A Igreja e sua Responsabilidade Social (mas com observância e obediência à Bíblia)


Proposta de responsabilidade social do Pacto de Lausanne.

A responsabilidade social cristã no Pacto de Lausanne.

O testemunho histórico da Missão Integral

Base bíblico-teológica para a responsabilidade social

Os desafios que pesam sobre a Igreja diante da questão social à luz do Pacto de Lausanne 

Introdução

Vivemos num mundo em ebulição. A transformação promovida pela globalização é algo inquestionável. Ao invés de apenas facilitar processos, ela, a globalização, tem aumentado a crise. A miséria tem mostrado sua cara feia, como cm poucos momentos da história. O abismo entre uns poucos que têm muito e a maioria que não possui o suficiente tem aumentado no mundo.

Se a globalização tem acentuado a desigualdade social no mundo, no Brasil cm particular e na América Latina de um modo geral, a história não é diferente.

Caio Fábio D’Araújo Filho afirma que:

O Brasil é um país completamente tomado por antagonismos. De um lado, tem-se uma economia forte, um parque industrial moderno e uma das maiores riquezas naturais do planeta; de outro lado, tem-se a sexagésima quarta renda per capita do mundo, uma concentração econômica na qual urna minoria da população controla cerca de 70% dos bens do país, e uma dívida social descomunal, caracterizada pela existência de milhões de miseráveis.

Lado a lado, convivem mansões – copiadas das revistas mais sofisticadas do primeiro mundo – e casebres feitos de papelões e cheios de tanta sujeira que, nem mesmo os cães, acostumados à boa vida da casa dos ricos, conseguiriam neles viver… É dentro deste caldeirão de ambigüidades e antagonismos, que emerge, vive e acontece a Igreja Evangélica. A Igreja Evangélica não pode ficar fora de qualquer análise que se faça desse país.1

Infelizmente, essa é a cara do Brasil. Um país em crise. E é no meio de toda esta crise que a Igreja está inserida e, de alguma forma, precisa dar uma resposta que crie a possibilidade de transformação.

Quanto à América Latina, Samuel Escobar afirma que a década de 80 tem sido chamada de “década perdida”, por causa da deterioração visível das condições sociais em toda a América Latina.2

Qual deve ser a resposta da Igreja num momento difícil como o que vivenciamos, principalmente, como lembra-nos Paul Freston, a coincidência do crescimento evangélico com as crises sociais e religiosas não produzirá, por si só, efeitos históricos saudáveis. Pelo contrário, a visibilidade crescente tem deixado dolorosamente expostas as carências teológicas, éticas e pastorais? 3 Sem dúvida alguma o desafio que temos diante de nós é maior do que normalmente aquilatamos.

Entendo que, diante do aumento da pobreza, do aumento da violência e da criminalidade que testemunham o caos estabelecido no mundo, a compreensão da prática de Jesus diante do sofrimento humano poderá, não apenas nos desafiar, mas, nos dará bases para que encontremos o paradigma para uma Ação Social da Igreja.

É por causa do caos estabelecido que me sinto impulsionado a refletir sobre a responsabilidade social da igreja, de maneira especial, voltar a minha atenção ao Congresso internacional de Evangelização Mundial, realizado em Lausanne, Suíça, em 1974.

Capítulo 1

Proposta de responsabilidade social do Pacto de Lausanne

O Congresso Internacional de Evangelização Mundial, ocorrido na cidade de Lausanne, Suíça, entre os dias 16 e 25 de julho de 1974, tornou-se o mais importante referencial dos evangelicais espalhados pelo mundo. “Um foro formidável, possivelmente a reunião mais global já realizada pelos cristãos””, foi o comentário da “Revista Time” sobre o encontro, como lembra René Padilla em seu livro, “Missão Integral”.

Lausanne 74 foi, indubitavelmente, o maior evento da história do evangelicalismo, demonstrando que a Igreja encontrava-se em perfeita harmonia com sua época. Evidencia-se tal assertiva ao ser observado o leque de temas propostos, encabeçado pela evangelização e tratado pelos congressistas. Alguns deles merecem destaque: a questão cultural, a realidade da pobreza que vem atingindo milhões de pessoas, a responsabilidade social cristã, a batalha espiritual, dentre outros. Estas sintonia e preocupação com a realidade foram um dos fatores que tornaram o referido encontro tão significativo e contundente para as décadas que se seguiram.

É preciso, todavia, compreender o que motivou a realização do Congresso de Lausanne. Assim sendo, imperioso historiar e analisar o contexto no qual se deu o congresso, a fim de que seja possível verificar a proposta nele apresentada sobre a responsabilidade social da Igreja.

O Congresso Internacional de Evangelização Mundial foi convocado pela Associação Evangelística Billy Graham e cerca de 4000 líderes do mais amplo espectro denominacional, oriundos de 151 países, acorreram ao magno congraçamento que apresentou como tema: “Que o Mundo Ouça a Sua Voz”. A Igreja, espalhada pelo mundo, estava sendo desafiada a reafirmar a sua vocação, no intuito de considerar estratégias c programas para cumprir a grande comissão. Em outras palavras, procurava-se visualizar desafios e recursos, visando à evangelização de todo o mundo.

O congresso pretendia reunir evangélicos desejosos de afirmar a autoridade da Bíblia. John Stott afirma que a razão para tanto foi, pelo menos cm parte, a existência de uma crise de confiança em relação ao Conselho Mundial de Igrejas -CMI. A existência de uma tensão entre os evangelicais (como eram chamados) e os ecumênicos era evidente à época, até porque, segundo o CMI, aos primeiros faltava um envolvimento social mais relevante.5

Billy Graham, cm sua mensagem de abertura do Congresso de Lausanne, fez e respondeu à seguinte pergunta: Por que Lausanne? Para que o mundo ouça a Sua voz! Na ótica de Graham, nunca tantas pessoas estiveram tão sensíveis à mensagem do evangelho de Jesus quanto nos últimos tempos, mas, ao mesmo tempo, nunca se viu uma influência do secularismo tão presente no seio da Igreja como nos últimos dias. Sendo assim, revela-se necessário que a Igreja una-se para proclamar a divindade de Jesus, bem como a salvação que Ele oferece. Graham afirmou que sua esperança e sua oração eram ver a Igreja, ainda que não política ou sociologicamente, voltar teologicamente às visões e aos conceitos das grandes conferências do início do século XX, dentre elas a de Nova Iorque em 1900 e a de Edimburgo, na Escócia, em 1910. Isto porque, sob o prisma de Billy Graham, a Igreja vem perdendo muito da sua visão e do seu fervor por três razões elementares:

1 – Perda de autoridade da mensagem do Evangelho;

2 – Preocupação com problemas político-sociais;

3 – Preocupação com a unidade organizacional da igreja.6

Na mesma mensagem ainda, Grahan esboçou quatro convicções que deveriam caracterizar Lausanne:

  • A autoridade das Escrituras;
  • O homem, fora de Jesus Cristo, está perdido;
  • Só há salvação em Jesus Cristo;
  • O testemunho cristão deve englobar tanto a palavra, como também as obras.7

 

Lausanne 1974 nasceu num contexto muito amplo. Desde a década de 1920, os cristãos têm-se inclinado à polarização. Enquanto uma ala da Igreja experimenta um crescente declínio do seu ímpeto evangelizador, a ala fundamentalista experimenta uma grande vitalidade e faz um significativo investimento na obra evangelizadora. Enquanto a primeira preocupa-se com o social, a segunda imagina que a necessidade fundamental do ser humano é ouvir uma mensagem evangelizadora que lhe apresente o céu como destino último, por isso sua mensagem inclina-se numa única direção, a evangelização. Stott lembra que, durante cerca de cinqüenta anos (1920-1970) os evangélicos, tentando defender a fé histórica bíblica contra os ataques do liberalismo, reagiram em oposição ao seu “evangelho social”, concentrando-se na evangelização. O capítulo 3 preocupa-se mais sobre esta questão histórica em particular.

A partir do Congresso sobre a Missão Mundial da Igreja, ocorrido em Wheaton, entre os dias de 9 a 16 de abril de 1966, os evangelicais reafirmaram que a mais urgente necessidade da Igreja é a evangelização e a implantação de novas igrejas. O tema, crescimento da Igreja, entrou na pauta e tornou-se a bandeira de uma parcela mais fundamentalista da Igreja. Wheaton foi marcado por freqüentes ataques ao movimento ecumênico, acusado de liberalismo teológico, perda da convicção evangélica, universalismo da teologia, substituição da evangelização pela ação social e a busca da unidade em preterição da verdade bíblica.8 No entanto, o congresso deu um passo significativo em direção a uma visão holística do evangelho, visto que nele foi possível discutir a relação entre evangelização e ação social. Foi também uma inegável oportunidade para ouvir outras vozes evangélicas, provenientes de outros países que não os Estados Unidos da América. Naquele mesmo ano de 1966, entre os dias de 24 de outubro e 4 de novembro, realizou-se o Congresso Mundial de Evangelização de Berlim, patrocinado pela Christianity Today, que trouxe à tona, novamente, a urgência da evangelização. O congresso estava comprometido com a autoridade última da Bíblia e rejeitava todo pensamento sobre evangelização que não houvesse encontrado esteio nas Sagradas Escrituras. O esforço evangelístico foi reafirmado como tarefa primordial da Igreja, ao mesmo tempo em que se evidenciou uma sensível preocupação com a relação evangelização-ação social. Berlim indagou acerca do racismo, fazendo-lhe uma severa crítica e entendendo-o como empecilho ao testemunho evangelístico. Talvez uma das principais atitudes ali ressaltadas foi destinar maior visibilidade à causa evangelical. Luiz Longuini Neto afirma que o citado congresso deu início ao movimento evangelical contemporâneo.9

David M. Howard, Secretário da Aliança Evangélica Mundial apresentou, na Conferência de Wheaton, uma palestra intitulada “De Wheaton 66 a Wheaton 83″. Neste trabalho ele traçou a história do esforço do evangelicalismo pata definir a natureza e a missão da igreja. Enquanto em Wheaton 66 e Berlim 66 a tendência foi definir a missão da Igreja quase que exclusivamente em termos de evangelismo, Lausanne 74 representou uma compreensão mais ampla ao enfatizar tanto o evangelismo como a responsabilidade social, enquanto dava primazia ao evangelismo.10

Lausanne sofreu grande influência de Wheaton e de Berlim. A investigação indica, contudo, que Lausanne nasceu com o objetivo de encontrar um equilíbrio entre evangelização e ação social, mas onde a evangelização deveria receber prioridade, sem que isto significasse uma alienação quanto à questão social. Neste sentido o congresso suíço foi um formidável avanço em relação aos encontros evangelicais anteriores que, conquanto tenham abordado o tema, não conseguiram ampliar a visão da missão da Igreja.

O congresso foi significativo em três sentidos principais. Primeiro, como com as reuniões do Concilio Mundial de Igrejas, a partir dos anos sessenta, o Terceiro Mundo manteve presença em Lausanne. Metade dos participantes, dos oradores e do comitê de planejamento era do Terceiro Mundo. Além disso, alguns dos documentos pronunciados mais provocativos e influentes foram de dois latino-americanos, Samuel Escobar e René Padilla.

Em segundo lugar, como aconteceu com o catolicismo romano no Segundo Concilio Vaticano, a atitude anterior dos evangélicos de “triunfalismo” foi substituída por uma atitude de arrependimento. Lausanne representa a importância e influência crescente do Evangelicalismo universal, mas isto tem sido acompanhado por um reconhecimento de que nem tudo foi saudável no passado e que lições podem ser aprendidas com os outros.

Em terceiro lugar, este arrependimento é manifesto, especialmente na área de responsabilidade social cristã. Enquanto os evangélicos estavam em primeiro plano na preocupação social no século passado, este século tem visto uma inversão e, em muitos casos, uma total retirada do campo.11

O Pacto de Lausanne destaca-se entre as muitas contribuições significativas do congresso. Formulou-se esta declaração, dividida em quinze parágrafos, a qual, ainda hoje é lida com todo o respeito, já que, de certa maneira, ousou posicionar-se contra um evangelho mutilado e um conceito estreito de missão cristã. Dentre os vários temas contemplados pelo pacto, talvez o de maior melindre haja sido a questão da responsabilidade social da Igreja. Robinson Cavalcanti, referindo-se ao pacto, afirmou que, por excelência, ele é uma confissão de fé para os dias hodiernos.12

Loguini Neto menciona outras reações ao Pacto, demonstrando que houve um significativo boicote ao mesmo.

O boicote ao Pacto de Lausanne aconteceu, desde então, articulado por grupos fundamentalistas que o achavam extremamente progressista. Dentre esses grupos podemos citar: a Associação Evangelística de Luis Palau; a Cruzada Estudantil e Profissional para Cristo; e a Escola de Missões do Seminário Fuller, cujo líder é Peter Wagner. No ano de 1988, alguns líderes eclesiásticos solicitaram ao Celep que promovesse uma consulta sobre o impacto do Movimento de Lausanne na América Latina, demonstrando uma preocupação legítima, uma vez que a intuição daqueles líderes estava correta: havia realmente um boicote ao Pacto de Lausanne na América Latina. No Brasil, uma publicação que traz o sugestivo título “Depois de Lausanne… Evangelismo na América Latina” apresenta relatórios e mensagens do 1º e 2º Encontros de Líderes Evangélicos na América Latina. Este material foi auspiciado por um “Comitê pós-Lausanne” em junho de 1977 e tinha como presidente o pastor batista Nilson do Amaral Fanini, que atualmente preside a Convenção Batista Brasileira. O único mérito da publicação, que a identifica com o espírito de Lausanne, é apresentar o pacto; o restante é quase uma traição aos princípios estabelecidos por ele.16

Não obstante as reações haverem sido tão diversas contra o Pacto de Lausanne, ele continua sendo um documento de constante leitura e releitura, pois conseguiu visitar e tratar, com absoluta seriedade, temas presentes na agenda da Igreja. Entendo que, para uma melhor compreensão do Pacto, cabe citá-lo, não integralmente, mas de maneira sucinta, dando ênfase aos seus parágrafos, numa adaptação do comentário ao Pacto feito por John Stott. Abaixo, é transcrito o termo de abertura do Pacto de Lausanne e, em seguida, uma síntese do mesmo, enfatizando especialmente o quinto parágrafo que trata sobre a responsabilidade social da Igreja.

Nós, membros da igreja de Jesus Cristo, procedentes de 150 nações, participantes do Congresso Internacional de Evangelização Mundial, em Lausanne, louvamos a Deus por sua grande salvação, e regozijamo-nos com a comunhão que, por graça dele mesmo, podemos ter com ele e uns com os outros. Estamos profundamente tocados pelo que Deus vem fazendo em nossos dias, movidos ao arrependimento por nossos pecados e desafiados pela tarefa inacabada da evangelização. Acreditamos que o evangelho são as boas novas de Deus para todo o mundo e, por sua graça, decidimo-nos a obedecer ao mandamento de Cristo de proclamá-lo a toda a humanidade e fazer discípulos de todas as nações. Desejamos, público o nosso pacto.17

O propósito de Deus

A autoridade e o poder da Bíblia

A unicidade e a universalidade de Cristo

A natureza da evangelização

A responsabilidade social cristã

A Igreja e a evangelização

Cooperação na evangelização

Esforço conjugado de Igrejas na evangelização

Urgência da tarefa evangelística

Evangelização e cultura

Educação e liderança

Conflito espiritual

Liberdade e perseguição

O poder do Espírito Santo

O retorno de Cristo

1. O propósito de Deus

O Pacto de Lausanne começa mencionando a vocação divina, porque em Deus a Igreja é chamada e enviada à missão. Ele é o Deus missionário. Tudo começa com Ele.

John Stott comenta que “o primeiro parágrafo do Pacto expressa a compreensão trinitária da missão e encara a tarefa missionária da Igreja como uma vocação dos membros do povo de Deus de serem servidores e testemunhas com vistas à expansão do reino de Deus”.18

A) O caráter de Deus

A convenção não pretende fazer uma análise acurada sobre o Ser de Deus. Mesmo assim, o primeiro parágrafo demonstra que Nele residem as nossas motivação e vocação. Ele é o único Deus eterno, Criador e Senhor do mundo.

B) O propósito de Deus

O propósito divino foi chamar um povo para Si. Quando o acordo faz esta afirmação, apresenta-nos o caráter redentor de Deus.

C) A vocação humana

O Deus que redime é o mesmo que envia o povo redimido, mesmo em vasos de barro, o Evangelho continua sendo um tesouro precioso.

2. A autoridade e o poder da Bíblia

A Bíblia são as Escrituras do Antigo e do Novo Testamentos, que, em sua totalidade, refletem aquilo que dá autoridade à vocação da Igreja. É a partir das Escrituras que a Igreja ouve a voz de Deus, a qual a chama e a envia à missão.

A) O poder da Bíblia

O Pacto afirma o poder da Palavra de Deus. Quando Deus fala, também age. Sua Palavra nunca volta vazia para Ele; sempre cumpre o seu propósito (Is. 55:11).

B) A interpretação da Bíblia

O Pacto esclarece que a mensagem bíblica é a mesma para todos os homens, em todos os lugares e em todos os tempos. Entretanto, ao mesmo tempo, enfatiza a participação do Espírito Santo, iluminando as mentes para que as Escrituras tornem-se verdade constantemente inovadora no coração do ser humano.

3. A unicidade e a universalidade de Cristo

O terceiro parágrafo é intransigente em sua visão cristocêntrica, bem como em sua leitura sobre o pecado do ser humano, seu afastamento de Deus e sua incapacidade de encontrar salvação de per si. Deus, em Cristo Jesus, tomou a iniciativa de alcançar o ser humano com Sua graça.

A) Ele é o único Salvador

O ser humano dispõe de algum conhecimento sobre Deus, isto se dá em face da revelação geral. Contudo, este conhecimento não lhe confere a capacidade de experimentar a salvação. Jesus Cristo é o único Salvador.

B) Ele é o Salvador do mundo

Por ser Ele, Jesus Cristo, o único Salvador, a Igreja precisa fazê-lo conhecido universalmente. Proclamar a Jesus Cristo como “o Salvador do mundo” é anunciar o amor de Deus a um mundo de pecadores. Amor tamanho, que fez o Senhor dar seu único Filho à morte na cruz.

4. A natureza da evangelização

No seu sermão de início, Billy Graham expressou, como esperança primeira em relação ao congresso, o desejo de que ele formulasse uma declaração bíblica sobre a evangelização. Ao final, Grahan, declarou-se satisfeito, porque entendeu que tal expectativa foi concretizada, tornando-se esta um fato de consenso em todo o encontro.

No quarto parágrafo, o Pacto inicia com uma definição e prossegue descrevendo o contexto da evangelização; a saber, o que deve vir antes e depois dela.

A) Definindo evangelização

A palavra “evangelização” deriva de um termo grego que representa, em seu sentido literal, “trazer ou difundir boas novas”. Sendo assim, ao falar sobre evangelização, é preciso haver em mente o conteúdo da evangelização, a pessoa de Cristo Jesus.

B) Prelúdio à evangelização

A verdadeira evangelização nunca ocorre num vácuo. Ela pressupõe um contexto do qual não se pode isolar. Certa situação necessariamente a precede. Ao referir-se a tão imprescindível pressuposto, o Pacto deliberadamente usa as palavras “presença”, “proclamação”, “persuasão” e “diálogo”.

O prelúdio da proclamação é a presença. Como partilhar o Evangelho de Jesus Cristo com pessoas com as quais não mantemos nenhum contato? A presença cristã no mundo não substitui a proclamação, a persuasão ou o diálogo, antes, vem a ser o preâmbulo de todos estes elementos.

C) Os resultados da evangelização

A evangelização traz como resultado a obediência a Cristo, o ingresso em sua Igreja (pertencer a Cristo é pertencer ao povo de Cristo, At 2.40, 47) e um serviço responsável no mundo.

5. A responsabilidade social cristã

Indubitavelmente este foi o tema mais controverso de todo o Pacto, que, inclusive, precisou ser discutido, com mais vagar, em Grand Rapids, 1982. Se, por um lado, o enfoque cristocêntrico demonstrou o conservadorismo da convenção, de outro modo, quanto ao aspecto social, testemunhou-se em Lausanne uma visão, no mínimo, progressista. Por agora, não há a pretensão de desenvolver o prisma do qual partiu o Congresso quanto à questão social, fá-lo-ei adiante e de forma mais acurada.

6. A Igreja e a evangelização

Neste parágrafo, acentua-se limpidamente que a Igreja foi enviada ao mundo da mesma forma que o Senhor Jesus o foi e isso requer uma penetração profunda e sacrificial na sociedade não-cristã.

A) Deixando os guetos eclesiásticos

A Igreja foi chamada para deixar os seus guetos. Fomos convocados a abandonar as quatro paredes de um templo c, ao nos dirigirmos ao mundo, impactá-lo com a verdade do Evangelho.

B) Prioridade evangelística

Na missão de serviço sacrificial da Igreja, a evangelização é primordial. Partindo da premissa do sexto parágrafo, o referido serviço é inarredável, todavia, a evangelização é algo prioritário.

7. A cooperação na evangelização

No primeiro parágrafo do ajuste há uma referencia ao propósito de Deus para a Igreja, mas esse propósito encontra-se melhor trabalhado em dois parágrafos que podem ser estudados conjuntamente. Eles aludem à missão da Igreja e às suas integridade e unidade.

A) Unidade diante da verdade

O que reveste o testemunho de autoridade é a unidade, o divisionismo simplesmente depõe contra nós.

B) Unidade mais ampla

A unidade que o sétimo parágrafo enfatiza passa necessariamente pela uniformidade na verdade, na adoração, na santidade, na missão e na cooperação, em que o compartilhar recursos e experiências faça-se presente.

8. Esforço conjugado de Igrejas na evangelização

O oitavo parágrafo lembra o papel da Igreja, todo o corpo de Cristo, como comunidade missionária que envia missionários para as mais diversas, longínquas partes do mundo.

A) Todo o corpo de Cristo, um povo missionário

Esta alínea enfatiza que, no passado, a função dominante das missões do Ocidente era muito clara, mas hoje, esta função tem desaparecido rapidamente. Sendo assim, novas frentes missionárias devem ser levantadas, nesse sentido, todo o corpo de Cristo deve sentir-se responsável pela evangelização, tanto na sua própria área, na sua própria realidade, como a partir do envio de missionários a localidades mundiais diversas.

9. Urgência da tarefa evangelística

Tanto o parágrafo oitavo, quanto o nono tratam do mesmo tema: evangelização. Ambos podem ser lidos e entendidos de forma conjugada, pois este é o âmago do Pacto de Lausanne.

A) Urgência diante dos esquecidos

Lausanne lembra que mais de dois bilhões e setecentos milhões de pessoas, dois terços da humanidade, ainda precisam ser alcançados com o Evangelho de Jesus. Muita gente tem sido esquecida. A Igreja precisa ser sensível, percebendo que, nos últimos dias, tem existido uma significativa receptividade à mensagem do Evangelho, sendo assim, ela não pode desprezar tão considerável oportunidade.

B) Instituições Para-Eclesiásticas

Não obstante o pacto, em seu sexto parágrafo, destacar que o “meio designado por Deus para difundir o Evangelho” seja a Igreja, reconhece-se a validade das instituições para-eclesiásticas, as quais, na missão, devem tornar-se parceiras da Igreja.

C) Missionários estrangeiros

O parágrafo nono sugere que o número de missionários estrangeiros, bem como o dinheiro enviado para um país evangelizado sofra significativa diminuição, entendendo que o redutor pode facilitar o crescimento da igreja nacional e assegurar a autonomia desta.

D) Os milhões empobrecidos

A pobreza de milhões deveria chocar a Igreja. Infelizmente, o que se tem visto é um acostumar-se com a desgraça alheia, como se isto representasse apenas um reflexo do juízo divino. A Igreja precisa sentir-se indignada diante da miséria do outro, abrindo mão de sua opulência, optando por um estilo de vida simplificado e tornando-se mais generosa diante da necessidade do outro. Não se pode abrir morada para a alienação no seio da Igreja de Jesus.

10. Evangelização e cultura

O desenvolvimento de estratégias para a evangelização mundial requer metodologia nova e criativa. A Igreja precisa ser sábia para proclamar o Evangelho dentro de culturas distintas, respeitando-as, posto que, parte delas, é rica em beleza e em bondade.

A) Não existe uma cultura superior à outra

O Evangelho não pressupõe a superioridade de uma cultura sobre outra.

11. Educação e liderança

O décimo e o décimo primeiro parágrafos lidam com dois temas relacionados entre si: educação e liderança. Ambos estão atrelados a Igrejas nascidas do labor missionário.

A) Crescimento com lucidez

Infelizmente a busca por resultados quantitativos tem caracterizado a Igreja. O crescimento numérico tem sido um grande anseio em detrimento do crescimento espiritual. Imprescindível haver um nítido equilíbrio. A igreja deve crescer numericamente sem prejuízos à educação e ao amadurecimento, demonstrando insofismável interesse pela edificação de cada crente.

B) Preparando a liderança

A Igreja necessita preparar uma liderança dentro de sua própria cultura. Os pastores e leigos devem ser treinados e preparados em doutrina, discipulado, evangelização, edificação e serviço. Esse treinamento deve ser desenvolvido a partir de iniciativas locais ativas e criativas e sob o esteio do padrão bíblico.

12. Conflito espiritual

A realidade espiritual hodiernamente vivenciada vislumbra maior ênfase na décima segunda disposição. O conflito com principados e potestades do mal que almejam destruir a Igreja e impedir a sua tarefa de evangelização mundial é uma realidade. Ainda, observa-se que esta mesma alínea exalta a influência do mundo sobre a Igreja. A “mundanidade” no cerne da Igreja deve ser vista com preocupação, pois a mesma pode afetar a sua mensagem e os métodos de evangelização. Sob o eco de João 17.14-16, a Igreja é advertida a estar no mundo, porém o mundo não necessita estar na Igreja.

13. Liberdade e perseguição

A Igreja deve desfrutar da liberdade expressa na Declaração dos Direitos Humanos, enfoca o décimo terceiro parágrafo. Neste ponto, existe um desafio para que a Igreja denuncie as injustiças que têm solapado muitos países e, por conseguinte, atingido a Igreja. Existe uma ostentação sobre a fidelidade, a qualquer custo, lembrando-nos de que servir a Jesus fielmente pode trazer perseguição.

14. O poder do Espírito Santo

A décima quarta disposição realiza uma afirmação categórica: “cremos no poder do Espírito Santo”. Este parágrafo estimula a Igreja e desperta-a para viver e caminhar na dependência c no poder do Espírito Santo.

15. O retorno de Cristo

O décimo quinto parágrafo está revestido de esperança. O retorno de Jesus será o ápice daquilo que a Igreja anseia.19

Para melhor discorrer sobre o tema e o significado do mesmo para a Igreja de Jesus, transcreve-se abaixo o quinto parágrafo do Pacto de Lausanne:

Afirmamos que Deus é o Criador e o Juiz de todos os homens. Portanto, devemos partilhar Seu interesse pela justiça e pela reconciliação em toda a sociedade humana, e pela libertação dos homens de todo tipo de opressão. Porque a humanidade foi feita à imagem de Deus, toda pessoa, sem distinção de raça, religião, cor, cultura, classe social, sexo ou idade possui uma dignidade intrínseca em razão da qual deve ser respeitada e servida, e não explorada. Aqui também nos arrependemos de nossa negligência e de havermos, algumas vezes, considerado a evangelização e a atividade social mutuamente exclusivas. Embora a reconciliação com o homem não seja reconciliação com Deus, nem a ação social evangelização, nem a libertação política salvação, afirmamos que a evangelização e o envolvimento sócio-político são ambos parte do nosso dever cristão. Pois ambos são necessárias expressões de nossas doutrinas acerca de Deus e do homem, de nosso amor por nosso próximo e de nossa obediência a Jesus Cristo. A mensagem da salvação implica também uma mensagem de juízo sobre toda forma de alienação, de opressão e de discriminação, e não devemos ter medo de denunciar o mal e a injustiça onde quer que existam. Quando as pessoas recebem Cristo, nascem de novo em seu reino e devem procurar não só evidenciar, mas também divulgar a retidão do reino em meio a um mundo injusto. A salvação que alegamos possuir deve estar nos transformando na totalidade de nossas responsabilidades pessoais e sociais. A fé sem obras é morta.20

16. O caráter de Deus

A primeira parte da disposição acima transcrita focaliza o Ser de Deus, Ele é o Criador e Juiz de todos os homens. Como afirmou Stott, “é significativo que uma disposição inteiramente relacionada com a ‘responsabilidade social cristã’ tenha origem com uma afirmação acerca de Deus. Isto está certo, pois a nossa teologia deve sempre governar a nossa conduta”.21

Quando a assertiva acima inicia falando sobre Deus, está querendo dizer que o pilar de sustentação de nossas ações está no caráter do próprio Deus. Sendo assim, nada melhor do que olhar para o Deus missionário, o Deus que toma a iniciativa de resgatar a humanidade, o Deus que envia o próprio filho, filho que não apenas vem como Salvador, incumbido de transferir o ser humano da terra para o céu, mas, inclusive, disposto a tratá-lo com dignidade, carinho e atenção. A nossa motivação para agir em favor do próximo deve ser a ação divina em favor da humanidade.

17. O ser humano

Se na primeira parte da assertiva a exaltação recai sobre o caráter divino, na segunda, destaca o ser humano. A motivação da igreja na ação social passa inevitavelmente pela percepção de que Deus criou o ser humano à sua imagem. Esta percepção deve levar a Igreja ao arrependimento pelos tempos em que se omitiu e acomodou, deixando de agir de modo que gerasse transformação e libertação da humanidade em face de qualquer tipo de opressão.

O pacto, com muita felicidade, instiga os cristãos a partilhar do interesse divino pela justificação e reconciliação de toda a sociedade humana, pois o ser imagem de Deus e o ser por Ele criado, torna o homem indistintamente especial, de cujo valor a Igreja não se pode deslustrar, independentemente de raça, cor, religião, cultura, classe social, sexo ou idade.

18. Evangelização e ação social

Pretendendo evitar maiores delongas, neste momento, sobre a relação evangelização-responsabilidade social o que farei posteriormente. Porém, desde já, saliento o que o Pacto afirma sobre este aspecto.

Lausanne estabelece que a Igreja foi chamada, tanto para a evangelização, quanto para a ação social, entendendo que são elementos distintos e que devem integrar o dever cristão, pois ambos relacionam-se com o Ser de Deus e com o caráter c a necessidade do ser humano. Evangelização e ação social não são excludentes, ao contrário, devem ser parceiras na missão.

19. Uma voz profética

O parágrafo que ora se destaca também dá ênfase ao papel profético da Igreja. A mensagem de salvação é mensagem de juízo sobre toda alienação, opressão e discriminação, desta forma, ela também deve denunciar o mal e a injustiça onde quer que estes se façam presentes.

20. Salvação deve ser sinônimo de transformação

A alínea conclui com um desafio ao compromisso cristão pessoal. Ser cidadão do reino evidencia, na prática, aquilo que aconteceu na vida por causa da presença de Jesus. E esta presença deve revolucionar a vida do cristão. Ser cristão, significa ter passado por uma metamorfose, conceitos e posturas são revistos e transformados.

De alguma maneira, o que foi dito até aqui permite dispor de um vislumbre do que Lausanne afirmou sobre a responsabilidade social da Igreja. Mas, se a afirmação de Lausanne foi um progresso, tal atitude não foi vista com tanta tranqüilidade. O Pacto coloca, lado a lado, a evangelização e a responsabilidade social, mas não define a relação existente entre as duas. A responsabilidade social da igreja suscitou discussões quanto à preeminência. Afinal, quem virá primeiro: a evangelização ou a responsabilidade social?

As discussões e a desconfiança sobre a questão social em preterição da evangelização foram instrumentos que, em 1 982, em Grand Rapids, motivaram um grupo a debater e definir mais claramente qual a relação entre evangelização e responsabilidade social. Com maior exatidão, o tema será desenvolvido a posteriori.

 

Capítulo 2

A responsabilidade social cristã no Pacto de Lausanne

1. A relação entre responsabilidade social e evangelização

Na primeira parte deste trabalho, foi apresentada a proposta de responsabilidade social do Pacto de Lausanne. Posteriormente, revelou-se a dificuldade em reconhecer-se a relação entre evangelizaçao e responsabilidade social, o que inevitavelmente gerou um certo conflito no Congresso Suíço. Indaga-se, porém qual dos dois seria mais importante. Será que evangelizaçao exclui a ação social da Igreja? Ou será que a ação social é que exclui a ação evangelizadora?

Cada época tem conhecido controvérsias e debates no campo da teologia, alguns de difícil aplicação para o cotidiano, como o clássico debate sobre o “sexo dos anjos” na Igreja Bizantina, outros de caráter mais relevante como “para que serve a Igreja?”, ou seja, qual a natureza de sua missão? Uma influência platônica tem estado presente ao longo da História do Cristianismo, separando corpo e alma, matéria e metafísica. Em nossos tempos essa influência tem sua face visível naqueles cristãos apenas preocupados com a “alma’1, a “vida espiritual” (contrastada com a vida material), o “outro mundo”, a vida após a morte, de tendência ascética, separatista e alienada. Para essas pessoas, a missão da Igreja é resgatar indivíduos isolados, garantindo-lhes a vida abençoada após a morte, enquanto aqui deve se separar do mundo, cultivar uma religiosidade intimista, lutando contra a “carne”, manifestada em usos e costumes. O mundo não tem futuro, nada nos resta fazer por ele, e não nos devemos meter em questões políticas, sociais e econômicas. A vida do homem deve se resumir a ir para o trabalho, para a igreja e para sua casa… e que tudo o mais vá para o inferno…22

Por ora, discorre-se detalhadamente sobre a controvérsia acima referida, a qual indubitavelmente despertou os mais significativos entraves para os participantes de Lausanne. As respostas às questões acima verificam o que de fato afirmou o mencionado congresso, levantando-se um apanhado de posições que encontram uma enorme dificuldade em relacionar a evangelização com a responsabilidade social.

O assunto em questão leva inevitavelmente a definições, mesmo sabendo que a conceituação importa enclausurar os termos “Evangelização” e “Responsabilidade Social”. Paralelamente, analisa-se o que o Pacto de Lausanne afirmou sobre a questão, bem como o que a Consulta de Grand Rapids, concluiu sobre o assunto, buscando entender como os dois elementos relacionam-se.

Falar sobre responsabilidade social encontra, ainda hoje, certa resistência de alguns, porque existe considerável receio de que a ação social engendre algum tipo de alienação evangelística. Peter Wagner afirma que vários grupos de trabalho foram nomeados pelas sete maiores denominações nos Estados Unidos da América, onde a maioria dos membros é branca (a Igreja Metodista Unida, a Igreja Evangélica Luterana, a Igreja Presbiteriana, a Igreja Luterana — Sínodo de Missouri — a Igreja Episcopal, a Igreja de Cristo Unida e as Igrejas Batistas), para verificar a razão do decréscimo ocorrido em sua membresia no período entre 1946 a 1996, quando perderam dois terços de seus membros. Os relatórios concluíram que a forte preocupação com o social, em detrimento da obediência ao mandamento evangelístico, tem sido uma das principais causas do declínio das igrejas.23

A impressão é de que a resistência de certa ala da Igreja à questão social está diretamente relacionada com a influência do evangelho social, sendo este um tema defendido pelos liberais e que suscitou, da parcela conservadora da Igreja, o que ficou conhecido como os fundamentos, os quais eram artigos escritos por conservadores americanos de todas as denominações históricas que se coligaram para defender a fé cristã da intrusão do liberalismo nos seus seminários e igrejas. Os fundamentos deram origem ao termo Fundamentalismo, conforme o conhecemos, embora, hodiernamente, haja se tornado um conceito pejorativo.

Por um lado, se os fundamentalistas, como ficaram conhecidos aqueles que produziram e acolheram esse documento, resgataram a importância das Escrituras (inspiração, infalibilidade e inerrância), a divindade de Cristo, o nascimento virginal de Cristo e os milagres, o sacrifício propiciarório de Cristo e sua ressurreição literal e física e seu retorno, por outro lado, radicalizaram, chegando mesmo a atingir extremos tão perigosos quanto o liberalismo de que tentavam defender-se. Numa tentativa de rechaçar a teologia liberal com todos os seus “perigos” resolveram também repelir o que de melhor havia nos teólogos liberais, especialmente quanto à sua visão holística do ser humano e sobre a responsabilidade social da Igreja.

Ás vezes a diferença entre estes pontos de vista se evidencia não apenas em tensão, mas até numa polarização estéril, geralmente ao longo das linhas divisórias entre evangelicais e liberais, cada um deles manifestando uma reação exagerada em relação à posição do outro. Os primeiros tendem a concentrar-se exclusivamente na evangelização, negligenciando a necessidade social, seja ela comida para os famintos ou libertação e justiça para os oprimidos. Os últimos vão para o extremo oposto, tendendo a negligenciar a evangelização ou tentando reinterpretá-la em termos de ação sócio-polítíca, tais como a humanização de comunidades ou a libertação dos oprimidos. Assim o estereótipo evangelical tem sido espiritualizar o evangelho, negando suas implicações sociais, enquanto que o estereótipo ecumênico tem sido politizado, negando sua oferta de salvação para os pecadores. Esta polarização tem sido um desastre.24

Definindo Evangelização

Poder-se-ia esperar que a Igreja de Jesus estivesse habilitada a definir facilmente o significado de evangelização, tendo em vista a primazia que ela sempre destinou ao tema. Curiosamente é possível perceber que existem maneiras distintas de fazê-lo.

J. I. Packer, em seu livro, “Evangelização e Soberania de Deus”, esclarece a definição de evangelização apresentada pela Comissão de Arcebispos da Igreja Anglicana, em seu relatório sobre a obra evangelística da Igreja em 1918, nos seguintes termos: “Evangelizar é apresentar Cristo Jesus de tal modo que, no poder do Espírito Santo, os homens venham a depositar sua confiança em Deus através d’Ele, aceitando-O como seu Salvador e servindo-O como seu. Rei na comunhão de Sua Igreja”.25

Por sua vez, Wadislau Martins Gomes afirma que “mais que pregar, evangelizar é fazer discípulos, isto é, fazer seguidores de Jesus”.26

O que causa maior surpresa nas definições acima apresentadas é perceber que evangelização acaba confundindo-se com resultado. Sem resultados, conversão, discípulos, servos, não houve evangelização. Os dois conceitos esquecem-se de que o papel da Igreja é evangelizar, é proclamar as boas novas do reino de Deus, no entanto, o resultado não depende dela, mas da ação soberana de Deus. O Espírito Santo é aquele que convence o homem do pecado, da justiça e do juízo.

Em Caruaru, cidade do Estado de Pernambuco, foi possível verificar-se que a busca por resultados levou as igrejas a se envolverem com o ministério de casais, na esperança de que, ao atingir um casal em crise, abrir-se-iam portas bem maiores, posto que os filhos, pais, sogros, parentes mais próximos que, de alguma forma vivenciaram o problema familiar, igualmente seriam alcançados. Quando o Encontro de casais com Cristo (E.C.C.) foi apresentado às igrejas evangélicas da cidade, estas se sentiram motivadas a investir no projeto. A reboque, implementaram encontros de jovens e de amigos, tentando, neste último caso, tratar de pessoas solitárias, solteiras, viúvas e divorciadas.

Os encontros de casais levaram inúmeras pessoas para dentro das Igrejas. Infelizmente, porém, as pessoas que eram convidadas a participar dos encontros não estavam concomitantemente repensando seus lares, mas sutilmente estavam sendo apenas evangelizadas. Tal afirmação refere-se à idéia defendida por alguns de que os fins justificariam os meios. Os resultados surgiram com velocidade vertiginosa. Em muito pouco tempo, as igrejas que introduziram os encontros puderam alegrar-se com os resultados, com os frutos. Mas, sem que percebessem, algo de errado estava acontecendo. Houve uma espécie de “constantinização” no seio da igreja caruaruense. As pessoas que foram chegando não estavam preparadas para o novo, até porque o ambiente dos encontros era bem diferente daquilo que as igrejas ofereciam em seus cultos, o que gerou um desconforto natural. Muitos dos que se aproximaram das igrejas e tornaram-se membros não foram preparados, discipulados, sequer acompanhados, mas passaram a integrar as respectivas comunidades que promoviam os encontros como fruto dessa busca desesperada por resultados por parte da liderança, gerando enorme mal estar e em seguida divisão nas igrejas.

Os encontros logo se depararam com opositores que entenderam que a postura das igrejas, diante do novo método evangelístico, limitava-se à busca de resultados imediatos, sem interesse pela transformação de vidas. A crise familiar era a ponte usada para a evangelização. A experiência em Caruaru reflete um pouco dos desvios que podem surgir na busca por resultados.

Carlos Caldas Filho apresenta ao menos quatro críticas, que julga as principais desse método que busca resultados a qualquer preço.

1 – A preocupação excessiva com quantidade, em detrimento da qualidade;

2 – Espiritualização da tarefa missionária da igreja em detrimento de outros aspectos importantes, como a luta pela justiça e o atendimento das necessidades humanas concretas;

3 – Uma “jejuitização” da metodologia missionária, no sentido de que “os fins justificam os meios”;

4 – Escassa (ou nenhuma) base bíblica para justificar a metodologia empregada.”

Não se pode ser injusto com os encontros de casais, de jovens e de amigos. Em alguns casos, houve transformação social. Maridos que eram alcoólatras experimentaram conversão e consequentemente tornaram-se melhores pais, maridos e profissionais. Houve também no seio das igrejas uma maior conscientização da sua tarefa evangelística. As comunidades evangélicas saíram do seu “gueto” e começaram a perceber a crise de outros e não somente as crises da família da fé.

Evangelização é a proclamação das boas novas da salvação em Jesus Cristo, visando a levar a efeito a reconciliação entre o pecador e Deus Pai, mediante o poder regenerador do Espírito Santo. Evangelização é parte essencial da missão da Igreja. Originalmente o termo evangelizomai, significa trazer ou anunciar o evangelion, as boas novas. O Congresso sobre Evangelização realizado na cidade de Berlim em 1966 descreve, de maneira prática e precisa, o que vem a ser evangelização:

Evangelização é a proclamação do Evangelho do Cristo crucificado e ressurreto, o único redentor do homem, de acordo com as Escrituras, com o propósito de persuadir pecadores condenados e perdidos a pôr sua confiança em Deus, recebendo e aceitando a Cristo como Senhor em todos os aspectos da vida e na comunhão de sua igreja, aguardando o dia de Sua volta gloriosa.2S

Existe uma lenda sobre a volta de Jesus à glória, após o seu tempo na terra que reflete a responsabilidade evangelística da Igreja. No céu, Ele continuava com as marcas de sua peregrinação na terra e, inclusive, as marcas da cruz e sua vergonha, Exatamente no céu tem lugar um diálogo entre o anjo Gabriel e Jesus.

— “Mestre, tu deves ter sofrido muito por causa dos homens na terra, disse Gabriel”.

— “Sim, de fato”, respondeu Jesus.

— “Jesus, eles sabem tudo sobre o teu amor e sobre o que fizeste por eles?”

— “Ó, não”, disse Jesus, “Ainda não. Neste momento apenas um punhado de gente na Palestina sabe”. Diante da resposta de Jesus, Gabriel ficou admirado e perguntou:

— “O que fizeste para que teu amor fosse conhecido?”

— “Pedi a Pedro, Tiago, João e alguns amigos para contarem sobre mim a outras pessoas. Quem me conhecer, por sua vez, contará a outras pessoas, que contarão a outras, até que toda a humanidade saiba do meu amor”.

Gabriel, conhecendo a natureza humana, perguntou com certo ceticismo:

“E se aqueles a quem de tal tarefa foi incumbida se esquecerem de proclamar a verdade? E se no século XX as pessoas não contarem umas às outras acerca do teu amor? Não existe um plano de emergência?”

— “Não. Estou contando com eles”, respondeu Jesus.”29

A evangelização continua sendo a tarefa prioritária da Igreja de Jesus e Ele continua contando com o Seu povo para proclamar as boas novas do reino. As seguintes definições foram adotadas pelo Comitê de Lausanne para a Evangelização Mundial:

Natureza: A natureza da evangelização é a comunicação das boas-novas.

Propósito: O propósito da evangelização é dar a indivíduos e grupos uma oportunidade válida de aceitar a Jesus Cristo.

Alvo: O alvo mensurável da evangelização é persuadir homens e mulheres a aceitar Jesus Cristo como Senhor e Salvador e servi-lo na comunhão de sua Igreja.30

O Pacto de Lausanne conceituou evangelização nos seguintes termos:

Evangelizar é difundir as boas novas de que Jesus Cristo morreu por nossos pecados e ressuscitou segundo as Escrituras, e de que, como Senhor e Rei, ele agora oferece perdão dos pecados e o dom libertador do Espírito Santo a todos os que se arrependem e crêem. A nossa presença cristã no mundo é indispensável à evangelização, e o mesmo se dá com aquele tipo de diálogo cujo propósito é ouvir com sensibilidade, a fim de compreender. Mas a evangelização propriamente e, assim, se reconciliarem com Deus. Ao fazermos o convite do evangelho, não temos o direito de esconder o custo do discipulado. Jesus ainda convida todos os que queiram segui-lo e negarem-se a si mesmos, a tomarem a sua cruz e a identificarem-se com a sua nova comunidade. Os resultados da evangelização incluem a obediência a Cristo, o ingresso em sua igreja e um serviço responsável no mundo.31

Em sentido mais amplo, evangelização pode ser vista como a obra integral da Igreja para proclamar o Reino de Deus (Marcos 1.15). Ela compreende três amplas categorias:

Evangelismo - proclamação do evangelho aos ainda não alcançados dentro de nossa própria sociedade ou cultura;

Atividade missionária - uma proclamação que interage com a cultura do público-alvo;

Atividade pastoral – ato de prover e aprofundar o evangelho entre aqueles que já o aceitaram.32

É, no mínimo, interessante perceber que a Igreja tem discutido um tema, ao qual se lhe atribui ênfase e certa primazia e, ao mesmo tempo, notar que a evangelização como ação proclamatória limita-se aos púlpitos e ao nosso gueto. O “indo” de Jesus na grande comissão parece não estar recebendo a importância que nosso discurso delega a ele. Quiçá algum dia a Igreja brasileira seja mais coerente com suas proposições. Se a evangelização deve ter primazia, que esta atinja a nossa práxis e afete a nossa criatividade, para que a ação proclamatória aconteça onde a Igreja está e não apenas onde o templo está. Para que isto aconteça, é preciso fazer uma releitura da grande comissão, a fim de que o nosso agir seja transformado. Restamos corroborar com Orlando Costas que, ao definir evangelização, diz:

Evangelizar é participar de uma ação transformadora, isto é, as boas-novas da salvação. Neste sentido, a evangelização não é um conceito, mas sim uma tarefa dinâmica, encarnada na vida e ação salvifica de Jesus Cristo. Portanto, ela não pode ser reduzida a uma fórmula verbal. Evangelizar pelo poder do Espírito Santo a salvação que foi revelada em Jesus Cristo.”

Definindo responsabilidade social

Este tema reveste-se de profundo significado, ao ser confrontado com as afirmações bíblicas e ao voltar-se os olhos para a história da cristandade e ainda, ao constatar-se a crise social, cujas estruturas encontram-se marcadas e maculadas pelo pecado e pela injustiça.

Referir-se à responsabilidade social não significa apenas destacar a filantropia, área muito bem visitada pela Igreja. A Igreja consegue, com cestas básicas, serviço médico ambulatorial, dentistas, tratar de questões que tocam à carência imediata do povo. Numa tragédia é possível ver a Igreja sendo solícita. Na região da mata pernambucana, depois de uma grande tragédia provocada pelas chuvas, foi possível ver a Igreja Evangélica mobilizar-se e engajar-se no socorro às vitimas. Toda essa ação, por mais saliente e importante, continua apenas no campo da filantropia, não alcança as estruturas mais profundas que visem a uma grande transformação. Ao falar sobre responsabilidade social precisamos ir mais adiante. Insofismável abarcar os atos de misericórdias e os atos de justiça.

A fim de explicitar o pensamento deste subscritor sobre responsabilidade social passo a delinear a definição de Hélcio da Silva Lessa que dividiu o tema em três categorias: Assistência Social, Serviço Social e Ação Social. Para facilitar sua definição, Lessa tenta contextualizá-la com uma história:

Nos idos do escravagismo, alguns cristãos, sensibilizados com os escravos castigados e violentados no pelourinho, resolviam ajudá-los com água, pão ou tratamento de suas feridas. Aquela atitude nobre, que não se relacionava com as causas da escravatura e mantinha o escravo na mesma situação, exemplifica o que se pode chamar de Assistência Social.

Na assistência social existe compaixão e manifestações práticas dessa compaixão. Existe coragem para, mesmo numa ínfima proporção, confrontar o erro, mas não existe transformação histórica, o escravo continuará sendo escravo e permanecerá sofrendo no pelourinho, esperando que uma alma caridosa venha cuidar de suas necessidades mais urgentes.

Outros cristãos, com uma visão mais aberta, mais ampla, vão além da assistência. De alguma forma, buscam assegurar a liberdade do escravo, através de levantamento de recursos para que ele seja comprado e libertado. Buscar-se-ão mecanismos para que o liberto encontre um trabalho e possa sobreviver nessa nova condição. Esse tipo de atitude, por mais louvável que seja, pode ser chamado de serviço social.

O problema neste tipo de ação, conquanto o senso de misericórdia tenha ultrapassado em muito a assistência social, pois neste caso se conseguiu a liberdade e um meio de subsistência do livre, é que de fato não operou aqui uma transformação histórica. Resolveu-se o problema de um escravo, mas a escravidão continuará a passos rápidos atingindo a outros e estes continuarão a ser espancados, levados ao pelourinho e muitas vezes violentados até à morte.

Alguns cristãos lançar-se-ão na luta contra a escravatura, para que se elimine definitivamente a opressão sobre o ser humano. Ação esta verdadeiramente eficaz, pois as estruturas serão alcançadas, a instituição escravagista será afetada significativamente. Agora sim, a possibilidade de uma transformação histórica se avizinha. Tal atitude pode ser chamada de ação social.34

O Comitê de Lausanne convocou uma consulta para discutir o tema da relação entre responsabilidade social e evangelização. A consulta julgou mais fácil dividir a responsabilidade social cristã em duas categorias, as quais, para fins de simplificação, podem ser chamadas de “serviço social” e “ação social” e foram distinguidas da seguinte maneira:

SERVIÇO SOCIAL AÇÃO SOCIAL
Socorrer o ser humano em suas necessidades Eliminar as causas das necessidades
Atividades filantrópicas Atividades Políticas e econômicas
Procurar ministrar a indivíduos e Famílias Procurar transformar as estruturas da sociedade
Obras de caridade Busca da Justiça 35

 

Pesa sobre a Igreja a responsabilidade de lutar contra essas estruturas de pecado que continuam oprimindo o ser humano. Não é possível ser Igreja e, ao mesmo tempo, alienar-se. A Igreja é o povo de Deus alerta às injustiças e que não se cala diante delas, ao contrário, esforça-se para que se faça justiça, para que o ser humano seja tratado com dignidade e experimente qualidade de vida já, aqui na terra, pois no céu, sem dúvida alguma, haverá plenitude de vida.

2. A relação entre a evangelização e responsabilidade social

Não é tarefa fácil estabelecer termos, mas tarefa mais complexa é relacionar os já definidos, isto porque, nem sempre é fácil harmonizar palavras e ações; pregação e prática; denúncia e ação transformadora. Além desta dificuldade, é sabido que na caminhada da Igreja, principalmente a partir do final do século XIX e início do século XX, em função do temor da influência do liberalismo, tentou-se separar Evangelização de Responsabilidade Social, entendendo-se com isso que a Igreja seria poupada de todo e qualquer desvio de sua responsabilidade precípua que é a evangelização.

Talvez a única tarefa mais urgente de missões hoje seja relacionar evangelização e ação social. Os cristãos do movimento ecumênico tendem a desconsiderar ou então redefinir a evangelização de tal maneira que a necessidade de um relacionamento novo, pessoal com Deus por meio de Cristo fica diminuída. Outros se inclinam a manter as duas tarefas totalmente separadas, considerando que apenas a evangelização tem valor eterno.

Os cristãos de muitas nações são missionários no mundo hoje – cruzando fronteiras culturais com o amor de Deus. A obra missionária é agora mais extensa e mais internacional do que nunca. Essa obra não está isenta do fracasso de solucionar as questões atualmente debatidas. Mas sem dúvida os missionários cristãos serão mais bem equipados para a tarefa do seu Senhor e Mestre quando se chegar a um equilíbrio adequado entre os diversos aspectos de missões. Em particular:

1 – O evangelho deve ser proclamado tanto em palavras como em ação;

2 – Precisamos tanto identificar-nos com os não-cristãos em suas necessidades, quanto lhes contar as “boas novas” cristãs;

3 – A igreja não está envolvida apenas com a própria expansão, também é o agente da missão de Deus.36

Diante das conclusões do Pacto de Lausanne, que não conseguiu relacionar os dois temas, ação evangelizadora e ação social, conquanto, para ser fiel ao Pacto, em seu sexto parágrafo, faça menção da relação entre os dois temas, afirmando que “o serviço de evangelização abnegada figura como a tarefa mais urgente da igreja” 37. Mesmo assim, James Scherer lembra que algumas questões padeceram de respostas, face às várias alternativas ou opções que interligaram os dois temas. Senão, vejamos:

4 – A de que a responsabilidade social é um afastamento, ou mesmo uma traição da evangelização;

5 - A de que responsabilidade social é evangelização;

6 – A de que a responsabilidade social é uma manifestação – ou uma conseqüência – ou uma parceira da evangelização etc;

7 – A de que responsabilidade social e evangelização são componentes distintos, mas iguais do ministério da Igreja.38

Adiante se encontram delineadas alternativas ou opções que tentam relacionar evangelização e responsabilidade social, conforme Scherer e Nascimento. Num primeiro momento, mais precisamente nos dois primeiros tópicos, são tratadas as reações negativas a tal relacionamento, fruto de uma visão radical daqueles que acreditam que a ação social é uma traição ao evangelismo. Posteriormente, nos tópicos seguintes, são apresentadas as opções que tentam relacionar positivamente os dois temas.

Ação social é um alheamento do evangelismo

Cristãos conservadores, que sustentam uma visão dispensasionalista, portanto destituída de esperança para o mundo, a qual se restringe ao céu, pois o mundo caminha rapidamente de mal a pior e ainda, que consideram a ação evangelizadora a única tarefa da Igreja, entendem que o envolvimento da Igreja com ações sociais é um ato de alheamento do evangelismo.

Ação social é uma traição ao evangelismo

Neste sentido, a reação contra a ação social certamente tem uma relação com o liberalismo defendido pelo evangelho social. Para poupar a Igreja de qualquer desvio da verdade, de qualquer associação com as heresias liberais, desprezou-se a ação social, crendo que tal envolvimento seria, na prática, uma traição ao chamado da Igreja para fazer discípulos.

Ação social como evangelismo

Para alguns, ação social e evangelismo andam juntos, um não existe sem o outro. Nascimento cita Emílio Castro em seu livro, “Liberation Development and Evangelism: Must we Choose in Mission” em que afirma que “o evangelismo existe somente onde há preocupação social, sem ela pode haver propaganda, proselitismo, mas dificilmente boa-nova” 39

Esta opção se torna perigosa, pois acredita que se não houve ação social não houve evangelização, no entanto é possível perceber que, na caminhada da Igreja e mesmo em textos bíblicos, como na parábola do Samaritano, houve ação social sem necessariamente haver evangelização como proclamação.

Ação social como um meio para o evangelismo

Dentre as várias opções sobre o relacionamento evangelização-ação social está aquela que acredita que a ação social pode ser um instrumento, um meio para a evangelização. Na Consulta de Grand Rapids, a ação social foi vista como ponte para a evangelização. Ela pode ser um mecanismo facilitador, derrubando preconceitos, desconfianças e abrindo portas para que a verdade do Evangelho fale ao coração do ser humano.

Como é sabido, as pessoas vêem os cristãos evangélicos como uma Igreja alheia à tragédia humana. Sendo assim, a ação abriria o ser humano para ouvir o que o Evangelho tem a dizer. A leitura da história das missões modernas apresentar-nos-á missionários que, v.g., investiram na saúde pública para facilitar a comunicação com aqueles que deveriam ser alcançados pelo evangelho.

Ação social como uma manifestação do evangelismo

Os defensores desta opção acreditam no envolvimento social como uma demonstração do evangelho. A ação social dá visibilidade à evangelização. Conforme Nascimento, “a analogia da fé e obra na epístola de Tiago é muitas vezes usada para explicar este ponto de vista”.40 Esta leitura utiliza-se do ministério de Jesus para mostrar que, com Ele, palavra e ação andavam de mãos dadas, como irmãs gêmeas.

Ação social como um resultado ou conseqüência do evangelismo

A Consulta de Grand Rapids afirma que a ação social é uma conseqüência da evangelização, ou seja, a evangelização é o meio pelo qual Deus produz nas pessoas um novo nascimento e este novo nascer manifesta-se no serviço prestado aos outros. A definição vai mais adiante e assevera que mais do que simples conseqüência da evangelização, a responsabilidade social é um dos seus principais objetivos. Nesse sentido, entende-se que a resposta natural de uma pessoa alcançada pelo evangelho será o seu envolvimento em ações sociais transformadoras. Parece tratar-se de postura bastante perigosa, visto que se verifica, (ao voltar os olhos para a Igreja, mesmo sabendo que aqueles que a ela pertencem foram alcançados pelo evangelho), a falta de uma ação social séria e radicalmente transformadora. Parece, ainda, que o grande perigo revela-se na perpetuação do status quo, fruto de uma alienação, posto que a Igreja, em sua trajetória, muitas vezes se preocupa com assuntos periféricos, como construção de templo, modernização do som, aquisições de veículo para a comunidade, de terreno para o acampamento da igreja – que não dispõe de tempo, nem de condições financeiras para se envolver com o problema social alheio.

Obviamente não se pretende ser pessimista ao realizar tal critica, posto que teoricamente parece que a teoria alberga congruência com a visão bíblica. Povo transformado deveria ser povo engajado, mas, na prática, percebe-se exatamente o contrário. A Igreja tem exercitado o “ensimesmamento” e toda a sua estrutura parece voltar-se para o benefício da própria comunidade, o que, de alguma maneira, a conduz à alienação quanto à tragédia do outro.

Ação social como parceira do evangelismo

Grand Rapids revelou também que a ação social foi vista igualmente como parceira do evangelismo e, no intuito de ilustrar essa parceria fez-se a seguinte comparação:

elas são como as duas lâminas de uma tesoura, ou como as duas asas de um pássaro.41

Essa parceria aplica-se tanto ao cristão, individualmente, como à igreja local. Obviamente, cada cristão recebe um dom e um chamado diferente que o habilita a concentrar-se em ministérios específicos, assim como os doze foram chamados para um ministério pastoral e os sete para um ministério social. É igualmente óbvio que diferentes cristãos encontram-se em diferentes situações de necessidade, e que cada uma requer uma resposta específica. Nós nãos estamos acusando o “bom samaritano”, por atar as feridas do viajante sem indagar sobre o seu estado espiritual, nem Filipe por compartilhar o evangelho sem inquirir as suas necessidades sociais. Estes foram, no entanto, chamados específicos e situações específicas. Falando em termos gerais, todos os seguidores de Jesus Cristo tem a responsabilidade de testemunhar e de servir, de acordo com as oportunidades que lhes forem dadas.42

 

Ação social e evangelismo como igualmente importantes

Esta, que se traduz na oitava idéia, trata da valorização eqüitativa entre ação social e evangelismo. Nascimento apresenta, como alguns dos expoentes desta concepção, Ronald Síder, Samuel Escobar e David Bosch. Se alguma palavra pode ser vista como adequada para caracterizar a missão da Igreja, de acordo com Bosch, ela é o conceito bíblico de martyria (testemunha), que pode ser subdividida em kerigma (proclamação), koinonia (comunhão), diakonia (serviço) e leitougia (liturgia). Na história da Igreja é possível perceber esta inter-relação que valoriza tanto a ação social, quanto a evangelização.

Ação social como parte da proclamação do evangelho

Sendo este o último expediente de análise, afirmou-se que a ação social é parte da proclamação do evangelho. Em outras palavras, os defensores desta postura, advogam que a ação social da Igreja é mais do que alimentar os famintos, curar os doentes e providenciar recursos para que a sua tragédia seja minimizada. Entende-se que ela exige uma ação social mais profunda que possa trazer justiça social. A tarefa da Igreja continua sendo a de proclamar o Evangelho, no entanto, isto, em hipótese alguma, poderá fazer com que a Igreja cale-se diante dos desmandos sociais.

Você deve lembrar que este é um fenômeno um tanto novo. Os velhos reavivamentos são mencionados com grande carinho pelos líderes evangélicos. Contudo, parece que se esqueceram do que foram esses reavivamentos. Sim, os velhos reavivamentos da Grã-Bretanha, Escandinávia, e assim por diante, conclamavam com grande clareza e sem dúvida alguma, a uma salvação pessoal. Mas conclamavam também a uma ação social resultante. Leia a história dos grandes reavivamentos. Cada um deles seguiu este mesmo padrão, e não há melhor exemplo do que os grandes avivamentos de John Wesley (1703-1791) e George Whitefield (1714-1770).

Os reavivamentos de Wesley e Whitefield foram tremendos no chamado para a salvação individual, e milhares de milhares foram salvos. Contudo, até mesmo os historiadores seculares reconhecem que os resultados sociais do avivamento wesleyano, salvaram a Inglaterra de sua própria versão da Revolução Francesa. Devemos mencionar os nomes de alguns dos nossos precursores cristãos, com um grito de orgulho e gratidão a Deus: Lorde Schaftesbury (1801-1855), que ousou defender a justiça para o pobre em meio à revolução industrial; William Wilberforce (1759-1833), que foi a maior força pessoal solitária a mudar a Inglaterra de um país escravocrata para um país que, muito antes dos Estados Unidos, abandonou a escravatura legalmente e de fato. Estes homens não realizaram estas coisas por acaso, mas porque viam tudo isso como parte das Boas Novas cristãs. Deus usou pessoas envolvidas nos avivamentos para produzir os resultados não só de salvação individual, mas também de social.”

Afinal, qual a relação entre responsabilidade social e evangelização? Esta pergunta permanece no ar e como lembra Stott:

Muitos temem que quanto mais nós, os evangelicais, nos comprometermos com um, tanto menos estaremos comprometidos com o outro, e que, caso nos comprometamos com ambos, um dos dois com certeza sairá prejudicado; e, especialmente, que uma preocupação com a responsabilidade social certamente acabará embotando nosso zelo evangelístico.44

Ao contrário do que muitos pensam, entendo que a tarefa da Igreja deve abarcar as duas ações, a evangelizadora e a social. Ora, se houver fidelidade ao Evangelho de Jesus, a Igreja não cometerá o equívoco de priorizar uma ação em detrimento da outra. No entanto, creio, ainda, que se deve usar o bom senso ao decidir qual será a atividade a encabeçar o contato da Igreja com dada comunidade. Conquanto devam andar juntas, a evangelização e a ação social podem existir independentemente.

A consulta reafirmou que a ação prioritária da Igreja é a evangelização, por duas razões elementares: primeiro, referida prioridade não é temporal, mas lógica, pois existem situações em que o ministério social precisará vir inicialmente. No entanto, em alguns países, o progresso social tem sido obstaculizado devido à predominância de uma cultura religiosa e somente a evangelização pode modificar este cenário; em segundo e último lugar, a evangelização relaciona-se com o destino eterno das pessoas. Raras serão as vezes em que a Igreja haverá de optar entre ação social ou evangelização, mas em acontecendo, ela precisa lembrar-se de que a necessidade suprema e máxima de todo ser humano é a graça salvadora do Senhor Jesus.45 id., p.22.

Concluindo este segundo capítulo, quero citar aquilo que Manfred Grellert afirmou com muita propriedade:

“A evangelização pode ter prioridade na missão integral da igreja, conforme a ênfase de Lausanne. Mas ela não será bem-sucedida sem o equilíbrio na missão integral da mesma. Uma comunhão patológica, uma edificação anêmica, um culto festivo e vazio e uma ação social ausente geralmente resultam numa elefantíase evangelística e numa inchação das igrejas.46

3. Perspectiva histórica sobre a responsabilidade social da igreja

Em trecho de determinado artigo, abaixo transcrito, observa-se que o autor fez severa crítica à falta de influencia da Igreja Evangélica Brasileira. Segundo este mesmo autor, a Igreja se diz grande, mas essa superdimensão não transforma o estado de miséria e desigualdade social presentes no país, Senão, vejamos:

Dizem que o total dos supostos evangélicos é de 30 milhões. Mas por que o padrão moral e a ética da sociedade degeneram-se a cada dia? Onde está a influência dos supostos evangélicos? Será que a miséria, a desigualdade social e os salários de fome não incomodam aqueles que deveriam não se conformar com este século, mas transformá-lo pela renovação da mente? A população não tem perspectiva de vida, as pessoas não têm mais rumo, onde estão os padrões éticos, morais e religiosos que são a base da sociedade? A Reforma Protestante abalou o mundo, os puritanos diziam que a ignorância é a maior aliada de satanás. A diferença entre os protestantes do passado e os supostos evangélicos de hoje é que: 1. Os do passado criam no verdadeiro evangelho que necessariamente gera o não-conformismo com o mundo, e o desejo de implantar os aspectos do Reino de Deus nesta sociedade: justiça, paz e alegria. 2. Eram reformados de verdade, temiam verdadeiramente a Deus. É por isso que as coisas estão desse jeito… dizem que crêem no mesmo Evangelho de nossos pais. Será?47

O texto acima comete o equívoco de não fazer uma análise histórica dos fatos que influenciaram a Igreja Evangélica no Brasil, tornando-a o que é hoje. Consubstancia-se fácil colocar a Igreja na berlinda e atirar-lhe pedras. Essa posição reveste-se de comodidade e simplismo, pois não detecta os fatores que a levaram a ser o que ela é. Se, por um lado, o artigo peca por desprezar a história, por outro, tem a virtude de enfatizar a necessidade de coerência entre discurso e prática.

Neste capítulo, revisita-se a história da Igreja, buscando entender porque uma Igreja como a evangélica brasileira, com tanto potencial e que continua a experimentar um crescimento tão expressivo, denominado por alguns de avivamento, não consegue exercer uma influência mais significativa e transformadora no contexto em que está inserida e ainda, porque contínua restringindo sua ação social à filantropia e, muitas vezes, limitando-a à igreja local. Relendo a história, será possível perceber o enorme desafio que pesa sobre a Igreja, isto porque, tanto na história da Igreja Cristã, como na história da Igreja Evangélica no Brasil é possível vislumbrar dados maravilhosos sobre o papel social da Igreja.

A Igreja Evangélica é filha da Reforma Protestante do século XVI, movimento que havia algo a dizer, não apenas sobre eclesiologia e espiritualidade, mas sobre questões políticas e sociais, mesmo assim, infelizmente, a Igreja Evangélica distanciou-se da práxis e do discurso reformado. Afastamento que parece encontrar influência em eventos históricos mais recentes, os quais levam a Igreja à alienação quanto aos aspectos sociais.

Elementos inibidores

Entende-se que um dos elementos inibidores da ação social da Igreja é a influência do Fundamentalismo sobre ela, mas antes de demonstrá-la, necessário se faz compreender o seu nascimento, o seu contexto histórico e o seu desvirtuamento. A melhor compreensão do tema, porém, requer o entendimento acerca da influência do liberalismo teológico.

A) O liberalismo teológico

O liberalismo teológico teve sua origem na Alemanha, onde convergiam várias correntes teológicas e filosóficas no século XIX. O pensamento alemão teve um impacto profundo sobre as teologias britânica e norte-americana, mas movimentos autóctones nos dois lugares, a tradição da igreja Ampla na Inglaterra e o Unitarismo nos Estados Unidos, moldaram de modo significativo o desenvolvimento do liberalismo ali.48

A melhor maneira de compreender a origem do Fundamentahsmo faz-se quando se entende que ele nasce tentando combater o crescimento do liberalismo teológico radical nas principais denominações históricas dos Estados Unidos ao final do século XIX e início do século XX.

Augustus Nicodemus Lopes apresenta as principais doutrinas do liberalismo:

1 – O caráter de Deus é de puro amor, sem padrões morais;

2 – Existe uma centelha divina em cada pessoa;

3 – Jesus Cristo é Salvador somente no sentido em que ele é o exemplo perfeito do homem;

4 – O Cristianismo só é diferente das demais religiões quantitativamente e não qualitativamente;

5 – A Bíblia não é o registro infalível e inspirado da revelação divina, mas o testamento escrito da religião que os judeus e os cristãos praticavam;

6 – A doutrina ou declarações proposicionais, como as que encontramos nos credos e confissões da Igreja, não são essenciais ou básicas para o Cristianismo, visto que o que molda e forma a religião é a experiência e não a revelação.49

Se a teologia liberal afetou alguns aspectos fundamentais da fé, não se pode esquecer que, de alguma maneira, os liberais dispunham de uma visão sobre o ser humano que o aproximava do prisma bíblico. Acredita-se que uma das virtudes daquele período foi estabelecer-se uma visão integral do ser humano. Os teólogos liberais entendiam que Deus estava interessado no ser humano e em seu sofrimento. O que nos gera inquietude é perceber que, se eles acertam na práxis, cometem um erro elementar ao desprezar aquelas verdades essenciais da fé cristã.

B) O evangelho social

No final do século XIX e início do século XX, os teólogos liberais desenvolveram o chamado ‘evangelho social’ que nada mais era do que uma tentativa de construir o reino de Deus na terra, por causa dessa tentativa o ‘evangelho social’ foi visto como uma perversão do verdadeiro evangelho.

O termo, ‘evangelho social’, com sua associação atual com o pensamento social protestante teologicamente liberal e modernamente reformista, veio a ser usado por volta de 1900, para descrever aquele esforço protestante no sentido de aplicar princípios bíblicos aos crescentes problemas urbano-industriais dos Estados Unidos emergindo durante as décadas entre a Guerra Civil e a Primeira Guerra Mundial.50

O mais popular porta-voz do chamado evangelho social foi Walter Rauschenbusch. Sua visão foi influenciada pela experiência pessoal ao deparar-se com opressiva pobreza, essa experiência determinou sua mensagem. John Stott cita duas afirmações de Rauschenbusch que certamente significou uma reação de rejeição, por parte da ala mais ortodoxa da Igreja evangélica a qualquer programa social. Ele contrastou:

1 — ‘O antigo evangelho da salvação de almas com’ ‘o novo evangelho do Reino de Deus.’ ‘Não se trata de levar indivíduos para o céu’, escreve, ‘mas transformar a vida aqui na terra na harmonia do céu’.

2 – ‘O propósito essencial do cristianismo’ é ‘transformar a sociedade humana em Reino de Deus através da regeneração de todos os relacionamentos humanos’ 51

Como a atitude de Rauschenbusch foi politizar o Reino de Deus, é compreensível e lamentável que a reação dos evangélicos tenha sido concentrar-se na evangelização e na filantropia pessoal, mantendo-se distantes da ação sócio-política.52

C) O fundamentalismo

O Fundamentalismo foi um movimento que surgiu nos Estados Unidos durante e imediatamente após a Primeira Guerra Mundial e tinha por escopo reafirmar o Cristianismo ortodoxo e defendê-lo contra os desafios e a influência da teologia liberal, da alta crítica alemã, do darwinismo e de outros pensamentos considerados danosos ao Cristianismo, mais precisamente no seio das principais denominações históricas dos Estados Unidos no final do século XIX e início do século XX.

Segundo Lopes, o termo “Fundamentalista’ foi usado por três razões:

1 – Os conservadores insistiam que o liberalismo atacava determinadas doutrinas bíblicas que eram fundamentais do Cristianismo, e que, ao negá-las, transformava o Cristianismo em outra religião, diferente do Cristianismo bíblico.

2 – A publicação cm 1910-1915 da série Os Fundamentos, 12 volumes de artigos, escritos por conservadores, onde defendiam os pontos fundamentais do Cristianismo e atacavam o modernismo, a teoria da evolução, etc. Foram publicadas 3 milhões de cópias e espalhadas pelos Estados Unidos. Há artigos de eruditos conservadores como J. G. Machen, John Murtay, B. B. Warfield, R. A. Torrey, Campbell Morgan e outros.

3 – Muito embora o conflito entre os liberais e fundamentalistas envolvesse muito mais do que somente os pontos abaixo, os mesmos foram considerados na época, pelos conservadores, como os pontos fundamentais da fé e do Cristianismo evangélicos e acabaram se tornando o slogan dos conservadores e a bandeira do movimento fundamentalista:

- A inspiração, infalibilidade e inerrância das Escrituras;

- A divindade de Cristo;

- O nascimento virginal de Cristo e os milagres;

- O sacrifício propiciatório de Cristo;

- Sua ressurreição literal e física e seu retorno. 53

Discorre-se no tópico seguinte sobre o desenvolvimento histórico e teológico do fundamentalismo na Igreja Cristã nos Estados Unidos e no Brasil, dividindo-o em quatros partes ou fases.

1ª FASE – Durante a década de 1920

A fase inicial englobou a articulação daquilo que era fundamental ao Cristianismo e ao início de uma batalha urgente almejando expulsar das fileiras das igrejas os inimigos do protestantismo ortodoxo. Nesse período, os avessos à ortodoxia foram nominados e dentre eles, encontram-se o romanismo, o socialismo., a filosofia moderna, o ateísmo, o mormonismo, e, acima de tudo, a teologia liberal fulcrada numa interpretação naturalista das doutrinas da fé.

Nessa época, publicou-se a série Os Fundamentos. O alvo era atacar o naturalismo, o liberalismo e todos os males a eles associados. A inerrância das Escrituras é reafirmada como sendo doutrina bíblica e fundamental. Ainda no mencionado período, gradativamente começou-se a adotar o dispensacionalismo como um dos pontos fundamentais da fé cristã, o que provocaria, na fase subseqüente, uma importante divisão no movimento.

2ª FASE – Fim da década de 1920 até o início dos anos 1940

Até cerca de 1926, o movimento fundamentalista percebe ter fracassado na tentativa de fazer uma limpeza no arraial protestante dos modernistas. A época foi gravada pelo divisionismo e o nascimento de novas igrejas, instituições e associações. Foram formadas novas denominações como a Associação Geral de Igrejas Batistas Regulares (1932), a Igreja Presbiteriana da América, ou PCA (1936), Associação Batista Conservadora da América (1947), as Igrejas Fundamentalistas Independentes da América (1930) entre outras.

Naquela fase, a lição teológica mais marcante era a de que os fundamentalistas representavam o Cristianismo verdadeiro, baseado numa interpretação literal das Escrituras, e essa verdade devia ser expressa concretamente, desvinculada dos liberais e dos modernistas. Chegou-se a estabelecer, nesse momento, uma prática carregada daquilo que eles acreditavam ser puro na moralidade pessoal e na cultura norte-americana. Torna-se marcante a indiferença aos problemas sociais e o termo fundamentalismo ganha uma conotação de ‘divisionismo’, intolerância’ e de ‘antiintelectualismo’.

3ª FASE – Fim da década de 1940 até à década de 1970

No período acima compreendido, o fundamentalismo continua a batalha contra o liberalismo, de fora das denominações e contra um novo inimigo, o neo-evangelicalismo. O movimento ganha repercussão internacional.

Em 1948 foi criado o Concilio Internacional de Igrejas Cristãs, formado por denominações, igrejas e indivíduos que se identificaram com a bandeira fundamentalista, em oposição ao Concilio Mundial de Igrejas, que possuía uma visão ecumênica e liberal. Os ataques fundamentalistas dirigiram-se aos neo-evangelicais ou evangelicais, uma ala dentro do fundamentalismo que deseja preservar os pontos fundamentais da fé, mas não havia interesse no divisionismo da primeira geração, por julga-lo um grande perigo ao verdadeiro Cristianismo, em virtude da sua abertura para outros cristãos e associação com os liberais.

4ª FASE – Fim da década de 1970 e a década de 1980

O fundamentalismo Norte Americano adentrou uma nova fase, principalmente a partir da campanha de Ronald Reagan à presidência dos Estados Unidos, o que o fez ganhar novo impulso, pois se dispôs a dar respostas para a crise social, econômica, moral e religiosa que se estabelecera no país. Percebeu-se, então, um resgate dos princípios que marcaram a década de 1920.

Lopes apresenta algumas características desta fase:

1 – Surgem novos ministérios de uma nova geração de fundamentalistas, utilizam-se da mídia, televisiva e impressa. Entre eles: Jerry Falwell, Tim LaHaye, Hal Lindsey, James Dohson, Pat Robertson.

2 – O alvo principal dos ataques fundamentalistas era o domínio do governo por humanistas e as conseqüências disto para a nação, em termos de libertinagem e relaxamento dos valores morais. O grande receio é de que o Cristianismo seja banido da América.

3 – Estes líderes e outros mantinham os mesmos pontos doutrinários e a mesma visão separatista da primeira geração de fundamentalistas, embora o inimigo fosse outro, nesse caso o humanismo.

4 – É formada a Maioria Moral (1979) sob a liderança de Jerry Falwell, para combater o liberalismo moral e social nos Estados Unidos,

5 – O fundamentalismo ganhou maior torça com o ato de que o movimento evangelical começou a dar mostras de que a política de boa vizinhança com liberais e católicos terminava em prejuízo para a fé bíblica. 6 – Por outro lado, os escândalos na década de 1980, envolvendo o casal Bakker, televangelístas fundamentalistas, causaram um grande revés no movimento dentro dos Estados Unidos.54

Sem dúvida alguma, o fundamentalismo, atualmente nos Estados Unidos continua sua caminhada. Seu crescimento e sua influência não se fazem mais por meios denominacionais, mas sim por intermédio da multiplicação de uma mentalidade fundamentalista nos aspectos teológicos e apologéticos.

Parece que se pode concluir que, sem resquícios duvidosos, o movimento fundamentalista teve seus aspectos positivos, como, por exemplo, a luta pela fidelidade às Escrituras, uma busca contínua pelo resgate do Cristianismo histórico. No entanto, é preciso lamentar o seu separatismo, seu preconceito, sua omissão quanto à responsabilidade social, fruto de uma visão escatológica dispensacionalista.

D) O celeste porvir ou o protestantismo peregrino

O período do protestantismo peregrino marcou o momento em que a Igreja perdeu o sentido sobre sua vocação, “no mundo sem ser do mundo”. Ela tinha tanto medo de contaminar-se e perder seu real significado, que preferiu olhar para o céu. Inevitavelmente constatou-se que a alienação fez-se presente, afinal, somos apenas peregrinos, gente que não tem residência aqui no mundo, mas tem um lar no céu, preparado desde a eternidade. Ela se tornou a Igreja que não pode pensar o transitório porque tem a eternidade diante de si. Antonio G. Mendonça afirma que:

Protestante comum vive no provisório. Sua ética de negação do mundo o conduz à constante expectação do porvir, do mundo ahistórico do além, muito melhor do que o presente. Se essa expectação o leva a cantar as glórias e os prazeres de sua futura e verdadeira pátria, leva-o, em contrapartida a recusar os valores do presente. O mundo presente é um tempo de peregrinação. Ele não tem morada. Ele não tem repouso e está rodeado de inimigos. Sente-se estrangeiro na terra, de modo que o seu viver é um penoso caminhar para a pátria celestial. Repete-se a velha alegoria puritana de João Bunyam. 55

Mendonça crê que o final do século XIX e, em boa parte, o início do século XX, foram marcados pelo sentimento de peregrinação, fato que, de algum modo, parece haver perdido sua característica por causa das mudanças sociais muito acentuadas, ocorridas no período da industrialização urbana.

Submetendo os hinários à análise, percebe-se inegavelmente que aquilo que reflete muito bem essa postura alienante, marca do protestantismo peregrino. Abaixo são alistados dois hinos que retratam esse período.

ASPIRAÇÃO DO CÉU

Vou à Pátria – eu peregrino -,

A viver eternamente com Jesus,

Que concedeu-me feliz destino

Quando ferido, por mim morreu na cruz.

Vou à Pátria – eu peregrino -

A viver eternamente com Jesus!

Vou à Pátria – eu peregrino -,

A viver eternamente com Jesus! 56

A MENSAGEM REAL

Sou forasteiro aqui, em terra estranha estou,

Celeste Pátria, sim, é para onde vou.

Embaixador por Deus, do Reino lá dos céus,

Venho em serviço do meu Rei!

É a mensagem que me deu

Provinda lá dos altos céus:

Que nos reconcilieis

Com o Senhor Rei meu!

Reconciliai-vos já com Deus! 57

F) Visão escatológica

Outro elemento que alimentou essa alienação social pela Igreja foi a sua visão escatológica pré-milenista. Embora não se pretenda fazer um estudo escatológico, delineia-se apenas uma breve análise desse ponto de vista para que se entenda a sua influência sobre a igreja brasileira.

Os pré-milenistas crêem que Jesus voltará antes dos mil anos (milênio) em que Cristo reinará sobre o mundo, o qual sobreviverá à destruição e ao julgamento que visitarão a terra na grande tribulação, eliminando-se assim, todas as mazelas e injustiças sociais. A idéia elimina a necessidade de preocupar-se com os problemas sociais de hoje, pois, quando Jesus voltar, todos serão resolvidos.

Eu sei que alguns vêem as tragédias mundiais com uma ponta de prazer, afinal isto é apenas o prenuncio de que a volta de Jesus para buscar sua Igreja é iminente. Nota-se que alguns crêem, sinceramente, que tentar reverter o quadro social do mundo é lutar contra o inexorável, pois entendem que a pobreza é algo a nos acompanhar em escala cada vez maior (Mt. 26.11), porque esta é a passada da humanidade em direção ao final dos tempos. O Senhor Jesus, falando proféticamente, ensina-nos que o mundo caminha de mal a pior — filhos estarão contra os pais, pais contra os filhos, irmãos contra irmãos, guerra e rumores de guerras, marcas comuns no final dos tempos (Mt. 224.6, Mc. 13.7). Eles perguntam: “Como transformar aquilo que é inevitável?”

“A adoção da teologia fundamentalista, que quase sempre também é pré-milenista, gera, na prática, alienação sócio-política, como se tem observado na maior parte da comunidade evangélica brasileira”. 58

G) Adoção de uma política direitista

Como se não bastasse uma teologia fundamentalista conservadora; que abriu mão de uma ação social relevante e chegou ao Brasil na bagagem dos missionários advindos da América do Norte, a visão política de tais missionários era direitista e anticomunista, sendo assim, tudo o que cheirasse a comunismo ou a esquerda deveria ser veementemente combatido pela Igreja como sendo algo que fatalmente afetaria a visão bíblica desta e não somente isto, ela correria o risco de ver sua liberdade religiosa cerceada.

Nesse pacote, a Teologia da Libertação tornou-se uma grande ameaça e uma revolução como a de 1964 e foi vista como manifestação da bênção de Deus contra os ameaçadores comunistas.

Depois de fazer uma visita à história buscando entender o que levou a Igreja a uma clara alienação quanto à questão social, segue-se a viagem pela história, verificando o testemunho histórico da missão integral, entendendo-o como um desafio à Igreja.

Capítulo 3

O testemunho histórico da Missão Integral

1. Ação social da igreja na Patrística

Os pais apostólicos foram influenciados, de maneira insuspeitável, pela pessoa de Jesus. O Senhor sempre teve uma atitude diferenciada diante do ser humano. Ele anunciava a chegada do Reino, que deveria produzir arrependimento, mas sem dúvida alguma, a influência do Reino deveria levar às boas obras que testificariam do Senhor.

Antonio José do Nascimento Filho cita “O Pastor de Hermas” como um homem de fé, que não se expressava apenas em palavras. Sua fé foi traduzida em gestos por meio de amor e da preocupação pelas pessoas necessitadas ao seu redor. A dedicação social e a prática foram o resultado inevitável de sua conversão espiritual. Clemente de Roma expõe esta íntima relação entre justificação e boas obras, quando diz:

Por meio da fé, pela qual Deus todo-poderoso tem justificado todos os homens desde o início do mundo… o que faremos, pois, irmãos? Que o forte cuide do fraco e que o fraco reverencie o forte. Que o homem rico ajude o pobre e que o pobre dê graças a Deus por aquele que supriu sua necessidade? 59

No século III d.C, o pagão Celso e o cristão Origines se engajaram num debate sobre o Cristianismo. Durante a discussão, Celso haveria declarado: quando a maioria dos mestres sai a ensinar, gritam: “venham a mim, os que são limpos e dignos”, e os que o seguem são as pessoas do mais alto gabarito existente. Mas seu mestre é néscio e grita: “Venham a mim os abatidos e afligidos pela vida”, de forma que se acumulam ao seu redor os marginalizados e excluídos da humanidade.

A resposta de Origines a Celso é descrita como uma das declarações mais profundas, jamais feita acerca do poder do Cristianismo:

sim, eles são os marginalizados e excluídos da humanidade. Mas Jesus não os deixa assim. De um material que alguém diz ser inútil, ele forma “pessoas fortes”, devolvendo-lhes seu respeito próprio, capacitando-os para se sustentarem sobre seus próprios pés e olhar em Deus nos olhos. Eles eram objetos amedrontados, desprezados, quebrantados. Mas o Filho os libertou! 60

2. Ação social da igreja na idade média

Em seu livro “O Nome da Rosa”, que serviu de fonte para um filme homônimo, Umberto Eco conseguiu descrever o que acontecia num mosteiro da Idade Média e como, naqueles dias, a Igreja encontrava-se distante de sua vocação. Os pobres eram apresentados como pessoas miseráveis que comiam das sobras que lhes eram dadas pela Igreja.

Sem dúvidas, a visão de que dispomos sobre a Idade Média é a de que a Igreja viveu sem produzir transformação — aquela era a idade das trevas — pois perdeu o propósito da sua missão. Warren Wiersbe cita um fato entre Rafael e alguns líderes da Igreja: Rafael pintava os famosos afrescos do Vaticano, quando alguns cardeais pararam perto, a fim de observar e julgar o trabalho. “O rosto do apóstolo Paulo está vermelho demais”, disse um deles. Rafael respondeu: “Ele cora ao ver nas mãos de quem está a igreja”.61

Felizmente, mesmo nesses momentos mais obscuros, a Igreja ainda conseguiu desenvolver a missão. Nascimento Filho lembra que:

“a atividade social cristã na Igreja medieval era fortemente influenciada pela crença em um estado cristão universal em que, tanto a Igreja como o estado, eram instrumentos de Deus para alcançar os propósitos para o homem. Era, portanto, responsabilidade tanto da Igreja como do estado promover o evangelismo e responsabilidade social” 62

3. Ação social na Reforma Protestante

O período reformista foi bastante conturbado, mas, mesmo diante de todas as dificuldades surgidas por causa das vozes que se levantaram contra o caos presente no seio da Igreja, a Igreja nascente, fruto da Reforma Protestante, foi marcada pela presença da missão integral. Ela era uma Igreja preocupada com a salvação pela graça, mas que entendia que o ser humano deveria ser tratado integralmente com dignidade. Não se deve limitar a Reforma Protestante do século XVI a um movimento espiritual e eclesiástico. Sem dúvida alguma, a ação dos reformadores também trouxe conotações e implicações políticas e sociais.

Ainda que superficialmente, adiante são delineados os papéis de dois reformadores no que tange à questão social, Martinho Lutero e João Calvino. Dos textos de Augustus Nicodemus Lopes e, principalmente, do livro de André Biéler são extraídas algumas informações sobre Calvino.

A) Martinho Lutero

Lutero ficou conhecido como teólogo, pregador e reformador, mas o seu agir não é fruto apenas de uma reflexão teológica, e sim, de sua experiência com o cotidiano. “O dado religioso se constrói na história, em meio aos fenômenos sociais, políticos e econômicos” 63

O reformador reconhece que o cristão é cidadão pertencente a dois reinos, o Reino de Deus e o reino deste mundo e isto nos ensina que, sob o prisma de Lutero, o ser humano é responsável diante de Deus e da autoridade civil. Por isso mesmo, ele dá ênfase ao papel social do cristão em suas 95 teses:

43º – Os cristãos devem ser ensinados que aquele que dá ao pobre ou empresta ao necessitado pratica uma obra melhor do que comprar perdões.

45º – Os cristãos devem ser ensinados que aquele que vê um homem em necessidade, e passa por ele, e dá (seu dinheiro) por perdões, não compra as indulgências do papa, mas a indignação de Deus. 64

Nascimento Filho afirma que “Lutero, em oposição à visão anabatista de separação entre igreja e estado, acreditava que Deus pode usar o governo secular para estabelecer a justiça social”. 65

B) João Calvino

Pensar sobre a ação social na perspectiva de João Calvino é pensar, inevitavelmente, sua teologia, pois esta é pressuposto para formular sua reflexão e motivar aqueles que estavam ao seu redor a uma ação efetiva. Ocorre, porém, que toda a leitura de Calvino sobre o aspecto social passa pela realidade por ele vivenciada. Ele pastoreou uma igreja na cidade de Genebra e ali, os problemas sociais comuns por toda a Europa se faziam presentes, dentre eles: pobreza extrema, altos impostos, salários miseráveis e uma jornada de trabalho extenuante. Ademais, o analfabetismo era igualmente habitual, a ignorância estava presente, bem como os vícios e a prostituição. Aquela era uma sociedade enferma.

No seio de uma sociedade achacada foi que Calvino desenvolveu sua teologia e sua visão sobre a responsabilidade social da Igreja. Na leitura daquele reformador, a miséria era um claro sinal da corrupção humana, fruto da queda. Ele faz sérias denúncias sobre os pecados sociais, falando sobre a estocagem de alimentos que visam ao enriquecimento de poucos, denunciando a especulação financeira oriunda do egoísmo e da avareza do ser humano.

Mas Calvino dispunha de uma teologia que ultrapassava questões individuais e espirituais. Cristo Jesus é o Senhor de toda a existência humana, sendo assim, era dever da Igreja dar atenção também aos temas sociais e políticos.

Três aspectos resumem a visão de Calvino sobre a responsabilidade social da Igreja: os ministérios didático, político e social.

4. Ação social da igreja no pós-reforma

A contento, a Igreja não limitou sua ação a um momento particular da história. No período do pós-reforma, ainda podemos encontrar o bom cheiro do agir da Igreja tratando de assuntos sociais que eram tão importantes naqueles dias. Destacaram-se, naquela época, dois personagens que desempenharam papéis relevantes na sociedade em que estavam inseridos no que pertine ao tema sociológico.

A) John Wesley

Ao voltar-se os olhos para o período conhecido como dos Reavivamentos, certamente se aperceberá a brilhante figura de John Wesley. Como lembra muito bem Clóvis Pinto de Castro, Wesley certamente fez a seguinte afirmação: “O mundo é minha paróquia”. 66 Essa leitura da relação Igreja/mundo teve uma influência significativa em seu ministério. Segundo Cavalcanti: “Ninguém foi mais holista e mais integral em sua visão missionária do que Wesley”.67

O despertamento espiritual do século XVII revelou-se, de um modo maravilhoso, no desenvolvimento das obras sociais de caráter cristão. O amor de Deus, sentido e experimentado com o novo poder que procedeu do reavivamento anunciado por toda parte, constrangia os homens ao amor e ao serviço em favor do próximo.

René Padilla afirma que a última carta de Wesley foi escrita em 24 de fevereiro de 1791, apenas seis dias antes de sua morte, e foi dirigida a William Wilberforce em sua luta no Parlamento a favor da abolição da escravatura. Na carta, o grande pregador dizia ao político:

A menos que Deus tenha te levantado justamente para a tarefa, a oposição dos homens e dos demônios será inesgotável; mas se Deus está contigo ‘quem será contra ti?’ Siga adiante em nome de Deus e no poder de sua fortaleza, até que a escravidão norte-americana, a mais vil que jamais fora vista à luz do sol, se desvaneça diante dele.68

Wesley trabalhou incessantemente para o bem estar espiritual e material daqueles a quem proclamava o Evangelho de Jesus. Dentre as muitas ações transformadoras na área social, encontramos a abertura de clínicas gratuitas, o estabelecimento de uma espécie de cooperativa de crédito, escolas e orfanatos. Stott lembra que “os historiadores atribuem à influência de Wesley — muito mais que a qualquer outra coisa — o fato de a Inglaterra haver sido poupada dos horrores de uma revolução sangrenta como a da França”.69

B) William Wilberforce

William Wilberforce (1759-1833) era um jovem aristocrata rico da Inglaterra do século XVIII. Ele era um promissor membro do Parlamento. Viveu uma vida tolerante de acordo com os padrões da sociedade dos seus dias. Após experimentar uma profunda conversão, afastou-se dos excessos e das frivolidades, dedicando sua visão política à causa de Deus.

Logo depois de sua conversão, Wilberforce sentiu-se motivado a se envolver com o ministério pastoral. Por essa razão, imaginou que deveria afastar-se da política, entendendo que as duas coisas não poderiam andar juntas. No entanto, naquele momento, o ex-comerciante de escravos, John Newton, autor do hino “Amazing Grace” convenceu Wilberforce de que Deus o queria envolvido com a política ao invés de entrar para o ministério. Ainda assim, o jovem envolveu-se com a evangelização e a proclamação da Palavra; no entanto, sua vocação era política, o que o fez entender que Deus o havia levado ao poder público para lutar contra a terrível maldade da escravidão e do tráfico de escravos.

Em 1787, o jovem político iniciou sua cruzada. Os navios negreiros, pertencentes a europeus cristãos, transportavam, por ano, 100 mil africanos capturados para a América do Norte. Todavia, a Inglaterra, seu país natal, era a líder desta tirania selvagem. Wilberforce sabia que a escravidão era um terrível pecado contra Deus e contra o próximo, por isso ele se posicionou tão ferrenhamente contra tal instituição.

Segundo Francis Schaeffer, William Wilberforce foi a maior força pessoal solitária a transformar a Inglaterra de um país escravocrata para um país que, muito antes dos Estados Unidos, abandonou a escravatura de fato e de direito. 70

5. O testemunho histórico da missão integral da igreja no Brasil

Diante da história, é importante identificar as realizações da Igreja Evangélica Brasileira. Neste trabalho, sucintamente é apresentada a posição de algumas denominações históricas sobre a questão social, bem como um extrato do pronunciamento social dessas denominações, dentre elas as Igrejas Presbiteriana do Brasil, Batista e Metodista, bem como o pensamento da Confederação Evangélica, o envolvimento dos evangélicos com a Liga Camponesa e o nascimento da Associação Evangélica Brasileiro (AEVB).

A) A Igreja Presbiteriana do Brasil e a questão social

Em 12 de agosto de 1859, desembarcava no Rio de Janeiro o primeiro missionário presbiteriano. Era um jovem de 26 anos, solteiro, formado recentemente no seminário de Princeton e recém ordenado ao sagrado ministério, seu nome, Ashbel Green Simonton.

Na reunião do Presbitério do Rio de Janeiro em julho ele 1867, menos de cinco meses antes ele morrer prematuramente de febre amarela em São Paulo, Simonton propôs a seguinte estratégia missionária: 1) a santidade da igreja deve ser ciosamente mantida no testemunho de cada crente; 2) é preciso inundar o Brasil de Bíblias, livros e folhetos; 3) cada crente deve comunicar o evangelho a outra pessoa; 4) é necessário formar um ministério nacional idôneo; 5) escolas paroquiais para os filhos dos crentes devem ser estabelecidas. 71

Parece que as últimas palavras de Simonton podem dar uma pequena noção do perfil da Igreja Presbiteriana do Brasil que estava nascendo em meados do século XIX.

Mais recentemente, segundo o Supremo Concilio da IPB, impõe-se sobre a Igreja que a obrigação de fazer pronunciamentos sobre questões sociais da atualidade nacional e internacional deriva de sua vocação profética de proclamadora e de testemunha do reino e de sua submissão e fidelidade à Palavra de Deus. Às Igrejas Presbiterianas do Brasil, competem, portanto:

1 – Dar, pelo púlpito e por todos os meios de doutrinação, expressão do Evangelho total de redenção do indivíduo e da ordem social;

2 – Incentivar seus membros a assumirem uma cidadania responsável, como testemunhas de Cristo, nos sindicatos, nos Partidos Políticos, nos Diretórios Acadêmicos, nas fábricas, nos Escritórios, nas Cátedras, nas Eleições e nos Corpos Administrativos, legislativos e Judiciários do País;

3 – Clamar contra a injustiça, a opressão e a corrupção, e tomar a iniciativa de esforços para aliviar os sofrimentos dos infelicitados, por uma ordem social iníqua; colaborando, também, com aqueles que, movidos por espírito de temor a Deus e respeito à dignidade do homem, busquem esses mesmos fins, assim como aceitando sua colaboração;

4 – Opor, por uma pregação viva e poderosa, relevante e atual, uma barreira inexpugnável contra as forças dissolventes do materialismo e do secularismo;

5 – Lutar pela preservação e integridade da família e pela integração de grupos marginalizados pela ignorância e analfabetismo, pelos vícios, pelas doenças e pela opressão na plena comunhão do corpo social;

6 – Dar à infância e à juventude uma formação cristã que as capacite a enfrentarem vitoriosamente o impacto dos paganismos contemporâneos, com a força da interpretação cristã da vida total do homem à luz de Deus;

7 – Defender, pelo exemplo de seus membros, a dignidade do trabalho, quer manual quer intelectual;

8 – fazer a proclamação profética incessante dos princípios éticos e sociais do evangelho de modo que sejam denunciados todos os erros dos poderes públicos, sejam de omissão, ou comissão, que resultem em ameaças ou obstáculos à paz social ou tendam à destruição da nossa estrutura democrática;

9 – Defender a necessidade de mais eqüitativa distribuição das riquezas, inclusive da propriedade da terra, e advertir, em nome da justiça de Deus e da fraternidade cristã, aqueles cujo enriquecimento seja fruto da exploração do próximo;

10 – Tornar o Estado consciente de todos os seus deveres, transmitindo-lhe corajosamente a palavra profética, especialmente nas horas de crise, prestigiando sua ação no estabelecimento da justiça social e oferecendo-lhe colaboração para solução cristã de todos os problemas da comunidade.

B) A Igreja Metodista e a questão social

Como movimento, o metodismo tem a sua origem com John Wesley, ministro da Igreja da Inglaterra. Durante seu ministério, Wesley introduziu a pregação ao ar livre (influenciado por George Whitifield) e a pregação leiga. Conquanto haja suscitado estranheza no seio da Igreja da Inglaterra, não se desligou da Igreja Anglicana até à sua morte.

O metodismo chegou aos Estados Unidos a partir dos adeptos que emigraram para as “Treze Colônias”. Os leigos eram enviados por Wesley para a propagação do Evangelho, o que gerou crescimento. Mas criou-se uma situação inusitada: os leigos precisavam do clero anglicano para oficiar os sacramentos. Diante disto, Wesley resolveu organizar os metodistas norte-americanos em Igreja. O que caracterizou aquele grupo naqueles dias não era sua doutrina ou forma de culto, mas a sua política eclesiástica que dava ênfase tanto ao ministério itinerante quanto ao laicato.

Os metodistas enviaram ao Brasil os seus dois primeiros missionários, em 1836, R. Justus Spanding e, em 1837, Daniel Parish Kidder. Por questões ligadas à escravidão, houve uma ruptura no seio da Igreja nascente, fazendo com que os trabalhos fossem suspensos até 1867, quando Junius E. Newman desembarcou no Brasil, vindo dos Estados Unidos.

Depois de uma pincelada na história do metodismo, menciona-se a seguir o credo social da Igreja Metodista e para entendê-lo, cabe salientar que a Igreja Metodista do Brasil não identifica o Cristianismo com nenhum sistema sócio-político-econômico. Também se acredita que a melhor maneira de transformar a sociedade é levar a Cristo o indivíduo que nela se insere, orientando-a com os princípios do Evangelho de Jesus. A referida igreja igualmente defende uma distribuição de renda mais eqüitativa, a fim de que o homem tenha uma vida marcada pela dignidade. Eis o que se tornou o credo social para os metodistas:

1 – Direitos iguais de justiça rápida e econômica para todos os homens;

2 – Provisão de habitação adequada para todas as famílias, tanto nos perímetros urbanos como nos rurais;

3 – Regulamentação e proteção do trabalho da mulher, especialmente da mulher mãe, e previdência social que lhe assegure proteção física, social e moral;

4 – Abolição do emprego de menores em condições que prejudiquem o seu desenvolvimento normal e sua educação espiritual, física, intelectual e moral;

5 – Proteção da criança e dos adultos contra enfermidades, da subnutrição, de hábitos e vícios que atentam contra sua saúde;

6 – Regulamentação do trabalho e direito de todos os homens a uma oportunidade de manutenção própria;

7 – Proteção do operário contra toda usurpação e exploração injusta e de acidentes do trabalho;

8 – Salário que garanta a subsistência do trabalhador rural e urbano e de suas famílias, em circunstâncias que assegurem a dignidade da pessoa humana;

9 – Melhor distribuição de terras agricultáveis e contra toda a forma de exploração do trabalhador rural. 74

C) A questão social e a Igreja Batista

Os batistas foram a quarta denominação evangélica a implantar igrejas no Brasil. Thomas Jefferson Bowen chegou ao Brasil, enviado pela Junta de Missões Estrangeiras da Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos, cerca de quatro meses depois do primeiro missionário congrrgacional e aproximadamente seis meses depois do primeiro missionário presbiteriano.

Por motivos de saúde, Bowen retornou para sua pátria em 1861. Ao retornar à sua pátria e apresentar seu relatório, a Jun ta de Missões Estrangeiras entendeu que não era interessante o grande esforço para evangelizar um campo tão difícil quanto o Brasil.”’

Depois de cerca de vinte anos de ausência, a Junta de Missões Estrangeiras enviou novos missionários batistas para o Brasil, eram eles: William Buck Bagby e sua esposa Anne Luther Bagby, que desembarcaram no Rio de Janeiro, no dia 2 de março de 1881, após 48 dias de viagem. Um ano depois, também no Rio de Janeiro, no dia 23 de fevereiro de 1882, o casal Zachery Clay Taylor e Kate Crawford Taylor, chegou ao solo brasileiro. 75

Em traços históricos, foi brevemente relatada a chegada dos batistas ao Brasil. A partir de então, passa-se à análise de um documento mais recente produzido pela Ordem dos Ministros Batistas do Brasil, entidade que congrega os pastores que servem às igrejas da Convenção Batista Brasileira, a qual, reunida na cidade de Vitória-ES, formulou o seguinte manifesto sobre a questão social:

“Reconhecemos ser privilégio dos Batistas brasileiros a iniludível responsabilidade de contribuir não somente para a solução dos problemas que no momento assoberbam o nosso povo, como também para a determinação do seu destino histórico”. 76

1 – Os direitos da pessoa humana

Reconhecem-se a importância e a significação das instituições, acreditando-se ser o homem o esteio das preocupações, porquanto “criado à imagem e semelhança de Deus”. Imprescindível a defesa da liberdade em todas as suas formas de expressão.

2 – Igreja e Estado

Inspirados no preceito bíblico, “dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22.21), pugna-se pela existência de Igrejas livres num Estado livre, preconizando a delimitação inteligente e respeitosa das esferas de responsabilidade e ação da Igreja e do Estado, sem interferências abusivas ou relações aviltantes de dependência, embora permitindo a cooperação construtiva entre ambos.

3 – Justiça social

Reconhecemos a inadequação da presente estrutura social, política e econômica para a realização plena da justiça social, pelo que insistimos na necessidade de um reexame corajoso, objetivo e não-preconcebido da presente realidade brasileira, com vistas à sua reestruturação em moldes que possibilitem o atendimento às justas aspirações e necessidades do povo.”

No Congresso Batista de Ação Social, ocorrido em 1987, no Rio de Janeiro, deu-se, sem dúvida alguma, um passo importante na direção de uma releitura do papel da denominação de um trabalho mais efetivo no que versa sobre a questão social. Naquele congresso, Irland Pereira de Azevedo, fez uma retrospectiva histórica da obra social da Igreja Batista no Brasil, citando, dentre muitas ações, aquelas ligadas a orfanatos, casas de idosos, cursos de alfabetização, cursos profissionalizantes, ambulatórios, casa de saúde e hospitais, creches, trabalho com viciados em drogas, dentre outros ministérios sociais.78

4. A Confederação Evangélica do Brasil

Nos idos de 1934, a Confederação Evangélica Brasileira (CEB) foi formada e funcionou até o golpe militar de 1964.

Nessas três décadas, ela reuniu boa parte das igrejas evangélicas históricas, ou seja, os não-pentecostais.

De 1955 a 1964, a CEB dispunha de um setor que tratava especificamente do aspecto social da Igreja o qual, dentre as várias atividades desenvolvidas, esteve promovendo a chamada “Conferência do Nordeste”, no ano de 1962. O golpe militar de 64 foi fatal para a confederação, mas em junho de 1987 ela acabou renascendo das cinzas com o apoio de vários constituintes evangélicos. A nova CEB congregava uma maioria pentecostal, grupo que encontrou grande resistência das igrejas históricas. Mas recebeu significativas doações do governo do então presidente, José Sarney, principalmente no período da Assembléia Constituinte.

A partir de 1988, denúncias foram feitas contra a chamada “bancada evangélica”, levando Paul Freston a fazer comparação desse escândalo com os escândalos dos televangelistas nos Estados Unidos. 79

Obviamente, antes desse período fatídico, marcado por denúncias e escândalos, a confederação teve o seu período de relevância e seriedade. Domício Mattos cita algumas das declarações sociais feitas pela Confederação Evangélica do Brasil:

1 – Os propósitos de Deus incluem a justiça nas relações pessoais entre indivíduo e indivíduo, como também nas relações coletivas entre grupos sociais;

2 – Nos grandes setores evangélicos se tem interpretado a fé cristã em termos individuais, sem preocupar-se adequadamente pelas obrigações que impõe a fé crista na ordem político-social;

3 – Cristo nos chama ao arrependimento individual e coletivo, pois todos estamos implicados no pecado de nossas nações;

4 – Uma expressão do pecado que cometem todos os seres humanos é a tendência a dar maior importância aos interesses pessoais do que aos da sociedade;

5 – O homem é uma pessoa integral; portanto, seu espírito é afetado pelo que afeta o seu corpo, e grande parte de sua personalidade surge das relações sociais que desfruta;

6 – Os cristãos são responsáveis por tudo, diante de Cristo e da obra de Deus em Cristo, e esta responsabilidade os faz livres da influência de todas as ideologias;

7 – Cristo chama-nos para que demos testemunho de nossa fé, partilhando-a com os outros e apresentando-a aos homens todos, não como uma série de idéias que eles possam debater e sim como um modo de viver com os homens e com Deus, afirmada por uma decisão diária e por uma permanente companhia divina. Essa partilha nos leva a servir-nos uns aos outros em amor e por amor;

8 – Por outro lado há uma necessidade de sermos até certo ponto inconformados, de não nos submetermos às coisas que são do mundo, aos seus esquemas, às suas estruturas falsas; de não sermos — a pretexto de respeitar pura e simplesmente a ordem histórica — adesistas ou conservadores no sentido estático do vocábulo, mas de nos renovarmos continuamente na busca incansável da vontade divina.80

O documento apresentado por Mattos é extenso e inclui temas relevantes tratados pela confederação como o problema educacional, a necessidade de uma reforma universitária, as questões urbanas e a reforma agrária. Inegavelmente, a confederação cumpriu um importante papel na história da Igreja Evangélica Brasileira, infelizmente perdendo-se na sua caminhada, principalmente a partir de 1964, mas a sua relevância não pode ser desprezada. Nesse contexto e marcada por escândalos e desgaste da imagem dos evangélicos no Brasil, a partir da década de 80, nasceu a Associação Evangélica Brasileira a AEVB.

7. A Associação Evangélica Brasileira

Como foi visto até agora, os evangélicos tiveram voz no Brasil. Chegaram a apresentar seus pontos de vista sobre questões sociais importantes, mas, infelizmente, as divisões internas e o golpe militar de 1964 afetaram significativamente o rumo da CEB que, posteriormente reorganizada, já não tinha o mesmo escrúpulo dos primeiros anos, o que desencadeou os escândalos dos anos oitenta. Diante de tais escândalos, a Igreja Evangélica sente necessidade de ter uma voz que seja mais coerente, uma associação que possa ser ouvida e respeitada. À luz desse sonho, a Associação Evangélica Brasileira – AEVB foi criada, precisamente no dia 17 de maio de 1991, no templo da sede da Igreja Evangélica Pentecostal “O Brasil para Cristo”, na cidade de São Paulo, onde líderes de diversas denominações evangélicas reuniram-se para organizá-la. Paul Freston lista algumas das razões porque a AEVB foi criada naquele ano:

1 – O desgaste da imagem pública dos evangélicos em conseqüência da publicidade negativa em torno da ‘”bancada evangélica” na Constituinte, inclusive a apropriação do nome da Confederação Evangélica para fins considerados fisiológicos.

2 – A campanha em setores da mídia e da Igreja Católica contra as chamadas “seitas”. A união é a melhor forma de enfrentar tais ataques.

3 – A necessidade dos “evangelicais” de constituírem espaços institucionais.

4 – O crescimento numérico dos evangélicos e o natural espaço para influenciar os rumos da sociedade e a necessidade de se assumir o seu papel social no país.81

Parece-me que, revisitando a história da Igreja Evangélica no Brasil, é possível perceber que, em muitos momentos, ela exerceu um papel relevante quanto ao aspecto sociológico. Recentemente, ela tem sido cognominada de omissa, o que não se pode considerar muito justo, conquanto esteja, à evidência, aquém do seu potencial numérico e das suas reais condições. As críticas, por mais que se revistam de coerência, não podem levar ao menosprezo os evangélicos no Brasil.

A ausência de menção, até agora, às igrejas pentecostais e ao seu papel social neste país, não obstante sua grandeza e expressão, é proposital, posto que se pretende enfatizar, particularmente, apenas algumas igrejas históricas. Contudo, destaca-se a participação e o envolvimento dos evangélicos, dentre eles os pentecostais, sobretudo dos membros da Assembléia de Deus, no movimento agrário, sobretudo no que tange às ligas camponesas. Carlos Pinheiro Queiroz enfatiza com muita propriedade essa participação.

Não deixemos apagar em nossa memória as ligas camponesas, movimento pela defesa dos sem-terra, que tinham Francisco Julião como mentor intelectual, e contavam principalmente com o apoio dos líderes batistas e pentecostais. Segundo Cartaxo Rolim, “Julião conseguia sensibilizar os crentes, ao dizer-lhes que podiam entrar para as ligas com os cânticos, a Bíblia, citando principalmente os profetas, enquanto ele, Julião iria com a lei civil”.82

Tais considerações parecem dar um vislumbre do papel da Igreja Evangélica no Brasil quanto à sua visão e ação social.

Entende-se que, passando pela história da Igreja e verificando, mesmo que com objetividade, a sua atuação social, a Igreja hoje deve sentir-se desafiada a resgatar essa história bem como a sua atuação social. A Igreja não pode se deixar influenciar apenas por aspectos fundamentalistas alienantes, nem se pode permitir que uma escatologia dispensacionalista a torne alheia ao que acontece ao seu redor, uma crise real. A Igreja não foi chamada apenas para o céu, mas, para, em nome de Jesus, se levantar como sal e luz e produzir um grande reboliço na sociedade. O que precisa gerar influência não é a visão teológica reducionista que marcou a história, mas aquela visão presente nos Pais da Igreja, em homens como Lutero, Calvino, Wesley, Wilberforce, na CEB, na AEVB, sonhadores que sempre acreditaram que o papel da igreja não é o de transferir gente da terra para o céu, mas de transformar as condições de injustiça e degradação humanas em lugar de justiça e promoção da vida.

Capítulo 4

Base bíblico-teológica para a responsabilidade social

No capítulo anterior, demonstrou-se a omissão da Igreja no Brasil quanto ao caráter sociológico, cuja afirmação parece encontrar esteio em raízes históricas, fruto de um aprendizado preconceituoso e de uma hermenêutica equivocada e deficiente. Usa-se o dizer de Jesus em Mateus 26.11 “porque os pobres, sempre os tendes convosco…”, citação do livro de Deuteronômio 15.11, e interpreta-se como se Jesus estivesse vaticinando sobre a impossibilidade de fazer algo pelos pobres. Por mais que se tente praticar determinados atos, tudo permanecerá como está. Indubitavelmente, não era isso o que Jesus queria dizer. Ele estava repreendendo a atitude preconceituosa dos discípulos que criticaram uma mulher que, demonstrando carinho e querendo honrar o mestre, derramou sobre a cabeça do Filho de Deus um precioso perfume. Os discípulos, indignados, imaginaram que seria mais interessante vender tão precioso ungüento e socorrer aos pobres com os recursos levantados. Cristo, no texto apresentado, não estava prenunciando sobre a perpetuação da miséria, mas lembrando seus discípulos que aquela mulher fez algo excepcional e que tal ato não afetara o exercício prático do socorro aos pobres. Os pobres estariam sempre sujeitos a serem socorridos, oportunidades não faltariam e que eles fizessem bom uso destas, portanto.

O segundo problema interpretativo relaciona-se com a escatologia que a Igreja no Brasil acabou herdando. Ela assevera que o mundo irá de mal a pior e que, por conseguinte, não podemos fazer algo capaz de transformar esse caminho inexorável. Essa doutrina precisa ser revista à luz das escrituras, pois o desafio deixado pelo Senhor e pelos seus apóstolos continua muito atual: “A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações…” (Tg 1.27).

A Igreja Evangélica apregoa que a Bíblia é a sua única regra de fé e prática. Se isto é verdade absoluta, faz-se necessário voltar os olhos a Bíblia, buscando nela referenciais para uma práxis social relevante.

Para fundamentar este estudo e dar sustentação àquilo que ora se apresenta como sendo a missão social da Igreja, há que se refletir o entendimento da Bíblia e da teologia, buscando pilares de sustentação para aquilo que deve motivar o agir social da Igreja.

O Antigo Testamento será visitado, mas sem a pretensão de adentrar profundamente no mesmo, conquanto esse se constitua uma das divisões desta sessão. Analisa-se, sem maior detalhismo, o Pentateuco e o que relataram e entenderam alguns profetas sobre a questão social. Ainda, nesta sessão, percorrendo o Novo Testamento e, de modo específico, o ministério de Jesus, tendo como ponto de partida o texto de Mateus 9.35-38. Por fim, destinar-se-á maior atenção à teologia, descobrindo nela aspectos que sejam relevantes para a ação social da Igreja.

1. Visitando o Antigo Testamento

Ao pensarmos a responsabilidade social da Igreja, quase que instintivamente, reportamo-nos ao Novo Testamento, seus Evangelhos e Epístolas. No entanto, é certo também, que o Antigo Testamento tem algo a dizer sobre o tema, que precisa ser revisto atualmente.

Impressiona perceber que o interesse divino pelo povo de Israel manifestou-se de muitas maneiras, dentre elas encontram-se preciosas instruções legais sobre um período que deveria ser respeitado, guardado e observado para benefício do povo que entrasse na nova terra, Canaã. Porém, fica explícito que, mais do que beneficiar o povo, o interesse de Deus toca a vida daqueles que, de alguma forma, encontram-se quebrados, feridos, empobrecidos. O ano sabático, por exemplo, como lembra Alan Cole, tinha o único propósito de que os pobres pudessem comer e, depois deles, os animais do campo.83

Já R. K. Harrison afirma que a legislação do Jubileu tem como tema básico, a libertação daquilo que era preso. A lei dava claras indicações de que os primeiros beneficiários de tal período eram os concidadãos judeus que viviam em servidão.84 Naqueles dois períodos festivos, com o coração agradecido, o povo deveria recordar-se do ato libertário de Deus no Egito e do Deus provedor, porém, tanto o ano sabático como o jubileu colocavam sobre os ombros do povo a responsabilidade de participar do socorro e da libertação do outro. Esta era uma maneira pedagógica de Deus ensinar-lhes sobre generosidade, solidariedade c misericórdia.

O ano sabático

Na lista das festas sagradas, encontram-se o sétimo dia da semana, como sábado (descanso), e o sétimo mês, como o mês sabático, em que se celebravam três festas. Mas este notável sistema de sabatismos estendia-se ainda mais e alcançava o sétimo ano. Depois desse, como última expressão da idéia sabática, vinha o ano santificado, o ano sabático. Intimamente relacionado ao sábado, o ano sabático aplicava-se aos israelitas que entrassem na terra de Canaã. A cada sete anos era designado um período de tempo, um ano, para o descanso do solo.

Disse o Senhor a Moisés, no monte Sinai: Fala aos filhos de Israel e dize-lhes: Quando entrardes na terra que vos dou, então, a terra guardará um sábado ao Senhor. Seis anos semearás o teu campo, e seis anos podarás a tua vinha, e colherás os seus frutos. Porém, no sétimo ano, haverá sábado de descanso solene para a terra, um sábado ao Senhor; não semearás o teu campo, nem podarás a tua vinha (Lv 25.1-4).

Durante o referido período, os israelitas não semeavam o campo e nem podavam as videiras. Tudo quanto colhessem naquele ano deveria ser partilhado igualitariamente pelo proprietário entre os servos, estrangeiros e até animais. Somente em Deuteronômio é apresentado como o ano em que os débitos deveriam ser cancelados. Os credores eram instruídos a cancelar as dívidas dos pobres, assumidas durante os seis anos anteriores (Dt 15.1-11). Provavelmente, esse era o período da alforria de escravos. (Ex 2.12-6, Dt 15-12-18). O ano sabático era um instrumento pedagógico que servia para lembrar aos judeus que um dia foram escravos e que experimentaram libertação pela intervenção divina.

O ano do jubileu

Observados sete anos sabáticos, era chegado o ano do jubileu; a cada quarenta e nove anos, um era observado como período de descanso para as terras agricultáveis que deveriam ficar sem cultivo durante aquele ano. (Ex 23.10-11). O termo jubileu corresponde, em hebraico, a yobel, que também indica o toque do “clarim”, som extraído de um corno de carneiro. Em português, é usado para referir-se a um grito de alegria. Sua presença, nas traduções modernas, vem do nome que lhe dá a versão Vulgata Latina, annus jubilei ou jubileus.85

Aquele ano caracterizava um período de restituição da herança familiar para aqueles que a haviam perdido, uma época de libertação de escravos e de descanso da terra. (Lv 25.8-55, Dt 15-12-18). O cuidado em restituir a herança tem uma relação com o fato de que a terra pertencia a Deus; Ele dava à família o direito de administrá-la, o que passaria de geração a geração. Quanto aos escravos, eles deveriam servir a seus senhores no máximo por um período de seis anos. Chegando o jubileu, mesmo que o escravo houvesse servido um período menor que seis anos, deveria ser libertado. (Ex 21.1-11, Lv 25.39-55).

O povo de Deus está investido de uma responsabilidade ética especial em favor do pobre. No Antigo Testamento, a lembrança do povo de Deus como escravo no Egito era razão para motivá-lo a mostrar misericórdia ao oprimido (vide Deuteronômio 24.14-22; Levítico 19-15; Amós 2.6-7; Zacarias 7.9-10). Todos esses ensinos a respeito do pobre fazem parte da Palavra de Deus. O Antigo Testamento enfatiza que o Senhor requer justiça para os pobres e julgará aqueles que os oprimem. 86

Russel Shedd afirma que as leis de Israel foram instituídas por Deus, objetivando produzir uma sociedade justa para todos os cidadãos, independentemente de sua classe social. A leitura da lei e sua compreensão levariam a nação a entender a paixão, a justiça e a imparcialidade de Deus ao tratar com seu povo. O objetivo do período do descanso sabático, tanto no jubileu quanto no ano sabático, era prover descanso para a terra e alimento para os destituídos. Esse benefício alcançaria os pobres, as viúvas, os órfãos, os estrangeiros e os escravos sem qualquer distinção, todos seriam tratados com o mesmo zelo.87

A Palavra de Deus proporciona uma percepção do caráter divino e ao percebê-lo, nota-se que, desde a criação, Deus está interessado no bem-estar do ser humano.

Na criação, descobre-se que o ser humano foi tratado com deferência, tornando-se a coroa da criação. Mesmo depois da queda, o Pai demonstra estar solícito ao ser humano pois em sua promessa (Gn 3) reside uma palavra redentiva que objetiva resgatar a humanidade e a criação. Encontramos semelhante cuidado na vocação abraâmica, ao ser Abraão chamado para ser uma bênção, e finalmente, na lei mosaica encontramos essa intensa demonstração de que Deus está interessado no bem-estar do ser humano. É preciso lembrar que o Deus da revelação bíblica é tanto criador como redentor.88

A leitura dos profetas confere idêntica perspectiva. Na denúncia feita por Isaías sobre o pecado do povo de Israel, que tornava o seu culto inaceitável perante Deus, encontra-se o seguinte: “Pelo que, quando estendeis as mãos, escondo de vós os olhos; sim, quando multiplicais as vossas orações, não as ouço, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, repreendei ao opressor; defendei o direito do órfão, pleiteai a causa das viúvas”. (Is 1.15-17). Junte-se a esta queixa a queixa do profeta Amós (Am 2.6-8; 5.7,10-12.) e também a voz de Oséias ao dizer o que Deus espera do seu povo: “Pois, misericórdia quero, e não sacrifício, e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos”. (Os 6.6).

2. Visitando o Novo Testamento

São muitos os desafios lançados no Novo Testamento e nele se verifica a riqueza de textos que desafiam a Igreja a agir de maneira solidária e justa diante da realidade social em que está inserida. Tiago 2.14-16 fala-nos sobre a necessidade de a fé tornar-se uma realidade mais contundente por meio das obras. Afinal, qual valor de uma fé que contempla a necessidade do outro com indiferença? João, o evangelista, na sua primeira carta (I Jo 3.17-18), pergunta como o amor de Deus pode permanecer no coração de alguém que tem recursos, mas não os compartilha com o irmão necessitado. Em outras palavras, João entende que o amor de Deus, derramado em nossos corações precisa ser vertido sobre o outro de maneira prática. O apóstolo Paulo também aduz algo sobre a questão da generosidade do cristão diante da necessidade do outro e, em sua segunda carta aos Coríntios (II Co 8 e 9), debruça-se sobre a questão da coleta que a igreja na Macedônia levantou em favor das igrejas da Judéia. É possível acrescentar textos, como: At 10.38, Gl 6.9-10, II Ts 3.13 e Hb 13-16 e perceber que o desafio é o mesmo: a Igreja de Jesus precisa ser generosa, precisa dispor-se a fazer o bem.

Visitando o ministério de Jesus

“Nosso estilo de vida como cristãos depende da imagem que temos de Cristo, do Cristo no qual depositamos a nossa fé”. 89 Na caminhada com Jesus pelo seu ministério, é possível perceber uma nova maneira de ver a vida. Em Cristo, o velho torna-se novo, a justiça estabelece-se, o miserável sai da marginalidade, o órfão é amado, a viúva é respeitada, o estrangeiro é acolhido, o pecador pode ser amado. NEle, todo carente, tem a oportunidade de ser acolhido e abraçado.

Causa verdadeiro encanto a menção feita, repetidas vezes, pelos evangelistas acerca da palavra compaixão como parte do ministério de Jesus. Ele via as multidões e compadecia-se delas. O sofrimento do ser humano sempre atraiu a atenção de Jesus, Ele não era indiferente à tragédia humana (Mc. 1.40-41; Lc. 7.11-14; Mt. 14.14; Mt. 15.32). Ele via a dor do outro e dela se compadecia. Mas a compaixão de Jesus não era algo restrito ao sentimento. Parece que a igreja não se porta com total indiferença à miséria do homem, até consegue emocionar-se e chorar. Jesus, no entanto, não apenas sentia, mas seu sentir, sua emoção, sempre se transformava em ação prática. Mateus afirma que ele curava toda sorte de doenças e enfermidades (Mt 4.25-25, 9.35-38).

Recorrendo aos Evangelhos e notando a ação de Jesus no mundo, percebe-se Seu anseio de ver as necessidades dos seres humanos supridas e, olhando-O, é possível entender que Jesus constitui o paradigma da missão da Igreja. Os Evangelhos levam a constatar que a encarnação, devoção, serviço e ressurreição formaram os pilares da vida de Jesus e da mensagem das boas novas do Rei.

No evangelho de João, verifica-se a oração de Jesus, conhecida como Oração Sacerdotal. Nela, Ele faz o seguinte pedido: “Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo” (Jo. 17.1 8). Aquele que segue a Jesus precisa trilhar o mesmo caminho que seu mestre trilhou. Em sua oração, Jesus ensina que é preciso ser Igreja no mundo, a este não pertence, mas nele está como sal e luz; Igreja que não se aliena, mas torna-se sensível àquilo que acontece ao seu redor e, muitas vezes, à sua porta.

A ação de Jesus na crise humana não se deu apenas como manifestação da presença do Reino, mas se deu porque Jesus era alguém movido por compaixão. Diante da dor do outro, Ele se emocionava. Ele não via o sofrimento com prazer ou como se ele representasse uma realidade cotidiana com a qual precisava se acostumar e por isso alienar-se. Jesus compadecia-se daqueles que, pelas circunstâncias e pela opressão social, encontram-se na miséria ou marginalizados. Senão, vejamos:

“Ora, descendo ele do monte, grandes multidões o seguiram. E eis que um leproso, tendo-se aproximado, adorou-o dizendo: Senhor, se quiseres, podes purificar-me. E Jesus, estendendo a mão, tocou-lhe dizendo: Quero, fica limpo! E imediatamente ele ficou limpo da sua lepra. Disse-lhe, então, Jesus: Olha, não o digas a ninguém, mas vai mostrar-te ao sacerdote e fazer a oferta que Moisés ordenou, para servir de testemunho ao povo”. (Mt 8.1-4)

De modo fascinante, ainda que seja a interpretação que nem todos se lhe atribui, entende-se haver sido estabelecido nesse encontro, uma cura com nuanças bem particulares. Jesus acabara de pregar o sermão do monte e estava sendo seguido por uma grande multidão, instante em que foi procurado por um leproso e, embora tendo uma multidão diante de si, Ele não estava interessado na popularidade, mas em gente de carne e osso. Diferentemente de nós, Jesus não se deixa seduzir pela popularidade, por isso consegue ver além daquele aglomerado humano.

Jesus compadeceu-se daquele homem e fez algo muito especial, contrariando todos os padrões judaicos: Ele o tocou. Na minha leitura, se Jesus apenas tivesse curado aquele homem da sua lepra, não haveria resolvido um problema ligado às emoções, à psique daquele homem. O texto não informa há quantos anos ele carregava aquele estigma, mas simplesmente que o carregava. O leproso, enquanto caminhava, precisaria anunciar sua maldição dizendo-se ”impuro, impuro, impuro”. Se fora tocado por alguém nos últimos anos, fora tocado por outros leprosos, gente que carregava a mesma marca, mas não por diferentes. Agora, Jesus, o Messias, passa por ali, deixa a multidão para atendê-lo em sua necessidade, tocando-o. Só depois de tocá-lo, Jesus ordena que ele seja curado. Mas existe outra verdade no texto que igualmente causa encanto. Jesus enviou aquele homem (purificado) ao sacerdote para que se cumprissem os preceitos da lei mosaica. Nesse sentido, a cura estabelecida por Jesus tinha direta relação com a cura social. Ele precisaria de uma carta de alforria que lhe desse o direito de transitar pelas cidades sem medo do preconceito.

“… dirigia-se Jesus a uma cidade chamada Naim, e… como se aproximasse da porta da cidade, eis que saía o enterro do filho único de uma viúva; e grande multidão da cidade ia com ela. Vendo-a, o Senhor se compadeceu dela e lhe disse: Não chores! Chegando-se, tocou o esquife e, parando os que o conduziam, disse: Jovem, eu te mando: Levanta-te”. (Lc 7.11-14) “Desembarcando, viu Jesus uma grande multidão, compadeceu-se dela e curou os seus enfermos”. (Mt 14.14)

Jesus entendia muito bem a sua vocação, por isso mesmo, no evangelho de Lucas, Ele, absolutamente convicto, declara:

“Então, lhe deram o livro do profeta Isaías, e, abrindo o livro, achou o lugar onde estava escrito: O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor… Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4.17-21).

Jorge Barro denomina o texto acima como sendo a agenda programática da missão de Jesus, que era:

1. Pregar as boas novas aos pobres;

2. Proclamar libertação aos cativos;

3. Restaurar a vista aos cegos;

4. Libertar os oprimidos e;

5. Proclamar o ano aceitável do Senhor 90.

É comumente aceito que os cativos, os cegos e os oprimidos estão na categoria dos pobres. Existem “boas novas” para eles — as boas novas de que o Reino de Deus é aqui e agora, trazendo esperança para o seu futuro, a esperança do ano aceitável do Senhor. Finalmente, os pobres tinham alguém que não estava contra eles, mas a seu favor; alguém que tinha a coragem de incluir os que foram excluídos da sociedade tornando-os receptores da graça do Senhor.91

A leitura de Mateus 9.35-38 proporciona uma rica visão sobre o ministério de Jesus. E Ele, decididamente, não exerceu um ministério estático. Não tinha um endereço fixo onde normalmente estivesse recebendo as pessoas quando de suas necessidades. Normalmente os quatro evangelhos mostram Jesus em ação dinâmica. Ele percorre os povoados, as vilas e ruas. Constatam-se algumas características no ministério de Jesus. Ele não estava preso a determinado lugar. O texto em questão menciona a dinâmica desenvolvida pelo Filho de Deus. Ele exercia um ministério urbano. Qualquer mestre estaria restringindo seu ensino à sinagoga, Jesus prefere as ruas, os becos, os lugarejos, aproximando-se do povo, sem abandonar as sinagogas. Ele vai ao encontro do povo em sua carência; come com pecadores; deixa-se tocar pelos marginalizados e também os toca. Em seu ministério existe lugar para crianças, mulheres, corruptos cobradores de impostos. Ninguém é desprezado e a todos se destina a devida atenção.

Diferente da enclausurada visão da Igreja, que se restringe a um endereço fixo e espera que os desesperados venham até ela, Jesus envolve-se com o outro onde o outro estiver. Sua atitude torna-se desafiadora. Diferentemente de certos grupos religiosos, Jesus não se envolve com os pobres para tirar-lhes algo ou para promoção pessoal — diferentemente do que alguns “espertos” corruptos têm feito em nome da religião. Cristo está no meio do povo e produz um grande reboliço na vida daqueles a quem alcança. O agir de Jesus é profundamente significativo para a missão da Igreja nesses dias em que se busca um rumo.

No texto de Mateus 9.35-38, o ministério de Jesus ganha três características específicas, as quais são aqui denominadas de “o conteúdo da Missão de Jesus”: Ele ensinava, proclamava e curava.

Jorge Barro, tratando da questão urbana no ministério de Jesus, diz que:

O segundo elemento da missão urbana diz respeito ao conteúdo. Jesus percorria todas as cidades e povoados (contexto) fazendo três coisas: (1) pregando, (2) ensinando e (3) curando. Isso demonstra a tríplice ação de Jesus: querigma, didaquê e serviço. Através da proclamação (querigma) das boas novas, a Igreja apresenta a vida eterna. Através do ensino (didaquê) a igreja educa para a vida eterna, para os valores do reino de Deus. Através do serviço (diaconia) a igreja demonstra o poder do reino de Deus no “já-ainda-não”; isso demonstra a integralidade da missão. Isso demonstra uma igreja que está preocupada com a salvação, educação e ação social.92

Querigma

O verbo “kerysso” aparece 61 vezes no Novo Testamento (19 vezes nas epístolas Pastorais, 8 vezes em Atos, 9 vezes no Evangelho de Mateus e 9 vezes em Lucas, 14 vezes em Marcos, 1 em I Pedro e 1 vez em Apocalipse) e significa anunciar. Uma análise do objeto gramatical do verbo revela que, nas passagens mais antigas de Paulo (I Ts 2.9; Gl 2.2, mas também em Cl 1.23) e em alguns contextos de Marcos (Mc 1.14, 13.10, 14.9) e de Mateus (4.23, 9.35, 24.14 3 26.13), o objeto é to evangelion, o evangelho.

Quando percebemos o conteúdo daquilo que tem sido ensinado em muitas igrejas, a preocupação precisa invadir o coração de todos os que amam o Senhor. O evangelho tem-se diluído e o evangelho que vem sendo pregado não reflete todo o desígnio do Pai, mas apenas aquilo que alguns líderes querem ensinar segundo sua conveniência. Muito disso é fruto de uma hermenêutica alegórica, que não leva a sério aquilo que as Escrituras ensinam, mas vale-se de visão pluralista de que cada um tem a sua verdade, portanto, vêem-se no direito de proclamá-la. Sobre essa superficialidade, o clérigo alemão que se opôs a Hitler e ao nazismo, chamou essa teologia de “graça barata”. Ele disse:

“Graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento, batismo sem disciplina eclesiástica, comunhão sem confissão, absolvição sem confissão pessoal. Graça barata é graça sem discipulado, graça sem cruz, graça sem o Jesus Cristo vivo e encarnado”. 93

Mateus, falando sobre o ministério de Jesus, informa que Ele “pregava o Evangelho do Reino”. A mensagem do Deus-Filho não era uma mensagem fragmentada, segundo um modelo pré-concebido da verdade. Ao contrário, Ele proclamava todo o desígnio de Deus e não dicotomizava sua mensagem. Sua pregação não se limitava a falar da esperança celestial, mas trazia esperança para o aqui e agora e isto aconteceu em várias oportunidades, tocando a vida de muita gente. Sua mensagem era uma nítida declaração de que Ele via o ser humano integralmente. Sendo assim, Ele tratou da saúde de um paralítico, mas lembrou-o de que não deveria pecar para que não sucedesse coisa pior (Jo 5.1-14); Ele cuidou de outro paralítico, que foi levado por 4 homens à sua presença (Mc 2), mas, desta feita, Ele começa a falar sobre o perdão de pecados e somente depois, para testificar sobre sua autoridade, cura o paralítico do mal acometido.

Didaquê

O segundo elemento presente no ministério de Jesus é o ensino, e este se refere à instrução dada ao povo. O objetivo é que o povo seja ensinado a partir da autoridade e não dos “estatutos humanos”.

O verbo didaskõ transmite a idéia de estender a mão repetidas vezes para aceitar algo; a palavra, portanto, sugere a idéia de fazer alguém aceitar alguma coisa. No Novo Testamento, didaskõ, ocorre 95 vezes, das quais 38 aparecem nos evangelhos sinóticos.

Os evangelhos sinóticos são uma clara testemunha de que havia ensino no ministério de Jesus. Ele ensinava publicamente, isto é, nas sinagogas (Mt 9.35, 13.54), no templo (Mc 12.35, Lc 21.37), ao ar livre (Mt 5.2, Mc 6.34) ou ainda, nos lares (Mc 2.1-12). Lucas, o médico amado, é o único que diz algo sobre a forma externa do seu ensino (Lc 4.16), esclarecendo que o Salvador permanecia em pé para ler a Palavra e sentava-se para ensiná-la, conforme o costume rabínico.

O que Jesus ensinava? Em resumo, a resposta é:

Deus, Seu reino e Sua vontade, sendo que todos os mencionados temas também pertenciam ao judaísmo contemporâneo, acerca dos quais Jesus, segundo o modo de um rabino ou de um profeta, falava nas Suas conversas com os judeus”.94

Nota-se, com grande fascínio, que Jesus não teoriza sobre Deus, Sua providencia, Sua graça ou Sua ira, mas demonstra a bondade e a ira de Deus em operação em várias situações concretas.

Diaconia

O verbo diakoneõ, servir, pode ser entendido como o trabalho feito para outra pessoa, voluntária ou compulsoriamente. O substantivo derivado diakonia ocorre 34 vezes no Novo Testamento e significa “serviço”, “cargo”. Outro substantivo derivado, diakonos, denota uma pessoa que leva a efeito a tarefa, logo, o significado primário secular era um “garçom”, e assim é usado mais tarde com referência às refeições rituais.

No judaísmo, existiam cuidados organizados para os pobres. A cada sexta-feira, aqueles que viviam na localidade recebiam dinheiro suficiente da cesta dos pobres para quatorze refeições; os estrangeiros recebiam comida diariamente da tigela dos pobres. A comida havia sido anteriormente coletada, de casa cm casa, pelos oficiais dos pobres.95

Das 34 vezes que diakonia ocorre no Novo Testamento, os significados variam, podendo estar relacionados com serviço à mesa (Lc 10.40, At 6.1), serviço amoroso (I Co 16.15, Ap 2.19), serviço amoroso mediante o levantamento de uma coleta (At 11.29, 12.25), para todos os serviços da comunidade cristã (Ef 4.12).

“O significado neo-restamentário de diakoneõ deriva da pessoa de Jesus e do Seu evangelho (Mt.20.28, Mc 10.45). Quando Jesus serviu aos Seus discípulos e aos homens em geral, tratava-se de uma demonstração do amor de Deus e da humanidade desejada por Deus”.96

O espírito servil parece ganhar um profundo significado no ministério de Jesus. Ele é o Senhor-Servo de Marcos 10, “que não veio para ser servido, mas para servir”. Ele é o servo sofredor de Isaías 53; Ele é o servo que lava os pés aos discípulos no cenáculo; Ele é o servo de Filipenses 2 que deixa a glória para, encarnado, alcançar-nos com graça. Ele é o servo de João 1.14, que veio tabernacular, ou, como disse tantas vezes José Cássio Martins no púlpito da Igreja Presbiteriana de Vila Mariana: “Veio morar no apartamento ao lado do nosso”; Ele é o Jesus que não apenas ensina, proclama e se emociona, antes, Ele é o Senhor que serve, que estende a mão, que socorre o necessitado, que consola o enlutado, que alivia a dor do sofrido, que acolhe os inacolhíveis, que toca os intocáveis.

Invariavelmente, nos Evangelhos, quando se descreve sobre a missão de Jesus entre os pobres, o mesmo texto apresenta um conjunto de ações da parte de Jesus que diz respeito às necessidades físicas, psico-emocionais, sociais, econômicas e políticas dos pobres. Além de praticar boas obras em favor dos pobres e oprimidos Jesus orientou seus discípulos a darem de comer aos famintos, de beber aos sedentos, a vestirem os despidos, a visitarem os encarcerados e a acolherem os estrangeiros e marginalizados (Mt 25-31-46). 97

É imperioso observar que a Igreja precisa voltar-se para o ministério de Jesus, pois nele se encontra o rumo certo para o seu próprio ministério. Ele, Jesus, deve ser o paradigma para a Igreja hoje. Um povo que não apenas está no mundo, mas que realiza a Missio Dei de tal forma, que, aqueles que estão à margem da sociedade, possam ganhar dignidade e ter uma nova experiência na vida.

Com muita propriedade, Barro lembra ainda que:

É necessário deixar claro que essas ações querigma-didaquê-diaconia não são ações separadas ou isoladas. Ao mesmo tempo em que a igreja proclama, ela ensina. Ao mesmo tempo em que ensina, serve. Ao mesmo tempo em que serve, proclama. Não podemos ter igrejas, cuja ênfase está “apenas” na evangelização, ou “apenas” no ensino, ou “apenas” no serviço. É muito fácil encontrar igrejas que são fortes em “apenas” uma destas áreas. Uma igreja só será equilibrada e integral quando entender que esses elementos não podem ser separados.98

3. Visitando a Teologia

Recentemente, Martorelli Dantas, contou uma estória que resumidamente dizia: Certo mestre budista estava experimentando aquele momento de meditação. Sentado num quarto, pernas cruzadas e olhos fechados, ele meditava, quando um gatinho entrou no recinto e começou a roçar-lhe a perna, como é comum aos gatos. Com toda a paciência, o monge afastou o pequeno animal, mas, teimosamente, o gato voltou ao recinto, roçando-lhe novamente a perna. O monge pacientemente afastou o pequeno animal, que insistiu em roçar-lhe a perna, até que aquele mestre pegou o gatinho, uma fita e amarrou-o cuidadosamente a uma cadeira. A partir dai o monge conseguiu voltar à sua meditação.

Os discípulos daquele monge passaram pelo recinto e viram aquela cena inusitada. O monge sentado, meditando, um gato e uma cadeira, sendo que o animal permanecia amarrado à cadeira. Eles não tiveram dúvidas, imaginaram que aquela era uma nova maneira de meditar, por isso correram até a cidade e foram buscar os gatos da cidade para poderem fazer o mesmo exercício do mestre budista. Meditar num pequeno quarto com um gato amarrado a uma cadeira.

Aqueles discípulos fizeram a mesma coisa que muita gente tem feito em nossas igrejas. Eles não sabiam o que significava aquele gato amarrado à cadeira, mas pelo menos parecia ser uma nova técnica, uma nova maneira de meditar. O novo, o desconhecido, mesmo sem entender a razão, tornou-se um novo estilo para aqueles discípulos. Muito daquilo que vemos na Igreja hoje parece ser apenas reflexo dessa ignorância e encantamento com o novo.

Diante da colcha de retalhos que integra a Igreja, não é possível tomar uma posição sobre algum tema apenas ao sabor da paixão. É necessário um embasamento que possa dar plena sustentação ao pensar e ao falar, sem que se encontrem apenas repetidores, mas gente que compreendeu a razão da sua fé e da encarnação dessa fé.

O Pacto de Lausanne, em seu quinto parágrafo, traz afirmações que, com o devido suporte bíblico, podem ajudar a igreja a entender o papel da teologia quanto à sua responsabilidade social.

A doutrina de Deus

O Breve Catecismo de Westminster, em sua pergunta quatro, traz o seguinte:

“O que é Deus?” E responde: “Deus é espírito, infinito, eterno e imutável em seu ser, sabedoria, poder, santidade, justiça, bondade e verdade”.99

O quinto parágrafo do Pacto de Lausanne igualmente começa sua exposição sobre a responsabilidade social da igreja fazendo referência ao caráter divino, usando dois atributos, um incomunicável e outro comunicável. Atributo incomunicável é aquele que não encontra nenhuma analogia no ser humano e tem a ver com o ser absoluto de Deus. Atributo comunicável é aquele que encontra alguma ressonância no ser humano. O atributo foi transmitido em algum grau ao ser humano, e tem a ver com o ser pessoal de Deus (poder, amor, bondade, justiça, etc.), e aponta para o Deus revelatus, o Deus revelado que se dá a conhecer mais facilmente.100

A) Deus, o Criador

“Afirmamos que Deus é o Criador”, relata inicialmente o parágrafo recém mencionado.

“No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). A criação deu-se por meio do Fiat, do latim: faça-se, sem qualquer material pré-existente; sua decisão de que as coisas deveriam existir fez com que estas surgissem e formou-as em ordem com uma existência que dependia de sua vontade e que era, no entanto, distinta de sua essência divina. Pai, Filho e Espírito Santo envolveram-se juntamente (Gn 1.2, Sl 11.3, 14.8, 33.6-9).

Quando o pacto apresenta Deus como criador, segundo Stott, corrobora uma clara demonstração do interesse divino pelo ser humano, bem como de seu envolvimento com a história da humanidade. Ele reafirma que tal evidência deve servir de motivação para a igreja partilhar do interesse divino pela humanidade também.101

O Deus da revelação bíblica, que é tanto Criador como Redentor, é um Deus que se preocupa com o total bem-estar (espiritual e material) de todos os seres humanos que ele criou. Tendo criado cada um à sua própria imagem, ele deseja que eles descubram a sua verdadeira humanidade ao se relacionarem com Deus e uns com os outros.102

J. I. Packer afirma que:

Saber que Deus criou o mundo à nossa volta e nós mesmos como parte dele, é básico à verdadeira religião. Deus deve ser louvado como Criador, em razão de sua maravilhosa ordem, variedade e beleza de suas obras. Os Salmos, como o 104, são modelos desse louvor. Deus deve ser crido como o Senhor Soberano, com um plano eterno abrangendo todos os eventos e destinos, sem exceção, e com poder de redimir, recriar e renovar; tal crença torna-se racional quando nos lembramos de que é no Criador todo-poderoso que estamos crendo. Reconhecer a cada momento nossa dependência do Deus Criador para nossa existência faz com que se torne apropriado viver vida de devoção, compromisso, gratidão e lealdade para com Ele, sem qualquer impureza. A retidão começa aqui com Deus, o soberano Criador, como o primeiro ponto de convergência de nossos pensamentos.103

O reconhecimento de Deus como criador deve levar a uma vida em que não se dicotomizem o espiritual e o material, o religioso e o secular, nem podemos negligenciar a política, a economia e a questão da riqueza do homem.104

B) Deus, o Juiz

O antedito parágrafo, referindo-se a Deus diz: “afirmamos que Deus é o criador e o Juiz de todos os homens”. Percebe-se inicialmente a menção ao Criador, mas inclui-se a justiça divina, sendo assim, esse deve ser um sério lembrete de que todos os homens darão contas a Deus de sua vida no dia do juízo (Ec 12.14).

Pode-se entender a justiça divina como manifestação da sua retidão, que não consegue compactuar com nenhuma atitude que reflita injustiça, opressão e espoliação.

Deus de justiça — ressaltam no livro de Amós os trechos que falam da natureza justa do Deus de Israel, a anunciar o juízo sobre o seu povo e sobre algumas nações vizinhas. Os oráculos que constituem a primeira parte do livro (1.3-2.1 6) são a mais forte expressão desta afirmação. Ele é o Deus que declarou sua lei aos homens (2.4), que chama justos os seus filhos (2.6), que abomina o pecado (6.8), que se ira contra todas as transgressões (cf. a fórmula estereotipada nos oráculos iniciais). Ninguém pode escapar de seu julgamento (2.14s; 9.2s). Ele exige de seu povo a justiça social, religiosa e moral (5-7; cp. 5-15ss) e condena todo aquele que não cumpre a sua lei (5.7ss; passim).105

Como outrora delineado, os atributos divinos dividem-se em comunicáveis e não comunicáveis; a justiça divina é um atributo comunicável de Deus. Significa dizer que Deus exige que esta justiça deve ser vivenciada pelo ser humano. Como diz o Pacto: “Devemos partilhar o seu interesse pela justiça e pela reconciliação em toda a sociedade…”106

A doutrina do homem

Nascimento Filho diz que “toda obra cristã filantrópica (isto é, a obra inspirada no amor pelo semelhante) depende da avaliação que os cristãos fazem do beneficiário. Quanto mais alto o valor dos seres humanos, mais os cristãos se inclinam a ajudá-lo”.107

Lausanne afirma, com muita propriedade, que “a humanidade foi feita à imagem de Deus, toda pessoa, sem distinção de raça, religião, cor, cultura, classe social, sexo ou idade possui uma dignidade intrínseca em razão da qual ela deve ser respeitada e servida e não explorada”. Sabendo que a humanidade foi feita à imagem de Deus, é conseqüente lógico entender que a igreja deve sentir-se motivada a fazer pelo outro aquilo que Deus fez e tem feito. É preciso demonstrar o mesmo interesse de Deus.

O ato criador de Deus deu ao ser humano dignidade. Não é a sua cor, sua cultura, sua conta bancária, mas o haver sido criado por Ele e à semelhança dEle, o que torna o ser humano especial.

Ressalte-se que, além da imago Dei, o cristão deve sentir-se despertado a servir o outro porque esta é a vocação da humanidade. A igreja foi chamada e enviada para amar ao outro, ao próximo e nesse sentido, o próximo é qualquer um independentemente da distância a que ele se encontra.

A doutrina de Cristo

Ao buscar a base teológica para o agir social, necessário se torna voltar-se à pessoa de Jesus, conquanto, na exposição aqui apresentada da base bíblica, o paradigma cristológico já tenha sido traçado de forma mais extensa. Cristo é apresentado neste capítulo como o modelo de amor e vocação para o contexto social. Vejamos:

No tocante ao exemplo de Jesus, o modelo bíblico mais desafiador para a missão é a encarnação. O Filho de Deus não permaneceu na segura imunidade de Céu. Ele esvaziou-se de sua condição e entrou no mundo humano com grande humildade. Fez-se um com o gênero humano em sua fragilidade e tornou-se vulnerável às suas tentações e dor. Tomou sobre si o pecado da humanidade c morreu a morte que cabia a eles. Ele não poderia identificar-se mais completamente com as pessoas do que havia feito. E, no entanto, tornando-se humano, nunca cessou de ser divino. Foi uma total identificação com a humanidade, mas sem qualquer perda da identidade deísta. A missão da igreja deve ser modelada pela do filho (João 20.21).108

Essa percepção da missão de Jesus deve servir de instrumento motivacional para que, como Igreja, esta seja impulsionada a fazer da missão de Cristo a sua própria missão.

Capítulo 5

Os desafios que pesam sobre a Igreja diante da questão social à luz do Pacto de Lausanne

Talvez a parcela mais difícil deste estudo passe a ser agora delineada, posto que serão tratados tanto os obstáculos como os desafios que pesam sobre a Igreja Evangélica Brasileira diante do aspecto sociológico.

1. Obstáculos a uma ação social efetiva

É triste observar que os membros das igrejas evangélicas, bem como a igreja como instituição, não compreendem a dimensão social do evangelho. E, diante dessa incompreensão e ignorância, quando se deparam com desafios sociais, levantam vários argumentos contra a missão integral. Abaixo, são transcritos alguns dos obstáculos que se têm tornado mais comuns.

O individualismo evangélico

Tristemente ainda é possível perceber no seio das igrejas evangélicas, uma postura individualista. O privativo sempre foi o que imperou na Igreja. ´É comum perceber aquela autocelebração, uma comunidade apenas preocupada com os interesses privatísticos. René Padilla diz que:

“o evangelho de Jesus Cristo é uma mensagem pessoal: revela um Deus que chama cada um dos seus pelo nome. Mas é ao mesmo tempo uma mensagem cósmica: revela um Deus, cujo propósito abarca o mundo inteiro”.109

O autor vai mais longe e assevera que:

A falta de valorização das dimensões mais amplas do evangelho inevitavelmente conduz a uma distorção da missão da igreja. O resultado é uma evangelização que concebe o indivíduo como urna unidade autônoma – um Robinson Crusoé a quem o chamado de Deus chega na solidão da sua ilha — cuja salvação se realiza exclusivamente em termos de sua relação com Deus. Perde-se de vista que o indivíduo não existe isoladamente e que, portanto, não se pode falar de salvação sem que se faça referência à relação do homem com o mundo do qual ele faz parte.110

Esse individualismo leva a igreja a viver no isolamento, na alienação, na ausência do mundo, mundo do qual ela foi chamada, mas para o qual foi enviada a fim de ser sal e luz.

Alienação

Alienação é definida como indiferentismo moral, político, social ou apenas intelectual. A comunidade evangélica vive alheia à realidade vigente por causa da sua miopia, que a leva a ver apenas as coisas mais próximas, aquelas que envolvem a própria igreja, por causa de um certo sentimento de impotência diante dos desafios que têm ganhado proporções significativas.

Para mim é uma tristeza que muitos cristãos se deixem contaminar pela alienação. “Naturalmente”, dizem eles, “a luta pela justiça é interesse nosso; não podemos fugir desse fato. Os obstáculos, porem, são imensos. Além das questões serem complexas (não somos especialistas), e a sociedade pluralista (não dispomos de qualquer monopólio do poder ou de privilégios), as forças da reação predominam (não temos influência alguma). A maré vazante da fé cristã na comunidade tem nos deixado no seco. Além disso, os seres humanos são egoístas e a sociedade está podre. Contar com uma transformação social é irrealismo total”.111

 

A perpetuação da pobreza

É até comum ouvir pessoas citando Deuteronômio 15.11: “Pois nunca deixará de haver pobres na terra…”, na tentativa de argumentar que é tolice fazer algo mais significativo contra a injustiça e a pobreza, porque factualmente os pobres sempre estarão aí. O texto em questão não deve servir de justificativa para uma deformação do evangelho. Como comentou J. A. Thompson, a pobreza em Israel seria uma grande possibilidade em razão de sua desobediência a Deus. Se a primeira parte de Deuteronômio 15.11 fala sobre a presença da pobreza, não se pode esquecer de ler o restante do versículo, e a segunda parte do mesmo estimula à generosidade e ao exercício da misericórdia. Em favor do necessitado, ao dizer: “… por isso, eu te ordeno: livremente, abrirás a mão para o teu irmão, para o necessitado, para o pobre na tua terra”.

O custo é elevado

Outro elemento que tem sido comum e vem servindo como obstáculo à ação social é a preocupação da igreja com o custo. A igreja evangélica parece não demonstrar ser muito sábia na administração dos seus recursos. Outrossim, muito da preocupação da igreja está mais atrelada a aspectos administrativos do que a uma práxis social. Tem-se visto a construção de templos suntuosos que refletem a preocupação última de muitas comunidades interessadas apenas no luxo e no conforto, reflexo do individualismo protestante, já mencionado anteriormente, mas que não tem uma noção do que significa ser “Igreja fora dos portões”.

Indaga-se sobre o que é mais dispendioso: cuidar hoje de uma criança carente ou tratar o marginal de amanhã? Parece ser mais barato conferir dignidade à criança. Ainda, se o custo é elevado, a comunidade pode procurar alternativas para definir como incentivar o recolhimento de material reciclável para posterior venda. Com o levantamento de recursos, via reciclagem, o custo poderá ser consideravelmente minimizado.

A presença de aproveitadores

Jesus ensinou que se deve ser manso como a pomba e sagaz como a serpente. Infelizmente, parece que os cristãos aprenderam apenas parte da lição. São sagazes e desconfiados em demasia, e a mansidão não tem sido uma característica muito presente na vida de muitos.

Essa sagacidade deveria despertar o zelo, mas o que se tem visto é o exercício da desconfiança. É notório ver aproveitadores, mentirosos, espertalhões, quando o assunto é dinheiro. Mas a possibilidade de encontrá-los não deve servir de desculpa para a omissão e ineficiência social da igreja.

Carlos Queiroz, numa palestra realizada no Congresso Brasileiro de Evangelização (CBE-83), confessou sobre sua leitura da pobreza. Ele afirmou que, quando acordou para os problemas sociais, via a pobreza como conseqüência de preguiça e malandragem. Sem dúvida alguma essa leitura é no mínimo preconceituosa, apesar de que não se pode ser ingênuo posto que, nesse universo de miseráveis, muitos estão excluídos porque lhes falta coragem para enfrentar os desafios do trabalho, por isso preferem pedir a produzir, mas esta é uma exceção. A pobreza continua sendo fruto da injustiça social vigente.

O conformismo ou a síndrome da “Rã na Chaleira”

Às vezes, tem-se a nítida impressão de que a presença sistemática da miséria vem empedrando os corações. A violência cerca a todos, a miséria bate à porta, a morte revela-se com tanta intensidade que, ao contemplar todo esse cenário, a humanidade parece ter-se tornado dura e cínica. Já não há comoção diante das barbáries, ao contrário, constrói-se um terrível conformismo. “O final dos tempos trará isto”, dizem alguns. “O que você espera do final dos tempos?”, perguntam outros. Diante desta situação fatalista é possível lembrar a história da “Rã na Chaleira”.

Coloque uma rã na chaleira com água fervente e ela rapidamente pulará fora ao sentir que o ambiente a sua volta é hostil. Coloque uma rã na chaleira cheia de água à temperatura ambiente e vagarosamente vá esquentando a temperatura da água até que ela ferva. A rã permanecerá na água até morrer cozida.112

Objetivando acrescer outros aspectos que obstaculizam a efetiva ação social da igreja, apresenta-se o que Queiroz perguntou em seu livro, “Eles Herdarão a Terra”, e sua conseqüente resposta a tão relevante questão.

“Por que a Igreja, no Brasil, tem-se distanciado do compromisso com os pobres?’.

1 – Mantemos atitudes egoístas e cômodas;

2 – Sacralizamos a riqueza e profanamos o pobre;

3 – Utilizamos mecanismos de seleção por exclusão;

4 – Dicotomizamos devoção X responsabilidade social;

5 – Trocamos os desafios das boas novas do Reino de Deus pela ameaçadora “evangelização pé-na-cova”;

6 – Usamos uma escatologia escapista e alienante;

7 – Temos uma visão distorcida da Criação, da Queda e da Redenção;

8 – Reduzimos a proclamação comunitária a um apelo individualista;

9 – Fomos afetados pelo rompimento com o movimento norte-americano do “evangelho social” no final do século XIX;

10 – No Brasil, fomos afetados pela revolução de 1964.113

2. Os desafios e as alternativas

Até os vinte e quatro anos, aquele jovem nascido na Nova Zelândia, numa família saudável e próspera, dividira seu tempo entre seu país e a Austrália. Formou-se em engenharia elétrica e em matemática, mas o que o fascinou foi a conclusão de seu curso em missiologia no Instituto Fuller, (EUA). Seu nome é Viv Grigg, um cristão que, desde cedo, tem uma paixão pelo ministério urbano e especialmente pelos pobres. Por isso, algum tempo depois de concluir seus estudos, o jovem foi morar em Manila, nas Filipinas, e isso não seria significativo se ele não houvesse optado por morar em uma favela. A atitude de Grigg foi marcada por uma verdadeira inserção naquele ambiente, tanto que ele, em pouco tempo, identificara-se com os moradores daquela favela, a ponto de fazer refeição em suas casas.

Em entrevista para a “Revista Kerigma”, o missionário afirmou que “missões e ação social andam juntos” e que, “quando entendemos o conceito de Reino de Deus, representado aqui na terra de uma maneira abrangente, um dos componentes da Igreja seria então estar envolvida com os necessitados, com os pobres…”

A decisão de Grigg foi, sem dúvida alguma, radical, mas ele só pôde tomá-la porque dispunha de uma clara convicção do seu chamado para aquele ministério. Poder-se-iam incluir nesse rol de pessoas que se sentem chamadas para desempenhar tão apaixonadamente o trabalho com o pobre, com o necessitado, o Médico Paul Brand, que tem trabalhado com leprosos em Calcutá, ou Madre Tereza de Calcutá, que se envolveu com o mesmo povo que Brand, dedicando sua vida ao marginalizado.

É sabido que o ministério desses três servos de Deus é diferenciado. Eles tiveram um chamado específico, mas a Igreja de Jesus também tem sido chamada e precisa, (entendendo este mesmo chamado), viabilizar alternativas para criar um ministério social sério, efetivo e que faça a diferença neste mundo sofrido.

Enumeram-se adiante algumas alternativas para o exercício efetivo de um ministério social.

É preciso ter voz profética

Cavalcanti sugere que a Igreja faça uso daquilo que ele resolveu denominar de profetismo, dizendo que:

A ação profética se dá quando representamos a consciência moral da nação; a voz da ira de Deus contra a iniqüidade. E para sermos adversários dessa iniqüidade, inimigos do mal, não temos necessidade de pertencer a nenhum partido político, nem sermos candidatos a coisa nenhuma…

Acontece que, quando uma comunidade se levanta e clama contra a iniqüidade existente, ela absolutamente não está fazendo política partidária, nem vestindo bandeira ideológica. Nós estaremos realmente mexendo nas formas quando fizermos filantropia, projetos de desenvolvimento, ação política, na retaguarda, intercessão, ensino, apoio e profecia nesse sentido.114

No evangelho de Lucas (Lc 1e.40}, Jesus afirma que “… se eles se calarem, as próprias pedras clamarão”. Indubitavelmente esse profetismo por parte da Igreja tem estado ausente. A igreja tem silenciado como se não tivesse nada a ver com o problema, ou porque sabe que, no momento cm que isso for exposto, fatalmente enfrentará problemas. Mas se a Igreja calar-se, certamente Deus levantará outras vozes. Isto aconteceu no diálogo entre a rainha Ester e Mordecai. Havia opressão e um iminente holocausto estava mostrando a sua face, a rainha parecia estática diante do problema, por isso Mordecai afirmou: “Porque, se de todo te calares agora, de outra parte se levantará para os judeus socorro e livramento, mas tu e a casa de teu pai perecereis; e quem sabe se para conjuntura como esta é que foste elevada a rainha?” (Et 4.14). Mordecai acreditava que de alguma forma Deus proveria livramento para o povo, se Ester não exercesse o seu papel profético, denunciando Hamã.

Philip Yancey, em seu livro, “Encontrando Deus nos Lugares mais Inesperados”, dedicou um capítulo para falar sobre o envolvimento de William Shakespeare com política. O que chama a atenção é perceber que Shakespeare foi uma espécie de “pedra falante”; com suas peças, ele acabou denunciando a opressão e a injustiça sociais dos seus dias. Um trecho da peça o Rei Lear, que conta a história do rei que foi abandonado pelas filhas e expulso do seu castelo, mostra que ele fez uma enorme descoberta, pois descobriu as dificuldades dos pobres e sem-teto, e diz o seguinte:

Pobres miseráveis nus, onde quer que estejam, que amargam o rigor desta impiedosa tempestade, como podem suas cabeças desabrigadas e barrigas vazias, evidente e patente andrajosidade, protegê-los de intempéries como esta? Ah, quão pouca atenção dou a tal! Expõe-te para sentir o que sentem os miseráveis, e poderás proporcionar-lhes a abundância e exibir o paraíso de forma mais justa.115

Valorizar os desafios independentemente de sua dimensão

É, no mínimo, ingenuidade imaginar que a ação social resolverá totalmente o complexo problema da injustiça sociológica. Mas, com certeza, o agir da Igreja, independentemente de sua dimensão e alcance, fará diferença na vida de alguém, por isso vale a pena lançar essa semente que poderá abençoar o outro.

Henri Nouwen nasceu na Holanda e, como padre e professor, ensinou em Universidades como as de Notre Dame, Yale Divinity School e Harvard. Como escritor, produziu pelo menos trinta livros. Porém chegou um dia na vida de Nouwen quando ele conheceu um trabalho social com deficientes mentais, o da Comunidade L’Arche, na França. Encantado com o que viu, decidiu abandonar sua vida acadêmica e dedicar-se à atividade com os deficientes. Os últimos dez anos de sua vida Nouwen passou numa comunidade chamada Daybreak, em Toronto, no Canadá, cidade onde, conforme se observa no seu livro, “Adam, o Amado de Deus”, vivencia uma experiência particular que teve com um amigo que o visitou naquela comunidade. O amigo ficou surpreso e chocado ao ver Nouwen, um homem tão habilitado, cuidando de um deficiente chamado Adam, banhando-lhe, cortando-lhe a barba e até servindo-lhe a refeição na boca, pois Adam não tinha o controle necessário para fazê-lo sozinho. O visitante fez as seguintes perguntas: “Henri, é aqui que você está gastando seu tempo?”. “Você deixou a universidade, onde era grande inspiração para tantas pessoas para gastar seu tempo e sua energia com Adam?”. Nesse momento, Nouwen percebeu que seu amigo não compreendera sua vocação e missão. Philip Yancey, em um artigo intitulado: “A Santa Ineficiência de Henry Nouwen”, conta este mesmo episódio, com uma diferença, Yancey identifica-se como o amigo que visitou Nouwen em Daybreak e apresenta a resposta que recebeu daquele sábio: “Eu não estou dando nada”, ele insistiu. “Sou eu, não Adam, quem tira o maior benefício da nossa amizade”.116

Em sua humildade, Nouwen afirmou que Adam estava sendo uma bênção em sua vida, de alguma forma, todos os que se envolvem com o socorro ao próximo fazem a mesma descoberta. Mas, em última instância, de fato Henri Nouwem estava exercendo um maravilhoso ministério na vida daquele jovem deficiente. Talvez aquele trabalho não fizesse muita diferença no âmbito geral, mas fez enorme diferença na vida de Adam. É imperioso aprender a valorizar pequenas ações que podem causar transformação na vida do outro.

Identificar os desafios que estão próximos

Em Atos dos Apóstolos (At 1.6-11), diante da ascensão de Jesus, os discípulos que contemplavam a cena ficaram com os olhos fitos nos céus, até que foram exortados a lembrar-se de que o Jesus que foi assunto ao céu voltaria do mesmo modo como o viram subir. Ainda hoje, a Igreja faz a mesma coisa, seus olhos estão fitos no infinito, olhares distantes, alheios à realidade. A igreja precisa ver o que está à sua volta, pois muitas igrejas se estabeleceram bem próximo a bairros onde a necessidade social é gritante e mesmo assim, ainda não conseguiram se aperceber da realidade em que estão inseridas.

Partilhar os recursos

Passando pela BR 232, no agreste pernambucano, aproximando-se da cidade de Caruaru, ao longe se avista o morro Bom Jesus. Em certa ocasião, certo membro de uma das igrejas evangélicas de Caruaru relatou o seguinte: “Sempre dizem que minha igreja tem potencial”, mas, segundo ele, o morro Bom Jesus também tem potencial, só que ele permanece no mesmo lugar, se ele pudesse se movimentar teria condições de destruir a cidade de Caruaru, mas ali estagnado, parado, ele tornou-se apenas parte da paisagem. Com esta análise, este senhor tenciona fazer uma análise crítica de sua comunidade em Caruaru, que tem potencial, mas potencial sem ação não faz diferença.

A igreja evangélica no Brasil também tem potencial. Quantos colégios, faculdades, terrenos, acampamentos, templos, prédios destinados à educação religiosa e seminários pertencem à comunidade evangélica brasileira e quão pouco estes bens são usados na perspectiva da partilha.

Templos e prédios de educação religiosa ficam fechados durante a semana, sem a menor utilidade para a comunidade que a cerca. É preciso aprender a dividir os recursos, que necessariamente não se limitam ao dinheiro, mas podem estar ligados à estrutura, aos imóveis, ao tempo, aos profissionais (médicos, professores, assistentes sociais, empresários) que poderiam usar sua profissão e seu potencial para dirimir o sofrimento e a diferença social.

A) Assistência jurídica

Nas cidades, existe uma necessidade de apoio jurídico. Muita gente não tem sequer um documento de identidade, alguns não têm o registro de nascimento, existem outras questões como a posse de um terreno, ou problemas ligados à moradia, afora isso, existem problemas em lares, onde se faz necessária uma assistência jurídica que facilite a vida desse povo tão sofrido.

B) Assistência médica

A igreja evangélica brasileira conta, em suas fileiras, com profissionais de saúde (médicos, dentistas, enfermeiros), o que permite estabelecer um projeto que vise a assistir àqueles que não têm acesso facilitado à saúde. A igreja pode – quem sabe? -criar um projeto de saúde, que trabalhe com noções de higiene, podendo ampliar sua assistência, criando uma policlínica que possibilite à população carente uma vida mais digna.

C) Assistência educacional

Em Caruaru, no ano de 2002, a Escola Mamãe Natureza abraçou um projeto social, na vila Padre Inácio, que recebeu o nome de Projeto Tatear. O corpo docente da escola entendeu que deveria levar um trabalho pedagógico à periferia para crianças carentes, dando a elas a preciosa oportunidade da alfabetização. O projeto tem provido material e recursos humanos para que crianças carentes tenham o mínimo de dignidade e possam ter acesso àquilo que é tão difícil em nosso país, a educação.

É insofismável que a comunidade evangélica pode fazer alguma coisa pelas crianças carentes. Sobram espaço físico e professores nas comunidades e, portanto, perfeitamente possível estabelecer um projeto social que faça a diferença na vida das crianças que moram na periferia.

D) Assistência aos meninos de rua

Há algum tempo, meninos cheirando cola nas ruas era uma marca registrada dos grandes centros urbanos. Hoje, esta é uma cena que tem se repetido diariamente em cidades pequenas. De alguma forma está na hora da igreja evangélica perceber que alguma coisa pode ser feita de maneira efetiva para que esses meninos de rua venham a ser assistidos com dignidade. Caruaru apresenta também um projeto chamado “Desafio Criança”, que tem dado assistência a crianças que, por viverem em uma família desestruturada, foram parar nas ruas e já se envolveram (inclusive) com a criminalidade. Os meninos são recolhidos pelo projeto e recebem assistência para que, ao saírem dali, tenham novos hábitos e conceitos de vida.

É preciso aprender com a história

Foi possível mencionar os aspectos históricos que fizeram da Igreja o que ela é hoje. Verifica-se que homens como Wesley, Wilbeforce, Calvino em Genebra, entre outros, tiveram um papel social relevante e o exemplo desses homens deve servir como desafio para a Igreja dos dias atuais. Ainda mencionando a história, verifica-se na chegada dos protestantes ao Brasil, de maneira especial, uma preocupação e um zelo pelas questões educacionais e de saúde, tanto que escolas e hospitais foram construídos com o patrocínio e por causa da visão da igreja nascente. Olhando para o potencial da igreja evangélica no Brasil do século XXI, percebe-se que é possível investir novamente nestas áreas, já que a saúde e a educação no Brasil são tão sofridas e os pobres, os que mais carecem de uma estrutura educacional e de saúde adequadas.

É preciso estabelecer um projeto de encarnação

É indispensável definir um projeto de encarnação. Um projeto em que os valores do reino sejam colocados em prática pela comunidade. René Padilla sugere, como sustentação da atividade da igreja, três elementos chaves: o ponto de partida de nossa responsabilidade social é a identificação e isto foi o que o Senhor Jesus fez, quando, encarnado, visitou a terra; a norma de ação conhecida é o sacrifício, voltando-se para Jesus, percebe-se a mais eloqüente expressão deste, a cruz; a dinâmica da igreja precisa ser a nova vida.117

Verificou-se até aqui que alguns obstáculos têm inibido a ação social da Igreja, mas também que as alternativas propostas podem ser instrumento facilitador para a ação social da mesma. Embora não se tenha realizado quaisquer distinções entre ação social e evangelização, o certo é que as propostas formuladas podem e devem vincular ação social e evangelização de forma que as duas se complementem, posto que não existe evangelização genuína sem uma dimensão social, nem responsabilidade social realmente cristã sem uma dimensão evangelística.118

Lausanne 74 cumpriu um papel relevante no seio da Igreja Evangélica Brasileira. A partir daquele magno congresso foi possível ver aflorar no Brasil uma nova leitura, uma leitura holítistica, uma leitura baseada no evangelho integral. Longuini lembra que:

“No Brasil a chegada do Pacto de Lausanne, efetivamente, deu-se em 1983, quando foi realizado o Congresso Brasileiro de Evangelização (CBE-83) em Belo Horizonte.” 119

O CBE-83 não foi o único congresso influenciado por Lausanne, pode-se incluir o Congresso Nordestino de Missões, bem como é possível incluir a formação da Associação Evangélica Brasileira (AEVB), e a realização do seu primeiro congresso.

A) Congresso Brasileiro de Evangelizaçáo

O Congresso Brasileiro de Evangelização (CBE-83) se deu na cidade de Belo Horizonte nos dias 31 de outubro a 5 de novembro, e sem dúvida alguma entrou para a história da igreja evangélica brasileira como um dos mais importantes eventos. Falando sobre a importância do CBE, Steuernagel afirma que:

A marca do CBE na vida de muitíssimos irmãos foi enorme. Isto se pode constatar de Norte a Sul e o fazemos com um sentido de gratidão ao Senhor. Vidas marcadas, desafios assumidos, objetivos elaborados, irmãos que se consagraram ao campo missionário, novas visões e perspectivas missionárias que foram percebidas, horizontes que foram ampliados e posições teológicas reformuladas. Estes são apenas alguns poucos aspectos de uma vida inteira que ocorreu naqueles poucos dias no Mineirinho.120

B) Congresso Nordestino de Evangelização

O processo iniciado com a realização do CBE-83 teve continuidade com a realização do Congresso Nordestino de Evangelizaçáo (CNE-88) realizado em Recife, cm 1988. O CNE-88 culminou com um movimento pelo resgate da ética evangélica e por uma representação oficial dos evangélicos no Brasil diante dos escândalos provocados por alguns deputados federais evangélicos que reorganizaram a Confederação Evangélica do Brasil.121

C) Congresso AEVB

Em julho de 1994 (18-23), evangélicos de diversas regiões do Brasil se reuniram em Brasília para o I Congresso Nacional da Associação Evangélica Brasileira; o tema foi relevante: “A Igreja Evangélica na Virada do Milênio”.

Os objetivos do congresso foram formulados no material de divulgação e estão expressos num texto compilado por Rubem Amorese.

1 – DISCERNIR a vontade de Deus quanto à missão no tempo e na realidade em que vivemos. A comunidade de adoração que somos, o testemunho que damos e a unidade que experimentamos (exalamos), estão a serviço do cumprimento desta missão.

2 – CELEBRAR a fidelidade de Deus para com o Seu povo. O crescimento extensivo da Igreja, a riqueza de iniciativas nas áreas de missões e de serviço e as manifestações de unidade do Corpo de Cristo no Brasil são expressões da fidelidade de Deus e se constituem em motivo para a nossa celebração.

3 – ACEITAR o desafio de viver a fé em meio à crise de nossos dias como um compromisso de discipulado integral e solidário. O convite para o reencontro com a esperança do Reino é fonte de vida em meio à crise, dentro e fora da Igreja.

4 – BUSCAR por rumos para uma espiritualidade cristã alimentada por Deus, fiel ã Palavra, sensível ao Espírito, alicerçada na justiça, edificada na comunidade, voltada para o mundo, íntegra no comportamento e disposta ao serviço.122

Em todos estes encontros o espírito de Lausanne esteve presente. No entanto, é preciso estender os horizontes, é preciso alargar a visão para que a Igreja brasileira não apenas volte a discutir os temas presentes nesses congressos, mas que exista uma encarnação daquele espírito que, sem dúvida alguma, revolucionará a maneira de ser Igreja.

Conclusão

Esta pesquisa teve como objetivo levar o leitor a perceber que a Igreja, o povo de Deus, foi vocacionado para exercer sua missão de maneira a extrapolar as suas próprias fronteiras. Ela foi chamada e enviada, não para viver numa autocelebração, mas para demonstrar misericórdia por aqueles que carecem de amor. Diante desta certeza, recomendo duas ações práticas por parte da Igreja.

1. A Igreja precisa tornar-se uma comunidade amorosa

Conta-se que Madre Tereza participou de reuniões com reis, presidentes e chefes de Estado do mundo inteiro. Eles compareciam com os seus ornamentos que falavam de sua condição na sociedade. Enquanto Madre Tereza usava o seu tradicional sári, preso por um alfinete de segurança.

Um nobre conversou com ela a respeito de seu trabalho com a camada mais pobre da população de Calcutá. Ele perguntou se ela não se sentia desanimada ao ver tão pouco sucesso em seu ministério. Madre Tereza respondeu: “- Não, eu não me sinto desanimada. Veja, Deus não me chamou para o sucesso. Ele me chamou para um ministério de misericórdia.”

A Igreja precisa perceber a sua vocação, entendendo que o desafio que está diante de si é precioso e não deve despertar um desejo por resultados. Os resultados são importantes, no entanto, a nossa vocação deve ser exercida em obediência àquele que nos arregimentou e ao mesmo tempo com o cotação engravidado de misericórdia. Essa misericórdia precisa desembocar em ações práticas, efetivas que possam, em alguma proporção fazer diferença nesse mundo de indiferentes.

2. A Igreja precisa ser sensível ao desafio que tem diante de si

Barro, citando Orlando Costas, afirma ser “essencial que procuremos entender, ainda que de forma breve, a urgência da missão na cidade”.123

Barro, na verdade, está sugerindo que olhemos com o devido cuidado o que acontece ao nosso redor, percebendo que

o desafio não pode ser minimizado, antes, deve ser encarado com a devida seriedade e urgência.

Lendo a história do rei Salomão, logo quando ele ascendeu ao trono de Israel, após a morte de seu pai Davi, descobrimos que ele resolveu buscar a Deus em oração. Em seu pedido encontramos o rei, primeiro, admitindo que o desafio que tinha diante de si era enorme; em segundo lugar, ele percebe que o seu papel como rei não é maior do que o de um mordomo. Ele percebeu que foi colocado naquela condição para servir a nação e em terceiro lugar, o rei pediu discernimento para governar com justiça, podendo distinguir entre o bem e o mal (I Rs 3.7-9).

É impressionante perceber que o rei de Israel não minimizou o desafio que tinha diante de si; antes possuía uma noção exata do mesmo, mas ele não quis enfrentá-lo de qualquer jeito, desejou fazê-lo com justiça. Talvez esta seja a hora de clamar por discernimento, admitindo a dimensão do desafio e as nossas limitações para superá-lo. Salomão pediu discernimento para julgar com justiça.

Que a Igreja clame por discernimento para fazer justiça.

* * *

Notas

1 Caio Fábio D’ARAÚJO FILHO, A Igreja Evangélica e o Brasil: Profecia, Utopia e realidade, p. 16, 17 e 20

2 Samuel ESCOBAR, Desafios da Igreja na América Latina, p. 17

3 Paul FRESTON, Fé Bíblica e Crise Brasileira, p. 5-6

4 C. René PADILLA, Missão Integral, p.9.

5 John STOTT, Evangelização e Responsabilidade Social, p.7.

6 Billy GRAHAM, A Missão da Igreja no Mundo de Hoje, p. 17.

7 James A. SCHERER, Evangelho, Igreja e Reino, p. 125.

8 James A. SCHERER, op. Cit., p. 192

9 Luiz LONGUINI NETO, O Novo Rosto da Missão, p. 186.

10 Valdir STEUERNAGEL, A Evangelização do Brasil: Uma tarefa Inacabada, p.38-39.

11 Tony LANE, Pensamento Cristão, vol.2, p.204-205.

12 Robinson CAVALCANTI, A Utopia Possível, p.44.

13 René C. PADILLA, op. cit., p.57-58

14 Luiz LONGUINI NETO, op. cit., p. 187

15 Idem. p.76

16 id., p.188.

17 John STOTT, John Stott comenta o Pacto de Lausanne, p.9.

I8 James SCHERER, op. cit., p. 126.

19 John STOTT, op. cit.. livre adaptação ao Comentário de Stott sobre o Pacto.

20 John STOTT, op. cit., p.27.

21 íd., 28.

22 Robinson CAVALCANTI, OP. CIT., p.43

23 Peter WAGNER, A igreja Saudável, p. 151.

24 John STOTT, Ouça o Espírito, Ouça o Mundo. p.376-377.

25 James I. PACKER, Evangelização e Soberania de Deus, p.28.

26 Wadislau Martins GOMES, Sal da Terra em Terras dos Brasis, p.29.

27 Carlos R. CALDAS FILHO, Fé e Café, p.67.

28 Russell P. SHEDD, Fundamentos Bíblicos da Evangelização, p.8.

29 Joseph C. ALDRICH, Amizade, a Chave para a Evangelização, p13, (texto adaptado).

30 Edward R. DAYTON, O Desafio da Evangelização do Mundo. p. 18.

31 John STOTT, op.cit., p.23.

32 Antonio José do NASCIMENTO FILHO, América Latina e seus Problemas, in Fides Reformata, p. 95.

33 id. p. 96.

34 Hélcio da Silva LESSA, Missão da Igreja e Responsabilidade Social, p.76-77.

35 John STOTT, op. cit., p.38.

36 Andrew KIRK, O Debate a Respeito da Missão Cristã, in Fundamen­tos da Teologia Cristã, p.269.

37 John STOTT, op. cit., p.31.

38 James A. SCHERER, op. cit., p. 136.

39 A. J. do NASCIMENTO FILHO, O Papel da Ação Social na Evangelização e Missão na América Latina, p.28.

40 id., p.29.

41 John STOTT, op. cit., p.21.

42 John Stott, op. cit., p.380

43 Francis A. SCHAEFFER. Manifesto Cristão, p.63-65.

44 John STOTT, op. cit., p. 10.

45 Manfred GRELLERT, Os Compromissos da Missão, p.73-74

47 Jaziel C. CUNHA, O Reformador, p. 1

48 Walter A. ELWELL, Enciclopédia Teológica da Igreja Cristã, vol. II, p. 426-429

49 Augustus Nicodemus LOPES, Liberalismo e Fundamentalismo, p.6-7

50 Walter A. ELWELL, Enciclopédia Teológica da igreja Cristã, vol. III, p. 112-113

51 John STOTT. O Cristão em uma Sociedade não Cristã, p.23

52 Idem, p.24

53 Augustus Nicodemus LOPES. Op. Cit..p.7

54 Idem, p. 10

55 Antonio Gouvêa MENDONÇA, O Celeste Porvir, p. 242

56 M. S. B. DANA e I. G. ROCHA, Hinário Novo Cântico, p. 168

57 E. T. CASSEL e E. R. SMART, Hinário Novo Cântico, p. 258-259

58 Carlos CALDAS, O Último Missionário, p.43

59 Antônio José do NASCIMENTO FILHO, O Papel da Ação Social na Evangelização e Missão na América Latina, p.58

60 Robert C. LINTHICUM, Revitalizando a Igreja, p.87-88

61 Warren W. WIERSBE, A Crise de Integridade, p.29

62 Robert C. LINTHICUM, op.cit.. p.60

63 Caio Fábio D’ARAUJO FILHO, Igreja: Evangelização, serviço e transformação histórica, p.20

64 H. BETTENSON, Documentos da Igreja Cristã, p. 235

65 Antonio José do NASCIMENTO FILHO, op.cit., p. 64-65

66 Clóvis Pinto de CASTRO, A Cidade é Minha Paróquia, p.47

67 Robinson CAVALCANTE op. Cit., p.39

68 René PADILLA e Carlos DEL PINO. Reino, Igreja e Missão, p.68

69 John STOTT, op. cit.. p. 17

70 Francis A. SCHAEFFER, Manifesto Cristão, p.65

71 Elben M. Lenz CÉSAR, História da Evangelização do Brasil. p.89

72 Domício P. MATTOS, A Posição social da Igreja, p.49-50

73 Idem, 52-54

74 Elben M. Lenz CÉSAR, op. cit., p.96

75 Duncan Alexander RELLY, História Documental do Protestantismo no Brasil, p. 134

76 Domício MATTOS. op. Cit., p.55

77 Idem.p.55-59

78 Irland P. de AZEVEDO, Missão da Igreja e Responsabilidade Social, p. 11-24

79 Paulo FRESTON, Fé Bíblica e Crise Brasileira, p. 142

80 Domício MATTOS, op. cit., p. 61-62

81 Paul FRESTON. op. cit.. p. 143

82 Carlos Pinheiro QUEIROZ, Eles Herdarão a Terra, p. 113

83 R. Alan COLE, Êxodo, Introdução e Comentário, p. 172

84 R. K. HARRISON, Levítico, Introdução e Comentário, p.206

85 R. N. CHAMPLIN, Dicionário do Antigo Testamento Interpretado Versículo por Versículo, p.4583

86 Antônio José do NASCIMENTO FILHO, Fidas Reformata, p. 107

87 Russel P. SHEDD, A Justiça Social, p.8

88 John STOTT, Ouça o Espírito, Ouça o Mundo, p.383

89 John STOTT, Tive Fome, p.21

90 Jorge H. BARRO, De Cidade em cidade, p.50

91 Idem, p.50-51

92 Jorge H. BARRO, op.cit., p.26

93 James Montegomery BOICE, O Discipulado Segundo Jesus, p. 17

94 Colin BROWN, Dicionário de Teologia do Novo Testamento, vol. II, p.45

95 Colin BROWN. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, vol. IV. p.449

96 Idem, p.451

97 Carlos Pinheiro QUEIROZ. Jornal AETAL, p.5

98 Jorge H. BARRO, Ações Pastorais da Igreja com a Cidade, p.25-26

99 O Breve Catecismo de Westminster, p. 10

100 Heber Carlos CAMPOS, O Ser de Deus, p. 164

101 John STOTT, John Stott Comenta o Pacto de Lausanne, p.28

102 John STOTT, op.cit., p.383

103 J. I. PACKER, teologia Concisa, p.20

104 Dieter BREPOHL, Afluência e Pobreza, in A Evangelização do Brasil; Uma Tarefa Inacabada, p.133

105 Júlio Paulo Tavares ZABATIERO, Liberdade e Paixão, p.29

106 Antônio José do NASCIMENTO FILHO, op.cit., p.49

107 Ibid

108 ldem, p.45

109 René PADILLA, Missão Integral, p. 15

110 Ibid

111 John STOTT, op. cit., p.94

112 George Barna, A Rã na Chaleira, capa

113 Carlos Pinheiro QUEIROZ. Eles Herdarão a Terra, p.71-85

114 Robinson CAVALCANTI, Igreja: Agência de Transformação Histórica, p.51-53

115 Philip YANCEY, Encontrando Deus nos Lugares mais Inesperados, p.105

116 Philip YANCEY, Enfoque Gospel, p.90

117 René PADILLA, Evangelio Hoy, p.82-88

118 René PADILLA, Servindo com os Pobres na América Latina, p.35

119 Luiz LONGUINI NETO, op. cit., p.77

120 Valdir STEUERNAGEL (Editor), A Evangelização do Brasil: Uma tarefa inacabada, p. 10

121 Luiz LONGUIN1 NETO, op. cit.. p.28 e 78

122 Rubem AMORESE (Editor), A igreja Evangélica na Virada do Milênio, p.31

123 Jorge Henrique BARROS, op. cit. p.11

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Nossos e-books são disponibilizados gratuitamente, com a única finalidade de oferecer leitura edificante a todos aqueles que não tem condições econômicas para comprar.

Se você é financeiramente privilegiado, então utilize nosso acervo apenas para avaliação, e, se gostar, abençoe autores, editoras e livrarias, adquirindo os livros.

Responsabilidade Social da Igreja/ Calvino Teixeira da Rocha

ISBN-85-8714374-3

1. Teologia Social 2. Igreja – Responsabilidade social 1. Título.

Copyright ©2003 by Descoberta Editora Ltda.

1ª edição: Verão 2003

Capa: Eduardo Pellissier

Impressão: Imprensa da Fé

Todos os direitos reservados para Descoberta Editora Ltda., Rua Pequim, 148, Londrina/PR 86050-310, Tel/fax: (43) 3337 0077 –  editora@descoberta.com.br – descoberta.com.br

 Editora filiada à ABEC – Associação Brasileira de Editores Cristãos

Por Calvino Rocha

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