Prega a Palavra – Passos para a Exposição Bíblica (PREGAÇÃO EXPOSITIVA)


 

PREFÁCIO DO AUTOR

A exposição bíblica semanal não é feita pela maioria dos pastores. Eles são ativistas e, literalmente, não podem parar para estudar. Alguns realmente tem medo de ficar a sós com Deus e sua Palavra. Outros pregadores não expõem a Palavra de Deus, simplesmente porque não redefiniram sua filosofia funcional sobre o ministério da palavra (At 6.4). Eles estudaram teologia, mas não fizeram através dela uma filtragem ativa de suas filosofias de pregação e prática. O pragmatismo religioso domina a teologia deles muito mais do que se admite abertamente.

Como seminarista, eu gostava das aulas sobre pregação expositiva, mas por alguma estranha razão não usei aquele conhecimento ou prática no campo missionário. Em terras estrangeiras eu pregava rotineiramente homilias textuais e típicas. Agora parece tão estranho o fato de ter trancado em meus arquivos tantas informações úteis sobre exposição bíblica!

Em nosso terceiro período no Brasil, Deus abriu as portas para eu e minha esposa trabalharmos com um grupo brasileiro da ABU. Isto se deu cerca de dez anos depois de eu ter guardado minhas anotações das aulas de pregação expositora. A análise que a ABU fazia da Palavra de Deus era caracterizada por estudos bíblicos indutivos que envolviam parágrafos e capítulos inteiros. Eu ficava fascinado com a unidade de pensamento naqueles parágrafos bíblicos selecionados. Mais do que isso, eu era alimentado com o maná espiritual de Deus. Poderia minha pregação ser baseada em parágrafos inteiros e nutrir outras pessoas da mesma forma?

No início da década de setenta, eu lecionava num instituto bíblico e na Faculdade Teológica Batista de são Paulo. O diretor do instituto bíblico pediu-me que desse um curso sobre exposição bíblica. Os arquivos estavam abertos. Com aquelas anotações da sala de aula e minha tese de mestrado, comecei a formular uma abordagem prática para a pregação expositora no Brasil. Meus alunos queriam saber como preparar um sermão expositivo. Quais eram os passos?

Uma abordagem prática começaria com a filosofia real de uma pessoa sobre o ministério da palavra e o desafio de conformá-la ao molde bíblico. Meus alunos teriam de reexaminar suas bases filosóficas e/ou teológicas do ministério. A menos que houvesse uma alteração de rota neste ponto, eles inevitavelmente também iriam guardar e esquecer suas anotações!

Sob o incentivo de muitas pessoas, coloco agora estas idéias, convicções e passos em forma impressa. Que a sabedoria de Deus esteja com todos os leitores. Possa o Espírito Santo gravar indelevelmente em cada coração aquilo que importa num “ministério da palavra” alegre e eficaz.

INTRODUÇÃO

 

Durante a chamada “Semana Santa” da igreja cristã, comemoramos a ressurreição factual de Jesus Cristo, o filho unigênito de Deus. Eu não teria a menor coragem de pregar o evangelho se qualquer superstição ou “mito teológico” formasse a base da fé na ressurreição de meu Senhor. Estou convencido de que a exposição da Palavra de Deus tem sua razão de ser apenas porque Jesus Cristo está vivo hoje.

O criador da vida está conosco hoje. Ele concede vida à pregação de sua Palavra. Deus, e não a retórica, faz com que a mensagem pregada penetre as fortalezas da vontade humana. Uma vez que Jesus Cristo é o “logos”, a Palavra de Deus personificada, através de sua vida ele aplica ao coração dos ouvintes sua Palavra exposta.

Neste sentido gosto de criar a figura mental de Jesus Cristo ao lado de cada expositor da Bíblia, infundindo vida ao pregador e sua mensagem. Em situações como esta, os ouvintes não terão dúvidas acerca de quem está falando.

É claro que quando o Deus vivo está falando através de Sua Palavra exposta, o instrumento humano sempre poderá ser a pessoa mesma em sua autenticidade. não há necessidade de que ela modifique sua personalidade, quando está atrás de um púlpito. Nem mesmo é preciso que altere sua voz ou simule ser um profeta. Quando o Cristo ressurrecto vitaliza sua Palavra, o mensageiro permanece autenticamente humano, mas a mensagem sempre produz resultados sobrenaturais.

Neste projeto desejo exaltar ao máximo a pessoa viva de Jesus Cristo e sua  Sem estes dois elementos não existe razão ou recursos para a pregação! As técnicas aqui ensinadas são simplesmente técnicas, sem qualquer poder inerente que possa tomar o lugar ativo do Espírito Santo. Todas as coisas devem se curvar diante do Senhor Jesus Cristo; técnicas, oratória, dons espirituais e nós mesmos.

Não é fácil ser um expositor sistemático da Bíblia no mundo tumultuado de hoje. Trata-se de uma tarefa que exige o poder da força de vontade e uma convicção ativa de que a Bíblia é a Palavra de Deus eterna.

No capítulo dois tratamos da herança cultural depositada no Brasil e procuramos compreender como ela pode contribuir com eficácia para o treinamento de expositores bíblicos.

O capítulo três nos informa sobre a formulação (e, às vezes, reformulação) de uma filosofia motivadora (teologia) no ministério da Palavra. Esta é uma necessidade básica para os pregadores de hoje. Isto é verdade, porque a conduta diária de uma pessoa no estudo e no púlpito é regida por essa filosofia.

O capítulo quatro apresenta-nos a difícil tarefa de definir a pregação expositiva. Há muitas definições boas, e tentamos escolher as melhores entre elas. Talvez o que precisemos não seja uma definição perfeita, mas alguns princípios básicos inerentes à pregação expositiva.

No quinto capítulo são esboçadas algumas vantagens práticas resultantes de uma pregação expositiva sistemática. Alguém já disse que quando um pregador expõe a Bíblia, Deus fala muito mais do que o próprio ministro. Esta é uma grande vantagem para milhares de almas famintas!

O capítulo seis toca no problema sempre atual do ministro e seu uso do tempo. No ministério da palavra o tempo é infinitamente mais do que dinheiro. É uma questão profundamente teológica.

A segunda parte deste projeto trata de um método para o preparo de sermões expositivos numa série através de livros específicos da Bíblia.

Este método leva em conta o fato de que muitos pastores Não possuem treinamento teológico nas áreas de línguas originais da Bíblia. Todavia, um contato concentrado e orientado com o parágrafo da Bíblia a ser exposto poderá garantir uma interpretação coerente e inteligente. Quanto mais o expositor conhecer as línguas originais, mais recursos terá à sua disposição. Qualquer que seja seu caso, este método objetiva a criação de um sermão que seja fiel a seu intento original e também humanamente possível. Um contato concentrado com o texto bíblico e o cultivo de um coração sensível à voz de Deus servirão bastante para que o expositor transmita uma mensagem fiel as intenções originais de Deus.

Acreditando que as mensagens expositivas devem ser oferecidas em forma seqüencial, através dos livros da Bíblia, os capítulos sete e oito tratam de um preparo global para as séries. O capítulo sete mostra como trabalhar com os antecedentes históricos e culturais do livro escolhido para a série. O capítulo oito é um guia para leituras panorâmicas e uma familiarização geral com o livro em questão. Isto capacitará o pregador a dividir o livro da Bíblia em uma série de parágrafos claros e autônomos. O capítulo sete oferece um exercício que revela bons materiais de ilustração para as exposições. O preparo indicado no capítulo oito ira produzir um enorme sentimento de paz, pois o arauto saberá, com semanas de antecedência, o que Deus quer que ele pregue. Este é um dos maiores redutores de estresse jamais conhecidos no ministério da palavra.

Os capítulos nove e dez são guias para o preparo real de um sermão específico dentro da série sobre o livro. A premissa básica que está por trás destes passos na pesquisa é a seguinte: um contato concentrado e lógico com o texto bíblico levará o pregador a descobrir a idéia central e desenvolvê-la, atingindo um sermão com um importante desafio.

À primeira vista pode parecer que existem muitos passos. Isto é ilusório, pois, com a prática, o expositor sempre dará dois ou três passos de uma só vez. Muitos alunos formados no seminário mencionaram que, depois de seis meses de preparo fiel destes passos, eles eram capazes de avançar vários deles simultaneamente. Cada um dos passos seguintes é tratado como uma divisão de instruções.

Pesquisa número um: exercícios de familiarização com o texto para se encontrar um tema, fazer uma paráfrase não-técnica, providenciar uma checagem nos parâmetros do parágrafo e fazer um esboço analítico dele. Um esboço analítico mostrara a estrutura literária e a seqüência lógica das principais idéias do parágrafo a ser pregado.

Pesquisa número dois: uma exegese do parágrafo. Isto deve ser feito a partir das línguas originais da Bíblia. Todavia, isto é impossível para milhares de servos do Senhor. Portanto, deve ser feita uma cuidadosa e estudada exegese no vernáculo. Isto pode ser conseguido através do uso de dicionários e comentários. Em ambos os casos, este exercício deve ajudar a tornar gramaticalmente mais correta a primeira paráfrase.

Pesquisa número três: um estudo indutivo do parágrafo a ser pregado. A dinâmica interna da passagem e as aplicações óbvias virão a luz neste ponto. Passagens paralelas do Antigo e Novo Testamentos serão consultadas para sustentar e ilustrar a dinâmica do parágrafo.

Pesquisa número quatro: a proposição central do parágrafo a ser pregado é revelada, condensada e escrita em forma de princípio bíblico ensinável. Nesta idéia central apóiam-se o conteúdo e a estrutura de toda a exposição. Com base nesta pesquisa o expositor continua para compor o sermão. Na realidade, este passo é tanto uma pesquisa quanto um exercício de composição.

Composição número um: são preparadas as divisões principais, baseadas na palavra chave da idéia central e vindicadas no parágrafo a ser pregado. As pesquisas dois e três fornecerão o “recheio” ou argumentação de cada divisão.

Composição número dois: reúnem-se e selecionam-se ilustrações e passagens paralelas que sirvam como “luzes” sobre argumentos e idéias abstratas, visando à aplicação da idéia central na vida.

Composição número três: em um clímax, a conclusão reúne os argumentos sobre a idéia central (proposição) e convoca os ouvintes a uma decisão consciente. A introdução, sendo clara e direta, “fisga” a atenção e conduz os ouvintes ao texto e a idéia central a serem apresentados.

Composição número quatro: um bom esboço de sermão é uma necessidade didática para os ouvintes e um guia para o pregador, de modo que todos possam “ver” para onde estão caminhando.

Em minha opinião, não há dúvida de que a Bíblia é a perfeita revelação daquilo que Deus pensa acerca de nós e de nossos caminhos. Por esta razão, existe uma urgência divina no sentido de que nós, como ministros de Cristo, exponhamos os pensamentos de Deus com convicção e autoridade. Isto exige que estudemos e conheçamos a Bíblia como nenhum outro livro. Oratória e eloqüência nunca esconderão nossa falta de preparo ou a ausência de um caráter cristão profundo. O discernimento espiritual do povo de Deus o fará ouvir imediatamente o sinal de alarme em nossas imitações barulhentas de um profeta de Deus.

Nos parágrafos seguintes elaborei um esboço destes passos da pesquisa. Eles se apresentam em forma de ampulheta. Isto serve para nos ajudar a visualizar o processo de pesquisa que conduz a idéia central do conteúdo da passagem. A abertura externa da ampulheta mostra o processo de composição dos fatos pesquisados em forma de sermão. Este esboço de estudo sofreu muitas revisões durante meus anos de magistério. Esta última revisão parece incorporar no processo aspectos tanto espirituais quanto técnicos. A parte espiritual procede da convivência com as Escrituras durante os passos de pesquisa. Que este esboço gráfico de todo o processo possa ajudar o expositor aspirante a compreender a tarefa bem como a teologia pressupostas.

PASSOS DE PESQUISA E COMPOSIÇÃO PARA SERMÕES EXPOSITIVOS

 

I. PESQUISA

1. Familiarização: percepções globais do parágrafo

2. Exegese: no vernáculo e nos textos originais

3. Estudo bíblico indutivo do texto

4. Proposição central

II. COMPOSIÇÃO

1. As divisões principais

2. As ilustrações (luzes)

3. Conclusão (foco na decisão)

Introdução (o ouvinte é “fisgado”)

4. esboço do sermão (uma direção clara para todos)

Aqui se torna apropriado explicar a lógica dos passos de pesquisa. Durante um período de dez anos, pregadores praticantes e aspirantes foram meus alunos na Faculdade Teológica Batista, em São Paulo. Através de diálogos nas aulas, lutávamos para encontrar uma seqüência de passos de estudo que fosse lógica e relativamente descompassada. Com base em experiências reais no ministério, o leitor poderá oferecer outras idéias.

Os passos de pesquisa serão desenvolvidos numa parte posterior deste projeto. Basta dizer que foi aqui neste ponto que meus alunos descobriram com tristeza que a carne é traiçoeiramente fraca! A pesquisa e o estudo silencioso pareciam bem distantes da experiência tão alegre de expor a Palavra de Deus. Aqueles alunos que lutaram contra a preguiça da carne vieram a perceber o valor desta pesquisa orientada em tarefas imediatas e em ministérios futuros.

Em todo o mundo, para muitos pregadores é extremamente limitada à disponibilidade de livros técnicos que ofereçam materiais sobre os panos de fundo cultural e histórico. Em alguns lugares, livros desse tipo não existem no idioma local. Isto pode ser um obstáculo ao processo de preparo, mas não necessariamente o interrompe. Muitos pregadores descobrem fatos e sinais sobre o pano de fundo cultural da Bíblia que estavam parcialmente ocultos, através de leituras atentas do texto. Discernimento e intuição lhes dão um “sentimento contemporâneo” ao contexto bíblico. Isto pode estar relacionado com o fato de suas culturas serem semelhantes àquelas da Bíblia.

O processo lógico dos passos de pesquisa e composição para mensagens expositivas é o seguinte:

1. Familiarização. Num sentido ético/moral, “o homem é o sermão”. Portanto, a familiarização espiritual e intelectual com o parágrafo a ser pregado é um sine qua non. Um parágrafo de pregação é uma porção da Bíblia que é “um ensaio em miniatura auto-abrangente ou parte de uma obra maior…” (Gefvert 1985, 125). Meus alunos sempre afirmavam que este exercício fazia consistentemente o “fogo arder” em suas almas, criando expectativa e desejo de pregar. Um contato íntimo com o parágrafo a ser pregado ajuda a descobrir o tema e confirma os parâmetros exatos dos versículos do texto. A PARÁFRASE escrita que resulta deste exercício torna pessoal o parágrafo e ajuda o expositor a ver o fluxo lógico de idéias. Este fluxo ajuda a pessoa a fazer um esboço analítico do parágrafo. Este esboço é simplesmente uma percepção da estrutura literária do parágrafo da pregação.

2. Exegese. Este passo na pesquisa terá grandes utilidades, mesmo quando a exegese for feita somente no vernáculo. Muitos pregadores não possuem qualquer treinamento formal nas línguas originais da Bíblia. Outros não tem acesso a comentários e livros de estudo dos vocábulos que possam lhes ajudar. A exegese no vernáculo dependerá (a) do uso inteligente de um bom dicionário do idioma que inclua a etimologia de cada palavra, (b) do uso aplicado de várias traduções confiáveis da Bíblia e (c) de discernimento espiritual.

A exegese existe para ajudar o pregador a entender os significados e usos de palavras e/ou frases em seus contextos gramaticais. Certamente isto capacitara o expositor a corrigir elementos em sua primeira tentativa de parafrasear um texto. O alvo é chegar a uma interpretação cuidadosa das idéias do parágrafo. O guia com instruções para este exercício servirá para ambos os tipos de exegese, isto é, nas línguas vernacular e original.

3. Estudo Indutivo. Este estudo ser feito agora a partir do conhecimento protetor coligido nos materiais sobre antecedentes históricos/culturais, no processo de familiarização e no exercício de exegese. O estudo indutivo deve revelar o tema teológico básico expresso no parágrafo. É no estudo indutivo que o expositor encontra grande parte do conteúdo real de sua mensagem. A tríade tradicional de observação, interpretação e aplicação fornecerá material significativo para o sermão

4. Proposição Central. Também chamada de idéia central ou “grande idéia”. Na realidade é uma afirmação teológica, em “roupa de domingo”, isto é, uma forma homilética conferida ao tema do parágrafo. A proposição é o chamado coração do sermão, no sentido de que fornece parâmetros claros para a estrutura homilética e para o conteúdo da exposição. A partir da proposição são derivadas a forma essencial e a argumentação da introdução, divisões principais e conclusão.

A partir daqui se desenvolve a estrutura do sermão expositivo, que tem como base e corpo o conteúdo descoberto nos passos de pesquisa números um, dois e três. Os passos seguintes são os de composição.

1. Divisões Principais. A palavra chave na proposição nos diz como escrever as divisões principais. A palavra chave deriva explícita ou implicitamente do texto bíblico em questão. Assim fica claro que as divisões principais terão um relacionamento de “sangue” com o parágrafo a ser pregado. Elas não são simplesmente “recursos de homilética”.

2. Ilustrações. O fato de pensar nas ilustrações a esta altura do preparo mantém o expositor na direção carreta. Ele conhece com intimidade seu assunto. Neste ponto ele está consciente das áreas abstratas de toda sua argumentação e pode pensar com eficácia sobre como “iluminá-las” com as ilustrações.

3. Conclusão e Introdução. Embora sejam as menores partes do sermão, elas devem ser preparadas diligentemente, assim como as outras. Incluir a conclusão e a introdução entre os passos de pesquisa ajuda o expositor a superar o impulso de começar extemporaneamente e terminar “com poucas palavras”. A conclusão e a introdução feitas sem preparo geralmente enfraquecem uma boa exposição. Aliás, uma proposição bem escrita é uma fonte fértil para o preparo da introdução. Isto também é verdade quanto as outras partes do sermão. Se composta por último, a introdução terá todos os recursos das informações e inspiração já reunidas. Uma introdução vívida torna possível que o pregador “fisgue” a atenção dos ouvintes e os dirija para o texto e sua proposição central.

4. Esboço do Sermão. Aqui não estamos discutindo se o pregador deve ou não levar um esboço para o púlpito. Esta é uma questão pessoal. O importante é que a mensagem seja esboçada, levando-se em conta que os ouvintes não podem visualizá-la. O pregador-mestre (Efésios 4.11) deve estimular a imaginação do grupo com palavras vívidas e uma lógica fluente.

Antes que avancemos para cada passo da pesquisa, é absolutamente necessário que pensemos outra vez em nossas motivações básicas relacionadas com nosso chamado para o ministério. Precisamos fazer isso, à luz de nossa cultura, filosofia e teologia. Os capítulos de dois a quatro serão dedicados a esta finalidade.

AS ESTRUTURAS SOCIAIS E A EXPOSIÇÃO BÍBLICA

 

Nesta parte examinaremos o ministério da palavra no contexto do cenário cultural. Em meu caso, o cenário é o Brasil, onde ensinei durante dezoito anos na Faculdade Teológica Batista.

O pano de fundo sociológico de meus alunos era como um caleidoscópio, por sua variedade. Havia japoneses de segunda geração, provenientes das denominações Metodista Livre e Holiness. Eles tendiam a ser quietos, aplicados e analíticos. Os alunos do norte tropical eram mais intuitivos e poéticos, refletindo a mistura sangüínea afro-ameríndia. Os seminaristas procedentes do sul mostravam suas raízes euro-germânicas, eram muito organizados, analíticos e dados a leitura. Os alunos da cidade industrial de São Paulo eram ativistas entusiastas, prontos para converter o mundo e relutantes em separar tempo para estudos profundos.

Devido a raras circunstâncias, os primórdios das estruturas sociológicas brasileiras foram pluralistas (europeus, ameríndios e africanos). No Brasil, esta estrutura social pluralista “inata” teve um enorme efeito sobre o papel do ministro como mestre e pregador, conforme veremos.

Enquanto olharmos para o cenário cultural e examinarmos os estilos de pensamento e comunicação, descobriremos que o pregador brasileiro tem um potencial natural para ser um expositor vibrante da Palavra de Deus.

Os Antecedentes Culturais e os Traços de Caráter

 

Os portugueses, descobridores do Brasil, eram pessoas de ampla adaptabilidade cultural. Talvez tenham assimilado isto dos mouros errantes que dominaram seu país durante vários séculos. Aonde quer que os portugueses fossem eles se misturavam com facilidade, “criando uma população híbrida e estabelecendo um modo de vida adaptado as condições locais, apesar de serem basicamente ibéricos nas instituições” (Wagley 1971, 11).

Antes de ser descoberto em 1500 pelos portugueses, o Brasil, na verdade, pertencia aos ameríndios. Apesar de esse povo ser classificado como “selvagem”, a adaptabilidade ibérica ajudou os descobridores a superarem barreiras quanto aos casamentos. A conquista deles não se limitava a novos territórios, mas incluía moças indígenas, que se tornariam mães de uma raça parcialmente “nova”.

Incapazes de forçar os índios ao trabalho metódico nos campos de cana-de-açúcar, os portugueses começaram a importar escravos africanos para o Brasil. Há estimativas de que num período de cem anos eles trouxeram nove milhões de escravos. Novamente, eles não criaram nenhum tabu social, coabitaram e, algumas vezes, se casaram com mulheres negras. Assim, a “mistura” tomou duas direções. Esta circulação de genes entre as raças vermelha, branca e negra produziu os elementos básicos de uma nova cultura.

Em termos de religião, os portugueses ensinaram ativamente o catolicismo institucional com todos os adornos litúrgicos. O escravo negro ateve-se à sua cosmovisão, um politeísmo que via o universo como uma intrincada rede de forças espirituais interativas (Hesselgrave 1978, 150). Esses espíritos africanos foram astuciosamente rebatizados (pelos escravos), de acordo com os nomes de muitos santos católicos, a fim de se evitar censura ou perseguição. A este conglomerado religioso os ameríndios acrescentaram seu conceito monoteísta de um poder soberano chamado Tupã, o supremo manipulador da natureza e de todos seus elementos (Matta e Silva 1981, 23). Esta livre fusão de formas e crenças religiosas finalmente causaria um impacto sobre a mentalidade religiosa brasileira. Por fim, sociólogos iriam empregar o termo “homem cordial” para descrever a tolerância brasileira, sua abertura e atitudes do tipo “viva e deixe viver”. Este homem cordial seria considerado a maior contribuição do Brasil para a civilização mundial (Burns 1968, 6). Podem ser vistas na cultura religiosa brasileira as várias contribuições do cristianismo católico, do espiritismo africano e do xamanismo ameríndio.

Para os portugueses de ambição exagerada, a vida de uma pessoa consistia de trabalho, do nascer ao pôr-do-sol. Em contraste, o índio e o africano viam o tempo como um único evento global, não como uma sucessão planejada de minutos e horas. Os portugueses sabiam muito bem planejar e trabalhar visando o futuro. O africano e o índio aplaudiam o passado “como algo realizado… algo de que se pode ter certeza” (Mayers 1976, 93). É interessante observar que muitos brasileiros da atualidade comemoram fielmente eventos históricos com cerimônia e lazer, olhando para a frente e comemorando o passado! Será que estes rudimentos culturais tem impacto sobre o ministério da Palavra na comunidade evangélica de hoje? Teriam os pregadores brasileiros uma mente mais ligada a eventos do que orientada pelo tempo? As atividades gerais da igreja são mais importantes do que um horário para estudo normalmente planejado e reservado?

Parece que o ministério no Brasil tende a ser mais relacionado com a psicologia de grupo do que com a sincronização de um planejamento. Existe mais consciência a nível de pessoas do que de tempo (Mayers 1976, 91).

Pessoas dirigidas por eventos tendem a embelezar acontecimentos, através de rituais, cores e participação ativa. Isto pode explicar o fenômeno do crescimento da umbanda (mais de doze milhões de adeptos), que, a princípio, falava de perto aos negros, mulatos e índios, quando começou há sessenta anos atrás. Danças, tambores e êxtase são os adornos usados de forma expontânea e audível. A umbanda empresta dos ameríndios o que os nacionalistas brasileiros chamariam de sua verdadeira essência, a invocação dos espíritos de ancestrais para possuir seus líderes e, de forma sobrenatural, conceder-lhes poder.

É claro que não através dos mesmos espíritos, mas com uma forma exterior semelhante, muitos cristãos pentecostais embelezam seus cultos com orquestras, louvores, glossolalia e profecias. Eles buscam ativamente o elemento miraculoso e não dão muita atenção ao tempo que passa (Mayers 1976, 91). Há outros autores, como Bastide (1978) e St. Clair (1971), que tratam desta indiferença em relação ao tempo.

Parece que um espírito servil de imitação ameaçou a autonomia da nova cultura brasileira, em princípios do século XIX. Na mente de alguns observadores, esta imitação cega representaria um obstáculo ao processo de esclarecimento das abordagens brasileiras à vida. Em nosso caso, perguntamos se o espírito de imitação não colocou obstáculos à abordagem criativa na exposição bíblica entre os pregadores evangélicos.

O livro de Gilberto Amado, História da Minha Infância, mostra os extremos deste espírito de imitação, quando escreve:

Naquela época… o Brasil não fabricava um metro de seda, um sapato, um carretel de linha; tudo era importado… O vestuário masculino para um clima tropical era feito de tecido inglês, próprio para a vida nas casas frias do inverno inglês. Perguntei a mim mesmo: como eles suportam o calor?… Em Pernambuco, nós, estudantes universitários, vestíamos paletós matinais e casacos de equitação… Com exceção dos pobres, nunca vi… alguém vestido com tecidos leves (citado por Burns 1968, 40).

Uma crítica semelhante foi expressa em 1923, na inauguração da estátua de Cuautemoc no Brasil. O embaixador mexicano, José Vasconcelos, observou que Cuautemoc havia sido o último imperador asteca e disse:

O primeiro século de nossa vida nacional foi um século (de esforços) para ser uma cópia perfeita do europeu; agora é hora não de retrocesso, mas certamente de originalidade. Cansados… de toda esta civilização de cópias… interpretamos a visão de Cuautemoc como uma profecia acerca do… nascimento da alma latino-americana (Burns 1968, 62).

O apelo de Vasconcelos por uma cultura autóctone em 1923 reflete o temor de alguns brasileiros de hoje, que pensam que a pregação expositiva é um sistema estrangeiro a ser imitado. Talvez este receio se relacione mais ao estilo de pregação do que a real exposição da Bíblia. É claro que a cultura pode ter influência sobre os métodos de preparo ou estilos de pregação, mas é difícil pensar em qualquer cultura, cristã ou pagã, que proíba a exposição das Sagradas Escrituras!

Em nossa tentativa de relacionar as estruturas sociais no Brasil com a arte de expor a Palavra de Deus, vemos analogias nos campos da literatura e da política. Enquanto outras vozes clamavam contra a imitação servil, José de Alencar começou a escrever seus próprios romances indígenas. Sua obra mais famosa é O Guarani. Peri, o protagonista ameríndio, é retratado idealisticamente como forte, honesto e cem por cento brasileiro! Alencar faz que o orgulho e a independência de Peri se destaquem como qualidades reais do verdadeiro caráter brasileiro (Burns 1968, 44, 45). Em certo sentido, ele estava dizendo que esta identidade natural eliminava a necessidade de imitações servis. Na obra de Alencar vemos os tragos de caráter necessários para que o ministro seja um expositor autêntico da Palavra de Deus: força, honestidade e independência.

Havia também o processo de desenvolvimento de um caráter autônomo na dinâmica da política que transformou o Brasil numa república. No início do século XIX, o Brasil decidiu definir com clareza suas fronteiras ao sul. A Argentina reagiu e chamou o Brasil de “inimigo natural” das nações hispânicas. Estas ações nas fronteiras demonstravam o crescente espírito brasileiro de independência.

Em 1840, Dom Pedro II assumiu o lugar de seu pai no trono português no Brasil. Nascido no Brasil, ele tinha dupla cidadania e dupla lealdade. De 1840 a 1889 ele uniu a nação. Embora dependente de Portugal, o Brasil desenvolveu uma infra-estrutura básica que, finalmente, o levaria a autonomia. E assim aconteceu. A Guerra do Paraguai firmou o “exército brasileiro” e aprofundou o espírito de independência. Em 15 de novembro de 1889, este novo exército depôs Dom Pedro II (que não ofereceu resistência) e o Brasil se tornou uma república, embora geralmente governada por militares (Burns 1968, 36-50). Esta mudança da dependência para a independência causaria sobre a mentalidade social do cidadão brasileiro o impacto cultural de uma autonomia crescente.

Hoje é possível sentir uma cuidadosa coexistência de idealismo e realismo na cultura política e religiosa do Brasil. Nacionalismo autônomo e “independência dependente” andam juntos. Talvez os personagens espanhóis Dom Quixote e Sancho Panza personifiquem esta interação de idealismo e realismo no Brasil. O guerreiro idealista sonha com as mais altas glórias. Panza, o companheiro com os pés no chão, sempre traz Dom Quixote de volta para a realidade. O fato de que estes dois homens “eram companheiros constantes, em vez de competidores” (Ida 1974, 37) ilustra a coexistência de idealismo e realismo, típica da personalidade latina.

Em termos de exposição bíblica na América Latina, parece claro que a pluralidade de influências deve servir como base e parâmetro para o desenvolvimento de uma metodologia de exposição. Continuaremos agora para averiguar como a mitologia dos ancestrais dos ameríndios, o espiritismo animista africano e o catolicismo crédulo português contribuíram de forma única para os estilos de cognição e comunicação no Brasil.

Os Estilos Cognitivos e as Formas de Comunicação

 

Os estilos de liderança (políticos, religiosos e outros) são profundamente afetados pelo processo de pensamento/cognição usado em certa cultura. Cada cultura tem seus próprios padrões e expressões de pensamento que retratam “a mente de um povo”. A cosmovisão (padrões de pensamento e formas de reagir a vida) é a chave em nossa busca de uma base para a exposição bíblica. Há quem goste de presumir que existem pontos culturais em comum favoráveis à exposição da Palavra de Deus em todas as culturas. Assim mesmo, “duas pessoas com panos de fundo diferentes podem fazer a mesma coisa, mas para cada uma o ato pode ter conotações que variam, podendo surgir de uma mentalidade que não tem nenhuma relação com a da outra pessoa” (Hesselgrave 1979, 202). A cultura brasileira, sendo uma mistura das culturas européia, africana e ameríndia, desafia-nos a compreendermos estas influências em sua operação nos estilos de cognição e comunicação dos ministros evangélicos da Palavra dos dias atuais.

O brasileiro, embora talvez seja mais intuitivo em média, não é nenhum desajeitado quando se mostra lógico, racional e intelectualmente agressivo. Sua herança do oeste europeu lhe instilou esta característica, e ele pode ser racional, mesmo que os outros dois terços de sua herança cultural pesem mais para o lado da intuição.

Deve-se observar que a maioria das culturas parece ter uma abordagem cognitiva dominante quanto a realidade da vida. F. H. Smith elaborou uma tríade interessante das formas cognitivas de se ver a vida. Ele as diferencia como: 1) conceptual; 2) intuitiva (ou psíquica); e 3) relacional concreta (Hesselgrave 1979, 207-209). De muitas maneiras estas abordagens são representadas pelas três raças integradas que formam a base da sociedade brasileira.

Os portugueses, com seu contexto do oeste europeu, veriam e interpretariam a realidade da vida através de conceitos. A cultura deles seria aprendida e transmitida por meio da articulação de idéias e princípios. A vida seria compreendida de formas racionais, objetivas e quase estóicas.

Os ameríndios, em seu “contexto de natureza”, interpretariam a vida principalmente através da dinâmica da intuição. A cultura deles seria aprendida e transmitida através de rituais espirituais e experiências íntimas. A vida seria compreendida de formas intuitivas e afetivas.

Os africanos fariam das relações concretas a razão de ser do conhecimento e da participação na vida, a qual seria interpretada através de relações de associação experimentadas no contexto da comunidade. A cultura deles seria aprendida e transmitida através de rituais de família, mitos, fábulas, sabedoria tribal e relações ordenadas.

Assim, num sentido histórico estes três estilos cognitivos são partes naturais e integradas da cultura brasileira, causando um impacto na formação da filosofia e método de comunicação. Devemos lembrar que os aspectos intuitivos e relacionais concretos parecerão dominar, dando a impressão de que os estilos de cognição e comunicação anularam o pensamento conceptual. Todavia, é claro que isto não é verdade.

O estilo brasileiro de pregação tende a ser oratório e espontâneo. É algo como aquilo que os professores americanos de oratória chamam de discurso de improviso. Com uma alta porcentagem de pregadores leigos sem qualquer treinamento teológico formal, torna-se compreensível que a pregação tenha se tornado uma arte verbal mais relacionada com o carisma do que com raciocínio preposicional Em outras palavras, parece que dois terços da cultura histórica tiveram um impacto definitivo sobre o método e o pronunciamento de sermões entre pregadores evangélicos.

Em várias ocasiões misturei-me ao povo em grandes comícios políticos. Sempre que eu perguntava o que o político havia dito, a resposta freqüentemente era: “Eu não sei, mas ele fala bonito, não fala?” O Presidente Getúlio Vargas, duas vezes eleito, disse uma vez num discurso de campanha: “Meus inimigos dizem que estou roubando vocês. Bem, quem vocês preferem que os roube?” A multidão o ovacionou. Ser capaz de dizer uma coisa destas e ainda ser ovacionado é algo que exige mais do que atitudes específicas sobre discursos políticos (Condon e Yousef 1978, 236). A dinâmica relacional concreta, tão integrante dos valores tradicionais brasileiros, estava em evidência e operou naquele caso.

Há quem veja naquelas ovações para o presidente a força herdada da arte oral africana, onde “o grupo participa com o orador… num espírito de interação comunal (relacional concreta)” e onde “a habilidade de falar é um pré-requisito ao poder político, e os talentos verbais, sejam para narrar uma história ou defender uma causa no tribunal, são altamente admirados” (Klem 1982, 107, 105).

À luz desta influência evidente da oratória africana sobre os discursos públicos no Brasil, não é possível concordar com Sylvio Romero, que certa vez escreveu que os negros e os índios “se expressavam mal na sociedade e cultura brasileiras”, mesmo que, talvez, ele estivesse se referindo às contribuições políticas (Freyre 1959, 139).

Observa-se que os sermões pentecostais modernos têm muitas vezes baixo teor teológico, mas apresentam muitas histórias relacionais concretas, experiências, curas e emoções (Nida 1974, 144). Este tipo vivaz de pregação tem sido usado como acusação contra a pregação expositiva, citada como seca, conceptual, abstrata e não dirigida às necessidades específicas. Minha pergunta é: a pregação expositiva tem de ser assim? Há alguma lei que diga que uma pessoa com tendência relacional concreta ou intuitiva não pode expor as Escrituras com significado, usando os talentos de comunicação e cognição inerentes em sua cultura? Pregação expositiva significa exclusivamente pregação pesada, conceptual e destituída de sentimentos, emoções e experiências? Ah! Esta caricatura de exposição bíblica não faz justiça à arte nem permite que as riquezas de outras abordagens cognitivas sejam usadas na narração da história de Deus. E isto é uma grande perda! Este retrato não se encaixa com as exposições de Jesus. Ele fez exposições pitorescas e cativantes das verdades do Antigo Testamento. Se alguma coisa pode facilitar a exposição das Escrituras, com formas memoráveis e criativamente artísticas, semelhantes a abordagem do Mestre, esta coisa é o modo intuitivo ameríndio e o relacional concreto africano.

O receio de que a pregação expositiva conduza ao idealismo, por estar desligada das situações da vida, é baseado principalmente em estereótipos. Não há dúvida de que o brasileiro é capaz de expor as Escrituras, usando alegorias, provérbios e ilustrações das situações da vida revestidos de conceitos racionais. Os pregadores brasileiros devem aprender a recorrer a todas os seus recursos culturais na tentativa de expor a Palavra de Deus.

Há um belo exemplo disto no discurso público de Julius Nyerere, Presidente da Tanzânia. Como africano, ele emprega um estilo relacional concreto ao expor suas idéias. Condon e Yousef observam que o Presidente Nyerere pode prender a atenção de alguém durante um discurso de duas horas, mesmo que esta pessoa não entenda uma só palavra do idioma suaíle. Eles escrevem:

Em um de seus discursos durante o período politicamente ativo, em 1966-67, Nyerere começou com alguns risinhos; a audiência também respondeu da mesma forma. Logo estava estabelecida uma relação de risadas, uma forma de comunicação bem diferente de qualquer coisa já vista em discursos ocidentais. Durante sua fala, Nyerere teve ocasião de citar aquilo que um conselheiro inglês havia dito; (ele) faz isso com um sotaque britânico perfeito, com gestos próprios e mímica facial que leva a audiência a loucura. Ele imita vozes – fazendeiros, mulheres, o que quer que seja; faz piadas, fica bravo, provoca os outros, mas conserva sua dignidade, e a linha de argumentação é mantida firme (e) ele recorre a uma importante tradição oral e convenções de discurso não encontradas em nenhum outro lugar (Condon e Yousef 1978, 236; itálicos meus).

Se alguma nação já teve os antecedentes culturais para preencher o lema da Reforma, “A Palavra e o Espírito”, esta nação é o Brasil. “Palavra” e “Espírito” são associados por um teórico dos estilos de cognição as formas de conhecimento analítica e global (Stewart 1974, 78-79). Quanto ao lema da Reforma, poderíamos associar “Palavra” com o lado objetivo ou racional da cultura brasileira (originário dos portugueses) e “Espírito” poderia abranger a dinâmica de cognição e comunicação experimental e relacional concreta afro-ameríndia.

Meus dezoito anos de observação dos seminaristas brasileiros mostram-me que eles tendem a se inclinar a um estilo de comunicação e cognição “orientado pelo Espírito”. Os teóricos chamariam isto de percepção “global” da realidade, onde a pessoa “socialmente tem um senso de dependência muito maior e, emocionalmente, (é) relativamente aberta e expressiva” (Stewart 1974, 81). Inclinam-se eles a isto por causa de um século de pregação evangélica que negligenciou a arte da exposição nas igrejas? Deve-se esta inclinação a uma caracterização errônea que insiste em dizer que a exposição bíblica está fadada a ser uma arte intelectual e conceptual? Parece que a resposta é sim! Meu ensino no curso de pregação expositiva com duração de um semestre era baseado na premissa de que os brasileiros tem antecedentes culturais suficientemente amplos para fazer da pregação expositiva uma poderosa ferramenta a ser usada no processo de maturação da igreja evangélica que tem crescido rapidamente.

Com esta grande mescla na cultura brasileira, quem poderia duvidar das possibilidades educacionais no sentido de uma fusão dos aspectos da “Palavra” (analíticos) e do “Espírito” (globais) num estilo de exposição funcional? Jesus não ministrou à pessoa inteira com suas exposições? Paulo não exortou os cristãos a que aceitassem as pessoas com dons dados pelo Espírito Santo na igreja e não especificou uma dessas pessoas dotadas como sendo “pastor-mestre” (Ef 4.11)?

Tem sido observado que as funções pastorais de condução do rebanho são globais, onde a intuição e a “relação de associação na esfera social” são dominantes, e as funções de ensino são analíticas, “caracterizadas pela objetividade, abstração e diferenciação na esfera intelectual” (Stewart 1974, 80). Com base nestas idéias, Stewart extrai uma preciosa conclusão:

Estaria Paulo fazendo um apelo (a) cada ministro cristão… (por) uma integração destes dois valores e estilos na personalidade? Para aqueles que, por natureza, tendem a ser especialistas na Palavra, isto significaria uma abertura deliberada a situações e pessoas que possam nos ajudar a desenvolver nosso lado espiritual; para aqueles mais intrinsecamente orientados pelo Espírito, isto levaria a uma autodisciplina de estudo, quando seria muito mais confortável continuar simplesmente aproveitando o calor e o apoio de cristãos com opiniões semelhantes… Somente quando reconhecemos e aquilatamos as contribuições necessárias dos dois tipos de estilo, podemos, “seguindo a verdade em amor”, crescer “em tudo naquele que é o cabeça, Cristo” (Efésios 4.15; Stewart 1974, 88).

O brasileiro, com seus estilos cognitivos, pode enriquecer a arte da pregação expositiva. Ele pode fazer que mensagens bíblicas sólidas se tornem a Palavra relevante de Deus, utilizando “as formas de expressão retórica culturalmente influenciadas” (Condon e Yousef 1978, 232). Embora a idéia de pregação expositiva possa ser considerada “ocidental”, uma “importação missionária” questionável ou “muito racional para latinos”, a herança cultural do Brasil fornece as ferramentas retóricas autóctones para provar o contrário. O pregador brasileiro tem diante de si a oportunidade ilimitada de expor a Palavra de Deus e de levar maturidade espiritual a grande e zelosa igreja evangélica.

A REESTRUTURAÇÃO DE UMA FILOSOFIA TEÓLOGICA

 

“Quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra” (At 6.4).

Qual a sua filosofia sobre o ministério da palavra? Talvez você responda: “Eu ainda não formulei uma!” Verdade? Nunca passou por sua cabeça que grande parte daquilo em que você crê e que pauta sua vida não está codificada ou formalmente escrita? Por exemplo, você já escreveu um estudo a respeito daquilo que você crê sobre o ato de assistir televisão? Eu não. Todavia, meus hábitos (inconscientes?) diários como telespectador são a encarnação de minha filosofia ainda não formulada. É mais fácil viver uma filosofia do que literalmente escrevê-la.

Sem querer ser dogmático, afirmo que neste exato momento o seminarista e o pastor estão vivendo uma filosofia não-formulada sobre o “ministério da palavra”. Pois aquilo que fazemos reflete bastante o que pensamos, conscientemente ou não. Nossa prática de púlpito é gerada a partir do manancial de nossas crenças básicas (filosofias).

Este pensamento pode ser desconcertante, principalmente porque nos deixa sem nenhuma desculpa. Que ele possa nos conduzir a uma introspecção saudável semelhante àquela dos primeiros apóstolos e que, em oração, possamos nos consagrar ao ministério da palavra. E por que não?

Sem dúvida é difícil admitir que o modus vivendi de uma pessoa reflete sua real filosofia sobre o ministério da palavra. Talvez nos defendamos, dizendo que consideramos esta filosofia não-formulada somente como experimental e que planejamos alterá-la algum dia. Se mudarmos, estamos na boa companhia dos apóstolos, porque eles também mudaram! O ministério da palavra tornou-se o principal parâmetro para tudo que fizeram como arautos de Cristo na igreja. Para eles, a pregação nunca se tornou um frágil apêndice de suas muitas outras atividades eclesiásticas.

Para alguns, um reconhecimento como este poderia lhes abalar o equilíbrio emocional. Por que? Porque penso que muitos servos do Senhor vivem através da dinâmica psicológica e religiosa do idealismo. Quando um servo de Deus não faz diferença entre aquilo que é ideal e o que é real, ele pode facilmente negar a existência de fraquezas pessoais. É como o mau hálito: todo mundo sente, exceto quem o tem! O idealismo religioso dificilmente admite a necessidade de uma análise da própria conduta. Como poderia alguma coisa estar errada? Além disso, o reconhecimento de uma conduta ministerial defeituosa exigiria uma mudança (indesejável?).

Um exemplo desta estranha incoerência entre a “teologia do livro” e a conduta de púlpito é oferecido por alguns pregadores que defendem compulsivamente a inerrância das Escrituras. Eles afirmam sua disposição de morrer no paredão, em vez de negar a inerrância da Bíblia. Isto é admirável! Mas, lamentavelmente, seus sermões, domingo após domingo, num contexto de total liberdade religiosa, são paupérrimos de conteúdo bíblico. Muitas vezes, o teor de suas mensagens reflete uma mente perturbada, em vez do Espírito terapêutica de Deus. O tempo que passam a sós com a Palavra inerrante de Deus é consideravelmente menor do que o tempo gasto com o jornal do dia. Sim, é necessária a convicção teológica, mas se ela não moldar a conduta de púlpito, a incoerência e o dogmatismo psicológico a moldarão. É este tipo de discrepância que rouba desta espécie de pastor a autoridade profética genuína!

Precisamos de uma coragem inflexível para enfrentar nossa verdadeira filosofia (embora não-formulada) do ministério da palavra. É necessária força moral para que alguém confesse a si mesmo e a Deus que nossa conduta de púlpito reflete nossa verdadeira teologia (embora experimental) da tarefa de pregação. Qualquer pessoa que confessar isto com sinceridade receberá do Espírito Santo a forte sabedoria necessária à modificação de conduta. É o Espírito Santo quem nos torna cada vez mais teologicamente coerentes, através do processo vitalício de santificação.

A fim de facilitar uma introspecção saudável e as mudanças necessárias, gastemos algum tempo olhando para as implicação teológicas do ministério da palavra.

Uma Filosofia Teológica

 

Quando os apóstolos se consagraram ao ministério da palavra, eles fizeram uma profunda escolha teológica e disseram claramente que não tinham dúvidas sobre a inspiração e sobre a eficácia espiritual da Palavra de Deus por meio da pregação. Aquela decisão de tornar prioritária a exposição da Bíblia refletiu a fé que possuíam, e eles se mostraram coerentes na crença e na conduta de pregação.

O Seminário Betel, em St. Paul, estado de Minnesota, nos EUA, tem o seguinte lema: “O Servo de Deus Comunicando a Palavra de Deus”. Isto parece expressar de forma bem explícita uma filosofia teológica. Olhe para os elementos básicos neste lema. Primeiro, temos o instrumento, uma pessoa chamada por Deus para servir. Em segundo lugar, temos a tarefa – comunicar e proclamar. Então, por fim, temos a mensagem, as palavras de Deus que convocam as pessoas a adorá-lo. A idéia teológica implícita nisso tudo é que a proclamação da Palavra de Deus torna possível a intervenção divina. Cada vez que a Bíblia é explicada, abre-se uma oportunidade para que Deus entre na vida de algum ouvinte.

Deus fala a seu arauto através da Palavra revelada. O arauto, por sua vez, transmite aos ouvintes aquilo que ele ouviu na Bíblia. Neste processo, havendo fidelidade as Escrituras, o ouvinte experimenta um pouco do mistério da iluminação divina. Embora ele esteja ouvindo uma voz humana na companhia de muitas outras pessoas, a mensagem, de algum modo, é pessoal e penetrante. Há vezes em que o ouvinte tem a impressão de que está absolutamente sozinho na congregação e que, de certa forma, o pregador está oculto. Assim é a realidade singular desta intervenção divina.

Este processo que acabamos de descrever traz à mente aquela passagem bíblica, em Lucas 10.16: “Quem vos der ouvidos, ouve-me a mim…”. Os setenta discípulos enviados por Jesus eram vozes de Deus no sentido de anunciarem as boas notícias do reino, o julgamento vindouro e a alegria da salvação eterna. Quando os demônios se lhes submetiam em nome de Jesus, ficava claro que Deus estava falando através deles. O princípio teológico é que Deus intervém no contexto humano através de sua Palavra falada por servos divinamente comissionados. A confirmação da realidade desta dinâmica espiritual vem do ouvinte, que sabe, sem sombra de dúvida, que Deus falou.

Assim, a Bíblia, a Palavra de Deus escrita em linguagem humana, adequa-se às nossas faculdades cognitivas naturais e espirituais. É esta dimensão humana na Palavra de Deus que torna possível que ela seja exposta e entendida na igreja local. Nas palavras de John R. W. Stott:

A Bíblia é a Palavra de Deus escrita, a Palavra de Deus através das palavras dos homens, falada por meio de bocas humanas e escrita através de mãos humanas (Stott 1982, 97).

Em grande medida, o sermão expositivo permite a repetição da dinâmica divino-humana que operou durante a inspiração da Bíblia. A diferença é que a inspiração atual não acrescenta nada ao texto sagrado nem produz um novo cânon. A exposição da Palavra de Deus pode ser comparada com a inspiração original no sentido de que ela tem os elementos divino e humano numa associação íntima e perceptível.

Deus está vivo! A Bíblia nos diz, através do Espírito da revelação, exatamente como Deus agiu na história terrena de seu povo escolhido. Por causa do “ser” de Deus, eternamente constante, vemos que seus atos na história não estão ligados a um ponto já desaparecido no tempo. Na realidade os atos de Deus são atemporais! O que Deus é, faz ou diz não pode ser fixado num insignificante ponto no tempo. Ele é o mesmo “ontem, hoje e eternamente”. Assim, sua Palavra tem uma mensagem aplicável a todos os pontos no tempo até a eternidade (Stott 1982, 100).

Em seu livro The Essential Nature of New Testament Preaching (“A Natureza Essencial da Pregação Neotestamentária”), Robert Mounce desenvolve esta idéia de modo diferente, visando estimular uma reformulação da filosofia teológica quanto ao ministério da palavra. Em resumo, ele diz que os atos de Deus na história reverberam através do tempo, sem perder qualquer valor espiritual infinito. Por exemplo, cada vez que os apóstolos pregavam a morte e a ressurreição de Jesus Cristo, eles não estavam falando de um evento que se evaporou num passado nebuloso. A morte e ressurreição de Jesus Cristo foram planejadas na eternidade, mas são eficazes através do tempo reincidente. Assim, quando se expõe a Palavra atemporal de Deus, a essência eterna da cruz é transposta aquele momento. Quando uma transação eterna acontece na alma do ouvinte, o efeito salvífico da morte e ressurreição de Cristo se torna uma experiência simultânea (Mounce 1960, 153-159).

Deus fala hoje. Conhecemos e experimentamos os efeitos desta comunicação divina através de nossa fé espiritualmente concedida. Esta fé vem e é nutrida pelo ouvir da Palavra de Deus. Aqueles que assim crêem explicam as Escrituras com fidelidade e esperam que Deus aja. Uma fé tênue e dúvidas quanto à contemporaneidade da Palavra de Deus produzem sermões que mantêm a verdade no passado distante. Esta espécie de pregação é cansativa e pouco faz em favor da alma.

O que os ouvintes procuram e necessitam com a máxima urgência é um encontro vital com nosso Deus vivo, que salva nos dias de hoje, pois “… eis agora o dia da salvação” (2 Co 6.2b). Deus oferece a salvação agora e experiências de santificação nos sucessivos “agora” da vida. A exposição da Palavra contemporânea de Deus tem o poder simultâneo de gerar “agora” encontros com o Deus vivo. O ministério da palavra é uma continuidade miraculosa, e nos, arautos de Deus, somos os instrumentos privilegiados das intervenções divinas. Se meditarmos no fato de que Deus fala e age numa continuidade que vem desde a eternidade e segue através do tempo, nossa prática de pregação será afetada. Na verdade, a pregação expositiva é um elo entre a eternidade, o passado, o presente e o futuro do pregador e do ouvinte. Ela torna passível a miraculosa transformação de caráter que todos necessitamos. Sem este tipo de pregação, os atos de Deus ficam como se estivessem suspensos no passado, inconscientemente identificados com superstição.

Este conceito das ações contemporâneas de Deus através da exposição das Escrituras pode ter levado o professor H. H. Farmer a caracterizar a pregação como um sacramento (Farmer 1960, 28). Seguramente esta declaração não deve ser confundida com “sacramentalismo”. Nunca devemos confundir o ato da pregação com a graça real de Deus. A graça de Deus independe de quaisquer elementos terrenos e materiais e está eternamente além das manipulações humanas. Mas é claro que a exposição da Palavra imutável faz a mediação do encontro entre Deus e os seres humanos, através da ação soberana do Espírito Santo.

Olhemos para isto de um outro ângulo. Talvez isto também nos ajude a reformular uma nova filosofia teológica do ministério da palavra. Segundo eloqüentes afirmações do apóstolo João, Jesus Cristo é a Palavra (ou Verbo; Jo 1.1). As Escrituras mostram que esta Palavra encarnada demonstra um fato principal: Deus procura se envolver na vida de cada ser humano. Quando a mensagem das Escrituras é explicada de forma correta e coerente, Cristo, a Palavra, tem liberdade para agir em nós e, conseqüentemente, em outras pessoas por nosso intermédio. Em outras palavras, a Bíblia é mais do que uma compilação de palavras e conceitos religiosos; ela está embebida na caráter autônomo de Javé, que decide ir a nosso encontro. Por esta razão, não tenho dúvidas de que Deus representa a si mesmo através de sua Palavra eterna. Neste sentido afirma-se aqui o aspecto sacramental da exposição da Bíblia. Na verdade, o expositor não fala “sobre” Deus. Sermões tópicos e textuais tendem a ter esta característica negativa. A exposição da Palavra eterna permite que Deus fale com a menor quantidade possível de empecilhos humanos. O Espírito Santo tem dois recursos importantes e necessários para que se projete no espírito do ouvinte a própria realidade de Deus (Mounce 1960, 154), isto é, o arauto obediente e as Sagradas Escrituras.

A esta altura devemos estar percebendo que o sermão expositivo não é um experimento religioso, pelo qual o pregador propaga suas opiniões religiosas pessoais, ou qualquer tipo de palestra teológica precipitada. Como podemos ver, é a combinação da dinâmica da Palavra eterna e do arauto que acredita inteiramente na eficácia dela. Este é nosso argumento até este ponto: a Bíblia é a Palavra de nosso Deus vivo, hoje.

E quanto aos instrumentos humanos, os arautos que Deus chamou para transmitir a mensagem da Bíblia? Temos uma convicção firme e sadia de que Deus ainda fala hoje? O povo nas igrejas espera que sim. Com toda certeza, Deus deseja que tenhamos esta convicção!

A teologia liberal pode ter fascinado alguns com o tema aparentemente espiritual de que a Bíblia se torna a Palavra de Deus somente quando fala a nós de forma especial. Este tipo de determinismo antropológico faz com que a Bíblia seja bastante comum a maior parte do tempo! Posso ver como os pregadores que crêem nisto perdem sua autoridade profética. Eles tentam encobrir isto com uma pregação “relevante”, mas acabam desenvolvendo um “ministério de opiniões religiosas”.

A teologia conservadora, num momento de zelo extremado, pode nos conduzir a outro erro muito sutil. Qual seria ele? Ele aparece na gramática da seguinte declaração zelosa e verdadeira: “O que Deus falou, ele falou”. Dessa forma, muitos pregadores conservadores congelam Deus no passado. (Ele tem a forma certa, mas não pode se mover.) A conduta espiritual e psicológica destes pregadores no estudo e no púlpito tende a conservar Deus na insensibilidade do legalismo e da tradição. O Dr. John R. W. Stott aponta este erro sutil, ao dizer que uma postura exageradamente zelosa transmite a idéia de que hoje, a uma distância de séculos, não é possível ouvir a voz de Deus (Stott 1982, 100). Por que pregar se a Palavra de Deus está somente no tempo passado?

O Dr. Walter C. Kaiser Jr., em seu livro Toward an Exegetical Theology (“Diante de uma Teologia Exegética”), descreve a crise na homilética. Ele destaca as várias tentativas de se construir uma ponte sobre o hiato que separa as ações de Deus no passado e seus atos no mundo de hoje. Entre estes esforços, três não tocam no caráter eterno de Deus. Dois edificam sobre esta base e sobre a relação constante de Deus com as pessoas através dos tempos, devido a “Sua fidelidade a Si mesmo” (Kaiser 1981, 37-40) e porque Ele é um Deus que age eternamente no parêntese que chamamos tempo.

Há poucas passagens bíblicas que falam do caráter universal da Palavra de Deus. Hebreus 3.7, 8 e 4.7 são explicações do Salmo 95.7-9: “Ele é o nosso Deus, e nós povo do seu pasto, e ovelhas de sua mão. Oxalá ouvísseis hoje a sua voz! Não endureçais o vosso coração, como em Meribá, como no dia de Massá, no deserto; quando vossos pais me tentaram, pondo-me à prova, não obstante terem visto as minhas obras”. Em Hebreus 3.7, antes de citar o Salmo 95.7-9, o autor inspirado inclui a seguinte frase: “Assim, pois, como diz o Espírito Santo…”. Aqui a análise do Dr. Stott merece menção integral:

Mas ele introduz a citação com as palavras “como diz o Espírito Santo”. Assim ele subentende que o Espírito Santo está hoje apelando a seu povo para que este o ouça, como fez há séculos, quando foi escrito o salmo. Na verdade, é possível detectar aqui quatro estágios sucessivos em que Deus falou e fala. O primeiro foi o tempo de prova no deserto, quando Deus falou, mas Israel endureceu seu coração. A seguir veio a exortação do Salmo 95 ao povo daqueles dias, para que este não repetisse a insensatez anterior de Israel. Em terceiro lugar, temos a aplicação da mesma verdade aos cristãos hebreus do primeiro século A.D., enquanto, em quarto lugar, o apelo chega até nós, ao lermos hoje a Carta aos Hebreus. É neste sentido que a Palavra de Deus é contemporânea: ela se movimenta com o tempo e continua se dirigindo a cada nova geração (Stott 1982, 101).

Esta convicção de que Deus falou e ainda fala à comunidade humana, através de sua Palavra proclamada, deve dominar a consciência do pregador, se ele planeja expor a Bíblia com constância. Num sentido real, esta é a única postura coerente que o arauto de Deus pode assumir. Esta é a essência de uma filosofia teológica.

Há mais um aspecto nesta abordagem. É a essência do significado da palavra arauto. Um arauto anuncia exatamente aquilo que seu senhor lhe diz. Ele faz isto quase como um teclado de piano que reflete a música das cordas. Contudo, no caso do arauto existe o elemento de escolha. Ele pode decidir proclamar aquilo que recebeu ou perverter a mensagem.

O profeta Isaías é um bom exemplo de um arauto obediente. No capítulo sete, versículos três a treze, temos o processo profético:

1) O Senhor entrega a Isaías uma mensagem específica para anunciar: “Agora sai tu… ao encontro de Acaz, que está na outra extremidade do aqueduto do açude superior… (e) dize-lhe: Acautela-te e aquieta-te; não temas…” (w. 3, 4).

2) Embora seja expressa em linguagem humana, ela continua sendo a Palavra de Deus: “Assim diz o Senhor Deus…” (v. 7) e “… continuou o Senhor a falar com Acaz…” (v. 10).

3) Ela pode ser recebida ou rejeitada pelo ouvinte: “Acaz, porém, disse: Não o pedirei…” (v. 12).

4) Todavia, a mensagem vem de Deus através do instrumento humano, o profeta: “Então disse o profeta: Ouvi, agora, ó casa de Davi: Acaso não vos basta fatigardes os homens mas ainda fatigais também ao meu Deus?” (v. 13).

Adotar uma filosofia teológica do ministério da palavra é assumir responsabilidades maiores do que as imaginadas. Mas, uma vez que o chamado vem do Deus viva, podemos nos encher de coragem e contar com sua ajuda. Nossas limitações são reais, mas, apesar delas, a sabedoria de Deus se revelará. O Senhor entende melhor do que nós que seu tesouro está num vaso de barro. A maravilha é que Deus projetou tudo deste modo, a fim de demonstrar a soberania de sua vontade e sua Palavra.

Mais do que qualquer outro aspecto da vida pastoral, este ministério da palavra será testado e provado pelos elementos aparentemente inocentes da vida quotidiana, se não pelo próprio Maligno. Haverá muitas ocasiões em que perguntaremos a nós mesmos: “Estou comprometido de corpo e alma com a vocação do ministério da palavra?” Nossa resposta ao chamado de Deus para ministrarmos sua Palavra exige um compromisso inflexível!

Quanto a isto, deixemos que as palavras de James S. Stewart nos conduzam a uma dedicada dependência da graça capacitadora de Deus:

A menos que estejamos preparados, numa entrega alegre e deliberada, para sermos dirigidos, dominados e controlados pela grande tarefa, devemos nos afastar dela de uma vez por todas, e não zombar de Cristo com lealdades tépidas e interesses divididos. Sem dúvida, este tipo de concentração espiritual é algo totalmente distinto de uma austeridade exagerada e obstinada que se recusa a relaxar. É muito pouco provável que qualquer pregador possa expandir sua eficiência passando de um ano para outro sem ter um feriado ou uma diversão… Todavia, permanece o fato de que o servo do evangelho – mais do que qualquer outra pessoa, mais do que o cientista, o artista, o compositor ou o homem de negócios – deve ser possuído, de coração, mente e alma, pelo empreendimento momentoso que sobre ele tem colocada sua compulsão (Stewart 1946, 169).

Que apelo! Sem dúvida, ele provém de um coração que ama a Deus e a todos os arautos chamados por ele. Seguramente, este apelo é um alerta para aqueles cujo chamado foi motivado por interesses profissionais, vaidade ou sutil compulsão psicológica.

Como expositor sincero, o servo de Deus deve ser caracterizado por domínio próprio (fruto do Espírito), aplicação criativa da inteligência e muita oração. É claro que o ministério da palavra, como qualquer outra profissão, precisa daquela inseparável combinação de paixão e trabalho, para que tenha sucesso. Tal combinação está viva no coração do arauto que acredita ativamente que Deus fala hoje através da exposição da Bíblia. Não se engane! Nossos ouvintes perceberão quando pregarmos por uma simples obrigação e quando proclamarmos as notícias com uma paixão que tem por lastro a disciplina intelectual e espiritual.

Se, como servos de Deus, nos dedicarmos a exposição constante das Escrituras, observaremos um fenômeno bem interessante que acompanhará nosso ministério. Este fenômeno se chama autoridade espiritual, que muitos pregadores inseguros tentam criar por meio de arbitrariedade ditatorial e sonora. Mas a autoridade espiritual é um dom que o rebanho percebe como parte da função profética ativa do pastor. O expositor habitual geralmente não se preocupa com a autoridade como tal, pois sua filosofia teológica lhe informa que Deus intervém através das Escrituras. Se o expositor estiver cônscio desta autoridade coexistente, ele também não irá tirar partido dela. Ele sabe instintivamente que a coragem e a confiança vêm de Deus e que ele fala como alguém a quem “foram confiados os oráculos de Deus” (Rm 3.2) e que fala “de acordo com os oráculos de Deus” (1 Pe 4.11; Stott 1982, 132).

O expositor da Palavra muitas vezes tem a experiência agradável de ser orientado espiritualmente, ao proclamar a verdade. Isto fixa em sua mente uma confiança genuína e projeta aos ouvintes não apenas uma autoridade divina abstrata, mas também a presença real de Deus. As pessoas que presenciam a Palavra sendo explicada percebem Cristo como o Salvador de hoje e experimentam o Espírito Santo em grande intimidade.

Confiança e autoridade foram partes integrantes do ministério da palavra do apóstolo Paulo. Ele escreveu: “Porque nós não estamos, como tantos outros, mercadejando a palavra de Deus; antes, em Cristo é que falamos na presença de Deus, com sinceridade e da parte do próprio Deus” (2 Co 2.17). O apóstolo possuía uma profunda convicção de que Deus o havia enviado para expor diligentemente as Escrituras.

Nunca devemos nos esquecer de que a exposição das Escrituras tem todo o poder necessário para penetrar no coração da consciência humana e lá ser ouvida como a voz de Deus. “Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração” (Hb 4.12). A exposição da Bíblia fornece ao ouvinte e ao pregador aquele contato singular com a Palavra eterna de Deus. Por esta razão, os sermões tópicos e os que empregam mal os textos tendem a se concentrar nas opiniões particulares da pregador. Os textos prediletos de sua Bíblia tornam-se pretextos para dar cobertura (santificar?) a percepções da vida espiritual humanamente arquitetadas. Isto é o cúmulo da incoerência na vida de um arauto de Deus. Por definição, um arauto proclama aquilo que lhe é dito por seu senhor, em vez de suas opiniões pessoais. O que há de mal nisso tudo é que os membros da congregação discernem intuitivamente as duas vozes. Eles anseiam ouvir a voz de Deus, mas em lugar disso ouvem apenas estranhos ruídos “religiosos”. Eles querem crescer, mas devido à falta de alimento espiritual, acabam numa vida espiritualmente medíocre.

Se nós, servos de Deus, fizermos uma escolha consciente em favor de uma filosofia teológica do ministério da palavra, teremos de dar muito de nós mesmos na preparação e entrega das exposições bíblicas. Seremos motivados a fazer isso pela consciência de que nossa exposição pode se tornar, para muitos dos ouvintes, a “plenitude do tempo”, o momento de um encontro transformador com Deus.

Uma das fortes conotações do termo hebraico dabar (palavra) é de que irá acontecer aquilo que é falado. Falar é criar. Aquilo que Deus fala, acontece. As Escrituras apresentam Javé como aquele cujas palavras realmente criam e dominam toda a realidade (Mounce 1960, 153-155). Oh! que os pregadores do evangelho de Cristo projetem conscientemente esta verdade profunda sobre o ministério da palavra que desempenham e se entreguem de todo coração a exposição da Palavra de Deus que concede vida!

A fim de que uma filosofia teológica pessoal se torne um modus vivendi prático, existem três conceitos básicos úteis. O primeiro é que a atividade e o caráter eternos de Deus são manifestados de modo contemporâneo através da exposição de sua Palavra eterna. Não há nenhuma forma lógica de desligar do espaço e do tempo os atos salvíficos de Deus. Ele é o mesmo ontem, hoje e sempre. Em segundo lugar, a exposição da Bíblia é o instrumento que o Deus trino e uno usa com maior freqüência para intervir no coração que crê. Jesus é a Palavra de Deus em forma e experiência humanas (Jo 1.1, 14). O Espírito Santo é a Palavra de Deus com poder de penetração (Ef 6.17). O Pai é a Palavra criadora que chama à existência todas as coisas (Gn 1 e Cl 1.16). As Escrituras que procedem de nosso Deus trino e uno são inseparáveis de seu caráter inefável. Elas estão impregnadas de Deus e, sob seu comando, fazem a própria mediação do Espírito no coração que crê. Em terceiro lugar, a exposição da Bíblia é o modo espiritual mais eficiente de Deus falar através de instrumentos humanos (2 Co 4.2-6). Isto é verdade, pois Deus fala mais alto do que o expositor, quando a Bíblia é explicada com fidelidade. “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós” (2 Co 4.7).

Neste ilustre ministério da palavra daremos prioridade total ao estudo e proclamação das Escrituras sagradas? Certamente, o Deus que nos chamou a este ministério irá trabalhar em nós para desejarmos e fazermos sua boa vontade, tornando eficaz sua palavra para transformar vidas. Se nós, à semelhança dos apóstolos, nos entregarmos de todo coração ao ministério da palavra, nossa filosofia e ministério de púlpito se tornarão teologicamente sadios e milagrosamente práticos.

Uma Filosofia Humanística

 

Quanta diferença haveria, se todos os pregadores evangélicos escolhessem e praticassem uma filosofia teológica do ministério da palavra! Infelizmente, há um caminho mais fácil, mais largo, e muitos entram por ele. Enquanto descrevo uma abordagem humanística da tarefa da pregação, espero que sejamos levados a fazer uma avaliação séria e revolucionária de nossa filosofia do ministério da palavra.

Como realmente encaramos a tarefa da pregação? Será que, como muitos seminaristas e pregadores novatos, nós a vemos primeiro como algum tipo de arte retórica, uma “habilidade homilética”? Caso positivo, o sucesso no ministério dependerá de nosso uso e desenvolvimento inteligente das leis da retórica. Nesta abordagem (mais freqüentemente num nível inconsciente), a proclamação se torna primeiro um assunto de estilo retórico, e o conteúdo é secundário. O que é importante é a apresentação e o carisma do apresentador. Parece quase haver um valor exagerado no mecanismo da comunicação e praticamente um endeusamento da personalidade. Infelizmente, tal procedimento filosófico diminui bastante a dimensão espiritual da pregação. A autoridade de Deus e sua revelação escrita são colocadas enganosamente em segundo lugar, sendo, em alguns casos, totalmente negadas.

Cair na filosofia de que a boa pregação surge apenas da manipulação sábia das regras da retórica é criar uma atitude nociva e penetrante na comunidade religiosa. Seminaristas e pregadores são influenciados por este pensamento: a proclamação é avaliada pelos pontos fortes e fracos do pregador em suas relações com a retórica. Caráter e conteúdo bíblico significam quase nada, em comparação com a habilidade de falar. Assim, o pobre orador com caráter e conteúdo bíblico perde para o bom e hábil orador que, com eloqüência, diz muito pouco. É estranho como a oratória, misturada com vivacidade, é quase sempre vista como unção pelos ouvintes que não tem consciência de sua própria pobreza espiritual!

Cegueira espiritual e moral quase sempre é fruto de uma filosofia humanística do ministério da palavra. Há muito pouco compromisso moral inerente nesta abordagem. Por exemplo: muitas pessoas com treinamento profissional são chamadas para fazer discursos a respeito de vários assuntos. Entre estas pessoas estão aquelas que defendem uma coisa no discurso e praticam outra na vida diária. Pense no médico que adverte outras pessoas sobre os perigos do fumo, enquanto traz no bolso um maço de cigarros vazio. Se a tarefa da pregação for vista principalmente como arte retórica, é concebível que o ministro tenha menos responsabilidade moral de obedecer ao que é pregado. Em outras palavras, o conhecimento e a prática de uma boa retórica não exigem necessariamente uma coerência moral entre o orador e aquilo que é falado.

Os ministros que se permitem ser orientados por este tipo de filosofia correm o risco de perder a seriedade espiritual de um verdadeiro servo da Palavra de Deus. São muitos os ministros que têm utilizado o púlpito com pouca consciência espiritual e até mesmo pouco compromisso profético, devido a esta abordagem.

Até que ponto os pregadores que têm este tipo de conduta são totalmente responsáveis por seus atos? Alguns deles teriam boas desculpas? Alguns seriam vítimas de antecedentes sociológicos negativos e de treinamento teológico ruim? Até certo ponto, isto pode ser verdade, mas nenhum deles é um robô! Filosofias e condutas são produtos de escolhas intelectuais e emocionais feitas em meio a todos os tipos de ambiente.

Ao lado disso tudo, o que mais tem faltado na vida de muitos jovens aspirantes ao ministério é um modelo vivo de filosofia teológica do ministério da palavra. Quantos aspirantes tiveram por longos períodos exemplo disso num ministério que expusesse seriamente as Escrituras sagradas? Muitas vezes eu fiz esta pergunta no seminário onde lecionei, e as respostas afirmativas sempre eram escassas. Era doloroso ouvir centenas de jovens seminaristas dizerem que nunca haviam tido um pastor que tivesse o hábito de pregar sermões expositivos. Que saldo negativo nos livros da Igreja de Jesus Cristo! Quanto indício do domínio de uma filosofia humanística na chamada comunidade evangélica!

Há um fator sociológico que tem debilitado a determinação de muitos ministros no sentido de exporem a Palavra de Deus. A sociedade moderna tem prosperado na obtenção de conforto fácil e prazer instantâneo; a gratificação tem de ser imediata. Os esforços físicos e mentais devem ser reduzidos quase a zero. As lições tem de ser “fáceis” e não mais do que dez. Parece que o modus vivendi da sociedade moderna gira em torno de dois semideuses chamados conforto e prazer. Para estas deidades, os cultos de adoração são oferecidos várias vezes ao dia e não apenas aos domingos. Para qualquer pessoa trata-se de um problema se o conforto e o prazer não são obtidos com facilidade, tendo-se de trabalhar mais para alcançar seus benefícios.

Esta realidade sociológica tem causado um impacto moral sobre os seguidores de Jesus Cristo. Aquilo para o qual os primeiros discípulos trabalharam com lutas e sacrifícios, os santos modernos querem obter em programas fáceis e funcionais. Assim, o candidato ao ministério procura o caminho fácil para o sucesso e dificilmente vê a tarefa da pregação em termos de sangue, suor e lágrimas. Além disso tudo, hoje a pessoa não tem muito tempo para esperar, estudar, meditar e equipar-se espiritualmente para o longo trajeto ministerial. Assim, não causa surpresa vermos uma profunda apatia entre seminaristas que tem bebido, consciente ou inconscientemente, da fonte desta ideologia materialista.

A igreja evangélica não tem escapado do impacto desta filosofia. Em geral os membros não gostam do pastor aplicado que deseja trabalhar com exposições que levam longos períodos. Eles também querem resultados imediatos e muita satisfação sem sacrifício. Tanto os pastores quanto as pessoas são freqüentemente pressionados ao imediatismo por todo ambiente da sociedade moderna.

Como são, hoje, os sermões na igreja evangélica? É possível encontrar sermões forjados na bigorna do estudo disciplinado da Palavra e que tenham por lastro intensa oração intercessória? Onde estão os sermões que nasceram de longos contatos de devoção com a Palavra de Deus? Quão bíblicos são os sermões de pregadores que crêem na Bíblia? Até que ponto os sermões apenas falam sobre Deus, em vez de permitirem que o próprio Deus fale de si? Sermões que falam sobre Deus parecem ter pouca energia espiritual e até mesmo pouca iluminação do Espírito. Quantos usam os textos bíblicos como pretextos e dependem mais da retórica e do entusiasmo do que de Deus? Parece que temos forçado Deus a falar através dos bloqueios e filtros de uma filosofia humanística!

Parece que a abordagem humanística tem em si um toque de existencialismo. Trata-se de uma hermenêutica de pragmatismo e imediatismo. A cultura religiosa tem mais valor do que a revelação proposicional, e os sentimentos pesam mais do que a vontade de ser e fazer. O que resta nesta abordagem do ministério da palavra é um discurso bonito e sentimentos religiosos nebulosos sobre o Ser Divino. Alguns pecadores tentam “perder sua perdição sem estarem salvos”, e alguns arautos tentam pregar a verdade sem estarem seguros de Deus e de sua Palavra.

Em grande medida, somos aquilo que pensamos e. praticamos aquilo em que cremos. Geralmente podemos modificar para melhor ou pior pensamentos e práticas. Minha esperança é no sentido de que estas linhas incentivem os ministros a examinarem com sinceridade o ministério da palavra que desempenham hoje e façam mudanças onde for necessária.

Ninguém deve concluir que deprecio as técnicas da comunicação em público. Isto não é verdade. Acredito que os pregadores devem estudar e fazer uso criterioso das regras de retórica. Se, como pensamos, existe alguma verdade na retórica, de onde ela procede, senão do Deus de todas as verdades? Nós, pregadores, precisamos desesperadamente melhorar nossa habilidade na comunicação, sem perder a confiança nas intervenções de Deus através de sua Palavra.

QUE É UM SERMÃO EXPOSITIVO?

 

Não é fácil definir sermão expositivo em relação aos sermões tópicos ou textuais. Uma das razões disto é que as definições quase sempre tendem a limitar demais as coisas. Definições restritivas não permitem que o assunto seja expandido de forma prática; definições muito amplas não permitem uma concentração exeqüível. Nenhuma das duas é boa.

Uma parte da confusão entre os pregadores surge da permuta descuidada dessas duas palavras, “bíblica” e “expositiva”. Absolutamente elas não significam a mesma coisa. “Bíblica” é, por definição, alguma coisa que se relacione (mais ou menos) com a Bíblia. Sermões textuais e tópicos podem se relacionar com a Bíblia sem serem expositivos, assim como mangas se relacionam com as frutas sem serem pêras. Segundo penso, um sermão textual ou tópico pode, na verdade, se relacionar com a Bíblia em graus variados. Mas, em essência, o sermão expositivo não pode ser nada menos do que diretamente bíblico, gerado a partir do texto bíblico e projetando um assunto (tema) inerente a partir daquele texto.

Em seu livro Exposição do Novo Testamento – Do Texto ao Sermão, o Dr. Liefeld sugere que não façamos da definição nosso alvo imediato, mas que primeiro compreendamos as partes conceptuais básicas de um sermão expositivo (Liefeld 1985, 13). Isto é bom porque se concentra na essência do sermão expositivo e não apenas em nomenclaturas externas. John R. W. Stott, em seu livro intitulado I Believe in Preaching (“Creio na Pregação”), não surge primeiro com uma definição, mas, antes, trabalha com o princípio fundamental da explanação. Explanar o conteúdo de um texto bíblico deve ser a própria vida do sermão expositivo (Stott 1982, 125). A obra de Stott enfatiza claramente o centro ontológico do sermão expositivo.

Sob este conceito central da exposição está a idéia da explanação. Seu sentido fundamental é o de aplanar alguma coisa enrugada. A exposição da passagem bíblica é caracterizada por um discurso lógico que “aplana” o texto e o torna compreensível. Assim, a explanação é uma forma clara de expressar pensamentos espirituais, de modo que os ouvintes possam aplicá-los a situações práticas na vida. Desta forma, a explanação vai além de descrições prolixas de palavras e construções gramaticais (Liefeld 1985, 13).

Em íntima relação temos esta outra palavra, explicação, que traz a idéia fundamental de revelar alguma coisa. Os sermões expositivos revelam aos ouvintes as verdades que estão envolvidas pelas vestimentas culturais e teológicas. Se alguém me entrega um mapa dobrado e diz: “Este é o mapa do Brasil”, eu ouço as palavras, mas não compreendo completamente aquele pedaço de papel dobrado, até que ele seja aberto e se exponham o contorno e os detalhes do Brasil.

Estamos tentando aqui dar uma clara percepção da substância do sermão expositivo, sem cairmos em definições formais. A própria palavra “expositivo” nos apresenta mais um conceito central neste tipo de proclamação bíblica. Exposição traz em seu sentido fundamental a idéia de colocar algo em lugar aberto e tornar acessível aquilo que é obscuro ou está fora de alcance.

Mais tarde, aprenderemos que um parágrafo de pregação (uma parte autônoma da Bíblia) tem um tema implícito ou explícito; de outra forma, não seria autônomo. Assim, a explanação e a exposição mantém suas condições básicas quando o pregador extrai o tema e o demonstra com os termos e conceitos contidos naquele parágrafo. É por isso que um comentário contínuo (falsamente chamado de sermão expositivo) é apenas um comentário contínuo, que geralmente não é regido por seu tema inerente nem é desenvolvido por ele. O comentário contínuo não tem um conceito central unificador que possa ser compreendido de forma prática. O simples ato de papagaiar livremente palavras e frases de um texto bíblico quase sempre se torna um comentário fluente que não se estende para outro lugar a não ser o final da passagem. Mesmo quando se inclui um pouco de exegese, o comentário contínuo se torna ainda mais desordenado, devido à falta de um tema dominante.

Algumas vezes se confunde exegese com exposição. Depois de concluir um curso sobre pregação expositiva em São Paulo, um pastor disse o seguinte: “Antes de participar deste curso, eu fazia a exegese e a levava para o púlpito, pensando que aquilo era um sermão. Agora, eu continuo a fazer exegese, mas levo para o púlpito o sermão que ela produz”. O que ele fazia antes era falar sobre a estrutura gramatical do texto. O que ele estava fazendo agora era explicar o significado e o tema extraídos da lógica, da gramática e da estrutura do texto.

O Dr. Walter Kaiser admite que é difícil definir a exegese, mas prossegue e ilustra cuidadosamente sua natureza. Não importa como se defina a exegese, uma parte básica em seu processo deve ser a “lapidação da passagem” (Kaiser 1981, 42). Temos aqui o ponto crucial da questão para o sermão expositivo. Esta “lapidação da passagem” deve ser mais do que uma concentração nas construções gramaticais. A exposição deve ser o resultado final de uma exploração (lapidação) na passagem, que encontra nela sua verdade prática central. O sermão expositivo explica esta verdade central, de modo a torná-la aplicável a vida e ao contexto do ouvinte. Este deve ser o resultado de um “confronto direto com a passagem” (Kaiser 1981, 42).

Se a exposição do pregador no púlpito é um exercício patente de exegese, então a Palavra não se torna carne. O texto de Mateus 1.23, segundo a versão inglesa King James, mostra-nos como a exegese deve conduzir a interpretação: “… vós o chamareis Emanuel que, sendo interpretado, é Deus conosco”. Kenneth Cragg afirma o seguinte:

“Sendo interpretado” é uma forte condição. Ela se coloca entre o tudo e o nada. É o eixo em que gira “Emanuel”. Pois, “Deus conosco” não é simplesmente uma declaração. Uma convicção. Mais do que um aviso, é uma experiência. A menos que seja observada, ponderada e crida, é como se nunca tivesse existido. Significados não transmitidos são significados frustrados (Cragg 1956, 273).

Outro exemplo disto é quando Jesus rebate os saduceus, em Marcos 12.24. Depois de dizer: “Não provém o vosso erro de não conhecerdes as Escrituras, nem o poder de Deus?” Jesus pergunta: “… não tendes lido no livro de Moisés, no trecho referente a sarça, como Deus lhe falou: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó? Ora, ele não é Deus de mortos, e, sim, de vivos”. A explicação que Cristo oferece da importância destas palavras é que a ressurreição dos mortos é tão certa como Deus! Os saduceus precisavam ouvir e compreender tal convicção.

É este fundamento lógico que torna claro que um sermão expositivo não é apenas um exercício de exegese retórica, por mais grandiloqüente que seja. A exegese deve ser feita com habilidade cada vez maior no estudo do pastor, de modo que a exposição possa ser realizada no púlpito com imaginação e convicção. Em outras palavras, a exegese deve ser compartilhada, convertendo-se verdadeiramente em significado prático.

A partir dos fatos culturais relacionados ao antigo arauto grego, temos mais idéias sobre a essência dos sermões expositivos. Para ter um cargo assim, o arauto precisava ser amigo íntimo de seu senhor, ter uma voz clara e ser digno de confiança. Nessa função o arauto fazia proclamações oficiais para o rei e em nome dele. Em muitos exemplos de proclamação (kerussein) do Novo Testamento, a urgência e fidelidade a mensagem revelada de Deus eram características (Mounce 1960, 12-17).

Relacionando isto com o sermão expositivo, vemos o pregador como arauto de Deus, o Rei. Obviamente ele tem de ser um amigo leal de Deus e devotar afeição a à Palavra divina. Ele deve levar em seu coração a convicção clara e indelével de que sua vocação vitalícia visa proclamar os pensamentos de Deus com fidelidade e de forma prática. Em sua essência, o sermão expositivo tem uma relação ontológica com a Bíblia e tem sua melhor caixa de ressonância no caráter e nas palavras do pregador (arauto).

Assim, um sermão expositivo não é um discurso de improviso casual, em que o pregador vagueia por uma longa seqüência de versículos. Acho estranho que um sermão extemporâneo e casual numa sucessão de versículos bíblicos seja chamado impensadamente de exposição bíblica. Como cristãos e pregadores informados podem continuar a acreditar nisso?

Alguns pregadores têm facilidade de esboçar vividamente um parágrafo bíblico. O Dr. Liefeld chama isto de “esboço tópico de uma passagem (bíblica)”. Definitivamente não é um sermão expositivo. Ele ilustra isto com o seguinte esboço de Atos 9.1-9:

1. A Resistência de Saulo

2. A Conversão de Saulo

3. A Comissão de Saulo

Em sua opinião, esboços tópicos tendem a ser “mais descritivos que pastorais” (Liefeld 1985, 26-27). Para mim, isto sempre demonstra um uso talentoso de palavras e não uma projeção da verdade prática. O sermão expositivo não é somente um esboço tópico ou um panorama preciso de um parágrafo da Bíblia que nos mantém apenas na casca externa da passagem.

Em nossa tentativa de atingirmos o centro/essência do sermão expositivo, talvez seja útil fazer uma comparação da estrutura e conteúdo de cada um dos principais tipos de sermão. As partes globais de qualquer sermão são duas, a saber, 1) estrutura e 2) conteúdo. Ao analisarmos os principais tipos de sermão devemos perguntar: quais são as verdadeiras fontes que geram estas duas partes?

O sermão tópico geralmente extrai o esboço (estrutura) e o conteúdo a partir das habilidades literárias criativas do pregador. Se ele for um verbalista talentoso, a estrutura do sermão (tópicos e sub-tópicos) será viva e fácil de reter na memória. Se o pregador for inteligente, o conteúdo será apropriado à cultura e agradável, mas não necessariamente espiritual Verdades e convicções bíblicas podem fazer parte deste tipo de sermão. Isto dependerá em grande parte da piedade do pregador e do propósito na pregação daquele sermão. Na melhor das hipóteses, o sermão tópico é um discurso bíblico. Na pior das hipóteses, ele pode ser uma opinião pessoal tendenciosa sobre Deus e a religião.

Dependendo do pregador, haverá maior ou menor diferença entre o sermão textual e o tópico. Em geral, o sermão textual tem sua estrutura (esboça) numa parte limitada da Bíblia. Não há muitos versículos bíblicos isolados que se dividam naturalmente em três ou quatro partes. Todavia, em muitos sermões textuais o versículo bíblico isolado não é pressionado a produzir um esboço, porque geralmente ele é usado como “introdução” à introdução. Este é um caso clássico de uso do texto como pretexto. O versículo bíblico se torna um trampolim de onde o pregador salta com sua mensagem, sem pregar basicamente a mensagem de Deus. Neste tipo de mensagem, é fácil pregarmos sobre Deus, mas é difícil Deus pregar sobre si. Em termos de conteúdo, novamente tudo depende do pregador. O conteúdo de um sermão textual pode estar mais relacionado com as idéias religiosas do pregador do que com a Palavra de Deus.

Na melhor das hipóteses, o sermão textual irá esboçar e trabalhar em cima do versículo bíblico escolhido para o sermão. Na pior das hipóteses, o sermão textual pode fazer uso fraudulento das Escrituras para “santificar” tendências religiosas pessoais. Mesmo no melhor dos casos, o sermão textual pode facilmente se tornar a palavra do pregador, ignorando o contexto teológico do versículo isolado que se utiliza. É esta negligência casual quanto ao contexto que torna possíveis os mais estridentes erros de interpretação. O sermão textual divorciado de seu contexto nunca poderá ser bíblico no sentido direto do termo.

O sermão expositivo extrai a estrutura e o conteúdo diretamente do parágrafo a ser pregado. As Escrituras são a fonte básica para os dois. Não existe nada daquilo de usar as Escrituras para dar apoio secundário à forma e ao conteúdo do sermão expositivo. H. Grady Davis faz uma pergunta crucial: “A Bíblia é a fonte geradora da forma e do conteúdo, e o sermão realmente diz o que o texto diz?” (Davis 1958, 47).

Estamos chegando a mesma conclusão proposta por Robinson, quando ele escreveu que o sermão expositivo tem uma filosofia subjacente que desafia a definição (Robinson 1983, 15). Neste caso, minha percepção de seu termo “filosofia” aproxima-se das idéias de “mistério” e “teologia”. O mistério do sermão expositivo surge da natureza singular de Deus e de sua Palavra. A teologia da pregação expositiva está no Deus real que, em condescendência, revela-se a nós, através de sua Palavra proposicional.

Se fôssemos obrigados a dar uma definição de sermão expositivo, ela deveria incluir esta convicção geradora de vida: Deus é, e ele está falando a nós. Sua Palavra tem valor real no espaço e no tempo, a semelhança de Deus. O sermão expositivo é uma expressão prática desta convicção geradora de vida. Se Deus não é, então não há Palavra. Se não há Palavra, então não há sermão expositivo.

Uma das mais recentes e completas definições de pregação expositiva é a seguinte, em sua forma estilística:

Pregação expositiva – a comunicação de um conceito bíblico derivado

e transmitido através de um estudo

histórico,

gramatical

e literário de uma passagem em seu contexto,

que o Espírito Santo primeiramente aplica

à personalidade e experiência do pregador,

e, depois, através dele, a seus ouvintes (Robinson 1983, 22).

Visando os propósitos deste manual, modificarei esta definição, sem a intenção de depreciar qualquer uma de suas excelentes qualidades. Faço isto porque há muitos pregadores leigos que não tem acesso direto aos recursos teológicos acadêmicos. Eles não estudaram hebraico e grego, mas assim mesmo desejam expor a Palavra de Deus. A Bíblia no vernáculo que possuem não está tão distante do original, a ponto de Deus ficar incapacitado de falar. Parece estranho que Deus possa exigir que todos os pregadores conheçam hebraico e grego, a fim de exporem sua Palavra. Ele, em sua soberania, já não tomou providências para que sua Palavra salvífica fosse traduzida com clareza para centenas de línguas? Não apenas isto, mas Deus tem usado soberanamente as Bíblias no vernáculo para salvar e santificar literalmente milhões de almas.

Será que um certo elitismo teológico poderia estabelecer exigências estritas para o sermão expositivo, alegando a possibilidade de heresia? Este mesmo elitismo obviamente não tem exigido tanto de outros tipos de sermão. Será que muitas heresias não surgiram dos sermões tópicos e textuais em sua dispensa de uma integridade bíblica mais profunda? Minha preocupação é no sentido de que se os sermões textuais e tópicos podem ser considerados formas legítimas de apresentação da verdade, sem se extrair nada das línguas originais, por que o mesmo não vale para o sermão expositivo? Neste manual, o pregador será ensinado a fazer pleno uso de um parágrafo bíblico autônomo, no vernáculo, dentro de seu próprio contexto. Seu trabalho será orientado por sólidas regras de análise literária e estudo indutivo, que funcionam claramente em qualquer língua.

A definição a seguir depende de tudo que dissemos em termos da essência do sermão expositivo. Em nenhum momento quisemos deixar subentendido que o conhecimento das línguas originais é elitismo supérfluo! Todo conhecimento que alguém possa reunir deve funcionar na produção de uma exposição da Palavra de Deus e captar seu sentido para nós, hoje. Devemos usá-lo e, ao mesmo tempo, depender inteiramente do Espírito Santo.

Agora tentemos dar uma definição que se encaixe na filosofia e metodologia propostas neste manual. Admito que ela foi inspirada na definição dada acima, mas contém elementos chaves necessários para o tipo de exposição visado aqui.

O sermão expositivo vernacular: um discurso bíblico derivado de um

texto vernacular independente,

a partir do qual o tema é revelado,

analisado e explicado,

através de seu contexto,

sua gramática

e sua estrutura literária,

cujo tema é infundido pelo Espírito Santo na vida do pregador e do ouvinte.

O sermão expositivo é maior do que esta definição limitada, pois deriva sua essência e forma da íntima relação com a Palavra eterna de Deus. A Bíblia é o sangue vital do sermão expositivo, e a explanação, explicação e exposição são as partes conceptuais básicas e dinâmicas. O caráter do pregador é a caixa de ressonância da verdade pregada.

AS VANTAGENS DA PREGAÇÃO EXPOSITIVA

 

O ancião Crisóstomo disse certa vez que o valor da pregação expositiva reside no fato de que Deus fala o máximo e o pregador o mínimo. Que percepção!

Quando o Espírito Santo inspirou o apóstolo Paulo a escrever “prega a palavra” (imperativo; 2 Tm 4.2), ele tinha boas razões. Afinal, Deus falou coisas dignas de serem ouvidas. Ele falou sobre assuntos de interesse de toda a humanidade com exatidão espantosa. “Prega a palavra” é uma frase que exprime convicção e convoca à exposição.

Há muitas vantagens na pregação de sermões expositivos que abranjam livros inteiros da Bíblia. Além de obedecer a um mandamento claro de Deus e encontrar paz, o expositor experimenta muitas outras vantagens práticas.

Em primeiro lugar, a pregação expositiva baseada em livros da Bíblia livra-nos da tarefa dúbia de inventar temas para a pregação a cada domingo. A invenção de temas é um trabalho que consome tempo e devora nossa energia. E quem pode ter certeza de que o tema selecionado é a escolha de Deus? Mesmo esta sombra de dúvida mina nossa convicção espiritual necessária para pregarmos estes temas. A pessoa que prepara sermões a partir de um livro da Bíblia já tem um tema geral dado par Deus, ao lado de outros temas de apoio nos parágrafos de pregação. Nada disso depende da invenção humana. Com um recurso rico como este, o pregador não precisa esgotar suas energias para provar sua capacidade de inventar. Ele fica livre para estudar o parágrafo da pregação na qualidade de Palavra de Deus. Ele tem liberdade para decifrar o tema divinamente inspirado e pregá-lo com bastante convicção. Tal convicção é exatamente o oposto das dúvidas incômodas que muitas vezes acompanham temas arquitetados pelo homem.

Descontando-se as férias do pregador e às vezes em que visitantes vem pregar, restam de trinta e oito a quarenta e três domingos para os quais duas mensagens devem ser preparadas. Isto significa que, em média, o ministro tem de inventar de setenta e seis a oitenta e seis temas apropriados e interessantes, sem ser repetitivo. Esta é uma tarefa considerável, pois nem todos os servos do Senhor foram feitos igualmente criativos. Alguns podem ser capazes de conseguir uma porção de temas para um ano ou dois de pregação, sem reprises. Outros ficarão com um punhado de repetições monótonas. O ponto negativo das repetições está nas reapresentações de temas não gerados pela Palavra. Não poucos pregadores terão bloqueios mentais que os atirarão num poço de desespero e falta de produtividade. Vários seminaristas já entraram em pânico diante da idéia de terem de cunhar dois temas para quase todos os fins de semana no ano. Muitos pregadores jovens encobrem o pânico com novidades em programas destinados a substituir as oportunidades regulares de pregação. Muitas vezes, o peso da culpa que acompanha tais táticas leva os ministros a crises emocionais e físicas. A partir deste ponto resta um pequeno passo para o abandono do ministério.

Ao contrário disso, o servo do Senhor que acredita sinceramente que Deus ainda fala através de sua Palavra exposta descobrirá temas vivos nas Escrituras. E com variedade e relevância! Já se observou que o estudante aplicado da Palavra descobrira temas bíblicos em número maior do que ele teria tempo para preparar e compartilhar.

Pensando em temas bíblicos, devemos lembrar outro aspecto relacionado. Os pregadores que fazem séries de exposições através dos livros da Bíblia apresentarão temas espontaneamente (ou inconscientemente) negligenciados pelos que têm medo ou duvidam. John R. W. Stott relata que ele estava no ministério havia vinte e cinco anos quando, pela primeira vez, pregou sobre o assunto do divórcio. Isto aconteceu enquanto fazia uma série de exposições sobre o Sermão da Montanha. O texto da semana seguinte versava exatamente sobre aquele assunto e não havia meio de evitá-lo. Ele tinha de tratar abertamente sobre o divórcio, e o fez. Sem dúvida, seus ouvintes foram biblicamente informados e edificados.

Numa íntima relação com isto, temos a segunda vantagem de expor temas bíblicos de uma forma natural. O expositor que segue através dos livros da Bíblia tem os temas de Deus para pregar, na seqüência em que eles aparecem. Ele não tem de adaptar a força os temas a certos problemas que surgem durante a semana. Para os pastores é uma grande tentação manipular seus próprios temas para atacar ou resolver problemas do momento. Os pregadores que cedem a isto são, muitas vezes, vistos como intrometidos e não são dignos de inteira confiança. A razão disto é que estes pastores colocam suas ovelhas na defesa. A exposição de temas bíblicos, à medida que surgem na série prescrita, anula a maior parte das acusações de que o pregador está tentando atingir certos membros. Numa série de exposições as pessoas sabem que o texto não foi selecionado por causa de qualquer “ira messiânica” no pastor.

Lembro-me do caso de um pastor recém-chegado que decidiu fazer uma série de exposições sobre o livro de 1 Coríntios. Na quinta mensagem, o expositor teve de lidar com o tema da imoralidade. Ele estava ali e não havia meio de pular o assunto. Em obediência e fé, ele pregou a Palavra. Pouco tempo depois, um membro da igreja o procurou para receber aconselhamento, confessando estar envolvido em conduta imoral. Ele sabia que o pastor não estava ciente da situação e tinha certeza de que a Palavra de Deus viera para convencê-lo através daquele sermão. Esta foi uma daquelas intervenções divinas em que o pecador estava plenamente cônscio da voz de Deus e apenas casualmente consciente do mensageiro. Ele não sentia que o pregador estava lá para atingi-lo, de modo que, humildemente, veio para receber ajuda redentora. Esta “Palavra” em especial chegou ao pecador na “plenitude do tempo” e na seqüência natural das mensagens.

O fator da nutrição é a terceira vantagem da pregação expositiva. A Palavra de Deus é alimento para alma, mente e espírito. Na pregação expositiva, o pregador não tem de impor categorias ” evangelísticas” ou “de edificação” a seu sermão. A Palavra de Deus destina-se a ser todas as coisas para toda a humanidade. Ela traz o novo nascimento a alguns e concede edificação moral a outros, segundo o desejo do Espírito.

“… pois fostes regenerados, não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente. Pois toda carne é como a erva, e toda a sua glória como a flor da erva; seca-se a erva, e cai a sua flor; a palavra do Senhor, porém, permanece eternamente” (1Pe 1.23-25).

A Palavra do Senhor permanece, enquanto tudo mais perece. Ela não produz apenas o novo nascimento, mas também transformações éticas e morais naqueles que a ouvem com vontade. A passagem acima continua:

“Despojando-vos, portanto, de toda maldade e dolo, de hipocrisias e invejas, e de toda sorte de maledicências, desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que por ele vos seja dado crescimento para salvação, se é que já tendes a experiência de que o Senhor é bondoso” (1 Pe 2.1-3).

A Palavra de Deus, não a inteligência do pregador, faz com que um cristão cresça em sua salvação. A Palavra faz parte do ser de Deus, de um modo tal que, quando o Espírito nos capacita para a recebermos internamente, nós participamos da natureza de Deus (como em 2 Pe 1.4). Os cristãos crescem em suas expressões morais da salvação quando são nutridos pelo próprio Deus. Expor a Palavra é apresentar Deus por aquilo que ele é tanto para pecadores quanto para santos! A Palavra eficaz de Deus não depende de qualquer classificação artificial do sermão, seja para cristãos ou pecadores.

A propósito, temos aqui outro princípio amortecedor de tensões para ministros de qualquer lugar: a Palavra de Deus em si é tanto evangelística quanto edificante. O Espírito Santo aplica a Palavra segundo convém, a semelhança dos dons carismáticos. As epístolas do Novo Testamento foram escritas para cristãos. Assim mesmo, tais mensagens tiveram efeito salvífico sobre os não-salvos que as ouviram e leram nas igrejas. Nossa preocupação principal não deve ser com o fato de pregarmos um sermão evangelístico ou de edificação. Devemos nos concentrar em pregar a palavra e, assim, contar com o Espírito de Deus que fará com eficiência as aplicações.

A quarta vantagem da pregação expositiva está na unção específica de autoridade que a acompanha. Com grande freqüência o expositor tem consciência da autoridade divina que acompanha sua mensagem. Em seu coração ele sabe que é Deus quem fala e nem por um momento presume que o poder seja seu. Ele realmente sente a alegria de ser um poderoso porta-voz de Deus.

O apóstolo Pedro, no segundo capítulo de Atos, faz uma exposição sobre Joel 2.28-32 e Salmo 16.8-11. Ele faz isto com tanta autoridade que seus ouvintes clamam convictos: “Que faremos, irmãos?” (‘At 2.37). O resultado daquela autoridade divina foi a conversão de cerca de três mil almas. No capítulo três vemos como Pedro lidou com este influxo de autoridade. Depois de oferecer a cura de Cristo ao mendigo coxo, Pedro diz: “… por que vos maravilhais disto, ou por que fitais os olhos em nós como se pelo nosso próprio poder ou piedade o tivéssemos feito andar?” (At 3.12b). O que é surpreendente na autoridade que vem com a pregação da Palavra de Deus é a clara consciência de que ela pertence a Deus. Tanto o pregador quanto o ouvinte a vêem desse modo.

Filipe, o evangelista, experimentou em sua carne esta autoridade espiritual. Em Atos 8.34, Filipe explica Isaías 53.7, 8 ao eunuco etíope. Se admitirmos que este era seu estilo de pregação, então na primeira parte do capítulo oito, sem dúvida, Filipe expôs a partir daquela mesma passagem messiânica. Os resultados se manifestaram na autoridade de Deus sobre Samaria, onde ele expôs a Palavra.

“Filipe, descendo a cidade de Samaria, anunciava-lhes a Cristo. As multidões atendiam, unânimes, as cousas que Filipe dizia, ouvindo-as e vendo os sinais que ele operava. Pois os espíritos imundos de muitos possessos saíam gritando com alta voz; e muitos paralíticos e coxos foram curados. E houve grande alegria naquela cidade” (At 8.5-7).

Nos poucos versículos seguintes, vemos Filipe cheio do poder da autoridade de Deus, e pessoas de todas as classes são convencidas a crer, sendo batizadas. Até o mágico, que havia enganado aquele mesmo povo, ficou maravilhado com a autoridade divina que sobreveio a Filipe. Como podemos ver, a autoridade na pregação está ligada a Palavra de Deus. Ela é vista por santos e pecadores como procedente de Deus, mesmo quando é demonstrada num ser humano.

O leitor pode querer saber a razão por que foram usados os exemplos de Pedro e Filipe, e não o de Paulo. Certamente, Pedro e Filipe não eram tão eruditos como Paulo. O Novo Testamento não os coloca debaixo da mesma luz do apóstolo. Talvez estes exemplos mostrem que, mesmo quando temos “menos” dons, ainda assim podemos ser fiéis expositores da Palavra viva de Deus.

Há uma quinta vantagem óbvia na pregação expositiva. O pastor e o povo aprofundam-se no conhecimento da Palavra de Deus, não apenas num nível fatual, mas também nas experiências da vida. Ouvir um pregador falar sobre religião é uma coisa. Outra coisa é ouvir Deus falando através do pregador e sentir as transformações miraculosas no caráter de uma pessoa. Em alguns círculos, isto é chamado o processo de santificação. Imagino que a maioria de nós concordaria com o fato de que precisamos mais deste acontecimento na vida dos membros das igrejas. Outra vez vem a nós a palavra do apóstolo Pedro: “Tendo purificado as vossas almas, pela vossa obediência a verdade, tendo em vista o amor fraternal não fingido, amai-vos de coração uns aos outros ardentemente, pois fostes regenerados… mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente” (1 Pe 1.22, 23).

Uma boa exposição exige uma boa pesquisa. A pesquisa revela novas idéias que renovam o pregador e os ouvintes, a semelhança de um gole de água borbulhante na fonte. Lucas, o autor do evangelho, dá-nos um belo exemplo disso em seu parágrafo inicial, em 1.1-4:

“Visto que muitos houve que empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares, e ministros da palavra, igualmente a mim me pareceu bem, depois de acurada investigação de tudo desde sua origem, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, uma exposição em ordem, para que tenhas plena certeza das verdades em que foste instruído” (itálicos meus).

A pesquisa de Lucas torna seu relato da ressurreição “admiravelmente novo e diferente”. O que ele nos transmite em sua narração dos dois homens na estrada de Emaús é a convicção transformadora de vidas de que Jesus está vivo! O que Lucas diz sobre a doutrina e a obra do Espírito Santo, nas vidas de João Batista, Maria, Isabel, Zacarias, Simeão e do próprio Senhor, é um emprego habilidoso e novo de fatos pesquisados. Lucas faz com que “vejamos Jesus como uma figura real da história, não apenas como assunto de uma experiência abstrata” (Tenney 1982, 179-182).

Com o crescimento fenomenal da igreja em certas partes do mundo, a sexta vantagem torna-se importante. A pregação expositiva diminui bastante o desenvolvimento de idéias heréticas. Qualquer pessoa que pregue sobre um livro da Bíblia é forçada a usar seu contexto. O parágrafo da pregação sempre estará no contexto imediato do parágrafo anterior ou posterior. Os primeiros quatro passos da pesquisa (veja a introdução) mantém o expositor perto do texto em seus contextos imediato e geral. O uso de parágrafos como textos da pregação proporcionam uma guarda hermenêutica. Uma palavra ou frase anterior refreia uma interpretação potencialmente herética. Os pensamentos principais no parágrafo indicarão o tema teológico e dirão ao expositor o que e quanto falar sobre ele.

A pregação expositiva através de livros da Bíblia colocará à prova nossas convicções sobre doutrinas que podem ser mais tradicionais do que bíblicas. Assim, o expositor sincero estará mais interessado na integridade e verdade do que em idéias não-bíblicas. Tanto ele como seus ouvintes crescerão na verdade de Deus. E esta vantagem não é de se desprezar!

Faremos do que vem a seguir a sétima vantagem, somente se estiver intimamente relacionado com a vantagem acima. A pesquisa que a pregação expositiva exige do pregador o ajudará a cumprir Efésios 4.11, 12. Por natureza, a pregação expositiva capacita o pastor a ser um mestre, a fim de preparar o povo “para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo”.

Alguns anos atrás, um seminarista e eu trabalhamos juntos na fundação de uma igreja em Atibaia, estado de São Paulo. Dividimos a primeira epístola de João em dez parágrafos de pregação, sendo que, semana sim semana não, cada um se responsabilizava por um sermão. Depois de dois meses de exposições, uma mulher que freqüentava as reuniões me disse o seguinte: “Esta igreja é diferente. Em minha outra igreja eu ouvia durante cinqüenta e dois domingos por ano sobre como nascer de novo. Nestes dois meses aqui, tenho ouvida mais sobre toda a história de Deus do que em todos os anos em que fui membro de minha igreja”.

A exposição da Palavra de Deus através dos livros da Bíblia é uma das melhores instruções teológicas que um pastor pode dar a si mesmo e, depois, a seu povo. O Dr. J. A. Broadus escreveu que o principal papel de um pastor é o de mestre. Com base nisto, sugere-se que a melhor maneira para que um pastor relacione a verdade com a vida diária é através de exposições sistemáticas (Bauman 1972, 211).

A oitava vantagem tem sido verificada por muitos pastores através da história. Todavia, esta vantagem nem sempre se materializa. Infelizmente, alguns expositores podem dar testemunho disto. A oitava vantagem é que a pregação expositiva tende a reavivar toda a dinâmica da igreja. Lideres se comprometem mais com a liderança. Os que lutam em oração passam a orar mais. Almas hesitantes assumem compromissos decisivos com Cristo. Os contribuintes dão mais e os que não contribuem são libertados da avareza. Os membros participam da causa missionária, saindo de uma condição morna para outra fervorosa, de quantidades limitadas para uma generosidade transbordante, de um patrocínio paternalista para um envolvimento pessoal. Os que amam a Bíblia lêem e entendem a Palavra de Deus com mais inteligência e testemunham com maior coragem.

Num artigo intitulado Preach the Word (“Prega a Palavra”), um certo Sr. Ruark relata o seguinte, conforme mencionado no livro He Expounded (“Ele Expunha”):

Depois de dez anos de pregação generalizada, típica e textual, passei os últimos três anos inteiramente na pregação expositiva, obtendo os seguintes resultados: mais almas foram salvas, mais melhorias foram feitas às propriedades da igreja e mais dinheiro foi dado as causas missionárias, mais do que em qualquer outro período da história da igreja; e foi Deus, operando através de Sua Palavra, quem fez tudo isto! (White 1952, 43.)

Segundo foi mencionado acima, nem todas as igrejas reagirão de modo positivo à pregação expositiva. Um de meus alunos de seminário pregou mensagens expositivas durante três anos numa igreja evangélica em São Paulo, e não houve nenhum reavivamento. Nada aconteceu à igreja, mas um grande crescimento espiritual ocorreu na vida do pregador. Num sentido muito real, ele manteve a coerência com sua crença de que a Bíblia é a Palavra de Deus! Ela não foi transmitida apenas em palavras, mas também foi demonstrada numa filosofia teológica coerente. Os membros daquela igreja, que sufocaram a verdade, foram efetivamente julgados pelo Senhor através do pregador e seu ministério fiel a Palavra.

Penso na visão de Isaías, em que Deus disse: “… quem há de ir por nós?” Isaías respondeu com prontidão: “… envia-me a mim”. Então Deus lhe falou que fosse e dissesse ao povo que eles iriam ouvir e realmente não entender; ver e não perceber; eles seriam tocados, mas não obedeceriam. Isaías queria saber quanto tempo ele deveria pregar a um povo endurecido, sem ver qualquer reavivamento. Deus disse que ele deveria fazer aquilo “até” que sobreviesse o julgamento ao povo. Mas, mesmo assim, Deus incluiu a promessa de que sua Palavra, por fim, iria produzir fruto: “Como terebinto e como carvalho, dos quais, depois de derrubados (julgados), ainda fica o toco, assim a santa semente (a Palavra) é o seu toco”. O toco iria, finalmente, recobrar vida (veja Daniel 4.26).

A nona vantagem da pregação expositiva é que ela é uma abordagem de pregação aberta a todos os tipos de pregadores. Um pregador vibrante e extrovertido não tem mais direitos a este tipo de pregação do que o introvertido. A pessoa vibrante que expõe a Palavra de Deus logo perceberá que ela não pode confiar na dinâmica pessoal para realizar a obra do Espírito Santo. Isto não quer dizer que Deus não usa o entusiasmo e os recursos de comunicação de seus servos. Deus usa tudo que lhe dedicamos. O pregador que tem um espírito tranqüilo será confortado em saber que a Palavra de Deus é poderosa em si mesma. Não quero dizer que não se deve aperfeiçoar os recursos de comunicação pessoal. Deus espera que desenvolvamos nossos dons a partir do potencial natural, até a prática eficaz. O argumento é este: a pregação expositiva se concentra na Palavra de Deus, a qual contém em si a ação e energia do Espírito Santo. Não pode existir qualquer divórcio entre a Palavra e Deus, sua fonte. “Porque a Palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração” (Hb 4.12). O expositor, não importa quais ou quantos dons ele tenha, confia inteiramente no Deus da Palavra.

A décima vantagem da pregação expositiva é a seguinte: uma série de exposições através dos livros da Bíblia preserva e garante a variedade (Jones 1971, 75). Qualquer pessoa que exponha livros inteiros da Bíblia em forma de série tocará em vários assuntos: doutrina, vida interior, devoção a Deus, ética, origem da raça, escatologia, história, biografia, evangelização, dinheiro, sexualidade humana etc. Não existe uma área da vida humana que não seja tocada na Bíblia de forma detalhada ou geral.

A exposição bíblica é, às vezes, criticada como não sendo relevante. Um sermão expositivo pode ser irrelevante apenas se seu mensageiro também o for! Por quê? Porque o Deus eterno que falou na Bíblia ainda está falando aos assuntos básicos de nosso contexto atual. Nosso Deus eterno não pode fazer nada menos do que isso! O expositor pode ter certeza de que achará uma variedade de materiais importantes para a pregação que atendam às necessidades atuais daqueles que estão sentados nos bancos.

Estas são algumas vantagens da pregação expositiva. Sem dúvida, o leitor poderá fazer alguns acréscimos. Seria uma ótima experiência de aprendizado se cada leitor pudesse fazer contato com cinco praticantes da pregação expositiva e lhes perguntasse quais vantagens sobrevieram a eles.

O TEMPO E O MINISTÉRIO DA PALAVRA

 

No pensamento secular, “tempo é dinheiro”. Tempo perdido é dinheiro perdido. Quando nos entregamos ao ministério da palavra, o tempo se torna sagrado! Ele é mais do que uma reunião de minutos, horas e dias. Para o pregador da Palavra, o tempo é um kairos (uma oportunidade que lhe é confiada). Quando um pregador é chamado para trabalhar numa igreja, ele assume um kairos. Por vontade soberana, pode ser um período de três, cinco ou dez anos. Terminados estes anos, eles não podem ser chamados de volta, revividos ou corrigidos. Eles são uma responsabilidade sagrada e precisam ser tratados com profundo respeito, dia a dia.

Uma vez que o tempo é sagrado, o uso que fazemos dele traz implicações éticas. O aspecto moral do emprego do tempo parece não influenciar os pensadores modernos. A infidelidade ao calendário e ao relógio é algo bem comum. E, uma vez que “todo mundo faz isso”, por que a consciência de alguém deveria ser incomodada? Quando o pecado se torna uma ocorrência sociológica difusa, a consciência pública do erro moral ou ético se torna insensível. Até mesmo homens e mulheres chamados para servir a Deus muitas vezes caem sem querer no mau uso ético do tempo.

Tem sido observado que a maioria de nós tem medo de empregar mal o tempo que nos é destinado sobre a terra cometendo diretamente suicídio. Assim mesmo, perdemos horas e dias de modo insensato e não percebemos que estamos “matando” partes de nosso ser moral. Qualquer um que se envolva no ministério da palavra terá de encarar este chamado como um kairos que exige plena dedicação ao uso adequado do tempo.

A vida é muito curta para ser desperdiçada. E a vida no ministério da palavra é breve demais para ser medíocre. Se a exposição das Escrituras for central ao ministério da palavra, então nós, servos de Deus, teremos de recompor nossa filosofia acerca do valor do tempo.

Não é verdade que Jesus Cristo veio para redimir tanto os seres humanos quanto o universo material (Rm 8.21-23)? E a expiação de nosso ser e nosso mundo também não inclui a redenção dos minutos, horas e dias destinados a cada um de nós? Pensar que meu tempo sobre a terra também já foi redimido pelo Deus poderoso é algo penetrante.

“… assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo (antes de existir tempo), para sermos santos e irrepreensíveis perante ele” (em nossas dimensões de tempo e espaço; Ef 1.4). “… nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as cousas conforme o conselho da sua vontade, a fim de sermos para louvor da sua glória, nós, os que de antemão esperamos em Cristo” (Ef 1.11, 12). Onde mais isto poderia acontecer, senão no tempo e no espaço? A expressão fundamental da redenção do tempo aparece em Efésios 2.10: “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas”.

Como Deus poderia, na eternidade, nos escolher e designar para as boas obras sem levar em consideração a quantidade de tempo que nos seria destinada sobre a terra? Parece-me que nosso tempo foi incluído na redenção graciosa de Deus. Isto requer uma abordagem moral ou ética do usa de nosso tempo.

Em certo ponto de seu livro Christ and Time (“Cristo e o Tempo”), Oscar Cullmann escreve sobre uma dimensão ética do tempo. Vemos esta idéia num dos salmos. “Os dias da nossa vida sobem a setenta anos, ou, em havendo vigor, a oitenta: neste caso o melhor deles é canseira e enfado, porque tudo passa rapidamente, e nós voamos” (Sl 90.10). Alguns teólogos classificam este período geral de tempo com a palavra grega chronos. O Salmo 90.12 parece ter uma conotação mais aplicável a idéia da palavra grega kairos: “Ensina-nos a usar bem os dias da nossa vida para que nos tornemos sábios” (Bíblia na Linguagem de Hoje). Este versículo parece falar do “momento certo” ou da “oportunidade para se fazer algo” (Lightfoot 1980, 70). Penso que a ética espiritual está envolvida na escolha que o Espírito fez da palavra “bem”. Senhor, ensina-nos a respeitar todo o tempo a nós destinado (os setenta ou oitenta anos) e a redimir as oportunidades especiais dentro desse período.

Os ministros do evangelho de Jesus Cristo são responsáveis pelo uso do tempo. Um sermão pobre geralmente é pobre porque o servo de Deus não usou com sabedoria o tempo kairos que lhe foi destinado.

O tempo é sagrado para aqueles que se dedicam ao ministério da palavra. Estes servos gastarão o tempo necessário para estudar as Escrituras, a fim de expô-las com zelo e inteligência. Sim, eles experimentarão a tentação de fazer “outras coisas importantes”, em vez de estudar.

Vários anos atrás, uma pesquisa feita com 473 pastores batistas do sul dos Estados Unidos mostrou que, em média, o pastor gasta 25% de seu tempo no preparo dos sermões. Se aqueles pastores trabalhassem em média quarenta e oito horas por semana, eles teriam reservado duas horas por dia ao estudo. Cuidados pastorais ocupavam 39% do tempo deles, ou três horas e meia por dia. A administração tomava 21% do tempo, ou menos de duas horas por dia, e 15% do tempo eram usados com “outros deveres”, ou cerca de uma hora e meia. Todavia, 50% dos pastores apontaram a necessidade de mais tempo para o preparo de sermões. Devido ao fato de que, em muitos lugares, a maior parte dos pastores prega zelosamente cinco ou seis vezes por semana, duas horas por dia para estudo parecem muito pouco.

Um estudo de quatro horas na parte da manhã melhoraria o conteúdo do sermão. Isto ajudaria o pastor a deixar que os membros capacitados fizessem os “outros deveres” e até mesmo prestassem um pouco dos cuidados pastorais.

Com base no panorama mencionado, o pastor, em média, gasta dez horas por semana para preparar seus sermões (muitos pastores preparam três mensagens por semana). Suponha que a igreja dele tenha uma freqüência média de 100 pessoas, sendo que cada uma delas faz um esforço voluntário para chegar a igreja e ouvir um sermão de trinta minutos. Os trinta minutos de audiência para 100 pessoas se transformam em 50 homens/hora. Suponha que o sermão que estejam ouvindo seja resultado de três horas de estudo ou três homens/hora em relação aos 50. As poucas horas gastas no preparo daquele sermão fazem justiça a todos os homens/hora representados pelos 100 ouvintes?

Se levarmos isto para o plano individual, o pregador gasta cento e oitenta minutos no preparo, e cada um dos 100 membros da igreja gasta trinta minutos ouvindo. E, além disso, o ouvinte também gasta tempo para chegar a igreja. Em alguns países, muitos cristãos andam quilômetros ou tomam ônibus para chegar a igreja. Quem calcularia as energias gastas? O servo do Senhor precisa olhar para a congregação e saber que ele honrou a Deus e ao povo de Deus, fazendo um uso correto de seu tempo. Uma consciência culpada neste ponto quase sempre se revela em censuras habituais e severas no púlpito, e isto nada mais é do que uma transferência psicológica de culpa.

Os ministros da Palavra não somente precisam ter uma visão ético-teológica da natureza sagrada do tempo, mas também devem demonstrá-la na prática. Parece difícil aos pastores programar o tempo que lhes é destinado diariamente. Talvez isto aconteça pelo fato de o planejamento parecer uma coisa tão humana, tão destituída de dimensões místicas ou espirituais. Assim, é raro encontrar um pregador que ore e espere no Senhor para receber orientação mística no planejamento de um piquenique ou de férias. A semelhança de qualquer outra coisa, a ação humana de planejar algo pode ser dedicada a Deus e a sua glória.

Existe um elo psicológico entre o planejamento e a execução do plano. Se o pregador estabelecer seu plano de estudar quatro horas em cada uma das cinco manhãs, ele tenderá a obedecer ao plano. Planejamentos conscientes podem levar a compromissos. Compromissos energizam o corpo, a alma e o espírito.

O número de planos para o uso do tempo é o mesmo que o número de pastores. E cada plano reflete de um modo prático as filosofias teológicas do pregador quanto ao tempo e ao ministério da palavra. Minha convicção pessoal é no sentido de que o pastor não pode dedicar menos do que quatro horas por dia no preparo de um ou dois sermões expositivos por semana.

Uma vez que o pastor é quem se encarrega de seu próprio tempo, estas quatro horas podem ser colocadas numa parte do dia que melhor se adapte a situação. Um pastorado em área rural pode ser bem diferente de outro na zona urbana quanto as exigências pastorais diurnas ou noturnas. Uma área industrial será bem distinta do subúrbio. Meu professor de homilética, Farris W. Whitesell, estimulava-nos a fazer uma avaliação séria de nossa situação pastoral em termos sociológicos e, então, estabelecer em nossa agenda diária blocos de tempo para o preparo de sermões.

A melhor forma de organizar um programa de estudos é fazer uma lista das obrigações diárias que tomem tempo. Aliste o que deve ser feito e quanto tempo é necessário para cada tarefa. Por alguma estranha razão (psicológica?), os servos cristãos tendem a fugir com medo deste exercício. Esta atitude acontece com freqüência onde há excesso de orgulho ou um profundo sentimento de insegurança. Quase sempre uma avaliação se transforma numa revelação chocante do uso e mau uso do tempo de uma pessoa. Uma análise aberta do uso normal do tempo ajudará o servo do Senhor a dedicar conscientemente ao preparo do sermão às quantidades de tempo apropriadas.

Talvez seja oportuno aqui fazer a grande pergunta. De que forma os servos do Senhor utilizam mal o tempo? Novamente temos de ser cuidadosos ao fazermos esta avaliação, pois neste ponto entram em jogo os sistemas de valores. Todavia, diante de riscos consideráveis, seguem aqui algumas observações.

Primeira, freqüentemente desperdiça-se tempo quando se dorme demais. É verdade que quase sempre o pastor fica ocupado até tarde da noite. Contudo, o hábito de dormir até tarde é um hábito e pode fazer que o dorminhoco perca de cinco a oito horas de estudo por semana!

Em segundo lugar, freqüentemente desperdiça-se tempo com a procrastinação. Deixar o estudo para outra hora é uma forma bastante clara de perder tempo para o preparo do sermão. A procrastinação tem dois elementos básicos em si que, quando compreendidos, ajudarão o servo do Senhor a evitá-la. Ela está relacionada com uma auto-imagem deficiente. Quase de modo inconsciente, o pregador diz a si mesmo: “Você não tem talento suficiente para a tarefa da pregação; você não consegue se sair bem nisso!” Este tipo de monólogo acontece na mente de centenas de pastores e, por estranho que pareça, ele não é reconhecido como uma mentira do diabo. Os pregadores da verdade com freqüência a aceitam e, então, “pregam” a mentira através de sermões semi-preparados. O servo do Senhor deve evitar a procrastinação por meio da resistência a mentira e ao reafirmar a verdade de seu chamado para proclamar o evangelho. Ele deve conhecer e possuir os dons que lhe foram dados pelo Espírito Santo.

É imperativo que o pregador prepare as mensagens, mesmo quando ele não tem vontade. Em geral, o fato de não ter vontade de estudar é fruto de monólogos mentirosos. Estas mentiras quase sempre são cobertas com conversa espiritual. Lembro-me de um missionário que afirmou certa vez: “Pregarei apenas quando o Espírito Santo me disser que assim faça”. Ele pregava muito pouco! Este tipo de inércia recebe a condenação das Escrituras, porque ninguém pode ter certeza do amanhã (Tiago 4.13, 14). Milhares de circunstâncias podem surgir para “ajudar” alguém a adiar para amanhã o preparo do sermão que deveria ser feito hoje.

Outro elemento na procrastinação é a lei do menor esforço. Tendemos a fazer aquilo que seja mais fácil. Em algumas sociedades, a conversa casual faz parte do estilo de vida. Nestas sociedades, um pastor pode conversar durante horas com a maior facilidade. Ele pode se sentir edificado e pode ter até edificado seu parceiro de conversa. Mas o tempo gasto com excesso de conversa não pode ser recuperado e usado no preparo de um sermão. Da mesma forma, alguns ministros têm facilidade para administrar, e a tendência deles é de organizar e mobilizar a igreja, sem alimentá-la. As enormes quantidades de tempo gastas na administração nunca poderão ser recicladas e usadas no preparo de sermões. Ao dar prioridade social ou filosófica aquilo que é cultural ou fácil, o servo do Senhor diminui a qualidade de seu ministério da palavra.

Em terceiro lugar, desperdiça-se tempo quando o servo do Senhor não tem um plano de pregação. Para muitos, o ato de planejar parece um exercício carnal. Sem um programa de pregação, o pregador gastara muita energia física e espiritual, tentando “criar” temas vitais para cada domingo. Quando o pregador tem por hábito fazer uma busca frenética do tema do domingo, no sábado a noite ou no domingo pela manhã, temos um claro sinal de mau uso do tempo. O planejamento dos sermões torna-se mais fácil quando o pregador decide, pela orientação do Espírito, pregar sermões expositivos que abranjam um livro da Bíblia. Este caminho não é fácil. O servo do Senhor ainda tem o trabalho de pesquisar quais são os temas no livro da Bíblia escolhido. Entretanto, felizmente ele não tem de gastar energia para criar temas que freqüentemente refletem idéias pré-concebidas do pastor, em vez da vontade de Deus. A exposição coerente de livros da Bíblia tem em si uma reserva inerente e inesgotável de temas soberanamente inspirados. Este tipo de plano “natural” de pregação da ao povo e ao pastor um sentido de direção. O objetivo claro a ser atingido no livro da Bíblia tende a criar um espírito de expectativa dentro da igreja como corpo. É este espírito de expectativa que leva o pastor e a igreja ao estudo ativo das Escrituras.

Por fim, o tempo é mal empregado no ministério da palavra, quando o servo de Deus deixa de possuir e exercer seu dom espiritual. Parece que em Efésios 4.7-16 Deus concede “dons do Espírito” aos indivíduos crentes. Ele então designa alguns crentes como “dons de pessoa” ao corpo, a igreja. Os “apóstolos… profetas… evangelistas… pastores e mestres” são selecionados por Deus “com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo”. Assim, “alguns” são chamados para serem “dons de pessoa” (pastores e mestres) para a igreja.

Muitas pessoas chamadas para serem pastores e mestres separam de alguma forma as duas palavras, dizendo: “Meu dom é pregar! Eu não sou um mestre”. Mas a preposição “e” com freqüência tem a conotação de “isto é” ou “em particular”. Assim, poderíamos ler a frase deste modo: “… pastores, isto é, mestres” ou “pastores ensinadores” (Rienecker 1985, 394).

Pastores ensinadores, que quadro bonito! Que chamado nobre! Que grande responsabilidade ser um bom administrador do kairos de Deus no ministério da palavra! Para o servo de Deus, trata-se de um grande pecado afirmar casualmente (contrariando a vontade de Deus) que “eu não sou um mestre!” Tal declaração pode ser uma fuga psicológica da responsabilidade de pregar diligentemente a Palavra de Deus. Todo servo chamado tem a obrigação de conhecer e empregar seu dom. Se o Senhor chamou uma pessoa para ser pastor-mestre, então a única resposta correta é “polir” aquele dom, segundo tradução de uma versão do Novo Testamento. Isto exige um uso consciente do tempo sagrado. Segundo escreve o Dr. Baumann:

O mordomo sábio é aquele que doma o tempo, que acha que o relógio pode ser um servo, não um senhor, que programa as coisas, que se levanta cedo, que gasta tempo em seu escritório, gasta tempo fazendo as coisas que precisam ser feitas, pois ele tem um senso de responsabilidade pessoal diante de Deus e da igreja… Para ser útil, o tempo tem de ser domado (Baumann 1972, 39).

O homem de Deus precisa ser naturalmente um expositor da Palavra de Deus. Ele não pode expor a Palavra se não tem o hábito de estudá-la e pesquisá-la. Motivado por uma filosofia teológica, o servo do Senhor “domará” o tempo e fará estudos sistemáticos para suas mensagens expositivas. Como mordomo de Deus, o pregador usa corretamente o tempo. Como arauto, ele proclama com fidelidade aquilo que Deus, seu Rei, ordenou. Combinando sua teologia da natureza sagrada do tempo com a fidelidade à mensagem de Deus, o arauto do Senhor faz duas coisas:

1) estuda para tornar a Palavra de Deus compreensível a mente do ouvinte e 2) incentiva uma resposta baseada na compreensão intelectual da verdade. John R. W. Stott defende esta idéia, ao mostrar que os verbos usados para descrever a pregação apostólica referem-se a uma compreensão mental da verdade, isto é, didaschein (ensinar), dialegesthai (argumentar), syzetein (discutir), synchynein (confundir), paratithemi (provar) e diakatalegkein (refutar poderosamente). “Não há dúvida de que o kerygma apostólico primitivo estava cheio de sólido didache” (Stott 1961, 48, 49).

O pastor ensinador expõe a Bíblia porque ele acredita que o espírito humano pode ser ativado quando a mente está imbuída na verdade e por ela é convencida. Em Atos 17.4, lemos: “Alguns deles foram persuadidos e unidos a Paulo e Silas, bem como numerosa multidão de gregos piedosos e muitas distintas mulheres”. O que tornou possível que fanático religiosos e presunçosos intelectuais vissem a luz? Os versículos dois e três nas dizem. O apóstolo arrazoou (dielezato), expondo (dianoigon) e demonstrando (paratithemenos) o significado da morte e ressurreição de Jesus Cristo. A proclamação apostólica não era uma homilia superficial para preencher o tempo.

OS ANTECEDENTES HISTÓRlCOS E CULTURAIS

 

Antes da tarefa propriamente dita de preparar a primeira exposição de uma série, o arauto de Deus precisa fazer alguns preparativos relacionados com o livro da Bíblia escolhido. Tal estudo deve fornecer ao pregador um tema geral e uma reserva cheia de ilustrações históricas e culturais. Mais tarde neste capítulo aparecerão algumas sugestões sobre como fazer este preparo.

Suponhamos que o pregador tenha decidido fazer uma série de exposições no livro de Filipenses. O contexto histórico do livro pode fornecer informações que irão acrescentar cor a seus sermões. Um sermão em “preto e branco” (opaco) não tem muitos fatos fascinantes que surgem dos antecedentes históricos e culturais de um livro da Bíblia.

Saber que César enviou um destacamento especial de trezentos soldados com suas famílias, para “romanizar” a cidade de Filipos, é algo que da vida a Epístola aos Filipenses. Posso ouvir as ordens dadas aquelas tropas de ocupação: “Insistam para que o povo de Filipos fale a mesma língua de Roma. Exijam que adorem o imperador. Matem-nos se eles não proclamarem religiosamente: ‘César é Senhor'”. Aquele minúscula grupo de crentes em Filipos, Paulo escreve: “Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de Cristo” (Filipenses 1.27). Quantos crentes havia em Filipos naquela época? Dez? Catorze? Qualquer que seja o número, eles eram poucos.

O verbo “vivei” tem origem na palavra grega politeuomai e significa agir como um cidadão. Aqueles poucos cristãos eram membros de um reino maior que o de Roma. Eles tinham um Senhor maior do que César. Sim, eles deviam ser bons cidadãos dos dois reinos, mas Cristo receberia prioridade. Mesmo que isto significasse prisão ou morte, eles colocariam Jesus Cristo acima do imperador.

Nos dias de hoje, os cristãos verdadeiros constituem uma minoria. Constantemente eles são tentados a assumir compromisso com o secularismo. Quando insistem em falar sobre moralidade e ética cristã nos negócios ou na política, quase sempre são ridicularizados e marginalizados.

O expositor que fizer uso inteligente de dados culturais e históricos enriquecerá sua mensagem e cativará o ouvinte. Veja isto nas palavras do Professor Liefeld:

Muitos sermões são ricos em ilustrações atuais (como devem ser), mas tristemente magros quanto a vida, eventos, tensões, emoções, personalidades, problemas e outros itens que fazem parte da coloração do pano de fundo do Novo Testamento (Liefeld 1985, 33).

Contudo, como o pregador encontra e usa estes fatos históricos e culturais? Dois recursos nos vêm a mente. O primeiro recurso é de natureza interior, relacionado com o espírito. Trata-se de uma disposição disciplinada para ler. O espírito de preguiça milita contra a leitura. Mas o pastor-mestre irá cultivar conscientemente o bom hábito de leituras amplas. Isto pode não ser fácil para o ativista que está completamente concentrado em pessoas. Para ele, o fato de estar com pessoas e fazer coisas é naturalmente fácil. Deixar de lado a liderança e concentrar-se na leitura é algo difícil. Entretanto, estas duas experiências são importantes para uma pregação expositiva coerente, e o arauto de Deus sincero arrumará tempo para cada uma delas.

O segundo recurso é um suprimento mínimo de livros técnicos sobre a Bíblia. Infelizmente, é verdade que em muitos países os bons livros sobre história e cultura bíblicas são raros e muito caros. Mas o servo do Senhor zeloso fará sacrifícios para ter pelo menos o mínimo necessário. Um dicionário bíblico e uma enciclopédia da Bíblia são indispensáveis. Além disso, uma concordância bíblica, uma introdução ao Antigo Testamento, bem como uma introdução ao Novo, devem fazer parte do material de estudo do pastor. Comentários bíblicos freqüentemente incluem informações históricas e culturais que o pregador pode usar para expor a Palavra com clareza. “Compra a verdade, e não a vendas; compra a sabedoria, a instrução, e o entendimento” (Provérbios 23.23).

Temos aqui um procedimento simples a ser seguido. Em primeiro lugar, determine o livro da Bíblia através do qual será feita a série de exposições. Gaste tempo orando quanto a isto e consulte os membros espirituais da congregação. Pergunte a eles qual livro da Bíblia eles realmente gostariam de dominar. Lembre-se de que as mensagens serão a Palavra de Deus, não importa qual livro seja escolhido. Deus ama sua Palavra e está comprometido moralmente a falar através dela!

Segundo, faça uma leitura rápida do livro, a fim de obter em sua mente um quadro geral daquilo que ele contém. Repita este passo, se houver alguma dúvida quanto ao rumo do livro. Em muitas epístolas do Novo Testamento, isto exigirá apenas 30 minutos. Livros mais longos do Antigo Testamento terão de ser divididos em partes e lidos em períodos concentrados de tempo. Sei de pastores que separam um dia na semana para leitura exclusiva das Escrituras. Este tipo de “infiltração” é indispensável ao expositor sério. Muitos pastores-mestres sábios usam suas férias para tranqüilamente se “infiltrarem” nos livros da Bíblia que eles planejam pregar durante o ano. Um de meus professores disse certa vez que G. Campbell Morgan lia um livro da Bíblia 50 vezes, antes de pregá-lo.

Em terceiro lugar, reúna num bom caderno de anotações os elementos de informação dos Iivros técnicos. Recomendo o uso de cadernos grandes e capricho no trabalho, de modo que possa ser guardado para uso futuro. Um seminarista precavido mostrou-me certa vez as 66 pastas de arquivo que ele havia comprado com um sacrifício considerável. Mesmo antes de possuir um arquivo, ele decidiu ter uma pasta para cada livro da Bíblia. Ele planejava passar cuidadosamente por esta fase de preparo e guardar tudo para uso futuro. Seguem aqui alguns exemplos de informações a serem reunidas para cada série de exposições de um livro:

O autor do livro

1. Quem é o autor (significado de seu nome)?

2. há provas internas ou externas de autoria (veja 1 Coríntios 16.21)?

3. Quais os outros livros que ele escreveu?

4. Quais os outros livros que mencionam seu nome ou feitos?

5. Qual a sua profissão?

6. Que tipo de pessoa ele era (veja Jeremias 1.6)?

II. Os destinatários do livro

1. A que grupo racial o livro se dirige (judeus, gentios)?

2. Qual a perspectiva religiosa deles?

3. Que palavra(s) é (são) usada(s) para caracterizá-los?

4. Qual era a posição social deles (pobreza, nobreza)?

5. Quem eram seus Ideares?

6. De que eles viviam (agricultura etc.)?

III. A data e a época do livro

1. Em que ano o livro foi escrito?

2. Que guerra, ação inimiga ou catástrofe natural ameaçava ou aconteceu?

3. Que líder secular dominava o cenário político?

IV. O contexto geográfico do livro

1. Quais países e cidades se destacam no livro? Que locais específicos são enfatizados?

2. Que rio(s), montanha(s) ou planície(s) forma(m) o palco onde Deus atua para se revelar?

V. As confirmações arqueológicas do livro

Quais objetos ou inscrições arqueológicas confirmam os eventos e/ou personagens do livro?

VI. O cenário cultural do livro

1. Quais superstições, tabus ou elementos de magia aparecem?

2. Qual o valor conferido a família?

3. Quais costumes aparecem quanto a alimentação, vestuário, comércio, guerra, religião, idioma etc.?

4. Qual o código ético/moral demonstrado?

VII. O tema teológico do livro

1. Qual o assunto geral do livro (salvação, santificação, julgamento)?

2. Que frase ou combinação de palavras se repete; que tema isto sugere para o livro?

3. Segundo os livros técnicos, qual seu tema?

Naturalmente, nem todas estas perguntas terão respostas. Mas qualquer arauto de Deus que seja sério irá pesquisar nos livros e na Bíblia o maior número possível de respostas. Ele tentará compreender o cenário histórico e cultural, a fim de interpretar com maior exatidão a mensagem bíblica.

Walter C. Kaiser Jr. faz uma excelente análise do uso de informações culturais pelo pregador. Algumas referências a cultura são neutras e descritivas. Outros fatos culturais são veículos da revelação divina e a verdade prescrita neles não pode ser reduzida arbitrariamente a “um mero relato de uma situação hoje extinta”. O pregador precisa não se atrapalhar com a “natureza histórica ou culturalmente condicionada de algumas exigências éticas ou ensinos gerais da Bíblia…” (Kaiser 1981, 114-121). Em outras palavras, a história e a cultura submetem-se às Escrituras. Pelo fato de ser a Palavra de nosso Criador soberano, a Bíblia interpreta a história e a cultura, não vice-versa.

Através dos anos incentivei os seminaristas a fazerem esta pesquisa

com seriedade e aplicação. As razões eram simples. Um estudo cuidadoso dos antecedentes como este iria confirmar e fixar em suas mentes aquilo que já haviam estudado no instituto bíblico ou no seminário. Isto aumentaria seu conhecimento bíblico e os ajudaria a se tornarem grandes peritos em suas áreas, mesmo que nunca tivessem estudado numa instituição teológica. Este projeto de pesquisa criaria uma rica fonte de idéias ilustrativas e interpretativas para futuras exposições. Um bom início cedo no ministério da palavra levaria o arauto a um bom final!

Passaremos agora para o segundo dos dois estágios preparatórios, antes de efetivamente trabalhar na primeira mensagem expositiva da série. Na verdade, este passo é uma extensão deste que acabamos de completar.

A DEFINIÃO DOS PARÁGRAFOS DA PREGAÇÃO

 

Este segundo estudo preliminar é relativamente simples. Em conseqüência, ele pode ser encarado como supérfluo. Uma vez que este exercício envolve a leitura em devoção da Palavra de Deus, ele não deve ser classificado como algo que possa ser omitido. Geoffrey Thomas pergunta o porque de haver tão pouco poder no púlpito. Sua conclusão concentra-se na atitude básica do ministro diante da Bíblia. Thomas, então, faz a seguinte pergunta: “Nós lemos a Bíblia?” e acrescenta o seguinte comentário:

Isto é terrivelmente elementar, mas é por onde devemos começar. Nós lemos a Bíblia? Nós a lemos mais do que o jornal do dia? Nós a lemos a cada dia? Enxergamos como nosso dever examinar diariamente as Escrituras, separar tempo para isto e estudá-las atentamente? Será que nós as interrogamos, fazendo perguntas e decifrando seu significado? Fazemos disto uma das principais finalidades na vida? Lemos outras coisas que iluminam nossa compreensão da Bíblia? Nas conversas com cristãos falamos sobre o significado da Palavra de Deus? Somos movidos pelas Escrituras (Logan 1986, 373)?

Esta leitura do livro da Bíblia selecionado neste exercício não se destina ao preparo de sermões específicos. Ela se relaciona a descoberta de quantos “blocos de pensamento”, chamados parágrafos da pregação, aparecem em todo o texto. Todavia, esta leitura é feita com devoção. Através de seu poder inerente e de sua persuasão intelectual, a Palavra afetará o arauto consciente e inconscientemente, porque ela “penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas”, sendo “apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração” (Hebreus 4.12). Até este ponto, pesquisamos os antecedentes históricos e culturais. Agora estamos prontos para simplesmente dividir o livro da Bíblia em unidades de pregação que sejam convenientes, as quais prefiro chamar parágrafos da pregação. O procedimento é o seguinte:

(1) Leia os títulos dos parágrafos escolhidos pelos publicadores de sua Bíblia. Copie-os no lado esquerdo de uma folha de anotações, mostrando quais versículos são abrangidos. Por exemplo, eu abro minha Bíblia na versão de Almeida Revista e Atualizada, na Epístola aos Filipenses, e coloco o seguinte em minha folha de anotações:

Parágrafos e títulos extraídos da Bíblia:

1. Ações de graça e súplicas em favor dos filipenses (1.3-11)

2. A situação do apóstolo contribui para o progresso do evangelho (1.12-26)

3. A unidade cristã na luta (1.27-30)

4. Exortação ao amor fraternal e a humildade (2.1-4)

5. O exemplo de Cristo na humilhação (2.5-11)

6. O desenvolvimento da salvação (2.12-18)

7. Paulo e seus companheiros Timóteo e Epafrodito (2.19-30)

8. A exortação referente a alegria cristã (3.1)

9. O aviso contra os falsos mestres (3.2-11)

10. A soberana vocação (3.12-16)

11. Os inimigos da cruz de Cristo (3.17-4.1)

12. Apelo de Paulo para Evódia e Síntique. Regozijo e oração (4.2-7)

13. O em que pensar (4.8, 9)

14. A gratidão de Paulo para com os filipenses (4.10-20).

Sem contar as saudações iniciais e os versículos finais, há catorze parágrafos de pregação possíveis.

Nem todas as Bíblias tem as mesmas divisões. Isto se deve ao fato de os publicadores terem dividido o texto segundo a percepção que tinham das linhas de pensamento. Assim mesmo, estas divisões e títulos não devem ser desprezados. Ao mesmo tempo, eles não devem ser classificados como infalíveis ou inspirados. Portanto, o próximo passo ajudará o expositor a concordar, discordar e modificar os parâmetros e títulos dos versículos dos parágrafos. Passemos agora para o passo número dois.

(2) Tendo em mãos a folha de anotações, leia em atitude de devoção cada parágrafo, parando depois de cada um para escrever no lado direito da folha a idéia ou assunto principal do parágrafo. Deve ser algo mais ou menos assim:

Parágrafos e títulos extraídos da Bíblia  Alterações nos parágrafos 
1. Ações de graça e súplicas em favor dos filipenses (1.3-11) Amor e intercessão
2. A situação do apóstolo contribui para o progresso do evangelho (1.12-26) A incomparável soberania de Deus
3. A unidade cristã na luta (1.27-30) Inalterado
4. Exortação ao amor fraternal e à humildade – (2.1-4) Inalterado
5. O exemplo de Cristo na humilhação (2.5-11) Serviço voluntário à semelhança de Cristo
6. O desenvolvimento da salvação (2.12- 18) Refletindo a glória de Deus
7. Paulo e seus companheiros Timóteo e Epafrodito (2.19-30) Servos semelhantes a Cristo
8. A exortação referente à alegria cristã (3.1) Inalterado
9. O aviso contra os falsos mestres (3.2-11) Idolatria evangélica
10. A soberana vocação (3.12-16) Crescimento espiritual contínuo
11. Os inimigos da cruz de Cristo (3.17- 4.1) Inalterado
12. Apelo de Paulo para Evódia e Síntique – Regozijo e oração (4.2-7) O senhorio de Cristo na vida diária
13. O em que pensar (4.8, 9) Inalterado
14. A gratidão de Paulo para com os filipenses – (4.10-20) O segredo do contentamento

 

Assim, o pregador lê, compara e, algumas vezes, modifica os títulos apresentados em muitas Bíblias. É desnecessário dizer que este exercício não deve ser feito na mesma semana em que será pregado o primeiro sermão (principalmente se for escolhido um dos livros grandes do Antigo Testamento para a série de exposições).

Quais as vantagens deste segundo exercício de preparo anterior ao sermão? Em primeiro lugar, ele ajuda o pastor-mestre a se tornar profundamente íntimo do livro da Bíblia que ele planeja expor. Esta intimidade o ajuda a pregar o livro de modo coerente e unificado. Lembro-me da série de exposições feita por Warren Wiersbe. Em suas exposições da carta aos filipenses ele descobriu que a palavra mente aparece 10 vezes e pensar ocorre 5 vezes. Acrescente-se a isto 1 referência a lembrar-se e 16 referências em 4 capítulos que focalizam a mente do cristão (Wiersbe 1985, 15). Com esta visão geral, Wiersbe está apto para fazer uma série coerente, cujo esboço, segundo penso, irá ilustrar claramente este assunto:

FILIPENSES – A mente cristã alegre

I. A MENTE COERENTE – Capítulo 1

Alegria, apesar das circunstâncias Versículo chave: 1.21

1. A comunhão do evangelho – 1.1-11

2. O avanço do evangelho – 1.12-26

3. A fé do evangelho – 1.27-30

II. A MENTE SUBMISSA – Capítulo 2

Alegria, apesar das pessoas Versículo chave: 2.3

1. O exemplo de Cristo – 2.1-11

2. O exemplo de Paulo – 2.12-18

3. O exemplo de Timóteo – 2.19-24

4. O exemplo de Epafrodito – 2.25-30

III. A MENTE ESPIRITUAL – Capítulo 3

Alegria, apesar das coisas Versículos chaves: 3.19, 20

1. O passado de Paulo – 3.1-11

2. O presente de Paulo – 3.12-16

3. O futuro de Paulo – 3.17-21

IV. A MENTE SEGURA – Capítulo 4

Alegria que vence a preocupação

Versículos chaves: 4.6, 7

l. A paz de Deus – 4.1-9

2. O poder de Deus – 4.10-13

3. A provisão de Deus – 4.14-23 (Wiersbe 1985, 25)

A segunda vantagem óbvia que advém da leitura e do esboço dos parágrafos da pregação é que ela oferece ao arauto a chance de conviver com a série de parágrafos antes de pregá-los. Isto abre o caminho para que Deus molde e transforme o caráter do arauto e, assim, o torne coerente com aquilo que ele prega.

Nos capítulos 7 e 8 estivemos pensando sobre os dois exercícios preliminares de pesquisa que devem ser feitos antes do preparo de um sermão específico. Demonstramos que os antecedentes históricos e culturais de um livro bíblico específico são importantes para a interpretação, informação e uma comunicação incisiva. Esta pesquisa exige disciplina. A filosofia interna do pregador quanto ao tempo e ao ministério da palavra irá influenciar bastante no zelo com o qual ele abordará esta tarefa. Um domínio panorâmico do livro bíblico em questão é indispensável para as exposições coerentes. O processo de esboçar os parágrafos da pregação através de leituras feitas com devoção ajuda a impregnar de autoridade espiritual o pregador e os sermões.

Lembre-se: é fácil manter-se fiel à sã doutrina das Escrituras de um modo formal ou teológico. Todavia, deve-se viver aquela doutrina com uma paixão coerente pela Bíblia. Este amor pela Bíblia resultará numa pregação expositiva inteligente.

OS QUATRO PASSOS DA PESQUISA

 

Chegamos agora ao primeiro passo no preparo de cada mensagem da série de exposições dos livros da Bíblia. Meus alunos na Faculdade Teológica Batista de São Paulo comentavam com freqüência que o Espírito de Deus usava este exercício para despertar o desejo de pregar o texto. Isto era gratificante. Por que? Porque a primeira pesquisa não é técnica ou estritamente homilética. Eu a classificaria como um ato de devoção. O fato de colocar em primeiro lugar uma abordagem de devoção tende a interiorizar o material do sermão; o pregador expõe com seu coração. O sermão cerebral pode ser bíblico, mas assim mesmo não ter poder, devido a esta separação imprudente entre a cabeça e o coração.

A principal fonte para o conteúdo e a forma de nossa mensagem será o parágrafo autônomo. Deste modo, o arauto de Deus precisa ter intimidade com aquela porção autônoma da Bíblia, chamada por mim de parágrafo da pregação. Constance J. Gefvert ajuda-nos a compreender que um parágrafo é “um ensaio em miniatura auto-abrangente ou parte de uma obra maior…” (itálicos do autor), com uma idéia única e apoiado por um, dois ou três tipos de ordem em sua argumentação e lógica (Gefvert 1985, 125, 126). À medida que lemos cada vez mais o parágrafo bíblico, começamos a vê-lo como um ensaio em miniatura com um idéia ou ponto principal. Enquanto observamos a ordem e o número de argumentos para aquela idéia, vemos como eles são desenvolvidos no parágrafo da pregação.

PASSO DE PESQUISA N.º 1: FAMILIARIZAÇÃO

Chegamos assim a primeira pesquisa, chamada por mim de passo de familiarização. As etapas marcadas pelas letras A, B, C e D são as seguintes:

(A) Leia todo o primeiro parágrafo da série. Leia-o do começo ao fim e certifique-se de que normalmente existe uma idéia ou tema dominante em cada parágrafo.

Uma forma de destacar o tema é observar a repetição de palavras, frases ou idéias. Muitos salmos começam com um tema no primeiro versículo, repetem a idéia no meio e terminam com a mesma nota. No Salmo 20, Davi invoca a Deus para que este responda àqueles que se encontram angustiados. Ele repete a idéia no final do versículo 5, dizendo: “… que Deus atenda todos os seus pedidos!” (Bíblia na Linguagem de Hoje). No último versículo, ele pede a Deus que responda quando chamarmos. O tema tem algo a ver com o Deus que responde e o exercício da fé (quanto a este padrão, veja outros salmos, como 29, 32, 36, 54, 59, 71, 80, para mencionar apenas alguns).

Por exemplo, com Filipenses 1.3-11, eu escrevo em minha folha de pesquisa o título e as frases seguintes:

PASSO DE PESQUISA No. 1: FAMILIARIZAÇÃO – (A)  TEMA

Texto: Filipenses 1.3-11

Versículo 3 – “… por tudo que recordo de vós”.

Versículo 4 – “… fazendo sempre, com alegria, súplicas por todos vós, em todas as minhas orações”.

Versículo 7 – “… vos trago no coração”.

Versículo 8 – a “saudade que tenho de todos vós”.

Versículo 9 – “… faço esta oração”.

Vemos claramente que três frases falam sobre afeição e três sobre oração. Daí, então, o tema: “Oração intercessória e afeição” ou “O amor que motiva a intercessão”. O expositor poderá querer confirmar estas conclusões, repetindo este exercício com uma versão moderna ou estrangeira do parágrafo bíblico. Os arautos do Senhor que têm capacidade para ler em outro idioma encontram com freqüência novidades e outras confirmações daquilo que já haviam concluído.

Neste mesmo passo da pesquisa, deve ser feita a segunda parte do exercício de familiarização. Meus alunos diziam que era esta parte que muitas vezes os inspirava a querer pregar sobre aquele texto.

(B) Escreva em outra folha uma paráfrase pessoal do parágrafo da pregação. Algumas vezes levo a forma final desta paráfrase para o púlpito e a leio como parte de minha introdução. É surpreendente como este exercício tem me ajudado a me envolver emocional e espiritualmente com o parágrafo bíblico. Uma das formas de escrever uma paráfrase é preparar a folha de pesquisa da seguinte maneira:

FAMILIARIZAÇÃO – (B) PARÁFRASE

Texto: Filipenses 1.3-11

Versículo   Substantivos   Sinônimos   Verbos   Sinônimos

Depois de pronta a folha de pesquisa, leia o parágrafo da pregação do começo ao fim, versículo por versículo, e extraia de cada um os substantivos, verbos e locuções verbais mais importantes. Complete um versículo antes de passar para o próximo. Consulte cada substantivo e cada verbo num dicionário e copie um sinônimo para cada um na coluna correspondente. Alguns pregadores têm a felicidade de possuir um dicionário de sinônimos, o que facilita bastante a realização deste exercício. Aqui se recomenda uma advertência. A escolha dos sinônimos que fazemos pode nem sempre refletir o sentido exato do texto original. Nosso consolo é que quando chegarmos ao exercício de exegese, teremos condições de corrigir nossa paráfrase e torná-la mais exata. Neste ponto, a folha de pesquisa deverá ser mais ou menos assim:

FAMILIARIZAÇÃO – PARÁFRASE

Texto: Filipenses 1.3-11

V. Substantivos Sinônimos Verbos Sinônimos
3  Deus Ser Supremo Dar graçasRecordar

 

AgradecerLembrar

 

4  Orações Pedidos Fazer súplicas  Solicitar 
5  CooperaçãoEvangelho AssociaçãoBoas novas    
6  Boa obraDia de Cristo Bom trabalhoDia do julgamento Estou certoCompletar

 

ConvictoContinuar

 

7 JustoAlgemas

Graça

CorretoPrisão

Privilégio

PensarTrazer

Defender

Confirmar

Participar

 

ReagirTer

Proteger

Endossar

Compartilhar

 

8  Saudade Terno amor Testemunhar  Depor 
9  OraçãoAmor

Conhecimento

Percepção

SúplicaDevoção

Iluminação

Discernimento

 Aumente

 

 Transborde

 

10 ExcelentesDia de Cristo MelhoresDia do julgamento AprovarSer puro

Ser inculpável

 

DescobrirAutêntico

Imaculado

 

11 FrutoJustiça

Jesus Cristo

Glória

louvor

ResultadoIntegridade

Salvador

Radiância

elogio

Ser cheioSer mediante ReaprovisionarFluir de

 

Com base neste exercício, escreva uma paráfrase somente com sinônimos dos substantivos e dos verbos. Tenha o cuidado de manter a mesma gramática do parágrafo da pregação. Use sinônimos para esclarecer o texto, estimular a imaginação e inspirar o espírito. Aqui está o resultado de minha paráfrase de Filipenses 1.3-11:

3. Agradeço ao Ser Supremo, especialmente quando me lembro de vocês. 4. Em todos os meus pedidos, sempre solicito (a Deus) por vocês com prazer, 5. Devido a associado de vocês comigo nas boas novas, desde o primeiro dia até agora, 6. Estando convicto de que Deus, que começou um bom trabalho em vocês, irá continuá-lo até o dia do julgamento. 7. É correto que eu reaja emocionalmente desta forma, pois eu os tenho no coração, amados; então, esteja eu na prisão ou ocupado protegendo e endossando as boas novas, vocês ainda compartilham do perdão de Deus comigo. 8. O Senhor depõe a meu favor como desejo, com o terno amor de Jesus, tê-los perto de mim. 9. E esta é minha súplica: que a devoção de vocês (por Cristo) possa transbordar em profusão com iluminação e profundo discernimento, 10. De modo que vocês possam descobrir aquilo que é excelente e ser autênticos e imaculados até o dia do julgamento de Cristo, 11. Sendo reaprovisionados com o resultado da integridade piedosa que flui em nós, através de Jesus Cristo para a honra radiante e o elogio de Deus.

No primeiro passo da pesquisa, procuramos um tema dominante no parágrafo da pregação. Usamos dicionários e fizemos uma paráfrase caseira, a qual poderá ser aperfeiçoada, se necessário, durante o segundo passo da pesquisa de exegese.

(C) Neste ponto, devemos fazer o terceiro exercício no processo de familiarização. Suponhamos que o arauto de Deus tenha apenas começando uma série de exposições baseadas em Filipenses. Ele quer pregar sua primeira mensagem, mas não sabe ao certo quais devem ser os limites dos versículos de sua primeira mensagem. Deve ele incluir os próximos versículos e aumentar o parágrafo? O que determina exatamente um parágrafo de pregação autônomo?

Temos aqui um procedimento simples que deve ser assumido imediatamente. (O expositor que tenha lido o livro da Bíblia cinco ou seis vezes irá achar isto muito útil e confirmatório.) Este terceiro exercício deve ser feito na mesma folha de pesquisa da familiarização. Este é o procedimento para a verificação dos limites dos versículos do parágrafo da pregação:

(1) Escreva o tema do parágrafo. Ele deve ser claro como cristal.

(2) Copie os substantivos e locuções verbais que mais se repetem no parágrafo.

(3) Leia o parágrafo seguinte e verifique se o tema e/ou os principais substantivos e verbos são freqüentemente repetidos. Caso sejam, inclua este novo material e revise a paráfrase e os limites dos versículos do parágrafo.

Neste ponto, a folha de pesquisa deve ser mais ou menos assim:

Familiarização – (C) LIMITES

Texto: Filipenses 1.3-11

1. TEMA: Amor, a motivação de uma oração intercessória.

2. REPETIÇÕES: “minhas orações”; “fazendo, com alegria, súplicas”; “faço esta oração”; “recordo de vós”; “vos trago no coração”; “saudade que tenho de todos vós”.

3. PARÁGRAFO SEGUINTE: Faltam semelhanças no parágrafo seguinte. Assim, Filipenses 1.3-11 é autônomo e pode ser tratado como um parágrafo a ser cuidadosamente exposto.

Talvez um exemplo de outro livro do Novo Testamento ajude a esclarecer o valor deste procedimento. A história de Ananias e Safira, em Atos 5, parecia-me não ter antecedentes. Por que aquele tipo de pausa ali? Além disso, por que o parágrafo anterior, Atos 4.32-37, é uma unidade de pregação tão vaga, sem um tema claro? Ao estudar os dois parágrafos, raiou sobre mim a compreensão de que eles estavam relacionados. A unidade e a generosidade na primeira igreja eram motivadas por amor altruísta a Deus e seu reino, em Atos 4.32-37. José, o levita, também conhecido como Barnabé, exemplificou este espírito com sua oferta, mas aquele altruísmo foi prostituído por um amor desregrado por dinheiro e fama. Ananias e Safira macularam a comunidade cristã, à semelhança de Acã, em Josué 7.1-26. Ao estudá-lo, o parágrafo acabou se tornando Atos 4.32-5.11.

(D) A última parte do processo de familiarização é a confecção de um esboço analítico do parágrafo da pregação. O parágrafo tem uma lógica inerente e um fluxo de idéias em si. O expositor deve captar este fluxo, a fim de evitar divagações tangenciais ao pregar.

Um fato misterioso, mas sempre reincidente, é que muitos pregadores têm dificuldade em preparar sermões, por não pensarem em linha reta. Isto quer dizer que eles não desenvolvem um sermão como se fosse um todo unificado e lógico (Achtemeier 1980, 87).

O esboço analítico serve para dar ao arauto de Deus sensibilidade a estrutura literária do parágrafo. Este senso de estrutura dará unidade ao sermão depois de pronto. Ajudará a cativar e manter a atenção dos ouvintes, pelo fato de a mente humana ser atraída naturalmente pela ordem lógica.

Quais são os elementos essenciais de um esboço analítico? Primeiro, ele é um esboço seqüencial do parágrafo. Ele nunca ultrapassa os limites dos versículos do parágrafo e sempre acompanha a disposição exata dos versículos. Em segundo lugar, ele é um traçado visual das principais idéias do parágrafo. Em terceiro lugar, é um esboço do conteúdo real do parágrafo, sem interpretações conscientes ou adornos da homilética. Portanto, este esboço não deve ser confundido com o esboço homilético final do sermão.

Observe no próximo exemplo de esboço analítico o mecanismo do esboço. As divisões principais são representadas por algarismos romanos e as subdivisões com algarismos arábicos. Cada divisão principal tem um endereço, isto é, um versículo ou versículos que delineiam aquela idéia. As subdivisões também são indicadas com versículos ou partes deles. Observe também que não são utilizados os recursos homiléticos de introdução e conclusão. Aqui está um exemplo de esboço analítico que fiz para o extenso parágrafo de Atos 2.14-41:

FAMILIARIZAÇÃO – (D) ESBOÇO ANALÍTICO

Texto: Atos 2.14-41

I. O APÓSTOLO EXPLICA O MILAGRE DA PROFECIA QUE SE CUMPRIU (2.14-22)

1. Pedro, falando pelos onze, dirige-se formalmente a multidão (v.

14).

2. Pedro promete uma explicação do milagre (v. 15).

3. Pedro cita a profecia de Joel (vv. 16-21).

4. O milagre destina-se a levar as pessoas a salvação (v. 21).

II. A APRESENTAÇÃO DE JESUS COMO O MILAGRE DE DEUS (2.22-28)

1. Jesus realizou milagres (v. 22).

2. Deus estava agindo em Jesus na realização dos milagres (v. 22).

3. Deus planejou com antecedência a vida de Jesus sobre a terra (v.

23).

4. Deus ressuscitou a Jesus dentre os mortos (v. 24).

5. Davi profetizou estas coisas (vv. 25-28).

III. JESUS É O MESSIAS PROFETIZADO (2.29-35)

1. A morte de Davi é um fato histórico (v. 29).

2. Davi profetizou que seu descendente seria o Messias (v. 30).

3. Davi profetizou a ressurreição do Messias (v. 31)

4. A aplicação de Lucas: Deus ressuscitou a este Jesus (v. 32).

5. Este Jesus foi exaltado à destra de Deus (v. 33).

6. Este Jesus recebeu a promessa do Espírito Santo (v. 33).

7. Davi não era o Messias, mas profetizou acerca de Jesus, o Messias (vv. 34, 35).

IV. EXORTA-SE A QUE SE ACEITE JESUS COMO SENHOR/MESSIAS (2.36-41)

1. A clara conclusão de que Jesus é Senhor (v. 36).

2. A evidência do Espírito que convence as pessoas (v. 37).

3. Pedro esboça os passos para a salvação (vv. 38, 39).

4. As muitas pessoas que ouviram e responderam (vv. 40, 41).

Aí está ele! O primeiro passo da pesquisa é um processo de familiarização com as palavras, o tema e a estrutura literária do parágrafo. Isto propicia um envolvimento espiritual através do exercício da paráfrase e ajuda a determinar os melhores limites para o parágrafo bíblico. O leitor deve tentar fazer este exercício de quatro etapas, empregando um parágrafo selecionado e, assim, experimentar o desejo vivificante de expor a Palavra eterna de Deus.

Allan Stibbs cita F.B. Meyer para arrematar a idéia de familiarização como parte necessária no preparo de um sermão:

“O ponto mais alto na entrega de um sermão acontece quando o pregador está “possuído” e… tal “possessão” ocorre com maior freqüência e facilidade ao homem que vive, dorme, come e anda em comunhão com uma passagem na melhor parte da semana” (Stibbs 1963, 37).

PASSO DE PESQUISA 2: A EXEGESE

O segundo passo da pesquisa é chamado exegese. Devo lembrar novamente ao leitor que o foco deste projeto está sobre os pregadores que nunca tiveram oportunidade de estudar as línguas originais da Bíblia. Além disso, muitos pregadores têm carência de comentários, dicionários e outros recursos teológicos no vernáculo. Portanto, temos de utilizar com criatividade o fato de Deus, em sua soberania, ter permitido que sua Palavra fosse traduzida para muitos idiomas. Isto por si só já me incentiva a acreditar que um estudo das Escrituras no vernáculo, orientado por uma boa análise literária e uma lógica instruída pelo Espírito, produzirá exposições ortodoxas. O próprio Deus deve ter acreditado que a maior parte da humanidade poderia aprender a verdade da salvação eterna e da piedade sem o conhecimento de grego e hebraico. Prova disto é a existência de milhões de crentes que são o sal da terra!

Segundo já mencionei, existe uma idéia elitista de que somente as pessoas instruídas na exegese de grego e hebraico têm condições de expor a Bíblia. A premissa baseia-se na idéia de que a interpretação é uma ciência exata. Portanto, o conhecimento das línguas originais da Bíblia garante interpretações desprovidas de idéias pré-concebidas ou psiques feridas. A chamada nova hermenêutica tem nos mostrado que nós todos, incluindo as pessoas versadas em grego e hebraico, nos aproximamos do texto com “uma certa quantidade de bagagem cultural, lingüistica e ética” (Carson 1988, 128). É por isso que o próprio ato da exegese, seja no vernáculo, como em nosso caso, ou nas línguas originais, é um exercício tanto espiritual quanto intelectual. Devemos orar pedindo mentes livres de restrições culturais e psicológicas, isto é, mentes abertas à verdade que brilha além das interpretações tradicionais. A Bíblia fala de consciências puras ou limpas, em Hebreus 9.14. Em 1 Timóteo 3.9, somos admoestados a conservar “o mistério da fé com a consciência limpa”.

A exegese é uma parte muito espiritual no preparo das exposições bíblicas. Com o pequeno ou grande preparo teológico que possamos ter, todos expomos a Bíblia como arautos. A disposição mental do verdadeiro arauto é de fidelidade. A fidelidade nasce da sinceridade, do amor e do auto-exame. Uma vida de devoção saudável ajuda a gerar “sobriedade exegética” em nosso coração. Não é necessário dizer que a exegese deve ser feita em espírito de oração.

Carson escreve sobre a “espiral hermenêutica”, em oposição ao antigo círculo hermenêutico. Ele vê o intérprete se aproximar progressivamente do sentido do texto. Parece que este movimento espiral acerca do sentido depende de nossa autoconsciência. Se conhecemos a nós, nossa cultura religiosa e idéias pré-concebidas, e “vemos” tudo isto como janelas através das quais realmente observamos, interpretamos e aplicamos o texto bíblico, “então se torna possível abordar o texto com uma sensibilidade maior…” (Carson 1984, 129).

Um de meus alunos, hoje missionário em Angola, contou-me a história de um pregador ali que, inconscientemente, revelou problemas emocionais, por ler errado e interpretar mal a frase em 1 Coríntios 7.9. Ao ler o versículo, ele passou a tratar com severidade a “prática moderna” de rapazes e moças que andavam de mãos dadas ou abraçados. “A Bíblia condena todo tipo de abraço”, ele exclamava. Sua mente perturbada, que se colocava contra todo tipo de contato social entre jovens, possibilitou que ele “visse” no versículo um favorecimento desta convicção. Um preconceito cultural, emocional e espiritual fez com que ele visse um “c cedilha” no verbo “abrasado”, em lugar do “s”. Ele concluiu que todo abraço entre amigos era pecaminoso, apesar de o versículo declarar simplesmente que “é melhor casar do que viver abrasado” (e não “abraçado”).

Em certos círculos evangélicos, a exegese é considerada algo que os teólogos liberais praticam, a fim de colocar a Bíblia em descrédito ou minar a fé. Outros grupos dizem que não é preciso estudar, pois “o Senhor lhe dará uma mensagem quando você se levantar para pregar”. Do lado esquerdo pecam os elitistas com um intelectualismo exclusivo e do lado direito os evangélicos simplistas com um misticismo mal orientado.

Como fiéis arautos de Deus, queremos, na medida do possível, “chegar à história real – aprender aquilo que ela verdadeiramente diz com seus próprios termos e não aquilo que pensamos ou desejamos que ela diga” (Achtemeier 1980, 47). Passamos agora para a tarefa de exegese no vernáculo, estendendo nosso conhecimento e compreensão da Palavra de Deus, mesmo com as limitações deste tipo de análise.

Uma boa exegese no vernáculo depende do domínio técnico e intuitivo que o arauto possui sobre seu próprio idioma. Mesmo quando não se conhece a terminologia gramatical das partes de uma oração, Gefvert parece indicar que as “formas das palavras, a posição delas e a função na relação de uma com a outra…” nos dão uma percepção de quem é o sujeito e daquilo que se diz sobre ele (Gefvert 1985, 153, 154).

O parágrafo da pregação terá uma série de palavras de ação chamadas verbos. Estes verbos expressarão uma ação, uma ocorrência, ou indicarão uma condição. Os verbos declaram alguma coisa sobre o substantivo (sujeito) ou fazem uma ponte entre o sujeito e outra palavra que completa o pensamento sobre ele. No parágrafo bíblico que estiver sendo estudado, o arauto encontrará estas palavras de ação em maior ou menor número. Uma vez compreendidos, os verbos dão ao pregador o sentimento das exigências, obrigações ou benefícios que Deus faz ou oferece a humanidade naquele parágrafo bíblico em particular.

Em suas funções mais simples, os verbos expressarão ações, ocorrências e condições nos seguintes tempos: a) presente, b) pretérito, c) futuro, d) presente perfeito (ação iniciada no passado com efeitos ainda no presente), e) pretérito perfeito (algo que começou e terminou no passado) e f) futuro perfeito (ação que começará e terminará no futuro).

A exegese no vernáculo pode parecer para alguns um atalho ilegítimo e para outros um grande alívio para a difícil tarefa do estudo concentrado de lingüística. Todavia, a exegese no vernáculo exigirá tanta energia quanto a outra. Por certo, ela requer uma análise sadia das palavras e frases no parágrafo da pregação. O arauto de Deus deve estar pronto a cavar o texto no vernáculo, até que o ouro do significado seja descoberto. Há duas maneiras de se preparar uma folha de pesquisa para este exercício de exegese. A primeira abaixo destina-se aos servos de Deus que tiveram instrução escolar a nível secundário, mas sem contato com as línguas bíblicas. Nossa segunda abordagem da exegese é no vernáculo. Destina-se àqueles que não tiveram treinamento formal em gramática e nenhum contato com as línguas originais das Escrituras. Para o primeiro caso, prepare uma folha de pesquisa semelhante ao seguinte exemplo:

V. Verbo Tempo Modo Voz Versículos do AT e do NT que ilustram / explicam os verbos Substantivos, pessoas, lugares e coisas relacionadas com os verbos

 

Tendo a folha de pesquisa preparada, faça o seguinte exercício, que é parte de uma exegese no vernáculo:

1. Separe no parágrafo as principais palavras de ação ou frases em cada versículo, copiando-as na coluna de verbos da folha de pesquisa.

2. Nas colunas para tempo, modo e voz, escreva os tempos e modos dos verbos (indicativo, subjuntivo, imperativo) e a voz (ativa ou passiva) para cada verbo considerado.

3. Fazendo uso de uma concordância, consulte as principais passagens do Antigo e do Novo Testamento que empregam aquele verbo, a título de ilustração ou explicação, e resuma o que eles dizem sob aquela coluna.

4. Copie debaixo da última coluna os nomes das pessoas, lugares e coisas aos quais o verbo se refere em cada sentença.

Certifique-se de que deixou lugar na folha de pesquisa para escrever conclusões baseadas nas seguintes perguntas:

1. Quais tempos e formas dos verbos são repetidos? O que isto diz sobre a “energia” do parágrafo, se a maior parte dos verbos está no tempo presente e no modo imperativo (etc.)? Os verbos aparecem mais na voz ativa ou passiva? O que isto tem a ver com a “energia” do tema do parágrafo?

2. Uma vez que as Escrituras confirmam as Escrituras, como as passagens do AT e do NT esclarecem o sentido destes verbos de uma forma prática? As ações se limitam a Deus ou dependem dele? As ações estão igualmente abertas a pecadores ou santos (etc.)?

3. Quantos substantivos (pessoas, lugares ou coisas) estão praticando as ações? Quantos recebem a ação? Quantos substantivos são repetidos literalmente ou através de sinônimos? Quem ou qual é o principal agente e qual a principal ação no parágrafo?

4. Escreva um parágrafo resumindo o que o escritor do parágrafo da pregação transmitiu por inspiração.

Para o segundo modo de fazer exegese no vernáculo, prepare uma folha de pesquisa como a seguinte:

Principais palavras  de  ação (verbos) Tempo em que acontece  a ação Direção  da ação Pessoas, lugares  e coisas  que praticam  a ação

 

Com a folha de pesquisa pronta, faça o seguinte exercício, a fim de entender com maior exatidão o texto:

1. Copie debaixo da primeira coluna as principais palavras do parágrafo que mostrem ação, ocorrência ou condição (verbos principais).

2. Copie o tempo em que as ações acontecem (presente, pretérito, futuro, presente perfeito, pretérito perfeito, futuro perfeito, etc.) debaixo da coluna respectiva.

3. Observe a ação de cada verbo para ver se a sujeito recebe a ação (passivo) ou se ele pratica a ação (ativo), escrevendo “P” ou “A” debaixo da terceira coluna.

4. Copie os nomes dos sujeitos que praticam ou recebem a ação, escrevendo debaixo da coluna de pessoas, lugares ou coisas.

Reserve espaço na folha de pesquisa para escrever algumas conclusões para cada coluna baseadas em respostas a estas perguntas:

1. Quantos verbos principais na primeira coluna são idênticos e/ou sinônimos? Qual a ligação lógica entre os verbos principais, se é que existe alguma?

2. Existe na segunda coluna um tempo verbal dominante no parágrafo? Existe alguma seqüência lógica nos tempos verbais, à medida que avançam no parágrafo? A ação dominante é algo contínuo, completo ou pertence ao futuro?

3. Na terceira coluna, qual a direção dominante da ação principal?

As pessoas ou coisas praticam ou recebem a ação? As ações são condicionais, ordenadas ou são exemplos a serem seguidos?

4. Na coluna número quatro, quem ou quais coisas dominam o parágrafo? Há alguma “categoria” de agente(s)? Há uma seqüência de agentes? As pessoas, lugares ou coisas são figurados, fictícios ou reais? Como as pessoas se identificam com seus ouvintes?

5. Utilizando um comentário, dicionário ou outro livro teológico de referência, copie na folha de pesquisa definições esclarecedoras de cada palavra obscura ou difícil.

6. Baseado nestas definições, reescreva a primeira paráfrase feita durante o exercício de familiarização e, se necessário, torne mais exata sua gramática.

Num sentido real, a exegese é uma forma inteligente e piedosa de se ouvir a Palavra do Senhor, a fim de que o arauto seja fiel e inspirado pelo Espírito.

O passo de familiarização destina-se a nos dar uma perspectiva do parágrafo inteiro, assim como nos afastamos de um quadro para vê-lo como um todo. Um dos objetivos do passo da exegese é nos fornecer detalhes das unidades básicas do parágrafo, isto é, o significado e o sentido das palavras.

O próximo passo, o estudo indutivo, destina-se a ajudar o arauto a ver o inter-relacionamento e a lógica dos argumentos contidos no parágrafo da pregação. Esta pesquisa dá ao expositor muita coisa para o conteúdo básico do sermão. De fato, o arauto perceberá que esta pesquisa sempre produz mais material do que aquele que pode ser compartilhado no sermão!

PASSO DE PESQUISA 3: O ESTUDO INDUTIVO

Num dicionário é possível ler algo mais ou menos assim, como descrição do método de estudo indutivo: uma pessoa estuda toda uma série de fatos ou casos, a fim de chegar a uma conclusão mais ampla ou geral. O parágrafo da pregação é um compêndio de fatos. Com grande probabilidade, eles estarão inter-relacionados e apontarão, implícita ou explicitamente, para um princípio geral. Assim, o estudo indutivo, sendo bem feito, deve conduzir o expositor a descoberta de duas coisas. A primeira é o princípio geral (máxima) ou ensino que cerca todo o parágrafo. A segunda é uma série de argumentos que defenderão, provarão ou elucidarão aquele princípio geral.

Então, para o expositor, o que é um estudo indutivo das Escrituras? Quais são seus elementos básicos? Os elementos são três e cada um exige a interação espiritual e intelectual do expositor sincero. O pregador precisa observar com exatidão o conteúdo do parágrafo, interpretá-lo de modo apropriado e aplicar de uma forma prática os fatos à vida. Este processo tripartite de estudo irá fornecer a maior parte do “recheio” ou argumentação da exposição.

A Observação. A habilidade da observação é algo que se desenvolve

com o passar do tempo. A prática torna perfeita esta arte. Parece que muitos leitores da Bíblia tem um senso de observação muito pobre. Talvez a razão disso seja que na vida cheia de ocupações não prestemos atenção a detalhes. Temos a tendência de pressupor muitas partes pequenas da vida. Por exemplo, algo que me fascina é a multivariedade de insetos no Brasil. Certa ocasião, decidi observar as atividades das formigas aladas. As fêmeas, cheias de ovos, finalmente se cansam de voar e vêm zumbindo para o chão numa aterrissagem desajeitada. Depois de alguns minutos de uma aparente caminhada desorientada, a formiga para. Então, com uma agilidade surpreendente, ela ergue a perna e quebra as duas asas de um lado. Fazendo o mesmo do outro lado, ela agora está livre para aquilo que o “destino” requer. Com a engenhosidade de uma abelha, ela cava um buraco de mais ou menos 2,5 cm. de profundidade. Acontece então a manobra principal. A formiga abaixa-se no buraco e põe seus ovos, algo que ela nunca poderia fazer com aquelas quatro longas asas salientes. Num dado momento elas haviam sido boas para vôos de acasalamento. Todavia, para as atividades de reprodução e criação as asas não eram convenientes. Quando perguntei a meus alunos se eles já haviam observado este processo, 95% da classe disseram “não”.

Como arte, a observação pode ser desenvolvida para toda a vida, especialmente para o estudo e compreensão das Escrituras. Sterrett, num artigo escrito para a extinta revista His, afirma que a estrutura da sentença e a gramática são os instrumentos que Deus utiliza para transmitir o significado de sua revelação. Enquanto observamos cuidadosamente o parágrafo da pregação, o Espírito de Deus irá nos apontar as nuanças de detalhes que transformarão a exegese em expressões práticas do sermão.

A Interpretação. O expositor interpreta agora a intenção básica da verdade (usando a frase de Kaiser) das palavras e frases do parágrafo. O que o autor do parágrafo diz sobre vida, Deus, humanidade, estruturas sociais, pecaminosidade, piedade, deveres, etc.? Como estas declarações se unem num tema básico? O que as figuras de linguagem (caso existam) dizem sobre o significado do tema?

Um dos segredos da boa interpretação é o ato de fazer perguntas precisas que forcem o texto a se interpretar. Uma série de perguntas

chaves irá, com freqüência, revelar o sentido básico do texto. Quem é (são) a(s) pessoa(s) no texto? Por que certa palavra é usada apenas uma vez (ou repetida)? Quais ameaças ou promessas estão no texto? Quais são as implicações ou resultados das afirmações, súplicas ou ordens dadas no texto? Como o alinhamento dos fatos no texto causa impacto sobre o tema? Quando acontece o evento, ação ou afirmação?

Algumas vezes, o texto parecera continuar imóvel. Então, outra série de perguntas poderá ajudar. Quais palavras ou frases são difíceis de entender? O que torna obscura esta passagem? Há alguma coisa faltando que, caso fosse providenciada, esclareceria o texto? Que idéia(s) nos parágrafos anteriores e posteriores fazem um elo com o significado destas palavras ou frases obscuras ou difíceis?

Em todo o processo de interrogar o parágrafo, deve-se dar ao texto bíblico a oportunidade de fazer perguntas ao interrogante. É a esta altura que começa a aplicação.

A Aplicação. Neste processo toma-se um fato observado, decide-se qual era seu sentido original e, então, determina-se seu significado para o pregador e ouvinte de hoje. A pergunta chave é: o que isto significa para mim (nos)? Como eu (nós) pratico, adoto, demonstro e apresento o(s) princípio(s) da verdade contida neste parágrafo? Num sentido real, este passo de aplicação prática é muito pessoal. Ele começa com o expositor, é personificado em sua mente e alma e transmitido aos ouvintes, por meio de uma pregação permeada de certeza. O segredo da fase de aplicação é o mesmo das outras. Ele envolve um interrogatório persistente sobre o modo como esta verdade penetra na vida do dia a dia.

A aplicação é a seqüência natural da observação e interpretação. A pessoa procura chegar ao significado de um texto, a fim de incorporar seus princípios a seu estilo de vida. A observação e interpretação (exegese) sem aplicação terminam como um exercício acadêmico, destinadas a superficialidade, podendo até conduzir ao erro (Ramm 1972, 12). Através de sua Palavra, Deus quer transformar motivos e condutas. “Toma o teu leito e anda” torna-se uma aplicação prática da palavra de Jesus, quando o homem se levanta e anda. Na realidade, a aplicação é a integração da verdade a vida. O expositor precisa viver no processo de integração da verdade, a fim de pregá-la com convicção e aplicabilidade. À esta altura do preparo, a mensagem do parágrafo penetra no íntimo e no estilo de vida da personalidade do pregador, uma vez que ele se abra coincidentemente a ela. Também neste ponto é grande a tentação de se aplicar a verdade aos outros, em vez de a si mesmo. Fazer isto é perder convicção.

Antes de formular um guia para a pesquisa no estudo bíblico indutivo, temos aqui várias razões pelas quais este tipo de estudo é uma importante ferramenta exegética para o expositor.

A primeira razão reside no fato de que a Bíblia no vernáculo é uma tradução dos originais razoavelmente boa. Comparada aos antigos clássicos de filosofia, a Bíblia tem muito mais chances de ser traduzida com clareza, pois “não é um livro de definições abstratas, mas principalmente um livro de exemplos – um livro de história concreta”, que utiliza metáforas, biografias, parábolas, narrativas e poemas que “podem ser transplantados com êxito, arraigando-se de imediato e florescendo completamente no novo solo” (Stibbs 1962, 12). A Bíblia no vernáculo que possuímos é um compêndio inspirado e plantado num contexto histórico comprovado e copiado por homens célebres em formas de pensamento concretas e destinadas a transmitir a verdade eterna de Deus (Hesselgrave 1979, 228).

Em segundo lugar, o estudo bíblico indutivo é importante porque este processo facilita um envolvimento pessoal na dinâmica espiritual do parágrafo escriturístico. A pessoa começa a sentir e experimentar a ira, tensão ou alegria expressas na passagem, e freqüentemente as coisas que sentimos no íntimo se tornam crenças e condutas, isto é, partes de nosso estilo de vida.

Em terceiro lugar, o estudo bíblico indutivo é crucial porque provoca uma interpretação mais explícita das Escrituras. O subjetivismo é reduzido e o arauto da Senhor é capacitado a proclamar a verdade com mais objetividade. Por exemplo, a passagem de 2 Coríntios 6.14ss. é com freqüência tratada como um ensino explícito contra casamentos mistos. O observador cuidadoso nota nos contextos imediatos (anterior e posterior) que nada indica algo assim nesta passagem. Ela mostra, sim, que o ministro envolvido no ministério deve ter um caráter incorrupto e não misturar a fé cristã com filosofias e práticas idólatras dos descrentes. Observe e veja!

Assim como muitos, percebi que uma folha de pesquisa ou um guia ajudariam minha mente preguiçosa a se manter numa sucessão de pensamentos. A folha de pesquisa que será oferecida como modelo aqui é um composto de idéias reunidas durante anos, a partir da experiência pessoal e de outros. É praticamente impossível dar os créditos de maneira apropriada. Entre os que defendem o método indutivo é comum o uso de perguntas. Em termos de observação dos fatos, os melhores amigos da expositor são: Quem? O que? Onde? Quando? Quando? Quantos? Quando se chega a interpretação, isto é o que mais ajuda: Por que (qual a razão)? O que isto significa? Como isto se encaixa? Qual o significado desta palavra ou frase? Para a parte da aplicação, estes são os recursos: Como? Quando? Onde isto (idéia, exortação, princípio, mandamento, etc.) funciona?

Quanto à folha de pesquisa, cada um a fará de maneiras diferentes, mas aqui vai uma sugestão para ajudar o expositor a manter as idéias em ordem e sempre a mão (veja p. 100). Para este estudo, sugiro o tamanho da folha de sulfite.

FOLHA DE PESOUISA PARA O ESTUDO BÍBLICO INDUTIVO

TEXTO:

Perguntas de       Fatos observados,      interpretados      e aplicados

Observação

Quem?

(Pessoas)

O que?

(Coisas)

Quando?

(Tempo)

Onde?

(Locais)

Perguntas de

Interpretação

Por que?

(Razões)

O que?

(Sentido ou

significado)

Por que?

(Importância)

O que?

(Exigências)

Perguntas de

Aplicação

Como?

(Como funciona?)

Quando?

(Quando aplico?)

Quem?

(Quem está incluído/

excluído?)

Por que?

(Por que os ouvintes

de hoje precisam disso?

O que?

(Que promessa pode ser

reivindicada agora? Que

mandamento deve ser

obedecido? Em favor de

que se deve orar? etc.)

QUAIS EVENTOS OU EXPERIÊNCIAS DO AT OU DO NT ILUSTRAM OU DEFINEM ESTAS IDÉIAS?

(Faça aqui anotações destes eventos ou experiências que se liguem de modo mais direto com as idéias observadas, interpretadas e aplicadas. Tome as palavras ou conceitos chaves dos versículos que estão sendo interpretados e procure-os numa concordância. Eu recomendava a meus alunos que procurassem as passagens paralelas primeiramente no mesmo livro sobre o qual estavam pregando, depois no mesmo testamento e, finalmente, no outro testamento.)

Para uma mensagem integrada, existe outra parte importante neste estudo bíblico indutivo, a qual deve ser feita simultaneamente com o estudo indutivo. Trata-se do uso e aplicação de passagens paralelas na Bíblia que provem, ampliem, alegorizem, definam, ilustrem ou de alguma forma sublinhem os pensamentos e princípios centrais da passagem.

Enquanto o expositor está trabalhando com as perguntas de ‘observação, interpretação e aplicação, ele também está pensando sobre outros lugares da Bíblia onde são encontradas idéias ou experiências semelhantes. Isto é muito importante. Por que? Porque as passagens de outras partes da Bíblia que provam ou ilustram as verdades do parágrafo da pregação dão aos ouvintes um sentido de unidade da Bíblia. O uso de passagens paralelas ajuda os cristãos a saírem, depois do sermão, com uma mensagem bíblica integrada.

As duas melhores ferramentas para este exercício são: 1) uma concordância bíblica completa e 2) um amplo espaço na parte inferior da folha de pesquisa, onde a pessoa possa registrar as descobertas, debaixo do título “Quais eventos ou experiências do NT ou do A T ilustram ou definem estas idéias?”.

Utilizando a concordância, o expositor estuda outras referências que lancem luz sobre idéias ou conceitos do parágrafo da pregação. Isto é feito separando-se palavras chaves do parágrafo e vendo como elas são empregadas em outras partes da Bíblia. Para o arauto cuidadoso, sempre haverá material bíblico mais do que suficiente para ilustrar ou provar seus argumentos. No estágio de composição do sermão, o arauto terá de selecionar com sabedoria aquilo que afirmará com mais clareza a idéia central do parágrafo.

Conforme já foi mencionado, o expositor irá olhar para passagens paralelas primeiramente no mesmo livro da Bíblia. Depois, ele considerará passagens paralelas no mesmo testamento e, finalmente, no outro testamento. Por exemplo, ao pregar sobre a tentação de Cristo, em Mateus 4.1-11, vi em Mateus 16.1 que os saduceus usaram a mesma tática que Satanás havia usado. Jesus, porém, estava à altura daquilo e resistiu. Em Mateus 19.3ss., Jesus usou novamente as Escrituras para resistir a uma tentação teológica colocada pelos fariseus. Estas passagens eram paralelas no mesmo livro. Em duas outras passagens no Novo Testamento, Jesus sentiu-se “impelido” ao deserto para ser tentado (Marcos 1.12, 13) e experimentou todas as tentações que sofremos (Hebreus 4.15). Estas passagens foram selecionadas no mesmo testamento. Entre muitas referências no outro testamento (neste caso, o Antigo Testamento), o Salmo 91.9-15 mostra como a força e o auxílio aparecem na hora da tentação, quando nos refugiamos no Senhor.

D. Martin Lloyd Jones previne os pregadores contra a “espiritualização” de referências vetero-testamentárias. Penso que ele esteja se referindo a prática de enxergar num evento bíblico comum um sentido teológico ou espiritual não confirmado pelo contexto imediato ou pelo restante da Bíblia (Jones 1978, 230, 231). Um exemplo deste tipo de “espiritualização” do texto é a comparação da travessia do Rio Jordão, feita pelos israelitas, com nossa passagem para o céu, no momento da morte.

Outra advertência se encaixa neste contexto. Não faça citações de muitos textos paralelos. Certo seminarista, enquanto pregava um sermão prático na classe, citava de cor cinco ou seis versículos em seguida, ao final de cada divisão principal. Ele simplesmente os citava, sem fazer comentários ou aplicações. Em vez de acrescentar uma argumentação lógica à idéia central de seu sermão, aquilo criou uma sensação de confusão. Isto me fez lembrar de uma brincadeira de mau gosto que fazíamos, quando éramos crianças no leste da Pensilvânia, nos EUA. A caminho de um velho poço onde nadávamos, passávamos por uma lagoa de água potável que saia da montanha. Nós nos ajoelhávamos, bebíamos com vontade um gole gelado e, então, afundávamos a mão na água e a enlameávamos, forçando o próximo da fila a ter de esperar alguns minutos, até que os sedimentos se assentassem. A última coisa que um expositor da Palavra de Deus deseja é enlamear a verdade com a verdade.

PASSO DE PESQUISA 4: A PROPOSIÇÃO

Chegamos agora ao coração do sermão expositivo, a tese, a proposição, a grande idéia, propostas respectivamente por Charles W. Koller, Ferris D. Whitesell, Lloyd Perry e, mais recentemente, Haddon W. Robinson. Cada um destes autores escreveu bastante sobre isto, e suas percepções são extremamente valiosas. Algo que me deixa perplexo é o fato de este conceito ter escapado à minha mente ministerial jovem, quando os professores Koller e Whitesell o ensinavam e praticavam com tanta habilidade. Hoje, ele é muito claro para mim. É duplamente enigmático ensinar aquilo que parece absolutamente claro e ver os jovens pregadores aspirantes o negligenciarem.

Numa tentativa de conceituar o significado central da proposição de um sermão, permita-me empregar algumas alegorias, antes de experimentar uma definição:

1. A proposição é o coração do sermão. Assim como o coração bombeia o sangue, dando vida ao corpo humano, a proposição vitaliza a forma e o conteúdo do sermão.

2. A proposição é o eixo principal do sermão. Assim como o pino central numa dobradiça controla e limita o movimento da porta, a proposição controla e limita o alcance da forma e do conteúdo do sermão.

3. A proposição é a bússola que indica a verdadeira direção do sermão. Através da proposição é possível dizer se as divisões principais, as ilustrações e os argumentos gerais estão apontando na mesma direção do parágrafo da pregação.

4. A proposição é uma mola comprimida; ela tem energia inerente em si para se expandir. A proposição é o sermão em miniatura e contém a essência de sua forma e conteúdo.

5. A proposição é o alicerce da estrutura do sermão (Braga 1981, 114).

O Novo Dicionário Aurélio define “proposição” como: “Assunto que vai ser discutido ou asserção que vai ser defendida”. O Dicionário Caldas Aulete desenvolve um pouco mais: “Parte de um discurso onde se apresenta e expõe o assunto que se pretende provar, estabelecer, discutir, contar, ensinar ou descrever”.

Nestas definições encontramos o conteúdo, a forma e a posição de uma proposição. A proposição é uma abreviação do sermão. E uma sentença. Aparece no começo do sermão, na introdução. Numa dissertação, ela é escrita. Num sermão, é falada. Em ambos, ela é uma declaração vigorosa, sugestiva e provocante. No sermão expositivo, ela é concebida a partir do parágrafo da pregação. Portanto, sua essência é teológica, a afirmação de um princípio divino. Ela é didática, específica, extraída do sentido “histórico-gramatical” do parágrafo.

Quais são os componentes básicos da proposição de um sermão? É

necessário que se compreenda a “anatomia” de uma proposição, a fim de que ela seja utilizada com eficiência na exposição do parágrafo. Em primeiro lugar, a proposição tem uma afirmação teológica (A.T.) da verdade teológica básica que se encontra implícita ou explícita no parágrafo. Meus alunos com facilidade em Teologia Sistemática tinham pouco trabalho para determinar qual faceta da teologia o parágrafo defendia ou provava. Esta afirmação nem sempre precisa ser feita na linguagem erudita da teologia. Numa exposição bíblica é bom que sejam usados termos que possam ser manejados pela maioria dos ouvintes. O expositor que tiver passado pelos passos de pesquisa de familiarização, exegese e estudo bíblico indutivo deverá ter tido contato suficientemente profundo para sentir espiritual e logicamente o tema básico do parágrafo da pregação e convertê-lo numa afirmação teológica. Lembre-se de que a afirmação teológica na proposição é a parte que declara brevemente a verdade central em forma de princípio. Nos exemplos que seguirão, certifique-se de que observa como a A.T. é declarada em forma de máxima ou princípio. Verifique também a brevidade de dez palavras ou menos.

A segunda parte anatômica da proposição é a sentença transicional (S.T.). Se a afirmação teológica é o tema em forma de postulado, a S.T. é a ponte literária que leva o ouvinte do princípio temático para os argumentos que o favorecem. (Estes argumentos são as divisões principais da exposição.) Para ser prática, uma ponte precisa de duas margens. Por um lado, a S.T. precisa da afirmação teológica e, por outro, precisa da estrutura do sermão. Aqui eu divido a proposição em suas partes “orgânicas”, somente por razões didáticas. Ela de nada servira se não for compreendida e redigida como uma unidade.

Há a terceira parte estrutural da proposição. Ela pertence a sentença transicional e é chamada palavra chave. A palavra chave (P.C.) é sempre um substantivo no plural. Este substantivo no plural é o “coração” do coração do sermão expositivo (a proposição). É plural porque o parágrafo da pregação tem pelo menos dois elementos categorizados por este substantivo no plural. É plural porque as exposições bíblicas geralmente seguem o padrão de pluralidade de divisões. Assim, a palavra chave aparece implícita ou explicitamente em cada divisão da mensagem. Tento escrever minha proposição (A.T. + S.T. + P.C.), de forma que haja apenas um substantivo no plural em toda a construção. Não quero que meus ouvintes façam ginástica mental em excesso para ouvirem e visualizarem a palavra chave.

A proposição é temática. É o resumo do conteúdo do parágrafo da pregação. Como tal, ela declara uma verdade bíblica ou teológica como princípio. A proposição também faz uma ponte desde o texto bíblico até a estrutura divisória e exposição dos argumentos. Isto é feito com a sentença transicional e a palavra chave. Cada faceta da palavra chave é comprovada e ilustrada em uma das divisões do sermão.

Talvez este seja o lugar apropriado para ilustrar com alguns exemplos toda esta “anatomia”. Quando se lê e analisa Mateus 4.1-11, torna-se claro que Satanás não respeita posição ou classe quando decide tentar alguém. Se ele tenta o Filho de Deus com sutileza consumada, com certeza irá tentar qualquer um de nós do mesmo modo. Então, qual é o principio? Verifique se a proposição seguinte (A.T. + S.T. + P.C.) o torna claro.

(A.T.) Satanás irá tentar com astúcia à pessoa piedosa, para atingir seu objetivo.

(S.T.) Temos aqui três tipos (P.C.) de tentação destinados a nós derrubar.

Este parágrafo em Mateus deve realmente conter três tipos de tentação. Se não, o pregador está “inventando” um esboço ou escolheu a palavra chave errada. Estudando Mateus 4.1-11, vemos três tipos de tentação que freqüentemente nos acompanham. Aqui estão eles:

Tratar a fome espiritual com alimento material (vv. 3, 4);

2. Testar a capacidade de Deus com proezas sensacionais (w. 5-7); e

3. Trocar o domínio de Deus por força política (w. 8-10).

É possível ver claramente estas três tentações: (a) materialismo, (b) sensacionalismo e (c) autoritarismo. O Senhor nos ensina que cada tentação deve ser enfrentada e derrotada com a espada de dois gumes chamada Palavra de Deus.

Segue aqui outro exemplo para estudo, extraído de Atos 13.1-4. Esta

passagem extraordinária instruirá qualquer igreja em como ter uma mente missionária de forma concreta. Uma das maneiras mais seguras de a igreja ganhar uma mente missionária é enviar alguns de seus filhos e filhas aos campos de missões. Assim, criamos a seguinte proposição (A.T. + S.T. + P.C.):

(A.T.) Deus utiliza com freqüência a assembléia da igreja local para chamar seus missionários.

(S.T.) Há três ações (P.C.) eclesiásticas coletivas que Deus usa para chamar missionários.

Nossa afirmação teológica apresenta uma máxima, um princípio bíblico. Ela é curta, fácil de ser memorizada e reforçada pela sentença transicional, onde a pergunta “Como Deus os chama?” é respondida com a palavra chave: ações (eclesiásticas). A palavra chave me informa que o parágrafo da pregação tem em si três ações eclesiásticas coletivas, sendo que cada uma forma uma divisão principal da exposição. Cada divisão demonstrará como Deus chama seus missionários através da ação da igreja.

Lembre-se: o longo contato com o texto, através dos passos de pesquisa, deu ao expositor sensibilidade interna diante do conteúdo e estrutura centrais do parágrafo. Assim, surge o seguinte esboço. Observe que cada divisão principal é uma ação eclesiástica coletiva, conforme o texto registra.

1. Um reconhecimento consciente dos dons do Espírito (v. 1);

Uma adoração concentrada no Cristo ressurrecto (v. 2); e

3. Um compromisso perfeito de apoio aos missionários (vv. 3, 4).

Até aqui, alegorizamos, definimos e exemplificamos o que realmente é a proposição do sermão. Chegamos agora ao processo em que iremos extraí-la do parágrafo da pregação. Nunca é demais repetir: a total imersão intelectual, emocional e espiritual do expositor no parágrafo é absolutamente essencial. É neste envolvimento que o expositor descobre a idéia central Assim, as três experiências de pesquisa de familiarização, exegese e estudo bíblico indutivo são os fundamentos da descoberta de uma proposição exata e complemente representativa.

A proposição é realmente o produto final da estrutura sujeito-predicado do parágrafo da pregação. Há um sujeito principal no parágrafo que está sendo predicado. Então, o primeiro fato na formulação da proposição é a resposta a esta pergunta: “Qual é o sujeito deste parágrafo da Bíblia?” De que se está falando aqui?

O sujeito de qualquer sentença é um substantivo, uma frase substantiva ou um pronome que faz alguma coisa ou sobre o qual algo é dito (predicado). O parágrafo da pregação, sendo constituído de várias sentenças, normalmente terá uma série de sujeitos e verbos. O expositor sentirá como eles se inter-relacionam, quais são os principais e os secundários. Num parágrafo de pregação autônomo deve haver um sujeito e um predicado globais, em torno dos quais giram todos os sujeitos e predicados. Na passagem de Mateus 4.1-11, Satanás (o sujeito) tenta a Jesus (o predicado). ‘A dinâmica na passagem mostra que este sujeito (Satanás) emprega artimanhas sutis para atingir seus propósitos perversos.

Uma das maneiras de se descobrir a essência da proposição é olhar para as frases chaves na seqüência do texto do parágrafo. Acho melhor alistar tudo isto em minha folha de pesquisa, a fim de que eu possa ver as semelhanças e complementos. Havendo várias frases repetidas ou semelhantes, trabalho sobre elas para sintetizá-las em uma idéia. No caso do parágrafo de Mateus 4, as frases “para ser tentado pelo diabo” (v. 1) e “então o tentador, aproximando-se” (v. 3) são seguidas por três experiências reais de tentação. Isto me levou à afirmação teológica acima mencionada. Ao fazer a parte D, o esboço analítico na pesquisa de familiarização, já comecei a entrar no clima desta proposição. É bom voltar para o primeiro trabalho de pesquisa, enquanto se prepara a proposição, porque o esboço analítico é geralmente constituído de frases chaves do parágrafo.

Outra forma de encontrar os elementos básicos da proposição num determinado texto é separar e analisar os sujeitos substantivos (“o tópico de uma sentença, a palavra sobre a qual o verbo faz uma declaração ou uma pergunta”). Freqüentemente tenho notado, no mesmo texto, dois ou três substantivos que se repetem com vários sujeitos substantivos complementares ou sinônimos. Com percepção espiritual pode-se ver que estes vários sujeitos substantivos estão realmente falando de um tema principal. Em geral, esta inspiração espiritual acontece depois de um bom período de transpiração mental Quanto a este exercício mental, muitos professores de homilética citam J. H. Jowett, que disse o seguinte a respeito da proposição:

Tenho convicção de que nenhum sermão está pronto para ser pregado ou escrito, até que possamos expressar seu tema numa frase curta e fecunda, clara como cristal. Acho que chegar a essa frase é a labuta mais pesada, mais exigente e mais frutífera no meu escritório. Compelir-se a formular aquela frase, ir pensando até chegar a uma forma de palavras que defina o tema com exatidão escrupulosa – este é, de certo, um dos fatores mais vitais e essenciais na produção de um sermão; e não penso que qualquer sermão deva ser pregado, ou até mesmo escrito, até que essa frase surja, clara e nítida como uma lua sem nuvens (Robinson 1983, 25).

Que desafio! Tendo se exposto as Escrituras através do trabalho de pesquisa, o expositor experimentará a alegria indizível de encontrar e pregar aquela verdade central.

Percebi que existe trabalho, mesmo depois deste trabalho. É o trabalho de escrever, reescrever e reescrever a proposição. Pregadores como nós são prolixos por natureza e precisam afiar a forma da proposição, até que ela seja cortante e fácil de memorizar. Isto ajuda a nós e aos ouvintes nos bancos. Escrever e recitar em voz alta ajuda-me a manter clara e direta a proposição.

A proposição deve ser realmente verbalizada? Caso deva, onde e quando no processo de pregação ? A famosa declaração de J. H. Jowett sobre o tema (proposição), com toda sua exatidão, não indica se a proposição é compartilhada com os ouvintes. Haddon Robinson (1983, 110) parece deixar subentendido que a proposição deve constar da parte oral do sermão. James Braga (1981, 131) mostra a proposição como parte do esboço do sermão e, presumo, sendo verbalizada pelo expositor.

O pastor-mestre (Ef 4.11) prega conscientemente para ensinar, e sua mentalidade didática procura com naturalidade a clareza de expressão. Uma proposição bem escrita é uma ferramenta didática. Sem questionar, penso que ela deve fazer parte da apresentação oral do sermão. A fluência natural da introdução deve levar os ouvintes ao parágrafo da pregação. A audiência deve ser “conquistada” e conduzida com vida ao parágrafo bíblico. O texto lido com dinamismo deve ser coroado com uma clara afirmação da proposição. A proposição deve, então, fazer uma “ponte” para os ouvintes em direção à primeira divisão principal e, sucessivamente, para as outras divisões. O processo pode ser assim ilustrado:

Introdução (“jogando o anzol”)

Texto bíblico (lido com dinamismo)

Proposição (lida com clareza)

Primeira divisão principal (provada com lógica)

Proposição (repetida)

Divisão principal seguinte (provada com lógica)

etc.

Um de meus alunos adotou como prática enfatizar verbalmente a proposição, até que a congregação a memorizasse. Em sua igreja isto praticamente se tornou parte dos cumprimentos entre as pessoas. Aquela igreja foi grandemente edificada nas Escrituras durante seu “ministério da palavra” ali.

As alegorias que usamos para descrever a proposição ajudam-nos a formular diretrizes para avaliar e melhorar nossas proposições.

1. Se a proposição é o coração do sermão, então ela deve pulsar na estrutura (divisões principais) e no conteúdo (argumentos e ilustrações).

2. Se a proposição é o eixo principal do sermão, então seu enfoque teológico dirigirá o ritmo da mensagem e capacitará o expositor a evitar o uso de idéias, ilustrações e argumentos estranhos.

3. Se a proposição é a bússola que aponta para a verdadeira direção do sermão, então sua “idéia principal” levará o sermão através de vários aspectos da verdade bíblica focalizada.

4. Se a proposição é a mola comprimida com energia inerente em si para se expandir num sermão inteiro, então sua redação deve incluir todos os aspectos da verdade única no parágrafo da pregação.

5. Se a proposição é o alicerce da estrutura do sermão, então todas suas partes de natureza homilética (introdução, corpo, conclusão) devem se encaixar e estar no prumo sobre aqueIa base.

Talvez seja útil fazer uma lista das possíveis palavras chaves que o expositor poderá usar. Um bom domínio do rico potencial das palavras num idioma é sempre uma boa vantagem quando se fala ou escreve. Segue aqui uma lista semelhante a lista de Braga (1981, 128). Observe que estas palavras chaves estão no plural. Isto se atribui ao fato de que a maioria das exposições se divide em duas ou mais partes. Também se baseia no fato de que os parágrafos bíblicos autônomos quase sempre lidam com dois ou mais aspectos da verdade proposta.

abusos                        elos                             notas

acusações                   enredos                      nutrientes

afirmações                 erros                           objetivos

amostras                    exortações                  obrigações

armadilhas                forças                          oportunidades

aspirações                  frutos                          paralisias

assassinos                   fugas                          pecados

barreiras                    gestos                         perguntas

batalhas                     gigantes                     provisões

buscas                                    hábitos                       punições

características            heresias                      reclamações

clamores                    ídolos                          refutações

classes                        ilusões                        sementes

condições                   impurezas                  tesouros

crenças errôneas        juízes                          tiranos

defeitos                       luzes                           ultimatos

desvantagens                         mandamentos                       vantagens

dilemas                      máscaras                    venenos

direções                      mentiras                     viagens

disciplinas                  necessidades             vontades

Não existe fim aparente para o número de palavras chaves em português. Muitas vezes estas palavras chaves constam realmente no texto bíblico sob consideração. Outras vezes elas são escolhidas pelo expositor, por enfatizarem com criatividade a idéia central (sujeito) do parágrafo bíblico. O leitor poderá querer ir além e observar na lista acima quantas palavras são concretas e quantas são abstratas. A palavra “coisas” pode muito bem ser a opção do preguiçoso e é “um termo muito geral para ser utilizado como palavra chave” (Braga 1981, 127). Quanto mais concreta for a palavra chave, mais visualizável será a exposição na mente dos ouvintes.

Chegamos ao capítulo sobre os passos da composição. Tendo mergulhado no parágrafo bíblico e sentido sua mensagem, agora o expositor reúne tudo para a pregação. Com um contato tão prolongado e profundo com o parágrafo, grande parte de sua mensagem já está “composta” em sua cabeça e em seu coração. Agora isto deve ser organizado de modo lógico, didático e literário. A paixão espiritual, gerada por este contato focalizado nas Escrituras, irá permear a composição do sermão, e pelo Espírito Santo de Deus a verdade será pregada com sensibilidade e poder.

OS QUATRO PASSOS DA COMPOSIÇÃO

 

A composição é tanto uma arte quanto uma ciência. Ambas são necessárias a uma boa exposição. Como arte, a composição do conteúdo do sermão depende do instinto criativo do pregador. Este instinto é freqüentemente reprimido pelo medo de fracasso exacerbado pelas “velhas” vozes da baixa auto-estima: “Você sabe que nunca foi bom nisso!” Outras vezes, ele é bloqueado pelo medo das tradições religiosas: “Lembre-se de que isto nunca foi feito assim!”

Sendo tocado pela verdade revelada no parágrafo da pregação, o arauto encontrará urgência em pregar, e isto o conduzirá pelos passos da composição. O passo lógico a partir de uma proposição afiada, com uma palavra chave clara, é a formulação das divisões principais. Vamos agora a este passo.

PASSO DE COMPOSIÇÃO 1: AS DIVISÕES PRINCIPAIS

Dissemos que a proposição é o coração do sermão e que a palavra chave é o coração da proposição. A estrutura e o conteúdo do sermão são “nutridos” por esta palavra chave. Neste caso, as divisões principais recebem “vida” da palavra chave. Esta “vida” se faz presente quando as divisões principais incorporam uma faceta da verdade global no parágrafo. Assim, para o sermão as divisões principais não são como um esqueleto de ossos secos, conforme ensinariam algumas escolas de homilética! Associadas ao parágrafo da pregação através da palavra chave, as divisões principais são expressões literárias da verdade viva de Deus.

Dessa forma, o coração de cada divisão principal é a palavra chave que pode aparecer explicitamente ou estar subentendida na redação. Se a palavra chave em sua sentença transicional é o substantivo no plural condições, então cada divisão deve ter algum tipo de condição. É possível que um parágrafo neotestamentário apresente duas ou mais condições para a salvação. A afirmação teológica deve declarar isto de forma sucinta. A sentença transicional apontaria para estas duas ou mais condições, e cada divisão principal provaria e ilustraria uma das condições.

Se a palavra chave representa com fidelidade os pensamentos centrais do parágrafo, então o mesmo deve se dar com as divisões principais. Aqueles que não estudam o parágrafo da pregação irão, bem provavelmente, impor uma palavra chave dissonante. Por sua vez, isto gerará divisões principais que, por um lado, impõem idéias pessoais e, por outro, deixam de cobrir o parágrafo todo. A palavra chave é crucial para uma formulação adequada das divisões principais.

Uma vez que o arauto está expondo a Palavra de Deus, é necessário que cada divisão principal tenha o apoio de uma parte do parágrafo da pregação. Talvez um exemplo nos ajude a ver isto com mais clareza. Depois de pesquisar o parágrafo de Tiago 1.2-8, compus a seguinte proposição:

(A.T.) Deus oferece sabedoria generosamente a seus filhos para as provações dominantes.

(S.T.) Devemos cumprir três condições para receber a sabedoria dominante.

A seguir, na composição das divisões principais, a palavra chave não aparecerá de modo explícito. Mas não resta dúvida de que cada divisão principal é uma “condição” a ser cumprida pelo crente que ouve a exposição.

1. Nas provações devemos admitir a necessidade de sabedoria (vv. 2-5a);

2. Nas provações devemos pedir a sabedoria que necessitamos (v. 5b); e

3. Nas provações devemos acreditar que Deus concede sabedoria (vv. 6-8).

Algumas vezes, a formulação das divisões principais pode parecer forçada. As divisões principais não omitem ou acrescentam informações, mas de alguma forma elas não são escritas com exatidão. No caso do esboço do texto acima, alguém poderia fazer duas divisões e ainda assim incluir todas as idéias. Por exemplo:

Nas provações admita sua necessidade de sabedoria (vv. 2-5a); e

2. Nas provações pega o dom da sabedoria (vv. 5b-8).

Ao compor as divisões principais, é necessário que o expositor se lembre da situação do ouvinte. Normalmente eles não podem ver o esboço do sermão. Portanto, é importante que as divisões principais sejam redigidas com frases ou declarações curtas e de fácil memorização, pois “… o teste do bom discurso é a natureza imediata da apreensão e resposta” (Davis 1970, 265).

Uma forma útil de desenvolver as divisões principais é rever o esboço analítico feito no primeiro passo da pesquisa de familiarização. Lembre-se de que este esboço analítico é um perfil seqüencial dos pensamentos principais do parágrafo. Eles não foram compostos homilética ou literariamente. Mas agora, com uma proposição clara e uma palavra chave exata, o esboço analítico pode ser reformatado. É surpreendente como a proposição e a palavra chave são úteis na formulação das divisões principais. Falando de modo geral, a seqüência natural das idéias no parágrafo pode ser seguida nas divisões principais.

Como se expandem estas divisões principais para alguma coisa que possa ser provada? Novamente a combinação de resultados no esboço analítico, na exegese e no estudo bíblico indutivo vem nos socorrer. Estes esforços de pesquisa fornecem a estrutura e o conteúdo, os “ossos” e a “carne” da exposição. O expositor irá selecionar destas pesquisas os argumentos apropriados e alinhá-los debaixo de cada divisão principal. Isto deve ser feito em oração, pois é possível que alguns fatos não sejam necessários para a argumentação da divisão principal.

Com freqüência, ao estruturar as divisões principais, “o pregador pode querer fazer com o texto aquilo que o próprio texto não queira fazer” (Buttrick 1987, 313). Outra vez, o esboço analítico manterá o expositor dentro da lógica do parágrafo. Os passos nas pesquisas de exegese e estudo indutivo fornecerão o conteúdo básico da exposição, e a vida de oração e piedade do pregador colocará sentimento e caráter no discurso.

As divisões principais da exposição devem ser concisas e claras. Cada uma deve ser autônoma, isto é, deve ter sua série de argumentos sem infringir a outra. No primeiro esboço de Tiago 1.2-8, pode-se argumentar que a terceira divisão principal não é suficientemente distinta da segunda, que ambas argumentam coisas semelhantes. Neste caso, o segundo esboço é melhor.

A maioria dos profissionais de homilética concorda com o fato de que as divisões principais devem ter o mesmo estilo literário em todo o sermão. Se a primeira é colocada em forma de pergunta, então as restantes também devem ser. Se a primeira divisão está na forma de exclamação, então as outras também devem estar. Penso que está claro que cada divisão principal deve ter um versículo ou mais em apoio à sua afirmação. O expositor deve saber que os ouvintes querem ver de que lugar no parágrafo vem o argumento.

PASSO DE COMPOSIÇAO N.º 2: AS ILUSTRAÇÕES

“Eloqüência é converter ouvidos em olhos”, diz um antigo provérbio. As pessoas precisam “ver” e sentir a verdade. As coisas espirituais e a teologia, embora sejam reais, muitas vezes são abstratas demais e precisam ser “materializadas” através das ilustrações. Também os ouvintes, que estão empregando energia do cérebro para ouvir, precisam das pausas para o descanso mental que as ilustrações trazem.

Ilustrações são como janelas. Elas projetam luz. E o fazem por associação. Quando o ouvinte associa o espiritual com alguma coisa concreta, ocorre a iluminação. Neste processo de associação, o ouvinte se torna um participante que pensa, em vez de ser um recipiente passivo. Quando uma ilustração dinâmica intensifica as emoções, o ouvinte se torna um participante sensível no processo de comunicação.

George Whitefield foi um mestre na ilustração do abstrato. Ele fazia isto a ponto de envolver os ouvintes emocional e intelectualmente. Certa vez, ao pregar sobre o perigo de não estarmos salvos, e) e descreveu um mendigo cego que andava em direção a um precipício. Seu cachorro havia lhe arrancado com a boca a bengala, e lá estava o homem tateando, cada vez mais perto do abismo. Enquanto ele descrevia a cena com sensibilidade, de repente, Lord Chesterfield, dominado emocionalmente pela ilustração, gritou: “Meu Deus, ele está perdido!” (Blackwood 1954, 164).

Algumas vezes, exemplos e ilustrações são encarados como a mesma coisa. Outras vezes, eles são separados, sendo que o exemplo é aquilo que a maior parte dos ouvintes experimenta em comum na vida, e a ilustração é aquilo que está “além da esfera das experiências em comum” (Buttrick 1987, 128). Poderíamos dizer que os exemplos se relacionam com as experiências imediatas e comuns da humanidade, e as ilustrações são eventos que surgem de um contexto externo. Usemos os dois!

O que o expositor deve evitar? Primeiro, as ilustrações que não se encaixam na proposição. Um exemplo ou ilustração pode ser genial e assim mesmo não contribuir para o pensamento central da mensagem. A proposição ajudará o expositor a empregar apenas ilustrações “apropriadas”, isto é, aquelas que tenham “o mesmo valor moral, estético ou social da idéia que está sendo ilustrada” (Buttrick 1987, 134).

O segundo erro a ser evitado é o uso de muitas ilustrações. Alguns pregadores perdem a autoridade, porque são vistos como narradores de histórias. Em geral, um narrador de história é considerado um pregador consistentemente preguiçoso, que não se prepara bem. Uma seqüência de várias ilustrações tende a se misturar na mente do ouvinte, e o resultado disso é uma confusão de idéias. Como alguém já disse, as ilustrações são como mel; muitas colheres cheias fazem a pessoa ter náuseas. Eu ensinava meus alunos a terem pelo menos uma ilustração de tamanho justo para cada divisão, mesmo que fosse curta, exemplos de uma linha que acompanhassem o processo de raciocínio.

Ilustrações inacreditáveis ou muito fantásticas não devem ser usadas, pois provocarão digressão no pensamento. “Como isto pode ser?” “Gostaria de saber se o pregador está dizendo a verdade!” “Tem alguma coisa de estranho nisso tudo!” Havendo este tipo de pensamento nos ouvintes, o expositor perderá credibilidade e/ou respeito.

Equilíbrio é o alvo das ilustrações. O excesso de ilustrações causa confusão e pode gerar a perda de confiança no pregador. Expositores que omitem as ilustrações podem parecer áridos, vagos e obscuros. A omissão de exemplos e ilustrações selecionadas é um erro didático.

Quais são as melhores fontes de ilustrações? A Bíblia sobressai em histórias, parábolas e exemplos da verdade. O passo da pesquisa de estudo bíblico indutivo incluiu uma verificação de passagens paralelas. Elas quase sempre fornecerão exemplos que o pregador criativo poderá “vestir” com linguagem e contexto atuais. O jornal do dia, devocionários, revistas e a televisão oferecem ao expositor atento amplas comparações e exemplos. Noticiários da TV com freqüência fornecem excelentes imagens que podem ser recordadas instantaneamente pelos ouvintes, quando o arauto as aplica à verdade bíblica.

O contexto social da igreja indicará quais os tipos de ilustração que mais facilmente iluminarão a verdade na mente da congregação. Uma igreja freqüentada predominantemente por operários “verá” as ilustrações mecânicas com mais clareza do que as ilustrações literárias. Jesus empregou ilustrações agrícolas e pastoris para as pessoas com inclinação rural de seus dias.

Não há dúvida de que o pregador da verdade deve preparar estas partes do sermão com a mesma diligência das outras. Depender da inspiração do momento para as ilustrações é procurar constrangimento e confusão. Isto não quer dizer que nunca devemos usar uma ilustração espontânea. A exposição da Palavra de Deus é um processo dinâmico, e o Espírito Santo deve ter liberdade para controlar o ato da pregação bem como o preparo através do estudo.

Há vezes em que o expositor se sente bloqueado e parece não conseguir ilustrações para a mensagem. Tenho notado que uma folha de anotações é uma idéia útil nestas horas de bloqueio. Pegue um pedaço de papel e copie no alto a proposição. Este é o ponto de referência temático. Debaixo dela, copie as divisões principais, deixando um espaço de oito a dez linhas entre cada uma. No espaço abaixo de cada divisão, copie resumidamente o conceito ou argumento teológico que for mais abstrato e faça a seguinte pergunta: Qual experiência humana, objeto físico ou parte da natureza esclarece melhor este conceito? Repita isto para cada diviso. Lápis e papel muitas vezes liberam a mente bloqueada.

PASSO DE COMPOSIÇÃO N.º 3:

A CONCLUSÃO E A INTRODUÇÃO

A conclusão e a introdução são as menores partes de uma exposição. Como tais, a tendência é tratá-las com menos zelo e atenção do que merecem. Meus alunos no seminário sempre demonstravam isto em seus manuscritos de sermões entregues para nota. O trabalho feito na introdução e conclusão era claramente inferior ao trabalho feito no corpo da exposição. Parecia haver um processo de pensamento que deixava estas duas partes abertas para receberem espontaneamente um conteúdo de palavras no momento da pregação. O esforço mental no preparo destas partes era praticamente nulo.

Evidencia-se aqui que a introdução e a conclusão devem ser preparadas com diligência. Se no futuro uma situação de pregação exigir acréscimos espontâneos, deixe-os fluir, mas que fluam através de uma estrutura previamente preparada.

Tendo coberto de carne cada divisão principal com o material pesquisado nos passos de exegese e estudo bíblico indutivo, o expositor deve agora preparar cuidadosamente a conclusão e a introdução. O que vem primeiro? É provável que isto não importe, dependendo bastante das inclinações do pregador. Uma vez que o corpo (divisões principais, subdivisões e ilustrações) tenha sido esboçado, o expositor está mais bem equipado para preparar estas duas importantes partes.

Comecemos com a conclusão. Como a compomos? Qual seu conteúdo básico e propósito? Conforme já mostrei, a proposição é a principal fonte de conteúdo e estrutura para toda a mensagem. Assim, a conclusão deve estar em sintonia com a proposição. Deste modo, o expositor deve olhar para a proposição e perguntar a si mesmo; a) Qual ação ou exigência está implícita ou explícita nesta proposição? b) O que o ouvinte deve pensar e fazer, a fim de que esta proposição se transforme em verdade encarnada em sua vida? c) Como arauto de Deus, quais passos posso apontar para levar o ouvinte a cumprir a verdade desta proposição?

Para facilitar o preparo da conclusão, escreva no alto da folha de pesquisa toda a proposição. Depois, copie as perguntas acima na mesma folha e escreva as ações, normas, idéias e atitudes mais práticas que o ouvinte deve adotar. Alguém já disse ironicamente que os pregadores sabem mostrar os problemas, mas infelizmente deixam de apontar as soluções. O preparo da conclusão nestes moldes irá forçar o expositor a apresentar soluções práticas e acessíveis. Mensagens com soluções obscuras são desanimadoras e nocivas ao crescimento espiritual da congregação.

Um preparo prático e diligente da conclusão ajudará o expositor a evitar o grande erro que chamo de “descumprimento de promessa”. O pregador diz: “Concluindo…” e prega, prega e prega. O ouvinte acredita em suas palavras e prevê mentalmente a conclusão. Mas o fim não chega. A promessa é descumprida. O ouvinte é inconscientemente ofendido e não entende por completo por que se esvai sua simpatia pela mensagem e pelo arauto. Esta é uma forma terrível e uma péssima hora para se perder a congregação!

Esta manobra de descumprimento de promessas lembra-me das aterrissagens de arremetida que tínhamos de praticar, enquanto aprendíamos a voar. Fazíamos a aproximação apropriada no campo de aviação, entravamos, deixávamos o trem de pouso tocar a pista e então decolávamos novamente. Isto se repetia várias vezes, até que fazíamos a última aterrissagem, ao final do período de treinamento. Na pregação, assim como nos negócios diários da vida, o arauto deve manter sua palavra. Se ele diz que vai aterrissar, então deve aterrissar! Segundo escreveu G. Campbell Morgan, “uma conclusão deve concluir” (Morgan 1937, 87).

Uma conclusão preparada com inteligência evita que se crie no ouvinte a sensação de ter passado 30 minutos ouvindo sem saber por quê. Henry Ward Beecher disse certa vez que Jonathan Edwards preparava seus canhões no corpo do sermão, para então dispará-los na conclusão (Morgan 1937, 87).

Uma conclusão bem preparada é um dos modos de Deus invadir aquele grande castelo chamado vontade humana. Ele quer que nossos ouvintes se decidam pela verdade. Prepare a conclusão com todo o vigor espiritual que a oração e o estudo podem concentrar! Deus quer ter um encontro igualmente com pecadores e santos. Conforme escreve David Larsen, “certamente nossa conclusão não deve ser nenhum beco sem saída, mas uma via expressa que convide a uma vida mais abundante em Jesus Cristo!” (1989, 130). Assim, torne a conclusão tão específica e pessoal quanto possível.

O preparo da introdução também é um momento bastante criativo. O expositor precisa estar convencido de que a introdução é autônoma, isto é, auto-suficiente, não devendo ser adulterada com comentários a esmo. A forma mais fácil de destruir uma introdução eficaz é confundir sua clareza com palavras ou ações estranhas. Alguns pregadores começam falando sem muito objetivo, enquanto se dirigem para o púlpito. Outros balbuciam cumprimentos enquanto pegam a Bíblia que está sobre o púlpito e arrumam suas anotações. Em algum ponto no meio disso tudo, eles começam a introdução, mas a maior parte dos ouvintes nem percebe. Houve muito falatório informal O que pode ser feito?

É concebível que uma conversa informal seja um meio de o pregador se apresentar. Até aí, tudo bem. Mas quando sua introdução é preparada com diligência, o orador inteligente irá evitar naturalmente a mistura de comentários estranhos a ela. Como? Separando da verdadeira introdução os comentários informais, através de uma boa pausa ou de uma oração. Tenho sentido que a oração é a melhor ponte entre comentários a esmo e a introdução preparada. Este momento de devoção tem sido a melhor forma de me apresentar como mensageiro de Deus e de concentrar os ouvintes na introdução do sermão.

Enquanto se prepara a introdução, algo que pode ajudar é copiar a proposição numa folha. Depois, copie várias perguntas e responda a cada uma delas. 1) Como posso declarar esta proposição com outras palavras que despertem interesse espontâneo? Sugiro que esta pergunta seja respondida de duas ou três formas diferentes. 2) Quais os cinco acontecimentos atuais de porte (locais, nacionais ou internacionais) que estão na mente dos ouvintes e quais se relacionam com a proposição, de modo a iluminá-la? 3) Quais as questões sociais, emocionais ou espirituais tocadas pela proposição? 4) Que evento cultural ou histórico nos antecedentes deste livro da Bíblia serve nesta proposição? 5) Quais as frases curtas que irão realmente “fisgar” meus ouvintes e criar interesse pela idéia central? Segundo alguns escritores de livros policiais e de mistério, o verbo “suponha” é a palavra chave na criação de um clima de suspense (Clark, Mary H. 1989, 54). Penso que o expositor criativo pode usar esta tática na sentença inicial: “Suponha que amanhã você receba pelo correio uma ameaça de morte”. Depois de responder a estas perguntas, escreva uma introdução criativa que prenda a atenção e leve os ouvintes diretamente ao parágrafo da pregação; é esta passagem bíblica que a congregação deve ouvir e compreender.

Apenas mais uma palavra sobre as duas menores partes do sermão. Cada vez mais, grandes mestres da exposição nos dizem que escrevamos por extenso a introdução e a conclusão. Uma boa razão para isso é a confiança que este exercício gera no pregador. Ele sabe com clareza como começar a mensagem. Isto tende a eliminar introduções em que se buscam palavras a esmo, conforme estamos acostumados a ouvir. É sensato manter bem regulado o motor do sermão, de modo que ele não morra no meio do trânsito. Para o ouvinte, não há nada mais desconcertante do que um sermão que, para começar, dá a partida e morre várias vezes, com pensamentos que se chocam entre si, em vez de fluírem.

O mesmo se aplica à conclusão. O fato de escrevê-la por extenso gera familiaridade que deixa o arauto livre para ser mais espontâneo de forma inteligente. Nos dois casos, é claro que devem ser acrescentadas idéias dadas pelo Espírito na hora do discurso. Entretanto, devemos nos lembrar de que não há lei que impeça o Espírito de inspirar seus arautos, enquanto estes escrevem. Ele tem liberdade para inspirar tanto durante o estudo como também no púlpito. Chegamos agora ao último passo da composição. A maneira como o expositor lida com ele é uma questão de opção pessoal.

PASSO DE COMPOSIÇÃO 4: O ESBOÇO DO SERMÃO

O que o expositor leva consigo para o púlpito? Um manuscrito completamente redigido? Parcialmente redigido? Alguns rascunhos de anotações? Nada? Isto depende dos dons e do treinamento do expositor. Alguns arautos são dotados de memória fotográfica e “vêem” mentalmente o manuscrito, sendo que expõem as Escrituras sem anotações. Outros tiveram um bom treinamento e, apesar de não decorarem os pequenos detalhes do manuscrito, eles se saem bem, sem depender de anotações. Minha opinião quanto à maioria é que eles precisam de uma diretriz, a fim de não se perderem ou se confundirem. No sistema de pesquisa proposto aqui, o envolvimento espiritual e mental através dos passos da pesquisa deve conferir ao expositor uma sensação de progresso lógico. Por sua vez, isto ajuda na estruturação daquilo que chamo de “esboço do sermão”. Qualquer expositor que conviva com o texto irá desenvolver inconscientemente uma fluência intuitiva para a mensagem. Esta é uma contribuição positiva na produção do esboço.

Novamente a experiência nos diz que a forma do esboço do sermão

é uma questão de escolha pessoal. Alguns arautos de Deus sentem-se bem com uma diretriz datilografada. Outros aprenderam a ler um manuscrito totalmente datilografado, olhando-o de relance, sem que pareça que estão lendo. Esta é uma arte que muitos pregadores podem aprender, se tiverem treinamento. Outros se sentem amarrados quando usam um manuscrito totalmente datilografado, e a falta de contato face a face com o auditório os aflige. Assim, eles escolhem um esboço com o esqueleto da mensagem, usando frases sugestivas. O fato de olharem de relance para a frase traz tudo à tona em suas mentes. Isto permite que mantenham um contato face a face quase constante com os ouvintes. Muitos pregadores não possuem recursos mecânicos para preparar seus esboços e simplesmente escrevem a mensagem a mão ou utilizam esboços com o esqueleto da mensagem, segundo aquilo que mais agrada ao estilo pessoal de pregação. Lembro-me de ter lido o comentário de um escritor sobre seu processo de redação. Ele sentia que seus textos escritos a mão transmitiam mais empatia e calor humano. Sinto o mesmo quanto a meus esboços de sermão. De algum modo, eles parecem se aproximar mais do meu espírito do que os esboços datilografados.

O esboço do sermão deve ter uma forma que ajude ao máximo o expositor em termos de uma apresentação fluente e progressiva. Ele deve ser visível, ou seja, datilografado ou escrito a mão com letras suficientemente grandes para que o expositor possa, num olhar de relance, pegar o fio da meada. Tenho notado que alguns auditórios aceitam as pausas momentâneas que acontecem quando o pregador consulta suas anotações. Segundo diz David Larsen, é verdade que o olho é um órgão da fala e que o contato com os olhos é importante (1989, 189), mas, mesmo numa conversa entre duas pessoas, não olhamos fixamente o outro interlocutor. O fato de escrever um esboço com letras grandes e com bastante espaço em branco entre as linhas ajudará os pregadores a melhorarem seu contato durante o discurso. Consultas momentâneas em nossas anotações não causam necessariamente perda de contato.

O esboço do sermão deve também ser “visível” ao ouvinte, isto é, a

redação de cada divisão deve ser curta e fácil de memorizar. Palavras que produzam imagens mentais são imprescindíveis a um esboço que possa ser memorizado. Rima e “música”, ou cadência, também ajudam o ouvinte a “ver” o esboço da mensagem enquanto ela se desenvolve. O expositor deve sempre ter consciência de que ele é um pastor-mestre (Efésios 4.11) e, como tal, deve trabalhar no sentido de uma “apreensão e resposta imediatas”. Este domínio mental das idéias e a resposta dada com atenção e volição não podem ocorrer quando o expositor emprega muitos termos abstratos em seu esboço do sermão e, conseqüentemente, em sua mensagem.

 

 

 

 

CONCLUSÃO

 

Pregação expositiva através dos livros da Bíblia não é algo comum na igreja dos dias atuais. Ao ler o terceiro volume de A History of Preaching (“História da Pregação”), observei que o autor classificou de vários modos os pregadores do século XX. Quando ele chegou a “Pregação Expositiva” entre 1900 e 1950, apenas quatro homens foram ali classificados. Ao fazer a descrição do “ministério da palavra” destes quatro pregadores, Turnbull destacou os seguintes conceitos da pregação expositiva: (a) ela é baseada na exegese de um texto bíblico; (b) é sistemática, isto é, acompanha os livros da Bíblia; (c) é praticada com mais beleza quando se tem a mente que arde com a chama do Espírito de Deus (Turnbull 1974, 247-249). Em

outras partes de seu livro, Turnbull classifica outros pregadores como

expositores, mas fora destas condições. Alegro-me com o fato de que estes princípios fazem parte das razões que subjazem os passos de estudo e preparo delineados neste trabalho.

Talvez, Satanás tenha uma estratégia especial, através da qual ele faça tudo para não divulgar a exposição da Palavra de Deus redentora e revivificante. Como ele faz isto? Primeiro, através de instituições de treinamento que não enfatizem a primazia da exposição. Enquanto lecionava na Faculdade Teológica Batista de São Paulo, a época uma das dezoito instituições de ensino da Convenção Batista Brasileira, aquela escola foi, por um período de aproximadamente dez anos, a única a oferecer um semestre inteiro concentrado na pregação expositiva. (Convém mencionar que mais de uma vez ficamos sabendo de seminários de outras denominações que ofereciam algo além do curso tradicional de homilética.) Possa Deus conceder esta visão a muitas outras escolas teológicas no Brasil!

Outra estratégia do inimigo da Igreja de Cristo é levar multidões de pregadores a pensarem que a crença intelectual na Palavra inerrante de Deus é suficiente. Isto é básico, mas não é suficiente. A crença deve possuir a qualidade da confiança ativa. A confiança ativa incorpora a crença no estilo de vida que uma pessoa leva. Dizer que a Bíblia é a Palavra inerrante de Deus é fácil. Todavia, expor a Bíblia com uma regularidade motivada pela confiança exige uma fé que coloque as coisas em seus devidos lugares. Sinto-me ofendido quando os sermões falam sobre a Bíblia, mas não são extraídos diretamente dela. Este sentimento é desagradável, principalmente quando o pregador é alguém que diz crer abertamente na Palavra inspirada de Deus. Mas quando ele, a cada domingo, utiliza trechos bíblicos isolados e truncados como textos de sua mensagem, como Deus pode agir de modo eficaz? Deus se revelou em frases inacabadas e pequenas? Sem uma profunda confiança na revelação coerente de Deus, ninguém poderá se tornar um ávido expositor da Palavra. David Buttrick escreve que “as razões para a pregação podem ser encontradas somente na fé”.

O pregador dos dias atuais precisa recuperar o espírito dos proclamadores do evangelho da era apostólica. Eles estavam totalmente convencidos de que Deus está se revelando através dos oráculos que lhes dera para proclamar. Apesar de extensa, a citação seguinte nos desafia e ensina a sermos expositores.

Duas vezes, Paulo descreve sua pregação como phanerosis, isto é, havia um desvendar ou uma exposição da mensagem em sua realidade inerente e em seu poder. Em Colossenses 4.4, ele pede ajuda na oração para que, assim, pudesse pregar. Em 2 Coríntios 4.2, ele faz um contraste entre pregação enganosa e “manifestação (phanerosis, “exposição”) da verdade”. Embora não pregue a si mesmo, mas a Cristo (2 Co 4.5), através desta exposição, ele escreveu, “nos recomendamos a consciência de todo homem, na presença de Deus” (2 Co 4.2). Ele estava pensando em seus motivos na pregação da Palavra de Deus. Contudo, observe que seus motivos estavam entrelaçados com a forma da pregação. É uma manifestação, uma exposição da verdade. Com isso, ele recomendava a si mesmo como alguém cujo ministério era controlado não apenas por um estilo específico de pregação, mas pela própria mensagem. Sua exposição da mensagem dominava sua apresentação. O conteúdo do evangelho domina o estilo e o espírito nos quais o evangelho é pregado (Logan 1985, 210).

No começo deste trabalho, definimos o sermão expositivo, dizendo que seu tema singular deve estar infundido na vida do pregador. É possível que, ao nos concentrarmos num método para o preparo da série expositiva, sem querer tenhamos desprezado a importância desta faceta. Nenhuma exposição se sustenta por si só. Seu conteúdo é a Palavra de Deus. Seu meio é a linguagem humana criativa e seu mediador é o homem de Deus que comunica a Palavra com sentimento e amor. Segundo afirma Erroll Hulse com bastante aptidão:

É claro que o pregador se preocupa com o mundo da exegese e da hermenêutica, com a estrutura e a fluência, com a simplicidade e a retórica; mas sem a piedade ele nunca será nem poderá ser um pregador (Logan 1986, 62).

Num dos retiros da ABU, os acampantes foram instruídos a passarem um dia sozinhos com Deus, lendo a Bíblia e orando. Não é necessário dizer que Deus visitou aquele retiro e que vidas foram permanentemente transformadas. Lembrando-me desta experiência, sempre exortava meus alunos do seminário a gastarem pelo menos um dia no mês somente com a leitura da Palavra. Ainda que nada mais possa levar a piedade, isto com certeza poderá. Estes dias freqüentes com Deus e sua Palavra garantirão um “ministério da palavra” coerente, prático e espiritual. Este hábito produziu ricos frutos na vida de G. Campbell Morgan.

Como expositor da Bíblia, Morgan descobriu desde cedo que devia ler e estudar toda a Bíblia, para que pudesse ser um intérprete competente das Escrituras em suas várias partes. Com uma mente sincera, ele se aplicou ao domínio da Bíblia em inglês. Ele lia e relia livro após livro, até encontrar o escopo da mensagem… Então estava pronto para consultar as línguas originais e os recursos da erudição e descobrir o significado essencial de um livro ou passagem. Algumas vezes, ele empregava um esboço simples para resumir um livro inteiro, conforme aconteceu com Gênesis, em três palavras: (1) geração, (2) degeneração e (3) regeneração. Era a luz disto que ele começava a análise detalhada do livro em questão. Ele observava a estrutura literária e tinha o cuidado de incluir todas as referências ao assunto, as quais pudesse recorrer, de modo que havia um acúmulo de material para o estudo sistemático e a exposição… Ele lidava com o texto, contexto, pano de fundo e estilo, trabalhando no estudo de palavras para elucidar e esclarecer significados e aplicações (Turnbull 1974, 435).

Queira Deus levantar centenas de arautos que, em amor fiel a ele, possam expor de modo coerente a Palavra da Vida!

OBRAS CITADAS

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 Consultas em anotações de aulas de seminários:

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 Whitesell, Faris Daniel; Preaching Clinic, 1952.

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4 thoughts on “Prega a Palavra – Passos para a Exposição Bíblica (PREGAÇÃO EXPOSITIVA)

  1. apaz de nosso senhor jesus cristo .
    gostei muito do que esta escrito mas como posso apreender sabendo eu que tenho pouca leitura sou de uma familha do norte de minas das gerais e quero a profudar no conhecimento,pois estou em uma cidade onde a palavra ja nao e encinada como deve os que se diz formado em teologia se perdem no caminho e rouba as virtude do verdadeiro evangelho deixando para traz o verdadeiro conhecimento me ajude a ser um bom pregador pois sei que vcs sao capaz .

  2. O Senhor é um exemplo na minha vida por que ele disse :
    Crê no Senhor Jesus e sua familia sera salva

    e a metade da minha familia foi salva em cristo
    a outra metade creio que Deus o todo poderoso que a outra metade ele vai salvar

  3. Excelente estudo. Meus cumprimentos ao autor.
    Que o SENHOR JESUS CRISTO continue abençoando.

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