta o seu comentário de que “vai cumprir-se ali tudo quanto está escrito por intermédio dos profetas, no tocante ao Filho do homem” (Lucas 18:31-34).16

Esta repetição tripla da predição da paixão acrescenta uma nota de solenidade à narrativa de Marcos. É desta forma que ele, delibera-damente, prepara seus leitores, como Jesus, deliberadamente, pre­parou os Doze para os terríveis eventos que estavam pela frente. Ajuntando as três predições, a ênfase mais impressionante não é que Jesus seria traído, rejeitado e condenado por seu próprio povo e seus líderes, nem que eles o entregariam aos gentios que dele escarnece­riam e o matariam, nem que depois de três dias ele ressurgiria dentre os mortos. Nem é tampouco que Jesus se designava de “Filho do homem” (a figura celestial a quem Daniel viu em sua visão, vindo nas nuvens do céu, recebendo autoridade, glória e poder soberano, e recebendo adoração das nações) e, contudo, paradoxalmente, afir­mava que, como Filho do homem, ele sofreria e morreria, combinando assim, com ousada originalidade, as duas figuras messiânicas do Antigo Testamento, a do Servo Sofredor de Isaías 53, e a do Filho do homem reinante de Daniel 7. Mais impressionante ainda é a deter­minação que ele tanto expressou como exemplificou. Ele devia sofrer, ser rejeitado e morrer, disse ele. Tudo o que fora escrito a seu respeito na Escritura devia ser cumprido. Assim, ele se dirige para Jerusalém e vai adiante dos Doze. Ele instantaneamente reconheceu que o co­mentário negativo de Pedro era de procedência satânica e, portanto, instantaneamente o repudiou.

Embora essas três predições formem um trio óbvio por causa da sua estrutura e palavreado semelhante, os Evangelhos registram pelo menos mais oito ocasiões em que Jesus se referiu à sua morte. Des­cendo do monte onde havia sido transfigurado, ele advertiu de que sofreria nas mãos dos seus inimigos assim como João Batista havia sofrido,17 e em resposta ao pedido injuriosamente egoísta de Tiago e João, que desejavam os melhores lugares no reino, disse que ele próprio tinha vindo para servir, não para ser servido, e “para dar a sua vida em resgate de muitos”.18 As restantes seis alusões foram todas feitas durante a última semana da sua vida, à proporção que a crise se aproximava. Ele via a sua morte como a culminância de séculos de rejeição judaica da mensagem de Deus e predisse que o juízo divino traria um fim ao privilégio nacional judaico.19 Então na terça-feira, mencionando a páscoa, ele disse que ia ser “entregue para ser cru­cificado”; na casa em Betânia ele descreveu o perfume derramado na sua cabeça como em preparação para o seu sepultamento; no cenáculo ele insistiu em que o Filho do homem iria assim como dele estava escrito, e deu-lhes pão e vinho como emblema do seu corpo e sangue, assim prefigurando sua morte e requisitando sua comemoração. Fi­nalmente, no jardim do Getsêmani ele recusou ser defendido por homens ou anjos, pois “como, pois, se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim deve suceder?”20 Desta forma, os evangelistas sinóticos dão testemunho comum ao fato de que Jesus tanto previu claramente quanto repetidamente predisse a aproximação da sua morte.

João omite estas predições precisas. Contudo, ele dá testemunho do mesmo fenômeno mediante suas sete referências à “hora” de Jesus (geralmente hora, mas uma vez kairos, “tempo”). Era a hora do seu destino, na qual ele deixaria o mundo e voltaria ao Pai. Além disso, sua hora estava sob o controle do Pai, de modo que a princípio ainda não havia chegado, embora no final ele diria confiantemente que ela havia chegado.

Quando Jesus disse a sua mãe nas bodas de Caná, depois que o vinho acabara, e a seus irmãos, quando queriam que ele subisse para Jerusalém e se manifestasse publicamente: “A minha hora ainda não chegou”, o significado era claro. Mas João queria que seus leitores detectassem o significado mais profundo, embora a mãe e os irmãos de Jesus não o tivessem percebido.21 João continua a partilhar este segredo com seus leitores, e o usa a fim de explicar por que as afir­mativas aparentemente blasfemas de Jesus não levaram à sua prisão. “Então procuravam prendê-lo”, comenta ele, “mas ninguém lhe pôs a mão, porque ainda não era chegada a sua hora”.22 Somente quando Jesus chega a Jerusalém pela última vez é que João torna explícita a referência. Quando alguns gregos pediram para vê-lo, a princípio ele disse: “E chegada a hora de ser glorificado o Filho do homem”, e então, depois de falar claramente da sua morte, ele prossegue: “Agora está angustiada a minha alma, que direi eu? Pai, salva-me desta hora? Mas precisamente com este propósito vim para esta hora. Pai, glorifica o teu nome.”23 Então, duas vezes no cenáculo, ele fez referências finais a que o tempo havia chegado para que ele deixasse o mundo e fosse glorificado.24

Por mais incertos que possamos nos sentir acerca das primeiras alusões à sua “hora” ou “tempo”, não podemos ter dúvidas a respeito das últimas três. Pois Jesus especificamente chamou a sua “hora” de o tempo de sua “glorificação”, o qual (como veremos mais tarde), começou com sua morte, e acrescentou que não podia pedir que fosse livrado dela porque era este o motivo de ele ter vindo ao mundo. Deveras, não é provável que o paradoxo registrado por João tenha sido acidental, que a hora pela qual ele tinha vindo era a hora em que o deixava. Marcos torna a questão ainda mais explícita ao identificar a sua “hora” com o seu “cálice”.25

Tendo esta evidência, suprida pelos escritores dos Evangelhos, o que podemos dizer sobre a perspectiva de Jesus acerca da sua própria morte? Além de qualquer dúvida, ele sabia que ela ia acontecer — não no sentido em que todos nós sabemos que morreremos um dia, mas no sentido em que ele teria uma morte violenta, prematura e, contudo, intencional. Mais do que isso, ele apresenta três motivos interligados para sua inevitabilidade.

Primeiro, ele sabia que ia morrer por causa da hostilidade dos líderes nacionais judaicos. Parece que esta hostilidade fora despertada bem cedo durante o seu ministério público. A sua atitude para com a lei em geral, e para com o Sábado em particular, os enraivecia. Quando ele insistiu em curar numa sinagoga, no dia de Sábado, um homem que tinha a mão ressequida, Marcos nos diz que “retirando-se os fariseus, conspiravam logo com os herodianos, contra ele, em como lhe tirariam a vida” (3:6). Jesus deve ter percebido a intenção deles. Ele também conhecia o registro da perseguição dos profetas fiéis no Antigo Testamento.26 Embora soubesse que era mais do que profeta, ele também sabia que não era menos, e que, portanto, podia esperar tratamento semelhante. Ele era uma ameaça à posição e preconceito dos líderes. Segundo Lucas, depois que Jesus leu e explicou Isaías 61 na sinagoga de Nazaré, em cuja exposição ele parecia ensinar uma preferência divina pelos gentios, “todos na sinagoga, ouvindo estas coisas, se encheram de ira. E íevantando-se, expulsaram-no da cidade e o levaram até ao cume do monte sobre o qual estava edificada, para de lá o precipitaram abaixo”. Acrescenta Lucas que “Jesus, porém, passando por entre eles, retirou-se” (4:16-30). Mas ele escapou por pouco. Jesus sabia que mais cedo ou mais tarde eles o apanhariam.

Segundo, ele sabia que ia morrer porque era isto o que estava escrito nas Escrituras acerca do Messias. “Pois o Filho do homem vai, como está escrito a seu respeito” (Marcos 14:21). Deveras, referindo-se ao testemunho profético do Antigo Testamento, ele tinha a tendência de ligar a morte e a ressurreição, os sofrimentos e a glória do Messias. Pois as Escrituras ensinavam a ambos. E o Senhor ainda insistia sobre este assunto mesmo depois de haver ressurgido. Ele disse aos dis­cípulos na estrada de Emaús: “Porventura não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés, discorrendo por todos os profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras” (Lucas 24:25-26; cf. versículos 44-47).

Gostaríamos muitíssimo de estar presentes a essa exposição de “Cristo por todas as Escrituras”. Pois o número real de suas citações reconhecíveis extraídas do Antigo Testamento em relação à cruz e à ressurreição não é grande. Ele predisse o afastamento dos apóstolos, citando Zacarias, que quando o pastor fosse ferido as ovelhas se es­palhariam.27 Ele concluiu sua parábola dos viticultores com uma re­ferência impressionante à pedra que, embora rejeitada pelos construtores, subseqüentemente foi feita a pedra angular.28 E en­quanto ele pendia da cruz, três das assim chamadas “sete palavras”, foram citações diretas das Escrituras: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” é o Salmo 22:1; “Tenho sede”, vem do Salmo 69:21, e “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” do Salmo 31:5. Estes três salmos descrevem a profunda angústia de uma vítima ino­cente, que está sofrendo tanto física quanto mentalmente nas mãos dos seus inimigos, mas que, ao mesmo tempo, mantém sua confiança em Deus. Embora, é claro, tenham sido escritos para expressar a angústia do próprio salmista, contudo, Jesus tinha, evidentemente, chegado a ver-se a si mesmo e seus próprios sofrimentos como o cumprimento final deles.

E, contudo, de Isaías 53 que Jesus parece ter extraído a predição mais clara não somente dos seus sofrimentos, mas também de sua glória subseqüente. Pois aí o servo de Yavé é primeiramente apre­sentado como “desprezado, e o mais rejeitado entre os homens; ho­mem de dores e que sabe o que é padecer” (v. 3), sobre quem o Senhor colocou os nossos pecados para que ele fosse “trespassado pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniqüidades” (vv. 5-6), e então, no final dos capítulos 52 e 53, ele “será exaltado e elevado, e será mui sublime” (52:13) e recebe “como a sua parte e com os poderosos repartirá ele o despojo” (53:12), como resultado do qual ele “causará admiração às nações” (52:15) e “justificará a muitos” (53:11). A única citação direta, registrada dos lábios de Jesus, é o versículo 12: “Foi contado com os transgressores”. “Pois vos digo que importa que se cumpra em mim o que está escrito”, disse ele (Lucas 22:37). Ao declarar ele que “devia sofrer muitas coisas” e que não tinha vindo “para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Marcos 8:31; 10:45), embora não sejam citações diretas de Isaías 53, a sua combinação de sofrimento, serviço e morte pela salvação de outros apontam claramente nessa direção. Além do mais, Paulo, Pedro, Mateus, Lucas e João — os maiores contribuintes para o Novo Testamento — juntos aludem pelo menos a oito dos doze versículos do capítulo. Qual era a origem de sua aplicação con­fiante e detalhada de Isaías 53 a Jesus? Eles devem tê-la extraído dos próprios lábios do Mestre. Foi desse capítulo, mais do que de qualquer outro, que Jesus aprendeu que a vocação do Messias era sofrer e morrer pelo pecado dos homens, e, assim, ser glorificado.

A oposição da hierarquia e as predições da Escritura, contudo, em si mesmas não explicam a inevitabilidade da morte de Jesus. O terceiro e mais importante motivo pelo qual ele sabia que ia morrer era sua própria escolha deliberada. Ele decidiu cumprir o que estava escrito acerca do Messias, por mais doloroso que fosse. Essa atitude não era nem fatalismo nem complexo de mártir. Simplesmente ele cria que a Escritura do Antigo Testamento era a revelação do Pai e que estava totalmente decidido a realizar a vontade do Pai e terminar a obra do Pai. Além disso, seu sofrimento e morte não seriam sem propósito. Ele tinha vindo “buscar e salvar o perdido” (Lucas 19:10). Era pela salvação dos pecadores que ele morreria, dando a sua vida em resgate por eles (Marcos 10:45). Assim, ele tomou a firme decisão de ir para Jerusalém. Nada o deteria nem o desviaria do seu objetivo. Daí o repetido “deve” quando ele fala da sua morte. O Filho do homem deve sofrer muitas coisas e ser rejeitado. Tudo o que foi escrito a respeito dele deve ser cumprido. Ele se recusou a apelar para os anjos a fim de que o salvassem porque então as Escrituras não seriam cum­pridas da maneira como diziam que deveriam cumprir-se. Não era necessário que o Cristo sofresse antes de entrar na sua glória?29 Ele se sentiu constrangido, até mesmo sob compulsão: “Tenho, porém, um batismo com o qual hei de ser batizado; e quanto me angustio até que o mesmo se realize” (Lucas 12:50).

De forma que, embora ele soubesse que devia morrer, não morreria por ser uma vítima indefesa das forças do mal dispostas contra ele, nem de um destino inflexível contra ele decretado, mas porque de livre vontade abraçou o propósito do Pai com o fim de salvar os pecadores, como a Escritura havia revelado.

Foi essa a perspectiva de Jesus sobre a sua morte. Apesar da grande importância do seu ensino, exemplo e obras de compaixão e poder, nenhuma destas coisas ocupava o centro de sua missão. O que lhe dominava a mente não era viver, mas dar a sua vida. Este auto-sacrifício final era a sua “hora”, para a qual tinha vindo ao mundo. E os quatro evangelistas, que dão testemunho dele, mostram que compreendem isto dando uma quantidade desproporcional de espaço à história de seus últimos dias na terra, sua morte e ressurreição. Ela ocupa entre um terço e um quarto dos Evangelhos Sinóticos, e o Evangelho de João já foi apropriadamente descrito como possuindo duas partes: o “Livro dos Sinais”, e o “Livro da Paixão”, uma vez que João gasta uma quantidade quase igual de tempo em cada uma.

A ênfase dos apóstolos

Afirma-se com freqüência que, no livro dos Atos, a ênfase dos após­tolos foi sobre a ressurreição em vez de a morte de Jesus, e que, de qualquer modo, não deram explicação doutrinária da sua morte. A evidência não sustenta nenhum destes argumentos. Não estou di­zendo, é claro, que os sermões dos apóstolos expressam uma doutrina completa da expiação, como mais tarde encontramos em suas cartas. O senso histórico de Lucas capacita-o a registrar o que disseram na época, não o que poderiam ter dito se estivessem pregando vários anos mais tarde. Contudo, a semente da doutrina se encontra aí. Lucas tece a sua história em torno dos dois apóstolos Pedro e Paulo, e supre cinco amostras de sermões evangelísticos de cada um deles, umas mais curtas e outras mais longas. Assim, temos os sermões que Pedro pregou no dia do Pentecoste e o que entregou no recinto do templo, resumos breves do que ele disse durante seus dois julgamentos pelo Sinédrio, e o relato bastante completo de sua mensagem ao centurião gentio Cornélio e à sua casa.30 Então, quando Lucas está relatando as proezas missionários de seu herói Paulo, ele contrasta o sermão do apóstolo aos judeus na sinagoga de Antioquia da Pisídia com o en­tregue aos pagãos ao ar-livre em Listra. Ele contrasta dois mais na segunda viagem missionária, a saber, aos judeus de Tessalônica e aos filósofos de Atenas, e resume seu ensino aos dirigentes judaicos de Roma.31 Em cada sermão o tratamento é diferente. Para os judeus, Paulo falou do Deus da aliança, o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, mais aos gentios ele apresenta o Deus da criação, que fez os céus, a terra e o mar e tudo o que neles há. Entretanto, a proclamação de ambos os apóstolos possuía um centro que podia ser reconstruído como segue:

“Jesus foi um homem aprovado por Deus através de mi­lagres e ungido pelo Espírito a fim de fazer o bem e para curar. Apesar disto, ele foi crucificado através da instru­mentalidade de homens perversos, embora também pelo propósito de Deus, segundo as Escrituras, de que o Messias deve sofrer. Então Deus inverteu o veredicto humano sobre Jesus, levantando-o dentre os mortos, também segundo as Escrituras, como atestado pelas testemunhas oculares apos­tólicas. A seguir o exaltou ao lugar de suprema honra como Senhor e Salvador. Agora ele possui autoridade completa tanto para salvar os que se arrependem, crêem e são ba­tizados em seu nome, concedendo-lhes o perdão dos pecados e o dom do Espírito, como para julgar os que o rejeitam.”

Emergem vários pontos deste âmago do evangelho. Primeiro, embora os apóstolos tenham atribuído a morte de Jesus à maldade humana, declararam que foi também devida a um propósito divino.32 Além do mais, o que Deus havia pré-conhecido, também havia predito. De forma que os apóstolos repetidamente enfatizavam que a morte e a ressurreição de Jesus aconteceram “segundo as Es­crituras”. O próprio resumo posterior que Paulo fez do evangelho também ressaltava tal verdade: “que Cristo morreu pelos nossos pe­cados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. . .” (1 Coríntios 15:3-4). Somente às vezes registram-se citações bíblicas reais. Muitas outras devem ter sido usadas, como na ocasião em que Paulo esteve na sinagoga de Tessalônica e “arrazoou com eles, acerca das Escrituras, expondo e demonstrando ter sido necessário que o Cristo padecesse e ressurgisse dentre os mortos” (Atos 17:2-3). Parece provável que estas foram as Escrituras que Jesus usou, ou pelo menos estão incluídas nelas, e, portanto, eram a doutrina que expunham.

Segundo, embora não esteja presente uma doutrina completa da expiação, a pregação apostólica da cruz era doutrinária. Os apóstolos não apenas proclamavam que Cristo morreu segundo as Escrituras, e, assim, segundo o próprio propósito salvador de Deus, mas também chamavam a cruz sobre a qual ele morreu de “madeiro”. Lucas teve o trabalho de registrar esse fato acerca de ambos os principais após­tolos, Pedro e Paulo. Pedro usou duas vezes a expressão de que o povo matou a Jesus pendurando-o num “madeiro”, ao se dirigir ao Sinédrio judaico e ao gentio Cornélio. Da mesma forma, Paulo disse à congregação da sinagoga de Antioquia da Pisídia que quando o povo e seus dirigentes em Jerusalém “depois de cumprirem tudo o que a respeito dele estava escrito, tirando-o do madeiro, puseram-no em um túmulo”.33

Ora, não tinham necessidade alguma de usar esse tipo de lingua­gem. Pedro também falou da “crucificação” de Jesus, e Paulo, de seus “sofrimentos” e “execução”.34 Assim, por que fizeram referência ao “madeiro”, e ao fato de ele ter sido “pendurado” nele? A única ex­plicação possível está em Deuteronômio 21:22-23, onde se encontram instruções quanto ao corpo da pessoa que foi enforcada por causa de uma ofensa capital. Essa pessoa devia ser sepultada antes do anoi­tecer, “porquanto o que for pendurado no madeiro é maldito de Deus”. Os apóstolos conheciam muito bem essa lei, e a sua implicação de que Jesus morrera sob a maldição divina. Contudo, em vez de calar esse fato, eles, deliberadamente, chamavam a atenção do povo para ele. Assim, evidentemente, não se envergonhavam de proclamá-lo. Não pensavam que Jesus, em sentido algum, merecia ser amal­diçoado por Deus. Portanto, devem pelo menos ter começado a com­preender que foi a nossa maldição que ele levou. É certo que ambos os apóstolos afirmaram essa doutrina claramente em suas cartas pos­teriores. Paulo na carta aos Gálatas, provavelmente escrita pouco an­tes de sua visita a Antioquia da Pisídia, disse que “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar, porque está escrito: Maldito aquele que for pendurado em madeiro” (3:13). E Pedro escreveu: “Carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados” (1 Pedro 2:24). Se, então, Pedro e Paulo em suas cartas viram claramente que o propósito da cruz de Cristo era levar o pecado ou a maldição, e ambos ligaram esse fato aos versículos de Deuteronômio que tratam da execução sobre o ma­deiro, não é razoável supor que já nos seus discursos do livro de Atos, nos quais chamaram a cruz de madeiro, tinham vislumbres da mesma verdade? Se isto for assim, há mais ensino doutrinário acerca da cruz nos primeiros sermões dos apóstolos do que geralmente se reconhece. Terceiro, precisamos considerar como os apóstolos apresentaram a ressurreição. Embora tivessem dado ênfase a ela, seria exagero cha­marmos à sua mensagem de evangelho exclusivamente da ressurrei­ção. Pois, na realidade, a ressurreição não pode firmar-se por si mesma. Visto que é uma ressurreição da morte, seu significado é determinado pela natureza dessa morte. De fato, o motivo da ênfase na ressurreição pode ser antes o de ressaltar algo acerca da morte que ela cancela e vence. É este o caso. E a sua mensagem mais simples foi: “vós o mataste, Deus o ressuscitou, e nós somos testemunhas”.35 Por outras palavras, a ressurreição foi a inversão divina do veredicto humano. Foi, porém, mais do que isso. Mediante a ressurreição Deus “glorificou” e “exaltou” a Jesus que havia morrido.36 Promovendo-o ao lugar de suprema honra à sua direita, em cumprimento ao Salmo 110:1 e por causa da realização da sua morte, Deus transformou ao Jesus crucificado e ressurreto em “Senhor e Cristo” e em “Príncipe e Salvador”, dando-lhe autoridade para salvar os pecadores conce­dendo-lhes arrependimento, perdão e o dom do Espírito.37 Além do mais, diz-se que essa salvação completa é devida ao “nome” poderoso (a soma total da sua pessoa, morte e ressurreição), no qual as pessoas devem crer e no qual devem ser batizadas, “porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos”.38

Quando nos voltamos dos primeiros sermões dos apóstolos, regis­trados no livro de Atos, para as afirmativas mais maduras de suas cartas, a proeminência que dão à cruz se torna ainda mais marcante. É verdade que algumas das cartas mais curtas não a mencionam (como a carta de Paulo a Filemom, a carta de Judas, e a segunda e a terceira cartas de João), e, não é de surpreender que a homilia principalmente ética de Tiago não se refira a ela. Contudo, os três maiores escritores de cartas do Novo Testamento — Paulo, Pedro e João — são unânimes em testemunhar da sua centralidade, como também o faz a carta aos Hebreus e o Apocalipse.

Comecemos com Paulo. Ele não achou ser anomalia alguma definir o seu evangelho como “a mensagem da cruz”, seu ministério como “a pregação de Cristo crucificado”, o batismo como a iniciação “da sua morte”, e a Ceia do Senhor como uma proclamação da morte do Senhor. Ele ousadamente declarou que, embora a cruz parecesse lou­cura ou “pedra de tropeço” aos que confiam em si mesmos, era de fato a própria essência da sabedoria e do poder de Deus.39 Tão convicto estava desse fato que havia deliberadamente decidido, como disse aos coríntios, renunciar à sabedoria do mundo e, em vez dela, a nada conhecer entre eles senão “a Jesus Cristo e este crucificado” (1 Coríntios 2:1-2). Quando, mais tarde na mesma carta, ele desejou lembrá-los do seu evangelho, que ele próprio havia recebido e entre­gado a eles, o qual se tornara o fundamento sobre o qual se firmavam, e as boas novas mediante as quais estavam sendo salvos, o “de pri­meira importância” (disse ele) era que “Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. E apareceu. . .” (1 Coríntios 15:1-5). E quando, alguns anos mais tarde, ele desenvolveu esse esboço, transformando-o em manifesto completo do evangelho, que é a sua carta aos Romanos, a ênfase que deu à cruz foi ainda maior. Pois havendo provado que toda a humanidade é pecadora e culpada pe­rante Deus, ele explica que o modo justo de Deus de tornar os injustos corretos consigo mesmo opera “mediante a redenção que há em Cristo Jesus; a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, me­diante a fé” (Romanos 3:21-25). Conseqüentemente, somos “justifi­cados pelo seu sangue”, e “reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho” (Romanos 5:9-10). Sem a morte sacrificial de Cristo por nós a salvação teria sido impossível. Não é de admirar que Paulo se vangloriasse em nada mais senão na cruz (Gálatas 6:14).

O testemunho do apóstolo Pedro é igualmente claro. Ele inicia sua primeira carta com a afirmativa admirável de que seus leitores foram aspergidos com o sangue de Jesus Cristo. E, alguns versículos mais tarde, ele os lembra de que o preço da redenção do seu antigo modo vazio de vida não foi “coisas corruptíveis, como prata ou ouro”, mas antes, o “precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo” (1 Pedro 1:18-19). Embora as referências restantes de sua carta à morte de Jesus a relacionem com os sofri­mentos injustos dos cristãos (“glória através do sofrimento”, sendo o princípio que ele apresenta para os crentes), Pedro, entretanto, aproveita a oportunidade para dar profundas instruções acerca da morte do Salvador. “Carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados” e “Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus” (2:24; 3:18), em cumprimento à profecia de Isaías 53. Visto que, no contexto, Pedro está dando ênfase à cruz como nosso exemplo, é ainda mais notável que ele tivesse escrito a respeito de Cristo como nosso substituto e portador de nosso pecado.

A ênfase das cartas de João é sobre a encarnação. Por estar o após­tolo combatendo uma heresia primitiva que tentava separar a Cristo de Jesus, o Filho divino do ser humano, ele insistiu em que “Cristo veio em carne” e quem negasse esse fato era o anticristo.40 Entretanto, ele viu a encarnação como possuindo uma vista para a expiação. Pois o singular amor de Deus não foi visto tanto na vinda como na morte do seu Filho, a quem ele “enviou. . . como propiciação pelos nossos pecados” e cujo “sangue. . . nos purifica de todo o pecado”.41

A epístola aos Hebreus, mais um tratado teológico do que uma carta, foi escrita para os cristãos judeus que, sob a pressão da per­seguição, estavam sendo tentados a renunciar a Cristo e voltar ao judaísmo. A tática do autor foi demonstrar a supremacia de Jesus Cristo, não somente como Filho sobre os anjos, e como Profeta sobre Moisés, mas também em particular como Sacerdote sobre o agora obsoleto sacerdócio levítico. Pois o ministério sacrificial de Jesus, nosso “grande sumo sacerdote” (4:14), é incomparavelmente superior ao deles. Ele não tinha pecados pelos quais fazer sacrifício; o sangue que ele derramou não foi de bodes, nem de bezerros, mas o seu próprio; ele não tinha necessidade alguma de oferecer os mesmos sacrifícios repetidamente, os quais jamais poderiam tirar os pecados, porque ele fez “um sacrifício eterno pelos pecados”, e assim obteve uma “redenção eterna” e estabeleceu uma “aliança eterna” que con­tém a promessa: “Perdoarei a sua maldade e dos seus pecados jamais me lembrarei”.42

Ainda mais notável, porém, é a maneira pela qual o último livro da Bíblia, o Apocalipse, retrata a Jesus. O primeiro capítulo nos apre­senta o Mestre como “o primogênito dos mortos” (v. 5) e “aquele que vive”, que foi morto mas agora vive para sempre, e que tem as chaves da morte e do inferno (v. 18). Acrescenta-se uma doxologia apropriada: “Aquele que nos ama, e pelo sangue nos libertou dos nossos pecados, e nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai, a ele a glória e o domínio pelos séculos dos séculos!” (vv.5-6).

A designação mais comum que João dá a Jesus, consoante com sua imagem simbólica do Apocalipse, é simplesmente “o Cordeiro”. O motivo deste título, que lhe é aplicado vinte e oito vezes através do livro, pouco tem que ver com a mansidão do seu caráter (embora uma vez suas qualidades tanto de “leão” como de “cordeiro” são delibe­radamente contrastadas (5:5-6); é antes porque ele foi morto como uma vítima sacrificial e, mediante o seu sangue, libertou o seu povo. A fim de compreender a perspectiva mais ampla da qual João vê a influência do Cordeiro, pode ser útil dividi-la em quatro esferas — salvação, história, adoração e eternidade.

O redimido povo de Deus (aquela “grande multidão que ninguém poderia contar”), tirado de cada nação e língua, e que permanece de pé na presença do trono de Deus, atribui a sua salvação especifica­mente a Deus e ao Cordeiro. Clamam em grande voz:

Ao nosso Deus que se assenta no trono, e ao Cordeiro, pertence a salvação.

Mediante uma figura de pensamento muito dramática, diz-se que eles “lavaram as suas vestiduras, e as alvejaram no sangue do Cor­deiro”. Por outras palavras, devem sua permanência justa perante Deus inteiramente à cruz de Cristo, através da qual seus pecados foram perdoados e sua impureza purificada. A sua salvação por meio de Cristo também é segura, pois não apenas os seus nomes estão escritos no livro da vida do Cordeiro, mas também o nome do Cordeiro está escrito nas suas testas.43

Na visão de João, porém, o Cordeiro é mais do que o Salvador de uma multidão incontável; ele também é retratado como o senhor de toda a história. Para começar, ele é visto em pé no centro do trono, isto é, partilhando o governo soberano do Deus Todo-poderoso. Mais do que isso, o ocupante do trono traz na mão direita um rolo selado com sete selos, o qual geralmente é identificado como o livro da história. A princípio João chora muito porque ninguém no Universo podia abrir o rolo, nem mesmo olhar dentro dele. Mas, então, final­mente diz-se que o Cordeiro é digno. Ele pega o rolo, quebra os selos um a um, e assim (parece), desenrola a história capítulo por capítulo. E significativo que aquilo que o qualifica para assumir esse papel é a sua cruz; pois esta é a chave da história e do processo redentor que ela inaugura. Apesar dos seus sofrimentos por causa das guerras, fomes, pragas, perseguições e outras catástrofes, o povo de Deus ainda pode vencer o diabo “pelo sangue do Cordeiro”, e recebe a segurança de que a vitória final será dele e deles, visto que o Cordeiro prova ser “Senhor dos senhores e Rei dos reis”.44

Não é de surpreender descobrirmos que o Autor da salvação e Senhor da história é também o objeto da adoração no céu. No capítulo 5 ouvimos como um coro após o outro entra para aumentar o louvor do Cordeiro. Primeiro, quando ele tomou o rolo, “os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos” (provavelmente representando toda a criação por um lado, e toda a igreja de ambos os Testamentos, por outro), caíram perante o Cordeiro. . ; e cantaram um cântico novo:

Digno és de tomar o livro e de abrir os selos, porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação. . .

A seguir, João ouviu a voz de milhões de milhões e milhares de milhares de anjos, ou mais, os quais constituíam o círculo externo dos que cercavam o trono. Eles também cantavam com grande voz:

Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor.

Então, finalmente, ele “ouviu que toda criatura que há no céu e na terra, debaixo da terra e no mar, e tudo o que neles há” — a criação universal — estava cantando:

Àquele que está sentado no trono, e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o domínio pelos séculos dos séculos.

A este cântico, os quatro seres viventes responderam com o seu “amém”, e os anciãos se prostraram e o adoraram.45

Jesus, o Cordeiro, hoje é mais do que o centro do palco na salvação, na história e na adoração. Ele terá um lugar central quando a história terminar e a cortina se abrir para a eternidade. No dia do juízo aqueles que o rejeitaram tentarão fugir dele. Clamarão às montanhas e rochas que os soterrem: “Caí sobre nós, escondei-nos da face daquele que se assenta no trono, e da ira do Cordeiro, porque chegou o grande dia da ira deles; e quem é que pode suster-se?” Para aqueles que confiaram nele e o seguiram, porém, aquele dia será como um dia de festa de casamento. Pois a união final de Cristo com o seu povo é retratada em termos do casamento do Cordeiro com a sua noiva. Mudando a metáfora, a Nova Jerusalém descerá do céu. Nela não haverá templo, “porque o seu santuário é o Senhor, o Deus Todo-poderoso e o Cordeiro”; nem precisará do Sol nem da Lua, “pois a glória de Deus a ilumina, e o Cordeiro é a sua lâmpada”.46

Não podemos deixar de perceber, nem de nos impressionar com a ligação inibida e repetida que o vidente faz de “Deus e o Cordeiro”. A pessoa a quem ele coloca em igualdade com Deus é o Salvador que morreu pelos pecadores. Ele o retrata como sendo o mediador da salvação de Deus, partilhando o trono de Deus, recebendo a adoração de Deus (adoração que lhe é devida) e difundindo a luz de Deus. E a sua dignidade, que o qualifica a estes privilégios singulares, deve-se ao fato de que foi morto, e que pela sua morte nos trouxe a salvação. Se (como pode ser) o livro da vida pertence “ao Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo”, como afirma 13:8, então o que João nos está dizendo é que desde a eternidade passada à eternidade futura o centro do palco é ocupado pelo Cordeiro de Deus que foi morto.

Persistência apesar da oposição

Este exame não nos deixa dúvida de que os contribuintes principais do Novo Testamento criam na centralidade da cruz de Cristo, e criam que sua convicção se derivava da mente do próprio Mestre. A igreja primitiva do período pós-apostólico, portanto, tinha uma base dupla e firme — no ensino de Cristo e de seus apóstolos — para transformar a cruz em sinal e símbolo do Cristianismo. A tradição eclesiástica provou, neste caso, ser um reflexo fiel da Escritura.

Além do mais, não devemos perder de vista a sua admirável te­nacidade. Eles sabiam que aqueles que haviam crucificado o Filho de Deus o haviam sujeito à vergonha pública e que, a fim de suportar a cruz, Jesus teve de se humilhar e expor-se à sua ignomínia.47 Entre­tanto, o que era odioso, até mesmo vergonhoso aos críticos de Cristo, aos olhos dos seus seguidores era muitíssimo glorioso. Haviam apren­dido que o servo não é maior do que seu mestre, e que para eles, como o foi para ele, o sofrimento era o meio da glória. Mais do que isso, o sofrimento era a glória, e sempre que eram insultados por causa do nome de Cristo, então, o Espírito da glória descansava sobre eles.48

Contudo, os inimigos do evangelho não partilhavam nem partilham dessa perspectiva. Não há ruptura maior entre a fé e a descrença do que as atitudes respectivas deles para com a cruz. Onde a fé vê a glória, a descrença vê apenas desgraça. O que era loucura para os gregos, e continua sendo para os intelectuais modernos que confiam em sua própria sabedoria, é, contudo, a sabedoria de Deus. E o que permanece como pedra de tropeço para os que confiam em sua própria justiça, como os judeus do primeiro século, prova ser o poder salvador de Deus (1 Coríntios 1:18-25).

Um dos aspectos mais tristes do islamismo é rejeitar a cruz, decla­rando inapropriado que um grande profeta de Deus chegasse a um fim tão ignominioso. O Alcorão não vê necessidade nenhuma da morte de um Salvador que tirasse os pecados. Pelo menos cinco vezes declara categoricamente que “alma nenhuma levará o fardo de outra”. Deveras, “se uma alma sobrecarregada clamar por ajuda, nem mesmo um parente próximo partilhará do seu fardo”. Por que isto? É porque “cada homem colherá os frutos de suas próprias ações”, embora Alá seja misericordioso e perdoe os que se arrependem e praticam o bem. Negando a necessidade da cruz, o Alcorão prossegue para a negação do fato. Os judeus “proferiram uma falsidade monstruosa”, ao de­clararem: “matamos o Messias Jesus, filho de Maria, apóstolo de Alá”, pois “não o mataram, nem o crucificaram, mas pensaram tê-lo feito”.49 Embora os teólogos muçulmanos interpretem essa afirmativa de mo­dos diferentes, a crença mais comumente aceita é que Deus lançou um encanto sobre os inimigos de Jesus a fim de salvá-lo, e que ou Judas Iscariotes50 ou Simão, de Cirene, tenha tomado o seu lugar no último instante. No século dezenove a seita Ahmadiya do islamismo emprestou, de diferentes escritores cristãos liberais, a noção de que Jesus apenas desmaiou na cruz, e reviveu no túmulo, acrescentando que, subseqüentemente ele viajou para a Índia a fim de ensinar, onde morreu; dizem ser os guardiães do seu túmulo que está em Cashmir. Mas os mensageiros cristãos das boas-novas não podem perma­necer calados a respeito da cruz. Eis o testemunho do missionário norte-americano Samuel M. Zwemer (1867-1952), que trabalhou na Arábia, e foi redator do Mundo Muçulmano durante quarenta anos, e que às vezes é chamado de “o apóstolo do islamismo”:

O missionário entre os muçulmanos (para os quais a cruz de Cristo é pedra de tropeço e a expiação, loucura) é levado diariamente a uma meditação mais profunda sobre esse mistério da redenção, e a uma convicção mais forte de que aqui está o próprio coração de nossa mensagem e mis­são. . .

Se a cruz de Cristo for alguma coisa para a mente, cer­tamente será tudo —a realidade mais profunda e o mistério mais sublime. A pessoa chega a perceber que literalmente toda a riqueza e glória do evangelho tem aí o seu centro. A cruz é o pivô, como também o centro do pensamento do Novo Testamento. É o marco exclusivo da fé cristã, o símbolo do Cristianismo e sua estrela polar.

Quanto mais os incrédulos negarem o seu caráter crucial, tanto mais os crentes encontrarão nele a chave para os mistérios do pecado e sofrimento. Quando lemos o evan­gelho com os muçulmanos, redescobrimos a ênfase apos­tólica sobre a cruz. Descobrimos que, embora a ofensa da cruz permaneça, seu poder magnético é irresistível.51

“Irresistível” é a própria palavra que um estudante iraniano usou ao referir-me sua conversão a Cristo. Criado lendo o Alcorão, fazendo suas orações e levando uma boa vida, ele, contudo, sabia estar se­parado de Deus, pelos seus pecados. Quando amigos cristãos o le­varam à igreja e o incentivaram a ler a Bíblia, ele aprendeu que Jesus Cristo havia morrido pelo seu perdão. “Para mim a oferta era irre­sistível e enviada pelo céu”, disse ele, e clamou pedindo que Deus tivesse misericórdia dele através de Cristo. Quase imediatamente “o fardo da minha vida passada se ergueu. Senti-me como se um peso enorme. . . houvesse desaparecido. Com o alívio e a impressão de leveza veio uma incrível alegria. Finalmente havia acontecido. Eu estava livre do meu passado. Eu sabia que Deus me havia perdoado, e me sentia limpo. Eu queria gritar, e contar a minha experiência ao mundo todo.” Foi através da cruz que esse rapaz descobriu o caráter de Deus e a dimensão que falta ao islamismo, “a paternidade íntima de Deus e a segurança profunda do perdão dos pecados”.

Porém os muçulmanos não são, de maneira nenhuma, o único povo que repudia o evangelho da cruz. Os hindus também, embora possam aceitar a sua historicidade, rejeitam o seu significado salvador. Gandhi, por exemplo, fundador da Índia moderna, que, enquanto trabalhava na África do Sul como jovem advogado, foi atraído ao Cristianismo, escreveu acerca de si mesmo enquanto nesse país em 1894:

Eu poderia aceitar a Jesus como mártir, uma incorporação do sacrifício, e um mestre divino, mas não como o homem mais perfeito que jamais existiu. Sua morte na cruz foi um grande exemplo para o mundo, mas que ela contivesse algo parecido como uma virtude misteriosa ou miraculosa, meu coração não poderia aceitar.52

Voltando-nos para o Ocidente, talvez a rejeição mais desdenhosa da cruz tenha vindo da pena do filósofo e filólogo alemão Friederich Nietzsche (morto em 1900). No início do seu livro O Anticristo (1895) ele definiu o bem como “a vontade do poder”, o mal como “tudo o que procede da fraqueza” e a felicidade como “o sentimento de que o poder aumenta. . .” enquanto “o que é mais prejudicial do que qualquer vício” é a “simpatia ativa pelo mal constituído e fraco — o Cristianismo”. Tendo admiração pela ênfase de Darwin sobre a so­brevivência do mais apto, ele desprezava todas as formas de fraqueza, e em seu lugar sonhava com a emergência de um “superhomem” e “uma raça governante audaz”. Para ele “depravação” significava “de­cadência”, e nada era mais decadente do que o Cristianismo que “tem tomado o partido de tudo o que é fraco, baixo, mal constituído”.

Sendo “a religião da misericórdia”, ele “preserva o que está maduro para a destruição”, e, desta forma, “distorce a lei da evolução”. Nietzsche reservou sua invectiva mais amarga ao “conceito cristão de Deus” como “Deus dos enfermos, Deus como aranha, Deus como espírito”, e ao Messias cristão a quem rejeitou com desprezo, como “Deus sobre a cruz”.

Se Nietzsche rejeitou o Cristianismo por causa de sua “fraqueza”, outros, porém, têm-no rejeitado por causa de seus assim chamados ensinos “bárbaros”. O professor Sir Alfred Ayer, o filósofo de Oxford, bem conhecido por sua antipatia ao Cristianismo, por exemplo, re­centemente escreveu um artigo de jornal que dizia que, entre as re­ligiões de importância histórica, havia um caso muito forte para considerar o Cristianismo como a pior. Por quê? Porque ele repousa “nas doutrinas aliadas do pecado original e da expiação vicária, as quais são intelectual e moralmente ultrajantes”.53

Como é que os cristãos podem encarar tal ridículo sem mudar de posição? Por que nos apegamos à velha e rude cruz, e insistimos em sua centralidade, recusando-nos a deixar que ela seja empurrada para a periferia de nossa mensagem? Por que devemos proclamar o que é escandaloso, e gloriarmo-nos no que é vergonhoso? A resposta jaz na simples palavra “integridade”. A integridade cristã consiste par­cialmente numa resolução de desmascarar as caricaturas, mas prin­cipalmente na lealdade pessoal a Jesus, em cuja mente a cruz salvadora ocupava o centro. Deveras, todos os leitores que se apro­ximaram, sem preconceito, das Escrituras, parecem ter chegado à mesma conclusão. Eis um exemplo extraído deste século.

P. T. Forsyth, congregacionalista inglês, escreveu em A Crucialidade da Cruz (1909):

Cristo é para nós o que o é a cruz. Tudo o que Cristo foi no céu ou na terra foi colocado no que ele fez aí. . . Cristo, repito, é para nós justamente o que a cruz o é. A pessoa não pode compreender a Cristo até que compreenda a sua cruz.

E, no ano seguinte (1910), no livro A Obra de Cristo, ele escrevem

Sobre esta interpretação da obra de Cristo (a doutrina pau­lina da reconciliação) descansa toda a Igreja, Se tirarmos a fé desse centro, estaremos malhando o prego no caixão da Igreja. A Igreja então estará condenada à morte, e seu pas­samento será apenas uma questão de tempo.

A seguir, Emil Brunner, teólogo suíço, cujo livro O Mediador foi publicado primeiramente em alemão em 1927, tendo como subtítulo “Um estudo da doutrina central da fé cristã”, defendeu sua convicção com as seguintes palavras:

No Cristianismo a fé no Mediador não é algo opcional, não é algo sobre o qual, em último recurso, é possível terem-se diversas opiniões, se tão-somente estivermos unidos no “ponto principal”. Pois a fé no Mediador — no evento que aconteceu de uma vez por todas, uma expiação revelada — é a própria religião cristã; é o “ponto principal”; não é algo posto junto ao centro; é a substância e o grão, não a casca. Isto é tão verdade que podemos até mesmo dizer: diferentemente de todas as outras formas de religião, a cristã é a fé em um Mediador. . . E não há outra possibi­lidade de existir um cristão a não ser através da fé naquilo que aconteceu de uma vez por todas, revelação e expiação através do Mediador.

Mais tarde, Brunner aplaude a descrição que Lutero faz da teologia cristã como sendo uma theologia crucis, e prossegue:

A cruz é o símbolo da fé cristã, da igreja cristã, da revelação de Deus em Jesus Cristo. . . Toda a luta da Reforma pela sola fide, o soli deo gloria, não passou de uma luta pela in­terpretação correta da cruz. Aquele que compreende cor­retamente a cruz — e esta é a opinião dos reformadores — compreende a Bíblia, compreende a Jesus Cristo.

Novamente,

reconhecer, com fé, esta singularidade, fé no Mediador, é sinal da fé cristã. Todo aquele que considerar esta afir­mativa como um sinal de exagero, intolerância, dureza, pensamento não histórico, e que tais, ainda não ouviu a mensagem do Cristianismo.

Minha citação final é extraída do erudito anglicano, bispo Stephen Neill:

Na teologia histórica cristã a morte de Cristo é o ponto central da história; para aí todas as estradas do passado convergem; e daí saem todas as estradas do futuro.54

O veredicto dos eruditos tem passado para a devoção cristã popular. Devem-se fazer concessões aos cristãos que, usando uma inofensiva hipérbole, dizem que junto à cruz de Cristo descobriram que seu orgulho foi quebrado, sua culpa retirada, seu amor acendido, sua esperança restaurada e seu caráter transformado. Vendo a cruz como centro da história e da teologia, eles naturalmente percebem-na tam­bém como o centro de toda a realidade, Assim, vêem-na em todos os lugares. E sempre a viram. Cito dois exemplos, um antigo e um moderno.

Justino Mártir, apologista cristão do segundo século, confessava que para onde quer que olhava, via a cruz. Não se atravessa o mar nem se ara a terra sem ela, escreve ele, referindo-se ao mastro e à verga do navio, à lâmina e ao jugo do arado. Escavadores e mecânicos não trabalham sem ferramentas em forma de cruz, uma possível alu­são à pá e seu cabo, além disso “a forma humana difere da dos animais irracionais somente no fato de ser ereta e ter os braços estendidos”. E, se o tronco e os braços da forma humana proclamam a cruz, assim o fazem o nariz e as sobrancelhas.55 Imaginoso? Sim, completamente, e, contudo, estou disposto a perdoar a essas fantasias que glorificam a cruz.

Meu exemplo moderno é a descrição mais eloqüente que conheço da universalidade da cruz. Quem escreve é Malcolm Muggeridge, inconscientemente atualizando o pensamento de Justino Mártir. Criado num lar socialista, e conhecendo escolas dominicais socialistas e seu “tipo de agnosticismo adocicado por hinos”, ele se perturbou com “este conceito todo de um Jesus de boas causas”. Então:

Eu tinha um vislumbre de uma cruz — não necessariamente de um crucifixo; talvez dois pedaços de madeira aciden­talmente unidos, num poste telefônico, por exemplo — e de súbito meu coração parava. De um modo instintivo e intuitivo eu compreendia que se tratava de algo mais im­portante, mais tumultuoso e mais apaixonado do que nos­sas boas causas, por admiráveis que fossem. . .

Era, eu sei, um interesse obsessivo. . . Às vezes eu mesmo juntava pequenos pedaços de madeira. Esse sím­bolo, considerado irrisório em meu lar, era, contudo, o foco de esperanças e desejos inconcebíveis. . .

Ao lembrar-me disso, uma sensação do meu próprio fra­casso pesa profundamente sobre mim. Eu devia tê-la usado sobre o coração; devia tê-la carregado como um precioso estandarte, que jamais deveria sair de minhas mãos; em­bora eu caísse, devia ser segurada no alto. Ela devia ter sido o meu culto, o meu uniforme, a minha linguagem, a minha vida. Não terei desculpas; não posso dizer que não sabia. Eu sabia desde o princípio, e me afastei.56

Mais tarde, porém, ele voltou, como cada um de nós que já teve um vislumbre da realidade do Cristo crucificado deve fazer. Pois o único Jesus autêntico é o que morreu na cruz.

Mas por que ele morreu? Quem foi responsável por sua morte? Essa é a pergunta a que nos voltamos no próximo capítulo.

2
Por que Cristo morreu?

 

Por que Cristo morreu? Quem foi responsável por sua morte? Muitos não vêem problema algum nestas perguntas e, portanto, não têm dificuldade alguma em res­ponder a elas. Para esses, os fatos parecem tão claros como o dia. Jesus não “morreu”, dizem; ele foi morto, executado publicamente como um criminoso. Achavam que as doutrinas que ele ensinava eram perigosas, até mesmo subversivas. Os dirigentes ju­daicos ficaram furiosos com sua atitude desrespeitosa para com a lei e com suas reivindicações provocadoras, enquanto os romanos ou­viram dizer que ele se estava proclamando rei dos judeus, e, assim, desafiava a autoridade de César. Para ambos os grupos, Jesus parecia ser um pensador e pregador revolucionário, e alguns o consideravam também como ativista revolucionário. Ele perturbou o status quo tão profundamente que decidiram acabar com ele. De fato, entraram em uma aliança maligna a fim de fazê-lo. No tribunal apresentou-se uma acusação teológica contra ele, blasfêmia. No tribunal romano a acu­sação era política, sedição. Mas quer seu delito tenha sido visto como primariamente contra Deus, quer contra César, o resultado foi o mesmo. Percebiam-no como uma ameaça à lei e à ordem, a qual não podiam tolerar. De modo que o liquidaram. Por que ele morreu? Ostensivamente, ele morreu como um criminoso, mas na realidade, como a vítima de mentes medíocres, e como um mártir de sua própria grandeza.

Um dos aspectos fascinantes que os escritos dos relatos dos Evan­gelhos fazem do julgamento de Jesus é essa mescla de fatores legais e morais. Todos eles indicam que tanto no tribunal judaico como no romano seguiu-se certo procedimento legal. A vitima foi presa, acu­sada e examinada, e chamaram-se testemunhas. Então o juiz deu o seu veredicto e pronunciou a sua sentença. Contudo, os evangelistas também esclarecem que o preso não era culpado das acusações, que as testemunhas eram falsas, e que a sentença de morte foi um hor­rendo erro judicial. Além do mais, o motivo desse erro foi a presença de fatores pessoais e morais que influenciaram a execução da lei. Caifás, sumo sacerdote judaico, e Pilatos, procurador romano, não eram apenas oficiais da igreja e do estado, no cumprimento e execução de seus deveres oficiais; eram seres humanos decaídos e falíveis, levados pelas paixões sombrias que governam a todos nós. Pois nossos motivos são confusos. Podemos ter êxito em preservar um pouco de retidão no desempenho do dever público, mas por trás dessa fachada espreitam emoções violentas e pecaminosas, as quais estão amea­çando explodir. Os evangelistas expõem esses pecados secretos, en­quanto contam a história da prisão, julgamento, sentença e execução de Jesus. É um dos propósitos da sua narrativa, pois o material dos Evangelhos era usado na instrução oral dos convertidos.

 

Os soldados romanos e Pilatos

Os responsáveis imediatos pela morte de Jesus foram, é claro, os soldados romanos que executaram a sentença. Todavia, nenhum dos quatro evangelistas descreveu o processo de crucificação.

Se tivéssemos de depender exclusivamente dos Evangelhos, não saberíamos o que aconteceu, Outros documentos contemporâneos, porém, nos dizem como era feita a crucificação. Primeiro, o prisioneiro era despido e humilhado publicamente. A seguir era forçado a deitar-se de costas no chão, suas mãos eram pregadas ou atadas ao braço horizontal da cruz (o patibulum), e seus pés ao poste vertical. Então a cruz era erguida e jogada num buraco escavado para ela no chão. Em geral, providenciava-se um pino ou assento rudimentar a fim de receber um pouco do peso do corpo da vítima para que não se rasgasse e caísse. Aí ficava o crucificado pendurado, exposto à intensa dor física, ao ridículo do povo, ao calor do dia e ao frio da noite. A tortura durava vários dias.

Os escritores dos Evangelhos não descrevem o processo de cruci­ficação. Unindo o que eles nos dizem, parece que, segundo um cos­tume romano conhecido, Jesus começou carregando sua própria cruz ao lugar da execução. Supõe-se, contudo, que ele caiu sob o peso dela, pois um homem chamado Simão, natural de Cirene, no Norte da África, que naquele momento entrava na cidade, vindo do campo, foi detido e forçado a levar a cruz de Jesus. Quando chegaram ao “lugar chamado Gólgota (que significa o lugar da Caveira)”, ofere­ceram a Jesus vinho misturado com mirra, um gesto de misericórdia cuja finalidade era atenuar a dor. Mas, embora o tivesse provado, segundo Mateus, Jesus se recusou a bebê-lo. A seguir, os quatro evangelistas simplesmente escrevem: “E o crucificaram”.1 E é só. Haviam descrito, com alguns detalhes, como os soldados zombaram dele no Pretório (residência do governador): Vestiram-no com um manto de púrpura, colocaram uma coroa de espinhos na sua cabeça e um cetro de caniço na sua mão direita, vendaram-lhe os olhos, cuspiram nele e bateram-lhe na face e deram-lhe na cabeça, ao mesmo tempo que o desafiavam a identificar quem o feria. Também ajoelharam-se na sua frente em zombaria. Os evangelistas, porém, não oferecem detalhes da crucificação; não fazem referência alguma ao martelo, aos pregos, à dor, nem mesmo ao sangue.

Tudo o que nos dizem é: “E o crucificaram”. Isto é, os soldados haviam executado o seu horrendo dever. Não há evidência de que tenham tido prazer nele, nem sugestão de terem sido cruéis ou sá­dicos. Estavam apenas obedecendo a uma ordem. Era o seu dever. Fizeram o que tinham de fazer. E o tempo todo, diz-nos Lucas, Jesus continuava a orar em voz alta: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (23:34).

Embora os escritores dos Evangelhos pareçam sugerir que nenhuma culpa tinham os soldados romanos por crucificarem a Jesus (e acres­centam que mais tarde o centurião responsável por eles creu, ou pelo menos quase creu), quanto ao procurador romano que ordenou a crucificação, o caso é bem diferente. “Então Pilatos o entregou para ser crucificado. Tomaram eles, pois, a Jesus. . . Onde o crucificaram” (João 19:16-18). Pilatos era culpado. De fato, a sua culpa encontra-se em nosso credo cristão o qual declara que Jesus foi “crucificado sob Pôncio Pilatos”.

Sabe-se que Pilatos foi nomeado procurador (isto é, governador romano) da província fronteiriça da Judéia pelo imperador Tibério e serviu durante dez anos, de cerca de 26 a 36 A.D. Ele adquiriu a fama de hábil administrador, tendo um senso de justiça tipicamente ro­mano. Os judeus, porém, o odiavam porque ele os desprezava. Eles não se esqueciam de seu ato de provocação do início do seu governo quando exibiu os estandartes romanos na própria cidade de Jerusa­lém. Josefo descreve outra de suas loucuras, a saber, que desapropriou dinheiro do templo a fim de construir um aqueduto.2 Muitos acham que foi no motim que se seguiu que ele misturou sangue de certos galileus com os seus sacrifícios (Lucas 13:1). Estas são apenas algumas amostras do seu temperamento esquentado, de sua violência e cruel­dade. De acordo com Filão, o rei Agripa I, numa carta ao imperador Calígula, descreveu Pilatos como: “Um homem de disposição infle­xível, e muito cruel como também obstinado”,3 Seu objetivo principal era manter a lei e a ordem, conservar os judeus perturbadores fir­memente sob controle, e, se necessário para esses fins, ser implacável na supressão de qualquer tumulto ou ameaça de motim.

O retrato de Pôncio Pilatos nos Evangelhos se encaixa nessa evi­dência externa. Quando os dirigentes judaicos levaram Jesus a ele, dizendo: “Encontramos este homem pervertendo a nossa nação, ve­dando pagar tributo a César e afirmando ser ele o Cristo, Rei” (Lucas 23:2), Pilatos não pôde deixar de lhes dar atenção. À medida que a sua investigação prossegue, os evangelistas ressaltam dois pontos importantes.

Primeiro, Pilatos estava convicto da inocência de Jesus. Ele obvia­mente ficou impressionado com a nobre conduta, com o domínio próprio e a inocência política do prisioneiro. De forma que ele declarou publicamente três vezes não achar nele culpa alguma. A primeira declaração ele a fez logo depois do amanhecer de sexta-feira quando o Sinédrio lhe levou o caso. Pilatos os ouviu, fez algumas perguntas a Jesus, e depois de uma audiência preliminar anunciou: “Não vejo neste homem crime algum”.4

A segunda ocasião foi quando Jesus voltou, depois de ter sido examinado por Herodes. Pilatos disse aos sacerdotes e ao povo: “Apresentastes-me este homem como agitador do povo; mas, tendo-o interrogado na vossa presença, nada verifiquei contra ele dos crimes que o acusais. Nem tampouco Herodes, pois no-lo tornou a enviar. E, pois, claro que nada contra ele se verificou digno de morte.”5 A esta altura a multidão gritou: “Crucifica-o! Crucifica-o!” Mas Pilatos respondeu, pela terceira vez: “Que mal fez este? De fato nada achei contra ele para condená-lo à morte”.6 Além disso, a convicção pessoal do Procurador acerca da inocência de Jesus foi confirmada pela men­sagem enviada por sua mulher: “Não te envolvas com esse justo; porque hoje, em sonhos, muito sofri por seu respeito” (Mateus 27:19). A insistência repetida de Pilatos sobre a inocência de Jesus é o pano de fundo essencial ao segundo ponto a seu respeito ao qual os evan­gelistas dão ênfase, a saber, suas engenhosas tentativas de evitar ter de tomar um partido. Ele queria evitar sentenciar a Jesus (visto acre­ditar ser ele inocente) e ao mesmo tempo evitar exonerá-lo (visto acreditarem os dirigentes judaicos ser ele culpado). Como poderia Pilatos conseguir conciliar esses fatores irreconciliáveis? Vemo-lo con­torcer-se à medida que tenta soltar a Jesus e pacificar os judeus, isto é, ser justo e injusto simultaneamente. Ele tentou quatro evasões.

Primeira, ao ouvir que Jesus era da Galiléia, e, portanto, estar sob a jurisdição de Herodes, enviou-o ao rei para julgamento, esperando transferir a ele a responsabilidade da decisão. Herodes, porém, de­volveu Jesus sem sentença (Lucas 23:5-12).

Segunda, ele tentou meias-medidas: “Portanto, depois de o casti­gar, soltá-lo-ei” (Lucas 23:16, 22). Ele esperava que a multidão se sa­tisfizesse com algo menos que a penalidade máxima, e que o desejo de sangue do povo fosse saciado ao verem as costas de Jesus laceradas. Foi uma ação mesquinha. Pois se Jesus era inocente, devia ter sido imediatamente solto, não primeiramente açoitado.

Terceira, ele tentou fazer a coisa certa (soltar a Jesus) com o motivo errado (pela escolha da multidão). Lembrando-se do costume que o Procurador tinha de dar anistia de páscoa a um prisioneiro, ele es­perava que o povo escolhesse a Jesus para esse favor. Então ele podia soltá-lo como um ato de clemência em vez de um ato de justiça. Era uma idéia astuta, mas inerentemente vergonhosa, e o povo a frustrou exigindo que o perdão fosse dado a um notório criminoso e assassino, Barrabás.

Quarta, ele tentou protestar sua inocência. Tomando água, lavou as mãos na presença do povo, dizendo: “Estou inocente do sangue deste justo” {Mateus 27:24). E então, antes que suas mãos se secassem, entregou-o para ser crucificado. Como pôde ele incorrer nessa grande culpa imediatamente depois de ter proclamado a inocência de Jesus?

E fácil condenar a Pilatos e passar por alto nosso próprio compor­tamento igualmente tortuoso. Ansiosos por evitar a dor de uma en­trega completa a Cristo, nós também procuramos subterfúgios. Deixamos a decisão para alguém mais, ou optamos por um compro­misso morno, ou procuramos honrar a Jesus pelo motivo errado (como mestre em vez de Senhor), ou até mesmo fazemos uma afirmação pública de lealdade a ele, mas ao mesmo tempo o negamos em nossos corações.

Três expressões na narrativa de Lucas iluminam o que, finalmente, Pilatos fez: “o seu clamor prevaleceu”, “Pilatos decidiu atender-lhes o pedido”, e “quanto a Jesus, entregou à vontade deles” (Lucas 23:23-25). O clamor deles, pedido deles, vontade deles: a estes Pilatos, em sua fraqueza, capitulou. Ele desejava soltar a Jesus (Lucas 23:20), mas também desejava “contentar a multidão” (Marcos 15:15). A multidão venceu. Por quê? Porque lhe disseram: “Se soltas a este, não és amigo de César; todo aquele que se faz rei é contra César” (João 19:12). A escolha era entre a honra e a ambição, entre o princípio e a conve­niência. Ele já estivera em dificuldades com Tibério César em duas ou três ocasiões prévias. Ele não podia arcar com mais uma.

Claro, Jesus era inocente. Claro, a justiça exigia a sua liberdade. Mas como podia ele patrocinar a inocência e a justiça se, fazendo-o, estaria negando a vontade do povo, desfeiteando os dirigentes da nação e, acima de tudo, provocando um levante, o que o levaria a perder o favor imperial? Sua consciência afogou-se nas altas vozes da racionalização. Ele fez concessões por ser covarde.

 

O povo judaico e seus sacerdotes

Embora não possamos exonerar a Pilatos, certamente podemos re­conhecer que ele se encontrava em um dilema difícil, e que foram os líderes judaicos que aí o colocaram. Foram eles quem entregaram Jesus a Pilatos para ser julgado, quem o acusaram de reivindicações e ensino subversivos, e quem atiçaram a multidão levando-a a exigir a cruci­ficação. Portanto, como o próprio Jesus disse a Pilatos: “Quem me entregou a ti, maior pecado tem” (João 19:11). Pode ser que, visto ter ele empregado o singular, se referisse ao sumo sacerdote Caifás, mas o Sinédrio todo estava implicado. Deveras, o povo também, como Pedro audazmente lhes disse logo depois do Pentecoste: “Israeli­tas. . . Jesus, a quem vós traístes e negastes perante Pilatos, quando este havia decidido soltá-lo. Vós, porém, negastes o Santo e o Justo e pedistes que vos concedessem um homicida. Dessarte matastes o Autor da vida. . .” (Atos 3:12-15). Parece que as mesmas multidões que haviam recebido a Jesus em Jerusalém no Domingo de Ramos com grande alegria, dentro de cinco dias estavam em altas vozes pedindo o seu sangue. Contudo, a culpa dos dirigentes, por tê-las incitado, era muito maior.

Jesus, desde o início, havia perturbado o estabelecimento judaico. Para começar, ele era irregular. Embora se dissesse Rabi, não havia entrado pela porta certa, nem subido a escada certa. Ele não tinha credenciais, nem autorização apropriada. Além disso, ele havia cha­mado sobre si mesmo a controvérsia por causa do seu comportamento provocante, confraternizando com gente de má fama, festejando em vez de jejuar, e profanando o sábado por meio de curas. Não estando contente com o desrespeito pelas tradições dos anciãos, ele os havia, na realidade, rejeitado como um grupo, e tinha também criticado aos fariseus por exaltarem a tradição, colocando-a acima da Escritura. Eles se importavam mais com os regulamentos do que com as pessoas, dissera ele, mais com a purificação cerimonial do que com a pureza moral, mais com as leis do que com o amor. Ele até mesmo os havia denunciado como “hipócritas”, chamando-os de “guias de cegos” e comparando-os a “sepulcros caiados, que por fora se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imun­dícia” (Mateus 23:27). Estas foram acusações intoleráveis. Pior ainda, ele estava minando a autoridade deles. Ao mesmo tempo ele fazia afirmações ultrajantes acerca de ser senhor do sábado, conhecer a Deus como seu Pai, até mesmo ser igual a Deus. Era blasfêmia. Sim, era isso mesmo, blasfêmia.

De modo que estavam cheios de indignação autojustificada para com Jesus. Sua doutrina era herética. Seu comportamento era uma ofensa à lei sagrada. Ele desviava o povo. E corriam rumores de que ele estava incentivando a deslealdade a César. Assim, o seu ministério devia ser detido antes que causasse maior dano. Eles tinham bons motivos políticos, teológicos e éticos para exigir que ele fosse preso, julgado e condenado. Além disso, quando o levaram ao tribunal e o colocaram sob juramento, mesmo então ele fizera reivindicações blas­femas acerca de si mesmo. Ouviram-no com seus próprios ouvidos. Já não era necessário chamar testemunhas. Ele era blasfemador con­fesso. Ele merecia morrer. Estava absolutamente claro. Ele era cul­pado. As mãos deles estavam limpas.

E contudo, existiam falhas no caso dos dirigentes judaicos. Dei­xando de lado a questão fundamental da veracidade das afirmações de Jesus, havia a questão do motivo. Qual era o motivo fundamental da hostilidade que os sacerdotes sentiam para com Jesus? Era o in­teresse deles a estabilidade política, a verdade doutrinária e a pureza moral? Pilatos não achou que fosse. Ele não se deixou enganar pelas racionalizações dos líderes do povo, especialmente por sua fingida lealdade ao imperador. Como disse H. B. Swete: “Ele detectou, sob o disfarce deles, o vício vulgar da inveja”,7 Nas palavras de Mateus: “Porque sabia que por inveja o tinham entregado”.8 Não há motivos para questionarmos a avaliação de Pilatos. Ele era um juiz astuto do caráter humano. Além disso, parece que os evangelistas, ao registra­rem o seu juízo, o endossam.

Inveja! Inveja é o lado inverso da moeda chamada vaidade. Nin­guém que não tenha orgulho de si mesmo jamais terá inveja de outros. E os dirigentes judaicos eram orgulhosos; racial, nacional, religiosa e moralmente orgulhosos. Tinham orgulho da longa história do rela­cionamento especial da sua nação com Deus, tinham orgulho de seu próprio papel de líderes da nação, e, acima de tudo, tinham orgulho da sua autoridade. A competição deles com Jesus foi, essencialmente, uma luta pela autoridade. Jesus havia desafiado a autoridade deles, pois possuía um tipo de autoridade que manifestamente lhes faltava. Quando os líderes judaicos foram a Jesus com suas perguntas cap­ciosas: “Com que autoridade fazes estas coisas? ou quem te deu tal autoridade para as fazeres?” (Marcos 11:28), pensavam que o tinham apanhado. Mas, em vez disso, encontraram-se amarrados pela con­trapergunta do Senhor: “O batismo de João era do céu ou dos homens? Respondei-me” (v.30). Estavam encurralados. Não tinham como res­ponder, porque se dissessem “do céu”, ele quereria saber por que não creram nele, e se dissessem “dos homens”, temiam o povo que acreditava que João era um profeta verdadeiro. De modo que não deram resposta. A tergiversação deles era um sintoma da sua insin­ceridade. Se não conseguiam enfrentar o desafio da autoridade de João, certamente não poderiam enfrentar o desafio da autoridade de Cristo. Ele dizia ter autoridade para ensinar a respeito de Deus, para expelir demônios, para perdoar pecados, para julgar o mundo. Em tudo isto ele era completamente diferente deles, pois a única autoridade que eles conheciam era o apelo a outras autoridades. Além disso, havia uma genuinidade auto-evidente acerca da autoridade de Jesus. Era real, sincera, transparente, divina.

De modo que se sentiam ameaçados por Jesus. Ele minava o pres­tígio deles, o domínio que exerciam sobre as pessoas, a sua própria autoconfiança e seu auto-respeito, enquanto os dele permaneciam intactos. Tinham inveja dele, e, portanto, decidiram eliminá-lo. É interessante que Mateus relate duas tramas invejosas para eliminar a Jesus. A primeira, de Herodes, no início da vida de Jesus, e a outra, dos sacerdotes, no final. Ambos sentiram uma ameaça à sua autori­dade. De modo que ambos procuraram destruir a Jesus.9 Por mais respeitáveis que os argumentos políticos e teológicos dos sacerdotes possam ter sido, foi a inveja que os levou a entregar Jesus a Pilatos para ser destruído.

A mesma paixão maligna influencia nossas atitudes contemporâ­neas para com Jesus. Ele ainda é, como o denominou C. S. Lewis, “um interferidor transcendental”.10 Ressentimo-nos de suas intrusões à nossa vida privada, sua exigência de nossa homenagem, sua ex­pectativa de nossa obediência. Por que é que ele não cuida de seus próprios negócios, perguntamos petulantemente, e nos deixa em paz? A essa pergunta ele instantaneamente responde dizendo que nós somos o seu negócio e que jamais nos deixará sozinhos. De modo que nós, também, vemo-lo como um rival ameaçador, que perturba nossa paz, mina nossa autoridade e diminui nosso auto-respeito. Nós também queremos eliminá-lo.

Judas Iscariotes, o traidor

Tendo visto como os sacerdotes entregaram Jesus a Pilatos, e como Pilatos o entregou aos soldados, agora precisamos examinar como, para começar, Judas o entregou aos sacerdotes. Essa entrega é es­pecificamente chamada de “traição”. Deveras, a quinta-feira santa será sempre lembrada como a noite em que ele foi traído (1 Coríntios 11:23), e Judas como aquele que o traiu. Esse epitáfio acusador já está preso ao seu nome quando ele é mencionado pela primeira vez nos Evangelhos entre os Doze. Os três evangelistas sinóticos colocam-no em último lugar na lista dos apóstolos.11

Não é incomum alguns expressarem simpatia para com Judas. “Afi­nal”, dizem, “se Jesus havia de morrer, alguém tinha de traí-lo. As­sim, por que culpar a Judas? Ele não passou de instrumento da providência, uma vítima da predestinação”. Bem, a narrativa bíblica certamente indica que Jesus conhecia de antemão a identidade do seu traidor12 e referiu-se a ele como destinado à destruição para que a Escritura se cumprisse.13 E também verdade que Judas fez o que fez somente depois que Satanás o instigou e entrou nele.14

Entretanto, nada disso exonera a Judas. Ele deve arcar com a res­ponsabilidade do que fez, tendo, sem dúvida, deliberadamente tra­mado suas ações. O fato de sua traição ter sido predita nas Escrituras não significa que ele não fosse um agente livre, assim como as pre­dições do Antigo Testamento acerca da morte de Jesus não significa que ele não tivesse morrido voluntariamente. De forma que Lucas mais tarde referiu-se à sua maldade (Atos 1:18). Por mais fortes ti­vessem sido as influências satânicas sobre ele, deve ter existido uma época na qual ele se expôs a elas. Parece que Jesus claramente o considerou como responsável por suas ações, pois até mesmo no último instante, no cenáculo, fez-lhe um apelo final, mergulhando um pedaço de pão e dando-o a ele (João 13:25-30). Judas, porém, rejeitou o apelo de Jesus, e sua traição parece ainda mais odiosa porque foi uma quebra flagrante da hospitalidade. Nesse aspecto ela cumpre outra Escritura que diz: “Até o meu amigo íntimo, em quem eu confiava, que comia do meu pão, levantou contra mim o calcanhar” (Salmo 41:9). O cinismo último de Judas foi escolher trair o seu Mestre com um beijo, usando esse símbolo da amizade a fim de destruí-la. De modo que Jesus afirmou a culpa de Judas, dizendo: “Ai daquele por intermédio de quem o Filho do homem está sendo traído! Melhor lhe fora não haver nascido!” (Marcos 14:21). Assim, Jesus não apenas o condenou, mas o próprio Judas, no final, condenou-se a si mesmo. Ele reconheceu o seu crime, trair o sangue inocente, devolveu o di­nheiro pelo qual tinha vendido a Jesus, e se suicidou. Sem dúvida, ele estava mais preso pelo remorso do que pelo arrependimento, mas, finalmente, confessou sua culpa.

O motivo do crime de Judas há muito que ocupa a curiosidade e a engenhosidade dos estudiosos. Alguns estão convictos de que ele era um zelote15 que se tinha unido a Jesus e a seus seguidores na crença de que o movimento deles era de libertação nacional, mas que, fi­nalmente, o traiu por causa de desilusão política ou como um truque a fim de que Jesus fosse obrigado a lutar. Os que tentam fazer uma reconstrução desse tipo pensam que encontram evidência confirma­tória no nome “Iscariotes”, embora todos admitam que é um nome obscuro. Em geral acham que o nome indica a origem de Judas como “um homem de Queriote”, uma cidade do Sul da Judéia, a qual é mencionada em Josué 15:25. Mas os que pensam que Judas foi um zelote sugerem que “Iscariotes” se relaciona com a palavra “sicário”, um assassino (do latim sica e do grego sikarion, “adaga”). Josefo men­ciona os sicários.

Inflamados por um nacionalismo judaico fanático, os sicários es­tavam decididos a recuperar a independência do seu país do domínio colonial romano, e para esse fim lançavam mão até mesmo do assas­sínio de seus inimigos políticos, a quem desprezavam como infor­mantes. O Novo Testamento refere-se a eles apenas uma vez, a saber, quando o comandante romano que havia salvo a Paulo de ser linchado em Jerusalém perguntou-lhe: “Não és tu, porventura, o egípcio que há tempos sublevou e conduziu ao deserto quatro mil sicários?” (Atos 21:38).

Outros comentaristas consideram a base dessa reconstrução de­masiadamente fraca, e atribuem a deserção de Judas a falha moral em vez de motivação política, isto é, a ganância mencionada pelo quarto evangelista. Ele nos diz que Judas era o tesoureiro do grupo apos­tólico, tendo recebido o cuidado da bolsa comum. A ocasião do co­mentário de João foi a unção de Jesus por Maria de Betânia. Ela trouxe um vaso de alabastro contendo um perfume muito caro (nardo puro, segundo Marcos e João), o qual derramou sobre ele. Jesus estava reclinado à mesa, e a casa se encheu de um fragrante perfume. Foi um grande gesto de devoção quase exagerada, ao qual Jesus mais tarde chama de boa ação. Mas, alguns dos presentes (dos quais judas foi o porta-voz), reagiram de modo totalmente diferente. Observando-a com incredulidade, eles fungaram de indignação autojustificada. “Que desperdício!” disseram. “Que extravagância maligna! O per­fume podia ser vendido por um preço equivalente a mais de um ano de salários, e o dinheiro dado aos pobres.” O comentário deles, po­rém, era insincero, como João prossegue a dizer. Judas não disse isso porque se importava com os pobres mas porque era ladrão; como guardador da bolsa, ele se servia do dinheiro que nela era colocado. Deveras, tendo testemunhado e denunciado o que viu como o des­perdício irresponsável de Maria, ele parece ter ido diretamente aos sacerdotes a fim de recuperar um pouco da perda. O que estão dis­postos a me dar se eu o entregar a vocês? perguntou ele. Sem dúvida alguma, então começaram a pechinchar, e no fim concordaram em dar-lhe 30 moedas de prata, o preço de resgate de um escravo comum. Os evangelistas, com o seu senso de alto drama, deliberadamente contrastam Maria com Judas, a generosidade desprendida daquela e a pechincha friamente calculada deste. Acerca das outras paixões som­brias que estariam queimando o coração de Judas só podemos con­jeturar, mas João insiste em que foi a ganância que finalmente o venceu. Inflamado pelo desperdício dos salários de um ano, ele foi e vendeu a Jesus por menos de um terço dessa quantia.16

Não é por acaso que Jesus nos diz que nos acautelemos de toda a cobiça, ou que Paulo declara que o amor do dinheiro é raiz de todos os tipos de males.17 Na busca do ganho material os seres humanos têm descido às profundezas da depravação. Os magistrados têm pervertido a justiça por subornos, como os juizes de Israel de quem Amós escreveu: “Vendem o justo por dinheiro, e condenam o necessitado por causa de um par de sandálias” (2:6). Os políticos têm usado o seu poder para a concessão de contratos ao que faz uma proposta melhor, e os espiões têm descido ao ponto de vender ao inimigo os segredos de seu país. Os negociantes têm feito transações desonestas, pondo em perigo a prosperidade de outros a fim de ganhar mais. Até mesmo professores supostamente espirituais têm transformado a re­ligião em uma empresa comercial, e alguns ainda hoje o fazem, de modo que o candidato ao pastorado recebe a advertência: não seja amante do dinheiro.18 O linguajar de todas essas pessoas é o mesmo que o de Judas: dependendo do que me derem, eu o entregarei a vocês. Pois todo mundo tem o seu preço, assevera O cínico, desde o assassino contratado, disposto a pechinchar a vida de alguém, ao mais baixo oficial que atrasa a emissão de um documento ou um passaporte enquanto não receber o seu suborno. Judas não foi ex­ceção. Jesus dissera que é impossível servir a Deus e ao dinheiro. Judas escolheu o dinheiro. Muitos outros têm feito o mesmo.

 

Os pecados deles e os nossos

Examinamos os três indivíduos — Pilatos, Caifás e Judas — a quem os evangelistas apõem culpa maior pela crucificação de Jesus, e seus associados: os sacerdotes, o povo e os soldados. Acerca de cada pessoa ou grupo usa-se o mesmo verbo: paradidomi, traduzido por “entregar” ou “trair”. Jesus havia predito que seria entregue nas mãos dos ho­mens, ou “entregue para ser crucificado”.19 E os evangelistas, ao contarem sua história, demonstram que a predição de Jesus foi ver­dadeira. Primeiro, Judas o entregou aos sacerdotes (por causa da ganância). A seguir, os sacerdotes o entregaram a Pilatos (por causa da inveja). Então Pilatos o entregou aos soldados (por causa da co­vardia), e eles o crucificaram.20

Nossa reação instintiva a esse mal acumulado é dar eco à pergunta espantada de Pilatos, quando a multidão gritou pedindo o sangue de Jesus: “Que mal fez ele?” (Mateus 27:23). Pilatos, porém, não recebeu uma resposta lógica. A multidão histérica clamava cada vez mais alto: “Crucifica-o! Crucifica-o!” Mas por quê?

É natural encontrarmos desculpas para eles, pois vemos a nós mes­mos neles e gostaríamos de ser capazes de nos desculparmos. De­veras, havia algumas circunstâncias mitigantes. Como o próprio Jesus disse ao orar pelo perdão dos soldados que o estavam crucificando: “pois não sabem o que fazem”. Da mesma forma, Pedro disse a uma multidão de judeus em Jerusalém: “Eu sei que o fizestes por igno­rância, como também as vossas autoridades.” Paulo acrescentou que, se “os poderosos deste século” tivessem compreendido, “jamais te­riam crucificado o Senhor da glória.”21 Contudo, sabiam o suficiente para ser culpados, aceitar o fato de sua culpa e ser condenados por suas ações. Não estavam eles reivindicando responsabilidade total quando clamaram: “Caia sobre nós o seu sangue, e sobre nossos filhos”?22 Pedro falou com toda a franqueza no dia de Pentecoste: “Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo.” Além do mais, longe de discordar do seu veredicto, o coração dos ouvintes de Pedro se compungiu e perguntaram o que deviam fazer (Atos 2:36,37). Es­têvão foi ainda mais direto em seu discurso ao Sinédrio, o qual o levou ao martírio. Chamou o Concilio de “homens de dura cerviz e incir­cuncisos de coração e de ouvidos, vós sempre resistis ao Espírito Santo, assim como o fizeram vossos pais também vós o fazeis.” Pois seus pais haviam perseguido os profetas e matado aqueles que pre­disseram a vinda do Messias, e agora tinham traído e assassinado o próprio Messias (Atos 7:51-52). Paulo, mais tarde, usou linguagem parecida ao escrever aos tessalonicenses acerca da oposição judaica do seu tempo ao evangelho: eles “mataram o Senhor Jesus e os pro­fetas, como também nos perseguiram”. Por estarem tentando con­servar os gentios afastados da salvação, o juízo viria sobre eles (1 Tessalonicenses 2:14-16).

Culpar o povo judeu pela crucificação de Jesus hoje é extremamente fora de moda. Deveras, se a crucificação for usada como uma desculpa para matá-los e persegui-los (como aconteceu no passado), ou para propagar o anti-semitismo, é absolutamente indefensável. O modo de evitar o preconceito anti-semítico, contudo, não é fingir que os judeus são inocentes, mas, tendo admitido a sua culpa, acrescentar que outros partilharam dela. É assim que os apóstolos viram a situa­ção. Herodes e Pilatos, gentios e judeus, disseram eles, tinham juntos “conspirado” contra Jesus (Atos 4:27). Mais importante ainda, nós mesmos também somos culpados. Se estivéssemos no lugar deles, teríamos feito exatamente o que fizeram. Deveras, nós o fizemos. Pois sempre que nos desviamos de Cristo, estamos “crucificando” para nós mesmos o Filho de Deus, e o “expondo à ignomínia” (Hebreus 6:6). Nós também sacrificamos Jesus à nossa ganância como Judas, à nossa inveja como os sacerdotes, à nossa ambição como Pilatos. “Es­tavas lá quando crucificaram o meu Senhor?” pergunta o cântico es­piritual. E devemos responder: “Sim, eu estava lá.” Não apenas como espectadores, mas também como participantes, participantes culpa­dos, tramando, traindo, pechinchando e entregando-o para ser cru­cificado. Como Pilatos, podemos tentar tirar de nossas mãos a responsabilidade por meio da água. Mas nossa tentativa será tão fútil quanto foi a dele. Pois há sangue em nossas mãos. Antes que pos­samos começar a ver a cruz como algo feito para nós (que nos leva à fé e à adoração), temos de vê-la como algo feito por nós (que nos leva ao arrependimento). Deveras, “somente o homem que está preparado para aceitar sua parcela de culpa da cruz”, escreve Canon Peter Green, “pode reivindicar parte na sua graça”.23

A resposta que até agora demos à pergunta: “Por que Cristo mor­reu”? procurou refletir o modo pelo qual os escritores do evangelho contam a sua história. Eles indicam a corrente de responsabilidade (de Judas aos sacerdotes, dos sacerdotes a Pilatos, de Pilatos aos soldados), e, pelo menos, sugerem que a ganância, a inveja e o temor, os quais instigaram o comportamento dos envolvidos, também ins­tigam o nosso. Contudo, esse não é o relato final dos evangelistas. Omiti uma evidência vital que eles apresentam. É esta: embora Jesus tivesse sido levado à morte pelos pecados humanos, ele não morreu como mártir. Pelo contrário, ele foi à cruz espontaneamente, até mesmo deliberadamente. Desde o começo do seu ministério público, ele se consagrou a esse destino.

No seu batismo, ele se identificou com os pecadores (como mais tarde o faria por completo sobre a cruz), e em sua tentação ele se recusou a desviar-se do caminho da cruz. Ele predisse muitas vezes os seus sofrimentos e morte, como vimos no capítulo anterior, e, decididamente, partiu para Jerusalém a fim de morrer aí. O uso cons­tante que ele faz da palavra “deve” em relação à sua morte expressa não uma compulsão exterior, mas sua resolução interior de cumprir o que a seu respeito havia sido escrito. “O Bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas”, disse ele. Então, deixando de lado a metáfora, “eu dou a minha vida. . . Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou” (João 10:11, 17,18).

Além disso, quando os apóstolos resolveram escrever acerca da natureza voluntária da morte de Jesus, usaram várias vezes o mesmo verbo (paradidomi) o qual os evangelistas empregaram com relação ao ser ele entregue à morte por outros. Assim, Paulo pôde escrever que o “Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou (paradontos) por mim”.24 A afirmação do apóstolo talvez tenha sido um eco de Isaías 53:12, que diz que ele “derramou (pareáothe) a sua alma na morte”. Paulo também usou o mesmo verbo ao olhar para a auto-entrega voluntária do Filho à entrega do Pai. Por exemplo, “aquele que não poupou ao seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou (paredoken), porventura não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?”25 Octavius Winslow resumiu o assunto com uma bela afir­mativa: “Quem entregou Jesus para morrer? Não foi Judas, por dinheiro; não foi Pilatos, por temor; não foram os judeus, por inveja — mas o Pai, por amor!”26

É essencial que conservemos juntos estes dois modos complemen­tares de olhar para a cruz. No nível humano, Judas o entregou aos sacerdotes, os quais o entregaram a Pilatos, que o entregou aos sol­dados, os quais o crucificaram. Mas, no nível divino, o Pai o entregou, e ele se entregou a si mesmo para morrer por nós. A medida que encaramos a cruz, pois, podemos dizer a nós mesmos: “Eu o matei, meus pecados o enviaram à cruz”; e: “ele se matou, seu amor o levou à cruz”. O apóstolo Pedro uniu as duas verdades em sua admirável afirmativa do dia de Pentecoste: “Sendo este entregue pelo deter­minado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mão de iníquos.”27 Assim, Pedro atribuiu a morte de Jesus simultaneamente ao plano de Deus e à maldade dos homens. Pois a cruz, que é uma exposição da maldade humana, como temos consi­derado em particular neste capítulo, é ao mesmo tempo a revelação do propósito divino de vencer a maldade humana assim exposta.

Volto, ao terminar este capítulo, à pergunta com a qual o comecei: por que Jesus Cristo morreu? Minha primeira resposta foi que ele não morreu; ele foi morto. Agora, porém, devo equilibrar essa resposta com o seu oposto. Ele não foi morto, ele morreu, entregando-se vo­luntariamente para fazer a vontade do Pai.

A fim de discernir o que era a vontade do Pai, temos de examinar novamente os mesmos eventos, desta vez olhando abaixo da super­fície.

3
Olhando Abaixo da Superfície

 

Nos capítulos anteriores procurei estabelecer dois fatos acerca da cruz. Primeiro, sua importância central (para Cristo, para seus apóstolos e para a igreja mun­dial desde então), e, segundo, seu caráter deliberado (pois embora tenha sido devida à maldade humana, foi também por causa de um propósito determinado de Deus, volun­tariamente aceito por Cristo, que se entregou a si mesmo à morte).

Mas por quê? Voltamos a esse enigma básico. O que há acerca da crucificação de Jesus que, apesar de seu horror, vergonha e dor, a faz tão importante ao ponto de Deus a planejar de antemão e de Cristo vir para suportá-la?

 

Uma construção inicial

Pode ser útil responder a essa pergunta em quatro estágios, co­meçando com o claro e não controverso, e, passo a passo, ir pene­trando mais profundamente no mistério.

Primeiro, Cristo morreu por nós. Além de ser necessária e voluntária, sua morte foi altruísta e benéfica. Ele a empreendeu por nossa causa, não pela sua, e cria que através dela nos garantia um bem que não poderia ser garantido de nenhum outro modo. O Bom Pastor, disse ele, ia dar a sua vida pelas ovelhas, em benefício delas. Similarmente, as palavras que ele proferiu no cenáculo, ao dar o pão aos seus dis­cípulos, foram: “Isto é o meu corpo oferecido por vós”. Os apóstolos pegaram esse simples conceito e o repetiram, às vezes tornando-o mais pessoal, trocando a segunda pessoa pela primeira: “Cristo mor­reu por nós”.1 Ainda não há nenhuma explicação e nenhuma iden­tificação da bênção que ele nos assegurou mediante a sua morte, mas pelo menos concordamos quanto às expressões “por vós” e “por nós”.

Segundo, Cristo morreu para conduzir-nos a Deus (1 Pedro 3:18). O foco do propósito benéfico da sua morte é a nossa reconciliação. Como diz o Credo Niceno: “por nós (geral) e por nossa salvação (particular) ele desceu do céu. . .” A salvação que ele conseguiu para nós me­diante sua morte é retratada de vários modos. Às vezes é concebida negativamente como redenção, perdão ou libertação. Outras vezes é positiva — vida nova ou eterna, ou paz com Deus no gozo de seu favor e comunhão.2 No presente, o vocabulário preciso não importa. O ponto importante é que, em conseqüência da sua morte, Jesus é capaz de conferir-nos a grande bênção da salvação.

Terceiro, Cristo morreu por nossos pecados. Nossos pecados eram o obstáculo que nos impedia de receber o dom que ele desejava dar­nos. De modo que eles tinham de ser removidos antes que a salvação nos fosse outorgada. E ele ocupou-se dos nossos pecados, ou os levou, na sua morte. A expressão: “por nossos pecados” (ou fraseado muito similar) é usada pela maioria dos escritores do Novo Testamento; parece que eles tinham certeza de que — de um modo ainda não determinado — a morte de Cristo e nossos pecados se relacionavam. Eis uma amostra de citações: “Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras” (Paulo); “Cristo morreu pelos pecados uma vez por todas” (Pedro); “ele apareceu de uma vez por todas. . . para desfazer o pecado mediante o sacrifício de si mesmo”, e ele “ofereceu de uma vez por todas um sacrifício pelos pecados” (Hebreus); “o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo o pecado” (João); “àquele que nos ama e nos libertou de nossos pecados através do seu sangue. . . seja a glória” (Apocalipse).3 Todos estes versículos (e mui­tos mais) ligam a morte de Jesus aos nossos pecados. Que elo é esse?

Quarto, Cristo sofreu a nossa morte, ao morrer por nossos pecados. Isso quer dizer que se a sua morte e os nossos pecados estão ligados, esse elo não é efeito de mera conseqüência (ele foi vítima de nossa brutalidade humana), mas de penalidade (ele suportou em sua pessoa inocente a pena que nossos pecados mereciam). Pois segundo a Es­critura, a morte se relaciona com o pecado como sua justa recompensa: “o salário do pecado é a morte” (Romanos 6:23). A Bíblia toda vê a morte humana não como um evento natural, mas penal. E uma invasão alienígena do bom mundo de Deus, e não faz parte de sua intenção original para a humanidade. É certo que o registro fóssil indica que a pilhagem e a morte existiam no reino animal antes da criação do homem. Porém parece que Deus tinha em mente um fim mais nobre para os seres humanos portadores de sua imagem, fim talvez seme­lhante ao traslado que Enoque e Elias experimentaram, e à “trans­formação” que ocorrerá com aqueles que estiverem vivos na volta de Jesus.4 Através de toda a Escritura, pois, a morte (tanto física como espiritual) é vista como juízo divino sobre a desobediência humana.5 Daí as expressões de horror com relação à morte, a sensação de ano­malia de que o homem se tivesse tornado como as bestas que perecem, uma vez que o mesmo destino aguarda a todos.6 Daí também a vio­lenta indignação de que Jesus foi alvo em seu confronto com a morte ao lado do túmulo de Lázaro.7 A morte era um corpo estranho. Jesus resistiu-lhe; ele não pôde aceitá-la.

Se, pois, a morte é a pena do pecado, e se Jesus não tinha pecado próprio em sua natureza, caráter e conduta, não devemos dizer que ele não precisava ter morrido? Não poderia ele, em vez de morrer, ter sido trasladado? Quando o seu corpo se tornou translúcido durante a transfiguração no monte, não tiveram os apóstolos uma previsão do seu corpo da ressurreição (daí a instrução de a ninguém contarem acerca desse acontecimento até que ele ressurgisse dentre os mortos, Marcos 9:9)? Não podia ele naquele momento ter entrado no céu e escapado à morte? Mas ele voltou ao nosso mundo a fim de ir volun­tariamente à cruz. Ninguém lhe tiraria a vida, insistia ele; ele ia dá-la de sua própria vontade. De modo que quando o momento da morte chegou, Lucas a representou como um ato autodeterminado do Se­nhor. “Pai”, disse ele, “nas tuas mãos entrego o meu espírito”.8 Tudo isso significa que a simples afirmativa do Novo Testamento: “ele mor­reu por nossos pecados” diz muito mais do que aparenta na superfície. Afirma que Jesus Cristo, sendo sem pecado e não tendo necessidade de morrer, sofreu a nossa morte, a morte que nossos pecados me­reciam.

Necessitaremos, em capítulos posteriores, penetrar mais profun­damente na razão, moralidade e eficácia dessas afirmativas. Por en­quanto devemos contentar-nos com esta construção quádrupla preliminar, que Cristo morreu por nós, para o nosso bem; que esse “bem” pelo qual ele morreu era a nossa salvação; que a fim de no-la assegurar, ele teve de enfrentar os nossos pecados; e que, ao morrer por nossos pecados, foi a nossa morte que ele sofreu.

A pergunta que desejo fazer agora, e à qual procurarei responder no restante deste capítulo, é se os fatos se encaixam nesta construção teológica preliminar. Será ela uma teoria um tanto complexa imposta sobre a história da cruz, ou será que a narrativa dos evangelistas lhe supre evidência e até mesmo permanece ininteligível sem ela? Ar­gumentarei em favor do último caso. Além do mais, procurarei de­monstrar que o que os evangelistas retratam, embora seja testemunho deles, não é de sua invenção. O que estão fazendo é permitir que entremos um pouco na mente do próprio Cristo.

De modo que olharemos para três das cenas principais das últimas vinte e quatro horas de Jesus na terra — o cenáculo, o jardim do Getsêmani, e o lugar chamado Gólgota. Ao fazermos esse exame, seremos incapazes de nos limitar ao mero relato de uma história pungente, visto que cada cena contém ditos de Jesus, os quais exigem explicação e não podem ser deixados de lado. Algo mais profundo do que meras palavras e ações estava acontecendo abaixo da super­fície. A verdade teológica continua a aparecer, mesmo quando de­sejamos que ela nos deixe em paz. Em particular, sentimo-nos obrigados a fazer perguntas acerca da instituição da Ceia do Senhor no cenáculo, sobre a “agonia” no jardim do Getsêmani, e acerca do “grito de desespero” na cruz.

Contudo, antes que possamos fazer essas perguntas, há um fato digno que nos diminuirá o passo, e que tem de ver com a perspectiva de Jesus através de todos esses eventos. Nossa história tem início na noite de Quinta-Feira Santa. Jesus tinha visto o sol se pôr pela última vez. Dentro de mais ou menos quinze horas seus membros seriam estendidos na cruz. Dentro de vinte e quatro horas ele estaria morto e enterrado. E ele sabia disso. Contudo, o extraordinário é que ele estava pensando a respeito de sua missão como ainda no futuro, não no passado. Comparativamente, ele era jovem, por certo entre os trinta e trinta e cinco anos de idade. Ele nem bem tinha vivido metade da vida humana. Ele ainda estava no auge de seus poderes. Na idade dele a maioria das pessoas tem seus melhores anos pela frente. Maomé viveu até os sessenta, Sócrates até os setenta, e Platão e Buda tinham mais de oitenta anos quando morreram. Se a morte ameaça encurtar a vida de uma pessoa, o sentimento de frustração lança-a na tristeza. Mas não a Jesus, por este simples motivo: ele não considera a morte que estava prestes a sofrer como o fim último de sua missão, mas como necessária à sua realização. Somente alguns segundos antes de ele morrer (e não antes) ele foi capaz de gritar: “Está terminado!” De modo que, então, embora fosse a sua última noite, e embora tivesse poucas horas de vida, Jesus não olhava para trás, para uma missão que havia completado, muito menos pensando ter falhado; olhava para frente, para uma missão que estava prestes a cumprir. A missão de uma vida de trinta ou trinta e cinco anos haveria de ser realizada em suas últimas vinte e quatro horas, deveras, suas últimas seis.

 

A Última Ceia no cenáculo

Jesus estava passando sua última noite na terra em reclusão tran­qüila com os apóstolos. Era o primeiro dia da festa dos Pães Asmos, e haviam-se reunido para tomar a refeição pascal juntos na casa de um amigo. O lugar é descrito como “um cenáculo grande, mobiliado e preparado”, e podemos imaginá-los ao redor de uma mesa baixa, reclinados sobre almofadas no chão. Evidentemente não havia criados que os servissem, de modo que ninguém lhes lavou os pés antes da refeição. Nem um dos apóstolos, tampouco, foi humilde suficiente para se desincumbir de tão vil tarefa. Foi para intensa consternação deles, portanto, que durante a ceia Jesus vestiu um avental de escravo, despejou água numa bacia e lavou os pés aos apóstolos, realizando assim o que nenhum deles estivera disposto a fazer. A seguir ele lhes disse como o amor autêntico sempre se expressa mediante o serviço humilde e como o mundo os identificaria como discípulos somente se amassem uns aos outros. Em contraste com a prioridade do amor sacrifícial e serviçal, ele os advertiu de que um membro do grupo iria traí-lo. Ele também falou muito da sua iminente partida, da vinda do Consolador que tomaria o seu lugar, e do variado ministério de ensino e testemunho desse Espírito da verdade.

Então, continuando a refeição, eles observaram encantados quando ele pegou um pão, abençoou-o (isto é, deu graças), quebrou-o em pedaços e passou-os aos discípulos, dizendo: “Este é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim”. Da mesma forma, terminada a ceia, ele tomou um cálice de vinho, deu graças, entregou-o aos discípulos e disse: “Este é o cálice da nova aliança em meu sangue”; ou: “Este é o meu sangue da nova aliança, que é derramado por muitos para o perdão de pecados; fazei isto, sempre que o be­berdes, em memória de mim”.9

Essas são ações e palavras tremendamente significativas. E pena que, por estarmos tão familiarizados com elas, tendam a perder o seu impacto. Pois lançam inundações de luz sobre a visão que o próprio Jesus tinha a respeito da sua morte. Através do que fez com o pão e com o vinho, e mediante o que disse a respeito desses elementos, ele estava dramatizando visivelmente sua morte antes que acontecesse e dando a sua própria autorizada explicação acerca do seu significado e propósito. Ele ensinava pelos menos três lições.

A primeira lição se referia à centralidade de sua morte. Solene e de­liberadamente, durante sua última noite com os discípulos, ele dava instruções concernentes ao seu próprio culto memorial. Contudo, não devia ser uma única ocasião, como nossos cultos memorais modernos, o tributo final pago por amigos e parentes. Pelo contrário, devia ser uma refeição regular ou culto, ou ambos. Ele lhes disse especifica­mente que o repetissem: “fazei isto em memória de mim”. O que deviam fazer? Deviam copiar o que ele tinha feito, tanto os seus atos como suas palavras, isto é, tomar, quebrar, abençoar, identificar e partilhar o pão e o vinho. O que significavam o pão e o vinho? As palavras que ele proferira tinham a explicação. Acerca do pão ele dissera: “Este é o meu corpo que é dado por vós”, e do vinho: “Este é o meu sangue que é derramado por vós”. De modo que sua morte falava aos discípulos de ambos os elementos. O pão não representava seu corpo vivo, enquanto ele se reclinava com eles à mesa, mas seu corpo que em breve seria dado por eles na morte. Da mesma forma, o vinho não representava o seu sangue que lhe corria nas veias en­quanto lhes falava, mas seu sangue que em breve seria derramado por eles na morte. A evidência é clara e irrefutável. A Ceia do Senhor, que foi instituída por Jesus, e que é o único ato comemorativo au­torizado por ele, não dramatiza nem seu nascimento nem sua vida, nem suas palavras nem suas obras, mas somente a sua morte. Nada poderia indicar mais claramente a significação central que Jesus atri­buía à sua morte. Era por sua morte que ele desejava, acima de tudo, ser lembrado. Portanto, é seguro dizer que não há Cristianismo sem a cruz. Se a cruz não for o centro da nossa religião, a nossa religião não é a de Jesus.

Segunda, Jesus estava ensinando a respeito do propósito da sua morte. De acordo com Paulo e Mateus, as palavras de Jesus acerca do cálice referiam-se não somente ao seu sangue mas também à nova aliança associada com o seu sangue, e Mateus acrescenta que o sangue de Cristo devia ser derramado pelo perdão dos pecados. Aqui temos a afirmação verdadeiramente fantástica de que por intermédio do der­ramamento do sangue de Jesus, na morte, Deus estava tomando a iniciativa de estabelecer um novo pacto ou “aliança” com o seu povo, na qual uma das maiores promessas seria o perdão dos pecadores. Que quis ele dizer?

Muitos séculos antes Deus tinha feito uma aliança com Abraão, prometendo abençoá-lo com uma boa terra e uma posteridade abun­dante. Deus renovou essa aliança no monte Sinai, depois de tirar a Israel (descendentes de Abraão) do Egito. Ele prometeu ser o seu Deus e fazê-los o seu povo. Além disso, essa aliança foi ratificada com o sangue do sacrifício: “Então tomou Moisés aquele sangue e o as­pergiu sobre o povo, e disse: Eis aqui o sangue da aliança que o Senhor fez convosco a respeito de todas estas palavras.”10 Passaram-se cen­tenas de anos, durante os quais o povo se esqueceu de Deus, quebrou a sua aliança e provocou o seu juízo, até que um dia no sétimo século a.C. a palavra do Senhor veio a Jeremias, dizendo:

Eis aí vêm dias, diz o Senhor, e firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. Não conforme a aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; porquanto eles anu­laram a minha aliança, não obstante eu os haver desposado, diz o Senhor. Porque esta é aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dia, diz o Senhor. Na mente lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscre­verei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. Não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao Senhor, porque todos me conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o Senhor. Pois, perdoarei as suas iniqüidades, e dos seus pe­cados jamais me lembrarei.

(Jeremias 31:31-34)

Passaram-se mais seis séculos, anos de espera paciente e expectativa crescente, até uma noite num cenáculo de Jerusalém, em que um camponês galileu, carpinteiro de profissão e pregador por vocação, ousou dizer, com efeito: “Esta nova aliança, profetizada por Jeremias, está prestes a ser estabelecida; o perdão de pecados prometido como uma das bênçãos distintivas está prestes a ficar disponível; e o sacri­fício para selar esta aliança e assegurar este perdão será o derrama­mento do meu sangue na morte.” Será possível exagerar a natureza espantosa dessa reivindicação? Aqui está a visão que Jesus tinha da sua morte. É o sacrifício divinamente ordenado pelo qual a nova aliança com a sua promessa de perdão será ratificada. Ele vai morrer a fim de levar o seu povo a um novo relacionamento de aliança com Deus.

A terceira lição que Jesus estava ensinando referia-se à necessidade de apropriarmo-nos pessoalmente da sua morte. Se tivermos razão em dizer que, no cenáculo, Jesus estava apresentando uma dramatização de sua morte, é importante que observemos a forma que ela tomou. Não consistia em um ator num palco, e doze pessoas no auditório. Não; envolveu a todos como também a ele, de modo que tanto eles como ele participaram do drama. É verdade que Jesus tomou o pão, aben­çoou-o e o quebrou, mas então, enquanto comiam, ele explicou a significação do seu gesto. Novamente, ele tomou o cálice e o aben­çoou, mas então, enquanto bebiam, explicou a significação do seu gesto. Assim, não eram meros espectadores deste drama da cruz; eram participantes dele. Não poderiam ter deixado de entender a mensagem. Assim como não era suficiente que o pão fosse quebrado e o vinho derramado, mas que tinham de comer e beber, da mesma forma não era suficiente que ele morresse, mas eles tinham de se apropriar pessoalmente dos benefícios da sua morte. O comer e o beber eram, como ainda o são, uma parábola viva de recebermos a Cristo como nosso Salvador crucificado, e nos alimentarmos dele, pela fé, em nossos corações. Jesus já havia ensinado essa mensagem em seu grande discurso sobre o Pão da Vida, o qual veio logo depois da alimentação dos cinco mil:

Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira bebida (João 6:53-55).

As palavras de Jesus naquela ocasião, e suas ações no cenáculo testemunham a mesma realidade. Dar ele o seu corpo e o seu sangue na morte era uma coisa; apropriarmo-nos nós das bênçãos da sua morte é outra muito diferente. Contudo, muitos ainda não apren­deram essa distinção. Posso ainda lembrar-me da grande revelação que foi para mim, na juventude, quando me disseram que era ne­cessário uma ação de minha parte. Eu costumava imaginar que, por haver Cristo morrido, o mundo tinha sido corrigido automaticamente. Quando alguém me explicou que Cristo havia morrido por mim, res­pondi um tanto altivamente: “Todo mundo sabe disso”, como se o fato em si ou o meu conhecimento do fato me houvesse trazido a salvação. Mas Deus não força as suas dádivas sobre nós; temos de recebê-las mediante a fé. A Ceia do Senhor permanece como o sinal externo perpétuo tanto da dádiva divina como da recepção humana. Tem o propósito de ser a comunhão do corpo e do sangue de Cristo (1 Coríntios 10:16).

Portanto, eis as lições do cenácúlo acerca da morte de Cristo. Pri­meira, ocupava o centro do pensamento que ele tinha acerca de si mesmo e de sua missão, e ele desejava que fosse o centro do nosso. Segunda, aconteceu a fim de estabelecer a nova aliança e assegurar o seu perdão prometido. Terceira, precisa ser apropriada individual­mente, se quisermos desfrutar os seus benefícios (a aliança e o per­dão). A Ceia do Senhor instituída por Jesus não tinha o propósito de ser um “não-me-esqueça” piegas, mas, antes, um culto rico de sig­nificação espiritual.

O que torna os eventos do cenácúlo e a significação da Ceia do Senhor ainda mais impressionantes é pertencerem ao contexto da Páscoa. Já vimos que Jesus pensava em sua morte como sendo um sacrifício do Antigo Testamento. Mas qual dos sacrifícios tinha ele em mente? Parece que ele pensava no sacrifício do monte Sinai, de Êxodo 24, mediante o qual a aliança foi renovada, mas também no da Páscoa, de Êxodo 12, o qual se transformou em celebração anual da libertação de Israel e uma aliança da parte de Deus com eles.

Segundo os evangelistas sinóticos, a última ceia foi a refeição pascal que se realizava depois que os cordeiros eram sacrificados. Essa idéia está clara na pergunta que os discípulos fizeram a Jesus: “Onde queres que a preparemos?” E o próprio Jesus se referiu à refeição como “esta páscoa”.11 Segundo João, porém, a refeição da páscoa não seria rea­lizada até a noite de sexta-feira, o que significa que Jesus morria na cruz no mesmo instante em que os cordeiros pascais estavam sendo mortos.32 Em seu importante livro As Palavras Eucarísticas de Jesus, Joachim Jeremias elaborou as três principais tentativas que se têm feito para harmonizar essas duas cronologias. O melhor parece ser declarar que ambas estão corretas, pois ambas foram seguidas por um grupo diferente. Ou os fariseus e os saduceus usavam calendários alternativos, com a diferença de um dia, ou havia tantos peregrinos em Jerusalém por ocasião do festival (talvez até 100.000) que os ga­lileus matavam os seus cordeiros na quinta-feira e os comiam nessa noite, ao passo que os judeus observavam a celebração um dia depois. Qualquer que seja o modo de reconciliar as duas cronologias, o contexto da páscoa reforça ainda mais as três lições que já conside­ramos. A importância central que Jesus atribuía à sua morte é acen­tuada pelo fato de que ele, na realidade, estava dando instruções no sentido de que sua própria ceia substituísse a celebração anual da páscoa. Pois proferiu palavras de explicação sobre o pão e o vinho (“Isto é o meu corpo. . . Isto é o meu sangue. . .”), assim como o chefe da família arameu-judaica fazia sobre o alimento pascal (“Este é o pão de aflição que nossos pais comeram quando saíram do Egito”.13 Assim, “Jesus modelou seus ditos no ritual de interpretação da pás­coa.”

As palavras de Jesus esclarecem ainda mais a compreensão que ele tinha do propósito da sua morte. Ele “pressupõe”, escreveu Jeremias “uma morte que separou a carne e o sangue. Por outras palavras, Jesus falou de si mesmo como um sacrifício.” Deveras, é bem provável que ele “estivesse falando de si mesmo como o cordeiro pascal”, de modo que o significado de sua última parábola foi: “Eu vou à morte como o verdadeiro sacrifício da páscoa.” As implicações deste racio­cínio são muito abrangentes, pois na páscoa original no Egito cada cordeiro morreu em lugar do primogênito, e o primogênito só seria poupado se um cordeiro morresse em seu lugar. O cordeiro não ape­nas tinha de ser morto, mas também o seu sangue tinha de ser as­pergido na porta da frente, e a sua carne comida numa refeição de comunhão. Assim, o ritual da páscoa também ensina a terceira lição: era necessário que os benefícios da morte sacrificial fossem apropria­dos pessoalmente.

 

A agonia no jardim do Getsêmani

A ceia terminou e Jesus acabou de dar suas instruções aos apóstolos. Ele instou com eles a que permanecessem nele assim como os ramos permanecem na videira. Ele os advertiu da oposição do mundo, con­tudo, encorajou-os a testemunhar dele, lembrando-lhes de que o Es­pírito da verdade seria a testemunha principal. Ele também orou — primeiro por si mesmo, para que glorificasse o seu Pai no suplício que se seguiria, então pelos discípulos, para que se mantivessem na verdade, santidade, missão e unidade, e, por último, orou por aqueles que fariam parte de gerações subseqüentes e que creriam nele através da mensagem dos apóstolos. É provável que depois disso tenham cantado um hino, e, juntos tenham deixado o cenáculo. Andam pelas ruas da cidade no silêncio da noite; à suave luz da lua pascal atra­vessam o vale de Cedrom, começam a subir o monte das Oliveiras, e entram num jardim de oliveiras, como o nome “Getsêmani” (“prensa de azeite”) sugere. Este é, evidentemente, um dos retiros favoritos de Jesus, pois João comenta que “ali estivera muitas vezes com seus discípulos” (18:2). Aqui acontece algo que, apesar da ma­neira sombria como os evangelistas o descrevem, simplesmente clama por uma explicação, e começa a revelar o enorme preço da cruz de Cristo. Nós o chamamos, de modo correto, de “a agonia do jardim”.

Deixando a maioria dos apóstolos para trás, e instando com eles a que vigiem e orem, Jesus leva a Pedro, Tiago e João — os três íntimos — a certa distância, diz-lhes que se sente “profundamente triste até à morte”, e pede-lhes que vigiem com ele. Então se adianta um pouco, prostra-se com o rosto em terra e ora, dizendo: “Meu Pai: se possível, passa de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e, sim, como tu queres”. Voltando aos apóstolos, encontra-os dormindo e os repreende. Saindo pela segunda vez, ele ora: “Meu Pai, se não é possível passar de mim este cálice sem que eu o beba, faça-se a tua vontade.” Novamente encontra os discípulos dormindo. De modo que os deixa uma vez mais e ora, pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras. Depois desse terceiro período de oração, ele volta e os en­contra dormindo novamente, pois não conseguem penetrar o incon­cebível mistério do seu sofrimento. Esse é um caminho que ele tem de palmilhar sozinho. A certa altura Lucas diz que ele estava “em agonia”, e orava mais intensamente de modo que “o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra”.14

Ao nos aproximarmos dessa cena sagrada, devemos primeiro con­siderar as palavras vigorosas que Jesus e os evangelistas usaram para expressar as suas fortes emoções. Fomos preparados para elas por duas afirmativas anteriores do Mestre. A primeira, registrada por Lucas, foi que ele tinha um “batismo com o qual hei de ser batizado” e “se angustiava” (no grego synecho) até que se realizasse. A segunda é um dito registrado por João de que a alma de Cristo estava angus­tiada (no grego tarasso) de tal modo que ele não sabia se devia pedir que o seu Pai o livrasse dessa hora. É uma antecipação do Getsêmani.15

B. B. Warfield escreveu um excelente estudo intitulado “Acerca da Vida Emocional de Nosso Senhor”, no qual se referiu aos termos empregados pelos evangelistas sinóticos com relação ao Getsêmani. A palavra agonia, registrada por Lucas, ele a define como “conster­nação, relutância pavorosa”. Mateus e Marcos possuem duas ex­pressões em comum. A idéia primária de “perturbar” {ademoneo), sugere ele, é “aversão repugnante, talvez misturada com tristeza”, enquanto a autodescrição de Jesus como “profundamente triste” (pe-rilypos) “expressa uma tristeza, ou talvez melhor disséssemos, uma dor mental, ou uma perturbação que o pressiona de todos os lados, da qual, pois, não há escape”. Marcos usa outra palavra, “profun­damente perturbada” (ekthambeomai), que pode ser traduzida por “to­mado de horror”; e, acrescenta Warfield: “é um termo que define mais estreitamente a aflição como consternação — se não exatamente pavor, contudo, um assombro alarmado”.16 Reunidas, essas palavras expressivas indicam que Jesus estava sentindo uma dor emocional aguda, que causava profuso suor, à medida que ele olhava com apreensão e quase terror para o seu suplício vindouro.

Ele se refere a esse suplício como um “cálice” amargo pelo qual ardentemente ora que, se possível, passe dele, para que não tenha de bebê-lo. Que cálice é esse? Será um sofrimento físico do qual deseja desviar-se, a tortura do açoite e da cruz juntamente, talvez, com a angústia mental da traição, negação e deserção da parte dos seus amigos, e a zombaria e o abuso dos seus inimigos? Nada poderia fazer-me crer que o cálice que Jesus temia era qualquer uma destas coisas (por mais terríveis fossem) ou todas juntas. Sua coragem física e moral durante todo o seu ministério público havia sido indomável. Para mim, é ridículo supor que agora ele estava com medo da dor, do insulto e da morte. Sócrates, na cela de um cárcere em Atenas, segundo relato de Platão, tomou o cálice de cicuta “sem tremer nem mudar de cor ou de expressão”. Então ele “levou o cálice aos lábios, e alegre e tranqüilamente o sorveu”. Quando seus amigos começaram a chorar, ele os repreendeu por seu comportamento “absurdo” e instou com eles a que “se aquietassem e fossem fortes”.17 Ele morreu sem temor, pesar ou protesto. Seria Sócrates mais corajoso do que Jesus? Ou continham os seus cálices venenos diferentes?

Então vêm os mártires cristãos. O próprio Jesus dissera aos seus seguidores que quando fossem insultados, perseguidos e injuriados, deviam “regozijar-se e alegrar-se”. Será que Jesus não praticava o que pregava? Seus apóstolos o fizeram. Deixando o Sinédrio com as costas sangrando de um açoite sem misericórdia, eles, na realidade, rego­zijavam-se por terem sido achados dignos de sofrer vergonha pelo “Nome”. A dor e a rejeição para eles eram alegria e privilégio, não um suplício do qual deviam fugir em assombro.18

No período pós-apostólico até mesmo surgiu o anseio de se unir a Cristo no martírio. Inácio, bispo de Antioquia da Síria, no começo do segundo século, a caminho de Roma, implorou à igreja aí que não tentasse procurar sua liberdade a fim de não privá-lo dessa honra! “Que o fogo e a cruz”, escreveu ele, “que a companhia das feras selvagens, que o quebrar de ossos e o despedaçar de membros, que o moer de todo o corpo, e toda a malícia do diabo venham sobre mim; que assim seja, se tão-somente eu puder ganhar a Cristo Jesus!”19

Alguns anos mais tarde, nos meados do segundo século, Policarpo, bispo de Esmirna, de oitenta anos de idade, tendo-se recusado a escapar da morte pela fuga ou pela negação de Cristo, foi queimado na fogueira. Logo antes de acender-se o fogo, ele orou, dizendo: “Ó Pai, bendigo-te por teres-me achado digno de receber a minha porção entre o número dos mártires”.20

Quanto a Albano, o primeiro mártir cristão inglês de que se tem conhecimento, durante uma das severas perseguições do terceiro sé­culo, primeiro ele foi “surrado cruelmente, contudo, sofreu-o pacien­temente, aliás, com alegria, por amor do Senhor”, e então foi decapitado.21

E assim continuou em todas as gerações. “Oh, as alegrias que os mártires em Cristo sentiram”, exclamou Richard Baxter, “no meio das chamas ardentes!” Embora feito de carne e sangue como nós, conti­nuou ele, as suas almas podiam regozijar-se até mesmo enquanto seus corpos se queimavam.22

Dos muitos exemplos que poderíamos tirar do presente século, escolho só aqueles mencionados por Sadhu Sundar Singh, místico e evangelista cristão hindu. Ele contou, por exemplo, de um evangelista tibetano, açoitado por atormentadores que então esfregaram sal nas suas feridas. Diz ele que a face desse evangelista “brilhava com paz e alegria”. Ele conta que outro foi costurado dentro da pele úmida de um iaque e deixado ao sol durante três dias. Este, porém, “esteve alegre o tempo todo”, agradecendo a Deus o privilégio de sofrer por ele. É verdade que às vezes Sadhu embelezava ou romantizava as suas histórias, contudo, não parece haver motivo para duvidarmos do seu testemunho, de sua própria experiência e da de outros, que, mesmo no meio da tortura Deus dá ao seu povo uma alegria e uma paz sobrenaturais.23

Voltamos à figura solitária no jardim do Getsêmani — prostrado, suando, vencido pela dor e pelo pavor, implorando, se possível, fosse poupado de beber o cálice. Os mártires foram alegres, mas ele estava triste; eles se mostraram dispostos, mas ele estava relutante. Como podemos compará-los? Como podiam eles ter extraído sua inspiração dele, se ele titubeou quando eles não o fizeram? Além disso, até agora ele havia tido uma perspectiva clara da necessidade dos seus sofrimentos e da sua morte, e estava decidido a cumprir o seu destino, e era veemente na oposição a todo aquele que procurasse desviá-lo. Tinha tudo isso de repente mudado? Era ele agora, afinal de contas, chegado o momento da prova, um covarde? Não, não! Toda a evi­dência do seu ensino, caráter e comportamento vai contra tal conclu­são.

Naquele caso o cálice do qual ele se afastou foi algo diferente. Não simbolizava nem a dor física de ser açoitado e crucificado, nem a aflição mental de ser desprezado e rejeitado até mesmo por seu pró­prio povo; antes, a agonia espiritual de levar os pecados do mundo. Por outras palavras, de suportar o juízo divino que esses pecados mereciam. O Antigo Testamento confirma de modo vigoroso que essa é a compreensão correta, pois tanto na literatura de Sabedoria como nos Profetas, o cálice do Senhor era um símbolo regular da ira de Deus. Dizia-se que o ímpio bebia “do furor do Todo-poderoso” (Jó 21:20). Mediante Ezequiel, Yavé advertiu a Jerusalém de que ela em breve teria o mesmo destino que Samaria, que fora destruída:

Beberás o copo de tua irmã, fundo e largo; servirás de riso e escárnio; pois nele cabe muito. Encher-te-ás de embria­guez e de dor; o copo de tua irmã Samaria é copo de espanto e de desolação. Tu o beberás, esgotá-lo-ás. . .(Ezequiel 23:32-34).

Não muito depois essa profecia de juízo aconteceu, e então os profetas começaram a incentivar o povo com promessas de restau­ração. Descrevendo a Jerusalém como tendo bebido da mão do Senhor “o cálice da sua ira, o cálice de atordoamento, e o esgotaste”, Isaías a convocou a despertar e levantar-se, pois Yavé agora havia tirado o cálice da mão dela e ela jamais teria de beber dele de novo. Nem tampouco foi o cálice da ira do Senhor dado somente a seu desobe­diente povo. O Salmo 75 é uma meditação sobre o juízo universal de Deus: “Na mão do Senhor há um cálice, cujo vinho espuma, cheio de mistura; dele dá a beber; sorvem-no até às escórias, todos os ímpios da terra”. Similarmente, foi dito a Jeremias que pegasse um cálice da mão do Senhor, um cálice cheio do vinho da sua ira e fizesse que todas as nações às quais era enviado bebessem dele. A mesma figura de pensamento ocorre no livro do Apocalipse, onde o ímpio “beberá do vinho da cólera de Deus, preparado, sem mistura, do cálice da sua ira”, e o juízo final é retratado como o derramamento das sete taças da cólera de Deus sobre a terra.24

Jesus teria conhecimento dessas imagens do Antigo Testamento. Ele deve ter reconhecido o cálice que lhe era oferecido como aquele que continha a ira de Deus, preparado para os ímpios, e que causava uma desorientação física completa (atordoamento) e mental (confu­são) como a embriaguez. Devia ele se identificar tanto com os peca­dores que levasse o juízo deles? Desse contato com o pecado humano, sua alma sem pecado recuava. Da experiência de alienação do seu Pai que o juízo sobre o pecado traria, ele se afastou horrorizado. Não que ele se tivesse rebelado por um único instante. Sua visão evidente­mente havia-se escurecido, à medida que uma terrível escuridão en­volvia o seu espírito, mas sua vontade permaneceu submissa. Cada oração começou com a expressão: “Meu Pai: se possível, passe de mim este cálice!” e cada oração terminou com: “Todavia, não seja como eu quero, e, sim, como tu queres.” Embora, em teoria, tudo fosse possível para Deus, como o próprio Jesus afirmou no Getsêmani (Marcos 14:36), contudo, isso não foi possível. O propósito do amor de Deus era salvar os pecadores, e salvá-los justamente; mas isso seria impossível sem a morte do Salvador que tirasse os pecados. De modo que, como poderia ele orar pedindo que fosse salvo dessa hora de morte? Não, ele havia dito, ele não pediria isso, visto que “precisa­mente com este propósito vim para esta hora” (João 12:27).

De sua agonia de pavor, enquanto contemplava as implicações da sua morte, Jesus emergiu com confiança serena e resoluta. Assim, quando Pedro sacou da espada numa tentativa frenética de impedir a prisão, Jesus pôde dizer: “Não beberei, porventura, o cálice que o Pai me deu?” (João 18:11). Visto que João não registrou as orações agonizantes de Jesus pedindo a remoção do cálice, esta referência a ele é ainda mais importante. Jesus agora sabe que o cálice não lhe será tirado. O Pai lho deu. Ele o beberá. Além disso, por mais amargo e doloroso seja o cálice, ele ainda descobrirá que fazer a vontade do Pai, que o enviou, e terminar a sua obra é sua comida e sua bebida, por assim dizer, a qual profunda e completamente lhe satisfaz a sede.

A agonia do jardim abre uma janela para uma agonia maior na cruz. Se a antecipação do levar o pecado do homem e a ira de Deus era tão terrível, como não deve ter sido a realidade?

 

O grito de desamparo na cruz

Agora devemos passar além dos detalhes da traição e da prisão de Jesus, seus julgamentos perante Anás e Caifás, Herodes e Pilatos, as negações de Pedro, a zombaria cruel dos sacerdotes e soldados, a malevolência e o açoite, e a histeria da multidão que exigiu a sua morte. Vamos ao fim da história. Condenado à morte por crucificação, “como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha, muda pe­rante os seus tosquiadores, ele não abriu a sua boca” (Isaías 53:7). Carregando sua própria cruz, até que Simão, um cireneu, fosse for­çado a levá-la, ele terá andado pela via dolorosa, saído da cidade, em direção do Gólgota, “o lugar da caveira”. “Ali o crucificaram”, escreve Lucas, recusando-se a descrever o desnudamento, a pregação dos cravos, ou a distensão violenta dos seus membros enquanto a cruz era erguida e atirada no seu lugar. Até mesmo a dor cruciante não pôde silenciar seus repetidos apelos: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Os soldados lançaram sortes sobre as suas ves­tes. Algumas mulheres estavam paradas à distância. A multidão per­maneceu um pouco, para olhar. Jesus entregou sua mãe aos cuidados de João e João aos dela. Ele proferiu palavras reais de segurança ao criminoso arrependido, crucificado ao seu lado. Os dirigentes, porém, zombavam dele, gritando: “Salvou os outros; a si mesmo se salve, se é de fato o Cristo de Deus, o escolhido”. As palavras deles, proferidas como um insulto, eram a verdade literal. Ele não podia salvar a si mesmo e aos outros simultaneamente. Ele escolheu sacrificar-se a fim de salvar o mundo.

Pouco a pouco a multidão, sua curiosidade saciada, foi-se raleando. Finalmente, caiu o silêncio e chegou a escuridão — trevas, talvez porque olho algum devia ver, e silêncio, porque língua alguma poderia contar a angústia de alma que o Salvador sem pecados agora sofria. “No nascimento do Filho de Deus”, escreveu Douglas Webster, “houve luz à meia-noite; na morte do Filho de Deus, houve trevas ao meio-dia”.25 Os escritores sagrados expressam o que aconteceu nas trevas de vários modos:

. . .ele foi trespassado pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se des­viava pelo caminho, mas o Senhor fez cair sobre ele a ini­qüidade de nós todos.

Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!

O próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.

Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos.

Carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados.

Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus.

Àquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós;para que nele fôssemos feitos justiça de Deus.

Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele pró­prio maldição em nosso lugar.26

O pavoroso conceito de Jesus “levar”, na realidade “tornar-se” nosso pecado e maldição, como podia ser isso e o que podia significar, deixaremos para os próximos capítulos. Por enquanto, parece que a escuridão do céu foi um símbolo externo das trevas espirituais que o envolveram. Pois que são as trevas no simbolismo bíblico senão a separação de Deus que “é luz, e não há nele treva nenhuma” (1 João 1:5)? “Trevas exteriores” foi uma das expressões que Jesus usou para descrever o inferno, visto que é uma exclusão total da luz da presença de Deus. Nessas trevas exteriores o Filho de Deus se atirou por nós. Nossos pecados apagaram o brilho do rosto do seu Pai. Podemos até ousar dizer que os nossos pecados enviou Cristo ao inferno — não ao “inferno” (hades, a habitação dos mortos) a que se refere o Credo ao dizer que ele “desceu ao inferno” depois da morte, mas ao “in­ferno” {gehenna, o lugar de castigo) a que nossos pecados o conde­naram antes que seu corpo morresse.

Parece que a escuridão durou três horas. Pois foi à hora terceira (9:00 da manhã) que ele foi crucificado, e à hora sexta (meio-dia) que a escuridão cobriu toda a terra, e à hora nona (3:00 da tarde) que, emergindo das trevas, Jesus clamou em alta voz em aramaico: “Eloí, Eloí, lama sabactâni?” que significa: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”27 Os circunstantes de fala grega entenderam mal as suas palavras e pensaram que ele chamava por Elias. Ainda hoje muitos entendem mal o que ele disse. Quatro explicações principais para esse terrível grito de “abandono” (deserção), têm sido oferecidas. Todos os comentaristas concordam em que ele estava citando o Salmo 22:1. Mas não concordam sobre o motivo de tê-lo feito. Qual era a importância dessa citação nos seus lábios?

Primeira, sugerem alguns que foi um grito de raiva, descrença ou desespero. Talvez ele se tivesse apegado à esperança de que até no último instante o Pai enviaria anjos para salvá-lo, ou, pelo menos, que em meio à sua obediência total à vontade do Pai ele continuaria a experimentar o conforto da presença paterna. Mas não, agora estava claro que ele havia sido abandonado, e clamou com um “por quê” de partir o coração cheio de consternação e desafio. Sua fé falhou. Mas, é claro, acrescentam esses intérpretes, ele estava enganado. Ele se imaginava abandonado, quando na realidade não estava. Aqueles que desse modo explicam o grito de abandono mal conseguem com­preender o que fazem. Estão negando a perfeição moral do caráter de Jesus. Estão dizendo que ele foi culpado de descrença na cruz, de covardia no jardim. Eles o estão acusando de fracasso, e fracasso no momento de seu maior e supremo auto-sacrifício. A fé cristã protesta contra essa explicação.

Uma segunda interpretação, uma modificação da primeira, vê o grito de abandono como um grito de solidão. Jesus, sustenta-se agora, conhecia as promessas que Deus havia feito de jamais deixar nem abandonar a seu povo.28 Ele conhecia a fidelidade da aliança de amor de Deus. De modo que o seu “por quê?” não era uma reclamação de que Deus o houvesse realmente abandonado; antes, que lhe houvesse permitido sentir-se abandonado. “Às vezes penso”, escreveu T. R. Glover, “que jamais houve uma palavra que revela de modo mais espantoso a distância entre o sentimento e o fato”.29 Em vez de dirigir-se a Deus como “Pai”, ele podia agora chamá-lo apenas de “meu Deus”, o que é, deveras, uma afirmação de fé em sua fidelidade da aliança, mas fica aquém de declarar sua bondade amorosa de pai. Nesse caso, Jesus não estava nem enganado nem descrente, mas experimentava o que os santos têm chamado de a “escura noite da alma”, e, de fato, fazendo-o deliberadamente em solidariedade co­nosco. Nessa condição, como diz Thomas J. Crawford, o povo de Deus “não extrai satisfação consciente das alegrias do seu favor e dos confortos da sua comunhão”. Não se lhes garante “um sorriso de aprovação, uma voz de reconhecimento, uma manifestação do favor divino”.30 Essa explicação é possível, pois não desdoura o caráter de Jesus, como a primeira. Contudo, parece haver uma dificuldade in­superável no modo pelo qual é adotada, a saber, que as palavras do Salmo 22:1 expressem uma experiência de ser, e não apenas de sentir-se abandonado por Deus.

Uma terceira e bem popular interpretação diz que o grito de Jesus era um grito de vitória, exatamente o oposto da primeira, que diz ser um grito de desespero. Agora o argumento é que, embora Jesus citasse somente o primeiro versículo do Salmo 22, ele o fez com a intenção de representar o salmo todo que começa e continua com um relato dos aterroradores sofrimentos, mas termina com grande confiança, e até mesmo triunfo: “A meus irmãos declararei o teu nome; cantar-te-ei louvores no meio da congregação; vós que temeis o Senhor, louvai-o. . . Pois não desprezou nem abominou a dor do aflito, nem ocultou dele o rosto, mas o ouviu, quando lhe gritou por socorro” (vv. 22-24). Essa é uma interpretação engenhosa mas (a mim me parece) improvável. Por que citaria Jesus o começo do Salmo se na realidade indiretamente se referia ao seu final? Pareceria um tanto perverso. Teria alguém compreendido a sua intenção?

A quarta explicação é simples e direta. Ela aceita o valor real das palavras e as interpreta como um grito genuíno de abandono. Concordo com Dale, que escreveu: “Recuso-me a aceitar qualquer explicação destas palavras que diga que não representam a verdade real da dis­posição do nosso Senhor”.31 Jesus não tinha necessidade alguma de se arrepender de ter proferido um grito falso. Até esse momento, embora abandonado pelos homens, ele podia acrescentar: “Contudo não estou só, porque o Pai está comigo” (João 16:32). Na escuridão, porém, ele estava completamente sozinho, sendo agora também aban­donado por Deus. No dizer de Calvino: “Se Cristo tivesse morrido apenas uma morte física, teria sido ineficaz. . . A menos que a sua alma partilhasse do castigo, ele teria sido um Redentor de corpos somente”. Em conseqüência, “ele pagou um preço maior e muito mais excelente ao sofrer em sua alma os terríveis tormentos de um homem condenado e abandonado”.32 Portanto, uma separação real e pavorosa aconteceu entre o Pai e o Filho; ela foi aceita, voluntaria­mente, tanto pelo Pai como pelo Filho; foi devida aos nossos pecados e sua justa recompensa; Jesus expressou esse horror de grandes tre­vas, este abandono de Deus, citando o único versículo da Escritura que corretamente o descrevia, e ao qual ele tinha cumprido perfei­tamente, a saber: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Das objeções e dos problemas teológicos trataremos mais tarde, em­bora já insistimos em que o desamparo de Jesus na cruz deve ser equilibrado com uma afirmação igualmente bíblica como: “Deus es­tava reconciliando consigo mesmo o mundo em Cristo”. C. E. B. Cranfield tem razão ao enfatizar tanto a verdade de que Jesus expe­rimentou “não apenas um abandono sentido, mas real,, de seu Pai” e “o paradoxo que, embora esse abandono de Deus fosse totalmente real, a unidade da bendita Trindade permaneceu ainda assim com­pleta”.33 A esta altura, porém, é suficiente sugerir que Jesus estivera meditando no Salmo 22, que descreve o cruel castigo de um homem inocente e justo, assim como ele estava meditando em outros salmos os quais citou da cruz;34 que ele citou o versículo 1 pelo mesmo motivo que citou todas as outras passagens bíblicas, a saber, que cria as estar cumprindo; que o seu grito teve a forma de uma pergunta, não porque não conhecesse a resposta, mas somente porque o próprio texto do Antigo Testamento (o qual ele estava citando) possuía essa forma.

Quase imediatamente depois do grito de abandono, Jesus proferiu, em rápida sucessão, mais três palavras ou frases. Primeira: “Tenho sede”. Seus grandes sofrimentos espirituais tinham-lhe cobrado o preço fisicamente. Segunda, ele clamou, novamente (segundo Mateus e Marcos) com grande voz: “Está consumado”. E a terceira, tranqüila, voluntária e confiante auto-recomendação: “Pai, nas tuas mãos en­trego o meu espírito!”, enquanto tomava o último fôlego.35 O grito do meio, o alto grito de vitória é, nos Evangelhos, a palavra tetelestai.

Estando no tempo perfeito, significa: “foi e para sempre será con­sumado”. Percebemos a realização que Jesus reivindicou logo antes de morrer. Não foram os homens que consumaram sua ação brutal; foi ele que realizou o que veio ao mundo realizar. Ele levou os pecados do mundo. Deliberada, livre e perfeitamente em amor ele suportou o juízo em nosso lugar. Ele nos conseguiu a salvação, estabeleceu uma nova aliança entre Deus e a humanidade, e tornou disponível a principal bênção da aliança, o perdão dos pecados. Imediatamente, a cortina do templo, que durante séculos tinha simbolizado a alienação dos pecadores de Deus, rasgou-se de alto a baixo, a fim de demonstrar que Deus havia destruído a barreira do pecado, e aberto o caminho à sua presença.

Trinta e seis horas mais tarde, Deus ressuscitou a Jesus dentre os mortos. Aquele que havia sido condenado ã morte em nosso lugar, foi publicamente vindicado em sua ressurreição. Foi a demonstração decisiva de Deus de que Jesus não havia morrido em vão.

Tudo isso apresenta um quadro coerente e lógico. Dá uma expli­cação da morte de Jesus, tomando em relato científico apropriado os dados disponíveis, sem deixar nenhum de fora. Explica a importância central que Jesus atribuía à sua morte, por que ele instituiu a ceia a fim de comemorá-la, e como, mediante a sua morte, ratificou a nova aliança, com sua promessa de perdão. Explica a sua agonia de ante­cipação no jardim, sua agonia de abandono na cruz, e sua reivindi­cação de ter decisivamente realizado a nossa salvação. Todos esses fenômenos tornam-se inteligíveis se aceitarmos a explicação que Jesus deu aos seus apóstolos de que ele mesmo levou os nossos pecados em seu corpo no madeiro.

Em conclusão, a cruz reforça três verdades: acerca de nós mesmos, acerca de Deus e acerca de Jesus Cristo.

Primeira, nosso pecado deve ser extremamente horrível. Nada re­vela a gravidade do pecado como a cruz. Pois, em última instância, o que enviou Cristo ali não foi nem a ambição de Judas, nem a inveja dos sacerdotes, nem a covardia vacilante de Pilatos, mas a nossa própria ganância, inveja, covardia e outros pecados, e a resolução de Cristo em amor e misericórdia de levar o juízo desses pecados e desfazê-los. É impossível que encaremos a cruz de Cristo com inte­gridade e não sintamos vergonha de nós mesmos. Apatia, egoísmo e complacência vicejam em todos os lugares do mundo, exceto junto à cruz. Aí, essas ervas nocivas secam-se e morrem. São vistas como as coisas horríveis e venenosas que realmente são. Pois se não havia outro modo pelo qual o Deus justo pudesse justamente perdoar a nossa injustiça, a não ser que a levasse sobre si mesmo em Cristo, deve ela, deveras, ser séria. Só quando vemos essa seriedade é que, desnudados de nossa autojustiça e auto-satisfação, estamos prontos para colocar nossa confiança em Jesus Cristo como o Salvador de quem urgentemente necessitamos.

Segunda, a maravilha do amor de Deus deve ir além da compreen­são. Deus podia, com justiça, ter-nos abandonado ao nosso próprio destino. Ele podia ter-nos deixado sozinhos para colhermos o fruto de nossos erros e perecermos em nossos pecados. É isso o que me­recíamos. Mas ele não nos abandonou. Por causa do seu amor por nós, ele veio procurar-nos em Cristo. Ele nos foi ao encalço até mesmo na desolada angústia da cruz, onde levou o nosso pecado, a nossa culpa, o nosso juízo e a nossa morte. É preciso que o coração seja duro e de pedra para não se comover face a um amor como esse. E mais do que amor. Seu nome correto é “graça”, que é o amor aos que não o merecem.

Terceira, a salvação de Cristo deve ser um dom gratuito. Ele a “comprou” para nós com o alto preço de seu próprio sangue. De modo que o que nos resta pagar? Nada! Visto que ele reivindicou que tudo estava “consumado”, nada há com que possamos contribuir. Não, é claro, que agora temos a permissão de pecar e podemos sempre contar com o perdão de Deus. Pelo contrário, a mesma cruz de Cristo, que é o fundamento de uma salvação gratuita, é também o incentivo mais poderoso a uma vida santa. Mas essa nova vida vem depois. Primeiro, temos de nos humilhar aos pés da cruz, confessar que pe­camos e nada merecemos de suas mãos a não ser o juízo, agradecer-lhe o nos ter amado e morrido por nós, e receber dele um perdão completo e gratuito. Contra essa humilhação própria o nosso orgulho se rebela. Ressentimos a idéia de que não podemos ganhar — nem mesmo contribuir — para a nossa própria salvação. De modo que tropeçamos, como disse Paulo, na pedra de tropeço da cruz.36

Segunda Parte
O Coração da Cruz

 

4
O Problema do Perdão

 

O “olhar abaixo da superfície” do capítulo anterior pode ter provocado em alguns leitores uma reação de im­paciência. “A simples ceia no cenáculo”, você pode estar dizendo, “e até mesmo a oração de agonia no jardim e o grito da cruz, tudo isso deve ter explicação mais direta. Por que você complica tudo com o seu teologizar tor­tuoso?” É uma reação compreensível.

Em particular, a nossa insistência de que segundo o evangelho a cruz de Cristo é o único fundamento sobre o qual Deus perdoa pe­cados confunde a muita gente. “Por que o nosso perdão depende da morte de Cristo?” perguntam. “Por que Deus não nos perdoa sim­plesmente, sem a necessidade da cruz?” Como disse certo cínico fran­cês: “le bon Dieu me pardonnera; c’est son métier”.1 “Afinal de contas”, pode continuar o discordante, “se pecamos uns contra os outros, requer-se que perdoemo-nos uns aos outros. Somos até mesmo advertidos das terríveis conseqüências da falta de perdão. Por que Deus não pratica o que prega e é igualmente generoso? Não é preciso que ninguém morra para que nos perdoemos uns aos outros. Então por que Deus cria tanta confusão acerca de perdoar-nos e até declara que sem o sacrifício do seu Filho pelo pecado o perdão é impossível? Parece uma superstição primitiva a qual as pessoas mo­dernas há muito deviam ter atirado fora.”

É essencial fazer essas perguntas e responder a elas. Podemos dar­-lhes, de imediato, duas respostas, embora necessitemos do restante do capítulo a fim de elaborá-las. A primeira resposta vem do arcebispo Anselmo em seu grande livro Cur Deus Homo?, escrito no final do século onze. Escreveu ele que se alguém imagina que Deus pode simplesmente nos perdoar como nós perdoamos uns aos outros, essa pessoa “ainda não pensou na seriedade do pecado”, ou literalmente “que peso tão grande o pecado é” (I.XXI). Poderíamos expressar a segunda resposta de modo similar: “Você ainda não considerou a majestade de Deus”. Quando a percepção que temos de Deus e do homem, da santidade e do pecado, é tortuosa, então nossa compreen­são da expiação provavelmente também será tortuosa.

O fato é que a analogia entre o nosso perdão e o de Deus está muito longe de ser exata. É verdade, Jesus nos ensinou a orar, dizendo: “Perdoa-nos as nossas dívidas assim como nós temos perdoado aos nossos devedores”. Mas ele estava ensinando a impossibilidade de perdão da parte da pessoa que não perdoa, e, assim, a obrigação que o perdoado tem de perdoar, como deixa claro a parábola do servo incompassivo; ele não estava fazendo um paralelo entre Deus e nós com relação à base do perdão.2 Argumentarmos que “perdoamo-nos uns aos outros incondicionalmente, que Deus faça o mesmo por nós”, trai não sofisticação mas superficialidade, visto que deixa de lado o fato elementar de que não somos Deus. Somos indivíduos particu­lares, e os pequenos delitos das outras pessoas são danos pessoais. Deus não é um indivíduo particular, contudo, e o pecado tampouco é mero dano pessoal. Pelo contrário, o próprio Deus é o criador das leis que quebramos e o pecado é rebeldia contra ele.

A pergunta crucial que devemos fazer, portanto, é diferente. Não é por que “Deus acha difícil perdoar, mas como é que ele acha possível, de algum modo, fazê-lo”. Como disse Emil Brunner: “O perdão é o oposto de tudo aquilo que podemos ter como certo. Nada é menos óbvio do que o perdão”.3 Ou, nas palavras de Carnegie Simpson: “O perdão, para o homem, é o mais claro dos deveres; para Deus é o mais profundo dos problemas”.4

O problema do perdão é constituído pela colisão inevitável entre a perfeição divina e a rebeldia humana, entre Deus como ele é e nós como somos. O obstáculo ao perdão não é somente o nosso pecado nem somente a nossa culpa, mas também a reação divina em amor e ira para com os pecadores culpados. Pois embora, deveras, “Deus seja amor”, contudo, temos de lembrar-nos de que o seu amor é “um amor santo”,5 amor que anseia pelos pecadores enquanto ao mesmo tempo se recusa a tolerar o pecado. Como, pois, poderia Deus ex­pressar o seu santo amor? — seu amor em perdoar pecadores sem comprometer a sua santidade, e a sua santidade ao julgar os pecadores sem frustrar o seu amor? Confrontado pela maldade humana, como poderia Deus ser verdadeiro a si mesmo, como amor santo? Nas palavras de Isaías, como poderia ele ser simultaneamente “Deus justo e Salvador” (45:21)? Porque, apesar da verdade de que Deus tenha demonstrado a sua justiça tomando a iniciativa de salvar o seu povo, as palavras “justiça” e “salvação” não podem ser tomadas como si­nônimos. Pelo contrário, a iniciativa divina salvadora era compatível com a sua justiça e a expressava. Na cruz, em santo amor, o próprio Deus, através de Cristo, pagou a penalidade completa de nossa de­sobediência. Ele levou o juízo que merecemos a fim de trazer-nos o perdão que não merecemos. Na cruz, a misericórdia e a justiça divina foram igualmente expressas e eternamente reconciliadas. O santo amor de Deus foi “satisfeito”.

Todavia, estou correndo rápido demais. O motivo pelo qual muitos dão respostas erradas às perguntas acerca da cruz, e até mesmo fazem perguntas erradas, é que não pensaram cuidadosamente na seriedade do pecado nem na majestade de Deus. Para que possamos fazê-lo agora, revisaremos quatro conceitos bíblicos básicos, a saber, a gra­vidade do pecado, a responsabilidade moral do homem, a culpa ver­dadeira e a falsa, e a ira de Deus. Veremos a nós mesmos, assim, sucessivamente como pecadores, responsáveis, culpados e perdidos. Não será um exercício agradável, e, no seu decurso, nossa integridade será testada.

 

A gravidade do pecado 

A própria palavra “pecado”, em anos recentes, desapareceu do vocabulário da maioria das pessoas. Pertence à fraseologia religiosa tradicional que, pelo menos no Ocidente cada vez mais secularizado, muitos agora declaram sem sentido. Além do mais, se alguém men­ciona o “pecado”, na maioria das vezes é compreendido mal. O que é, pois?

O Novo Testamento emprega cinco palavras gregas principais para o pecado, as quais juntas retratam os seus aspectos variados, tanto passivos como ativos. A mais comum dessas palavras é hamartia, que descreve o pecado como um não atingimento do alvo, ou fracasso em alcançar um objetivo. Adikia é “iniqüidade”, e poneria é o mal de um tipo vicioso ou degenerado. Ambos os termos parecem falar de uma corrupção ou perversão de caráter. As palavras mais ativas são pa­rabasis (com a qual podemos associar paraptoma), uma “transgressão”, o ir além de um limite conhecido, e anomia, “falta de lei”, o desrespeito ou violação de uma lei conhecida. Cada caso subentende um critério objetivo, um padrão a que falhamos em atingir ou uma linha que deliberadamente cruzamos.

Presume-se, por toda a Escritura, que este critério ou ideal foi es­tabelecido por Deus. É, de fato, sua lei moral, que expressa seu caráter justo. Não é, contudo, a lei do seu próprio ser somente; é também a lei do nosso, visto que ele nos criou à sua imagem, e ao fazê-lo, escreveu os requisitos da sua lei em nossos corações (Romanos 2:15).

Há, portanto, uma correspondência vital entre a lei de Deus e nós, e pecar é transgredir a lei (1 João 3:4), ofender nosso bem-estar mais elevado, como também ofender a autoridade e o amor de Deus.

A ênfase da Escritura, porém, é sobre a autocentralidade ímpia do pecado. Cada pecado é uma quebra do que Jesus chamou de o pri­meiro e grande mandamento, não apenas o fracasso de amar a Deus com todo o nosso ser, mas também a recusa ativa de reconhecê-lo e obedecer-lhe como o nosso Criador e Senhor. Rejeitamos a posição de dependência que o fato de sermos criados envolve, e procuramos ser independentes. Pior ainda, ousamos proclamar nossa auto-inde-pendência, nossa autonomia, o mesmo que reivindicar a posição que somente Deus pode ocupar. O pecado não é um lapso lamentável de padrões convencionais; a sua essência é a hostilidade para com Deus (Romanos 8:7), manifesta em rebeldia ativa contra ele. Ele tem sido descrito em termos de “livrar-se do Senhor Deus” a fim de colocarmos a nós mesmos no seu lugar, num espírito altivo de “poderosidade divina”. Emil Brunner resume esse pensamento muito bem, ao dizer: “Pecado é desafio, arrogância, desejo de ser igual a Deus. . . Asserção da independência humana contra Deus. . . Constituição da razão au­tônoma, moralidade e cultura”. É com muita razão que ele intitulou o livro do qual tiramos essa citação “Homem em Revolta”.

Uma vez que tenhamos visto que cada pecado que cometemos é uma expressão (em diferentes graus de autoconsciência) desse espírito de revolta contra Deus, seremos capazes de aceitar a confissão de Davi: “Pequei contra ti, contra ti somente, e fiz o que é mau perante os teus olhos” (Salmo 51:4). Ao cometer o adultério com Bate-Seba, e ao arranjar para que Urias, o marido dela, fosse morto na batalha, Davi havia cometido ofensas extremamente sérias contra eles e contra a nação. Contudo, eram as leis de Deus que ele tinha quebrado e, por isso, era contra Deus que, em última análise, havia pecado.

Talvez seja a profunda relutância de encarar a gravidade do pecado que tem levado à sua omissão do vocabulário de muitos de nossos contemporâneos. Um observador arguto da condição humana, que notou o desaparecimento da palavra, é o psiquiatra americano Karl Menninger. Ele escreveu a esse respeito em seu livro “O que Foi Feito do Pecado?” Descrevendo a indisposição da sociedade ocidental, o seu humor geral de tristeza e condenação, ele acrescenta que “sente-se a falta de qualquer menção de ‘pecado’ “. “Essa palavra já esteve na mente de todos, mas agora poucas vezes se ouve. Será que isso significa”, pergunta ele, “que o pecado não faz parte de todos os nossos problemas. . .? Será que ninguém comete pecados? Para onde, deveras, foi o pecado? O que aconteceu a ele?” Investigando as causas do desaparecimento do pecado, o Dr. Menninger nota primeiro que “muitos pecados antigos têm-se transformado em crimes”, de modo que a responsabilidade pela sua solução passou da igreja para o Es­tado, do sacerdote para o policial, ao passo que outros se dissiparam em doenças, ou pelo menos nos sintomas de doenças, de forma que nesses casos o tratamento substituiu o castigo. Um terceiro e con­veniente artifício chamado “irresponsabilidade coletiva” capacitou-nos a transferir a culpa de nosso comportamento desviado de nós mesmos como indivíduos para a sociedade como um todo ou para um dos seus muitos agrupamentos.

O Dr. Menninger prossegue fazendo um apelo não somente pela volta da palavra “pecado” ao nosso vocabulário, mas também por um reconhecimento da realidade que ela expressa. Não podemos despedir o pecado como mero tabu cultural ou erro social. Devemos levá-lo a sério. Acrescenta ele: “O clérigo não pode minimizar o pecado e manter o seu papel correto em nossa cultura”. Pois o pecado é “uma qualidade implicitamente agressiva — uma crueldade, um ferimento, um afastamento de Deus e do restante da humanidade, uma alienação parcial, ou um ato de rebelião. . . O pecado possui uma qualidade voluntariosa, desafiadora ou desleal: alguém é desafiado ou ofendido ou magoado”. Ignorar isto seria desonesto. Confessá-lo capacitar-nos-ia a fazer algo a seu respeito. Além do mais, a volta do pecado inevitavelmente levaria ao “reavivamento ou reafirmação da respon­sabilidade pessoal”. De fato, a “utilidade” de reviver o pecado é que a responsabilidade seria revivida com ele.

 

A responsabilidade moral humana

Mas será justo culpar os seres humanos por sua má conduta? Somos realmente responsáveis pelas nossas ações? Ou será que, em vez de agentes livres, não passamos de vítimas de outras agências, e, assim, sofremos mais pecado contra nós mesmos do que nós mesmos pe­camos? Temos ao nosso alcance toda uma gama de bodes expiatórios — os genes, a química corporal (um desequilíbrio hormonal tempo­rário), o temperamento herdado, o fracasso de nossos pais durante a primeira infância, a criação, o ambiente educacional e social. Juntos, estes parecem constituir um álibi infalível.

Talvez jamais tenha havido tentativa maior de minar o conceito tradicional de responsabilidade do que o livro do Professor B. F. Skinner, intitulado Além da Liberdade e Dignidade. A tese dele é que “os terríveis problemas que nos encaram no mundo hoje” (especial­mente as ameaças da explosão populacional, a guerra nuclear, a fome, as doenças e a poluição) poderiam todos ser resolvidos por “uma tecnologia do comportamento humano”. Isto é, “poderiam ser feitas vastas mudanças no comportamento humano” através de mudanças no ambiente. O homem poderia ser programado para comportar-se corretamente. O que o impede, pois? Resposta: o conceito do “homem autônomo”, sua suposta “liberdade” {no que ele é tido como res­ponsável por suas ações) e a sua suposta “dignidade” (em que lhe é dado crédito por suas realizações). Estas coisas, porém, são uma ilu­são, pois “uma análise científica transfere para o ambiente tanto a res­ponsabilidade como a realização”. O homem deve ter a coragem de criar um ambiente ou cultura social que “adequadamente molda e mantém o comportamento daqueles que vivem nele.” Isto é essencial à sobrevivência da humanidade, o que é mais importante do que o conceito tradicional “elogioso” de nossa “liberdade e dignidade”. É certo que C. S. Lewis chamou essa transferência da liberdade e dig­nidade da pessoa para o ambiente de “a abolição do homem”. O que seria abolido, porém, é apenas o “homem autônomo. . . o homem defendido pela literatura da liberdade e dignidade”. De fato, “há muito que se sente a necessidade da sua abolição”. Olhando para o futuro, no qual o homem cria o ambiente que o controla, e assim realiza um “gigantesco exercício no controle próprio”, B. F. Skinner termina o seu livro com as palavras: “Ainda não vimos o que o homem pode fazer do homem.” É um prospecto enregelante do determinismo autodeterminado.

Contudo, o espírito humano se rebela contra ele. Certamente po­demos aceitar o conceito da “responsabilidade diminuída”, mas não a dissolução total de toda a responsabilidade, exceto em circunstâncias mais extremas. Um paralelo entre responsabilidade moral e respon­sabilidade legal a esta altura é instrutivo. Geralmente falando, a lei criminal assume que as pessoas têm o poder de escolher obedecer à lei ou quebrá-la, e trata-as de acordo. Entretanto, a responsabilidade do crime pode ser atenuada, e até mesmo excluída por certas con­dições “justificativas”. Em seus ensaios sobre a filosofia da lei inti­tulados Castigo e Responsabilidade, H. L. A. Hart define o princípio como segue: “Em todos os sistemas legais avançados, a responsabi­lidade da condenação por crimes sérios torna-se dependente, não apenas do ofensor, pelo fato de ter cometido esses atos externos proibidos pela lei, mas também pelo fato de tê-los praticado em certa estrutura mental, ou sob determinada vontade”.6 Esse estado de mente e de vontade é conhecido tecnicamente como mens rea que, embora possa ser traduzido literalmente por mente culpada, na reali­dade refere-se à “intenção” da pessoa. Por exemplo, a distinção entre o homicídio intencional e o não intencional, isto é, entre o assassínio e o homicídio não premeditado volta diretamente à lei mosaica. O prin­cípio também possui uma aplicação mais ampla. Se a pessoa comete um delito enquanto está fora de si, sob pressão ou como um autômato, não se pode estabelecer a responsabilidade criminal. A provocação pode reduzir o assassínio a homicídio não premeditado. A contestação por insanidade tem sido aceita durante anos, e tem sido interpretada desde as Regras de McNaghten de 1843 como “doença da mente”, levando a coisas como “um defeito da razão”, e que o ofensor ou não conhecia a “natureza e a qualidade do ato que estava praticando”, ou, se o conhecia, “não sabia que o que estava fazendo era errado”. Todavia, as Regras foram criticadas por se concentrarem na igno­rância do ofensor, em vez de na falta de capacidade de controle pró­prio. De forma que o Ato de Infanticídio de 1938 faz provisão para atos cometidos por uma mulher quando “o equilíbrio de sua mente foi perturbado por motivo de ela não se ter recuperado totalmente do efeito do parto. . .”, e o Ato de Homicídio de 1957 provê que uma pessoa “não será condenada por assassínio se estiver sofrendo de uma anomalia mental. . . a qual prejudicou substancialmente a res­ponsabilidade mental de seus atos. . .” Assim, também, o Parlamento Inglês decidiu que criança alguma abaixo de dez anos de idade pode ser considerada culpada de um delito, ao passo que entre as idades de dez a quatorze anos é necessário que se prove especificamente que a criança sabia que o que estava fazendo era seriamente errado.

Assim, a responsabilidade legal depende da responsabilidade men­tal e moral, isto é, da mens rea, a intenção da mente e da vontade. As objeções baseadas na falta de conscientização ou de controle, porém, sempre necessitarão de ser definidas com precisão, e constituem-se exceções. O acusado certamente não pode apelar para sua herança genética ou criação social como desculpa de um comportamento cri­minal, muito menos para a negligência pessoal (“Simplesmente não pensava no que fazia”). Não, em geral, o procedimento de julgar, condenar e sentenciar em nossos tribunais descansa sobre o conceito de que os seres humanos são livres para fazer escolhas e responsáveis pelas escolhas que fazem.

A mesma coisa acontece nas situações do dia-a-dia. Admitimos que somos condicionados por nossos genes e por nossa educação, mas o espírito humano (para não mencionar a mente cristã) protesta contra o reducionismo segundo o qual o ser humano não passa de um com­putador (programado para realizar e responder) ou um animal (à mercê de seus instintos). Contra esses conceitos apelamos ao sentido inerradicável do homem de que, dentro de limites razoáveis, somos agentes livres, capazes de tomar nossas decisões e decidir nossas próprias ações. Quando uma alternativa se nos apresenta, sabemos que somos capazes de escolher. E quando fazemos uma escolha er­rada, reprovamos a nós mesmos, porque sabemos que podíamos ter-nos comportado de modo diferente. Também agimos na assunção de que as outras pessoas são livres e responsáveis, pois tentamos persuadi-las a aceitar nossa perspectiva, e “todos nós louvamos ou culpamos as pessoas de vez em quando”.7

Acho que Sir Norman Anderson tem razão em chamar a atenção para esse senso humano de responsabilidade. Por um lado, escreve ele, podemos especular acerca da extensão a que as pessoas são “pre-condicionadas pela constituição e condição de seus cérebros, pela estrutura psicológica que herdaram ou adquiriram, pelo curso cego e inevitável da ‘natureza’ ou pela soberania de um Deus Criador, para se comportarem do modo como o fazem”. Mas, por outro lado, é possível “afirmar inequivocamente que não há motivo nenhum para supor que os homens comuns estão enganados em sua firme convic­ção de que têm, dentro de limites, uma liberdade de escolha e ação genuína, e que esta traz, necessariamente, uma medida correspon­dente de responsabilidade moral”.8

Os três contribuintes às Preleções sobre o Cristianismo Contem­porâneo de Londres, em 1982, intituladas Livres para Ser Diferentes, chegaram à mesma conclusão. O Professor Malcolm Jeeves falou e escreveu como psicólogo, o Professor Sam Berre como geneticista, e o Dr. David Atkinson como teólogo. Juntos, investigaram as influên­cias da “natureza” (nossa herança genética), da “nutrição” (nosso condicionamento social) e da “graça” (a iniciativa amorosa e trans­formadora de Deus) sobre o comportamento humano. Concordaram em que estas coisas, evidentemente, tanto amoldam como restringem o nosso comportamento. Entretanto, suas preleções foram uma re­jeição vigorosa e interdisciplinar do determinismo e uma asserção da responsabilidade humana. Embora o assunto todo seja, compreen­sivelmente, complexo, e não nos seja possível desembaraçar todos os fios, contudo os três contribuintes foram capazes de expressar esta conclusão comum:

Não somos autômatos, incapazes de fazer qualquer coisa a não ser reagir mecanicamente aos genes, ambiente ou até mesmo à graça de Deus. Somos seres pessoais criados por Deus para si mesmo. . . Além do mais, o que Deus nos deu não deve ser visto como um dom estático. Nosso ca­ráter pode ser refinado. Nosso comportamento pode mu­dar. Nossas convicções podem amadurecer. Nossas dá­divas podem ser cultivadas. . . Nós, de fato, somos livres para ser diferentes. . .9

Quando nos voltamos para a Bíblia, descobrimos a mesma tensão, da qual temos consciência em nossa experiência pessoal, entre as pressões que nos condicionam e nos controlam, e nossa responsabilidade moral permanente. A Bíblia dá ênfase à influência de nossa herança, o que somos “em Adão”. A doutrina do pecado original significa que a própria natureza que herdamos está manchada e dis­torcida pela centralidade do ego. É, portanto, de dentro do coração dos homens, ensinou Jesus, que procedem os pensamentos maus e as más ações (Marcos 7:21-23). Não é de surpreender que ele também descreveu o pecador como escravo do pecado (João 8:34). De fato, somos escravizados ao mundo (moda e opinião pública), à carne (nossa natureza caída), e ao diabo (forças demoníacas). Mesmo depois que Cristo nos liberta e nos torna seus escravos, não nos livramos inteiramente do poder insidioso de nossa queda, de modo que Paulo pode concluir seu argumento no capítulo 7 de Romanos com o se­guinte resumo: “De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente . sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado” (v. 25b).

A Escritura reconhece a sutileza e o poder dessas forças, as quais, verdadeiramente, diminuem nossa responsabilidade. E porque Deus sabe como fomos formados e se lembra de que somos pó que ele é paciente conosco, lento para irar e não nos trata como os nossos pecados merecem (Salmo 103:10, 14). Da mesma forma, o Messias de Deus é gentil com os fracos, recusando-se a quebrar a cana machucada ou apagar o pavio que fumega.10

Ao mesmo tempo, o reconhecimento bíblico de que nossa respon­sabilidade é diminuída não significa que ela tenha sido destruída. Pelo contrário, a Escritura, invariavelmente, trata-nos como agentes moralmente responsáveis. Coloca sobre nós a necessidade de escolher entre a vida e o bem, a morte e o mal, entre o Deus vivo e os ídolos.11 Exorta-nos à obediência e adverte-nos quando desobedecemos. O próprio Jesus pleiteou com a Jerusalém recalcitrante a que o reco­nhecesse e lhe desse as boas-vindas. Muitas vezes, disse ele, diri­gindo-se à cidade, em seu discurso: “Quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!” (Mateus 23:37). Assim, ele atribuiu a cegueira espiritual de Jerusalém, sua apostasia e juízo vindouro à obstinação. É verdade que ele também disse que ninguém ia a ele a não ser que o Pai o levasse, mas somente depois de haver dito que eles se recusavam a ir a ele.12 Por que é que as pessoas não vão a Cristo? Será que não podem, ou será que não o desejam? Jesus ensinou ambas as coisas. E neste “não podem” e “não desejam” está o antinômio último entre a soberania divina e a responsabilidade humana. Mas, não importa a maneira pela qual a expressemos, não devemos eliminar nenhuma das partes. Nossa responsabilidade perante Deus é um aspecto ina­lienável de nossa dignidade humana. Sua expressão final será no dia do juízo. Todas as pessoas, grandes e pequenas, sem se levar em conta sua classe social, comparecerão perante o trono de Deus, não moídas ou forçadas, a fim de receber esse derradeiro sinal de respeito pela responsabilidade humana, à medida que cada um apresenta um relato do que fez.

Emil Brunner certamente tem razão em dar ênfase à nossa respon­sabilidade como um aspecto indispensável de nossa condição de ser humano. “Hoje nosso slogan deve ser: fora com o determinismo por todos os meios! Pois torna impossível toda a compreensão do homem como homem.”13 O homem tem de ser visto como “um ser que pensa e que tem vontade” responsivo e responsável para com o seu Criador, “a contraparte criada de sua auto-existència divina”. Além do mais, essa responsabilidade humana é, em primeiro lugar, “não. . . um dever, mas um dom,. . . não lei, mas graça”. Expressa-se em “amor que crê e é responsivo”. De modo que, “a pessoa que compreendeu a natureza da responsabilidade entende a natureza do homem. A responsabilidade não é um atributo, é a ‘substância’ da existência humana. Contém tudo. . . é ela que distingue o homem das outras criaturas. . .”. Portanto, “se a responsabilidade for eliminada, todo o sentido da existência humana desaparece.”

Mas, a Queda não enfraqueceu seriamente a responsabilidade do ser humano? Já não é ele responsável por suas ações? Sim, ele é. “O homem jamais peca totalmente por causa da fraqueza, mas sempre também pelo fato de que se entrega em fraqueza. Mesmo no mais obtuso pecador há uma fagulha de decisão”, deveras uma rebelião desafiadora para com Deus. De modo que o ser humano não pode atribuir a sua responsabilidade à sua própria maldade. “Destino al­gum, constituição metafísica alguma, fraqueza alguma de sua natu­reza, mas ele mesmo, o ser humano, no centro de sua personalidade é feito responsável pelo seu pecado.”

 

A culpa falsa e a verdadeira

Se os seres humanos pecaram (o que aconteceu), e se são respon­sáveis por seus pecados (o que são), então são culpados perante Deus. A culpa é dedução lógica das premissas do pecado e responsabilidade. Erramos por nossa própria falta, e, portanto, devemos arcar com a justa penalidade de nosso erro.

É este o argumento dos primeiros capítulos da carta aos Romanos. Paulo divide a raça humana em três secções maiores, e mostra como cada uma conhece algo do seu dever moral, mas deliberadamente suprime seu conhecimento a fim de seguir o seu próprio caminho pecaminoso. Nos dizeres de João: “O julgamento é este: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más” (João 3:19). Nada é mais sério do que a rejeição deliberada da luz da verdade e bondade. Paulo inicia falando da sociedade decadente romana. O povo conheceu o poder e a glória de Deus através da criação, e sua santidade por meio da sua consciência, mas se recusaram a viver de acordo com o seu co­nhecimento. Pelo contrário, deixaram a adoração e se entregaram à idolatria. De modo que Deus os entregou à imoralidade e outras formas de comportamento anti-social (Romanos 1:18-32).

A segunda secção da humanidade a que Paulo se dirige é o mundo autojustificado, cujo conhecimento da lei de Deus pode estar nas Escrituras (os judeus) ou em seus corações (os gentios). A terceira secção é o mundo especificamente judaico, cujos membros têm or­gulho do conhecimento que possuem e da instrução moral que dão a outros. Contudo, à mesma lei que ensinam, também desobedecem. Sendo esse o estado deles, sua condição privilegiada de povo da aliança não os protegerá do juízo divino (2:17-3:20).

É esse ponto de vista um tanto mórbido? Nós, os cristãos, com freqüência temos sido criticados (não menos os cristãos evangélicos) por falarmos continuamente do pecado, por nos tornarmos obcecados com ele em nossas próprias vidas e especialmente em nossa evan­gelização, por tentarmos induzir nos outros um sentimento de culpa. Nietzsche, por exemplo, reclamava amargamente de que o “Cristia­nismo necessita de doença. . . Tornar doente é o objetivo verdadeiro e oculto de todo o sistema de procedimentos de salvação pregado pela Igreja. . . A pessoa não se ‘converte’ ao Cristianismo — ela deve estar suficientemente enferma para ele”.14 Nietzsche em parte estava certo, a saber, que o Cristianismo é remédio para os doentes do pecado. Afinal de contas, o próprio Jesus defendeu sua concentração nos publicanos e pecadores, dizendo: “Os sãos não precisam de médico, e, sim, os doentes; não vim chamar justos, e, sim, pecadores” (Marcos 2:17). Entretanto, vigorosamente negamos que o papel da igreja é “tornar” as pessoas doentes a fim de convertê-las. Pelo contrário, temos de fazê-las conscientes de sua enfermidade, a fim de que se voltem para o grande Médico.

Contudo, persiste a crítica de que os cristãos possuem uma preo­cupação doentia pelo pecado. Um porta-voz desse modo de pensar, contemporâneo e eloqüente, é o ex-correspondente para Assuntos Religiosos da BBC, Gerald Priestland. Em uma de suas palestras da série Progresso de Priestland, transmitida pelo rádio, ele contou que aos dez anos de idade pensava que o Cristianismo se ocupava do pecado, e ao chegar aos quinze estava tendo “vislumbres do abismo da de­pressão”, acompanhados de temores da vingança divina por seus “inomináveis crimes secretos”, temores que continuaram a crescer nos próximos trinta anos. O seu Cristianismo não lhe ajudou em nada. “Quando eu olhava para a cruz, e sua vítima sofredora, a única men­sagem que recebia era: Você fez isto — e não há saúde em você!” Sua conversão, equivalente à experiência na estrada de Damasco, acon­teceu finalmente no “divã do psiquiatra”, pois foi aí que ele aprendeu “o elemento que faltava do perdão”. Desde então ele confessa possuir “um nível relativamente baixo de culpa pessoal e pouco interesse pelo assunto do pecado”.

A história de Gerald Priestland não pára aí, mas esse trecho é ilustração suficiente do grave dano que meias-verdades podem cau­sar. Como poderia alguém imaginar que o Cristianismo se ocupa do pecado em vez do perdão de pecados? Como pode alguém olhar para a cruz e ver somente a vergonha do que fizemos a Cristo, em vez da glória do que ele fez por nós? O filho pródigo teve de “cair em si” (reconhecer a centralidade do seu ego) antes que pudesse “vir a seu pai”. Foi necessária a humilhação da penitência, antes da alegria da reconciliação. Não teria havido anel, veste, beijo, festa se ele tivesse permanecido no país distante, ou retornado impenitente. Uma cons­ciência culpada será uma grande bênção somente se nos forçar a voltar para casa.

Não quero dizer com isto que a nossa consciência seja um guia de confiança. Há a consciência mórbida, exageradamente escrupulosa, e procurar deliberadamente criar uma desse tipo seria daninho. Entre­tanto, nem todos os sentimentos de culpa são patológicos. Pelo con­trário, os que se declaram sem pecado e sem culpa sofrem de uma doença ainda pior. Pois manipular, sufocar e até mesmo “cauterizar” a consciência (1 Timóteo 4:2) a fim de escapar à dor das suas acusa­ções, nos deixa impérvios à nossa necessidade de salvação.

Será, pois, saudável ou doentio insistir na gravidade do pecado e na necessidade da expiação? considerar as pessoas responsáveis por suas ações? adverti-las do perigo do juízo divino? e instar com elas a que confessem os seus pecados, se arrependam e se voltem para Cristo? É sadio. Pois se há uma “culpa falsa” (o sentimento mau acerca da maldade que não cometemos), há também uma “inocência falsa” (o sentimento bom acerca do mal que cometemos). Se a contrição falsa é doentia (um chorar infundado por causa da culpa), também o é a segurança falsa (um alegrar-se infundado por causa do perdão). Por­tanto, pode ser que não somos nós quem está exagerando quando acentuamos a seriedade do pecado. São nossos críticos que a subes­timam. Deus disse a respeito dos falsos profetas nos dias do Antigo Testamento: “Curam superficialmente a ferida do meu povo, dizendo: Paz, paz; quando não há paz” (Jeremias 6:14; 8:11). Remédios super­ficiais são sempre o resultado de um diagnóstico falho. Aqueles que os prescrevem são vítimas do espírito enganoso do modernismo, o qual nega a gravidade do pecado. Contudo, fazer um diagnóstico correto de nossa condição, por mais grave que ela seja, jamais seria doentio; contanto que vamos imediatamente ao remédio.15 De modo que a lei que nos condena é, entretanto, a boa dádiva de Deus, porque ela nos remete a Cristo a fim de sermos justificados. E o Espírito Santo veio convencer “o mundo do pecado”, mas somente para que pu­desse, com mais eficácia, dar testemunho de Cristo como o Salvador da culpa (João 16:8; 15:26-27). Não há alegria que se compare com o gozo dos perdoados.

É aqui que erram alguns psicólogos e psiquiatras norte-americanos de nossos dias, pois andam apenas metade do caminho. Começam de maneira correta, contudo, mesmo alguns que não professam a fé cristã, pois insistem em que devemos levar a sério o pecado, a res­ponsabilidade e a culpa. Esse é, certamente, um grande ganho, mas diagnosticar corretamente sem a capacidade de prescrever correta­mente é abraçar uma meia-medida decepcionante e perigosa.

O Dr. Hobart Mowrer, que foi Professor de Pesquisa da Psicologia na Universidade de Illinois, ao publicar a sua crítica da psicanálise freudiana, rejeitou a noção de que a “psiconeurose não implica res­ponsabilidade moral”. Pois “enquanto negamos a realidade do pe­cado, separamos a nós mesmos. . . da possibilidade de uma redenção (“recuperação”) radical”. O Dr Mowrer, usando a palavra “pecado”, criou grande rebuliço no seu campo profissional. Mas ele persistiu a ensinar o fato do pecado e a necessidade do seu reconhecimento.

Enquanto a pessoa viver à sombra da culpa real, irreco­nhecida e inexpiada, ela não pode. . . “aceitar a si mesma”. . . Ela continuará a odiar a si mesma e a sofrer as conseqüências inevitáveis do ódio próprio. Mas, no mo­mento em que ela. . . começa a aceitar a sua culpa e a sua pecaminosidade, abre-se à possibilidade de reforma radi­cal, e com ela. . . uma nova liberdade de auto-respeito e paz.

Alguns anos mais tarde, rebelando-se também contra a insistência freudiana de que a culpa é patológica, o Dr. William Glasser começou, em Los Angeles, a desenvolver uma aproximação diferente no tra­tamento de delinqüentes juvenis, a qual ele chamou de “Terapia da Realidade”. Sua tese era que a pessoa “incapaz de cumprir suas ne­cessidades essenciais”, especialmente as de amor e valor próprio, nega a realidade do mundo que a cerca e age de maneira irresponsável. De forma que o terapeuta procura “fazer que ela encare uma verdade que passou a vida tentando evitar: ela ê responsável por seu comportamento.16 O Dr. Mowrer, no prefácio do seu livro, resume a essência do método terapêutico do Dr. Glasser como “uma versão psiquiátrica que trata da realidade, responsabilidade e do certo e errado”.

Similarmente, “o pecado deve ser resolvido nos tribunais privados do coração humano”, escreve Karl Menninger.17 Não discordamos. Mas como? Especialmente, prossegue ele, por meio do “arrependi­mento, da reparação, da restituição e da expiação”. Neste ponto Karl Menninger trai sua compreensão muito parcial do evangelho. Pois essas quatro palavras não podem ser unidas deste modo. As três primeiras, de fato, podem ir juntas. Tanto a reparação (uma palavra geral que significa consertar alguma coisa) como a restituição (a res­tauração mais particular do que foi roubado) são necessárias na re­presentação da genuinidade do arrependimento. Mas “expiação” não é algo que possamos fazer; somente Deus pode expiar nossos pecados, e, em realidade, ele o fez por meio de Cristo.

É verdade que o Dr. Menninger menciona o perdão de Deus uma ou duas vezes (embora sem nenhuma base na cruz de Cristo). O Dr. Hobart Mowrer, entretanto, evita cuidadosamente tanto a palavra quanto o conceito. A semelhança de Karl Menninger, ele concentra seus esforços no reconhecimento das faltas e na restituição. Ele chama os seus grupos terapêuticos de “grupos de integridade”, porque o seu fundamento é a integridade pessoal no reconhecimento do erro. A iniciação a um grupo é feita por meio de uma “auto-revelação completa e não qualificada” a que ele chama de exomologesis. Quando, durante uma conversa pessoal com o Dr. Mowrer na Universidade de Illinois em 1970, mencionei que exomologesis é a palavra grega para “confissão”, e que na tradição cristã o propósito da confissão é receber o perdão da pessoa ofendida, ele imediatamente respondeu: “Oh, jamais falamos acerca do perdão.” O conceito que ele tem do pecado é que em cada caso é a quebra de uma obrigação contratual pela qual a pessoa culpada deve fazer restituição. O perdão é, pois, desnecessário, tanto da parte da pessoa ofendida como até mesmo da parte de Deus.

Embora, como tem sido ressaltado, o Dr. Menninger não partilhe a inibição do Dr. Mowrer acerca da menção do pecado, contudo ne­nhum deles jamais se refere à cruz, muito menos a vê como o único e suficiente fundamento sobre o qual Deus perdoa pecados. Recobrar os conceitos do pecado humano, responsabilidade, culpa e restituição, sem simultaneamente readquirir a confiança na obra divina da expia­ção, é um desequilíbrio trágico. É um diagnóstico sem a receita, a futilidade da auto-salvação em lugar da salvação de Deus, e o des­pertar da esperança apenas para de novo esmagá-la no chão. Um reconhecimento completo da responsabilidade humana e, portanto, da culpa, longe de diminuir a dignidade dos seres humanos, na realidade a aumenta. Pressupõe que os homens, diferentes dos animais, são seres moralmente responsáveis, que sabem o que são, podiam ser e deviam ser, e não se desculpam por sua medíocre per­formance. Essa é a tese de Harvey Cox em um dos seus livros. O pecado de Eva no jardim do Éden, insiste ele, não foi tanto a sua desobediência ao comer do fruto proibido, mas sua fraca entrega da responsabilidade que o precedeu, não o seu orgulho mas a sua pre­guiça. Embora o Dr. Cox certamente esteja enganado em sua recusa de aceitar a visão bíblica do pecado como sendo em essência o orgulho, e esteja manchado com o falso conceito do “homem emancipado”, contudo, faz uma observação importante quando diz que a “apatia é a forrna-chave do pecado no mundo de hoje. . . Pois, quanto a Adão e Eva a apatia significava permitir que a serpente lhes dissesse o que fazer. Significava abdicar. . . o exercício do domínio e controle do mundo”. O tomar decisões, porém, encontra-se na essência de nossa humanidade. Pecado não somente é a tentativa de sermos Deus, mas também a recusa de sermos homem, afastando, assim, a responsa­bilidade de nossas ações. “Não vamos deixar que nenhuma serpente nos diga o que fazer”. A defesa mais comum dos criminosos de guerra nazistas foi que estavam meramente cumprindo ordens. Apesar disso, o tribunal os declarou culpados.

A Bíblia leva o pecado a sério porque leva o homem a sério. Como vimos, os cristãos não negam o fato — em algumas circunstâncias — da responsabilidade diminuída, mas afirmamos que a responsabili­dade diminuída sempre resulta em humanidade diminuída. Dizer que alguém “não é responsável por suas ações” é rebaixá-lo como ser humano. Faz parte da glória de ser humano o fato de sermos res­ponsáveis por nossas ações. Então, quando reconhecemos nosso pe­cado e culpa, recebemos o perdão de Deus, entramos na alegria da sua salvação, e, assim, nos tornamos ainda mais completamente hu­manos e saudáveis. Doentio é o espojar-se na culpa que não leva à confissão, ao arrependimento, à fé em Jesus Cristo e ao perdão.

Em seu famoso ensaio intitulado “A Teoria Humanitária do Cas­tigo” C. S. Lewis lamenta a tendência moderna de abandonar a noção da justa retribuição e substituí-la por interesses humanitários tanto pelo criminoso (reforma) como pela sociedade como um todo (freio). Pois isso significa, argumenta ele, que cada infrator da lei “fica privado de seus direitos como ser humano. Esta é a razão. A teoria humanitária remove do castigo o conceito do merecimento. Mas o conceito do merecimento é o único elo de ligação entre o castigo e a justiça. É somente na base do merecimento ou da falta dele que uma sentença pode ser justa ou injusta”. Novamente, “quando paramos de considerar o que o criminoso merece e consideramos somente o que o pode curar ou deter a outros, tacitamente o retiramos por completo da esfera da justiça; em vez de uma pessoa, um indivíduo com direitos, agora temos um mero objeto, um paciente, um ‘caso’.” Com que direito podemos usar a força a fim de impor o tratamento a um criminoso, ou a fim de curá-lo ou de proteger a sociedade, a menos que ele o mereça?

Sermos “curados” contra a nossa vontade, e curados de estados aos quais podemos não perceber como enfermi­dade, é sermos colocados no mesmo nível dos que ainda não atingiram a idade da razão e dos que jamais a atingirão; é sermos classificados como infantes, imbecis e animais domésticos. Mas sermos castigados, ainda que severa­mente, porque o merecemos, porque “não devíamos ter errado”, é sermos tratados como uma pessoa humana criada à imagem de Deus.18

 

A santidade e a ira de Deus

Examinamos a seriedade do pecado como rebeldia contra Deus, a responsabilidade contínua dos homens por suas ações, e sua culpa subseqüente à vista de Deus e a responsabilidade do castigo. Mas podemos pensar que Deus “pune” ou “julga” o mal? Sim, podemos e devemos. Deveras, o pano de fundo essencial da cruz não é somente o pecado, a responsabilidade e a culpa dos seres humanos, mas tam­bém a justa reação de Deus a essas coisas, em outras palavras, sua santidade e ira.

A santidade de Deus é o fundamento da religião bíblica. Também o é o corolário de que o pecado é incompatível com a sua santidade. Os olhos dele são puros demais para contemplar o mal e ele não pode tolerar o erro. Portanto, os nossos pecados eficazmente nos separam dele, de modo que o seu rosto está escondido de nós e ele se recusa a ouvir as nossas orações.19 Em conseqüência, os autores bíblicos entendiam claramente que ser humano algum jamais poderia ver a Deus e sobreviver. Pode ser que lhes fosse permitido ver as suas “costas” mas não o seu “rosto”, o brilho do sol, mas não o Sol.20 E todos aqueles que receberam até mesmo um vislumbre da glória divina não conseguiram suportar a visão. Moisés escondeu o rosto porque estava com medo de olhar para Deus. Quando Isaías teve a sua visão de Yavé entronizado e exaltado, foi vencido pelo senso de sua im­pureza. Quando Deus se revelou pessoalmente a Jó, a reação deste foi desprezar a si mesmo e arrepender-se na cinza e no pó. Ezequiel viu somente a aparência da semelhança da glória do Senhor, em chama ardente e luz brilhante, mas foi suficiente para que ele caísse prostrado ao chão. Em uma visão similar, Daniel também caiu com o rosto ao chão e desmaiou. Quanto àqueles que foram confrontados pelo Senhor Jesus Cristo, até mesmo durante a sua vida terrena, quando a sua glória estava velada, sentiram um profundo incômodo. Por exemplo, em Pedro ele provocou um senso de sua pecaminosi­dade e indignidade de estar na presença do Senhor. E quando João viu a elevada magnificência do Senhor, caiu a seus pés como morto.21

Intimamente relacionada com a santidade de Deus está a sua ira, a qual é, de fato, sua reação santa ao mal. Certamente não podemos descartá-la dizendo que o Deus de ira pertence ao Antigo Testamento, ao passo que o Deus do Novo é amor. Pois o amor de Deus claramente se manifesta no Antigo Testamento, como também a sua ira no Novo. R. V. G. Tasker escreveu, com acerto: “É um axioma bíblico não haver incompatibilidade entre estes dois atributos da divina natureza; e, em sua maioria, os grandes teólogos e pregadores cristãos do passado esforçaram-se para ser leais a ambos os lados da auto-revelação di­vina.”22 Contudo, o conceito de um Deus irado continua a levantar problemas na mente dos cristãos. Como pode uma emoção, pergun­tam, a qual Jesus equiparou ao assassínio, e a qual Paulo declarou ser um dos “atos da natureza pecaminosa”, e da qual devemos nos livrar, ser atribuída ao Deus todo-santo?23

Uma tentativa de explicação associa-se especialmente com o nome de C. H. Dodd, e com o seu comentário sobre a Epístola de Paulo aos Romanos. Ele ressalta que, embora ao lado das referências que Paulo faz ao amor de Deus ele também tenha escrito que Deus nos amou, contudo, ao lado das referências à ira divina ele jamais escreve que Deus está irado contra nós. Além da ausência do verbo “irar”, Paulo constantemente usa o substantivo orge (ira ou raiva) “de um modo curiosamente impessoal”. Ele se refere à “ira” sem especificar de quem ela é, e assim, quase a torna absoluta. Por exemplo, ele escreve do dia da ira de Deus, ou como a lei traz a ira, e de como a ira desceu sobre os judeus incrédulos, ao passo que os crentes foram salvos da ira vindoura através de Jesus Cristo.24 A dedução que Dodd faz dessa evidência é que Paulo reteve o conceito da ira “não com a finalidade de descrever a atitude de Deus para com o homem, mas a fim de descrever um processo inevitável de causa-efeito sobre um Universo moral”.

O Professor A. T. Hanson elaborou a tese de C. H. Dodd em uma de suas pesquisas bíblicas. Chamando a atenção para uma “marcante tendência” entre os autores bíblicos pós-exílicos de “falar da ira divina de maneira muito impessoal”, ele a define como o “processo inevitável de o pecado solucionar-se por si mesmo na história”. Indo ao Novo Testamento, escreve ele: “não pode haver dúvida de que para Paulo o caráter impessoal da ira era importante; liberava-o da necessidade de atribuir ira diretamente a Deus, transformava a ira de atributo divino em nome de um processo, o qual os pecadores trazem sobre si mesmos”. Porque a ira é “totalmente impessoal” e “não descreve uma atitude de Deus, mas uma condição dos homens”.

A expressão “liberava-o da necessidade” é reveladora. Sugere que Paulo sentia-se incomodado com a noção da ira pessoal de Deus, procurava escapar de ter de crer nela e ensiná-la, e foi liberto do seu fardo ao descobrir que a ira não era uma emoção divina, atributo ou atitude, mas um processo histórico impessoal que afetava os peca­dores. Nessa questão, parece que o Professor Hanson está projetando sobre Paulo o seu próprio dilema, pois é franco o suficiente ao ponto de confessar que também tem um problema desses. Para o final do seu argumento, ele escreve: “Uma vez que nos permitamos ser le­vados a pensar que a referência à ira de Deus no Novo Testamento significa que a sua concepção é a de um Deus irado. . . não podemos deixar de manter que em algum sentido o Filho suportou a ira do Pai, não podemos deixar de pensar em termos forenses, com toda a tensão e violência ao nosso senso de justiça moral dado por Deus que tal teoria envolve”. Ele parece estar dizendo que é a fim de vencer essas “apavorantes dificuldades” que reinterpretou a ira de Deus. Dizer que Cristo levou a “ira” sobre a cruz, mantém Hanson, significa que ele “suportou as conseqüências dos pecados dos homens”, não a sua penalidade.

Portanto, devemos tomar cuidado com nossas pressuposições. É perigoso começar com qualquer condição a priori, até mesmo com um “senso de justiça moral dado por Deus”, o qual então molda nossa compreensão da cruz. É mais prudente e seguro começar indutiva­mente com uma doutrina da cruz dada por Deus, a qual então molda nossa compreensão da justiça moral. Mais tarde espero demonstrar que é possível manter um conceito bíblico e cristão da “ira” e da “propiciação” que, longe de contradizer a justiça moral, expressa-a e a protege.

As tentativas que C. H. Dodd, A. T. Hanson e outros fizeram de reconstruir a “ira” como um processo impessoal devem ser consi­deradas, no mínimo, não provadas. É certo que às vezes a palavra é usada sem referência explícita a Deus, e com ou sem o artigo definido, mas a frase completa “a ira de Deus” também é usada, aparentemente sem embaraço algum, tanto por Paulo como por João. Sem dúvida, Paulo também ensinou que a ira de Deus estava sendo revelada no presente através da deterioração moral da sociedade pagã e por meio da administração da justiça estatal.25 Todavia, estes processos não são identificados com a ira de Deus, mas tidos como manifestações dela.

A verdade de que a ira de Deus (isto é, seu antagonismo ao mal) está ativa através dos processos sociais e legais não leva à conclusão de que ela é, em si mesma, um contínuo puramente impessoal de causa-e-efeito. Talvez o motivo de Paulo ter adotado expressões impessoais não seja a fim de afirmar que Deus jamais se enraivece, mas enfatizar que sua ira não possui nenhum matiz de malícia pessoal. Afinal, Paulo às vezes menciona charis (graça) sem se referir a Deus. Ele pode es­crever, por exemplo, do aumento da graça e do reino da graça (Ro­manos 5:20, 21). Contudo, por esse motivo não despersonalizamos a graça nem a convertemos numa influência ou processo. Pelo contrário, graça é a palavra mais poderosa de todas; graça é o próprio Deus agindo graciosamente para conosco. E assim como charis representa a atividade pessoal graciosa do próprio Deus, da mesma forma orge representa sua hostilidade à impiedade, igualmente pessoal.

Como, pois, definiremos a ira? Escrevendo a respeito da ira hu­mana, James Denney chamou-a de “o ressentimento ou a reação ins­tintiva da alma a tudo o que percebe como errado ou prejudicial”, e “a repulsão veemente daquilo que fere”.26 De maneira similar, a ira de Deus, nas palavras de Leon Morris, é sua “revulsão pessoal e divina ao mal” e sua “oposição pessoal e vigorosa” a ele.27 Referir-se desta forma à ira de Deus, é fazer uso de um antropormofismo le­gítimo, desde que o consideremos apenas como um tosco e fácil pa­ralelo, visto que a ira de Deus é absolutamente pura e não con­taminada pelos elementos que tornam pecaminosa a ira humana. A ira humana em geral é arbitrária e desinibida; a ira divina é sempre íntegra e controlada. Nossa ira tende a ser uma explosão espasmódica, despertada por melindres e desejos de vingança; a de Deus é um antagonismo contínuo e constante, despertado somente pelo mal, e expresso na condenação dele. Deus é totalmente livre de animosidade ou sentimentos de vingança pessoal; de fato, ele é alimentado si­multaneamente pelo amor constante ao ofensor. O resumo de Charles Cranfaeld é que a orge de Deus não é nenhum “pesadelo de uma fúria indiscriminada, descontrolada e irracional, mas a ira de um Deus santo e misericordioso trazida para fora pela asebeia (impureza) e adikia (in­justiça) dos homens e contra elas dirigida”.28

O fator comum aos conceitos bíblicos da santidade e da ira de Deus é a verdade de que não podem coexistir com o pecado. A santidade de Deus expõe o pecado, e a sua ira se opõe a ele. De forma que o pecado não pode chegar-se a Deus, e Deus não pode tolerar o pecado. A Escritura usa diversas metáforas vividas como ilustração desse fato voluntarioso.

A primeira é a altura. Freqüentemente, na Bíblia, o Deus da criação e da aliança é chamado de o “Deus Altíssimo”, e vários salmos o apresentam como o “Senhor Altíssimo”.29 Sua elevada exaltação ex­pressa tanto a sua soberania sobre as nações, a terra e todos os deuses,30 como sua irtacessibilidade aos pecadores. É verdade que o seu trono é chamado de “trono da graça”, e é rodeado pelo arco-íris da promessa da aliança. Entretanto, é o “Alto, o Sublime” e ele próprio é o “alto e exaltado”, que não habita em casas feitas por mãos hu­manas, visto que o céu é o seu trono e a terra o estrado dos seus pés; de modo que os pecadores não tomem a liberdade de chegar-se a ele.31 É verdade, repito, que ele desce até o contrito e humilde, que encontra segurança em sua sombra. Os pecadores orgulhosos, porém, ele os conhece apenas de longe, e não pode suportar o orgulho e a altivez dos olhos dos arrogantes.32

A “alta” exaltação de Deus não é literal, é claro, e jamais deve ser tomada como tal. O recente clamor acerca de abandonar um Deus “lá em cima” foi em grande parte supérfluo. Os escritores bíblicos usaram a altura como um símbolo da transcendência, assim como nós o fa­zemos. É mais expressiva do que profundeza. “O Fundamento do Ser” pode falar da realidade última a algumas pessoas, mas “o Alto e Sublime” transmite mais explicitamente a singularidade divina. Quando pensarmos no Deus grande e vivente, é melhor olharmos para cima do que para baixo, e para fora do que para dentro de nós mesmos.

O segundo quadro é de distância. Deus não apenas está alto acima de nós, mas também “longe de nós”. Não ousamos chegar perto demais. De fato, muitos são os mandamentos bíblicos a que mante­nhamos nossa distância. “Não te chegues para cá”, disse Deus a Moisés, da sarça ardente. De modo que as preparações para o culto de Israel expressavam as verdades contemporâneas da proximidade de Deus ao povo por causa da sua aliança e da separação que mantinha para com eles em virtude de sua santidade. Mesmo quando desceu até o povo no monte Sinai a fim de revelar-se, Deus disse a Moisés que colocasse limites para o povo ao redor da base da montanha e instasse com eles a que não chegassem perto. Da mesma forma, quando Deus deu instruções para a construção do tabernáculo (mais tarde do templo), prometeu viver entre o seu povo e ao mesmo tempo admoestou-os a erigir uma cortina no Santo dos Santos como um sinal permanente de que ele estava fora de alcance dos pecadores. Ninguém tinha permissão de penetrar no véu, sob pena de morte, exceto o sumo sacerdote, e ainda este, apenas uma vez por ano no dia da Expiação, e então só se levasse consigo o sangue do sacrifício.33 E quando os israelitas estavam para cruzar o Jordão e entrar na Terra Prometida, receberam este mandamento preciso: “Haja a distância de cerca de dois mil côvados entre vós e ela (a arca). Não vos chegueis a ela” (Josué 3:4). É contra o pano de fundo desse ensino claro acerca da santidade de Deus e acerca dos perigos da presunção que se deve compreender a história da morte de Uzá. Quando os bois que levavam a arca tropeçaram, ele estendeu a mão e a segurou. “Então a ira do Senhor se acendeu contra Uzá, e Deus o feriu ali por esta irreverên­cia”,34 e ele morreu. Alguns comentaristas têm a tendência de pro­testar que essa “primitiva” compreensão do Antigo Testamento da ira de Deus é “fundamentalmente uma coisa irracional e, em última análise, inexplicável, que irrompeu com força enigmática, misteriosa e primeva” e que chegou bem perto do “capricho”.35 Mas não, nada há de inexplicável acerca da ira de Deus: sua explicação é sempre a presença do mal de uma forma ou de outra. Os pecadores não podem chegar-se ao todo-santo Deus sem impunidade. No último dia, os que não encontraram refúgio e purificação em Cristo ouvirão as pa­lavras mais terríveis de todas: “Apartai-vos de mim”.36

O terceiro e quarto quadros da inacessibilidade do Deus santo aos pecadores são os de luz e fogo: “Deus é luz”, e “nosso Deus é fogo consumidor”. Ambos desanimam, de fato inibem, uma aproximação. A luz brilhante cega; nossos olhos não podem suportar o seu brilho, e no calor do fogo tudo murcha e morre. De modo que Deus “habita em luz inacessível”; “homem algum jamais viu, nem é capaz de ver”. E aqueles que deliberadamente rejeitam a verdade têm “certa expec­tação horrível de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adver­sários. . . Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo.”37

A quinta metáfora é a mais dramática de todas. Indica que o santo Deus rejeita o mal tão decisivamente quanto o corpo humano rejeita o veneno mediante o vômito. O vômito é, provavelmente, a reação mais violenta do corpo humano. As práticas imorais e idolatras dos cananeus eram tão repulsivas, como está escrito, que a terra “vomitou os seus moradores”, e os israelitas foram prevenidos de que se co­metessem as mesmas ofensas, a terra os vomitaria também. Além do mais, o que se afirma ser o repúdio do mal da parte da terra na realidade o é da parte do Senhor. Pois no mesmo contexto declara-se que ele “se aborreceu” dos cananeus por causa de suas atividades ímpias. Usa-se a mesma palavra hebraica com relação à desobediência voluntariosa de Israel no deserto: “Durante quarenta anos estive des­gostado com essa geração”. Aqui também é provável que o verbo se refira ao alimento nauseante, como na afirmativa: “Nossa alma tem fastio deste pão vil”. Nossa criação delicada pode achar que esta metáfora natural seja embaraçosa. Contudo, ela continua no Novo Testamento. Quando Jesus ameaça “vomitar” os membros da igreja de Laodicéia por serem mornos, é justamente isso que o verbo grego significa (emeo). O quadro pode ser chocante, mas seu significado é claro. Deus não pode tolerar ou “digerir” pecado e hipocrisia. Não lhe causam meramente dissabor, mas também desgosto, São-Ihe tão repugnantes que deve livrar-se deles. Deve cuspi-los ou vomitá-los.38

As cinco metáforas exemplificam a incompatibilidade total da san­tidade divina com o pecado humano. Altura e distância, luz, fogo e vômito, tudo diz que Deus não pode estar na presença do pecado, e que se este chegar-se a ele é repudiado e consumido.

Contudo, essas noções são estranhas ao homem moderno. O tipo de Deus que agrada à maioria das pessoas hoje teria uma disposição fácil quanto à tolerância de nossas ofensas. Ele seria amável, gentil, acomodatício, e não possuiria nenhuma reação violenta. Infelizmente, até mesmo na igreja parece que perdemos a visão da majestade de Deus. Há tanta superficialidade e frivolidade entre nós. Os profetas e os salmistas provavelmente diriam de nós que não temos o temor de Deus perante nossos olhos. Na adoração pública nosso hábito é nos sentarmos de qualquer modo; não ajoelhamos hoje em dia, muito menos nos prostramos em humildade na presença de Deus. É mais provável que batamos palmas de alegria do que nos enrubesçamos de vergonha ou lágrimas. Vamos ã presença de Deus a fim de rei­vindicar seu patrocínio e amizade; não nos ocorre que ele pode nos mandar embora. Precisamos ouvir novamente as palavras ajuizadas do apóstolo Pedro: “Se invocais como Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo as obras de cada um, portai-vos com temor durante o tempo da vossa peregrinação”39. Em outras palavras, se ousamos chamar nosso Juiz de Pai, devemos livrar-nos da presunção. É preciso dizer que nossa ênfase evangélica na expiação é perigosa se chegamos a ela rápido demais. Só aprendemos a apreciar o acesso a Deus que Cristo ganhou para nós depois de primeiro termos visto a inacessíbilidade de Deus aos pecadores. Só podemos gritar “Aleluia” com autenticidade depois que primeiro tivermos clamado: “Ai de mim, estou perdido”. Nas palavras de Dale: “é em parte porque o pecado não provoca nossa própria ira, que não cremos que ele pro­voque a ira de Deus”.40

Devemos, portanto, apegar-nos à revelação bíblica do Deus vivente que odeia o mal, desgosta-se e se ira com ele, e recusa-se a aceitá-lo. Em conseqüência, devemos estar seguros de que, quando ele pro­curou em sua misericórdia uma maneira de perdoar, purificar e aceitar os malfeitores, não foi ao longo do caminho do comprometimento moral. Tinha de ser um modo que expressasse igualmente seu amor e sua ira. Como o disse Brunner: “onde se ignora a idéia da ira de Deus, aí também não haverá compreensão do conceito central do evangelho: a singularidade da revelação no Mediador.”41 De igual forma, “somente aquele que conhece a grandeza da ira será dominado pela grandeza da misericórdia”.42

Todas as doutrinas inadequadas acerca da expiação advêm das dou­trinas inadequadas de Deus e do homem. Se trouxermos Deus para o nosso nível e nos elevarmos ao dele, então, é claro, não veremos necessidade de uma salvação radical, muito menos de uma expiação radical que a garanta. Quando, por outro lado, tivermos um vislumbre da deslumbrante glória da santidade divina, e formos convencidos de nosso pecado pelo Espírito Santo de tal modo que tremamos na pre­sença de Deus e reconheçamos o que somos, a saber, pecadores que merecem ir para o inferno, então, e somente então a necessidade da cruz ficará tão óbvia que nos espantaremos de jamais tê-la visto antes.

O pano de fundo essencial da cruz, portanto, é uma compreensão equilibrada da gravidade do pecado e da majestade de Deus. Se di­minuirmos uma delas, diminuímos a cruz. Se reinterpretarmos o pe­cado como lapso em vez de rebeldia, e Deus como indulgente em vez de indignado, então naturalmente a cruz parecerá supérflua. Mas destronar a Deus e entronizar a nós mesmos não somente desfaz a necessidade da cruz, também degrada a Deus e ao homem. Uma perspectiva bíblica de Deus e de nós mesmos, entretanto, isto é, de nosso pecado e da ira divina, honra a ambos. Honra aos seres hu­manos afirmando que são responsáveis por suas ações. Honra a Deus afirmando que ele possui caráter moral.

De modo que voltamos ao ponto em que começamos este capítulo, a saber, que o perdão é o problema mais profundo de Deus. Como o expressou B. F. Westcott: “superficialmente nada parece mais sim­ples do que o pecado”, ao passo que “se examinarmos mais profun­damente nada é mais misterioso e mais difícil”.43 O pecado e a ira estão no caminho. Deus não somente deve respeitar-nos como os seres responsáveis que somos, mas também deve respeitar-se a si mesmo como o Deus santo que ele é. Antes que o Deus santo nos possa perdoar, é preciso alguma espécie de “satisfação”. Esse é o assunto do próximo capítulo.

5
Satisfação pelo Pecado

 

Palavra alguma, no vocabulário da cruz, desperta mais crítica do que “substituição” e “satisfação”. Contudo, é em defesa dessas palavras que escrevi este e o pró­ximo capítulo. Combinadas (“satisfação mediante a substituição”) podem ser até intoleráveis. Como, per­guntam, podemos crer que Deus precisava de alguma espécie de “satisfação” a fim de se preparar para perdoar, e que Jesus Cristo a providenciou levando, como nosso substituto, o castigo que nós, pe­cadores, merecíamos? Não são essas noções indignas do Deus da revelação bíblica, um resquício de primitivas superstições, de fato, francamente imorais?

Sir Alister Hardy, por exemplo, ex-professor de Zoologia em Ox­ford, amigo de todos os tipos de experiências religiosas, pois gastou a vida investigando-as, expressou, contudo, sua inabilidade de aceitar as rudes crenças que, pensava ele, “tantos clérigos ortodoxos man­têm”. Em suas Preleções Gifford de 1965, publicadas sob o título de A Chama Divina, ele pergunta se o próprio Jesus, se vivesse hoje, seria cristão. “Duvido muito”, respondeu Sir Alister. “Sinto-me seguro de que ele não teria pregado um Deus que seria apaziguado pelo cruel sacrifício de um corpo torturado. . . Não posso aceitar nem a hipótese de que a perturbadora morte de Jesus foi um sacrifício aos olhos de Deus pelos pecados do mundo, nem que Deus, na forma de seu filho, torturou a si mesmo por nossa redenção. Somente posso confessar que, no íntimo do meu coração, acho que tais idéias religiosas estão entre as menos atraentes de toda a antropologia. Em meu entender, pertencem a uma filosofia muito diferente — diferente psicologia — daquela da religião ensinada por Jesus.”

Sir Alister Hardy tinha razão em dizer que Jesus não explicaria (porque não o fez) a sua morte nesses termos rudes, mas estava errado em supor que “muitos clérigos ortodoxos” o fazem. Ele fez uma ca­ricatura da compreensão que o cristão tem da cruz a fim de mais prontamente condená-la. A verdadeira questão é se podemos nos apegar à eficácia salvadora da morte de Jesus, e a seu vocabulário tradicional (incluindo-se “satisfação” e “substituição”), sem denegrir a Deus. Creio que podemos e devemos. É certo que nem a “satisfação” nem a “substituição” são palavras bíblicas, e, por isso, temos de prosseguir com grande cautela. Mas cada uma delas representa um conceito bíblico. Há, de fato, uma revelação bíblica da “satisfação através da substituição”, a qual é singularmente honrosa para Deus, e que, portanto, poderia estar no próprio coração da adoração e tes­temunho da igreja. É por isso que Cranmer incluiu uma afirmativa a esse respeito no início de sua Súplica de Consagração (1549). Como conseqüência, durante 400 anos os anglicanos têm descrito a Jesus Cristo como tendo feito na cruz, pela “oblação de si mesmo uma vez oferecida”, “um sacrifício completo, perfeito e suficiente, oblação e satisfação pelos pecados do mundo todo”.

Mas o modo pelo qual diferentes teólogos desenvolveram o conceito da satisfação depende da sua compreensão dos obstáculos ao perdão, os quais primeiro necessitam ser removidos. Que exigências estão sendo feitas, as quais se constituem obstáculos até que sejam cum­pridas? E quem as está fazendo? É o diabo? Ou é a lei, ou a honra ou a justiça de Deus, ou “a ordem moral”? Todas essas coisas têm sido propostas. Argumentarei, contudo, que o “obstáculo” primário encontra-se no próprio Deus. Ele deve “satisfazer-se a si mesmo” pelo modo de salvação que cria; ele não pode nos salvar contradi­zendo-se a si mesmo.

 

Satisfazendo ao diabo

A noção de que foi o diabo que tornou a cruz necessária era geral na igreja primitiva.1 E certo que Jesus e seus apóstolos falaram acerca da cruz como um meio da derrota do diabo (como examinaremos em capítulo posterior). Mas alguns dos Pais primitivos foram extrema­mente imprudentes em seus modos de representar tanto o poder do diabo como a maneira pela qual a cruz o privou desse poder. Todos eles reconheciam que desde a Queda, e por causa dela, a humanidade esteve cativa não somente ao pecado e à culpa, mas também ao diabo. Pensavam nele como o senhor do pecado e da morte, e como o maior tirano de quem Jesus nos veio libertar.

Mas, tendo o benefício do passado, podemos dizer que cometeram três erros. Primeiro, concederam ao diabo mais poder do que ele possui. Embora o tenham retratado como rebelde, ladrão e usurpador, tiveram a tendência de falar como se ele tivesse adquirido certos “direitos” sobre o homem, os quais até o próprio Deus era obrigado a satisfazer de modo honrável. Gregório de Nazianzus, no quarto século, foi um dos poucos teólogos primitivos que vigorosamente repudiaram essa idéia. Ele a chamou de “ultraje”.2

Segundo, por causa dessa idéia tendiam a pensar na cruz como uma transação divina com o diabo; ela era o preço do resgate exigido pelo diabo. Este, mediante o que lhe seria pago de acordo com seus direitos, libertaria os seus cativos. Essa foi uma crença muito popular nos primeiros séculos da igreja.

Terceiro, alguns foram além e representaram a transação em termos de um embuste. Teologicamente, faziam um quadro do diabo como tendo ido longe demais. Embora em nosso caso, pecadores, ele tenha “o poder da morte” (Hebreus 2:14), ele não mantinha autoridade nenhuma sobre Jesus, que era sem pecado, e ao levá-lo à morte, derramou sangue inocente. Portanto, tendo assim abusado do seu poder, este lhe foi tirado. Alguns Pais acrescentam a esta altura que o diabo não sabia bem o que estava fazendo, ou por não ter reco­nhecido quem Jesus era ou, ao ver a Divindade em forma humana, pensasse que tinha uma oportunidade singular de sobrepujá-la. Mas ele foi enganado. Orígenes foi o primeiro a ensinar inequivocamente que a morte de Jesus foi tanto o preço do resgate pago ao diabo como o meio de seu engano e derrota. Gregório de Nissa, tímido erudito capadócio do quarto século, levou essas idéias um pouco mais longe em seu Grande Catecismo, ou Oração Catequética, usando imagens vi­vidas:

Deus. . . a fim de garantir que o resgate em nosso favor pudesse ser facilmente aceito por ele (isto é, o diabo) que o exigia. . . estava oculto sob o véu de nossa natureza, para que, assim como acontece com os peixes famintos, o anzol da Divindade pudesse ser engolido com a isca de carne, e assim, introduzir a vida na casa da morte. . . (o diabo) fosse banido.3

Para nós, a analogia do anzol é grotesca, como também o uso ser­mônico da imagem da ratoeira de Agostinho. Pedro Lombardo usaria a mesma imagem séculos mais tarde, afirmando que a “cruz foi uma ratoeira que continha a isca do sangue de Cristo”.4 É certo que esses teólogos podem muito bem ter desenvolvido tais quadros como uma concessão à mente popular, e os Pais primitivos viram certa justiça na idéia de que aquele que havia enganado a raça humana, levando-a à desobediência, fosse enganado e levado à derrota. Porém atribuir ação fraudulenta a Deus é indigno dele.

O valor permanente dessas teorias é que, primeiro, levaram a sério a realidade, a malevolência e o poder do diabo (o “valente, bem armado” de Lucas 11:21), e, segundo, que proclamaram a sua derrota decisiva e objetiva na cruz para nossa libertação (por aquele “mais valente” que o atacou e o sobrepujou (Lucas 11:22).5 Entretanto, R. W. Dale não estava exagerando quando as chamou de “intoleráveis, monstruosas e profanas”.6 Negamos que o diabo tenha sobre nós quaisquer direitos que Deus seja obrigado a satisfazer. Conseqüen­temente, toda noção da morte de Cristo que a relacione a uma ne­cessária transação com o diabo, ou com o seu engano, está fora de cogitação.

 

Satisfazendo à lei

Outra maneira de explicar a necessidade moral da “satisfação” di­vina na cruz tem sido exaltar a lei. Pecado é “transgressão da lei” (1 João 3:4), desrespeito e desobediência à lei de Deus. A lei, porém, não pode ser quebrada sem a punição do infrator. Os pecadores, portanto, incorrem na penalidade da sua transgressão. Não podem simplesmente sair ilesos. A lei deve ser sustentada, sua dignidade defendida e suas justas penalidades pagas. A lei, assim, é “satisfeita”.

Uma ilustração popular dessa verdade é a história do rei Dario no livro de Daniel (capítulo 6). Ele nomeou 120 sátrapas para governar Babilônia, e colocou três administradores acima deles, entre os quais estava Daniel. Além disso, tais eram as qualidades excepcionais de Daniel e o seu serviço que o rei planejou promovê-lo, colocando-o acima de todos os seus colegas. Isso despertou-lhes a inveja, e co­meçaram imediatamente a tramar a sua queda. Vigiando-o como ga­viões, tentaram descobrir alguma incoerência ou ineficiência em sua conduta pública para que pudessem levantar acusações contra ele. Mas falharam, “porque ele era fiel, e não se achava nele nenhum erro nem culpa” (v. 4). De forma que voltaram seu exame à vida privada de Daniel; sua única esperança, pensavam, era culpá-lo por alguma falta técnica em relação com sua devoção religiosa regular. Conse­guiram fazer com que o rei estabelecesse um decreto e fizesse “firme o interdito que todo o homem que, por espaço de trinta dias fizer petição a qualquer outro deus, ou a qualquer homem, e não a ti, ó rei, seja lançado na cova dos leões” (v. 7). Com incrível ingenuidade, o rei caiu na armadilha deles. Mandando escrever o decreto, tornou-o inalterável, “segundo a lei dos medos e dos persas, que se não pode

revogar” (vv. 8 e 9).

A publicação do decreto chegou aos ouvidos de Daniel, mas não fez que ele mudasse sua rotina. Pelo contrário, continuou a orar ao seu Deus três vezes por dia. O seu costume era orar em seu quarto no andar superior, cujas janelas davam para Jerusalém, Aí ele era visível aos transeuntes, e aí os seus inimigos o viram. Voltaram ime­diatamente ao rei e relataram a quebra flagrante por Daniel do decreto real. “Tendo o rei ouvido estas coisas, ficou muito penalizado, e determinou consigo mesmo livrar a Daniel; e até ao pôr-do-sol se empenhou por salvá-lo” (v. 14). Mas não conseguiu encontrar solução ao problema legal que havia criado para si mesmo. Seus administra­dores e sátrapas lembraram-no de que “é lei dos medos e dos persas que nenhum interdito ou decreto, que o rei sancione, se pode mudar” (v. 15). Assim, Dario, relutantemente, curvou-se ao inevitável e deu ordem para que Daniel fosse atirado na cova dos leões. A lei havia triunfado.

Muitos são os pregadores (e eu estou incluído nesse grupo) que têm usado essa história com a finalidade de ressaltar o dilema divino. Dario respeitava a Daniel e se empenhou por encontrar um meio de salvá-lo, mas a lei deve percorrer seu percurso e não deve ser mo­lestada. Assim, Deus nos ama a nós, pecadores, e anseia salvar-nos, mas não pode fazê-lo mediante a violação da lei que justamente nos condenou. Daí a necessidade da cruz, sobre a qual a penalidade da lei foi paga e a sua santidade vindicada. Como um recente expositor dessa perspectiva menciono Henry Wace, Deão de Cantuária de 1903 a 1924:

Uma lei que não possui sanção, no sentido técnico dessa expressão — em outras palavras, uma lei que pode ser quebrada sem penalidade adequada, não é lei de modo nenhum; é inconcebível que a lei moral de Deus possa ser violada sem trazer conseqüências do tipo mais terrível. A mera quebra de uma das suas leis físicas pode trazer, quer os homens tenham pretendido violá-la quer não, a miséria mais duradoura e geral; será que podemos supor, com ra­zão, que a quebra mais flagrante e voluntariosa das mais altas de todas as leis — as da verdade e da justiça — não trariam tais resultados?7

Repetimos, “Deus não pode abolir a constituição moral das coisas que estabeleceu”. É verdade que o Deão Wace prosseguiu a qualificar essas afirmativas, Iembrando-nos de que o mundo moral não é “uma espécie de máquina moral na qual as leis operam, assim como o fazem na natureza física”, e que “temos de tratar não simplesmente com uma ordem estabelecida, mas também com uma personalidade viva, com um Deus vivo”. Entretanto, ele se refere novamente à “penali­dade necessariamente envolvida na violação da lei divina”.8

Não tenho o propósito de discordar dessa linguagem, e, deveras, eu mesmo continuo a usá-la. Ela possui, de fato, boa justificativa escriturística. Paulo cita Deuteronômio com aprovação, no sentido de que cada infrator da lei é “amaldiçoado”, e a seguir afirma que “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar” (Gálatas 3:10, 13). Se, portanto, Paulo não teve receio de usar uma expressão impessoal como “maldição da lei”, nós tam­bém não devemos tê-lo.

Os Pais latinos do quarto século, como Ambrósio e Hilário, regu­larmente expunham a cruz nesses termos. Indo mais longe que Ter­tuliano, o primeiro a usar os termos legais “mérito” e “satisfação” acerca da relação do cristão com Deus, interpretaram textos como Galatas 3:13 à luz do “satisfactio da lei pública romana, que significa a perduração da sentença da lei”.9 Os Reformadores do século de­zesseis desenvolveram essa idéia um pouco mais. Enfatizaram cor­retamente que a submissão pessoal de Jesus Cristo à lei era indispensável à nossa redenção da sua condenação. Também ensi­naram que a submissão dele tomou duas formas, sua perfeita obe­diência à lei durante a vida e o seu carregar a penalidade em sua morte. Chamaram a primeira de obediência “ativa” e a segunda de “passiva”. Contudo, esses adjetivos são inexatos, uma vez que a obediência de Jesus até à morte na cruz foi tão “ativa” (isto é, volun­tária e determinada) como a sua submissão obediente à lei moral. Sua obediência à vontade do Pai é a mesma, quer em sua conduta quer em sua missão, em sua vida ou em sua morte. O valor de conti­nuarmos a falar da obediência “dupla” de Cristo é que então distin­guimos entre o cumprimento das exigências da lei e o sofrimento da condenação da lei. Ambos os tipos de submissão eram essenciais à eficácia da cruz.

Entretanto, precisamos estar alertas aos perigos da linguagem legal e da inadequação de compararmos a lei moral de Deus às leis civis do país ou às leis físicas do Universo. É verdade que parte da glória de uma monarquia constitucional é que até mesmo o monarca não está acima da lei, mas sob ela, sendo necessário que obedeça às suas provisões e (se as quebrar) sofra suas penalidades. Dario provê um bom exemplo dessa situação. Entretanto, o decreto que ele promulgou foi tolo e apressado, uma vez que não continha uma cláusula acerca da consciência religiosa e, assim, levou ao castigo de um homem justo por uma ação justa. O rei jamais havia pretendido que seu decreto tornasse tal ação uma ofensa punível, Não podemos pensar que Deus se deixasse apanhar numa confusão técnica e legal desse tipo. Nem é prudente comparar as leis morais divinas às suas leis físicas e então declará-las igualmente inflexíveis. Por exemplo, “se a pessoa puser a mão no fogo ela se queimará, e se quebrar os Dez Mandamentos, será punida”. Há verdade na analogia, mas o conceito de penalidades mecânicas é enganoso. Pode ser verdade quanto às leis naturais, em­bora estritamente não sejam “leis” que comprometam as ações divinas, mas uma descrição da uniformidade normal de sua ação a qual o seres humanos observaram. O motivo real pelo qual a desobediência às leis morais de Deus traz condenação não é que Deus seja prisioneiro delas, mas que ele é o seu criador.

Como R. W. Dale disse, a conexão de Deus com a lei não “é uma relação de sujeição, mas de identidade. . . Em Deus a lei é viva; ela reina no seu trono, brande o seu cetro,.é coroada com a sua glória”.10 Pois a lei é a expressão do seu próprio ser moral, e o seu ser moral é sempre autocoerente. Nathaniel Dimock capta muito bem essa ver­dade nas seguintes palavras;

Não pode haver nada. . . nas exigências da lei, na sua severidade, e na sua condenação, na sua morte, e na sua maldição, que não seja um reflexo (parcial) das perfeições de Deus. Tudo o que for devido à lei é devido a ela por ser a lei de Deus, e, portanto, é devido ao próprio Deus.11

 

Satisfazendo à honra e à justiça de Deus

Se os Pais gregos primitivos representavam a cruz primariamente como uma “satisfação” ao diabo, no sentido de ser o preço do resgate que ele exigiu e que lhe foi pago, e os País latinos viam-na como uma satisfação da lei de Deus, Anselmo de Cantuária, no décimo primeiro século, deu-lhe um tratamento novo em seu Cur Deus Homo? fazendo uma exposição sistemática da cruz como uma satisfação da honra ofendida de Deus. O livro dele “marcou época em toda a história de nossa doutrina”, escreveu R. S. Franks, “pois pela primeira vez, de uma maneira completa e coerente, aplica à elucidação do assunto as concepções da satisfação e do mérito”.12 James Denney foi além e chamou-o de “o livro mais verdadeiro e mais excelente sobre a ex­piação que jamais foi escrito.”13

Anselmo, um italiano piedoso, primeiro viveu na Normandia, e depois, em 1093, após a conquista normanda foi nomeado arcebispo de Cantuária. Ele tem sido descrito como o primeiro representante do “eruditismo” medieval, uma tentativa de reconciliar a filosofia com a teologia, a lógica aristotélíca com a revelação bíblica. Embora ele tivesse incluído em seus escritos grande número de citações bíblicas, e tivesse feito referências à Sagrada Escritura como um “firme fun­damento”, seu interesse maior era ser “agradável à razão”. Nas pa­lavras de Boso, seu interlocutor imaginário: “o caminho pelo qual me conduzes é tão fechado pelo raciocínio em ambos os lados que parece que eu não consigo virar-me nem para a direita nem para a esquerda”. Em Cur Deus Homo?, o maior tratado de Anselmo sobre o relacio­namento da encarnação com a expiação, ele concorda em que o diabo precisava ser derrotado, mas rejeita as teorias patrísticas de resgate pelo motivo de que “Deus nada devia ao diabo a não ser castigo”. Deveras, o homem devia algo a Deus, e essa é a dívida que necessitava ser paga. Pois Anselmo define o pecado como “não dar a Deus o que lhe é devido”, a saber, a submissão de toda a nossa vontade a ele. Pecar, portanto, é “tomar de Deus o que é dele”, o que significa roubar dele e, assim, desonrá-lo. Se alguém imagina que Deus pode simplesmente perdoar-nos do mesmo modo que devemos perdoar uns aos outros, ainda não considerou a seriedade do pecado. Sendo uma desobediência inescusável da vontade conhecida de Deus, o pecado o desonra e o insulta, e “nada é menos tolerável. . . do que tomar a criatura do Criador a honra que lhe é devida, e não devolver o que retira”. Deus não pode tolerar tal coisa. “Não é correto Deus passar por alto os pecados assim não punidos”. É mais do que ina­propriado, é impossível. “Não condiz com Deus fazer qualquer coisa injusta ou irregularmente, não está dentro do alcance de sua liberdade ou bondade ou vontade deixar sem punição o pecador que não de­volve a Deus o que tomou”. “Deus a nada tem como mais justo do que a honra de sua própria dignidade”.

Portanto, o que se pode fazer? Se desejamos ser perdoados, de­vemos pagar o que devemos. Contudo, somos incapazes de fazê-lo, por nós mesmos ou por outras pessoas. Nossa obediência presente e boas obras não podem satisfazer a nossos pecados, pois elas são requeridas de nós de qualquer modo. De forma que não podemos salvar a nós mesmos. Nem pode qualquer outro ser humano salvar-nos, visto que “um pecador não pode justificar outro pecador”. Daí o dilema com o qual termina o Livro I: “O homem pecador deve a Deus, por causa do pecado, o que não pode pagar, e a menos que pague não pode ser salvo”.

No início do Livro II, revela-se a única saída do dilema humano: “não há ninguém. . . que pode trazer satisfação a não ser o próprio Deus. . . Mas ninguém deve fazê-la a não ser o homem; de outra forma o homem não oferece satisfação”. Portanto, “é necessário que alguém que seja Deus-homem a faça”. Um ser que é Deus e não homem, ou homem e não Deus, ou uma mistura de ambos e, portanto, nem homem nem Deus, não se qualificaria. “É preciso que a mesma Pessoa que fará a satisfação seja perfeitamente Deus e perfeitamente homem, uma vez que ninguém pode fazê-la a não ser que seja perfeitamente homem”. Essa afirmativa leva Anselmo a apresentar a Cristo. Ele foi (e é) uma Pessoa singular, visto que nele “Deus o Verbo e o homem se encontraram”. Ele também realizou uma obra singular, pois en­tregou-se à morte — não como uma dívida {visto que era sem pecado e, portanto, sem nenhuma obrigação de morrer), mas espontanea­mente pela honra de Deus. Era também razoável que o homem, “que, ao pecar, furtou-se de Deus tão completamente quanto pôde, devia, ao dar a satisfação, se entregar a Deus tão completamente quanto pudesse”, a saber, mediante a oferta voluntária de si mesmo para a morte. Por mais sério que fosse o pecado humano, contudo, a vida do Deus-homem era tão boa, tão exaltada e tão preciosa que o seu oferecimento na morte “pesa mais do que o número e a grandeza de todos os pecados”, e a reparação devida foi feita à honra ofendida de Deus.

Os maiores méritos da exposição de Anselmo são que ele percebeu claramente a extrema gravidade do pecado (como uma rebelião vo­luntariosa contra Deus, na qual a criatura afronta a majestade do seu Criador), a santidade imutável de Deus (como incapaz de tolerar qual­quer violação da sua honra), e as perfeições singulares de Cristo (como o Deus-homem que voluntariamente se entregou à morte por nós). Em alguns lugares, contudo, seu raciocínio escolástico levou-o além dos limites da revelação bíblica, como quando ele especulou se o pagamento de Cristo foi exatamente o que os pecadores deviam ou mais, e se o número dos seres humanos redimidos excederia o número dos anjos caídos. Além disso, toda a sua apresentação reflete a cultura feudal da época, na qual a sociedade era rigidamente estratificada, cada pessoa permanecia na dignidade que lhe fora conferida, a con­duta “apropriada” ou “digna” dos inferiores aos superiores (e es­pecialmente ao rei) era determinada, quebras desse código eram punidas, e todas as dívidas deviam ser honrosamente saldadas.

Todavia, quando Deus é retratado em termos reminiscentes de um senhor feudal que exige honra, e castiga a desonra, pode-se questionar se o quadro expressa corretamente a “honra” que, de fato, é devida a Deus somente. Certamente devemos permanecer insatisfeitos sem­pre que a expiação for apresentada como uma satisfação necessária à “lei” ou à “honra” de Deus, e se disserem que essas coisas são con­cretas, de algum modo tendo existência à parte dele.

Foi durante o século doze que se esclareceram três interpretações distintas da morte de Cristo. Anselmo (falecido em 1109), como já vimos, enfatizava a satisfação objetiva à honra de Deus, a qual havia sido paga pelo Deus-homem Jesus, ao passo que Pedro Abelardo de Paris, um contemporâneo jovem de Anselmo {falecido em 1142), acen­tuava a influência moral subjetiva que a cruz exerce sobre os crentes (examinaremos o ensino de Abelardo com mais detalhes no capítulo oito). Nesse ínterim, Bernardo de Clairvaux (falecido em 1153), teó­logo místico, continuava a ensinar que o diabo havia recebido o preço do resgate. Porém, foi a perspectiva de Anselmo que prevaleceu, pois os estudiosos da Escritura eram incapazes de eliminar dela o conceito de satisfação. De modo que os “escolásticos” (assim chamados porque ensinavam em “escolas” européias medievais recém-fundadas, isto é, universidades) desenvolveram ainda mais a posição de Anselmo — tanto os “tomistas”, que eram dominicanos, cujo nome vem de Tomás de Aquino (falecido em 1274), como os “escotistas”, que eram franciscanos, e cujo nome vem de Duns Scotus (falecido em 1308). Embora esses dois grupos de “mestres” diferissem quanto a detalhes, ambos ensinavam que a cruz de Cristo havia satisfeito as exigências

da justiça divina.

Com a Reforma, e a ênfase dos reformadores sobre a justificação, é compreensível que acentuassem a justiça de Deus e a impossibili­dade de um modo de salvação que não satisfizesse a essa justiça. Pois como escreveu Calvino nos Institutos, “há um desacordo perpétuo e irreconciliável entre justiça e injustiça”. Era necessário, portanto, que Cristo “sofresse a severidade da vingança de Deus, pacificasse a sua ira e satisfizesse ao seu juízo”.14 Thomas Cranmer, em sua “Homília da Salvação”, explicou que essas três coisas tinham de entrar juntas em nossa justificação: da parte de Deus, “sua grande misericórdia e graça”; da parte de Cristo, “a satisfação da justiça de Deus”, e da parte do homem, “fé verdadeira e viva”. Ele concluiu a primeira seção da homilia, dizendo: “Agradou ao nosso pai celestial, por sua mise­ricórdia infinita, sem nosso merecimento, preparar para nós as jóias mais preciosas do corpo e sangue de Cristo, pelas quais nosso resgate pudesse ser totalmente pago, a lei cumprida e a sua justiça comple­tamente satisfeita”.15

Podemos encontrar esse mesmo ensino nas obras de Lutero. Após a sua morte, contudo, os “escolásticos” protestantes sistematizaram a doutrina da morte de Cristo numa satisfação dupla, a saber, a da lei e a da justiça de Deus. A lei de Deus foi satisfeita pela obediência perfeita de Cristo durante a vida, e a justiça de Deus por meio do seu perfeito sacrifício pelo pecado, levando a sua penalidade na morte. Essa formulação, contudo, é por demais conveniente. Visto que a lei de Deus é uma expressão da sua justiça, as duas não podem ser separadas com precisão.

Então, era o interesse de Deus satisfazer à “ordem moral”? Esse conceito, como o da “lei”, é uma expressão da justiça ou do caráter moral de Deus. É, talvez, ao mesmo tempo, mais geral e mais amplo do que a “lei”, uma vez que abrange não somente padrões morais mas também um sistema de sanções a ele inerente. Descansa sobre a crença de que o Deus santo que governa o mundo, governa-o mo­ralmente. Ele estabeleceu uma ordem na qual o bem deve ser apro­vado e recompensado, ao passo que o mal deve ser condenado e punido. A aprovação do mal ou a condenação do bem subverteria essa ordem moral. Num mundo desses o perdão de pecados que não dependesse de princípios seria igualmente subversivo.

Podemos ver, em Hugo Grotius (falecido em 1645), os princípios desse conceito concernente à morte de Cristo. Grotius foi um advo­gado e estadista holandês que deplorava as controvérsias e as divisões entre os cristãos, e sonhava com um Cristianismo unido e reformado. Sua compreensão da expiação foi mais um meio-termo entre Anselmo e Abelardo. Às vezes ele ensinava umavisão quase abelardiana da influência subjetiva da cruz, que leva os pecadores a arrepender-se e, assim, capacita Deus a perdoá-los. Em geral, contudo, ele preser­vava a objetividade da cruz, e a via como uma satisfação da justiça de Deus. Além do mais, ele tinha o interesse do jurista pela morali­dade pública, tanto na prevenção do crime como na manutenção da lei. Ele não via a Deus como a parte interessada ofendida, nem como credor, nem mesmo como juiz, mas como o Governador Moral e Supremo do mundo. Assim, a justiça pública para ele era mais im­portante do que a justiça eqüitativa, e, cria ele, era esta que tinha sido satisfeita na cruz. É certo que Cristo morreu por nossos pecados em nosso lugar. Mas que parte ou ofício ocupou Deus nessa morte? per­guntava ele. “O direito de infligir castigo não pertence à parte ofen­dida como ofendida” antes, “ao governador como governador”.16 Novamente, “infligir castigo. . . é prerrogativa somente do gover­nador como tal. . . por exemplo, de um pai numa família, de um rei num estado, de Deus no Universo”. De modo que Grotius desen­volveu sua interpretação “reitoral” ou “governamental” da cruz. Ele ensinou que Deus a ordenou “pela ordem das coisas e pela autoridade de sua própria lei”. Ele se preocupou com a vindicação pública da justiça divina. “Deus não estava disposto a tolerar tantos pecados, e tão grandes pecados, sem um exemplo distintivo”, isto é, de seu sério desprazer para com o pecado. “Deus tem. . . razões muito pesadas para punir o pecado”, mas uma das principais entre elas, na mente de Grotius, era a resolução de manter a lei estabelecida da ordem, de modo que pudéssemos “perceber a magnitude e a multidão dos pe­cados”.

Diversos teólogos do século vinte têm tomado a visão de Deus como “o governador moral do mundo” e a têm levado além no que diz respeito à expiação. P. T. Forsyth, por exemplo, escreveu acerca dessa “ordem cósmica de santidade”, e acrescentou: “A ordem moral de Deus exige expiação onde quer que idéias morais sejam tomadas com seriedade final, e a consciência do homem faz eco a essa exigência”.17

Outro exemplo é B. B. Warfield, que chamou a atenção para o sentimento universal de culpa entre os seres humanos. É uma “au-tocondenação moral profunda, que está presente como fator primário em toda experiência verdadeiramente religiosa. Clama por satisfação.

Nenhuma dedução moral pode persuadi-la de que o perdão de pe­cados é um elemento necessário na ordem moral do mundo. Ela sabe, pelo contrário, que o perdão indiscriminado de pecado seria preci­samente a subversão da ordem moral do mundo. . . Clama por ex­piação”.18

Todavia, foi Emil Brunner que, no seu famoso livro O Mediador, fez a afirmativa mais notável da inviolabilidade da ordem moral. Pecado é mais que um “ataque à honra de Deus”, escreveu ele; é um assalto a ordem moral do mundo, a qual é uma expressão da vontade moral de Deus.

A lei do seu Ser divino, sobre a qual se baseiam toda a lei e a ordem no mundo. . . o caráter lógico e confiável de tudo o que acontece, a validez de todos os padrões, de toda a ordem intelectual, legal e moral, da própria lei em seu significado mais profundo, exige a reação divina, o inte­resse divino acerca do pecado, a resistência divina para com essa rebelião e essa quebra da ordem. . . Se isso não fosse verdade, então não haveria seriedade alguma no mundo; não haveria significado em nada, nenhuma ordem, nenhuma estabilidade; a ordem do mundo cairia em ruínas; o caos e a desolação reinariam supremos. Toda a ordem do mundo depende da inviolabilidade da sua (de Deus) honra, sobre a certeza de que os que se rebelam contra ele serão punidos.

Mais tarde Brunner fez uma analogia entre a lei natural e a moral, afirmando que não se pode infringir nenhuma delas sem impunidade. O perdão sem a expiação seria uma contravenção da lógica, da lei e da ordem mais séria e vasta “do que a suspensão das leis naturais”. Como, pois, é possível o perdão, se “o castigo é a expressão da lei e ordem divinas, da inviolabilidade da ordem divina do mundo”? Visto que a lei “é a expressão da vontade do Doador da lei, do Deus pessoal”, então, se for quebrada, não pode curar-se a si mesma, nem o faz. O pecado acarretou uma “quebra na ordem do mundo”, uma desordem tão profunda que é necessária uma reparação ou restituição, isto é, a “expiação”.

 

Deus satisfazendo-se a si mesmo

Aqui, pois, estão cinco modos pelos quais os teólogos têm expres­sado seu sentido do que é necessário antes que Deus possa perdoar os pecadores. Um fala da subversão do diabo através da “satisfação” de suas exigências, outros da “satisfação” da lei, da honra ou da justiça, e o último da “satisfação da ordem moral do mundo”. Em graus diversos todas essas formulações são verdadeiras. A limitação que partilham é que, a menos que sejam proferidas com muito cui­dado, representam Deus como sendo subordinado a algo fora e acima de si mesmo, algo esse que controla as ações divinas, ao qual ele está sujeito e do qual não se pode livrar. “Satisfação” é uma palavra apro­priada, desde que compreendamos que é o próprio Deus, em seu ser interior que necessita ser satisfeito, e não algo externo a si mesmo. A menção à lei, honra, justiça e ordem moral só é verdadeira se todas forem tomadas como expressões do próprio caráter de Deus. A ex­piação é uma “necessidade” porque “emerge de dentro do próprio Deus”.19

É certo que a “auto-satisfação” nos seres humanos decaídos é um fenômeno especialmente desagradável, quer se refira à satisfação de nossos instintos e paixões, quer à nossa complacência. Visto que so­mos manchados e distorcidos pelo egoísmo, a expressão: “devo sa­tisfazer a mim mesmo” exprime falta de domínio próprio, ao passo que dizer: “Estou satisfeito comigo mesmo” demonstra falta de hu­mildade. Mas não há nenhuma ausência de domínio próprio ou hu­mildade em Deus, já que ele é perfeito em todos os seus pensamentos e desejos. Dizer que ele deve “satisfazer a si mesmo” significa que ele deve ser ele mesmo e agir segundo a perfeição de sua natureza ou “nome”. A necessidade de “satisfação” para Deus, portanto, não se encontra em nada fora de si, mas dentro de si mesmo, em seu próprio caráter imutável. É uma necessidade inerente ou intrínseca. A lei à qual ele deve se conformar, a qual ele deve satisfazer, é a de seu próprio ser. No sentido negativo, ele “não pode negar-se a si mesmo” (2 Timóteo 2:13); ele não pode contradizer-se a si mesmo; ele “não pode mentir” (Tito 1:2), pelo simples motivo de que “é impossível que Deus minta” (Hebreus 6:18); ele jamais é arbitrário, imprevisível ou caprichoso; ele diz: “jamais. . . desmentirei a minha fidelidade” (Salmo 89:33). No sentido positivo, “Deus é fidelidade, e não há nele injustiça: é justo e reto” (Deuteronômio 32:4). Isto é, é verdadeiro a si mesmo; é sempre e invariavelmente ele mesmo.

A Escritura tem vários modos de chamar a atenção para a autocoe­rência divina, e em especial de acentuar que quando Deus é obrigado a julgar os pecadores, ele o faz porque deve, se deseja permanecer verdadeiro a si mesmo.

O primeiro exemplo é a linguagem da provocação. Yavé é descrito (de fato, descreve-se a si mesmo) como “provocado” à ira ou ciúme ou a ambos por causa da idolatria de Israel. Por exemplo, “com deuses estranhos o provocaram a zelos, com abominações o irritaram”.20 Os profetas exílicos, como Jeremias e Ezequiel, constantemente empre­gavam esse vocabulário.21 Não queriam dizer que Yavé estivesse irritado ou exasperado, ou que o procedimento de Israel tivesse sido tão “provocante” que desfizera a paciência divina. Não, a linguagem da provocação exprime a reação inevitável da natureza perfeita de Deus ao mal. Indica que há dentro de Deus uma intolerância santa para com a idolatria, a imoralidade e a injustiça. Onde quer que essas ocorrerem, agem como estímulos ao desencadeamento de sua res­posta de ira ou indignação. Ele jamais é provocado sem motivo. O mal, e somente o mal o provoca, e deve ser assim necessariamente, visto que Deus deve ser Deus (e proceder como Deus). Se o mal não o provocasse à ira ele perderia nosso respeito, pois já não seria Deus.

Segundo, há a linguagem do ardor. Aqui podemos mencionar os verbos que descrevem a ira de Deus como fogo. É verdade que tam­bém se diz que a ira dos seres humanos se acende.22 Mas esse vo­cabulário no Antigo Testamento é aplicado mais freqüentemente a Yavé, cuja ira se acende sempre que vê seu povo desobedecendo à sua lei e quebrando a sua aliança.23 De fato, é precisamente quando é “provocado” à ira que se diz que ele se queima com ela,24 ou que se diz que sua ira explode e consome como o fogo.25 Em conseqüência disso, lemos do fogo da sua ira ou do fogo do seu ciúme; deveras, o próprio Deus os une, fazendo referência ao “fogo do meu zelo”.26 Como acontece com a provocação de Yavé à ira, também com o fogo da sua ira subentende-se certa inevitabilidade. No calor seco de um verão na Palestina o fogo acende-se facilmente. O mesmo acontecia com a ira de Yavé. Contudo, jamais era ativada pelo capricho, mas sempre em resposta ao mal. Nem sua ira jamais era descontrolada. Pelo contrário, nos primeiros anos da vida nacional de Israel ele “mui­tas vezes desvia a sua ira, e não dá largas a toda a sua indignação”.27 Porém, quando não mais pôde suportar a obstinada rebeldia do seu povo, disse: “Não tornarei atrás, não pouparei nem me arrependerei; segundo os teus caminhos e segundo os teus feitos serás julgada, diz o Senhor Deus”.28

Se era fácil acender um fogo durante a estação seca na Palestina, era igualmente difícil apagá-lo. O mesmo acontecia com a ira divina. Uma vez que fosse justamente despertada, ele não desistia “do furor da sua grande ira, ira com que ardia contra Judá”. Uma vez acendida, ela não era facilmente “apagada”.29 Pelo contrário, quando a ira de Yavé “ardia” contra o povo, ela os “consumia”. Isto é, como o fogo leva à destruição, da mesma forma a ira de Yavé levava ao juízo. Pois Yavé é um fogo consumidor.30 O fogo da sua ira era “apagado” so­mente quando o juízo estava completo,31 ou quando ocorria uma regeneração radical, resultando em justiça social.32

A imagem do fogo endossa o ensino do vocabulário da provocação. Algo no ser essencial moral de Deus é “provocado” pelo mal, é por ele “acendido”, e a seguir “arde” até que o mal seja “consumido”. Terceiro, há a linguagem da própria satisfação. Um grupo de palavras parece afirmar a verdade de que Deus deve ser ele mesmo, que o que está dentro dele deve sair, e que as exigências de sua própria natureza e caráter devem ser preenchidas mediante ação apropriada da sua parte. A palavra principal é kalá, que é empregada especialmente por Ezequiel em relação à ira de Deus. Significa “ser completo, terminado, realizado, gasto”. Ocorre em vários contextos no Antigo Testamento, quase sempre com a indicação do “fim” de alguma coisa, ou porque foi destruída ou porque foi terminada de algum outro modo. O tempo, o trabalho e a vida, todos têm fim. As lágrimas se acabam por meio do choro, a água é usada, e a grama seca na estação do estio, e nossa força física se desgasta. De modo que, por meio de Ezequiel, Yavé adverte a Judá de que está prestes a “realizar”, “satisfazer” ou “gas­tar” sua ira “sobre” ou “contra” eles.33 Recusaram-se a dar-lhe ou­vidos e persistiram em sua idolatria. De modo que agora, finalmente “vem o tempo; é chegado o dia. . . em breve derramarei o meu furor sobre ti, cumprirei a minha ira contra ti” (Ezequiel 7:7-8).

É importante que o “derramar” e o “cumprir” vão juntos, pois o que é derramado não pode ser de novo ajuntado, e o que está cum­prido está terminado. As mesmas imagens são acopladas em Lamen­tações 4:11: “Deu o Senhor cumprimento à sua indignação, derramou o ardor da sua ira”. Deveras, a ira de Yavé só “cessa” quando é “cumprida”. Esses verbos implicam o mesmo conceito de necessidade interior. O que existe dentro de Yavé deve ser expresso; e o que é expresso deve ser completamente “cumprido” ou “satisfeito”.

Resumindo, Deus é “provocado” à ira zelosa por seu povo em virtude dos pecados deles. Uma vez acesa, a sua ira “arde” e não pode ser facilmente apagada. Ele a “solta”, “derrama”, e “gasta”. Esse vocabulário tríplice vividamente retrata o juízo de Deus como procedendo de dentro de si mesmo, de seu caráter santo, totalmente consoante com ele, e, portanto, inevitável.

Até aqui, contudo, o quadro tem sido unilateral. Por causa da his­tória da apostasia de Israel, os profetas concentraram-se na ira de Yavé e seu conseqüente juízo. Mas a razão pela qual essa ameaça de destruição nacional é tão triste é que foi proferida contra o pano de fundo do amor de Deus por Israel, sua escolha e sua aliança com eles. Esse relacionamento especial com Israel, o qual Deus iniciou e sus­tentou, e o qual prometeu renovar, emergira também do seu caráter. Ele tinha agido por amor do seu nome. Ele não havia dado o seu amor a Israel nem os tinha escolhido porque fossem mais numerosos do que outros povos, pois eram o menor deles. Não, ele havia dado o seu amor a eles somente porque os amava (Deuteronômio 7:7, 8). Não se podia dar explicação alguma de seu amor pelo povo, senão o amor divino.

De modo que a Escritura acentua a autocoerência de Deus de outra maneira, a saber, usando a linguagem do Nome. Deus sempre age “segundo o seu nome”. É certo que esse não é o único critério de sua atividade. Ele também trata conosco “segundo nossas obras”. Con­tudo, de modo nenhum de maneira invariável. De fato, se o fizesse, seríamos destruídos. De forma que ele “não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos retribui consoante as nossas iniqüidades”.34 Pois ele é um Deus “compassivo, clemente e Iongânimo, e grande em misericórdia e fidelidade” (Êxodo 34:6). Embora nem sempre nos trate “segundo nossas obras”, entretanto, ele sempre o faz “segundo o seu nome”, isto é, de maneira coerente com sua natureza revelada.35 Em Ezequiel 20:44 o contraste é deliberado: “Sabereis que eu sou o Senhor, quando eu proceder para convosco por amor do meu nome, não segundo os vossos maus caminhos, nem segundo os vossos feitos corruptos, ó casa de Israel, diz o Senhor Deus”.

Jeremias 14 exprime com inteireza enfática o reconhecimento de que Yavé é e sempre será fiel a seu nome, isto, a si mesmo. A situação era de seca devastadora: as cisternas estavam vazias, o chão rachado, os agricultores pasmados e os animais desorientados (vv. 1-6). Em seu extremo de aflição, Israel clamou a Deus: “Posto que as nossas maldades testificam contra nós, ó Senhor, age por amor do teu nome” (v. 7). Em outras palavras, “embora não possamos apelar a ti para que ajas na base no que nós somos, podemos e o fazemos na base de quem tu és”. Israel se lembrou de que era o povo escolhido de Deus, e suplicou que ele agisse de modo condizente com sua graciosa aliança e constante caráter, pois, acrescentaram: “somos chamados pelo teu nome” (vv. 8,9). Em contraste com os pseudo-profetas, que pregaram uma mensagem desequilibrada de paz sem juízo (vv. 13-16), Jeremias profetizava “espada, fome e peste” (v. 12). Mas também olhava além do juízo e via a restauração. Convicto de que Yavé agiria, disse-lhe: “por amor do teu nome” (v. 21).

Ezequiel 36 desenvolve um pouco mais o mesmo tema. Aqui Yavé prometeu a seu povo que depois do juízo viria a restauração, mas apresentou suas razões com grande franqueza: “Não é por amor de vós que eu faço isto, ó casa de Israel, mas pelo meu santo nome” (v. 22). Eles o tinham profanado, fazendo que fosse desprezado e até mesmo blasfemado pelas nações. Mas Yavé teria pena do seu grande nome e uma vez mais demonstraria a sua santidade, sua singularidade perante o mundo. Então as nações saberiam que ele era o Senhor (vv. 21, 23). Quando Deus assim age, “por amor do seu nome”, não apenas o protege contra uma representação errada; está decidido a ser-lhe fiel. O interesse do Senhor por sua reputação é menor do que o por sua coerência.

A luz de todo esse material bíblico acerca da autocoerência divina, podemos compreender por que é impossível que Deus faça o que Cristo nos ordenou fazer. Ele mandou que negássemos a nós mesmos, mas Deus não pode negar-se a si mesmo.36 Por quê? Por que Deus não faz, na verdade não pode fazer o que nos ordena? É porque Deus é Deus e não homem, muito menos homem caído. Temos de negar ou rejeitar tudo o que dentro de nós for falso à nossa verdadeira humanidade. Mas nada há em Deus que seja incompatível com sua divindade verdadeira, e, portanto, nada para negar. É com a finali­dade de sermos nossos verdadeiros seres que temos de negar a nós mesmos; é porque Deus jamais é outro senão o seu verdadeiro ser que ele não pode negar nem negará a si mesmo. Ele pode esvaziar-se da glória a que tem direito e humilhar-se ao ponto de se tornar servo. Na verdade, foi precisamente isso o que ele fez em Cristo (Filipenses 2:7, 8). Mas ele não pode repudiar nenhuma parte de si mesmo, porque é perfeito. Ele não pode contradizer-se. Essa é a sua integridade. Quanto a nós, estamos constantemente cônscios de nos­sas incoerências humanas, as quais geralmente dão origem a comen­tários. “Essa não é uma característica sua”, dizemos, ou “você não é você mesmo hoje”, ou “esperava algo melhor de você”. Mas já lhe passou pela imaginação dizer tais coisas a Deus ou a respeito dele? Ele é sempre ele mesmo e jamais incoerente. Se ele se comportasse de um modo “não característico”, de um modo não condizente com o seu caráter, ele cessaria de ser Deus, e o mundo seria lançado em confusão moral. Não, Deus é Deus; jamais se desvia um nada de ser completamente o que ele é.

 

O santo amor de Deus

Que tem isso a ver com a expiação? Apenas que o modo pelo qual Deus escolhe perdoar os pecadores e reconciliá-los consigo mesmo deve, acima de tudo, ser totalmente coerente com seu próprio caráter. Não é somente que ele deve subverter e desarmar o diabo a fim de resgatar os seus cativos. Nem é somente que ele deve satisfazer à sua lei, sua honra, sua justiça ou a ordem moral: é que deve satisfazer a si mesmo. Essas outras formulações corretamente insistem em que pelo menos uma expressão divina deve ser satisfeita, sua lei ou honra ou justiça moral ou ordem; o mérito dessa formulação que vai mais além é que acentua a satisfação do próprio Deus em todos os aspectos do seu ser, incluindo-se sua justiça e seu amor.

Quando, porém, fazemos essa distinção entre os atributos de Deus, e colocamos um contra o outro, e até mesmo nos referimos a um “problema” ou “dilema” divino por causa desse conflito, não esta­remos em perigo de ir além da Escritura? Tinha P. T. Forsyth razão em escrever que “nada há na Bíblia acerca da luta dos atributos”?37 Acho que não. É certo que falar acerca de “luta” ou “conflito” em Deus é usar uma linguagem muito antropomórfica. A Bíblia, porém, não teme os antropomorfismos. Todos os pais conhecem o grande preço do amor, e o que significa ser “despedaçados” por emoções conflitantes, especialmente quando surge a necessidade de punir os filhos. Talvez o modelo humano de Deus mais audaz de todos na Escritura seja a dor da paternidade que lhe é atribuída no capítulo 11 de Oséias. Ele se refere a Israel como seu “filho” (v. 1), a quem ensinou a andar, tomando-o nos braços (v. 3) e inclinando-se para alimentá-lo (v. 4). Contudo, seu filho provou ser um desgarrado e não reco­nheceu seu terno amor de pai. Israel estava decidido a apartar-se dele em rebeldia (vv. 5-7). Portanto, merecia ser punido. Mas, pode o seu próprio pai forçar-se a puni-los? De modo que Yavé fala consigo mesmo:

Como te deixaria, ó Efraim? Como te entregaria, ó Israel? Como te faria como a Admá? Como fazer-te um Zeboim? Meu coração está comovido dentro de mim, as minhas compaixões à uma se acendem. Não executarei o furor da minha ira; não tornarei para destruir a Efraim, porque eu sou Deus e não homem, o Santo no meio de ti; não voltarei em ira (Oséias 11:8, 9).

Aqui certamente existe um conflito de emoções, uma luta de atri­butos, dentro de Deus. As quatro perguntas que iniciam com a palavra “como” dão testemunho de uma luta entre o que Yavé devia fazer por causa da sua justiça e o que não pode fazer por causa do seu amor. E qual é a mudança dentro dele senão uma tensão interior entre sua “compaixão” e o “furor” da sua ira?

A Bíblia contém muitas outras expressões que, de modos diferentes, expressam essa “dualidade” de Deus. Ele é “Deus compassivo, cle­mente e longânimo. . .ainda que não inocenta o culpado”, nele “en­contraram-se a graça e a verdade, a justiça e a paz se beijaram”; ele se anuncia como “Deus justo e Salvador”, além do qual não há outro; e em ira, lembra-se da misericórdia. João descreve o Verbo que se fez carne, o unigênito do Pai, como “cheio de graça e de verdade”; e Paulo, contemplando as lides de Deus com os judeus e com os gentios, convida-nos a considerar “a bondade e a severidade de Deus”. Quanto à cruz e à salvação, Paulo também escreve que Deus de­monstrou a sua justiça “para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus”, e nada descobre de anômalo acerca da justaposição de referências à “ira” e ao “amor” de Deus, enquanto João nos assegura que, se confessarmos os nossos pecados, Deus será “fiel e justo” para nos perdoar.38 São exemplos de duas verdades complementares acerca de Deus, como se a lembrar-nos de que de­vemos ter cuidado em falar de um aspecto do caráter de Deus sem mencionarmos a sua equivalência.

Emil Brunner, no livro O Mediador, não hesitou em falar da “na­tureza dual” de Deus como sendo “o mistério central da revelação cristã”. Pois “Deus não é simplesmente amor. A natureza de Deus não pode ser esgotada com uma única palavra”. Deveras, a oposição moderna à linguagem forense com relação à cruz é, principalmente, “devida ao fato de que a idéia da santidade divina foi tragada na do amor divino; isso significa que a idéia bíblica de Deus, na qual o elemento decisivo é essa natureza dupla de santidade e amor, está sendo substituída pela idéia moderna, unilateral, monística de Deus”. Contudo, “a dualidade de santidade e amor. . . de misericórdia e ira não pode ser dissolvida, mudada para um único conceito sintético, sem que ao mesmo tempo se destrua a seriedade do conhecimento bíblico de Deus, a realidade e o mistério da revelação e expiação. . . Aqui surge a ‘dialética’ de toda a teologia cristã genuína, cujo objetivo é simplesmente expressar em termos de pensamento a indissolúvel natureza dessa dualidade”. Assim, pois, a cruz de Cristo “é o evento no qual Deus simultaneamente torna conhecida sua santidade e seu amor, em um único evento, de um modo absoluto”. “A cruz é o único lugar em que o Deus amoroso, perdoador e misericordioso é revelado de tal modo que percebemos que a sua santidade e o seu amor são igualmente infinitos”. De fato, “o aspecto objetivo da expiação. . . pode ser resumido como segue: consiste na combinação da justiça inflexível, juntamente com as suas penalidades, e o amor transcen­dente”.

Ao mesmo tempo, jamais devemos pensar que essa dualidade do ser divino seja irreconciliável. Pois Deus não está dividido, por mais que se nos pareça que sim. Ele é “Deus de paz”, de tranqüilidade interior, não de agitação. É verdade que achamos difícil conter em nossa mente, simultaneamente, as imagens de Deus como Juiz que deve punir os malfeitores e como Amante que deve encontrar um modo de perdoá-los. Contudo, ele é ambos, ao mesmo tempo. Nas palavras de G. C. Berkouwer: “na cruz de Cristo a justiça e o amor de Deus são revelados simultaneamente”,39 enquanto Calvino, fazendo eco a Agostinho, foi um pouco mais audaz, Ele escreveu que Deus “de um modo divino e maravilhoso nos amou mesmo quando nos odiava”.40 Em verdade, as duas coisas são mais que simultâneas, são idênticas, ou pelo menos expressões alternativas da mesma realidade.

Pois “a ira de Deus é o amor de Deus”, escreveu Brunner numa sentença audaz, “na forma pela qual o homem que se desviou de Deus e se tornou contra ele a experimenta”.41

Um dos teólogos que tem lutado com essa tensão é P. T. Forsyth, que cunhou — ou pelo menos popularizou — a expressão: “o amor santo de Deus”.

O cristianismo se interessa pela santidade de Deus antes de tudo, a qual emerge para o homem como amor. . . Este ponto de partida da suprema santidade do amor de Deus, em vez de sua piedade, simpatia ou afeição, é a linha di­visória entre o evangelho e. . . o liberalismo teológico. . . Meu ponto de partida é que o primeiro cuidado de Cristo e sua revelação não foram simplesmente o amor perdoador de Deus, mas a santidade desse amor.

Novamente,

Se falássemos menos acerca do amor de Deus e mais sobre a sua santidade, mais acerca do seu juízo, deveríamos dizer muito mais quando então falássemos do seu amor.42

E novamente,

Sem um Deus santo a expiação não apresentaria problema algum. É a santidade do amor de Deus que torna necessária a cruz expiadora. . .43

Essa visão do santo amor de Deus nos livrará das suas caricaturas. Não devemos retratá-lo nem como um Deus indulgente que compro­mete sua santidade a fim de nos poupar, nem como um Deus duro e vingativo que suprime o seu amor a fim de nos destruir. Como, pois, pode Deus expressar sua santidade sem nos consumir, e o seu amor sem tolerar os nossos pecados? Como pode Deus satisfazer ao seu santo amor? Como pode ele nos salvar e satisfazer a si mesmo simultaneamente? Respondemos a esta altura que, a fim de satisfazer a si mesmo, ele sacrificou — deveras substituiu-a si mesmo por nós. O significado desse sacrifício e substituição é o assunto do próximo capítulo.

6
A Auto-Substituição de Deus

 

Focalizamos o problema do perdão na gravidade do pecado e na majestade de Deus, isto é, nas realidades de quem somos e de quem ele é. Como pode o santo amor de Deus confrontar-se com a pecaminosa falta de santidade do homem? O que aconteceria se hou­vesse uma colisão entre eles? O problema não está fora de Deus; está dentro de seu próprio ser. Visto que Deus jamais se contradiz, ele deve ser ele mesmo e deve “satisfazer-se” a si mesmo, agindo em coerência absoluta com a perfeição do seu caráter. “É o reconheci­mento desta necessidade divina, ou o fracasso em reconhecê-la”, es­creveu James Denney, “que em última instância divide os intérpretes do Cristianismo em evangélicos e não evangélicos, aqueles que são fiéis ao Novo Testamento e aqueles que não o podem digerir.”1

Além do mais, como já vimos, essa necessidade interior não sig­nifica que Deus deve ser fiel a apenas uma parte de si mesmo (quer à sua lei de honra, quer à lei da justiça), nem que deve exprimir um de seus atributos (quer o amor, quer a santidade) a expensas de outro; antes, que deve ser completa e invariavelmente ele mesmo na ple­nitude de seu ser moral. T. J. Crawford acentuou esse ponto: “É erro total. . . supor que Deus age em certa época de acordo com um de seus atributos, e em outra de acordo com outro. Ele age em confor­midade com todos eles em todos os tempos. . . Quanto à justiça divina e à misericórdia divina em particular, o fim de sua (de Cristo) obra não foi harmonizá-las, como se estivessem em oposição uma à outra, mas em conjunto manifestá-las e glorificá-las na redenção dos peca­dores. É um caso de ação combinada, e não contra-ação, da parte desses atributos, que foi demonstrada na cruz.”2

Como, pois, podia Deus expressar simultaneamente sua santidade no juízo e seu amor no perdão? Somente providenciando um subs­tituto divino pelo pecador, de modo que o substituto recebesse o juízo, e o pecador o perdão. É claro que nós, pecadores, ainda temos de sofrer algumas das conseqüências pessoais, psicológicas e sociais de nossos pecados, mas a conseqüência penal, a penalidade merecida da alienação de Deus foi levada por Outro em nosso lugar, de modo que não necessitássemos suportá-la. Não encontrei uma afirmação mais cuidadosa da natureza substitutiva da expiação do que a feita por Charles E. B. Cranfield em seu comentário sobre Romanos. Embora ela resuma a conclusão em cuja direção se encaminha este capítulo, pode ser útil citá-la perto do começo para que conheçamos o rumo que estamos tomando. A citação faz parte do comentário do Dr. Cran­field sobre Romanos 3:25. Escreve ele:

Deus, porque em sua misericórdia desejou perdoar aos homens pecadores, e, sendo verdadeiramente misericor­dioso, desejou perdoá-los justamente, isto é, sem acoitar o pecado, teve o propósito de dirigir contra seu próprio ser, na pessoa de seu Filho, o peso total dessa ira justa a qual eles mereciam.

As questões vitais que agora nos deve tomar a atenção são as se­guintes: quem é esse “substituto”? E como podemos entender e jus­tificar a noção de ter ele substituído a si mesmo por nós? A melhor maneira de tratarmos destas perguntas é através de um exame dos sacrifícios do Antigo Testamento, visto que eram a preparação pla­nejada por Deus para o sacrifício de Cristo.

 

O sacrifício no Antigo Testamento

“A interpretação da morte de Cristo como um sacrifício está im­plantada em todos os ensinos importantes do Novo Testamento.”3 Faz-se menção a ele em muitos lugares. Às vezes a referência é direta, como na afirmação de Paulo de que Cristo “se entregou a si mesmo por nós, como oferta (prosphora) e sacrifício (thysia) a Deus” (Efésios 5:2). Em outras passagens a alusão é menos direta, simplesmente que Cristo “se entregou a si mesmo” (e.g. Gálatas 1:4) ou “a si mesmo se ofereceu” (e.g. Hebreus 9:14) por nós, mas o contexto ainda é o do sistema sacrificial do Antigo Testamento. Em particular, a observação de que ele morreu “no tocante ao pecado” ou “pelos pecados” (e.g. Romanos 8:3, e 1 Pedro 3:18) toma emprestada a tradução grega de “oferta pelo pecado” (peri hamartias). Deveras, a carta aos Hebreus retrata o sacrifício de Jesus Cristo como tendo cumprido perfeitamente as “sombras” do Antigo Testamento. Pois ele se sacrificou a si mesmo (não a animais), de uma vez por todas (não repetidamente), e assim assegurou-nos não apenas a purificação cerimonial e a restauração à comunidade da aliança, mas também a purificação de nossa cons­ciência e a restauração à comunhão com o Deus vivo.

Entretanto, o que significavam os sacrifícios do Antigo Testamento? Possuíam eles significado substitutivo? Na resposta a essas perguntas não devemos cometer o erro de voltar-nos primeiro aos estudos an­tropológicos. É certo que sacerdotes, altares e sacrifícios parecem ter sido um fenômeno universal no mundo antigo, mas não temos o direito de supor a priori que os sacrifícios dos hebreus e os dos pagãos possuíam significado idêntico. Podem ter tipo uma origem comum na revelação de Deus a nossos ancestrais mais primitivos. Mas seria mais coerente com um reconhecimento do status especial da Escritura dizer que os israelitas (apesar de seus deslizes) preservaram a subs­tância do propósito original de Deus, ao passo que os sacrifícios pa­gãos eram corrupções degeneradas dele.

No Antigo Testamento os sacrifícios eram oferecidos em diversas e variadas circunstâncias. Por exemplo, eram associados à penitência e à celebração, à necessidade nacional, à renovação da aliança, à festividade familiar e à consagração pessoal. Essa diversidade adverte-nos contra a imposição sobre eles de uma significação simples ou única. Entretanto, parece realmente ter havido duas noções básicas e complementares do sacrifício na revelação divina no Antigo Testa­mento, sendo cada uma associada com ofertas particulares. A primeira expressava o sentido em que os seres humanos pertencem a Deus por direito, e a segunda seu sentido de alienação de Deus por causa do seu pecado e culpa. Características da primeira eram a oferta “pa­cífica” ou de “comunhão” freqüentemente associada com as ações de graça (Levítico 7:12), a oferta queimada (na qual tudo era consumido) e o ritual das três festas anuais da colheita (Êxodo 23:14-17). Carac­terísticas da segunda eram a oferta pelo pecado e a pela culpa, na qual se reconhecia claramente a necessidade de expiação. Seria in­correto fazer distinção entre esses dois tipos de sacrifícios como se representassem respectivamente a aproximação do homem a Deus (oferecendo dádivas, muito menos subornos com o fim de assegurar o seu favor) e a aproximação de Deus ao homem (oferecendo perdão e reconciliação). Pois ambos os tipos de sacrifício eram essencialmente reconhecimentos da graça de Deus e expressões de dependência dela. Seria melhor distingui-los, como o fez B. B. Warfield, vendo no pri­meiro o “homem concebido meramente como criatura” e no último “as necessidades do homem como pecador”. Ou, a fim de elaborar a mesma distinção, no primeiro o ser humano é “uma criatura que pede proteção”, e no segundo “um pecador que anseia pelo perdão”.4 Assim, pois, por um lado os sacrifícios revelam Deus como o Cria­dor, de quem depende a vida física do homem, e por outro como simultaneamente o Juiz que exige a expiação pelo pecado e o Salvador que a prove. Destes dois tipos de sacrifício reconhecia-se ainda que o último é o fundamento do primeiro, pois a reconciliação com nosso Juiz é necessária mesmo antes da adoração do nosso Criador. E, por­tanto, significativo que, por ocasião da purificação do templo realizada por Ezequias, a oferta pelo pecado “de todo o Israel” tenha sido feita antes da oferta queimada (2 Crônicas 29:20-24). Além disso, é possível que possamos discernir os dois tipos de oferta nos sacrifícios de Caim e Abel, embora ambos sejam denominados minha, uma oferta volun­tária. O motivo por que o de Caim foi rejeitado, somos informados, foi que ele não respondeu com fé, como Abel, à revelação de Deus (Hebreus 11:4). Em contraste com a vontade revelada de Deus, ou ele colocou a adoração antes da expiação ou, na sua apresentação dos frutos do solo, distorceu o reconhecimento das dádivas do Criador em oferta própria.

A noção de substituição é que uma pessoa toma o lugar de outra, especialmente a fim de levar sua dor e livrá-la dela. Tal ação é uni­versalmente vista como nobre. É bom poupar dor às pessoas; é du­plamente bom fazê-lo ao custo de levá-la sobre si mesma. Admiramos o altruísmo de Moisés em estar disposto a ter o nome apagado do livro de Yavé se tão-somente com esse gesto Israel fosse perdoado (Êxodo 32:32). Respeitamos também um desejo quase idêntico ex­pressado por Paulo (Romanos 9:1-4), e sua promessa de pagar as dívidas de Onésimo (Filemom 18-19). Da mesma forma, em nosso século, não podemos deixar de nos comover com o heroísmo de Ma-ximilian Kolbe, um franciscano polonês, no acampamento de con­centração de Auschwitz. Quando vários prisioneiros foram sele­cionados para execução, e um deles gritou que era casado e tinha filhos, “Kolbe deu um passo à frente e perguntou se podia tomar o lugar do condenado. As autoridades aceitaram a sua oferta, e ele foi abandonado numa cela subterrânea para morrer de fome”.5

De modo que não é de surpreender que esse princípio comumente compreendido da substituição tivesse sido aplicado pelo próprio Deus aos sacrifícios. Abraão “ofereceu em holocausto, em lugar de seu filho”, o carneiro que Deus havia providenciado (Gênesis 22:13). Moi­sés determinou que, no caso de um assassínio não solucionado, os anciãos da cidade deviam primeiro declarar sua própria inocência e a seguir oferecer uma novilha em lugar do assassino desconhecido (Deuteronômio 21:1-9). Miquéias evidentemente compreendia bem o princípio substitutivo, pois falou de como devia apresentar-se perante Yavé, e perguntou a si mesmo se devia levar ofertas queimadas, animais, ribeiros de azeite ou até mesmo “o meu primogênito pela minha transgressão? o fruto do meu corpo pelo pecado da minha alma?” O fato de ele ter dado a si mesmo uma resposta moral em vez de ritual, e especialmente o fato de ele ter rejeitado a horrorosa idéia de sacrificar seu próprio filho em lugar de si mesmo, não significa que ele tenha rejeitado o princípio substitutivo do Antigo Testamento, embutido no sistema sacrificial (Miquéias 6:6-8).

Esse elaborado sistema provia a subsistência das ofertas diárias, semanais, mensais, anuais e ocasionais. Incluía também cinco tipos principais de ofertas, que são apresentadas com detalhes nos pri­meiros capítulos de Levítico, a saber, a queimada, a de cereal, a de paz, a pelo pecado e a pela culpa. Visto que a oferta de cereal consistia em trigo e azeite, em vez de carne e sangue, era atípica e, portanto, feita em associação com uma das outras. As quatro restantes eram sacrifícios de sangue e, embora houvesse algumas diferenças entre elas (com relação a sua ocasião própria e ao uso preciso da carne e do sangue), todas partilhavam o mesmo ritual básico que requeria o adorador e o sacerdote. Era muito vivido. O adorador trazia a oferta, colocava a mão ou as mãos sobre a oferta e a matava. Então o sacerdote aplicava o sangue, queimava parte da carne, e dispunha para o con­sumo do que sobrava. Este era um importante simbolismo, não uma magia sem sentido. Ao colocar as mãos sobre o animal, o ofertante certamente se estava identificando com ele e “solenemente” desig­nando “a vítima como estando em seu lugar”.6 Alguns eruditos vão mais longe e vêem a imposição das mãos como “uma transferência simbólica dos pecados do adorador ao animal”,7 o que era explicita­mente verídico no caso do bode expiatório, de que trataremos mais adiante. Em qualquer dos casos, o animal substituto, tendo tomado o lugar do ofertante, era morto em reconhecimento de que a pena­lidade do pecado era a morte, seu sangue (simbolizando que a morte havia sido realizada) era aspergido, e a vida do ofertante era poupada.

A observação mais clara de que os sacrifícios de sangue do ritual do Antigo Testamento possuíam significado substitutivo, entretanto, e que por causa desse significado o derramamento e a aspersão do sangue eram indispensáveis à expiação, encontra-se nesta afirmativa, feita por Deus, ao explicar a proibição de comer o sangue:

Porque a vida da carne está no sangue. Eu vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas almas: porquanto é o sangue que fará expiação em virtude da vida (Levítico 17:11).

Esse texto faz três importantes afirmações acerca do sangue. Pri­meira, o sangue é o símbolo da vida. A compreensão de que “sangue é vida” parece ser muito antiga. Volta pelo menos até a época de Noé, a quem Deus proibiu comer carne “com seu sangue” (Gênesis 9:4), e essa proibição mais tarde foi repetida na fórmula “o sangue é a vida” (Deuteronômio 12:23). A ênfase, contudo, não era sobre o sangue que corre nas veias, o símbolo da vida sendo vivida, mas sobre o sangue derramado, o símbolo da vida terminada, geralmente por meios violentos.

Segunda, o sangue faz expiação, e o motivo de seu significado expiador é dado na repetição da palavra “vida”. É somente porque “a vida da carne está no sangue” que “é o sangue que fará expiação em virtude da vida”. Uma vida é poupada; outra vida é sacrificada no seu lugar. O que torna a expiação “sobre o altar” é o derramamento do sangue substitutivo. T. J. Crawford expressou-o bem: “O texto, portanto, segundo sua importância clara e óbvia, ensina a natureza viçaria do ritual do sacrifício. Dava-se vida por vida, a vida da vítima pela vida do ofertante”, deveras, “a vida da vítima inocente pela vida do ofertante pecador”.8

Terceira, Deus deu o sangue com esse propósito expiador. “Eu vo-lo tenho dado”, diz ele, “sobre o altar para fazer expiação pelas vossas almas”. Assim, devemos pensar no sistema sacrificial como dado por Deus, e não feito pelo homem, e nos sacrifícios individuais não como um recurso humano para aplacar a Deus, mas como um meio de expiação providenciado pelo próprio Deus.

Essa perspectiva do Antigo Testamento ajuda-nos a compreender dois textos cruciais da carta aos Hebreus. O primeiro é que “sem derramamento de sangue não há remissão” (9:22), e o segundo que “é impossível que sangue de touros e de bodes remova pecados” (10:4). Não haver perdão sem sangue significa não haver expiação sem substituição. Tinha de haver vida por vida ou sangue por sangue. Mas os sacrifícios de sangue do Antigo Testamento não passavam de sombras; a substância era Cristo. Para que um substituto seja eficaz, deve ser um equivalente adequado. O sacrifício de animais não podia expiar os seres humanos porque “mais vale um homem do que uma ovelha” (Mateus 12:12). Somente o “precioso. . . sangue de Cristo” tinha valor suficiente (1 Pedro 1:19).

 

A Páscoa e o “tirar o pecado”

Voltamo-nos agora do princípio da substituição, como visto no que o Antigo Testamento diz acerca do sacrifício de sangue em geral, a dois exemplos particulares desse sacrifício, a saber, a Páscoa e o con­ceito do “tirar o pecado”.

Começar com a Páscoa é apropriado por duas razões. A primeira é que a Páscoa original marcou o princípio da vida nacional de Israel. “Este mês vos será o principal dos meses”, Deus lhes havia dito, “será o primeiro mês do ano” (Êxodo 12:2). Devia inaugurar o calendário anual deles porque nesse mês Deus os redimira do longo e opressivo cativeiro egípcio, e porque o êxodo os levara à renovação da aliança de Deus com eles no monte Sinai. Mas antes do êxodo e da aliança vinha a Páscoa. Deviam celebrar esse dia “como solenidade ao Senhor: nas vossas gerações o celebrareis por estatuto perpétuo” (12:14, 17).

A segunda razão para iniciar aqui é que o Novo Testamento cla­ramente identifica a morte de Cristo com o cumprimento da Páscoa, e a emergência de sua comunidade nova e redimida com o novo êxodo. Não é somente por ter João Batista apresentado a Jesus como “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (João 1:29, 36),9 nem apenas pelo fato de que, segundo a cronologia do fim, Jesus estava pendurado na cruz no momento preciso em que o cordeiro da Páscoa era morto,10 nem também porque no livro do Apocalipse ele é adorado como o Cordeiro que foi morto e que, por meio do seu sangue, comprou os homens para Deus.11 É, de modo especial, pelo que Paulo categoricamente declara: “Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado. Por isso celebramos a festa. . .” (1 Coríntios 5:7, 8).

O que, pois, aconteceu na primeira Páscoa? E o que isso nos diz acerca de Cristo, nosso cordeiro pascal?

A história da Páscoa (Êxodo 11—13) é uma auto-revelação do Deus de Israel em três papéis. Primeiro, Yavé revelou-se como Juiz. O cenário foi a ameaça da praga final. Moisés devia advertir a Faraó nos termos mais solenes de que à meia-noite o próprio Yavé passaria através do Egito e feriria todo primogênito. Não haveria discriminação entre os seres humanos e os animais, nem entre as diferentes classes sociais. Todo primogênito masculino morreria. Haveria apenas um meio de escape, determinado e provido pelo próprio Deus.

Segundo, Yavé revelou-se como o Redentor. No dia dez do mês cada casa israelita devia escolher um cordeiro (macho de um ano de idade, sem defeito), e no crepúsculo da tarde do dia quatorze matá-lo. Então deviam tomar do sangue do cordeiro, molhar nele um ramo de hissopo e aspergi-lo na verga e em ambas as ombreiras da porta da frente. Não deviam sair de casa toda aquela noite. Tendo derra­mado e aspergido o sangue, deviam refugiar-se sob ele. Pois Yavé, que já havia anunciado a intenção de “passar pelo” Egito em juízo, agora acrescentava sua promessa de “passar por cima” de cada casa marcada com o sangue, a fim de protegê-la da destruição por ele ameaçada.

Terceiro, Yavé revelou-se como o Deus da aliança de Israel. Ele os havia redimido a fim de torná-los seu próprio povo. De modo que quando ele os salvou de seu próprio juízo, deviam comemorar e celebrar a bondade divina. Na noite da páscoa deviam banquetear-se com o cordeiro assado, com ervas amargas e pão não levedado, e deviam fazê-lo com os lombos cingidos, as sandálias nos pés e o cajado na mão, prontos a qualquer momento para a sua salvação. Alguns aspectos da refeição falava-lhes da sua opressão (e.g. ervas amargas), e outros, da sua libertação (e.g. sua vestimenta). Então em cada ani­versário o festival devia durar sete dias, e deviam explicar aos seus filhos o que significava toda a cerimônia: “É o sacrifício da páscoa ao Senhor que passou por cima das casas dos filhos de Israel no Egito, quando feriu os egípcios e livrou as nossas casas.” Além da celebração da qual participaria toda a família, devia haver também um rito es­pecial para os filhos primogênitos. Eram eles que haviam sido pes­soalmente salvos da morte pela morte do cordeiro da páscoa. Assim redimidos, pertenciam de um modo especial a Yavé que os havia comprado com o sangue, e portanto deviam ser consagrados ao seu serviço.

A mensagem deve ter sido absolutamente clara aos israelitas; é igualmente clara a nós que vemos o cumprimento da páscoa no sa­crifício de Cristo. Primeiro, o Juiz e Salvador são a mesma pessoa. Foi o Deus que “passou através” do Egito a fim de julgar os primo­gênitos, que “passou por cima” das casas dos israelitas a fim de protegê-los. Jamais devemos caracterizar o Pai como Juiz e o Filho como Salvador. É o mesmo Deus que por intermédio de Cristo nos salva de si mesmo. Segundo, a salvação foi (e o é) por meio da subs­tituição. Os únicos primogênitos poupados foram aqueles em cujas famílias um cordeiro tinha morrido em seu lugar. Terceiro, o sangue do cordeiro, depois de derramado, devia ser aspergido. Devia haver uma apropriação individual da provisão divina. Deus tinha de “ver o sangue” antes de salvar a família. Quarto, cada família salva por Deus era, pois, comprada para Deus. A vida toda deles agora per­tencia a ele. A mesma coisa acontece com a nossa. E a consagração conduz à celebração. A vida dos redimidos é um banquete, ritual­mente expresso na Eucaristia, o festival cristão de ações de graça, como examinaremos com maiores detalhes no capítulo 10.

O segundo exemplo maior do princípio da substituição é a noção de “levar o pecado”. No Novo Testamento lemos a respeito de Cristo que ele mesmo carregou “em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados” (1 Pedro 2:24), e de igual forma que foi “oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos” (Hebreus 9:28). Mas o que significa “levar o pecado”? Deve ser a expressão compreendida em termos de levar a penalidade do pecado, ou pode ser interpretada de outras maneiras? E está a “substituição” necessariamente relacio­nada com o “levar o pecado”? Se assim for, que tipo de substituição tem-se em mente? Pode ela referir-se somente ao substituto inocente, provido por Deus e que toma o lugar do partido culpado e sofre a penalidade no seu lugar? Ou há tipos alternativos de substituição?

Nos últimos cem anos fizeram-se muitas tentativas engenhosas para reter-se o vocabulário da “substituição”, enquanto se rejeitava a “substituição penal” (“penal” vem de poena, penalidade ou castigo). A origem dessas tentativas pode ser traçada ao protesto de Abelardo contra Anselmo no século doze, e ainda mais à rejeição escarnecedora da parte de Socinus da doutrina dos reformadores, no século dezes­seis. Em seu livro De Jesu Christo Servatore (1578) Faustus Socinus negou não somente a divindade de Jesus mas também toda a idéia de “satisfação” na sua morte. A noção de que a culpa pode ser trans­ferida de uma pessoa para outra,12 dizia ele, era incompatível tanto com a razão quanto com a justiça. Não somente era impossível, mas também desnecessária. Pois Deus é perfeitamente capaz de perdoar os pecadores sem ela. Ele os conduz ao arrependimento, e assim, os torna perdoáveis.

A obra de John McLeod Campbell intitulada A Natureza da Expiação (1856) segue a mesma tradição geral. Cristo veio a fim de fazer a vontade de Deus, escreveu ele, e em particular levar os pecados dos homens. Entretanto, não no sentido tradicional, mas de duas outras maneiras. Primeiro, ao labutar com os homens em favor de Deus, os sofrimentos de Cristo não foram “sofrimentos penais suportados a fim de cumprir uma exigência da justiça divina”, mas “os sofrimentos do amor divino sofrendo por nossos pecados segundo sua própria natureza”.13 Segundo, ao lidar com Deus em favor dos homens, a “satisfação” devida à justiça divina tomou a forma de “uma confissão perfeita de nossos pecados”. Desse modo Cristo reconheceu a justiça da ira divina contra o pecado, “e nessa resposta perfeita ele a absorve”. Ele era de tal maneira um com Deus que foi “cheio do sentido da condenação justa de nosso pecado por parte do Pai”, e de tal modo a ponto de “responder com um perfeito Amém a essa condenação”. Desse modo o “levar o pecado” dissolveu-se em simpatia, a satis­fação” em pesar pelo pecado, e a “substituição” em penitência vicária, em vez de castigo vicário.

Dez anos mais tarde, publicou-se O Sacrifício Vicário, de Horace Bushnell. Ele, à semelhança de McLeod Campbell, rejeitou a substi­tuição “penal”. Contudo, a morte de Jesus foi “vicária” ou “substi­tutiva” no sentido em que ele levou a nossa dor em vez de nossa penalidade. Pois “o próprio amor é em essência um princípio vicário”, diz Busnell. Conseqüentemente, o amor de Deus entrou através da encenação e ministério público de Jesus (não apenas pela sua morte) em nossos pesares e sofrimentos, e os “levou” no sentido de ter-se identificado com eles e sentido um fardo por eles. Diz Bushnell: “Há uma cruz em Deus antes de o madeiro ser visto no Calvário.” Esse sacrifício amoroso de Deus em Cristo — expresso em seu nascimento, vida e morte — é “o poder de Deus para a salvação” por causa da sua influência inspiradora sobre nós. Agora Cristo pode “tirar-nos dos nossos pecados. . . e assim, de nossas penalidades”. É dessa forma que o Cordeiro de Deus tira os nossos pecados. “Expiação. . . é uma mudança operada em  nós, uma mudança pela qual somos reconciliados com Deus”. Mas a “expiação subjetiva” (isto é, a mu­dança em nós) vem primeiro, e somente então “Deus é objetivamente propiciado”.

R. C. Moberly desenvolveu idéias parecidas em seu livro Expiação e Personalidade (1901). Ele rejeitou todas as categorias forenses com relação à cruz, e em particular toda idéia de castigo retributivo. Ele ensinou que a penitência (operada em nós pelo Espírito do Crucifi­cado) primeiro nos torna “perdoáveis” e a seguir, santos. Pode-se dizer que Cristo tomou o nosso lugar somente em termos de peni­tência vicária, não de penalidade vicária.

A tentativa desses teólogos  de reter a linguagem da substituição e do levar o pecado, enquanto mudam o seu significado, deve ser con­siderada como um fracasso. Gera mais confusão do que clareza. Oculta aos incautos que há uma diferença fundamental entre “substituição penitente” (na qual o substituto oferece o que não poderíamos) e “substituição penal” (na qual ele leva o que não podíamos levar). Eis a definição que o Dr. J. I. Parker dá desta última. É a noção de

que Jesus Cristo nosso penhor, movido por um amor que estava decidido a fazer tudo o que fosse para nos salvar, suportou e esgotou o juízo divino destrutivo para o qual de outra forma estávamos inescapavelmente destinados, e assim ganhou para nós o perdão, a adoção e a glória. Afir­mar a substituição penal é dizer que os crentes estão em dívida para com Cristo especialmente por isto, e que é esta a fonte principal de toda a sua alegria, paz e louvor, tanto agora quanto na eternidade.14

A questão essencial, contudo, refere-se ao modo como os próprios autores bíblicos empregaram a linguagem do “levar o pecado”.

O uso que se faz dessa expressão no Antigo Testamento deixa claro que “levar o pecado” não significa nem simpatizar-se com os peca­dores, nem se identificar com a sua dor, nem expressar sua penitência, nem ser perseguido por causa da pecaminosidade humana (como outros têm argumentado), nem mesmo sofrer as conseqüências do pecado em termos pessoais ou sociais, mas especificamente suportar suas conseqüências penais, sofrer a sua penalidade. A expressão apa­rece com mais freqüência nos livros de Levítico e de Números e refere-se àquele que peca, quebrando as leis de Deus, que “levará a sua iniqüidade”. Isto é, será tido como responsável ou sofrerá pelos seus pecados. Às vezes o texto não dá lugar a dúvidas, especificando a penalidade: o ofensor deve ser “eliminado do seu povo” {isto é, ex­comungado) e até, por exemplo no caso de blasfêmia, ser morto.15

É nesse contexto de levar o pecado que se percebe a possibilidade de alguém mais sofrer a penalidade do erro do pecador. Por exemplo, Moisés disse aos israelitas que os seus filhos teriam de vagar pelo deserto, levando sobre si as “vossas iniqüidades” (Números 14:34); se um homem casado falhasse em anular um voto insensato ou um voto feito pela esposa, então (estava escrito) “responderá pela obri­gação dela” (Números 30:15), ou dizendo de modo mais simples: “levará a iniqüidade dela”; repito, depois da destruição de Jerusalém em 586 a.C, o restante que permaneceu nas ruínas disse: “Nossos pais pecaram, e já não existem; nós é que levamos os castigo das suas iniqüidades” (Lamentações 5:7).

Esses são exemplos de levar o pecado involuntário e vicário. Em todos os casos pessoas inocentes se encontraram sofrendo as conse­qüências da culpa de outros. Contudo, usava-se a mesma fraseologia quando se referia ao vicário ato de levar o pecado. Então introduziu-se a noção de substituição deliberada, e dizia-se que o próprio Deus provia o substituto, como na época em que instruiu Ezequiel a deitar-se, e em dramático simbolismo levar “sobre ti a iniqüidade da casa de Israel” (Ezequiel 4:4, 5). A oferta pelo pecado também era apre­sentada em termos de levar o pecado. A respeito dessa oferta, disse Moisés aos filhos de Arão: “o Senhor a deu a vós outros, para levardes a iniqüidade da congregação, para fazerdes expiação por eles diante do Senhor” (Levítico 10:17).

Mais claro ainda era o ritual anual do Dia da Expiação. O sumo sacerdote devia tomar “dois bodes para a oferta pelo pecado” a fim de expiar os pecados da comunidade israelita como um todo (Levítico 16:5). Um bode devia ser sacrificado e seu sangue aspergido da ma­neira usual, ao passo que sobre a cabeça do bode vivo o sumo sacer­dote devia pôr ambas as mãos e confessar “todas as iniqüidades dos filhos de Israel, todas as suas transgressões e todos os seus pecados: e os porá sobre a cabeça do bode” (v. 21). Então ele devia enviar o bode ao deserto, e o bode levaria “sobre si todas as iniqüidades deles para terra solitária” (v. 22). Alguns comentaristas cometem o erro de colocar uma cunha entre os dois bodes, o sacrificado e o de escape, menosprezando o fato de que os dois juntos são descritos como “oferta pelo pecado” no singular (v. 5). Talvez T. J. Crawford tivesse razão em sugerir que cada um deles incorporava um aspecto diferente do mesmo sacrifício, “um exibia os meios, e o outro os resultados, da expiação”.16 Nesse caso a proclamação pública do Dia da Expiação era clara, a saber, que a reconciliação era possível somente através do levar o pecado substitutivo. O autor da carta aos Hebreus não hesita em ver Jesus tanto como “misericordioso e fiel sumo sacerdote” (2:17) quanto como as duas vítimas, o bode sacrificado cujo sangue era levado para o Santo dos Santos (9:7,12) e o bode expiatório que tirava os pecados do povo (9:28).

Embora a oferta pelo pecado e o bode expiatório tivessem, de modos diferentes, um papel único de tirar o pecado, pelo menos os israelitas mais inclinados às coisas espirituais devem ter percebido que um animal não pode ser um substituto satisfatório para o ser humano. Assim, nos famosos “cânticos do servo” na segunda parte de Isaías, o profeta começou a delinear alguém cuja missão abarcaria as nações, e que, a fim de cumpri-la, necessitaria sofrer, levar o pecado e morrer. Mateus aplica a Jesus o primeiro cântico acerca da mansidão e gen­tileza do ministério do servo,17 e Pedro, em seus primeiros discursos, quatro vezes chama a Jesus de “servo” de Deus ou “santo servo”.18

Mas é o capítulo 53 de Isaías, que descreve em particular o sofri­mento e a morte do servo, que é aplicado sistematicamente a Jesus Cristo. “Nenhuma outra passagem do Antigo Testamento”, escreveu Joachim Jeremias, “era tão importante para a Igreja quanto Isaías 53.19 Os escritores do Novo Testamento citam oito versículos específicos como tendo cumprimento em Jesus. O versículo 1 (“Quem creu em nossa pregação?”) é aplicado a Jesus por João (12:38). Mateus vê a afirmação do versículo 4 (“ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si”) como cumprida no ministério de curas de Jesus (8:17). Que nos desgarramos como ovelhas (v. 6), mas que pelas suas pisaduras fomos sarados (v. 5) têm eco em Pedro (1 Pedro 2:22-25), e também o têm os versículos 9 (“nem dolo algum se achou em sua boca”) e 11 (“as iniqüidades deles levará sobre si”). Então os versículos 7 e 8, acerca de Jesus ser levado como ovelha para o matadouro e ser privado de justiça e vida, eram os versículos que o eunuco etíope lia em sua carruagem, os quais levaram Filipe a contar-lhe as boas-novas acerca de Jesus (Atos 8:30-35). Assim os versículos 1, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e 11 — ao todo oito versículos dos 12 que perfazem o capítulo — referem-se especificamente a Jesus.

Estudiosos dos Evangelhos têm detectado numerosas referências que o próprio Jesus faz, às vezes usando apenas uma única palavra, a Isaías 53. Por exemplo, ele disse que seria “rejeitado”,20 “tirado”21 e “contado com os malfeitores”.22 Ele também seria “enterrado” como um criminoso sem a unção preparatória, de modo que (explicou ele) Maria de Betânia lhe deu uma unção antecipada, a fim de prepará-lo para o sepulcro.23 Outras alusões podem muito bem ter sido a sua descrição do valente que “divide os despojos”,24 seu silêncio delibe­rado diante dos juizes,25 sua intercessão pelos transgressores26 e o entregar a vida pelos outros.27 Se as passagens acima forem aceitas, então todo o capítulo 12, com exceção do versículo 2 (“nenhuma beleza havia que nos agradasse”) é aplicado a Jesus no Novo Testa­mento, alguns várias vezes. Deveras, há boa evidência de que toda a sua carreira pública, a começar no seu batismo, passando pelos seus sofrimentos e morte, a sua ressurreição e ascensão, é vista como cumprimento do padrão predito em Isaías 53. Oscar Cullmann tem argumentado que no batismo Jesus deliberadamente fez-se um com aqueles cujos pecados ele viera levar, que sua resolução de “cumprir toda a justiça” (Mateus 3:15) era uma determinação de ser o “servo justo” de Deus, que, mediante sua morte para levar o pecado, jus­tificaria a muitos (Isaías 53:11), e que a voz do Pai ouvida do céu, declarando comprazer-se no Filho, também o identificou com o servo (Isaías 42:1).28 Da mesma forma, Vincent Taylor ressaltou que já no primeiro sermão apostólico do capítulo 2 de Atos o “conceito domi­nante é o do servo, humilhado na morte e exaltado. . .”29 Mais re­centemente, o professor Martin Hengel, de Tübingen, chegou à mesma conclusão, argumentando que esse uso de Isaías 53 deve voltar à mente do próprio Jesus.30

Até aqui o meu propósito quanto a Isaías tem sido mostrar quão fundamental é o capítulo à compreensão que o Novo Testamento tem de Jesus. Deixei para o final suas duas afirmações mais importantes, as quais focalizam a natureza expiatória de sua morte. A primeira é a “afirmação de resgate”: “Pois o próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Marcos 10:45). Aqui Jesus une as profecias divergentes do “Filho do homem” e do “servo”. O Filho do homem viria “com as nuvens do céu” e todas as nações o serviriam (Daniel 7:13-14), ao passo que o Servo não seria servido, mas serviria, e completaria o seu serviço através do sofrimento, especialmente dando a sua vida como resgate em lugar de muitos. Era somente por meio do serviço que ele seria servido, somente pelo sofrimento que ele entraria na sua glória. O segundo texto pertence à instituição da Ceia do Senhor, quando Jesus declarou que seu sangue seria “derramado em favor de mui­tos”,31 um eco de Isaías 53:12: “derramou a sua alma na morte”.32 Além do mais, ambos os textos dizem que ele ou daria a sua vida ou derramaria o seu sangue “em favor de muitos”, o que de novo faz eco a Isaías 53:12: “levou sobre si o pecado de muitos”. Alguns têm-se embaraçado por causa da natureza aparentemente restritiva dessa expressão. Mas Joachim Jeremias argumentou que, segundo a inter­pretação judaica pré-cristã, “os muitos” eram os “sem Deus tanto entre os judeus quanto os gentios”. A expressão, portanto, não “é exclusiva (‘muitos, mas não todos’) mas, no modo de falar semítico, inclusiva (‘a totalidade, consistindo de muitos’), que era “um conceito (messiânico) desconhecido no pensamento rabínico contemporâ­neo.”33

Parece assim definido, além de toda dúvida, que Jesus aplicou Isaías 53 a si mesmo e que compreendia a sua morte à luz dessa passagem como uma morte expiatória. Como o “servo justo” de Deus, ele seria capaz de “justificar a muitos”, porque ia “levar o pecado de muitos”. É este o cerne de todo o capítulo, não apenas que seria desprezado e rejeitado, oprimido e aflito, levado como uma ovelha para o ma­tadouro e cortado da terra dos viventes, mas, em particular, que seria trespassado pelas nossas transgressões, que o Senhor poria sobre ele as iniqüidades de nós todos, que assim seria contado com os trans­gressores, e que ele próprio levaria as iniqüidades deles. “O cântico faz doze afirmativas distintas e explícitas”, escreveu J. S. Whale, “que o servo sofre a penalidade dos pecados de outros homens: não somente sofrimento vicário, mas substituição penal é o significado claro dos versículos quatro, cinco e seis.”34

A luz dessa evidência acerca da natureza expiatória da morte de Jesus, agora sabemos como interpretar a simples afirmativa de que ele “morreu por nós”. A preposição “por” é tradução de hyper (“em favor de”) ou anti (“em lugar de”). A maioria das referências contém hyper. Por exemplo: “Deus prova o seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Romanos 5:8), e de novo: “um morreu por todos” (2 Coríntios 5:14). Anti aparece somente nos versículos de resgate, a saber, em Marcos 10:45 (literalmente: “para dar a sua vida como um resgate em lugar de muitos”) e em 1 Timóteo 2:6 (“O qual a si mesmo se deu em resgate por todos”, onde “por” é novamente hyper, mas a preposição anti encontra-se no substantivo, antilytron.

As duas preposições, contudo, nem sempre permanecem fiéis ao sentido que lhes dá o dicionário. Até mesmo a palavra mais abran­gente hyper (“em favor de”) muitas vezes é, como demonstra o con­texto, usada no sentido de anti (“em lugar de”), como, por exemplo, quando se diz que somos “embaixadores em nome de Cristo” (2 Coríntios 5:20), ou quando Paulo queria conservar a Onésimo em Roma a fim de que este o servisse “em lugar de” Filemom, seu amo (Filemom 13). O mesmo sentido está claro nas duas afirmações mais diretas do significado da morte de Cristo nas cartas de Paulo. Uma é que Deus “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós” (2 Coríntios 5:21), e a outra que “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar” (Gálatas 3:13). Alguns comentaristas têm achado difícil aceitar essas afirmativas. Karl Barth referiu-se à primeira como “quase insuportavelmente severa”35 e A. W. F. Blunt descreveu a linguagem da segunda como “quase chocante”.36 Deve-se observar que em ambos os casos Paulo diz que o que aconteceu a Cristo na cruz (“fez pecado”, “fazendo-se maldi­ção”) foi “por nós”, ou em nosso favor ou para o nosso benefício. Mas exatamente o que foi que aconteceu? Aquele que não tinha pe­cado foi “feito pecado por nós”, o que deve significar que levou a penalidade de nosso pecado em nosso lugar, e que nos resgatou da maldição da lei “fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar”, o que deve significar que a maldição da lei que jazia sobre nós por causa da nossa desobediência foi transferida a ele, de modo que foi ele e não nós quem a levou.

Ambos os versículos vão além dessas verdades negativas (que ele levou o nosso pecado e maldição a fim de redimir-nos deles) a ver­dades positivas. Por um lado ele levou a maldição a fim de que pu­déssemos herdar a bênção prometida a Abraão (Gálatas 3:14), e por outro, Deus fez que o Cristo, que não tinha pecado, fosse feito pecado por nós a fim de que “nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Coríntios 5:21). Assim, ambos os versículos indicam que quando somos unidos a Cristo acontece uma misteriosa troca: ele levou a nossa maldição para que possamos receber a sua bênção; ele tornou-se pe­cado com o nosso pecado para que possamos tornar-nos justiça com a sua justiça. Em outro lugar Paulo escreve acerca dessa transferência em termos de “imputação”. Por um lado, Deus recusou-se a “im­putar” a nós os nossos pecados, ou “contá-los” contra nós (2 Coríntios 5:19), com a implicação de que, em vez disso, ele os imputou a Cristo. Por outro lado, Deus imputou a justiça de Cristo a nós.37 Muitos se ofendem com esse conceito e dizem que é artificial e injusto da parte de Deus o arranjar tal transferência. Contudo, a objeção provém de um mal-entendido, que Thomas Crawford esclarece. Imputação, es­creve ele, “de maneira alguma sugere a transferência das qualidades morais de uma pessoa a outra”. Tal coisa seria impossível, e prossegue citando John Owen que “nós mesmos não fizemos nada daquilo que nos é imputado, nem Cristo fez nada do que lhe é imputado”. Seria absurdo e incrível imaginar, continua Crawford, “que a torpeza moral de nossos pecados tivesse sido transferida a Cristo, de modo que o tornasse pessoalmente pecaminoso e merecedor do mal; e que a ex­celência moral da sua justiça nos é transferida, de modo que nos torne pessoalmente justos e louváveis.” Não, o que foi transferido a Cristo não foi qualidades morais, mas conseqüências legais: ele voluntaria­mente aceitou a responsabilidade de nossos pecados. É isso o que significam as expressões “feito pecado” e “feito maldição”. Da mesma forma, “a justiça de Deus” na qual nos transformamos quando es­tamos “em Cristo” não é justiça de caráter e conduta (embora essa cresça dentro de nós mediante a operação do Espírito Santo), antes, é uma posição justa diante de Deus.38

Quando revisamos todo esse material do Antigo Testamento (o derramamento e a aspersão de sangue, a oferta pelo pecado, a páscoa, a significação do “levar o pecado”, o bode expiatório e Isaías 53), e consideramos a sua aplicação neotestamentária à morte de Cristo, somos obrigados a concluir que a cruz foi um sacrifício substitutivo. Cristo morreu por nós. Cristo morreu em nosso lugar. Deveras, como diz J. Jeremias, esse uso de imagens sacrificiais “tem a intenção de expressar o fato de que Jesus morreu sem pecado em substituição por nossos pecados.”39

 

Quem é o substituto?

A questão-chave da qual agora temos de tratar é esta: exatamente quem foi o nosso substituto? Quem tomou o nosso lugar, levou o nosso pecado, tornou-se a nossa maldição, sofreu a nossa penalidade, morreu a nossa morte? É certo que “Deus prova o seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Romanos 5:8). Essa seria a resposta simples, su­perficial. Mas quem foi esse Cristo? Como devemos pensar a respeito dele?

Foi ele apenas homem? Se assim for, como poderia um ser humano substituir a outros seres humanos? Então, foi ele apenas Deus, com a aparência de homem, mas na realidade não sendo o homem que aparentava? Se assim for, como poderia ele representar a humani­dade? Além do mais, como poderia ele ter morrido? Nesse caso, devemos pensar em Cristo não como apenas homem nem como ape­nas Deus, mas antes, como o único Deus-homem que, por causa da sua pessoa singularmente constituída, foi singularmente qualificado para mediar entre Deus e o homem? Nossas respostas a estas questões determinarão se o conceito de expiação substitutiva é racional, moral, plausível, aceitável, e acima de tudo, bíblico. A possibilidade de subs­tituição repousa na identidade do substituto. Portanto, necessitamos examinar com maior profundeza as três explicações que esbocei acima.

A primeira proposta é que o substituto foi o homem Cristo Jesus, visto como ser humano, e concebido como indivíduo separado de Deus e de nós, como um terceiro partido independente. Aqueles que começam com esse a priori expõem-se a compreensões gravemente distorcidas da expiação e assim difamam a verdade da substituição. Têm a tendência de representar a cruz de dois modos, dependendo de a iniciativa ter sido de Cristo ou de Deus. No primeiro caso representam a Cristo como intervindo a fim de pacificar um Deus irado e arrancar dele uma relutante salvação. No outro, atribui-se a Deus a intervenção, o qual então começa a punir ao Jesus inocente em nosso lugar, pecadores culpados, merecedores do castigo. Em ambos os casos Deus e Cristo estão separados: ou Cristo persuade a Deus ou Deus pune a Cristo. O que as duas representações têm em comum é o fato de denegrirem o Pai. Relutando em Sofrer, Deus vitima a Cristo. Relutando ele em perdoar, Cristo o convence a fazê-lo. Ele é visto como um bicho-papão impiedoso cuja ira tem de ser apaziguada, cuja má vontade em agir tem de ser vencida pelo auto-sacrífício amoroso de Jesus.

Interpretações rudes da cruz como essas ainda emergem em alguns de nossos exemplos evangélicos, como acontece quando descrevemos a vinda de Cristo para livrar-nos do juízo de Deus, ou quando o retratamos no bode expiatório que é punido em lugar do verdadeiro culpado, ou como o condutor de eletricidade ao qual a carga letal de energia é desviada.

Há, é claro, alguma justificação na Escritura para ambos os tipos de formulações, ou jamais teriam sido desenvolvidas por cristãos cujo desejo e reivindicação é serem bíblicos.

Assim, diz-se que Jesus Cristo é a “propiciação” de nossos pecados e nosso “advogado” com o Pai (1 João 2:2), o que à primeira vista sugere que ele morreu a fim de aplacar a ira de Deus e agora intercede a fim de persuadi-lo a perdoar-nos. Mas outras partes da Escritura proíbem-nos de interpretar a linguagem da propiciação e advocacia dessa maneira, como veremos no próximo capítulo. A noção inteira de um Cristo compassivo induzindo um Deus relutante a agir em nosso favor soçobra no fato do amor divino. Não houve Umstimmung em Deus, Cristo não assegurou uma mudança de mente ou de co­ração. Pelo contrário, a iniciativa salvadora teve origem nele. Foi por causa da “entraxihável misericórdia de nosso Deus” (Lucas 1:78) que Cristo veio, “por causa do grande amor com que nos amou”,40 “por­quanto a graça de Deus se manifestou salvadora” (Tito 2:11).

Quanto à outra formulação (de que Deus castigou a Jesus pelos nossos pecados), é verdade que os pecados de Israel eram transferidos ao bode expiatório, que “o Senhor fez cair” sobre ele, o seu servo sofredor, a iniqüidade de todos nós (Isaías 53:6), que “ao Senhor agradou moê-lo” (Isaías 53:10), e que Jesus aplicou a si mesmo a profecia de Zacarias de que Deus feriria “o pastor”.41 É também ver­dade que o Novo Testamento diz que Deus “enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados” (1 João 4:9-10), entregou-o por nós,42 “a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação” (Ro­manos 3:25), “condenou Deus, na carne, o pecado” (Romanos 8:3), e “o fez pecado por nós” (2 Coríntios 5:21). Essas afirmativas são admiráveis. Porém, não temos a liberdade de interpretá-las de modo que sugiram que ou Deus impeliu a Jesus a fazer o que ele próprio não estava disposto a fazer, ou que Jesus foi uma vítima relutante da dura justiça de Deus. Jesus Cristo deveras levou a penalidade de nossos pecados, mas Deus estava agindo na obra de Cristo e através dela, e Cristo desincumbia-se de sua parte livre e espontaneamente (e.g. Hebreus 10:5-10).

Portanto não devemos dizer que Deus estava castigando a Jesus ou que Jesus estava sendo persuadido por Deus, pois fazê-lo é lançar um contra o outro como se agissem independentemente um do outro ou estivessem em conflito um com o outro. Jamais devemos fazer de Cristo o objeto do castigo de Deus, nem de Deus o objeto da persuasão de Cristo, pois tanto Deus quanto Cristo eram sujeitos e não objetos, tomando a iniciativa juntos de salvar os pecadores. O que aconteceu na cruz em termos de “abandono da parte de Deus” foi voluntaria­mente aceito por ambos no mesmo santo amor que tornou necessária a expiação. Foi “Deus em nossa natureza abandonado de Deus”.43 Se o Pai “deu o Filho”, o Filho “deu a si mesmo”. Embora o “cálice ” do Getsêmani simbolizasse a ira de Deus, ele foi “dado” pelo Pai (João 18:11) e voluntariamente “tomado” pelo Filho. Embora o Pai tenha “enviado” o Filho, o mesmo Filho “veio”. O Pai não colocou sobre o Filho uma carga que este não estava disposto a carregar, nem o Filho extraiu do Pai uma salvação que este estava relutante a conceder. Não há em lugar algum do Novo Testamento discórdia entre o Pai e o Filho, “quer pelo Filho arrebatando perdão de um Pai indisposto quer pelo Pai exigindo um sacrifício de um Filho indisposto”.44 Não houve relutância de nenhuma parte. Pelo contrário, as vontades deles coincidiram no perfeito sacrifício de amor.

Se então o nosso substituto não foi Cristo somente como um terceiro partido independente de Deus, é a verdade que Deus somente tomou o nosso lugar, levou o nosso pecado e morreu a nossa morte? Se não podemos exaltar a iniciativa de Cristo ao ponto de praticamente eli­minar a contribuição do Pai, podemos inverter os papéis, e atribuir a iniciativa e a realização toda ao Pai, assim praticamente eliminando a Cristo? Pois se o próprio Deus fez tudo o que era necessário para a nossa salvação, será que isso não tornaria a Cristo redundante?

Essa solução proposta ao problema é, à primeira vista, teologica-mente atraente, pois evita todas as distorções que se levantam quando se concebe a Jesus como um terceiro partido. Como vimos no capítulo anterior, é Deus que, como santo amor, deve satisfazer a si mesmo. Ele não estava disposto a agir em amor a expensas da sua santidade ou em santidade a expensas do seu amor. De modo que podemos dizer que ele satisfez ao seu santo amor ao morrer ele mesmo a morte e assim levar o juízo que os pecadores mereciam. Ele exigiu e ao mesmo tempo aceitou a penalidade do pecado humano, E o fez “para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus” (Romanos 3:26). Agora não há dúvida quanto ao Pai infligir castigo ao Filho ou de o Filho intervir em nosso favor com o Pai, pois é o próprio Pai que, em seu amor toma a iniciativa, leva a penalidade do pecado em si mesmo, e morre. Assim a prioridade não é a “exigência do homem sobre Deus”, nem a “exigência de Deus sobre os homens”, mas supremamente a “exigência de Deus sobre Deus, Deus cum­prindo sua própria exigência”.45

Muitos teólogos, antigos e atuais, representando diferentes tradi­ções, têm visto a necessidade de acentuar que o próprio Deus estava na cruz, e têm, portanto, expressado a sua compreensão da expiação nesses termos.

“Deus morrendo pelo homem”, escreveu P. T. Forsythe. “Não tenho medo dessa frase; não posso deixá-la de lado. Deus morrendo pelos homens, e por homens tais — homens hostis, malignamente hostis”.46 Repito, porque “a santidade de Deus. . . não tem sentido sem o juízo”, a única coisa que Deus não podia fazer em face da rebeldia humana era nada. “Ele deve ou infligir o castigo ou assumi-lo. E ele escolheu o último caminho, honrando a lei ao mesmo tempo que salvando o réu. Ele levou o seu próprio juízo.47

Foi o “próprio Deus” dando-se a si mesmo por nós. Karl Barth não hesitou em usar essas palavras. “O próprio coração de Deus sofreu na cruz”, acrescentou ele. “Ninguém mais, mas o próprio Filho de Deus, e daí o próprio Deus eterno. . “48 Da mesma forma, Stephen Neill escreveu: “Se a crucificação de Jesus. . . é de algum modo, como os cristãos têm crido, o morrer do próprio Deus, então. . . podemos compreender com que Deus se parece.”49 E hinos de devoção popular têm ecoado essa observação, como esta frase de Carlos Wesley:

Espantoso amor! Como pode ser

Que tu, meu Deus, morresse por mim?

O motivo pelo qual tanto os cristãos eruditos quanto os mais simples têm podido usar esse tipo de linguagem é, claro, que a Escritura o permite. Quando os apóstolos escreveram acerca da cruz, com fre­qüência indicaram mediante uma expressão conhecida quem foi que morreu ali e lhe deu a sua eficácia. Assim, aquele que se humilhou até à morte numa cruz não foi outro senão aquele que “subsistindo em forma de Deus” fez-se nada a fim de tornar-se humano e morrer (Filipenses 2:6-8). Foi o “Senhor da glória” a quem os poderosos deste século crucificaram (1 Coríntios 2:8). E o sangue em que as vestes dos redimidos foram purificadas é o do Cordeiro que partilha o centro do trono de Deus (Apocalipse 5:6, 9; 7:9). Além do mais, a lógica da carta aos Hebreus requer que digamos que foi Deus quem morreu. Ela joga com a similaridade entre “aliança” e “testamento”. Os termos de um testamento entram em vigor somente depois da morte do testador. De modo que aquele que faz as promessas em seu testamento primeiro tem de morrer para que os legados sejam recebidos. Visto, pois, que as promessas em questão são promessas de Deus, a morte deve ser a morte de Deus (Hebreus 9:15-17).

Há outro versículo que não devemos passar por alto. Ocorre no discurso de despedida que Paulo fez em Mileto aos anciãos da igreja efésia. O rebanho sobre o qual o Espírito Santo os havia feito supe­rintendentes e pastores, diz ele, nada mais é que a “igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue” (Atos 20:28). É verdade que o texto é incerto (alguns manuscritos trazem “a igreja do Senhor”, referindo-se a Cristo, em vez de a “igreja de Deus”), e também o é a tradução (pode significar a “igreja de Deus a qual ele comprou com o sangue do seu próprio”, referindo-se, de novo, a Cristo). Entretanto, o texto parece exigir que se leia “a igreja de Deus” e “seu próprio sangue”. Pois o propósito de Paulo é lembrar aos presbíteros o pre­cioso valor da igreja a que haviam sido chamados para servir. E a igreja de Deus. O Espírito de Deus nomeou-os líderes dela, e o preço pago por sua compra na realidade é o “sangue de Deus” — uma frase quase chocante usada por alguns dos Pais da igreja como Inácio e Tertuliano,50 e que os clérigos medievais continuaram a usar, embora freqüentemente como um juramento.

Apesar dessa justificação bíblica, contudo, versículo algum declara especificamente que o “próprio Deus” morreu na cruz. A Escritura dá testemunho da divindade da pessoa que se entregou por nós, mas não chega à afirmação inequívoca de “Deus ter morrido”. Não pre­cisamos ir longe em busca das razões dessa omissão. Primeiro, a imortalidade pertence ao ser essencial de Deus (“Deus. . . o único que possui imortalidade”, 1 Timóteo 6:16), e, portanto, não pode morrer. De modo que ele se tornou homem, a fim de poder fazê-lo: “Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, destes também ele, igualmente, participou, para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo” (He­breus 2:14). Da mesma forma, ele se tornou homem a fim de ser o “Mediador entre Deus e os homens” (1 Timóteo 2:5).

O segundo motivo pelo qual é errado dizer que “Deus morreu” é que “Deus” no Novo Testamento freqüentemente significa “o Pai” (e.g. “Deus enviou seu Filho”), e a pessoa que morreu na cruz não foi o Pai mas o Filho. No início do terceiro século A.D. alguns negaram essa posição, Tinham dificuldade em entender a doutrina da Trindade e achavam que não podiam crer no Pai, no Filho e no Espírito sem se tornar triteístas. De modo que começaram a enfatizar a unidade de Deus, e então falaram do Pai, do Filho e do Espírito não como três “pessoas” distintas e eternas dentro da Divindade, mas, antes, como os três modos “temporais” mediante os quais Deus sucessivamente se revelou. Daí terem recebido o nome de “modalistas”. O Pai tornou-se o Filho, ensinavam eles, e então o Filho tornou-se o Espírito. Recebiam também a referência de “sabelianos” por causa de Sabélio, um dos seus dirigentes. Outro foi Praxeas, cujo ensino nos chegou através da poderosa refutação de Tertuliano. Praxeas ensinava (ou, segundo Tertuliano, o diabo ensinava através dele) “que o próprio Pai desceu à virgem, nasceu dela, sofreu, deveras foi o próprio Jesus Cristo”. Visto que Praxeas também se opunha aos montanistas, que têm sido vagamente descritos como os carismáticos da época, Ter­tuliano continuou: “Praxeas prestou um serviço duplo ao diabo em Roma; ele expulsou a profecia e trouxe a heresia; ele fez fugir o Pa­racleto, e crucificou o Pai”.53 A absurda noção de que o Pai fora crucificado levou os críticos dos seguidores de Praxeas a dar-lhes o apelido de “patripassianos” (os que ensinavam que o Pai havia so­frido). Contra esse ensino Tertuliano instava: “Estejamos contentes com dizer que Cristo morreu, o Filho do Pai; e que isto seja suficiente, porque as Escrituras nos disseram tanto.”52

Um desvio mais ou menos similar levantou-se no sexto século em Constantinopla, o qual veio a ser conhecido como “teopasitismo” (a crença de que Deus sofreu). Seus adeptos rejeitaram a definição do Concilio de Calcedônia (A.D. 451) de que Jesus, embora uma única pessoa, possuía duas naturezas, sendo verdadeiramente Deus e ver­dadeiramente homem. Em vez disso, eles eram “monofisitas”, en­sinando que Cristo possuía uma única natureza composta (fisis, “natureza”), que era essencialmente divina. Assim desvalorizando a humanidade de Jesus, naturalmente acentuavam que Deus sofreu nele e através dele.

Embora essas controvérsias nos pareçam muito remotas no século vinte, precisamos tomá-las como advertências. Uma ênfase exagerada aos sofrimentos de Deus na cruz pode levar-nos a confundir as pes­soas da Trindade e negar a distinção eterna do Filho, à semelhança dos modalistas ou patripassianos, ou em confundir as naturezas de Cristo, e negar que ele foi uma única pessoa em duas naturezas, como os monofisitas ou teopascitas. É verdade que, visto Jesus ter sido Deus e homem, o Concilio de Éfeso (A.D. 431) declarou ser correto referir-se à virgem Maria como tkeotokos (“mãe de Deus”), Similar­mente, e pela mesma razão, parece-nos permissível referir-se ao sofrimento de Deus na cruz. Pois se Deus pôde nascer, por que é que também não podia morrer? O valor dessas expressões é que eliminam a possibilidade de pensar-se em Jesus como um terceiro partido in­dependente. Não obstante, as palavras “theotokos” e “teopascita”, ainda que tecnicamente legítimas, induzem ao erro porque acentuam a deidade da pessoa que nasceu e morreu, sem fazer referência com­parável à sua humanidade. Seria mais prudente dizer-se, em vez disso, o que os autores do Novo Testamento disseram, fielmente ecoado pelo Credo dos Apóstolos, a saber, que aquele que “foi con­cebido pelo Espírito Santo, nasceu da virgem Maria, sofreu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morreu e foi sepultado” não era “Deus”, muito menos o Pai, mas “Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor”. Os apóstolos esclareciam essa afirmativa ainda mais, enfatizando a obe­diência voluntária do Filho ao Pai.53

 

Deus em Cristo

Portanto nosso substituto, que tomou o nosso lugar e morreu a nossa morte na cruz, não foi Cristo somente (visto que tal coisa faria dele um terceiro partido atirado entre Deus e nós), nem Deus somente (visto que tal coisa minaria a encarnação histórica), mas Deus em Cristo, que foi verdadeiramente e completamente Deus e homem, e que, por causa disso, foi singularmente qualificado para representar tanto a Deus quanto o homem e mediar entre eles. Se falarmos somente do sofrimento e morte de Cristo, menosprezamos a iniciativa do Pai. Se falarmos somente do sofrimento e morte de Deus, passamos por alto a mediação do Filho. Os autores do Novo Testamento jamais atribuem a expiação nem a Cristo de modo que o separe do Pai, nem a Deus de tal maneira que Cristo seja dispensado, mas, antes, a Deus e a Cristo, ou a Deus agindo em Cristo e através dele com sua concor­rência total.

A evidência do Novo Testamento acerca do que acabamos de dizer é clara. Ao examiná-la, parece lógico iniciar com o anúncio do nas­cimento do Messias. Os nomes que ele recebeu foram Jesus (“Salvador divino” ou “Deus salva”) e Emanuel (“Deus conosco”). Pois no seu nascimento e por meio dele o próprio Deus tinha vindo resgatar o seu povo, salvá-los dos seus pecados (Mateus 1:21-23). De modo igual, segundo Lucas, o Salvador que havia nascido não era apenas, de acordo com a expressão familiar, o Cristo do Senhor, o ungido do Senhor, mas, na realidade, “Cristo o Senhor”, ele mesmo tanto Mes­sias quanto Senhor (Lucas 2:11).

Quando o ministério público de Jesus teve início, sua autocons-cientização confirmou que Deus estava operando nele e através dele, Pois embora ele tivesse falado em “agradar ao Pai” (João 8:29) e “obedecer” a ele (João 15:10), em fazer a sua vontade e terminar o seu trabalho,54 contudo, essa entrega era inteiramente voluntária, de modo que a sua vontade e a do Pai sempre estavam em perfeita harmonia.55 Mais que isso, segundo João ele falou de uma “habitação” mútua, ele no Pai e o Pai nele, até mesmo uma “união” entre eles.56 Essa convicção de que o Pai e o Filho não podem ser separados, especialmente quando estamos pensando ha expiação, visto que o Pai estava agindo por meio do Filho, vem à sua expressão mais plena em algumas das grandes observações de Paulo acerca da reconciliação. Por exemplo, “tudo provém de Deus” (referindo-se à obra da nova criatura, 2 Coríntios 5:17, 18), que “nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo” e “estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (vv. 18 e 19). Não parece ter muita importância onde, ao traduzir-se o grego, colocamos as expressões “por meio de Cristo” e “em Cristo”. O importante é que Deus e Cristo estavam juntos ativos na obra da reconciliação, deveras que foi em Cristo e através dele que Deus estava efetuando a reconciliação.

Dois outros importantes versículos paulinos forjam um elo indis­solúvel entre a pessoa e a obra de Cristo, indicando assim que ele só foi capaz de fazer o que fez porque era quem era. Ambos falam que a “plenitude” de Deus habitava nele e operava através dele (Colos-senses 1:19, 20; 2:9). Essa obra é retratada de vários modos, mas atribui-se tudo à plenitude de Deus que residia em Cristo — recon­ciliando consigo todas as coisas, fazendo a paz pelo sangue da cruz, ressuscitando-nos com Cristo, perdoando todos os nossos pecados, cancelando a dívida que existia contra nós, levando-a, pregando-a na cruz, e desarmando os principados e potestades, triunfando sobre eles ou “pela” cruz ou “nele” (Cristo).

Anselmo tinha razão ao dizer que somente o homem devia fazer reparação pelos seus pecados, visto que foi ele que pecou. E também tinha igual razão em dizer que somente Deus podia fazer a reparação necessária, visto que foi ele quem a exigiu. Jesus Cristo é, pois, o único Salvador, visto que é a única pessoa em quem “devemos” e “podemos” ser unidos, sendo ele mesmo tanto Deus quanto homem. A fraqueza da formulação de Anselmo, provavelmente em virtude de sua formação cultural no feudalismo medieval, é ter ele dado ênfase exagerada à humanidade de Cristo, visto que o homem pecador deve pagar a dívida em que incorreu e reparar o dano que fez. Mas a ênfase do Novo Testamento recai mais sobre a iniciativa de Deus, que “en­viou” ou “deu” ou “entregou” seu Filho por nós,57 e que, portanto, participou dos sofrimentos do seu Filho.

George Buttrick escreveu acerca de um quadro que se encontra numa igreja italiana, embora não o tenha identificado. A primeira vista é como qualquer outra pintura da crucificação. Quando a pessoa o examina mais atentamente, contudo, percebe a diferença pois “há uma grande e ensombreada Figura atrás da figura de Jesus. O cravo pregado na mão de Jesus atravessa até a mão de Deus. A lança que lhe trespassa o lado chega até Deus.”58

Começamos mostrando que Deus deve “satisfazer a si mesmo”, respondendo às realidades da rebeldia humana de um modo que seja perfeitamente consoante com o seu caráter. Essa necessidade interna é o nosso ponto de partida fixo. Em conseqüência, seria impossível para nós pecadores permanecer eternamente os únicos objetos de seu santo amor, visto que ele não pode ao mesmo tempo punir-nos e perdoar-nos. Daí a segunda necessidade, a saber, a substituição. A única maneira de o santo amor de Deus ser satisfeito é a sua santidade ser dirigida em juízo sobre o substituto por ele designado, a fim de que o seu amor possa ser dirigido a nós em perdão. O substituto sofre a penalidade para que nós pecadores possamos receber o perdão. Quem, pois, é o substituto? Certamente não é Cristo, se ele for visto como um terceiro partido. Toda noção de substituição penal em que três atores independentes desempenham um papel — o partido cul­pado, o juiz punitivo e a vítima inocente — deve ser repudiada com extrema veemência. Não apenas seria injusta em si mesma mas tam­bém refletiria uma cristologia deficiente. Pois Cristo não é uma terceira pessoa independente, mas o eterno Filho do Pai, que é um com o Pai em seu ser essencial.

O que vemos, portanto, no drama da cruz não são três atores, mas dois, nós mesmos de um lado e Deus, do outro. Não Deus como ele é em si mesmo (o Pai), mas Deus, entretanto, Deus-feito-homem-em-Cristo (o Filho). Daí a importância das passagens do Novo Testa­mento que falam da morte de Cristo como a morte do Filho de Deus; por exemplo: “Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito”, “Aquele que não poupou a seu próprio Filho”, e “fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho”.59 Pois ao dar o seu Filho ele estava dando a si mesmo. Sendo isso verdade, é o próprio Juiz que em santo amor assumiu o papel da vítima inocente, pois na pessoa do seu Filho, e por meio dela, ele mesmo levou a penalidade que ele próprio infligiu. Como disse Dale: “a misteriosa unidade do Pai e do Filho tornou possível que Deus ao mesmo tempo sofresse e infligisse sofrimento penal”.60 Não há injustiça severa nem amor sem princípios nem heresia cristológica nisso; há somente in­sondável misericórdia. Pois a fim de nos salvar de tal modo que satisfizesse a si mesmo, Deus por meio de Cristo substituiu-se a si mesmo por nós. O amor divino triunfou sobre a ira divina mediante o divino auto-sacrifício. A cruz foi um ato simultâneo de castigo e anistia, severidade e graça, justiça e misericórdia.

Vistas desse modo, as objeções a uma expiação substitutiva se eva­poram. Nada há nem mesmo remotamente imoral aqui, visto que o substituto dos infratores da lei não é outro senão o próprio Legislador. Também não há transação mecânica, visto que o auto-sacrifício do amor é a mais pessoal de todas as ações. E o que é alcançado por meio da cruz não é uma mera troca externa de posição, pois os que vêem nela o amor de Deus, e são unidos a Cristo através do seu Espírito, transformam-se radicalmente em aparência e caráter.

Rejeitamos fortemente, portanto, toda explicação da morte de Cristo que não possui no centro o princípio da “satisfação através da subs­tituição”, em verdade, a auto-satisfação divina através da auto-subs-tituição divina. A cruz não foi uma troca comercial feita com o diabo, muito menos uma transação que o tenha tapeado e apanhado numa armadilha; nem um equivalente exato, um quid pro quo que satisfizesse um código de honra ou um ponto técnico da lei; nem uma submissão compulsória da parte de Deus a uma autoridade moral acima dele da qual ele, de outra forma, não poderia escapar; nem um castigo de um manso Cristo por um Pai severo e punitivo; nem uma procuração de salvação por um Cristo amoroso de um Pai mim e relutante; nem uma ação do Pai que deixasse de lado a Cristo como Mediador. Em vez disso, o Pai justo e amoroso humilhou-se, tornando-se em seu Filho unigênito e através dele carne, pecado e maldição por nós, a fim de remir-nos sem comprometer o seu próprio caráter. Necessi­tamos cuidadosamente definir e salvaguardar os termos teológicos “satisfação” e “substituição”, mas não podemos, em circunstância alguma, abrir mão deles. O evangelho bíblico da expiação é Deus satisfazendo-se a si mesmo e substituindo-se a si mesmo por nós.

Pode-se dizer, portanto, que o conceito da substituição está no coração tanto do pecado quanto da salvação. Pois a essência do pecado é o homem substituindo-se a si mesmo por Deus, ao passo que a essência da salvação é Deus substituindo-se a si mesmo pelo homem. O homem declara-se contra Deus e coloca-se onde Deus merece estar; Deus sacrifica-se a si mesmo pelo homem e coloca-se onde o homem merece estar. O homem reivindica prerrogativas que pertencem so­mente a Deus; Deus aceita penalidades que pertencem ao homem somente.

Se a essência da expiação é a substituição, seguem-se pelo menos duas importantes inferências, a primeira teológica e a segunda pes­soal. A inferência teológica é que é impossível manter-se a doutrina histórica da cruz sem se manter a doutrina histórica de Jesus Cristo como único Deus-homem e Mediador. Como já vimos, nem Cristo somente como homem nem o Pai somente como Deus podia ser nosso substituto. Somente Deus em Cristo, o unigênito Filho do próprio Deus Pai feito homem, podia tomar o nosso lugar. Na raiz de cada caricatura da cruz jaz uma cristologia distorcida. A pessoa e a obra de Cristo vão juntas. Se ele não é quem os apóstolos dizem que é, então não podia ter feito o que dizem que fez. A encarnação é indis­pensável à expiação. Em particular, é essencial à afirmação de que o amor, a santidade e a vontade do Pai são idênticos ao amor, santidade e vontade do Filho. Deus estava em Cristo reconciliando consigo o

mundo.

Talvez nenhum outro teólogo do século vinte tenha visto essa ver­dade mais claramente, ou a tenha expressado mais vigorosamente, do que Karl Barth.61 A cristologia, insistia ele, é a chave da doutrina da reconciliação. E cristologia significa confessar que Jesus Cristo, o Mediador, repetiu ele várias vezes, é “o próprio Deus, o próprio homem, e o próprio Deus-homem”. Há, pois, “três aspectos cristológicos” ou “três perspectivas” para a compreensão da expiação. O primeiro é que “em Jesus Cristo temos de ver com o próprio Deus. A reconciliação do homem com Deus acontece quando o próprio Deus ativamente intervém”. O segundo é que “em Jesus Cristo temos de ver com o verdadeiro homem. . . É assim que ele se torna o recon­ciliador entre Deus e o homem”. O terceiro é que, embora sendo o próprio Deus e o próprio homem, “Jesus Cristo é um. Ele é o Deus-homem”. Somente quando se afirma esse relato bíblico de Jesus Cristo, pode-se compreender a singularidade de seu sacrifício expia-dor. A iniciativa está “com o próprio Deus eterno, que deu-se a si mesmo em seu Filho para ser homem, e, como homem, tomar sobre si mesmo esta paixão humana. . . É o Juiz que nesta paixão toma o lugar daqueles que deviam ser julgados, que nesta paixão permite ser julgado em lugar deles”. “A paixão de Jesus Cristo é o juízo de Deus, na qual o próprio Juiz foi julgado”.

A segunda inferência é pessoal. A doutrina da substituição afirma não apenas um fato (Deus em Cristo substituiu-se por nós), mas também a sua necessidade (não havia outro meio pelo qual o santo amor de Deus pudesse ser satisfeito e os seres humanos rebeldes pudessem ser salvos). Portanto, enquanto permanecemos perante a cruz, começamos a ganhar uma visão clara tanto de Deus quanto de nós mesmos, especialmente em relação um ao outro. Em vez de infligir sobre nós o juízo que merecíamos, Deus em Cristo o suportou em nosso lugar. A única alternativa é o inferno. É este o “escândalo”, a pedra de tropeço, da cruz. Pois nosso coração orgulhoso se rebela contra ela. Não podemos suportar o conhecimento ou a seriedade do nosso pecado ou culpa da nossa dívida total para com a cruz. Cer­tamente, dizemos, deve haver algo mais que possamos fazer, ou pelo menos algo com que possamos contribuir, a fim de fazer reparação? Ainda que não o digamos, com freqüência damos a impressão de que preferiríamos sofrer o nosso próprio castigo a ter a humilhação de ver a Deus através de Cristo suportá-lo em nosso lugar.

Insistimos em pagar pelo que fizemos. Não podemos suportar a humilhação de reconhecer a nossa bancarrota e permitir que alguém mais pague por nós. A noção de que esse alguém mais possa ser o próprio Deus é demais para nós. Preferiríamos perecer a arrepender-nos, preferiríamos perder-nos a humilhar-nos.

Além do mais, somente o evangelho exige uma auto-humilhação tão abjeta da nossa parte, pois somente ele ensina a substituição divina como o único meio de salvação. Outras religiões ensinam diferentes formas de auto-salvação. O hinduísmo, por exemplo, faz da recusa em admitir a pecaminosidade uma virtude. Numa preleção perante o Parlamento de Religiões em Chicago em 1893, o Swami Vivekananda disse: “O hindu recusa-se a chamar-vos pecadores. Vós sois os filhos de Deus; os participantes de bênção imortal, seres santos e perfeitos. Vós, divindades sobre a terra, pecadores? E pecado chamar o homem de pecador. É um libelo sobre a natureza humana.” Além do mais, se for preciso admitir que os seres humanos pecam, então o hinduísmo insiste em que podem salvar-se a si mesmos.62

Como disse Brunner: “Todas as outras formas de religião — sem mencionar a filosofia — tentam resolver o problema da culpa à parte da intervenção divinal, e, portanto, chegam a uma conclusão barata. Nelas o homem é poupado da humilhação final de saber que, em vez dele, o Mediador é quem deve levar o castigo. A esse jugo ele não precisa submeter-se. Ele não é deixado totalmente nu.”63

Mas não podemos fugir à vergonha de nos apresentarmos nus na presença de Deus. Não adianta tentarmos cobrir-nos como Adão e Eva no jardim. Nossas tentativas de autojustificação são tão inúteis quanto as folhas de figueira do primeiro casal. Temos de reconhecer a nossa nudez, ver o substituto divino usando os nossos trapos imun­dos em nosso lugar, e permitir que ele nos vista com a sua própria justiça.64 Ninguém jamais o disse melhor do que Augustus Toplady em seu hino imortal “Rocha Eterna”:

Nada posso, meu Senhor! Nada eu tenho a te ofertar! Sou tão só um pecador Teu amparo a suplicar. Rocha eterna, mostra, assim, Tua graça e amor por mim!

Terceira Parte
A Realização da Cruz

 

7
A Salvação dos Pecadores

 

Movido pela perfeição do seu santo amor, Deus em Cristo substituiu-se por nós, pecadores. É esse o co­ração da cruz de Cristo. Ele nos leva agora a nos voltarmos do acontecimento para as suas conseqüên­cias, do que aconteceu na cruz para o que ela alcan­çou. Por que tomou Deus o nosso lugar e levou o nosso pecado? O que realizou ele com seu auto-sacrifício e sua auto-substituição?

O Novo Testamento dá três respostas principais a essas perguntas, as quais podemos resumir com as palavras “salvação”, “revelação” e “conquista”. O que Deus fez em Cristo por meio da cruz é salvar-nos, revelar-se a si mesmo e vencer o mal. Neste capítulo enfocaremos a salvação mediante a cruz.

Seria difícil exagerar a magnitude das mudanças ocorridas como resultado da cruz, tanto em Deus quanto em nós, especialmente nos tratos de Deus conosco e em nosso relacionamento com ele. Verda­deiramente, quando Cristo morreu e ressurgiu dentre os mortos, raiou um novo dia, teve início uma nova era.

Esse novo dia é o “dia da salvação” (2 Coríntios 6:12), e as bênçãos “de tão grande salvação” (Hebreus 2:3) são tão ricamente diversas que não podemos defini-las adequadamente. Seriam necessários mui­tos quadros para retratá-las. Assim como a igreja de Cristo é apre­sentada na Escritura como a sua noiva e o seu corpo, como as ovelhas do seu rebanho e os ramos da sua videira, como a sua nova huma­nidade, sua casa ou família, como templo do Espírito Santo e pilar e fortaleza da verdade, da mesma forma a salvação de Cristo é ilustrada através da vivida imagem de termos como “propiciação”, “redenção”, “justificação” e “reconciliação”, os quais se constituem o tema deste capítulo.

Além do mais, apesar de as imagens da igreja serem visualmente incompatíveis (não podemos perceber o corpo e a noiva de Cristo ao mesmo tempo), contudo, por trás de todas encontra-se a verdade de que Deus está chamando um povo para si mesmo, assim também apesar de as imagens da salvação serem incompatíveis (justificação e redenção conjuram respectivamente mundos diversos da lei e do co­mércio), contudo, por trás de todas encontra-se a verdade de que Deus em Cristo levou o nosso pecado e morreu a nossa morte a fim de nos libertar do pecado e da morte. Tais imagens são auxílios in­dispensáveis à compreensão humana dessa doutrina. E o que trans­mitem, por serem dadas por Deus, é verdadeiro. Entretanto, não devemos deduzir dessa afirmativa que compreender as imagens é esgotar o significado da doutrina. Pois além das imagens da expiação jaz o seu mistério, as profundas maravilhas que, penso eu, haveremos de explorar por toda a eternidade.

Acho que o termo “imagens” da salvação (ou da expiação) é melhor que “teorias” da salvação. Pois teorias em geral são conceitos abstratos e especulativos, ao passo que as imagens bíblicas da obra da expiação de Cristo são quadros concretos, e pertencem aos dados da revelação. Não são explicações alternativas da cruz, que nos provêem uma va­riação da qual escolhermos, mas complementares, cada uma contri­buindo com uma parte vital ao todo. Quanto às imagens, a “propiciação” nos introduz aos rituais de um sacrário, a “redenção” às transações do mercado, a “justificação” aos procedimentos de um tribunal de lei, e a “reconciliação” às experiências de casa ou familia­res. Meu argumento é que a “substituição” não é uma “teoria” ou “imagem” que deva ser colocada ao lado das outras, mas, pelo con­trário, o fundamento de todas elas, sem o qual perdem a força de convencer. Se Deus em Cristo não tivesse morrido em nosso lugar, não poderia haver propiciação, nem redenção, nem justificação, nem reconciliação. Além do mais, todas as imagens têm início no Antigo Testamento, mas são elaboradas e enriquecidas no Novo, particular­mente ao serem diretamente relacionadas a Cristo e à sua cruz.

 

Propiciação

Os cristãos ocidentais de gerações passadas tinham bastante familiaridade com a linguagem da “propiciação” em relação à morte de Cristo. Pois a Bíblia contém três afirmações explícitas, feitas a ela por Paulo e João:

Paulo: “. . . Cristo Jesus; a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé” (Romanos 3:24-25).

João: “Temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados… Nisto consiste o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas que ele nos amou, e enviou o seu Filho como propi­ciação pelos nossos pecados” (1 João 2:1-2; 4:10).

Embora nossos antepassados conhecessem bem esse tipo de lin­guagem, não quer dizer que se sentiam à vontade em usá-la. “Pro­piciar” alguém significa apaziguar ou pacificar a sua ira. Será, pois, que Deus se enraivece? Se assim for, podem ofertas ou rituais pacificar a sua ira? Ele aceita subornos? Tais conceitos parecem mais pagãos do que cristãos. É compreensível que animistas primitivos conside­rassem essencial aplacar a ira dos deuses, espíritos ou ancestrais, mas são noções como essas dignas do Deus dos cristãos? Será que não devíamos crescer e ultrapassá-las? Em particular, devemos realmente crer que Jesus, mediante a sua morte, propiciou a ira do Pai, indu-zindo-o a abrir mão dela, e olhar para nós com favor em vez de ira?

Conceitos rudes de ira, sacrifício e propiciação devem, deveras, ser rejeitados. Não têm lugar na religião do Antigo Testamento, muito menos na do Novo. Isso não quer dizer, porém, que não há conceito bíblico dessas coisas. O que a Escritura nos revela é uma doutrina pura (da qual foram expurgadas todas as vulgaridades pagãs) da santa ira de Deus, seu auto-sacrifício amoroso em Cristo e a sua iniciativa de desviar a sua própria ira. É óbvio que “ira” e “propiciação” (o aplacar a ira) andam juntos. Quando a ira é expurgada de idéias indignas, a propiciação é também purgada. O oposto também é ver­dadeiro. São aqueles que não podem aceitar nenhum conceito da ira de Deus que repudiam todo o conceito de propiciação. Por exemplo, eis o que diz o professor A. T. Hanson: “Se você pensar na ira como uma atitude de Deus, não poderá evitar uma teoria de propiciação. Mas o Novo Testamento jamais fala da propiciação da ira, porque não a concebe como uma atitude de Deus.”1

E esse mal-estar para com as doutrinas da ira e da propiciação que tem levado alguns teólogos a reexaminar o vocabulário bíblico. Têm-se concentrado num grupo particular de palavras o qual tem sido traduzido por termos “propiciatórios”, a saber o substantivo hilasmos (1 João 2:2; 4:10), o adjetivo hilasterios (Romanos 3:25, onde pode ter sido usado como substantivo) e o verbo hilaskomai (Hebreus 2:17; também Lucas 18:13 na passiva, que, talvez devesse ser traduzido por “ser propiciado — ou propício — a mim, pecador”). A pergunta crucial é se o objeto da ação expiatória é Deus ou o homem. Se for o primeiro, então a palavra correta é “propiciação” (pacificação de Deus); se o último, a palavra correta é “expiação” (ocupando-se com o pecado e com a culpa).

O teólogo britânico que liderou essa tentativa de reinterpretação foi C. H. Dodd.2 Eis o seu comentário de Romanos 3:25: “O significado transmitido. . . é o da expiação, não o da propiciação. A maioria dos tradutores e dos comentaristas está errada”.3 Ele expressa opinião similar com relação a 1 João 2:2, a saber, que a expressão traduzida por “expiação por nossos pecados” é “ilegítima, aqui como em outros lugares”.4

O argumento de C. H. Dodd, desenvolvido com sua costumeira erudição, era lingüístico. Ele reconhecia que no grego pagão (tanto o clássico como o popular) o sentido normal do verbo hilaskonai era “propiciar” ou “aplacar” uma pessoa ofendida, especialmente uma divindade. Mas negou que era esse o seu significado no judaísmo helenístico, como evidenciado pela Septuaginta, ou no Novo Testa­mento. Ele argumentou que na Septuaginta kipper (o verbo hebraico para “expiar”) às vezes era traduzido por outras palavras gregas que não hüaskomai, que significa “purificar” ou “perdoar”; que quando hilaskomai pode ser traduzido por kipper o significado é expiação ou remoção da impureza. Eis como ele resume o assunto: ”o judaísmo helenístico, como representado pela Septuaginta, não vê o ‘cultus’ como um meio de pacificar o desprazer da Divindade, mas como um meio de livrar o homem do pecado.”5 Deveras, na antigüidade, em geral cria-se que “a realização de rituais prescritos. . . tinha o valor, por assim dizer, de um poderoso desinfetante”.6 Portanto, conclui ele, as ocorrências de hilaskomai no grupo de palavras do Novo Tes­tamento deviam ser interpretadas da mesma maneira. Por meio da sua cruz Jesus Cristo expiou o pecado; ele não propiciou a Deus.

A reconstrução do professor Dodd, embora aceita por muitos de seus contemporâneos e sucessores, foi submetida a rigorosa crítica por outros, em particular pelo Dr. Leon Morris7 e pelo Dr. Roger Nicole.8 Ambos mostraram que as conclusões de Dodd Repousavam ou em evidência incompleta ou em deduções questionáveis. Por exem­plo, a sua avaliação do grupo hilaskomai no judaísmo helenístico não faz referência (1) aos livros dos macabeus, embora pertençam à Sep­tuaginta e contenham várias passagens que tratam da “ira do Todo-poderoso” sendo desviada ou (2) aos escritos de Josefo, e de Filão, embora neles, como demonstra Friedrich Büchsel, prevaleça o sig­nificado de “aplacar”.9 Quanto à compreensão do Novo Testamento dessas palavras, F. Büchsel ressalta o que C. H. Dodd passa por cima, que tanto na primeira carta de Clemente (final do primeiro século) como no “Pastor de Hermas” (começo do segundo) hilaskomai é cla­ramente usada com referência à propiciação de Deus. Portanto, para que a teoria de Dodd seja correta acerca da Septuaginta e do uso do Novo Testamento, ele teria de manter que “formam um tipo de ilha lingüística com poucos precedentes em tempos anteriores, pouca con­firmação dos contemporâneos, e nenhum seguidor em anos poste­riores!”10

Mas temos de declarar que a tese dele é incorreta. Até no próprio cânon do Antigo Testamento há vários exemplos em que kipper e hilaskomai são usadas com referência à propiciação da ira dos homens (como Jacó pacificando a Esaú com presentes e o sábio apaziguando a ira do rei11) ou de Deus (como Arão e Finéias que desviaram dos israelitas a ira divina12). Mesmo nas passagens em que a tradução natural é “fazer expiação pelo pecado”, o contexto muitas vezes con­tém menção explícita à ira de Deus, o que implica que o pecado humano pode ser expiado somente pelo desvio dessa ira.13 Esses exemplos, ressalta Roger Nicole, são coerentes com o “uso predo­minante no grego clássico e no coiné, em Josefo e Filão, nos escritores patrísticos e nos macabeus”.14 A conclusão de Leon Morris com relação ao Antigo Testamento é que, embora hilaskomai seja “uma palavra complexa”, contudo, “o desvio da ira de Deus parece representar um substrato teimoso de significado do qual todos os usos podem ser naturalmente explicados”.15

O mesmo é verdade quanto às ocorrências no Novo Testamento. A descrição de Jesus como o hilasmos em relação aos nossos pecados (1 João 2:2; 4:10) podia ser compreendida como significando simples­mente que ele os tenha levado ou os tenha cancelado. Mas também afirma-se que ele é nosso “Advogado junto ao Pai” (2:1), o que implica o desprazer daquele perante quem ele apela a nessa causa. Quanto à passagem de Romanos 3, o contexto é determinativo. Quer tradu-zamos hilasterion no versículo 25 por “o lugar da propiciação” (isto é, propiciatório, como em Hebreus 9:5), quer por “o meio da propiciação (isto é, um sacrifício propiciatório), o Jesus que é assim descrito é designado por Deus como o remédio para a culpa universal humana sob a sua ira, ira que, para demonstrar, Paulo necessitou de dois capítulos e meio. Como Leon Morris justamente comenta: “A ira tem ocupado um lugar tão importante no principal argumento levantado nesta seção que somos justificados em procurar alguma expressão indicativa de seu cancelamento no processo que traz a salvação”.16 É verdade que em Hebreus 2:17 hilaskomai é um verbo transitivo, tendo por objeto “os pecados do povo”. Poderia, portanto, ser traduzido por “expiar” ou “fazer expiação”. Contudo, esse significado não é indubitável.

Se concedermos que C. H. Dodd tenha perdido o seu argumento lingüístico, ou que, pelo menos, não “provou” o seu caso, e que o grupo de palavras hilaskomai significa “propiciação” e não “expiação”, resta-nos ainda como retratar a ira de Deus e o seu desvio. É fácil caricaturá-las de tal modo que as despeçamos como ridículas. Foi isso o que fez William Neil na seguinte passagem:

É digno de nota que a escola teológica de “fogo e enxofre” que se deleita em idéias como as que dizem que Cristo foi feito um sacrifício a fim de apaziguar um Deus irado, ou que a cruz foi uma transação legal na qual uma vítima inocente é forçada a pagar a pena dos crimes de outro, uma propiciação de um Deus severo não encontra apoio em Paulo. Estas noções entraram na teologia cristã por meio da mente legalista dos clérigos medievais; não são o cris­tianismo bíblico.17

Mas é claro que isso não é nem o Cristianismo da Bíblia em geral, nem o de Paulo em particular. E de duvidar que alguém jamais tenha crido em construção tão grosseira como essa. Pois são noções pagãs da propiciação, recobertas somente por uma capa cristã muito fina. Se quisermos desenvolver uma doutrina da propiciação verdadeira­mente bíblica, necessitaremos distingui-la das idéias pagãs em três pontos cruciais, relacionados ao motivo da necessidade da propicia­ção, quem a fez e o que ela é.

Primeiro, o motivo pelo qual a propiciação é necessária é que o pecado suscita a ira de Deus. Isso não quer dizer (como temem os animistas) que ele é capaz de explodir à mais trivial provocação, muito menos que ele perde as estribeiras por nenhum motivo aparente. Pois nada há de caprichoso ou arbitrário no santo Deus. Nem jamais ele é irascível, malicioso, rancoroso ou vingativo. A ira dele não é mis­teriosa nem irracional. Jamais é imprevisível, mas sempre previsível por ser provocada pelo mal e pelo mal somente. A ira de Deus, como examinamos com mais detalhes no capítulo 4, é o seu antagonismo firme, constante, contínuo e descomprometido para com o pecado em todas as suas formas e manifestações. Em resumo, a ira de Deus está mundos à parte da nossa. O que provoca a nossa ira (a vaidade ferida) jamais provoca a dele; o que provoca a ira dele (o mal) rara­mente provoca a nossa.

Segundo, quem faz a propiciação? Num contexto pagão é sempre seres humanos que procuram desviar a ira divina mediante a reali­zação meticulosa de rituais, ou através da recitação de fórmulas má­gicas, ou por meio de oferecimento de sacrifícios (vegetais, animais e até mesmo humanos). Pensam que tais práticas aplaquem a divin­dade ofendida. Mas o evangelho começa com a afirmação ousada de que nada do que possamos fazer, dizer, oferecer ou até mesmo dar pode compensar os nossos pecados nem afastar a ira divina. Não há possibilidade alguma de bajularmos, subornarmos ou persuadirmos Deus a nos perdoar, pois nada merecemos das suas mãos a não ser o julgamento. Nem, como já vimos, tem Cristo, por meio do seu sacrifício, prevalecido sobre Deus a fim de que ele nos perdoe. Não, foi o próprio Deus que, em sua misericórdia e graça, tomou a inicia­tiva.

Esse fato já estava claro no Antigo Testamento, pois nele os sacri­fícios eram reconhecidos não como obras humanas, mas como dádivas divinas. Eles não tornavam a Deus gracioso; eram providos por um gracioso Deus a fim de que pudesse agir graciosamente para com o seu povo pecaminoso. “Eu vo-lo tenho dado sobre o altar”, disse Deus a respeito do sangue do sacrifício, “para fazer expiação pelas vossas almas” (Levítico 17:11). E o Novo Testamento reconhece essa verdade com mais clareza, e não menos os textos principais acerca da propiciação. O próprio Deus “apresentou” ou “propôs” a Jesus Cristo como sacrifício propiciatório (Romanos 3:25). Não é que te­nhamos amado a Deus, mas que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados (1 João 4:10).

Não podemos enfatizar demais que o amor de Deus é a fonte, e não a conseqüência da expiação. Como o expressou P. T. Forsyth: “A expiação não assegurou a graça, mas fluiu dela”.18 Deus não nos ama porque Cristo morreu por nós; Cristo morreu por nós porque Deus nos amou. É a ira de Deus que necessitava ser propiciada, é o amor de Deus que fez a propiciação. Se pudermos dizer que a propiciação “mudou a Deus” ou que por meio dela ele mudou a si mesmo, es­clareçamos que a sua mudança não foi da ira para o amor, da inimizade para a graça, visto que o seu caráter é imutável. O que a propiciação mudou foi os seus tratos para conosco. “A distinção que eu peço que vocês observem”, escreveu P. T. Forsyth, é “entre uma mudança de sentimento e uma mudança de tratamento. . . o sentimento de Deus para conosco jamais necessitou mudar. Mas o tratamento de Deus com referência a nós, o relacionamento prático de Deus para conosco — esse teve de mudar”.19 Ele nos perdoou e nos recebeu no lar.

Terceiro, qual foi o sacrifício propiciatório? Não foi animal, vegetal nem mineral. Não foi uma coisa, mas uma pessoa. E a pessoa que Deus ofereceu não foi alguém mais, uma pessoa humana ou um anjo, nem mesmo o seu Filho considerado como alguém distinto dele ou exterior a si mesmo. Não, ele ofereceu-se a si mesmo. Ao dar o seu Filho, ele estava dando a si mesmo. Como escreveu repetidamente Karl Barth: “Foi o Filho de Deus, isto é, o próprio Deus”. Por exemplo, “o fato de que foi o Filho de Deus, de que foi o próprio Deus, quem tomou o nosso lugar no Gólgota e, através desse ato, nos libertou da ira e do juízo divino, revela primeiro a implicação total da ira de Deus e a sua justiça condenadora e punitiva”. Repetimos, “porque foi o Filho de Deus, isto é, o próprio Deus, que tomou o nosso lugar na Sexta-Feira da Paixão, para que a substituição fosse eficaz e pudesse assegurar-nos a reconciliação com o Deus justo. . . Somente Deus, nosso Senhor e Criador, poderia colocar-se como nossa segurança, poderia tomar o nosso lugar, poderia sofrer a morte eterna em nosso lugar como conseqüência de nossos pecados de tal modo que ela fosse finalmente sofrida e vencida.”20 E tudo isso, esclarece Barth, foi ex­pressão não somente da santidade da justiça divina, mas também das “perfeições do amor divino”; deveras, do “santo amor divino”.

Portanto, o próprio Deus está no coração de nossa resposta às três perguntas acerca da propiciação divina. É o próprio Deus que, em ira santa, necessita ser propiciado, o próprio Deus que, em santo amor, resolveu fazer a propiciação, e o próprio Deus que, na pessoa do seu Filho, morreu pela propiciação dos nossos pecados. Assim, Deus to­mou a sua própria iniciativa amorosa de apaziguar sua própria ira justa levando-a em seu próprio ser no seu próprio Filho ao tomar o nosso lugar e morrer por nós. Não há nenhuma grosseria aqui que evoque o nosso ridículo, apenas a profundeza do santo amor que evoca a nossa adoração.

Ao procurar, assim, defender e reinstituir a doutrina bíblica da propiciação, não temos intenção alguma de negar a doutrina bíblica da expiação. Embora devamos resistir a toda tentativa de substituir a propiciação pela expiação, damos boas-vindas a todas as tentativas que procuram vê-las unidas na salvação. Assim F. Büchsel escreveu que “hilasmos. . . é a ação na qual Deus é propiciado e o pecado expiado”.21 O Dr. David Wells elaborou sucintamente sobre essa idéia:

No pensamento paulino o homem é alienado de Deus pelo pecado e Deus é alienado do homem pela ira. É na morte substitutiva de Cristo que o pecado é vencido e a ira des­viada, de modo que Deus possa olhar para o homem sem desprazer, e o homem olhar para Deus sem temor. O pe­cado é expiado, e Deus propiciado.22

 

Redenção

Passaremos agora da “propiciação” para a “redenção”. Ao procu­rarmos compreender a realização da cruz, as imagens mudam do santuário para o mercado, do reino cerimonial para o mercantil, dos rituais religiosos para as transações comerciais. Pois, no que tem de mais básico, “redimir” é comprar ou comprar de volta, quer como uma transação comercial quer como um resgate. Inevitavelmente, pois, a ênfase da imagem redentora se encontra em nosso estado deplorável — deveras, nosso cativeiro — no pecado que tornou ne­cessário um ato de salvação divina. A “propiciação” enfoca a ira de Deus a qual foi aplacada pela cruz; a “redenção” centraliza-se na má situação dos pecadores da qual foram resgatados pela cruz.

E “resgate” é a palavra correta a ser usada. As palavras gregas lytroo (geralmente traduzida por “redimir”) e apolytrosis (“redenção”) de­rivam-se de lytron (“um resgate” ou “o preço da soltura”), que era um termo quase técnico no mundo antigo para a compra ou a ma-numissão de um escravo. Em vista do “uso invariável de autores seculares”, a saber, que esse grupo de palavras se refere a “um pro­cesso que envolve a liberação através do pagamento de um preço de resgate”,23 muitas vezes bem custoso, escreveu Leon Morris, não te­mos liberdade alguma de diluir o seu significado numa liberação vaga e até mesmo barata. Fomos “resgatados” por Cristo, não meramente “redimidos” ou “libertos” por ele. B. B. Warfield tinha razão em ressaltar que estamos “assistindo junto ao leito de morte de uma palavra. É triste testemunhar a morte de qualquer coisa digna — até mesmo de uma palavra. E palavras dignas realmente morrem, como qualquer outra coisa digna — se não cuidarmos bem delas.” Mais triste ainda é “a morte no coração dos homens daquilo que as palavras representam”.24 Ele se referia à perda da sua geração de um senso de gratidão àquele que pagou o nosso resgate.

No Antigo Testamento, a propriedade, os animais, as pessoas e a nação eram todos “redimidos” pelo pagamento de certa quantia. O direito (e mesmo o dever) de fazer o papel do “parente resgatador” e comprar de volta a propriedade que fora alienada, a fim de conservá-la na família ou tribo, é ilustrado no caso de Boaz e no de Jeremias.25 Quanto aos animais, os machos primogênitos de todo o gado perten­ciam por direito a Yavé; os burros e os animais impuros, contudo, podiam ser redimidos (isto é, comprados de volta) pelo dono.26 No caso dos israelitas, cada um tinha de pagar um “resgate pela sua vida” na época do censo nacional; os filhos primogênitos (os quais desde a Páscoa pertenciam a Deus), e especialmente aqueles que excediam o número dos Ievitas que os substituíam, tinham de ser redimidos; o dono de um touro notoriamente perigoso que matasse um homem a chifradas, devia ser morto, a menos que remisse a sua vida mediante o pagamento de certa multa; o israelita pobre que foi forçado a se vender à escravidão podia mais tarde redimir a si mesmo ou ser redimido por um parente.27 Em todos esses casos de “redenção” havia uma intervenção custosa e decisiva. Alguém pagava o preço neces­sário para libertar a propriedade da hipoteca, os animais do mata­douro, e as pessoas da escravidão, até mesmo da morte.

E quanto à nação? Certamente o vocabulário da redenção foi usado para descrever a libertação de Israel tanto da escravidão no Egito28 quanto do exílio na Babilônia.29 Mas nesse caso, visto que o remador não era um ser humano, mas o próprio Deus, podemos ainda afirmar que “redimir” é “resgatar”? Que preço teve Yavé de pagar a fim de remir o seu povo? B. F. Wescott parece ter sido o primeiro a sugerir a resposta: “a idéia do exercício de uma poderosa força, a idéia de que a ‘redenção’ custa muito, está presente em todos os lugares”.30 Warfield ampliou esse pensamento: “a idéia de que a redenção do Egito foi o efeito de um grande gasto de poder divino e no sentido de que custou muito, tem proeminência nas alusões que a ela se fazem, e parece constituir a idéia central que se procura transmitir”.31 Pois Deus remiu a Israel “com um braço estendido” e “com mão poderosa”.32 Concluímos que a redenção sempre exigiu o pagamento de um preço, e que a redenção de Israel por Yavé não foi exceção. Até aqui, resume Warfield, “o conceito do pagamento de um preço, intrínseco no lutrousthai é preservado. . . Uma redenção sem um preço pago é tão anômala quanto a transação de venda sem a troca de dinheiro”.33

Ao entrarmos no Novo Testamento e examinarmos seu ensino a respeito da redenção, de imediato atingem-nos duas mudanças. Em­bora ainda seja inerente o conceito de que aqueles que necessitam de redenção se encontram em má situação e que só podem ser redimidos mediante o pagamento de um preço, contudo agora a má situação é moral em vez de material, e o preço é a morte expiatória do Filho de Deus. Essa parte já se evidencia no famoso dito de resgate de Jesus, o qual, no Novo Testamento, é fundamental à doutrina da redenção: “O próprio Filho do homem, não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Marcos 10:45). A linguagem figurada subentende que somos conservados em cativeiro do qual somente o pagamento de um resgate nos pode libertar, e que o resgate é nada menos que a própria vida do Messias. A nossa vida é confis­cada; a dele será sacrificada. F. Büchsel certamente tem razão em dizer que a afirmação “sem dúvida alguma implica substituição”. A com­binação dos dois adjetivos na expressão grega antilytron hyper pollon (literalmente: “um resgate no lugar de e por causa de muitos”) deixa essa idéia bem clara. “A morte de Jesus significa que lhe acontece o que teria acontecido a muitos. Daí tomar ele o nosso lugar”.34 Uma expressão paralela (talvez um eco da anterior) ocorre em 1 Timóteo 2:5-6: “Cristo Jesus. . . O qual a si mesmo se deu em resgate por todos”.

É instrutivo que Josefo, historiador judaico, ao descrever a visita do general romano Crassus ao templo de Jerusalém em 54-53 a.C, com a intenção de saquear o santuário, tenha usado linguagem se­melhante. Um sacerdote chamado Eleazar, que era guardião dos te­souros sagrados, deu-lhe uma grande barra de ouro (no valor de 10.000 sidos) como lytron anii panton, cuja tradução é: “um resgate em lugar de tudo”. Isto é, a barra de ouro era oferecida como um substituto pelos tesouros do Templo.35

Qual é, pois, a difícil situação humana da qual não podemos nos libertar e que torna necessária a nossa redenção? Vimos que no Antigo Testamento o povo era redimido de variadas e sérias situações sociais como dívida, cativeiro, escravidão, exílio e execução. Mas o cativeiro de que Cristo nos libertou é moral. Essa escravidão agora é descrita como nossas “transgressões” ou “pecados” (visto que em dois ver-sículos-chave “redenção” é sinônimo de “perdão dos pecados”36), como “a maldição da lei” (a saber, o juízo divino que ela pronuncia sobre os infratores da lei),37 e como “o vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram”.38 Entretanto, nem mesmo a nossa libertação destes cativeiros completa a nossa redenção. Há mais pela frente. Pois Cristo “a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda ini­qüidade”,39 a fim delibertar-nos de todos os danos da Queda. Ainda não experimentamos essa libertação. Assim como o povo de Deus do Antigo Testamento, embora já remidos do exílio do Egito e da Babi­lônia, ainda aguardavam a promessa de uma redenção mais plena, “esperavam a redenção de Jerusalém”,40 da mesma forma o povo de Deus do Novo Testamento, embora já remidos da culpa e do juízo, ainda aguardam “o dia da redenção” no qual seremos tornados per­feitos. Nessa esperança está incluída a “redenção dos nossos corpos”. Nessa altura toda a criação que geme será libertada de seu cativeiro à corrupção e levada a partilhar da liberdade da glória dos filhos de Deus. Nesse ínterim, o Espírito Santo que em nós habita é o selo, a garantia e as primícias de nossa redenção final.41 Somente então Cristo nos terá redimido (e ao Universo) de todo pecado, dor, futilidade e corrupção.

Segundo, tendo considerado a difícil situação da qual fomos remi­dos, necessitamos considerar o preço pelo qual, fomos remidos. O Novo Testamento jamais leva a imagem ao ponto de indicar a quem foi pago o resgate, mas não deixa dúvida nenhuma acerca do preço: foi o próprio Cristo. Para começar, houve o custo da encarnação, da entrada em nossa condição a fim de alcançar-nos. Diz-se-nos que “Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei” (Gálatas 4:4-5). Joachim Jeremias indaga se Paulo estava fazendo referência ao “dramático ato de entrar na escravidão a fim de resgatar um escravo”, assim como dar o corpo para ser queimado (1 Coríntios 13:3) pode referir-se a ser “marcado com a marca do escravo”.42 Além da encarnação, contudo, estava a expiação. A fim de realizá-la ele deu-se “a si mesmo” (1 Timóteo 2:6; fito 2:14) ou a sua “vida” (sua psyche, Marcos 10:45), morrendo sob a maldição da lei para resgatar-nos dela (Gálatas 3:13).

Todavia, ao indicar o grande preço pago por Cristo a fim de nos resgatar, a palavra mais comum que os autores do Novo Testamento usaram não foi nem “ele mesmo” nem sua “vida”, mas seu “sangue”. Não foi “mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro”/ escreveu Pedro, “que fostes resgatados. . . mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo” (1 Pedro 1:18-19). O escritor da carta aos Hebreus, imerso como estava nas figuras sacrificiais, ressaltou que Cristo foi vítima e também sacerdote, visto que “pelo seu próprio sangue, entrou no Santo dos Santos”,43 Mas o que se quer dizer com “sangue” de Cristo? Todos concordam em que sangue se refere à sua morte, mas em que sentido? Com base na tríplice afirmativa de Levítico 17:11-14 de que “a vida da carne está no sangue”, ou que “a vida de toda carne é o seu sangue”, e na afirmativa ainda mais explícita de Deuteronômio 12:23 de que “o sangue é a vida”, certos teólogos britânicos, no final do século pas­sado, desenvolveram uma teoria estranhamente popular de que o sangue de Cristo representa não a sua morte mas a sua vida, que é liberada através da morte e assim posto à nossa disposição. Vincent Taylor, C. H. Dodd e até mesmo P. T. Forsyth estavam entre os que desenvolveram essa idéia. Entretanto, a origem dessa teoria remonta ao Comentário das Epístolas de João (1883) de B. F. Wescott, no qual ele escreveu:

Mediante o transbordar do Sangue a vida que nele estava não foi destruída, embora tivesse sido separada do orga­nismo a que antes havia vivificado. . . Assim, duas idéias distintas foram incluídas no sacrifício da vítima, a morte pelo derramamento do seu sangue, e a liberação, por assim dizer, do princípio da vida pelo qual ela foi animada, de modo que esta vida foi posta à disposição para outro fim.44

O sangue de Cristo foi a sua vida primeiramente dada por nós e então dada a nós.

Em seu comentário posterior sobre a carta aos Hebreus, Wescott ainda ensinava o mesmo conceito. Sangue é vida “visto como ainda vivo”, e “o sangue derramado é energia. . . posta à disposição de outros” .45

James Denney foi franco em rejeitar essa tese. No seu livro A Morte de Cristo (1902) ele instou com seus leitores a não adotarem “o estranho capricho que fascinou a Westcott”, que, no sangue de Cristo, fazia distinção entre sua morte e a sua vida, entre seu sangue derramado e oferecido e sua vida entregue e liberada pelos homens. “Ouso di­zer”, continuou ele, “que fantasia mais infundada jamais assombrou e perturbou a interpretação de qualquer parte da Escritura”.

Então, em 1948 Alan Stibb publicou seu excelente monógrafo Tyn-dale, o qual devia ter posto a descansar para sempre esse fantasma. Ele faz um exame completo das ocorrências de “sangue” tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, e não encontra dificuldade al­guma em demonstrar que é “uma palavra-símbolo da morte”. E ver­dade que o “sangue é a vida da carne”. Mas, “isto significa que se separar o sangue da carne, quer seja humano, quer animal, a vida física presente na carne acabará. O sangue derramado representa, portanto, não a liberação da vida do fardo da carne, mas o término da vida física. É uma testemunha da morte física, não uma evidência da sobrevivência espiritual”. “Beber o sangue de Cristo”, portanto, descreve “não a participação de sua vida, mas a apropriação dos benefícios da sua vida que foi entregue”.46 O máximo que podemos fazer é concluir com Stibb, citando o artigo de Johannes Behm sobre o “sangue” no dicionário de Kittel: ‘O sangue de Cristo’ é (como a ‘Cruz’) apenas outra expressão mais clara para a morte de Cristo no seu sentido da salvação” ou “significação redentora”.47

A imagem da “redenção” tem uma terceira ênfase. Além da difícil situação da qual somos resgatados, e do seu preço, chama a atenção para a pessoa do redentor que possui direitos de posse sobre sua compra. Assim, atribui-se o senhorio de Jesus sobre a igreja e o cristão ao fato de ele nos ter comprado com o seu próprio sangue. Os presbíteros, por exemplo, são chamados a supervisar conscienciosamente a igreja sob o fundamento de que Deus em Cristo a comprou com o seu próprio sangue (Atos 20:28). Se a igreja valeu o seu sangue, não valerá o nosso trabalho? O privilégio de servi-la se estabelece pela preciosidade do preço pago por sua compra. Parece ser esse o ar­gumento. Repetimos, a comunidade redimida no céu está entoando um novo cântico que celebra a dignidade do Cordeiro:

Digno és de tomar o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação.48

A lembrança de que Jesus nos comprou com seu sangue, e que, em conseqüência, pertencemos a ele, devia motivar-nos como cristãos à santidade, assim como motiva os presbíteros ao ministério fiel e a hoste celestial à adoração. Detectamos uma nota de ultraje na voz de Pedro ao falar de falsos mestres que, por seu procedimento vergo­nhoso, renegam “o Soberano Senhor que os resgatou” (2 Pedro 2:1). Visto que ele os resgatou, pertencem a ele. Portanto, deveriam re­conhecê-lo e não negá-lo. A convocação urgente de Paulo a que “fu­jamos da imoralidade” baseia-se na doutrina do corpo humano e de quem o possui. Por um lado, “acaso não sabeis”, pergunta ele incredulamente, “que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo que está em voz, o qual tendes da parte de Deus”? Por outro lado, “não sois de vós mesmos. Porque fostes comprados por preço. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo”.49 O nosso corpo não só foi criado por Deus e um dia será por ele ressurreto, mas também foi comprado pelo sangue de Cristo e é habitado pelo seu Espírito. Assim, pertence a Deus três vezes: pela criação, pela redenção e pela habitação. Como, pois, visto que ele não nos pertence, podemos usá-lo mal? Em vez disso, devemos honrar com ele a Deus mediante a obediência e o domínio próprio. Comprados por Cristo, não temos o direito de nos tornarmos escravos de mais ninguém ou de nada mais. Outrora fomos escravos do pecado; agora somos escravos de Cristo, e o seu serviço é a verdadeira liberdade.

 

Justificação

Os dois quadros que até agora consideramos levaram-nos ao recinto do templo (propiciação) e do mercado (redenção). A terceira imagem (justificação) nos levará ao tribunal. Pois justificação é o oposto de condenação (e.g. Romanos 5:18; 8:34), e ambos são veredictos de um juiz que pronuncia o acusado culpado ou inocente. Há lógica na ordem em que estamos revisando estas grandes palavras que descrevem a realização da cruz. A propiciação inevitavelmente vem em primeiro lugar, porque enquanto a ira de Deus não for apaziguada (isto é, enquanto seu amor não encontrar um modo de desviar a sua ira), não pode haver salvação alguma para os seres humanos. A seguir, quando estamos prontos para compreender o significado da salvação, começamos negativamente com a redenção, significando nosso res­gate do sombrio cativeiro do pecado e da culpa, com o alto preço do sangue de Cristo. Justificação é a sua contraparte positiva. E verdade, alguns eruditos têm negado esse fato. Sanday e Headlam escreveram que a justificação “é simplesmente o perdão, perdão de graça”,50 e mais recentemente J. Jeremias asseverou que “justificação é perdão, nada mais que perdão”.51 Os dois conceitos certamente são complementares, contudo, não idênticos. O perdão redime nossas dívidas e cancela nossa responsabilidade pelo castigo; a justificação nos concede uma posição justa perante Deus.

Os reformadores do século dezesseis, a quem Deus iluminou a fim de descobrir o evangelho bíblico da “justificação pela fé”, estavam convictos de sua importância central. Lutero a chamou de “artigo principal de toda a doutrina cristã, que de fato faz cristãos”.52 E Cranmer escreveu:

Esta fé a Escritura Sagrada ensina: esta é a rocha firme e o fundamento da religião cristã: esta doutrina todos os au­tores velhos e antigos da igreja de Cristo aprovam: esta doutrina avança e ressalta a verdadeira glória de Cristo, e derrota a vanglória do homem: todo aquele que nega isto não deve ser contado como verdadeiro cristão. . . mas como adversário de Cristo. . .53

Permita-me acrescentar a afirmativa de alguns evangélicos angli­canos contemporâneos:

A justificação pela fé parece-nos, como a todos os evan­gélicos, ser o coração e centro, paradigma e essência, de toda a economia da graça salvadora de Deus. Como Atlas, carrega o mundo aos ombros, todo o conhecimento evan­gélico do amor de Deus em Cristo para com os pecadores.54

Apesar da tremenda importância dessa verdade, têm surgido mui­tas objeções a ela. Primeiro, há os que guardam forte antipatia para com categorias legais em toda a conversa acerca da salvação, sob o fundamento de que representam a Deus como Juiz e Rei, não como Pai, e, portanto, não podem retratar adequadamente seus tratos pes­soais conosco ou nosso relacionamento pessoal com ele. Essa objeção seria sustentável se a justificação fosse a única imagem da salvação. Mas seu sabor jurídico é equilibrado pelas imagens mais pessoais da “reconciliação” e “adoção” (nas quais Deus é Pai, não Juiz), as quais examinaremos a seguir.

Segundo, outros críticos tentam rejeitar a doutrina como idiossin­crasia paulina, a qual se originou em sua mente peculiarmente fo­rense. Não devíamos hesitar em abrir mão dessa rejeição, contudo, visto que o que é paulino é apostólico, e, portanto, possui autoridade. De qualquer modo, a afirmativa é falsa. Paulo não inventou o conceito da justificação. Esse conceito remonta a Jesus, que disse que o publicano e não o fariseu da parábola “desceu justificado para sua casa” (Lucas 18:14). De fato, remonta ao Antigo Testamento, no qual o servo de Deus, justo e sofredor “justificará a muitos”, porque “levará as suas iniqüidades” (Isaías 53:11).

Terceiro, necessitamos dar uma olhada nas razões pelas quais os católicos romanos rejeitam o ensino dos reformadores a respeito da justificação pela fé. Poderíamos resumir, não injustamente, a doutrina do Concilio de Trento em três cabeçalhos que se referem à natureza da justificação, o que a precede e a ocasiona, e o que a segue.

Primeiro, o Concilio ensinou que a justificação acontece no batismo , e inclui tanto o perdão como a renovação. A pessoa batizada é pu­rificada de todos os pecados originais e atuais e é simultaneamente infundida com uma justiça nova e sobrenatural.

Segundo, antes do batismo a graça preveniente de Deus predispõe as pessoas a se “converterem à sua própria justificação livremente, concordando e cooperando com essa graça”.

Terceiro, os pecados pós-batismais (se “mortais”, que causam a perda da graça) não são incluídos no âmbito da justificação. Têm de ser purgados através de contrição, confissão e penitência (também, se restarem alguns na hora da morte, pelo purgatório), de modo que se pode dizer que essas e outras boas obras pós-batismais “merecem” a vida eterna.55

As igrejas protestantes tinham boa razão para ser profundamente perturbadas por esse ensino. Ao mesmo tempo, nenhum dos lados ouvia cuidadosamente ao outro, e ambos eram marcados pelo espírito acrimonioso e polêmico de sua época. Hoje a questão básica, o ca­minho da salvação, permanece crucial. Muito se encontra em jogo. Entretanto, o ambiente mudou. Também o espantoso monógrafo de Hans Küng sobre a doutrina da justificação de Karl Barth56 abriu novas possibilidades de diálogo. Da mesma forma o fez o Segundo Concilio Vaticano no início dos anos sessentas.57

O livro de Hans Küng divide-se em duas partes. Com relação à primeira, que expõe “a teologia da justificação de Karl Barth”, o pró­prio Barth escreveu a Hans Küng: “Você reproduziu total e acura­damente as minhas visões como eu próprio as compreendo. . . Você me fez dizer o que realmente faço e digo e. . . o significado do que digo é o que você apresentou”. Com referência à segunda parte, que oferece “uma tentativa de resposta católica”, e que em sua conclusão reivindica “um acordo fundamental entre a teologia católica e a pro­testante, precisamente na teologia da justificação”, Barth escreveu: “Se for esse o ensino da igreja católica romana, então devo certamente admitir que minha perspectiva da justificação concorda com o ponto de vista católico romano, se tão somente pelo motivo de que o ensino católico estaria então, de modo admirável, de acordo com o meu!” A seguir ele pergunta como esse acordo “pôde permanecer oculto por tanto tempo e de tantos”, e inquire se Hans Küng o descobriu antes, durante ou depois de ler a Dogmática da Igreja!

Hans Küng certamente faz afirmativas admiráveis, embora talvez seja uma pena que a sua tese procure demonstrar concordância entre Trento e Barth, em vez de Lutero, por quem ele parece ter menos simpatia. No capítulo 27 ele define a graça segundo a Escritura como “graciosidade”, “favor” de Deus ou “amabilidade generosa”. “A questão não é eu ter graça, mas ele ser gracioso”. No capítulo 28 ele escreve que a justificação “deve ser definida como uma declaração de justiça por ordem do tribunal, e que no Novo Testamento “jamais se encontra ausente a associação com uma situação jurídica”. Outra vez, é um “evento judicial”, “uma justiça maravilhosamente graciosa e salvadora”. Então, no capítulo 31 Hans Küng vigorosamente afirma a verdade da sola fides (somente pela fé), e diz que Lutero estava totalmente correto e ortodoxo em acrescentar a palavra “somente” ao texto de Romanos 3:28, visto não ter sido “invenção de Lutero”, já que tinha aparecido em várias outras traduções e Trento não pretendia contradizê-lo. De modo que “devemos reconhecer um acordo fun­damental”, escreve ele, “em relação à fórmula sola fides. . . O homem é justificado por Deus somente à base da fé”. Além do mais, “a justificação através da ‘fé somente’ fala da completa incapacidade e incompetência do homem para qualquer tipo de autojustificação”. “Assim, o homem é justificado somente por meio da graça de Deus; o homem nada realiza; não há nenhuma atividade humana. Antes, o homem simplesmente se submete à justificação de Deus; ele não realiza obras; ele crê”.

Todavia, o professor Küng não se detém aí. Apesar da sua ênfase na natureza judicial da justificação como declaração divina, ele insiste em que a Palavra de Deus é sempre eficaz, de modo que tudo o que Deus pronuncia vem a existir. Portanto, quando Deus diz “você é justo”, “o pecador é justo, real e verdadeiramente, externa e inter­namente, total e completamente. Seus pecados são perdoados, e o homem é justo em seu coração. . . Em resumo, a declaração divina de justiça é. . .ao mesmo tempo o no mesmo ato um tornar justo”. Jus­tificação é “o ato único que simultaneamente declara justo e torna justo”.

Porém há aqui uma perigosa ambigüidade, especialmente na sen­tença retórica acerca do pecador justificado ser “total e completamente justo”. O que implica essa afirmativa?

Se “justo” aqui significa “perdoado, aceito, certo com Deus”, então deveras nos tornamos de imediata, total e completamente o que Deus declara que somos; desfrutamos a situação justa a qual ele nos con­feriu. Esse é o significado verdadeiro de “justificação”.

Se “justo” é usado com a significação de “tornado novo, feito vivo”, então, repetimos, a palavra criadora de Deus imediatamente nos torna o que ele declara. Contudo, esse seria um mau uso da palavra “justo”, porque o que agora se descreve não é justificação, mas regeneração.

Se “justo” significa “ter caráter justo” ou “ser conformado à imagem de Cristo”, então a declaração de Deus não a garante de imediato, mas apenas a inicia. Pois isso não é justificação mas santificação, um processo contínuo e vitalício.

Até mesmo o Excursus II explanatório de Hans Küng, “Justificação e Santificação no Novo Testamento”, não expõe de modo claro o que ele quer dizer com Deus “tornar” o pecador “justo”. Ele reconhece o problema de que o Novo Testamento usa a linguagem da “santificação” em dois sentidos distintos. Às vezes é quase sinônimo de justificação, pois denota a santidade de nosso status, não nosso ca­ráter. Nesse sentido, no mesmo momento de nossa justificação somos feitos “santos”, pois fomos “santificados em Cristo Jesus”, separados para pertencer ao povo santo de Deus.58 Outras vezes “santificação” descreve o processo de se crescer na santidade e se tornar à seme­lhança de Cristo.59

Parece que a confusão surge porque Hans Küng não mantém coe­rentemente essa distinção. Ele se refere à justificação e à santificação como acontecendo junta e simultaneamente (“Deus simultaneamente justifica e santifica”) e como sendo juntas capazes de crescimento (Trento falou da “necessidade de. . . crescimento na justificação”). Essa afirmativa, contudo, é enganosa. No debate acerca da justificação seria prudente manter a palavra “santificação” no seu sentido distin­tivo de “crescimento em santidade”. Pois então podemos afirmar que a justificação (Deus nos tornar justos através da morte do seu Filho) é instantânea e completa, não admitindo graus, ao passo que a san­tificação (Deus nos tornando justos através da habitação do seu Es­pírito), embora iniciada no momento em que somos justificados, é gradual e incompleta por toda vida, à medida que somos transfor­mados à semelhança de Cristo “de glória em glória” (2 Coríntios 3:18).

Ao desejar um esclarecimento maior nesse ponto, minha intenção não é diminuir a tour de force de Hans Küng. Ao mesmo tempo, já se passou mais de um quarto de século desde a publicação do seu livro, e não se tem consciência de nenhuma proclamação geral na igreja católica romana do evangelho da justificação somente pela graça atra­vés da fé somente.

Correndo o risco de excessiva simplificação, pode-se dizer que os evangélicos e os católicos romanos juntos ensinam que Deus pela sua graça é o único Salvador dos pecadores, que a auto-salvação é im­possível, e que a morte de Jesus Cristo como sacrifício propiciatório é o fundamento último da justificação. Mas precisamente o que é a justificação, como se relaciona a outros aspectos da salvação, como acontece — são estas as áreas de contínuos e ávidos debates.

Os evangélicos sentem a necessidade de pressionar os católicos romanos acerca do pecado, da graça, da fé e das obras. Os católicos romanos sentem-se incomodados quando falamos acerca da “total depravação” (que cada aspecto de nossa humanidade foi distorcido pela Queda), que está por trás de nossa insistência sobre a necessidade de uma salvação radical e de graça não contributiva. Acham que essa é uma perspectiva pessimista da condição humana, envolvendo uma doutrina inadequada da criação. Acrescentam que os seres humanos não perderam o seu livre-arbítrio, e são, portanto, capazes de cooperar com a graça e contribuir para a salvação. Nós, contudo, vemos a necessidade de sublinhar as antíteses do Novo Testamento referentes à salvação. “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.” “Sabendo. . . que o homem não é justificado por obras da lei, e, sim, mediante a fé em Cristo Jesus”. De novo, “não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou”.60

Não podemos evitar a alternativa inflexível que tais textos colocam diante de nós. Não por obras, mas por graça. Não por lei, mas por fé. Não por ações de nossa justiça, mas pela misericórdia dele. Não há aqui nenhuma cooperação entre Deus e os homens, somente uma escolha entre dois modos mutuamente exclusivos, o dele e o nosso. Além do mais, a fé que justifica é enfaticamente não outra obra. Não, dizer “justificação pela fé” não passa de outro modo de dizer “jus­tificação por Cristo”. A fé, em si mesma, não tem absolutamente nenhum valor; seu valor está somente em seu objeto. A fé é o olho que olha para Cristo, a mão que o segura, a boca que bebe a água da vida. E quanto mais claramente vemos a adequação absoluta da pessoa divina e humana de Jesus Cristo e sua morte que tira o pecado, tanto mais incongruente parece que alguém pudesse supor que temos algo a oferecer. É por isso que a justificação pela fé somente — e citamos de novo a Cranmer — “avança a verdadeira glória de Cristo e desfaz a vangloria do homem”.

Se desejarmos pressionar os católicos romanos nesses pontos, con­tudo, também necessitamos responder às pressões que fazem a nós. A principal delas poderia ser uma série de perguntas como as se­guintes: “Vocês ainda insistem que quando Deus justifica os peca­dores ele os pronuncia mas não os torna justos? que a justificação é uma declaração legal, não uma transformação moral? que a justiça é ‘imputada’ a nós, mas não ‘infundida’ em nós, nem mesmo ‘trans­mitida’ a nós? que vestimos a justiça de Cristo como um casaco, o que oculta nossa pecaminosidade contínua? que a justificação, embora mude nossa situação, deixa nosso caráter e conduta intactos? que cada cristão justificado, como ensinaram os reformadores, é simul justus et peccator (ao mesmo tempo uma pessoa justa e pecadora)? Se assim for, não é a justificação uma ficção legal, até mesmo um gigan­tesco engano, uma transação falsa externa a nós mesmos, a qual nos deixa sem renovação interna? Não estão vocês reivindicando ser mu­dados quando, de fato, não o são? Não é a sua doutrina da ‘justificação pela fé somente’ uma licença finamente disfarçada para continuarem pecando?”

Essas são perguntas penetrantes. De um modo ou de outro, já ouvi a todas. E não há dúvida de que nós, evangélicos, em nosso zelo por enfatizar a liberdade total da salvação, às vezes temos sido incautos em nossa fraseologia, e dado a impressão de que boas obras não são importantes. Mas então, o apóstolo Paulo também podia, evidente­mente, ter sido incauto, visto que seus críticos lhe atiraram a mesma acusação, o que o levou a clamar: “Que diremos, pois? permanece­remos no pecado, para que seja a graça mais abundante?’”‘ (Romanos 6:1). Sua resposta indignada à sua própria pergunta retórica foi lem­brar a seus leitores o batismo deles. Não sabiam que, quando foram batizados em Cristo Jesus, foram batizados na sua morte? Tendo, assim, morrido com ele para o pecado, como poderiam viver nele? (vv. 2-3).

O que Paulo estava fazendo com essa resposta era mostrar que a justificação não é a única imagem da salvação. Seria inteiramente errôneo fazer a equação “salvação é igual a justificação”. “Salvação” é uma palavra abrangente que possui muitas facetas exemplificadas por quadros diferentes, dos quais a justificação é apenas um. Reden­ção, como vimos, é outra faceta e dá testemunho de nossa liberdade radical do pecado e também da culpa. Outra é a recriação, de modo que “se alguém está em Cristo, é nova criatura” (2 Coríntios 5:17). Ainda outra é a regeneração ou o novo nascimento, que é obra interior do Espírito Santo, que então permanece como uma presença graciosa, transformando o crente à imagem de Cristo, que é o processo da santificação.

Todos os quadros vão juntos. A regeneração não é um aspecto da justificação, mas ambas são aspectos da salvação, nem uma delas pode ocorrer sem a outra. De fato, a grande afirmação “ele nos salvou” é dividida em seus componentes, que são “o lavar regenerador e re­novador do Espírito Santo” por um lado e ser “justificados por graça” por outro (Tito 3:5-7). A obra justificadora do Filho e a obra regene-radora do Espírito não podem ser separadas. É por isso que as boas obras do amor seguem a justificação e o novo nascimento, como evidência necessária deles. Pois a salvação, que jamais é “por obras”, é sempre “para obras”. Lutero costumava exemplificar a ordem cor­reta dos eventos com uma referência à árvore e ao seu fruto: “A árvore deve vir primeiro, então o fruto. Pois não é a maçã que faz a árvore, mas a árvore que faz a maçã. De modo que primeiro a fé faz a pessoa, que, depois, produz as obras.”61

Uma vez que mantenhamos que a obra do Filho por nós e a obra do Espírito em nós, isto é, a justificação e a regeneração, são gêmeas inseparáveis, é seguro prosseguirmos insistindo em que a justificação é uma declaração externa e legal de que o pecador foi tornado justo com Deus, perdoado e reinstituído. O uso popular da palavra torna claro esse ponto. Como ressaltou Leon Morris: “quando falamos de justificar uma opinião ou uma ação, não queremos dizer que a mu­damos ou a aprovamos. Antes, queremos dizer que lhe garantimos um veredicto, que a vindicamos”.62 Similarmente, quando Lucas disse que todo mundo, ao ouvir o ensino de Jesus, justificava a Deus, o que ele queria dizer era que reconheciam que Deus estava certo (Lucas 7:29).

O vocabulário da justificação e condenação ocorre regularmente no Antigo Testamento. Moisés instruiu os juizes israelitas de que deviam decidir os casos que lhe fossem levados, “justificando ao justo e con­denando ao culpado” (Deuteronômio 25:1). Todo mundo sabia que Yavé jamais justificaria o ímpio (Êxodo 23:7), e que “o que justifica o perverso e que condena o justo, abomináveis são para o Senhor, tanto um como o outro” (Provérbios 17:15). O profeta Isaías pronunciou um terrível ai contra os magistrados que “por suborno justificam o perverso, e ao justo negam justiça!” (5:23). Condenar o justo e jus­tificar o ímpio seria colocar a administração da justiça de cabeça para baixo. É contra esse ambiente de prática judicial aceita que Paulo deve ter chocado seus leitores romanos, ao escrever que “Deus. . . justifica o ímpio” (Romanos 4:5). Como podia Deus fazer uma coisa dessas? Era um ultraje o divino Juiz praticar o que — nas mesmas palavras gregas — ele havia proibido aos juizes humanos. Além disso, como poderia o Justo declarar justo o ímpio? O próprio pensamento era contrário ao senso comum.

A fim de resumir a defesa de Paulo da justificação divina dos pe­cadores, selecionarei quatro de suas frases-chave, as quais se relacio­nam sucessivamente à fonte, ao fundamento, ao meio e aos efeitos da justificação.

Primeiro, a fonte de nossa justificação é indicada na expressão jus­tificado por sua graça (Romanos 3:24), isto é, por seu favor totalmente imerecido. Visto que é certo não haver nenhum justo, nenhum sequer (Romanos 3:10), é igualmente certo que ninguém pode declarar-se justo à vista de Deus.63 A autojustificação é uma total impossibilidade (Romanos 3:20). Portanto, é Deus quem justifica (Romanos 8:33); so­mente ele pode fazê-lo. E ele o faz livremente (Romanos 3:24, dorean, “como um presente grátis”), não por causa de quaisquer obras nossas, mas por causa da sua própria graça. Como diz Tom Wright no seu lindo epigrama: “nenhum pecado, nenhuma necessidade de justifi­cação: nenhuma graça, nenhuma possibilidade dela”.64

Entretanto, graça é uma coisa, justiça é outra. E a justificação tem que ver com a justiça. Dizer que somos “justificados pela graça” fala da fonte da nossa justificação, mas nada diz acerca do justo funda­mento para ela, sem o qual Deus contradiria à sua própria justiça.

De modo que outra expressão-chave de Paulo, a qual nos introduz ao fundamento da nossa justificação é justificados por seu sangue (Ro­manos 5:9). Justificação não é sinônimo de anistia, que, estritamente falando, é perdão sem princípio, perdão que deixa de ver — até mesmo se esquece (amnestia é “esquecimento”) — o erro e se recusa a levá-lo à justiça. Não, justificação é um ato de justiça, de justiça graciosa. Seu sinônimo é a justiça de Deus (Romanos 1:17; 3:21), a qual, no momento, se poderia explicar como o seu “modo justo de justificar o injusto”. O Dr. J. I. Packer a define como “a obra graciosa de Deus de conceder aos pecadores culpados uma justificação justi­ficada, inocentando-os no tribunal do céu sem prejuízo à sua justiça como o Juiz deles.”65 Quando Deus justifica os pecadores, ele não está declarando que pessoas ruins são boas, nem dizendo que não são pecadoras, afinal de contas; ele as pronuncia legalmente justas, livres de qualquer responsabilidade à lei quebrada, porque ele próprio em seu Filho levou a penalidade da infração delas da lei. É por isso que Paulo pode unir numa única sentença os conceitos de jusficação, redenção e propiciação (Romanos 3:24-25). Os motivos pelos quais somos justificados livremente pela graça de Deus são que Cristo Jesus pagou o preço de resgate e que Deus o apresentou como um pacrifício propiciatório. Em outras palavras, somos justificados pelo seu sangue. Não poderia haver justificação sem expiação.

Terceiro, o meio de nossa justificação é indicado na expressão fa­vorita de Paulo justificados pela fé.66 A graça e a fé pertencem indissoluvelmente uma à outra, uma vez que a única função da fé é receber o que a graça livremente oferece. Não somos, pois, justificadas “por” nossa fé, mas “pela” graça de Deus e “pelo” sangue de Cristo. A graça de Deus é a fonte e o sangue de Cristo o fundamento de nossa justificação; a fé não passa do meio pelo qual somos unidos a Cristo. Como Richard Hooker disse, com sua costumeira precisão “Deus realmente justifica o homem que crê, contudo, não por causa da dignidade da sua crença, mas pela dignidade daquele em que crê”.67

Ainda mais, se a fé é somente o meio, é, contudo, o único meio. Embora a palavra “somente” não ocorra no texto grego de Romanos 3:28, foi o instinto correto de Lutero, como já vimos, e, de fato, é uma tradução correta representar a expressão de Paulo: “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé somente, independentemente das obras da lei”. O motivo de ele ter escrito “pela fé, independentemente das obras da lei” era excluir totalmente as obras da lei, deixando a fé como o único meio de justificação. E Paulo já apresentou seu motivo no versículo anterior, a saber, a fim de excluir a jactância. Pois a menos que todas as obras, méritos, cooperação e contribuições humanos sejam duramente excluídos, e a morte de Cristo, que leva o pecado, seja vista em sua glória solitária como o único fundamento de nossa justificação, a jactância não pode ser excluída. Craruner viu isso cla­ramente: “Este dito, de que somos justificados pela fé somente, li­vremente e sem as obras, é pronunciado a fim de desfazer todo o mérito de nossas obras, como sendo incapazes de merecer a nossa justificação nas mãos de Deus. . . e com isso, atribuir totalmente o mérito e o merecimento de nossa justificação a Cristo somente e ao derramamento preciosíssimo do seu sangue. . . E esta forma de falar usamos na humilhação de nós mesmos a Deus, e para dar toda a glória ao nosso Salvador Cristo, que é muito mais digno de recebê-la”.68

Quarto, quais são os efeitos de nossa justificação? Acho que podemos deduzi-los de outra expressão paulina que às vezes é negligenciada, a saber, que somos justificados em Cristo.69 Dizer que somos justificados “mediante Cristo” aponta para a sua morte histórica; dizer que somos justificados “em Cristo” aponta para o relacionamento pessoal com ele, o qual pela fé agora desfrutamos. Esse simples fato torna impos­sível que pensemos na justificação como uma transação puramente externa; ela não pode ser isolada de nossa união com Cristo e de todos os benefícios que esta nos traz. O primeiro é sermos membros da comunidade messiânica de Jesus. Se estamos em Cristo e, portanto,

dentes (espirituais) de Abraão. Além do mais, nenhuma barreira ra­cial, social ou sexual pode separar-nos. É esse o tema de Gálatas 3:26-29. Tom Wright certamente tem razão ao dar ênfase à idéia de que “a justificação não é privilégio do individualista, mas a declaração divina de que pertencemos à comunidade da aliança”.70 Segundo, essa nova comunidade, que, a fim de criar, Cristo se deu a si mesmo na cruz, deve ser “ávida em fazer o bem”, e os seus membros devem-se devotar às boas obras.71 De modo que, em última instância, não há conflito entre Paulo e Tiago. Pode ser que estivessem usando o verbo “justificar” em sentidos diferentes. Certamente estavam escre­vendo contra heresias diversas. Paulo contra o legalismo autojustifi-cador dos judaizantes, e Tiago contra a ortodoxia morta dos inte-lectualistas. Contudo, ambos ensinam que uma fé autêntica funciona. Paulo dava ênfase à fé que se manifesta em obras, e Tiago às obras que procedem da fé.72

A nova comunidade de Jesus é uma comunidade escatológica que já vive na nova era que ele inaugurou. Pois a justificação é um evento escatológico. Ela traz ao presente o veredicto do juízo final. É por isso que a igreja é uma comunidade de esperança, que aguarda com con­fiança humilde o futuro. É certo que podemos dizer com Paulo que a lei nos condenou. Mas agora não há condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus. Por que não? Porque Deus fez por nós o que a lei não podia fazer. Ao enviar o seu próprio Filho à semelhança de nossa natureza pecaminosa para ser a oferta pelo pecado, ele, na realidade, condenou o nosso pecado no Jesus humano. Somente por ter sido ele condenado podemos ser justificados. O que, pois, temos de temer? “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu, ou antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós.” É por isso que, no momento em que somos justificados, nada nos pode separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus nosso Senhor.73

 

Reconciliação

A quarta imagem da salvação, que exemplifica a realização da cruz, é a “reconciliação”. É provável que, por ser a mais pessoal das quatro, seja também a mais popular. Deixamos para trás o recinto do templo, o mercado e os tribunais. Agora estamos em nossa própria casa com nossa família e amigos. É verdade que há uma luta, a que até podemos chamar de “inimizade”, mas reconciliar significa restaurar um rela­cionamento, renovar uma amizade. De modo que se pressupõe um relacionamento original que, tendo sido quebrado, foi recuperado por Cristo.

Um segundo motivo pelo qual as pessoas se sentem à vontade com essa imagem é que reconciliação é o oposto de alienação, e muitos hoje em dia se dizem “alienados”. Os marxistas continuam a falar da alienação econômica dos operários do produto de seu labor. Outros falam de alienação política, uma sensação de impotência em mudar a sociedade. Mas para muitos “alienação” engloba o estado de espírito moderno. Não se sentem à vontade no materialismo, na nulidade e na superficialidade do mundo ocidental. Pelo contrário, sentem-se incompletos e desorientados, incapazes de encontrar-se a si mesmos, a sua identidade ou a sua liberdade. Para eles, o falar da reconciliação soa como as boas novas que realmente é.

Todavia, a primeira coisa que se deve dizer acerca do evangelho bíblico da reconciliação é que ele tem início na reconciliação com Deus, e continua com uma comunidade reconciliada em Cristo. Reconcilia­ção não é um termo usado pela Bíblia no sentido de “encontrar paz consigo mesmo”, embora ela insista em que somente através da perda de nós mesmos em amor a Deus e ao próximo é que verdadeiramente nos encontramos.

O começo, portanto, é a reconciliação com Deus. É esse o significado de “expiação”. Alude também ao evento mediante o qual Deus e os seres humanos, anteriormente alienados um do outro, são tornados “um” de novo. É significativo que em Romanos 5:9-11, uma das quatro grandes passagens sobre a reconciliação no Novo Testamento, ser reconciliado e ser justificado são termos paralelos. “Sendo justificados pelo seu sangue” é balanceado por “quando inimigos, fomos recon­ciliados com Deus mediante a morte do seu Filho”. As duas condições, embora efetuadas pela cruz, não são idênticas. Justificação é nossa posição legal na presença do Juiz no tribunal; reconciliação é nosso relacionamento pessoal com nosso Pai no lar. De fato, o último é seqüela e fruto do primeiro. É somente quando somos justificados pela fé que temos paz com Deus (Romanos 5:1), a qual é a reconci­liação.

Dois outros termos do Novo Testamento confirmam a ênfase de que reconciliação significa paz com Deus, a saber “adoção” e “acesso”. Com referência ao primeiro, foi o próprio Jesus, que sempre se dirigiu intimamente a Deus como “Aba, Pai”, quem nos deu a permissão de fazer o mesmo, aproximando-nos dele como “nosso Pai que está no céu”. Os apóstolos o ampliaram. João, que atribui o fato de sermos filhos de Deus ao nosso nascimento de Deus, expressa seu sentido de maravilha de que o Pai nos tivesse amado tanto ao ponto de nos chamar, e deveras fazer-nos seus filhos.74 Paulo, por outro lado, pre­fere traçar a nossa condição de filhos de Deus à adoção em vez de ao novo nascimento, e enfatiza os privilégios que temos em ser filhos em vez de escravos, e, portanto, herdeiros de Deus também.75

“Acesso” a Deus (prosagoge) é outra bênção da reconciliação. Parece denotar a comunhão ativa com Deus, especialmente em oração, a qual seus filhos reconciliados desfrutam. Duas vezes Paulo equipara “acesso a Deus” a “paz com Deus”, a primeira vez atribuindo-os à nossa justificação em vez de à nossa reconciliação (Romanos 5:1-2), e a segunda vez explicando o “acesso” como uma experiência trinitariana, na qual temos acesso ao Pai através do Filho mediante o Espírito (Efésios 2:17-18), e “pelo qual temos ousadia e acesso com confiança” (Efésios 3:12). Pedro usa o verbo cognato, declarando que foi a fim de “conduzir-nos” a Deus (prosago) que Cristo morreu por nós de uma vez por todas, o justo pelos injustos (1 Pedro 3:18). E o escritor da carta aos Hebreus toma emprestado do ritual do Dia da Expiação a fim de transmitir a proximidade de Deus a qual Cristo tornou pos­sível pelo seu sacrifício e sacerdócio. “Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus”, escreve ele, “aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé. . .” (Hebreus 10:19-22).

Assim, reconciliação, paz com Deus, adoção em sua família e acesso à sua presença — todos dão testemunho do mesmo relacionamento novo a que Deus nos trouxe.

Todavia, a reconciliação possui um plano horizontal como também um vertical. Pois Deus nos reconciliou uns com os outros em sua nova comunidade, como também a si mesmo. Uma segunda grande pas­sagem do Novo Testamento (Efésios 2:11-22) enfoca esse fato, e, em particular, a cura da separação entre judeus e gentios, de modo que às vezes não está claro a que reconciliação Paulo está-se referindo. Ele lembra a seus leitores cristãos gentios que outrora estavam, por um lado, “separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa”, e por outro, “sem Cristo. . . e sem Deus no mundo” (v. 12). Sim, estavam “distantes” tanto de Deus quanto de Israel, duplamente alienados; “mas agora em Cristo Jesus”, prossegue ele, “vós, que antes estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue de Cristo” — aproximados de Deus e de Israel (v. 13). De fato, Cristo, que “é a nossa paz”, quebrou a barreira que existia entre essas duas metades da raça humana, e “de ambos fez um” (v. 14). Ele “aboliu” os regulamentos da lei que os separava e “criou” em si mesmo “um novo homem, fazendo a paz” dos dois (v. 15). Conhecendo a amar­gura e o desprezo mútuos que judeus e gentios sentiam uns pelos outros, essa reconciliação foi um milagre da graça e do poder de Deus. O seu resultado foi o surgimento de uma humanidade única, nova e unificada, cujos membros através da cruz foram reconciliados com Deus e uns com os outros. Anteriormente inimigos, tiveram morta a sua hostilidade recíproca. Agora são co-cidadãos do reino de Deus, irmãos e irmãs na família de Deus (v. 19), membros do corpo de Cristo e co-participantes da promessa messiânica (3:6). Essa igualdade com­pleta entre os judeus e os gentios na nova comunidade é o “mistério” que por séculos estivera oculto, mas que agora Deus revelava aos apóstolos, especialmente a Paulo, o apóstolo dos gentios (3:4-6).

Mesmo essa igualdade não completa a reconciliação que Deus rea­lizou através de Cristo. Em Colossenses, que é a epístola irmã de Efésios por causa dos muitos paralelos que ambas contêm, Paulo acrescenta uma dimensão cósmica à obra de Cristo. Quer a grande passagem cristológica (Colossenses 1:15-20) seja um hino cristão primitivo, como acreditam muitos eruditos, quer seja uma composição original paulina, é uma afirmativa sublime da supremacia absoluta de Jesus Cristo na criação e na redenção, do Universo e da igreja. Ao mesmo tempo, é aptamente dirigida aos hereges colossenses que parece terem en­sinado a existência de seres angelicais intermediários (“tronos, soberanias, principados, potestades”) entre o Criador e a criação material, e podem ter sugerido que Jesus era um deles. Paulo não concordou com tal idéia nem por um instante. Sua ênfase é em “tudo”, expressão que ele usa cinco vezes e que em geral significa “cosmo”, mas aqui, evidentemente, inclui principados e potestades. Todas as coisas foram criadas por Deus em Cristo, através de Cristo e para Cristo (v. 16). Ele é “antes” de todas as coisas no tempo e na hierar­quia, e “nele” todas as coisas são sustentadas e integradas (v. 17). Visto que todas as coisas existem em Cristo, através dele e para ele, ele é, por direito, o senhor supremo. Além disso, ele é a cabeça do corpo, a igreja, sendo o primogênito dentre os mortos, para que ti­vesse primazia em todas as coisas (v. 18). E essa segunda esfera da sua supremacia deve-se ao fato de que aprouve a Deus que em Cristo residisse toda a plenitude (v. 19) e realizasse a sua obra de reconci­liação através dele fazendo paz mediante o sangue derramado na cruz. Dessa vez tudo o que é reconciliado é novamente chamado de “todas as coisas”, descritas ainda mais como “coisas, quer sobre a terra, quer nos céus” (v. 20).

Não podemos ter certeza daquilo a que Paulo estava-se referindo. Presumimos que a expressão “todas as coisas” reconciliadas (v. 20) tenha a mesma identidade de “todas as coisas” criadas (vv. 16-17). Mas se o que foi criado por meio de Cristo mais tarde necessitava ser reconciliado por intermédio dele, algo deve ter saído errado no en­tremeio. Como disse Peter O’Brien: “A pressuposição é que a unidade e harmonia do cosmo sofreram um deslocamento considerável, até mesmo uma ruptura, requerendo assim a reconciliação”.76

Se a referência for à ordem natural, então talvez sua “reconciliação” seja a mesma que a liberdade do “cativeiro da corrupção” (Romanos 8:21), embora esse seja um evento futuro. Se, por outro lado, a re­ferência for a seres cósmicos inteligentes ímpios ou anjos caídos, não há garantia no Novo Testamento que nos leve a esperar que tais foram (ou serão) reconciliados com Deus. Parece mais provável, portanto, que principados e potestades foram “reconciliados” no sentido do capítulo seguinte, a saber, que foram “desarmados” por Cristo, que “publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz” (Co­lossenses 2:15). Admitimos que é um uso estranho da palavra “re­conciliados”, mas, uma vez que Paulo também descreve essa reconciliação como “fazendo a paz” (1:20), talvez F. F. Bruce tenha razão ao dizer que o apóstolo está falando de uma “pacificação” de seres cósmicos “submetendo-se contra suas vontades a um poder que não podem resistir”.77 Nesse caso, pode-se ter em mente a mesma situação que em outro lugar é descrita como cada joelho dobrando-se a Jesus e cada língua confessando o seu senhorio (Filipenses 2:9-11), e todas as coisas sendo colocadas por Deus debaixo dos pés de Cristo até o dia em que serão unidas sob uma única cabeça, a cabeça de Cristo (Efésios 1:10, 22).

Até aqui investigamos os objetos da obra reconciliadora de Deus através de Cristo. Ele reconciliou os pecadores a si mesmo, judeus e gentios uns com os outros, e até mesmo os poderes cósmicos no sentido de desarmá-los e pacificá-los. Agora necessitamos considerar como se realizou a reconciliação, e quais são, no grande drama da reconciliação, os papéis respectivos desempenhados por Deus, Cristo e nós. A fim de conseguir luz para essas questões, voltamo-nos para a quarta passagem da reconciliação, 2 Coríntios 5:18-21.

Tudo provém de Deus que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo, e nos deu o ministério da reconciliação, a saber, que Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgres­sões, e nos confiou a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus. Àquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus.

A primeira verdade dessa passagem deixa claro que Deus é o autor da reconciliação. De fato, é essa a ênfase principal da passagem toda. “Tudo (ta panta, todas as coisas”) provém de Deus”. Talvez a refe­rência a “todas as coisas” nos remeta às “coisas novas” da nova criação com a qual o versículo anterior termina. Deus é o Criador; a nova criação provém dele. Seguem-se oito verbos nesses parágrafos os quais têm a Deus como sujeito. Descrevem a graciosa iniciativa divina — Deus reconciliando, Deus concedendo, Deus apelando, Deus fa­zendo Cristo pecado por nós. Portanto, não é bíblica a explicação da expiação que tira a iniciativa de Deus e a dá a nós ou a Cristo. A iniciativa certamente não é nossa. Nada temos para oferecer, contri­buir, apelar. Na frase memorável de William Temple, “tudo é de Deus; a única coisa minha com a qual contribuo para a minha redenção é o pecado do qual preciso ser redimido”. A iniciativa primária tampouco foi de Cristo. Qualquer interpretação da expiação que atribua a ini­ciativa a Cristo, de tal modo que a retire do Pai, não serve. Cristo deveras tomou a iniciativa de vir, mas apenas no sentido em que podia dizer: “Eis aqui estou. . . Para fazer, ó Deus, a tua vontade” (Hebreus 10:7). A iniciativa do Filho foi em submissão à iniciativa do Pai. Não houve relutância da parte do Pai. Não houve intervenção da parte de Cristo, como um terceiro partido. Não, a reconciliação foi concebida e dada à luz no amor de Deus. “Deus tanto amou o mundo que deu seu Filho unigênito”.

Notamos aqui que sempre que o verbo “reconciliar” ocorre no Novo Testamento, Deus é o seu sujeito (ele nos reconciliou consigo) ou, se o verbo estiver na passiva, nós o somos (fomos reconciliados com ele). Deus jamais é o objeto do verbo. Jamais se diz que “Cristo reconciliou o Pai conosco”. Formal e lingüisticamente é esse o fato. Mas devemos ter cuidado em não construir teologicamente muito sobre ele. Pois se estivéssemos certos em dizer que Deus propiciou a sua própria ira por intermédio de Cristo, certamente poderíamos dizer que ele se reconciliou conosco por meio de Cristo. Se ele necessitava ser propiciado, ele igualmente necessitava ser reconciliado. Em outras palavras, é erro pensar que a barreira entre Deus e nós, a qual exigiu a obra da reconciliação, estava inteiramente do nosso lado, de modo que carecemos ser reconciliados e Deus não. É verdade que éramos inimigos de Deus, hostis a ele em nossos corações.78 Mas a “inimi­zade” era de ambos os lados. A parede ou barreira entre Deus e nós era constituída tanto por nossa rebeldia a ele quanto por sua ira sobre nós por causa de nossa rebeldia. Três argumentos apóiam essa con­tenção.

Primeiro, a linguagem. As próprias palavras “inimigo”, “inimizade” e “hostilidade” implicam reciprocidade. Por exemplo, em Romanos 11:28 a palavra “inimigos”, visto estar em contraste com o tempo passivo “amados”, deve ser passiva. Também a “hostilidade” entre Jesus e os gentios de Efésios 2:14 foi recíproca, o que sugere que a outra “hostilidade” (entre Deus e os pecadores) também o foi. De modo que F. Büchsel escreve que não devemos interpretar a inimizade “unilateralmente”, como hostilidade apenas “para com” Deus, mas que ela inclui o “permanecer sob a ira de Deus”.79 O segundo argu­mento relaciona-se com o contexto, tanto de cada passagem individual quanto da Bíblia toda. Em todas as grandes passagens sobre a recon­ciliação, ou nas suas proximidades, faz-se referência à ira de Deus. A mais admirável é Romanos 5, onde “salvos da ira” (v. 9) é imedia­tamente seguida de “quando inimigos” (v. 10). Então há o contexto bíblico mais amplo. Leon Morris, em particular, o sublinha: “Há, na perspectiva bíblica, uma hostilidade definida da parte de Deus para com tudo o que é ímpio. . . Assim, muito separado dos detalhes de interpretação de determinadas passagens, há ensino forte e coerente no sentido de que Deus é ativo em sua oposição a tudo o que é ímpio.”80 Terceiro, há a teologia. A lógica de Paulo era de que Deus tinha agido objetivamente na reconciliação antes que a mensagem de reconciliação fosse proclamada. De modo que a “paz” que os evan­gelistas pregam (Efésios 2:17) não pode ser que nosso inimizade foi vencida (antes pregam para que ela seja), mas que Deus se desviou da sua inimizade por causa da cruz de Cristo. Ele se reconciliou a si mesmo conosco; agora devemos ser reconciliados com ele. Emil Brunner expressou-se com precisão sobre esse assunto:

A reconciliação pressupõe inimizade entre dois partidos.

Dizendo-o mais acuradamente: a reconciliação, a reconciliação genuína, um ato objetivo de reconciliação, pressupõe inimizade de ambos os lados; isto é, que o homem é o inimigo de Deus e que Deus é o inimigo do homem.81

Brunner prossegue explicando que a nossa inimizade para com Deus é vista em nossa inquietação, que vai da frivolidade à renúncia aberta e ao ódio de Deus, ao passo que a inimizade dele para conosco é a sua ira. Além do mais, “Deus está presente nessa ira, que é, na realidade, a ira dele”.

Segundo, se Deus é o autor, Cristo é o agente da reconciliação. Os versículos 18 e 19 do capítulo 5 de 2 Coríntios tornam essa verdade clara como o cristal. “Deus. . . nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo” e “Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo”. Ambas as afirmativas nos dizem que Deus tomou a iniciativa da reconciliação, e que ele o fez em Cristo e por meio dele. Nesse aspecto as sentenças são idênticas. Mas os beneficiários mudam de “nós” para “o mundo”, a fim de mostrar o alcance universal da reconciliação, e a preposição muda de “por meio de” para “em”, com o propósito de mostrar que Deus não estava operando por meio de Cristo como o seu agente à distância, mas estava, na realidade, pre­sente nele enquanto este realizava a obra.

Temos agora de notar os tempos passados, especialmente o aoristo (“reconciliou”, v. 18). Ambos os verbos indicam que Deus estava fazendo, deveras fez, algo em Cristo. Deixemos que James Denney apresente a importância desse fato:

A obra da reconciliação, no sentido do Novo Testamento, é uma obra que está terminada, e que devemos conceber como terminada, antes de o evangelho ser pregado. . . Recon­ciliação. . . não é algo que está sendo feito; é algo que está feito. Não resta dúvida de que há uma obra de Cristo em processo, mas tem a sua base numa obra terminada de Cristo. É em virtude de algo já consumado na cruz que Cristo é capaz de fazer a nós o apelo, o que ele faz, e conseguir a resposta na qual recebemos a reconciliação.82

Alguns anos mais tarde P. T. Forsyth expressou, com grande pe­netração, a mesma verdade:

“Deus estava em Cristo, reconciliando”, na realidade, reconciliando, terminando a obra. Não foi um caso tentativo, preliminar. . . A reconciliação estava terminada na morte de Cristo. Paulo não pregava uma reconciliação gradual. Ele pregava o que os antigos teólogos costumavam chamar de obra terminada. . . Ele pregava algo feito uma vez por todas — uma reconciliação que está na base da própria composição da alma, não um convite apenas.83

O que, pois, foi que Deus fez ou realizou em Cristo e por meio dele? Paulo dá a essa pergunta duas respostas complementares, uma negativa e uma positiva. De modo negativo, Deus recusou-se a im­putar a nós as nossas transgressões (v. 19b). É claro que merecíamos que fossem contadas contra nós. Mas se ele nos levasse a juízo, mor­reríamos. “Se observares, Senhor, iniqüidades, quem, Senhor, sub­sistirá?” (Salmo 130:3). De modo que em sua misericórdia Deus recusou-se a levar em conta contra nós os nossos pecados ou exigir que sofrêssemos a penalidade deles. O que, pois, Deus fez com eles? Pois ele não os pode tolerar. Não, a resposta positiva é dada no versículo 21: “Àquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus.” Essa é, certa­mente, uma das afirmativas mais admiráveis da Bíblia, da qual, con­tudo, não devemos fugir. James Denney não estava exagerando ao escrever a esse respeito: “Por mais misterioso e horrível que seja esse pensamento, é a chave de todo o Novo Testamento”.84 Por causa de nós Deus, de fato, fez que o Cristo sem pecado fosse pecado com os nossos pecados. O Deus que se recusou a imputar a nós os nossos pecados, imputou-os a Cristo em nosso lugar. Deveras, a sua pureza pessoal qualificou-o de maneira singular a levar os nossos pecados em nosso lugar.

Além do mais, Cristo tornou-se pecado por nós, a fim de que “nele fôssemos feitos justiça de Deus”. Em outras palavras, nossos pecados foram imputados ao Cristo sem pecado, para que nós, pecadores, através da união com ele, pudéssemos receber como presente uma posição de justiça na presença de Deus. Os discípulos cristãos por todos os séculos têm meditado nessa troca entre o Cristo sem pecado e os pecadores, e têm-se maravilhado dela. O primeiro exemplo pro­vavelmente é a Epístola a Diognetus, do segundo século, que diz, no capítulo 9: “Ó doce troca! Ó operação inescrutável! O benefícios que ultrapassam todas as expectativas! que a impiedade de muitos fosse oculta em apenas Um justo, e que a justiça de Um justificasse a muitos transgressores.” Depois, eis o que Lutero escreveu a um monge que se encontrava desesperado por causa dos pecados: “Aprenda a conhecer a Cristo, e ele crucificado. Aprenda a cantar a ele e dizer: ‘Senhor Jesus, tu és a minha justiça, e eu o teu pecado. Levaste sobre ti o que era meu; mas depuseste sobre mim o que era teu. Tu te tornaste o que não eras, para que eu pudesse me tornar o que eu não era.’ “.85

Mais ou menos um século mais tarde (em 1585) Richard Hooker, em um sermão sobre Habacuque 1:4, disse:

Tais somos nós à vista de Deus Pai, como o próprio Filho do próprio Deus. Seja tal fato loucura ou frenesi ou fúria O ou o que quer que seja. É a nossa sabedoria e o nosso consolo; não precisamos de nenhum conhecimento no mundo a não ser este, de que o homem pecou e de que Deus sofreu; que Deus se fez a si mesmo o pecado dos homens, e que os homens são feitos a justiça de Deus.86

Como exemplo tirado deste século permitam-me escolher o epi-grama de Emil Brunner: “A justificação significa este milagre: que Cristo toma o nosso lugar e nós tomamos o seu.”87

Ao reexaminarmos o parágrafo que estamos estudando, é impor­tante notarmos o paradoxo constituído pela primeira e pela última afirmativas. Por um lado, Deus estava em Cristo reconciliando. Por outro, Deus fez Cristo pecado por nós. Como podia Deus estar em Cristo quando ele o fez pecado é o mistério último da expiação. Mas devemos manter tenazmente as duas afirmações, e jamais expô-las de modo que uma contradiga a outra.

Terceiro, se Deus é o autor e Cristo o agente, nós somos os embai­xadores da reconciliação. No exame dos versículos 18 e 19 até aqui temos visto somente a primeira parte de cada sentença. Mas cada uma se apresenta em duas seções, a primeira afirmando a realização da re­conciliação (Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo) e a segunda o seu anúncio (ele nos entregou o ministério e a men­sagem da reconciliação). Além disso, o próprio ministério da recon­ciliação apresenta-se em dois estádios. Tem início como uma proclamação de que Deus estava em Cristo reconciliando e que ele fez que Cristo fosse feito pecado por nós. Continua com um apelo a que nos reconciliemos “com Deus”, isto é, lancemos mão dos termos oferecidos da reconciliação com Deus (cf. Mateus 5:24), ou simples­mente a “recebamos” (cf. Romanos 5:11).88

Devemos manter essas coisas separadas. Deus terminou a obra da reconciliação na cruz; contudo ainda é necessário que os pecadores se arrependam e creiam e assim sejam “reconciliados com Deus”. Repito, os pecadores necessitam ser “reconciliados com Deus”; não obstante não devemos nos esquecer de que do lado de Deus a obra da reconciliação já foi feita. Se essas duas coisas devem ser mantidas separadas, elas também devem ser conservadas juntas em toda pre­gação do evangelho autêntico. Não é suficiente expormos uma dou­trina inteiramente ortodoxa da reconciliação sem jamais apelarmos às pessoas a que venham a Cristo. Nem tampouco é certo um sermão consistir em um apelo interminável, o qual não tenha sido precedido de uma exposição do evangelho. A regra deve ser “não fazer apelo sem uma proclamação, e não proclamar sem um apelo”.

Ao fazermos esse apelo, “somos embaixadores em nome de Cristo” (v. 20). Essa afirmativa foi especialmente verdadeira acerca de Paulo e dos seus companheiros apóstolos. Eram os enviados e representan­tes pessoais de Jesus Cristo. Todavia, em um sentido secundário é verdadeira para todas as testemunhas cristãs e todos os pregadores, que são os arautos do evangelho: falamos em nome de Cristo e em seu lugar. Então, ao emitirmos o nosso apelo, muitas vezes ouve-se outra voz, pois é “como se Deus exortasse por nosso intermédio”. É uma verdade admirável que o mesmo Deus que operou “por meio de Cristo” a fim de alcançar a reconciliação, agora opera “por nosso intermédio” a fim de anunciá-la.

Examinamos quatro das principais imagens neotestamentárias acerca da salvação, tiradas do sacrário, do mercado, do tribunal e do lar. Sua natureza pictórica torna impossível integrá-las facilmente umas nas outras. Os sacrifícios no templo e os veredictos legais, o escravo no mercado e a criança no lar, todos claramente pertencem a mundos diferentes. Não obstante, certos temas emergem das quatro imagens.

Primeiro, cada uma acentua um aspecto diferente de nossa neces­sidade humana. A propiciação ressalta a ira de Deus sobre nós, a redenção o nosso cativeiro ao pecado, a justificação a nossa culpa, e a reconciliação a nossa inimizade contra Deus e a nossa alienação dele. Essas metáforas não são nada elogiosas. Expõem a magnitude de nossa necessidade.

Segundo, as quatro imagens enfatizam que foi Deus que, em seu amor, tomou a iniciativa salvadora. Foi ele que propiciou a sua própria ira, redimiu-nos de nossa miserável escravidão, declarou-nos justos em sua presença e reconciliou-nos consigo. Importantes textos não deixam dúvida a esse respeito: “Deus. . . nos amou, e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados.” “Deus. . . visitou e redimiu o seu povo”. “É Deus quem os justifica.” “Deus. . . nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo”.89

Terceiro, as quatro imagens claramente ensinam que a obra sal­vadora de Deus foi realizada por meio do derramamento de sangue, isto é, o sacrifício substitutivo de Cristo. Com relação ao sangue de Cristo os textos sagrados são, novamente, inequívocos. “Deus pro­pôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé”. “No qual temos a redenção, pelo seu sangue”. “Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue”. “Vós, que antes estáveis longe, fostes aproximados (isto é, reconciliados) pelo sangue de Cristo.”90 Visto que o sangue de Cristo é um símbolo da sua vida entregue em morte violenta, está também claro em cada uma das quatro imagens que ele morreu em nosso lugar como nosso substituto. A morte de Jesus foi o sacrifício expiador por causa do qual Deus desviou de nós a sua ira, o preço de resgate pelo qual fomos redimidos, a condenação do ino­cente para que o culpado fosse justificado, e o sem pecado fosse feito pecado por nós.91

De modo que a substituição não é uma “teoria da expiação”. Nem tampouco é uma imagem adicional que tenha lugar como uma opção ao lado das outras. E, antes, a essência de cada imagem e o coração da própria expiação. Nenhuma das quatro imagens pode permanecer sem ela. Não estou dizendo, é claro, que a pessoa antes de ser salva precisa compreender, muito menos articular, uma expiação substi­tutiva. Entretanto, a responsabilidade de mestres, pregadores e outras testemunhas cristãs é procurar graça a fim de expor a substituição com clareza e convicção. Pois quanto mais as pessoas entenderem a glória da substituição divina, tanto mais fácil será para elas confiarem no Substituto.

8
A Revelação de Deus

 

Devemos ver a realização da cruz de Cristo tanto em termos de revelação como de salvação. Emprestando termos correntes, podemos dizer que foi um evento “revelatório” e também “salvífico”. Pois através do que Deus realizou ali pelo mundo, ele também falou ao mundo. Assim como os seres humanos revelam seu caráter por meio de suas ações, da mesma forma Deus se mostrou a si mesmo a nós por meio da morte do seu Filho. O propósito deste capítulo é investigar de que modo a cruz foi uma palavra como também uma obra, e ouvir a ela com atenção.

 

A glória de Deus

Segundo o Evangelho de João, Jesus referiu-se à sua morte como uma “glorificação”: o evento por meio do qual ele e o Pai seriam supremamente “glorincados” ou manifestados. Essa idéia pode sur­preender a muitas pessoas. No Antigo Testamento a glória ou o es­plendor de Deus era revelada na natureza e na história, isto é, no Universo criado e na nação redimida. Por outro lado, os céus e a terra estavam cheios da sua glória, incluindo-se {acrescentou Jesus) as flores primaveris da Galiléia, cuja glória excedia até mesmo a de Salomão.1 Por outro lado, Deus mostrou a sua glória libertando a Israel do cativeiro egípcio e do babilônico, e revelando ao povo o seu caráter misericordioso e justo.2 Assim Deus demonstrou a sua majestade no seu mundo e no seu povo.

Não é de surpreender que quando se inicia o Novo Testamento, a glória seja associada a Jesus Cristo. Como escreveu Lord Ramsey, de Cantuária: “até onde vai a idéia de que doxa seja a doutrina do es­plendor, Jesus Cristo é esse esplendor”.3

Segundo os Evangelhos Sinóticos, contudo, embora a glória de Jesus fosse vislumbrada na Transfiguração, a sua manifestação completa não se daria até a “parousia” e reino, época em que então se consumaria.4

Seria uma revelação de “poder e glória”. O notável acerca da apre­sentação de João é que, embora a glória de Cristo tivesse sido ma­nifestada poderosamente em seus milagres ou “sinais”5, acima de tudo devia ser vista em sua fraqueza presente, na auto-humilhação da encarnação.

“E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (João 1:14). Não devemos perder as alusões do Antigo Testamento. A glória de Deus que sobreparava e enchia o tabernáculo no deserto agora está sendo demonstrada naquele que por um pouco habitou (eske-nosen, “tabernaculou”) entre nós. E assim como Yavé mostrou a Moi­sés a sua glória, declarando que o seu nome era tanto misericordioso quanto justo, da mesma forma a glória que vimos em Jesus Cristo foi “cheia de graça e de verdade”. Mais importante ainda é a antítese deliberada entre “carne” e “glória” e, portanto, o “paradoxo funda­mental da glória da humilhação divina”.6

A auto-humilhação do Filho de Deus, a qual começou na encar­nação, culminou na sua morte. Contudo, nessa mesma humilhação ele foi “levantado”, não apenas fisicamente elevado à cruz, mas tam­bém espiritualmente exaltado perante os olhos do mundo.7 Deveras, ele foi “glorificado”. A cruz que parecia “vergonha” era, de fato, “glória”. Ao passo que nos Evangelhos Sinóticos o sofrimento é o caminho da glória futura,8 para João é também a arena em que na realidade ocorre a glorificação.9 Em três ocasiões distintas Jesus se referiu à sua morte vindoura como a hora da sua glorificação.

Primeira, em resposta ao pedido de alguns gregos que procuravam vê-lo, Jesus disse: “É chegada a hora de ser glorificado o Filho do homem”, e prosseguiu imediatamente a falar da sua morte em termos tanto do grão de trigo que cai ao chão como da glória que o Pai havia de trazer ao seu próprio nome.

Segunda, assim que Judas deixou o cenáculo e entrou na noite, Jesus disse: “Agora foi glorificado o Filho do homem, e Deus foi glorificado nele”.

Terceira, ele iniciou a sua grande oração no final da refeição no cenáculo, com as palavras: “Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que o teu Filho te glorifique a ti”.30

O notável acerca das três passagens é que, primeiro, cada uma é introduzida por “agora” ou “é chegada a hora”, em referência indis­putável à cruz; e, segundo, que a glorificação será do Pai e do Filho juntos.

De modo que o Pai e o Filho são revelados pela cruz. Mas o que é que revelam de si mesmos? Certamente a auto-humilhação e a au-todoação do amor estão implícitas aqui. Mas e a santidade desse amor, que tornou necessário que o Cordeiro de Deus tirasse o pecado do mundo e que o Bom Pastor desse a sua vida pelas ovelhas, e que fez mais expediente (como Caifás corretamente profetizou) que um ho­mem morresse pelo povo em vez de perecer toda a nação?11 Essas afirmativas eram parte integral da compreensão que João tinha da morte mediante a qual Pai e Filho seriam glorificados. A glória que se irradia da cruz é a mesma combinação de qualidades divinas que Deus revelou a Moisés como misericórdia e justiça, e a qual vimos no Verbo feito carne como “graça e verdade”.12 Essa é a “bondade” de Deus, a qual Calvino viu demonstrada no “teatro” da cruz:

Pois na cruz de Cristo, como num esplêndido teatro, a incomparável bondade de Deus é apresentada diante do mundo todo. A glória de Deus brilha deveras em todas as criaturas de cima e de baixo, mas jamais tão viva quanto na cruz. . .

Se alguém apresentar a objeção de que nada poderia ser menos gloriosa do que a morte de Cristo. . . respondo que nessa morte vemos a glória imensurável que está oculta aos ímpios*13

Quando passamos de João a Paulo, o conceito de que Deus se revelou na cruz e por meio dela, torna-se ainda mais explícito. O que para João é manifestação da glória de Deus, para Paulo é a demons­tração, deveras, a vindicação, do seu caráter de justiça e amor. Pode ser útil, antes de estudarmos os dois textos-chave separadamente, examiná-los lado a lado. Ambos ocorrem na carta aos Romanos:

A quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anterior­mente cometidos; tendo em vista a manifestação da sua justiça no presente, para ele mesmo ser justo e justificador daquele que tem fé em Jesus (3:25-26).

Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pe­cadores (5:8).

Os verbos gregos traduzidos por “demonstrar” no capítulo três e “provar” no cinco, apesar de serem diferentes, significam a mesma coisa, e Paulo está declarando que na morte de Cristo, Deus nos deu uma demonstração clara e pública da sua justiça e do seu amor. Já vimos como Deus “satisfez” a sua ira e amor, justiça e misericórdia, dando-se a si mesmo em Cristo para levar o nosso pecado e conde­nação. Agora vamos ver como, ao satisfazer a esses atributos divinos na cruz, ele os demonstrou e expôs.

A justiça de Deus

Homens e mulheres de sensibilidade moral têm sempre ficado per­plexos pela aparente injustiça da providência divina. Esse problema está longe de ser moderno. Desde o tempo de Abraão, que se indignou porque Deus pretendia destruir a Sodoma e Gomorra e no processo matar os justos com os ímpios, e proferiu o grito de angústia: “Não fará justiça o Juiz de toda a terra?” (Gênesis 18:25), os personagens e os autores da Bíblia têm lutado com essa questão. Ela é um dos temas recorrentes da Literatura de Sabedoria e domina o livro de Jó. Por que os ímpios florescem e os inocentes sofrem? Diz-se que “pe­cado e morte”, transgressão humana e juízo divino encontram-se equilibrados, até mesmo unidos inseparavelmente. Por que, então, não vemos com mais freqüência pecadores castigados? Pelo contrário, com grande freqüência, parecem escapar impunes. Os justos, por outro lado, muitas vezes são acometidos por desastres. Não somente Deus não os protege, mas também não responde às suas orações e até mesmo parece não se importar com o destino deles. De modo que, evidentemente, há uma necessidade de uma “teodicia”, uma vindicação da justiça de Deus, uma justificação à humanidade dos modos aparentemente injustos de Deus.

A Bíblia responde a essa necessidade de dois modos complemen-tares. Primeiro, olhando para o juízo final e, segundo (da perspectiva dos crentes do Novo Testamento), olhando de volta para o juízo decisivo realizado na cruz. Quanto à primeira perspectiva, era ela a resposta-padrão ao problema no Antigo Testamento, resposta da qual o Salmo 73 é um exemplo. Os perversos prosperam. São saudáveis e ricos. Apesar de sua violência, arrogância e soberbo desafio a Deus, saem ilesos. Nenhum raio do céu os abate. O salmista admite que, ao invejar a liberdade deles de pecar e a sua imunidade ao sofrimento, quase se desviou de Deus, pois seus pensamentos eram mais seme­lhantes aos dos animais selvagens do que aos de um israelita piedoso. Até entrar “no santuário de Deus” ele não conseguiu chegar a ne­nhuma compreensão satisfatória. Então ele atinou “com o fim deles”. Não têm consciência de que o lugar em que se firmam com tanta confiança é por demais escorregadio, e que um dia cairão, assolados pelo justo juízo de Deus.

O Novo Testamento repete várias vezes essa mesma certeza de juízo último, no qual os desequilíbrios da justiça serão corrigidos.

Paulo diz aos filósofos atenienses que Deus só não levou em conta a idolatria no passado porque “estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que destinou e acredi­tou”, e adverte seus leitores de Roma a não presumirem das riquezas da “bondade, tolerância e longanimidade” de Deus, as quais lhes estão dando espaço para o arrependimento. Pedro dirige a mesma mensagem aos “escarnecedores”, que ridicularizam a noção de um juízo futuro. A razão de esse dia ainda não haver chegado é que Deus, em sua tolerância, está mantendo aberta a porta da oportunidade um pouco mais, “não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento”.14

Se o propósito da primeira parte da “teodicia” bíblica é advertir acerca do juízo final vindouro, a segunda é declarar que esse juízo já se realizou na cruz. É por isso que Deus permitiu, por assim dizer, que os pecados se acumulassem no tempo do Antigo Testamento sem ser punidos (como mereciam) ou perdoados (visto ser “impossível que sangue de touros e de bodes remova pecados”). Mas agora, diz o escritor da carta aos Hebreus, Cristo é o “Mediador de nova aliança a fim de que, intervindo a morte para remissão das transgressões que havia sob a primeira aliança”.15 Em outras palavras, o motivo da inação anterior de Deus em face do pecado não era indiferença moral mas tolerância pessoal até que Cristo viesse e o removesse na cruz. A passagem clássica sobre esse tema é Romanos 3:21-26. Vamos a ela.

Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus tes­temunhada pela lei e pelos profetas; justiça de Deus me­diante a fé em Jesus Cristo, para todos [e sobre todos] os que crêem; porque não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuita­mente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus; a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pe­cados anteriormente cometidos; tendo em vista a manifes­tação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e justificador daquele que tem fé em Jesus.

Charles Cranheld descreveu esses seis versículos como “centro e coração” da carta aos Romanos. A fim de compreendê-los, teremos de começar pelo menos um breve exame da enigmática frase do ver­sículo 21: “Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus”. A construção fraseológica é quase idêntica à de 1:17: (“Visto que a justiça de Deus se revela no evangelho”), com exceção de estarem os verbos respectivamente no passado e no presente.

Qualquer que seja a “justiça de Deus”, é claro que sua revelação se encontra no evangelho. Foi revelada no evangelho quando este, pela primeira vez, foi formulado, e continua a ser revelada no evan­gelho sempre que este é pregado. É certo não ser essa a única revelação que Paulo menciona. Ele já afirmou que o poder e a divindade de Deus são revelados na criação (1:19-20), e que a ira divina é revelada dos céus (1:18) aos ímpios que suprimem a verdade, especialmente na desintegração moral da sociedade. Mas o mesmo Deus que revelou o seu poder na criação e a sua ira na sociedade também revelou a sua justiça no evangelho.

Tem-se debatido interminavelmente o artigo “a” que precede a palavra “justiça”. São três as principais explicações apresentadas. Pri­meira, segundo a tradição medieval, diz-se que era o atributo divino da justiça, como nos versículos 25 e 26 onde afirma-se que Deus a manifestou. O problema dessa interpretação é que a justiça divina normalmente se manifesta em juízo (exemplo, Apocalipse 19:11), o que dificilmente seriam as boas novas reveladas no evangelho. Lutero sustentava essa primeira perspectiva e ela quase o levou ao desespero. É claro, se a justiça de Deus pudesse ser vista em certas circunstâncias, manifestando-se em justificação em vez de juízo, a questão seria bem diferente. Mas estou-me adiantando.

Segundo, de acordo com os reformadores, a frase significava uma situação justa que é “de Deus” (caso genitivo) no sentido de que é “de Deus”, concedida por ele. A justiça é “sem lei” (v. 21) porque a função da lei é condenar, e não justificar, embora “testemunhada pela lei e pelos profetas”, porque é uma doutrina do Antigo Testamento. Visto que todos nós somos injustos (3:10) e não podemos estabelecer nossa própria justiça (3:20; 10:3), a justiça de Deus é um dom gratuito (5:17), ao qual nos devemos submeter (10:3), receber (9:30), ter (Fili-penses 3:9) e, assim, até mesmo nos tornar (2 Coríntios 5:21). “A justiça de Deus”, sendo um dom para os injustos, recebida pela fé em Cristo somente (v. 22), de fato, nada mais é que a justificação.

Terceiro, alguns eruditos recentes têm chamado a atenção para as passagens do Antigo Testamento, especialmente nos salmos e em Isaías, nas quais “a justiça de Deus” e “a salvação de Deus” são sinônimos, e referem-se à iniciativa divina em vir a fim de resgatar o seu povo e vindicá-lo quando oprimido.16 Nesse caso, a “justiça de Deus” não é nem seu atributo de justiça, nem seu dom da justificação, mas sua atividade dinâmica e salvadora. A principal objeção que se faz a essa interpretação é que Paulo, embora tivesse declarado que a lei e os profetas testificavam da justiça divina, não cita nenhum dos versículos apropriados.

A segunda das três interpretações se encaixa melhor em cada contexto em que a expressão ocorre, e parece quase certamente correta. Por outro lado, pode não ser necessário rejeitar as outras duas. Pois se a justiça de Deus é a posição justa que ele concede àqueles que crêem em Cristo, é por meio de sua atividade dinâmica e salvadora que tal dádiva está disponível e é concedida, e a operação é totalmente de acordo com a sua justiça. “A justiça de Deus”, então, pode ser definida como “o modo justo de Deus de justificar os injustos”; é a situação justa que ele concede aos pecadores a quem justifica. Além do mais, como vimos no capítulo anterior, o seu ato livre e gracioso de justificar é “mediante a redenção que há em Cristo Jesus” (v. 24), a quem “Deus propôs, no seu sangue, como propiciação” (v. 25). Se Deus em Cristo não tivesse pago o preço de nosso resgate e propiciado sua própria ira contra o pecado, na cruz, ele não nos poderia ter justificado.

Agora, o motivo pelo qual ele fez isso, a saber, apresentou a Cristo como sacrifício de expiação, foi “demonstrar a sua justiça”. Tão im­portante é esse objetivo divino que o apóstolo o afirma duas vezes com palavras virtualmente idênticas, embora em cada vez ele acres­cente uma explicação diferente. Na primeira vez ele olha para o pas­sado e diz que Deus demonstrou sua justiça na cruz por ter Deus “na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometi­dos” (v. 25). A segunda vez ele olha da cruz para o presente e para o futuro, e diz que Deus demonstrou (de fato, continua a demonstrar) a sua justiça “no tempo presente, para ele mesmo ser justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” (v. 26).

Por causa da sua tolerância passada para com os pecadores, Deus havia criado um problema para si mesmo. Pecado, culpa e juízo de­viam estar inexoravelmente ligados em seu mundo moral. Por que, então, ele não havia julgado os pecadores, segundo as suas obras? Era preciso uma “teodicia” para vindicar a sua justiça. Embora em restrição própria ele pudesse ter adiado seu juízo, não poderia permitir que o acúmulo de pecados humanos continuasse indefinidamente, muito menos cancelar de todo o juízo. Se Deus não punisse o pecado justamente, seria “injusto a si mesmo”, como o disse Anselmo, ou, nas palavras de James Denney, “não faria justiça a si mesmo”, antes, “faria a si mesmo uma injustiça”.17 De fato, ele destruiria tanto a si mesmo quanto a nós. Ele deixaria de ser Deus e nós cessaríamos de ser totalmente humanos. Ele se destruiria contradizendo seu caráter divino de justo Legislador e Juiz, e nos destruiria contradizendo a nossa dignidade humana de pessoas moralmente responsáveis, cria­das à sua imagem. É inconcebível que ele fizesse qualquer dessas coisas. Assim, embora em sua tolerância ele, temporariamente, tenha deixado impunes os pecados, agora, em justiça, ele os puniu, condenando-os em Cristo. Ele assim demonstrou sua justiça, executando-a. E o fez publicamente (o que alguns pensam ser a ênfase do verbo “propôs”), a fim de não ser apenas justo mas também ser visto como justo. Por causa da sua aparência passada de injustiça em não punir os pecados, ele deu uma prova presente e visível de justiça, levando ele mesmo o castigo em Cristo.

Agora ninguém pode acusar a Deus de apoiar o mal, e assim, de apresentar indiferença ou injustiça moral. A cruz demonstra com igual viveza tanto a justiça de Deus em julgar o pecado como a sua mise­ricórdia em justificar o pecador. Pois agora, como resultado da morte propiciatória do seu Filho, Deus pode ser “justo e justificador” da­queles que crêem nele. Ele é capaz de conceder a posição justa aos injustos sem comprometer sua própria justiça.

Devíamos ver agora mais claramente a relação entre a realização da cruz (exemplificada nas quatro imagens examinadas no capítulo an­terior) e a revelação divina. Ao levar ele mesmo em Cristo a terrível penalidade de nossos pecados, Deus não apenas propiciou a sua ira, resgatou-nos da escravidão, justificou-nos a seus olhos e reconciliou-nos consigo mesmo, mas também defendeu e demonstrou a sua própria justiça. Pelo modo como nos justificou, também justificou a si mesmo. É esse o tema do livro A Justificação de Deus de P. T. Forsyth, publicado em 1916 e subtitulado “preleções para tempos de guerra sobre uma teodicia cristã”. “Não há teodicia para o mundo”, escreveu ele, “exceto numa teologia da cruz. A única teodicia final é que a autojustificação de Deus era fundamental à sua justificação dos ho­mens. Razão alguma do homem pode justificar a Deus num mundo como este. Ele deve justificar-se a si mesmo, e o fez na cruz do seu Filho.”18

O amor de Deus

Não é somente a justiça de Deus que parece incompatível com as injustiças prevalecentes no mundo, mas também o seu amor. Tra­gédias pessoais, inundações e terremotos, acidentes que tiram cen­tenas de vidas, fome e pobreza em escala global, a fria vastidão do Universo, a crueldade da natureza, a tirania e a tortura, a doença e a morte, e o cômputo geral da miséria dos séculos — como podem reconciliar esses horrores com um Deus de amor? Por que Deus os permite?

O Cristianismo não oferece respostas fáceis a essas agonizantes questões. Mas oferece, de fato, evidência do amor de Deus, tão his­tórica e objetiva como a evidência que parece negá-lo, à luz da qual é preciso que vejamos as calamidades do mundo. Essa evidência é a cruz. Permita-me começar com dois versículos tirados da primeira carta de João.

Primeiro, “nisto conhecemos o amor, em que Cristo deu a sua vida por nós” (3:16). A maioria das pessoas não teria dificuldade alguma em nos dizer o que pensa ser o amor. Podem saber que já se escre­veram livros com o propósito de distinguir entre diferentes tipos de amor, como o Agape e Eros de Anders Nygren, e Os Quatro Amores de C. S. Lewis. Entretanto, diriam que o significado do amor se evidencia por si mesmo. João, porém, discordaria dessas pessoas. Ele ousa dizer que, sem Cristo e sua cruz, o mundo jamais teria conhecido o ver­dadeiro amor. É claro que todos os seres humanos experimentam certo grau ou qualidade de amor. Mas João está dizendo que apenas um ato de amor puro, não manchado por alguma nuança de segundos motivos, foi praticado na história do mundo, a saber, o amor de Deus que se deu a si mesmo em Cristo na cruz por pecadores que não o mereciam. É por isso que, se estamos procurando uma definição de amor, não devemos ir ao dicionário, mas ao Calvário.

O segundo versículo de João é ainda mais preciso. “Nisto consiste o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou, e enviou o seu Filho como propicião {Hilasmos) pelos nossos pecados” (4:10). Na passagem do capítulo 3 de Romanos que estamos estudando, Paulo toma a natureza propiciatória da cruz (hilasterion) como demonstração da justiça divina; aqui João a vê como a mani­festação do amor dele. E ambos. O verdadeiro amor é de Deus, não nosso, e ele o manifestou entre nós (v. 9) enviando seu Filho unigênito ao mundo para que morresse por nós e pudéssemos viver por meio dele. As duas palavras “viver” (v. 9) e “propiciação” (v. 10) traem a extremidade de nossa necessidade. Por sermos pecadores, merecemos morrer sob a justa ira de Deus. Mas Deus enviou o seu único Filho, e ao enviá-lo, ele mesmo veio a fim de morrer a morte e levar a ira em nosso lugar. Foi um ato de puro e imerecido amor.

Aprendemos com João, portanto, que embora neste mundo nossa atenção seja constantemente levada para os problemas do mal e da dor, os quais parecem contradizer o amor de Deus, seria prudente não deixarmos que tais coisas nos desviem da cruz, onde o amor de Deus se manifestou pública e visivelmente. Se a cruz pode ser cha­mada de “tragédia”, foi uma tragédia que ilumina todas as outras.

Paulo também escreve acerca do amor de Deus na primeira metade do capítulo 5 de Romanos. O apóstolo se refere a ele duas vezes, provendo-nos, assim, dois modos complementares de adquirirmos a certeza da sua realidade. O primeiro é que “o amor de Deus é der­ramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi outor­gado” (v. 5). O segundo é que “Deus prova o seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (v. 8). Um dos aspectos mais satisfatórios do evangelho é o modo pelo qual une o objetivo ao subjetivo, o histórico ao ex­perimental, a obra do Filho de Deus à obra do Espírito de Deus. Podemos saber que Deus nos ama, diz Paulo, tanto porque ele provou o seu amor na história através da morte do seu Filho, como porque continuamente o derrama em nossos corações por meio da habitação do Espírito em nós. E embora nos concentremos, como faz Paulo, na demonstração objetiva do amor de Deus na cruz, não nos esquece­remos de que o Espírito Santo confirma esse testemunho histórico por intermédio de seu próprio testemunho interior e pessoal, à medida que inunda os nossos corações com o conhecimento de que somos amados. É algo similar à nossa experiência de o Espírito Santo testificar com o nosso espírito que somos filhos de Deus — um testemunho que ele dá quando, ao orarmos, nos capacita a clamar: “Abba, Pai”, porque então sabemos que somos os filhos justificados, reconciliados, redimidos e amados de Deus {Romanos 8:15-16).

Por causa da cruz, porém, “Deus prova o seu próprio amor para conosco” (Romanos 5:8). É o seu próprio amor, sui generis, pois não há outro amor como o dele. Em que consiste essa demonstração? Possui três partes, que, juntas, constróem um caso convincente.

Primeiro, Deus deu o seu Filho por nós. E verdade que no versículo 8 Paulo afirma simplesmente que “Cristo” morreu por nós. O con­texto, porém, nos diz quem foi esse Ungido, esse Messias. Pois se­gundo o versículo 10, a morte de Cristo foi “a morte do seu Filho”. Se Deus nos tivesse enviado um homem, como enviou os profetas a Israel, teríamos ficado agradecidos. Se ele tivesse enviado um anjo, como o fez com Maria na anunciação, tê-lo-íamos tomado como um grande privilégio. Contudo, em ambos os casos ele nos teria enviado um terceiro partido, visto que homens e anjos são criaturas dele. Mas, ao enviar o seu próprio Filho, eternamente gerado em seu próprio Ser, ele não estava enviando uma criatura, um terceiro partido, mas dando a si mesmo. A lógica desse raciocínio é inescapável. Como poderia o amor do Pai ter sido demonstrado se tivesse enviado alguém mais a nós? Não, uma vez que o amor, em sua essência, é autodoação, então se o amor de Deus foi visto no fato de ter ele doado o seu Filho, ele deve, com isso, ter doado a si mesmo. “Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito” (João 3:16). Outra vez, Deus “não poupou a seu próprio Filho, antes, por todos nós o en­tregou” (Romanos 8:32). P. T. Forsyth, com grande correção, acres­centou o brilho: “ele não poupou a seu próprio Filho, isto é, o seu próprio Ser”.19 É por causa da urgência desse amor autodoador que Paulo acrescentou sua convicção de que juntamente com Cristo Deus nos dará “graciosamente todas as coisas”. Todas as dádivas menores estão compreendidas dentro desse “dom inefável” (2 Coríntios 9:15).

Segundo, Deus deu o seu Filho a fim de morrer por nós. Ainda teria sido maravilhoso se Deus tivesse dado o seu Filho, e, assim, a si mesmo, somente para se tornar carne, viver e dar e servir a nós na terra. A encarnação, porém, não passou do início dessa autodoação. Tendo-se esvaziado a si mesmo de sua glória e assumido a natureza de servo, ele então “a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz” (Filipenses 2:7-8). Isso foi dar-se a si mesmo ao extremo último, à tortura da crucincação e ao horror da remoção do pecado e do abandono de Deus. “Cristo morreu por nós”. Seu corpo morreu, e, como vimos, sua alma morreu, morreu a morte da separação de Deus. Pecado e morte são inseparáveis, mas, ao passo que geralmente aquele que peca e o que morre são a mesma pessoa, nessa ocasião não o foram, visto que fomos nós quem pecamos, mas ele quem morreu pelos nossos pecados. Isso é amor, santo amor, infligindo a penalidade pelo pecado e levando-a. Fazer-se pecado o Imaculado, morrer o Imortal — não temos meios de imaginar o terror da dor envolvida em tal experiência.

Terceiro, Deus deu o seu Filho a fim de morrer por nós, isto é, por pecadores indignos como nós. “Pecadores” é a primeira palavra que Paulo usa para descrever-nos, fracassos que não atingiram o alvo e que, invariavelmente, “carecem da glória de Deus” (Romanos 3:23). A seguir, éramos “ímpios” (Romanos 5:6), pois não havíamos dado a Deus a glória devida a seu nome, e não havia temor de Deus diante de nossos olhos (3:18). O terceiro epíteto descritivo de Paulo é “ini­migos” (5:10). Isto é, éramos “inimigos de Deus”, pois nos havíamos rebelado contra a sua autoridade, recusado o seu amor e desafiado a sua lei (8:7). A quarta e última palavra é “fraco” (5:6): foi “quando nós ainda éramos fracos” que Cristo morreu por nós. Pois não tí­nhamos poder para salvar-nos; éramos impotentes. Muito raramente, argumenta Paulo no versículo 7, alguém estaria disposto a morrer por “um justo” (cuja justiça é fria, austera, proibitiva), embora pelo “bom” (cuja bondade é calorosa, amigável e atraente) poderá ser que alguém se anime a morrer. “Mas Deus prova o seu próprio amor para co­nosco” — seu amor singular — nisto, que ele morreu por pessoas pecadoras, ímpias, rebeldes e fracas como nós.

O valor de um dom de amor é medido tanto pelo que custa a quem dá como pelo grau de merecimento de quem recebe. Um jovem apai­xonado, por exemplo, dará à sua amada presentes caros, muitas vezes além de suas posses, como símbolos do seu amor, pois acha que ela os merece, e mais ainda. Jacó serviu sete anos por Raquel pelo amor que lhe tinha. Mas Deus, ao dar o seu Filho, deu-se a si mesmo para morrer por seus inimigos. Ele deu tudo por aqueles que nada dele mereciam. “E essa é a prova de Deus de seu amor para conosco”.

Em um de seus livros, Canon Wiliam Vanstone tem um capítulo intitulado “A Fenomenologia do Amor”. A tese de Vanstone é que todos os seres humanos, até mesmo os que foram privados do amor desde a infância, são capazes de instintivamente discernir o amor autêntico. Então ele sugere que, “se podemos descrever a forma do amor autêntico, dificilmente necessitaremos procurar em outro lugar uma descrição do amor de Deus”. Embora essa afirmativa entre em conflito com o que escrevi antes acerca de o amor de Deus definir o nosso, em vez de vice-versa, sei o que ele quer dizer e não desejo fazer-lhe objeção. Ele apresenta uma relação de seis marcas do amor falso, mediante as quais expõe-se a sua falsidade. São elas: a marca da limitação (algo é retirado), a do controle (manipulação das pessoas), e a da distância (permanecemos auto-suficientes, ilesos, insofridos). Em contraste, as características do amor autêntico são: dar de si mesmo sem limites, correr riscos sem certeza de êxito, ser vulnerável ao ponto de mágoa.

Aconteceu de eu estar lendo o livro de Vanstone enquanto escrevia este capítulo, e não pude deixar de observar o paralelo (embora não seja exato) entre as suas três marcas do amor autêntico e as três marcas do amor de Deus revelado por Paulo em Romanos 5:8. Eis o resumo final de Canon Vanstone. O amor de Deus é “despendido em auto-doação, totalmente despendido, sem resíduo nem reserva, esgotado, gasto”. Isto é, ao dar o seu Filho, ele deu-se a si mesmo. A seguir, o amor de Deus é “despendido em esforço precário, até mesmo posi­cionado à beira do fracasso. . .” Pois ele deu o seu Filho para morrer, correndo o risco de entregar o controle de si mesmo. Terceiro, o amor de Deus é visto “indefeso ante o que ele ama, aguardando no fim a resposta que será sua tragédia ou seu triunfo”. Pois ao dar o seu Filho para morrer pelos pecadores, Deus se fez vulnerável à possibilidade de que eles o desprezassem e lhe voltassem as costas.

O professor Jürgen Moltmann vai um pouco mais longe em sua tentativa de explicar como Deus revelou o seu amor na cruz. Ele apanha a notável expressão de Lutero “o Deus crucificado” (a qual o próprio Lutero tomou emprestado da teologia medieval), e, como o reformador, afirma que Deus define-se a si mesmo e que chegamos a conhecê-lo na cruz. A teologia crucis de Lutero, portanto, “não é apenas um capítulo da teologia, mas a assinatura-chave de toda a teologia cristã” 20 Teologia alguma é genuinamente cristã se não surgir da cruz e não se focalizar nela. Em particular, por “cruz” o professor Moltmann quer dizer, mais do que tudo, o grito de abandono. Escreve Moltmann que esse grito mostra que Jesus não apenas foi rejeitado pelos judeus como blasfemo, e executado pelos romanos como re­belde, mas, na realidade, também foi condenado e abandonado por seu Pai. Portanto, surge a pergunta: “Quem é o Deus que está na cruz de Cristo e que foi abandonado por Deus?” “Toda a teologia cristã e toda a vida cristã são, basicamente, uma resposta à pergunta que Jesus fez quando morria”. É por isso que a teologia deve ser desenvolvida “a uma distância que nos permita ouvir o clamor de morte de Jesus”.

O que, pois, compreendemos de Deus quando vimos a Jesus cru­cificado e ouvimos o seu grito de abandono? Certamente vemos sua amorosa disposição de se identificar com os rejeitados humanos. Pois “o símbolo da cruz na igreja aponta para Deus que foi crucificado não entre duas velas sobre o altar, mas entre dois ladrões no lugar da caveira, local dos rejeitados, fora das portas da cidade”. E nessa ter­rível experiência, que “divide Deus de Deus ao máximo grau de ini­mizade e distinção”, temos de reconhecer que, embora de modos diferentes, tanto o Pai quanto o Filho sofreram o preço de sua entrega. “O Filho sofre morrendo, o Pai sofre a morte do Filho. O sofrimento do Pai é tão importante quanto a morte do Filho. A orfandade do Filho é igualada à desfilhação do Pai”. Essa é uma frase encantadora. Confesso que o meu próprio desejo é que o professor Moltmann tivesse dado ênfase mais forte ao fato de que foi com os espiritualmente rejeitados, não apenas com os socialmente rejeitados, isto é, com os pecadores, não apenas com os criminosos, que Jesus se identificou na cruz. Então Vanstone poderia ter esclarecido a natureza e a causa do terrível abandono de Deus. Entretanto, sua aceitação sincera de que o abandono foi real e se constitui a maior evidência do amor de Deus, é comovedora.

A teoria da “influência moral”

A cruz permanece como uma demonstração tão evidente do amor que vários teólogos, em eras diferentes da história da igreja, têm tentado encontrar aí o seu valor expiador. Para eles o poder da cruz jaz não em um objetivo qualquer, numa transação que tira o pecado, mas na sua inspiração subjetiva, não em sua eficácia legal (mudar a nossa posição perante Deus) mas em sua influência moral (mudar as nossas atitudes e ações).

O expoente mais famoso dessa perspectiva, ao que se diz, foi o filósofo e teólogo francês Pedro Abelardo (1079—1142). Ele é mais conhecido por seu apaixonado apego a Heloise (com quem se casou secretamente depois do nascimento do filho deles), o qual teve con­seqüências tão trágicas para ambos. Em sua vida acadêmica pública, contudo, suas cintilantes preleções e debates atraíram grandes auditórios. Contemporâneo mais jovem de Anselmo, Abelardo concor­dou com este em repudiar a noção de que a morte de Cristo foi o preço do resgate pago ao diabo. Mas ele discordou violentamente do ensino de Anselmo de que a morte de Cristo foi uma satisfação pelo pecado. “Quão cruel e ímpio parece”, escreveu ele, “que alguém exigisse o sangue de uma pessoa inocente como preço de algo, ou que, de algum modo, agradasse a Deus que um homem inocente fosse morto — muito menos que Deus pensasse que a morte de seu Filho era tão agradável que, por meio dela, ele devia ser reconciliado com o mundo todo!”23

Pelo contrário, Abelardo retratou a Jesus como sendo primaria­mente nosso Mestre e Exemplo. Embora continuasse a usar frases tradicionais como “redimidos por Cristo”, “justificados em seu san­gue”, e “reconciliados com Deus”, ele interpretava a eficácia da morte do Senhor em termos exclusivamente subjetivos. O auto-sacrifício voluntário do Filho de Deus move-nos a responder em amor gracioso e, assim, leva-nos à contrição e ao arrependimento.

Redenção é esse maior amor acendido em nós pela paixão de Cristo, um amor que não apenas nos livra do cativeiro do pecado, mas também nos adquire a verdadeira liberdade de filhos, onde o amor em vez do temor torna-se a afeição dominante.22

Em apoio à sua tese, Abelardo citou as palavras de Jesus: “per­doados lhe são os seus muitos pecados, porque ela muito amou” (Lucas 7:47). Mas ele compreendeu mal o texto, transformando o amor no fundamento para o perdão em vez do resultado deste. Perdão para ele era, de fato, o resultado da morte de Cristo, mas indiretamente, a saber, que a cruz evoca o nosso amor por Cristo, e quando o ama­mos, somos perdoados. “Justificação” se tornou para Abelardo uma divina infusão de amor. Como disse Robert Franks, “ele reduziu todo o processo da redenção a um único princípio claro, isto é, a manifes­tação do amor de Deus a nós em Cristo, a qual desperta um amor responsivo em nós”.23

Pedro Lombardo, que se tornou bispo de Paris em 1159 e podia ser descrito como um dos discípulos de Abelardo, escreveu em seu fa­moso Livro das Sentenças:

Um penhor tão grande de amor nos tendo sido dado, so­mos comovidos e acendidos para amar a Deus, que fez coisas tão grandes por nós; e mediante isso somos justifi­cados, isto é, sendo despegados de nossos pecados, somos feitos justos. A morte de Cristo, portanto, nos justifica, ao ponto de através dela o amor ser estimulado em nossos corações.24

Nos princípios do século doze, então, tinha-se manifestado um debate teológico de imensa importância, debate cujos protagonistas principais foram Anselmo e Abelardo. Anselmo ensinava que a morte de Jesus foi uma satisfação objetiva pelo pecado. Abelardo ensinava que a eficácia da morte de Cristo era grandemente subjetiva na in­fluência moral que exerce em nós. O fundamento mediante o qual Deus perdoa os nossos pecados era, para Anselmo, a morte propiciatória de Cristo; mas para Abelardo, era o nosso próprio amor, penitência e obediência que são em nós despertados ao contemplar­mos a morte de Cristo.

É provável que o defensor mais franco da teoria da “influência moral” deste século tenha sido o Dr. Hastings Rashdall, cujas Preleções Bampton de 1915 foram publicadas com o título A Idéia da Expiação na Teologia Cristã. Ele insistia em que era preciso fazer-se uma escolha entre a compreensão da expiação objetiva de Anselmo e a subjetiva de Abelardo, e que não tinha dúvida alguma de que Abe­lardo estava com a razão. Pois, segundo Jesus, dizia Rashdall, a única condição para a salvação era o arrependimento: “O homem verda­deiramente penitente que confessa os seus pecados a Deus recebe o perdão instantâneo”. “Deus é um Pai amoroso que perdoará o pecado sob a única condição do verdadeiro arrependimento”, e a morte de Jesus Cristo “opera, em realidade, ajudando a produzir esse arre­pendimento”. Mais do que isso, “supõe-se que Deus somente possa perdoar tornando o pecador melhor, e, assim, removendo qualquer exigência de castigo”. Em outras palavras, é o nosso arrependimento e a nossa conversão, produzidos em nós ao contemplarmos a cruz, que capacitam Deus a perdoar-nos. A importância da cruz não é ela expressar o amor de Deus no trato com os nossos pecados, mas evocar o nosso amor e, assim, tornar desnecessário qualquer trato divino com pecados. Boas obras de amor, em vez de serem evidências da salvação, tornam-se o fundamento sobre o qual ela é concedida.

Há três motivos pelos quais devemos confiantemente declarar ina­tingível a “influência moral” ou teoria “exemplarista”, pelo menos por aqueles que levam a Escritura a sério. A primeira é que os que sustentam esse ponto de vista tendem eles mesmos a não levá-la a sério. Rashdall rejeitou todo texto incompatível com a sua teoria. Ele declarou que a afirmativa de resgate de Jesus (Marcos 10:45) era um “acréscimo doutrinariamente colorido”, e suas palavras eucarísticas acerca do sangue da nova aliança e do perdão dos pecados similar­mente secundárias. Em que base? Simplesmente que “nosso Senhor jamais ensinou que a sua morte era necessária para o perdão dos pecados”, o que é um notável exemplo do raciocínio circular, assu­mindo o que deseja provar. Ele é mais sincero quando diz que nossa crença na inspiração bíblica não nos deve impedir de “audazmente rejeitar quaisquer fórmulas que. . . parecem dizer que o pecado não pode ser perdoado sem um sacrifício vicário”. Em outras palavras, primeiro construa sua teoria da expiação, então defenda-a contra todas as objeções, e não permita que um assunto insignificante como a inspiração impeça o seu caminho. Pelo contrário, simplesmente afirme que a mensagem pura de Jesus foi corrompida pelo cristianismo pré-paulino, baseado em Isaías 53, e que Paulo completou o processo.

Segundo, necessitamos citar contra Abelardo e Rashdal as palavras de Anselmo: “Vós ainda não considerastes a seriedade do pecado”. A teoria da “influência moral” oferece um remédio superficial porque faz um diagnóstico superficial. Apela ao homem iluminado porque possui confiança ilimitada na razão e habilidade humanas. E total­mente despida da profunda compreensão bíblica da rebeldia radical do homem contra Deus, da ira de Deus como seu violento antago­nismo ao pecado humano, e da necessidade indispensável de uma satisfação pelo pecado que satisfaça ao próprio caráter de justiça e amor de Deus. James Orr disse com razão que a perspectiva de Abe­lardo sobre a expiação era “defeituosa precisamente no lado em que a de Anselmo era errada”,25 a saber, em sua análise do pecado, da ira e da satisfação.

Terceiro, a teoria da influência moral possui uma falha fatal em sua própria ênfase central. O seu foco é o amor de Cristo, que ao mesmo tempo brilha da cruz e evoca o nosso amor em resposta. Sobre essas duas verdades desejamos dar ênfase igual. Nós também sabemos que foi porque Cristo nos amou que ele se deu a si mesmo por nós.26 Nós também descobrimos que o seu amor desperta o nosso. Nas palavras de João: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1 João 4:19). Concordamos com o que Denney escreveu: “Não hesito em dizer que o senso da dívida a Cristo é a mais profunda e penetrante de todas as emoções no Novo Testamento.”27 Até aqui, pois, estamos de acordo. A cruz é o epítome do amor de Cristo e a inspiração do nosso. Mas a pergunta que desejamos fazer é: como é que a cruz expõe e demonstra o amor de Cristo? O que existe na cruz que revela amor?

O verdadeiro amor tem propósito em sua autodoação; não faz gestos irresponsáveis e aleatórios. Se a pessoa se atirasse do quebra-mar e se afogasse, ou entrasse num edifício em chamas e morresse quei­mada, e se o seu auto-sacrifício não tivesse um propósito salvador, ela me convenceria da sua tolice, não do seu amor. Mas se eu me estivesse afogando no mar, ou me encontrasse preso num edifício em chamas, e foi na tentativa de me salvar que a pessoa perdeu a vida, então eu deveras veria amor e não tolice em sua ação. Assim também a morte de Jesus na cruz não pode ser vista como uma demonstração do próprio amor, mas somente se ele deu a sua vida a fim de salvar a nossa. A morte dele deve ser vista como possuindo um objetivo, antes que possa ter um apelo.

Paulo e João viram amor na cruz porque entenderam-na respecti­vamente como uma morte pelos pecadores (Romanos 5:8) e como uma propiciação pelos pecados (1 João 4:10). Isto é, a cruz pode ser vista como prova do amor de Deus somente quando é, ao mesmo tempo, vista como prova da sua justiça. Daí a necessidade de con­servar essas duas demonstrações juntas em nossa mente, como é a insistência de Berkouwer: “Na cruz de Cristo o amor e a justiça de Deus são simultaneamente revelados, de modo que podemos falar do seu amor somente em conexão com a realidade da cruz.”28 Repete ele: “A graça e a justiça de Deus são reveladas somente na substituição real, no sacrifício radical, na inversão de papéis”. Da mesma forma, Paulo escreveu em 2 Coríntios 5:14-15:

Pois o amor de Cristo nos constrange (literalmente “agarra-nos” e assim não nos dá oportunidade de escolher), jul­gando nós isto: um morreu por todos, logo todos morre­ram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou.

O constrangimento do amor de Cristo, diz Paulo, descansa numa convicção. É porque estamos convencidos do propósito e custo da cruz, a saber, que devemos a nossa vida à sua morte, que sentimos o aperto constrangedor do amor sobre nós, o qual não nos deixa alternativa a não ser viver para ele.

R. W. Dale escreveu um dos seus excelentes livros para provar que a morte de Cristo na cruz foi objetiva antes que pudesse ser subjetiva, e que “a menos que o grande sacrifício seja concebido sob formas objetivas, perder-se-á o poder subjetivo”. A cruz é a revelação su­prema na história do amor de Deus. Mas “a revelação essencialmente consiste em uma redenção em vez de a redenção consistir em uma revelação”.29

Portanto, não devemos permitir que Anselmo e Abelardo ocupem pólos opostos. Em termos gerais, Anselmo tinha razão em entender a cruz como uma satisfação pelo pecado, mas devia ter dado mais ênfase ao amor de Deus. Abelardo tinha razão em ver a cruz como uma manifestação de amor, mas estava errado em negar o que An­selmo afirmava. Anselmo e Abelardo precisam do testemunho positivo um do outro, o primeiro à justiça de Deus e o segado ao seu amor. Pois foi precisamente ao dar uma satisfação justa ao pecado que aconteceu a manifestação de amor.

Entretanto, mesmo depois de apresentados esses argumentos, os que advogam a teoria da “influência moral” acham que ainda têm um trunfo. É que o próprio Jesus, em pelo menos três de suas pa­rábolas, ensinou o perdão sem a expiação; na base do arrependimento somente. Na parábola do fariseu e do publicano, o último clamou: “Ó Deus, sê propício a mim, pecador!”, e imediatamente foi “justi­ficado” (Lucas 18:9-14). Na parábola do servo incompassivo, o rei perdoou-lhe livremente, cancelando a sua dívida sem insistir no pagamento (Mateus 18:23-35). E na parábola do filho pródigo o pai recebeu o jovem no lar e o reinstituiu, ao voltar ele em penitência; não se exigiu nenhum castigo (Lucas 15:11-24). As três parábolas exemplificam a misericórdia perdoadora de Deus, diz-se, e não con­têm indícios alguns da necessidade de um sacrifício expiador. Po­demos, contudo, apresentar três pontos em resposta.

Primeiro, as parábolas em pauta também não fazem alusão alguma a Cristo. Devemos então deduzir desse fato que não apenas a sua cruz, mas também ele próprio é desnecessário ao nosso perdão? Não. Parábolas não são alegorias; não temos direito algum de esperar uma correspondência exata, ponto por ponto, entre a história e a sua men­sagem.

Segundo, cada uma das três parábolas contém dois atores que são

templo (o fariseu autojustificado e o publicano auto-humilhado), dois servos na família real (um que foi livremente perdoado pelo seu rei e o outro que recusou perdão ao seu companheiro), e os dois filhos no lar (um injusto mas penitente, o outro justo mas arrogante). As parábolas acentuam, mediante esse contraste, a condição do perdão, não a sua base. Dizem-nos o que devemos fazer, mas nada dizem diretamente a respeito do que Deus fez, por nosso perdão.

Entretanto, em terceiro lugar, os cristãos vêem a cruz nas três pa­rábolas, porque a misericórdia perdoadora demonstrada ao publicano humilde, ao servo falido e ao filho pródigo recebeu sua demonstração histórica suprema no amor autodoador de Deus em Cristo, que mor­reu para que os pecadores fossem perdoados.

Dessas três parábolas é a do filho pródigo que, ao que parece, mais claramente tem ensinado a muitos um “evangelho” de perdão sem a expiação. Foi esse o argumento de Hastings Rashdall em suas preleções Bampton de 1915, já mencionadas. Jesus ensinou, disse ele, que Deus é um Pai amoroso que perdoa a todos os pecadores que se arrependem. É esse o “ensino simples acerca do perdão de Deus apresentado na parábola do filho pródigo”, a que a igreja primitiva passou a corromper. Alguns anos mais tarde Douglas White afirmou a mesma tese: “Jesus ensinou. . . que Deus nos ama e anseia a que sejamos reconciliados com ele. Se ele jamais ensinou alguma coisa, foi a liberdade do perdão. . . Não houve sugestão de penitência ou de castigo; somente amor e perdão. Seu grande exemplo foi o filho pródigo. . . Segundo esse ensino não há pré-requisito ao perdão de Deus, a não ser o espírito de arrependimento.” Foi Paulo quem per­verteu essa mensagem simples, tornando a cruz necessária à salvação, usando fraseologia “repugnante”, e, assim, “obscurecendo a doutrina de Jesus quanto à liberdade incondicional do perdão de Deus”.30

O Dr. Kenneth Bailey explicou como essa interpretação da parábola é comum no mundo muçulmano:

O islã afirma que nessa história o rapaz é salvo sem um salvador. O pródigo volta. O pai o perdoa. Não há cruz, nem sofrimento, nem salvador. Se o homem busca o per­dão, diz o islã, Deus é misericordioso e perdoará. A encarnação, a cruz, e a ressurreição são todas bem desnecessárias. Se Deus é realmente grande, ele pode per­doar sem essas coisas. A história do filho pródigo é para eles triste prova de que os cristãos perverteram a mensagem do próprio Cristo.31

De modo que em seu livro A Cruz e o Pródigo o Dr. Bailey, que há Oriente Médio em Beirute, faz novo exame do capítulo 15 de Lucas “através dos olhos dos camponeses da região”. Ele explica que toda a vila saberia que o pródigo que voltava se encontrava em desgraça, e que o castigo de alguma espécie era inevitável, ainda que apenas para preservar a honra do pai. Mas o pai leva o sofrimento em vez de infligi-lo. Embora um “homem da sua idade e posição sempre ande de modo lento e digno”, e embora “ele não tenha corrido para lugar algum por motivo algum durante 40 anos”, contudo ele “corre” pela estrada como um adolescente a fim de dar as boas-vindas ao filho que volta ao lar. Assim, arriscando a cair no ridículo dos moleques de rua, “ele toma sobre si mesmo a vergonha e humilhação devidas ao pródigo”. “Nessa parábola”, prossegue Kenneth Bailey, “temos um pai que deixa o conforto e a segurança do lar e se expõe de um modo humilhante na rua da vila. O descer e o sair ao seu filho dá indícios da encarnação. O espetáculo humilhante na rua da vila sugere o significado da cruz”. Assim “a cruz e a encarnação estão implícitas, ainda que dramaticamente presentes na história”, pois “o sofrimento da cruz não foi primariamente a tortura física, mas antes a agonia do amor rejeitado”. O essencial à reconciliação do pródigo era uma “de­monstração física do amor auto-esvaziador no sofrimento. . . Não é essa a história do modo de Deus agir para com o homem no Gólgota?” Concluímos, portanto, que a cruz foi uma manifestação sem pa­ralelos do amor de Deus; que ele mostrou o seu amor ao levar a nossa penalidade e, portanto, a nossa dor, a fim de ser capaz de perdoar-nos e restaurar-nos, e que a parábola do filho pródigo, longe de contradizer essa verdade, implicitamente a expressa. Acho que T. }. Crawford tinha razão em dizer que antes que possamos ver nos so­frimentos de Cristo qualquer prova do amor do Pai por nós, “algum bem deve advir a nós deles, bem que de outra forma não poderia ser conseguido, ou algum mal deve ser desviado de nós por eles, mal que de outra forma não poderia ser removido ou remediado”.32 Esse “mal que de outra forma não poderia ser evitado” é o horrendo jul­gamento de Deus, e esse “bem que de outra forma não poderia ser conseguido” é a nossa adoção na sua família. Ao assegurar-nos tão grandes bênçãos a expensas de tão grandes sofrimentos, Deus nos deu uma demonstração sem paralelos do seu amor,

 

A sabedoria e o poder de Deus

Terminando Paulo sua magistral exposição do evangelho nos pri­meiros onze capítulos de Romanos, o modo pelo qual Deus apresen­tou a Cristo como o sacrifício propiciatório, justifica os pecadores através da fé em Cristo, transforma-os mediante a obra interior do Espírito e está criando a sua nova comunidade à qual os gentios são admitidos nas mesmas condições que os judeus, ele exclama em ex­tasiada doxologia: “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria, como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e quão inescrutáveis os seus caminhos!. . . Porque dele e por meio dele e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém” (11:33-36). Antes o apóstolo vê a morte expiatória de Cristo como uma demonstração da justiça e do amor de Deus; agora é ven­cido por um sentimento da sabedoria de Deus — a sabedoria de projetar um plano de salvação tão custoso que ao mesmo tempo preen­che as nossas necessidades e satisfaz ao seu próprio caráter.

A cruz como a sabedoria e poder de Deus é o tema principal de 1 Coríntios 1:17—2:5, especialmente em contraste com a sabedoria e o poder do mundo. É a menção que Paulo faz do “evangelho” que dá partida à sua meditação, pois ele imediatamente sabe que precisa tomar uma decisão quanto ao seu conteúdo. A escolha é entre “pa­lavras de sabedoria humana” e “a cruz de Cristo”. Se ele optasse pela sabedoria humana, a cruz seria “esvaziada”, desnudada, deveras des­truída (1:17). De modo que escolhe a “mensagem da cruz”, a qual ele sabe ser loucura para os que estão perecendo, mas ao mesmo tempo é o poder de Deus aos que estão sendo salvos (1:18). Sabedoria impotente ou poder louco: foi (e ainda é) uma escolha decisiva. A combinação que não é opção é a sabedoria do mundo mais o poder de Deus.

O motivo pelo qual Paulo opta pelo poder contra a sabedoria, o poder de Deus contra a sabedoria do mundo, é que Deus no Antigo Testamento já declarou a sua intenção de destruir a sabedoria do sábio e frustrar a inteligência dos entendidos (1:19). De modo que, se Deus já se pôs contra eles, onde se encontram os sábios, os entendidos e os filósofos deste século? Deus já não decidiu contra eles tornando a sua sabedoria em loucura (1:20)? Eis como ele o fez. Em sua sabedoria Deus primeiro decretou que o mundo, através de sua própria sabe­doria, não o conheceria, e então se agradou em salvar os que crêem por meio da loucura do evangelho revelado e pregado (1:21). De forma que se torna claro novamente que o poder (o poder salvador) não está na sabedoria do mundo mas na loucura de Deus, a saber, o evangelho do Cristo crucificado.

Pode-se ver esse princípio em operação na evangelização dos judeus e gregos, pois ambos os grupos determinam condições sobre as quais o evangelho lhes seria aceitável. “Tanto os judeus pedem sinais, como os gregos buscam sabedoria” (1:22). Em outras palavras, insistem em que a mensagem deve autenticar-se para eles respectivamente me­diante o poder e a sabedoria. Em contraste total com suas exigências, contudo, “pregamos a Cristo crucificado” (1:23), que nem mesmo chega perto de conformar-se com os critérios deles. Pelo contrário, os judeus acham a cruz um “escândalo” e os gentios “loucura”, pois ela os ofende em vez de impressioná-los, ao passo que para os que são chamados por Deus, quer judeus, quer gregos, é o oposto exato. Embora crucificado em fraqueza, Cristo é o poder de Deus, e embora aparentemente tolo, é a sabedoria de Deus (1:24). Pois o que os ho­mens vêem como loucura de Deus é mais sábio do que a sabedoria deles, e o que vêem como a fraqueza de Deus é mais forte do que a força deles (1:25). Em resumo, os valores divinos e os humanos dis­cordam completamente um do outro. E a cruz, que como meio de salvação parece o auge da impotência e estultícia, na realidade é a maior manifestação da sabedoria e do poder de Deus.

Paulo coroa o seu argumento com duas ilustrações, a primeira tirada da experiência da chamada e conversão dos coríntios (1:26-31), e a segunda de sua própria experiência de evangelização. Quanto a eles, segundo os padrões humanos, não muitos eram sábios ou poderosos. De fato, Deus deliberadamente escolheu o que o mundo considera como pessoas tolas e fracas, a fim de envergonhar as sábias e fortes; escolheu até as humildes, as desprezadas e as que não são, para anular as que são. O seu objetivo nisso era excluir a vanglória humana. A vangloria estava totalmente fora de lugar, porque fora Deus quem os tinha unido a Cristo, e Cristo que se havia tornado a sabedoria deles (revelando-lhes Deus) e o poder deles (trazendo-lhes justificação, san­tidade e a promessa da redenção final). Portanto, como dizem as Escrituras, se alguém se gloriar, glorie-se hão em si mesmo, nem nos outros, mas no Senhor somente.

Quanto a Paulo, o evangelista, ao chegar a Corinto, não fora com mensagem de sabedoria humana. Nem tinha ele ido em sua própria força. Pelo contrário, havia levado a mensagem louca e revelada da cruz, confiando somente no poder do Espírito Santo para confirmar a palavra. Todo o seu propósito em ir a eles em tal loucura e fraqueza era que a sua fé descansasse firmemente no poder de Deus, não na sabedoria dos homens.

O que temos ouvido através de toda essa passagem são variações do tema da sabedoria e do poder de Deus, sua sabedoria através da loucura humana e o seu poder através da fraqueza humana. O evan­gelho da cruz jamais será uma mensagem popular porque humilha o orgulho de nosso intelecto e caráter. Contudo, Cristo crucificado é tanto a sabedoria de Deus (1:24) como a nossa (1:30). Pois a cruz é o modo pelo qual Deus satisfaz ao seu amor e justiça na salvação dos pecadores. Portanto, ela também manifesta o seu poder, “o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Romanos 1:16).

De sorte que quando olhamos para a cruz, vemos a justiça, o amor, a sabedoria e o poder de Deus. Não é fácil determinar qual desses aspectos é mais brilhantemente revelado, se a justiça de Deus ao julgar o pecado, se o amor de Deus ao levar o castigo em nosso lugar, se a sabedoria de Deus em combinar com perfeição as duas coisas, ou se o poder de Deus em salvar aqueles que crêem. Pois a cruz é, de igual forma, um ato, e portanto uma demonstração da justiça, do amor e da sabedoria de Deus. A cruz nos assegura que esse Deus é a realidade dentro, por trás e além do Universo.

9
A Conquista do Mal

 

Impossível que alguém leia o Novo Testamento sem se impressionar com o ambiente de confiança alegre que o penetra, o qual se destaca contra a religião um tanto insípida que muitas vezes passa por Cristia­nismo hoje. Não havia derrotismo nos cristãos pri­mitivos; antes, falavam de vitória. Por exemplo: “Graças a Deus que nos dá a vitória. , .” Novamente: “Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores. . .” Uma vez mais: “Deus. . . nos con­duz em triunfo. . .” E cada uma das cartas de Cristo às sete igrejas da Ásia termina com uma promessa especial “ao vencedor”.1

Vitória, conquista triunfo — era esse o vocabulário dos primeiros seguidores do Senhor ressurreto. Pois se falavam de vitória, sabiam que a deviam ao Jesus vitorioso. Afirmaram tal fato nos textos que eu de forma truncada citei até agora. O que Paulo, na realidade, escreveu foi: “Deus nos dá a vitória por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo”, “somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou”, e: “Deus que em Cristo nos conduz em triunfo”. É ele quem “venceu”, “triunfou”, e além do mais o fez “pela cruz”.2

É claro, qualquer observador contemporâneo de Cristo que o viu morrer, teria ouvido com incredulidade e espanto a reivindicação de que o Crucificado saiu Vencedor. Não havia ele sido rejeitado pela sua própria nação, traído, negado e abandonado por seus próprios discípulos, e executado por autoridade do procurador romano? Olhe para ele, pregado na cruz, despido de toda liberdade e movimento, pregado com pregos ou amarrado com cordas, ou ambos, preso e impotente. Parece derrota total. Se houver vitória, é a do orgulho, prejuízo, inveja, ódio, covardia e brutalidade. Contudo, o cristão afirma que a realidade é o oposto das aparências. O que parece (e deveras foi) a derrota do bem pelo mal, também é, e mais certamente, a derrota do mal pelo bem. Vencido, ele estava vencendo. Esmagado pelo poder inflexível de Roma, ele mesmo estava esmagando a cabeça da serpente (Gênesis 3:15). A vítima era o vencedor, e a cruz ainda é o trono do qual ele governa o mundo.

Eis mais um motivo na realização da cruz de Cristo. Além da sal­vação dos pecadores (como indicado pelas quatro imagens que exa­minamos no capítulo 7) e a revelação de Deus (especialmente de seu santo amor, como visto no capítulo anterior), a cruz garantiu a con­quista do mal.

 

Gustav Aulen e Christus Victor

Foi Gustav Aulen, um teólogo sueco que, através do seu influente livro Christus Victor, trouxe à lembrança da igreja essa verdade ne­gligenciada. O título original do livro em sueco significa algo como “O Conceito Cristão da Expiação”, mas Christus Victor capta melhor

a sua ênfase. A tese dele, num estudo mais histórico que apologético,

é que a reconstrução tradicional de duas teorias principais é errônea, a saber, a visão “objetiva” ou “legal” (a morte de Cristo reconciliando o Pai), relacionada com Anselmo, e a perspectiva “subjetiva” ou “mo­ral” (a morte de Cristo inspirando-nos e transformando-nos), asso­ciada com Abelardo. Pois há um terceiro ponto de vista ao dual Aulen denomina “dramático” e “clássico” ao mesmo tempo. É “gramático” porque concebe a expiação como um drama cósmico no qual Deus em Cristo luta com os poderes do mal e ganha a vitória. É “clássico” porque, diz ele, foi a “idéia dominante da Expiação nos primeiros mil anos da história cristã”.

De modo que Aulen se esforçou por demonstrar que esse conceito da expiação como uma vitória sobre o pecado, a morte e o diabo era a visão dominante do Novo Testamento; que era mantido pelos pais gregos, desde Irineu, no final do segundo século, a João de Damasco, no início do oitavo, e é, portanto, sustentado pelas igrejas ortodoxas orientais hoje; que a maioria dos pais ocidentais também cria nele (embora com freqüência lado a lado com o ponto de vista “objetivo”), incluindo-se Ambrósio e Agostinho, e os papas Leão, o Grande, e Gregório, o Grande; que se perdeu no escolasticismo medieval; que foi recuperado por Lutero; mas que subseqüentemente o escolasti­cismo protestante o perdeu de novo e voltou à noção anselmiana da satisfação.

Aulen, portanto, é muito crítico da doutrina da “satisfação” desposada por Anselmo, a qual ele chama de “latina” e “jurídica”. Ele se desfaz dela, com um pouco de desprezo, dizendo que é “na rea­lidade um desvio na historia do dogma cristão”. Porém, a crítica que ele faz de Anselmo não é totalmente justa. Ele sublinha corretamente a verdade de que no conceito “clássico” a “obra da expiação é vista como realizada pelo próprio Deus”, que “ele mesmo é o agente efetivo na obra redentora, do começo até o fim”, e que, de fato, “a expiação é, acima de tudo, um movimento de Deus para o homem, não pri­mariamente um movimento do homem para Deus”. Mas ele comete injustiça ao dizer que o conceito de Anselmo da morte de Cristo contradiz isso, a saber, como “uma oferta feita a Deus por Cristo como homem”, “como se fosse de baixo”, ou “uma obra humana de satis­fação realizada por Cristo”. Pois, como vimos no capítulo 5, Anselmo enfatizou claramente que, embora o homem deva fazer satisfação pelo pecado, ele não pode fazê-la, pois são seus os pecados pelos quais se deve fazer a satisfação. Deveras, somente o próprio Deus pode, e portanto, a faz, através de Cristo. A despeito do que Aulen escreveu, o ensino de Anselmo é que, através da obra do singular Deus-homem Cristo Jesus, não é somente o homem quem fez a satisfação; foi o próprio Deus que tanto satisfez como foi satisfeito.

Entretanto, Gustav Aulen tinha razão ao chamar a atenção da igreja para a cruz como vitória, e mostrar que por sua morte Jesus nos salvou não somente do pecado e da culpa, mas também da morte e do diabo, de fato, também de todos os poderes maus. A tese dele também foi importante num século despedaçado por duas guerras mundiais e uma cultura européia consciente de forças demoníacas. Ele também tinha razão em ressaltar que “a nota de triunfo”, que “soa como o toque da trombeta através do ensino da igreja primitiva”, em grande parte estava ausente da lógica fria do Cur Deus Homo? de Anselmo. Lutero, por outro lado, tocou essa nota novamente. Seus hinos e

quele “monstro” ou “tirano”, o diabo, que antes nos mantinha no cativeiro do pecado, da lei, da maldição e da morte.

Outra crítica justa da tese de Aulen é que ele fez um contraste por demais pronunciado entre os motivos da “satisfação” e da “vitória”, como se fossem alternativas mutuamente incompatíveis. Mas o Novo Testamento não nos obriga a escolher entre eles, pois inclui a ambos. Assim, Deus tomou a iniciativa e ganhou a vitória por meio de Cristo, mas um dos tiranos dos quais ele nos libertou foi a própria culpa, a qual, segundo Anselmo, ele morreu a fim de expiar. John Eadie, um comentarista escocês do século dezenove, fez uma tentativa admirável para combinar os dois conceitos:

Nossa redenção é uma obra ao mesmo tempo de preço e de poder — de expiação e de conquista. Na cruz fez-se a compra, e na cruz ganhou-se a vitória. O sangue que apaga a sentença que havia contra nós foi aí derramado, e a morte que era o golpe de morte do reino de Satanás foi aí su­portada.3

De fato, as três maiores explicações da morte de Cristo contêm verdade bíblica e podem, em certo grau, ser harmonizadas, espe­cialmente se observarmos que a diferença principal entre elas é que dirigem a obra de Deus em Cristo a uma pessoa diferente. No conceito “objetivo” Deus satisfaz-se a si mesmo, no “subjetivo” ele nos inspira, e no “clássico” ele vence o diabo. Assim, Jesus Cristo é, sucessiva­mente, o Salvador, o Mestre e o Vencedor, porque nós mesmos somos culpados, apáticos e cativos. P. T. Forsyth chamou a atenção para esse fato no último capítulo do seu livro A Obra de Cristo, ao qual ele intitulou “O Cordão Tríplice”. Ele se refere aos aspectos “satisfacio­nário”, “regenerador” e “triunfante” da obra de Cristo, e sugere que estão entrelaçados em 1 Coríntios 1:30, onde Cristo é feito “justifi­cação, santificação e redenção” por nós. E embora “algumas almas, gravitem para a grande Libertação, algumas para a grande Expiação, e algumas para a grande Regeneração”, contudo, todas são partes da realização total do Salvador, “a destruição do mal, a Satisfação de Deus, e a santificação dos homens”.

Enquanto nos concentramos agora no tema da “conquista”, pode ser útil olharmos primeiro para a vitória histórica de Cristo na cruz, e então para a vitória do seu povo, a qual a vitória dele torrou possível.

 

A vitória de Cristo

O que o Novo Testamento afirma, de modo franco, é que na cruz Jesus desarmou o diabo e triunfou sobre ele, e sobre todos os “principados e poderes” que estão ao seu comando. Os ouvintes do evan­gelho do primeiro século não teriam tido nenhuma dificuldade em aceitar essa verdade, pois “talvez seja difícil para o homem moderno conceber quão cheio de feitiçaria era o mundo a que Cristo veio”.4 Ainda hoje em muitos países o povo vive com pavor de espíritos maus. E no Ocidente supostamente sofisticado tem-se desenvolvido uma fascinação nova e alarmante pelo ocultismo, a qual é duplamente documentada por Michael Green em seu livro Creio na Queda de Satã. E, contudo, ao mesmo tempo muitos ridicularizam como um anacro­nismo a crença contínua num diabo pessoal, que possua espíritos maus sob seu controle. A afirmativa dogmática de Rudolf Bultmann é bem conhecida: “é impossível usarmos a luz elétrica e o rádio, e servir-nos das modernas descobertas médicas e cirúrgicas, e, ao mesmo tempo, crermos no mundo de demônios e espíritos do Novo Testamento”.5 Michael Green resume a anomalia da coexistência da curiosidade com a incredulidade sugerindo que duas atitudes opostas seriam igualmente agradáveis ao diabo: “A primeira é de preocupação excessiva com o príncipe do mal. A segunda é de excessivo ceticismo acerca da sua própria existência”. Michael Green prossegue a dar sete razões pelas quais ele crê na existência desse ser imensamente po­deroso, mau e astucioso chamado Satanás ou diabo. Relacionam-se com a filosofia, com a teologia, com o ambiente, com a experiência, com o ocultismo, com a Escritura e, acima de tudo, com Jesus. E um caso válido; nada tenho que lhe acrescentar.

Mas como é que Deus, por meio de Cristo, ganhou a vitória sobre o Maligno? Embora a derrota decisiva de Satanás se tenha dado na cruz, a Escritura representa o desenvolvimento da conquista em seis etapas.

A primeira é a predição da conquista. A primeira predição foi dada pelo próprio Deus no Jardim do Éden como parte de seu juízo sobre a serpente: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descen­dência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gênesis 3:15). Identificamos o descendente da mulher como o Messias, por meio de quem o reino justo de Deus será esta­belecido e o reino do mal erradicado. Sendo assim, todos os textos do Antigo Testamento que declaram o reino atual de Deus (exemplo: “Tua, Senhor, é a grandeza, o poder. . . teu, Senhor, é o reino. . .”) ou o seu reino futuro sobre as nações mediante o Messias (exemplo: “Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz”) podem ser compreendidos como profecias do esmagamento final de Satanás.6

A segunda etapa foi o início da conquista no ministério de Jesus. Reconhecendo-o como seu futuro conquistador, Satanás fez muitas tentativas diferentes para se livrar dele. Por exemplo, através do assassínio das crianças de Belém, ordenado por Herodes, por meio das tentações no deserto com o objetivo de evitar o caminho da cruz, por intermédio da resolução do populacho em forçá-lo a um reinado político-militar, através da contradição de Pedro acerca da necessidade da cruz (“Para trás de mim, Satanás!”), e mediante a traição de Judas em quem Satanás na realidade havia “entrado”.7

Porém Jesus estava decidido a cumprir o que dele estava escrito. Ele anunciou que por seu intermédio o reino de Deus tinha chegado àquela geração, e que as suas obras de poder eram evidência visível desse reino. Vemos o reino dele avançando e o de Satanás retroce­dendo, à medida que demônios são expulsos, enfermidades são cu­radas e a própria natureza desorganizada reconhece o seu Senhor.8 Além do mais, Jesus enviou os seus discípulos, como seus represen­tantes, a pregar e a curar, e quando voltaram, emocionados porque os demônios se lhes haviam submetido em nome do Mestre, ele res­pondeu que tinha visto a “Satanás caindo do céu como um relâm­pago”.

Aqui, contudo, está sua afirmativa mais admirável acerca desse tema: “Quando o valente, bem armado, guarda a sua própria casa, ficam em segurança todos os seus bens. Sobrevindo, porém, um mais valente do que ele, vence-o, tira-lhe a armadura em que confiava e lhe divide os despojos”. Não é difícil reconhecer o valente como um quadro do diabo, o “mais valente do que ele” como Jesus Cristo, e o dividir dos despojos (ou, em Marcos, o saque da sua casa) como a libertação dos seus escravos.9

Contudo, o “vencer” e o “amarrar” ao valente não aconteceram até a terceira e decisiva etapa, a realização da conquista, na cruz. Três vezes, segundo João, Jesus referiu-se ao diabo como “o príncipe deste mundo”, acrescentando que ele estava prestes a “vir” (isto é, lançar sua última ofensiva), mas que seria “expulso” e “julgado”.10 Eviden­temente ele estava antecipando que por ocasião da sua morte realizar-se-ia o concurso final no qual os poderes das trevas seriam desba­ratados. Seria através da sua morte que ele destruiria “aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo”, e, assim, libertaria os cativos (Hebreus 2:14-15).

Talvez a passagem mais importante do Novo Testamento que apre­senta a vitória de Cristo seja Colossenses 2:13-15.

E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas trans­gressões, e pela incircuncisão da vossa carne, vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos; tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz; e, despo­jando os principados e as potestades, publicamente os ex­pôs ao desprezo, triunfando deles na cruz.

Aqui Paulo une dois aspectos diferentes da obra salvadora da cruz de Cristo, a saber, o perdão dos nossos pecados e a subversão cósmica dos principados e potestades.11 Ele exemplifica a libertação e a graciosidade do perdão divino (charizomai) usando o antigo costume do cancelamento de dívidas. “O escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças” dificilmente poderia ser uma referência à própria lei, pois Paulo a via como santa, justa e boa (Romanos 7:12). Pelo contrário, deve referir-se à lei quebrada que, por isso mesmo, “era contra nós” com o seu juízo. A palavra que Paulo usa como “escrito de dívida”, cheirographon, era “um documento escrito à mão, especificamente um certificado de dívida”, ou “uma confissão assi­nada de dívida, a qual permanecia como testemunha perpétua contra nós.”12 O apóstolo, então, com a finalidade de descrever como Deus desfez a  nossa dívida, emprega três verbos. Ele “cancelou” o escrito de dívida, “removendo-o inteiramente”, e, a seguir, “encravando-o na cruz”. J. Jeremias acha que a alusão é ao titulus, o tablete afixado acima da cabeça da pessoa crucificada no qual se escreviam os seus crimes, e que no titulus de Jesus eram os nossos pecados que estavam inscritos, não os dele.13 De qualquer modo, Deus nos livra da falência somente por meio do pagamento de nossas dívidas na cruz de Cristo. Mais do que isso. Ele “não apenas cancelou a dívida, mas também destruiu o documento no qual ela estava registrada”.14

Paulo agora passa do perdão de nossos pecados à conquista dos poderes malignos, e usa três verbos gráficos para retratar a derrota deles. O primeiro podia significar que Deus em Cristo os “desnudou” de si mesmo como roupa imunda, porque o estavam apertando, e, portanto, desfez-se deles. Ou, melhor, pode significar que ele os “desnudou” ou das suas armas ou da sua “dignidade e poder”,15 dessa forma degradando-os. Segundo, ele “publicamente os expôs ao desprezo”, exibindo-os como os “poderes impotentes”16 que são, e assim, terceiro, “triunfando deles na cruz”, o que provavelmente seja referência à procissão de cativos que celebrava a vitória. Assim, a cruz, comenta Handley Moule, foi “de um ponto de vista o seu cadafalso, e de outro, a sua carruagem imperial”.17 Alexandre Maclaren sugere um quadro unificado de Cristo como “o vencedor despindo os seus inimigos de armas, ornamentos e vestes, então exibindo-os como seus cativos, e a seguir arrastando-os nas rodas de seu carro triunfal”.18

Tudo isso são imagens vividas, mas o que realmente significa? De­vemos visualizar uma batalha cósmica real, na qual os poderes das trevas cercaram e atacaram a Cristo na cruz, e na qual ele os desarmou, desacreditou e derrotou? Se tivesse sido invisível, como certamente teria de ser, como foi que Cristo os expôs publicamente? Parece que devemos pensar na vitória dele, embora real e objetiva, em outros termos.

Primeiro, certamente é significativo que Paulo compare o que Cristo fez ao cheirographon (cancelamento e remoção) com o que ele fez aos principados e potestades (desarmando-os e os vencendo). O título ele pregou na cruz; os poderes ele derrotou por meio da cruz. Não parece necessário insistir em que este último seja mais literal do que o pri­meiro. O ponto importante é que ambos aconteceram juntos. Não foi o pagamento das nossas dívidas o modo pelo qual Cristo subverteu os poderes? Liberando-nos destas, ele nos libertou daqueles.

Segundo, ele venceu o diabo mediante a resistência total a suas tentações. Tentado a evitar a cruz, Jesus perseverou no caminho da obediência, e tornou-se “obediente até à morte, e morte de cruz” (Filipenses 2:8). A sua obediência foi indispensável à sua obra sal­vadora. “Porque, como pela desobediência de um só homem muitos se tornaram pecadores, assim também por meio da obediência de um só muitos se tornarão justos” (Romanos 5:19). Se ele tivesse deso­bedecido, desviando-se um pouquinho que fosse do caminho da von­tade de Deus, o diabo teria ganho um ponto e frustrado o plano da salvação. Mas Jesus obedeceu, e o diabo foi derrotado. Provocado pelos insultos e pelas torturas a que foi submetido, Jesus absoluta­mente se recusou a retaliar. Mediante o seu amor autodoador, ele venceu “o mal com o bem” (Romanos 12:21). Novamente, quando os poderes combinados de Roma e de Jerusalém se dispuseram contra ele, ele poderia ter enfrentado poder com poder. Pois Pilatos não tinha autoridade última sobre ele; mais de doze legiões de anjos ter-se-iam apressado ao seu resgate, caso ele as tivesse convocado; ele poderia ter descido da cruz, como, escarnecendo, desafiaram-no a fazer.19 Mas ele se recusou recorrer ao poder mundano. Ele foi cru­cificado em fraqueza, embora a fraqueza de Deus fosse mais forte do que a força do homem. Assim, ele se recusou a desobedecer a Deus, ou a odiar os seus inimigos, ou a imitar o uso que o mundo faz do poder. Mediante sua obediência, amor e mansidão, ele ganhou uma grande vitória moral sobre os poderes do mal. Ele permaneceu livre, incontaminado, descomprometido. O diabo não pôde prendê-lo, e teve de admitir derrota.20 Como disse F. F. Bruce:

Enquanto ele estava ali suspenso, amarrado de pés e mãos ao madeiro em aparente fraqueza, eles imaginaram que o tinham à sua mercê, e lançaram-se sobre ele com intenção hostil. . . Mas ele lutou com eles e os venceu.21

De modo que a vitória de Cristo, predita imediatamente depois da Queda e iniciada durante o seu ministério público, foi decisivamente ganha na cruz.

Quarto, a ressurreição foi a confirmação e o anúncio da conquista. Não devemos ver a cruz como derrota, e a ressurreição como vitória. Antes, a cruz foi a vitória ganha, e a ressurreição a vitória endossada, pro­clamada e demonstrada. “Não era possível fosse ele retido” pela morte, pois ela já havia sido derrotada. Os principados e os poderes do mal, que haviam sido privados de suas armas e sua dignidade na cruz, agora, como conseqüência da derrota, foram colocados sob os pés de Cristo e feitos sujeitos a ele.22

Quinto, a extensão da conquista à medida que a igreja sai para executar a sua missão no poder do Espírito, pregar a Cristo crucificado como Senhor, e convocar o povo a se arrepender e crer nele. Em toda conversão genuína há um voltar-se não apenas do pecado para Cristo, mas também “das trevas para a luz”, “do poder de Satanás para Deus”, e dos ídolos para servir o “Deus vivo e verdadeiro”; há também um resgate do domínio das trevas para o reino do Filho a quem Deus ama.23 De modo que a conversão de cada crente envolve um encontro com o poder que obriga o diabo a descontrair o controle da vida de alguém e demonstra o poder superior de Cristo. Sendo assim, pode bem ser correto interpretar o “amarrar” do dragão por mil anos como coincidente com o “amarrar” do valente realizado na cruz. Pois o resultado da amarração de Satanás é que ele é impedido de enganar “as nações até”, afirmação que parece referir-se à evangelização das nações a qual começou depois da grande vitória da cruz e sua seqüela imediata da Páscoa e Pentecoste.24

Sexto, estamos olhando com expectativa a consumação da conquista na Parousia, O intervalo entre os dois adventos deve ser preenchido com a missão da igreja. O Ungido do Senhor já está reinando, mas também está aguardando até que seus inimigos sejam postos como estrado dos seus pés. Nesse dia todo joelho se dobrará em sua pre­sença e toda língua confessará que ele é Senhor. O diabo será jogado no lago do fogo, onde a morte e o inferno o seguirão. Pois a morte é o último inimigo a ser destruído. Então, quando todo o domínio, autoridade e poder do mal tiver sido destruído, o Filho entregará o reino ao Pai, e ele será tudo em todos.25

Contudo, será correto atribuir a vitória de Cristo à sua morte? Não foi ela alcançada por meio de sua ressurreição? Não foi ressurgindo dentre os mortos que ele venceu a morte? De fato, não descansa toda a ênfase deste livro demasiadamente na cruz, e insuficientemente na ressurreição? Não vão juntos os dois eventos, como Michael Green argumentou poderosamente no seu livro recente intitulado A Cruz Vazia de Jesus? E essencial que tratemos dessas questões.

Para começar, está fora de qualquer dúvida que a morte e a res­surreição de Jesus vão juntas no Novo Testamento e que raramente se menciona uma sem a outra. O próprio Jesus, em três predições sucessivas da sua paixão, registradas por Marcos, cada vez acrescen­tou que ressurgiria depois de três dias.26 Segundo João, ele também disse que daria a sua vida e que a tornaria a tomar.27 Além do mais, aconteceu como ele disse que aconteceria: Eu sou “aquele que vive; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos” (Apo­calipse 1:18). A seguir, é igualmente claro que os apóstolos falaram das duas juntas. O kerygma apostólico mais primitivo segundo Pedro era que Jesus fora entregue “pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes. . . porém, Deus ressuscitou”, enquanto Paulo afirma como o evangelho original e universal que “Cristo mor­reu pelos nossos pecados. . . foi sepultado, e ressuscitou. . . apare­ceu”.28 E as cartas de Paulo estão cheias de frases como “cremos que Jesus morreu e ressurgiu” e “os que vivem devem. . . viver. . . para aquele que por eles morreu e que ressurgiu”.29 Além do mais, reco­nheceu-se desde o início que os dois sacramentos do evangelho davam testemunho a ambas, visto que no batismo o candidato morre sim­bolicamente e ressurge com Cristo, enquanto na Ceia do Senhor é o Senhor ressurreto que se torna conhecido a nós através dos mesmos emblemas que falam da sua morte.30 De modo que esse fato não está em discussão — ou não devia estar. Seria uma pregação sobremaneira desequilibrada a que proclamasse a cruz sem a ressurreição (como acho que Anselmo o fez) ou a ressurreição sem a cruz (como o fazem os que apresentam a Jesus como Senhor vivo em vez de um Salvador expiador). Portanto, é saudável manter um elo indissolúvel entre elas.

Entretanto, precisamos ter certeza da natureza do relacionamento da morte e da ressurreição de Jesus, e cuidado em não atribuir eficácia salvadora igualmente a ambas. Michael Green evita essa armadilha, pois fortemente afirma que “a cruz de Jesus é o próprio centro do evangelho”.31 De fato o é. Quando examinamos as quatro imagens da salvação no capítulo 7, tornou-se aparente que é “pelo sangue de Jesus” que a ira de Deus contra o pecado foi propiciada, e que pelo mesmo sangue de Jesus fomos resgatados, justificados e reconcilia­dos. Pois foi por meio da morte dele, e não mediante a sua ressur­reição, que nossos pecados foram desfeitos. Até mesmo no kerygma apostólico mais primitivo já citado Paulo escreve que Cristo morreu pelos nossos pecados. Em lugar algum do Novo Testamento está escrito que Cristo ressurgiu pelos nossos pecados. Mas não foi por meio de sua ressurreição que Cristo venceu a morte? Não, foi por meio da sua morte que ele destruiu aquele que tem o poder da morte (Hebreus 2:14).

É claro que a ressurreição foi essencial à confirmação da eficácia da morte de Cristo, como a sua encarnação o fora à preparação para a possibilidade dela. Porém devemos insistir em que a obra de levar os pecados terminou na cruz, que a vitória sobre o diabo, o pecado e a morte foi ganha aí, e que o que a ressurreição fez foi vindicar a Jesus a quem os homens rejeitaram, declarar com poder que ele é o Filho de Deus, e publicamente confirmar que sua morte expiatória fora eficaz para o perdão dos pecados. Se ele não se tivesse levantado dentre os mortos, nossa fé e nossa pregação seriam fúteis, visto que a pessoa e obra de Cristo não teriam recebido o endosso divino.32 É essa a implicação de Romanos 4:25, que, à primeira vista, parece ensinar que a ressurreição de Cristo é o meio de nossa justificação: “O qual foi entregue por causa das nossas transgressões, e ressuscitou por causa da  nossa justificação.” Charles Cranfield explica: “O que nossos pecados exigiam era, em primeiro lugar, a morte expiatória de Cristo, e, contudo, se a morte dele não tivesse sido acompanhada da ressurreição, não teria sido o ato poderoso de Deus para a nossa justificação.”33 Além disso, por causa da ressurreição é um Cristo vivo que nos concede a salvação que ele ganhou para nós na cruz, que nos capacita mediante o seu Espírito não somente a partilhar do mérito da sua morte mas também a viver no poder da sua ressurreição, e que nos promete que no último dia nossos corpos também ressurgirão. James Denney expressa a relação entre a morte de Jesus e a res­surreição da seguinte maneira:

Não pode haver salvação do pecado a menos que haja um Salvador vivo: isto explica a ênfase dada pelo apóstolo (isto é, Paulo) à ressurreição. Mas Aquele que vive pode ser Salvador somente porque morreu: isto explica a ênfase dada na cruz. O cristão crê num Senhor vivo, ou não po­deria crer de modo nenhum; mas crê num Senhor vivo que morreu uma morte expiatória, pois nenhum outro pode segurar a fé que uma alma tem sob a condenação do pecado.34

Resumindo, diremos que o evangelho contém tanto a morte quanto a ressurreição de Jesus, visto que sua morte nada teria realizado se ele não tivesse ressurgido dentre os mortos. Contudo, o evangelho enfatiza a cruz, visto que foi aí que se realizou a vitória. A ressurreição não alcançou nossa libertação do pecado e da morte, mas nos deu certeza de ambos. É por causa da ressurreição que “nossa fé e es­perança” estão “em Deus” (1 Pedro 1:21).

 

Entrando na vitória de Cristo

Para os cristãos, como também para Cristo, ávida significa conflito. Para os cristãos, assim como para Cristo ela também devia significar vitória. Devemos ser vitoriosos como Cristo foi vitorioso. Não escre­veu João aos jovens das igrejas que ele supervisionava porque tinham vencido o maligno? Jesus não fez um paralelo deliberado entre ele mesmo e nós nesse aspecto, prometendo ao vencedor o direito de partilhar o seu trono, assim como ele tinha vencido e partilhava o trono do Pai?35

Contudo, o paralelo o é apenas parcialmente. Seria inteiramente impossível que nós, por nós mesmos, lutássemos e derrotássemos o diabo: faltam-nos tanto a habilidade como a força para fazê-lo. Tam­bém seria desnecessário fazermos a tentativa, porque Cristo já a fez. A vitória dos cristãos, portanto, consiste em entrarem na vitória de Cristo e desfrutarem os seus benefícios. Podemos agradecer a Deus que ele nos dá a vitória por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor. Sabemos que Jesus, tendo sido ressuscitado dentre os mortos, agora está assentado à direita do Pai nos reinos celestiais. Mas Deus nos “deu vida juntamente com Cristo. . . e juntamente com ele nos res­suscitou e nos fez assentar nos lugares celestiais”. Por outras palavras, mediante o poder gracioso de Deus nós, os que partilhamos da res­surreição de Cristo, partilhamos também de seu trono. Se Deus co­locou todas as coisas sob os pés de Cristo, elas devem estar sob os nossos também, se estivermos nele. Tomando emprestada a própria metáfora usada por Jesus, agora que o valente foi desarmado e amar­rado, o tempo está maduro para que invadamos o seu palácio e sa­queemos seus bens.36

Entretanto, não é tão simples quanto parece. Porque embora o diabo tenha sido derrotado, ele ainda não admitiu a derrota. Embora já tenha sido derrubado, ele ainda não foi eliminado. Na realidade, ele continua a exercer grande poder. É esse o motivo da tensão que sentimos tanto em nossa teologia quanto em nossa experiência. Por um lado estamos vivos, assentados e reinando com Cristo, como acabamos de ver, estando até mesmo os principados e os poderes do mal colocados por Deus sob os seus (e, portanto, nossos) pés; por outro lado, somos prevenidos (também em Efésios) que esses mesmos poderes espirituais se colocaram em oposição a nós, de modo que não temos esperança alguma de enfrentá-los a menos que sejamos fortes na força do Senhor e estejamos vestidos com a sua armadura.37 Eis o mesmo paradoxo em linguagem diferente. Por um lado, rece­bemos a certeza de que, tendo nascidos de Deus, Cristo nos mantém a salvo e o “maligno não lhe toca”; por outro, recebemos a admoestação de vigiar porque o mesmo diabo “anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar”.38

Muitos cristãos escolhem uma dessas posições, ou oscilam preca­riamente entre elas. Alguns são triunfalistas, que vêem somente a vitória decisiva de Jesus Cristo e não percebem as admoestações apos­tólicas contra os poderes das trevas. Outros são derrotistas, que vêem somente a temível malícia do diabo e não percebem a vitória que Cristo já ganhou sobre ele. A tensão faz parte do dilema cristão do “já” e do “ainda não”. O reino de Deus já foi inaugurado e está avançando; mas ainda não foi consumado. A nova era (o mundo vindouro) já chegou, de modo que temos provado “os poderes do mundo vindouro”; mas a era antiga ainda não passou completamente. Já somos filhos de Deus, e não mais escravos; mas ainda não entramos na “liberdade da glória dos filhos de Deus”.39 A ênfase exagerada no “já” conduz ao triunfalismo, à reivindicação de perfeição — moral (falta de pecado) ou física (saúde completa) — que pertence somente ao reino consumado, o “ainda não”. A ênfase exagerada no “ainda não” leva ao derrotismo, uma aquiescência à continuação do mal, incompatível com o “já” da vitória de Cristo.

Outro modo de ver essa tensão é considerar as implicações do verbo katargeo, que, embora muitas vezes traduzido como “destruir”, na realidade fica aquém dessa acepção. Antes, significa “tornar ineficaz ou inativo”, e é usado com referência ao solo estéril e às árvores improdutivas. Quando esse verbo é aplicado ao diabo, à nossa na­tureza caída e à saúde,40 portanto, sabemos que não foram comple­tamente “destruídas”. Pois o diabo ainda está muito ativo, nossa natureza caída continua a afirmar-se, e a morte continuará a levar-nos até a volta de Cristo. Não é, pois, que tenham cessado de existir, mas que seu poder foi quebrado. Não foram abolidos, mas foram derrubados.

João faz a importante afirmação de que “o motivo pelo qual o Filho de Deus se manifestou foi para ‘desfazer’ as obras do diabo” (1 João 3:8, literalmente). Ele veio para confrontar e derrotar o diabo, e assim desfazer o dano que este havia causado. Quais são as “obras do diabo”, os efeitos da sua atividade nefasta? Por exemplo, Lutero tinha prazer em apresentar uma seqüência delas em seu comentário da carta aos Gálatas. Em certo lugar ele escreve que “a lei, o pecado, a morte, o diabo e o inferno” constituem “todos os males e as misérias da humanidade”, e em outro que “o pecado, a morte e a maldição” são “os tiranos invisíveis poderosos” dos quais somente Cristo pode li­bertar-nos. Anders Nygren, em seu famoso comentário de Romanos, sugere que os capítulos 5 a 8 descrevem a vida da pessoa que foi justificada pela fé: “O capítulo 5 diz que significa ser livre da ira. O capítulo 6 diz que é ser livre do pecado. O capítulo 7 diz livre da lei. E o capítulo 8 diz que somos livres da morte”. Minha preocupação é que essas listas omitem qualquer referência à “carne” (nossa natureza caída) e ao “mundo” (a sociedade sem Deus), que são familiares pelo menos ao povo da igreja no trio “o mundo, a carne e o diabo”. De modo que as “quatro obras do diabo” das quais Cristo nos liberta, nas quais, no meu entender, os escritores do Novo Testamento pa­recem concentrar-se, são a lei, a carne, o mundo e a morte.

Primeiro, através de Cristo já não estamos sob a tirania da lei. Muitos se surpreendem que a lei, dádiva de Deus a seu povo, em si mesma “santa, justa e boa”, jamais pudesse tornar-se um tirano que nos escraviza. Mas é exatamente esse o ensino de Paulo. “Mas antes que viesse a fé, estávamos sob a tutela da lei, e nela encerrados, para essa fé que de futuro haveria de revelar-se.” O motivo é que a lei condena a nossa desobediência, levando-nos, assim, à sua “maldição” ou juízo. Mas Cristo já nos resgatou da maldição da lei fazendo-se ele próprio maldição por nós. E nesse sentido que “Cristo é o fim da lei” e já não estamos “sob” ela.41 Não quer dizer, de modo nenhum, que agora já não existem absolutos morais a não ser o amor, como ensinavam os advogados da “nova moralidade” nos anos 60, ou que agora já não temos obrigação de obedecer à lei de Deus, como ensinam outros antinomianos. Não, desde que a tirania da lei é a sua maldição, é desta que somos libertados por Cristo, de modo que já não estamos “sob” ela. A lei já não nos escraviza por meio da sua condenação. Os cheirographon de que tratamos anteriormente foram expurgados. Os primeiros quatro versículos do capítulo 8 de Romanos se entrelaçam. Dizem que para aqueles que estão em Cristo “já nenhuma Condenação há” (v. 1), pois Deus já condenou os nossos pecados em Jesus Cristo (v. 3), e o fez a fim de que “o preceito da lei se cumprisse em nós” (v. 4). De modo que a mesma cruz de Cristo, que nos livra da con­denação da lei, obriga-nos à obediência da lei.

Segundo, através de Cristo já não estamos sob a tirania da carne. O que Paulo quer dizer com “carne” (sarx) é nossa natureza caída ou humanidade não redimida, tudo o que somos por nascimento, he­rança e criação antes de Cristo nos renovar. Visto que nossa “carne” é o nosso “eu” em Adão, sua característica é o egocentrismo. Paulo apresenta um catálogo de algumas das obras mais horrorosas da carne, entre elas a imoralidade sexual, a idolatria, o ocultismo, o ódio, o ciúme e a ira, a ambição egoísta e as dissensões, e a bebedice. Levando esse tipo de vida, éramos “escravos de toda sorte de paixões e pra­zeres”. Como disse o próprio Jesus: “Todo o que comete pecado é escravo do pecado”. Imediatamente, porém, ele acrescentou: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres. “E a liberdade da nossa natureza caída e de seu egoísmo vem através da. cruz: “Sa­bendo isto, que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos”.42 Cristo, por meio da sua cruz, ganhou a vitória sobre a carne e também sobre a lei.

Terceiro, por meio de Cristo já não estamos sob a tirania do mundo. Se a carne é o ponto de apoio que o diabo tem dentro de nós, o mundo é o meio pelo qual ele exerce pressão de fora sobre nós. Pois o “mundo” nesse contexto significa a sociedade humana sem Deus, cuja hostilidade para com a igreja é expressa ora mediante ridículo e perseguição declarados, ora por meio de subversão sutil, a infiltração de seus valores e padrões. João declara sem rodeios que o amor do mundo e o amor do Pai são mutuamente incompatíveis. Pois com mundanismo ele quer dizer “a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida”. Na primeira expressão, “a concupiscência da carne” é tradução de sarx. “Carne” e “mundo” estão inevitavelmente ligados pois o “mundo” é a comunidade dos não redimidos, cuja perspectiva é ditada por sua natureza não redimida. Juntando-se as três expressões, parece que as características do mundo as quais João enfatiza são seus desejos egoístas, seus juízos superficiais {os olhos vendo somente a aparência superficial das coi­sas) e seu arrogante materialismo. Jesus, porém, fez a seguinte rei­vindicação: “Eu venci o mundo.” Ele rejeitou por completo seus valores distorcidos e manteve imaculada sua própria perspectiva di­vina. João, a seguir, acrescenta que através de Cristo nós também podemos ser vencedores:

porque tudo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé. Quem é o que vence o mundo senão aquele que crê ser Jesus o Filho de Deus?43

É quando cremos em Jesus Cristo que nossos valores mudam. Já não nos conformamos aos valores do mundo, mas, pelo contrário, descobrimos que estamos sendo transformados pela renovação de nossa mente que compreende e aprova a vontade de Deus. E nada tem mais poder para nos afastar do mundanismo do que a cruz de Cristo. É mediante a cruz que o mundo foi crucificado para nós e nós para o mundo,44 de modo que estamos libertos da sua tirania.

Quarto, por meio de Cristo já não estamos sob a tirania da morte. Diz-se às vezes que, ao passo que nossos antepassados da era vito­riana tivessem um fascínio mórbido pela morte, e jamais falassem de sexo, a geração atual está obcecada com o sexo, enquanto a morte é a coisa que não se pode mencionar. O medo da morte é praticamente universal. Atribui-se ao duque de Wellington a seguinte expressão: “o homem que se gaba de não ter medo da morte deve ser covarde ou mentiroso”. E o Dr. Samuel Johnson acrescentou que “homem racional algum pode morrer sem uma incômoda apreensão”.45 Mas Jesus Cristo é capaz de libertar até mesmo aqueles que “pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida”. Isto porque por meio da sua morte ele “destruiu” (ou privou do poder) “aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo” (Hebreus 2:14).

Jesus Cristo não apenas destronou o diabo mas também destruiu o pecado. De fato, foi ao destruir o pecado que ele destruiu a morte. Pois o pecado é o “aguilhão” da morte, a razão principal pela qual a morte é dolorosa e venenosa. É o pecado que acarreta a morte, e que, depois da morte, traz o juízo. Daí procede o pavor que temos dela. Mas Cristo morreu pelos nossos pecados e os desfez. Com grande desdém, portanto, Paulo compara a morte a um escorpião cujo agui­lhão foi retirado, e a um conquistador militar cujo poder foi quebrado. Agora que fomos perdoados, a morte já não nos pode causar danos. De modo que o apóstolo clama desafiadoramente: “Onde está, ó morte, a tua vitória? onde está, ó morte, o teu aguilhão?” É claro que não há resposta. De modo que ele clama novamente, desta vez em triunfo: “Graças a Deus que nos dá a vitória por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Coríntios 15:55-57).

Portanto, qual deve ser a atitude do cristão para com a morte? Ela ainda é um inimigo, desnaturado, desagradável e indigno — de fato “o último inimigo a ser destruído”. Contudo, é um inimigo derrotado. Visto que Cristo tirou os nossos pecados, a morte perdeu o seu poder de causar-nos dano e, portanto, de nos apavorar. Jesus resumiu essa idéia em uma de suas maiores afirmações: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim, não morrerá, eternamente”.46 Isto é, Jesus é a ressur­reição dos crentes que morrem, e a vida dos crentes que vivem. Sua promessa aos primeiros é: “vocês viverão”, significando que não ape­nas sobreviverão, mas que também serão ressuscitados. Sua promessa aos últimos é: “vocês jamais morrerão”, significando que não apenas escaparão da morte, mas também que a morte provará ser um episódio trivial, uma transição à plenitude de vida.

A convicção do cristão de que Cristo “destruiu a morte” (2 Timóteo 1:10) tem levado alguns crentes a deduzirem que ele também destruiu as doenças, e que da cruz devemos reivindicar tanto a cura como o perdão. Uma exposição popular desse tópico é o livro do escritor canadense T. J. McGrossan, intitulado A Cura Física e a Expiação, escrito em 1930, e que recentemente foi reeditado por Kenneth E. Hagin, da igreja pentecostal Rhema. McGrossan apresenta o seu caso nos se­guintes termos: “Todos os cristãos deviam esperar que Deus curasse os seus corpos hoje, porque Cristo morreu para expiar as nossas doenças e também os nossos pecados”. Ele baseia o seu argumento no versículo 4 de Isaías 53, versículo que ele traduz da seguinte ma­neira: “certamente ele levou as nossas enfermidades e carregou as nossas dores”. Ele enfatiza, em particular, que o primeiro verbo he­braico (nasa’) significa “suportar” no sentido de “sofrer o castigo por alguma coisa”. Visto que esse verbo também aparece em Isaías 53:12 (“ele levou o pecado de muitos”), “o ensino claro. . . é que Cristo levou as nossas enfermidades do mesmo modo que levou os nossos pecados”.

Essa interpretação, porém, apresenta três dificuldades. Primeira, nasa’ é usado em vários contextos do Antigo Testamento, incluindo-se o levar a arca e outros móveis do tabernáculo, o levar a armadura, armas e crianças. Ocorre em Isaías 52:11 com referência aos que “levais os utensílios do Senhor”. De modo que o verbo, em si mesmo, não significa “levar o castigo”. Somos obrigados a traduzi-lo dessa forma somente quando tem o pecado como objeto. Que Cristo tenha “levado” as nossas enfermidades pode significar algo totalmente dife­rente (e de fato significa).

Segundo, o conceito apresentado por McGrossan não faz sentido. “Levando a penalidade do pecado” é facilmente inteligível, visto que a penalidade do pecado humano é a morte e Cristo morreu a nossa morte em nosso lugar. Mas qual é a penalidade da enfermidade? Ela não tem penalidade. A doença pode ser em si mesma uma penalidade do pecado, mas não é em si mesma um delito que atraia penalidade. Assim, falar que Cristo “expiou” as nossas enfermidades é misturar categorias; não é uma noção inteligente.

Terceiro, Mateus (o evangelista que mais se preocupou com o cum­primento da Escritura do Antigo Testamento) aplica Isaías 53:4 não à morte expiatória mas ao ministério de cura de Jesus. Foi com o fim de cumprir o que fora dito mediante o profeta Isaías, escreve ele, que Jesus “curou todos os enfermos”. De modo que não temos liberdade de reaplicar o texto à cruz. É verdade que Pedro cita o versículo seguinte “pelas suas pisaduras fomos sarados”, mas os contextos tanto de Isaías quanto de Pedro tornam claro que a “cura” que tinham em mente é a salvação do pecado.47

Portanto, não devemos afirmar que Cristo morreu pelas nossas enfermidades e pelos nossos pecados, que “há cura na expiação”, ou que a saúde está tão prontamente disponível a todos quanto o perdão.

Entretanto, isso não significa que nossos corpos não sejam afetados pela morte e ressurreição de Jesus. Certamente devemos levar a sério estas afirmativas de Paulo acerca do corpo:

Levando sempre no corpo o morrer de Jesus para que tam­bém a sua vida se manifeste em nosso corpo. Porque nós, que vivemos, somos sempre entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal (2 Coríntios 4:10-11).

O apóstolo refere-se à enfermidade e à mortalidade de nossos cor­pos humanos, especialmente (no caso dele) com relação à perseguição física. É, diz ele, como experimentar em nossos corpos o morrer de Jesus, e o propósito desse experimentar é que a vida de Jesus possa ser revelada em nossos corpos. Não parece que ele se esteja referindo à ressurreição do seu corpo, pois trata disso mais tarde. Nem tam­pouco suas palavras são esgotadas na sobrevivência dos assaltos fí­sicos que ele sofreu, nos quais foi abatido, mas não destruído (v. 9). Não, ele parece estar dizendo que agora em nossos corpos mortais (cujo fim é a morte) está sendo revelada (repetida duas vezes) a própria “vida” de Jesus (também repetida duas vezes). Ainda quando nos sentimos cansados, doentes e esmagados, experimentamos um vigor e uma vitalidade que são a vida do Jesus ressurreto dentro de nós. Paulo exprime o mesmo pensamento no versículo 16: “Mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo o nosso homem interior se renova de dia em dia.”

Que a vida de Jesus deve ser revelada constantemente em nossos corpos; que Deus colocou processos terapêuticos maravilhosos no corpo humano os quais lutam com a doença e restauram a saúde; que toda cura é cura divina; que Deus pode curar e às vezes cura miraculosamente (sem meios, instantânea e permanentemente) — essas coisas devemos alegre e confiantemente afirmar. Mas esperar que os doentes sejam curados e os mortos ressuscitados tão regularmente quanto esperamos que os pecadores sejam perdoados, é ressaltar o “já” a expensas do “ainda não”, pois é antecipar a ressurreição. Só então nossos corpos serão inteiramente livres da doença e da morte.

Agora devemos voltar aos quatro tiranos sobre os quais Cristo ga­nhou a vitória e dos quais, em conseqüência, ele nos liberta. As quatro tiranias caracterizam a antiga “era” inaugurada por Adão. Nela, a lei escraviza, a carne domina, o mundo engana e a morte reina. A nova “era”, porém, inaugurada por Cristo, é caracterizada pela graça e não pela lei, pelo Espírito e não pela carne, pela vontade de Deus e não pelas modas do mundo, pela vida abundante e não pela morte. É essa a vitória de Cristo na qual ele permite que entremos.

 

O livro do Apocalipse

Livro algum do Novo Testamento traz testemunho mais claro ou mais forte da vitória de Cristo do que o do Apocalipse de João. Mais da metade das ocorrências do grupo de palavras de “vitória” (nikao, vencer e nike, vitória) são encontradas neste livro. H. B. Swete escre­veu que desde o começo até o fim o Apocalipse é um sursum corda, porque conclama seus leitores a levantar os corações abatidos, a tomar ânimo e perseverar até o final. Michael Green sugeriu que o cântico da liberdade intitulado “Nós Venceremos” poderia ter sido escrito como a “melodia titular do Novo Testamento”.48 Seus acordes triun­fais certamente ecoam por todo o livro das revelações.

No mundo antigo acreditava-se que toda vitória no campo de ba­talha era ganha por deuses em vez de por meros mortais: “somente o deus vence, é vencido e vencível”.49 Daí a popularidade da deusa Nike, que com freqüência era retratada em monumentos, e em cuja honra foi construído o gracioso e pequeno templo da entrada do Partenon. Às vezes fico a pensar se foi em contraste consciente com Nike que o Apocalipse chama a Jesus de ho Nikon, “o Vencedor”, e que seu título também é transferido para os cristãos que vencem.50

Escrito com toda a certeza durante o reinado do imperador Domiciano (81-96 A.D.), o pano de fundo do Apocalipse é o crescimento da perseguição da igreja (agora sistemático em vez de espasmódico) e a prática da adoração ao imperador, cuja recusa por parte dos cristãos muitas vezes dava início a novos estouros de perseguição. O que o Apocalipse faz, de acordo com o seu gênero literário, é erguer a cortina que oculta o mundo invisível da realidade espiritual e mostrar o que se está passando nos bastidores. O conflito entre a igreja e o mundo é visto como não mais que uma expressão no palco público do con­curso invisível entre Cristo e Satanás, o Cordeiro e o dragão. Essa secular batalha é apresentada em uma série de visões dramáticas que têm sido diversamente interpretadas como representações do desen­volvimento histórico da época (a escola “preterista”), através dos sé­culos seguintes (a “historicista”) ou como um prelúdio ao Fim (a “futurista”). Entretanto, nenhuma delas satisfaz por completo. Visto que o juízo final e a vitória são dramatizados várias vezes, as visões não podem representar eventos sucessivos numa seqüência contínua. Parece mais provável, portanto, que as cenas se sobrepõem; que a visão recapitula várias vezes toda a história do mundo entre a primeira vinda de Cristo (a vitória ganha) e a segunda (a vitória concedida); e que a ênfase é sobre o conflito entre o Cordeiro e o dragão que já teve várias manifestações históricas, e terá mais antes do Fim.

O livro tem início com referências a Jesus Cristo como o “primo­gênito dos mortos”, o “soberano dos reis da terra” (1:5), “o primeiro e o último”, “aquele que vive” (1:17-18), e com uma magnífica visão dele com o fim de justificar esses títulos como o Senhor ressurreto, assunto, glorificado e reinante. A seguir vêm as cartas às sete igrejas da província romana da Ásia, cada uma das quais termina com uma promessa apropriada ao “vencedor”. O foco então muda do Cristo que patrulha as suas igrejas sobre a terra para o Cristo que partilha o trono de Deus no céu. Durante quatro capítulos (4—7) o trono ocupa o centro, e tudo o mais é descrito em relação a ele. Jesus Cristo é retratado como Leão e como Cordeiro (uma combinação de imagens que pode indicar que o seu poder provém do seu auto-sacrifício). Ele é visto “no meio do trono e dos quatro seres viventes e entre os anciãos, de pé”. O motivo pelo qual somente ele é digno de abrir o livro escrito por dentro e por forra (o livro da história e destino) é que ele “venceu” (5:5). E a natureza da sua vitória é que foi morto e com o seu sangue comprou para Deus gente de todas as nações (5:9). Somos levados a compreender que os sombrios eventos que seguem a quebra dos selos e o toque das trombetas (guerra, fome, praga, martírio, terremoto e desastres ecológicos) estão, contudo, sob o con­trole do Cordeiro, que já está reinando e cujo reino perfeito logo será consumado (11:15-18).

Meu objetivo, entretanto, é chegar à visão do capítulo 12, a qual, de alguns modos, parece ser o centro do livro. João viu uma mulher grávida, vestida com o sol, tendo a lua debaixo dos pés, uma coroa de doze estrelas na cabeça e que estava prestes a dar à luz um Filho cujo destino era “reger todas as nações” (v. 5). Ele é, evidentemente, o Messias, e ela a igreja do Antigo Testamento de quem o Messias procedeu. Um dragão vermelho, enorme e grotesco, identificado no versículo 9 como “a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás”, estava na frente da mulher, pronto para “lhe devorar o filho quando nascesse”. Mas o filho “foi arrebatado para Deus até ao seu trono”, e a mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe havia preparado lugar (vv. 5-6).

Seguiu-se a guerra no céu, na qual “o dragão e seus anjos” foram derrotados. Assim como Cristo havia sido arrebatado da terra para o céu, o dragão agora foi atirado do céu à terra. A vitória certamente deve referir-se à cruz, visto que foi “por causa do sangue do Cordeiro” (v. 11) que o povo de Cristo venceu o dragão. Nenhuma outra arma poderia ser adequada, pois o dragão está “cheio de grande cólera, sabendo que pouco tempo lhe resta” (v. 12).

É essa, portanto, a situação. O diabo foi derrotado e destronado. Todavia, longe de esses acontecimentos darem paradeiro às atividades dele, a fúria que ele sente no conhecimento de sua destruição que se aproxima, leva-o a redobrá-las. A vitória sobre ele já foi ganha, mas o conflito doloroso com ele continua. E nesse conflito ele confia em três aliados que agora aparecem (na visão de João) disfarçados em dois monstros horrorosos e uma prostituta lasciva e pomposa. Torna-se evidente que os três são símbolos do império romano, embora em aspectos diferentes, a saber, Roma, a perseguidora, Roma, a enga­nadora, e Roma, a sedutora.

O primeiro monstro, que João vê emergindo do mar, possui sete cabeças e dez chifres, como o dragão, e o dragão dá-lhe o seu poder, trono e soberania para que toda a terra o siga. Não é necessário entrar em detalhes de interpretação (por exemplo, que cabeças e que chifres representam quais imperadores). O que é de primeira importância é que a besta profere arrogâncias e blasfêmias contra Deus (13:5), recebe poder para pelejar “contra os santos” e até mesmo (temporariamente) os vencer, e é adorada por todos, menos pelos seguidores do Cordeiro (v. 8). E esse o poder absoluto do estado romano. Mas o cumprimento da profecia não se completou no império romano. Em todo estado violento, que se opõe a Cristo, oprime a igreja e exige a homenagem inquestionável dos cidadãos, a horrível besta que emerge do mar de novo levanta suas cabeças horrorosas e seus chifres agressivos.

O segundo monstro emerge “da terra” (v. 11). Ele é, evidentemente, capanga do primeiro, visto que exerce a sua autoridade e promove a sua adoração, e, a fim de fazê-lo, realiza sinais miraculosos. Se é a característica da primeira besta perseguir, é a característica da segunda enganar (v. 14). As pessoas são forçadas a adorar a imagem da pri­meira besta (uma referência óbvia ao culto do imperador) e a usar a marca da besta, sem a qual serão incapazes de comerciar. Essa se­gunda besta mais tarde é chamada de “falso profeta” (19:20). Embora nessa geração ele tenha simbolizado os promotores do culto do im­perador, em nossos dias ele representa toda religião e ideologia falsas, as quais desviam a adoração para qualquer objeto que não seja o Deus vivo e verdadeiro.

O terceiro aliado do dragão só é apresentado depois de alguns capítulos, durante os quais a vitória fínal do Cordeiro é confiantemente predita e celebrada várias vezes.51 Esse aliado recebe o nome de “grande meretriz” (17:1). Uma vez mais sem dúvida ela representa Roma, pois refere-se a ela como “Babilônia, a grande” (14:8 e 17:5), “a grande cidade que domina sobre os reis da terra” (17:18), e uma cidade situada sobre “sete montes” (v. 9). Desta vez, porém, ela simboliza a corrupção moral de Roma. Ela está assentada numa besta escarlate (um dos reis sobre os quais repousa sua autoridade), está adornada de púrpura e escarlate, ouro, pedras preciosas e pérolas, e segura na mão um cálice de ouro “transbordante de abominações e com as imundícias da sua prostituição” (v. 4). O seu poder sedutor é tal que se diz que os habitantes da terra se embebedaram com o “vinho da sua devassidão” (v. 2). Quer essa devassidão seja a imo­ralidade sexual, quer a idolatria espiritual, não foi sua única ofensa. Lemos mais tarde de sua “luxúria” (18:3) que resultou de seu comércio internacional, incluindo-se o tráfico de escravos (vv. 11-13), “pecados” e “crimes” não especificados (v. 5), e sua exaltada arrogância (v. 7). Seus reis farão guerra contra o Cordeiro, “e o Cordeiro os vencerá”, porque “é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis” (17:14).

E nos capítulos 18 e 19 a queda de “Babilônia, a grande” não so­mente é descrita com detalhes gráficos, mas também vindicada como inevitável e justa. Vislumbra-se a Jesus, o Vencedor, num cavalo branco, à medida que “julga e peleja com justiça” (19:11-16). Então, nos últimos três capítulos descrevem-se a destruição final e a morte de Satanás, o novo céu e a nova terra, e a Nova Jerusalém, onde não haverá lágrimas, morte, dor ou noite, quando Deus estabelecer o seu reino perfeito.

O diabo não mudou as suas estratégias. Embora o império romano tenha passado há muito, outras estruturas de perseguição, engano e corrupção têm-se erguido no seu lugar. Em alguns países hindus e muçulmanos hoje, em desafio à Declaração de Direitos Humanos das Nações Unidas, propagar o evangelho e professar a conversão são ofensas puníveis com a prisão e até mesmo a morte. Na maioria dos países marxistas colocam-se severas restrições no ensino dos jovens e em todas as atividades religiosas realizadas fora de edifícios espe­cialmente registrados. Onde quer que predomine uma cultura não cristã, as oportunidades de educação mais elevada e prospectos de promoção tendem a ser limitados, e os direitos de cidadania são ne­gados. Quanto à “besta que emerge da terra” ou “falso profeta”, ela está ativa por meio de outras religiões, novas seitas e ideologias se­culares. Michael Green apresenta em dois capítulos do seu livro Creio na Queda de Satanás informações bem documentadas acerca da “fas­cinação do ocultismo” e da “religião falsa”. Concordo com ele em que essas ainda são duas das “armas mais poderosas da armadura de Satanás”. Quanto à “grande meretriz”, o assalto sobre a moralidade cristã (isto é, bíblica) tradicional tem penetrado as defesas da própria igreja. Na questão da santidade da vida humana (a saber, com refe­rência ao aborto e experimentos com embriões) a igreja tende a tomar uma posição ambígua. Não há testemunho unido contra a imoralidade de armas indiscriminadas. O divórcio é cada vez mais tolerado, até entre líderes cristãos. Estilos sexuais de vida que não a monogamia heterossexual estrita nem sempre são condenados. E continuamos a desfrutar, no Ocidente, um nível de afluência que é insensível à luta de milhões de destituídos.

A mensagem do Apocalipse é que Jesus Cristo derrotou a Satanás e um dia o destruirá por completo. É à luz dessas certezas que de­vemos confrontar sua contínua atividade maliciosa, quer seja física (por meio da perseguição), quer seja intelectual (através do engano) ou moral (mediante a corrupção). Como, pois, podemos entrar na vitória de Cristo e prevalecer contra o poder do diabo? Como podemos ser contados entre os “vencedores”? Como podemos esperar derrubar o inimigo, não apenas em nossas próprias vidas mas também no mundo que ele usurpou?

Primeiro, recebemos a ordem de resistir ao diabo. “Resisti-lhe firmes na fé”. Novamente, “resisti ao diabo, e ele fugirá de vós”.52 Não devemos ter medo dele. Grande parte da sua demonstração de poder é blefe, visto que foi derrotado na cruz, e necessitamos da coragem de enfrentá-lo. Vestidos com a armadura de Deus, podemos ficar firmes contra ele (Efésios 6:10-17). Não devemos fugir dele, mas, pelo contrário, resistir-lhe de modo que ele fuja de nós. Contudo, nossa voz fraca não possui autoridade suficiente para afugentá-lo. Não po­demos dizer, em nosso próprio nome, como Jesus podia: “Vai-te Satanás”. Mas podemos fazê-lo no nome de Jesus. Temos de reivin­dicar a vitória da cruz. “No nome de Jesus Cristo, do Christus Victor, que te derrotou na cruz, vai-te, Satanás”. Funciona. Ele conhece o seu vencedor. Ele foge da sua presença.

Segundo, temos a ordem de proclamar a Jesus Cristo. A pregação da cruz ainda é o poder de Deus. É através da proclamação do Cristo crucificado e ressurreto que converteremos as pessoas “das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus” (Atos 26:18), e, assim, o reino de Satanás baterá em retirada ante a aproximação do reino de Deus. Nenhuma outra mensagem é defendida e honrada pelo Espírito Santo da mesma maneira.

Portanto, tanto em nossa vida como na missão da igreja, é somente a cruz de Cristo, pela qual Satanás foi derrotado, que pode prevalecer contra ele. É ainda verdade hoje que eles o “venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram, e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida” (Apocalipse 12:11). O testemunho descomprometido de Cristo é essencial. Tam­bém o é a disposição de darmos nossas próprias vidas por causa dele, se necessário. Mas indispensável a ambos é o conteúdo de nossa fé e mensagem, a saber, a vitória objetiva e decisiva do Cordeiro sobre todos os poderes das trevas, a qual ele ganhou ao derramar o seu sangue na cruz.

Quarta Parte
Vivendo sob a Cruz

 

10
A Comunidade de Celebração

 

Talvez o leitor até aqui tenha achado esta apresentação da cruz de Cristo por demais individualista. Se isso aconteceu, esta seção deve recuperar o equilíbrio. Pois o mesmo Novo Testamento, que contém o rasgo de individualismo de Paulo que diz: “Estou crucificado com Cristo. . . vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim”, também insiste em que Jesus Cristo “a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda a iniqüidade, e purificar para si mesmo um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras”.1 Assim, o mesmo propósito da sua autodoação na cruz não foi só salvar indivíduos isoladamente, perpetuando a sua solidão, mas também criar uma nova comunidade cujos membros pertences­sem a ele, amassem uns aos outros e zelosamente servissem ao mundo. Essa comunidade de Cristo não seria nada mais do que uma unidade renovada e reunida, da qual ele, como segundo Adão, seria o cabeça. Ela incluiria judeus e gentios em termos iguais. De fato, englobaria representantes de todas as nações. Cristo morreu em so­lidão abjeta, rejeitado por sua própria nação e desertado por seus discípulos; mas, levantado na cruz ele atrairia a todos os homens a si mesmo. E do dia de Pentecoste em diante tem sido claro que a conversão a Cristo significa também conversão à comunidade de Cristo, à medida que as pessoas se voltam de si mesmas para ele, e desta “geração corrupta” à sociedade alternativa que ele está unindo em torno de si. Essas duas transferências — de fidelidade pessoal e participação social — não podem ser separadas.2

O Novo Testamento devota bastante espaço à retratação dessa nova sociedade redimida — suas crenças e valores, seus padrões, deveres e destino. O tema desta seção é a comunidade de Cristo como a comunidade da cruz. Tendo sido trazida à existência mediante a cruz, ela continua a viver pela cruz e debaixo dela. Nossa perspectiva e nosso comportamento agora são governados pela cruz. Todos os nos­sos relacionamentos foram radicalmente transformados por ela. A cruz não é apenas um distintivo que nos identifica, e um pendão sob o qual marchamos; é também a bússola que nos dá direção num mundo desorientado. Em particular, a cruz revoluciona nossa atitude para com Deus, para conosco mesmo, para com as pessoas tanto dentro quanto fora da comunidade cristã, e para com os graves pro­blemas da violência e do sofrimento. Dedicaremos um capítulo a cada um desses quatro relacionamentos.

 

Um relacionamento novo com Deus

As quatro imagens da salvação, que investigamos no capítulo 7 dão testemunho de nosso novo relacionamento com Deus. Agora que ele agiu em seu amor desviando a sua ira, fomos justificados por ele, redimidos por ele e reconciliados nele. E a nossa reconciliação inclui os conceitos de “acesso” e “proximidade”, os quais são aspectos do nosso conhecimento dinâmico de Deus ou “vida eterna” (João 17:3). Esse relacionamento íntimo com Deus, que substituiu a alienação antiga e dolorosa, possui várias características.

Primeiro, é marcado pela ousadia. A palavra que os apóstolos gos­tavam de usar com referência à ousadia é parresia, que significa “aber­tura, franqueza, simplicidade de discurso”, tanto em nosso tes­temunho ao mundo quanto em nossas orações a Deus. Através de Cristo agora somos capazes de “nos aproximarmos de Deus com liberdade (parresia) e confiança”. Por causa do sumo sacerdócio de Cristo temos parresia de chegar ao trono da graça de Deus, e temos parresia pelo sangue de Cristo para entrar no Santo dos Santos da própria presença de Deus.3 Essa liberdade de acesso e essa franqueza de aproximação a Deus em oração não entram em choque com a humildade, pois são devidas inteiramente ao mérito de Cristo, e não ao nosso. O seu sangue purificou nossa consciência (de um modo impossível nos dias do Antigo Testamento), e Deus prometeu jamais se lembrar dos nossos pecados. De modo que agora olhamos para o futuro com segurança, não com temor. Sentimos o poder da lógica de Paulo. Visto que quando éramos inimigos de Deus fomos tanto justificados quanto reconciliados através da morte de Cristo, tanto mais tendo sido justificados e reconciliados, seremos salvos da ira de Deus no último dia, Agora que estamos “em Cristo”, temos confiança “em todas as coisas” de que Deus está operando o nosso bem, e que nada nos pode separar do seu amor.4

A segunda característica de nosso novo relacionamento com Deus é o amor. Deveras, amamos porque ele nos amou primeiro. Antes tínhamos medo dele. Mas agora o amor expulsou o temor. Amor gera amor. O amor de Deus em Cristo, o qual, em certo sentido nos libertou, em outro nos aprisiona, porque não nos deixa alternativa a não ser vivermos o restante de nossa vida para ele, em culto de adoração e gratidão.5

A alegria é a terceira marca dos que foram redimidos pela cruz. Quando os exilados de Babilônia retornaram a Jerusalém, a sua “boca se encheu de riso” e a sua “língua de júbilo”. A antiga alienação e humilhação se haviam acabado; Deus os havia resgatado e restaurado. Compararam o seu júbilo aos folguedos da ceifa: “Os que com lágri­mas semeiam, com júbilo ceifarão. Quem sai andando e chorando enquanto semeia, voltará com júbilo, trazendo os seus feixes”. Quanto mais devíamos nós nos regozijarmos no Senhor, que nos redimiu de uma escravidão muito mais opressiva! Os cristãos primitivos mal se podiam conter: tomavam as refeições juntos “com alegria e singeleza de coração”.6

Todavia, não devemos pensar que a ousadia, o amor e a alegria sejam experiências inteiramente privadas; devem distinguir o nosso culto público. O breve tempo que passamos juntos no dia do Senhor, longe de ser divorciado do restante de nossa vida, deve dar-lhe pers­pectiva. Humildemente (como pecadores), contudo audazmente (como pecadores perdoados), entramos na presença de Deus, res­pondendo à sua iniciativa amorosa com um amor nosso, e não so­mente adorando-o com instrumentos musicais mas também articulando nossa alegria mediante cânticos de louvor. W. M. Clow tinha razão em chamar a atenção para o cântico como um aspecto singular do culto cristão, e ao motivo dele:

Não há perdão neste mundo, ou no vindouro, a não ser através da cruz de Cristo. “Através deste homem vos é pregado o perdão dos pecados”. As religiões do paganismo raramente conheciam a palavra. . . As grandes crenças dos budistas e dos maometanos não dão lugar nem à necessi­dade nem à graça da reconciliação. Provar esse fato é a coisa mais simples. O júbilo jaz nos hinos do culto cristão. O templo budista jamais ressoa com o clamor do louvor. Os adoradores maometanos jamais cantam. Suas orações são, no que tiverem de mais elevado, orações de submissão e pedido. Raramente atingem a nota mais alegre da ação de graças. Jamais se jubilam com os cânticos dos perdoa­dos.7

Em contraste, sempre que o povo cristão se reúne é impossível fazer que parem de cantar. A comunidade cristã é uma comunidade de celebração.

Paulo exprime nosso senso comum de jubilosa alegria mencionando a mais bem conhecida festa judaica: “Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado. Por isso celebremos a festa. . .” (1 Corínttios 5:7-8). Es­tritamente falando, a “páscoa” era a refeição comunal feita na noite do décimo quinto dia de nisã, imediatamente depois de matar os cordeiros pascais naquela tarde (14 de nisã), embora tivesse vindo a ser aplicada também a toda a semana de festa dos pães asmos que a seguia. O fundamento do regozijo do povo era sua redenção custosa do Egito. Mais custoso ainda foi o sacrifício redentor de Jesus Cristo na cruz. Foi porque ele, nosso Cordeiro Pascal, foi morto, e porque pelo derramamento do precioso sangue da sua vida fomos libertos, que se nos exorta a celebrar a festa. De fato, toda a vida da comunidade cristã devia ser concebida como um festival em que com amor, alegria e ousadia celebremos o que Deus fez por nós através de Cristo. Nessa celebração descobrimos que estamos participando da adoração do céu, de modo que nos unimos “aos anjos e arcanjos, e a toda a companhia do céu” ao dar glória a Deus. E, sendo a adoração a Deus, em essência, o reconhecimento de sua dignidade, unimo-nos ao coro celestial en­toando a dignidade divina tanto como Criador como Redentor:

Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, porque todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas (Apocalipse 4:11).

Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor (Apocalipse 5:12).

É surpreendente que as referências de Paulo ao Cordeiro Pascal e à festa da páscoa venham no meio de um capítulo extremamente solene, no qual foi preciso que ele repreendesse os coríntios por causa da sua lassidão moral. Um dos membros da igreja de Corinto está envolvido num relacionamento incestuoso. Contudo, eles não dão mostra de pesar humilde ou arrependimento. Ele os instrui a exco­mungar o ofensor, e adverte-os do perigo de que o pecado se espalhe na comunidade se não tomarem medidas decisivas com o fim de erradicá-lo. “Não sabeis que um pouco de fermento leveda a massa toda?” pergunta ele (1 Coríntios 5:6). É essa alusão ao fermento que lhe traz à memória a páscoa e a festa dos pães asmos. Como cristãos eles deviam “celebrar a festa”, mas deviam fazê-lo “não com o velho fermento, nem com o fermento da maldade e da malícia; e sim com os asmos da sinceridade e da verdade” (v. 8). Pois a festa cristã é radicalmente diferente dos festivais pagãos, os quais geralmente eram acompanhados de frenesi e muitas vezes se degeneravam em orgias de bebedices e imoralidades. O distintivo da celebração cristã deve ser a santidade, pois o propósito último de Cristo mediante a cruz é “apresentar-nos perante ele santos, inculpáveis e irrepreensíveis” (Colossenses 1:22).

 

O sacrifício de Cristo e o nosso

Embora a vida cristã seja uma festa contínua, a Ceia do Senhor é, em particular, o equivalente cristão da páscoa. Portanto, ela se encontra no centro da vida de celebração da igreja. Foi instituída por Jesus na época da páscoa, deveras, durante a própria refeição pascal, e ele deliberadamente substituiu a recitação cerimonial que dizia: “Este é o pão da aflição que nossos pais comeram” por: “Este é o meu corpo dado por vós. . . Este é o meu sangue derramado por vós. . .” O pão e o vinho da festa cristã nos obrigam a olhar de volta para a cruz de Cristo, e lembramo-nos com gratidão do que ali ele sofreu e realizou. As igrejas protestantes tradicionalmente têm-se referido ao batismo e à ceia do Senhor como “sacramentos do evangelho” (pois drama­tizam as verdades centrais das boas novas) ou “sacramentos da graça” (pois apresentam de modo visível a graciosa iniciativa salvadora). Ambas as expressões são corretas. O movimento primário que os sacramentos do evangelho envolvem é de Deus para o homem, não do homem para Deus. A aplicação da água no batismo representa a purificação do pecado e o derramamento do Espirito se ministrado por aspersão) ou a partilhação da morte e ressurreição de Cristo (se feito por imersão) ou ambos. Não nos batizamos a nós mesmos. Submetemo-nos ao batismo, e a ação que nos é feita simboliza a obra salvadora de Cristo. Na ceia do Senhor, de igual modo, a essência do drama consiste em tomar, abençoar, quebrar e distribuir o pão, e o tomar, abençoar, servir e distribuir o vinho. Não administramos (ou não devíamos administrar) os elementos a nós mesmos. Eles nos são dados; nós os recebemos. E, assim como comemos o pão e bebemos o vinho fisicamente, da mesma forma espiritualmente pela fé nos alimentamos do Cristo crucificado em nossos corações. Assim, em ambos os sacramentos somos mais ou menos passivos, recipientes e não doadores, beneficiários e não benfeitores.

Ao mesmo tempo, o batismo é tido como uma ocasião apropriada para a confissão da fé, e a ceia do Senhor para o oferecimento de ações de graça. Daí, o uso cada vez mais popular do termo “eucaristia” (eucharistia, “ação de graças”) para a ceia do Senhor. E, uma vez que “sacrifício” é sinônimo de “oferta”, não é de surpreender que se tenha inventado a expressão “sacrifício eucarístico”. Mas será ela legítima? Quais são as suas implicações?

Para começar, todos nós devíamos poder concordar com cinco mo­dos pelos quais o que fazemos na ceia do Senhor está relacionado com o auto-sacrifício de Cristo na cruz.

Primeiro, lembramo-nos do seu sacrifício “fazei isto em memória de mim”, disse ele (1 Coríntios 11:24-25). Deveras, as ações prescritas com o pão e com o vinho tornam a memória vivida e dramática.

Segundo, participamos dos seus benefícios. O propósito do culto ultrapassa a “comemoração” e chega à “comunhão” (koinonia): “Por­ventura o cálice da bênção que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos, não é a comunhão do corpo de Cristo?” (1 Coríntios 10:16). Por esse motivo a eucaristia é corre­tamente chamada de “Santa Comunhão” (visto que através dela po­demos participar de Cristo) e “ceia do Senhor” (visto que através dela podemos alimentar-nos de Cristo).

Terceiro, proclamamos seu sacrifício: “Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha” (1 Coríntios 11:26). Embora a morte de Jesus tenha-se realizado muitos séculos atrás, a proclamação dela continua hoje. Contudo, a Ceia é uma provisão temporária. Olha para a vinda do Senhor como também para a sua morte. Não é apenas uma festa do Cristo crucificado, mas também um antegozo de seu banquete celes­tial. Assim, ela cobre todo o período entre suas duas vindas.

Quarto, atribuímos nossa unidade ao seu sacrifício. Pois jamais par­ticipamos da ceia do Senhor sozinhos, na privatividade de nosso próprio lar. Não, nós nos “reunimos” (1 Coríntios 11:20) a fim de celebrá-la. E reconhecemos que é a nossa porção comum nos bene­fícios do sacrifício de Cristo que nos uniu: “Porque nós, embora mui­tos, somos unicamente um pão, um só corpo; porque todos participamos do único pão” {1 Coríntios 10:17).

Quinto, damos graças por seu sacrifício, e, como prova de nossa ação de graças oferecemo-nos a nós mesmos, nossa alma e corpo como “sacrifício vivo” ao seu serviço (Romanos 12:1).

De modo que sempre que celebramos a ceia do Senhor, lembramos e participamos do seu sacrifício como o fundamento de nossa unidade, proclamamos e reconhecemos esse sacrifício, e respondemos a ele em grata adoração. A pergunta que permanece, entretanto, é se há um relacionamento ainda mais íntimo entre o sacrifício que Cristo ofe­receu na cruz e o sacrifício de ação de graças que oferecemos na eucaristia, entre o seu sacrifício de “morte” e os nossos sacrifícios de “vida”. É esse ponto que tem dividido a cristandade desde o século dezesseis, e é um tópico de ansioso debate ecumênico hoje. Não podemos falar da igreja como uma “comunidade de celebração” sem nos aprofundar mais na natureza da celebração eucarística.

Já no imediato período pós-apostólico os Pais da igreja primitiva começaram a usar a linguagem sacrificial com relação à ceia do Senhor. Viam nela o cumprimento de Malaquias 1:11: “Em todo lugar lhe é queimado incenso e trazidas ofertas puras; porque o meu nome é grande entre as nações, diz o Senhor dos Exércitos”.8 Mas o pão e o vinho não consagrados como “ofertas puras” eram símbolos da cria­ção, pelos quais o povo agradecia. Os autores antigos também viam as orações e os louvores do povo, esmolas aos pobres, como uma oferta a Deus. Foi só depois de Cipriano, bispo de Cartago, nos mea­dos do século terceiro, que a própria ceia do Senhor foi chamada de um verdadeiro sacrifício, no qual sacerdotes, cujo papel sacrificial dizia-se equiparar-se aos dos sacerdotes do Antigo Testamento, ofe­reciam a Deus a paixão do Senhor. Desde esse começo a doutrina da eucaristia do catolicismo medieval desenvolveu-se, a saber, que o sacerdote cristão oferecia Cristo, realmente presente sob as formas de pão e vinho, como sacrifício propiciatório a Deus pelos pecados dos vivos e dos mortos. E foi contra essa idéia que os Reformadores vi­gorosamente protestaram.

Embora o ensino eucarístico de Lutero e de Calvino se divergisse, todos os Reformadores estavam unidos em rejeitar o sacrifício da missa, e se preocupavam em fazer uma distinção clara entre a cruz e o sacramento, entre o sacrifício de Cristo oferecido por nós e nossos sacrifícios oferecidos através dele. Cranmer expressou as diferenças com grande clareza:

Um tipo de sacrifício há, que é chamado de sacrifício pro­piciatório ou misericordioso, isto é, um sacrifício tal que pacifica a ira e a indignação de Deus, e obtém misericórdia e perdão para os nossos pecados. . . E embora no Antigo Testamento houvesse certos sacrifícios com esse nome, contudo há apenas um desses sacrifícios pelos quais nossos pecados são perdoados, e a misericórdia e o favor de Deus obtidos, o qual é a morte do Filho de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo; nem jamais houve outro sacrifício propicia­tório em qualquer tempo, nem jamais haverá. É esta a honra e a glória desse nosso Sumo Sacerdote, no qual ele não admite nem parceiro nem sucessor. . .

Outro tipo de sacrifício há que, embora não nos reconcilie com Deus, é feito por aqueles que são reconciliados por Cristo, a fim de testificar de nossos deveres para com Deus e mostrar-nos agradecidos a ele. Esses, portanto, são chamados sacrifícios de louvor, adoração e ação de graças. O primeiro tipo de sacrifício Cristo ofereceu a Deus por nós; o segundo tipo nós mesmos oferecemos a Deus por Cristo.9

Tendo feito essa vital distinção, Cranmer estava decidido a ser coe­rente em sua aplicação. O ministro ordenado ainda podia ser chamado de “sacerdote”, mas toda referência ao “altar” foi eliminada do Livro da Oração Comum e substituída por “mesa”, “santa mesa”, “mesa do Senhor” ou “mesa da comunhão”. Pois Cranmer viu claramente que o culto de comunhão é uma ceia servida por um ministro de uma mesa, não um sacrifício oferecido por um sacerdote sobre um altar. A forma final do seu culto de comunhão exibe a mesma determinação, pois a oferta de gratidão do povo foi tirada da Oração de Consagração (onde se encontrava em seu primeiro culto de comunhão, substituindo a oferta do próprio Cristo na missa medieval) e judiciosamente co­locada depois do recebimento do pão e do vinho como uma “oração de oblação”. Dessa forma, além de qualquer possibilidade de com­preensão errônea, o sacrifício do povo era visto como sua oferta de louvor em gratidão responsiva pelo sacrifício de Cristo, cujos bene­fícios haviam recebido pela fé.

A Escritura apoia a doutrina de Cranmer, tanto em salvaguardar a singularidade do sacrifício de Cristo como em definir o nosso sacrifício como expressão de ações de graça, não como obtenção do favor de Deus. A finalidade singular do sacrifício de Cristo na cruz é indicada pelo advérbio hapax ou ephapax (que significam “de uma vez por to­das”), aplicado a ela cinco vezes na carta aos Hebreus. Por exemplo, “não tem necessidade, como os sumos sacerdotes, de oferecer todos os dias sacrifícios, primeiro por seus próprios pecados, depois pelos do povo: porque fez isto uma vez por todas, quando a si mesmo se ofereceu”. Novamente, “agora, porém, ao se cumprirem os tempos, se manifestou uma vez por todas, para aniquilar pelo sacrifício de si mesmo o pecado”.10 É por isso que, diferente dos sacerdotes do Antigo Testamento que se punham de pé para realizar os seus deveres, re­petidamente oferecendo os mesmos sacrifícios, Jesus Cristo, tendo feito “para sempre, um único sacrifício pelos pecados”, sentou-se à destra de Deus, descansando da sua obra terminada (Hebreus 10:11-12).

Embora a sua obra de expiação tenha sido realizada, o seu ministério no céu ainda prossegue. Este não é “oferecer” seu sacrifício a Deus, visto que a oferta foi feita de uma vez por todas na cruz; nem “apre­sentá-lo” ao Pai, pleiteando a sua aceitação, visto que esta foi publi­camente demonstrada pela ressurreição; antes, “interceder” pelos pecadores tendo-a por base, como nosso advogado. É nisso que con­siste o seu “sacerdócio permanente”, pois a intercessão tanto quanto o sacrifício, foi um ministério sacerdotal: vivendo para sempre inter­ceder por nós.11

A singularidade do sacrifício de Cristo não significa, pois, que não temos sacrifícios a oferecer, mas somente que a natureza deles e o seu propósito são diferentes. Não são materiais, mas espirituais, e seu objetivo não é propiciatório, mas eucarístico, a expressão de uma gratidão responsiva. E esse o segundo apoio bíblico da posição de Cranmer. O Novo Testamento descreve a igreja como uma comuni­dade sacerdotal, um “sacerdócio santo” e um “sacerdócio real”, do qual todos os filhos de Deus partilham igualmente como sacerdotes.12 E esse o famoso “sacerdócio dos crentes”, ao qual os Reformadores deram grande ênfase. Em conseqüência desse sacerdócio universal, o Novo Testamento jamais aplica a palavra “sacerdote” (hiereus) ao ministro ordenado, visto que ele partilha do oferecimento da oferta do povo, mas não possui oferta distintiva que seja diferente da deles.

Que sacrifícios espirituais, portanto, o povo de Deus como “sacer­dócio santo” oferece a ele? A Escritura menciona oito. Primeiro, de­vemos apresentar-lhe os nossos corpos como sacrifício, como sacrifício vivo. Isso parece uma oferta material, mas é chamado de nosso culto espiritual (Romanos 12:1), presumivelmente porque agrada a Deus somente se expressar a adoração que procede do coração. Segundo, oferecemos a Deus o nosso louvor, adoração e ações de graça, “fruto de lábios que confessam o seu nome”.13 Nosso terceiro sacrifício é a oração, a qual se diz que sobe a Deus como fragrante incenso, e nosso quarto sacrifício um “coração compungido e contrito”, o qual Deus aceita e jamais despreza.14 Quinto, a fé é chamada de “sacrifício e culto”. Também o são, em sexto lugar, as nossas dádivas e boas obras, sacrifícios dos quais Deus se agrada.15 O sétimo sacrifício é nossa vida derramada como uma libação no culto de Deus, até à morte, enquanto o oitavo é a oferta especial do evangelista cuja pregação do evangelho é chamada de “dever sacerdotal” porque ele é capaz de apresentar os seus convertidos como “uma oferta agradável a Deus”.16

Esses oito são, nas palavras de Daniel Waterland, “sacrifícios ver­dadeiros e evangélicos”, porque pertencem ao evangelho e não à lei, e são respostas agradecidas à graça de Deus em Cristo.17 São espiri­tuais e também “intrínsecos”, sendo “pensamentos bons, palavras boas ou modos bons, todos eles procedem do coração”.18 E, continua ele, a eucaristia pôde ser chamada de “sacrifício” somente porque é uma ocasião tanto para se lembrar do sacrifício de Cristo como para fazer uma oferta responsiva e abrangente do nosso.

 

A contra-reforma católica

A Reforma Protestante, incluindo-se suas distinções entre o sacri­fício de Cristo e o nosso, foi condenada pela Igreja Católica Romana no Concilio de Trento (1545-1564). A Sessão XXII (1562) teve como assunto central o sacrifício da missa:

Visto que neste divino sacrifício que é celebrado na missa está contido e imolado de modo não sangrento o mesmo Cristo que uma vez ofereceu-se a si mesmo de modo san­grento no altar da cruz, o santo concilio ensina que este é verdadeiramente propiciatório. . . Pois, apaziguado por este sacrifício, o Senhor concede a graça e o dom da penitência, e perdoa até mesmo o mais grave dos crimes e

pecados. Pois a vítima é a mesma, a mesma agora oferecida pelo ministério dos sacerdotes, a qual então se ofereceu na cruz, sendo diferente apenas o modo da oferta.19

Se alguém disser que na missa o sacrifício real e verdadeiro não é oferecido a Deus. . . seja anátema. (Cânon 1)

Se alguém disser que mediante as palavras Fazei isto em memória de mim Cristo não instituiu os apóstolos como sa­cerdotes, ou não ordenou que eles e outros sacerdotes ofe­reçam o próprio corpo e sangue dele, seja anátema. (Cânon 2)

Se alguém disser que o sacrifício da missa é somente de louvor e ação de graças; ou que é mera comemoração do sacrifício consumado na cruz, mas não propiciatório, seja anátema. (Cânon 3)

Os Cânones do Concilio de Trento permanecem em vigor como parte do ensino oficial da Igreja Católica Romana. A sua substância foi confirmada na primeira metade deste século, por exemplo, em duas encíclicas papais. Pio XI em Ad Catholici Sacerdotii (1935) descre­veu a missa como sendo em si mesma “um sacrifício genuíno. . . que possui eficácia genuína”. Além do mais, “a grandeza inefável do sacerdote humano se apresenta em todo o seu esplendor”, porque ele “tem poder sobre o próprio corpo de Jesus Cristo”. Primeiro ele “o torna presente nos altares” e a seguir “no nome do próprio Cristo ele o oferece como uma vítima infinitamente agradável à Majestade Divina” (pp. 8-9). Em Mediator Dei (1947) Pio XII afirmou que o sa­crifício da eucaristia “representa”, “restabelece”, “renova” e “de­monstra” o sacrifício da cruz. Ao mesmo tempo ele o descreveu como sendo em si mesmo “verdadeira e adequadamente a oferta de um sacrifício” (parágrafo 72), e disse que “em nossos altares ele (Cristo) se oferece diariamente para a nossa redenção” (parágrafo 77). Acres­centou que a missa “de modo nenhum derroga a dignidade do sa­crifício da cruz”, visto que é “um lembrete para nós de que não há salvação a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo” (parágrafo 83). Mas, a despeito dessa reivindicação, chamar a eucaristia no mesmo parágrafo de “imolação diária” de Cristo inevitavelmente de­nigre a finalidade histórica e a suficiência eterna da cruz.

Há três elementos especialmente ofensivos nessas afirmativas do Concilio de Trento e subseqüentes encíclicas papais, os quais devem ser esclarecidos. As implicações são de que o sacrifício da missa, sendo uma imolação diária não sangrenta de Cristo, (1) é distinto do sacrifício “sangrento” na cruz, e suplementar a ele, (2) é feito por sacerdotes humanos e (3) é “verdadeiramente propiciatório”. Em contraste, os Reformadores insistiam, como devemos nós fazer, em que o sacrifício de Cristo (1) foi feito de uma vez por todas na cruz (de modo que não pode ser restabelecido nem suplementado de nenhum modo), (2) foi feito por ele mesmo (de modo que ser humano algum pode fazê-lo nem partilhar da sua execução), e (3) foi uma satisfação perfeita pelo pecado (de modo que toda menção de sacrifícios propiciatórios adicionais lhe é gravemente derrogatória).

Entretanto, em tempos mais recentes, teólogos da tradição católica, juntamente com alguns eruditos de outras tradições, têm proposto uma variedade de posições mais moderadas. Ao mesmo tempo que desejam reter um conceito de sacrifício eucarístico que ligue o nosso sacrifício ao de Cristo, eles têm simultaneamente negado que o sa­crifício singular dele pudesse de qualquer modo ser repetido ou su­plementado, ou que possamos oferecer Cristo, ou que a eucaristia seja propiciatória. Alguns concordam com as três negações.

Embora um pouco fora da seqüência cronológica, parece apropriado começar com o Segundo Concílio Vaticano (1962-1965). Por um lado, os bispos citaram e endossaram as descobertas do Concilio de Trento feitas 400 anos antes, por exemplo de que Cristo “está presente no sacrifício da missa. . . o mesmo agora oferecendo, através do minis­tério dos sacerdotes, aquele que anteriormente se ofereceu na cruz”.20 Aparecem também afirmativas grosseiras, como quando se diz aos sacerdotes que instruam os fiéis a “oferecerem a Deus Pai a vítima divina no sacrifício da missa”.21 Por outro lado, há duas ênfases novas, primeiro que a eucaristia não é uma repetição mas uma perpetuação da cruz, e segundo, que a oferta eucarística é feita não por sacerdotes mas por Cristo e todo o seu povo juntos. Por exemplo, diz-se que Cristo “instituiu o sacrifício eucarístico. . . a fim de perpetuar o sa­crifício da cruz por todos os séculos até que ele volte novamente”.22

Então afirma-se que o papel dos sacerdotes, desta forma “agindo na pessoa de Cristo unem a oferta dos fiéis ao sacrifício do seu Cabeça. Até a vinda do Senhor. . . representam novamente e novamente apli­cam no sacrifício da missa o sacrifício único do Novo Testamento, a saber, o sacrifício de Cristo oferecendo-se a si mesmo uma vez por todas a seu Pai como uma vítima sem defeitos”.23

Percebe-se nessas afirmativas, tanto no que dizem como no que deixam de dizer, a luta para se afastar das grosserias de Trento. Con­tudo, as duas ênfases novas ainda são inaceitáveis, pois a oferta da cruz não pode ser “perpetuada”, nem pode a nossa oferta ser “unida” à de Cristo. A “Afirmativa-Acordo Sobre a Eucaristia”, produzida pelo Comitê Internacional Anglicano-Católico Romano, parece se afas­tar ainda mais de Trento. Os membros do comitê não apenas rejeitam chamar a eucaristia de “propiciatória”, mas também fortemente in­sistem na finalidade absoluta da cruz. “A morte de Cristo na cruz. . . foi o único sacrifício perfeito e suficiente para os pecados do mundo. Não pode haver repetição nem acréscimo ao que então foi realizado de uma vez por todas por Cristo. Toda tentativa de expressar um nexo entre o sacrifício de Cristo e a eucaristia não deve obscurecer esse fato fundamental da fé cristã”.24

 

A cruz e a eucaristia

Que nexo, há, pois, entre a cruz e a eucaristia? Sugestões recentes têm enfatizado duas idéias principais, a saber, o ministério eterno e celestial de Jesus e a união da igreja com ele como o seu corpo.

De acordo com a primeira, o sacrifício de Cristo é “prolongado” (ou “perpetuado”, conforme no Vaticano II), de modo que ele é con­cebido como oferecendo-se a si mesmo continuamente ao Pai. Dom Gregório Dez, por exemplo, desenvolveu esse conceito em A Forma da Liturgia. Ele rejeitou a noção de que a morte de Jesus foi “o mo­mento do seu sacrifício”. Pelo contrário, argumentou ele: “o seu sa­crifício foi algo que começou com a sua humanidade e que tem sua continuação eterna no céu”.

R. J. Coates explicou a importância que essa idéia tem para os que a advogam, a saber, que a igreja, de algum modo, partilha da auto-oferta contínua de Cristo, ao passo que, é claro, “a igreja não pode oferecer a Cristo num altar terreno, se ele não se oferecer a si mesmo num altar celestial”.25

O Novo Testamento, porém, não representa a Cristo como ofere­cendo-se eternamente ao Pai. É certo que Pai, Filho e Espírito Santo dão-se a si mesmos uns aos outros eternamente em amor, mas essa doação é recíproca, e, de qualquer modo, muito diferente do sacrifício específico e histórico de Cristo pelo pecado. É também verdade que a encarnação envolveu sacrifício, visto que ao se tornar carne, o Filho “esvaziou-se” a si mesmo e “se humilhou” (Filipenses 2:7-8), e por todo o seu ministério público Jesus demonstrou que tinha vindo não para ser servido mas para servir.

Todavia, segundo o ensino de Jesus e o dos seus apóstolos, o clímax da sua encarnação e ministério foi sua autodoação na cruz em resgate por muitos (Marcos 10:45). É a esse ato histórico, que envolve a morte de Cristo por nossos pecados, que a Escritura chama de sacrifício para tirar os pecados e que foi terminado de uma vez por todas. Ele não apenas não pode ser repetido, como também não pode ser estendido nem prolongado. “Está terminado”, clamou ele. É por isso que Cristo não tem seu altar no céu, mas somente o seu trono. Nele ele se assenta, reinando, terminada sua obra expiatória, e intercede por nós na base do que foi feito e acabado. Richard Coates tinha razão em instar que mantenhamos “a eminência solitária do sacrifício do Calvário”.26

É esse o tema do negligenciado monógrafo de Alan Stibbs A Obra Acabada de Cristo (1954). Ele cita o argumento de Michael Ramsey de que, visto que Cristo é para sempre sacerdote, e “sacerdócio significa oferta”, portanto em Cristo “há para sempre o espírito de autodoação que o sacrifício do calvário revelou de modo singular em nosso mundo de pecado e morte”. Similarmente, Donald Baillie afirmou que a ação divina de tirar os pecados não se confinou a um momento no tempo, mas que há “uma expiação eterna no próprio ser e vida de Deus”, da qual a cruz foi a parte encarnada. Contra tais conceitos Alan Stibbs mostra que a auto-oferta de Cristo para a nossa salvação “é inega­velmente representada na Escritura como exclusivamente terrena e histórica, o propósito da encarnação, operado na carne e sangue, no tempo e no espaço, sob Pôncio Pilatos”, e que “mediante esse acon­tecimento de uma vez por todas a obra expiadora pretendida foi com­pletamente realizada”. Todavia, não poderia Cristo estar conti­nuamente oferecendo no céu o sacrifício que ele fez de uma ver por todas na terra? Deveras, não seria necessário afirmar isso, visto que ele é chamado em Hebreus de “sacerdote para sempre”? Não. Sa­cerdócio eterno não significa sacrifício eterno. Stibbs prossegue fa­zendo uma útil analogia entre o sacerdócio e a maternidade:

Admitimos que o ato de sofrimento foi necessário para constituir a Cristo sacerdote. . . assim como o ato de dar à luz é necessário para fazer que a mulher seja mãe. Mas essa verdade não significa, no caso da maternidade, que, daí para frente, aos que a procuram como “mãe”, que ela esteja sempre dando à luz. Seu ato de dar à luz filhos é para eles não apenas uma obra indispensável, mas também terminada. O que agora desfrutam são os ministérios complementares da maternidade, que estão além do ato de dar à luz. Similarmente com o sacerdócio de Cristo, sua oferta propiciatória não somente é uma obra indispensável mas é também uma obra terminada. . . (Agora, entretanto) como acontece na maternidade, além de tais descargas da função fundamental do sacerdócio jazem outros ministérios complementares do trono da graça, os quais o sacerdote cumpre para o benefício de seu povo já reconciliado (em particular, sua intercessão celestial).

A segunda ênfase do que tenho denominado posições mais “mo­deradas” relaciona-se com o ensino totalmente bíblico de que a igreja é o corpo de Cristo, vivendo em união com a sua cabeça. Mas essa doutrina bíblica chegou a ser desenvolvida de um modo não bíblico, a saber, que o corpo de Cristo se oferece a Cristo na sua cabeça e através dela. Essa noção tem tido aceitação geral. Gabriel Hebert deu, em 1951, uma popular exposição dela, a qual influenciou os bispos anglicanos que se reuniram em 1958 na Conferência de Lambeth:

O sacrifício eucarístico, essa controvérsia no centro da tem­pestade, em nossos dias está encontrando uma expressão verdadeiramente evangélica do lado “católico”, quando se insiste que ação sacrificial não é um tipo de re-imolação de Cristo, nem um sacrifício adicional ao seu sacrifício único, mas uma participação dele. O verdadeiro celebrador é Cristo, o Sumo Sacerdote, e o povo cristão está reunido como membros do seu corpo a fim de apresentar diante de Deus o seu sacrifício, e serem eles mesmos oferecidos em sacrifício através da união com ele.27

Ao endossar essa noção, os bispos de Lambeth acrescentaram sua própria afirmativa, de que “nós mesmos, reunidos no corpo místico de Cristo, somos o sacrifício que oferecemos. Cristo conosco nos ofe­rece em si mesmo a Deus”.28 Wiliam Temple antes havia escrito algo quase idêntico: “Cristo em nós nos apresenta com ele ao Pai; nós nele nos entregamos para sermos apresentados dessa maneira”.29

O importante acerca dessas últimas afirmativas é não admitirem que o sacrifício de Cristo é repetido ou que nós o ofereçamos. Pelo contrário, é Cristo, a cabeça, que oferece o seu corpo consigo mesmo ao Pai. A “Afirmativa-Acordo Sobre a Eucaristia” do Comitê Anglicano-Católico Romano diz algo parecido, a saber, que na eucaristia “entramos no movimento da autodoação de Cristo”, ou somos apa­nhados nele pelo próprio Cristo. O professor Rowan Williams, teólogo anglo-católico contemporâneo largamente respeitado, expressou sua perspectiva de que isso, a saber, “o sermos oferecidos em Cristo e através dele”, é “o fato básico da eucaristia”.30

Outras reconstruções sugeridas tentam misturar não o nosso sa­crifício, mas a nossa obediência ou a nossa intercessão com as de Cristo. O professor C. F. D. Moule, por exemplo, ao ressaltar a koinonia pela qual estamos “em Cristo”, unidos com ele, escreveu que “as duas obediências — a de Cristo e a nossa, a de Cristo na nossa e a nossa na de Cristo—são oferecidas juntas a Deus” .31 Batismo, eucaristia e ministério, por outro lado, o assim chamado “Texto de Lima” (1982), que é fruto de cinqüenta anos de discussão ecumênica e reivindica “significante convergência teológica”, focaliza a intercessão em vez da obediência. Embora declare que os eventos de Cristo (exemplo: nascimento, morte e ressurreição) “são singulares e não podem ser repetidos nem prolongados”, contudo, afirma que “na ação de graças e na intercessão a igreja é unida com o Filho, seu grande sumo sa­cerdote intercessor”,32 e que “Cristo une os fiéis consigo mesmo e inclui as orações deles dentro da sua própria intercessão, para que os fiéis sejam transfigurados e as suas orações aceitas”.

Pode-se perguntar a que objetamos em tais afirmativas? Elas deliberadamente evitam os três “elementos nocivos” dos documentos católicos romanos tradicionais que mencionei antes. Uma vez que se estabeleça firmemente que o auto-sacrifício de Cristo não é repetível, que a eucaristia não é propiciatória, e que nossas ofertas não são meritórias, devemos ainda conservar separados o Calvário e a euca­ristia? Afinal, o Novo Testamento nos chama de sacerdotes e nos convoca a oferecer a Deus nossos oito “sacrifícios espirituais”. Ele também coloca o amor autodoador de Cristo e a obediência perante nós como modelo ao qual devemos aspirar. Assim, o que podia ser melhor ou mais saudável do que permitir que a nossa auto-oferta seja incluída na dele? Será que a perfeição dele não compensaria a nossa imperfeição? Mais do que isso, como disse o Concilio Vaticano II, não seria “o sacrifício espiritual dos fiéis” então “tornado perfeito em união com o de Cristo?”33 Não é isso apropriado e razoável? Não seria pertinácia pervertida objetar?

Entretanto, penso haver objeções reais e graves. A primeira é que, de fato, os autores do Novo Testamento jamais expressaram o conceito de que a nossa oferta fosse unida à de Cristo. O que realmente fazem é exortar-nos a dar-nos a nós mesmos (como sacrifício) em obediência amorosa a Deus de três modos. Primeiro, “como” Cristo: “andai em amor como também Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus em aroma suave” (Efésios 5:2). A auto-oferta de Cristoídeve ser o modelo da nossa.

Segundo, os sacrifícios espirituais que oferecemos a Deus devem ser oferecidos “através” de Cristo (1 Pedro 2:5), nosso Salvador e Mediador. Visto que todos estão manchados com a centralização do ego, é somente através dele que se tornam aceitáveis.

Terceiro, devemos dar a nós mesmos em sacrifício “por” ou “para” Cristo, constrangidos por seu amor a viver somente para ele a nova vida extraída da morte que ele nos deu (2 Coríntios 5:14-15). Assim, devemos oferecer-nos a nós mesmos “como” Cristo, “através” dele e “para” ele. São essas as preposições que o Novo Testamento usa; ele jamais sugere que nossas ofertas possam ser feitas “em” Cristo ou “com” ele. E se fosse importante ver nossa auto-oferta identificada com a de Cristo, é estranho que o Novo Testamento jamais o men­cione. É certo que “em Cristo” somos justificados, perdoados, ado­tados e feitos nova criatura, mas jamais se diz que adoramos a Deus “em” Cristo, em união com ele, unindo os nossos louvores aos dele.

Mesmo quando nos unirmos ao exército celestial em adoração, e nossa auto-oferta for, finalmente, isenta de toda imperfeição — ainda assim não se diz que o nosso louvor estará unido ao de Cristo. Não, ele permanecerá o objeto de nossa adoração; ele não se transformará em nosso companheiro de culto, nem o seremos dele (veja Apocalipse 4—7).

Minha segunda objeção é, certamente, o motivo pelo qual o Novo Testamento evita descrever nossa adoração como sendo oferecida “em Cristo” e “com” ele. É que as auto-ofertas do Redentor e dos redi­midos são qualitativamente diferentes umas das outras e que seria anomalia gritante tentar misturá-las. Necessitamos voltar à distinção que Cranmer faz entre os dois tipos de sacrifício, “propiciatório” (que expia o pecado) e — embora ele não tenha usado a palavra — “eucarístico” (que expressa louvor e homenagem). É vital lembrarmos que o sacrifício de Cristo foi ambas as coisas, ao passo que os nossos são apenas “eucarísticos”. A morte de Jesus foi não somente um exemplo perfeito do amor autodoador, como ressaltou Abelardo, na qual ele se deu ao Pai em obediência à sua vontade, mas também se deu a si mesmo como resgate por nós, morrendo a nossa morte em nosso lugar. Portanto, ele morreu tanto como nosso substituto, li­vrando-nos assim do que de outra forma teríamos de experimentar, quanto como nosso representante ou exemplo, mostrando-nos assim o que nós mesmos também devíamos fazer. Se a cruz fosse apenas a última coisa, poderia ter sido possível associar a nossa auto-oferta mais intimamente com a dele, apesar da diferença, da mesma forma que ele chamou a Deus de “Pai” e nos permitiu que fizéssemos o mesmo. A cruz, porém, foi primeiro e acima de tudo um sacrifício propiciatório, e nesse sentido absolutamente singular. Precisamos de maior clareza para desembaraçar os dois significados da cruz, de modo que possamos ver a singularidade do que Daniel Waterland com fre­qüência chamou de “o grande sacrifício da cruz”34 e “o tremendo e alto sacrifício do Cristo Deus-Homem”. Então concluiremos que não apenas é anômalo, mas também realmente impossível, associar os nossos sacrifícios com o dele, ou até mesmo pensar em pedir que ele una os nossos ao seu. O único relacionamento correto entre os dois será que o nosso expresse nossa gratidão humilde e reverente pelo dele.

Examinaremos agora uma importante crítica a essa ênfase evan­gélica. Quando pensamos em nossa conversão, diz-se, os nossos sa­crifícios na realidade têm a aparência de respostas penitentes e indignas à cruz. Mas a situação não muda quando vamos a Cristo e recebemos as boas-vindas ao lar? Não temos então algo a oferecer, o qual pode ser apanhado na oferta de Cristo? Essa é uma mensagem que o professor Rowan Williams tem. apresentado. Ele deseja recu­perar a “idéia de que o efeito do sacrifício de Cristo é precisamente tornar-nos seres ‘litúrgicos’, capazes de oferecer a nós mesmos, nossos louvores e nossas dádivas simbólicas a um Deus que sabemos nos receberá em Cristo”.35 Novamente, “o efeito da oferta de Cristo é tornar-nos capazes de oferecer, de fazer-nos dignos de ficarmos de pé e servirmos como sacerdotes”. É então necessário que a liturgia seja de tal modo construída que nos lance no papel de incrédulos não convertidos, e recapitule a nossa salvação? Será que ela não podia antes ver-nos como já estando em Cristo, já filhos de Deus, e então unir a nossa ação de graças ao nosso Pai com a auto-oferta de Cristo na cruz?

Essas questões possuem o seu apelo. Apresentam uma mensagem substantiva. Entretanto, penso que devem ser respondidas negati­vamente. Pois as nossas ofertas ainda estão manchadas com o pecado e devem ser apresentadas “através de” Cristo, em vez de nele e com ele. Além do mais, o seu sacrifício não apenas possui uma qualidade muito mais elevada do que o nosso; ele difere também do nosso em caráter. Não é correto, portanto, misturar os dois. Nem tampouco é seguro. O orgulho de nossos corações está tão profundamente arrai­gado e é tão sutilmente insidioso que seria fácil nutrirmos a idéia de que temos algo que oferecer a Deus. Não que Rowan Williams pense dessa forma. Ele diz claramente que nada temos a oferecer antes que o tenhamos recebido. Sendo assim, e levando em consideração nossa faminta vaidade humana, não devia essa verdade ser declarada ex­plicitamente na Ceia do Senhor? Concordo com Roger Beckwith e corri Colin Buchanan, ambos citados por Rowan Williams, quando dizem que “todo progresso na vida cristã depende de uma recapitulação dos termos originais da nossa aceitação com Deus”. A liturgia deve lembrar-nos destes, e não permitir que nos esqueçamos daque­les.

Michael Green, em preparação para o Congresso Anglicano Evan­gélico Nacional em Keele, escreveu:

Jamais deixamos para trás o fato de que ainda somos pe­cadores, totalmente dependentes a cada dia da graça de Deus aos que não a merecem. Não vimos para oferecer; em primeiro lugar vimos para receber. A própria natureza da ceia declara isso. Somos famintos, e vimos para nos alimentar. Somos os que não merecem, recebidos livre­mente à Mesa do Senhor.36

O que se pode dizer como conclusão dessa discussão do “sacrifício eucarístico”, acerca do relacionamento entre o sacrifício de Cristo e o nosso? Penso que devemos insistir em que suas diferenças são por demais amplas para que eles sejam associados. Cristo morreu por nós enquanto ainda éramos pecadores e inimigos. O seu amor autodoador evoca e inspira o nosso. De modo que o nosso sempre é secundário e em resposta ao dele. Tentar uni-los é confundir o primário com o secundário, a fonte com o regato, a iniciativa com a resposta, a graça com a fé. Um zelo adequado pela singularidade do sacrifício de Cristo pelo pecado fará que evitemos qualquer formulação que possa di­minuí-lo.

Volto ao ponto em que iniciei o capítulo. A comunidade cristã é uma comunidade da cruz, pois foi trazida à existência pela cruz, e o foco da sua adoração é o Cordeiro que foi morto, e que agora é glorificado. De modo que a comunidade da cruz é uma comunidade de celebração, uma comunidade eucarística, incessantemente ofere­cendo a Deus através de Cristo o sacrifício de louvor e ações de graça. A vida cristã é um intérmino festival. E o festival que Conservamos, agora que o nosso Cordeiro Pascal foi sacrificado por nós, é uma celebração alegre do seu sacrifício, junto com um banquete espiritual dele. Nessa festa de celebração somos todos participantes. Mas do que participamos? Não da oferta do sacrifício de Cristo, nem mesmo do movimento dela, mas apenas dos benefícios que ela alcançou. Por causa desse custoso sacrifício, e por causa das preciosas bênçãos que ele adquiriu para nós, jamais cessaremos, até mesmo na eternidade, de honrar e adorar ao Cordeiro.

11
Autocompreensão e Autodoação

 

A cruz revoluciona a nossa atitude para com nós mes­mos e também para com Deus. De modo que a co­munidade da cruz, além de ser uma comunidade de celebração, é também uma comunidade de autocom­preensão. Embora isso possa parecer uma reversão ao individualismo, não deve ser assim, visto que a autocompreensão tem o propósito de autodoação. Como pode alguém dar o que não sabe que possui? Daí ser essencial a busca da identidade própria.

Quem somos, pois? Como devemos pensar de nós mesmos? Que atitude devemos adotar para com nós mesmos? Essas são questões que não podem receber respostas satisfatórias sem referência à cruz. Uma auto-estima baixa é comparativamente comum hoje. Muitos possuem sentimentos de inferioridade aleijantes. Às vezes a origem desses sentimentos encontra-se numa infância destituída, às vezes numa tragédia mais recente de ser indesejado ou desamado. As pres­sões de uma sociedade competitiva pioram as coisas. E outras influên­cias modernas tornam-nas ainda piores. Onde quer que as pessoas sejam política ou economicamente oprimidas, sentem-se diminuídas. O preconceito racial e sexual, e o trauma de ser declarado “redun­dante”, podem determinar a autoconfiança de qualquer pessoa. A tecnologia rebaixa as pessoas, como disse certa vez Arnold Toynbee, a “números de série marcados num cartão, com o objetivo de viajar pelas vísceras de um computador”. Nesse ínterim, etólogos, como Desmond Morris, dizem-nos que não passamos de animais, e behavioristas, como B. F. Skinner, que não passamos de máquinas, pro­gramadas para produzir respostas automáticas a estímulos externos. Não é de admirar que muitos hoje sentem-se como se fossem nulidades sem valor.

Em reação exagerada a esse conjunto de influências, e caminhando na direção oposta encontra-se o movimento popular do “potencial humano”. “Sejam vocês mesmos, expressem-se, cumpram-se a si mesmos!”, grita o movimento, e enfatiza “o poder do pensamento positivo”, juntamente com a necessidade do “pensamento da pos­sibilidade” e “atitudes mentais positivas”. Com o louvável desejo de construir a auto-estima, o movimento dá a impressão de que nosso potencial de desenvolvimento é praticamente ilimitado. Surgiu toda uma literatura em torno desse conceito, a qual foi descrita e docu­mentada pelo Dr. Paul Vitz em seu livro A Psicologia Como Religião: A Seita da Auto-adoração. Escreve ele: “A psicologia transformou-se em religião, em particular uma forma de humanismo secular baseado na adoração do eu”. Ele começa analisando “os quatro teoristas do eu mais importantes”, a saber, Erich Fromm, Carl Rogers, Abraham Maslow e Rollo May, todos os quais, com diferentes voltas e torneios, ensinam a bondade intrínseca da natureza humana, e a conseqüente necessidade de auto-respeito incondicional, autoconscientização e auto-atualização.

Essas teorias do eu têm sido popularizadas por meio da “análise transacional” (“Eu Estou Ok; Você Está Ok”) e dos Seminários de Treinamento de Erhard, aos quais o Dr. Vitz corretamente chama de “autodeificação espantosamente literal”. Ele também cita um anúncio na revista Psychology Today como exemplo do “jargão autista”: “Eu amo a mim. Eu não sou convencido. Eu sou apenas um bom amigo de mim mesmo. E eu gosto de fazer tudo aquilo que me faz sentir bem.

Infelizmente, muitos cristãos parecem ter-se permitido serem su­gados para esse movimento, sob a falsa impressão de que o man­damento de Moisés, endossado por Jesus, de que amemos a nosso próximo como a nós mesmos é um mandamento tanto para que ame­mos a nós mesmos como ao nosso próximo. Mas na realidade não o é. Podemos deduzir três argumentos.

Primeiro, e gramaticalmente, Jesus não disse: “o primeiro man­damento é amar o Senhor teu Deus, o segundo é amar o teu próximo, e o terceiro é amar a ti mesmo”. Ele falou apenas do primeiro grande mandamento e do segundo que era semelhante a esse. O acréscimo de “como a ti mesmo” provê um guia tosco, fácil e prático do amor ao próximo, porque “ninguém jamais odiou a sua própria carne” (Efésios 5:29). Nesse aspecto é como a Regra de Ouro: “Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles” {Mateus 7:12). A maioria de nós ama a si mesmos. De modo que sabemos como gostaríamos de ser tratados, e isso nos dirá como tratar os outros. O amor próprio é um fato que deve ser reconhecido e uma regra que deve ser usada, não uma virtude a ser elogiada.

Segundo, e lingüisticamente, o verbo é agapao, e o amor agape sig­nifica auto-sacrifício no serviço de outros. Portanto, não pode ser autodirigido. O conceito de sacrificar-nos a nós mesmos a fim de servir a nós mesmos é tolice.

Terceiro, e teologicamente, o auto-amor é a compreensão bíblica do pecado. Pecador é o ser curvado em direção de si mesmo (no dizer de Lutero). Um dos sinais dos últimos dias é que os homens serão antes amigos “dos prazeres que amigos de Deus” (2 Timóteo 3:1-5). O seu amor será desviado de Deus e do próximo para si mesmos.

Como, pois, devemos ver a nós mesmos? Como podemos renunciar aos dois extremos do auto-ódio e do auto-amor, e não desprezar nem deleitar-nos em nós mesmos? Como podemos evitar uma auto-avaliação baixa demais ou alta demais, e em vez disso obedecer à ad-moestação de Paulo: “digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo, além do que convém, antes, pense com moderação” (Ro­manos 12:3)? A cruz de Cristo supre a resposta, pois ela nos convoca tanto para a autonegação como para a auto-afirmação. Mas, antes que estejamos na posição de examinar essas exortações complementares, ela nos diz que já somos novas criaturas porque morremos e ressur­gimos com Cristo.

É nesse aspecto que a morte de Jesus deve ser corretamente cha­mada de “representativa” como também “substitutiva”. O “substi­tuto” é aquele que age no lugar de outro de tal modo que torne desnecessária a ação desse outro. O “representante” é aquele que age em favor de outro, de tal modo que envolva esse outro em sua ação.

Assim, a pessoa que, em tempos passados servia ao exército (por dinheiro) em vez da que fora convocada era um “substituto”. Também o é o jogador de futebol que joga no lugar de outro que sofreu um ferimento. O recruta convocado e o jogador ferido agora estão ina­tivos; foram substituídos.

O agente, porém, que serve como “representante” de sua firma, recebe a autoridade para agir em nome da firma. Ele não fala em lugar da firma, mas por ela. A firma se responsabiliza pelo que ele diz e faz.

Da mesma forma, como nosso substituto, Cristo fez por nós o que não podíamos fazer por nós mesmos: levou o nosso pecado e o nosso juízo. Mas, como nosso representante ele fez o que nós, estando unidos a ele, também fizemos: nós morremos e ressurgimos com ele.

A mais extensa exposição de Paulo desse extraordinário mas ma­ravilhoso tema aparece no começo do capítulo 6 de Romanos.1 Veio como resultado da sugestão maligna de que, tendo em vista que quando o pecado aumentou, a graça aumentou ainda mais, poderiamos muito bem continuar pecando para que a graça aumentasse ainda mais (5:20—6:1). Paulo, indignadamente repudia a idéia pela simples razão de que morremos para o pecado e, portanto, já não podemos viver nele (6:2). Quando foi que ocorreu essa morte? Em nosso ba­tismo: “Ignorais que todos os que fomos batizados em Cristo Jesus, fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida” (6:3-4). De modo que o batismo dramatiza visivelmente a nossa participação na morte e ressurreição de Jesus. É por isso que se pode dizer que morremos para o pecado, para que não mais an­dássemos nele.

A peça que falta no quebra-cabeça é que a morte de Cristo (da qual partilhamos pela fé interiormente e pelo batismo externamente) foi uma morte para o pecado: “Pois, quanto a ter morrido, de uma vez para sempre morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus” (v. 10). Há apenas um sentido no qual pode-se dizer que Jesus “morreu para o pecado”, e esse é que ele levou a sua penalidade, visto que o “salário do pecado é a morte” (v. 23). Tendo pago o salário do pecado (ou levado a sua penalidade) ao morrer, ele ressurgiu para uma nova vida. Assim também nós, em união com ele. Nós também morremos para o pecado, não no sentido de que pagamos pessoal­mente a sua penalidade (Cristo fez isso em nosso lugar, em vez de nós), mas no sentido de que partilhamos do benefício da sua morte. Visto que a penalidade do pecado já foi levada, e a sua dívida, paga, estamos livres do horrível fardo da culpa e condenação. E ressurgimos com Cristo para uma nova vida, tendo deixado para trás de nós so­lucionada a questão do pecado.

Como, pois, poderíamos continuar vivendo no pecado para o qual morremos? Não é impossível, pois ainda temos de tomar precauções a fim de não permitir que o pecado reine em nós (vv. 12-14). Mas é inconcebível, por ser incompatível com o fato de nossa morte e res­surreição com Jesus. Foram a morte e a ressurreição que nos sepa­raram de nossa velha vida; como jamais poderíamos pensar em voltar a ela? É por isso que temos de considerar-nos “mortos para o pecado, mas vivos para Deus” (v. 11). Morrer para o pecado não significa fingir que morremos para o pecado e ressurgimos para Deus, quando sabemos muito bem que não o fizemos. Pelo contrário, sabemos que, em união com Cristo, partilhamos a sua morte e ressurreição, e assim nós mesmos morremos para o pecado e ressurgimos para Deus; de­vemos, portanto, lembrar-nos constantemente desse fato e levar uma vida coerente com ele. William Tyndale expressou-o com termos caracteristicamente vividos no final do seu prólogo ao livro sobre Ro­manos:

Agora, leitor, vá, e de acordo com a ordem do escrito de Paulo, faça o mesmo. . . Lembre-se de que Cristo fez essa expiação para que você não irasse a Deus novamente; nem ele morreu para os seus pecados para que você ainda vi­vesse neles; nem o purificou para que você retornasse, como o porco, ao seu antigo lamaçal; mas para que você pudesse ser uma nova criatura, e vivesse uma nova vida segundo a vontade de Deus, e não da carne.2

Barth compreendeu a natureza radical desse ensino e aludiu a ele em sua seção sobre a justificação. “A sentença que foi executada como o julgamento divino na morte de Jesus é que. . . Eu sou o homem de pecado, e que este homem de pecado e, portanto, eu mesmo, estou pregado na cruz e crucificado (no poder do sacrifício e obediência de Jesus Cristo em meu lugar), que eu, portanto, estou destruído e subs­tituído. . .” Este é o lado negativo da justificação. Mas “no mesmo julgamento em que Deus nos acusa e nos condena como pecadores, e nos entrega ã morte, ele nos perdoa e nos coloca numa nova vida na presença dele e com ele”. Essas duas coisas vão juntas, “nossa morte real e nossa vida real além da morte”, a destruição pela morte e a substituição pela ressurreição, o “Não” e o “Sim” de Deus à mesma pessoa.3

Se aceitarmos esse fato fundamental acerca de todos os que estão em Cristo, a saber, que morremos e ressurgimos com ele, de modo que nossa vida antiga de pecado, culpa e vergonha foi terminada e teve início uma vida inteiramente nova de santidade, perdão e liber­dade, qual deve ser nossa atitude para com nosso novo eu? Visto que o nosso novo eu, embora redimido, ainda está caído, será necessária uma atitude dupla, a saber, de autonegação e de auto-afirmação, ambas iluminadas pela cruz.

A autonegação

Primeiro, o chamado à autonegação. O convite de Jesus é claro: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Marcos 8:34). Jesus acaba de predizer os seus sofrimentos e morte pela primeira vez. “Era necessário” que lhe acontecesse, diz ele (v. 31). Mas agora ele expressa implicitamente um “deve” aos seus seguidores também. Ele deve ir à cruz; eles devem tomar a sua cruz e segui-lo. Deveras, devem fazê-lo “diariamente”. E, como a contra-parte negativa, se alguém não toma a sua cruz e não o segue, não é digno dele e não pode ser seu discípulo.4 Dessa maneira, pode-se dizer, todo cristão é tanto um Simão de Cirene quanto um Barrabás. Como Barrabás, escapamos da cruz, pois Cristo morreu em nosso lugar. Como Simão de Cirene, carregamos a cruz, pois ele nos chama a tomá-la e segui-lo (Marcos 15:21).

Os romanos haviam feito da cruz uma vista comum em todas as suas províncias colonizadas, e a Palestina não era exceção. Todo re­belde condenado à crucificação era forçado a levar a sua cruz, ou pelo menos o patibulum (o braço da cruz), para o local da execução. Plutarco escreveu que ”todo criminoso condenado à morte carrega nas costas a sua própria cruz”5. De modo que João escreveu acerca de Jesus “carregando a sua cruz, saiu para o lugar chamado Calvário” (João 19:17). Tomar a cruz, portanto, e seguir a Jesus, é “colocar-se na posição de um condenado a caminho da execução”.6 Pois se estamos seguindo a Jesus com uma cruz nos ombros, há somente um lugar para o qual nos dirigirmos: o local da crucificação. Como disse Bonhoeffer: “Quando Cristo chama uma pessoa, ele a chama para vir e morrer”.7 Nossa “cruz”, portanto, não é um marido irritadiço ou uma mulher rancorosa. É, antes, o símbolo da morte do eu.

Embora Jesus possa ter tido a possibilidade de martírio em mente, a natureza universal de seu chamado (“se alguém. . .”) sugere uma aplicação mais ampla. Certamente é a autonegação que, mediante essa imagem vivida, Jesus está descrevendo. Negar a nós mesmos é comportar-nos para com nós mesmos como Pedro o fez para com Jesus quando o negou três vezes. O verbo é o mesmo (aparneomai). Ele o deserdou, repudiou, voltou-lhe as costas, A autonegação não é negar a nós mesmos certos luxos como bombons, bolos, cigarro e coquetéis (embora possa incluir essas coisas); é, em verdade, negar ou deserdar os nossos próprios seres, renunciando a nosso suposto direito de seguir o nosso próprio caminho. “Negar-se a si mesmo é. . . voltar-se da idolatria da centralidade do eu”.8

Paulo deve estar-se referindo à mesma coisa quando escreveu que os que pertencem a Cristo “crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências” (Gálatas 5:24). Quadro algum poderia ser mais gráfico do que esse: pegar um martelo e pregos a fim de pregar nossa natureza caída, e escorregadia na cruz, matando-a assim. A palavra tradicional para esse ato é “mortificação”; é a determinação contínua mediante o poder do Espírito Santo de mortificar “os feitos da carne”, para que através dessa morte possamos viver em comunhão com Deus.9

De fato, Paulo escreve em suas cartas acerca de três diferentes tipos de morte e ressurreição, as quais são parte integrante de nossa ex­periência cristã. Levanta-se muita confusão quando falhamos em di­ferençá-las. A primeira (que já examinamos) é a morte para o pecado e a subseqüente vida para Deus, a qual acontece a todos os cristãos mediante a virtude de nossa união com Cristo em sua morte e res­surreição. Através dela partilhamos dos benefícios tanto da morte de Cristo (seu perdão) quanto da sua ressurreição (seu poder). Esse tipo de morte é inerente à nossa conversão/batismo.

A segunda é a morte para o eu, a qual recebe vários nomes, como tomar a cruz, ou negar, crucificar ou mortificar a nós mesmos. Como resultado, vivemos uma vida de comunhão com Deus. Essa morte não é algo que aconteceu a nós, e que agora se nos ordena que “consideremos” ou que recapitulemos dele, mas algo que nós mesmos deliberadamente devemos fazer, embora mediante o poder do Espí­rito, mortifiçando nossa antiga natureza. Deveras, todos os cristãos o fizeram, no sentido de que é um aspecto essencial de nosso arre­pendimento original e contínuo, e não podemos ser discípulos de Cristo sem ela. Mas temos de manter essa atitude, isto é, tomar a nossa cruz diariamente.

O terceiro tipo de morte e ressurreição é o que mencionei no capítulo 9. E o carregar em nosso corpo o morrer de Jesus, para que a vida dele seja revelada em nosso corpo (2 Coríntios 4:9-10). Claramente, a arena dessa morte são os nossos corpos. Refere-se à enfermidade, à perseguição e à mortalidade deles. É nesse aspecto que Paulo podia dizer tanto “morro diariamente” (1 Coríntios 15:30-31) quanto “en­frentamos a morte todo o dia” (Romanos 8:36). Pois é uma fragilidade física contínua. Mas então a “ressurreição”, a vitalidade interior ou a renovação da vida de Jesus dentro de nós, também é contínua (2 Coríntios 4:16).

Para resumir, a primeira morte é legal; é uma morte ao pecado mediante a união com Cristo em sua morte ao pecado (levando a sua penalidade), e a ressurreição resultante com ele leva à nova vida de liberdade a qual os pecadores justificados desfrutam. A segunda morte é moral; é uma morte para o ego à medida que mortificamos a antiga natureza e os seus ímpios desejos, e a ressurreição que se segue leva a uma nova vida de justiça em comunhão com Deus. A terceira morte é física; é uma morte para a segurança, um “ser entregue à morte por amor de Jesus”, e a ressurreição correspondente é o poder de Cristo o qual ele aperfeiçoa em nossa fraqueza. A morte legal foi uma “morte para o pecado de uma vez por todas”, mas as mortes moral e física são experiências diárias — até mesmo contínuas — para o discípulo cristão.

Fico a imaginar a reação dos leitores até aqui, especialmente quanto à ênfase que dou ao morrer para o ego, ou, antes, mortificá-lo, crucificando-o! Espero que você se tenha sentido incomodado. Expressei uma atitude para com o ego tão negativa que pode parecer que me pus ao lado dos burocratas e tecnocratas, dos etólogos e dos behavioristas, em diminuir o valor dos seres humanos. Não é que o que escrevi seja errado (pois foi Jesus quem ordenou que tomássemos a nossa cruz e o seguíssemos até à morte), mas esse é apenas um lado da verdade. Implica que nosso ser é totalmente mau, e que, por causa dessa maldade, deve ser completamente repudiado, de fato, “cruci­ficado”.

 

Afirmação própria

Mas não devemos deixar de lado outra posição bíblica. Ao lado do chamado explícito de Jesus à autonegação encontra-se o seu chamado implícito à auto-afirmação (o que não é, de modo nenhum, a mesma coisa que amor próprio). Ninguém que lê os Evangelhos como um todo pode ter a impressão de que Jesus possui uma atitude negativa para com os seres humanos, nem que a tivesse estimulado nos outros. Acontece justamente o oposto.

Considere, primeiro, o ensino de Jesus acerca das pessoas. É verdade que ele chamou a atenção para o mal e para as coisas feias que pro­cedem do coração humano (Marcos 7:21-23). Entretanto, ele também falou do “valor” dos seres humanos aos olhos de Deus. São muito mais valiosos do que pássaros ou animais, disse ele.10 Qual era o fundamento desse juízo de valores? Deve ter sido a doutrina da cria­ção, a qual Jesus tirou do Antigo Testamento, a saber, que os seres humanos são a coroa da atividade criadora de Deus, e que ele criou o homem à sua própria imagem. É a imagem divina em nós que nos dá o nosso valor distintivo. Em seu excelente livro Um Cristão Olha Para Si Mesmo o Dr. Anthony Hoekema cita um jovem negro norte-americano que, rebelando-se contra os sentimentos de inferioridade nele inculcados pelos brancos, pregou uma faixa na parede do seu quarto, a qual dizia: “Eu sou eu e sou bom, porque Deus não produz lixo”.

Segundo, temos de considerar a atitude de Jesus para com as pes­soas. Ele não desprezou a ninguém e a ninguém rejeitou. Pelo con­trário, fez tudo o que podia para honrar àqueles a quem o mundo desonrava, e aceitar àqueles a quem o mundo abandonava. Ele foi cortês com as mulheres em público. Convidou os pequenos que fos­sem a ele. Ele proferiu palavras de esperança aos samaritanos e aos gentios. Ele permitiu que leprosos se aproximassem e que uma meretriz o ungisse e lhe beijasse os pés. Ele fez amizade com os rejeitados da sociedade, e ministrou aos pobres e aos famintos. Em todo esse diversificado ministério brilha o respeito compassivo que ele tinha para com os seres humanos. Ele reconheceu o valor dos homens e os amou, e, amando-os, aumentou-lhes ainda mais o valor.

Terceiro, e em particular, devemos lembrar-nos da missão e morte de Jesus pelos seres humanos. Ele tinha vindo para servir, não para ser servido, dissera ele, e para dar a sua vida em resgate por muitos. Nada indica mais claramente o grande valor que Jesus atribuía às pessoas do que a sua determinação de sofrer e morrer por elas. Ele era o Bom Pastor que foi ao deserto, enfrentando a dureza e arris­cando-se ao perigo, a fim de procurar e salvar uma única ovelha perdida. De fato, ele deu a sua vida pelas ovelhas. Somente quando olhamos para a cruz é que vemos o verdadeiro valor dos seres hu­manos. Como se expressou William Temple: “O meu valor é o que valho para Deus; e esse é grande e maravilhoso, pois Cristo morreu por mim”.11

Até aqui temos visto que a cruz de Cristo é tanto uma prova do valor do ser humano quanto um quadro de como negá-lo ou crucificá-lo. Como podemos resolver esse paradoxo bíblico? Como é possível valorizar a nós mesmos e negar a nós mesmos ao mesmo tempo?

Essa questão surge porque discutimos e desenvolvemos atitudes alternativas para com nós mesmos antes de termos definido o “ego” sobre o qual estamos falando. Nosso “ego” não é uma entidade sim­ples totalmente boa nem totalmente má, e, portanto, para ser total­mente avaliada ou totalmente negada. Pelo contrário, nosso “ego” é uma entidade complexa constituída de bem e mal, glória e vergonha, que por causa disso requer que desenvolvamos atitudes mais sutis para com nós mesmos.

O que somos (nosso ego ou identidade pessoal) é, em parte, re­sultado da criação (a imagem de Deus) e, em parte, resultado da Queda (a imagem estragada). O ego que devemos negar, rejeitar e crucificar é o caído, tudo o que dentro de nós for incompatível com Jesus Cristo {daí os seus mandamentos: “negue-se a si mesmo” e então “siga-me”). O ego que devemos afirmar e valorizar é o criado, tudo o que em nós for compatível com Jesus Cristo (daí a sua afir­mativa de que se perdermos a nossa vida mediante a negação própria a encontraremos). A verdadeira autonegação (a negação de nosso ego falso e caído) não é a estrada para a autodestruição, mas o caminho da autodescoberta.

Assim, pois, devemos afirmar tudo o que somos mediante a criação: nossa racionalidade, nosso senso de obrigação moral, nossa sexuali­dade (quer masculina quer feminina), nossa vida familiar, nossos dons de apreciação estética e criatividade artística, nossa mordomia dos frutos da terra, nossa fome de amor e experiência de comunidade, nossa consciência da majestade transcendental divina, e nosso im­pulso inato de nos prostrar e adorar a Deus. Tudo isso (e muito mais) faz parte de nossa humanidade criada. E verdade que essa natureza foi manchada e distorcida pelo pecado. Contudo, Cristo veio para redimi-la, não para destruí-la. De modo que devemos, grata e posi­tivamente, afirmá-la.

Entretanto, devemos negar ou repudiar tudo o que somos mediante a Queda: nossa irracionalidade, nossa perversidade moral, nosso obs-curecimento das distinções sexuais e nossa falta de domínio próprio sexual, nosso egoísmo que deturpa a vida familiar, nossa fascinação pelo feio, nossa recusa indolente em desenvolver os dons de Deus, nossa poluição e o dano que causamos ao ambiente, nossas tendências anti-sociais que inibem a verdadeira comunidade, nossa autonomia orgulhosa, e nossa recusa idolatra em adorar ao Deus vivo e verda­deiro. Tudo isso (e muito mais) faz parte de nossa humanidade de­caída. Cristo veio não a fim de redimi-la, mas para destruí-la. De modo que devemos negá-la ou repudiá-la.

Até aqui tenho deliberadamente simplificado o contraste entre a nossa criação e a nossa decadência. Agora é necessário que modifi­quemos o quadro, deveras o enriqueçamos, de duas maneiras. Ambos os enriquecimentos são devidos à introdução da redenção de Cristo no cenário humano. Os cristãos já não podem pensar em si mesmos somente como “criados e caídos”, mas, pelo contrário, como “criados, caídos e redimidos”. E a injeção desse novo elemento nos dá mais o que afirmar e mais o que negar.

Primeiro, temos mais o que afirmar. Pois não somente fomos criados à imagem de Deus, mas também recriados nela. A graciosa obra de Deus em nós, a qual é de vários modos retratada no Novo Testamento como “regeneração”, “ressurreição”, “redenção”, etc, é, em sua es­sência, uma recriação. O nosso novo ser foi “criado para ser como Deus em verdadeira justiça e santidade”, e “está sendo renovado em conhecimento à imagem do seu Criador”. De fato, cada pessoa que está em Cristo “agora é uma nova criatura” .12 Isso significa que nossa mente, nosso caráter e nossos relacionamentos estão sendo renova­dos. Somos filhos de Deus, discípulos de Cristo e santuário do Espírito Santo. Pertencemos à nova comunidade que é a família de Deus. O Espírito Santo nos enriquece com os seus frutos e dons. E somos herdeiros de Deus, antecipando com confiança a glória que um dia será revelada. Tornar-se cristão é uma experiência transformadora, a qual, ao nos transformar, transforma também nossa auto-imagem. Agora temos muito mais a afirmar, não por vanglória mas por gra­tidão.

Pergunta o Dt. Hoekema como podemos declarai “sem valor” o que Jesus disse possuir grande valor? Não possui valor ser filho de Deus, membro de Cristo e herdeiro do reino do céu? Assim, pois, uma parte vital de nossa afirmação própria, a qual, na realidade, é uma afirmação da graça de Deus nosso Criador e Redentor, é o que nos tornamos em Cristo. “A base última da nossa imagem própria positiva deve ser a aceitação de Deus de nós em Cristo”.

Segundo, os cristãos têm mais a negar como também mais a afirmar. Até aqui incluí somente nossa decadência no que ela precisa ser ne­gada. Às vezes, contudo, Deus nos chama para que neguemos a nós mesmos em coisas que, embora em si mesmas não sejam erradas, nem possam ser atribuídas à queda, entretanto impedem que façamos a sua vontade particular. E por isso que Jesus, cuja humanidade foi perfeita e não caída, ainda teve de negar-se a si mesmo. Diz-nos a Escritura que “não julgou como usurpação o ser igual a Deus”, isto é, desfrutar egoisticamente dessa igualdade (Filipenses 2:6). A igual­dade já lhe pertencia. Ele não se tornou igual a Deus como reclamaram seus críticos (João 5:18); ele era eternamente igual à Deus, de modo que ele e seu Pai eram “um” (João 10:30). Contudo, ele não se apegou aos privilégios de sua situação, pelo contrário, ele se esvaziou da sua glória. Mas o motivo pelo qual ele a colocou de lado não é que lhe pertencesse por direito, mas que não a podia reter e ao mesmo tempo cumprir o seu destino de ser o Messias de Deus e o Mediador. Ele foi à cruz em negação própria, é claro, não por que tivesse feito alguma coisa que merecesse a morte, mas porque era essa a vontade do Pai para ele segundo a Escritura, e se tinha entregue voluntariamente para fazer essa vontade. Durante toda a sua vida ele resistiu à tentação de evitar a cruz. Nas palavras sucintas de Max Warren: “Todo o viver de Cristo foi um morrer”.13 Ele negou-se a si mesmo a fim de se dar a si mesmo por nós.

O mesmo princípio é aplicável aos seguidores de Cristo. “Tende a mesma mente”, escreveu Paulo. Pois ele conhecia o chamado à autonegação em sua própria experiência apostólica. Ele possuía direitos legítimos, por exemplo, de se casar e receber ajuda financeira, os quais deliberadamente rejeitou porque cria ser essa a vontade de Deus para ele. Ele também escreveu que cristãos maduros devem estar dispostos a renunciar aos seus direitos e limitar as suas liberdades a fim de não fazer que irmãos imaturos pequem. Ainda hoje alguns cristãos são chamados a abrir mão da vida de casados, da segurança de um bom emprego, de uma promoção profissional ou de um lar confortável, não porque essas coisas em si mesmas sejam erradas, mas por serem incompatíveis com um chamado particular de Deus para irem ao além-mar ou viverem nas áreas mais pobres da cidade ou se identificarem mais intimamente com os destituídos e os famintos do mundo.

Há, portanto, uma grande necessidade de discernimento em nossa autocompreensão. Quem sou eu? O que é o meu “ego”? A resposta é que eu sou Jekyll e Hyde, um ser confuso, possuindo tanto digni­dade porque sou criado e fui recriado à imagem divina, quanto depravação porque ainda possuo uma natureza decaída e rebelde. Sou ao mesmo tempo nobre e ignóbil, lindo e feio, bom e mau, direito e retorcido, imagem e filho de Deus, e, contudo, às vezes concedo homenagem ao diabo de cujas garras Cristo me resgatou. O meu ser verdadeiro é o que sou mediante a criação, o que Cristo veio a fim de redimir, e pelo chamado. Meu ser falso é o que sou mediante a Queda, o que Cristo veio a fim de destruir.

Somente quando discernirmos a nós mesmos, saberemos que ati­tude adotar para com os nossos egos. Devemos ser verdadeiros para com nosso ser verdadeiro e falsos para com nosso ser falso. Devemos ser corajosos em afirmar o que somos mediante a criação, redenção e chamado, e impiedosos em rejeitar tudo o que somos pela Queda.

Além do mais, a cruz de Cristo nos ensina as duas atitudes. Por um lado, a cruz é a medida dada por Deus do valor de nosso ser verdadeiro, visto Cristo ter-nos amado e morrido por nós. Por outro lado, é o modelo dado por Deus para a negação de nosso ego falso, visto que devemos pregá-lo na cruz, mortificando-o. Ou, de modo mais simples, diante da cruz vemos simultaneamente o nosso valor e a nossa indignidade, já que percebemos tanto a grandeza do amor e da morte de Cristo quanto a grandeza de nosso pecado que lhe causou a morte.

 

Amor auto-sacrificial

Nem a negação própria (o repúdio de nossos pecados) nem a afir­mação própria (a apreciação dos dons de Deus) é um beco sem saída de absorção própria. Pelo contrário, as duas coisas são meios de auto-sacrifício. A compreensão própria devia levar à doação própria. A comunidade da cruz é, em essência, uma comunidade do amor autodoador, expresso na adoração a Deus (o qual foi o nosso tema do capítulo anterior) e no serviço aos outros {que é o nosso tema do final deste capítulo). E para isso que a cruz coerente e insistentemente nos chama.

O contraste entre os padrões da cruz e os do mundo, em lugar algum é apresentado mais dramaticamente do que no pedido de Tiago e João e da resposta que Jesus lhes deu.

“Então se aproximaram dele Tiago e João, filhos de Zebedeu, dizendo-lhe: Mestre, queremos que nos conceda o que te vamos pedir.

E ele lhes perguntou: Que quereis que vos faça?

Responderam-lhe: Permita-nos que na tua glória nos as­sentemos um à tua direita e o outro à tua esquerda.

Mas Jesus lhes disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu bebo, ou receber o batismo com que eu sou batizado?

Disseram-lhe: Podemos.

Tornou-lhes Jesus: Bebereis o cálice que eu bebo e recebereis o batismo com que eu sou batizado; quanto, po­rém, a assentar-se à minha direita ou à minha esquerda, não me compete concedê-lo; porque é para aqueles a quem está preparado.

Ouvindo isto, indignavam-se os dez contra Tiago e João. Mas Jesus, chamando-os para junto de si, disse-lhes: Sabeis que os que são considerados governadores dos povos têm-nos sob o seu domínio, e sobre os seus maiorais exercem autoridade. Mas entre vós não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós, será servo de todos. Pois o próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Marcos 10:35-45).

O versículo 35 (“Queremos que nos conceda o que te vamos pedir”) e o versículo 45 (“o próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir. . . e dar”), um introduzindo e o outro concluindo essa história, retratam os filhos de Zebedeu e o Filho do homem em irreconciliável desacordo. Falam línguas diferentes, respiram espíritos diferentes e exprimem ambições diferentes. Tiago e João desejam sentar-se em tronos de poder e glória; Jesus sabe que deve ser pen­durado numa cruz em fraqueza e vergonha. A antítese é total.

Houve, primeiro, a escolha entre a ambição egoísta e o sacrifício. A afirmativa dos irmãos: “queremos que nos concedas o que te vamos pedir” certamente se qualifica como a pior e mais obviamente centrada oração no ego que jamais foi feita. Parece que eles tinham pensado que haveria uma corrida ímpia pelos lugares mais honrosos do reino; de modo que acharam prudente fazer uma reserva adiantada. O seu pedido de assentar-se com Jesus não passava de um “brilhante es­pelho da vaidade humana”.14 Foi o oposto exato da verdadeira oração, cujo propósito jamais é dobrar a vontade de Deus à nossa, mas sempre dobrar a nossa vontade à dele. Contudo, o mundo (e até mesmo a igreja) está cheio de Tiagos e Joões, procurando posição, famintos de honra e prestígio, medindo a vida pela realização, eternamente so­nhando com o êxito. Ambicionam agressivamente o sucesso para si mesmos.

Essa mentalidade é incompatível com o caminho da cruz. “O próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e dar. . .” Ele renunciou ao poder e glória do céu e se humilhou, tor­nando-se um escravo. Ele deu a si mesmo sem reservas e sem temor às seções desprezadas e negligenciadas da comunidade. a obsessão dele era a glória de Deus e o bem dos seres humanos que levam a sua imagem. A fim de prover essas coisas, ele estava disposto a su­portar até mesmo a vergonha da cruz. Agora ele nos chama para segui-lo, não a fim de procurar grandes coisas para nós mesmos mas pelo contrário, buscar primeiro o reino de Deus e a sua justiça.15

A segunda escolha foi entre o poder e o serviço. Parece claro que Tiago e João queriam tanto poder como honra. Ao pedir para se assentar cada um ao lado de Jesus em sua glória, podemos estar certos de que não estavam sonhando com assentos no chão, com almofadas nem com cadeiras, mas com tronos. Cada um deles se via assentado num trono. Sabemos que procediam de uma família rica, porque Zebedeu, pai deles, tinha empregados no seu negócio de pesca no lago. Talvez sentissem falta dos seus servos, mas estavam dispostos a perder por algum tempo esse luxo, se, no final, fossem compensados com tronos. O mundo ama o poder. “Sabeis que os que são considerados gover­nadores dos povos, têm-nos sob seu domínio” (v. 42), Estava ele pensando em Roma, cujos imperadores mandavam cunhar moedas representando sua cabeça e com uma inscrição que dizia: “Aquele que merece a adoração”? Ou estava pensando nos Herodes que, em­bora não passassem de reis títeres, reinavam como tiranos? O desejo de poder é endêmico à nossa queda.

É também totalmente incompatível com o caminho da cruz, que significa serviço. A afirmativa de Jesus de que “o próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir” foi admiravelmente original. Pois o Filho do homem na visão de Daniel recebeu o poder de modo que todas as nações o servissem (7:13-14). Jesus reivindicou o título, mas mudou o papel. Ele não tinha vindo para ser servido, antes, para ser “o servo do Senhor” dos Cânticos do Servo. Ele fundiu os dois retratos. Ele foi tanto o glorioso Filho do homem quanto o servo sofredor; entraria na glória apenas através do sofri­mento. Novamente, ele nos chama para segui-lo. No mundo secular, os que governam continuam a forçar sua vontade, a manipular, a ex­plorar e a tiranizar. “Mas entre vós não é assim” (v. 43),disse Jesus enfaticamente. A sua nova comunidade deve ser organizada sob um princípio diferente e de acordo com um modelo diferente – serviço humilde e não poder opressivo. Liderança e senhorio são conceitos distintos. O símbolo de uma liderança autenticamente cristã não é a veste de púrpura de um imperador, mas o avental batido de um escravo; não um trono de marfim e ouro, mas uma bacia de água para a lavagem dos pés.

A terceira escolha foi, e ainda é, entre o conforto e o sofrimento. Ao pedirem tronos na glória, Tiago e João desejavam segurança confor­tável além de honra e poder. Seguindo a Jesus, haviam-se tornado viajantes, até mesmo vagabundos. Será que sentiam falta de seu agra­dável lar? Quando Jesus respondeu à sua pergunta com outra, se eles podiam partilhar do seu cálice e do seu batismo como também do seu trono, a reação fácil deles foi dizer: “Podemos” (vv. 38-39). Mas cer­tamente não compreendiam. Estavam sonhando acordado com o cá­lice de vinho do banquete messiânico, o qual era precedido de banhos luxuosos dos quais Herodes tanto gostava. Jesus, porém, se referia aos seus sofrimentos. De fato, eles partilhariam do seu cálice e ba­tismo, disse ele, sem mais explicação. Tiago deveria perder a cabeça nas mãos de Herodes Antipas e João haveria de sofrer um solitário exílio.

O espírito de Tiago e de João permanece, especialmente naqueles que nasceram em lares ricos. É verdade que muitos, por causa da inflação e do desemprego, têm experimentado uma nova insegurança. Contudo, ainda consideramos a segurança como nosso direito de nascença e temos como lema prudente “a segurança em primeiro lugar”. Onde está o espírito de aventura, o senso de desinteresseira solidariedade com os menos privilegiados? Onde estão os cristãos dispostos a colocar o serviço acima da segurança, a compaixão acima do conforto, a dureza acima da vida fácil? Milhares de tarefas cristãs pioneiras, que desafiam a nossa complacência e demandam risco, aguardam para serem feitas.

A insistência na segurança é incompatível com o caminho da cruz. Que aventuras ousadas foram a encarnação e a expiação! Que quebra de convenções e decoro ter o Deus Todo-poderoso renunciado a seus privilégios a fim de se vestir de carne e levar o pecado do homem! Jesus não tinha segurança nenhuma a não ser em seu Pai. De modo que seguir a Jesus é sempre aceitar pelo menos certa medida de in­certeza, perigo e rejeição por amor a ele.

Assim Tiago e João cobiçaram honra, poder e segurança confortável, ao passo que toda a carreira de Jesus foi marcada pelo sacrifício, pelo serviço e pelo sofrimento. Marcos, que cada vez mais é reconhecido como um evangelista teólogo e também historiador, espreme o pedido de Tiago e João entre duas referências explícitas à cruz. É a glória de Cristo que mostra a ambição egoísta deles como a coisa andrajosa e imunda que era. Ela também ressalta a escolha, e confronta a co­munidade cristã em cada geração, entre o caminho da multidão e o da cruz.

 

Esferas de serviço

Compreendendo-se que a comunidade de Cristo é uma comunidade da cruz, e, portanto, será marcada pelo sacrifício, serviço e sofrimento, como isso se resolverá nas três esferas do lar, da igreja e do mundo?

A vida em um lar cristão, a qual deve, em todo o caso, ser carac­terizada pelo amor humano natural, deve ser ainda enriquecida com o amor divino sobrenatural, isto é, o amor da cruz. Ele deve marcar todos os relacionamentos familiares cristãos, entre marido e mulher, pais e filhos, irmãos e irmãs. Pois devemos nos sujeitar “uns aos outros no temor de Cristo” (Efésios 5:21), o Cristo cujo amor humilde e submisso o levou até à cruz. Contudo, os maridos é que são es­pecialmente ressaltados. “Maridos, amai vossas mulheres, como tam­bém Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse. . . para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa. . .” (vv. 25-27).

Essa passagem de Efésios é comumente vista como difícil para as esposas, porque devem reconhecer a “chefia” que Deus deu aos ma­ridos e submeter-se a eles. Mas, argumenta-se que a qualidade de amor autodoador exigido dos maridos é ainda mais difícil. Pois devem amar suas mulheres com o mesmo amor que Cristo tem por sua noiva, a igreja. Esse é o amor do calvário. E ao mesmo tempo auto-sacrificial (ele “a si mesmo se entregou por ela”, v. 25) e construtivo (“para que a santificasse” e fizesse gloriosa, atingindo todo o seu potencial, w. 26-27). É também protetor e cuidador; “os maridos devem amar as suas mulheres como a seus próprios corpos”, pois “ninguém jamais odiou a sua própria carne, antes a alimenta e dela cuida, como também Cristo o faz com a igreja” (vv. 28-29). Os lares cristãos em geral, e os casamentos cristãos, em particular, seriam mais estáveis e mais satis­fatórios se fossem marcados pela cruz.

Voltamo-nos agora do lar para a igreja,, e começamos com os pas­tores. Vimos, num capítulo anterior, que há lugar para autoridade e disciplina na comunidade de Jesus. Entretanto, o apóstolo não deu ênfase a essas coisas, mas ao novo estilo de liderança que ele intro­duziu, cuja distinção são a humildade e o serviço. O próprio Paulo sentia a tensão. Como apóstolo, ele recebera de Cristo um grau es­pecial de autoridade. Ele poderia ter ido à igreja coríntia recalcitrante com um chicote, e estava pronto a punir todo ato de desobediência, se o tivesse de fazer. Porém ele não queria ser duro no uso da sua autoridade, a qual o Senhor Jesus lhe dera a fim de edificar os crentes, não destruí-los. Ele preferia muito mais ir como um pai em visita a seus filhos queridos. Era a tensão entre a morte e a ressurreição de Jesus, entre a fraqueza e o poder. Ele poderia exercer o poder, visto que Cristo vive pelo poder de Deus. Mas, uma vez que ele foi crucificado em fraqueza, é a mansidão e a gentileza de Cristo que Paulo deseja demonstrar.16 Se os pastores cristãos se apegassem mais inti­mamente ao Cristo crucificado em fraqueza, e estivessem preparados para aceitar as humilhações que essa fraqueza acarreta, em vez de insistirem na execução do poder, haveria muito menos discórdia e muito mais harmonia na igreja.

Entretanto a cruz deve caracterizar todos os nossos relacionamentos na comunidade de Cristo, e não apenas o relacionamento entre os pastores e o povo. Devemos amar uns aos outros, insiste João em sua primeira epístola, tanto porque Deus é amor, como porque ele de­monstrou seu amor enviando o seu Filho para morrer por nós. E esse amor sempre se expressa em altruísmo. Não devemos fazer nada por ambição egoísta ou convencimento vão, mas devemos, em humil­dade, considerar os outros como melhores do que nós mesmos. Po­sitivamente, cada um de nós deve olhar não para os seus próprios interesses, mas para os interesses dos outros. Por quê? Por que essa renúncia à ambição egoísta e esse cultivo do interesse altruísta pelos outros? Porque foi essa a atitude de Cristo, que, tanto renunciou a seus próprios direitos como se humilhou a fim de servir aos outros. De fato, a cruz adoça todos os nossos relacionamentos na igreja. Somente temos de lembrar-nos de que o nosso companheiro cristão é um “irmão” por quem Cristo morreu, e jamais desprezaremos o seu verdadeiro bem-estar, e sempre procuraremos servi-lo. Pecar con­tra ele seria pecar contra Cristo.17

Se a cruz deve marcar a nossa vida cristã no lar e na igreja, essa verdade devia ser ainda mais real no mundo. A igreja tem a tendência de se preocupar demais com seus próprios assuntos, obcecando-se com coisas triviais, enquanto o mundo necessitado espera lá fora. Assim, o Filho nos envia ao mundo, como o Pai o enviara ao mundo. A missão ergue-se do nascimento, morte e ressurreição de Jesus. O seu nascimento, mediante o qual ele se identificou a si mesmo com a nossa humanidade, nos chama para uma identificação similar e custosa com os outros. Sua morte nos lembra que o sofrimento é a chave do crescimento da igreja, visto ser a semente que morre a que multiplica. E a sua ressurreição lhe deu o senhorio universal que o capacitou tanto para reivindicar que toda a autoridade agora é sua como para enviar a sua igreja a fim de fazer discípulos das nações.18

Em teoria conhecemos muito bem o princípio paradoxal de que o sofrimento é o caminho da glória, a morte o caminho da vida e a fraqueza o segredo do poder. Foi assim para Jesus e ainda o é para os seus seguidores hoje. Relutamos em aplicar o princípio à missão, como a Bíblia o faz. Na imagem obscura do servo sofredor de Isaías, o sofrimento devia ser a condição do seu êxito em levar luz e justiça às nações. Como escreveu Douglas Webster: “missão, cedo ou tarde, leva à paixão. Nas categorias bíblicas. . . o servo deve sofrer. . . Cada forma de missão leva à mesma forma de cruz. A própria missão é cruciforme. Só podemos entender a missão em termos da cruz. . .”19

Essa visão bíblica do serviço sofredor tem sido grandemente eclip­sada em nossos dias pelo “evangelho da prosperidade” não bíblico (o qual garante êxito pessoal) e pelas noções triunfalistas de missão (as quais empregam metáforas militares que não se encaixam bem na imagem humilde do servo sofredor). Em contraste, Paulo ousou es­crever aos coríntios: “de modo que em nós opera a morte; mas em vós, a vida” (2 Coríntios 4:12). A cruz jaz no próprio coração da missão. Para o missionário transcultural ela pode significar sacrifícios individuais e familiares custosos, renúncia da segurança financeira e promoção profissional, solidariedade com os pobres e necessitados, arrependimento do orgulho e preconceito de suposta superioridade cultural, e modéstia (e às vezes frustração) de servir debaixo da li­derança nacional. Cada uma dessas coisas pode ser um tipo de morte, mas é uma morte que traz vida a outros.

Em toda evangelização há também uma ponte cultural a ser atra­vessada. Esta se torna óbvia quando o povo cristão vai como men­sageiro do evangelho de um país ou de um continente a outro. Mas mesmo permanecendo em sua própria terra, os cristãos e os não cristãos muitas vezes estão largamente separados uns dos outros por causa de subculturas sociais, estilos de vida, valores diferentes, cren­ças e padrões morais. Somente a encarnação pode cobrir essas divi­sões, pois encarnar significa entrar no mundo das outras pessoas, no mundo do seu pensamento e no mundo de sua alienação, solidão e dor. Além do mais, a encarnação leva à cruz. Jesus primeiro tomou a nossa carne, e a seguir levou o nosso pecado. Em comparação com essa profundeza de penetração em nosso mundo a fim de nos alcan­çar, nossas pequenas tentativas de atingir as pessoas parecem ama­doras e superficiais. A cruz nos chama para um tipo de evangelização muito mais radical e custoso do que a maioria das igrejas tem co­meçado a examinar, muito menos a experimentar.

A cruz também nos chama para a ação social, porque nos convoca a imitarmos a Cristo:

Nisto conhecemos o amor, em que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar a nossa vida pelos irmãos. Ora, aquele que possui recursos deste mundo e vir a seu irmão padecer necessidade e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade (1 João 3:16-18).

De acordo com o ensino de João na passagem acima, o amor é, em essência, autodoação. E uma vez que nosso bem mais valioso é nossa vida, o maior amor é visto em dá-la pelos outros. Assim como a essência do ódio é o assassínio (como aconteceu com Caim), da mesma forma a essência do amor é o auto-sacrifício (como aconteceu com Cristo). Assassínio é a retirada da vida de outra pessoa; auto-sacrifício é dar a sua própria vida. Deus faz mais, contudo, que nos apresentar um excelente espetáculo do seu amor na cruz; ele coloca o seu amor em nosso íntimo. Com o amor de Deus, tanto revelado em nós, quanto habitando em nós, temos o incentivo duplo e inescapável de dar-nos a nós mesmos aos outros em amor. Além do mais, João torna claro que dar a nossa vida pelos outros, embora seja a forma de autodoação suprema, não é a sua única expressão. Se algum de nós tem algo e vê outra pessoa que dele necessita e falha em relacionar o que tem ao que vê em termos de ação prática, essa pessoa não pode dizer que possui o amor de Deus. Assim, o amor alimenta os famintos, abriga os desamparados, ajuda os destituídos, oferece companhia aos soli­tários, conforta os tristes, contanto sempre que essas dádivas sejam prova da doação do ser. Pois é possível doar alimento, dinheiro, tempo e energia e, contudo, de algum modo, reter-se a si mesmo. Mas Cristo deu-se a si mesmo. Embora rico, ele se tornou pobre, a fim de nos fazer ricos. Conhecemos a graça de Cristo, escreve Paulo, e devemos imitá-la. A generosidade é indispensável aos seguidores de Cristo. Houve uma quase que extravagância acerca do amor de Cristo na cruz; ela desafia a frialdade calculista do nosso amor.

Contudo, como temos repetidamente notado por todo este livro, a cruz é uma revelação da justiça divina como também do seu amor. É por isso que a comunidade da cruz devia se interessar pela justiça social como também pela filantropia amorosa. Jamais é suficiente ter pena das vítimas da injustiça, se nada fizermos a fim de mudar a situação injusta. Os bons samaritanos serão necessários para socorrer os que são assaltados e atacados; contudo, seria ainda muito melhor que limpássemos de assaltantes a estrada que desce de Jerusalém para Jerico. A filantropia cristã em termos de alívio e ajuda é necessária, mas o desenvolvimento a longo prazo é melhor, e não podemos fugir de nossa responsabilidade política de partilhar da mudança de estru­turas que inibem o desenvolvimento.

Os cristãos não podem ver com equanimidade as injustiças que estragam o mundo de Deus e rebaixam as suas criaturas. A injustiça deve ferir o Deus cuja justiça se expôs de modo tão brilhante na cruz; deve ferir também o povo de Deus. As injustiças contemporâneas se apresentam sob muitas formas. São internacionais (invasão e anexação de territórios estrangeiros), políticas (subjugação de minorias), legais (castigo de cidadãos não julgados e não sentenciados), raciais (dis­criminação humilhante à base de raça ou de cor), econômicas (tole­rância de desigualdade abjeta norte-sul e os traumas do desemprego e da pobreza), sexuais (opressão das mulheres), educacionais (ne­gação de oportunidade igual para todos) ou religiosas (fracasso em levar o evangelho a todas as nações).

O amor e a justiça unem-se para se oporem a todas essas situações. Se amarmos as pessoas, teremos interesse por conseguir os seus direitos básicos de seres humanos, o que também é a preocupação da justiça. A comunidade da cruz que verdadeiramente absorveu a sua mensagem, sempre será motivada a agir mediante as exigências da justiça e do amor.

Como exemplo da maneira pela qual a comunidade cristã pode ser grandemente incentivada pela cruz, gostaria de mencionar os Irmãos Morávios, sociedade fundada pelo conde Nikolaus von Zinzendorf (1700-1760). Em 1722 ele acolheu alguns refugiados cristãos pietistas oriundos da Morávia e da Boêmia em sua propriedade na Saxônia, onde os ajudou a formar uma comunidade cristã com o nome de “Herrnhut”.

A ênfase dos morávios era sobre o Cristianismo como religião da cruz e do coração. Definiam o cristão como alguém que tem “uma amizade inseparável com o Cordeiro, o Cordeiro que foi morto”;20 o brasão deles traz a inscrição em latim que díz: “Nosso Cordeiro ven­ceu; sigamo-lo”, e o emblema dos seus barcos era de um cordeiro com uma bandeira num campo cor de sangue. Eles se interessavam profundamente pela unidade cristã e criam que o Cordeiro seria o seu fundamento, visto que todos os que “se apegam a Jesus como o Cordeiro de Deus” são um. De fato, o próprio Zinzendorf declarou que “o Cordeiro que foi morto” era desde o princípio o fundamento sobre o qual a sua igreja fora construída.

Primeiro, certamente eram uma comunidade de celebração. Eram grandes cantores, e o enfoque de sua adoração em Herrnhut era o Cristo crucificado.

Não resta dúvida de que se preocupavam demais com as chagas e com o sangue de Jesus. Ao mesmo tempo, jamais se esqueciam da ressurreição. Às vezes eram chamados de “o povo da páscoa”, porque era o Cordeiro ressurreto a quem eles adoravam.

Quanto à autocompreensão, seu tipo especial de pietismo parece tê-los capacitado a enfrentar a si mesmos. A ênfase que davam à cruz levou-os à humildade e penitência genuínas. Mas também lhes deu uma forte segurança da salvação e uma tranqüila confiança em Deus. “Somos o povo feliz do Salvador”, disse Zinzendorf. Foi, deveras, o seu júbilo e coragem, quando se encontraram face a face com a morte enquanto seu navio soçobrava em meio a uma tempestade no oceano Atlântico, o fator que levou João Wesley à convicção do pecado e se tornou um importante elo na cadeia que o conduziu à conversão.

Mas os morávios são mais bem conhecidos como um movimento missionário. Quando ainda em idade escolar, Zinzendorf fundou a “Ordem do Grão da Mostarda”, e jamais perdeu o seu zelo missio­nário. Repito, foi a cruz que o estimulou e a seus seguidores a essa expressão de amor autodoador. Entre os anos de 1732 e 1736 fun­daram-se missões morávias no Caribe, na Groenlândia, em Laplândia, na América do Norte e na América do Sul, e na África do Sul, enquanto que mais tarde deram início ao trabalho missionário em Labrador, entre os aborígines australianos e na fronteira do Tibete. Os pagãos sabem que há um Deus, ensinava Zinzendorf, mas necessitam co­nhecer o Salvador que morreu por eles. “Conte-lhes acerca do Cor­deiro de Deus”, instava ele, “até que você já não lhes possa contar nada mais”.

Essa ênfase saudável à cruz surgiu grandemente de sua própria experiência de conversão. Enviado com a idade de 19 anos para visitar as capitais da Europa, a fim de completar sua educação formal, certo dia ele se achou na galeria de arte de Düsseldorf. De pé, em frente do quadro Ecce Homo de Domenico, o qual retrata a Cristo usando a coroa de espinhos, e cuja inscrição lê-se: “Tudo isto fiz por ti; que faze tu por mim?” Zinzendorf recebeu profunda convicção e desafio. “Nessa mesma hora”, escreve A. J. Lewis, “o jovem Conde pediu que o Cristo crucificado o levasse à ‘comunhão dos seus sofrimentos’ e abrisse uma vida de serviço para ele”. Ele jamais renegou esse compromisso. Ele e a sua comunidade tinham interesse apaixonado pela “entronização do Cordeiro de Deus”.

12
Amando a Nossos Inimigos

 

Viver sob a cruz” significa que todos os aspectos da vida da comunidade cristã são moldados e coloridos por ela. A cruz não somente invoca a nossa adoração (de modo que desfrutamos uma celebração contínua e eucarística), e nos capacita a desenvolver uma auto-estima equilibrada (de modo que aprendemos tanto a compreender a nós mesmos como a dar de nós mesmos), mas ela também dirige a nossa conduta em relação com os outros, incluindo-se os nossos ini­migos. Devemos ser “imitadores de Deus, como filhos amados”, e andar “em amor, como também Cristo” nos amou “e se entregou a si mesmo por nós” (Efésios 5:1-2). Mais do que isso, devemos exibir em nossos relacionamentos a combinação de amor e justiça que ca­racterizou a sabedoria de Deus na cruz.

 

A reconciliação e a disciplina

Mas, como, na prática, devemos combinar amor e justiça, miseri­córdia e severidade, e assim andarmos no caminho da cruz, com freqüência é difícil saber e mais difícil ainda fazer. Tomemos a “re­conciliação” ou o “fazer a paz” como exemplo. Os cristãos são cha­mados para ser “pacificadores” (Mateus 5:9) e buscar a paz e empenhar-se por alcançá-la (1 Pedro 3:11). Ao mesmo tempo, reco­nhece-se que o fazer a paz jamais pode ser uma atividade unicamente unilateral. A instrução: “Tende paz com todos os homens” é quali­ficada com duas condições “se possível”, e “quanto depender de vós” (Romanos 12:18). O que devemos fazer, pois, quando é impossível viver em paz com alguém porque essa pessoa não está disposta a viver em paz conosco? O lugar onde devemos começar a nossa res­posta é na bem-aventurança já citada. Pois aí, ao dizer que os paci­ficadores são “bem-aventurados”, Jesus acrescentou que “serão chamados filhos de Deus”.1 Ele deve ter querido dizer que o fazer a paz é uma atividade tão caracteristicamente divina que, aqueles que nela se empenham, através dela revelam sua identidade e demons­tram sua autenticidade como filhos de Deus.

Porém, se quisermos que o nosso fazer a paz seja modelado se­gundo o de nosso Pai celestial, concluiremos imediatamente que é algo bem diferente de apaziguamento. Pois a paz que Deus concede, jamais é uma paz barata, mas sempre custosa. Ele é, de fato, o pa­cificador preeminente do mundo, mas quando decidiu reconciliar-se conosco, seus “inimigos”, que havíamos rebelado contra ele, “fez a paz” através do sangue da cruz de Cristo (Colossenses 1:20). A re­conciliação dele conosco, de nós com ele mesmo, e de judeus, gentios e outros grupos hostis uns com os outros, custou-lhe nada menos do que a dolorosa vergonha da cruz. Não temos o direito de esperar, portanto, que nosso empenho na obra da reconciliação não nos custe nada, quer nossa participação na disputa seja como o partido ofensor ou como o ofendido, quer como um terceiro partido ansioso a que inimigos voltem a ser amigos novamente.

Que forma pode tomar esse custo? Com freqüência, começará com o ouvir paciente e doloroso a ambos os lados, a tensão do testemunhar amarguras e recriminações, a luta por compreender cada posição, e o esforço de entender as incompreensões que causaram a ruptura da comunicação. O ouvir honesto pode revelar faltas não suspeitadas, as quais, por sua vez, precisarão ser admitidas, sem lançar mão de subterfúgios para preservar as aparências. Se a culpa for nossa, haverá a humilhação do pedido de desculpas, a humilhação mais profunda de fazer restituição onde for possível, e a humilhação mais profunda de todas que é confessar que as feridas que causamos levarão tempo para sarar e não podem ser facilmente esquecidas. Se, por outro lado, não fomos nós quem causamos o mal, então talvez tenhamos de suportar o embaraço de reprovar ou repreender a outra pessoa, ar­riscando, assim, perder a sua amizade. Embora os seguidores de Jesus jamais tenham o direito de recusar perdão, muito menos fazer vin­gança, não nos é permitido baratear o perdão, oferecendo-o prema­turamente onde não houver arrependimento. “Se teu irmão pecar contra ti”, disse Jesus, “repreende-o”, e só então “se ele se arrepen­der, perdoa-lhe” (Lucas 17:3).

O incentivo à pacificação é o amor, mas ele se degenera em apa­ziguamento sempre que a justiça é ignorada. Perdoar e pedir perdão são dois exercícios custosos. Toda pacificação cristã autêntica exibe o amor e a justiça — e, portanto, a dor — da cruz.

Voltando-nos dos relacionamentos sociais em geral para a vida fa­miliar em particular, os pais cristãos hão de querer que sua atitude para com os filhos seja marcada pela cruz. O amor é a atmosfera indispensável na qual os filhos crescem para a maturidade emocional

Contudo, esse não é o amor mole e sem princípios, que estraga as crianças, mas o “amor santo” que procura o seu bem-estar maior, não importando o custo. Deveras, visto que o próprio conceito de pater­nidade humana provém da eterna paternidade divina (Efésios 3:14-15), os pais cristãos hão de naturalmente modelar o seu amor no de Deus. Conseqüentemente, o verdadeiro amor paterno não elimina a disciplina, visto que “o Senhor corrige a quem ama”. De fato, é quando Deus nos corrige que ele nos trata como filhos. A falta de correção da parte de Deus poderia mostrar que somos seus filhos ilegítimos e não seus filhos autênticos (Hebreus 12:5-8).

O amor genuíno também se enraivece, sendo hostil a tudo o que, nos filhos, se opõe ao seu bem maior. A justiça sem a misericórdia é por demais severa, e a misericórdia sem a justiça é por demais le­niente. Além do mais, os filhos sabem disso automaticamente. Pos­suem um sentido inato de ambas as coisas. Se fizeram algo que sabem ser errado, também sabem que merecem a punição, e tanto desejam quanto esperam recebê-la. Sabem também de imediato se o castigo está sendo oferecido sem amor ou contrariamente à justiça. Os dois clamores mais pungentes de um filho são: “Ninguém me ama” e: “Não é justo”. O sentido de amor e justiça dos filhos vem de Deus, que os fez à sua imagem, e que se revelou como amor santo na cruz.

O princípio que se aplica à família, aplica-se também à família da igreja. Ambos os tipos de família precisam de disciplina, e pela mesma razão. Entretanto, hoje é rara a disciplina na igreja, e onde ela é exercida, muitas vezes é inabilmente administrada. As igrejas têm a tendência de oscilar entre a severidade extrema, que excomunga os membros pelas ofensas mais triviais, e a frouxidão extrema, que jamais nem mesmo admoesta os ofensores. O Novo Testamento, porém, oferece instruções claras acerca da disciplina, por um lado sua ne­cessidade por causa da santidade da igreja, e por outro, seu propósito construtivo, a saber, se possível, ganhar e restaurar o membro ofensor.

O próprio Jesus tornou bem claro que o objetivo da disciplina não era humilhar, muito menos alienar a pessoa envolvida; antes, ganhá-la de novo. Ele determinou um procedimento que se desenvolveria através de fases. A primeira fase é uma confrontação pessoal com o ofensor, “entre ti e ele só”, durante a qual, se ele o ouvir, será ganho. Se ele se recusar a ouvir, na segunda fase devem-se levar várias outras pessoas a fim de estabelecer a repreensão. Se ele ainda se recusar a ouvir, deve-se levar o caso à igreja, para que ele possa ter uma terceira oportunidade de se arrepender. Se ele ainda obstinadamente se re­cusar a ouvir, somente então deve ser excomungado (Mateus 18:15-17).

O ensino de Paulo era parecido com o de Jesus. O membro da igreja apanhado em pecado deve ser restaurado em espírito de brandura e humildade; isso seria um exemplo de levar os fardos uns dos outros e assim cumprir a lei do amor de Cristo (Gálatas 6:1-2). Mesmo a entrega a Satanás, mediante a qual presumivelmente Paulo se referia à excomunhão de um flagrante ofensor, tinha um propósito positivo, a fim de “não mais blasfemarem” (1 Timóteo 1:20), ou pelo menos a fim de que “o espírito seja salvo no dia do Senhor” (1 Coríntios 5:5). Assim toda ação disciplinar deve exibir o amor e a justiça da cruz.

Mais desconcertante do que esses exemplos extraídos da vida de indivíduos, da família e da igreja é a administração da justiça pelo estado. Pode a revelação de Deus na cruz ser aplicada também a esta área? Mais particularmente, pode o estado usar força, ou seria ela incompatível com a cruz? E claro que a cruz em si foi um ato conspícuo de violência pelas autoridades, envolvendo uma violação flagrante da justiça e uma execução brutal. Contudo, foi igualmente um ato cons­pícuo de não violência da parte de Jesus, que se permitiu ser injus­tamente condenado, torturado e executado sem resistir, muito menos retaliar. Além do mais, o Novo Testamento apresenta o comporta­mento dele como o modelo do nosso: “Se, entretanto, quando praticais o bem, sois igualmente afligidos e o suportais com paciência, isto é grato a Deus. Porquanto para isto mesmo fostes chamados, pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos” (1 Pedro 2:20-21). Entretanto, esse texto provoca muitas questões. Será que a cruz nos submete a uma aceitação não violenta de toda violência? Invalida ela o processo de justiça criminal e a assim chamada “guerra fria”? Proíbe a cruz o uso de todo tipo de força, de modo que os postos de soldado, policial, magistrado ou carcereiro seriam incompatíveis com o cristão?

 

Atitudes cristãs para com o mal

A melhor maneira de procurar respostas a essas perguntas é exa­minar com todo o cuidado os capítulos doze e treze da carta de Paulo aos Romanos. São parte do apelo que o apóstolo faz para que seus leitores cristãos reajam corretamente às “misericórdias de Deus”. Du­rante onze capítulos ele revelou a misericórdia de Deus tanto em entregar o seu Filho para morrer por nós como em nos conceder a plena salvação que ele, desse modo, obteve para nós. Qual deve ser a nossa resposta à misericórdia divina? Devemos (1) apresentar os nossos corpos a Deus por sacrifício vivo, e com mentes renovadas discernir e fazer a sua vontade (12:1-2); (2) pensar de nós mesmos com juízo sóbrio, nem vangloriando-nos de nós mesmos, nem despre-zando-nos a nós mesmos (v. 3); (3) amar uns aos outros, usando nossos dons a fim de servir uns aos outros, e viver em harmonia e humildade (vv. 4-13, 15-16); e (4) devemos abençoar os que nos perseguem e fazer o bem a nossos inimigos (vv. 14, 17-21). Por outras palavras, quando as misericórdias de Deus nos apanham, todos os nossos re­lacionamentos são radicalmente transformados: obedecemos a Deus, compreendemos a nós mesmos, amamos uns aos outros e servimos a nossos inimigos.

É pelo quarto relacionamento apresentado acima que nos interes­samos agora. A oposição dos incrédulos está subentendida. A pedra de tropeço da cruz (que oferece salvação como um dom livre e não merecido), o amor e a pureza de Jesus (que envergonham o egoísmo humano), os mandamentos prioritários de amar a Deus e ao próximo (que não deixam lugar para o amor próprio) e o chamado a tomar a nossa cruz (que é por demais ameaçador) — essas coisas despertam oposição a nós porque despertam oposição ao Senhor e ao seu evan­gelho. É esse, pois, o pano de fundo de nosso estudo do capítulo 12 de Romanos. Há pessoas que nos “perseguem” (v. 14), que nos fazem “mal” (v. 17), que até podem ser descritas como nossos “inimigos” (v. 20). Qual deve ser nossa reação para com nossos perseguidores e nossos inimigos? O que requerem de nós as misericórdias de Deus? Como deve a cruz, em que a misericórdia de Deus brilha no seu apogeu, influenciar a nossa conduta? De especial instrução, no se­guinte trecho de Romanos 12 e 13, são as quatro referências que Paulo faz ao bem e ao mal:

O amor seja sem hipocrisia. Detestai o mal, apegando-vos ao bem. . . Abençoai aos que vos perseguem, aben­çoai, e não amaldiçoeis. Alegrai-vos com os que se alegram, e chorai com os que choram. Tende o mesmo sentimento uns para com os outros; em lugar de serdes orgulhosos, condescendei com o que é humilde; não sejais sábios aos vossos próprios olhos. Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens; se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens; não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vin­gança; eu retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.

Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade, resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos con­denação. Porque os magistrados não são para temor quando se faz o bem, e, sim, quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem, e terás louvor dela; visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal. É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da pu­nição, mas também por dever de consciência. Por esse mo­tivo também pagais tributos: porque são ministros de Deus, atendendo constantemente a este serviço. Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra (Romanos 12:9, 14—13:7).

Essa passagem tem a aparência de uma meditação autoconsciente sobre o tema do bem e do mal. Eis as quatro alusões do apóstolo a eles:

Detestai o mal, apegando-vos ao bem (12:9).

Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens (12:17).

Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem (12:21).

A autoridade é ministro de Deus para teu bem. . . É mi­nistro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal (13:4).

Esses versículos em particular definem qual deve ser nossa atitude para com o mal.

Primeiro, devemos odiar o mal. “O amor seja sem hipocrisia. Detestai o mal, apegando-vos ao bem” (12:9). Essa justaposição do amor e do ódio parece imprópria. Normalmente vemos essas duas coisas como mutuamente exclusivas. O amor expulsa o ódio, e o ódio expulsa o amor. A verdade, porém, não é assim tão simples. Sempre que o amor é “sem hipocrisia”, é moralmente discernidor. Jamais finge que o mal seja qualquer outra coisa, nem o justifica. O comprometimento com o mal é incompatível com o amor. O amor busca o bem maior dos outros e, portanto, odeia o mal que o estraga. Deus odeia o mal porque seu amor é santo; nós também devemos odiá-lo.

Segundo, não devemos tornar a ninguém mal por mal. “Não torneis a ninguém mal por mal. . . não vos vingueis a vós mesmos, amados” (12:17,19). O povo de Deus está totalmente proibido de fazer vingança e retaliação. Pois tornar o mal por mal é acrescentar um mal a outro. E se odiámos o mal, como podemos acrescentar a ele? Ouvimos aqui um eco claro do Sermão do Monte: “Não resistais ao perverso”, Jesus dissera. Isto é, como esclarece o contexto, “não vos vingueis a vós mesmos”. E, na cruz, Jesus exemplificou com perfeição o seu próprio ensino, pois “quando ultrajado, não revidava com ultraje, quando maltratado não fazia ameaças” (1 Pedro 2:23). Pelo contrário, devemos “fazer o bem” (12:17) e “viver em paz com todos os homens” (12:18). Isto é, o bem, não mal, e a paz, não a violência, devem caracterizar a nossa vida.

Terceiro, devemos vencer o mal. Uma coisa é odiar o mal e outra recusar-se a revidá-lo; melhor ainda é vencê-lo ou derrotá-lo. “Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (12:21). Paulo indicou nos versículos anteriores o modo de se fazer isso, dando eco a mais palavras do Sermão do Monte. Jesus havia dito: “Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam; bendizei aos que vos maldizem, orai pelos que vos caluniam.”2 Agora Paulo escreve: “Abençoai aos que vos perseguem” (12:14), e “se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer” (12:20).

Devemos desejar o bem às pessoas, abençoando-as, e fazer o bem às pessoas, servindo-as. Na nova comunidade de Jesus as maldições devem ser substituídas pelas bênçãos, a malícia pela oração, e a vin­gança pelo serviço. De fato, a oração extirpa a malícia do coração; os lábios que abençoam não podem, ao mesmo tempo, amaldiçoar; a mão que está ocupada no serviço fica restringida de fazer vingança. “Amontoar brasas vivas sobre a cabeça” do inimigo parece um ato inamistoso, incompatível com o amor por ele. Mas é uma figura de linguagem que significa causar um profundo sentimento de vergonha — não a fim de ferir ou humilhar, mas a fim de levá-lo ao arrepen­dimento, e assim, “vencer o mal com o bem”.

A tragédia do pagar o mal com o mal é que, ao fazê-lo, acrescen­tamos mal ao mal e assim, aumentamos a quantidade de mal no mundo. Isso ocasiona o que Martinho Lutero chamou de “a reação em cadeia do mal”, à medida que o ódio multiplica o ódio e a violência multiplica a violência “numa espiral descendente de destruição”.3 A glória de amar e servir a nossos inimigos, entretanto, é que, ao fazê-lo, dimi­nuímos a quantidade de mal no mundo. O exemplo supremo disso é a cruz. A disposição de Cristo de levar o escárnio dos homens e a ira de Deus trouxe salvação a milhões. A cruz é a única alquimia que transforma o mal em bem.

Quarto, o mal deve ser punido. Se considerássemos apenas as três primeiras atitudes para com o mal, seríamos culpados de grave seletividade bíblica e, portanto, de desequilíbrio. Pois Paulo prossegue a escrever acerca do castigo do mal pelo estado. Todos aqueles que lêem com cuidado esses capítulos percebem o contraste — até mesmo uma aparente contradição — que contêm. O apóstolo diz-nos que não devemos vingar-nos a nós mesmos e que a vingança pertence a Deus (12:19). Novamente, diz-se-nos que não devemos tornar a ninguém mal por mal e que Deus retribuirá (12:17, 19). Assim, primeiro se nos proíbem a vingança e a retribuição, e a seguir são atribuídas a Deus. Não é isso intolerável? Não. O motivo por que essas coisas nos são proibidas não é que o mal não mereça ser castigado (ele merece, e deve ser punido), mas que a prerrogativa de castigo é de Deus e não nossa.

Assim, como Deus castiga o mal? De que modo ele expressa a sua ira contra os malfeitores? A resposta que de imediato me vem à mente é “no juízo final”, e isso é verdade. Os impenitentes estão acumu­lando ira contra si mesmos “para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus” (Romanos 2:5). Mas temos de esperar até esse dia? Não há outro modo pelo qual a ira de Deus se revela agora?

Há, de acordo com Paulo. O primeiro modo encontra-se na dete­rioração progressiva de uma sociedade ímpia, mediante o qual Deus “entrega” à depravação descontrolada de mente e conduta aqueles que deliberadamente sufocam o conhecimento que têm de Deus e da bondade (Romanos 1:18-32). Esse é um resultado da ira divina. O segundo é mediante os processos judiciais do estado, visto que a autoridade é “ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal” (Romanos 13:4). Nesse sentido, escreve o Dr. Cranfield, o estado é “uma manifestação parcial, antecipada e provisional da ira de Deus contra o pecado”.4

É importante observar que Paulo usa os mesmos termos no final do capítulo 12 de Romanos e no início do 13. As palavras “ira” (orgé) e “vingança/castigo” (ekdikesis e ekdikos) ocorrem em ambas as pas­sagens. Embora sejam proibidas ao povo de Deus em geral, são de­signadas aos “ministros” de Deus em particular, a saber, os oficiais do estado. Muitos cristãos encontram grande dificuldade no que per­cebem aqui ser uma “dualidade” ética.5 Gostaria de tentar esclarecer essa questão.

Primeiro, Paulo não está comparando duas entidades, a igreja e o estado, como na doutrina bem conhecida de Lutero acerca dos dois reinos, o reino da destra de Deus (a igreja), que possui uma respon­sabilidade espiritual exercida mediante o poder do evangelho, e o reino da sua esquerda (o estado) que possui uma responsabilidade política ou temporal exercida mediante o poder da espada. Jean Lasserre denomina esse ponto de “doutrina tradicional” (pois Calvino também a sustentava, embora a tenha expressado com termos dife­rentes), e o resume da seguinte maneira:

Deus encarregou a igreja com o dever de pregar o evan­gelho, e o estado com o dever de assegurar a ordem política; o cristão é tanto membro da igreja como cidadão do país; na primeira condição, ele deve obedecer a Deus, conformando-se à ética do evangelho. . . na última condição, ele deve obedecer a Deus, conformando-se à ética política da qual o juiz é o estado. . .6

É verdade que Deus concede à igreja e ao estado responsabilidades diferentes, ainda que seja necessário acentuar que elas se sobrepõem, não são dirigidas por éticas diversas e ambas estão sob o senhorio de Cristo. Mas na realidade não é essa a questão dos capítulos 12 e 13 de Romanos.

Segundo, Paulo não está fazendo diferença entre duas esferas de atividade cristã, a privada e a pública, de modo que (para dizê-lo de uma maneira um pouco rude) devemos amar nossos inimigos em particular e odiá-los em público. O conceito de um padrão duplo de moralidade, privado e público, deve ser rejeitado com firmeza; há apenas uma moralidade cristã.

Terceiro, o que Paulo faz é distinguir entre dois papéis, o pessoal e o oficial. Os cristãos são sempre cristãos (na igreja e no estado, em público e em particular), sob a mesma autoridade moral de Cristo, mas recebem papéis diferentes (no lar, no trabalho e na comunidade) os quais tornam apropriadas diferentes ações. Por exemplo, o cristão no papel de policial pode usar a força para prender um criminoso, o que, no papel de um simples cidadão ele não pode fazer; ele pode, como juiz, condenar um preso que foi achado culpado, ao passo que Jesus disse a seus discípulos: “Não julgueis, para que não sejais jul­gados”; ele pode, como carrasco (assumindo que a pena capital possa ser justificada em algumas circunstâncias) matar um condenado, em­bora lhe seja proibido assassinar. (A pena capital e a proibição do assassínio vão juntas na lei mosaica.) Isso não quer dizer que prender, julgar e executar sejam intrinsecamente errados (o que estabeleceria moralidades diferentes para a vida pública e a vida privada), mas que são reações certas ao comportamento criminoso, as quais, contudo, Deus confiou a oficiais particulares do estado.

Essa é, pois, a distinção que Paulo faz nos capítulo 12 e 13 de Romanos entre a não retribuição do mal e o seu castigo. As proibições do final do capítulo 12 não significam que o mal deve ser deixado sem punição até o dia do juízo, mas que o castigo deve ser adminis­trado pelo estado (como o agente da ira de Deus) e que não é apro­priado que os cidadãos comuns tomem a lei em suas próprias mãos.

É essa distinção que os pacifistas cristãos acham difícil aceitar. Têm a tendência de descansar o seu caso no ensino e exemplo de Jesus da não retaliação, presumindo que a retaliação é errada em si mesma. Mas a retaliação não é errada, visto que o mal merece ser punido, deve ser punido e, de fato, será punido. O próprio Jesus disse que “o Filho do homem. . . retribuirá a cada um conforme as suas obras” (Mateus 16:27), onde o verbo é semelhante ao de Romanos 12:19.

Essa verdade aparece até mesmo no relato que Pedro faz da própria não retaliação de Jesus. “Quando ultrajado, não revidava com ultraje, quando maltratado não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente” (1 Pedro 2:23). Na linguagem de Paulo, ele deixou o revide para a ira de Deus. De modo que, mesmo quando Jesus estava orando pelo perdão dos seus executores, e até mesmo quando se entregava em santo amor pela nossa salvação, a necessidade de julgamento divino sobre o mal não se encontrava ausente da sua mente. Deveras, ele próprio estava vencendo o mal nesse preciso momento, pois levava o seu justo castigo sobre si mesmo.

A autoridade do estado

Chegamos agora a outra questão perturbadora na procura em re­lacionar a cruz ao problema do mal, a saber, como os cristãos deviam ver o estado e a sua autoridade. Um estudo cuidadoso do capítulo 13 de Romanos devia ajudar-nos evitar os extremos de divinizá-lo (con­siderá-lo sempre certo) ou demonizá-lo (considerá-lo sempre errado). A atitude cristã para com o estado deve ser, pelo contrário, a de respeito crítico. Permita-me tentar resumir o ensino de Paulo aqui acerca da autoridade do estado sob quatro pontos, relacionando-os à sua origem, propósito pelo qual foi dada, meio pelo qual deve ser exer­cida e reconhecimento que deve receber. Em cada um desses casos, a autoridade do estado tem limites.

Primeiro, a origem de sua autoridade é Deus. “Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus” (v. Ia). “As autoridades que existem foram por ele instituídas” (v. 1b). “De modo que aquele que se opõe à autoridade, resiste à ordenação de Deus” (v. 2), Essa perspectiva já era clara no Antigo Testamento.7 Contudo, não devemos pensar nas funções do estado somente em termos de “autoridade”, mas também de “mi­nistério”. Pois “a autoridade” (que parece ser uma referência genérica que pode incluir qualquer oficial, desde o policial ao juiz) “é ministro de Deus para teu bem” (v. 4a). Ele o repete, “pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal” (v. 4b). Ele repete ainda uma vez que o motivo pelo qual devemos pagar impostos é que as autoridades são “ministros de Deus, atentando constantemente a este serviço” (v. 6).

Confesso que acho extremamente impressionante Paulo escrever acerca da “autoridade” e do “ministério” do estado; que três vezes ele afirma que a autoridade do estado é a autoridade de Deus; que três vezes ele descreve o estado e seus ministros como ministros de Deus, usando duas palavras (diakonos e leitourgos) que em outro lugar aplicou a seu próprio ministério de apóstolo e evangelista, e até mesmo ao ministério de Cristo.8 Não acho que há uma maneira de escaparmos a essa verdade, por exemplo mediante a interpretação do parágrafo como uma aquiescência de má vontade às realidades do poder político. Não. A despeito dos defeitos do governo romano, dos quais ele tinha conhecimento pessoal, Paulo enfaticamente declarou que a autoridade e o ministério desse governo pertencia a Deus. É a origem divina da autoridade do estado que torna a submissão cristã uma questão de “consciência” {v. 5).

Entretanto, o fato de que a autoridade do estado foi delegada por Deus, e portanto, não ser intrínseca, mas derivada, significa que ja­mais deve ser absolutista. A adoração pertence a Deus somente, e a seu Cristo, que é o Senhor de todo poder e autoridade (Efésios 1:21-22) e o “soberano dos reis da terra” (Apocalipse 1:5; cf. 19:16). O estado deve ser respeitado como instituição divina, mas prestar-lhe fidelidade irrestrita e absoluta seria idolatria. Os cristãos primitivos recusaram-se a chamar César de “senhor”; esse título pertencia a Jesus somente.

Segundo, o propósito pelo qual Deus deu autoridade ao estado é recompensar (e assim promover) o bem e punir (e assim restringir) o mal. Por outro lado, pois, o estado “louva” (dá sua aprovação) àqueles que fazem o bem (v. 3) — mediante as honrarias que concede a seus cidadãos preeminentes — e existe para “teu bem” (v. 4). Essa frase não é explicada, mas certamente cobre todos os benefícios sociais do bom governo, na preservação da paz, na manutenção da lei e da ordem, na proteção dos direitos humanos, na promoção da justiça e no cuidado dos necessitados.

Por outro lado, o estado, como ministro de Deus e agente da sua ira, pune os malfeitores (v. 4), levando-os à justiça. Os estados mo­dernos têm a tendência de serem melhores no primeiro caso que no último. Suas estruturas para o cumprimento das leis são mais sofis­ticadas do que as que se destinam ao estímulo positivo da boa cida­dania mediante recompensas pelo serviço público e filantropia. Entretanto, os castigos e as recompensas vão juntos. O apóstolo Pedro também os relaciona quando, talvez fazendo eco ao capítulo 13 de Romanos, e certamente escrevendo depois que os cristãos tinham começado a sofrer perseguição em Roma, afirma a mesma origem divina, e propósito construtivo do estado como “[autoridades] envia­das por ele, tanto para castigo dos malfeitores, como para louvor dos que praticam o bem” (1 Pedro 2:14).

Entretanto, a função dupla do estado requer um alto grau de dis­cernimento. Somente o bem deve ser recompensado, somente o mal punido. Não há aqui permissão para uma distribuição arbitrária de favores nem penalidades. Particularmente com referência ao cum­primento da lei. Em tempo de paz os inocentes devem ser protegidos, e em tempo de guerra os não combatentes devem ter a garantia da imunidade. A ação da polícia é ação discriminada, e a Bíblia coeren­temente expressa seu horror para com o derramamento do sangue inocente. O mesmo princípio de discriminação é um aspecto essencial da teoria da “guerra justa”. É por isso que esse texto torna ilegal todo uso de armas indiscriminadas (atômicas, biológicas e químicas) e todo uso indiscriminado de armas convencionais (por exemplo, o bom­bardeio até o ponto de saturação de cidades civis) usos profundamente ofensivos à consciência cristã.

Terceiro, o meio pelo qual a autoridade do estado é exercida deve ser tão controlado quanto os seus propósitos são discriminados. A fim de proteger o inocente e punir o culpado, é claramente necessário que às vezes deve-se usar a coerção. Autoridade subentende poder, embora tenhamos de fazer distinção entre violência (o uso de poder sem controle e sem princípios) e força (seu uso com controle e prin­cípios para prender malfeitores, mantê-los sob custódia, levá-los à justiça e, se condenados e sentenciados, obrigá-los a levar o castigo).

A autoridade do estado pode estender-se até à tomada judicial da vida. Pois a maioria dos comentaristas interpretam a “espada” que o estado traz (v. 4) como símbolo não apenas da autoridade geral que tem de punir, mas também como sua autoridade específica de ou infligir a penalidade capital ou declarar guerra, ou fazer ambas as coisas.9 Lutero e Calvino argumentaram que era legítimo extrapolar nesse parágrafo a fim de incluir a “guerra justa”, visto que os “mal­feitores” a que o estado tem autoridade de punir podem ser agressores que o ameaçam de fora, como também criminosos que o ameaçam de dentro.

Há, claramente, diferenças óbvias entre sentenciar e punir um cri­minoso, por um lado, e declarar e travar guerra contra um agressor, por outro. Em particular, no combate não há nem juiz nem tribunal. Ao declarar guerra, o estado está agindo como juiz em sua própria causa, visto que ainda não existe nenhum corpo independente que arbitre as disputas internacionais. E os procedimentos fixos e a at­mosfera fria e impassível do tribunal não possuem paralelos no campo de batalha. Entretanto, como demonstrou o professor Oliver 0′Do-novan, o desenvolvimento da teoria da guerra justa “representou uma tentativa sistemática para interpretar os atos de guerra por analogia aos atos do governo civil”,10 e assim, procura vê-los como pertencentes ao “contexto da administração da justiça” e como sujeitos aos “pa­drões restritivos da justiça executiva.”11 De fato, quanto mais um conflito pode ser representado em termos da procura da justiça, tanto mais forte será o caso feito por sua legitimidade.

O uso que o estado faz da força, sendo estritamente limitado ao propósito particular para o qual foi dada, deve, com igual severidade, ser limitado a indivíduos particulares, isto é, levar criminosos à justiça. Não se pode encontrar desculpa alguma no capítulo 13 de Romanos para as medidas repressivas do estado policial. Em todas as nações civilizadas, tanto a polícia como o exército possuem instruções para usar “a mínima força necessária” — suficiente apenas para realizar a sua tarefa. Durante a guerra a força tem de ser controlada como também discriminada. A consciência cristã é proteção contra a es­pantosa capacidade de morticínio dos arsenais nucleares atuais.

Quarto, estabelece-se o devido reconhecimento à autoridade do es­tado. Os cidadãos devem estar “sujeitos” às autoridades governa­mentais porque foi Deus quem as instituiu (v. 1). Em conseqüência, os que se “opõem” a elas estão resistindo a Deus, e trazem o castigo sobre si mesmos (v.2). Contudo, é necessário que o cristão se submeta não somente a fim de evitar o castigo mas também para manter uma boa consciência (v. 5). O que, pois, está incluído em nossa submissão? Certamente devemos cumprir as leis (1 Pedro 2:13) e pagar os im­postos (v. 6). Também devemos orar pelos governantes (1 Timóteo 2:1-2).

Exemplo, impostos e oração são três modos de estimular o estado a cumprir suas responsabilidades dadas por Deus. O irmos mais longe e sugerirmos que a “submissão” devida incluirá a cooperação, e até mesmo a participação no trabalho do estado, possivelmente depen­derá de ser nossa eclesiologia luterana, reformada ou anabatista. Fa­lando por mim mesmo, visto que a autoridade e o ministério do estado pertence a Deus, não vejo motivo para evitar, e toda razão para par­tilhar do seu serviço determinado por Deus.

Entretanto, deve haver limites à nossa submissão. Embora (em teo­ria, segundo o propósito de Deus), “os magistrados não são para temor quando se faz o bem” (v. 3), Paulo sabia que um procurador romano havia condenado Jesus à morte, e ele próprio de vez em quando tinha sido vítima da injustiça romana. Portanto, o que devem fazer os cristãos se o estado usar mal sua autoridade dada por Deus, perverter seu ministério dado por Deus e começar a promover o mal e punir o bem? O que se deve fazer se o estado cessar de ser ministro de Deus e tornar-se ministro de Satanás, perseguir a igreja em vez de protegê-la, e exercer uma autoridade malévola derivada não de Deus, mas do dragão (Apocalipse 13)? Então o quê?

Respondemos que ainda nesse caso os cristãos devem respeitar um estado ímpio, assim como os filhos devem respeitar a pais maus, mas não se requer deles uma submissão mansa. O apóstolo não estimula o regime totalitário. É nosso dever criticar e protestar, agitar e de­monstrar, e até mesmo (em situações extremas) resistir ao ponto de quebrar a lei por meio da desobediência. A desobediência civil é, de fato, um conceito bíblico honrado particularmente por Daniel e seus amigos no Antigo Testamento e pelos apóstolos Pedro e João no Novo.12 O princípio é claro. Visto que a autoridade do estado lhe foi dada por Deus, devemos sujeitar-nos até o ponto em que obedecer ao estado seria desobedecer a Deus. Nesse ponto, se o estado ordenar o que Deus proíbe, ou proibir o que Deus ordena, desobedecemos ao estado a fim de obedecer a Deus. Como os apóstolos disseram ao Sinédrio: “Antes importa obedecer a Deus do que aos homens.”13

Se, em circunstâncias extremas, a desobediência é permissível, será a rebeldia também permissível? É certo que a tradição cristã da “guerra justa” às vezes se tem estendido ao ponto de incluir a “revolução justa”. Mas as mesmas rigorosas condições destinadas à guerra apli­cam-se à revolta armada. Estas se relacionam com justiça (a necessi­dade de derrubar uma tirania manifestadamente ímpia), restrição (último recurso apenas, tendo sido esgotadas todas as outras opções), discriminação e controle (no uso da força), proporção (o sofrimento causado deve ser menor do que o que está sendo suportado), e con­fiança (uma expectativa razoável de êxito). Uma aplicação conscienciosa desses princípios fará que o drástico passo da rebelião seja muito raro.

Permita-me resumir os aspectos e limitações correspondentes da autoridade do estado. Visto ter sido a sua autoridade delegada por Deus, devemos respeitá-lo mas não adorá-lo. Visto que o propósito de sua autoridade é punir o mal e promover o bem, não tem desculpa alguma para exercer o governo arbitrário. A fim de cumprir esse propósito, ele pode usar a coerção, mas somente a mínima força necessária, não a violência indiscriminada. Devemos respeitar o es­tado e seus oficiais, dando-lhes uma submissão discernidora, não uma subserviência inquestionada.

Vencendo o mal com o bem

Tendo passado, em nosso estudo dos capítulos 12 e 13 de Romanos, do ódio ao mal, através da não retaliação e da conquista do mal, ao seu castigo, resta-nos o problema de harmonização. Vimos que o mal deve e não deve ser recompensado, dependendo de quem for o agente. Mas como pode o mal ser ao mesmo tempo “vencido” (12:21) e “punido” (13:4)? Essa é uma questão mais difícil e vai ao coração do debate entre os pacifistas cristãos e os teoristas da guerra justa. A mente cristã vai de uma vez à cruz de Cristo, porque lá essas duas coisas foram reconciliadas. Deus venceu o nosso mal justificando-nos somente porque ele primeiro o condenou em Cristo, e remindo-nos somente porque ele primeiro pagou o preço do resgate. Ele não venceu o mal mediante a recusa de puni-lo, mas aceitando ele mesmo o castigo. Na cruz o mal humano foi punido e vencido, e tanto a mi­sericórdia como a justiça de Deus foram satisfeitas.

Como, pois, podem essas duas coisas ser reconciliadas em nossas atitudes para com o mal hoje? A luz da cruz de Cristo, os cristãos não podem aceitar nenhuma atitude para com o mal que se desvie do seu castigo numa tentativa de vencê-lo, ou o pune sem procurar vencê-lo. Certamente o estado, como agente da ira de Deus, deve dar testemunho da sua justiça, castigando os malfeitores. Mas o povo cristão também deseja dar testemunho da sua misericórdia. Dizer que os indivíduos são dirigidos pelo amor e os estados pela justiça, é uma simplificação exagerada. Pois o amor individual não deve ser indi­ferente à justiça, nem deve a administração da justiça pelo estado desprezar esse amor pelo próximo que é o cumprimento da lei. Além do mais, o estado, em sua busca da justiça, não está sob a obrigação de exigir a penalidade máxima permitida por lei. O próprio Deus que estabeleceu o princípio de “vida por vida” protegeu a vida do primeiro assassino (Gênesis 4:15). Circunstâncias extenuantes ajudarão a tem­perar a justiça com a misericórdia. O retributivo (punir o malfeitor) e o reformativo (reabilitá-lo) vão lado a lado, pois então o mal é si­multaneamente punido e vencido.

É consideravelmente mais difícil imaginar tal reconciliação no tempo de guerra, quando são nações e não indivíduos que estão envolvidas. Mas pelo menos os cristãos devem lutar com o dilema e tentar não polarizá-lo. Os teoristas da “guerra justa” tendem a se concentrar na necessidade de resistir ao mal e puni-lo, e desprezar o outro man­damento bíblico de vencê-lo. Os pacifistas, por outro lado, tendem a se concentrar na necessidade de vencer o mal com o bem, e se es­quecem de que segundo a Escritura o mal merece ser punido. Podem essas duas ênfases bíblicas ser reconciliadas? Os cristãos pelo menos acentuarão a necessidade de olhar além da derrota e da rendição do inimigo nacional ao seu arrependimento e reabilitação. A assim cha­mada “política do perdão”, recentemente desenvolvida por Haddon Willmer,14 é relevante neste ponto. David Atkinson resume essa ên­fase muito bem:

O perdão é um conceito dinâmico de mudança. Recusa-se a ser apanhado num determinismo fatalístico. Reconhece a realidade do mal, do erro e da injustiça, mas procura reagir ao erro de modo que seja criador de novas possibi­lidades. O perdão assinala uma aproximação ao erro em termos, não de paz a qualquer preço, nem de uma intenção destrutiva de desfazer-se do malfeitor, mas de uma dis­posição em procurar remodelar o futuro à luz do erro, do modo mais criativo possível.15

Na cruz, ao mesmo tempo exigindo e levando a penalidade do pecado, e assim, simultaneamente punindo e vencendo o mal, Deus demonstrou o seu santo amor; o santo amor da cruz deve caracterizar nossa resposta aos malfeitores hoje.

13
Sofrimento e Glória

 

O fato do sofrimento indubitavelmente tem sido o maior desafio à fé cristã em todas as gerações. Sua distribuição e grau parecem ser inteiramente ao acaso e, portanto, injustos. Os espíritos sensíveis perguntam se o sofrimento pode, de algum modo, reconciliar-se com a justiça e o amor de Deus.

No dia primeiro de novembro de 1755 Lisboa foi devastada por um terremoto. Sendo o Dia de Todos os Santos, as igrejas estavam cheias, e trinta foram destruídas. Dentro de seis minutos 15.000 pessoas ti­nham morrido e outras 15.000 estavam morrendo. Um dos muitos que foram atordoados pelas notícias foi o filósofo francês Voltaire. Durante meses ele aludiu ao terremoto em suas cartas em termos de apaixonado horror. Como podia alguém agora acreditar na bondade e onipotência de Deus? Ele ridicularizou as linhas de Alexandre Pope em seu Ensaio Acerca do Homem, que havia sido escrito numa vila segura e confortável de Twickenham:

E, a despeito do orgulho, a despeito da razão errante, Uma verdade é clara: O que quer que for, é certo.

Voltaire sempre se tinha rebelado contra essa filosofia do Otimismo. Poderia Pope repetir os seus versos, se se tivesse encontrado em Lisboa? A Voltaire pareciam ilógicas (interpretando o mal como bem), irreverentes (atribuindo o mal à Providência) e injuriosas (inculcando resignação em vez de ação construtiva). Ele expressou o seu protesto pela primeira vez em Poema Acerca do Desastre de Lisboa, que pergunta por que, se Deus é livre, justo e bom, sofremos sob o seu governo. É o antigo enigma de que Deus ou não é bom ou não é todo-poderoso. Ou ele deseja dar fim ao sofrimento mas não pode fazê-lo, ou ele poderia mas não quer. Qualquer que seja o caso, como podemos adorá-lo como Deus? O segundo protesto de Voltaire foi escrever seu romance satírico Candide, a história de um jovem engenhoso, cujo mestre, o Dr. Pangloss, um professor de Otimismo, continua a as­segurá-lo de que “tudo acontece para o melhor no melhor de todos os mundos possíveis”, em desafio às suas sucessivas calamidades. Quando naufragam perto de Lisboa, Candide quase morre no terre­moto, e Pangloss é enforcado pela Inquisição. Escreve Voltaire: “Can­dide, aterrorizado, sem fala, sangrando, palpitando, disse a si mesmo: Se este é o melhor de todos os mundos possíveis, como será o resto?”1

Todavia, o problema do sofrimento está longe de ser de interesse somente dos filósofos. Ele vem de encontro a quase todos nós na área pessoal; poucos passam pela vida inteiramente ilesos. Pode ser uma privação de infância que resultou numa desordem emocional para a vida toda, ou uma deficiência congênita da mente ou do corpo. Ou, de súbito e sem aviso, somos atacados por uma enfermidade dolorosa, somos despedidos do emprego, caímos na pobreza ou sofremos a morte de uma pessoa querida. Ou então, sem querer, ficamos sozi­nhos novamente, um relacionamento de amor se desfaz, o casamento se quebra e chegam o divórcio, a depressão e a solidão.

O sofrimento vem de muitas formas desagradáveis, e às vezes não só fazemos a Deus as nossas perguntas agonizantes: “Por quê?” e “Por que eu?” mas até mesmo, como Jó, nos encolerizamos contra ele, acusando-o de injustiça e indiferença. Não conheço um líder cristão mais sincero em confessar sua ira do que Joseph Barker, que foi ministro do Templo da Cidade de 1874 até sua morte em 1902. Ele diz em sua autobiografia que até à idade de 68 anos jamais teve uma dúvida acerca da religião. Então sua esposa faleceu, e sua fé entrou em colapso. “Naquela hora negra”, escreveu ele, “quase me tornei um ateu. Pois Deus havia colocado os pés sobre as minhas orações e tratado as minhas petições com desprezo. Se eu tivesse visto um cão em agonias como as minhas, eu teria tido pena e ajudado a besta; contudo, Deus cuspiu sobre mim e lançou-me fora como uma ofensa — fora na desolação do deserto e na noite negra e sem estrelas.”2

É preciso dizer imediatamente que a Bíblia não supre solução com­pleta ao problema do mal, quer seja mal “natural”, quer “moral”, isto é, quer na forma de sofrimento quer de pecado. Conseqüente­mente, embora faça referência ao pecado e ao sofrimento praticamente em todas as suas páginas, seu interesse não é explicar a origem destes, mas ajudar-nos a vencê-los.

Meu objetivo neste capítulo é explorar a relação que possa existir entre a cruz de Cristo e os nossos sofrimentos. De modo que não apresentarei outros argumentos padrões acerca do sofrimento, in­cluídos nos livros textos, mas os mencionarei apenas como introdu­ção.

Primeiro, segundo a Bíblia, o sofrimento é uma intromissão alheia ao bom mundo de Deus, e não terá parte em seu novo Universo. É uma investida violenta e destrutiva de Satanás contra o Criador. O livro de Jó esclarece esse ponto. Também o fazem a descrição de Jesus de uma mulher enferma como estando “presa” por Satanás, o seu repreender as doenças como repreendia os demônios, a referência de Paulo a seu “espinho na carne” como “mensageiro de Satanás”, e o retrato que Pedro fez do ministério de Jesus como “curando a todos os oprimidos do diabo”.3 Assim, não importa o que se possa dizer mais tarde acerca do “bem” que Deus pode tirar do sofrimento, não devemos nos esquecer de que é bem extraído do mal.

Segundo, com freqüência o sofrimento é devido ao pecado. É claro que originalmente a doença e a morte entraram no mundo através do pecado. Mas agora estou pensando no pecado atual. Às vezes o so­frimento vem por causa do pecado de outros, como acontece quando as crianças sofrem nas mãos de pais desamorosos ou irresponsáveis, os pobres e os famintos sofrem pela injustiça econômica, os refugiados sofrem por causa das crueldades da guerra, e os que morrem nas estradas por causa de motoristas embriagados.

Outras vezes o sofrimento pode ser a conseqüência de nosso próprio pecado (o uso indevido de nossa liberdade) e até mesmo sua pena­lidade. Não devemos fazer vista grossa às passagens bíblicas que atribuem a enfermidade ao castigo de Deus.4 Ao mesmo tempo de­vemos repudiar firmemente a horrível doutrina hindu do carma, que atribui todo sofrimento a ações erradas nesta ou numa existência anterior, e a doutrina dos assim chamados consoladores de Jó, quase tão horrível quanto aquela. Apresentaram sua ortodoxia convencional de que todo sofrimento pessoal é devido ao pecado pessoal, e um dos principais propósitos do livro de Jó é contradizer essa noção popular mas errônea. Jesus também rejeitou-a categoricamente.5

Terceiro, o sofrimento é devido à nossa sensibilidade humana à dor. O infortúnio é agravado pela dor (física ou emocional) que sen­timos. Mas os sensores da dor do sistema nervoso central emitem valiosos sinais de aviso, necessários à sobrevivência pessoal e social. Talvez a melhor ilustração dessa verdade seja a descoberta do Dr. Paul Brand no Hospital Evangélico Velore, no Sul da Índia, de que o mal de Hansen (lepra) entorpece as extremidades do corpo, de modo que as úlceras e infecções que se desenvolvem sejam problemas se­cundários, devidos à perda de sensibilidade. Se vamos proteger-nos a nós mesmos, é necessário que as reações nervosas doam. “Graças a Deus por inventar a dor!”, escreveu Philip Yancey. “Não acho que ele poderia ter feito um trabalho melhor. E linda.”6

Quarto, o sofrimento é devido ao tipo de ambiente em que Deus nos colocou. Embora a maior parte do sofrimento humano seja causada pelo pecado humano (C. S. Lewis calculou que chega a quatro quintos, e Hugh Silvester dezenove vinte avós, isto é, 95%7), os de­sastres naturais como inundações, tufões, terremotos e secas não o são. É verdade que se pode argumentar que Deus não pretendia que as “áreas inóspitas” da Terra fossem habitadas, muito menos am­pliadas pela irresponsabilidade ecológica.8 Entretanto, grande quan­tidade de gente continua vivendo onde nasceram e não têm possibilidade de mudar. O que se pode dizer, então, acerca das assim chamadas “leis” naturais que na tempestade e no vendaval impla­cavelmente esmagam pessoas inocentes?

C. S. Lewis foi ao ponto de dizer que “nem mesmo a Onipotência poderia criar uma sociedade de almas livres sem ao mesmo tempo criar uma Natureza relativamente independente e ‘inexorável’ “.9 “O de que precisamos para a sociedade humana”, prosseguiu Lewis, “é exatamente o que temos — algo neutro”, estável e possuindo “uma natureza própria fixa”, como a arena na qual podemos agir livremente uns para com os outros e para com ele.10 Se vivêssemos em um mundo no qual Deus impedisse que o mal acontecesse, como o Super-homem dos filmes de Alexander Salkind, a atividade livre e responsável seria impossível.

Sempre tem havido aqueles que insistem em que o sofrimento é sem sentido, e que não podemos detectar absolutamente nenhum propósito nele. No mundo antigo encontravam-se nesse grupo os estóicos (que ensinavam a necessidade de submissão corajosa às leis inexoráveis da natureza) e os epicureus (que ensinavam que o melhor escape do mundo imprevisível era a indulgência no prazer). E no mundo moderno, os existencialistas seculares acreditam que tudo, inclusive a vida, o sofrimento e a morte, é sem sentido e, portanto, absurdo.

Mas os cristãos não podem seguir por esse beco sem saída. Pois Jesus mencionou o sofrimento como sendo tanto para a “glória de Deus”, para que o Filho fosse glorificado através dele, como “para que se manifestem nele as obras de Deus”.” Essa afirmação de alguma maneira (ainda a ser explorada) parece significar que Deus está ope­rando a revelação da sua glória no sofrimento e através dele, como fez (embora de modo diferente) por meio do de Cristo. Qual é, pois, o relacionamento entre o sofrimento de Cristo e o nosso? Como é que a cruz nos fala em nossa dor? Desejo sugerir, com base nas Escrituras, seis possíveis respostas a essas questões, as quais parecem passar gradativamente do mais simples ao mais sublime.

 

Perseverança paciente

Primeiro, a cruz de Cristo é um estímulo à perseverança paciente. Em­bora tenhamos de reconhecer o sofrimento como mal e, portanto, resistir a ele, contudo chega a época em que ele tem de ser aceito realisticamente. É então que o exemplo de Jesus, o qual o Novo Tes­tamento coloca diante de nós para que o imitemos, traansforma-se em inspiração. Pedro conduziu a mente dos seus leitores ao sofrimento, especialmente se fossem escravos cristãos com donos severos durante a perseguição de Nero. Não lhes seria de nenhum crédito em parti­cular o serem chicoteados por causa de algum malefício e o agüen­tarem com paciência. Mas se, por fazerem o bem, suportassem o sofrimento, essa atitude seria agradável a Deus. Por que? Porque o sofrimento não merecido faz parte do chamado cristão, visto que o próprio Cristo havia sofrido por eles, deixando-lhes o exemplo para que seguissem em seus passos. Embora sem pecado, ele foi insultado, mas jamais retaliou (1 Pedro 2:18-23).

Jesus deu o exemplo de perseverança bem como de não retaliação, o qual nos devia incentivar a perseverar na carreira cristã. Necessi­tamos olhar firmemente para Jesus, pois ele “suportou na cruz, não fazendo caso da ignomínia”. Portanto: “Considerai, pois, atenta­mente, aquele que suportou tamanha oposição dos pecadores contra si mesmo, para que não vos fatigueis, desmaiando em vossas almas” (Hebreus 12:1-3).

Embora esses dois exemplos se relacionem especificamente à opo­sição ou perseguição, parece legítimo dar-lhes uma aplicação mais ampla. Cristãos de todas as gerações, ao contemplarem os sofrimentos de Cristo, os quais culminaram na cruz, têm obtido a inspiração para suportar com paciência a dor não merecida, sem reclamar nem revidar.

É verdade que ele não teve de suportar muitos tipos de sofrimento. Contudo, seus sofrimentos foram notavelmente representativos. To­memos Joni Eareckson como exemplo. Em 1967, uma adolescente linda e atlética, sofreu terrível acidente de mergulho na baía de Chesapeake, o qual a deixou quadriplégica. Ela conta a sua história com tocante honestidade, inclusive suas épocas de amargura, ira, rebeldia e desespero, e como, gradativamente, através do amor de familiares e amigos, ela chegou a confiar na soberania de Deus e construir uma nova vida de pintura com a boca e conferências públicas sob a bênção de Deus. Certa noite, mais ou menos três anos depois do acidente de Joni, Cindy, uma de suas amigas mais chegadas, assentada ao lado da cama de Joni, falou-lhe de Jesus, dizendo: “Ora, ele também ficou paralisado”. Não lhe havia ocorrido antes que na cruz Jesus sofreu dor parecida com a dela, ficando incapaz de se mover, praticamente paralisado. Ela achou esse pensamento profundamente confortador.12

 

Santidade madura

Segundo, a cruz de Cristo é o caminho da santidade madura. Por mais extraordinário que possa parecer, podemos acrescentar: “foi para ele e o é para nós”. É necessário que consideremos as implicações de dois versículos um tanto negligenciados da carta aos Hebreus:

Porque convinha que aquele, por cuja causa e por quem todas as coisas existem, conduzindo muitos filhos à glória, aperfeiçoasse por meio de sofrimentos o Autor da salvação deles (2:10).

Embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem (5:8-9; cf. 7:28).

Os dois versículos falam de um processo no qual Jesus foi “aper­feiçoado”, e os dois atribuem o processo de aperfeiçoamento ao seu “sofrimento”. Não, é claro, que ele jamais tivesse sido imperfeito no sentido de haver cometido erros, pois Hebreus sublinha a sua pu­reza.13 Antes, foi que ele necessitava de mais experiência e oportu­nidades a fim de se tornar teleios, “maduro”. Em particular, ele “aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu”. Ele jamais foi desobediente. Mas seus sofrimentos foram o campo de teste no qual a sua obediência se tornou adulta.

Se o sofrimento foi o meio pelo qual o Cristo sem pecado se tornou maduro, tanto mais nós necessitamos dele em nossa pecaminosidade. É interessante que Tiago usa a mesma linguagem de “perfeição” ou “maturidade” com relação aos cristãos. Assim como o sofrimento conduziu Cristo à maturidade através da obediência, da mesma forma ele nos leva à maturidade por meio da perseverança.

Meus irmãos, tendo por motivo de toda a alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais per­feitos e íntegros, em nada deficientes {Tiago 1:2-4; cf. Ro­manos 5:3-5).

As Escrituras desenvolvem três imagens gráficas a fim de exem­plificar como Deus usa o sofrimento com relação ao seu propósito de nos tornar santos, em outras palavras, semelhantes a Cristo. São a do pai que corrige os filhos, do trabalhador em metal que refina a prata e o ouro, e do lavrador que poda a sua vinha. Podemos ver o quadro do pai e dos filhos já em Deuteronômio, onde Moisés diz: “Sabe, pois, no teu coração que, como um homem disciplina a seu filho, assim te disciplina o Senhor teu Deus.” A metáfora aparece novamente no livro de Provérbios, onde acentua-se que a disciplina do pai é uma expressão do seu amor pelos filhos, e os versículos de Provérbios são citados na carta aos Hebreus e ecoados na mensagem de Jesus à igreja laodicense.14

A passagem de Hebreus é a mais longa. Ensina que a disciplina paterna distingue os filhos verdadeiros dos ilegítimos; que Deus nos disciplina apenas para o nosso bem, a saber, “a fim de sermos par­ticipantes da sua santidade”; que no momento a disciplina é dolorosa, desagradável, mas que mais tarde ela “produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados, fruto de justiça”, deveras, não para todos (pois alguns se rebelam contra a disciplina), mas para aqueles que se submetem a ela e, assim, são “por ela exercitados”.

O segundo quadro de Deus como o de refinador de prata e ouro ocorre três vezes no Antigo Testamento, onde se torna claro que o lugar do refinamento de Israel foi na “fornalha da aflição”, e Pedro o aplica à provação de nossa fé cristã em “várias provações”. O pro­cesso é doloroso, mas por meio dele nossa fé (cujo valor é “muito mais precioso do que o ouro”) terá a prova de que é genuína e resultará na glória de Jesus Cristo.15

O terceiro quadro o próprio Jesus desenvolveu em sua alegoria da videira, na qual a frutificação dos ramos (quase certamente um sím­bolo do caráter cristão) dependerá não somente de estarem na videira, mas também em serem podados pelo viticultor. A poda é processo drástico, que muitas vezes parece cruel, à medida que a videira é recortada e deixada quase desnuda. Mas quando voltam a primavera e o verão, há muito fruto.16

As três metáforas descrevem um processo negativo, a disciplina da criança, a refinação do metal e a poda da videira. Mas as três também sublinham o resultado positivo — o bem-estar da criança, a pureza do metal e a frutificação da videira. Não devemos hesitar em dizer, portanto, que Deus pretende que o sofrimento seja um “meio da graça”. Muitos dos seus filhos podem repetir a afirmação do Salmista: “Antes de ser afligido andava errado, mas agora guardo a tua palavra” (Salmo 119:67). Pois se o amor de Deus é amor santo, como o é, então se interessa não apenas em agir em santidade (como na cruz de Cristo), mas também em promover a santidade (no povo de Deus). Como já vimos, o sofrimento favorece a perseverança e purifica a fé. Ele também desenvolve a humildade, como na ocasião em que o espinho na carne de Paulo teve o propósito de impedir que ele se tornasse orgulhoso. E aprofunda a visão, como através do amor não correspondido de Oséias por Gômer foram-lhe reveladas a fidelidade e a paciência do amor de Yavé por Israel.17

Tampouco devíamos deixar de perceber os benefícios que podem advir à vida de outras pessoas, como o altruísmo heróico dos que cuidam dos enfermos, dos senis e dos deficientes, e o surgimento espontâneo da generosidade para com os povos famintos da África.

A igreja Católica Romana tradicionalmente tem falado de “sofri­mento redentor”. Seu ensino oficial é que, mesmo depois que a culpa de nossos malefícios é perdoada, seu castigo ainda deve ser comple­tado aqui nesta vida ou no purgatório (que é “a igreja sofrendo”). Assim, o perdão não cancela a penitência, pois o castigo deve ser acrescentado ao perdão. As melhores penitências, além do mais, não são as designadas pela igreja mas as enviadas pelo próprio Deus — a saber, “cruzes, enfermidades, dores” — as quais propiciam o nosso pecado. Há, na verdade, “dois motivos para o sofrimento pelo pecado: primeiro, expiação a Deus, e segundo, reformulação de nossa alma.” Pois o sofrimento subjuga nossos apetites corporais, purifica-nos e restaura-nos.18

Esse tipo de ensino, que parece tanto subestimar a perfeição com a qual Deus, mediante Cristo, nos redimiu e nos perdoou, como atribuir eficácia expiadora a nossos sofrimentos, é muito ofensivo à mente e consciência protestante. Alguns católicos romanos, porém, usam a expressão “sofrimento redentor”, simplesmente para indicar que a aflição, embora a alguns torne amargos, a outros transforma.

É nesse sentido que Mary Craig escreve do “poder redentor do sofrimento”. Ela descreve como dois de seus quatro filhos nasceram com severas deficiências, Paulo, seu segundo filho, com a síndrome incapacitadora e desfiguradora de Hohler, e Nicholas, seu quarto filho, com a síndrome de Down. Ela conta a história de sua luta espiritual sem autopiedade ou melodrama. No capítulo final do seu livro, apropriadamente intitulado Bênçãos, ela medita no significado do sofrimento, e é então que introduz a palavra “redentor”. “Em face da evidência”, escreve ela, “não creio que o sofrimento seja, em última análise, absurdo ou sem sentido”, embora “seja freqüentemente difícil continuar a convencer a nós mesmos” desse fato. A princípio reagimos com incredulidade, ira e desespero. Contudo, “o valor do sofrimento não está na dor que acarreta,. . . mas no que o sofredor faz com ele. . . É no pesar que descobrimos as coisas que são realmente importantes; é no pesar que descobrimos a nós mesmos”.

Visto que Jesus é o único Redentor, e o Novo Testamento jamais usa a linguagem da redenção acerca de nada que fazemos, seremos sábios em não falar de “sofrimento redentor”. “Sofrimento criativo”, uma expressão popularizada pelo Dr. Paul Tournier em seu livro mais recente, seria melhor, desde que não se imagine que o sofrimento na realidade crie alguma coisa. Mas ele certamente estimula a “criativi­dade”, e é essa a mensagem. Tournier começa referindo-se a um artigo escrito pelo Dr. Pierre Rentchnick, de Geneva, em 1975, intitulado “Órfãos Dirigem o Mundo”. Tendo como base a vida dos políticos mais influentes do mundo, ele fez a espantosa descoberta de que quase 300 deles foram órfãos, de Alexandre, o Grande, e Júlio César a Carlos V, e de Luís XIV a George Washington, Napoleão e (menos felizmente) Lenin, Hitler, Stalin e Castro. Essa ocorrência natural­mente chamou a atenção do Dr. Tournier, visto que havia muito estivera promovendo a importância que tem no desenvolvimento da criança o papel harmonioso do pai e da mãe — exatamente o que os políticos mais influentes não tiveram! O Dr. Rentchnick desenvolveu a teoria de que a “insegurança criada pela privação emocional deve ter despertado nessas crianças uma excepcional força de poder.” O mesmo era evidentemente verdadeiro quanto a dirigentes religiosos, visto que, por exemplo, Moisés, Buda, Confúcio e Maomé também foram órfãos.19

O professor e psicólogo André Haynal, que tem estudado essa teoria, sugere que a “privação” de qualquer espécie (não apenas o ser órfão) jaz por trás da “criatividade” (termo que ele prefere a “força de poder”). Finalmente, o Dr. Tournier confirma a teoria com sua experiência clínica. Durante cinqüenta anos seus pacientes confiaram a ele suas dores e conflitos. “Tenho-os visto mudar por intermédio do sofrimento”, diz ele. Não que o sofrimento (que é um mal) seja a causa do crescimento; mas é sua oportunidade).” Por que, pois, alguns crescem através da deficiência, enquanto outros não? Sua reação de­pende, acredita ele, “mais da ajuda que recebem de outros do que da sua disposição hereditária”, e, em particular, depende do amor. “Privações sem o auxílio do amor significam catástrofe”, ao passo que “o fator decisivo em levar a privação a produzir fruto é o amor”.

Portanto, não é tanto o sofrimento que amadurece as pessoas, mas a maneira pela qual elas reagem a ele. “Embora o sofrimento em si mesmo possa não ser criativo, muito raramente somos criativos sem o sofrimento. . . Pode-se dizer também que não é o sofrimento que faz a pessoa crescer, mas que a pessoa não cresce sem o sofrimento.”

Combinam-se assim o ensino bíblico e a experiência pessoal, com o propósito de ensinar que o sofrimento é o caminho para a santidade ou maturidade. Sempre há um algo indefinido acerca das pessoas que sofreram. Possuem certa fragrância que falta nas outras. Exibem a mansidão e a ternura de Cristo. Uma das afirmativas mais admiráveis que Pedro faz em sua primeira carta é que “aquele que sofreu na carne deixou o pecado” (4:1). A aflição física, ele parece estar dizendo, na realidade tem o efeito de fazer que paremos de pecar. Sendo assim, às vezes indago se o teste real de nossa fome por santidade não é a disposição em experimentar o sofrimento, em qualquer grau, se tão-somente através dele Deus nos tornar santos.

 

O serviço sofredor

Terceiro, a cruz de Cristo é o símbolo do serviço sofredor. Conhecemos os quatro ou cinco “Cânticos do Servo” de Isaías, os quais, em con­junto, formam o retrato do “servo sofredor do Senhor”,20 e começa­mos no capítulo anterior a examinar o elo entre sofrimento e serviço. De caráter manso e conduta gentil (não clamará nem gritará), e amável em suas lides com os outros (não esmagará a cana quebrada nem apagará a torcida que fumega), contudo ele foi chamado por Yavé desde antes de nascer, cheio com o Espírito e receptivo à sua Palavra, com a finalidade de trazer Israel de volta para ele e ser uma lâmpada para as nações. Nessa tarefa ele persevera, mostrando intrepidez no rosto, embora suas costas sejam chicoteadas, sua barba arrancada, seu rosto cuspido, ele próprio seja levado como um cordeiro para o matadouro e morre, levando os pecados de muitos. Entretanto, como resultado de sua morte, muitos serão justificados e os gentios, es­pargidos com sua bênção.

O aspecto particularmente admirável desse quadro é que sofrimento e serviço, paixão e missão caminham juntos. Vemo-lo claramente em Jesus, que é o servo sofredor por excelência, mas necessitamos lem­brar-nos de que a missão do servo de levar luz aos gentios também é cumprida pela igreja (Atos 13:47). Para a igreja, portanto, como para o Salvador, sofrimento e serviço vão lado a lado.

Mais do que isso. Não é apenas que sofrimento e serviço caminham juntos, mas que o sofrimento é indispensável ao serviço frutífero ou eficaz. É essa a mensagem inescapável das palavras de Jesus:

“É chegada a hora de ser glorificado o Filho do homem. … Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, produz muito fruto. Quem ama a sua vida, perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo, preservá-la-á para a vida eterna. Se alguém me serve, siga-me, e onde eu estou, ali estará também o meu servo. E se alguém me servir, o Pai o honrará. . .”

“E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo. Isto dizia, significando de que gênero de morte estava para morrer” (João 12:23-26; 32-33).

É difícil aceitar a lição da ceifa. A morte é mais do que um caminho para a vida; é o segredo da frutificação. A menos que caia no solo e morra, o grão de trigo permanece como uma única semente. Per­manece vivo, mas sozinho; mas se morrer, multiplicará. Antes de tudo Jesus estava-se referindo a si mesmo. Alguns gregos desejavam vê-lo? Ele estava prestes a ser “glorificado” na morte. Logo ele seria levantado na sua cruz a fim de atrair a si mesmo todas as pessoas. Durante seu ministério terreno ele se restringiu grandemente às ove­lhas perdidas da casa de Israel, mas depois da sua morte e ressur­reição, ele teria uma autoridade universal e um apelo universal.

Mas Jesus não estava falando somente de si mesmo. Ele estava proferindo um princípio geral, e prosseguiu a aplicá-lo aos discípulos que devem segui-lo e, como ele, perder suas vidas (vv. 25-26) — não necessariamente através do martírio, mas pelo menos no serviço autodoador e sofredor. Para nós, como para ele, a semente deve morrer a fim de multiplicar-se.

Paulo é o exemplo mais notável desse princípio. Examinemos estes textos tirados de três cartas diferentes:

Por esta causa eu, Paulo, o prisioneiro de Cristo Jesus, por amor de vós, gentios. . . vos peço que não desfaleçais nas minhas tribulações por vós, pois nisso está a vossa glória (Efésios 3:1, 13).

Agora me regozijo nos meus sofrimentos por vós; e preen­cho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne, a favor do seu corpo, que é a igreja (Colossenses 1:24).

Segundo o meu evangelho; pelo qual estou sofrendo. . . Por esta razão, tudo suporto por causa dos eleitos, para que também eles obtenham a salvação que está em Cristo Jesus com eterna glória (2 Timóteo 2:8-10).

Paulo afirma nas três passagens que suporta os seus sofrimentos “por amor de vós, gentios”, “a favor do seu corpo, que é a igreja” ou “por causa dos eleitos”. Visto que o faz por eles, crê que obterão algum benefício dos sofrimentos dele. Que beneficio será esse? Na passagem aos colossenses ele diz que seus sofrimentos preenchem o que resta das aflições de Cristo. Podemos ter certeza de que Paulo não está atribuindo eficácia expiadora a seus sofrimentos, em parte porque sabia que a obra expiadora de Cristo fora concluída na cruz, e em parte porque usa a palavra especial “aflições” (thlipseis) que denota suas perseguições. São estas que não estavam terminadas, pois ele continuou a ser perseguido na sua igreja. Que benefício, pois, Paulo pensava que os seus sofrimentos trariam ao povo? Dois dos três textos ligam as palavras “sofrimentos” e “glória”. “Meus sofri­mentos. . . está a vossa glória”, diz ele aos efésios. De novo, “sal­vação. . . com eterna glória”, serão obtidas pelos eleitos por causa dos sofrimentos que Paulo está suportando (2 Timóteo 2:8-10).

Parece um absurdo. Será que Paulo realmente pensa que seus sofrimentos obterão a salvação e a glória deles? Sim, ele pensa. Não diretamente, contudo, como se seus sofrimentos possuíssem eficácia salvadora como os de Cristo, mas indiretamente porque estava so­frendo pelo evangelho que eles deviam ouvir e aceitar a fim de serem salvos. Uma vez mais, o sofrimento e o serviço iam juntos, e os sofrimentos do apóstolo eram um elo indispensável na cadeia da salvação deles.

Raramente se ensina hoje o lugar do sofrimento no serviço e o da paixão na missão. Mas o maior segredo da eficácia evangelística ou missionária é a disposição de sofrer e morrer. Pode ser uma morte à popularidade (mediante a pregação fiel de um evangelho bíblico não popular), ou ao orgulho (por meio de métodos modestos de acordo com o Espírito Santo), ou ao preconceito racial ou nacional (mediante a identificação com outra cultura), ou ao conforto material (adotando um modo de vida mais simples). Mas o servo, se quiser levar luz às nações, deve sofrer, e a semente, a fim de se multiplicar, deve morrer.

 

A esperança da glória

Quarto, a cruz de Cristo é a esperança da glória final. Jesus olhava firmemente além da sua morte para a sua ressurreição, além dos seus sofrimentos para a sua glória e, deveras, foi sustentado em suas tri­bulações pela “alegria que lhe estava proposta” {Hebreus 12:2). É igualmente claro que ele esperava que seus seguidores partilhassem essa perspectiva. A inevitabilidade do sofrimento é tema regular em seu ensino e no dos apóstolos. Se o mundo o odiou e perseguiu, odiaria e perseguiria também os seus discípulos. O sofrimento era, de fato, uma “dádiva” de Deus a todo o seu povo, e uma parte do seu chamado. Portanto, não deviam surpreender-se com ele, como se alguma coisa estranha lhes estivesse acontecendo. Era algo que podiam esperar. Nada é mais direto do que a afirmação de Paulo de que “todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos.”21

Além do mais, ao sofrer como estavam sofrendo com Cristo, eram mais do que espectadores dos seus sofrimentos agora, mais do que testemunhas, mais até mesmo do que imitadores; eram, na realidade, participantes dos seus sofrimentos, partilhando o seu “cálice” e o seu “batismo”.22 Assim, como partilham dos seus sofrimentos, também partilhariam da sua glória. A inevitabilidade do sofrimento devia ser vista não somente como devida ao antagonismo do mundo, mas tam­bém como uma preparação necessária. “Através de muitas tribula­ções, nos importa entrar no reino de Deus”, advertiam os apóstolos aos novos convertidos na Galácia. É compreensível, pois, que a mul­tidão incontável dos redimidos a que João viu perante o trono de Deus foi descrita tanto como tendo saído “da grande tribulação” (no con­texto, certamente um sinônimo da vida cristã) e como tendo alvejado as suas vestiduras “no sangue do Cordeiro”.23

É, pois, a esperança da glória que torna o sofrimento suportável. A perspectiva essencial a desenvolver é a do propósito eterno de Deus, a qual é tornar-nos santos ou semelhantes a Cristo. Devemos meditar com freqüência nos grandes textos do Novo Testamento que unem a eternidade passada e a futura dentro de um único horizonte. Porque Deus “nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele”. Seu propósito é apresentar-nos “com exultação, imaculados diante da sua glória”. É quando esses horizontes se encontram dentro de nossa visão que temos por certo que “os sofrimentos do tempo presente não são para comparar com a glória por vir a ser revelada em nós”, porque a “nossa leve e mo­mentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação”.

E o que é a “glória”, esse destino final, ao qual Deus está fazendo que tudo coopere para o bem, inclusive os nossos sofrimentos? É que sejamos “conformes à imagem de seu Filho”. O prospecto futuro que torna o sofrimento suportável, portanto, não é a recompensa em forma de “prêmio”, a qual poderia levar-nos a dizer que “sem dor não há vitória” ou “sem cruz não há coroa”, mas a única recompensa de valor inestimável, a saber, a glória de Cristo, sua própria imagem perfeitamente recriada em nós. “Seremos semelhantes a ele, porque havemos de vê-lo como ele é.”24

É esse o tema dominante do livro Destinado Para a Glória, de Margaret Clarkson, canadense, autora e escritora de hinos. Nascida num lar “desamoroso e infeliz”, e afligida desde a infância com horríveis dores de cabeça e artrite aleijante, o sofrimento tem sido seu companheiro de toda a vida. Nos primeiros dias ela experimentou o espectro total das reações humanas à dor, inclusive “raiva, frustração, desespero” e até mesmo a tentação ao suicídio. Mas, gradativamente, chegou a crer na soberania de Deus, a saber, que Deus “mostra sua soberania sobre o mal usando o próprio sofrimento que é inerente ao mal a fim de ajudar na execução de seu propósito eterno”. Nesse processo ele desenvolveu uma alquimia maior do que a dos antigos alquimistas, que procuravam transformar metais mais baixos em ouro. Pois o “único alquimista verdadeiro” é Deus. Ele tem êxito até mesmo em “transmutar o mal em bem”. Somos “destinados para a glória”, a “glória para a qual ele nos criou — a fim de nos fazer semelhantes ao seu Filho”.

Podemos responder, é claro, que não desejamos que Deus nos mude, particularmente se o meio necessário usado for a dor. “Podemos deveras desejar”, escreveu C. S. Lewis, “que tivéssemos tão pouca importância para Deus que ele nos deixasse em paz a fim de seguirmos nossos impulsos naturais — que ele desistisse de tentar treinar-nos em algo tão diferente de nossos seres naturais: mas, uma vez mais, não estamos pedindo mais amor, mas menos. . . Pedir que o amor de Deus se contente conosco como somos é o mesmo que pedir que Deus cesse de ser Deus. . .”25

Essa visão do sofrimento como o caminho da glória para o povo de Deus é, indubitavelmente, bíblica. Não se pode dizer o mesmo, con­tudo, das tentativas de universalizar o princípio e aplicá-lo a todo o sofrimento, sem exceção. Considere, por exemplo, um dos livros ofi­ciais publicados em preparação para a sexta assembléia do Concilio Mundial de Igrejas em Vancouver (1983), cujo título anunciado era “Jesus Cristo, a Vida do Mundo”. Esse livro, embora escrito por John Pouíton, surgiu de uma reunião de vinte e cinco teólogos represen­tantes, cujas perspectivas ele, portanto, incorpora. Um dos seus temas principais é o paralelo que existe entre a morte e ressurreição de Jesus por um lado, e o sofrimento e os triunfos do mundo atual por outro. Dessa forma, a totalidade da vida humana é representada como uma celebração eucarística. “Não poderíamos dizer”, pergunta John Pouí­ton, “que onde há a conjunção do sofrimento e da alegria, da morte e da vida, há eucaristia?”26

A base dessa interpretação é o fato de que “o padrão do auto-sacrifício e de novos começos não é um padrão que somente membros da igreja cristã experimentam e por ele vivem. Fora do seu círculo, outros também parecem refleti-lo, às vezes de maneira admirável”. Deveras, continua John Poulton, o entrecruzamento da dor e da ale­gria, do sofrimento e da segurança, da traição e do amor é discernível na vida cotidiana em todos os lugares. Reflete o inverno e a primavera, a Sexta-feira da Paixão e a Páscoa. Portanto, já não há necessidade da evangelização fora de moda. A nova evangelização será a obra do Espírito Santo em “focalizar em Jesus Cristo uma forma já vislumbrada na experiência humana”.

Esse, porém, não é o evangelho do Novo Testamento. A Bíblia não nos dá liberdade de afirmar que todo o sofrimento humano leva à glória. É verdade que Jesus se referiu a guerras, terremotos e fomes como o “princípio das dores de parto”, anunciando a emergência do novo mundo, como Paulo, similarmente comparou a frustração, o cativeiro da corrupção da natureza e seus gemidos à angústia do parto.27 Mas essas são referências à promessa da renovação cósmica tanto da sociedade quanto da natureza; a Bíblia não as aplica à salvação de indivíduos nem de povos.

Outro exemplo é a tentativa comovente feita pelo Dr. Ulrich Simon, um cristão judeu alemão que fugiu para a Inglaterra em 1933, e cujo pai, irmão e outros parentes pereceram nos acampamentos de con­centração nazistas, em aplicar o princípio de morte-ressurreição, sofrimentos-glória ao holocausto. Em seu livro Uma Teologia de Auschzvitz (1967) ele tentou “mostrar o padrão do sacrifício de Cristo, que resume todas as agonias, como a realidade por trás de Auschwitz”. Pois o holocausto (que naturalmente significa “oferta queimada”) “não é menos sacrifício do que aquele prefigurado nas Escrituras”, isto é, no servo sofredor do Senhor.

Dessa maneira, “o mecanismo do assassínio foi transformado numa oblação para Deus”, e aqueles que deram a sua vida nas câmaras de gás identificaram-se com o “supremo sacrifício por intermédio de uma analogia partilhada”; foram bodes expiatórios, levando os pecados do povo alemão. Mas agora os “mortos de Auschwitz se levantaram do pó”, e sua ressurreição é vista na volta de Israel à pátria, na conquista do anti-semitismo que “levou a Auschwitz e aí foi redimido”, e no testemunho judaico atual ao mundo concernente à sacralidade da vida humana e da irmandade amorosa de todos os homens. O grão de trigo, tendo caído no solo, produziu esse fruto. Assim, os sofrimentos de Auschwitz diz Ulrich Simon, estão “dentro do padrão da criação e redenção”. Em particular, interpretando o holocausto “à luz do sofrimento de Cristo” e vendo seu resultado como “refletido no triunfo do Crucificado”, tem sido possível atribuir “significado es­piritual ao que não tem sentido”. “Aventuramo-nos a atribuir a glória do Cristo assunto aos milhões que morreram nas câmaras de gás”.

Não podermos deixar de nos comover com essa tentativa de re­construção, e compreendemos os motivos pelos quais o Dr. Simon deseja desenvolver um “conceito interminável, universal e cósmico da obra de Cristo”. Mas receio que esse tipo de “teologia de Ausch­witz” seja especulativa em vez de bíblica. Creio haver um modo me­lhor e mais bíblico de relacionar a cruz com Auschwitz, e tratarei dele mais na frente. Nesse ínterim, dentro da comunidade dos que Deus, em sua misericórdia, redimiu, devia ser possível para nós ecoar as afirmações de Paulo de que “nos gloriemos nas próprias tribulações” porque “gloriamo-nos na esperança da glória de Deus” (Romanos 5:2-3).

Até aqui, procurando discernir os relacionamentos entre os sofri­mentos de Cristo e os nossos, à parte da inspiração do exemplo dele, vimos que o sofrimento (para nós como para Jesus) é o caminho designado por Deus da santificação (santidade madura), da multiplicação (serviço, frutífero) e da glorificação (nosso destino final). Espero que tudo isso, não pareça superficial. É fácil apresentar teorias, bem sei. Mas as coisas tomam aparência diferente quando o horizonte se fecha sobre nós, um horror de grandes trevas nos engolfa, e não cintila um vislumbre de luz que nos assegure que o sofrimento ainda pode ser produtivo. Nessas horas só podemos apegar-nos à cruz, onde o próprio Cristo demonstrou que a bênção vem através do sofrimento.

 

A fé e o livro de Jó

Quinto, a cruz de Cristo é o fundamento de uma fé racional. Todo sofrimento, físico e emocional, duramente prova a nossa fé. Como pode ser racional, quando a calamidade nos avassala, continuarmos a confiar em Deus? A melhor resposta a essa questão é aprovidenciada pelo livro de Jó. Valerá a pena esclarecermos a sua tese.

Jó é apresentado como um homem “íntegro e reto, temente a Deus, e que se desviava do mal”. Mas então (depois que nós, como leitores, recebemos um vislumbre das deliberações do concilio celestial), Jó é atacado por uma série de tragédias pessoais: ele é privado sucessi­vamente de seu gado, seus servos, seus filhos e filhas, e sua riqueza. Seria difícil exagerar a magnitude dos desastres que lhe sobrevieram. No restante do livro o espectro total de respostas possíveis ao sofri­mento é ensaiado no diálogo que se desenvolve entre Jó, seus três assim chamados “consoladores”, o jovem Eliú e finalmente o próprio Deus. Cada um dos quatro propõe uma atitude diferente, e particu­larmente notável em cada uma é o lugar reservado ao ego.

A atitude do próprio Jó é uma mescla de autocomiseração e auto-afirmação. Recusando-se a seguir o conselho da esposa de que amal­diçoasse a Deus e morresse, contudo ele começa a amaldiçoar o dia em que nasceu e então angustiadamente anseia pelo dia da sua morte. Ele rejeita totalmente as acusações de seus três amigos. Pelo contrário, molda as suas próprias acusações contra Deus. Deus está brutalmente cruel para com ele, até mesmo sem piedade. Pior ainda, Deus negou-lhe a justiça (27:2). A competição entre eles é altamente injusta, visto que os competidores são tão desiguais. Se tão-somente houvesse um mediador que arbitrasse entre eles! Se tão-somente ele próprio pu­desse encontrar a Deus, a fim de pessoalmente acusá-lo! Nesse ín­terim, ele veementemente mantém sua inocência e está confiante de que um dia será vindicado.

Em contraste, podemos melhor descrever a atitude recomendada pelos amigos de Jó como auto-acusação. Jó está sofrendo porque é pecador. Suas aflições são a penalidade divina por seus malefícios. É essa a ortodoxia convencional acerca dos perversos, a qual repetem ad nauseam. “Todos os dias o perverso é atormentado”, diz Elifaz (15:20). “A luz dos perversos se apagará”, acrescenta Bildade (18:5), enquanto a contribuição de Zofar é que “o júbilo dos perversos é breve” (20:5). Dessa premissa básica tiram a inevitável conclusão de que Jó está sofrendo por causa da sua maldade: “Porventura não é grande a tua malícia, e sem termo as tuas iniqüidades?” (22:5). Mas Jó não aceita nada disso. Seus amigos são “médicos que não valem nada” (13:4) e “consoladores molestos” (16:2), que só falam “estul-tfcia” e até mesmo “falsidade” (21:34). E Deus mais tarde confirma o veredicto de Jó. Ele se refere à “estultída”, deles e diz que não falaram “o que era reto, como o meu servo Jó” (42:7-8).

A seguir entra Eliú. Embora ele esteja irado pelo fato de Jó estar pretendendo “ser mais justo do que Deus” (32:2), espera para falar pois tem menos idade do que os outros. Quando fala não é fácil dis­tinguir sua posição da apresentada pelos três consoladores. Pois às vezes ele também repete a antiga ortodoxia. Ele também antecipa o discurso de Yavé acerca da criação. Contudo, parece certo chamar a atitude recomendada por ele de autodisciplina, pois sua ênfase distin­tiva é que fala de muitas maneiras (inclusive o sofrimento) a fim de “apartar o homem do seu desígnio e livrá-lo da soberba” (33:14-17). Assim, Deus abre os ouvidos das pessoas “para a instrução” e “ao aflito livra por meio da sua aflição” (36:10, 15). De fato, “quem é mestre como ele?” (v. 22). No seu ensino ele apela às pessoas a que se arrependam, e procura livrá-las de seus apertos.

Finalmente, quando se esgotaram os argumentos de Jó, dos con­soladores e de Eliú, Yavé revela-se e fala. A julgar da resposta de Jó, a atitude recomendada agora pode ser chamada de auto-entrega. Deus está longe de juntar-se às acusações dos três amigos de Jó, e não o culpa pelo fato de afirmar sua inocência (42:8). O Senhor leva a sério as reclamações de Jó, portanto, responde-lhe. Contudo, Jó proferiu “palavras sem entendimento”, visto que jamais é correto culpar, acu­sar, e muito menos “argüir” a Deus (40:2). “Acaso anularás tu, de fato, o meu juízo” pergunta Deus (40:8). E Jó responde: “Eu te co­nhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem. Por isso me abomino, e me arrependo no pó e na cinza” (42:5-6). Antes ele se defendeu, teve pena de si mesmo e afirmou-se a si mesmo, e acusou a Deus. Agora, despreza a si mesmo e adora a Deus. O que foi que ele “viu” que o converteu da auto-afirmação à auto-entrega?

Jó foi convidado a examinar de novo a criação, e vislumbrou a glória do Criador. Deus bombardeia-o com perguntas. Onde estava quando a terra e o mar foram formados? Pode ele controlar a neve, a tem­pestade e as estrelas? Possui ele a perícia de supervisionar e sustentar o mundo animal — os leões e as cabras montanhesas, o jumento selvagem e o boi selvagem, a avestruz e o cavalo, os falcões e as águias? Acima de tudo, consegue Jó compreender os mistérios e sub­jugar a força do hipopótamo e do crocodilo? O que Deus deu a Jó foi uma extensa introdução às maravilhas da natureza, e, por meio dela, uma revelação de seu gênio criador, a qual silenciou as suas acusações e o levou — mesmo em meio ao pesar, sofrimento e dor — a humilhar-se a si mesmo, arrepender-se da sua rebeldia, e confiar novamente em Deus.

Se para Jó foi racional confiar no Deus cuja sabedoria e poder foram revelados na criação, quanto mais racional é que confiemos no Deus cujo amor e justiça foram revelados na cruz? A racionalidade da con­fiança jaz na conhecida confiabilidade de seu objeto. E ninguém é mais digno de confiança do que o Deus da cruz. A cruz nos assegura que não há possibilidade de erro da justiça ou de derrota do amor agora ou no último dia. “Aquele que não poupou a seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura não nos dará graciosa­mente com ele todas as coisas?” (Romanos 8:32). É a atitude auto-doadora de Deus na dádiva de seu Filho que nos convence de que ele não reterá nada de nós daquilo de que precisamos, e não permitirá que nada nos separe do seu amor (vv. 35-39). Assim, entre a cruz, onde o amor e a justiça de Deus começaram a ser claramente reve­lados, e o dia do juízo, quando serão completamente revelados, é racional que confiemos nele.

Temos de aprender a subir o monte chamado Calvário, e dessa posição vantajosa contemplar todas as tragédias da vida. A cruz não soluciona o problema do sofrimento, mas supre a perspectiva essen­cial da qual podemos examiná-lo. Visto que Deus demonstrou seu santo amor e justiça amorosa num evento histórico (a cruz), nenhum outro evento histórico (quer seja pessoal, quer global) pode superá-lo ou desprová-lo. Certamente deve ser por isso que o rolo (o livro da história e destino) encontra-se agora nas mãos do Cordeiro que foi morto, e é por isso que somente ele é digno de quebrar os seus selos, revelar o seu conteúdo e controlar o fluxo do futuro.

 

A dor de Deus

O sexto modo pelo qual os sofrimentos de Cristo se relacionam com os nossos é o mais importante da série. É que a cruz de Cristo é a prova do amor solidário de Deus, isto é, de sua solidariedade pessoal e amorosa para conosco em nossa dor. Pois o verdadeiro aguilhão do sofrimento não é o infortúnio em si, nem mesmo a sua dor ou a sua injustiça, mas seu aparente abandono por Deus. A dor é suportável, mas a aparente indiferença de Deus não o é. Às vezes o vemos como estando descansando, ou até mesmo tirando uma soneca em alguma cadeira de balanço celestial, enquanto milhões de pessoas morrem de fome. Pensamos nele como um espectador, quase tendo prazer no sofrimento do mundo, e desfrutando seu próprio isolamento. Philip Yancey avançou um pouco mais e proferiu o indizível que podemos ter pensado mas que jamais ousamos colocar em palavras: “Se Deus realmente está no comando, de algum modo ligado a todo o sofri­mento do mundo, por que ele é tão caprichoso, injusto? É ele um sadista cósmico que se deleita em ver-nos retorcer?”28 Jó havia dito algo parecido: Deus se ri “do desespero do inocente” (9:23).

É essa terrível caricatura de Deus que a cruz desfaz em pedaços. Não devemos vê-lo numa cadeira de balanço, mas numa cruz. O Deus que nos permite sofrer, ele próprio uma vez sofreu em Cristo, e continua a sofrer conosco e para nós hoje. Visto que a cruz é um evento histórico de uma vez por todas, no qual Deus em Cristo levou os nossos pecados e morreu a nossa morte por causa do seu amor e justiça, não devemos pensar nela como a expressão de um eterno levar o pecado no coração de Deus. O que a Bíblia nos permite dizer, entretanto, é que o eterno e santo amor de Deus, que foi singular­mente demonstrado no sacrifício da cruz, continua a sofrer conosco em cada situação a que é chamado. Mas é legítimo falarmos de um Deus sofredor? Não nos impede de assim fazer a doutrina tradicional da impassibilidade divina? O adjetivo latino impassibilis significa “in­capaz de sofrer” e, portanto, “vazio de emoção”. Seu equivalente grego apathes era aplicado pelos filósofos a Deus, a quem declaravam estar acima do prazer e da dor, visto que estes interromperiam a sua tranqüilidade.

Os primitivos pais gregos da igreja aceitaram essa noção sem muitas reservas. Em conseqüência, seu ensino acerca de Deus às vezes parece mais grego do que hebraico. Era também ambivalente. É verdade que sabiam que Jesus Cristo, o Filho Encarnado, sofreu, mas não o próprio Deus. Por exemplo, Inácio escreveu a Policarpo do Deus que “não pode sofrer, que por amor a nós aceitou o sofrimento”, isto é, em Cristo.29 De modo semelhante, írineu afirmava que por causa da encarnação “o invisível se fez visível, o incompreensível, compreensível, e o impassível, passível”.30 É verdade, novamente, eles sabiam que os autores do Antigo Testamento escreveram livremente do amor, piedade, ira, pesar e ciúme de Deus. Mas acrescentavam que essas coisas eram antropormofismos que não deviam ser tomados literal­mente, visto que a natureza divina não é movida por todas as emo­ções.31 Gregório Taumaturgus, no terceiro século, chegou a escrever que “em seu sofrimento Deus mostra a sua impassibilidade”.

Esses e outros antigos pais da igreja merecem a nossa compreensão. Desejam acima de tudo salvaguardar as verdades de que Deus é perfeito (de modo que nada pode acrescentar a ele nem dele subtrair) e que Deus é imutável {de modo que nada pode perturbá-lo).32 Hoje ainda devemos desejar manter essas verdades. Deus não pode ser influenciado contra a sua vontade nem de fora nem de dentro. Ele jamais é vítima de ações que o influenciem de fora, ou de emoções que o perturbem por dentro. Como disse William Temple: “Há um sentido altamente técnico no qual Deus, como Cristo o revelou, é ‘sem paixões’; pois ele é Criador e supremo, e jamais é ‘passivo’ no sentido de que as coisas lhe aconteçam sem o seu consentimento; ele também é constante, e livre de rajadas de sentimento que o leve de um lado para outro”. Todavia, Temple prosseguiu a dizer, com razão, que o vocábulo “impassível” como usado pela maioria dos teólogos na rea­lidade significava “incapaz de sofrer”, e que “nesse sentido sua predicação de Deus é quase totalmente falsa”.33

É verdade que a linguagem do Antigo Testamento é uma acomo­dação à compreensão humana, e que Deus é representado como ex­perimentando emoções humanas. Contudo, aceitar que seus sentimentos não sejam humanos não é negar que sejam reais. Se forem apenas metafóricos, “então o único Deus que nos resta será o iceberg infinito da metafísica”.34

Em contraste com esse conceito, podemos agradecer ao erudito judaico Abraham Heschel, que, em seu livro Os Profetas refere-se à sua “teologia patética”, porque retratam a um Deus de sentimento. Os “antropomorfismos” freqüentes do Antigo Testamento (os quais atribuem o sofrimento humano a Deus) não devem ser rejeitados como rudes ou primitivos, escreve ele, antes, devem ser recebidos com prazer como cruciais à nossa compreensão dele: “a idéia mais exaltada aplicada a Deus não é a sabedoria infinita, o poder infinito, mas o interesse infinito”. Assim, antes do dilúvio Yavé “se arrependeu” de haver criado os seres humanos, e “isso lhe pesou no coração”, e quando o seu povo foi oprimido por estrangeiros, na época dos juizes, o Senhor “não pôde reter a sua compaixão por causa da desgraça de Israel”.35

Mais admirável ainda são as ocasiões em que, por intermédio dos profetas, Deus expressa o seu anelo e compaixão para com seu povo e dirige-se diretamente a Israel: “Com amor eterno eu te amei. . . pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama. . . Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti. . . Como te deixaria, ó Efraim? Como te entregaria, ó Israel?. . . Meu coração está comovido dentro em mim, as minhas compaixões à uma se acendem.”36

Além do mais, se a revelação divina final e completa foi dada em Jesus, então seus sentimentos e sofrimentos são um reflexo autêntico dos sentimentos e sofrimentos do próprio Deus. Os escritores do evangelho atribuem-lhe o espectro total das emoções humanas, pas­sando do amor e compaixão através da ira e indignação ao pesar e alegria. A teimosia do coração humano causou-lhe angústia e ira. Na entrada do túmulo de Lázaro, em face da morte, ele chorou de pesar e agitou-se de indignação. Ele chorou novamente sobre Jerusalém, e proferiu um lamento sobre sua cegueira e obstinação. E ainda hoje ele pode “compadecer-se das nossas fraquezas”, sentindo conosco nelas.37

A melhor maneira de confrontar a perspectiva tradicional da impassibilidade divina, porém, é perguntar “que significado pode haver num amor que não é custoso ao que ama”.38 Se o amor é autodoador, então inevitavelmente é vulnerável à dor, visto que se expõe a si mesmo à possibilidade de rejeição e insulto. Foi a “afirmação cristã fundamental de que Deus é amor”, escreve Jürgen Moltmann, “que em princípio quebrou o encanto da doutrina aristotélica de Deus” (isto é, como “impassível”). “Fosse Deus incapaz de sofrer. . ., então ele também seria incapaz de amar”, ao passo que “aquele que é capaz de amar também é capaz de sofrer, porque ele também se abre ao sofrimento que o amor acarreta.”39 Certamente que foi por isso que Bonhoeffer, do cárcere, nove meses antes da sua execução, escreveu ao seu amigo Eberhard Bethge: “somente o Deus sofredor pode aju­dar”.40

Digno de menção especial, como um forte oponente de perspectivas falsas da impassibilidade divina, está o erudito luterano japonês Kazoh Kitamori. Ele escreveu o seu admirável livro Teologia da Dor de Deus em 1945, não muito depois de as primeiras bombas atômicas terem destruído Hiroshima e Nagasáqui. Foi inspirado, diz-nos ele, por Jeremias 31:20, onde Deus descreve seu coração como comovido ou compadecido por Efraim. “O coração do evangelho me foi revelado como a ‘dor de Deus’ “, escreve ele. Para começar, a ira divina contra o pecado lhe causa dor. “Essa ira de Deus é absoluta e firme. Podemos dizer que o reconhecimento da ira de Deus é o princípio da sabedoria.” Mas Deus ama as próprias pessoas com as quais está irado. De modo que a “dor de Deus reflete a sua vontade de amar o objeto de sua ira”. É o seu amor e a sua ira que, juntos, produzem a dor. Porque aqui, na arrebatadora frase de Lutero, é “Deus lutando com Deus”. “O fato de que esse Deus que luta não é dois deuses diferentes mas o mesmo Deus, causa-lhe dor”. A dor de Deus é “uma síntese de sua ira e amor” e é “sua essência”. Ela foi revelada de modo supremo na cruz. Pois “a dor de Deus resulta do amor daquele que intercepta e bloqueia sua ira para conosco, aquele que foi ele próprio atingido por sua ira”. Esta fraseologia é admiravelmente ousada. Ajuda-nos a com­preender como a dor de Deus continua onde quer que sua ira e amor, sua justiça e misericórdia, encontram-se em tensão hoje.

Durante a segunda metade deste século, é provável que tenha ha­vido dois exemplos altamente conspícuos do sofrimento humano. O primeiro é a fome e a pobreza numa escala global. O segundo é o holocausto nazista no qual foram mortos seis milhões de judeus. De que maneira a cruz fala a males como esses?

Estima-se que um milhão de pessoas hoje, por terem falta do su­primento das necessidades básicas da vida, podem ser corretamente descritas como “destituídas”. Muitas levam uma existência lamen­tável nas favelas da Ásia, da América espanhola e do Brasil. A penúria do povo, a lotação de seus miseráveis abrigos, a falta de saneamento elementar, a nudez das crianças, a fome, a doença, o desemprego e a ausência de educação — tudo isso vem a ser um relato horroroso da necessidade humana. Não é de surpreender que tais favelas sejam focos de amargura e ressentimento; o que surpreende é que a desumanidade e injustiça da situação não gera uma ira ainda mais virulenta. Rolf Italiaander imagina um homem pobre de uma das favelas do Rio de Janeiro, o qual sobe até a colossal estátua de Cristo, a 704 metros de altura, que sobressai sobre o Rio, “o Cristo do Corcovado”. O homem pobre diz à estátua:

Subi a ti, ó Cristo, dos alojamentos imundos e confinados lá de baixo. . . para colocar na tua presença, com o maior respeito, estas considerações: há 900.000 pessoas como eu nas favelas desta esplêndida cidade. . . E tu, ó Cristo. . . permaneces aqui no Corcovado cercado pela glória divina? Desce lá para as favelas. Vem comigo para as favelas e mora conosco lá embaixo. Não fiques longe de nós; vive entre nós e renova a nossa fé em ti e no Pai. Amém.41

O que diria Cristo em resposta a tal apelo? Não diria ele: “Eu realmente desci para viver entre vocês, e ainda vivo entre vocês”?

Esse é, de fato, o modo pelo qual alguns teólogos latino-americanos estão apresentando a cruz hoje. Em seu livro Cristologia nas Encruzi­lhadas, por exemplo, o professor Jon Sobrino, de El Salvador, desen­volve um protesto tanto contra uma teologia puramente acadêmica que falha em tomar ações apropriadas, como contra o “misticismo” tradicional e choroso da cruz que é passivo e individualista demais. Em lugar disso, ele procura relacionar a cruz ao mundo moderno e à injustiça social. Foi o próprio Deus, pergunta ele, “intocado pela cruz histórica por ser ele essencialmente intocável?” Não, não. “O próprio Deus, o Pai, estava na cruz de Jesus”. Além disso, “Deus é encontrado nas cruzes dos oprimidos”. Desde que o professor Sobrino não esteja negando o propósito expiador fundamental da cruz, acho que não deveríamos rejeitar o que ele afirma. Eis seu resumo: “Na cruz de Jesus o próprio Deus está crucificado. O Pai sofre a morte do Filho e toma sobre si mesmo a dor e o sofrimento da história”. E, nessa solidariedade última com os seres humanos, Deus ‘”revela-se a si mesmo como o Deus do amor”.

Portanto, o que dizer do holocausto? “Depois de Auschwitz”, disse Richard Rubinstein, “é impossível crer em Deus”. Certa tarde de domingo, num subacampamento de Buchenwald, um grupo de eru­ditos judeus decidiu levar Deus a julgamento por haver ele negligen­ciado o seu povo escolhido. Apresentaram-se testemunhas para a promotoria e para a defesa, mas o caso da promotoria era esmagador. Os juizes eram rabis. Pronunciaram o réu culpado e solenemente o condenaram.42 É compreensível. A pura bestialidade dos acampa­mentos e das câmaras de gás, e o fracasso de Deus em intervir em favor do seu antigo povo, apesar de suas orações freqüentes e fer­vorosas, têm sacudido a fé de muita gente.

Eu já disse que não acredito que o modo de interpretar Auschwitz e seu resultado seja em termos de morte e ressurreição. Haverá, então, outra maneira? Acho que Elie (Eliezer) Wiesel pode ajudar-nos. Nas­cido judeu húngaro, e agora autor de renome internacional, ele nos deu em seu livro Noite um relato profundamente comovedor de suas experiências de infância nos acampamentos de morte de Auschwitz, Buna e Buchenwald. Ele não tinha ainda completado quinze anos quando a Gestapo chegou e deportou todos os judeus de Sighet, na primavera de 1944. Viajaram de trem durante três dias, oitenta pessoas em cada vagão de gado. Ao chegarem a Auschwitz, os homens e as mulheres foram separados, e Elie jamais viu sua mãe ou irmão no­vamente, “Jamais me esquecerei daquela noite, a primeira no acam­pamento, que transformou a minha vida numa longa noite, sete vezes amaldiçoada e sete vezes selada. Jamais me esquecerei daquela fumaça (do crematório). . . Jamais me esquecerei daquelas chamas que con­sumiram a minha fé para sempre. . . Jamais me esquecerei daqueles momentos que assassinaram meu Deus e minha alma, e transfor­maram os meus sonhos em pó. . .” Pouco mais tarde ele escreveu: “Alguns falavam acerca de Deus, de seus caminhos misteriosos, dos pecados do povo judeu, e de sua libertação futura. Mas eu tinha cessado de orar. Como eu me identificava com Jó! Eu não negava a existência de Deus, mas duvidava de sua justiça absoluta”.

Talvez a experiência mais horrorosa de todas foi quando os guardas primeiro torturaram e depois enforcaram um menino, “uma criança com um rosto refinado e lindo”, um “anjo de olhos tristes”. Logo antes do enforcamento Elie ouviu alguém detrás dele murmurar: “Onde está Deus? Onde está ele?” Milhares de prisioneiros foram forçados a assistir ao enforcamento (o menino levou meia hora para morrer) e então tiveram de passar por ele marchando, olhando-o de cheio no rosto. Atrás de si Elie ouviu a mesma voz perguntar: “Onde está Deus agora?” “E ouvi dentro em mim uma voz responder: Onde está ele? Ei-lo aqui — ele está pendurado aqui nesta forca. . .” Suas palavras eram mais verdadeiras do que ele sabia, pois ele não era cristão. Deveras, com cada fibra do seu ser ele se rebelou contra Deus ter permitido que o seu povo fosse torturado, morto, e queimado. “Eu estava sozinho — terrivelmente sozinho num mundo sem Deus e sem o homem. Sem amor nem misericórdia.” Teria ele dito isso se, em Jesus, tivesse visto Deus no cadafalso?

Há boa evidência bíblica de que Deus não apenas sofreu em Cristo, mas que também ele em Cristo ainda sofre com o seu povo. Não está escrito a respeito de Deus, que durante os primeiros dias do amargo cativeiro de Israel no Egito, ele não apenas viu a sua miséria, e ouviu o seu gemido, mas também “em toda a angústia deles foi ele angus­tiado”? Não perguntou Jesus a Saulo de Tarso por que o perseguia, revelando assim solidariedade com a sua igreja? É maravilhoso que possamos partilhar dos sofrimentos de Cristo; é mais maravilhoso ainda que ele partilhe dos nossos. Verdadeiramente seu nome é “Ema­nuel”, “Deus conosco”. Mas sua “compaixão” não se limita ao so­frimento com o povo da aliança. Não disse Jesus que, ao ministrarmos aos famintos e aos sedentos, aos estrangeiros, aos nus, aos enfermos e aos presos, estaríamos ministrando a ele, indicando que ele se iden­tificava com todas as pessoas necessitadas e sofredoras?43

Eu mesmo jamais poderia crer em Deus, se não fosse pela cruz. O único Deus em que creio é o que Nietzsche ridicularizou como o “Deus da cruz”. No mundo real da dor, como se pode adorar um Deus que seja imune a ela? Já entrei em muitos templos budistas em diferentes países da Ásia e parei respeitosamente ante a estátua de Buda, as pernas e os braços cruzados, os olhos fechados, o fantasma de um sorriso a brincar em torno dos lábios, um olhar distante, isolado das agonias do mundo. Mas cada vez, depois de algum tempo, tive de me virar. E, na imaginação, voltei-me para aquela figura solitária, retorcida e torturada na cruz, os cravos atravessando as mãos e os pés, as costas laceradas, os membros deslocados, a fronte sangrando por causa dos espinhos, a boca intoleravelmente sedenta, lançada nas trevas do abandono de Deus. É esse o Deus para mim! Ele deixou de lado a sua imunidade à dor. Ele entrou em nosso mundo de carne e sangue, lágrimas e morte. Ele sofreu por nós. Nossos sofrimentos tornam-se mais manejáveis à luz dos seus. Ainda há um ponto de interrogação contra o sofrimento humano, mas em cima dele podemos estampar outra marca, a cruz, que simboliza o sofrimento divino. “A cruz de Cristo. . . é a única autojustificação de Deus em um mundo como o nosso.”44

A pequena peça de teatro intitulada “O Longo Silêncio”, diz tudo:

No fim dos tempos, bilhões de pessoas estavam espalhadas numa grande planície perante o trono de Deus.

A maioria fugia da luz brilhante que se lhes apresentava pela frente. Mas alguns grupos falavam animadamente — não com vergonha abjeta, mas com beligerância.

“Pode Deus julgar-nos? Como pode ele saber acerca do sofrimento?” perguntou uma impertinente jovem de ca­belos negros. Ela rasgou a manga da blusa e mostrou um número que lhe fora tatuado num acampamento de con­centração nazista. “Nós suportamos terror. . . espanca­mentos. . . tortura. . . morte!”

Em outro grupo um rapaz negro abaixou o colarinho. “E que dizer disto?” exigiu ele, mostrando uma horrível quei­madura de corda. “Linchado. . . pelo único crime de ser preto!”

Em outra multidão, uma colegial grávida, de olhos mal­criados. “Por que devo sofrer?”, murmurou ela. “Não foi culpa minha.”

Por toda a planície havia centenas de grupos como esses. Cada um deles tinha uma reclamação contra Deus por causa do mal e do sofrimento que ele havia permitido no seu mundo. Quão feliz era Deus por viver no céu onde tudo era doçura e luz, onde não havia choro nem medo, nem fome nem ódio. O que sabia Deus acerca de tudo o que o homem fora forçado a suportar neste mundo? Pois Deus leva uma vida muito protegida, diziam.

De modo que cada um desses grupos enviou o seu líder, escolhido por ter sido o que mais sofreu. Um judeu, um negro, uma pessoa de Hiroshirna, um artrítico horrivel­mente deformado, uma criança talidomídica. No centro da planície tomaram conselho uns com os outros. Finalmente estavam prontos para apresentar o seu caso.

Antes que pudesse qualificar-se para ser juiz deles, Deus deve suportar o que suportaram. A decisão deles foi que Deus devia ser sentenciado a viver na terra — como ho­mem!

“Que ele nasça judeu. Que haja dúvida acerca da legi­timidade de seu nascimento. Dê-se-lhe um trabalho tão difícil que, ao tentar realizá-lo, até mesmo a sua família pensará que ele está louco. Que ele seja traído por seus amigos mais íntimos. Que ele enfrente acusações falsas, seja julgado por um júri preconceituoso, e condenado por um juiz covarde. Que ele seja torturado.

“Finalmente, que ele conheça o terrível sentimento de estar sozinho. Então que ele morra. Que ele morra de tal forma que não haja dúvida de que morreu. Que haja uma grande multidão de testemunhas que o comprove.”

E quando o último acabou de pronunciar a sentença, houve um longo silêncio. Ninguém proferiu palavras. Nin­guém se moveu. Pois, de súbito, todos sabiam que Deus já havia cumprido a sua sentença.

Conclusão
A Penetrante Influência da Cruz

 

No primeiro capítulo procurei estabelecer a centralidade da cruz na mente de Cristo, na Escritura e na história; no último examinarei como, a partir desse centro, a influência da cruz se estende para fora até penetrar toda a vida e fé cristã. Antes, porém, de desenvolver esse tema, pode-nos ser útil pes­quisar o território que atravessamos.

Em resposta à pergunta “Por que Cristo morreu?” refletimos que, embora Judas o tivesse entregado aos sacerdotes, os sacerdotes a Pilatos, e Pilatos aos soldados, o Novo Testamento indica que o Pai o “entregou” e que Jesus “deu-se a si mesmo” por nós. Essa verdade nos levou a olhar abaixo da superfície ao que estava acontecendo, e investigar as implicações das palavra de Jesus no cenáculo, no jardim do Getsêmani e examinar o grito de abandono.

Já se tornara evidente que sua morte relacionava-se com nossos pecados, e, assim, na Segunda Parte chegamos ao próprio coração da cruz. Começamos tratando do problema do perdão como o conflito entre a majestade de Deus e a gravidade do pecado. E embora te­nhamos rejeitado as teorias da “satisfação”, concluímos no capítulo 5 que Deus deve “satisfazer-se a si mesmo”. Isto é, ele não pode contradizer a si mesmo, mas deve agir de modo que expresse seu perfeito caráter de santo amor. Mas como podia ele fazer isso? Nossa resposta (capítulo 6) foi que a fim de satisfazer a si mesmo ele subs­tituiu-se a si mesmo em Cristo por nós. Ousamos apresentar a “auto-satisfação pela auto-substituição” como a essência da cruz.

Na Terceira Parte olhamos além da cruz para suas conseqüências, deveras, sua realização, em três esferas: a salvação dos pecadores, a revelação de Deus e a conquista do mal. Quanto à salvação, estudamos as quatro palavras “propiciação”, “redenção”, “justificação” e “re­conciliação”. Essas são “imagens” do Novo Testamento, metáforas do que Deus fez na morte de Cristo e por meio dela. Contudo, a “substituição” não é outra imagem; é a realidade que jaz por trás de todas elas. Vimos, então (capítulo 8), que Deus revelou completa e final­mente o seu amor e justiça exercendo-os na cruz. Quando se nega a substituição, obscurece-se a auto-revelação de Deus, mas quando se afirma a substituição, o brilho da sua glória aumenta. Assim, tendo-nos concentrado até aqui na cruz tanto como realização objetiva (sal­vação do pecado) quanto influência subjetiva (mediante a revelação do santo amor), concordamos em que Christus Victor é um terceiro tema bíblico, o qual retrata a vitória de Cristo sobre o diabo, a lei, a carne, o mundo e a morte, e a nossa vitória através dele (capítulo 9). Dei o título de “Vivendo Sob a Cruz” à Quarta Parte porque a comunidade cristã é essencialmente uma comunidade da cruz. De fato, a cruz radicalmente alterou todos os nossos relacionamentos. Agora adoramos a Deus em celebração contínua (capítulo 10), com­preendemos a nós mesmos e damos a nós mesmos no serviço a outros (capítulo 11), amamos os nossos inimigos, procuramos vencer o mal com o bem (capítulo 12), encarando o desconcertante problema do sofrimento à luz da cruz (capítulo 13).

 

Sete afirmações na carta aos Gálatas

A fim de enfatizar, em conclusão, a influência penetrante da cruz, a saber, que não podemos eliminá-la de nenhuma área de nosso pensamento e vida, examinaremos a carta de Paulo aos Gálatas. São dois os motivos principais dessa escolha. Primeiro, indiscutivelmente é a primeira carta do apóstolo. Não é este o lugar para determinar os prós e os contras das teorias gálata-sul ou gálata-norte. A semelhança com a carta aos Romanos pode sugerir a última data, mas a situação pressuposta em Gálatas se enquadra melhor na cronologia de Atos e fortemente favorece uma data anterior. Nesse caso a carta foi escrita por volta de 48 A.D., quinze anos depois da morte e ressurreição de Jesus. Segundo, o evangelho de Paulo em Gálatas (o qual ele defende, juntamente com sua autoridade apostólica, como vindo de Deus, não do homem) focaliza-se na cruz. Deveras, a carta contém sete admi­ráveis afirmações acerca da morte de Jesus, e cada uma delas ilumina uma faceta diferente. Colocando-as juntas, obtemos uma compreen­são espantosamente completa da influência penetrante da cruz.

1. A cruz e a salvação (1:3-5)

Graça a vós outros e paz da parte de Deus nosso Pai, e do nosso Senhor Jesus Cristo, o qual se entregou a si mesmo pelos nossos pecados, para nos desarraigar deste mundo perverso, segundo a vontade de nosso Deus e Pai, a quem seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

Essas palavras fazem parte da saudação introdutória de Paulo. Em geral uma saudação epistolar como essa seria casual ou convencional. Mas Paulo a usa como uma declaração teológica cuidadosamente equi­librada acerca da cruz, a qual indica o interesse do apóstolo na carta.

Primeiro, a morte de Jesus foi tanto voluntária quanto determinada. Por um lado, ele “se entregou a si mesmo pelos nossos pecados”, livre e voluntariamente. Por outro, sua autodoação foi “segundo a vontade de nosso Deus e Pai”. Deus Pai propôs e desejou a morte de seu Filho e a predisse nas Escrituras do Antigo Testamento. Contudo, Jesus abraçou esse propósito de livre e espontânea vontade. Ele dispôs sua vontade a fim de fazer a vontade do Pai.

Segundo, a morte de Jesus foi pelos nossos pecados. O pecado e a morte são integralmente relacionados através da Escritura como causa e efeito, como já vimos. Geralmente o que peca e o que morre são a mesma pessoa. Aqui, entretanto, embora os pecados sejam nossos, a morte é de Cristo: ele morreu pelos nossos pecados, levando a pe­nalidade deles em nosso lugar.

Terceiro, o propósito da morte de Jesus foi resgatar-nos. A salvação é uma operação de resgate, empreendida pelas pessoas cuja situação é tão desesperadora que não podem salvar-se a si mesmas. Em especial, ele morreu a fim de nos salvar “deste mundo perverso”. Tendo Cristo inaugurado uma nova era, as duas eras se sobrepõem no presente. Mas ele morreu a fim de nos resgatar da antiga era e assegurar nossa transferência à nova, de modo que já vivêssemos a vida da era vin­doura.

Quarto, o resultado presente da morte de Jesus é graça e paz. “Graça” é o seu favor livre e imerecido, e “paz” é a reconciliação com ele e uns com os outros, fruto da operação da graça. A vida da era vindoura é uma vida de graça e paz. Paulo continua a referir-se a ela nos versí­culos seguintes, nos quais ele exprime seu espanto de que os Gálatas tão rapidamente tivessem desertado aquele que os tinha chamado “na graça de Cristo” (v. 6). Pois o chamado de Deus é um chamado da graça, e o evangelho de Deus é um evangelho da graça.

Quinto, o resultado eterno da morte de Jesus é que Deus será glorificado para sempre. As referências dos versículos 3-5 à graça e à glória, como parte da mesma sentença, são surpreendentes. A graça provém de Deus; a glória é devida a ele. Esse epigrama contém toda a teologia cristã.

Aqui, pois, em uma sentença grávida, carregada, encontra-se a primeira declaração de Paulo em Gálatas acerca da cruz. Embora ela tivesse sido determinada eternamente pela vontade do Pai, Jesus se entregou voluntariamente por nós. A natureza da sua morte foi sofrer a penalidade pelos nossos pecados, e o seu propósito resgatar-nos da antiga era e transferir-nos à nova, na qual recebemos graça e paz no presente e Deus recebe glória para sempre.

2. A cruz e a experiência (2:19-21)

Porque eu, mediante a própria lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim. Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça é mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão.

Se já não conhecêssemos o versículo 20, ele nos pareceria extraor­dinário. Que Jesus Cristo foi crucificado sob Pôncio Pilatos é fato histórico estabelecido, mas o que estaria Paulo querendo dizer ao afirmar que ele foi crucificado com Cristo? Como fato físico era, ma­nifestamente, inverdade, e como fato espiritual era difícil de com­preender.

Necessitamos examinar o contexto. Os versículos 15-21 em geral tratam da justificação, como um Deus justo pode declarar justos os injustos. Mas, em especial, afirmam que os pecadores são justificados não pela lei (que recebe sete referências) mas pela graça de Deus mediante a fé. Três vezes no versículo 25 o apóstolo insiste em que ninguém pode ser justificado pela lei. Teria sido muito difícil afirmar com mais força do que ele o faz a impossibilidade da autojustificação, isto é, de ganharmos a aceitação pela obediência da lei. Por que acon­tece isso? Porque a lei condena o pecado e prescreve a morte como sua penalidade. Assim, a função da lei é condenar, não justificar.

Visto que a lei clama por minha morte como infrator da lei, como posso ser justificado? Somente cumprindo o requisito e morrendo a morte exigida por ela. Se eu mesmo tivesse de fazer tudo isso, con­tudo, seria meu fim. De modo que Deus providenciou outra maneira. Cristo levou a penalidade da minha quebra da lei, e a bênção do que ele fez se tornou minha porque estou unido com ele. Sendo um com Cristo, posso dizer: “morri para a lei” (v. 19), cumprindo as suas exigências, porque “estou crucificado com Cristo” e agora ele vive em mim (v. 20).

Como acontece em Romanos 6 e em Gálatas 2, a declaração de nossa morte e ressurreição com Cristo é a resposta de Paulo à acusação de antinomianismo. E óbvio que ninguém pode ser justificado me­diante a observância da lei. Mas isso não significa que estou livre para quebrá-la. Pelo contrário, é inconcebível que eu continue a pecar. Por quê? Porque morri; fui crucificado com Cristo; minha vida de pecados recebeu a condenação que merecia. Em conseqüência eu (o eu velho e pecaminoso) já não vivo. Mas Cristo vive em mim. Ou, como é evidente que estou vivo, posso dizer que a vida que agora vivo é completamente diferente. E o velho “eu” (pecaminoso, rebelde e cul­pado) que já não vive. É o novo “eu” (justificado e livre de conde­nação) que vive pela fé no Filho de Deus que me amou e a si mesmo se entregou por mim.

E importante compreendermos que Paulo se refere à morte e à ressurreição de Cristo, e à nossa morte e ressurreição mediante a união com ele. O apóstolo apresenta a mesma verdade de duas maneiras. Com referência à morte de nossa velha vida, ele pode dizer: “me amou e a si mesmo se entregou por mim” e: “morri. . . Estou crucificado com Cristo”. Com referência à ressurreição a uma nova vida, ele pode dizer: “Cristo vive em mim” e “vivo para Deus” (v. 19) ou: “Vivo pela fé no Filho de Deus” (v. 20).

Resumindo, Cristo morreu por mim, e eu morri com ele, cumprindo as exigências da lei e pagando a justa penalidade do pecado. Então Cristo ressurgiu e vive. E eu vivo por meio dele, partilhando sua vida de ressurreição. A justificação pela fé, pois, não elimina a graça de Deus (v. 21). Nem (como em Romanos 6) a toma por assentado, dizendo: “onde o pecado abundou, superabundou a graça”. Não, a justificação mediante a fé magnifica a graça de Deus, declarando que a justificação é pela graça somente. É o conceito de justificação pela lei que elimina a graça de Deus, pois se uma situação justa diante de Deus fosse possível pela obediência à lei, então a morte de Cristo seria supérflua.

3. A cruz e a pregação (3:1-3)

Ó Gálatas insensatos! Quem vos fascinou a vós outros, ante cujos olhos foi Jesus Cristo exposto como crucificado? Quero apenas saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei, ou pela pregação da fé? Sois assim insensatos que, tendo começado no Espírito, estejais agora vos aperfeiçoando na carne?

Paulo acabou de descrever (em 2:11-14) seu encontro público com Pedro em Antioquia, porque Pedro havia-se afastado da comunhão da mesa com os gentios cristãos, e, assim, de fato havia contraditado a livre aceitação de Deus deles pela graça. Paulo prosseguiu a ensaiar os argumentos que tinha usado com Pedro a fim de provar a doutrina da justificação pela fé. Agora ele se lança numa expressão de espan­tada indignação. Ele acusa os Gálatas de insensatez. Ele usa a palavra “insensato” (anoetos) duas vezes, que significa ter falta de nous, in­teligência. A insensatez deles é tão incaracterística e tão inaceitável que o apóstolo pergunta quem os “fascinou”. Ele implica que devem ter sido enfeitiçados, talvez pelo Arquienganador, embora sem dúvida por meio de falsos mestres humanos. Pois a sua distorção presente do evangelho é totalmente incompatível com o que ouviram de Paulo e de Barnabé. Ele, portanto, lembra-os de sua pregação de quando esteve com eles. Ele retratou a Jesus Cristo publicamente perante os seus olhos como tendo sido crucificado por causa deles. Como, pois, podiam imaginar que, tendo começado a vida cristã mediante a fé no Cristo crucificado, precisavam continuá-la por meio da sua própria realização?

Temos muito que aprender com esse texto acerca da pregação do evangelho.

Primeiro, pregar o evangelho é proclamar a cruz. É verdade que de­vemos acrescentar a ela a ressurreição (1:1; 2:19-20). Da mesma forma devemos acrescentar que Jesus nasceu de uma mulher sob a lei (4:4). Mas o evangelho em essência é as boas novas do Cristo crucificado.

Segundo, pregar o evangelho é proclamar visualmente a cruz. Paulo usa um verbo admirável, prographo. Geralmente esse verbo significa “es­crever anteriormente”, por exemplo, “escrevi há pouco” (Efésios 3:3). Mas grapho pode às vezes significar “desenhar” ou “pintar” em vez de “escrever”, e pro pode significar “ante” em lugar de (ante nossos olhos) em vez de em tempo (previamente). De modo que Paulo aqui compara sua pregação do evangelho a uma enorme tela de pintura ou a um cartaz que publicamente exibe um anúncio. O assunto dessa pintura ou desse cartaz foi Jesus Cristo na cruz. E claro que não era literalmente uma pintura, pois foi criada com palavras. Contudo, era tão visual e tão vivida em seu apelo à imaginação dos Gálatas que o cartaz foi apresentado “ante os vossos olhos”. Uma das maiores artes ou dons da pregação do evangelho é transformar os ouvidos das pessoas em olhos, e fazê-las ver o que estamos falando.

Terceiro, pregar o evangelho é proclamar a cruz visualmente como uma realidade presente. Jesus Cristo havia sido crucificado pelo menos quinze anos antes da data em que Paulo escrevia, e, em nosso caso, quase dois milênios atrás. O que Paulo fez através da sua pregação (e devemos fazer por meio da nossa) foi trazer aquele evento passado para o presente. O ministério tanto da palavra quanto do sacramento pode fazer isso. Ele pode vencer a barreira do tempo e tornar os eventos passados em realidades presentes de tal modo que as pessoas tenham de reagir a eles. É quase certo que nenhum dos leitores de Paulo esteve presente na crucificação de Jesus; contudo, a pregação do apóstolo a trouxe perante seus olhos de modo que podiam vê-la, e para a sua experiência existencial de modo que ou deviam aceitá-la ou rejeitá-la.

Quarto, pregar o evangelho é proclamar a cruz como uma realidade visual, presente e permanente. Pois o que nós (como Paulo) devemos colocar perante os olhos das pessoas não é apenas Christos staurotheis (aoristo) mas Christo estauromenos (perfeito). O tempo verbal enfatiza não tanto que a cruz foi um evento histórico do passado, mas que sua validade, poder e benefícios são permanentes. A cruz jamais deixará de ser o poder da salvação de Deus para os que crêem.

Quinto, pregar o evangelho é proclamar a cruz também como objeto de fé pessoal. Paulo não apresentou o Cristo crucificado ante os olhos deles para que pudessem apenas olhar para ele e se admirar. O propósito do apóstolo era persuadi-los a virem e colocarem sua confiança em Cristo como seu Salvador crucificado. E era isso que tinham feito. O motivo do espanto de Paulo era que, tendo recebido a justificação e o Espírito pela fé, eles imaginavam poder continuar na vida cristã por meio de suas próprias realizações. Era uma contradição do que Paulo tinha apresentado ante os seus olhos.

4. A cruz e a substituição (3:10-14)

Todos quantos, pois, são das obras da lei, estão debaixo de mal­dição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no livro da lei, para praticá-las. E é evidente que pela lei ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé. Ora, a lei não procede de fé, mas: Aquele que observar os seus preceitos, por eles viverá. Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar, porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro; para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios, em Jesus Cristo, a fim de que recebêssemos pela fé o Espírito pro­metido.

Esses versículos constituem uma das exposições mais claras da ne­cessidade, significado e conseqüência da cruz. Paulo se exprime em termos tão fortes que alguns comentaristas não puderam aceitar o que ele escreveu acerca da maldição que Cristo se tornou por nós. A. W. F. Blunt, por exemplo, escreveu em seu comentário: “A lin­guagem desse texto é admirável, quase chocante. Não ousaríamos usá-la.”1 Joachim Jeremias também a chamou de uma “frase chocante” e falou de sua “ofensa original”.2 Entretanto, o apóstolo Paulo real­mente usou esse tipo de linguagem, e Blunt certamente tinha razão em acrescentar que “Paulo quer dizer cada palavra que proferiu”. De modo que temos de aceitá-la.

Têm-se feito diversas tentativas para suavizá-la. Primeiro, sugeriu-se que Paulo deliberadamente despersonalizou a “maldição” cha­mando-a de “maldição da lei”. Mas a expressão em Deuteronômio 21:23 é “maldito de Deus”; não podemos pensar seriamente que Paulo esteja contradizendo a Escritura. Segundo, propôs-se que o “fazer-se maldição” expressa a simpatia de Cristo pelos infratores da lei, não uma aceitação objetiva do seu juízo. Eis a interpretação de Blunt: “Não foi por meio de uma ficção forense que Cristo levou os nossos pecados, mas por um ato de genuíno sentimento de companheirismo”, qual uma mãe que tem um filho que erra mas que “sente que a culpa dele é também dela”.3 Essa, porém é uma evasão; não faz justiça às palavras de Paulo. Como disse Jeremias, “fez-se” é “uma circunlocução para a ação de Deus”.

Terceiro, diz-se que a declaração de Paulo de que Cristo se tornou “maldição” por nós fica aquém de afirmar que ele na realidade foi “maldito”. Mas segundo Jeremias “maldição” é uma “metonímia do amaldiçoado”, e devíamos traduzir essa frase como “Deus fez Cristo um amaldiçoado por causa de nós”. Esse versículo é, então, paralelo ao de 2 Coríntios 5:21 que diz: “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós”. E seremos capazes de aceitar as duas frases, deveras, adorar a Deus pela verdade delas, porque “Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo” (2 Coríntios 5:19) mesmo quando ele fez Cristo tanto pecado quanto maldição.

Lutero compreendeu bem claramente o que Paulo queria dizer e expressou suas implicações com característica singeleza:

Nosso Pai misericordioso, vendo-nos oprimidos e vencidos pela maldição da lei, de modo que jamais poderíamos li­vrar-nos dela por meio de nosso próprio poder, enviou seu único Filho ao mundo e pôs sobre ele todos os pecados de todos os homens, dizendo: Sê tu Pedro, o negador; Paulo, perseguidor, blasfemador e cruel opressor; Davi, o adúl­tero; o pecador que comeu do fruto no Paraíso; o ladrão que foi pendurado na cruz; e brevemente, sê tu a pessoa que cometeu os pecados de todos os homens; vê que, por­tanto, pague-os e os satisfaça.4

Necessitamos sentir a lógica do ensino de Paulo. Primeiro, todos os que confiam na lei estão sob maldição. No começo do versículo 10 Paulo novamente emprega a expressão que usou três vezes em 2:16, a saber, “todos quantos, pois, são das obras da lei” (literalmente). O motivo pelo qual Paulo pode declarar que tais estão “debaixo de maldição” é que as Escrituras dizem que estão. “Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas que estão no livro da lei, para praticá-las” (cf. Deuteronômio 27:26). Ser humano algum jamais “perma­neceu” em “praticar” o que a lei requer. Ninguém, a não ser Jesus, conseguiu prestar tal obediência contínua e total, de modo que “ê evidente” (v. 11) que “pela lei ninguém é justificado diante de Deus”, porque ninguém a guardou.

Além disso, a Escritura também diz que “o justo viverá pela fé” (Habacuque 2:4), e viver “pela fé” e viver “pela lei” são dois estados completamente diferentes (v. 12). A conclusão é inevitável. Embora teoricamente os que obedecem à lei viverão, na prática ninguém vi­verá, porque ninguém ainda lhe obedeceu. Portanto, não podemos obter a salvação dessa maneira. Pelo contrário, longe de sermos salvos pela lei, somos amaldiçoados por ela. A maldição ou juízo de Deus, que sua lei pronuncia sobre os infratores, descansa sobre nós. É essa a assombrosa situação da humanidade perdida.

Segundo, Cristo nos redimiu da maldição da lei fazendo-se maldição por nós. Talvez essa seja a declaração mais clara do Novo Testamento acerca da substituição. A maldição da quebra da lei repousava sobre nós; Cristo nos redimiu, tornando-se maldição em nosso lugar. A maldição que pairava sobre nós foi transferida a ele. Ele a assumiu para que pudéssemos escapar. E a evidência de que ele levou nossa maldição é ter sido pendurado no madeiro, visto que Deuteronômio 21:23 declara que tal pessoa é maldita (v. 13).

Terceiro, Cristo fez isso a fim de que nele a bênção de Abraão pudesse ir para os gentios. . . pela fé (v. 14). O apóstolo deliberadamente passa da linguagem da maldição para a da bênção. Cristo morreu por nós não apenas para remir-nos da maldição divina, mas também para assegurar-nos a bênção divina. Ele, nos séculos passados, tinha pro­metido abençoar a Abraão e através da descendência deste às nações gentias. E essa bênção Paulo aqui interpreta como “justificação” (v. 8) e “Espírito” (v. 14); todos os que estão em Cristo são, assim, ri­camente abençoados.

Resumindo, por causa da nossa desobediência estávamos debaixo da maldição da lei. Cristo nos redimiu, levando-a em nosso lugar. Como resultado, recebemos pela fé em Cristo a bênção prometida da salvação. A seqüência é irresistível. Leva-nos à adoração humilde de que Deus em Cristo, em seu santo amor por nós, estava disposto a ir a tais extremos, e que as bênçãos que hoje desfrutamos são devidas à maldição que ele levou por nós na cruz.

5. A cruz e a perseguição (5:11; 6:12)

Eu, porém, irmãos, se ainda prego a circuncisão, por que continuo sendo perseguido? Logo está desfeito o escândalo da cruz. Todos os que querem ostentar-se na carne, esses vos constrangem a vos circunridardes, somente para não serem perseguidos por causa da cruz de Cristo.

Ambos os versículos mencionam a cruz de Cristo, e em 5:11 ela é chamada de “escândalo” ou “pedra de tropeço”. Ambos os versículos fazem referência à perseguição. Segundo 5:11, Paulo está sendo per­seguido por pregar a cruz; segundo 6:12, os falsos mestres evitam a perseguição pregando a circuncisão em lugar da cruz. De modo que a alternativa para os evangelistas, pastores e mestres cristãos é pregar ou a circuncisão ou a cruz.

“Pregar a circuncisão” é pregar a salvação pela lei, isto é, por meio da realização humana. Tal mensagem remove o escândalo da cruz, escândalo pelo fato de não podermos ganhar nossa salvação; esse tipo de mensagem, portanto, nos exime da perseguição.

“Pregar a cruz” (como em 3:1) é pregar a salvação pela graça de Deus somente. Tal mensagem é pedra de tropeço (1 Coríntios 1:23) porque é gravemente escandalosa para o orgulho humano; ela, por­tanto, nos expõe à perseguição.

É claro que não há judaizantes no mundo hoje, pregando a neces­sidade da circuncisão. Mas há uma abundância de mestres falsos, tanto dentro como fora da igreja, que pregam um falso evangelho (que não é evangelho, 1:7), a salvação por meio das boas obras. Pregar a salvação por meio das boas obras é elogiar as pessoas, evitando, assim, a oposição. Pregar a salvação pela graça é escandalizar as pes­soas, suscitando, assim, a oposição. Para alguns isso pode parecer alternativa demasiadamente severa. Mas não penso assim. Todos os pregadores cristãos têm de enfrentar essa questão. Ou pregamos que os seres humanos são rebeldes contra Deus, estão debaixo do seu juízo e (se deixados em paz) perdidos, e que o Cristo crucificado que levou o nosso pecado e maldição é o único Salvador disponível, ou enfatizamos o potencial e a habilidade humanos, usando a Cristo apenas como um aumento dessas qualidades, não tendo nenhuma necessidade da cruz a não ser exibir o amor de Deus e, assim, inspirar-nos a maior esforço.

O primeiro é o caminho da fidelidade, o último o caminho da po­pularidade. Não é possível ser fiel e popular ao mesmo tempo. Ne­cessitamos ouvir novamente o aviso de Jesus: “Ai de vós, quando todos vos louvar! porque assim procederam os seus pais com os falsos profetas” (Lucas 6:26). Em contraste, se pregamos a cruz, podemos descobrir que nós próprios somos perseguidos para ela. Como escre­veu Erasmo em seu tratado Sobre a Pregação: “Que ele (o pregador) se lembre de que a cruz jamais será faltosa aos que sinceramente pregam o evangelho. Sempre haverá Herodes, Ananias, Caifases, Escribas e Fariseus.”5

6. A cruz e a santidade (5:24)

E os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências.

É essencial que examinemos esse texto (como de fato todos os tex­tos) no seu contexto. No capítulo 5 de Gálatas Paulo trata do significado da liberdade moral. Ele declara que não é auto-indulgência, mas controle próprio, não servir a nós mesmos mas servir uns aos outros em amor (v. 13). Por trás dessa alternativa está o conflito interior do qual todos os cristãos têm consciência. O apóstolo chama os protagonistas de “carne” (nossa natureza caída e com a qual nas­cemos) e de “Espírito” (o próprio Espírito Santo que habita em nós quando nascemos de novo). Nos versículos 16-18 ele descreve o con­curso entre os dois, porque os desejos da carne e os do Espírito são contrários uns aos outros.

Os atos da carne (vv. 19-21) incluem imoralidade sexual, apostasia religiosa (idolatria e feitiçaria), quebra social (ódio, discórdia, inveja, ambição egoísta e facções) e apetites físicos descontrolados (bebedice e orgias). O fruto do Espírito (vv. 22-23), contudo — as graças que ele faz amadurecer nas pessoas a quem ele enche — inclui amor, alegria e paz (especialmente com relação a Deus), paciência, bondade e mansidão (em relação uns com os outros), e fidelidade, gentileza e domínio próprio (em relação a nós).

Como, pois, podemos fazer que os desejos do Espírito predominem sobre os da carne? Paulo responde que depende da atitude que ado­tarmos para com cada um deles. Segundo o versículo 24, devemos “crucificar” a carne, com as suas paixões e concupiscências. Segundo o versículo 25, devemos “viver” e “andar” no Espírito.

Meu interesse neste capítulo está no versículo 24, por causa da declaração de que os que pertencem a Cristo “crucificaram” sua carne, ou natureza pecaminosa. É essa uma metáfora espantosa. Pois a crucificação era uma forma horrível e brutal de execução. Contudo, graficamente ilustra qual deve ser nossa atitude para com a natureza caída. Não devemos acariciá-la, nem estragá-la, dando-lhe estímulo ou até mesmo paciência. Pelo contrário, devemos rejeitá-la de modo cruel, juntamente com seus desejos. Paulo está elaborando o ensino de Jesus acerca do “tomar a cruz” e segui-lo. Ele nos está dizendo o que acontece quando chegamos ao lugar da execução: a crucificação real se realiza.

Lutero escreve que o povo de Cristo prega a sua carne à cruz, “de modo que embora a carne ainda viva, contudo não pode realizar o que faria, pois se encontra atada de pés e mãos, e firmemente pregada na cruz.”6 E se não estivermos prontos para crucificar a nós mesmos dessa maneira decisiva, logo descobriremos que em seu lugar estamos crucificando novamente o Filho de Deus. A essência da apostasia é “passar do lado do Crucificado para o dos crucificadores”.7

As crucificações de Gálatas 2:20 e 5:24 referem-se a duas coisas bem diferentes, como mencionamos num capítulo anterior. A primeira diz que fomos crucificados com Cristo (aconteceu a nós como resultado de nossa união com ele), e a segunda afirma que o próprio povo de Cristo tem praticado a ação de crucificar sua velha natureza. A pri­meira fala de nossa liberdade da condenação da lei mediante a partilhação da crucificação de Cristo, a segunda de nossa liberdade do poder da carne, assegurando a sua crucificação. Não devemos con­fundir estas duas coisas, a saber, termos sido crucificados com Cristo (passivo) e termos crucificado a carne (ativo).

7. A cruz e a vanglória (6:14)

Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo.

E difícil encontrar-se um equivalente da palavra kauchaomai. Sig­nifica gloriar-se, confiar em, regozijar-se em, ter prazer em, viver para alguma coisa. O objeto de nossa vangloria enche os nossos horizontes, domina nossa atenção, e absorve o nosso tempo e energia. Numa palavra, nossa “vangloria” é a nossa obsessão.

Alguns estão obcecados consigo mesmos e com o seu dinheiro, fama ou poder; os mestres falsos da Galácia eram triunfalistas, ob­cecados com o número dos convertidos (v. 13); mas a obsessão de Paulo era com Cristo e a sua cruz. Aquilo que o cidadão romano via como objeto de vergonha, desgraça e até mesmo desgosto era para Paulo o seu orgulho, vangloria e glória. Além do mais, não podemos colocar isso de lado como idiossincrasia paulina. Pois, como vimos, a cruz ocupava o centro da mente de Cristo, e sempre tem ocupado o centro da fé da igreja.

Primeiro, gloriar-se na cruz é vê-la como o caminho da aceitação com Deus. A questão mais importante de todas é como nós, pecadores perdidos e culpados, podemos comparecer perante um Deus santo e justo. Foi com o fim de responder a essa questão alto e bom som que Paulo, no calor apaixonado da sua controvérsia com os judaizantes, escreveu a carta aos Gálatas. Como eles, alguns hoje ainda confiam em seus próprios méritos. Mas Deus nos livre de que nos gloriemos a não ser na cruz. A cruz exclui a todos os outros tipos de vangloria (Romanos 3:27).

Segundo, gloriar-se na cruz é vê-la como o padrão de nossa negação própria. Embora Paulo escreva de apenas uma cruz (“a cruz de nosso Senhor Jesus Cristo”) ele se refere a duas crucificações, ou mesmo a três. Na mesma cruz em que nosso Senhor Jesus Cristo foi crucificado, “o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo”. O “mundo” assim crucificado (repudiado) não significa, é claro, as pes­soas do mundo (pois somos chamados a amá-las e servi-las), mas os valores do mundo, seu materialismo ímpio, vaidade e hipocrisia (pois não se nos ordena que amemos a estes, mas que os rejeitemos). “A carne” já foi crucificada (5:24); agora “o mundo” junta-se a ela na cruz. Devemos manter as duas crucificações principais de 6:14 em íntima relação uma com a outra — a de Cristo e a nossa. Pois não são duas, mas uma. É somente a visão da cruz de Cristo que nos fará dispostos, e até mesmo ansiosos por tomar a nossa. É somente então que poderemos, com integridade, repetir as palavras de Paulo com ele, de que não nos gloriamos em nada a não ser na cruz.

Consideramos as sete grandes declarações de Paulo na carta aos Gálatas acerca da cruz, e as examinamos na ordem em que ocorrem. Pode ser útil, em conclusão, reordená-las e reagrupá-las em ordem teológica em vez de cronológica, a fim de compreendermos ainda mais firmemente a centralidade e penetração da cruz em todas as esferas da vida cristã.

Primeiro, a cruz é o fundamento de nossa justificação. Cristo nos res­gatou do presente mundo perverso (1:4) e nos redimiu da maldição da lei (3:13). E o motivo pelo qual ele nos livrou desse cativeiro duplo é que possamos nos apresentar audazmente na presença de Deus como filhos e filhas, sermos declarados justos e recebermos a habi­tação do seu Espírito.

Segundo, a cruz é o meio de nossa santificação. É aqui que entram as outras três crucificações. Fomos crucificados com Cristo (2:20). Cru­cificamos a nossa natureza caída (5:24). E o mundo está crucificado para nós, como o estamos para o mundo (6:14). De modo que a cruz é mais que a crucificação de Jesus; inclui a nossa crucificação, a crucificação da nossa carne e a crucificação do mundo.

Terceiro, a cruz é o assunto de nosso testemunho. Devemos apresentar um cartaz do Cristo crucificado ante os olhos do povo, de modo que vejam e creiam (3:1). Ao fazermos isso, não devemos expurgar o evangelho, extraindo dele seu escândalo ao orgulho humano. Não, qualquer que seja o preço, preguemos a cruz (o mérito de Cristo), não a circuncisão (o mérito do homem); é o único modo de salvação (5:11; 6:12).

Quarto, a cruz é o objeto de nossa glória. Que Deus nos livre de gloriarmos em algo mais (6:14). Todo o mundo de Paulo girava em torno da cruz. Ela enchia a sua visão, iluminava a sua vida, aquecia o seu espírito. Ele se “gloriava” nela. Significava mais para ele do que qualquer outra coisa. Devíamos ter a mesma perspectiva.

Se a cruz não se encontra no centro dessas quatro esferas, então merecemos que se nos aplique a mais terrível de todas as descrições: “inimigos da cruz de Cristo” (Filipenses 3:18). Sermos inimigos da cruz é nos opormos aos seus propósitos. A justificação própria (em vez de ir à cruz em busca de justificação), a auto-indulgência (em vez de tomar a cruz e seguir a Cristo), o anúncio próprio (em vez de pregar a Cristo crucificado) e a glorificação própria (em vez de nos gloriarmos na cruz) — são essas as distorções que nos tornam “inimigos” da cruz de Cristo.

Paulo, por outro lado, foi um amigo devotado da cruz. Ele se iden­tificou com ela de modo tão íntimo que sofreu perseguição física por ela. “Trago no corpo as marcas de Jesus” (Gálatas 6:17), escreveu ele, as chagas e as cicatrizes que ele recebera ao proclamar o Cristo cru­cificado, os stigmata que o marcaram como autêntico escravo de Cristo.

Os stigmata de Jesus, no espírito se não no corpo, permanecem como marcas da autenticação para cada discípulo cristão, e em especial para cada testemunha cristã. Campbel Morgan o expressou muito bem:

Só o homem crucificado pode pregar a cruz. Disse Tome: “A menos que eu veja em suas mãos o sinal dos cravos. . . não crerei”. O Dr. Parker, de Londres, disse que o que Tome disse acerca de Cristo, o mundo hoje está dizendo a respeito da igreja. E o mundo também está dizendo a cada pregador: A menos que eu veja em tuas mãos as marcas dos cravos, não crerei. É verdade. Só o homem, que morreu com Cristo,. . . pode pregar a cruz de Cristo.8

Notas

Prefácio

1J. I. Packer, “What Did the Cross Achieve?”, p. 3.

2Sou grato ao Dr. Douglas Johnson por dar-me esta informação, que complementa o relato de Ian H. Murray em David Martyn Lloyd-Jones, pp. 190-191.

3Vincent Taylor, Atonement, p. 258.

Capítulo 1

1Michael Gough, Origins of Christian Ari, p. 18. Veja também J. H. Miller, “Cross” e “Crucifix”; Christian World, ed. Geoffrey Barraclough; Cross and Crucifix por Cyril E. Pocknee.

2Tertuliano, De Corona, Cap. III, p. 94.

3Gregory Dix (ed.), Apostolic Tradition of St. Hippolytus, p. XI.

4Ibid pp. 68-69.

5Cipriano, Ad Thibaritanos IX.

6Cipriano, De Lapsis 2.

7Richard Hooker, Ecclesiastical Polity, Livro V, Cap. LXV 20, “Da Cruz e do Batismo”.

8Ibid., Livro V, cap. LXV 6.

9Veja especialmente as pp. 1-10 sobre a Crucificação por Martin Hengel, cujo título original foi Mors turpissima cruas, “a morte totalmente vil

da cruz”, uma expressão primeiramente usada por Orígenes.

10Veja os relatos dados por Josefo em Antigüidades XVII 10:10 e Guerra Judaica V. XI:1.

11Cícero, Against Verres II. V. 64, parágrafo 165.

12Ibid., II. V. 66, parágrafo 170.

13Gcero, In Defence of Rabirius V. 16, p. 467.

14Justino Mártir, Dialogue with Trypho a Jew, cap. LXXXIX.

15Cf. Mateus 16:21ss; Lucas 9:22ss.

16Marcos 10:32-34; cf. Mateus 20:17-19.

17Mateus 17:9-13; Marcos 9:9-13; cf. Lucas 9:44.

18Marcos 10:35-45; Mateus 20:20-28.

19Marcos 12:1-12; cf. Mateus 21:33-46; Lucas 20:9-19.

20Para os ditos da Páscoa veja Mateus 26:2; para as referências ao enterro Marcos 14:3-9 e cf. Mateus 26:6-13; para o ai sobre Judas Marcos 14:10ss e cf, Mateus 26:14ss e Lucas 22:22; para a instituição da ceia Marcos 14:22-25 e cf. Mateus 26:26-29, Lucas 22:14-20 e 1 Coríntios 11:23-26; para a prisão Mateus 26:47-56 e cf. Marcos 14:43-50, Lucas 22:47-53 e João 18:1-11. 21João 2:4; 7:8.

22João 7:25ss especialmente v. 30, e 8:12ss especialmente v. 20. 23João 12:20-28.

24João 13:1; 17:1.

25João 12:27; 13:1; Marcos 14:35, 41. Cf. 26:18.

26Joachim Jeremias desenvolve este argumento em Central Message. Veja especialmente p. 41. 27Zacarias 13:7; Mateus 26:31; Marcos 14:27.

28Salmo 118:22; Mateus 21:42; Marcos 12:10-11; Lucas 20:17. Cf. Atos 4:11; 1 Pedro 2:7.

29Marcos 8:31; Lucas 24:44; Mateus 26:54; Lucas 24:26. 30Atos 2:14-39; 3:12-26; 4:8-12; 5:29-32 e 10:34-43. 31Atos 13:16-41; 14:15-17; 17:2-3, 22-31; 28:23-31. 32 Exemplo Atos 2:23; 3:18; 4:28. 33Atos 5:30; 10:39; 13:29. 34Atos 2:23, 36; 4:10; 17:3; 13:28.

35Cf. Atos 2:23-24; 3:15; 4:10; 5:30; 10:39-40; 13:28-30 36Atos 3:13; 2:33.

37Cf. Atos 2:33-36; 3:26; 5:31-32; 10:43; 13:38-39.

38Atos 2:38; 3:16; 4:10, 12; cf. Lucas 24:46-47. 391 Coríntios 1:18-25; Romanos 6:3; 1 Coríntios 11:26. 40Exemplo 1 João 2:22; 4:1-3; 2 João 7.

411 João 3:16; 4:9, 14; 4:10 e cf. 2:1-2; 1:7.

42Veja especialmente Hebreus 8—10. 43Apocalipse 7:9-14, 16-17; 13:8; 21:27; 14:lss. 44Apocalipse 5:1-6; 22:1, 3; 12:11; 17:14.

45Apocalipse 5:8-9, 11-14.

46Apocalipse 6:15-17; 19:6-7; 21:9-10, 22-23. 47Hebreus 6:6; Filipenses 2:8; Hebreus 12:12. 48Lucas 24:26; João 12:23-24; 1 Pedro 1:11; 4:13; 5:1, 10; 4:14. 49Citações de O Alcorão. As cinco rejeições da possiblidade da “subs­tituição” encontram-se nas páginas 114 (Lm 38), 176 (XXV 18), 230 (XVII 15), 274 (XXXIX 7) e 429 (VI164).

50O evangeího espúrio de “Barnabé”, escrito em italiano no século 14 ou 15 por um cristão convertido ao islã, contém partes do Alcorão como dos quatro Evangelhos canônicos. Conta a fantástica história de que, quando Judas chegou com os soldados para prender a Jesus, este se retirou para uma casa. Três anjos o resgataram por uma janela, ao passo que Judas ficou tão mudado em “discurso e aparência” que foi confundido com Jesus, e em lugar deste foi crucificado.

51Samuel M. Zwemer, Glory of the Cross, p. 6.

52Gandhi: An Autobiography, p. 113.

53The Guardian, 30 de agosto de 1979.

54Do capítulo intitulado “Jesus e a História” em Truth of God Incarnaie, ed. E. M. B. Green, p. 80.

55Justino Mártir, First Apology, cap. LV, “Símbolos da Cruz”.

56Malcolm Muggeridge, Jesus Rediscovered, pp. 24-25.

Capítulo 2

1Mateus 27:32-35; Marcos 15:21-25; Lucas 23:26-33; João 19:17-18. 2Antigüidades XVIII 3:2. 3Ad Gaium 38, p. 165 4Lucas 23:4; João 18:38. 5Lucas 23:13-15; cf. João 19:4-5. 6Lucas 23:22; João 19:6.

7H. B. Swete, The Gospel According to St Mark, p. 350. 8Mateus 27:18; cf. Marcos 15:10.

9Mateus 2:13; 27:20.

10C. S. Lewis, Surprised by joy, p. 163.

11Mateus 10:4; Marcos 3:19; Lucas 6:16.

12João6:64, 71; 13:11.

13João 17:12. Cf. Atos 1:15-17, 25. 14João 13:2, 27. Cf. Lucas 22:3

15O fundador do partido dos zelotes tinha o mesmo nome que Judas, isto é, “Judas, o galileu”, que, em 6 A.D. liderou uma revolta armada contra Roma (mencionada em Atos 5:37). A rebelião foi esmagada e Judas morto, mas seus filhos continuaram a luta. Masada foi a for­taleza final da resistência zelote em Roma; caiu em 74 A.D. Wiliam Barclay é um dos que acham “mais do que possível” que Judas tenha sido um zelote, e que o beijo no jardim do Getsêmani não foi traição, antes, um sinal cujo propósito era provocar Jesus a abandonar sua hesitação e lançar sua campanha há muito esperada (Crucified and Crowned, pp. 36-38).

16Mateus 26:6-16; Marcos 14:3-11; João 12:3-8 e 13:29 17Lucas 12:15; 1 Timóteo 6:10.

181 Timóteo 3:3, 8; Tito 1:7; Cf. Atos 8:18-23 e 20:33-34.

19Mateus 17:22; 26:2.

20Mateus 26:14-16 (Judas); 27:18 (os sacerdotes); 27:26 (Pilatos). 21Lucas 23:34; Atos 3:17; 1 Coríntios 2:8. 22Mateus 27:25. Cf. Atos 5:28.

23Peter Green, Watchers by the Cross, p. 17.

24Gálatas 2:20. Cf. Efésios 5:2, 25 e também Lucas 23:46.

25Romanos 8:32; cf. 4:25. 26John Murray, Rotnans, Vol. 1, p. 324.

27Atos 2:23; cf. 4:28. Mais tarde, em sua primeira carta, Pedro descre­veria ao Cordeiro como tendo sido escolhido “antes da fundação do mundo” (1 Pedro 1:19-20).

Capítulo 3

1João 10:11, 15; Lucas 22:19; Romanos 5:8, Efésios 5:2; 1 Tessalonicenses 5:10; Tito 2:14. O professor Martin Hengel de­monstrou, com grande erudição, que o conceito de uma pessoa vo­luntariamente morrer por sua cidade, família e amigos, pela verdade ou para apaziguar os deuses, era largamente difundido no mundo greco-romano. Havia-se criado uma palavra especial hyperapothneskein (“morrer por”) a fim de expressá-lo. As boas novas de que Cristo havia morrido por nós, portanto, eram prontamente inteligíveis às audiências pagas do primeiro século. (Martin Hengel, Atonement, pp. 1-32).

2Para o negativo veja, por exemplo, Gálatas 1:4; Efésios 1:7; Hebreus 9:28. Para o positivo, João 3:14-16; Efésios 2:16; Colossenses 1:20; 1 Tessalonicenses 5:10; 1 Pedro 3:18.

31 Coríntios 15:3; 1 Pedro 3:18; Hebreus 9:26; 10:12; 1 João 1:7; Apo­calipse 1:5-6.

4Veja Gênesis 5:24; 2 Reis 2:1-11; 1 Coríntios 15:50-54. 5Exemplo: Gênesis 2:17; 3:3,19, 23; Romanos 5:12-14; Apocalipse 20:14; 21:8.

6Salmo 49:12, 20; Eclesiastes 3:19-21.

7Veja a ocorrência do verbo embrimaomai em João 11:33, 38. Indicando originalmente o resfôlego dos cavalos, esse verbo foi aplicado às fortes emoções humanas de desgosto e indignação. 8João 10:18; Lucas 23:46.

9Paulo e os evangelistas sinóticos registram as palavras de adminis­tração de um modo um pouco diferente. Veja 1 Coríntios 11:23-25; Mateus 26:26-28; Marcos 14:22-24; Lucas 22:17-19. 10Êxodo 24:8. Veja também as referências à aliança em Isaías 42:6; 49:8; Zacarias 9:11 e Hebreus 9:18-20. 11Marcos 14:12-16; Lucas 22:15. 12João 18:28. Cf. João 19:36 e Êxodo 12:46. ]3Cf. Êxodo 12:26-27; 13:8; Deuteronômio 16:3.

14Mateus (26:36-46), Marcos (14:32-42) e Lucas (22:39-46) descrevem a agonia de Jesus no jardim do Getsêmani. João não se refere a ela, embora fale da caminhada ao horto das oliveiras ao pé do monte das Oliveiras onde Jesus foi traído e preso (18:1-11).

15Lucas 12:50; João 12:27.

16Estas palavras gregas ocorrem em Mateus 26:37; Marco? 14:33 e Lucas

22:44. O ensaio de B. B. Warfield é publicado em sua Pessoa e Obra,

pp. 93-145. Suas traduções destas palavras ocorrem na? páginas 130-

131.

17Phaedo, 117418.

18Mateus 5:11-12; Atos 5:41; Filipenses 1:29-30.

19Citado em Book of Martyrs, de Foxe, p. 19.

20Ibid., pp. 20-25.

21Ibid., pp. 31-33.

22De Saints’ Everlasting Rest, p. 393.

23Friedrich Heiler, Gospel of Sadhu Sundar Singh, pp. 173-178.

24Isaías 51:17-22; Salmo 75:8; Jeremias 25:15-29 (çf. Hatfacuque 2:16);

49:12; Apocalipse 14:10; 16:lss. e 18:6.

25Douglas Webster, In Debt to Christ, p. 46.

26Isaías 53:5-6; João 1:29; Marcos 10:45; Hebreus 9:28; 1 Pedro 2:24;

3:18; 2 Coríntios 5:21; Gálatas 3:13.

27Marcos 15:25, 33-34.

28Exemplo: Josué 1:5, 9 e Isaías 41:10.

29T. R. Glover, Jesus of History, p. 192.

30Thomas J. Crawford, Doctrine of Holy Scripture, pp. 137-138

31R. W. Dale, Atonement, p. 61.

32Institutos, de Calvino, II. XVI10 e 12. É verdade, e um wnto estranho,

que Calvino (seguindo o exemploi de Lutero) cria esta era a

explicação da descida de Jesus ao inferno, depois da sua morte. O que

importa é o fato de que ele experimentou o abandone? de Deus por

nós, e não precisamente quando isto aconteceu.

33C. E. B. Cranfíeld, Mark, pp. 458-459.

34Exemplo: “Tenho sede” (João 19:28) é uma alusão ao Salmo 69:21 (cf.

Salmo 22:15), e “Nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lucas 23:46),

uma citação do Salmo 31:5.

35João 19:28, 30; Lucas 23:46.

361 Coríntios 1:23; Gálatas 5:11; cf. Mateus 11:6; Romano? 9:32; 1 Pedro

2:8.

Capítulo 4

1“O bom Deus me perdoará; é esse o seu mister (ou a sua especiali­dade).” Citado por S. C. Neill em Christian Faith Today, P-145. James Denney atribuiu a citação a Heine em seu livro Death of Christ, p. 186. 2Mateus 6:12-15; 18:21-35. 3Emil Brunner, Mediator, p. 448. 4P. Carnegie Simpson, Fact of Christ, p. 109.

5Para um exame da ênfase ao “amor santo” veja P. T. Forsyth em Cruciality of the Cross e Work of Christ, William Temple em Christus Veritas, exemplo: pp. 257, 269, e Emil Brunner em Mediator. 6Afirmações similares aparecem nas páginas 28 e 114.

7Alec R. Vidler, Essays in Liberality, p. 45.

8J. N. D. Anderson, Morality, Law and Grace, p. 38. 9Ma!colm Jeeves, R. J. Berry e David Atkinson, Free to Be Different, p. 155.

10Isaías 42:1-3; Mateus 12:15-21. Deus também faz distinção entre os pecados cometidos em ignorância e os cometidos com conhecimento e deliberação.

11Deuteronômio 30:15-20; Josué 24:15.

12João 6:44; 5:40.

13Emil Brunner, Man in Revolt, p. 257.

14Friedrich Nietzsche, The Anti-Christ, pp. 167-168. 15Jeremias 6:14; 8:11.

16William Glasser, Reality Therapy, pp. 5-41.

17Karl Menninger, Whatever Became of Sin?, p. 180. l8O ensaio de C. S. Lewis intitulado “A Teoria Humanitária do Cas­tigo” foi publicado em várias coleções dos seus escritos. Usei o texto como se encontra em Churchmen Speak, editor Philip E. Hughes, pp. 39-44. Veja também a carta de C. S. Lewis a T. S. Eliot no dia 25 de maio de 1962 em Letters of C. S. Lewis, editor W. H. Lewis, p. 304. Ele escreve: “É tirania vil submeter o homem a uma ‘cura7 compul-

19Habacuque 1:13; Isaías 59:lss. 20Exemplo: Êxodo 33:20-23; Juizes 13:22.

21Êxodo 3:6; Isaías 6:1-5; Jó 42:5-6; Ezequiel 1:28; Daniel 10:9; Lucas 5:8; Apocalipse 1:17.

22R. V. G. Tasker, Biblicat Doctrine of the Wrath of God, p. VII. Atribui-se “ira” a Jesus em Marcos 3:5 e (talvez, segundo alguns manuscritos) Marcos 1:41.

23Mateus 5:21-26; Gálatas 5:20; Efésios 4:31; Colossenses 3:8. 24Romanos 2:5; 4:15; 1 Tessalonicenses 2:16; 1:10; Romanos 5:9. 25Romanos 1:18-32 e 13:1-7. C. H. Dodd refere-se a estes nas páginas 26 e 204 do seu comentário. 26James Denney, artigo “Raiva”, pp. 60-62.

27Leon Morris, Cross in the New Testament, pp. 190-191. Veja também seu livro Apostolic Preaching, pp. 161-166. 28C. E. B. Cranfield, Romans, Vol. I, p. 111.

29Exemplo: Gênesis 14:18-22; Salmos 7:17; 9:2; 21:7; 46:4; 47:2; 57:2; 83:18; 92:8; 93:4; 113:4; Daniel 3:26; 4:2, 17, 24-25, 34; 5:18-21; 7:18-27; Oséias 7:16; 11:7; Miquéias 6:6.

30Exemplo: Salmos 97:9 e 99:2.      -m

31Hebreus 4:16; Apocalipse 4:3; Isaías 6:1; 57:15; Atos 7:48-49. 32Isaías 57:15; Salmos 91:1, 9; 138:6; Provérbios 21:4; Isaías 10:12. ^Êxodo 3:5; 19:3-25 {cf. Hebreus 12:18-21); 20:24; 25-^0, particular­mente 29:45-46; Levítico 16 {cf. Hebreus 9:7-8). M2 Samuel 6:6-7. Cf. 1 Samuel 6:19. Os levitas, cuja responsabilidade era desmontar, carregar e montar o tabernáculo, haviam recebido advertências claras. Veja Números 1:51, 53. ^Johannes Fichtner em seu artigo sobre orge, pp. 401-402. ^Exemplo: Mateus 7:23; 25:41.

371 João 1:5; Hebreus 12:29 {cf. Deuteronômio 4:24); 1 Timóteo 6:16; Hebreus 10:27, 31.

^Levítico 18:25-28; 20:22-23; Salmo 95:10; Números 21:5; Apocalipse 3:16.

391 Pedro 1:17.

«R. W. Dale, Atonement, pp. 338-339. 4:Emil Brunner, Mediator, p. 152. ^Gustav Stahlin em seu artigo sobre a orge, p. 425. «B. F. Westcott, Historie Faith, p. 130.

Capítulo 5

Tara pesquisas históricas sobre as diferentes teorias da expiação, veja os livros Patristic Doctrine, de H. E. W. Turner, Doctrine of the Atone­ment, de J. K. Mozley, Historie Theories, de Robert Mackintosh, e His-tory of the Doctrine of the Work of Christ, de Robert S. Franks. 2Orat. XLV. 22.

3Catechetical Oration 22—26. Veja Atonement in Gregory ofNyssa, de A. S. Dunstone, p. 15, nota de rodapé n? 7. 4Sentences, Liber III, Distinctio XIX. 1.

5Embora não aceite “a linguagem desprotegida ou as afirmações falsas de alguns pais”, visto que Deus não faz trocas com o diabo, Nathaniel Dimock crê, contudo, que na reação exagerada “deu-se condenação indevida à perspectiva patrística deste assunto”. Portanto, ele salva algumas verdades bíblicas em sua Nota B, Adicional, “sobre a reden­ção de Cristo vista com relação ao domínio e obras do diabo”. Veja seu livro Doctrine of the Death of Christ, pp. 121-136.
6R. W. Dale, Atonement, p. 277.

^enry Wace, Sacrifice of Christ, p. 16.

*Ibid., pp. 22, 28-29, 36.

‘Robert S. Franks, Work of Christ, p. 135. 10R. W. Dale, Atonement, p. 372.

“Nathaniel Dimock, Doctrine of the Death of Christ, p. 32, nota de rodapé n? 1.

12Robert S. Franks, Work of Christ, p. 126.

13James Denney, Atonement, p. 116.

liínstitutes, II. XVI. 10. Cf. II. XII. 3.

15Thomas Cranmer, First Book of Homilies, p. 130. A Confissão de Fé de Westminster (1647) também declara que o Senhor Jesus, mediante sua perfeita obediência e auto-sacrifício, “satisfez plenamente à justiça do seu Pai” (VIII. 5). Deveras, foi “uma satisfação adequada, real e completa à justiça do Pai” em favor dos justificados (XI. 3).

16Hugo Grotius, Defense of the Catholic Faith, p. 57.
I7P. T. Forsyth, Cruciality of the Cross, pp. 137-138. Veja também seu
livro Work of Christ, pp. 122-129.
18B. B. Warheld, Person and Work, p. 292.
19Ronald S. Wallace, Atoning Death, p. 113.                              : o

20Deuteronômio 32:16, 21. Cf. Juizes 2:12; 1 Reis 15:30; 21:22; 2 Reis 17:17; 22:17; Salmo 78:58.

21Exemplo: Jeremais 32:30-32; Ezequiel 8:17; Oséias 12:14. ^Exemplo: Gênesis 39:19; Êxodo 32:19; 1 Samuel 11:6; 2 Samuel 12:5; Ester 7:10.

^Exemplo: Josué 7:1; 23:16; Juizes 3:8; 2 Samuel 24:1; 2 Reis 13:3; 22:13; Oséias 8:5.

24Exemplo: Deuteronômio 29:27-28; 2 Reis 22:17; Salmo 79:5. ^Exemplo: Jeremias 4:4; 21:12. ^Exemplo: Ezequiel 36:5-6; 38:19; Sofonias 1:18; 3:8. 27Salmo 78:38. Cf. Isaías 48:9; Lamentações 3:22; e no Novo Testa­mento, Romanos 2:4 e 2 Pedro 3:9. ^Jeremais 44:22; Ezequiel 24:13-14; cf. Êxodo 32:10. 292 Reis 23:26; 22:17; 2 Crônicas 34:25; Jeremias 21:12. ^Deuteronômio 4:24, citado em Hebreus 12:29. Alguns exemplos do retrato do juízo divino como fogo consumidor: Números 11:1; Deu­teronômio 6:15; Salmo 59:13; Isaías 10:17; 30:27; Lamentações 2:3; Eze­quiel 22:31; Sofonias 1:18.

^Exemplo: Josué 7:26; Ezequiel 5:13; 16:42; 21:17. 32Exemplo: Jeremias 4:4; 21:12. ^Ezequiel 5:13; 6:12; 7:8; 13:15; 20:8, 21.

^Salmo 103:10. Para a paciência de Deus, a restrição de sua ira e a demora de seu juízo, veja também Neemias 9:31; Lamentações 3:22; Romanos 2:4-16; 3:25; 2 Pedro 3:9. Contraste, por exemplo, Ezequiel 7:8-9, 27.

^Exemplo: Salmos 23:3; 143:11.

^Marcos 8:34; 2 Timóteo 2:13.

37P. T. Forsyth, The Work of Christ, p. 118.

^Êxodo 34:6-7; Salmo 85:10; Isaías 45:21; Habacuque 3:2; Miquéiás 7:18; João 1:14; Romanos 11:22; 3:26; Efésios 2:3-4; 1 João 1:9.

39G. C. Berkouwer, Work ofChrist, p. 277

“Institutes, II.XVI.4. C/. II.XVII.2.

41Emil Brunner, Man ín Revolt, p. 187.

«P. T. Forsyth, Cruciality of the Cross, pp. 5-6 e 73.

^P. T. Forsyth, WorJc of Christ, p. 80. Ele também usa a expressão

“amor santo” no livro The Justification ofGod, particularmente nas pp.

124-131 e 190-195. William Temple deu-lhe continuidade em Christus

Veritas, particularmente nas páginas 257-260.

Capítulo 6

Carnes Danney, Atonement, p. 82

2Thomas J. Crawford, Doctrine of Holy Scripture, pp. 453-454. 3Extraído do artigo “Sacrifício”, de W. P. Paterson, p. 343. 4Extraído do ensaio “Christ our Sacrifíce”, de B. B. Warfield, publicado em Biblical Doctrines, pp. 401-435; particularmente a página 411. 5A história é contada por Trevor Beeson em Discretion and Valour, p. 139.

6F. D. Kidner, Sacrifice in the Old Testament, p. 14. Veja também o artigo “Sacrifice and Offering” de R. J. Thompson e R. T. Beckwith, e a nota adicional sobre o “sacrifício no Antigo Testamento” de G. J. Wenham em seu Commentary on Numbers, pp. 202-205. H^eon Morris, Atonement, p. 47.

T. J. Crawford, Doctrine of Holy Scripturer pp. 237, 241. 90 debate erudito continua quanto a se a observação de João Batista acerca do “Cordeiro de Deus” foi uma referência ao cordeiro da Pás­coa, o tamid (o cordeiro do sacrifício diário), a ligação de Isaque {Gê­nesis 22), o cordeiro com pontas do apocalipse judaico, ou ao servo sofredor de Isaías 53. Para um resumo competente dos argumentos, à luz do uso que o quarto evangelista faz do Antigo Testamento, veja o “Cordeiro de Deus” de George L. Carey, pp. 97-122. “Exemplo: João 13:1; 18:28; 19:14, 31.

“Apocalipse 5:6, 9, 12; 12:11. Jesus é identificado como “o Cordeiro” vinte e oito vezes no livro do Apocalipse.

12Calvino havia escrito: “É este o nosso livramento: a culpa que nos mantinha responsável pelo castigo havia sido transferida para a cabeça do Filho de Deus (Isaías 53:12). Devemos, acima de tudo, Iembrar-nos desta substituição, para que não tremamos e permaneçamos ansiosos por toda a vida, isto é, em temor do juízo de Deus” (Institutes, II.XVI.5).

13Horace Bushnell modificou um pouco suas perspectivas em sua pu­blicação posterior, Forgiveness and Lazv. Embora ainda repudiasse a doutrina tradicional, ele entretanto afirmava que havia na cruz uma propiciação de Deus, e que se havia “encarnado na maldição”, a fim de salvar-nos dela. Acrescentava, contudo, que Cristo sofreu cons­cientemente a maldição ou vergonha de nosso pecado por toda a sua vida.

,4J. I. Packer, “What Did the Cross Achieve?”, p. 25. ‘-’Alguns exemplos de expressões acerca do “levar o pecado” são Êxodo 28:43; Levítico 5:17; 19:8; 22:9; 24:15 e Números 9:13; 14:34 e 18:22.

16T. J. Crawford, Doctrine of Holy Scripture, p. 225. Veja também o capítulo 3, “The Day of Atonement” em Atonement, de Leon Morris, pp. 68-87.

,7Isaías 42:1-4; cf. Mateus 12:17-21. ‘«Atos 3:13, 26; 4:27, 30.

l9J. Jeremias, Eucharistic Words, p. 228. Veja também o seu Servant of God e o artigo sobre pais theou (“servo de Deus”) por Jeremias e Zim-merli, pp. 712 e ss. Compare com o capítulo 3, “Jesus the Suffering Servant of God”, em Christology of the New Testament, de Oscar Cull-mann.

^Marcos 9:12; cf. Isaías 53:3. 2IMarcos 2:20; cf. Isaías 53:8. ^Lucas 22:37; cf. Isaías 53:12. ^Marcos 14:8; cf. Isaías 53:9. 24Lucas 11:22; cf. Isaías 53:12.

^Marcos 14:61; 15:5; Lucas 23:9 e João 19:9, cf. Isaías 53:7. ^Lucas 23:34; cf. Isaías 53:12.

27João 10:11, 15, 17; cf. Isaías 53:10.                                           ;’>:c

^Oscar Cullmann, Baptism in the New Testament, p: 18?”  : 29Vincent Taylor, Atonement, p. 18. ^Martin Hengel, Atonement, pp. 33-75. 3IMarcos 14:24; cf. Mateus 26:28.

32Em seu estudo completo, Atonement, o professor Martin Hengel ar­gumenta convincentemente que por trás das observações de Paulo de que Cristo “morreu por nossos pecados” (1 Coríntios 15:3), e “foi entregue por nossos pecados” (Romanos 4:25) há o dito do resgate e os ditos da ceia de Jesus, registrados por Marcos (10:45; 14:22-25), e que por trás destes está Isaías 53 e a compreensão que o próprio Jesus tinha desse capítulo (pp. 33-75).

^Joachim Jeremias, Eucharistic Words, pp. 228-229. Em outro lugar Jeremais interpreta os dois ditos de Jesus como se referissem a um “morrer vicário pela multidão incontável. . . daqueles que jazem sob o juízo de Deus.” Veja também Central Message, pp. 45-46, de sua autoria. MJ. S. Whale, Victor and Victim, pp. 69-70.

35Karl Barth, Church Dogmatics, vol. IV, “The Doctriné of Reconcüia-tion”, p. 165.

MA. W. F. Blunt, Galatians, p. 96. Veja o último capítulo para uma citação mais completa.

37Romanos 4:6; 1 Coríntios 1:30; Filipenses 3:9. «Veja Doctrine ofHoly Scripture, de T. J. Crawford, pp- 444-445. 39Joachim Jeremias, Central Message, pi 36. «Efésios 2:4; cf. João 3:16; 1 João 4:9-10. «Zacarias 13:7; Marcos 14:27. ^Atos 2:23; Romanos 8:32. 43John Murray, Redemption Accomplished, p. 77. “I. H. Marshall, Work of Christ, p. 74. 45P. T. Forsyth, Justification of God, p. 35. «P. T. Forsyth, Work of Christ, p. 25. 47P. T. Forsyth, Cruciality of the Cross, pp. 205-206. «Karl Barth, Church Dogmatics, II.l, pp. 446ss. Veja também pp. 396-403.

49S. C. Neill, Christkn Faith Today, p. 159.

^Inácio refere-se ao “sangue de Deus” e ao “sofrimento do meu Deus” nas versões mais curtas de suas cartas aos Efésios (caP- I) e aos Ro­manos (cap. VI) respectivamente. Em seu De Carne C/i/ISÍÍ‘ Tertuliano é ainda mais explícito. “Não foi Deus realmente crucificado?” per­gunta ele. De fato, foi ele quem primeiro usou a espantosa expressão “um Deus crucificado” (cap. V). Outro exemplo é Gfegório de Na-zianzus, que escreveu ào “pTeáoso e TioVce sangue ^ taras» Sft-nhor. . .” (Orat. XIV. 22). 51Tertuliano, Adversus Praxean, cap. I. 52Ibid., cap. XXIV.

^Exemplo: Romanos 5:12-19; Gálatas 4:4; Filipenses 2:7-8; Hebreus 5:8. ^Exemplo: João 4:34; 6:38-39; 17:4; 19:30.

^Exemplo: João 10:18; Marcos 14:36; Hebreus 10:7 (Salí™ 40:7-8). ^Exemplo: João 14:11; 17:21-23; 10:30.

57Exemplo: Gálatas 4:4; 1 João 4:14; João 3:16; Romano^ 8:32. ^George A. Buttrick, Jesus Carne Preaching, p. 207. ^João 3:16; Romanos 8:32 e 5:10. «R. W. Dale, Atonement, p. 393. 6,Karl Barth, Church Dogmatics, IV. 1

“Extraído de Speeches and Writings, de Swami Vivekananda, pp. 38-39. Cf. p. 125. Veja também Crises of Belief, de S. C. pJeill, p. 100. ^Emil Brunner, Mediator, p. 474. MC/. Apocalipse 3:17-18.

Capítulo 7

lA. T. Hanson, Wrath of the Lamb, p. 192.

2C. H. Dodd contribuiu com um artigo sobre hilaskesthai ao Journal of Theological Studies, que subseqüentemente foi publicado em seu livro Bible and the Greeks. A mesma tentativa de reinterpretar “propiciação” como “expiação” também é expressa em seus dois comentários do Novo Testamento Moffatt sobre Romanos e as Epístolas Joaninas.

3C. H. Dodd, Bible and the Greeks, p. 94. Veja também seu comentário
da carta aos Romanos, pp. 54-55.
4C. H. Dodd, Johannine Epistles, p. 25.
Kl. H. Dodd, Bible and the Greeks, p. 93.
6C. H. Dodd, Johannine Epistles, pp. 25-26.                                       *i

T^eon Morris escreveu um artigo sobre hilaskesthai no The Expository Times, e então expandiu sua tese no livro Apostolic Preaching. Ele tam­bém desenvolveu e simplificou este livro em Atonement. 80 artigo do Dr. Roger Nicole, intitulado “C. H. Dodd e a Doutrina da Propiciação” apareceu no Westminster Theological Journal, XVII. 2 (1955), pp. 117-157. Embora seja um estudo independente, ele reco­nhece alguma dívida a Leon Morris.

9Veja o artigo sobre o grupo de palavras hilaskomai de F. Büchsel e J. Hermann no Theological Dictionary of the New Testament de Kittle, vol. III, pp. 300-323.

10Roger Nicole, “C. H. Dodd”, p. 132. “Gênesis 32:20; Provérbios 16:14.

12Números 16:41-50 e 24:11-13. Cf. também Zacarias 7:2; 8:22; Mala-Ofüas. 1:9-.

^Exemplo: Êxodo 32:30 (cf. v. 10); Deuteronômio 21:19; 1 Samuel 3:14; 26:19.

I4R. Nicole, “C. H. Dodd”, p. 134. 15L. Morris, Apostolic Preaching, p. 155.

16Ibid., p. 169. Em sua grande pesquisa, Cross in the New Testament, Leon Morris escreve: “Por toda a literatura grega, tanto bíblica quanto secular, hilasmos significa ‘propiciação’. Agora não podemos resolver que gostamos mais de outro significado” (p. 349). 17William Neil, Apostle Extraordinary, pp. 89-90. 18P. T. Forsyth, Cruciality ofthe Cross, p. 78. Compare com a observação de Calvino: “A obra da expiação tem origem no amor de Deus; por­tanto ela não o estabeleceu” (Institutes, II.XVI.4). 19P. T. Forsyth, The Work of Christ, p. 105.

MKarl Barth, Church Dogmatics, Vol. II, primeira parte, pp. 398 e 403. 2:F. Büchsel, “hilaskomai”, p. 317. ^David F. Wells, Search for Salvation, p. 29.

^Leon Morris, Apostolic Preaching, p. 10. Veja também o capítulo 5, “Redenção”, em seu livro Atonement, pp. 106-131.

24Extraído de um artigo de B. B. Warfield, sobre a redenção primei­ramente publicado em The Princeton Theological Review, (Vol. XIV, 1916), e reimpresso em seu livro Person and Work, pp. 345 e 347. ^Levítico 25:25-28; Rute 3 e 4; Jeremias 32:6-8. Cf. Levítico 27 para remir a terra que havia sido dedicada ao Senhor mediante um voto especial.

^Exodo 13:13; 34:20; Números 18:14-17.

27Êxodo 30:12-16; 13:13; 34:20 e Números 3:40-51; Êxodo 21:28-32; Le­vítico 25:47-55.

^Exemplo: Êxodo 6:6: Deuteronômio 7:8; 15:15; 2 Samuel 7:23. “Exemplo: Isaías 43:1-4; 48:20; 51:11; Jeremias 31:11. XB. F. Westcott, Epistle to the Hebrews, p. 298.

31B. B. Warfield, Person and Work, p. 448. Leon Morris apresenta o mesmo ponto em seu Apostolic Preaching, pp. 14-17 e 1920. ^Exemplo: Êxodo 6:6; Deuteronômio 9:26; Neemias 1:10; Salmo 77:15. ^B. B. Warfield, Person and Work, pp. 453-454. MF. Büchsel, “hilaskomai”, p. 343. ^osephus, Antiquities, XIV. 107. ^Efésios 1:7 e Colossenses 1:14; Cf. Hebreus 9:15. 37Gálatas 3:33; 4:5. ^l Pedro 1:18.

^ito 2:14. O substantivo anomia, “ilegalidade”. «Lucas 2:38. Cf. 1:68; 24:21. 41Lucas 21:28; Efésios 1:14; 4:30; Romanos 8:18-23. ^Jeremias, Central Message, pp. 37-38. Cf. I Ciem. IV. ^Hebreus 9:12. Veja também as referências ao sangue de Cristo em relação com nossa redenção em Romanos 3:24-25 e Efésios 1:7. ^B. F. Westcott, Epistles of John. Nota adicional sobre 1 João 1:7: “A idéia do sangue de Cristo no Novo Testamento”, pp. 34ss. ^B. F. Westcott, Epistle to the Hebrews. Nota adicional sobre Hebreus 9:9, pp. 283 e ss.

46Alan M. Stibbs, Meaning of the Word “Blood” in Scripture, pp. 10, 12, 16 e 30. Leon Morris tem um capítulo intitulado “O Sangue” em seu Apostolic Preaching (pp. 108-124), e em seu Cross in the New Testament escreve: “os hebreus entendiam sangue geralmente no sentido de morte violenta” (p. 219). F. D. Kidner também critica a tese de Westcott em seu Sacrifice in the Old Testament, e afirma que a proibição do uso do sangue na comida “é coerente com a idéia de sua preciosidade, mas não da sua potência” (p. 24).

47Johannes Behm, “haima”, p. 173.

«Apocalipse 5:9; cf. 1:5-6 e 14:3-4.

491 Coríntios 6:18-20; cf. 7:23.

^Sanday e Headlam, Romans, p. 36.

51Jeremias, Central Message, p. 66.    ;,i

52Martin Luther, Galatians, p. 143 (sobre Gálatas 2:16). Cf. p. 101 (sobre Gálatas 2:4-5).

^Do “Sermon on Salvation” de Cranmer, em First Book of Homilies, pp. 25-26.

MR. T. Beckwith, G. E. Duffield e J. I. Packer, Across the Divide, p. 58. 55Veja Concilio de Trento, Sessão VI, e seu Decreto sobre o Pecado Original, sobre Justificação e sobre Penitência. ^Hans Küng, Justification. (1957).

57Para uma análise protestante compassiva mas crítica do pensamento católico recente veja Revolution in Rome, de David F. Wells; Across the Divide, de R. T. Beckwith, G. E. Duffield e J. I. Packer; Justification Today: The Roman Catholic and Anglican Debate, de R. G. England; a contribuição de George Carey intitulada “Justificação pela Fé na Teo­logia Católica Recente” ao Great Acquittal; e Rome and Reformation To­day, de James Atkinson.

^Exemplo: Atos 20:32; 1 Coríntios 1:2; 6:11; Hebreus 10:29; 13:12. ^Exemplo: Romanos 6:19; 2 Coríntios 7:1; 1 Tessalonicenses 4:3, 7; 5:23; Hebreus 12:14.

«’Efésios 2:8-9; Gálatas 2:16; Tito 3:5.                                                                            “

61Martin Luther, Epistle to the Galatians, p. 247, sobre Gálatas 3:10. ^’ 62L. Morris, Cross in the New Testament, p. 242. «Salmo 143:2. Cf. Salmos 51:4; 130:3; Jó 25:4.

^De seu ensaio: “Justification: The Biblical Basis and its Relevance for Contemporary Evangelicalism”, em Great Acquittal, p. 16. ^De seu artigo “Justification” no New Bible Dictionary, p. 647. ^Exemplo: Romanos 3:28; 5:1; Gálatas 2:16; Filipenses 3:9. 67Extraído de “Definition of Justification” de Hooker, sendo o Capítulo XXXIII do seu Ecclesiastical Polity, que começou a ser publicado em 1593.

^Do “Sermon on Salvation” de Cranmer, no First Book of Homilies, pp. 25 e 29.

«’Gálatas 2:17. Cf. Romanos 8:1; 2 Coríntios 5:21; Efésios 1:6. 70Tom Wright, “Justification: The Biblical Basis”, de Great Acquittal, p. 36.

71Tito 2:14; 3:8.

^Exemplo: Gálatas 5:6; 1 Tessalonicenses 1:3; Tiago 2:14-26. ^Romanos 7:7-25; 8:1, 3, 33-34, 39. 74João 1:12-13; 1 João 3:1-10. ^Exemplo: Romanos 8:14-17; Gálatas 3:26-29; 4:1-7. 76Peter T. 0′Brien, Colossians, p. 53.

77E. K. Simpson e F. F. Bruce, Ephesians and Colossians, p. 210. Peter 0′Brien segue F. F. Bruce nesta interpretação (Colossians, p. 56).

^Para referências sobre a hostilidade humana para com Deus, veja

Romanos 5:10; 8:7; Efésios 2:14, 16; Colossenses 1:21; Tiago 4:4.

“Do artigo sobre allasso e katallasso de F. Büchsel, p. 257.

*°L. Morris, Apostolic Preaching, p. 196. Veja os capítulos do Dr. Morris

sobre a reconciliação em seu Apostolic Preaching, pp. 186-223 e Ato-

nement, pp. 132-150.

81E. Brunner, Mediator, p. 516.

^James Denney, Death of Christ, pp. 85-86. Cf. também p. 128.

«P. T. Forsyth, Work of Christ, p. 86.

Carnes Denney, Death of Christ, p. 88.

^Luther, Letters of Spiritual Counsel, p. 110.

“O “Sermão sobre Habacuque 1:4″, de Hooker, pp. 490 e ss.

87E. Brunner, Mediator, p. 524.

88T. J. Crawford, Doctrine of Holy Scripture, p. 75.

Ml João 4:10; Lucas 1:68; Romanos 8:33; 2 Coríntios 5:18.

^Romanos 3:25; Efésios 1:7; Romanos 5:9; Efésios 2:13 (çf. Colossenses

1:20).

«Romanos 3:25; 1 Pedro 1:18-19; Romanos 8:3, 33; 2 Coríntios 5:21.

Capítulo 8

Calmos 19:1; 29:9; Isaías 6:3; Mateus 6:29.

2Números 14:22; Salmo 97:2-6; Isaías 35:2; 40:5; Êxodo 33:18—34:7.

3A. M. Ramsey, Glory of God, p. 28.

4Para a glória da transfiguração veja Lucas 9:32 e 2 Pedro 1:16; para

a glória da Parousia veja Marcos 13:26, e para a glória do reino final

veja Marcos 10:37 e Mateus 25:31.

sfoão 2:11; 11:4, 40.

6F. Donald Coggan, Glory of God, p. 52.

^oão não usa o verbo “crucificado” até o capítulo 19, onde ocorre dez

vezes. Antes disto, ele usa três vezes o termo “levantado”, com seu

double entendre deliberado.

8Lucas 24:26; Cf. 1 Pedro 4:13; 5:1, 10 e Romanos 8:17-18.

9Escrevo “também” porque claramente João pensa em Cristo ser glo-

rificado de outras maneiras também, exemplo: mediante a obra do

Espírito (16:14), na igreja (17:10) e no céu (17:5, 24).

“João 12:20-28; 13:30-32; 17:1.

“João 1:29; 10:11; 11:49-52 e 18:1

12Êxodo 34:6; João 1:14, 17.

13John, de Calvino, p. 68 (sobre João 13:31) e p. 135 (sobre João 17:1).

“Atos 17:30-31; Romanos 2:4; 2 Pedro 3:3-9.

“Hebreus 10:4 e 9:15.

16Exemplo: Salmos 71:15; 98:2; Isaías 45:21 (“um Deus justo e Salvador”); 46:13; 51:5-6; 56:1. Veja, por exemplo, Romanos, de C. H. Dodd, pp. 10-13.

17Anselmo, Cur Deus Homo?, I. XIII, e Death of Christ, de James Denney, p. 188.

18P. T. Forsyth, Justification ofGod, pp. 124-125. Barth também escreveu que a justificação do homem é a autojustificaçáo de Deus (Church Dogmatics, V. 1, pp. 559-564). 19P. T. Forsyth, Justification, p. 154. 20Jürgen Moltmann, Crucified God, p. 72.

21Comentário de Abelardo sobre Romanos 3:19-26, em A Scholastic Misceüany, ed. Eugene Fairweather, p. 283. ^Ibid., p. 284. Cf. James Orr, Progress of Dogma, pp. 229-230. ^Robert S. Franjes, Work of Christ, p. 146. Depois de ter escrito estes parágrafos, um penetrante artigo do Dr. Alister McGrath, intitulado “The Moral Theory of the Atonement: An Historical and Theological Critique”, chamou-me a atenção. Ele afirma que é erro chamar a teoria da “influência moral” de “abelardiana”; que o erro surgiu da análise de uma “porção pequena do Expositio in Epistolum ad Romanos como representativa do seu ensino como um todo” (p. 208); que a imitação de Cristo a que ele dava ênfase não era o meio, antes o resultado, de nossa redenção. Entretanto, a passagem em seu comentário à carta aos Romanos é bastante explícita, de modo que não vejo como pos­samos, com justiça, eliminar esse elemento da perspectiva de Abe­lardo. De qualquer modo, os dirigentes do Iluminismo alemão certamente ensinaram a teoria da “influência moral”, como demonstra o Dr. McGrath. E o mesmo fez Hastings Rashdall, a quem logo exa­minarei.

240 livro de Peter Lombard Book of Sentences, III, Dist. XIX. 1 (citado
por Rashdall, pp. 371, 438).

^James Orr, Progress of Dogma, p. 229.

26Exemplo: Gálatas 2:20; Efésios 5:2, 25; 1 João 3:16.

27James Denney, Death of Christ, p. 158.

28G. C. Berkouwer, Work of Christ, pp. 277-278.

WH. W. Robinson, Suffering Human and Divine.

^Douglas White, “Nature of Punishment”, pp. 6-9.

31Kenneth E. Bailey, Cross and the Prodigal, p. 56.

32T. J. Crawford, Doctrine of Holy Scripture, p. 335.

Capítulo 9

*1 Coríntios 15:57; Romanos 8:37; 2 Coríntios 2:14; Apocalipse 2 e 3. 2Apocalipse 3:21; 5:5; 12:11; Colossenses 2:15.

3Citado por T. J. Crawford em Doctrine of Holy Scripture, p. 127 e extraído do comentário sobre Colossenses, de John Eadie (p. 174).

4H. E. W. Turner, Patristic Doctrine, p. 47. ‘     .

5Rudolf Boltmann, Kerygma and Myth, pp. 4-5. 61 Crônicas 29:11; Isaías 9:6-7.

7Apocalipse 12:lss.; Mateus 2:1-18; 4:1-11; João 6:15; Mateus 16:23; João 13:27.

^Exemplo: Marcos 1:24 (demônios); Mateus 4:23 (doenças) e Marcos 4:39 (natureza).

‘Lucas 10:18; 11:21-22; Marcos 3:27. 10João 12:31; 14:30; 16:11.

“Desde a época da Segunda Guerra Mundial, e em particular desde a publicação do livro de Hendrik Berkhof intitulado Christ and the Powers e do Principalities and Powers, de G. B. Caird, têm havido de­bates calorosos acerca da identidade dos “poderes e potestades” de Paulo. Antes parece que todos concordavam em que ele se referia a agências espirituais pessoais, tanto angélicas quanto demoníacas. Mas, não apenas porque archai (regentes) e exousiai (autoridades) são usados por ele com relação aos poderes políticos, tem-se sugerido que o próprio Paulo havia começado a “desmitologizar” o conceito de anjos e demônios, e que ele os vê antes como estruturas da exis­tência e poder terreno, especialmente o estado, mas também a tra­dição, convenção, lei, economia e até mesmo a religião. Embora esta tentativa de reconstrução seja popular entre alguns grupos evangé­licos (como também entre alguns grupos liberais), permanece não convincente. O acréscimo de “nos reinos celestiais” nas passagens de Efésios, e a antítese a “carne e sangue” em Efésios 6:10, para não mencionar a extensão mundial da influência dos poderes, parece-me encaixar-se no conceito de seres sobrenaturais com maior facilidade, embora, é claro, tais seres possam usar e realmente usam as estruturas e também os indivíduos como meios do seu ministério. Para estudo mais profundo veja minha discussão em Efésios, pp. 267-275; E. M. B. Green em Satarís Downfall, pp. 84 e ss., e especialmente a discussão completa intitulada “Principalities and Powers”, de P. T. 0′Brien, pp. 110-150.

12F. F. Bruce, Colossians, p. 238.

13J. Jeremias, Central Message, p. 37.

14Peter 0′Brien, Colossians, p. 133. Cf. p. 124.

l5Ibid., p. 127.

16Ibid., p. 129.

17H. C. G. Moule, Colossians Studies, p. 159. Foi como “se a cruz”, escreveu Calvino, “que era cheia de vergonha, houvesse sido trans­formada numa carruagem triunfal!” (Institutes, II.XVI.6. 18Alexander Maclaren, Colossians and Philemon, p. 222. “João 19:11; Mateus 26:53; Marcos 15:30.

m2 Coríntios 13:4; 1 Coríntios 1:25; João 14:30* ■

2IF. F. Bruce, Colossians, p. 239.

^Atos 2:24; Efésios 1:20-23; 1 Pedro 3:22.

z1Atos 26:18; 1 Tessalonicenses 1:9; Colossenses 1:13. Entre os animistas, hoje geralmente chamados de “religionistas tradicionais”, que vivem com medo dos espíritos, o conceito de um “encontro de poder” com Jesus Cristo é particularmente importante. “O voltar-se de um povo a fim de servir ao Deus verdadeiro e vivo é normalmente uma resposta a alguma demonstração evidente e convincente do poder de Cristo sobre os poderes espirituais (experimental), em vez de um assentimento mental às verdades acerca de Jesus Cristo (cognitivo)” {Christian Witness to Traditional Religionists of Ásia and Oceania, Lausanne Occasional Paper n? 16, p. 10). Veja também os Lausanne Occasional Papers que se relacionam com o testemunho cristão entre povos similares na América Latina e no Caribe (n? 17) e na África (n? 18).

24Apocalipse 20:1-3; Mateus 18:18-20.

^Salmo 110:1; Filipenses 2:9-11; Apocalipse 20:10, 14; 1 Coríntios

15:24-28.

26Marcos 8:31; 9:31; 10:34.

27João 10:17-18; cf. 2:19.

^Atos 2:23-24; 1 Coríntios 15:1-8.

Ml Tessalonicenses 4:14; 2 Coríntios 5:15.

^Romanos 6:1-4; Lucas 24:30-35.

31E. M. B. Green, Empty Cross, p. 11.

32Exemplo: Atos 2:24; 5:31; Romanos 1:4; 1 Coríntios’15:12 e ss.

33C. E. B. Cranfield, Romans, Vol I, p. 252.

^James Denney, Death of Christ, p. 73.

^l João 2:13; Apocalipse 3:21.

Kl Coríntios 15:57; Efésios 1:20-23; 2:4-6; Marcos 3:27.

37Efésios 1:20-23; 6:10-17.

»1 João 5:18; 1 Pedro 5:8.

^Hebreus 6:5; 1 João 2:8; Romanos 8:21.

^Hebreus 2:14 (o diabo); Romanos 6:6 (a “carne” ou natureza decaída);

2 Timóteo 1:10 (morte).

«Gálatas 3:23 e 13; Romanos 6:14; 10:4; Gálatas 5:18.

«Gálatas 5:19-21; Tito 3:3; João 8:34-36; Romanos 6:6.

«1 João 2:15-16; João 16:33; 1 João 5:4-5.

«Romanos 12:1-2; Gálatas 6:14.

*Life of Johnson, de Boswell, Vol II, p. 212.

*n Coríntios 15:26; João 11:25-26.

47Mateus 8:16-17; Isaías 53:5; 1 Pedro 2:24.    :

«E. M. B. Green, Satan’s Downfall, p. 220.

«Artigo de O. Bauernfeind sobre o grupo de palavras nikao.

^Quanto a ho nikon veja Apocalipse 2:7, 11, 17, 26; 3:5, 12, 21 (duas

vezes); 6:2; 21:7.

51Exemplo: Apocalipse 14:1-5; 15:1-4; 16:4-7.

521 Pedro 5:8-9; Tiago 4:7.

Capítulo 10

Gálatas 2:20; Tito 2:14; Atos 2:40-41.

2Efésios 2:15; Romanos 5:12-19; Efésios 3:6; Apocalipse 7-9- João 12*32 {cf. 11:52); Atos 2:40-47. 3Efésios 3:12; Hebreus 4:16; 10:19.

4Hebreus 9:14; 8:12 e 10:17 (cf. Jeremias 31:34); Romanos 5-9-10- 8*28 38-39.

51 João 4:18-19; 2 Coríntios 5:14-15. ‘Salmo 126; Atos 2:46 (agalliasis significa “exultação”). 7W. M. Clow, Cross in Christian Experience, p. 278. Se nos objetassem, dizendo que no Alcorão Alá é regularmente apresentado como o “”Compassivo, o Misericordioso” e às vezes “o Perdoador” (exemplo: Sura 40), responderíamos que, entretanto, seu perdão deve ser ga­nhado e jamais é concedido como uma dádiva aos que n^0 o merecem. Daí, a ausência no culto muçulmano da nota de celebração jubilosa. 8Malaquias 1:11 é citado no Didache XIV. 1; foi também usado por Ireneu, Tertuliano, Jerônimo e Eusébio. Veja a análise de referências patrísticas ao “sacrifício” em Review of the Doctrine of thç Eucharist, de Daniel Waterland, pp. 347-388. Veja também o ensaio de Michae)

Green “Eucharistic Sacrifice”, especialmente as pp. 71-78.

9Cranmer, On the Lord’s Supper, p. 235.

“Hebreus 7:27; 9:26; Cf. Hebreus 9:12, 28; 10:10; e também Romanos 6:10 e 1 Pedro 3:18.

“Hebreus 7:23-25; 1 João 2:1-2.

I21 Pedro 2:5, 9; Apocalipse 1:6.

«Hebreus 13:15; Cf. Salmos 50:14, 23; 69:30-31; 116:17.

“Apocalipse 5:8; 8:34; cf. Malaquias 1:11; Salmo 51:17; cf Oséias 14-1-

2.

15Filipenses 2:17; 4:18; Hebreus 13:16; cf. Atos 10:4.

16Filipenses 2:17; 2 Timóteo 4:6; Romanos 15:16.

17Daniel Waterland, Review of the Doctrine of the Eucharist, pp 344-345

18Ibid., p. 601.

19H. J. Schroeder (ed.), Canons and Decrees, Sessão XXII, capítulo 2.

wConstitution on the Sacred Liturgy, I. 1.7.

2iDecree on the Ministry and Life of Priests, II. 5.

^onstitution on the Sacred Liturgy, II. 47.

^Dogmatic Constitution on the Church, III. 28.

2AFinal Report do Comitê Internacional Anglicano-Católico Romano, p. 13. Veja também o exame e a crítica evangélica intitulada Evangelical AngUcans and the ARCIC Final Report, emitido em favor do Concilio Evangélico da Igreja da Inglaterra.

aR. J. Coates, “Doctrine of Eucharistic Sacrifice”, p. 135. 26lbid., p. 143.

27G. Herbert, em Ways ofWorship, ed. P. Edwall, E. Hayman e W. D. Maxwell. Citado nos Lambeth Conference Papers, em 1958, Segunda Parte, pp. 84-85.

28Lambeth 1958, Segunda Parte, p. 84. 29William Temple, Christus Veritas, p. 242.

•^Rowan Williams, em Essays on Eucharistic Sacrifice, ed. Colin Bucha-nan, p. 34.

31C. F. D. Moule, Sacrifice ofChrist, p. 52.

32Baptism, Eucharist and Ministry, II. 8. Veja também Evangelical An­gUcans and the Lima Text, uma análise e crítica, esboçada por Tony Price a pedido do Concilio Evangélico da Igreja da Inglaterra. ^Decree on the Ministry and Life of Priests, I. 2. ^Daniel Waterland, Review of the Doctrine of the Eucharist, p. 343. ^Rowan Williams, Eucharistic Sacrifice, p. 27.

^E. M. B. Green, extraído do capítulo intitulado “O Sacrifício de Cristo e o Nosso”, o qual relaciona a Santa Comunhão com a Cruz, em Guidelines, p. 116.

Capítulo 11

Romanos 6:1-14; cf. Gálatas 2:20; Colossenses 2:20 e 3:1-14; 2 Coríntios 5:14-15.

2William Tyndale, Doctrinal Treatises, p. 510.

3K. Barth, Church Dogmatics, IV. 1, pp. 515-516, 543.

4Lucas 9:23; Mateus 10:38; Lucas 14:27.

5Citado por Martin Hegel em Crucifixion, p.77.

6H. B. Swete, St Mark, p. 172.

TDietrich Bonhoeffer, Cosi of Discipleship, p. 79.

8C. E. B. Cranfield em Mark, p. 281.

9Romanos 8:13; Cf. Colossenses 3:5; 1 Pedro 2:24.

10Mateus 6:26; 12:12.

nWilliam Temple, Citizen and Churchman, p. 74.

12Efésios 4:24; Colossenses 3:10; 2 Coríntios 5:17.

13M. A. C. Warren, Interpreting the Cross, p. 81.

“Calvino, Commentary on a Harmony of the Evangelists, Vol. II, p. 417.

15Jeremias 45:5; Mateus 6:33.

161 Coríntios 4:21; 2 Coríntios 10:6-18; 13:10; 1 Coríntios 4:13-14;

2 Coríntiois 13:10 e 10:1.

171 João 4:7-12; Filipenses 2:3-4; 1 Coríntios 8:11-13í>
18João 17:18; 20:21; 12:24; Mateus 28:18-20.

19Douglas Webster, Yes to a Mission, pp. 101-102.
^A. J. Lewis, Zinzendorf, p. 107.

Capítulo 12

Mateus 5:9; cf. 5:48 e Lucas 6:36.                          È

2Lucas 6:27-28; cf. Mateus 5:44.

3Martin Luther King, Strength to Love, p. 51.

4C. E. B. Cranfield, Comentário, Romans, vol. II, p. 666.

5Esta “dualidade” pode-se encontrar, por exemplo, em War and the Gospel, de Jean Lasserre, pp. 23ss., 128ss. e 180ss.; em Peace in Our Times?, de David Atkinson, pp. 102-107 e 154-157; no debate entre Ronald Sider e Oliver 0′Donovan, publicado como Peace and War, pp. 7-11 e 15; e no meu livro Message of the Sermon on the Mount, pp. 103- 124.

6Jean Lasserre, War and the Gospel, p. 132,

7Exemplo: Jeremias 27:5-6; Daniel 2:21; 4:17, 25, 32; 5:21; 7:27.

8Exemplos de diakonos aplicado a Cristo: Romanos 15:8; a Paulo:

2 Coríntios 6:4. Leitourgos é aplicado a Cristo em Hebreus 8:2 e a Paulo

em Romanos 15:16.

9Machaira, a “espada” do estado nesta passagem, pode também ser

traduzida por “adaga” ou “faca”, mas o Novo Testamento emprega-

-a várias vezes como símbolo da morte por execução ou na guerra

(e.g. Mateus 10:34; Lucas 21:24; Atos 12:2; Romanos 8:35; Hebreus

11:37.

10Oliver 0′Donovan, Pursuit of a Christian View ofWar, p. 13.

nünd., p. 14.

12Como exemplos de desobediência civil veja Êxodo 1:15-21; Daniel

3:118 e 6:1-14; Atos 4:13-20.

“Atos 5:29; cf. 4:19.

“Haddon Willmer, em Third Way, (Maio, 1979).

15David Atkinson, Peace in Our Time?, p. 167.

Capítulo 13

*Veja Life of Voltaire, de S. G. Tallentyre, Vol. II, pp. 2527 e Voltam,

de Colonel Hamley, pp. 168-177.

ditado por Leslie J. Tizard em Preaching, p. 28.

3Lucas 13:16 e 4:35, 39; 2 Coríntios 12:7; Atos 10:38.

*Exemplo: Deuteronômio 28:15ss.; 2 Reis 5:27; Salmos 32:3-5; 38:1-8;

Lucas 1:20; João 5:14; 1 Coríntios 11:30.

5Exemplo: Lucas 13:1-15; João 9:1-3.

6Philip Yancey, Where is God when it hurts?, p. 23.

TC. S. Lewis, Problem ofPain, p. 77; Hugh Silvester, Arguing with God,

P- 32.

“Hugh Silvester, Arguing with God, p. 80. 

V. S. Lewis, Problem of Pain, p. 17.

wlbid.,p. 19

“|oão 11:4 e 9:3.

IJ|oni Eareckson com Joe Musser, Joni, p. 96. Veja também seu se­cundo livro Um Passo Mais, no qual ela escreve mais acerca da so­berania de Deus e de seu propósito eterno. 1 ‘Exemplo: Hebreus 4:15; 7:26.

“•Deuteronômio 8:5; Provérbios 3:11-12; Hebreus 12:5-11; Apocalipse 3:19.

“Salmo 66:10; Isaías 48:10; Zacarias 13:9 1 Pedro 1:6-7.

“■João 15:1-8. Cf. Isaías 5:1-7, especialmente o v. 7, e Gálatas 5:22-23/ como evidência de que o “fruto” significa retidão e caráter semelhante* ao de Cristo.

v’2 Coríntios 12:7-10 e Oséias 1—3.

IBGeorge D. Smith (ed.), Teaching ofthe Catholic Church, pp. 1141-1146. ‘”Paul Tournier, Creative Suffering, pp. 1-5. “‘Isaías 42:1-4; talvez 44:1-5; 49:1-6; 50:4-9; 52:12—53:12. “Exemplo: Mateus 5:10-12; João 15:18-21; Filipenses 1:30; 1 Pedro 2:21; 4:12; 2 Timóteo 3:12.

12Exemplo: Marcos 10:38; 2 Coríntios 1:5; Filipenses 3:10; 1 Pedro 4:13; 5:1.

liExemplo: Atos 14:22; Romanos 8:17; 2 Timóteo 2:11-12; 1 Pedro 4:13, 5:1, 940; Apocalipse 7:9, 14.

“Efésios 1:4; Judas 24; Romanos 8:18; 2 Coríntios 4:17; Romanos 8:2829; 1 João 3:2.

“C S. Lewis, Problem of Pain, pp. 32, 36. 26John Poulton, Feast of Life, p. 52. 27Marcos 13:8; Romanos 8:22. 2HP. Yancey, Where is God when it hurts?, p. 63. ^Ignatius, Ad Polycarp 3. Cf. seu Ad Eph. VIL 2. ^Irenaeus, Adversus Haereses, III. 16.6.

31Veja, por exemplo, Stromateis, de Clemente de Alexandria, v. 11 e Ezek. Hom., de Orígenes, VI. 6. J. K. Mozley apresenta uma pesquisa útil das citações e referências patrísticas em Impassibüüy of God. Veja também Suffering of the Impassible God, de B. R. Brasnett. 32As afirmações de que Deus não muda seu modo de pensar, sua justiça ou sua compaixão podem ser encontradas em Números 23:19; 1 Samuel 15:29; Ezequiel 18:25 e Malaquias 3:6. ^William Temple, Christus Veritas, p. 269. MVincent Tymms, citado por J. K. Mozley, lmpassibility of God, p. 146.

35Gênesis 6:6-7; Juizes 10:16.

36Jeremias 31:20; 31:3; Isaías 49:15; Oséias 11:8.

37Marcos 3:5; João 11:35, 38; Lucas 13:34-35; 19:41-44; Hebreus 4:15.

Veja também o ensaio de B. B. Warfield “The Emotional Life of Our

Lord”, reimpresso de Biblical and Theological Studies (Scribners, 1912)

em The Versou and Work ofChrist, ed. Samuel G. Craig, pp. 93-145.

38H. Wheeler Robinson, Suffering Human and Divine, p. 176.

39Jürgen Moltmann, Crucified God. Veja a seção nas pp. 222-230.

40Dietrich Bonhoeffer, Letters and Papers, p. 361.

41Extraído de Corning of the Third Church, de Walbert Bühlmann, p.

125.

42O rabi Hugo Gryn ouviu esta história pela primeira vez através de um tio seu que sobreviveu a Buchenwald. Ela tem sido contada por vários autores judeus, e também por Gerald Priestiand em Case Against God, p. 13.

43Êxodo 2:24; Isaías 63:9; Atos 9:4; Mateus 1:23; 25:34-40.

44P. T. Forsyth, Justification of God, p. 32.

Conclusão

lA. W. F. Blunt, Galatians, p. 96.

2Joachim Jeremias, Central Message, p. 35.

3A. W. F. Blunt, Galatians, p. 97.

4Martinho Lutero, Evistle to the Galatians, p. 272. 5Citado por Roland H. Bainton, em Erasmus of Christendom, p. 323. 6Martinho Lutero, Epistle to the Galatians, p. 527. 7Hebreus 6:4-6; 10:26-27. Cf. C. F. D. Moule, Sacrifice of Christ, p. 30. 8G. Campbell Morgan, Evangelism, pp. 59-60.

A VITÓRIA É NOSSA!!!

Deixe o seu comentário

A Vitória é nossa!

Nosso maior inimigo é a morte. A morte implica em certo temor.

A Bíblia diz que: “O aguilhão da morte é o pecado,” e a partir do momento em que o primeiro casal sepultou seu filho em uma cova, as pessoas vêm temendo a morte. É o grande monstro misterioso cujos grandes dedos gelados fazem muitos se estremecerem aterrorizados.

O testemunho unânime da história é que a morte é inevitável. Gerações vêm e vão, e cada uma tem deitado seus mortos na tumba. A Bíblia sempre relaciona a morte com o pecado. Ela diz que: “Como o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte, assim a morte infectou a todos os homens porquanto todos pecaram.” Rm 5.12

Estamos procurando prolongar a vida mediante fórmulas químicas nos laboratórios científicos de todo o mundo. Mas até que a ciência não pode encontrar uma solução para o problema da morte. Ainda assim, os cientistas descobriram um segredo que prolonga a vida terrena, ao mesmo tempo só conseguiriam êxito em estender nossos dias de tristeza e aflição.

Centenas de filósofos de todas as épocas têm procurado esquadrinhar mais e além do véu da morte. Suas especulações enchem volumes com respeito às possibilidades de vida além da sepultura.

 A morte ronda entre ricos e pobres, eruditos e ignorantes. A morte não faz distinção de raça, cor nem credo. Suas sombras nos acercam dia e noite. Nunca sabemos quando chegará o momento temido.

 Procuramos dissimular o desastre custeando um seguro de vida, e temos inventado outros mecanismos para tornar mais confortáveis nossos últimos dias; todavia sempre está presente a dura realidade da morte.

Muitos se perguntam: Há alguma esperança? Existe alguma porta de escape? Há uma possibilidade de imortalidade?

Não vou levá-los a um laboratório científico, nem à aula de um filósofo, nem ao consultório de um psicólogo. Em seu lugar, vou levá-lo à tumba vazia de José de Arimateia. Maria, Maria Madalena e Salomé tinham ido à tumba para ungir o corpo do Cristo crucificado. Elas ficaram surpresas ao ver a tumba vazia. Um anjo se colocou ao lado do sepulcro e lhes disse: “Buscais a Jesus nazareno? E logo adiantou: Ele ressuscitou, não está mais aqui.”

 Esta foi a maior notícia que o mundo jamais tinha ouvido. Jesus Cristo havia ressuscitado dentre os mortos, como havia prometido.

A ressurreição de Jesus Cristo é a verdade primordial da fé cristã. Ela descansa na mesma raiz do Evangelho. Sem uma fé na ressurreição não pode haver salvação pessoal. A Bíblia diz: “Se confessares com tua boca que Jesus é o Senhor, e creres em teu coração que Deus o levantou dos mortos, serás salvo.” Temos que crer nisto ou nunca poderemos ser salvos.

 Para muitas pessoas a ressurreição tem chegado a ser pouco mais que um símbolo consolador da imortalidade da alma. Porém, a ressurreição abarca muito mais que a perpetuidade da vida. Crer na imortalidade por si mesma poderia ser algo trágico e horrível. A Bíblia ensina que a fé deve ser acompanhada de uma segura convicção de que Deus uma existência eterna em sua presença gloriosa, através do conhecimento pessoal de seu Filho.

Começamos com o fato de que ao terceiro dia, Jesus Cristo havia ressuscitado dos mortos, saiu do sepulcro e apareceu aos desanimados e assombrados discípulos que haviam perdido toda a esperança de revê-lo. Sem nossa aceitação da realidade da ressurreição, essa celebração não é mais que uma ilusão. Como escreveu o apóstolo Paulo há muito tempo: “E se Cristo não ressuscitou, então é vã nossa pregação e vã também será a nossa fé.”

 Quando se contempla a ressurreição de Cristo como um feito histórico, o Domingo da Ressurreição se converte no dia dos dias e se deve reconhecer e celebrar como a maior vitória de todos os tempos.

A ressurreição foi, em um sentido, uma vitória suprema para a raça humana. Foi uma vitória sobre a morte: “Mas agora Cristo tem ressuscitado dos mortos; e foi feito as primícias dos que dormem.” Sua ressurreição dos mortes é a garantia que também para nós a sepultura será aberta e que seremos também ressuscitados: Porque assim como em Adão todos morreram, também em Cristo todos serão vivificados.” A Ressurreição foi também uma vitória sobre o pecado: “O salário do pecado é a morte.” O pecado de Adão no jardim do Éden teve como resultado a culpa, a condenação e a separação da presença de Deus. De fato, ali também se deu a gloriosa promessa de que apareceria a semente da mulher, e que Deus poria inimizade entre sua semente (Cristo) e a serpente (Satanás).

 No conflito resultante, a semente da mulher seria ferida no calcanhar, porém a troca feriria a cabeça da serpente, infligindo-lhe uma chaga mortal. Isto se cumpriu e manifestado abertamente na ressurreição de Cristo.

 A ressurreição também nos dá vitória sobre as dúvidas. Parece que há milhares de cristãos escravos das dúvidas. Não quero dizer que tais pessoas duvidam da existência de Deus ou das verdades bíblicas. Podemos aceitar tudo isso enquanto seguimos duvidando em nossa relação pessoa com o Deus em quem professamos crer. Algumas pessoas têm dúvidas quanto ao perdão de seus pecados, outras duvidam que sua esperança de ir ao céu, e ainda outras desconfiam de sua própria experiência interior.

Durante seu ministério terreno, Jesus fez uma série de assombrosas afirmações e promessas a seus discípulos, que podem ter lhes parecido inacreditáveis enquanto ele estava no sepulcro. Jesus lhes havia dito: “Eu vim para que tenham vida… todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá eternamente.” Porém agora ele que havia feito essas promessas estava morto, e o sepulcro estava fechado sobre aquele que havia prometido vida eterna a todos os que creram nele. SE ele não tivesse ressuscitado, teríamos motivos suficientes para duvidar da validade de suas promessas.

Mas quando ele saiu do sepulcro, todas suas promessas e suas palavras saíram com ele e hoje vivem em gloriosa vitalidade, poder e autoridade.

 A ressurreição é também uma garantia da vitória sobre nossos temores. Os temores são íntimos aliados das dúvidas. O presidente da faculdade de história de uma de nossas grandes universidades uma vez me confidenciou esta opinião: “Nós temos nos convertido em uma nação de covardes.” Não aceitei sua declaração, porém ele arguiu que muitas pessoas têm se mostrado resistentes a seguir um curso não se trata de algo popular. Inclusive se estamos convencidos de que algo é correto, procuramos não nos comprometer porque ficamos com temor. Se as probabilidades nos favorecem, nos colocamos a seu favor, porém se implica em algum risco em defender o que é correto, procuramos nos colocar a salvo.

Você que tem medo da morte, medo de perder a saúde ou de perder os amigos, examine as palavras de Paulo: “Porque Deus não nos tem dado um espírito de covardia, mas de poder, e de amor, e de domínio próprio.” Deus nos tem dado uma viva esperança mediante a ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos. Este e outras passagens similares assinalam o fato de que nenhum cristão tem razão alguma perante os olhos da vontade de Deus; “Se Deus é por nós, quem será contra nós.

 O poder do Espírito Santo levantou o corpo de Cristo dentre os mortos. Esse mesmo Espírito Santo, agora operando em nós, pode nos livrar dos poderes da ansiedade e do temor, e fazer com que nos regozijemos na segura e gloriosa esperança que ele tem preparado para nós.

A ressurreição nos garante a vitória em nosso dia a dia. A vitória que Cristo conquistou para nós quando ressuscitou do sepulcro pode ser vista em nossa vida diária. Pode ser manifesta em nós e por meio de nós em todo lugar, e em toda circunstância pelo seu poder ressuscitador para a glória de Deus.

Podemos estar conscientes cada dia de seu poder vitorioso operando em nós, por nós e por meio de nós para sua glória. Podemos exclamar como o apóstolo Paulo: “Mas graças sejam dadas a Deus, que nos dá a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” I Co 15.57.

Se você fizer este compromisso com Cristo hoje, por favor, conte-nos a respeito.

Billy Graham

www.billygraham.org

Alimentando as Ovelhas ou divertindo os Bodes?

Deixe o seu comentário

     Alimentando as Ovelhas ou Divertindo os Bodes?

Existe um mal entre os que professam pertencer aos arraiais de Cristo, um mal tão grosseiro em sua imprudência, que a maioria dos que possuem pouca visão espiritual dificilmente deixará de perceber. Durante as últimas décadas, esse mal tem se desenvolvido em proporções anormais. Tem agido como o fermento, até que toda a massa fique levedada. O diabo raramente criou algo mais perspicaz do que sugerir à igreja que sua missão consiste em prover entretenimento para as pessoas, tendo em vista ganhá-las para Cristo. A igreja abandonou a pregação ousada, como a dos puritanos; em seguida, ela gradualmente amenizou seu testemunho; depois, passou a aceitar e justificar as frivolidades que estavam em voga no mundo, e no passo seguinte, começou a tolerá-las em suas fronteiras; agora, a igreja as adotou sob o pretexto de ganhar as multidões.
Minha primeira contenção é esta: as Escrituras não afirmam, em nenhuma de suas passagens, que prover entretenimento para as pessoas é uma função da igreja. Se esta é uma obra cristã, por que o Senhor Jesus não falou sobre ela? “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16.15) — isso é bastante claro. Se Ele tivesse acrescentado: “E oferecei entretenimento para aqueles que não gostam do evangelho”, assim teria acontecido. No entanto, tais palavras não se encontram na Bíblia. Sequer ocorreram à mente do Senhor Jesus. E mais: Ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres” (Ef 4.11). Onde aparecem nesse versículo os que providenciariam entretenimento? O Espírito Santo silenciou a respeito deles. Os profetas foram perseguidos porque divertiam as pessoas ou porque recusavam-se a fazê-lo? Os concertos de música não têm um rol de mártires.

Novamente, prover entretenimento está em direto antagonismo ao ensino e à vida de Cristo e de seus apóstolos. Qual era a atitude da igreja em relação ao mundo? “Vós sois o sal”, não o “docinho”, algo que o mundo desprezará. Pungente e curta foi a afirmação de nosso Senhor: “Deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos” (Lc 9.60). Ele estava falando com terrível seriedade! Se Cristo houvesse introduzido mais elementos brilhantes e agradáveis em seu ministério, teria sido mais popular em seus resultados, porque seus ensinos eram perscrutadores. Não O vejo dizendo: “Pedro, vá atrás do povo e diga-lhe que teremos um culto diferente amanhã, algo atraente e breve, com pouca pregação.

Teremos uma noite agradável para as pessoas. Diga-lhes que com certeza realizaremos esse tipo de culto. Vá logo, Pedro, temos de ganhar as pessoas de alguma maneira!” Jesus teve compaixão dos pecadores, lamentou e chorou por eles, mas nunca procurou diverti-los. Em vão, pesquisaremos as cartas do Novo Testamento a fim de encontrar qualquer indício de um evangelho de entretenimento. A mensagem das cartas é: “Retirai-vos, separai-vos e purificai-vos!” Qualquer coisa que tinha a aparência de brincadeira evidentemente foi deixado fora das cartas. Os apóstolos tinham confiança irrestrita no evangelho e não utilizavam outros instrumentos. Depois que Pedro e João foram encarcerados por pregarem o evangelho, a igreja se reuniu para orar, mas não suplicaram: “Senhor, concede aos teus servos que, por meio do prudente e discriminado uso da recreação legítima, mostremos a essas pessoas quão felizes nós somos”. Eles não pararam de pregar a Cristo, por isso não tinham tempo para arranjar entretenimento para seus ouvintes. Espalhados por causa da perseguição, foram a muitos lugares pregando o evangelho. Eles “transtornaram o mundo”. Essa é a única diferença! Senhor, limpe a igreja de todo o lixo e baboseira que o diabo impôs sobre ela e traga-nos de volta aos métodos dos apóstolos.

Por último, a missão de prover entretenimento falha em conseguir os resultados desejados. Causa danos entre os novos convertidos. Permitam que falem os negligentes e zombadores, que foram alcançados por um evangelho parcial; que falem os cansados e oprimidos que buscaram paz através de um concerto musical. Levante-se e fale o alcoólatra para quem o entretenimento na forma de drama foi um elo no processo de sua conversão! A resposta é óbvia: a missão de prover entretenimento não produz convertidos verdadeiros. A necessidade atual para o ministro do evangelho é uma instrução bíblica fiel, bem como ardente espiritualidade; uma resulta da outra, assim como o fruto procede da raiz. A necessidade de nossa época é a doutrina bíblica, entendida e experimentada de tal modo, que produz devoção verdadeira no íntimo dos convertidos.

Esse comentário foi feito por aquele que é considerado ” O Principe dos Pregadores”, Charles H. Spurgeon. (1834-1892).

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 257 outros seguidores