O Caminho do PERDÃO

 



O CAMINHO DO PERDÃO

 “Também os frutos que a tua alma cobiçava foram-se de ti e todas as coisas delicadas e suntuosas se foram de ti e nunca mais serão achadas.” (Ap 18:14)

Assim está escrito e assim deveria se cumprir, se o Pai Celestial não fosse um Deus Vivo de perdão e amor, capaz de reconhecer as falhas de um filho seu e se rejubilar com a sua volta, ainda que tenha vivido mergulhado nas trevas e chegada ao fundo do mais escuro dos poços a que um homem pode chegar.

Em meus muitos anos de pregação, tenho visto muita alma se perder por sua própria vontade, pelo seu orgulho, pela deliberada intenção de se deixar atrair pelas ilusões do diabo, que enche suas armadilhas de luzes e atrações cheias de beleza para esconder o horror e a danação que esperam aqueles que se deixam enganar.

“Contudo se tu avisares o ímpio e ele não se converter da sua impiedade e do seu mau caminho, ele morrerá na sua iniqüidade, mas tu livraste a tua alma.”(Ez 3:19)

É bem clara a citação de Ezequiel, que tranqüiliza aquele que tenta salvar da iniqüidade o pecador, mas isso não o livra da dor de ver um irmão se perder, fugindo da proteção de Deus para se deixar iludir pelo demônio. Como pregador, sofre-se em dobro a cada ovelha perdida, mas há tantas a serem salvas que a perda de uma pode ser compensada pela salvação de centenas. Aquela que se perdeu, no entanto, é um duro golpe no coração do pastor, que jamais há de se conformar com essa perda. A fé no Deus vivo e na sua obra, a crença na força de sua palavra, no entanto, não devem ser esquecidas. Se o diabo seduz, o poder de Deus cura o deslumbramento. Se o diabo destrói, a fé no Senhor Jesus reconstrói. Se o diabo arrasta para a lama, o Espírito Santo purifica. É assim que tem que ser.

Em minhas pregações, vejo pessoas que hoje participam e oram juntas na igreja, num testemunho vivo do poder e da glória do Senhor Deus, de seu Filho e do Espírito Santo. Poucos sabem, porém, de seus dramas e de suas histórias. Quem os vê hoje, esbanjando saúde, prósperos, com uma empresa em expansão ou com um bom emprego, com uma boa casa, carro do ano, celular, parabólica e todo o conforto que o dinheiro pode comprar, pode achar que são pessoas de sorte, que nasceram em berço de ouro.

Poucos conhecem suas jornadas ao fundo do poço da qual jamais esperavam sair, não fosse a o milagre da palavra e o infinito perdão do Pai e da graça do Espirito Santo. Descrentes e desesperados, quando mais nada lhes restava, o poder da Palavra os tocou e eles abriram seus corações para Jesus, que os resgatou das trevas. Tenho certeza, como tenho certeza no poder de Deus, que neste momento há muita pessoas assim, em desespero, mas orando e perseverando, enquanto choram lágrimas de sangue e de sofrimento. A elas a minha bênção e o meu conforto e a certeza de que Ele não deixará que suas orações sejam em vão.

Conheçam esses testemunhos. A pedidos, nomes e sobrenome foram mudados. Que a Glória de Deus recaia sobre todos vocês!



 

Capítulo 1

 

“E o Senhor vos espalhará entre os povos e ficareis poucos em número entre as nações para as quais o Senhor vos conduzirá.

Lá servireis a deuses que são obra de mãos de homens, madeira e pedra, que não vêem, nem ouvem, nem comem, nem cheiram.

Mas de lá buscarás ao Senhor teu Deus e o acharás, quando o buscares de todo o teu coração e de toda a tua alma.

Quando estiveres em angústia e todas estas coisas te alcançarem, então nos últimos dias voltarás para o Senhor teu Deus e ouvirás a sua voz, porquanto o Senhor teu Deus é Deus misericordioso e não te desamparará, nem te destruirá, nem se esquecerá do pacto que jurou a teus pais.”(Dt 4:27-31)

Naquela manhã quente de primavera, quando as lojas começavam a se enfeitar para as festas de fim de ano, os empregados da Salgado & Filhos Ltda. esperavam pelas ordens do patrão que, naquele momento, iniciava um estranho ritual.

— Que cheiro ruim, seu Salgado! — protestou uma das empregadas.

— Não é tão ruim assim, Maria! É um defumador que espanta o azar e atraí dinheiro, clientes e lucro. Neste final de ano eu espero vender como nunca. Tenho certeza que vamos arrebentar no faturamento.

— Ao invés de fazer toda essa fumaceira, porque a gente não reza simplesmente? Meu pastor disse que…

— Eu sei o que o seu pastor disse, Maria. Bota dinheiro na sacolinha que tudo vai mudar! Eu sei disso. Vai mudar para ele!

— Não fala assim, seu Salgado! O senhor está falando de um homem de Deus.

— Esse aqui é o deus dele — falou o comerciante, retirando uma nota de cem reais do bolso e mostrando para a empregada que, naquelas alturas, achou melhor se calar para evitar confusão.

Com um prato de barro cheio de brasas na mão, Salgado percorria as dependências da loja, jogando um pozinho malcheiroso, que se transformava numa fumaça esverdeada e nauseante.

Algumas das moças que ali trabalhavam preferiram sair, pois não estavam suportando o mau cheiro. Quando terminou aquele ritual, Salgado apanhou sete velas e as colocou ao redor de um prato. Dentro do prato ele colocou um punhado de sal grosso, açúcar e sete moedas do mesmo valor. Acendeu as velas e rezou uma oração esquisita, que trazia escrita numa folha de papel.

— Jesus Cristo, seu Salgado! O que é isso agora? — quis saber Maria, já horrorizada com tudo aquilo.

— Estou lhe dizendo, Maria, este vai ser o nosso ano. Quero ganhar muito dinheiro e…

— Que adianta ganhar dinheiro e perder a alma?

— Pára com isso, Maria! Esse negócio de igreja está deixando você muito medrosa. Isso aqui não faz mal para ninguém, só ajuda!

— Só ajuda? E se os seus concorrentes fizerem o mesmo, como é que fica?

— Quem tiver mais fé, sai ganhando e, nesses assuntos, eu sou mais eu. Ainda mais que tenho mais uma coisinha para me ajudar — falou o comerciante, começando a desembrulhar um pacote. — Enquanto eu preparo isto aqui, mande as meninas começarem a fazer a decoração de natal. Vamos abrir mais tarde hoje, depois que eu terminar minhas simpatias e minhas rezas.

— Se quer tanta ajuda para se sair bem, por que não chama um pastor para vir orar aqui?

— Que pastor, que nada, Maria! Chamei um benzedor dos bons. Meu motorista foi buscá-lo. Deve chegar daqui a pouco. Enquanto isso, olhe o que tenho aqui para me ajudar.

Quando ele terminou de desmanchar o embrulho, Maria sentiu um nó no estômago. Eram imagens de santos de todos os tamanhos, feitas de gesso e pintadas grotescamente, sem beleza e sem serventia alguma.

— O senhor já leu a Bíblia, seu Salgado? — perguntou-lhe Maria.

— Já li mais de dez vezes. Quando eu fazia catecismo, tinha que ler toda semana.

— E por acaso se lembra do que estava escrito em Deuteronômio:6.

O comerciante interrompeu seu trabalho de arrumar as imagens num pequeno altar, olhou para a empregada e começou a rir.

— E por acaso você se lembra, Maria?

— Pois eu me lembro. Diz assim: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra; não te encurvarás diante delas, nem as servirás, porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam e uso de misericórdia com milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos.”

— Meus parabéns, Maria! Tem uma boa memória. Espero que se lembre de me agradecer, quando receber as comissões das vendas que vamos fazer neste final de ano. Estas imagens aqui são apenas a lembrança dos santos, uma espécie de recordação, como a fotografia do seu namorado que eu sei que você traz na carteira e olha de vez em quando.

— É diferente, seu Salgado. Eu não presto culto ao meu namorado. Eu tenho amor por ele, entende?

— No fim, é tudo a mesma coisa, Maria. Agora deixa para lá. Esse que está chegando aí é o benzedor. Vou recebê-lo.

Horrorizada, Maria viu o patrão, um homem aparentemente inteligente e culto, bem vestido e bem falante, ir ao encontro de um indivíduo esquisito, com uma roupa cheia de penduricalhos, um rosário no pescoço e olhos escuros e profundos.

Conversaram por alguns instantes, depois o homem retirou um ramo de arruda de uma velha mala e começou a agitá-lo no ar, enquanto caminhava pelo estabelecimento, murmurando algo que parecia ser uma oração, mas que ninguém entendia.

— Isso me parece coisa do diabo! — comentou Maria com sua amiga Sandra.

— Deixa de pegar no pé do patrão, Maria. Você está ficando muito chata com esse negócio de igreja. Se der certo toda essa maluquice que ele está fazendo, nós só temos a ganhar. Vamos ter ótimas vendas e passar um final de ano tranqüilo. Estou precisando de dinheiro e não me importa se tiver que aturar todo esse fedor e essas loucuras para conseguí-lo.

— Que proveito terá o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? O que dará o homem em troca da sua alma? — comentou Maria, lembrando Mateus 16:26.

— Não embaça, Maria! Não se faça de santa, porque eu sei que você precisa tanto de dinheiro quanto qualquer uma de nós. Agora vamos trabalhar, antes que o patrão fique bravo com a gente.

A contragosto, Maria atendeu a recomendação da amiga. A loja, depois da defumação e da passagem do benzedor, ficara com um clima esquisito, que provocava calafrios. A cada vez que ela olhava para o altar cheio de imagens que o patrão tinha montado num canto da loja, ela se sentia mal.

Como precisava do emprego, resolveu usar o bom senso e esperar uma ocasião mais adequada para voltar ao assunto. Antes, porém, pretendia pedir orientação ao seu pastor já que, naquele ambiente, estava difícil para ela trabalhar.

Terminaram de fazer a decoração natalina na loja e as portas foram abertas. Enquanto isso acontecia, silenciosamente Maria fez uma oração, pedindo que o Espírito Santo iluminasse a todos ali e que tudo que o patrão havia feito fosse perdoado.

Poucos clientes apareceram. O Plano Real ainda era uma incógnita e todos diziam que a vida iria melhorar, principalmente para as classes menos privilegiadas.

Maria torcia para que isso acontecesse, pois pretendia, com o fruto do seu trabalho, dar um pouco mais de conforto a sua família, já que seu pai era aposentado por invalidez e recebia muito pouco. No fim, ela arcava sozinha com o orçamento da casa. Sua irmã mais nova apenas estudava. Maria fazia questão que ela se empenhasse nisso, pois acreditava que o estudo era a maneira mais digna e correta de ser alguma coisa na vida.

Ultimamente, porém, andava preocupada com a irmã, que demonstrava uma certa revolta com tudo e com todos. Parecia que, de uma hora para outra, havia se desiludido com a vida modesta que viviam, aspirando coisas além de suas possibilidades.

Maria se preocupava com ela. Como freqüentava um bom colégio, graças ao sacrifício da irmã, com certeza via as colegas bem vestidas, sempre exibindo novidades e queria fazer o mesmo. Além disso, havia arrumado um namorado que, pelo que Maria sabia, não era uma boa pessoa.

Havia rumores de que se tratava de um traficante. Andava num carro do ano, vestia-se bem e, com certeza, tinha tudo para impressionar uma garota inocente e ingênua como Úrsula, a irmã de Maria.

— Senhor Jesus, dê juízo a minha irmãzinha! — costumava rezar.

*

No seu escritório, Salgado conversava com o benzedor, que havia percorrido todas as dependências da loja, observado o estoque, os móveis e tudo o mais que ali havia. Agora olhava seriamente para o comerciante, fazendo um ar de preocupação.

— Está muito carregado, meu filho. Parece que fizeram um trabalho grande para prejudicar sua vida.

— Sério mesmo, Pai Nozinho?

— Dá para sentir. É coisa de sapo costurado em terreiro de macumba. Sangue e baba foram jogados aqui. Tem gente forte na parada. Você está incomodando muita gente.

O comerciante pensou por instantes, depois se debruçou sobre a escrivaninha para falar mais de perto.

— Na verdade, Pai Nozinho, eu estou fazendo uma grande jogada. Acertei com um fornecedor que ele venderia suas mercadoria apenas para mim e para nenhum de meus concorrentes. É coisa grande. Vou ter estoque e preço. Tive de garantir uma venda mínima, mas sei que vou conseguir, com a sua ajuda. O que nós temos que fazer para isso tudo dar certo?

— É muito dinheiro na parada?

— Muito! Se eu vender, fico rico. Se não vender, vou quebrar, com tanto estoque.

O benzedor pensou por instantes, olhando ao seu redor.

— Vai ter que fazer trabalho pesado.

— Eu faço!

— Custa caro!

— Quanto?

O benzedor deu mais uma olhada do seu redor.

— Uns cinco mil reais…

— Eu pago!

— Daí para mais! — completou o benzedor, ao perceber que o negócio estava para ele.

— Mais quanto?

— Se o filho tirar essa mandinga que tem em cima dele, vai ganhar muito, mas muito dinheiro. Vejo você viajando…

— Longe?

— É, nem longe. Tem que ir de avião?

— Não é a Disneilândia? Minha filha quer que eu a leve para lá nas férias. Se tudo der certo, eu vou levar.

— É isso mesmo! Viagem longa, com a filhinha… Posso ver todo mundo feliz, dando risada, brincando. É, meu filho, tira essa mandinga e sua filhinha não vai esquecer dessa viagem nunca mais na vida!

— Está certo, Pai Nozinho. Vou lhe dar um cheque de cinco mil reais para começar, mas espere uns dias antes de soltá-la. Estou usando o cheque especial e o juro é pesado. Pode ser?

— Não tem problema, filho. Só vou fazer o trabalho na próxima sexta-feira. Eu mando avisar o filho, para ele estar presente. Vai precisar, viu?

— Está certo, Pai Nozinho. Eu estarei lá.

— Vou pedir para o meu boiadeiro que faça um trabalho especial. É o melhor de todos, você vai ver!

— Deixo esses detalhes por sua conta, Pai Nozinho.

— Então confia. E já pode ir tirando os passaportes para a viagem, meu filho.

Satisfeito e empolgado, Salgado se despediu do benzedor, que ficou de lhe dar mais detalhes sobre o trabalho que seria feito na próxima sexta-feira. Se no início estava temeroso, agora estava confiante. Com um benzedor poderoso como Pai Nozinho, ia ser fácil dar de dez a zero na concorrência.

Fechou a porta do seu gabinete, apanhou o telefone e discou. Uma voz feminina delicada e provocante atendeu do outro lado.

— Michele, acho que vou dar a maior tacada da minha vida. Neste final de ano eu arrebento de ganhar dinheiro.

— Que maravilha, meu amor! Então você vai me dar aquele carro que prometeu?

— Claro que sim, meu doce! Pode ir escolhendo a cor.

— Eu já vi um na loja. O vendedor diz que vende em condições.

— Sei, mas não posso dar nada de entrada agora, meu bem. Tenho de começar a vender primeiro…

— Não tem importância. Eles disseram que podem dividir em parcelas. Se for empresa, melhor ainda. Pode fazer um tal de leasing e pagar em vinte e quatro prestações…

— Não sei, o leasing tem juro muito alto, pode ficar difícil pagar as parcelas.

— Bobo! Nem parece que meu docinho é comerciante. Você faz o tal do leasing só para tirar o carro. Quando ganhar o dinheiro, você vai lá e paga, tolinho.

Ele pensou por instantes. Aquela sua amante era terrível, mas tudo valia a pena para contentá-la. Não conseguia entender o que ela vira nele. Uma menina de vinte e cinco anos se apaixonar por um quarentão como ele era uma bênção. Ele se sentia remoçado vinte anos. Ela era exigente, mas como não atender àqueles pedidos, se ela era tão carinhosa e o fazia se sentir tão bem?

Já não vivia bem com sua esposa havia alguns anos. O amor e o romantismo haviam se acabado. Por muitos e muitos anos, Salgado se dedicara ao seu negócio, procurando ganhar dinheiro. Com isso deixara de aproveitar a vida e, agora, sentia que tinha o direito de se dar a esses pequenos luxos.

— Está bem, meu amor! Pode encomendar o carro, então. Hoje à tarde, depois que eu sair daqui, nós vamos até lá buscar. Veja que documentos será preciso e peça ao meu contador. Eu vou ligar para ele e mandar que providencie tudo.

— Oh, Salgado, querido, não sei o que você viu numa garota tão sem graça como eu. Puxa, como eu adoro você! — exclamou Michele, com seu tom de voz mais meigo e doce.

Salgado sorriu, enlevado e enternecido. Era mesmo um homem de sorte. O que mais poderia esperar da vida?

*

Soninha tinha sete anos e freqüentava o primeiro ano de um colégio evangélico, um dos melhores do bairro, onde a educação, além de preparar as crianças para os primeiros anos escolares, preocupava-se também em desenvolvê-las e abrir-lhes a mente para as coisas espirituais.

Além das brincadeiras com as amiguinhas, havia atividades de recreação, alfabetização e leitura. O que ela mais gostava, porém, eram gravuras com cenas bíblicas, coloridas avidamente por suas mãozinhas ainda inseguras, mas criativas. Adorava, também, quando a professora lia trechos da Bíblia, comentando passagens, de um jeito cativante e fácil de entender.

Soninha chamava a atenção pela sua habilidade e sensibilidade na pintura e pela sua esperteza e interesse pelas histórias contadas pelas professoras. Algumas passagens ficaram marcadas em sua mente e ela pedia, sempre que possível, para que lhe fossem repetidas.

— Tia, o que Jesus disse mesmo para os apóstolos que não queriam deixar as crianças se aproximarem dele?

Esta era sua passagem favorita.

— Jesus ficou bravo com eles e disse: deixai vir a mim as criancinhas e não as impeçais, porque delas é o reino de Deus.

A menina tinha seu próprio entendimento daquela passagem e, naquela manhã quente de primavera, resolveu ir além em seus questionamentos.

— Tia, se um dia eu precisar falar com Jesus, não preciso pedir para ninguém, não é mesmo?

— Sim, claro, querida. Basta você abrir seu coração para ele e ele ouvirá e atenderá todos os seus pedidos. Por que você pergunta isso. Tem alguma coisa incomodando você?

— Não, tia. É que meu pai vai me levar na Disneilândia nas férias, mas só se ele vender bastante na loja dele. Acha que posso pedir para Jesus dar uma ajuda para ele?

— Eu acho que Jesus tem coisas mais importantes para fazer do que ajudar alguém a fazer negócios — disse a professora. — Você já pensou, Soninha, se todo comerciante fosse pedir isso para ele? Aí ele não teria tempo para cuidar das criancinhas como você!

Em sua inocência, achou sentido nas palavras da professora. Pensou até que se Jesus fosse agir daquela forma, ajudando a todos os comerciantes, seria melhor que ele mesmo abrisse sua própria loja. Com certeza venderia mais barato e todos poderiam comprar tudo o que precisassem.

Resolveu não pensar mais nisso e pouco depois já estava envolvida numa outra atividade, esquecendo-se da observação da sua professora. A viagem para a Disneilândia estava assegurada, tinha certeza disso. Jesus não a deixaria na mão.

Era uma garota feliz. Tinha tudo que queria. Era amada por seus pais e por seu irmão mais velho. Viajaria para conhecer a Disneilândia e se divertiria muito.

Toda noite, antes de dormir, orava pedindo isso.


 

Capítulo 2

 

“Quando teu irmão, filho da tua mãe, ou teu filho, ou tua filha, ou a mulher do teu seio, ou teu amigo que te é como a tua alma, te incitar em segredo, dizendo:

Vamos e sirvamos a outros deuses! — deuses que nunca conheceste, nem tu nem teus pais, dentre os deuses dos povos que estão em redor de ti, perto ou longe de ti, desde uma extremidade da terra até a outra, não consentirás com ele, nem o ouvirás, nem o teu olho terá piedade dele, nem o pouparás, nem o esconderás, mas certamente o matarás.

A tua mão será a primeira contra ele para o matar e depois a mão de todo o povo e o apedrejarás, até que morra, pois procurou apartar-te do Senhor teu Deus, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão. (Dt 6:6-10)

Em sua casa, Michele conversava alegremente com Míriam, sua amiga, contando a grande novidade. Estava muito feliz com o carro que havia ganho de seu amante.

— É certeza mesmo, Michele?

— Garantido! Já falei com o vendedor e com o contador. Vou sair daqui a pouco para apanhar os papéis com ele e levar para a concessionária de automóveis. À tarde eu e o Salgado vamos passar lá para acertar tudo.

— E como você vai explicar esse carro para sua mãe? — quis saber Míriam.

Uma expressão de preocupação desenhou-se no rosto de Michele, enquanto pensava. Era órfã e sua mãe trabalhava fora o dia todo. Imaginava que a garota também trabalhasse durante o dia e estudasse à noite, sem saber que a menina era sustentada por um homem com idade para ser o pai dela.

— Vou ter que contar que comprei. Não está tão difícil assim comprar um carro a prestação. Vou dizer que economizei, que tinha na poupança, qualquer coisa assim.

A expressão no rosto de Míriam se tornou mais inquiridora. Aproximou-se bem da amiga para perguntar;

— E para o Alfredo, o que vai dizer?

O rosto de Michele se tornou sério. Por um instante um brilho de ternura e carinho cintilou, embelezando-a. Depois seu rosto se endureceu.

— Vou dizer a mesma coisa. Tenho que mentir para todo mundo agora, não é mesmo? Mas que se importa? Vou ter meu carro, tenho dinheiro e se tudo der certo, arranco também um apartamento do Salgado.

— Um apartamento?! — surpreendeu-se Míriam.

— Por que esse espanto? Acha que não sou capaz? Sou muito mais eu, menina. Aquele homem está comendo aqui, na palma da minha mão. E tem mais: vou mandar fazer um trabalho contra a mulher dele para ela secar e sumir. Já pensou se ele ficar viúvo? Eu o faço casar comigo fácil, muito fácil mesmo.

— Me conta como. Estou precisando arrumar um Salgado desses na minha vida.

— Não é difícil, boba! Esses coroas andam loucos para provar que não estão velhos. É só encostar neles, fazer uns agradinhos e começar a tomar o dinheiro dos trouxas. Faça com que eles pensem que são os maiores, os conquistadores, os bons. No fundo são ridículos e se gastam todo o dinheiro conosco, merecemos cada centavo. Agüentar esses tipos é difícil, minha amiga. Mas tem suas compensações. Quer ver só? — indagou Michele, apanhando um porta-jóias e abrindo-o sobre a cama.

Anéis, pulseiras, colares e todo tipo de jóias se espalharam. Brilhantes, esmeraldas e rubis cintilaram naquele pequeno tesouro.

— Minha mãe pensa que isso é bijuteria, mas é tudo de verdade. Vale uma nota, minha filha!

— Michele, esse homem é bom demais para você. Não tem remorso de fazer isso com ele?

— Remorso? Que remorso, que nada, querida. Estou na minha. E ele ainda vai abrir mais a mão ainda. Encomendei um trabalho com a Pomba Gira. É para a mulher dele. Os dois já andam meio separados mesmo. Espere só para ver.

Mexendo nas jóias, Míriam encontrou uma fotografia. Olhou-a. Era o rosto sorridente e honesto de Alfredo, um rapaz que gostava muito de Michele. Ficou olhando por algum tempo e, quando levantou os olhos para a amiga, percebeu que os dela estavam marejados. Por trás de toda aquela frieza e de toda aquela determinação, Michele ainda conservava alguma pureza de sentimentos.

— Você ainda gosta muito dele, não é? — perguntou Míriam.

— Sim, gosto muito. Imagine o que o bobo fez esses dias — comentou, enxugando disfarçadamente os olhos.

— O que foi? — quis saber Míriam.

— Disse que orou por mim na igreja. Que participou de uma corrente pela minha felicidade. Pode uma coisa dessas?

— Você é uma pessoa de sorte, Michele — comentou Míriam. — Tem dois homens maravilhosos em sua vida.

— Pouco com Deus é muito, muito sem Deus é nada! — murmurou Michele, com o olhar distante.

— O que foi? — perguntou Míriam.

— Nada, bobagem minha! O Alfredo é um bom rapaz, bom demais para mim. Honesto, trabalhador, cristão, mas pobre, Míriam. E eu não quero ser pobre o resto de minha vida. Olhe para mim. Sou bonita, não sou? Tenho de usar isso, é a única mercadoria que tenho para negociar os favores de que preciso para subir na vida.

— Esses dias atrás o Alfredo me disse uma passagem interessante da Bíblia — lembrou-se Míriam.

— É? E qual foi?

— Está em Tiago 1:11 e diz assim: “O sol se levanta em seu ardor e faz secar a erva; a sua flor cai e a beleza do seu aspecto perece. Assim murchará também o rico em seus caminhos.”

— E o que isso quer dizer?

— Que a beleza como a riqueza são vazias e frágeis. Acho que foi isso que ele disse.

— O Alfredo não entende nada dessas coisas. Fica mexendo muito com esse negócio de igreja e esquece das coisas mais importantes.

— E que coisas são mais importantes que o trabalho dele na igreja?

— Eu, por exemplo!

— Você não sabe o que está dizendo, Michele. Acha que o Alfredo é ingênuo, que não sabe o que está acontecendo?

— Só se você contou…

— Eu jamais contaria seu segredo, Michele, mas o Alfredo é inteligente e sincero. Já deve ter percebido como você mudou. Ao invés de criticar você, de procurá-la e xingá-la, sabe o que ele faz? — indagou Míriam, olhando a amiga frente a frente.

Por algum tempo, Michele conseguiu sustentar o olhar. Depois de algum tempo, porém, abaixou o rosto. Lágrimas começaram a pingar na fotografia sorridente de Alfredo.

*

Úrsula ficou no portão da escola, quando as aulas terminaram. Os outros alunos foram passando, enquanto ela olhava com atenção para os carros que se aproximavam. De repente, seu semblante se alegrou e ela correu para o meio-fio. Pouco depois um carro novo encostava e ela entrava alegremente.

Beijou o rapaz que estava no volante, depois respirou fundo, olhando ao seu redor. As amiguinhas na calçada olhavam com inveja para ela. Isso a fazia se sentir muito bem.

— E como vai a minha gatinha hoje? — indagou Rodrigo, com sua voz mais melosa.

Era um rapaz de vinte e cinco anos, boa pinta, com a camisa aberta no peito, exibindo uma corrente grossa de ouro, onde pendia um amuleto do Exu Caveira, de quem se dizia protegido.

— Ele me protege de faca, de bala, de soco, de chute, de qualquer tipo de agressão — costumava dizer.

— Hoje, quando eu vinha para a escola, passei na frente daquela loja de roupas. Tinha uns biquínis maravilhosos na vitrine. Vou pedir dinheiro para a Maria para comprar um.

— Se você quiser, eu posso dar um jeito de você ganhar seu próprio dinheiro — disse ele, com desinteresse.

— Verdade? Muito dinheiro?

— Bastante!

— Para fazer o quê?

Ele sorriu.

— Não é para vender meus bagulhos, que nisso não quero você envolvida. É um outro lance legal. Sabia que uma menina como você, com esses dezesseis aninhos lindos que tem, pode ganhar muito dinheiro… Principalmente se for virgem?

— Você sabe que eu sou virgem, Rodrigo. Jamais deixei você avançar o sinal.

— Eu sei disso, minha gatinha, e sempre respeitei você. Só que acho isso uma bobagem, sabia? Uma grande bobagem. O verdadeiro amor não está numa coisinha dessas, mas aqui, no peito, no coração da gente — disse ele, batendo com o punho fechado sobre seu amuleto.

A garota o olhou com admiração, mas com um certo receio também.

— Eu gosto muito de você, Rodrigo, mas tenho muito medo das coisas que você faz.

— E o que eu faço?

— Esse negócio de drogas, de armas, isso tudo.

Ele riu, retirando a carteira do bolso. Abriu-a e despejou um monte de cédulas de cem reais no colo da menina.

— Esse é o meu negócio, Úrsula. Pegue, é tudo seu. Compre o biquíni e fique bem bonita para mim. Quando chegar o verão, vou levar você à praia. Tenho um apartamento lá, sabia?

— Sério? Nunca me falou disso — falou ela, recolhendo com deslumbramento as notas que ele jogara em seu colo.

— Tenho tantas coisas que nem me lembro de contar sobre todas elas. Você saberá com o tempo.

— Puxa, gostaria de ter tanto dinheiro assim! — suspirou ela, começando a contar as notas.

— E pode, se quiser!

Ela parou de contar e levantou os olhos lentamente para ele.

— Como?

Ele a olhou no fundo dos olhos, sondando-a. Sabia que já tinha domínio sobre ela. O importante era não forçar demais a situação. Úrsula era muito valiosa para ele, àquelas alturas. Era, em sua opinião, a mercadoria mais cara que ele tinha para vender. E saberia vendê-la com um lucro excelente.

— Ah, esquece isso, minha gatinha! Já tem o dinheiro para comprar o biquíni. Não precisa se preocupar. E vou dizer o que nós vamos fazer. Vou levá-la àquela churrascaria que você gosta para almoçar. Depois vamos ao cinema, o que acha?

— Preciso avisar em casa e…

— Tome, ligue para sua irmã no meu celular — disse ele, passando o aparelho para ela. — Se quiser, pode ligar também para suas amiguinhas, enquanto a gente vai para a churrascaria.

— Verdade? Não fica muito caro para você depois?

— Nada é caro demais para a minha gatinha — sorriu ele, fazendo um carinho no rosto dela.

Úrsula segurou a mão dele e levou-a aos lábios, beijando-a inocentemente. Longe de enternecer o coração endurecido do traficante, aquele beijo apenas confirmou o acerto de sua escolha. Úrsula iria lhe render um bom dinheiro.

*

Miguel Salgado era o filho mais velho do casal e, apesar do xodó que todos tinham por Soninha, a caçula, ele era muito querido pelos pais e também pela irmã. Ajuizado, inteligente e estudioso, apesar dos seus quinze anos estava sempre atento a tudo que se referia a seus entes queridos, como se fosse o anjo protetor de todos eles.

Nos últimos dias vinha notando, com preocupação, que o semblante de sua mão andava muito sério e tenso. Como a conhecia bem, sentia a falta daqueles sorrisos carinhosos e daqueles olhares cheios de bondade e amor. O que via, eram olhos vermelhos e lacrimejantes.

Estava tentando descobrir uma forma de se aproximar dela e tentar fazer com que ela falasse. Ouvira-a ao telefone algumas vezes naquela semana, conversando com o médico dela. Eram conversas entrecortadas, como se fosse difícil para ela falar com ele.

Dentro de si tinha uma grande preocupação. Juntando tudo que havia observado, desde as conversas com o médico até aqueles remédios com tarja preta que ela escondia em sua penteadeira, podia deduzir que sua mãe estava doente. Mas o que seria que nem ao marido ela havia contado?

Passou a observá-la mais de perto. Reparou, então, que as roupas que a mão usava estavam mais folgadas. Sua mãe havia emagrecido alguns quilos. Começava a perceber isso inclusive no rosto dela. Além disso, perdia muito cabelo.

Naquela tarde, quando foi à loja, tentou falar com o pai a respeito do assunto.

— Doente? Sua mãe? Que nada, meu filho! Deve ser aqueles remédios para emagrecer que ela anda tomando. Está querendo voltar a ser uma menininha, não percebe como isso é ridículo.

— Eu não sei, pai, acho que é mais do que isso.

— Está certo, filho, eu vou falar com ela hoje à noite. Agora tenho trabalho. Está acabando de chegar um grande estoque para a loja. Se tudo der certo, vamos ficar ricos, meu filho. Agora deixa o papai ir trabalhar, está bem?

O garoto viu seu pai se dirigir aos fundos da loja, onde ficava o depósito. Foi até a porta e ficou olhando o movimento da rua. Nas outras lojas, a decoração de natal também havia sido instalada, criando conjunto feérico e chamativo.

Maria se aproximou, olhando-o.

— O que foi, Miguel? Parece preocupado, meu anjo?

Ele tentou sorrir. Maria era a única que o tratava de anjo e ele gostava daquilo. Dizia que seu nome era o nome de um Anjo.

— Está em Apocalipse 12:7-8: “Então houve guerra no céu: Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão. E o dragão e os seus anjos batalhavam, mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou no céu” — explicara ela para o rapaz. — Sabe o que isso significa? Que Miguel é um grande anjo, chefiando muitos outros anjos e que juntos enfrentaram o diabo, vencendo-o.

Maria passou o braço pelos ombros do rapazinho e balançou-o, animando-o.

— Vamos lá, meu anjo, o que está acontecendo com você? — insistiu ela.

— Puxa, Maria, você me conhece só de me ver, não é mesmo?

— É porque gosto muito de você, Miguel. Agora me conta o que tanto o preocupa.

— É a minha mãe. Acho que ela está doente. E acho que é doença séria — disse ele.

— Como sabe?

— Está emagrecendo, o cabelo dela está caindo e ela anda tomando este remédio aqui — disse ele, exibindo uma bula que havia retirado da caixinha, na penteadeira da mãe.

Ao ver o nome do remédio, um arrepio percorreu o corpo de Maria. Conhecia aquele nome. Seu pai tomara muitos vidros daquele remédio, antes de morrer de uma doença terrível: câncer.

Apanhou o papel das mãos de Miguel, dobrou-o e guardou-o no seu bolso.

— Não precisa se preocupar, Miguel. Vou levar comigo esta bula e vou pedir ao meu pastor para incluir o nome de sua mãe na nossa próxima corrente da saúde. Seria ótimo se ela pudesse ir à igreja e participar, mas vou tentar ajudá-la.

— Verdade mesmo, Maria? Olhe, se for mesmo preciso, eu a levo até a igreja. Amo demais minha mãe e não quero vê-la sofrendo.

— Então fale com ela. Na próxima sexta-feira vamos ter um culto especial, pela saúde dos enfermos. Se puder levá-la será ótimo!

— Obrigado, Maria! Você me deixou mais tranqüilo agora — falou o rapaz, despedindo-se da amiga e voltando para casa.

Procurou pela mãe, que estava deitada. Ao vê-la no leito, na penumbra do quarto, teve certeza de que ela estava mesmo doente. Aproximou-se lentamente.

— Está tudo bem, mãezinha? — indagou, sentando-se na beirada da cama.

— Sim, filhinho. Mamãe estava cansada e resolveu deitar um pouco — disse ela, abrindo os braços.

O menino se aninhou nos braços dela, abraçando-a também. Ficou ali, trêmulo, sentindo uma angústia interior muito grande.

— Mamãe, se eu pedir uma coisa, você faz para mim?

— Claro, meu filho. Você sabe que eu faço qualquer coisa por vocês.

— Você conhece a Maria, não é?

— A empregada da loja?

— Essa mesmo.

— Claro que conheço, filho.

— Ela nos convidou para ir à igreja dela e eu fiquei com vontade de ir. Você me leva? Eu prometi para ela que iria.

A mãe ficou surpresa.

— Mas a Maria freqüenta uma igreja evangélica, que eu sei. Nós somos de outra doutrina…

— Tudo é cristianismo, mãe. Eles acreditam em Cristo e nós também, não é? Não fará mal algum, nem será nenhum pecado.

A mulher pensou por alguns instantes.

— Vou pensar no assunto. Se eu estiver boa, talvez eu vá.

O garoto remoeu por alguns instantes a pergunta que trazia guardada.

— Mãe, você está doente? — indagou, afinal.

Ela demorou um pouco para responder.

— Sim, mas não é grave. Vai passar.

No tom de voz dela ele sentiu a insegurança. O medo se tornou maior dentro dele. Apertou com força os braços ao redor do corpo da mãe e sufocou o soluço que ameaçava brotar de seu peito.

De seus olhos inocentes, no entanto, lágrimas mornas de dor brotaram e rolaram sem que ele pudesse impedí-las.


 

Capítulo 3

 

 

“Que proveito traz a imagem esculpida, tendo-a esculpido o seu artífice, e a imagem de fundição, que ensina a mentira? Pois o artífice confia na sua própria obra, quando forma ídolos mudos.

Ai daquele que diz ao pau:

— Acorda!

E à pedra muda:

— Desperta!

Pode isso ensinar? Eis que está coberto de ouro e de prata e dentro dele não há espírito algum, mas o Senhor está no seu santo templo. Cale-se diante dele toda a terra.” (Hb 2:18-20)

Sexta-feira, próximo da meia-noite. José Salgado chegou com seu carro no terreiro de Pai Nozinho, onde seria feito o trabalho. Trouxe uma porção de coisas consigo, compradas numa casa especializada, sem contar com aquelas que o benzedor compraria, com o dinheiro adiantado.

Além disso, seguindo instruções que o homem lhe dera naquela tarde, trouxera cinco mil reais num maço de notas novas, trocadas no banco, para ofertar à entidade que faria o serviço de limpeza de todos os empecilhos que estorvavam o seu caminho.

O telefonema naquela tarde fora bem assustador:

— Meu filho, estive consultando os búzios e a coisa está feia para você. Se não fizer um trabalho de primeira, vai perder tudo que tem. Os negócios vai dar para trás. O trabalho que foi feito aí é coisa muito poderosa mesmo. Vamos ter que recorrer ao Exu Caveira para remover os empecilhos. Com esse não tem acordo. O que tiver pela frente ele desmancha.

— Mas quem fez isso comigo, Pai Nozinho?

— Concorrente, meu filho. Concorrente seu. Pessoa de sua simpatia, mas gente má, perversa.

Salgado pensou por instantes.

— Ah, se eu pudesse dar o troco!

— E pode! Quando se lida com o Exu Caveira, é preciso ir fundo no trabalho. Vou lhe dar uma lista de coisas que vai ter que me trazer. Além disso, vou precisar de mais cinco mil reais, tudo em notas novas, tirada do Banco, embrulhadas num pedaço de seda vermelha e amarrada com uma fita da mesma cor. Não esqueça: tem que ser nota nova e tem que estar embrulhada no pano, porque o Exu Caveira não põe a mão direto no dinheiro.

— Pode deixar, Pai Nozinho. Eu faço tudo direitinho.

Salgado anotou em seguida a relação de materiais que teria de levar, depois desligou o telefone. Ficou pensando, muito preocupado com a situação. Havia gastado todo o seu cheque especial e, agora, não sabia como arrumar cinco mil reais em dinheiro vivo.

Poderia fazer um empréstimo, mas o crédito de sua firma estava esgotado. Tivera de descontar umas duplicatas frias para dar de entrada na compra do carro de sua jovem amante.

Lembrou-se, então, de um amigo agiota. Ligou para ele.

— Souza, seu malandro, como vai essa força? — cumprimentou-o o outro.

— Pois é, Salgado, vou indo. E você? Essa loja para que não pára de crescer?

— E não pára mesmo, rapaz. Investi um bom dinheiro no estoque. Com o Plano Real, é certeza que vamos ter boas vendas neste final de ano. O pessoal vai comprar como nunca.

— Isso é muito bom. Mas o que eu posso fazer pelo amigo?

— Você ainda troca aqueles chequinhos para os amigos?

— Se for para amigos como você, a toda hora, quando você quiser. O que é que você precisa?

— Preciso de uns dez mil… Não, dez mil não. Com cinco mil limpo eu resolvo o problema, porque tenho um dinheiro para receber até o final do mês — argumentou Salgado, fingindo que não estava tão apertado quanto parecia.

— Sem problema, Salgado. Você comigo tem crédito. Como quer fazer? Você vem aqui ou quer que eu passe por ai?

— Na verdade, se for possível, eu passo aí, porque logo vai fechar o Banco e eu preciso fazer o depósito…

— Então estou esperando.

— Falando nisso, que juro você está cobrando?

— Para os amigos como você, quatorze por cento.

Salgado sentiu um golpe no estômago. Quatorze por cento de juros, numa economia estabilizada, não era apenas um roubo: era um crime. Engoliu seco. Aquilo significava setecentos reais de juros num só mês.

— Tudo isso, Moura? — protestou, desejando negociar.

— Pois é, rapaz, os Bancos não estão emprestando e o pessoal está procurando a gente. Aliás, para poder emprestar para você, que é meu amigo, vou ter que deixar de atender um sujeito aí que me pediu. Veja só como você é importante.

Salgado hesitou. Quatorze por cento, para ele, que era um comerciante, significava um custo muito alto.

— Alfredo, vou fazer o caixa aqui e ligo em meia hora, está bem?

— Olha, Salgado, posso lhe dar uns dez minutos para pensar, pois se você não quiser, tenho para quem passar agora mesmo — disse o outro.

— Certo, certo! Em dez minutos então! — concordou Salgado, desligando.

Parou e ficou pensando. De um lado, todo um investimento feito na loja, esperando pelo sucesso das vendas. Poderia ficar rico! Milionário! Estava com a faca e o queijo na mão, mas não podia ceder a uma chantagem, a uma extorsão como aquela, de pagar quatorze por cento de juros.

Pela porta de seu escritório viu sua empregada preferida, a Maria, circulando pela loja, sempre muito atenciosa e muito carinhosa com todos. Aquela menina sempre lhe dizia coisas boas, coisas bonitas, alertando-o para fugir das mentiras e das enganações do diabo, atento a todos aqueles que vacilam em sua fé ou que não tem fé.

O telefone tocou. Atendeu. Era Soninha, sua filhinha querida, que falou soluçando ao telefone:

— Paizinho, é verdade que não vou poder ir à Disneilândia?

— Filhinha, o que está acontecendo? Por que você está chorando?

— É que eu quero ir na Disneilândia!

— E você vai! O papai já não falou que você vai?

— Mas a Aline, aquela boba, disse que é mentira, que você não tem dinheiro para me mandar para a Disneilândia, que o pai dela falou para ela…

Salgado mordeu os lábios para não falar um palavrão. O pai de Aline era nada menos que o gerente do Banco onde o comerciante mantinha suas contas bancárias.

— Aline é mentirosa, minha filha! Pode falar isso para ela. O papai disse que você vai para a Disneilândia, então você vai para a Disneilândia. Em quem você acredita mais, no papai ou na Aline?

— Em você — falou a menina, ainda soluçando.

— Então pare de chorar e mande um beijo para o papai.

— Está bom, paizinho! Um beijo para você! — disse ela, estalando ao telefone um beijo carinhoso.

Salgado desligou, sentindo o coração apertado. Não podia decepcionar sua filha. Com um pouquinho de sorte, tudo daria certo. Venderia como nunca e teria muita sorte. Tinha de confiar em si mesmo. Estava fazendo tudo certo. Não tinha como errar.

Ligou de novo para o amigo agiota.

— Moura, sou eu! Vou passar por aí!

— Puxa vida, Salgado! Não sei como lhe contar isso agora — disse o outro, fazendo seu papel.

Vivia do desespero alheio. A agiotagem sempre foi a arte dos canalhas e Moura era o maior dos canalhas. Percebera que seu amigo Salgado não tinha outra alternativa. Assim, resolveu jogar pesado com ele.

— O que aconteceu, Moura? — quis saber Salgado, preocupado.

— Eu tinha prometido para um outro amigo emprestar um dinheiro, garanti e ele está aqui, na minha frente, para trocar uns cheques que ele tem. Ofereceu-me pagar dezoito por cento de juros. Não tenho como recusar, até porque ele estava na frente…

Salgado desesperou-se. Precisava daquele dinheiro. Agiu impulsivamente, então:

— Eu pago vinte por cento, Moura!

Do outro lado da linha, sozinho em sua sala, Moura sorriu, satisfeito. Aquela brincadeira o fizera ganhar mais trezentos reais.

— Só um instantinho, Salgado. Vou ver como o meu amigo fica nessa parada agora.

Salgado torceu e rezou para todos os santos que conhecia, prometendo velas e fitas para todos eles.

— Ele desistiu, Salgado, O dinheiro é seu. Passe aqui agora mesmo que o dinheiro vai estar disponível.

— Então me faz o seguinte, Moura. Como você está aí perto do banco, troque tudo em notas novas para mim.

— Notas novas? Isso me parece coisa de trabalho para o Exu Caveira — brincou Moura.

Salgado riu forçadamente.

— Não, não é nada disso. É uma brincadeira que vou fazer com uma pessoa — descartou.

— Tudo bem, Salgado. Então é só passar aqui e me trazer um cheque de seis mil, duzentos e cinqüenta reais e…

— Espere aí, Salgado! Por que seis mil, duzentos e cinqüenta reais, se o empréstimo é de cinco mil?

— Puxa, Salgado! Você não sabe como essas coisas funcionam? Coloque aí na sua calculadora o valor de seis mil, duzentos e cinqüenta reais!

— Certo, coloquei! — obedeceu Salgado, sem entender.

— Aplique vinte por cento em cima!

— Certo, dá um mil, duzentos e cinqüenta!

— Diminua de seis mil, duzentos e cinqüenta! Não dá os cinco mil?

— Sim, mas se você analisar que estou pegando cinco mil e pagando mil, duzentos e cinqüenta de juros, na realidade, a taxa que você está usando é de vinte e cinco por cento!

— Salgado, meu amigo, até parece que você nunca trabalhou com Banco. Se for fazer um empréstimo no Banco, é assim que eles calculam. Além disso, não estou forçando você a fazer o empréstimo. Se quiser está a disposição, se não quiser, empresto ao meu amigo, que ainda está aqui, na minha frente.

Salgado percebeu a armadilha em que estava entrando, mas não podia decepcionar a filhinha. Além disso, não podia nadar tanto e morrer na praia. Estava com um estoque bom. As perspectivas de vendas eram excelentes. Conseguira exclusividade do fabricante e poderia vender num preço competitivo. O que poderia dar errado?

— Está certo, Moura. Vou passar aí daqui a pouco! — resignou-se ele, apanhando o talão de cheque.

*

Nas sextas-feiras, os terreiros ficavam lotados. Michele acompanhava o som dos atabaques e os passos daquela dança cadenciada no meio do salão. No centro, uma mulher, vestida de vermelho, com lenços, colares, anéis e um véu escuro diante do rosto, ria e dançava mais rápido do que as outras. Era a Pomba Gira, gargalhando como se estivesse embriagada.

O som dos tambores foi aumentando. O ritmo foi se tornando mais rápido até que, finalmente, cessasse de repente. A mulher que incorporaria a Pomba Gira caiu de joelhos, com a cabeça apoiada sobre os braços, no assoalho. Ficou por instantes imóveis, depois começou a gargalhar, erguendo-se.

Sua voz era estranha, totalmente diferente da voz da mulher que dançava. Seu riso era histérico e assustador. Ela foi se sentar uma espécie de trono. Mulheres, em fila, aproximavam-se e ajoelhavam-se diante dela.

Quando chegou a vez de Michele, ela fez o mesmo. Embrulhadas num lencinho de seda, ela trazia algumas notas de cem reais. Era o preço do trabalho que pediria.

— E o que a minha filha quer? — indagou a Pomba Gira, como voz zombeteira.

— Quero que a mulher do meu amante seque e morra, para ele ficar comigo.

A Pomba Gira deu um gargalhada.

— Trabalho caro!

— O dinheiro está aqui! — disse, estendendo o lencinho.

— Pomba Gira não pega em dinheiro!

Imediatamente uma das mulheres que prestavam assistência ao lado apanhou o lencinho e conferiu o dinheiro.

— Está certo! — garantiu.

— Então minha filha pode ficar sossegada que o trabalho vai ser feito. Ela vai secar e morrer. Trouxe uma fotografia dela?

— Sim, é esta aqui! — falou, entregando uma foto que roubara da carteira de Salgado, na noite anterior, quando lhe tirara também o dinheiro para o trabalho.

— Essa já tá seca e morta. Se prepara para o casório. E não esqueça de me convidar — falou a Pomba Gira, com voz zombeteira. — Mais alguma coisa, minha filha?

— Sim, eu queria ganhar um apartamento do meu amante.

— Ih, é trabalho pesado. Vai precisar gastar muito. Se pedir, eu faço, mas vai custar caro.

— Quanto?

— A Pomba Gira não mexe com esse negócio de dinheiro. Fale aí com ela e combina tudo. Agora chega! Minha filha já pediu muito.

Michele fez uma reverência e se afastou, seguida por uma das assistentes da Pomba Gira.

— Quanto vai custar o trabalho? — indagou a jovem.

— Mil e quinhentos. Tem que trazer o mais breve possível, para aproveitar que a Pomba Gira gostou de você e quer ajudar. Traz também uma fotografia dele, uma cueca, uma meia e um lenço usados por ele.

— Eu já tenho tudo isso.

— Então é só trazer. Coloque o dinheiro num porta-jóia, daqueles que tocam musiquinha e embrulha com papel vermelho. Amarre com uma fita amarela. Coloque junto com as roupas num saquinho de papel e entrega para a Pomba Gira, quando vier. Mas não deixe passar muitos dias. Quando mais cedo, melhor.

Michele concordou, agradeceu e saiu. Míriam, sua amiga, a esperava lá fora. Não agradava o caminho que a amiga vinha tomando. Apesar das roupas, das jóias, do dinheiro e do carro, Michele não demonstrava ser uma pessoa feliz. Parecia possuía pelo espírito da ambição e da maldade.

Enquanto Michele dirigia o carro, satisfeita por ter seus planos encaminhados, Míriam sondava a amiga, sem coragem para dizer o que gostaria de lhe dizer.

— O que foi, Míriam? Por que está tão quieta assim?

— Você é louca, Michele!

— Louca? Louca por quê?

— Mexendo com essas coisas do diabo!

Michele deu uma gargalhada, zombando da amiga. Míriam abaixou a cabeça, entristecida. Sua amiga mudara muito. Era uma jovem tão cheia de vida, tão cheia de planos. Não entendia como aquilo havia acontecido.

— Escreve uma coisa que vou lhe dizer — falou Michele. — Não dou trinta dias e o Salgado vai me dar o apartamento.

— Como pode ter tanta certeza disso?

— Falei com a Pomba Gira. Já está tudo certo. Tenho que arrumar um dinheirinho, mas isso não é problema. Tomo do Salgado.

Míriam ficou calada mais um pouco. Estava realmente incomodada com tudo aquilo que a amiga vinha fazendo e com o que ela vinha se envolvendo. Pensou no Alfredo, um rapaz tão bom, que gostava tanto dela.

— Encontrei o Alfredo hoje — comentou.

O rosto de Michele se transformou. Bastava falar no Alfredo para isso acontecer. O rapaz tinha algo que tocava profundamente. Isso durou pouco tempo, porém. Seu rosto demonstrou desprezo e orgulho.

— O Alfredo é um pobre! Não quero me casar com um pobre e ser pobre o resto da vida. Acho que mereço um pouco mais. Sou jovem, sou bonita e quero aproveitar a vida.

Míriam fingiu não ter ouvido. Esperou um pouco, antes de falar de novo.

— Ele disse que iria orar por você no culto desta noite!

— Alfredo, Alfredo, Alfredo! Para de falar nele, Míriam. Não quero pensar nele, não quero falar nele, aliás, não quero nem saber dele. E essa conversa já me aborreceu. Tenho que deixar você em casa em ir esperar o Salgado. Depois vou para um boteco encher a cara de uísque e cerveja.

Míriam olhou a amiga com os cantos dos olhos. Em momentos como aquele, simplesmente não a reconhecia. Era como se um demônio, ou mesmo uma legião dele, falassem pelos lábios de sua amiga. Ficou arrependida de tê-la acompanhado até aquele lugar. Deveria ter ido orar por ela também. Era disso que Michele precisava.

— É melhor mesmo você me deixar em casa, Michele. Aquele lugar me deixou deprimida e triste.

— Pois eu fiquei muito contente. Já ganhei um carro e vou ganhar um apartamento — arrematou Michele , dando de ombros.

Ficaram em silêncio o resto do caminho. Michele ligou o toca-fitas de seu carro, ouvindo um som em alto volume, requebrando e dançando em seu assento.

Quando chegaram na casa de Míriam, por coincidência Alfredo ia passando na rua. Ao vê-las, aproximou-se. Michele empalideceu. Todo o seu corpo estremeceu e ficou inquieta. Míriam percebeu isso. A presença dele era muito forte e mexia com ela. Toda a calma e a fé que ele trazia no seu coração incomodavam alguma coisa nela.

— Eu não vou nem falar com ele! — falou Michele, acelerando o carro e arrancando, assim que Míriam desceu.


 

Capítulo 4

 

 

“Ó filho do Diabo, cheio de todo o engano e de toda a malícia, inimigo de toda a justiça, não cessarás de perverter os caminhos retos do Senhor?” (At 13:10)

Alfredo acompanhou Míriam até o portão da casa da amiga. Estava intrigado com o comportamento de Michele, saindo daquela forma. Gostava dela e lhe doía o coração perceber o que ela estava fazendo. Sabia que, bonita como era, com certeza se revoltava por desejar mais da vida e ela lhe oferecer tão pouco, no ponto de vista dela. Para ele, Michele tinha muito mais a agradecer do que a cobrar. Tinha beleza, tinha saúde, podia estudar e, mesmo vindo de uma família humilde, tinha inteligência o bastante para prosperar por seus méritos, com a graça de Deus.

— Se eu lhe contar onde fui agora com a Michele, você não vai acreditar — disse Míriam, constrangida. — Eu me sinto péssima por não ter conseguido convencer minha amiga a não fazer isso. Só que você conhece o gênio dela, não?

— Quando a Michele põe uma coisa na cabeça, não adianta mesmo. Ela anda tão estranha. Tenho certeza que você foi com ela naquela sucursal do inferno onde ela gosta de ir, não?

— Sim, lá mesmo. Que lugar horrível, Alfredo. Eu me senti muito mal mesmo.

— Vamos ter de orar muito por nossa amiga, se quisermos salvá-la. Que acha de fazermos uma corrente de oração para ela? — sugeriu Alfredo.

— Eu estava mesmo para lhe propor isso. Eu aceito. Vamos falar com o restante de nossos amigos e tratar disso o mais depressa possível.

Alfredo se despediu de Míriam e foi para casa. Moravam todos no mesmo bairro e freqüentavam a mesma igreja. Ele se lembrava de um tempo não muito distante, quando Michele os acompanhava e era uma das mais atuantes do grupo. Não podia entender como ela se deixara iludir pelo brilho de uma vida de facilidades e pecado.

Quando chegou a sua casa, a primeira coisa que fez fazer uma oração por Michele e depois abrir sua Bíblia ao acaso, em busca de uma orientação para poder ajudar ainda mais aquela garota de quem ele gostava muito.

A resposta lhe veio em 1Pe 5:5-11.

“Semelhantemente vós, os mais moços, sede sujeitos aos mais velhos! Cingi-vos todos de humildade uns para com os outros, porque Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes!

Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte! Lançai sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós!

Sede sóbrios, vigiai! O vosso adversário, o Diabo, anda em derredor, rugindo como leão e procurando a quem possa tragar. Resisti a ele, firmes na fé, sabendo que os mesmos sofrimentos estão-se cumprindo entre os vossos irmãos no mundo!

O Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de haverdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, confirmar e fortalecer.

A Ele seja o domínio para todo o sempre. Amém.”

Tudo o que precisava saber estava ali, naquela mensagem clara e insofismável e isso era algo que sempre o maravilhava, quando lia a Palavra de Deus. Ali encontrava as respostas para suas dúvidas e questionamentos. Em momento algum se sentia perdido ou desorientado, pois desde que recebera Jesus em seu coração, convivendo com ele a todos os momentos, tornando-O parte inseparável de sua vida, jamais se sentira desamparado.

Para aquele momento, o caminho a seguir estava ali, naquele trecho da Palavra. O pastor, mais velho e mais sábio, iria orientá-lo corretamente, na melhor maneira de salvar Michele daquele caminho de perdição que ela estava trilhando. Deus Pai saberia fazê-la voltar à humildade, deixando de lado toda a soberba e todo o convencimento. A fé que havia nela tinha de ser resgatada, para que, fortalecida pelas orações e pelo apoio de seus irmãos em Cristo ela pudesse enfrentar e vencer o diabo de uma vez por todas.

Decidiu que, no dia seguinte, logo pela manhã, procuraria o Pastor Messias, líder de sua igreja. Juntos encontrariam uma forma de resgatar aquela pobre alma para Cristo, devolvendo a ela a fé e a humildade.

*

Chegou, finalmente, o momento de Salgado ser recebido pelo Exu Caveira. Numa sala enfumaçada e na penumbra, recendendo a cachaça e fumaça de charuto, ele foi recebido por Pai Nozinho, que o levou até um trono enfeitado com fitas e tecido vermelhos. Ali, todo vestido de preto, com uma batina que ia até o chão, uma máscara, por onde só se viam os olhos e a abertura da boca, e um gorro pontudo, estava a temível entidade, responsável por tantos males.

Pai Nozinho fez Salgado se ajoelhar diante do Exu Caveira.

— O dinheiro! — avisou.

Salgado estendeu o pacotinho, embrulhado em vermelho, e um dos assistentes o apanhou rapidamente.

— O filho nem precisa dizer nada. Já vi tudo na vida dele — falou o Exu, com uma voz rouca e zombeteira, bebendo mais um gole de aguardente, direto no gargalo do litro. — Tranca-Rua, aquele safado, está atormentando sua vida, mas eu cuido dele. É cupincha meu e não atrapalha mais. Mas tem coisa mais forte na parada e eu vou limpar tudinho da sua vida. Tudo vai dar certo, nos negócios e no amor. O filho tem problema nos negócios, não tem?

— Pois é, comprei um estoque grande e preciso vender, senão vou quebrar — explicou Salgado, intimidado.

— Concorrente não vai passar por cima de filho meu. Vou proteger você. Vai vender como nunca. Todo mundo vai pagar direitinho e o meu filho vai ficar mais rico. E o negócio do amor, como é que é?

— Pois é, seu Exu, é uma menininha aí, novinha, que eu arrumei. É linda, coisinha fina e…

— O filho não precisa explicar nada para mim. Eu sei tudo. Sei dela direitinho. Ela gosta muito de você e vai ficar tudo bem. Vou cuidar desse romance. Ninguém se intromete. Pode ficar tranqüilo — assegurou o Exu, tomando mais um gole de cachaça.

Depois baforando seu charuto, assoprou a fumaça fétida para cima de Salgado. Só então ele reparou que o assento do trono onde se assentava a entidade era todo feito de pregos pontudos.

Isso o fez respeitar ainda mais aquele ser poderoso que tinha diante de si.

Saiu dali pouco mais tarde fedendo a cachaça e charuto, mas estava tranqüilo. Fizera todo o possível e o impossível para acertar de uma vez por todas a sua vida. Agora era só esperar e deixar acontecer.

Quando voltou para casa, seu filho, Miguel, o esperava.

— Preciso falar com você, pai. É assunto sério!

— Tem que ser hoje? Ando tão cansado, meu filho. Agora mesmo preciso tomar um banho e ir participar de uma reunião ainda.

— Tão tarde assim, pai? — indagou Miguel, desconfiado.

— Para você ver, Miguel. Não tenho mesmo sossego. Mas o que você tem para conversar comigo?

— É mamãe, estou cada vez mais preocupado com a saúde dela.

— Miguel, meu filho, você se preocupa à toa. Está tudo bem com a saúde dela. Não se preocupe. Vai passar logo. Agora deixa o papai ir tomar um banho, porque vou ter que sair — despediu-se Salgado, deixando o menino preocupado atrás de si.

Tinha de se apressar. Havia combinado se encontrar com Michele num motel, onde passariam a noite. A garota estava muito feliz com o carro que ganhara e com certeza iria transformar essa gratidão em muitos carinhos.

Entrou no quarto silenciosamente. Sua esposa dormia. Acendeu a luz do banheiro e ficou olhando para ela. Estava mesmo muito magra, com o rosto encovado e os cabelos ralos. Embora isso lhe causasse certo sofrimento, esforçou-se ao máximo para não se deixar afetar.

Sabia o que estava acontecendo com ela. Sabia que um câncer a corroía por dentro e que tudo era questão de tempo. Ela morreria em breve, por isso havia decidido ignorá-la e tratar de sua vida. Michele era importante para ele, naquele momento, pois o ajudava a fugir desse problema.

Para Salgado, mesmo se tornando um novo problema em sua vida, a garota era uma forma de encontrar forças para superar seus dramas interiores. Mal sabia ele, porém, que isso o estava levando cada vez mais fundo no poço das iniqüidades.

Entrou no banheiro e trancou a porta. Apanhou seu aparelho de barbear para escanhoar-se com cuidado. Enquanto fazia isso, olhando-se no espelho, sentiu-se incomodado. Era como se alguém estivesse ali, com ele. Alguém perverso, de coração duro e alma corrompida.

Olhou ao redor, assustado. Seu corpo todo se arrepiou e, de algum ponto que ele não conseguiu identificar, veio uma gargalhada sinistra que ficou ecoando nos azulejos.

Ele voltou a se olhar no espelho e, por um breve instante, em lugar de seu rosto ele viu a máscara horrenda do Exu Caveira. O susto foi grande que ele deslizou o barbeador no rosto, cortando-se.

Ficou imóvel, olhando o espelho. Seu rosto surgiu em lugar da máscara e um filete de sangue marcava uma das faces. Benzeu-se, persignando-se sete vezes, conforme uma simpatia que lhe fora ensinada pelo Pai Nozinho.

Depois, para se garantir, apanhou a figa de madeira que trazia no bolso da calça e apertou-a na mão direita. Decidiu que, antes de sair para se encontrar com Michele, acenderia sete velas diante das imagens de seus santos e guias protetores, no altar que tinha, montado numa das salas de sua casa.

*

Maria olhou pela janela, preocupada. Úrsula ainda não havia chegado, embora passasse da meia-noite. Preocupada, abriu a sua Bíblia aleatoriamente, procurando uma palavra de conforto ou uma mensagem para entender o que estava acontecendo com sua irmã.

A resposta veio na forma de um alerta, em Jo 8:44-47:

Por que não compreendeis a minha linguagem? É porque não podeis ouvir a minha palavra. Vós tendes por pai o Diabo e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele é homicida desde o princípio e nunca se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.

Mas porque eu digo a verdade, não me credes. Quem dentre vós me convence de pecado? Se digo a verdade, por que não me credes? Quem é de Deus ouve as palavras de Deus. Vós não as ouvis, porque não sois de Deus.”

Era exatamente isso o que estava lhe acontecendo. Por mais que alertasse sua irmãzinha, ela não lhe dava ouvidos. Preferia o deslumbramento em que o namorado traficante a estava envolvendo. Temia por ela e precisava fazer alguma coisa para ajudá-la. O que fazer, no entanto? Como evitar que aquela alma inocente fosse pervertida por obra do demônio? Como fazê-la entender de novo as palavras de Deus e voltar a ser dEle?

Estava desanimada com a irmã. Deixara-se seduzir pela falsa riqueza e pelo luxo ostentado pelo seu namorado, sem perceber os perigos. Maria já tentara inúmeras vezes convencê-la do perigo, mas Úrsula não queria ouví-la.

Intimamente, Maria estava a ponto de desistir, entregando a irmão à própria sorte, já que nada do que fazia podia ajudar. Se Úrsula se achava dona do próprio nariz e capaz de dirigir sua vida, embora não tivesse idade para isso, que assim fosse.

Maria sabia, no entanto, que tinha de perseverar, que tinha de insistir naquela cruzada contra o diabo que arrastava sua irmãzinha para o mal.

Com muita confiança, apanhou sua Bíblia, orou a Deus pedindo uma orientação, depois abriu-a. Leu de um fôlego 1 Co 11:19-30.

“Sendo vós sensatos e de boa mente, tolerais os insensatos. Se alguém vos escraviza, se alguém vos devora, se alguém vos defrauda, se alguém se ensoberbece, se alguém vos fere no rosto, vós o suportais.

Falo com vergonha, como se nós fôssemos fracos, mas naquilo em que alguém se faz ousado, com insensatez falo, também eu sou ousado.

São hebreus? Também eu! São israelitas? Também eu! São descendência de Abraão? Também eu! São ministros de Cristo? Falo como fora de mim: eu o sou ainda mais. Em trabalhos? Muito mais. Em prisões? Muito mais. Em açoites? Sem medida. Em perigo de morte? Muitas vezes.

Dos judeus, cinco vezes recebi quarenta açoites menos um. Três vezes fui açoitado com varas, uma vez fui apedrejado, três vezes sofri naufrágio, uma noite e um dia passei no abismo.

Em viagens, muitas vezes em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos dos da minha raça, em perigos dos gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre falsos irmãos. Em trabalhos e fadiga, em vigílias muitas vezes. Em fome e sede, em jejuns muitas vezes, em frio e nudez.

Além dessas coisas exteriores, há o que diariamente pesa sobre mim, o cuidado de todas as igrejas. Quem enfraquece, que eu também não enfraqueça? Quem se escandaliza, que eu me não abrase?

Se é preciso gloriar-me, gloriar-me-ei no que diz respeito à minha fraqueza.”

Quando terminou a leitura, Maria se sentiu envergonhada de ter pensado, ainda que por um breve momento, em deixar sua irmã a sua própria sorte. O Apóstolo João dava, na Palavra, um testemunho edificante e convincente do poder da perseverança. Se ele sofrera tanto para, sem desistir, para espalhar o Evangelho e salvar tantas almas, por que ela, Maria, não podia também, com a força da sua fé e o poder da oração, livrar sua irmão das garras do diabo?

Agradeceu ao Senhor Jesus pela mensagem, enchendo-se de coragem e disposição para lutar e vencer. Enquanto isso, não longe dali, Rodrigo fechava o cerco ao redor de sua presa. Úrsula estava deslumbrada com aquela vida de facilidades que ele lhe proporcionava, valorizando tudo isso pelo fato de que, até aquele momento, o máximo que ele fizera fora beijá-la, mesmo assim com certo respeito. Em momento algum ele a tocara ou lhe fizera qualquer proposta indecorosa.

Na noite anterior, inclusive, haviam ido jantar e ele deixara que ela tomasse um pouco de vinho. Ele ficou embriagada facilmente, pois não estava acostumada a beber. Tornou-se uma presa fácil para ele, que poderia tê-la levado a um motel e abusado dela, que ela não resistiria. Todo aquele clima de romantismo e carinho a havia envolvido completamente.

— Tome, isto é para você comprar uma roupa bem bonita, mas bonita mesmo! — disse ele, entregando algumas cédulas de cem para ela.

— Tudo isso, Rodrigo? — surpreendeu-se ela.

— Sim, quero que compre coisa fina mesmo. Um vestido bem bonito, calcinha, sutiã, meia e sapatos, tudo novo. Compre também um biquíni novo, que lá tem piscina. Dê um trato nas unhas e nos cabelos porque amanhã vamos a uma festa chique.

— Sério? — deslumbrou-se ela, admirada.

Rodrigo tinha amigos poderosos e conhecia gente influente. Ela se julgava a garota mais feliz e agradecida do mundo por ele gostar dela tanto quanto gostava.

— De verdade. Um político, amigo meu, está dando uma festa na sua cobertura amanhã. Coisa reservada, só para os mais chegados. Vou apresentar você para algumas pessoas. Faça o possível para não me envergonhar, está bem? Quero ter orgulho de você.

— Quem mais vai lá?

— Vai ter uma porção de meninas como você. Pode ir se enturmando, que vão se encontrar com freqüência. Mas nada de espalhar isso por aí, está certo?

— Pode confiar em mim, Rodrigo. O que você pedir, eu faço — respondeu a garota, agradecida, beijando as mãos de seu benfeitor.

Satisfeito, Rodrigo a levou para casa, despedindo-se dela com um beijo respeitoso. Assim que se afastou de carro, ele apanhou o celular e ligou.

— Mônica? Tudo certo, tenho uma novilha de primeira. Coisa fina, você vai gostar. Sua proposta me interessou muito e acho que vou entrar nesse ramo também. Se dá para ganhar tanto dinheiro, não vejo como ficar fora. Vou levá-la na festa para você avaliar, mas tenho certeza que vai gostar muito dela. Certo?

Quando desligou, um sorriso de satisfação pairava em seu rosto. A maldade se espelhava em seus olhos frios e sem brilho.


 

Capítulo 5

 

 

“E não te pouparei, nem terei piedade. Conforme os teus caminhos, assim te punirei, enquanto as tuas abominações estiverem no meio de ti e sabereis que eu, o Senhor, castigo.” (Ez 7:9)

Estavam num dos motéis mais luxuosos da cidade. Salgado, satisfeito da vida, não percebia o ridículo que era um homem como ele, com sua idade e sua aparência, fazer-se acompanhar de uma menina que poderia ser sua filha.

Era um par que destoava totalmente. Ele era gordo, com uma barriga saliente, rosto corado, cabelos ralos e rugas se formando no rosto. Michele era jovem, transbordando beleza e vitalidade.

Naqueles momentos, quando estava com seu amante, ela via apenas dinheiro a sua frente e encarava aquilo tudo, até certo ponto doloroso para ela, como um trabalho sujo que tinha de fazer para ter tudo aquilo que julgava merecer.

Naquela noite, Salgado tinha motivos para estar feliz. Afinal, tudo parecia estar muito bem encaminhado em sua vida. A ação do Exu Caveira seria decisiva para afastar seus concorrentes e o sucesso estava garantido. Não tinha mais com que se preocupar.

Michele estava particularmente carinhosa naquela noite, porque tinha um interesse especial. Precisava arrumar mil e quinhentos reais para entregar à Pomba Gira, para que fizesse um malfeito contra a esposa do Salgado.

Percebeu que ele estava contente e incentivou-o, fazendo-o beber algumas doses a mais de uísque. Quando ele estava bem relaxado, ela atacou.

— Benzinho, vou precisar de um dinheirinho a mais — disse ela, toda melosa.

— Mais dinheiro, amorzinho? Você vai deixar o velho Salgado quebrado, sabia?

— Você não é velho e não vai quebrar nunca. É homem rico e vai ficar ainda mais rico.

— Pode ter certeza que sim, meu bem. Andei tomando as minhas providências para nada dar errado. De quanto você precisa?

— Mil e quinhentos!

— Tudo isso?

— É… Preciso equipar o carro… Comprar umas roupinhas novas… Você, um homem rico e poderoso, não vai querer sair comigo se eu estiver toda molambenta, vai?

Ele riu, sem preocupações. O que era uma quantia como aquela para um homem que em poucos meses teria centenas de milhares de reais de lucro?

— Para quando você precisa desse dinheiro? — quis ele saber.

— Para quando for possível, benzinho.

— Vou lhe dar um cheque, mas você só solta na terça-feira. A conta está no vermelho, mas tenho algumas duplicatas para receber na segunda. Está bom?

— Tudo bem! — concordou ela, satisfeita.

— Então dá um beijinho de agradecimento no seu Salgadinho — exigiu ele.

Michele fechou os olhos, ignorou o bafo de uísque e fez o que precisava fazer para merecer seu dinheiro. Afinal, aquilo não deixava de ser uma espécie de profissão.

Quando se separou de Salgado, já de madrugada, foi para um bar e, sozinha num canto, ficou bebendo, sentindo-se vazia. O cheque que ele lhe dera, para fazer o trabalho com a Pomba Gira, parecia não ter muito sentido. Que vida era aquela, afinal?

*

Naquela manhã alegre de sábado, a caminho do trabalho, Alfredo passou pela casa do Pastor Messias, seu grande amigo e confidente. Contou-lhe o que vinha acontecendo com Michele. O pastor o ouviu atentamente, demonstrando preocupação.

Conhecia aquela menina desde criança. Fora uma das mais atuantes na escola dominical. Quando ficou mocinha, participava do coro e era um encanto ver a alegria e amor que transbordavam de seus olhos, quando participava do culto.

Depois que ela se afastou, ele não desistira. Continuou insistindo, tentando trazê-la de volta, mas era inútil. Michele se esquivava. Havia se transformado. Num curto espaço de tempo, passou de uma menina doce e meiga para uma mulher sofrida e vazia.

— O que podemos fazer para ajudá-la, pastor? Gosto muito dela. Muito mesmo e me entristece ver o que ela está fazendo consigo mesma.

— Participo do seu sofrimento, meu irmão, mas só podemos ajudar a quem deseja ser ajudado. O diabo a cegou e ensurdeceu. Ela não ouve a Palavra nem vê o Verdadeiro Caminho. Concordo totalmente com você. Não podemos deixá-la se perder bem diante dos nossos olhos, sem nada fazer.

— Pensei em fazermos uma corrente de oração por ela.

— Uma só, não. Muitas. Todas que se fizerem necessárias. A partir do culto de hoje, vamos nos unir em oração por ela. De minha parte, vou continuar insistindo com ela. Quero ver o que se pode fazer.

Assim que Alfredo foi embora, o pastor se recolheu com sua Bíblia. Cortava-lhe o coração ver o amor que o rapaz dedicava a Michele ser desprezado daquela forma, tanto quanto o revoltava ver a obra de Satanás imperar sobre uma criatura de Deus.

Buscou inspiração em sua Bíblia, abrindo-a em Da 9:19.

Ó Senhor, ouve; ó Senhor, perdoa! Ó Senhor, atende-nos e põe mãos à obra sem tardar, por amor de ti mesmo, ó Deus meu, porque a tua cidade e o teu povo se chamam pelo teu nome!”

Mal terminou de ler e meditar rapidamente sobre esse trecho, a campainha tocou. Foi atender. Desta vez era Maria, apressada, a caminho do trabalho.

— Pastor, orei muito ontem à noite pela minha irmãzinha, a Úrsula. Estou preocupado com ela. Está namorando o Rodrigo e ficou deslumbrada com toda aquela ostentação que é marca registrada dele. O que podemos fazer por ela, pastor?

— Continue orando, minha irmã. Vamos cuidar disso. Os problemas são muitos porque a obra de Deus não pode parar. Se o diabo quer nos atrapalhar, mais fé e mais perseverança ainda devemos demonstrar. Vá em paz, na graça de Deus, que o Seu poder é maior que toda a maldade do universo.

Assim que Maria se afastou, o pastor foi apanhar sua Bíblia. Os tempos estavam cada vez mais sombrios. Satanás atacava em diversas frentes e seu alvo principal, naquele momento, eram os jovens que, ainda vacilantes em sua fé, deixavam-se iludir pelo brilho do ouro e pelo falso poder do dinheiro.

Foi meditar um pouco e, para isso, consultou novamente sua Bíblia, abrindo-a em At 9:15-18.

“Disse eu:

— Quem és, Senhor?

Respondeu o Senhor:

— Eu sou Jesus, a quem tu persegues, mas levanta-te e põe em pé; pois para isto te apareci, para te fazer ministro e testemunha tanto das coisas em que me tens visto como daquelas em que te hei de aparecer, livrando-te deste povo e dos gentios, aos quais te envio, para lhes abrir os olhos a fim de que se convertam das trevas à luz e do poder de Satanás a Deus, para que recebam remissão de pecados e herança entre aqueles que são santificados pela fé em mim.”

Não era preciso aprofundar-se no entendimento daquele trecho, pois a mensagem divina era clara. A sua missão estava bem definida e cabia a ele realizá-la. Como enviado de Cristo, tinha de enfrentar Satanás e vencê-lo, pelo poder e pela graça de Deus.

*

Naquele sábado, quando fechou o caixa, Salgado estava eufórico. Vendera horrores, graças à promoção, à propaganda e aos preços e condições bastante acessíveis. Os clientes vieram em peso e a loja esteve cheia o tempo todo.

Uma parte da venda fora à vista e o restante a prazo. Era, para um dia como aqueles, um recorde difícil de ser quebrado, tamanho foi o sucesso e o volume de mercadorias. Os caminhões de entrega não pararam, o dia todo circulando de um lado para outro.

Pedira a um dos seus empregados que fosse dar uma olhada nas lojas de seus concorrentes, para ver se estava acontecendo o mesmo.

— Patrão, está tudo vazio! Os vendedores estão na porta, um olhando para a cara do outro, sem fazer nada.

— Isso é ótimo! — afirmou Salgado, satisfeito.

Tinha motivos de sobra para confiar no trabalho de Pai Nozinho e na força do Exu Caveira. Custara um bom dinheiro, mas tinha valido a pena. Só num dia já havia recuperado dez vezes o dinheiro que investira no trabalho. Tinha dinheiro para cobrir a conta devedora, pagar o cheque de Michele e até resgatar o empréstimo que fizera com o agiota, saindo por cima de toda aquela situação.

— Que dia, seu Salgado! — falou Maria, antes de ir embora.

— Eu não disse para você? Aquele benzimento e aquelas simpatias valeram mesmo a pena.

— Eu também orei muito pelo senhor, seu Salgado!

— Ah, Maria, mas o que conta mesmo foi o trabalho que fiz ontem à noite. Coisa brava, poderosa mesmo! — disse ele, em tom confidente.

— Seu Salgado, por favor, só espero que não esteja mexendo com forças que não conseguirá controlar depois.

— Do que você está falando, Maria? Deixa de ser boba, menina! Com isto aqui em controlo o que eu quiser! — assegurou ele, mostrando um maço de notas de cem para ela.

— Em Atos 8, versículos 14 a 23, há uma passagem interessante, seu Salgado. Os apóstolos Pedro e João foram até Samária orar para que as pessoas de lá recebessem o Espírito Santo, porque sobre nenhum deles havia Ele descido ainda, mas já haviam sido batizados em nome do Senhor Jesus. Eles lhes impuseram as mãos e eles receberam o Espírito Santo. Quando irmãzinha viu que pela imposição das mãos dos apóstolos se dava o Espírito Santo, ofereceu-lhes dinheiro, dizendo: “Dai-me também esse poder, para que aquele sobre quem eu impuser as mãos, receba o Espírito Santo.” Disse-lhe Pedro: “Vá tua prata contigo à perdição, pois cuidaste adquirir com dinheiro o dom de Deus. Tu não tens parte nem sorte neste ministério, porque o teu coração não é reto diante de Deus. Arrepende-te, pois, dessa tua maldade e roga ao Senhor para que porventura te seja perdoado o pensamento do teu coração. Vejo que estás em fel de amargura e em laços de iniqüidade.”

— E daí, Maria? O que você quer provar com isso, além de demonstrar que tem boa memória e que lê a Bíblia? Eu já lhe disse que também li a Bíblia e muitas vezes mais do que você. Lembra-se do que eu lhe falei no começo da semana? Que queria ver sua boa memória, quando estivesse recebendo as comissões de suas vendas. Pelo que sei, você foi uma das que mais vendeu hoje.

— Graças a Deus, seu Salgado. Só que o senhor não entendeu nada do que eu quis lhe dizer. Ninguém pode comprar o poder do Espírito Santo. Quanto às vendas, já que o senhor leu muitas vezes a Bíblia, será que se lembra de uma passagem no Livro do Eclesiastes, capítulo 3, versículo 13, que diz: que todo homem coma, beba e goze do bem de todo o seu trabalho é dom de Deus.

— Ah, Maria, você está muito petulante, sabia? Se não fosse uma de minhas melhores vendedoras, juro como cortava suas asinhas de uma vez por todas. Não seja mal agradecida. Se quiser trazer seu pastor aqui, para abençoar a loja, fique à vontade. Desde que ele me garanta vendas, não faço questão.

— Acho que era isso mesmo que se deveria fazer, seu Salgado. Isto aqui está cheio de coisas que nem sei explicar o que é — finalizou ela, saindo.

Na saída encontrou Miguel, com seu semblante preocupado.

— E daí, Miguel, tudo bem?

— Tudo bem, Maria!

— Você continua preocupado, não?

— É minha mãe…

— Não quer levá-la à igreja hoje à noite?

— Eu falei com ela, mas não sei se a convenci.

— Insista com ela. O poder de Deus opera milagres. Tenho visto coisas maravilhosas acontecerem, pela graça do Espírito Santo.

— Vou tentar. Se conseguir, eu telefono para você, está bem?

— Faça um esforço, Miguel. Pode ser muito importante para ela.

— Vou tentar.

Enquanto isso, em seu escritório, Salgado ligava, satisfeito da vida, para Michele.

— Minha queridinha, não sabe o que aconteceu hoje na loja. Vendi horrores. Nunca vendi tanto quanto hoje. Agora acho que acertei.

— Que ótimo, amorzinho! — falou ela, com sua voz mais melosa.

Tinha traçado seus planos e iria realizá-los.

— Olha, aquele cheque, você pode soltar na segunda-feira — avisou ele.

— Que bom, amor! Vou poder fazer o que preciso, então. A gente vai se ver hoje à noite?

— Sim, no motel de sempre, só que mais cedo hoje. Preciso comemorar. Estou muito contente com as vendas.

Ela pensou um pouco e achou que era hora de começar a sondar suas possibilidades.

— Ah, amor, estou ficando cansada de freqüentar motéis.

— Por que isso agora, queridinha?

— Não, sei, eu fico sentida de não poder receber você direitinho, fazer uma comidinha. Sabia que eu sei cozinhar?

— Pára com isso, Michele! Quero você como uma bonequinha, como uma manequim, que não tem que ficar se engordurando na beira de um fogão. Já pensou eu chegar e, ao lhe dar um abraço, sentir cheiro de óleo nos seus cabelos?

— Tolinho! Tem uma porção de coisas que a gente pode preparar no microondas.

— No motel é mais cômodo. A gente consulta o cardápio e pede. Não tem que se preocupar com nada, nem em lavar a louça. Já pensou você com as unhas todas estragadas, de mexer com as panelas? Não, Michele, isso não fica bem em você.

— Tudo bem, não cozinho, então, mas gostaria de ter um cantinho só nosso, que eu pudesse deixar assim com a cara do nosso amor. O que me diz?

— Ah, não sei. Acho que não precisa. Está tão bom assim!

Ele não havia entendido ainda onde ela pretendia chegar, por isso Michele achou por bem parar por ali mesmo. Combinou com ele o encontro e, assim que desligou, telefonou para o terreiro que visitara na noite anterior.

— Dá para fazer o trabalho hoje à noite mesmo? — indagou ela.

— Se estiver com tudo na mão…

— O dinheiro pode ser em cheque? É quente!

— De quem é?

— Do Salgado, da loja de móveis e eletrodomésticos. Aquela enorme, na avenida.

— Ah, sim, dele pode. Traz tudo direitinho que eu encaixo logo no primeiro trabalho da Pomba Gira.

— Que ótimo! Vou me encontrar com ele logo mais e quero tocar nesse assunto bem de perto com ele.

— A que horas você vai se encontrar com ele?

— Às oito!

— Nesse horário a Pomba Gira vai fazer o trabalho. Pode insistir que você conseguirá o que deseja e merece.

Michele estava confiante e radiante, quando desligou. Naqueles momentos, uma falsa euforia invadia seu corpo, dando-lhe uma alegria passageira. Sabia, porém, que no fim da noite estaria triste, bêbada e acabada, como estivera na noite anterior.

Saiu à janela. Pessoas chegavam e saíam de suas casas, naquele começo de noite. Alfredo passava, com sua Bíblia na mão, a caminho da igreja. Ao vê-lo, Michele teve um estremecimento. Ele a viu também e, por instantes, parou em frente da casa dela. Ficaram se olhando.

— Tudo bem, Michele? — indagou ele.

— É, tudo bem! — respondeu ela, sentindo-se perturbada diante daquele olhar.

Havia uma força interior enorme em Alfredo e isso fazia o coração de Michele pulsar de forma diferente. Seu rosto se abrandou e se encheu de ternura. Lágrimas brilharam em seus olhos e ela sentiu uma vontade enorme de chorar pelo que estava deixando escapar pelos vãos dos dedos, embora não conseguisse identificar o que era.

Parecia que o olhar de Alfredo se transformava numa areia fina, que ela sentia cair em suas mãos, mas que não conseguia reter. Aquela areia era morna e cheia de amor, um amor que podia transformá-la.

Teve medo disso, desviando os olhos e fitando o céu. Nuvens escuras anunciavam uma chuva próxima.

— Vai chover muito! — disse ela, sem olhá-lo.

— Tomara que chova bênçãos! — falou ele, esboçando um sorriso. — Não quer ir à igreja comigo?

Ao ver que ela não respondia e ainda evitava olhá-lo, ele se despediu e se afastou, com o coração pequenino no peito. Michele ficou na janela, sentindo a mesma coisa, sem vontade de ir se preparar para seu encontro com Salgado que, naquele momento, chegava em casa, com o filho. Miguel correu ao quarto da mãe. Pretendia insistir com ela para ir à igreja. Quando entrou, ela estava no leito, contorcendo-se em dores.

— Pai! — gritou ele, em desespero.

Salgado subiu dois a dois os degraus da escadaria que levava aos quartos de sua mansão. Mal sabia ele que o castigo começava a se abater sobre ele.


 

Capítulo 6

Mas os que querem tornar-se ricos caem em tentação, em laço e em muitas concupiscência loucas e nocivas, as quais submergem os homens na ruína e na perdição. (1Tm 6:9)

Úrsula estava absolutamente fascinada por aquele mundo novo, que acabava de descobrir. Sentiu-se desajeitada e fora de seu ambiente natural no início, mas depois, ao perceber como todos lhe davam atenção e ao concluir que era a menina mais bem vestida e mais bonita da festa, deixou que a vaidade lhe subisse à cabeça.

Rodrigo, ao seu lado, policiava todas as suas atitudes. Não a deixou tomar nenhuma bebida alcoólica e apresentou-a a todos os homens presentes na festa.

Eram industriais, executivos, profissionais liberais, todos muito bem vestidos, exibindo anéis de formatura, sapatos extremamente polidos, ternos de corte impecável. Eram homens perfumados, bem penteados, com unhas feitas e, mesmo aqueles que já haviam passado dos cinqüenta, não deixavam de exibir charme e educação.

Quando chegaram, Úrsula reparou que só havia carros importados, último tipo, todos brilhando. Isso a fez concluir que ali estava a nata da sociedade, os homens mais ricos e poderosos que se poderia encontrar.

Não estranhou que eles estivessem sozinhos, sem as esposas. A cobertura estava cheia de meninas novas, algumas adolescentes ainda, mas reinava total respeito. Ninguém tocava ninguém e isso foi o que lhe deu segurança e que a fez admirar ainda mais Rodrigo.

— E então, não lhe disse que seria uma festa legal? — indagou ele, quando saíram à sacada para tomar ar.

— Rodrigo, que gente distinta. Você viu?

— Maior respeito, percebeu? — ressaltou ele, convencido.

— E como. Nenhuma cantada, ninguém me disse nada mal educado, todos eles foram finos.

— São esses os meus amigos. Se você gostou do ambiente, eu posso levá-la a outras festas como esta. Aliás, estive conversando com a dona da casa, minha amiga Mônica, e ela está organizando um concurso de beleza entre as garotas conhecidas. O prêmio é uma viagem a Cancun, com um acompanhante, mais dois mil dólares para os gastos.

— Está brincando!

— Verdade! Pensei até em sugerir que você participasse, mas não sei se gostara.

Os olhos dela brilharam, cheios de interesse.

— Acha que eu tenho chances?

Ele riu, como se ela tivesse dito uma bobagem.

— Olhe na sala — ordenou ele, segurando-a pelos ombros e fazendo-a se voltar para olhar as pessoas lá dentro.

— O que tem? — quis ela saber.

— Você é a menina mais bonita da festa. Se entrar, vai ganhar esse concurso na certa.

— Uma viagem a Cancun…

— Com um acompanhante?

— Sim, com um acompanhante.

— Você vai comigo?

— Se tudo der certo…

— Então eu quero participar.

Ele sorriu, convencido de seu poder sobre ela.

— Eu tinha tanta certeza que você participaria que até já fiz sua inscrição.

— Sério?

— Claro que sim, querida. Não existe outra mais bonita do que você. Só que o concurso é daqui a três meses ainda. Até lá, vou matricular você numa academia e você vai malhar legal, fazer uma consulta médica, seguir uma dieta, cuidar-se muito bem, porque esse concurso vai dar o que falar. Com certeza teremos a presença de produtores, fotógrafos, diretores de agências de modelos e toda essa gente. Se você se destacar, pode se tornar uma top-model facilmente.

Os olhinhos dela continuavam brilhando. Em sua mente desfilavam imagens de ambientes glamorosos, cenários chiques, pessoas famosas e viagens fantásticas. Era o mundo dos sonhos de qualquer garota bonita e ingênua como ela, à espera de uma transformação radical em sua vida.

— Vamos ter que produzir você e torná-la conhecida. Por isso é importante que você circule nessas festas comigo. Daqui a quinze dias teremos outra, no sítio de um amigo meu. Mônica tem uma boutique de aluguel de roupas e vou abrir uma conta para você lá. A cada festa você vai usar roupas, sapatos e bolsas diferentes, sempre muito chiques.

Os olhos dela se encheram de lágrimas, olhando Rodrigo.

— Puxa, Rodrigo, você é tão legal comigo! — afirmou ela, abraçando-o.

Ele a segurou junto de si, sorrindo cinicamente. Naquele momento, Mônica, a dona da casa, apareceu.

— Vocês dois não estão gostado da festa? — indagou.

— Oh, sim, estamos adorando! — afirmou Úrsula.

— Então vá conhecer o pessoal que acabou de chegar. Preciso trocar uma palavrinha com o Rodrigo.

— Vai lá, querida. Eu já vou. Só vou confirmar uns detalhes com a Mônica.

Úrsula se afastou cheia de felicidade, sentindo-se a rainha da festa, a garota mais bonita e mais desejada de todas ali presentes. Os olhares de Mônica e de Rodrigo a seguiram, acompanhando os movimentos graciosos de seu corpo jovem e perfeito.

— Essa aí promete — comentou Mônica.

— Estou investindo nisso.

— Não está se apaixonando por ela, não é? — indagou Mônica, num tom zombeteiro.

— Pare com isso, Mônica! Você me conhece, não? Não misturo as coisas.

— E daí, convenceu a menina a participar do leilão?

— Concurso de beleza, Mônica — corrigiu-a ele.

Mônica riu, divertida com a observação.

— Certo, do concurso de beleza.

— Sim, vai participar.

— Explicou os detalhes para ela?

— Somente aquilo que interessava para ela saber. Disse que é um concurso, que o prêmio é uma viagem a Cancun, mais dois mil e quinhentos dólares e que vai haver fotógrafos e gente ligada ao ramo da moda, de olho nela.

— Pobrezinha! Quando der por si, já estará vendida e entregando sua virgindade para algum desses safados aí — falou Mônica, com uma ponta de desprezo.

— Você, que tem experiência no ramo, diga-me a quanto podem chegar os lances por ela?

Mônica ficou em silêncio por instantes, avaliando.

— No último leilão, uma garota foi trocada por um Tipo zero. Essa aí deve valer um Tempra.

— Se eu soubesse que esse negócio dava tanto lucro, já teria entrado nele há mais tempo.

— Você é bom nisso, Rodrigo. Tem um olho clínico para escolher as meninas. Por que não traz mais duas ou três como essa?

— Já estou cuidando disso — afirmou ele, rindo satisfeito.

— Mas não esqueça, elas têm que ser virgens.

— Para me certificar, todas as garotas que eu trouxer passarão por um exame médico antes. Tenho um amigo ginecologista que vai me dar até atestado de virgindade, se eu pedir.

— Isso, acima de tudo, segurança! Vou gostar de trabalhar de parceria com você, Rodrigo.

*

Naquela noite, quando fazia sua pregação, o Pastor Messias via o rostos de Maria e de Alfredo, juntos na primeira fila, lembrando-o das duas ovelhas ameaçadas. Uma era Úrsula, outra era Michele. Tinha uma grande afeição pelas duas, pois as conhecia pessoalmente. Quando orou, incluiu em sua oração um pedido especial para aqueles que se deixavam deslumbrar pela ostentação e pelas falsas aparências. Ao término do culto, Maria e Alfredo se aproximaram, agradecendo pela oração. Eles sabiam que ela havia sido especial e feita a pedido deles.

Estavam conversando, quando uma amiga de Maria, que trabalhava com ela na loja, entrou na conversa.

— Maria, soube o que aconteceu? — perguntou.

— Não, o que aconteceu? — quis saber Maria, percebendo a expressão preocupada da outra.

— A mulher do seu Salgado foi internada. Está passando mal mesmo.

— O Miguelzinho me disse mesmo que ela estava doente, mas não pensei que estivesse tão mal — comentou Maria.

— E se nós fôssemos visitá-la? Talvez consigamos levar conforto — propôs Alfredo.

— Eu levo vocês no meu carro — prontificou-se o pastor.

Meia hora mais tarde estavam na sala de espera do hospital. Salgado estava preocupado, olhando o relógio a todo momento. Miguel, a um canto, tinha os olhos vermelhos e o olhar entristecido. Ao ver Maria chegando, correu ao encontro dela, abraçando-a.

— Fique tranqüilo, Miguel, tudo vai acabar bem — confortou-o ela.

— Ela ficou ruim, Maria. Você precisava ver. Eu fiquei com medo. Quando vi minha mãe daquele jeito eu nem sei o que fiz…

— Calma, vai passar. Como está ela?

— Está lá dentro ainda. Os médicos nada disseram. Parece que vão ter que operar.

— Venha, vamos até o corredor tomar um pouco de água. Assim você se acalma.

Enquanto Maria levava o menino dali, Salgado aproveitou para pegar seu celular e ligar para Michele.

— Não pude ligar antes…

— Você me deixou morrendo de preocupação! — protestou ela.

— Foi minha mulher. Teve uma crise. Está na mesa de operação. Não sei… Acho que não escapa!

Do outro lado da linha, Michele sentiu um calafrio percorrer seu corpo, lembrando-se do trabalho que encomendara para a Pomba Gira. Fora fulminante. Isso a deixou sem reação. Não sabia se ficava alegre com isso ou se deixava que o medo tomasse conta dela. Percebeu que havia mexido com forças acima de seu controle e que isso poderia custar uma vida.

— Michele, você está aí? — insistiu Salgado.

— Sim… Fiquei chocada — gaguejou ela, desejando desligar ou acordar para perceber que fora um pesadelo, que nada daquilo estava acontecendo.

— Assim que der, eu ligo de novo — falou ele, percebendo que Maria retornava com Miguel.

O pastor havia observado a cena e percebido o que se passava. Conhecia a história e se sentiu até certo ponto revoltado com aquele papel desempenhado pelo comerciante. Pediu forças e paciência ao Senhor e se aproximou.

— Com a graça de Deus, tudo vai correr bem, Salgado — disse.

— Tomara que sim, pastor — respondeu o comerciante, que não queria muita conversa.

Ambos já se conheciam. O pastor sabia que Salgado havia sido batizado na igreja católica, mas era, na verdade, um homem sem uma crença definida e sólida, pois acreditava em tudo que lhe fosse apresentado.

Era só freqüentar sua loja para ver imagens, amuletos e talismãs espalhados por todos os cantos. Havia tentado alguma vezes atraí-lo para a igreja, mas Salgado era resistente e parecia se sentir bem na companhia dos representantes do mal.

— Se houver alguma coisa que a gente possa fazer — disse o pastor.

— Vocês não tem uma reza poderosa aí para fazer médico cobrar barato?

O pastor ficou chocado com a frieza daquele homem diante dele. Naquele momento, quando sua esposa estava correndo risco de vida, ele estava mais preocupado com o dinheiro que gastaria com ela do que com sua saúde.

Quem ama o dinheiro não se fartará de dinheiro nem o que ama a riqueza se fartará do ganho. Também isso é vaidade — disse o pastor, citando Eclesiastes 5:10.

— Já comentamos a respeito disso, pastor, e nossas opiniões não são iguais. Não me venha dizer que não gosta de dinheiro, que eu não engulo. Esse negócio de dízimo, para mim, sinceramente, é roubalheira, é tomar dinheiro dos pobres e dos trouxas, sabia? Desculpe a grosseria, mas hoje não estou muito bem. Dá para entender, não é?

— Este pode não ser o momento oportuno, Salgado, mas quem conhece os caminhos do Senhor. Ele pode estar me mostrando agora como abrir as portas do seu coração para ele. Se o assunto dinheiro lhe chama a atenção, leia isto aqui — disse o pastor, abrindo a sua Bíblia num trecho grifado de 1 Crônicas 29:10-17.

A contragosto, Salgado apanhou para ler. Miguel se aproximou e acompanhou a leitura feita pelo pai.

“Bendito és tu, ó Senhor, Deus de nosso pai Israel, de eternidade em eternidade. Tua é, ó Senhor, a grandeza, o poder, a glória, a vitória e a majestade, porque teu é tudo quanto há no céu e na terra.

Teu é, ó Senhor, o reino e tu te exaltaste como chefe sobre todos. Tanto riquezas como honra vêm de ti, tu dominas sobre tudo e na tua mão há força e poder. Na tua mão está o engrandecer e o dar força a tudo. Agora, pois, ó nosso Deus, graças te damos e louvamos o teu glorioso nome. Mas quem sou eu, e quem é o meu povo, para que pudéssemos fazer ofertas tão voluntariamente? Porque tudo vem de ti e do que é teu to damos, porque somos estrangeiros diante de ti e peregrinos, como o foram todos os nossos pais.

Como a sombra são os nossos dias sobre a terra e não há permanência. Ó Senhor, Deus nosso, toda esta abundância, que preparamos para te edificar uma casa ao teu santo nome, vem da tua mão e é toda tua. Bem sei, Deus meu, que tu sondas o coração e que te agradas da retidão. Na sinceridade de meu coração voluntariamente ofereci todas estas coisas e agora vi com alegria que o teu povo, que se acha aqui, ofereceu voluntariamente.

— Tudo bem, pastor, e o que isso prova?

— Eu não sei, Salgado, estou lhe dando a Palavra de Deus. Leia e tire suas conclusões. Já que o dízimo lhe incomoda tanto, leia mais este trecho somente — insistiu o pastor, abrindo sua Bíblia em 1 Coríntios 9:4-14.

“Não temos nós direito de comer e de beber? Não temos nós direito de levar conosco esposa crente, como também os demais apóstolos, os irmãos do Senhor e Cefas? Ou será que só eu e Barnabé não temos direito de deixar de trabalhar?

Quem jamais vai à guerra à sua própria custa? Quem planta uma vinha e não come do seu fruto? Ou quem apascenta um rebanho e não se alimenta do leite do rebanho? Porventura digo eu isto como homem? Ou não diz a lei também o mesmo?

Na lei de Moisés está escrito: Não atarás a boca do boi quando debulha. Porventura está Deus cuidando dos bois? Ou não o diz certamente por nós? Com efeito, é por amor de nós que está escrito, porque o que lavra deve lavrar com esperança e o que debulha deve debulhar com esperança de participar do fruto.

Se nós semeamos para vós as coisas espirituais, será muito que de vós colhamos as materiais? Se outros participam deste direito sobre vós, por que não nós com mais justiça? Mas nós nunca usamos deste direito. Antes suportamos tudo, para não pormos impedimento algum ao evangelho de Cristo.

Não sabeis vós que os que administram o que é sagrado comem do que é do templo? E que os que servem ao altar, participam do altar? Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho.”

— Eu não quero discutir esse negócio de religião, não aqui — protestou Salgado, percebendo que havia sido injusto para com o pastor.

Este, por seu turno, percebeu que, de alguma forma, havia tocado o coração daquele homem. Por um só momento, percebeu a sua frente uma ovelha desgarrada, solitária e confusa, num cenário desconhecido.

— Só para finalizar, Salgado. Sei de gente que vai a esses terreiros e paga verdadeiras fortunas para o Exu Caveira, o Tranca Ruas, a Pomba Gira e mais um monte de outros servos do demônio, para que lhes façam trabalhos que nem vale a pena citar aqui — disse o pastor, olhando o comerciante nos olhos.

Salgado estremeceu.

— Essas mesmas pessoas, Salgado, não contribuem com um centavo para que um servo de Senhor divulgue a Palavra, promova curas e salvação. Não acha isso uma tremenda injustiça.

Salgado ficou sem resposta. Nesse momento, um médico surgiu na sala de espera. Era amigo de Salgado e do pastor. Seu olhar era de consternação.

— Abrimos… Mas achamos melhor fechar. Não há nada que possamos fazer. O câncer já se espalhou — disse, em voz baixa. — Ela vai ter que ficar internada até… Bem, você sabe do que eu estou falando.

Salgado estremeceu e respirou fundo. Sabia que tudo aquilo iria lhe custar um rio de dinheiro. Tinha de confiar, mais do que nunca, no trabalho do Exu Caveira para sair daquela situação.


 

Capítulo 7

 

 

“No amor não há medo. O perfeito amor lança fora o medo, porque o medo envolve castigo e quem tem medo não está aperfeiçoado no amor.” (1Jo 4:18)

Michele conheceu o inferno em vida a partir daquele telefone de Salgado. Nos três meses que se seguiram, ela sentiu pairar sobre si uma asa negra, uma sombra tenebrosa e ameaçadora, que parecia gargalhar de seus atos e do sofrimento interior que se abateu sobre ela.

Tinha certeza que era a causadora dos tormentos que agora assaltavam a esposa de seu amante. Entrevada numa cama, ela urrava de dor, sentindo o câncer corroer-lhe as entranhas. Os medicamentos mais poderosos não aliviavam suas dores e nem os médicos sabiam explicar o que acontecera.

Procurou o terreiro. Para desmanchar o trabalho, teria de pagar muito dinheiro, mas não queria pedir ao Salgado. Sabia que ele estava gastando uma fortuna para manter a mulher internada.

Evitava vê-lo. Não conseguia se aproximar dele, sabendo que tudo aquilo fora culpa dela. Ao invés de se livrar da rival, arrumara uma dor de cabeça a mais para o amante.

Para aliviar sua consciência, bebia e dormia embriagada. Quando acordava, a ressaca era terrível e ela se sentia ainda mais culpada, por isso bebia mais. Sua beleza foi perdendo o viço. Ela fichou inchada, feia, desleixada.

Só sabia entrar no seu carro e rodar pelo bairro, parando de bar em bar, até estar tão bêbada que mal conseguia voltar para casa.

Alfredo a viu assim, um dia, num fim de tarde, quando voltava para casa. Ela estava num bar, bebendo sozinha. Não era mais nem um pálido reflexo da menina bonita e adorável que ele conhecera e amara um dia.

Ficou com pena dela. Pena pelo amor que ainda sentia. Ia se afastar, com o coração aos pedaços, mas viu-a se levantar da mesa do bar e caminhar até a calçada. Ao fazer isso, tropeçou e caiu. Todos riram e zombaram ela.

Alfredo sentiu vontade de sumir dali, mas viu Michele tentar se levantar e não conseguir, de tão bêbada que estava. Ficou sentada na sarjeta, soluçando, com a maquilagem dos olhos se desfazendo e transformando seu rosto numa máscara.

Ele se deixou levar pelo coração. Aquele farrapo humano fora, um dia, a garota dos seus sonhos. Isso parecia ter acontecido havia tanto tempo, mas ele não podia deixar de sentir algo por ela. Nem que fosse piedade, mas seu coração ainda batia mais rápido na presença dela.

Foi até lá. Ao vê-lo, ela escondeu o rosto entre as mãos e chorou ainda mais. Os outros bêbados no bar continuavam rindo e zombando. Ela apanhou as chaves do carro na bolsa e tentou se levantar. Cambaleou e quase caiu. Alfredo a amparou.

Ao sentir a firmeza dos braços dele, aparando-a, ela soluçou e se deixou guiar gentilmente. Ele a pôs no carro e assumiu o volante. Não podia levá-la para a casa dela naquele estado. Lembrou-se de Míriam, a amiga dos dois. Rumou para lá.

— Ela está mal! — comentou, enquanto ajudava Míriam a levá-la até o banheiro.

— Vou dar um banho nela. Não vá embora. Espere, talvez a gente consiga conversar com ela.

— Pobrezinha! Eu tenho tanta pena dela. Que pecado ela pode ter cometido para estar nesse estado?

— Seja qual for, o que ela precisa saber é que o perdão a espera. Basta querer receber o Senhor Jesus em seu coração. Conversei com ela um dia desses. Disse-me que estava ficando cada vez mais desesperada, queria parar de beber e não conseguia. Acho que ela está pedindo ajuda, Alfredo. Se com a graça de Deus isso se confirmar, podemos ter a nossa Michele de volta.

Os dois acomodaram Michele na banheira. A mãe de Míriam providenciou um café bem forte. Alfredo foi até a farmácia e comprou um remédio para ressaca. Demorou-se um pouco conversando com um amigo e, quando chegou, Michele estava numa cama, no quarto de Míriam.

Foi ter com ela, levando o remédio para bebedeira. Ao vê-lo entrar, ainda sob o efeito do álcool, Michele murmurou:

— Eis que chegou meu bom Anjo da Guarda.

Alfredo se aproximou.

— Fique aqui comigo — pediu ela, estendendo uma das mãos.

Alfredo, emocionado, segurou a mão dela.

— Diga alguma coisa boa… Alguma coisa doce… Alguma coisa que alegre a minha alma — pediu ela. — Estou tão triste! Tão desesperada! — soluçou ela.

Alfredo estendeu a mão, apanhando a Bíblia de Míriam, que estava sobre um móvel. Abriu-a ao acaso. Leu o Salmo 4.

“Responde-me quando eu clamar, ó Deus da minha justiça! Na angústia me deste alívio. Tem misericórdia de mim e ouve a minha oração.

Filhos dos homens, até quando convertereis a minha glória em infâmia? Até quando amareis a vaidade e buscareis a mentira? Sabei que o Senhor separou para si aquele que é piedoso. O Senhor me ouve quando eu clamo a ele. Irai-vos e não pequeis. Consultai com o vosso coração em vosso leito e calai-vos. Oferecei sacrifícios de justiça e confiai no Senhor.

Muitos dizem: Quem nos mostrará o bem? Levanta, Senhor, sobre nós a luz do teu rosto. Puseste no meu coração mais alegria do que a deles no tempo em que se lhes multiplicam o trigo e o vinho.

Em paz me deitarei e dormirei, porque só tu, Senhor, me fazes habitar em segurança.”

Quando ele terminou a leitura, Michele dormia profundamente, ainda segurando a mão dele. Alfredo tentou soltá-la, mas ela a havia prendido firmemente. Ele sorriu, olhando-a. Havia paz no rosto dela, trazendo de volta aquela beleza que ele conhecera.

Ao lado da cama, Míriam olhava com admiração aquela cena, pois percebera a transformação que se operara em Michele, a partir do momento em que Alfredo segurara a mão dela e lera a Palavra.

— Ela vai ser salva, Alfredo. O Senhor está me dizendo isso — falou Míriam, com convicção.

— Glória a Deus, então, Míriam. Você não sabe o quanto isso me faz feliz — disse ele e lágrimas brotaram em seus olhos.

— Vamos tentar levá-la à igreja. Vai ser muito bom se ela for, tenho certeza.

— Vou ficar aqui com ela, se não se importa, até que ela solte a minha mão — decidiu ele, arrumando, com carinhos, os cabelos de Michele, que dormia placidamente agora.

*

Em seu escritório, naquele começo de noite, Salgado vivia seu inferno particular, julgando que o céu desabava sobre sua cabeça. Estava tudo dando errado. Havia vendido, naqueles três meses, quase todo o seu estoque. Uma pequena parte à vista, mas o restante à prazo. O que não fora através de duplicatas fora em cheques pré-datados. Descontara as duplicatas no banco e trocara os cheques com seu amigo agiota.

O problema era que as duplicatas descontadas não estavam sendo pagas e os cheques pré-datados estavam sendo devolvidos. Houve uma explosão nas vendas, com todo mundo deslumbrado com o Plano Real, comprando como verdadeiros loucos.

Ninguém esperava, no entanto, que a inadimplência crescesse daquela forma. Todos haviam assumido prestações acima de suas possibilidades. A recessão que se insinuava no comércio em geral, com a liberação das importações e da concorrência estrangeira provocou muitas demissões.

Setores como a construção civil, bancos, indústrias e serviços em geral demitiram trabalhadores em massa. Essa gente toda agora, cheia de prestações, provocava um verdadeiro caos no comércio.

Em breve teria que pagar o estoque que comprara e não teria como. Estava com um monte de papéis sem valor nas mãos. Para complicar, o agiota cobrava um juro absurdo e a dívida crescia cada vez mais. Não conseguiria pagar a viagem de Soninha. O hospital estava lhe tirando até o último centavo. Sua mulher não melhorava. Continuava sofrendo naquele quarto. Michele não queria vê-lo.

Pai Nozinho vivia insistindo para fazer um outro trabalho, porque um concorrente havia feito algo muito forte, por isso tudo aquilo estava acontecendo. Só que esse trabalho custaria agora vinte mil reais para ser desfeito. Salgado estava cada vez mais desesperado.

Havia empenhado tudo que tinha e que não tinha naquela jogada. Se desse certo, ficaria rico, mas, da forma como acontecera, não apenas quebraria, como perderia tudo que ainda tinha.

Não sabia o que fazer. A cada vez que abria uma das gavetas de sua escrivaninha e via aquele revólver carregado, tinha vontade de fazer uma loucura. A única coisa que ainda o segurava eram os filhos. Não podia deixá-los na miséria, mas não sabia o que fazer.

Maria chegou até a porta.

— Seu Salgado, a loja está fechada e o pessoal já foi embora. Precisa de mais alguma coisa?

— Não, Maria, nada! — respondeu ele, distante.

Ela ia se afastando, quando ele levantou a cabeça.

— Maria! — chamou-a ele.

Ela se voltou. Ele hesitou, como se fosse muito difícil para ele dizer o que pretendia. Seus olhos se encheram de lágrimas.

— Você vai à igreja hoje?

— Sim, vou. Por quê?

Ele hesitou novamente, engolindo seco algumas vezes.

— Reze por mim, Maria. Estou precisando — pediu ele, com humildade.

Para Maria aquilo foi algo inesperado, que ela jamais sonhara ouvir. Olhou-o longamente, percebendo as lágrimas nos olhos dele. Depois olhou ao redor dele. Nos móveis e prateleiras havia imagens, amuletos e talismãs de todos os tipos. Nenhum deles podia ajudá-lo e ele, graças a Deus, estava começando a perceber isso.

Maria caminhou até a mesa dele.

— Seu Salgado, o Miguelzinho vive pedindo para eu orar pela mãe dele e me diz sempre que ele gostaria de poder ir à igreja fazer isso pessoalmente. Por que o senhor não o leva? Pode ser bom para os dois.

— O que eu vou fazer lá, Maria? Olhe para mim, olhe ao meu redor. Sou um homem sem crença e sem fé. Naquela noite, quando o pastor foi lá no hospital, eu o destratei com a minha ignorância…

Vinde a mim, todos os que estão cansados e oprimidos e eu os aliviarei — disse Maria, citando Mateus 11:28.

— Não, Maria, não acho que exista solução para mim. Eu mexi com coisas que não devia.

No tempo aceitável te escutei e no dia da salvação te socorri. Eis aqui, agora, o tempo aceitável. E eis aqui, agora, o dia da salvação — tornou ela, agora citando 2 Coríntios 6:2.

Um sorriso de bondade e reconhecimento brotou nos lábios de Salgado.

— Essa memória sua é um dom de Deus, Maria. Desculpe-me se a critiquei um dia por isso.

Ela o olhou com um sorriso nos lábios, feliz por ter percebido que havia tocado o coração daquele homem.

— E então, seu Salgado? Vamos à igreja, nem que seja só para levar o Miguelzinho.

— Eu tenho que ir ao hospital e…

— Seu Salgado, sua esposa está sofrendo muito, mas o senhor sabe que poderia salvá-la, se tivesse fé e acreditasse no poder de Cristo?

— Maria, ela já foi desenganada. Não é uma unha encravada nem uma verruga que a incomoda. É um câncer que a está comendo por dentro…

— Seu Salgado, lembra da passagem de Lázaro, no Novo Testamento?

— Claro que sim.

— Lázaro estava enterrado há quatro dias. Nesse tempo, as células de seu corpo já estavam se decompondo. Não havia mais vida. O Senhor Jesus, no entanto, restaurou a vida de cada uma daquelas células mortas. Se Ele tem o poder de fazer isso, curar sua esposa é muito mais fácil ainda.

— Se os meus problemas fossem só esses…

— Lança o teu fardo sobre o Senhor e ele te susterá e nunca permitirá que o justo seja abalado — lembrou Maria, desta vez mencionando o Salmo 55:22.

— Como se eu pudesse ser chamado de justo…

— Não seja tão severo consigo mesmo, pois não há homem justo sobre a terra, que faça o bem e nunca peque — continuou ela, lembrando Eclesiastes 7:20.

— Ah, Maria, gostaria que as coisas fossem tão simples assim…

— E elas são, seu Salgado. Nós é que temos a péssima mania de complicar tudo. Pense bem. Cristo pode estar lhe estendendo a mão neste momento, esperando que o senhor o aceite como Salvador.

— Vou pensar, Maria. Vou pensar — afirmou ele, agradecendo.

Quando ela saiu, Salgado respirou fundo, sentindo-se leve pela primeira vez nos últimos tempos. Olhou ao seu redor. Aquelas imagens e símbolos não tinham sentido nenhum. Pensou por instantes, depois apanhou o cesto de lixo e começou a jogar tudo lá dentro. Quando terminou, fechou o escritório e foi para o hospital.

Quando entrou no quarto, viu sua esposa na cama, o rosto crispado de dor, tubos enfiados em seu nariz e em sua boca, agulhas espetadas em seus braços magros.

Ficou ali, em silêncio, olhando para ela, que já não reconheci ninguém. Era um corpo à espera da morto.

Algo estranho aconteceu. Olhando o rosto dela, por trás de todo o sofrimento, por trás da máscara de dor e sofrimento em que ele se transformara, Salgado viu ali a mulher por quem se apaixonara um dia e que amara profundamente.

Milhares de cenas passaram por sua mente. O casamento, os primeiros tempos, os filhos, os planos todos que haviam feito juntos, a vida que esperavam levar. Eram recordações demais, tantas que sufocaram seu coração e fizeram as lágrimas brotarem generosamente de seus olhos, escorrendo de suas faces.

— Salgado! — ouviu ele, reconhecendo a voz da esposa.

Levantou os olhos para ela, mas ela continuava imóvel, com a mesma expressão distante de antes. Abaixou a cabeça e soluçou.

— Salgado! — repetiu a voz.

Ele se levantou num salto, olhando ao redor. Foi até a cama. Debruçou-se sobre o corpo da esposa, que não demonstrou nenhuma reação. Ele foi até a janela, depois até a porta do corredor.

— Leve o Miguelzinho à igreja! — disse a voz e, desta vez, um arrepio percorreu o corpo do comerciante, dos pés à cabeça, arrepiando seus cabelos e fazendo seu coração disparar.

— É você? É você que está falando comigo? — indagou ele, correndo até a cama.

A mulher continuava imóvel, com o rosto impassível. Salgado começou a tremer.

*

Maria estava se aprontando para ir à igreja, quando Úrsula chegou. Estava maquilada, com os cabelos penteados e as unhas feitas. Ao ver a irmã toda produzida, indagou:

— Puxa, Úrsula, é você mesma? Nem parece a minha irmãzinha!

— Estou bonita?

— Você está linda. Onde vai?

— Vou a uma festa.

— Com o Rodrigo?

— Sim, eu só saio com ele.

Maria não tinha o que recriminar. No fundo, já estava até começando a aceitar Rodrigo, apesar de seus antecedentes. Podia julgá-lo pelo que Úrsula dizia. Ele a protegia, cuidava dela, dava-lhe roupas, levava a passeios e festas e nunca tocara nela. A própria Úrsula havia confessado que não fora por falta de iniciativa dela. Bem que tentara seduzí-lo, mas Rodrigo havia digo que só a tocaria quando se casassem. Como recriminar um homem desses?

— Onde vai ser a festa hoje? — indagou à irmã.

— Numa casa de campo, fora da cidade.

— Deve ser uma festa especial, porque nunca vi você tão produzida.

— Na realidade, vai haver um concurso de beleza.

— E você vai participar?

— O que tem? Posso ganhar uma viagem a Cancun, dois mil e quinhentos dólares, fora um contrato, se algum caça-talentos for com a minha cara. Já pensou este rostinho aqui saindo nas capas de revistas do mundo inteiro? — indagou Úrsula, vaidosa, indo se postar diante do espelho e conferir a maquilagem.

Era pura vaidade. Maria pensou em lhe dizer algumas coisas, mas desistiu. Úrsula era tão nova e estava deslumbrada com a vida. Felizmente nada a ameaçava. O melhor a fazer era deixá-la viver a vida da forma como queria e, na medida do possível, ir pondo-a em contato com a Palavra.

Quando chegasse o momento certo, com a graça de Deus, Úrsula também entregaria seu coração a Cristo.


 

Capítulo 8

 

 

“Autoridades do povo e vós, anciäos, se nós hoje somos inquiridos acerca do benefício feito a um enfermo e do modo como foi curado, seja conhecido de vós todos e de todo o povo de Israel, que em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, aquele a quem vós crucificastes e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, nesse nome está este aqui, säo diante de vós.

Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta como pedra angular. Em nenhum outro há salvaçäo, porque debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, em que devamos ser salvos. (At 4:8-12)

Miguel estava eufórico com tudo o que via. O templo era enorme, com um espaço amplo onde circulavam os pastores. Obreiros cuidavam para que todos permanecessem acomodados, levando-os até as cadeiras vazias, orientando-os.

Segurando a mão do pai, ele olhava para este e para Soninha, sua irmãzinha, que ele conduzia pela mão. Ela também estava deslumbrada com tanta grandiosidade, com a receptividade, com a maneira cordial com que todos se cumprimentavam.

Quando o culto começou, os dois se olhavam, contagiados pela alegria e pela animação com que todos cantavam. Um obreiro lhes entregou um livro de orações. Miguel começou a acompanhar a música, ensinando o refrão para sua irmã.

Ao lado, com o rosto ainda sombrio e o coração compungido, Salgado se sentia indigno de estar ali, no meio daquelas pessoas de fé. Ele estava mais acostumado a freqüentar os terreiros, onde as entidades das trevas circulavam livremente. Ali havia luzes, rostos sorridentes e amigos, num ambiente que não o deixava à vontade.

Viu, porém, a animação de seus filhos e isso por si só já justiricava sua presença.

Após o hino, o pregador pediu que as pessoas se apresentassem e se cumprimentassem. As crianças adoraram conhecer tantas pessoas, que ficaram encantadas com a graça e com a educação dos dois. Salgado, aos poucos, foi se deixando envolver por aquele clima, sem o perceber.

O pastor pediu que as pessoas que ali estavam pela primeira vez se identificassem.

— Levanta a mão, papai! — pediu Soninha, cutuvando-o.

Ele olhou. Ela e Miguel tinham levantados as duas mãos. Um anto sem graça, ele fez o mesmo. Foram saudados e o culto teve prosseguimento. Salgado olhava ao seu redor, observando como aqelas pessoas pareciam tão tranqüilas.

Chegou o momento do pastor Messias assumir o púlpito. Até então ele estava a um canto, meditando e orando. Ao chegar ao microfone, ainda de cabeça baixa, ele ficou em silêncio por instantes. Todos ficaram em silêncio com ele e se uma agulha tivesse caído no chã, naquele momento, o som seria ouvido por todos.

— Obrigado, Senhor, por trazer até nós o nosso irmão, que estava perdido entre as imagens e ídolos e agora está aqui, à procura do Deus Vivo, do verdadeiro Deus! Obrigado, Senhor, por esta jovem que resgatas da solidão, do vício, das influências maléficas e a coloca, renovada e ansiosa pela Palavra, aqui entre nós…

Salgado sabia que as primeiras palavras eram para ele, tanto quanto Michele, no canto oposto do templo, sabia que o segundo agradecimetno era pela sua presença. Ao seu lado, feliz e confiante, estavam Alfredo e Míriam, amparando-a e dando-lhe forças.

Enquanto ele continuava seus agradecimentos, Maria acompanhava com fervor, pois vira Salgado e as crianças entrando. Ficou muito feliz por eles.

A pregação continuou. O pastor Messias falou sobre as ilusões do mundo, sobre o dinheiro, sobre o pecado, sobre as obras do diabo e como tudo isso se entrelaçava, enganando as pessoas. Falou sobre a justiça divina e sobre o perdão. Descreveu como um cristão pode mudar sua vida, simplesmente aceitando o Deus Vivo em seu coração, reconhecendo o Senhor Jesus como seu único salvador.

Salgado via no rosto das pessoas como eles bebiam aquelas palavras e como seus rostos se iluminavam. Sentiu-se pequeno, um grão de areia no deserto, invejando a fé que transbordava dos olhos de cada um dos presentes.

Acreditou que jamais poderia ser como um deles. Havia pecado demais. Havia descido fundo demais no poço das iniqüidades e agora não havia salvação. Cometera adultério, entregara sua vida ao diabo, através de seus asseclas, estava desesperado, prestes a cometer um ato de loucura.

Numa cama de hospital sua esposa agonizava. Sua amante desparecera de sua vida. Seus bens estavam sendo dilapidados pelos juros exorbitantes cobrados pelo agiota e pelos bancos. Tinha uma dívida enorme e não sabia como pagá-la. Prometera à filha mandá-la para a Disneilândia e não poderia cumprir a promessa. Tinha dois carros e os perderia. A casa teria de ser vendida para pagar as dívidas e, mesmo assim, não conseguiria sair do buraco, com o monte de duplicatas e cheques sem fundo em que se transformara todo o seu estoque.

O pastor chamou à frente pessoas para darem seus testemunhos. Muitas falaram de doenças que haviam sido curadas pela fé. Miguel e Soninha acompanhavam com atenção, principalmente a garotinha, que havia ido apenas uma vez ao hospital e, ao ver a mãe ligada a tubos e aparelhos, ficara chocada.

Um menino disse que o pai havia sido curado de um tumor. Uma senhora afirmou que sua filha tinha um câncer do cérebro e ficara curada. As maravilhas operadas por obra do Espírito Santo iam sendo relacionadas e aplaudidas.

Assim que terminaram, o pastor indagou:

— Há alguém aqui que gostaria de fazer um pedido especial por algum familiar ou amigo doente? Escrevam o pedido nos papéis que os obreiros vão distribuir, depois entreguem de volta. Vamos fazer uma corrente de oração e…

Interrompeu-se. Toda a igreja parou, observando o que acontecia. Soninha havia deixado seu pai e seu irmão e subia decididamente os degraus que a levavam ao local onde estava o púlpito. Ao vê-la, o pastor Messias a reconheceu.

— Eu quero! — disse ela.

Um obreiro se adiantou para dizer a ela que os pedidos tinham de ser escritos, mas o pastor o impediu com um gesto.A menina se aproximou. O pastor apanhou o microfone e se abaixou junto dela.

— Como é seu nome, querida?

— Soninha!

— Você veio sozinha, Soninha?

— Não, estou com meu pai e meu irmão. Olhe os dois ali — apontou ela.

O pastor olhou na direção de Salgado, que se viu embaraçado pelo que a filha estava fazendo.

— E que pedido você quer fazer, Soninha?

— Quero pedir a Jesus que cure a minha mãe. Ela está no hospital, sofrendo muito e eu não quero que ela sofra mais. Você pede para Jesus curar ela?

Lágrimas vieram aos olhos do pastor.

— Sim, querida, eu peço. Mas você acha que Ele pode mesmo curar sua mãe?

— Ele curou toda essa gente, não curou? Então é claro que Ele pode curar a minha mãe.

O pastor se levantou, sem disfarçar sua emoção.

— Oh, Senhor, tu que disseste deixai vir a mim as criancinhas e não as impeçais, porque delas é o reino dos céus, aceita a nossa oração e atenda ao pedido desta inocente que confia em Ti, tanto quanto nós confiamos. Meus irmãos, peço a todos que se unam a mim em oração pela saúde da mãe desta criança. Se ela está aqui, pedindo isso, é porque o Espírito Santo assim o determinou. Ergamos nossos braços para implorar a Ele — pediu o pastor.

O silêncio da igreja foi quebrado por um murmúrio que foi aumentando, seguindo o tom ditado pela oração do pastor. Em questão de minutos, toda a igreja orava e o som parecia o estrondo de mil trovões, afugentando demônios e espíritos imundos.

Sem perceber, Salgado fazia a mesma coisa, seguido por Miguel, que orava com muito fervor. A oração durou alguns minutos, mas pareceu ter durado séculos, tamanha foi a intensidade com que o comerciante se entregou a ela. Quanto terminou, sentiu-se leve e contente. Começou a rir, sem entender o que se passava.

Naquele momento, o celular que estava preso a sua cintura, ligado para vibrar se fosse chamado, deu o sinal. Ele ficou sem saber o que fazer. No mesmo momento, porém, pensou na esposa. Podia ser o hospital informando que ela havia falecido.

Como todos estavam em pé ainda, ele se sentou e atendeu, falando baixinho.

— Salgado, venha para o hospital agora mesmo. Aconteceu um milagre!

*

Maria estava muito feliz com o que acontecera. Salgado saíra apressado, com os filhos, rumando para o hospital. O médico que ligara informara que, por mais incrível que pudesse parecer, sua esposa havia melhorado, pedido para retirar os tubos e aparelhos e para que lhe trouxessem uma canja. Em agradecimento, ela orou com todo o seu fervor.

O culto chegava ao fim, quando uma amiga sua chegou até ela.

— Maria, tenho uma coisa para lhe contar e você não vai gostar — disse, demonstrando preocupação. — Vamos lá fora.

Maria a acompanhou, assustada.

— Maria, é a Úrsula. Ela foi numa festa, não foi?

— Sim, foi com o Rodrigo. Aconteceu alguma coisa? Meu Deus! Um acidente, não foi?

— Não, Maria, antes fosse! — afirmou a amiga, causando estranheza na moça, que a encarou sem entender.

— Maria, sabe que tipo de festa é essa?

— Não tenho a menor idéia, mas sei que é só de gente fina e…

— Não é gente fina. As meninas que estão lá vão ser leiloadas. São todas virgens e quem dar o maior lance fica com elas, você entendeu?

Maria não podia acreditar em tamanha sordidez. Isso não podia estar acontecendo com sua irmã, não com Úrsula, tão inocente, tão ingênua, tão envolvida pelos encantos de Rodrigo.

— Como você ficou sabendo disso?

— Uma das meninas descobriu e pulou fora. Só me contou agora, pedindo segredo.

— E onde vai ser isso?

— Ninguém sabe.

— Tenho que avisar a polícia…

— É bobagem, Maria. Só tem gente importante envolvida. Se fizer isso, quem acaba se enrolando toda é você, entendeu?

— Mas não posso deixar que uma coisa dessas aconteça a minha irmã — disse Maria, levantando os olhos.

Relâmpagos iluminavam o céu. Aquele tempo fechado persistira todo o dia. Possivelmente desabaria uma tempestade em breve. Aflita, ela não soube o que fazer.

Lá dentro encerrava-se o culto. Maria apertou sua Bíblia ao peito e orou:

— Senhor Jesus, Deus Vivo e nosso Salvador, zela por minha irmãzinha, esteja ela onde estiver. Traga-a em segurança para casa. Não permita que a maldade dos homens destrua a sua inocência. Oh, Senhor, eu te peço de todo o meu coração, atenda o pedido de sua serva, para glória do teu nome…

Enquanto isso, longe dali, numa passarela, vestindo um biquíni minúsculo, com os olhos vermelhos de chorar, Úrsula era empurrada e obrigada a iniciar seu desfile, sob os olhares cheios de cobiça de todos os homens ali presentes.

*

Sempre acompanhada de seus amigos, Michele deixou a igreja, sentindo-se renovada. Era como estar de volta ao lar, revendo pessoas queridas, sentindo de novo aquele clima gostoso e conhecido.

— Como se sente agora? — indagou Alfredo.

— Estou bem, muito aliviada.

— Acha que vai conseguir superar seus problemas?

— Com amigos como vocês me ajudando, com toda certeza farei isso. Amanhã vou ao médico, cuidar da minha saúde. Vou precisar de ajuda para parar de beber,mas vou conseguir.

— Vai encontrar toda a ajuda aqui, entre nós, Michele — afirmou Alfredo.

Miriam se despediu. Michele e Alfredo caminharam juntos, de volta para casa.

— Tem alguma coisa incomodando você, Alfredo? — perguntou ela.

— Sim, posso lhe fazer uma pergunta?

— Claro que sim. O que é?

— O que sentiu quando viu o Salgado lá na igreja?

Ela pensou por instantes.

— Vi a loucura que eu estava fazendo. Fiquei com pena de mim e com pena dele. Está tão acabado quanto eu.

— Soube que ele anda com muitos problemas, não só em relação à esposa, mas também na firma. Está com uma dívida muito grande.

— Eu me sinto culpada por tanta coisa… — lamentou-se a garota.

— Não, você não deve se sentir assim. O que aconteceu deve ser esquecido. Você deve buscar agora o perdão e abrir-se de novo para receber Cristo de volta em seu coração.

— Acho que devemos orar por todos nós, então — concluiu ela.

— Sim, faremos isso. Vamos pedir ao pastor para sugerir ao seu Salgado participar de uma corrente de prosperidade. Tenho certeza que tudo se resolverá, com a graça de Deus.

— Sim, Alfredo, com a graça de Deus! — confirmou a garota, estendendo a mão e segurando a dele.

Caminharam juntos e confiantes em direção ao futuro.

*

Desabou uma verdadeira tempestade. Em sua casa, Maria não sabia o que fazer. Ligara para a polícia, mas nem quiseram lhe dar ouvidos, porque ela não tinha nenhuma informação concreta. O policial que a atendeu achou até que fosse um trote.

Ela estava desesperada e não queria contar nada a seus pais para não lhes causar desgosto. Orou o tempo todo, pedindo ao seu Deus Vivo que abrandasse o coração daqueles que haviam levado sua irmãzinha a tão sórdido espetáculo.

Na janela, olhando a chuva cair com violência, punha-se no lugar da irmã e tentava imaginar o terror que ela deveria estar enfrentando. Para uma criatura inocente como Úrsula, entrar em contato com o que havia de mais sujo no mundo seria um trauma de difícil recuperação.

— Senhor, tu que disseste, em Lucas 11, versículos 9 e 10, pedi e dar-se-vos-á, buscai e achareis, batei e abrir-se-vos-á, pois todo o que pede, recebe e quem busca, acha e ao que bate, abrir-se-lhe-á, eu te peço, traze de volta, sã e salva, minha irmãzinha! Ouve, ó Senhor, a súplica de tua serva, pela graça de Deus e pela proteção do Espírito Santo.

Nesse instante, Maria sentiu como se um véu suave descesse sobre ela, tirando-lhe todo o medo e toda a preocupação. Lá fora o vento deixou de soprar e chuva parou. Ele teve certeza que sua irmão estava bem.

Saiu ao portão. A enxurrada ainda corria pela sarjeta, provando a força daquela chuva. Ela não soube quanto tempo ficou ali, esperando. Quando aquele carro parou e um jovem desceu, indo abrir a porta para que Úrsula descesse, Maria caiu de joelhos e agradeceu ao Senhor.

— Maria, está tudo bem — disse Úrsula, ajoelhando-se junto da irmã e abraçando-a.

O rapaz se aproximou. Maria se levantou, encarando-o, sem saber se o recriminava ou se o agradecia.

— Eu a encontrei na estrada e a trouxe — explicou ele.

Maria voltou os olhos cheios de interrogações para a irmã.

— Maria, foi tudo mentira, o Rodrigo é um canalha. A festa não era nada daquilo…

— Sim, eu fiquei sabendo. Aconteceu alguma coisa com você?

— Não, nada. Quando eu estava desfilando, começou a chuva. Caiu um poste e acabou a luz. Eu fugi pela porta. Corri no meio da chuva, até passar esse rapaz, que me trouxe…

— Glória a Deus! — murmurou Maria, convidando o rapaz para entrar.

Ele se apresentou. Seu nome era Mário e era um recém-convertido.

— Se eu lhe contar uma coisa, vocês prometem que não vão rir de mim? — falou ele, com gravidade, enquanto tomava um café passado na hora.

— Conte, o que pode ser tão engraçado assim.

— Eu moro nas proximidades do local onde encontrei Úrsula. Eu estava lendo a Bíblia, coisa que faço sempre antes de dormir, quando me deu vontade de pegar o carro e sair. Olhei pela janela. Os relâmpagos e trovões não recomendavam sair, mas havia uma força me empurrando. Eu até disse: Senhor, se for por tua vontade, farei o que me pedes. E saí. Começou a chuva. Eu nem sabia para que lado ir. Simplesmente dirigi na chuva, até ver Úrsula, desesperada, pedindo carona. Vocês são capazes de acreditar numa coisa dessas?

Maria olhou para ele e para Úrsula. Sorriu e seu sorriso demonstrava que acreditava em cada palavra que Mária havia dito.


 

Epílogo

 

 

Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, näo temerei mal algum, porque tu estás comigo. A tua vara e o teu cajado me consolam. (Sl 23:4)

A esposa de Salgado sarou. Assim que se recuperou totalmente, a família toda foi à igreja e recebeu Jesus com muita fé e muita alegria. Homens de negócio de nossa igreja, sabedores do problema enfrentado por ele em sua empresa, prontificaram-se a ajudar, já que também enfrentavam os mesmos problemas. Organizaram uma empresa de cobrança e renegociaram seus débitos e créditos, organizando sua vida financeira rapidamente. Soninha adorou a Disneilândia e Miguel é hoje um dos jovens mais atuantes do seu grupo. Maria é gerente da firma agora e está toda feliz, ajudando Úrsula com o enxoval. Ela e Mário estão namorando sério.

Alfredo e Michele estão de casamento marcado. Ela não só se recuperou do vício da bebida como fez algo que surpreendeu às paoucas pessoas que ficaram sabendo. Reuniu tudo que Salgado havia lhe dado ao longo do tempo, inclusive o carro, vendeu e entregou o dinheiro no hospital, terminando o resto da dívida da internação da esposa do Salgado.

Rodrigo foi preso. Pai Nozinho está sendo procurado por charlatanismo.

 L P BAÇAN.

A Igreja e sua Responsabilidade Social (mas com observância e obediência à Bíblia)

Proposta de responsabilidade social do Pacto de Lausanne.

A responsabilidade social cristã no Pacto de Lausanne.

O testemunho histórico da Missão Integral

Base bíblico-teológica para a responsabilidade social

Os desafios que pesam sobre a Igreja diante da questão social à luz do Pacto de Lausanne 

Introdução

Vivemos num mundo em ebulição. A transformação promovida pela globalização é algo inquestionável. Ao invés de apenas facilitar processos, ela, a globalização, tem aumentado a crise. A miséria tem mostrado sua cara feia, como cm poucos momentos da história. O abismo entre uns poucos que têm muito e a maioria que não possui o suficiente tem aumentado no mundo.

Se a globalização tem acentuado a desigualdade social no mundo, no Brasil cm particular e na América Latina de um modo geral, a história não é diferente.

Caio Fábio D’Araújo Filho afirma que:

O Brasil é um país completamente tomado por antagonismos. De um lado, tem-se uma economia forte, um parque industrial moderno e uma das maiores riquezas naturais do planeta; de outro lado, tem-se a sexagésima quarta renda per capita do mundo, uma concentração econômica na qual urna minoria da população controla cerca de 70% dos bens do país, e uma dívida social descomunal, caracterizada pela existência de milhões de miseráveis.

Lado a lado, convivem mansões – copiadas das revistas mais sofisticadas do primeiro mundo – e casebres feitos de papelões e cheios de tanta sujeira que, nem mesmo os cães, acostumados à boa vida da casa dos ricos, conseguiriam neles viver… É dentro deste caldeirão de ambigüidades e antagonismos, que emerge, vive e acontece a Igreja Evangélica. A Igreja Evangélica não pode ficar fora de qualquer análise que se faça desse país.1

Infelizmente, essa é a cara do Brasil. Um país em crise. E é no meio de toda esta crise que a Igreja está inserida e, de alguma forma, precisa dar uma resposta que crie a possibilidade de transformação.

Quanto à América Latina, Samuel Escobar afirma que a década de 80 tem sido chamada de “década perdida”, por causa da deterioração visível das condições sociais em toda a América Latina.2

Qual deve ser a resposta da Igreja num momento difícil como o que vivenciamos, principalmente, como lembra-nos Paul Freston, a coincidência do crescimento evangélico com as crises sociais e religiosas não produzirá, por si só, efeitos históricos saudáveis. Pelo contrário, a visibilidade crescente tem deixado dolorosamente expostas as carências teológicas, éticas e pastorais? 3 Sem dúvida alguma o desafio que temos diante de nós é maior do que normalmente aquilatamos.

Entendo que, diante do aumento da pobreza, do aumento da violência e da criminalidade que testemunham o caos estabelecido no mundo, a compreensão da prática de Jesus diante do sofrimento humano poderá, não apenas nos desafiar, mas, nos dará bases para que encontremos o paradigma para uma Ação Social da Igreja.

É por causa do caos estabelecido que me sinto impulsionado a refletir sobre a responsabilidade social da igreja, de maneira especial, voltar a minha atenção ao Congresso internacional de Evangelização Mundial, realizado em Lausanne, Suíça, em 1974.

Capítulo 1

Proposta de responsabilidade social do Pacto de Lausanne

O Congresso Internacional de Evangelização Mundial, ocorrido na cidade de Lausanne, Suíça, entre os dias 16 e 25 de julho de 1974, tornou-se o mais importante referencial dos evangelicais espalhados pelo mundo. “Um foro formidável, possivelmente a reunião mais global já realizada pelos cristãos””, foi o comentário da “Revista Time” sobre o encontro, como lembra René Padilla em seu livro, “Missão Integral”.

Lausanne 74 foi, indubitavelmente, o maior evento da história do evangelicalismo, demonstrando que a Igreja encontrava-se em perfeita harmonia com sua época. Evidencia-se tal assertiva ao ser observado o leque de temas propostos, encabeçado pela evangelização e tratado pelos congressistas. Alguns deles merecem destaque: a questão cultural, a realidade da pobreza que vem atingindo milhões de pessoas, a responsabilidade social cristã, a batalha espiritual, dentre outros. Estas sintonia e preocupação com a realidade foram um dos fatores que tornaram o referido encontro tão significativo e contundente para as décadas que se seguiram.

É preciso, todavia, compreender o que motivou a realização do Congresso de Lausanne. Assim sendo, imperioso historiar e analisar o contexto no qual se deu o congresso, a fim de que seja possível verificar a proposta nele apresentada sobre a responsabilidade social da Igreja.

O Congresso Internacional de Evangelização Mundial foi convocado pela Associação Evangelística Billy Graham e cerca de 4000 líderes do mais amplo espectro denominacional, oriundos de 151 países, acorreram ao magno congraçamento que apresentou como tema: “Que o Mundo Ouça a Sua Voz”. A Igreja, espalhada pelo mundo, estava sendo desafiada a reafirmar a sua vocação, no intuito de considerar estratégias c programas para cumprir a grande comissão. Em outras palavras, procurava-se visualizar desafios e recursos, visando à evangelização de todo o mundo.

O congresso pretendia reunir evangélicos desejosos de afirmar a autoridade da Bíblia. John Stott afirma que a razão para tanto foi, pelo menos cm parte, a existência de uma crise de confiança em relação ao Conselho Mundial de Igrejas -CMI. A existência de uma tensão entre os evangelicais (como eram chamados) e os ecumênicos era evidente à época, até porque, segundo o CMI, aos primeiros faltava um envolvimento social mais relevante.5

Billy Graham, cm sua mensagem de abertura do Congresso de Lausanne, fez e respondeu à seguinte pergunta: Por que Lausanne? Para que o mundo ouça a Sua voz! Na ótica de Graham, nunca tantas pessoas estiveram tão sensíveis à mensagem do evangelho de Jesus quanto nos últimos tempos, mas, ao mesmo tempo, nunca se viu uma influência do secularismo tão presente no seio da Igreja como nos últimos dias. Sendo assim, revela-se necessário que a Igreja una-se para proclamar a divindade de Jesus, bem como a salvação que Ele oferece. Graham afirmou que sua esperança e sua oração eram ver a Igreja, ainda que não política ou sociologicamente, voltar teologicamente às visões e aos conceitos das grandes conferências do início do século XX, dentre elas a de Nova Iorque em 1900 e a de Edimburgo, na Escócia, em 1910. Isto porque, sob o prisma de Billy Graham, a Igreja vem perdendo muito da sua visão e do seu fervor por três razões elementares:

1 – Perda de autoridade da mensagem do Evangelho;

2 – Preocupação com problemas político-sociais;

3 – Preocupação com a unidade organizacional da igreja.6

Na mesma mensagem ainda, Grahan esboçou quatro convicções que deveriam caracterizar Lausanne:

  • A autoridade das Escrituras;
  • O homem, fora de Jesus Cristo, está perdido;
  • Só há salvação em Jesus Cristo;
  • O testemunho cristão deve englobar tanto a palavra, como também as obras.7

 

Lausanne 1974 nasceu num contexto muito amplo. Desde a década de 1920, os cristãos têm-se inclinado à polarização. Enquanto uma ala da Igreja experimenta um crescente declínio do seu ímpeto evangelizador, a ala fundamentalista experimenta uma grande vitalidade e faz um significativo investimento na obra evangelizadora. Enquanto a primeira preocupa-se com o social, a segunda imagina que a necessidade fundamental do ser humano é ouvir uma mensagem evangelizadora que lhe apresente o céu como destino último, por isso sua mensagem inclina-se numa única direção, a evangelização. Stott lembra que, durante cerca de cinqüenta anos (1920-1970) os evangélicos, tentando defender a fé histórica bíblica contra os ataques do liberalismo, reagiram em oposição ao seu “evangelho social”, concentrando-se na evangelização. O capítulo 3 preocupa-se mais sobre esta questão histórica em particular.

A partir do Congresso sobre a Missão Mundial da Igreja, ocorrido em Wheaton, entre os dias de 9 a 16 de abril de 1966, os evangelicais reafirmaram que a mais urgente necessidade da Igreja é a evangelização e a implantação de novas igrejas. O tema, crescimento da Igreja, entrou na pauta e tornou-se a bandeira de uma parcela mais fundamentalista da Igreja. Wheaton foi marcado por freqüentes ataques ao movimento ecumênico, acusado de liberalismo teológico, perda da convicção evangélica, universalismo da teologia, substituição da evangelização pela ação social e a busca da unidade em preterição da verdade bíblica.8 No entanto, o congresso deu um passo significativo em direção a uma visão holística do evangelho, visto que nele foi possível discutir a relação entre evangelização e ação social. Foi também uma inegável oportunidade para ouvir outras vozes evangélicas, provenientes de outros países que não os Estados Unidos da América. Naquele mesmo ano de 1966, entre os dias de 24 de outubro e 4 de novembro, realizou-se o Congresso Mundial de Evangelização de Berlim, patrocinado pela Christianity Today, que trouxe à tona, novamente, a urgência da evangelização. O congresso estava comprometido com a autoridade última da Bíblia e rejeitava todo pensamento sobre evangelização que não houvesse encontrado esteio nas Sagradas Escrituras. O esforço evangelístico foi reafirmado como tarefa primordial da Igreja, ao mesmo tempo em que se evidenciou uma sensível preocupação com a relação evangelização-ação social. Berlim indagou acerca do racismo, fazendo-lhe uma severa crítica e entendendo-o como empecilho ao testemunho evangelístico. Talvez uma das principais atitudes ali ressaltadas foi destinar maior visibilidade à causa evangelical. Luiz Longuini Neto afirma que o citado congresso deu início ao movimento evangelical contemporâneo.9

David M. Howard, Secretário da Aliança Evangélica Mundial apresentou, na Conferência de Wheaton, uma palestra intitulada “De Wheaton 66 a Wheaton 83″. Neste trabalho ele traçou a história do esforço do evangelicalismo pata definir a natureza e a missão da igreja. Enquanto em Wheaton 66 e Berlim 66 a tendência foi definir a missão da Igreja quase que exclusivamente em termos de evangelismo, Lausanne 74 representou uma compreensão mais ampla ao enfatizar tanto o evangelismo como a responsabilidade social, enquanto dava primazia ao evangelismo.10

Lausanne sofreu grande influência de Wheaton e de Berlim. A investigação indica, contudo, que Lausanne nasceu com o objetivo de encontrar um equilíbrio entre evangelização e ação social, mas onde a evangelização deveria receber prioridade, sem que isto significasse uma alienação quanto à questão social. Neste sentido o congresso suíço foi um formidável avanço em relação aos encontros evangelicais anteriores que, conquanto tenham abordado o tema, não conseguiram ampliar a visão da missão da Igreja.

O congresso foi significativo em três sentidos principais. Primeiro, como com as reuniões do Concilio Mundial de Igrejas, a partir dos anos sessenta, o Terceiro Mundo manteve presença em Lausanne. Metade dos participantes, dos oradores e do comitê de planejamento era do Terceiro Mundo. Além disso, alguns dos documentos pronunciados mais provocativos e influentes foram de dois latino-americanos, Samuel Escobar e René Padilla.

Em segundo lugar, como aconteceu com o catolicismo romano no Segundo Concilio Vaticano, a atitude anterior dos evangélicos de “triunfalismo” foi substituída por uma atitude de arrependimento. Lausanne representa a importância e influência crescente do Evangelicalismo universal, mas isto tem sido acompanhado por um reconhecimento de que nem tudo foi saudável no passado e que lições podem ser aprendidas com os outros.

Em terceiro lugar, este arrependimento é manifesto, especialmente na área de responsabilidade social cristã. Enquanto os evangélicos estavam em primeiro plano na preocupação social no século passado, este século tem visto uma inversão e, em muitos casos, uma total retirada do campo.11

O Pacto de Lausanne destaca-se entre as muitas contribuições significativas do congresso. Formulou-se esta declaração, dividida em quinze parágrafos, a qual, ainda hoje é lida com todo o respeito, já que, de certa maneira, ousou posicionar-se contra um evangelho mutilado e um conceito estreito de missão cristã. Dentre os vários temas contemplados pelo pacto, talvez o de maior melindre haja sido a questão da responsabilidade social da Igreja. Robinson Cavalcanti, referindo-se ao pacto, afirmou que, por excelência, ele é uma confissão de fé para os dias hodiernos.12

Loguini Neto menciona outras reações ao Pacto, demonstrando que houve um significativo boicote ao mesmo.

O boicote ao Pacto de Lausanne aconteceu, desde então, articulado por grupos fundamentalistas que o achavam extremamente progressista. Dentre esses grupos podemos citar: a Associação Evangelística de Luis Palau; a Cruzada Estudantil e Profissional para Cristo; e a Escola de Missões do Seminário Fuller, cujo líder é Peter Wagner. No ano de 1988, alguns líderes eclesiásticos solicitaram ao Celep que promovesse uma consulta sobre o impacto do Movimento de Lausanne na América Latina, demonstrando uma preocupação legítima, uma vez que a intuição daqueles líderes estava correta: havia realmente um boicote ao Pacto de Lausanne na América Latina. No Brasil, uma publicação que traz o sugestivo título “Depois de Lausanne… Evangelismo na América Latina” apresenta relatórios e mensagens do 1º e 2º Encontros de Líderes Evangélicos na América Latina. Este material foi auspiciado por um “Comitê pós-Lausanne” em junho de 1977 e tinha como presidente o pastor batista Nilson do Amaral Fanini, que atualmente preside a Convenção Batista Brasileira. O único mérito da publicação, que a identifica com o espírito de Lausanne, é apresentar o pacto; o restante é quase uma traição aos princípios estabelecidos por ele.16

Não obstante as reações haverem sido tão diversas contra o Pacto de Lausanne, ele continua sendo um documento de constante leitura e releitura, pois conseguiu visitar e tratar, com absoluta seriedade, temas presentes na agenda da Igreja. Entendo que, para uma melhor compreensão do Pacto, cabe citá-lo, não integralmente, mas de maneira sucinta, dando ênfase aos seus parágrafos, numa adaptação do comentário ao Pacto feito por John Stott. Abaixo, é transcrito o termo de abertura do Pacto de Lausanne e, em seguida, uma síntese do mesmo, enfatizando especialmente o quinto parágrafo que trata sobre a responsabilidade social da Igreja.

Nós, membros da igreja de Jesus Cristo, procedentes de 150 nações, participantes do Congresso Internacional de Evangelização Mundial, em Lausanne, louvamos a Deus por sua grande salvação, e regozijamo-nos com a comunhão que, por graça dele mesmo, podemos ter com ele e uns com os outros. Estamos profundamente tocados pelo que Deus vem fazendo em nossos dias, movidos ao arrependimento por nossos pecados e desafiados pela tarefa inacabada da evangelização. Acreditamos que o evangelho são as boas novas de Deus para todo o mundo e, por sua graça, decidimo-nos a obedecer ao mandamento de Cristo de proclamá-lo a toda a humanidade e fazer discípulos de todas as nações. Desejamos, público o nosso pacto.17

O propósito de Deus

A autoridade e o poder da Bíblia

A unicidade e a universalidade de Cristo

A natureza da evangelização

A responsabilidade social cristã

A Igreja e a evangelização

Cooperação na evangelização

Esforço conjugado de Igrejas na evangelização

Urgência da tarefa evangelística

Evangelização e cultura

Educação e liderança

Conflito espiritual

Liberdade e perseguição

O poder do Espírito Santo

O retorno de Cristo

1. O propósito de Deus

O Pacto de Lausanne começa mencionando a vocação divina, porque em Deus a Igreja é chamada e enviada à missão. Ele é o Deus missionário. Tudo começa com Ele.

John Stott comenta que “o primeiro parágrafo do Pacto expressa a compreensão trinitária da missão e encara a tarefa missionária da Igreja como uma vocação dos membros do povo de Deus de serem servidores e testemunhas com vistas à expansão do reino de Deus”.18

A) O caráter de Deus

A convenção não pretende fazer uma análise acurada sobre o Ser de Deus. Mesmo assim, o primeiro parágrafo demonstra que Nele residem as nossas motivação e vocação. Ele é o único Deus eterno, Criador e Senhor do mundo.

B) O propósito de Deus

O propósito divino foi chamar um povo para Si. Quando o acordo faz esta afirmação, apresenta-nos o caráter redentor de Deus.

C) A vocação humana

O Deus que redime é o mesmo que envia o povo redimido, mesmo em vasos de barro, o Evangelho continua sendo um tesouro precioso.

2. A autoridade e o poder da Bíblia

A Bíblia são as Escrituras do Antigo e do Novo Testamentos, que, em sua totalidade, refletem aquilo que dá autoridade à vocação da Igreja. É a partir das Escrituras que a Igreja ouve a voz de Deus, a qual a chama e a envia à missão.

A) O poder da Bíblia

O Pacto afirma o poder da Palavra de Deus. Quando Deus fala, também age. Sua Palavra nunca volta vazia para Ele; sempre cumpre o seu propósito (Is. 55:11).

B) A interpretação da Bíblia

O Pacto esclarece que a mensagem bíblica é a mesma para todos os homens, em todos os lugares e em todos os tempos. Entretanto, ao mesmo tempo, enfatiza a participação do Espírito Santo, iluminando as mentes para que as Escrituras tornem-se verdade constantemente inovadora no coração do ser humano.

3. A unicidade e a universalidade de Cristo

O terceiro parágrafo é intransigente em sua visão cristocêntrica, bem como em sua leitura sobre o pecado do ser humano, seu afastamento de Deus e sua incapacidade de encontrar salvação de per si. Deus, em Cristo Jesus, tomou a iniciativa de alcançar o ser humano com Sua graça.

A) Ele é o único Salvador

O ser humano dispõe de algum conhecimento sobre Deus, isto se dá em face da revelação geral. Contudo, este conhecimento não lhe confere a capacidade de experimentar a salvação. Jesus Cristo é o único Salvador.

B) Ele é o Salvador do mundo

Por ser Ele, Jesus Cristo, o único Salvador, a Igreja precisa fazê-lo conhecido universalmente. Proclamar a Jesus Cristo como “o Salvador do mundo” é anunciar o amor de Deus a um mundo de pecadores. Amor tamanho, que fez o Senhor dar seu único Filho à morte na cruz.

4. A natureza da evangelização

No seu sermão de início, Billy Graham expressou, como esperança primeira em relação ao congresso, o desejo de que ele formulasse uma declaração bíblica sobre a evangelização. Ao final, Grahan, declarou-se satisfeito, porque entendeu que tal expectativa foi concretizada, tornando-se esta um fato de consenso em todo o encontro.

No quarto parágrafo, o Pacto inicia com uma definição e prossegue descrevendo o contexto da evangelização; a saber, o que deve vir antes e depois dela.

A) Definindo evangelização

A palavra “evangelização” deriva de um termo grego que representa, em seu sentido literal, “trazer ou difundir boas novas”. Sendo assim, ao falar sobre evangelização, é preciso haver em mente o conteúdo da evangelização, a pessoa de Cristo Jesus.

B) Prelúdio à evangelização

A verdadeira evangelização nunca ocorre num vácuo. Ela pressupõe um contexto do qual não se pode isolar. Certa situação necessariamente a precede. Ao referir-se a tão imprescindível pressuposto, o Pacto deliberadamente usa as palavras “presença”, “proclamação”, “persuasão” e “diálogo”.

O prelúdio da proclamação é a presença. Como partilhar o Evangelho de Jesus Cristo com pessoas com as quais não mantemos nenhum contato? A presença cristã no mundo não substitui a proclamação, a persuasão ou o diálogo, antes, vem a ser o preâmbulo de todos estes elementos.

C) Os resultados da evangelização

A evangelização traz como resultado a obediência a Cristo, o ingresso em sua Igreja (pertencer a Cristo é pertencer ao povo de Cristo, At 2.40, 47) e um serviço responsável no mundo.

5. A responsabilidade social cristã

Indubitavelmente este foi o tema mais controverso de todo o Pacto, que, inclusive, precisou ser discutido, com mais vagar, em Grand Rapids, 1982. Se, por um lado, o enfoque cristocêntrico demonstrou o conservadorismo da convenção, de outro modo, quanto ao aspecto social, testemunhou-se em Lausanne uma visão, no mínimo, progressista. Por agora, não há a pretensão de desenvolver o prisma do qual partiu o Congresso quanto à questão social, fá-lo-ei adiante e de forma mais acurada.

6. A Igreja e a evangelização

Neste parágrafo, acentua-se limpidamente que a Igreja foi enviada ao mundo da mesma forma que o Senhor Jesus o foi e isso requer uma penetração profunda e sacrificial na sociedade não-cristã.

A) Deixando os guetos eclesiásticos

A Igreja foi chamada para deixar os seus guetos. Fomos convocados a abandonar as quatro paredes de um templo c, ao nos dirigirmos ao mundo, impactá-lo com a verdade do Evangelho.

B) Prioridade evangelística

Na missão de serviço sacrificial da Igreja, a evangelização é primordial. Partindo da premissa do sexto parágrafo, o referido serviço é inarredável, todavia, a evangelização é algo prioritário.

7. A cooperação na evangelização

No primeiro parágrafo do ajuste há uma referencia ao propósito de Deus para a Igreja, mas esse propósito encontra-se melhor trabalhado em dois parágrafos que podem ser estudados conjuntamente. Eles aludem à missão da Igreja e às suas integridade e unidade.

A) Unidade diante da verdade

O que reveste o testemunho de autoridade é a unidade, o divisionismo simplesmente depõe contra nós.

B) Unidade mais ampla

A unidade que o sétimo parágrafo enfatiza passa necessariamente pela uniformidade na verdade, na adoração, na santidade, na missão e na cooperação, em que o compartilhar recursos e experiências faça-se presente.

8. Esforço conjugado de Igrejas na evangelização

O oitavo parágrafo lembra o papel da Igreja, todo o corpo de Cristo, como comunidade missionária que envia missionários para as mais diversas, longínquas partes do mundo.

A) Todo o corpo de Cristo, um povo missionário

Esta alínea enfatiza que, no passado, a função dominante das missões do Ocidente era muito clara, mas hoje, esta função tem desaparecido rapidamente. Sendo assim, novas frentes missionárias devem ser levantadas, nesse sentido, todo o corpo de Cristo deve sentir-se responsável pela evangelização, tanto na sua própria área, na sua própria realidade, como a partir do envio de missionários a localidades mundiais diversas.

9. Urgência da tarefa evangelística

Tanto o parágrafo oitavo, quanto o nono tratam do mesmo tema: evangelização. Ambos podem ser lidos e entendidos de forma conjugada, pois este é o âmago do Pacto de Lausanne.

A) Urgência diante dos esquecidos

Lausanne lembra que mais de dois bilhões e setecentos milhões de pessoas, dois terços da humanidade, ainda precisam ser alcançados com o Evangelho de Jesus. Muita gente tem sido esquecida. A Igreja precisa ser sensível, percebendo que, nos últimos dias, tem existido uma significativa receptividade à mensagem do Evangelho, sendo assim, ela não pode desprezar tão considerável oportunidade.

B) Instituições Para-Eclesiásticas

Não obstante o pacto, em seu sexto parágrafo, destacar que o “meio designado por Deus para difundir o Evangelho” seja a Igreja, reconhece-se a validade das instituições para-eclesiásticas, as quais, na missão, devem tornar-se parceiras da Igreja.

C) Missionários estrangeiros

O parágrafo nono sugere que o número de missionários estrangeiros, bem como o dinheiro enviado para um país evangelizado sofra significativa diminuição, entendendo que o redutor pode facilitar o crescimento da igreja nacional e assegurar a autonomia desta.

D) Os milhões empobrecidos

A pobreza de milhões deveria chocar a Igreja. Infelizmente, o que se tem visto é um acostumar-se com a desgraça alheia, como se isto representasse apenas um reflexo do juízo divino. A Igreja precisa sentir-se indignada diante da miséria do outro, abrindo mão de sua opulência, optando por um estilo de vida simplificado e tornando-se mais generosa diante da necessidade do outro. Não se pode abrir morada para a alienação no seio da Igreja de Jesus.

10. Evangelização e cultura

O desenvolvimento de estratégias para a evangelização mundial requer metodologia nova e criativa. A Igreja precisa ser sábia para proclamar o Evangelho dentro de culturas distintas, respeitando-as, posto que, parte delas, é rica em beleza e em bondade.

A) Não existe uma cultura superior à outra

O Evangelho não pressupõe a superioridade de uma cultura sobre outra.

11. Educação e liderança

O décimo e o décimo primeiro parágrafos lidam com dois temas relacionados entre si: educação e liderança. Ambos estão atrelados a Igrejas nascidas do labor missionário.

A) Crescimento com lucidez

Infelizmente a busca por resultados quantitativos tem caracterizado a Igreja. O crescimento numérico tem sido um grande anseio em detrimento do crescimento espiritual. Imprescindível haver um nítido equilíbrio. A igreja deve crescer numericamente sem prejuízos à educação e ao amadurecimento, demonstrando insofismável interesse pela edificação de cada crente.

B) Preparando a liderança

A Igreja necessita preparar uma liderança dentro de sua própria cultura. Os pastores e leigos devem ser treinados e preparados em doutrina, discipulado, evangelização, edificação e serviço. Esse treinamento deve ser desenvolvido a partir de iniciativas locais ativas e criativas e sob o esteio do padrão bíblico.

12. Conflito espiritual

A realidade espiritual hodiernamente vivenciada vislumbra maior ênfase na décima segunda disposição. O conflito com principados e potestades do mal que almejam destruir a Igreja e impedir a sua tarefa de evangelização mundial é uma realidade. Ainda, observa-se que esta mesma alínea exalta a influência do mundo sobre a Igreja. A “mundanidade” no cerne da Igreja deve ser vista com preocupação, pois a mesma pode afetar a sua mensagem e os métodos de evangelização. Sob o eco de João 17.14-16, a Igreja é advertida a estar no mundo, porém o mundo não necessita estar na Igreja.

13. Liberdade e perseguição

A Igreja deve desfrutar da liberdade expressa na Declaração dos Direitos Humanos, enfoca o décimo terceiro parágrafo. Neste ponto, existe um desafio para que a Igreja denuncie as injustiças que têm solapado muitos países e, por conseguinte, atingido a Igreja. Existe uma ostentação sobre a fidelidade, a qualquer custo, lembrando-nos de que servir a Jesus fielmente pode trazer perseguição.

14. O poder do Espírito Santo

A décima quarta disposição realiza uma afirmação categórica: “cremos no poder do Espírito Santo”. Este parágrafo estimula a Igreja e desperta-a para viver e caminhar na dependência c no poder do Espírito Santo.

15. O retorno de Cristo

O décimo quinto parágrafo está revestido de esperança. O retorno de Jesus será o ápice daquilo que a Igreja anseia.19

Para melhor discorrer sobre o tema e o significado do mesmo para a Igreja de Jesus, transcreve-se abaixo o quinto parágrafo do Pacto de Lausanne:

Afirmamos que Deus é o Criador e o Juiz de todos os homens. Portanto, devemos partilhar Seu interesse pela justiça e pela reconciliação em toda a sociedade humana, e pela libertação dos homens de todo tipo de opressão. Porque a humanidade foi feita à imagem de Deus, toda pessoa, sem distinção de raça, religião, cor, cultura, classe social, sexo ou idade possui uma dignidade intrínseca em razão da qual deve ser respeitada e servida, e não explorada. Aqui também nos arrependemos de nossa negligência e de havermos, algumas vezes, considerado a evangelização e a atividade social mutuamente exclusivas. Embora a reconciliação com o homem não seja reconciliação com Deus, nem a ação social evangelização, nem a libertação política salvação, afirmamos que a evangelização e o envolvimento sócio-político são ambos parte do nosso dever cristão. Pois ambos são necessárias expressões de nossas doutrinas acerca de Deus e do homem, de nosso amor por nosso próximo e de nossa obediência a Jesus Cristo. A mensagem da salvação implica também uma mensagem de juízo sobre toda forma de alienação, de opressão e de discriminação, e não devemos ter medo de denunciar o mal e a injustiça onde quer que existam. Quando as pessoas recebem Cristo, nascem de novo em seu reino e devem procurar não só evidenciar, mas também divulgar a retidão do reino em meio a um mundo injusto. A salvação que alegamos possuir deve estar nos transformando na totalidade de nossas responsabilidades pessoais e sociais. A fé sem obras é morta.20

16. O caráter de Deus

A primeira parte da disposição acima transcrita focaliza o Ser de Deus, Ele é o Criador e Juiz de todos os homens. Como afirmou Stott, “é significativo que uma disposição inteiramente relacionada com a ‘responsabilidade social cristã’ tenha origem com uma afirmação acerca de Deus. Isto está certo, pois a nossa teologia deve sempre governar a nossa conduta”.21

Quando a assertiva acima inicia falando sobre Deus, está querendo dizer que o pilar de sustentação de nossas ações está no caráter do próprio Deus. Sendo assim, nada melhor do que olhar para o Deus missionário, o Deus que toma a iniciativa de resgatar a humanidade, o Deus que envia o próprio filho, filho que não apenas vem como Salvador, incumbido de transferir o ser humano da terra para o céu, mas, inclusive, disposto a tratá-lo com dignidade, carinho e atenção. A nossa motivação para agir em favor do próximo deve ser a ação divina em favor da humanidade.

17. O ser humano

Se na primeira parte da assertiva a exaltação recai sobre o caráter divino, na segunda, destaca o ser humano. A motivação da igreja na ação social passa inevitavelmente pela percepção de que Deus criou o ser humano à sua imagem. Esta percepção deve levar a Igreja ao arrependimento pelos tempos em que se omitiu e acomodou, deixando de agir de modo que gerasse transformação e libertação da humanidade em face de qualquer tipo de opressão.

O pacto, com muita felicidade, instiga os cristãos a partilhar do interesse divino pela justificação e reconciliação de toda a sociedade humana, pois o ser imagem de Deus e o ser por Ele criado, torna o homem indistintamente especial, de cujo valor a Igreja não se pode deslustrar, independentemente de raça, cor, religião, cultura, classe social, sexo ou idade.

18. Evangelização e ação social

Pretendendo evitar maiores delongas, neste momento, sobre a relação evangelização-responsabilidade social o que farei posteriormente. Porém, desde já, saliento o que o Pacto afirma sobre este aspecto.

Lausanne estabelece que a Igreja foi chamada, tanto para a evangelização, quanto para a ação social, entendendo que são elementos distintos e que devem integrar o dever cristão, pois ambos relacionam-se com o Ser de Deus e com o caráter c a necessidade do ser humano. Evangelização e ação social não são excludentes, ao contrário, devem ser parceiras na missão.

19. Uma voz profética

O parágrafo que ora se destaca também dá ênfase ao papel profético da Igreja. A mensagem de salvação é mensagem de juízo sobre toda alienação, opressão e discriminação, desta forma, ela também deve denunciar o mal e a injustiça onde quer que estes se façam presentes.

20. Salvação deve ser sinônimo de transformação

A alínea conclui com um desafio ao compromisso cristão pessoal. Ser cidadão do reino evidencia, na prática, aquilo que aconteceu na vida por causa da presença de Jesus. E esta presença deve revolucionar a vida do cristão. Ser cristão, significa ter passado por uma metamorfose, conceitos e posturas são revistos e transformados.

De alguma maneira, o que foi dito até aqui permite dispor de um vislumbre do que Lausanne afirmou sobre a responsabilidade social da Igreja. Mas, se a afirmação de Lausanne foi um progresso, tal atitude não foi vista com tanta tranqüilidade. O Pacto coloca, lado a lado, a evangelização e a responsabilidade social, mas não define a relação existente entre as duas. A responsabilidade social da igreja suscitou discussões quanto à preeminência. Afinal, quem virá primeiro: a evangelização ou a responsabilidade social?

As discussões e a desconfiança sobre a questão social em preterição da evangelização foram instrumentos que, em 1 982, em Grand Rapids, motivaram um grupo a debater e definir mais claramente qual a relação entre evangelização e responsabilidade social. Com maior exatidão, o tema será desenvolvido a posteriori.

 

Capítulo 2

A responsabilidade social cristã no Pacto de Lausanne

1. A relação entre responsabilidade social e evangelização

Na primeira parte deste trabalho, foi apresentada a proposta de responsabilidade social do Pacto de Lausanne. Posteriormente, revelou-se a dificuldade em reconhecer-se a relação entre evangelizaçao e responsabilidade social, o que inevitavelmente gerou um certo conflito no Congresso Suíço. Indaga-se, porém qual dos dois seria mais importante. Será que evangelizaçao exclui a ação social da Igreja? Ou será que a ação social é que exclui a ação evangelizadora?

Cada época tem conhecido controvérsias e debates no campo da teologia, alguns de difícil aplicação para o cotidiano, como o clássico debate sobre o “sexo dos anjos” na Igreja Bizantina, outros de caráter mais relevante como “para que serve a Igreja?”, ou seja, qual a natureza de sua missão? Uma influência platônica tem estado presente ao longo da História do Cristianismo, separando corpo e alma, matéria e metafísica. Em nossos tempos essa influência tem sua face visível naqueles cristãos apenas preocupados com a “alma’1, a “vida espiritual” (contrastada com a vida material), o “outro mundo”, a vida após a morte, de tendência ascética, separatista e alienada. Para essas pessoas, a missão da Igreja é resgatar indivíduos isolados, garantindo-lhes a vida abençoada após a morte, enquanto aqui deve se separar do mundo, cultivar uma religiosidade intimista, lutando contra a “carne”, manifestada em usos e costumes. O mundo não tem futuro, nada nos resta fazer por ele, e não nos devemos meter em questões políticas, sociais e econômicas. A vida do homem deve se resumir a ir para o trabalho, para a igreja e para sua casa… e que tudo o mais vá para o inferno…22

Por ora, discorre-se detalhadamente sobre a controvérsia acima referida, a qual indubitavelmente despertou os mais significativos entraves para os participantes de Lausanne. As respostas às questões acima verificam o que de fato afirmou o mencionado congresso, levantando-se um apanhado de posições que encontram uma enorme dificuldade em relacionar a evangelização com a responsabilidade social.

O assunto em questão leva inevitavelmente a definições, mesmo sabendo que a conceituação importa enclausurar os termos “Evangelização” e “Responsabilidade Social”. Paralelamente, analisa-se o que o Pacto de Lausanne afirmou sobre a questão, bem como o que a Consulta de Grand Rapids, concluiu sobre o assunto, buscando entender como os dois elementos relacionam-se.

Falar sobre responsabilidade social encontra, ainda hoje, certa resistência de alguns, porque existe considerável receio de que a ação social engendre algum tipo de alienação evangelística. Peter Wagner afirma que vários grupos de trabalho foram nomeados pelas sete maiores denominações nos Estados Unidos da América, onde a maioria dos membros é branca (a Igreja Metodista Unida, a Igreja Evangélica Luterana, a Igreja Presbiteriana, a Igreja Luterana — Sínodo de Missouri — a Igreja Episcopal, a Igreja de Cristo Unida e as Igrejas Batistas), para verificar a razão do decréscimo ocorrido em sua membresia no período entre 1946 a 1996, quando perderam dois terços de seus membros. Os relatórios concluíram que a forte preocupação com o social, em detrimento da obediência ao mandamento evangelístico, tem sido uma das principais causas do declínio das igrejas.23

A impressão é de que a resistência de certa ala da Igreja à questão social está diretamente relacionada com a influência do evangelho social, sendo este um tema defendido pelos liberais e que suscitou, da parcela conservadora da Igreja, o que ficou conhecido como os fundamentos, os quais eram artigos escritos por conservadores americanos de todas as denominações históricas que se coligaram para defender a fé cristã da intrusão do liberalismo nos seus seminários e igrejas. Os fundamentos deram origem ao termo Fundamentalismo, conforme o conhecemos, embora, hodiernamente, haja se tornado um conceito pejorativo.

Por um lado, se os fundamentalistas, como ficaram conhecidos aqueles que produziram e acolheram esse documento, resgataram a importância das Escrituras (inspiração, infalibilidade e inerrância), a divindade de Cristo, o nascimento virginal de Cristo e os milagres, o sacrifício propiciarório de Cristo e sua ressurreição literal e física e seu retorno, por outro lado, radicalizaram, chegando mesmo a atingir extremos tão perigosos quanto o liberalismo de que tentavam defender-se. Numa tentativa de rechaçar a teologia liberal com todos os seus “perigos” resolveram também repelir o que de melhor havia nos teólogos liberais, especialmente quanto à sua visão holística do ser humano e sobre a responsabilidade social da Igreja.

Ás vezes a diferença entre estes pontos de vista se evidencia não apenas em tensão, mas até numa polarização estéril, geralmente ao longo das linhas divisórias entre evangelicais e liberais, cada um deles manifestando uma reação exagerada em relação à posição do outro. Os primeiros tendem a concentrar-se exclusivamente na evangelização, negligenciando a necessidade social, seja ela comida para os famintos ou libertação e justiça para os oprimidos. Os últimos vão para o extremo oposto, tendendo a negligenciar a evangelização ou tentando reinterpretá-la em termos de ação sócio-polítíca, tais como a humanização de comunidades ou a libertação dos oprimidos. Assim o estereótipo evangelical tem sido espiritualizar o evangelho, negando suas implicações sociais, enquanto que o estereótipo ecumênico tem sido politizado, negando sua oferta de salvação para os pecadores. Esta polarização tem sido um desastre.24

Definindo Evangelização

Poder-se-ia esperar que a Igreja de Jesus estivesse habilitada a definir facilmente o significado de evangelização, tendo em vista a primazia que ela sempre destinou ao tema. Curiosamente é possível perceber que existem maneiras distintas de fazê-lo.

J. I. Packer, em seu livro, “Evangelização e Soberania de Deus”, esclarece a definição de evangelização apresentada pela Comissão de Arcebispos da Igreja Anglicana, em seu relatório sobre a obra evangelística da Igreja em 1918, nos seguintes termos: “Evangelizar é apresentar Cristo Jesus de tal modo que, no poder do Espírito Santo, os homens venham a depositar sua confiança em Deus através d’Ele, aceitando-O como seu Salvador e servindo-O como seu. Rei na comunhão de Sua Igreja”.25

Por sua vez, Wadislau Martins Gomes afirma que “mais que pregar, evangelizar é fazer discípulos, isto é, fazer seguidores de Jesus”.26

O que causa maior surpresa nas definições acima apresentadas é perceber que evangelização acaba confundindo-se com resultado. Sem resultados, conversão, discípulos, servos, não houve evangelização. Os dois conceitos esquecem-se de que o papel da Igreja é evangelizar, é proclamar as boas novas do reino de Deus, no entanto, o resultado não depende dela, mas da ação soberana de Deus. O Espírito Santo é aquele que convence o homem do pecado, da justiça e do juízo.

Em Caruaru, cidade do Estado de Pernambuco, foi possível verificar-se que a busca por resultados levou as igrejas a se envolverem com o ministério de casais, na esperança de que, ao atingir um casal em crise, abrir-se-iam portas bem maiores, posto que os filhos, pais, sogros, parentes mais próximos que, de alguma forma vivenciaram o problema familiar, igualmente seriam alcançados. Quando o Encontro de casais com Cristo (E.C.C.) foi apresentado às igrejas evangélicas da cidade, estas se sentiram motivadas a investir no projeto. A reboque, implementaram encontros de jovens e de amigos, tentando, neste último caso, tratar de pessoas solitárias, solteiras, viúvas e divorciadas.

Os encontros de casais levaram inúmeras pessoas para dentro das Igrejas. Infelizmente, porém, as pessoas que eram convidadas a participar dos encontros não estavam concomitantemente repensando seus lares, mas sutilmente estavam sendo apenas evangelizadas. Tal afirmação refere-se à idéia defendida por alguns de que os fins justificariam os meios. Os resultados surgiram com velocidade vertiginosa. Em muito pouco tempo, as igrejas que introduziram os encontros puderam alegrar-se com os resultados, com os frutos. Mas, sem que percebessem, algo de errado estava acontecendo. Houve uma espécie de “constantinização” no seio da igreja caruaruense. As pessoas que foram chegando não estavam preparadas para o novo, até porque o ambiente dos encontros era bem diferente daquilo que as igrejas ofereciam em seus cultos, o que gerou um desconforto natural. Muitos dos que se aproximaram das igrejas e tornaram-se membros não foram preparados, discipulados, sequer acompanhados, mas passaram a integrar as respectivas comunidades que promoviam os encontros como fruto dessa busca desesperada por resultados por parte da liderança, gerando enorme mal estar e em seguida divisão nas igrejas.

Os encontros logo se depararam com opositores que entenderam que a postura das igrejas, diante do novo método evangelístico, limitava-se à busca de resultados imediatos, sem interesse pela transformação de vidas. A crise familiar era a ponte usada para a evangelização. A experiência em Caruaru reflete um pouco dos desvios que podem surgir na busca por resultados.

Carlos Caldas Filho apresenta ao menos quatro críticas, que julga as principais desse método que busca resultados a qualquer preço.

1 – A preocupação excessiva com quantidade, em detrimento da qualidade;

2 – Espiritualização da tarefa missionária da igreja em detrimento de outros aspectos importantes, como a luta pela justiça e o atendimento das necessidades humanas concretas;

3 – Uma “jejuitização” da metodologia missionária, no sentido de que “os fins justificam os meios”;

4 – Escassa (ou nenhuma) base bíblica para justificar a metodologia empregada.”

Não se pode ser injusto com os encontros de casais, de jovens e de amigos. Em alguns casos, houve transformação social. Maridos que eram alcoólatras experimentaram conversão e consequentemente tornaram-se melhores pais, maridos e profissionais. Houve também no seio das igrejas uma maior conscientização da sua tarefa evangelística. As comunidades evangélicas saíram do seu “gueto” e começaram a perceber a crise de outros e não somente as crises da família da fé.

Evangelização é a proclamação das boas novas da salvação em Jesus Cristo, visando a levar a efeito a reconciliação entre o pecador e Deus Pai, mediante o poder regenerador do Espírito Santo. Evangelização é parte essencial da missão da Igreja. Originalmente o termo evangelizomai, significa trazer ou anunciar o evangelion, as boas novas. O Congresso sobre Evangelização realizado na cidade de Berlim em 1966 descreve, de maneira prática e precisa, o que vem a ser evangelização:

Evangelização é a proclamação do Evangelho do Cristo crucificado e ressurreto, o único redentor do homem, de acordo com as Escrituras, com o propósito de persuadir pecadores condenados e perdidos a pôr sua confiança em Deus, recebendo e aceitando a Cristo como Senhor em todos os aspectos da vida e na comunhão de sua igreja, aguardando o dia de Sua volta gloriosa.2S

Existe uma lenda sobre a volta de Jesus à glória, após o seu tempo na terra que reflete a responsabilidade evangelística da Igreja. No céu, Ele continuava com as marcas de sua peregrinação na terra e, inclusive, as marcas da cruz e sua vergonha, Exatamente no céu tem lugar um diálogo entre o anjo Gabriel e Jesus.

— “Mestre, tu deves ter sofrido muito por causa dos homens na terra, disse Gabriel”.

— “Sim, de fato”, respondeu Jesus.

— “Jesus, eles sabem tudo sobre o teu amor e sobre o que fizeste por eles?”

— “Ó, não”, disse Jesus, “Ainda não. Neste momento apenas um punhado de gente na Palestina sabe”. Diante da resposta de Jesus, Gabriel ficou admirado e perguntou:

— “O que fizeste para que teu amor fosse conhecido?”

— “Pedi a Pedro, Tiago, João e alguns amigos para contarem sobre mim a outras pessoas. Quem me conhecer, por sua vez, contará a outras pessoas, que contarão a outras, até que toda a humanidade saiba do meu amor”.

Gabriel, conhecendo a natureza humana, perguntou com certo ceticismo:

“E se aqueles a quem de tal tarefa foi incumbida se esquecerem de proclamar a verdade? E se no século XX as pessoas não contarem umas às outras acerca do teu amor? Não existe um plano de emergência?”

— “Não. Estou contando com eles”, respondeu Jesus.”29

A evangelização continua sendo a tarefa prioritária da Igreja de Jesus e Ele continua contando com o Seu povo para proclamar as boas novas do reino. As seguintes definições foram adotadas pelo Comitê de Lausanne para a Evangelização Mundial:

Natureza: A natureza da evangelização é a comunicação das boas-novas.

Propósito: O propósito da evangelização é dar a indivíduos e grupos uma oportunidade válida de aceitar a Jesus Cristo.

Alvo: O alvo mensurável da evangelização é persuadir homens e mulheres a aceitar Jesus Cristo como Senhor e Salvador e servi-lo na comunhão de sua Igreja.30

O Pacto de Lausanne conceituou evangelização nos seguintes termos:

Evangelizar é difundir as boas novas de que Jesus Cristo morreu por nossos pecados e ressuscitou segundo as Escrituras, e de que, como Senhor e Rei, ele agora oferece perdão dos pecados e o dom libertador do Espírito Santo a todos os que se arrependem e crêem. A nossa presença cristã no mundo é indispensável à evangelização, e o mesmo se dá com aquele tipo de diálogo cujo propósito é ouvir com sensibilidade, a fim de compreender. Mas a evangelização propriamente e, assim, se reconciliarem com Deus. Ao fazermos o convite do evangelho, não temos o direito de esconder o custo do discipulado. Jesus ainda convida todos os que queiram segui-lo e negarem-se a si mesmos, a tomarem a sua cruz e a identificarem-se com a sua nova comunidade. Os resultados da evangelização incluem a obediência a Cristo, o ingresso em sua igreja e um serviço responsável no mundo.31

Em sentido mais amplo, evangelização pode ser vista como a obra integral da Igreja para proclamar o Reino de Deus (Marcos 1.15). Ela compreende três amplas categorias:

Evangelismo - proclamação do evangelho aos ainda não alcançados dentro de nossa própria sociedade ou cultura;

Atividade missionária - uma proclamação que interage com a cultura do público-alvo;

Atividade pastoral – ato de prover e aprofundar o evangelho entre aqueles que já o aceitaram.32

É, no mínimo, interessante perceber que a Igreja tem discutido um tema, ao qual se lhe atribui ênfase e certa primazia e, ao mesmo tempo, notar que a evangelização como ação proclamatória limita-se aos púlpitos e ao nosso gueto. O “indo” de Jesus na grande comissão parece não estar recebendo a importância que nosso discurso delega a ele. Quiçá algum dia a Igreja brasileira seja mais coerente com suas proposições. Se a evangelização deve ter primazia, que esta atinja a nossa práxis e afete a nossa criatividade, para que a ação proclamatória aconteça onde a Igreja está e não apenas onde o templo está. Para que isto aconteça, é preciso fazer uma releitura da grande comissão, a fim de que o nosso agir seja transformado. Restamos corroborar com Orlando Costas que, ao definir evangelização, diz:

Evangelizar é participar de uma ação transformadora, isto é, as boas-novas da salvação. Neste sentido, a evangelização não é um conceito, mas sim uma tarefa dinâmica, encarnada na vida e ação salvifica de Jesus Cristo. Portanto, ela não pode ser reduzida a uma fórmula verbal. Evangelizar pelo poder do Espírito Santo a salvação que foi revelada em Jesus Cristo.”

Definindo responsabilidade social

Este tema reveste-se de profundo significado, ao ser confrontado com as afirmações bíblicas e ao voltar-se os olhos para a história da cristandade e ainda, ao constatar-se a crise social, cujas estruturas encontram-se marcadas e maculadas pelo pecado e pela injustiça.

Referir-se à responsabilidade social não significa apenas destacar a filantropia, área muito bem visitada pela Igreja. A Igreja consegue, com cestas básicas, serviço médico ambulatorial, dentistas, tratar de questões que tocam à carência imediata do povo. Numa tragédia é possível ver a Igreja sendo solícita. Na região da mata pernambucana, depois de uma grande tragédia provocada pelas chuvas, foi possível ver a Igreja Evangélica mobilizar-se e engajar-se no socorro às vitimas. Toda essa ação, por mais saliente e importante, continua apenas no campo da filantropia, não alcança as estruturas mais profundas que visem a uma grande transformação. Ao falar sobre responsabilidade social precisamos ir mais adiante. Insofismável abarcar os atos de misericórdias e os atos de justiça.

A fim de explicitar o pensamento deste subscritor sobre responsabilidade social passo a delinear a definição de Hélcio da Silva Lessa que dividiu o tema em três categorias: Assistência Social, Serviço Social e Ação Social. Para facilitar sua definição, Lessa tenta contextualizá-la com uma história:

Nos idos do escravagismo, alguns cristãos, sensibilizados com os escravos castigados e violentados no pelourinho, resolviam ajudá-los com água, pão ou tratamento de suas feridas. Aquela atitude nobre, que não se relacionava com as causas da escravatura e mantinha o escravo na mesma situação, exemplifica o que se pode chamar de Assistência Social.

Na assistência social existe compaixão e manifestações práticas dessa compaixão. Existe coragem para, mesmo numa ínfima proporção, confrontar o erro, mas não existe transformação histórica, o escravo continuará sendo escravo e permanecerá sofrendo no pelourinho, esperando que uma alma caridosa venha cuidar de suas necessidades mais urgentes.

Outros cristãos, com uma visão mais aberta, mais ampla, vão além da assistência. De alguma forma, buscam assegurar a liberdade do escravo, através de levantamento de recursos para que ele seja comprado e libertado. Buscar-se-ão mecanismos para que o liberto encontre um trabalho e possa sobreviver nessa nova condição. Esse tipo de atitude, por mais louvável que seja, pode ser chamado de serviço social.

O problema neste tipo de ação, conquanto o senso de misericórdia tenha ultrapassado em muito a assistência social, pois neste caso se conseguiu a liberdade e um meio de subsistência do livre, é que de fato não operou aqui uma transformação histórica. Resolveu-se o problema de um escravo, mas a escravidão continuará a passos rápidos atingindo a outros e estes continuarão a ser espancados, levados ao pelourinho e muitas vezes violentados até à morte.

Alguns cristãos lançar-se-ão na luta contra a escravatura, para que se elimine definitivamente a opressão sobre o ser humano. Ação esta verdadeiramente eficaz, pois as estruturas serão alcançadas, a instituição escravagista será afetada significativamente. Agora sim, a possibilidade de uma transformação histórica se avizinha. Tal atitude pode ser chamada de ação social.34

O Comitê de Lausanne convocou uma consulta para discutir o tema da relação entre responsabilidade social e evangelização. A consulta julgou mais fácil dividir a responsabilidade social cristã em duas categorias, as quais, para fins de simplificação, podem ser chamadas de “serviço social” e “ação social” e foram distinguidas da seguinte maneira:

SERVIÇO SOCIAL AÇÃO SOCIAL
Socorrer o ser humano em suas necessidades Eliminar as causas das necessidades
Atividades filantrópicas Atividades Políticas e econômicas
Procurar ministrar a indivíduos e Famílias Procurar transformar as estruturas da sociedade
Obras de caridade Busca da Justiça 35

 

Pesa sobre a Igreja a responsabilidade de lutar contra essas estruturas de pecado que continuam oprimindo o ser humano. Não é possível ser Igreja e, ao mesmo tempo, alienar-se. A Igreja é o povo de Deus alerta às injustiças e que não se cala diante delas, ao contrário, esforça-se para que se faça justiça, para que o ser humano seja tratado com dignidade e experimente qualidade de vida já, aqui na terra, pois no céu, sem dúvida alguma, haverá plenitude de vida.

2. A relação entre a evangelização e responsabilidade social

Não é tarefa fácil estabelecer termos, mas tarefa mais complexa é relacionar os já definidos, isto porque, nem sempre é fácil harmonizar palavras e ações; pregação e prática; denúncia e ação transformadora. Além desta dificuldade, é sabido que na caminhada da Igreja, principalmente a partir do final do século XIX e início do século XX, em função do temor da influência do liberalismo, tentou-se separar Evangelização de Responsabilidade Social, entendendo-se com isso que a Igreja seria poupada de todo e qualquer desvio de sua responsabilidade precípua que é a evangelização.

Talvez a única tarefa mais urgente de missões hoje seja relacionar evangelização e ação social. Os cristãos do movimento ecumênico tendem a desconsiderar ou então redefinir a evangelização de tal maneira que a necessidade de um relacionamento novo, pessoal com Deus por meio de Cristo fica diminuída. Outros se inclinam a manter as duas tarefas totalmente separadas, considerando que apenas a evangelização tem valor eterno.

Os cristãos de muitas nações são missionários no mundo hoje – cruzando fronteiras culturais com o amor de Deus. A obra missionária é agora mais extensa e mais internacional do que nunca. Essa obra não está isenta do fracasso de solucionar as questões atualmente debatidas. Mas sem dúvida os missionários cristãos serão mais bem equipados para a tarefa do seu Senhor e Mestre quando se chegar a um equilíbrio adequado entre os diversos aspectos de missões. Em particular:

1 – O evangelho deve ser proclamado tanto em palavras como em ação;

2 – Precisamos tanto identificar-nos com os não-cristãos em suas necessidades, quanto lhes contar as “boas novas” cristãs;

3 – A igreja não está envolvida apenas com a própria expansão, também é o agente da missão de Deus.36

Diante das conclusões do Pacto de Lausanne, que não conseguiu relacionar os dois temas, ação evangelizadora e ação social, conquanto, para ser fiel ao Pacto, em seu sexto parágrafo, faça menção da relação entre os dois temas, afirmando que “o serviço de evangelização abnegada figura como a tarefa mais urgente da igreja” 37. Mesmo assim, James Scherer lembra que algumas questões padeceram de respostas, face às várias alternativas ou opções que interligaram os dois temas. Senão, vejamos:

4 – A de que a responsabilidade social é um afastamento, ou mesmo uma traição da evangelização;

5 - A de que responsabilidade social é evangelização;

6 – A de que a responsabilidade social é uma manifestação – ou uma conseqüência – ou uma parceira da evangelização etc;

7 – A de que responsabilidade social e evangelização são componentes distintos, mas iguais do ministério da Igreja.38

Adiante se encontram delineadas alternativas ou opções que tentam relacionar evangelização e responsabilidade social, conforme Scherer e Nascimento. Num primeiro momento, mais precisamente nos dois primeiros tópicos, são tratadas as reações negativas a tal relacionamento, fruto de uma visão radical daqueles que acreditam que a ação social é uma traição ao evangelismo. Posteriormente, nos tópicos seguintes, são apresentadas as opções que tentam relacionar positivamente os dois temas.

Ação social é um alheamento do evangelismo

Cristãos conservadores, que sustentam uma visão dispensasionalista, portanto destituída de esperança para o mundo, a qual se restringe ao céu, pois o mundo caminha rapidamente de mal a pior e ainda, que consideram a ação evangelizadora a única tarefa da Igreja, entendem que o envolvimento da Igreja com ações sociais é um ato de alheamento do evangelismo.

Ação social é uma traição ao evangelismo

Neste sentido, a reação contra a ação social certamente tem uma relação com o liberalismo defendido pelo evangelho social. Para poupar a Igreja de qualquer desvio da verdade, de qualquer associação com as heresias liberais, desprezou-se a ação social, crendo que tal envolvimento seria, na prática, uma traição ao chamado da Igreja para fazer discípulos.

Ação social como evangelismo

Para alguns, ação social e evangelismo andam juntos, um não existe sem o outro. Nascimento cita Emílio Castro em seu livro, “Liberation Development and Evangelism: Must we Choose in Mission” em que afirma que “o evangelismo existe somente onde há preocupação social, sem ela pode haver propaganda, proselitismo, mas dificilmente boa-nova” 39

Esta opção se torna perigosa, pois acredita que se não houve ação social não houve evangelização, no entanto é possível perceber que, na caminhada da Igreja e mesmo em textos bíblicos, como na parábola do Samaritano, houve ação social sem necessariamente haver evangelização como proclamação.

Ação social como um meio para o evangelismo

Dentre as várias opções sobre o relacionamento evangelização-ação social está aquela que acredita que a ação social pode ser um instrumento, um meio para a evangelização. Na Consulta de Grand Rapids, a ação social foi vista como ponte para a evangelização. Ela pode ser um mecanismo facilitador, derrubando preconceitos, desconfianças e abrindo portas para que a verdade do Evangelho fale ao coração do ser humano.

Como é sabido, as pessoas vêem os cristãos evangélicos como uma Igreja alheia à tragédia humana. Sendo assim, a ação abriria o ser humano para ouvir o que o Evangelho tem a dizer. A leitura da história das missões modernas apresentar-nos-á missionários que, v.g., investiram na saúde pública para facilitar a comunicação com aqueles que deveriam ser alcançados pelo evangelho.

Ação social como uma manifestação do evangelismo

Os defensores desta opção acreditam no envolvimento social como uma demonstração do evangelho. A ação social dá visibilidade à evangelização. Conforme Nascimento, “a analogia da fé e obra na epístola de Tiago é muitas vezes usada para explicar este ponto de vista”.40 Esta leitura utiliza-se do ministério de Jesus para mostrar que, com Ele, palavra e ação andavam de mãos dadas, como irmãs gêmeas.

Ação social como um resultado ou conseqüência do evangelismo

A Consulta de Grand Rapids afirma que a ação social é uma conseqüência da evangelização, ou seja, a evangelização é o meio pelo qual Deus produz nas pessoas um novo nascimento e este novo nascer manifesta-se no serviço prestado aos outros. A definição vai mais adiante e assevera que mais do que simples conseqüência da evangelização, a responsabilidade social é um dos seus principais objetivos. Nesse sentido, entende-se que a resposta natural de uma pessoa alcançada pelo evangelho será o seu envolvimento em ações sociais transformadoras. Parece tratar-se de postura bastante perigosa, visto que se verifica, (ao voltar os olhos para a Igreja, mesmo sabendo que aqueles que a ela pertencem foram alcançados pelo evangelho), a falta de uma ação social séria e radicalmente transformadora. Parece, ainda, que o grande perigo revela-se na perpetuação do status quo, fruto de uma alienação, posto que a Igreja, em sua trajetória, muitas vezes se preocupa com assuntos periféricos, como construção de templo, modernização do som, aquisições de veículo para a comunidade, de terreno para o acampamento da igreja – que não dispõe de tempo, nem de condições financeiras para se envolver com o problema social alheio.

Obviamente não se pretende ser pessimista ao realizar tal critica, posto que teoricamente parece que a teoria alberga congruência com a visão bíblica. Povo transformado deveria ser povo engajado, mas, na prática, percebe-se exatamente o contrário. A Igreja tem exercitado o “ensimesmamento” e toda a sua estrutura parece voltar-se para o benefício da própria comunidade, o que, de alguma maneira, a conduz à alienação quanto à tragédia do outro.

Ação social como parceira do evangelismo

Grand Rapids revelou também que a ação social foi vista igualmente como parceira do evangelismo e, no intuito de ilustrar essa parceria fez-se a seguinte comparação:

elas são como as duas lâminas de uma tesoura, ou como as duas asas de um pássaro.41

Essa parceria aplica-se tanto ao cristão, individualmente, como à igreja local. Obviamente, cada cristão recebe um dom e um chamado diferente que o habilita a concentrar-se em ministérios específicos, assim como os doze foram chamados para um ministério pastoral e os sete para um ministério social. É igualmente óbvio que diferentes cristãos encontram-se em diferentes situações de necessidade, e que cada uma requer uma resposta específica. Nós nãos estamos acusando o “bom samaritano”, por atar as feridas do viajante sem indagar sobre o seu estado espiritual, nem Filipe por compartilhar o evangelho sem inquirir as suas necessidades sociais. Estes foram, no entanto, chamados específicos e situações específicas. Falando em termos gerais, todos os seguidores de Jesus Cristo tem a responsabilidade de testemunhar e de servir, de acordo com as oportunidades que lhes forem dadas.42

 

Ação social e evangelismo como igualmente importantes

Esta, que se traduz na oitava idéia, trata da valorização eqüitativa entre ação social e evangelismo. Nascimento apresenta, como alguns dos expoentes desta concepção, Ronald Síder, Samuel Escobar e David Bosch. Se alguma palavra pode ser vista como adequada para caracterizar a missão da Igreja, de acordo com Bosch, ela é o conceito bíblico de martyria (testemunha), que pode ser subdividida em kerigma (proclamação), koinonia (comunhão), diakonia (serviço) e leitougia (liturgia). Na história da Igreja é possível perceber esta inter-relação que valoriza tanto a ação social, quanto a evangelização.

Ação social como parte da proclamação do evangelho

Sendo este o último expediente de análise, afirmou-se que a ação social é parte da proclamação do evangelho. Em outras palavras, os defensores desta postura, advogam que a ação social da Igreja é mais do que alimentar os famintos, curar os doentes e providenciar recursos para que a sua tragédia seja minimizada. Entende-se que ela exige uma ação social mais profunda que possa trazer justiça social. A tarefa da Igreja continua sendo a de proclamar o Evangelho, no entanto, isto, em hipótese alguma, poderá fazer com que a Igreja cale-se diante dos desmandos sociais.

Você deve lembrar que este é um fenômeno um tanto novo. Os velhos reavivamentos são mencionados com grande carinho pelos líderes evangélicos. Contudo, parece que se esqueceram do que foram esses reavivamentos. Sim, os velhos reavivamentos da Grã-Bretanha, Escandinávia, e assim por diante, conclamavam com grande clareza e sem dúvida alguma, a uma salvação pessoal. Mas conclamavam também a uma ação social resultante. Leia a história dos grandes reavivamentos. Cada um deles seguiu este mesmo padrão, e não há melhor exemplo do que os grandes avivamentos de John Wesley (1703-1791) e George Whitefield (1714-1770).

Os reavivamentos de Wesley e Whitefield foram tremendos no chamado para a salvação individual, e milhares de milhares foram salvos. Contudo, até mesmo os historiadores seculares reconhecem que os resultados sociais do avivamento wesleyano, salvaram a Inglaterra de sua própria versão da Revolução Francesa. Devemos mencionar os nomes de alguns dos nossos precursores cristãos, com um grito de orgulho e gratidão a Deus: Lorde Schaftesbury (1801-1855), que ousou defender a justiça para o pobre em meio à revolução industrial; William Wilberforce (1759-1833), que foi a maior força pessoal solitária a mudar a Inglaterra de um país escravocrata para um país que, muito antes dos Estados Unidos, abandonou a escravatura legalmente e de fato. Estes homens não realizaram estas coisas por acaso, mas porque viam tudo isso como parte das Boas Novas cristãs. Deus usou pessoas envolvidas nos avivamentos para produzir os resultados não só de salvação individual, mas também de social.”

Afinal, qual a relação entre responsabilidade social e evangelização? Esta pergunta permanece no ar e como lembra Stott:

Muitos temem que quanto mais nós, os evangelicais, nos comprometermos com um, tanto menos estaremos comprometidos com o outro, e que, caso nos comprometamos com ambos, um dos dois com certeza sairá prejudicado; e, especialmente, que uma preocupação com a responsabilidade social certamente acabará embotando nosso zelo evangelístico.44

Ao contrário do que muitos pensam, entendo que a tarefa da Igreja deve abarcar as duas ações, a evangelizadora e a social. Ora, se houver fidelidade ao Evangelho de Jesus, a Igreja não cometerá o equívoco de priorizar uma ação em detrimento da outra. No entanto, creio, ainda, que se deve usar o bom senso ao decidir qual será a atividade a encabeçar o contato da Igreja com dada comunidade. Conquanto devam andar juntas, a evangelização e a ação social podem existir independentemente.

A consulta reafirmou que a ação prioritária da Igreja é a evangelização, por duas razões elementares: primeiro, referida prioridade não é temporal, mas lógica, pois existem situações em que o ministério social precisará vir inicialmente. No entanto, em alguns países, o progresso social tem sido obstaculizado devido à predominância de uma cultura religiosa e somente a evangelização pode modificar este cenário; em segundo e último lugar, a evangelização relaciona-se com o destino eterno das pessoas. Raras serão as vezes em que a Igreja haverá de optar entre ação social ou evangelização, mas em acontecendo, ela precisa lembrar-se de que a necessidade suprema e máxima de todo ser humano é a graça salvadora do Senhor Jesus.45 id., p.22.

Concluindo este segundo capítulo, quero citar aquilo que Manfred Grellert afirmou com muita propriedade:

“A evangelização pode ter prioridade na missão integral da igreja, conforme a ênfase de Lausanne. Mas ela não será bem-sucedida sem o equilíbrio na missão integral da mesma. Uma comunhão patológica, uma edificação anêmica, um culto festivo e vazio e uma ação social ausente geralmente resultam numa elefantíase evangelística e numa inchação das igrejas.46

3. Perspectiva histórica sobre a responsabilidade social da igreja

Em trecho de determinado artigo, abaixo transcrito, observa-se que o autor fez severa crítica à falta de influencia da Igreja Evangélica Brasileira. Segundo este mesmo autor, a Igreja se diz grande, mas essa superdimensão não transforma o estado de miséria e desigualdade social presentes no país, Senão, vejamos:

Dizem que o total dos supostos evangélicos é de 30 milhões. Mas por que o padrão moral e a ética da sociedade degeneram-se a cada dia? Onde está a influência dos supostos evangélicos? Será que a miséria, a desigualdade social e os salários de fome não incomodam aqueles que deveriam não se conformar com este século, mas transformá-lo pela renovação da mente? A população não tem perspectiva de vida, as pessoas não têm mais rumo, onde estão os padrões éticos, morais e religiosos que são a base da sociedade? A Reforma Protestante abalou o mundo, os puritanos diziam que a ignorância é a maior aliada de satanás. A diferença entre os protestantes do passado e os supostos evangélicos de hoje é que: 1. Os do passado criam no verdadeiro evangelho que necessariamente gera o não-conformismo com o mundo, e o desejo de implantar os aspectos do Reino de Deus nesta sociedade: justiça, paz e alegria. 2. Eram reformados de verdade, temiam verdadeiramente a Deus. É por isso que as coisas estão desse jeito… dizem que crêem no mesmo Evangelho de nossos pais. Será?47

O texto acima comete o equívoco de não fazer uma análise histórica dos fatos que influenciaram a Igreja Evangélica no Brasil, tornando-a o que é hoje. Consubstancia-se fácil colocar a Igreja na berlinda e atirar-lhe pedras. Essa posição reveste-se de comodidade e simplismo, pois não detecta os fatores que a levaram a ser o que ela é. Se, por um lado, o artigo peca por desprezar a história, por outro, tem a virtude de enfatizar a necessidade de coerência entre discurso e prática.

Neste capítulo, revisita-se a história da Igreja, buscando entender porque uma Igreja como a evangélica brasileira, com tanto potencial e que continua a experimentar um crescimento tão expressivo, denominado por alguns de avivamento, não consegue exercer uma influência mais significativa e transformadora no contexto em que está inserida e ainda, porque contínua restringindo sua ação social à filantropia e, muitas vezes, limitando-a à igreja local. Relendo a história, será possível perceber o enorme desafio que pesa sobre a Igreja, isto porque, tanto na história da Igreja Cristã, como na história da Igreja Evangélica no Brasil é possível vislumbrar dados maravilhosos sobre o papel social da Igreja.

A Igreja Evangélica é filha da Reforma Protestante do século XVI, movimento que havia algo a dizer, não apenas sobre eclesiologia e espiritualidade, mas sobre questões políticas e sociais, mesmo assim, infelizmente, a Igreja Evangélica distanciou-se da práxis e do discurso reformado. Afastamento que parece encontrar influência em eventos históricos mais recentes, os quais levam a Igreja à alienação quanto aos aspectos sociais.

Elementos inibidores

Entende-se que um dos elementos inibidores da ação social da Igreja é a influência do Fundamentalismo sobre ela, mas antes de demonstrá-la, necessário se faz compreender o seu nascimento, o seu contexto histórico e o seu desvirtuamento. A melhor compreensão do tema, porém, requer o entendimento acerca da influência do liberalismo teológico.

A) O liberalismo teológico

O liberalismo teológico teve sua origem na Alemanha, onde convergiam várias correntes teológicas e filosóficas no século XIX. O pensamento alemão teve um impacto profundo sobre as teologias britânica e norte-americana, mas movimentos autóctones nos dois lugares, a tradição da igreja Ampla na Inglaterra e o Unitarismo nos Estados Unidos, moldaram de modo significativo o desenvolvimento do liberalismo ali.48

A melhor maneira de compreender a origem do Fundamentahsmo faz-se quando se entende que ele nasce tentando combater o crescimento do liberalismo teológico radical nas principais denominações históricas dos Estados Unidos ao final do século XIX e início do século XX.

Augustus Nicodemus Lopes apresenta as principais doutrinas do liberalismo:

1 – O caráter de Deus é de puro amor, sem padrões morais;

2 – Existe uma centelha divina em cada pessoa;

3 – Jesus Cristo é Salvador somente no sentido em que ele é o exemplo perfeito do homem;

4 – O Cristianismo só é diferente das demais religiões quantitativamente e não qualitativamente;

5 – A Bíblia não é o registro infalível e inspirado da revelação divina, mas o testamento escrito da religião que os judeus e os cristãos praticavam;

6 – A doutrina ou declarações proposicionais, como as que encontramos nos credos e confissões da Igreja, não são essenciais ou básicas para o Cristianismo, visto que o que molda e forma a religião é a experiência e não a revelação.49

Se a teologia liberal afetou alguns aspectos fundamentais da fé, não se pode esquecer que, de alguma maneira, os liberais dispunham de uma visão sobre o ser humano que o aproximava do prisma bíblico. Acredita-se que uma das virtudes daquele período foi estabelecer-se uma visão integral do ser humano. Os teólogos liberais entendiam que Deus estava interessado no ser humano e em seu sofrimento. O que nos gera inquietude é perceber que, se eles acertam na práxis, cometem um erro elementar ao desprezar aquelas verdades essenciais da fé cristã.

B) O evangelho social

No final do século XIX e início do século XX, os teólogos liberais desenvolveram o chamado ‘evangelho social’ que nada mais era do que uma tentativa de construir o reino de Deus na terra, por causa dessa tentativa o ‘evangelho social’ foi visto como uma perversão do verdadeiro evangelho.

O termo, ‘evangelho social’, com sua associação atual com o pensamento social protestante teologicamente liberal e modernamente reformista, veio a ser usado por volta de 1900, para descrever aquele esforço protestante no sentido de aplicar princípios bíblicos aos crescentes problemas urbano-industriais dos Estados Unidos emergindo durante as décadas entre a Guerra Civil e a Primeira Guerra Mundial.50

O mais popular porta-voz do chamado evangelho social foi Walter Rauschenbusch. Sua visão foi influenciada pela experiência pessoal ao deparar-se com opressiva pobreza, essa experiência determinou sua mensagem. John Stott cita duas afirmações de Rauschenbusch que certamente significou uma reação de rejeição, por parte da ala mais ortodoxa da Igreja evangélica a qualquer programa social. Ele contrastou:

1 — ‘O antigo evangelho da salvação de almas com’ ‘o novo evangelho do Reino de Deus.’ ‘Não se trata de levar indivíduos para o céu’, escreve, ‘mas transformar a vida aqui na terra na harmonia do céu’.

2 – ‘O propósito essencial do cristianismo’ é ‘transformar a sociedade humana em Reino de Deus através da regeneração de todos os relacionamentos humanos’ 51

Como a atitude de Rauschenbusch foi politizar o Reino de Deus, é compreensível e lamentável que a reação dos evangélicos tenha sido concentrar-se na evangelização e na filantropia pessoal, mantendo-se distantes da ação sócio-política.52

C) O fundamentalismo

O Fundamentalismo foi um movimento que surgiu nos Estados Unidos durante e imediatamente após a Primeira Guerra Mundial e tinha por escopo reafirmar o Cristianismo ortodoxo e defendê-lo contra os desafios e a influência da teologia liberal, da alta crítica alemã, do darwinismo e de outros pensamentos considerados danosos ao Cristianismo, mais precisamente no seio das principais denominações históricas dos Estados Unidos no final do século XIX e início do século XX.

Segundo Lopes, o termo “Fundamentalista’ foi usado por três razões:

1 – Os conservadores insistiam que o liberalismo atacava determinadas doutrinas bíblicas que eram fundamentais do Cristianismo, e que, ao negá-las, transformava o Cristianismo em outra religião, diferente do Cristianismo bíblico.

2 – A publicação cm 1910-1915 da série Os Fundamentos, 12 volumes de artigos, escritos por conservadores, onde defendiam os pontos fundamentais do Cristianismo e atacavam o modernismo, a teoria da evolução, etc. Foram publicadas 3 milhões de cópias e espalhadas pelos Estados Unidos. Há artigos de eruditos conservadores como J. G. Machen, John Murtay, B. B. Warfield, R. A. Torrey, Campbell Morgan e outros.

3 – Muito embora o conflito entre os liberais e fundamentalistas envolvesse muito mais do que somente os pontos abaixo, os mesmos foram considerados na época, pelos conservadores, como os pontos fundamentais da fé e do Cristianismo evangélicos e acabaram se tornando o slogan dos conservadores e a bandeira do movimento fundamentalista:

- A inspiração, infalibilidade e inerrância das Escrituras;

- A divindade de Cristo;

- O nascimento virginal de Cristo e os milagres;

- O sacrifício propiciatório de Cristo;

- Sua ressurreição literal e física e seu retorno. 53

Discorre-se no tópico seguinte sobre o desenvolvimento histórico e teológico do fundamentalismo na Igreja Cristã nos Estados Unidos e no Brasil, dividindo-o em quatros partes ou fases.

1ª FASE – Durante a década de 1920

A fase inicial englobou a articulação daquilo que era fundamental ao Cristianismo e ao início de uma batalha urgente almejando expulsar das fileiras das igrejas os inimigos do protestantismo ortodoxo. Nesse período, os avessos à ortodoxia foram nominados e dentre eles, encontram-se o romanismo, o socialismo., a filosofia moderna, o ateísmo, o mormonismo, e, acima de tudo, a teologia liberal fulcrada numa interpretação naturalista das doutrinas da fé.

Nessa época, publicou-se a série Os Fundamentos. O alvo era atacar o naturalismo, o liberalismo e todos os males a eles associados. A inerrância das Escrituras é reafirmada como sendo doutrina bíblica e fundamental. Ainda no mencionado período, gradativamente começou-se a adotar o dispensacionalismo como um dos pontos fundamentais da fé cristã, o que provocaria, na fase subseqüente, uma importante divisão no movimento.

2ª FASE – Fim da década de 1920 até o início dos anos 1940

Até cerca de 1926, o movimento fundamentalista percebe ter fracassado na tentativa de fazer uma limpeza no arraial protestante dos modernistas. A época foi gravada pelo divisionismo e o nascimento de novas igrejas, instituições e associações. Foram formadas novas denominações como a Associação Geral de Igrejas Batistas Regulares (1932), a Igreja Presbiteriana da América, ou PCA (1936), Associação Batista Conservadora da América (1947), as Igrejas Fundamentalistas Independentes da América (1930) entre outras.

Naquela fase, a lição teológica mais marcante era a de que os fundamentalistas representavam o Cristianismo verdadeiro, baseado numa interpretação literal das Escrituras, e essa verdade devia ser expressa concretamente, desvinculada dos liberais e dos modernistas. Chegou-se a estabelecer, nesse momento, uma prática carregada daquilo que eles acreditavam ser puro na moralidade pessoal e na cultura norte-americana. Torna-se marcante a indiferença aos problemas sociais e o termo fundamentalismo ganha uma conotação de ‘divisionismo’, intolerância’ e de ‘antiintelectualismo’.

3ª FASE – Fim da década de 1940 até à década de 1970

No período acima compreendido, o fundamentalismo continua a batalha contra o liberalismo, de fora das denominações e contra um novo inimigo, o neo-evangelicalismo. O movimento ganha repercussão internacional.

Em 1948 foi criado o Concilio Internacional de Igrejas Cristãs, formado por denominações, igrejas e indivíduos que se identificaram com a bandeira fundamentalista, em oposição ao Concilio Mundial de Igrejas, que possuía uma visão ecumênica e liberal. Os ataques fundamentalistas dirigiram-se aos neo-evangelicais ou evangelicais, uma ala dentro do fundamentalismo que deseja preservar os pontos fundamentais da fé, mas não havia interesse no divisionismo da primeira geração, por julga-lo um grande perigo ao verdadeiro Cristianismo, em virtude da sua abertura para outros cristãos e associação com os liberais.

4ª FASE – Fim da década de 1970 e a década de 1980

O fundamentalismo Norte Americano adentrou uma nova fase, principalmente a partir da campanha de Ronald Reagan à presidência dos Estados Unidos, o que o fez ganhar novo impulso, pois se dispôs a dar respostas para a crise social, econômica, moral e religiosa que se estabelecera no país. Percebeu-se, então, um resgate dos princípios que marcaram a década de 1920.

Lopes apresenta algumas características desta fase:

1 – Surgem novos ministérios de uma nova geração de fundamentalistas, utilizam-se da mídia, televisiva e impressa. Entre eles: Jerry Falwell, Tim LaHaye, Hal Lindsey, James Dohson, Pat Robertson.

2 – O alvo principal dos ataques fundamentalistas era o domínio do governo por humanistas e as conseqüências disto para a nação, em termos de libertinagem e relaxamento dos valores morais. O grande receio é de que o Cristianismo seja banido da América.

3 – Estes líderes e outros mantinham os mesmos pontos doutrinários e a mesma visão separatista da primeira geração de fundamentalistas, embora o inimigo fosse outro, nesse caso o humanismo.

4 – É formada a Maioria Moral (1979) sob a liderança de Jerry Falwell, para combater o liberalismo moral e social nos Estados Unidos,

5 – O fundamentalismo ganhou maior torça com o ato de que o movimento evangelical começou a dar mostras de que a política de boa vizinhança com liberais e católicos terminava em prejuízo para a fé bíblica. 6 – Por outro lado, os escândalos na década de 1980, envolvendo o casal Bakker, televangelístas fundamentalistas, causaram um grande revés no movimento dentro dos Estados Unidos.54

Sem dúvida alguma, o fundamentalismo, atualmente nos Estados Unidos continua sua caminhada. Seu crescimento e sua influência não se fazem mais por meios denominacionais, mas sim por intermédio da multiplicação de uma mentalidade fundamentalista nos aspectos teológicos e apologéticos.

Parece que se pode concluir que, sem resquícios duvidosos, o movimento fundamentalista teve seus aspectos positivos, como, por exemplo, a luta pela fidelidade às Escrituras, uma busca contínua pelo resgate do Cristianismo histórico. No entanto, é preciso lamentar o seu separatismo, seu preconceito, sua omissão quanto à responsabilidade social, fruto de uma visão escatológica dispensacionalista.

D) O celeste porvir ou o protestantismo peregrino

O período do protestantismo peregrino marcou o momento em que a Igreja perdeu o sentido sobre sua vocação, “no mundo sem ser do mundo”. Ela tinha tanto medo de contaminar-se e perder seu real significado, que preferiu olhar para o céu. Inevitavelmente constatou-se que a alienação fez-se presente, afinal, somos apenas peregrinos, gente que não tem residência aqui no mundo, mas tem um lar no céu, preparado desde a eternidade. Ela se tornou a Igreja que não pode pensar o transitório porque tem a eternidade diante de si. Antonio G. Mendonça afirma que:

Protestante comum vive no provisório. Sua ética de negação do mundo o conduz à constante expectação do porvir, do mundo ahistórico do além, muito melhor do que o presente. Se essa expectação o leva a cantar as glórias e os prazeres de sua futura e verdadeira pátria, leva-o, em contrapartida a recusar os valores do presente. O mundo presente é um tempo de peregrinação. Ele não tem morada. Ele não tem repouso e está rodeado de inimigos. Sente-se estrangeiro na terra, de modo que o seu viver é um penoso caminhar para a pátria celestial. Repete-se a velha alegoria puritana de João Bunyam. 55

Mendonça crê que o final do século XIX e, em boa parte, o início do século XX, foram marcados pelo sentimento de peregrinação, fato que, de algum modo, parece haver perdido sua característica por causa das mudanças sociais muito acentuadas, ocorridas no período da industrialização urbana.

Submetendo os hinários à análise, percebe-se inegavelmente que aquilo que reflete muito bem essa postura alienante, marca do protestantismo peregrino. Abaixo são alistados dois hinos que retratam esse período.

ASPIRAÇÃO DO CÉU

Vou à Pátria – eu peregrino -,

A viver eternamente com Jesus,

Que concedeu-me feliz destino

Quando ferido, por mim morreu na cruz.

Vou à Pátria – eu peregrino -

A viver eternamente com Jesus!

Vou à Pátria – eu peregrino -,

A viver eternamente com Jesus! 56

A MENSAGEM REAL

Sou forasteiro aqui, em terra estranha estou,

Celeste Pátria, sim, é para onde vou.

Embaixador por Deus, do Reino lá dos céus,

Venho em serviço do meu Rei!

É a mensagem que me deu

Provinda lá dos altos céus:

Que nos reconcilieis

Com o Senhor Rei meu!

Reconciliai-vos já com Deus! 57

F) Visão escatológica

Outro elemento que alimentou essa alienação social pela Igreja foi a sua visão escatológica pré-milenista. Embora não se pretenda fazer um estudo escatológico, delineia-se apenas uma breve análise desse ponto de vista para que se entenda a sua influência sobre a igreja brasileira.

Os pré-milenistas crêem que Jesus voltará antes dos mil anos (milênio) em que Cristo reinará sobre o mundo, o qual sobreviverá à destruição e ao julgamento que visitarão a terra na grande tribulação, eliminando-se assim, todas as mazelas e injustiças sociais. A idéia elimina a necessidade de preocupar-se com os problemas sociais de hoje, pois, quando Jesus voltar, todos serão resolvidos.

Eu sei que alguns vêem as tragédias mundiais com uma ponta de prazer, afinal isto é apenas o prenuncio de que a volta de Jesus para buscar sua Igreja é iminente. Nota-se que alguns crêem, sinceramente, que tentar reverter o quadro social do mundo é lutar contra o inexorável, pois entendem que a pobreza é algo a nos acompanhar em escala cada vez maior (Mt. 26.11), porque esta é a passada da humanidade em direção ao final dos tempos. O Senhor Jesus, falando proféticamente, ensina-nos que o mundo caminha de mal a pior — filhos estarão contra os pais, pais contra os filhos, irmãos contra irmãos, guerra e rumores de guerras, marcas comuns no final dos tempos (Mt. 224.6, Mc. 13.7). Eles perguntam: “Como transformar aquilo que é inevitável?”

“A adoção da teologia fundamentalista, que quase sempre também é pré-milenista, gera, na prática, alienação sócio-política, como se tem observado na maior parte da comunidade evangélica brasileira”. 58

G) Adoção de uma política direitista

Como se não bastasse uma teologia fundamentalista conservadora; que abriu mão de uma ação social relevante e chegou ao Brasil na bagagem dos missionários advindos da América do Norte, a visão política de tais missionários era direitista e anticomunista, sendo assim, tudo o que cheirasse a comunismo ou a esquerda deveria ser veementemente combatido pela Igreja como sendo algo que fatalmente afetaria a visão bíblica desta e não somente isto, ela correria o risco de ver sua liberdade religiosa cerceada.

Nesse pacote, a Teologia da Libertação tornou-se uma grande ameaça e uma revolução como a de 1964 e foi vista como manifestação da bênção de Deus contra os ameaçadores comunistas.

Depois de fazer uma visita à história buscando entender o que levou a Igreja a uma clara alienação quanto à questão social, segue-se a viagem pela história, verificando o testemunho histórico da missão integral, entendendo-o como um desafio à Igreja.

Capítulo 3

O testemunho histórico da Missão Integral

1. Ação social da igreja na Patrística

Os pais apostólicos foram influenciados, de maneira insuspeitável, pela pessoa de Jesus. O Senhor sempre teve uma atitude diferenciada diante do ser humano. Ele anunciava a chegada do Reino, que deveria produzir arrependimento, mas sem dúvida alguma, a influência do Reino deveria levar às boas obras que testificariam do Senhor.

Antonio José do Nascimento Filho cita “O Pastor de Hermas” como um homem de fé, que não se expressava apenas em palavras. Sua fé foi traduzida em gestos por meio de amor e da preocupação pelas pessoas necessitadas ao seu redor. A dedicação social e a prática foram o resultado inevitável de sua conversão espiritual. Clemente de Roma expõe esta íntima relação entre justificação e boas obras, quando diz:

Por meio da fé, pela qual Deus todo-poderoso tem justificado todos os homens desde o início do mundo… o que faremos, pois, irmãos? Que o forte cuide do fraco e que o fraco reverencie o forte. Que o homem rico ajude o pobre e que o pobre dê graças a Deus por aquele que supriu sua necessidade? 59

No século III d.C, o pagão Celso e o cristão Origines se engajaram num debate sobre o Cristianismo. Durante a discussão, Celso haveria declarado: quando a maioria dos mestres sai a ensinar, gritam: “venham a mim, os que são limpos e dignos”, e os que o seguem são as pessoas do mais alto gabarito existente. Mas seu mestre é néscio e grita: “Venham a mim os abatidos e afligidos pela vida”, de forma que se acumulam ao seu redor os marginalizados e excluídos da humanidade.

A resposta de Origines a Celso é descrita como uma das declarações mais profundas, jamais feita acerca do poder do Cristianismo:

sim, eles são os marginalizados e excluídos da humanidade. Mas Jesus não os deixa assim. De um material que alguém diz ser inútil, ele forma “pessoas fortes”, devolvendo-lhes seu respeito próprio, capacitando-os para se sustentarem sobre seus próprios pés e olhar em Deus nos olhos. Eles eram objetos amedrontados, desprezados, quebrantados. Mas o Filho os libertou! 60

2. Ação social da igreja na idade média

Em seu livro “O Nome da Rosa”, que serviu de fonte para um filme homônimo, Umberto Eco conseguiu descrever o que acontecia num mosteiro da Idade Média e como, naqueles dias, a Igreja encontrava-se distante de sua vocação. Os pobres eram apresentados como pessoas miseráveis que comiam das sobras que lhes eram dadas pela Igreja.

Sem dúvidas, a visão de que dispomos sobre a Idade Média é a de que a Igreja viveu sem produzir transformação — aquela era a idade das trevas — pois perdeu o propósito da sua missão. Warren Wiersbe cita um fato entre Rafael e alguns líderes da Igreja: Rafael pintava os famosos afrescos do Vaticano, quando alguns cardeais pararam perto, a fim de observar e julgar o trabalho. “O rosto do apóstolo Paulo está vermelho demais”, disse um deles. Rafael respondeu: “Ele cora ao ver nas mãos de quem está a igreja”.61

Felizmente, mesmo nesses momentos mais obscuros, a Igreja ainda conseguiu desenvolver a missão. Nascimento Filho lembra que:

“a atividade social cristã na Igreja medieval era fortemente influenciada pela crença em um estado cristão universal em que, tanto a Igreja como o estado, eram instrumentos de Deus para alcançar os propósitos para o homem. Era, portanto, responsabilidade tanto da Igreja como do estado promover o evangelismo e responsabilidade social” 62

3. Ação social na Reforma Protestante

O período reformista foi bastante conturbado, mas, mesmo diante de todas as dificuldades surgidas por causa das vozes que se levantaram contra o caos presente no seio da Igreja, a Igreja nascente, fruto da Reforma Protestante, foi marcada pela presença da missão integral. Ela era uma Igreja preocupada com a salvação pela graça, mas que entendia que o ser humano deveria ser tratado integralmente com dignidade. Não se deve limitar a Reforma Protestante do século XVI a um movimento espiritual e eclesiástico. Sem dúvida alguma, a ação dos reformadores também trouxe conotações e implicações políticas e sociais.

Ainda que superficialmente, adiante são delineados os papéis de dois reformadores no que tange à questão social, Martinho Lutero e João Calvino. Dos textos de Augustus Nicodemus Lopes e, principalmente, do livro de André Biéler são extraídas algumas informações sobre Calvino.

A) Martinho Lutero

Lutero ficou conhecido como teólogo, pregador e reformador, mas o seu agir não é fruto apenas de uma reflexão teológica, e sim, de sua experiência com o cotidiano. “O dado religioso se constrói na história, em meio aos fenômenos sociais, políticos e econômicos” 63

O reformador reconhece que o cristão é cidadão pertencente a dois reinos, o Reino de Deus e o reino deste mundo e isto nos ensina que, sob o prisma de Lutero, o ser humano é responsável diante de Deus e da autoridade civil. Por isso mesmo, ele dá ênfase ao papel social do cristão em suas 95 teses:

43º – Os cristãos devem ser ensinados que aquele que dá ao pobre ou empresta ao necessitado pratica uma obra melhor do que comprar perdões.

45º – Os cristãos devem ser ensinados que aquele que vê um homem em necessidade, e passa por ele, e dá (seu dinheiro) por perdões, não compra as indulgências do papa, mas a indignação de Deus. 64

Nascimento Filho afirma que “Lutero, em oposição à visão anabatista de separação entre igreja e estado, acreditava que Deus pode usar o governo secular para estabelecer a justiça social”. 65

B) João Calvino

Pensar sobre a ação social na perspectiva de João Calvino é pensar, inevitavelmente, sua teologia, pois esta é pressuposto para formular sua reflexão e motivar aqueles que estavam ao seu redor a uma ação efetiva. Ocorre, porém, que toda a leitura de Calvino sobre o aspecto social passa pela realidade por ele vivenciada. Ele pastoreou uma igreja na cidade de Genebra e ali, os problemas sociais comuns por toda a Europa se faziam presentes, dentre eles: pobreza extrema, altos impostos, salários miseráveis e uma jornada de trabalho extenuante. Ademais, o analfabetismo era igualmente habitual, a ignorância estava presente, bem como os vícios e a prostituição. Aquela era uma sociedade enferma.

No seio de uma sociedade achacada foi que Calvino desenvolveu sua teologia e sua visão sobre a responsabilidade social da Igreja. Na leitura daquele reformador, a miséria era um claro sinal da corrupção humana, fruto da queda. Ele faz sérias denúncias sobre os pecados sociais, falando sobre a estocagem de alimentos que visam ao enriquecimento de poucos, denunciando a especulação financeira oriunda do egoísmo e da avareza do ser humano.

Mas Calvino dispunha de uma teologia que ultrapassava questões individuais e espirituais. Cristo Jesus é o Senhor de toda a existência humana, sendo assim, era dever da Igreja dar atenção também aos temas sociais e políticos.

Três aspectos resumem a visão de Calvino sobre a responsabilidade social da Igreja: os ministérios didático, político e social.

4. Ação social da igreja no pós-reforma

A contento, a Igreja não limitou sua ação a um momento particular da história. No período do pós-reforma, ainda podemos encontrar o bom cheiro do agir da Igreja tratando de assuntos sociais que eram tão importantes naqueles dias. Destacaram-se, naquela época, dois personagens que desempenharam papéis relevantes na sociedade em que estavam inseridos no que pertine ao tema sociológico.

A) John Wesley

Ao voltar-se os olhos para o período conhecido como dos Reavivamentos, certamente se aperceberá a brilhante figura de John Wesley. Como lembra muito bem Clóvis Pinto de Castro, Wesley certamente fez a seguinte afirmação: “O mundo é minha paróquia”. 66 Essa leitura da relação Igreja/mundo teve uma influência significativa em seu ministério. Segundo Cavalcanti: “Ninguém foi mais holista e mais integral em sua visão missionária do que Wesley”.67

O despertamento espiritual do século XVII revelou-se, de um modo maravilhoso, no desenvolvimento das obras sociais de caráter cristão. O amor de Deus, sentido e experimentado com o novo poder que procedeu do reavivamento anunciado por toda parte, constrangia os homens ao amor e ao serviço em favor do próximo.

René Padilla afirma que a última carta de Wesley foi escrita em 24 de fevereiro de 1791, apenas seis dias antes de sua morte, e foi dirigida a William Wilberforce em sua luta no Parlamento a favor da abolição da escravatura. Na carta, o grande pregador dizia ao político:

A menos que Deus tenha te levantado justamente para a tarefa, a oposição dos homens e dos demônios será inesgotável; mas se Deus está contigo ‘quem será contra ti?’ Siga adiante em nome de Deus e no poder de sua fortaleza, até que a escravidão norte-americana, a mais vil que jamais fora vista à luz do sol, se desvaneça diante dele.68

Wesley trabalhou incessantemente para o bem estar espiritual e material daqueles a quem proclamava o Evangelho de Jesus. Dentre as muitas ações transformadoras na área social, encontramos a abertura de clínicas gratuitas, o estabelecimento de uma espécie de cooperativa de crédito, escolas e orfanatos. Stott lembra que “os historiadores atribuem à influência de Wesley — muito mais que a qualquer outra coisa — o fato de a Inglaterra haver sido poupada dos horrores de uma revolução sangrenta como a da França”.69

B) William Wilberforce

William Wilberforce (1759-1833) era um jovem aristocrata rico da Inglaterra do século XVIII. Ele era um promissor membro do Parlamento. Viveu uma vida tolerante de acordo com os padrões da sociedade dos seus dias. Após experimentar uma profunda conversão, afastou-se dos excessos e das frivolidades, dedicando sua visão política à causa de Deus.

Logo depois de sua conversão, Wilberforce sentiu-se motivado a se envolver com o ministério pastoral. Por essa razão, imaginou que deveria afastar-se da política, entendendo que as duas coisas não poderiam andar juntas. No entanto, naquele momento, o ex-comerciante de escravos, John Newton, autor do hino “Amazing Grace” convenceu Wilberforce de que Deus o queria envolvido com a política ao invés de entrar para o ministério. Ainda assim, o jovem envolveu-se com a evangelização e a proclamação da Palavra; no entanto, sua vocação era política, o que o fez entender que Deus o havia levado ao poder público para lutar contra a terrível maldade da escravidão e do tráfico de escravos.

Em 1787, o jovem político iniciou sua cruzada. Os navios negreiros, pertencentes a europeus cristãos, transportavam, por ano, 100 mil africanos capturados para a América do Norte. Todavia, a Inglaterra, seu país natal, era a líder desta tirania selvagem. Wilberforce sabia que a escravidão era um terrível pecado contra Deus e contra o próximo, por isso ele se posicionou tão ferrenhamente contra tal instituição.

Segundo Francis Schaeffer, William Wilberforce foi a maior força pessoal solitária a transformar a Inglaterra de um país escravocrata para um país que, muito antes dos Estados Unidos, abandonou a escravatura de fato e de direito. 70

5. O testemunho histórico da missão integral da igreja no Brasil

Diante da história, é importante identificar as realizações da Igreja Evangélica Brasileira. Neste trabalho, sucintamente é apresentada a posição de algumas denominações históricas sobre a questão social, bem como um extrato do pronunciamento social dessas denominações, dentre elas as Igrejas Presbiteriana do Brasil, Batista e Metodista, bem como o pensamento da Confederação Evangélica, o envolvimento dos evangélicos com a Liga Camponesa e o nascimento da Associação Evangélica Brasileiro (AEVB).

A) A Igreja Presbiteriana do Brasil e a questão social

Em 12 de agosto de 1859, desembarcava no Rio de Janeiro o primeiro missionário presbiteriano. Era um jovem de 26 anos, solteiro, formado recentemente no seminário de Princeton e recém ordenado ao sagrado ministério, seu nome, Ashbel Green Simonton.

Na reunião do Presbitério do Rio de Janeiro em julho ele 1867, menos de cinco meses antes ele morrer prematuramente de febre amarela em São Paulo, Simonton propôs a seguinte estratégia missionária: 1) a santidade da igreja deve ser ciosamente mantida no testemunho de cada crente; 2) é preciso inundar o Brasil de Bíblias, livros e folhetos; 3) cada crente deve comunicar o evangelho a outra pessoa; 4) é necessário formar um ministério nacional idôneo; 5) escolas paroquiais para os filhos dos crentes devem ser estabelecidas. 71

Parece que as últimas palavras de Simonton podem dar uma pequena noção do perfil da Igreja Presbiteriana do Brasil que estava nascendo em meados do século XIX.

Mais recentemente, segundo o Supremo Concilio da IPB, impõe-se sobre a Igreja que a obrigação de fazer pronunciamentos sobre questões sociais da atualidade nacional e internacional deriva de sua vocação profética de proclamadora e de testemunha do reino e de sua submissão e fidelidade à Palavra de Deus. Às Igrejas Presbiterianas do Brasil, competem, portanto:

1 – Dar, pelo púlpito e por todos os meios de doutrinação, expressão do Evangelho total de redenção do indivíduo e da ordem social;

2 – Incentivar seus membros a assumirem uma cidadania responsável, como testemunhas de Cristo, nos sindicatos, nos Partidos Políticos, nos Diretórios Acadêmicos, nas fábricas, nos Escritórios, nas Cátedras, nas Eleições e nos Corpos Administrativos, legislativos e Judiciários do País;

3 – Clamar contra a injustiça, a opressão e a corrupção, e tomar a iniciativa de esforços para aliviar os sofrimentos dos infelicitados, por uma ordem social iníqua; colaborando, também, com aqueles que, movidos por espírito de temor a Deus e respeito à dignidade do homem, busquem esses mesmos fins, assim como aceitando sua colaboração;

4 – Opor, por uma pregação viva e poderosa, relevante e atual, uma barreira inexpugnável contra as forças dissolventes do materialismo e do secularismo;

5 – Lutar pela preservação e integridade da família e pela integração de grupos marginalizados pela ignorância e analfabetismo, pelos vícios, pelas doenças e pela opressão na plena comunhão do corpo social;

6 – Dar à infância e à juventude uma formação cristã que as capacite a enfrentarem vitoriosamente o impacto dos paganismos contemporâneos, com a força da interpretação cristã da vida total do homem à luz de Deus;

7 – Defender, pelo exemplo de seus membros, a dignidade do trabalho, quer manual quer intelectual;

8 – fazer a proclamação profética incessante dos princípios éticos e sociais do evangelho de modo que sejam denunciados todos os erros dos poderes públicos, sejam de omissão, ou comissão, que resultem em ameaças ou obstáculos à paz social ou tendam à destruição da nossa estrutura democrática;

9 – Defender a necessidade de mais eqüitativa distribuição das riquezas, inclusive da propriedade da terra, e advertir, em nome da justiça de Deus e da fraternidade cristã, aqueles cujo enriquecimento seja fruto da exploração do próximo;

10 – Tornar o Estado consciente de todos os seus deveres, transmitindo-lhe corajosamente a palavra profética, especialmente nas horas de crise, prestigiando sua ação no estabelecimento da justiça social e oferecendo-lhe colaboração para solução cristã de todos os problemas da comunidade.

B) A Igreja Metodista e a questão social

Como movimento, o metodismo tem a sua origem com John Wesley, ministro da Igreja da Inglaterra. Durante seu ministério, Wesley introduziu a pregação ao ar livre (influenciado por George Whitifield) e a pregação leiga. Conquanto haja suscitado estranheza no seio da Igreja da Inglaterra, não se desligou da Igreja Anglicana até à sua morte.

O metodismo chegou aos Estados Unidos a partir dos adeptos que emigraram para as “Treze Colônias”. Os leigos eram enviados por Wesley para a propagação do Evangelho, o que gerou crescimento. Mas criou-se uma situação inusitada: os leigos precisavam do clero anglicano para oficiar os sacramentos. Diante disto, Wesley resolveu organizar os metodistas norte-americanos em Igreja. O que caracterizou aquele grupo naqueles dias não era sua doutrina ou forma de culto, mas a sua política eclesiástica que dava ênfase tanto ao ministério itinerante quanto ao laicato.

Os metodistas enviaram ao Brasil os seus dois primeiros missionários, em 1836, R. Justus Spanding e, em 1837, Daniel Parish Kidder. Por questões ligadas à escravidão, houve uma ruptura no seio da Igreja nascente, fazendo com que os trabalhos fossem suspensos até 1867, quando Junius E. Newman desembarcou no Brasil, vindo dos Estados Unidos.

Depois de uma pincelada na história do metodismo, menciona-se a seguir o credo social da Igreja Metodista e para entendê-lo, cabe salientar que a Igreja Metodista do Brasil não identifica o Cristianismo com nenhum sistema sócio-político-econômico. Também se acredita que a melhor maneira de transformar a sociedade é levar a Cristo o indivíduo que nela se insere, orientando-a com os princípios do Evangelho de Jesus. A referida igreja igualmente defende uma distribuição de renda mais eqüitativa, a fim de que o homem tenha uma vida marcada pela dignidade. Eis o que se tornou o credo social para os metodistas:

1 – Direitos iguais de justiça rápida e econômica para todos os homens;

2 – Provisão de habitação adequada para todas as famílias, tanto nos perímetros urbanos como nos rurais;

3 – Regulamentação e proteção do trabalho da mulher, especialmente da mulher mãe, e previdência social que lhe assegure proteção física, social e moral;

4 – Abolição do emprego de menores em condições que prejudiquem o seu desenvolvimento normal e sua educação espiritual, física, intelectual e moral;

5 – Proteção da criança e dos adultos contra enfermidades, da subnutrição, de hábitos e vícios que atentam contra sua saúde;

6 – Regulamentação do trabalho e direito de todos os homens a uma oportunidade de manutenção própria;

7 – Proteção do operário contra toda usurpação e exploração injusta e de acidentes do trabalho;

8 – Salário que garanta a subsistência do trabalhador rural e urbano e de suas famílias, em circunstâncias que assegurem a dignidade da pessoa humana;

9 – Melhor distribuição de terras agricultáveis e contra toda a forma de exploração do trabalhador rural. 74

C) A questão social e a Igreja Batista

Os batistas foram a quarta denominação evangélica a implantar igrejas no Brasil. Thomas Jefferson Bowen chegou ao Brasil, enviado pela Junta de Missões Estrangeiras da Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos, cerca de quatro meses depois do primeiro missionário congrrgacional e aproximadamente seis meses depois do primeiro missionário presbiteriano.

Por motivos de saúde, Bowen retornou para sua pátria em 1861. Ao retornar à sua pátria e apresentar seu relatório, a Jun ta de Missões Estrangeiras entendeu que não era interessante o grande esforço para evangelizar um campo tão difícil quanto o Brasil.”’

Depois de cerca de vinte anos de ausência, a Junta de Missões Estrangeiras enviou novos missionários batistas para o Brasil, eram eles: William Buck Bagby e sua esposa Anne Luther Bagby, que desembarcaram no Rio de Janeiro, no dia 2 de março de 1881, após 48 dias de viagem. Um ano depois, também no Rio de Janeiro, no dia 23 de fevereiro de 1882, o casal Zachery Clay Taylor e Kate Crawford Taylor, chegou ao solo brasileiro. 75

Em traços históricos, foi brevemente relatada a chegada dos batistas ao Brasil. A partir de então, passa-se à análise de um documento mais recente produzido pela Ordem dos Ministros Batistas do Brasil, entidade que congrega os pastores que servem às igrejas da Convenção Batista Brasileira, a qual, reunida na cidade de Vitória-ES, formulou o seguinte manifesto sobre a questão social:

“Reconhecemos ser privilégio dos Batistas brasileiros a iniludível responsabilidade de contribuir não somente para a solução dos problemas que no momento assoberbam o nosso povo, como também para a determinação do seu destino histórico”. 76

1 – Os direitos da pessoa humana

Reconhecem-se a importância e a significação das instituições, acreditando-se ser o homem o esteio das preocupações, porquanto “criado à imagem e semelhança de Deus”. Imprescindível a defesa da liberdade em todas as suas formas de expressão.

2 – Igreja e Estado

Inspirados no preceito bíblico, “dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22.21), pugna-se pela existência de Igrejas livres num Estado livre, preconizando a delimitação inteligente e respeitosa das esferas de responsabilidade e ação da Igreja e do Estado, sem interferências abusivas ou relações aviltantes de dependência, embora permitindo a cooperação construtiva entre ambos.

3 – Justiça social

Reconhecemos a inadequação da presente estrutura social, política e econômica para a realização plena da justiça social, pelo que insistimos na necessidade de um reexame corajoso, objetivo e não-preconcebido da presente realidade brasileira, com vistas à sua reestruturação em moldes que possibilitem o atendimento às justas aspirações e necessidades do povo.”

No Congresso Batista de Ação Social, ocorrido em 1987, no Rio de Janeiro, deu-se, sem dúvida alguma, um passo importante na direção de uma releitura do papel da denominação de um trabalho mais efetivo no que versa sobre a questão social. Naquele congresso, Irland Pereira de Azevedo, fez uma retrospectiva histórica da obra social da Igreja Batista no Brasil, citando, dentre muitas ações, aquelas ligadas a orfanatos, casas de idosos, cursos de alfabetização, cursos profissionalizantes, ambulatórios, casa de saúde e hospitais, creches, trabalho com viciados em drogas, dentre outros ministérios sociais.78

4. A Confederação Evangélica do Brasil

Nos idos de 1934, a Confederação Evangélica Brasileira (CEB) foi formada e funcionou até o golpe militar de 1964.

Nessas três décadas, ela reuniu boa parte das igrejas evangélicas históricas, ou seja, os não-pentecostais.

De 1955 a 1964, a CEB dispunha de um setor que tratava especificamente do aspecto social da Igreja o qual, dentre as várias atividades desenvolvidas, esteve promovendo a chamada “Conferência do Nordeste”, no ano de 1962. O golpe militar de 64 foi fatal para a confederação, mas em junho de 1987 ela acabou renascendo das cinzas com o apoio de vários constituintes evangélicos. A nova CEB congregava uma maioria pentecostal, grupo que encontrou grande resistência das igrejas históricas. Mas recebeu significativas doações do governo do então presidente, José Sarney, principalmente no período da Assembléia Constituinte.

A partir de 1988, denúncias foram feitas contra a chamada “bancada evangélica”, levando Paul Freston a fazer comparação desse escândalo com os escândalos dos televangelistas nos Estados Unidos. 79

Obviamente, antes desse período fatídico, marcado por denúncias e escândalos, a confederação teve o seu período de relevância e seriedade. Domício Mattos cita algumas das declarações sociais feitas pela Confederação Evangélica do Brasil:

1 – Os propósitos de Deus incluem a justiça nas relações pessoais entre indivíduo e indivíduo, como também nas relações coletivas entre grupos sociais;

2 – Nos grandes setores evangélicos se tem interpretado a fé cristã em termos individuais, sem preocupar-se adequadamente pelas obrigações que impõe a fé crista na ordem político-social;

3 – Cristo nos chama ao arrependimento individual e coletivo, pois todos estamos implicados no pecado de nossas nações;

4 – Uma expressão do pecado que cometem todos os seres humanos é a tendência a dar maior importância aos interesses pessoais do que aos da sociedade;

5 – O homem é uma pessoa integral; portanto, seu espírito é afetado pelo que afeta o seu corpo, e grande parte de sua personalidade surge das relações sociais que desfruta;

6 – Os cristãos são responsáveis por tudo, diante de Cristo e da obra de Deus em Cristo, e esta responsabilidade os faz livres da influência de todas as ideologias;

7 – Cristo chama-nos para que demos testemunho de nossa fé, partilhando-a com os outros e apresentando-a aos homens todos, não como uma série de idéias que eles possam debater e sim como um modo de viver com os homens e com Deus, afirmada por uma decisão diária e por uma permanente companhia divina. Essa partilha nos leva a servir-nos uns aos outros em amor e por amor;

8 – Por outro lado há uma necessidade de sermos até certo ponto inconformados, de não nos submetermos às coisas que são do mundo, aos seus esquemas, às suas estruturas falsas; de não sermos — a pretexto de respeitar pura e simplesmente a ordem histórica — adesistas ou conservadores no sentido estático do vocábulo, mas de nos renovarmos continuamente na busca incansável da vontade divina.80

O documento apresentado por Mattos é extenso e inclui temas relevantes tratados pela confederação como o problema educacional, a necessidade de uma reforma universitária, as questões urbanas e a reforma agrária. Inegavelmente, a confederação cumpriu um importante papel na história da Igreja Evangélica Brasileira, infelizmente perdendo-se na sua caminhada, principalmente a partir de 1964, mas a sua relevância não pode ser desprezada. Nesse contexto e marcada por escândalos e desgaste da imagem dos evangélicos no Brasil, a partir da década de 80, nasceu a Associação Evangélica Brasileira a AEVB.

7. A Associação Evangélica Brasileira

Como foi visto até agora, os evangélicos tiveram voz no Brasil. Chegaram a apresentar seus pontos de vista sobre questões sociais importantes, mas, infelizmente, as divisões internas e o golpe militar de 1964 afetaram significativamente o rumo da CEB que, posteriormente reorganizada, já não tinha o mesmo escrúpulo dos primeiros anos, o que desencadeou os escândalos dos anos oitenta. Diante de tais escândalos, a Igreja Evangélica sente necessidade de ter uma voz que seja mais coerente, uma associação que possa ser ouvida e respeitada. À luz desse sonho, a Associação Evangélica Brasileira – AEVB foi criada, precisamente no dia 17 de maio de 1991, no templo da sede da Igreja Evangélica Pentecostal “O Brasil para Cristo”, na cidade de São Paulo, onde líderes de diversas denominações evangélicas reuniram-se para organizá-la. Paul Freston lista algumas das razões porque a AEVB foi criada naquele ano:

1 – O desgaste da imagem pública dos evangélicos em conseqüência da publicidade negativa em torno da ‘”bancada evangélica” na Constituinte, inclusive a apropriação do nome da Confederação Evangélica para fins considerados fisiológicos.

2 – A campanha em setores da mídia e da Igreja Católica contra as chamadas “seitas”. A união é a melhor forma de enfrentar tais ataques.

3 – A necessidade dos “evangelicais” de constituírem espaços institucionais.

4 – O crescimento numérico dos evangélicos e o natural espaço para influenciar os rumos da sociedade e a necessidade de se assumir o seu papel social no país.81

Parece-me que, revisitando a história da Igreja Evangélica no Brasil, é possível perceber que, em muitos momentos, ela exerceu um papel relevante quanto ao aspecto sociológico. Recentemente, ela tem sido cognominada de omissa, o que não se pode considerar muito justo, conquanto esteja, à evidência, aquém do seu potencial numérico e das suas reais condições. As críticas, por mais que se revistam de coerência, não podem levar ao menosprezo os evangélicos no Brasil.

A ausência de menção, até agora, às igrejas pentecostais e ao seu papel social neste país, não obstante sua grandeza e expressão, é proposital, posto que se pretende enfatizar, particularmente, apenas algumas igrejas históricas. Contudo, destaca-se a participação e o envolvimento dos evangélicos, dentre eles os pentecostais, sobretudo dos membros da Assembléia de Deus, no movimento agrário, sobretudo no que tange às ligas camponesas. Carlos Pinheiro Queiroz enfatiza com muita propriedade essa participação.

Não deixemos apagar em nossa memória as ligas camponesas, movimento pela defesa dos sem-terra, que tinham Francisco Julião como mentor intelectual, e contavam principalmente com o apoio dos líderes batistas e pentecostais. Segundo Cartaxo Rolim, “Julião conseguia sensibilizar os crentes, ao dizer-lhes que podiam entrar para as ligas com os cânticos, a Bíblia, citando principalmente os profetas, enquanto ele, Julião iria com a lei civil”.82

Tais considerações parecem dar um vislumbre do papel da Igreja Evangélica no Brasil quanto à sua visão e ação social.

Entende-se que, passando pela história da Igreja e verificando, mesmo que com objetividade, a sua atuação social, a Igreja hoje deve sentir-se desafiada a resgatar essa história bem como a sua atuação social. A Igreja não pode se deixar influenciar apenas por aspectos fundamentalistas alienantes, nem se pode permitir que uma escatologia dispensacionalista a torne alheia ao que acontece ao seu redor, uma crise real. A Igreja não foi chamada apenas para o céu, mas, para, em nome de Jesus, se levantar como sal e luz e produzir um grande reboliço na sociedade. O que precisa gerar influência não é a visão teológica reducionista que marcou a história, mas aquela visão presente nos Pais da Igreja, em homens como Lutero, Calvino, Wesley, Wilberforce, na CEB, na AEVB, sonhadores que sempre acreditaram que o papel da igreja não é o de transferir gente da terra para o céu, mas de transformar as condições de injustiça e degradação humanas em lugar de justiça e promoção da vida.

Capítulo 4

Base bíblico-teológica para a responsabilidade social

No capítulo anterior, demonstrou-se a omissão da Igreja no Brasil quanto ao caráter sociológico, cuja afirmação parece encontrar esteio em raízes históricas, fruto de um aprendizado preconceituoso e de uma hermenêutica equivocada e deficiente. Usa-se o dizer de Jesus em Mateus 26.11 “porque os pobres, sempre os tendes convosco…”, citação do livro de Deuteronômio 15.11, e interpreta-se como se Jesus estivesse vaticinando sobre a impossibilidade de fazer algo pelos pobres. Por mais que se tente praticar determinados atos, tudo permanecerá como está. Indubitavelmente, não era isso o que Jesus queria dizer. Ele estava repreendendo a atitude preconceituosa dos discípulos que criticaram uma mulher que, demonstrando carinho e querendo honrar o mestre, derramou sobre a cabeça do Filho de Deus um precioso perfume. Os discípulos, indignados, imaginaram que seria mais interessante vender tão precioso ungüento e socorrer aos pobres com os recursos levantados. Cristo, no texto apresentado, não estava prenunciando sobre a perpetuação da miséria, mas lembrando seus discípulos que aquela mulher fez algo excepcional e que tal ato não afetara o exercício prático do socorro aos pobres. Os pobres estariam sempre sujeitos a serem socorridos, oportunidades não faltariam e que eles fizessem bom uso destas, portanto.

O segundo problema interpretativo relaciona-se com a escatologia que a Igreja no Brasil acabou herdando. Ela assevera que o mundo irá de mal a pior e que, por conseguinte, não podemos fazer algo capaz de transformar esse caminho inexorável. Essa doutrina precisa ser revista à luz das escrituras, pois o desafio deixado pelo Senhor e pelos seus apóstolos continua muito atual: “A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações…” (Tg 1.27).

A Igreja Evangélica apregoa que a Bíblia é a sua única regra de fé e prática. Se isto é verdade absoluta, faz-se necessário voltar os olhos a Bíblia, buscando nela referenciais para uma práxis social relevante.

Para fundamentar este estudo e dar sustentação àquilo que ora se apresenta como sendo a missão social da Igreja, há que se refletir o entendimento da Bíblia e da teologia, buscando pilares de sustentação para aquilo que deve motivar o agir social da Igreja.

O Antigo Testamento será visitado, mas sem a pretensão de adentrar profundamente no mesmo, conquanto esse se constitua uma das divisões desta sessão. Analisa-se, sem maior detalhismo, o Pentateuco e o que relataram e entenderam alguns profetas sobre a questão social. Ainda, nesta sessão, percorrendo o Novo Testamento e, de modo específico, o ministério de Jesus, tendo como ponto de partida o texto de Mateus 9.35-38. Por fim, destinar-se-á maior atenção à teologia, descobrindo nela aspectos que sejam relevantes para a ação social da Igreja.

1. Visitando o Antigo Testamento

Ao pensarmos a responsabilidade social da Igreja, quase que instintivamente, reportamo-nos ao Novo Testamento, seus Evangelhos e Epístolas. No entanto, é certo também, que o Antigo Testamento tem algo a dizer sobre o tema, que precisa ser revisto atualmente.

Impressiona perceber que o interesse divino pelo povo de Israel manifestou-se de muitas maneiras, dentre elas encontram-se preciosas instruções legais sobre um período que deveria ser respeitado, guardado e observado para benefício do povo que entrasse na nova terra, Canaã. Porém, fica explícito que, mais do que beneficiar o povo, o interesse de Deus toca a vida daqueles que, de alguma forma, encontram-se quebrados, feridos, empobrecidos. O ano sabático, por exemplo, como lembra Alan Cole, tinha o único propósito de que os pobres pudessem comer e, depois deles, os animais do campo.83

Já R. K. Harrison afirma que a legislação do Jubileu tem como tema básico, a libertação daquilo que era preso. A lei dava claras indicações de que os primeiros beneficiários de tal período eram os concidadãos judeus que viviam em servidão.84 Naqueles dois períodos festivos, com o coração agradecido, o povo deveria recordar-se do ato libertário de Deus no Egito e do Deus provedor, porém, tanto o ano sabático como o jubileu colocavam sobre os ombros do povo a responsabilidade de participar do socorro e da libertação do outro. Esta era uma maneira pedagógica de Deus ensinar-lhes sobre generosidade, solidariedade c misericórdia.

O ano sabático

Na lista das festas sagradas, encontram-se o sétimo dia da semana, como sábado (descanso), e o sétimo mês, como o mês sabático, em que se celebravam três festas. Mas este notável sistema de sabatismos estendia-se ainda mais e alcançava o sétimo ano. Depois desse, como última expressão da idéia sabática, vinha o ano santificado, o ano sabático. Intimamente relacionado ao sábado, o ano sabático aplicava-se aos israelitas que entrassem na terra de Canaã. A cada sete anos era designado um período de tempo, um ano, para o descanso do solo.

Disse o Senhor a Moisés, no monte Sinai: Fala aos filhos de Israel e dize-lhes: Quando entrardes na terra que vos dou, então, a terra guardará um sábado ao Senhor. Seis anos semearás o teu campo, e seis anos podarás a tua vinha, e colherás os seus frutos. Porém, no sétimo ano, haverá sábado de descanso solene para a terra, um sábado ao Senhor; não semearás o teu campo, nem podarás a tua vinha (Lv 25.1-4).

Durante o referido período, os israelitas não semeavam o campo e nem podavam as videiras. Tudo quanto colhessem naquele ano deveria ser partilhado igualitariamente pelo proprietário entre os servos, estrangeiros e até animais. Somente em Deuteronômio é apresentado como o ano em que os débitos deveriam ser cancelados. Os credores eram instruídos a cancelar as dívidas dos pobres, assumidas durante os seis anos anteriores (Dt 15.1-11). Provavelmente, esse era o período da alforria de escravos. (Ex 2.12-6, Dt 15-12-18). O ano sabático era um instrumento pedagógico que servia para lembrar aos judeus que um dia foram escravos e que experimentaram libertação pela intervenção divina.

O ano do jubileu

Observados sete anos sabáticos, era chegado o ano do jubileu; a cada quarenta e nove anos, um era observado como período de descanso para as terras agricultáveis que deveriam ficar sem cultivo durante aquele ano. (Ex 23.10-11). O termo jubileu corresponde, em hebraico, a yobel, que também indica o toque do “clarim”, som extraído de um corno de carneiro. Em português, é usado para referir-se a um grito de alegria. Sua presença, nas traduções modernas, vem do nome que lhe dá a versão Vulgata Latina, annus jubilei ou jubileus.85

Aquele ano caracterizava um período de restituição da herança familiar para aqueles que a haviam perdido, uma época de libertação de escravos e de descanso da terra. (Lv 25.8-55, Dt 15-12-18). O cuidado em restituir a herança tem uma relação com o fato de que a terra pertencia a Deus; Ele dava à família o direito de administrá-la, o que passaria de geração a geração. Quanto aos escravos, eles deveriam servir a seus senhores no máximo por um período de seis anos. Chegando o jubileu, mesmo que o escravo houvesse servido um período menor que seis anos, deveria ser libertado. (Ex 21.1-11, Lv 25.39-55).

O povo de Deus está investido de uma responsabilidade ética especial em favor do pobre. No Antigo Testamento, a lembrança do povo de Deus como escravo no Egito era razão para motivá-lo a mostrar misericórdia ao oprimido (vide Deuteronômio 24.14-22; Levítico 19-15; Amós 2.6-7; Zacarias 7.9-10). Todos esses ensinos a respeito do pobre fazem parte da Palavra de Deus. O Antigo Testamento enfatiza que o Senhor requer justiça para os pobres e julgará aqueles que os oprimem. 86

Russel Shedd afirma que as leis de Israel foram instituídas por Deus, objetivando produzir uma sociedade justa para todos os cidadãos, independentemente de sua classe social. A leitura da lei e sua compreensão levariam a nação a entender a paixão, a justiça e a imparcialidade de Deus ao tratar com seu povo. O objetivo do período do descanso sabático, tanto no jubileu quanto no ano sabático, era prover descanso para a terra e alimento para os destituídos. Esse benefício alcançaria os pobres, as viúvas, os órfãos, os estrangeiros e os escravos sem qualquer distinção, todos seriam tratados com o mesmo zelo.87

A Palavra de Deus proporciona uma percepção do caráter divino e ao percebê-lo, nota-se que, desde a criação, Deus está interessado no bem-estar do ser humano.

Na criação, descobre-se que o ser humano foi tratado com deferência, tornando-se a coroa da criação. Mesmo depois da queda, o Pai demonstra estar solícito ao ser humano pois em sua promessa (Gn 3) reside uma palavra redentiva que objetiva resgatar a humanidade e a criação. Encontramos semelhante cuidado na vocação abraâmica, ao ser Abraão chamado para ser uma bênção, e finalmente, na lei mosaica encontramos essa intensa demonstração de que Deus está interessado no bem-estar do ser humano. É preciso lembrar que o Deus da revelação bíblica é tanto criador como redentor.88

A leitura dos profetas confere idêntica perspectiva. Na denúncia feita por Isaías sobre o pecado do povo de Israel, que tornava o seu culto inaceitável perante Deus, encontra-se o seguinte: “Pelo que, quando estendeis as mãos, escondo de vós os olhos; sim, quando multiplicais as vossas orações, não as ouço, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem; atendei à justiça, repreendei ao opressor; defendei o direito do órfão, pleiteai a causa das viúvas”. (Is 1.15-17). Junte-se a esta queixa a queixa do profeta Amós (Am 2.6-8; 5.7,10-12.) e também a voz de Oséias ao dizer o que Deus espera do seu povo: “Pois, misericórdia quero, e não sacrifício, e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos”. (Os 6.6).

2. Visitando o Novo Testamento

São muitos os desafios lançados no Novo Testamento e nele se verifica a riqueza de textos que desafiam a Igreja a agir de maneira solidária e justa diante da realidade social em que está inserida. Tiago 2.14-16 fala-nos sobre a necessidade de a fé tornar-se uma realidade mais contundente por meio das obras. Afinal, qual valor de uma fé que contempla a necessidade do outro com indiferença? João, o evangelista, na sua primeira carta (I Jo 3.17-18), pergunta como o amor de Deus pode permanecer no coração de alguém que tem recursos, mas não os compartilha com o irmão necessitado. Em outras palavras, João entende que o amor de Deus, derramado em nossos corações precisa ser vertido sobre o outro de maneira prática. O apóstolo Paulo também aduz algo sobre a questão da generosidade do cristão diante da necessidade do outro e, em sua segunda carta aos Coríntios (II Co 8 e 9), debruça-se sobre a questão da coleta que a igreja na Macedônia levantou em favor das igrejas da Judéia. É possível acrescentar textos, como: At 10.38, Gl 6.9-10, II Ts 3.13 e Hb 13-16 e perceber que o desafio é o mesmo: a Igreja de Jesus precisa ser generosa, precisa dispor-se a fazer o bem.

Visitando o ministério de Jesus

“Nosso estilo de vida como cristãos depende da imagem que temos de Cristo, do Cristo no qual depositamos a nossa fé”. 89 Na caminhada com Jesus pelo seu ministério, é possível perceber uma nova maneira de ver a vida. Em Cristo, o velho torna-se novo, a justiça estabelece-se, o miserável sai da marginalidade, o órfão é amado, a viúva é respeitada, o estrangeiro é acolhido, o pecador pode ser amado. NEle, todo carente, tem a oportunidade de ser acolhido e abraçado.

Causa verdadeiro encanto a menção feita, repetidas vezes, pelos evangelistas acerca da palavra compaixão como parte do ministério de Jesus. Ele via as multidões e compadecia-se delas. O sofrimento do ser humano sempre atraiu a atenção de Jesus, Ele não era indiferente à tragédia humana (Mc. 1.40-41; Lc. 7.11-14; Mt. 14.14; Mt. 15.32). Ele via a dor do outro e dela se compadecia. Mas a compaixão de Jesus não era algo restrito ao sentimento. Parece que a igreja não se porta com total indiferença à miséria do homem, até consegue emocionar-se e chorar. Jesus, no entanto, não apenas sentia, mas seu sentir, sua emoção, sempre se transformava em ação prática. Mateus afirma que ele curava toda sorte de doenças e enfermidades (Mt 4.25-25, 9.35-38).

Recorrendo aos Evangelhos e notando a ação de Jesus no mundo, percebe-se Seu anseio de ver as necessidades dos seres humanos supridas e, olhando-O, é possível entender que Jesus constitui o paradigma da missão da Igreja. Os Evangelhos levam a constatar que a encarnação, devoção, serviço e ressurreição formaram os pilares da vida de Jesus e da mensagem das boas novas do Rei.

No evangelho de João, verifica-se a oração de Jesus, conhecida como Oração Sacerdotal. Nela, Ele faz o seguinte pedido: “Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo” (Jo. 17.1 8). Aquele que segue a Jesus precisa trilhar o mesmo caminho que seu mestre trilhou. Em sua oração, Jesus ensina que é preciso ser Igreja no mundo, a este não pertence, mas nele está como sal e luz; Igreja que não se aliena, mas torna-se sensível àquilo que acontece ao seu redor e, muitas vezes, à sua porta.

A ação de Jesus na crise humana não se deu apenas como manifestação da presença do Reino, mas se deu porque Jesus era alguém movido por compaixão. Diante da dor do outro, Ele se emocionava. Ele não via o sofrimento com prazer ou como se ele representasse uma realidade cotidiana com a qual precisava se acostumar e por isso alienar-se. Jesus compadecia-se daqueles que, pelas circunstâncias e pela opressão social, encontram-se na miséria ou marginalizados. Senão, vejamos:

“Ora, descendo ele do monte, grandes multidões o seguiram. E eis que um leproso, tendo-se aproximado, adorou-o dizendo: Senhor, se quiseres, podes purificar-me. E Jesus, estendendo a mão, tocou-lhe dizendo: Quero, fica limpo! E imediatamente ele ficou limpo da sua lepra. Disse-lhe, então, Jesus: Olha, não o digas a ninguém, mas vai mostrar-te ao sacerdote e fazer a oferta que Moisés ordenou, para servir de testemunho ao povo”. (Mt 8.1-4)

De modo fascinante, ainda que seja a interpretação que nem todos se lhe atribui, entende-se haver sido estabelecido nesse encontro, uma cura com nuanças bem particulares. Jesus acabara de pregar o sermão do monte e estava sendo seguido por uma grande multidão, instante em que foi procurado por um leproso e, embora tendo uma multidão diante de si, Ele não estava interessado na popularidade, mas em gente de carne e osso. Diferentemente de nós, Jesus não se deixa seduzir pela popularidade, por isso consegue ver além daquele aglomerado humano.

Jesus compadeceu-se daquele homem e fez algo muito especial, contrariando todos os padrões judaicos: Ele o tocou. Na minha leitura, se Jesus apenas tivesse curado aquele homem da sua lepra, não haveria resolvido um problema ligado às emoções, à psique daquele homem. O texto não informa há quantos anos ele carregava aquele estigma, mas simplesmente que o carregava. O leproso, enquanto caminhava, precisaria anunciar sua maldição dizendo-se ”impuro, impuro, impuro”. Se fora tocado por alguém nos últimos anos, fora tocado por outros leprosos, gente que carregava a mesma marca, mas não por diferentes. Agora, Jesus, o Messias, passa por ali, deixa a multidão para atendê-lo em sua necessidade, tocando-o. Só depois de tocá-lo, Jesus ordena que ele seja curado. Mas existe outra verdade no texto que igualmente causa encanto. Jesus enviou aquele homem (purificado) ao sacerdote para que se cumprissem os preceitos da lei mosaica. Nesse sentido, a cura estabelecida por Jesus tinha direta relação com a cura social. Ele precisaria de uma carta de alforria que lhe desse o direito de transitar pelas cidades sem medo do preconceito.

“… dirigia-se Jesus a uma cidade chamada Naim, e… como se aproximasse da porta da cidade, eis que saía o enterro do filho único de uma viúva; e grande multidão da cidade ia com ela. Vendo-a, o Senhor se compadeceu dela e lhe disse: Não chores! Chegando-se, tocou o esquife e, parando os que o conduziam, disse: Jovem, eu te mando: Levanta-te”. (Lc 7.11-14) “Desembarcando, viu Jesus uma grande multidão, compadeceu-se dela e curou os seus enfermos”. (Mt 14.14)

Jesus entendia muito bem a sua vocação, por isso mesmo, no evangelho de Lucas, Ele, absolutamente convicto, declara:

“Então, lhe deram o livro do profeta Isaías, e, abrindo o livro, achou o lugar onde estava escrito: O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor… Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4.17-21).

Jorge Barro denomina o texto acima como sendo a agenda programática da missão de Jesus, que era:

1. Pregar as boas novas aos pobres;

2. Proclamar libertação aos cativos;

3. Restaurar a vista aos cegos;

4. Libertar os oprimidos e;

5. Proclamar o ano aceitável do Senhor 90.

É comumente aceito que os cativos, os cegos e os oprimidos estão na categoria dos pobres. Existem “boas novas” para eles — as boas novas de que o Reino de Deus é aqui e agora, trazendo esperança para o seu futuro, a esperança do ano aceitável do Senhor. Finalmente, os pobres tinham alguém que não estava contra eles, mas a seu favor; alguém que tinha a coragem de incluir os que foram excluídos da sociedade tornando-os receptores da graça do Senhor.91

A leitura de Mateus 9.35-38 proporciona uma rica visão sobre o ministério de Jesus. E Ele, decididamente, não exerceu um ministério estático. Não tinha um endereço fixo onde normalmente estivesse recebendo as pessoas quando de suas necessidades. Normalmente os quatro evangelhos mostram Jesus em ação dinâmica. Ele percorre os povoados, as vilas e ruas. Constatam-se algumas características no ministério de Jesus. Ele não estava preso a determinado lugar. O texto em questão menciona a dinâmica desenvolvida pelo Filho de Deus. Ele exercia um ministério urbano. Qualquer mestre estaria restringindo seu ensino à sinagoga, Jesus prefere as ruas, os becos, os lugarejos, aproximando-se do povo, sem abandonar as sinagogas. Ele vai ao encontro do povo em sua carência; come com pecadores; deixa-se tocar pelos marginalizados e também os toca. Em seu ministério existe lugar para crianças, mulheres, corruptos cobradores de impostos. Ninguém é desprezado e a todos se destina a devida atenção.

Diferente da enclausurada visão da Igreja, que se restringe a um endereço fixo e espera que os desesperados venham até ela, Jesus envolve-se com o outro onde o outro estiver. Sua atitude torna-se desafiadora. Diferentemente de certos grupos religiosos, Jesus não se envolve com os pobres para tirar-lhes algo ou para promoção pessoal — diferentemente do que alguns “espertos” corruptos têm feito em nome da religião. Cristo está no meio do povo e produz um grande reboliço na vida daqueles a quem alcança. O agir de Jesus é profundamente significativo para a missão da Igreja nesses dias em que se busca um rumo.

No texto de Mateus 9.35-38, o ministério de Jesus ganha três características específicas, as quais são aqui denominadas de “o conteúdo da Missão de Jesus”: Ele ensinava, proclamava e curava.

Jorge Barro, tratando da questão urbana no ministério de Jesus, diz que:

O segundo elemento da missão urbana diz respeito ao conteúdo. Jesus percorria todas as cidades e povoados (contexto) fazendo três coisas: (1) pregando, (2) ensinando e (3) curando. Isso demonstra a tríplice ação de Jesus: querigma, didaquê e serviço. Através da proclamação (querigma) das boas novas, a Igreja apresenta a vida eterna. Através do ensino (didaquê) a igreja educa para a vida eterna, para os valores do reino de Deus. Através do serviço (diaconia) a igreja demonstra o poder do reino de Deus no “já-ainda-não”; isso demonstra a integralidade da missão. Isso demonstra uma igreja que está preocupada com a salvação, educação e ação social.92

Querigma

O verbo “kerysso” aparece 61 vezes no Novo Testamento (19 vezes nas epístolas Pastorais, 8 vezes em Atos, 9 vezes no Evangelho de Mateus e 9 vezes em Lucas, 14 vezes em Marcos, 1 em I Pedro e 1 vez em Apocalipse) e significa anunciar. Uma análise do objeto gramatical do verbo revela que, nas passagens mais antigas de Paulo (I Ts 2.9; Gl 2.2, mas também em Cl 1.23) e em alguns contextos de Marcos (Mc 1.14, 13.10, 14.9) e de Mateus (4.23, 9.35, 24.14 3 26.13), o objeto é to evangelion, o evangelho.

Quando percebemos o conteúdo daquilo que tem sido ensinado em muitas igrejas, a preocupação precisa invadir o coração de todos os que amam o Senhor. O evangelho tem-se diluído e o evangelho que vem sendo pregado não reflete todo o desígnio do Pai, mas apenas aquilo que alguns líderes querem ensinar segundo sua conveniência. Muito disso é fruto de uma hermenêutica alegórica, que não leva a sério aquilo que as Escrituras ensinam, mas vale-se de visão pluralista de que cada um tem a sua verdade, portanto, vêem-se no direito de proclamá-la. Sobre essa superficialidade, o clérigo alemão que se opôs a Hitler e ao nazismo, chamou essa teologia de “graça barata”. Ele disse:

“Graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento, batismo sem disciplina eclesiástica, comunhão sem confissão, absolvição sem confissão pessoal. Graça barata é graça sem discipulado, graça sem cruz, graça sem o Jesus Cristo vivo e encarnado”. 93

Mateus, falando sobre o ministério de Jesus, informa que Ele “pregava o Evangelho do Reino”. A mensagem do Deus-Filho não era uma mensagem fragmentada, segundo um modelo pré-concebido da verdade. Ao contrário, Ele proclamava todo o desígnio de Deus e não dicotomizava sua mensagem. Sua pregação não se limitava a falar da esperança celestial, mas trazia esperança para o aqui e agora e isto aconteceu em várias oportunidades, tocando a vida de muita gente. Sua mensagem era uma nítida declaração de que Ele via o ser humano integralmente. Sendo assim, Ele tratou da saúde de um paralítico, mas lembrou-o de que não deveria pecar para que não sucedesse coisa pior (Jo 5.1-14); Ele cuidou de outro paralítico, que foi levado por 4 homens à sua presença (Mc 2), mas, desta feita, Ele começa a falar sobre o perdão de pecados e somente depois, para testificar sobre sua autoridade, cura o paralítico do mal acometido.

Didaquê

O segundo elemento presente no ministério de Jesus é o ensino, e este se refere à instrução dada ao povo. O objetivo é que o povo seja ensinado a partir da autoridade e não dos “estatutos humanos”.

O verbo didaskõ transmite a idéia de estender a mão repetidas vezes para aceitar algo; a palavra, portanto, sugere a idéia de fazer alguém aceitar alguma coisa. No Novo Testamento, didaskõ, ocorre 95 vezes, das quais 38 aparecem nos evangelhos sinóticos.

Os evangelhos sinóticos são uma clara testemunha de que havia ensino no ministério de Jesus. Ele ensinava publicamente, isto é, nas sinagogas (Mt 9.35, 13.54), no templo (Mc 12.35, Lc 21.37), ao ar livre (Mt 5.2, Mc 6.34) ou ainda, nos lares (Mc 2.1-12). Lucas, o médico amado, é o único que diz algo sobre a forma externa do seu ensino (Lc 4.16), esclarecendo que o Salvador permanecia em pé para ler a Palavra e sentava-se para ensiná-la, conforme o costume rabínico.

O que Jesus ensinava? Em resumo, a resposta é:

Deus, Seu reino e Sua vontade, sendo que todos os mencionados temas também pertenciam ao judaísmo contemporâneo, acerca dos quais Jesus, segundo o modo de um rabino ou de um profeta, falava nas Suas conversas com os judeus”.94

Nota-se, com grande fascínio, que Jesus não teoriza sobre Deus, Sua providencia, Sua graça ou Sua ira, mas demonstra a bondade e a ira de Deus em operação em várias situações concretas.

Diaconia

O verbo diakoneõ, servir, pode ser entendido como o trabalho feito para outra pessoa, voluntária ou compulsoriamente. O substantivo derivado diakonia ocorre 34 vezes no Novo Testamento e significa “serviço”, “cargo”. Outro substantivo derivado, diakonos, denota uma pessoa que leva a efeito a tarefa, logo, o significado primário secular era um “garçom”, e assim é usado mais tarde com referência às refeições rituais.

No judaísmo, existiam cuidados organizados para os pobres. A cada sexta-feira, aqueles que viviam na localidade recebiam dinheiro suficiente da cesta dos pobres para quatorze refeições; os estrangeiros recebiam comida diariamente da tigela dos pobres. A comida havia sido anteriormente coletada, de casa cm casa, pelos oficiais dos pobres.95

Das 34 vezes que diakonia ocorre no Novo Testamento, os significados variam, podendo estar relacionados com serviço à mesa (Lc 10.40, At 6.1), serviço amoroso (I Co 16.15, Ap 2.19), serviço amoroso mediante o levantamento de uma coleta (At 11.29, 12.25), para todos os serviços da comunidade cristã (Ef 4.12).

“O significado neo-restamentário de diakoneõ deriva da pessoa de Jesus e do Seu evangelho (Mt.20.28, Mc 10.45). Quando Jesus serviu aos Seus discípulos e aos homens em geral, tratava-se de uma demonstração do amor de Deus e da humanidade desejada por Deus”.96

O espírito servil parece ganhar um profundo significado no ministério de Jesus. Ele é o Senhor-Servo de Marcos 10, “que não veio para ser servido, mas para servir”. Ele é o servo sofredor de Isaías 53; Ele é o servo que lava os pés aos discípulos no cenáculo; Ele é o servo de Filipenses 2 que deixa a glória para, encarnado, alcançar-nos com graça. Ele é o servo de João 1.14, que veio tabernacular, ou, como disse tantas vezes José Cássio Martins no púlpito da Igreja Presbiteriana de Vila Mariana: “Veio morar no apartamento ao lado do nosso”; Ele é o Jesus que não apenas ensina, proclama e se emociona, antes, Ele é o Senhor que serve, que estende a mão, que socorre o necessitado, que consola o enlutado, que alivia a dor do sofrido, que acolhe os inacolhíveis, que toca os intocáveis.

Invariavelmente, nos Evangelhos, quando se descreve sobre a missão de Jesus entre os pobres, o mesmo texto apresenta um conjunto de ações da parte de Jesus que diz respeito às necessidades físicas, psico-emocionais, sociais, econômicas e políticas dos pobres. Além de praticar boas obras em favor dos pobres e oprimidos Jesus orientou seus discípulos a darem de comer aos famintos, de beber aos sedentos, a vestirem os despidos, a visitarem os encarcerados e a acolherem os estrangeiros e marginalizados (Mt 25-31-46). 97

É imperioso observar que a Igreja precisa voltar-se para o ministério de Jesus, pois nele se encontra o rumo certo para o seu próprio ministério. Ele, Jesus, deve ser o paradigma para a Igreja hoje. Um povo que não apenas está no mundo, mas que realiza a Missio Dei de tal forma, que, aqueles que estão à margem da sociedade, possam ganhar dignidade e ter uma nova experiência na vida.

Com muita propriedade, Barro lembra ainda que:

É necessário deixar claro que essas ações querigma-didaquê-diaconia não são ações separadas ou isoladas. Ao mesmo tempo em que a igreja proclama, ela ensina. Ao mesmo tempo em que ensina, serve. Ao mesmo tempo em que serve, proclama. Não podemos ter igrejas, cuja ênfase está “apenas” na evangelização, ou “apenas” no ensino, ou “apenas” no serviço. É muito fácil encontrar igrejas que são fortes em “apenas” uma destas áreas. Uma igreja só será equilibrada e integral quando entender que esses elementos não podem ser separados.98

3. Visitando a Teologia

Recentemente, Martorelli Dantas, contou uma estória que resumidamente dizia: Certo mestre budista estava experimentando aquele momento de meditação. Sentado num quarto, pernas cruzadas e olhos fechados, ele meditava, quando um gatinho entrou no recinto e começou a roçar-lhe a perna, como é comum aos gatos. Com toda a paciência, o monge afastou o pequeno animal, mas, teimosamente, o gato voltou ao recinto, roçando-lhe novamente a perna. O monge pacientemente afastou o pequeno animal, que insistiu em roçar-lhe a perna, até que aquele mestre pegou o gatinho, uma fita e amarrou-o cuidadosamente a uma cadeira. A partir dai o monge conseguiu voltar à sua meditação.

Os discípulos daquele monge passaram pelo recinto e viram aquela cena inusitada. O monge sentado, meditando, um gato e uma cadeira, sendo que o animal permanecia amarrado à cadeira. Eles não tiveram dúvidas, imaginaram que aquela era uma nova maneira de meditar, por isso correram até a cidade e foram buscar os gatos da cidade para poderem fazer o mesmo exercício do mestre budista. Meditar num pequeno quarto com um gato amarrado a uma cadeira.

Aqueles discípulos fizeram a mesma coisa que muita gente tem feito em nossas igrejas. Eles não sabiam o que significava aquele gato amarrado à cadeira, mas pelo menos parecia ser uma nova técnica, uma nova maneira de meditar. O novo, o desconhecido, mesmo sem entender a razão, tornou-se um novo estilo para aqueles discípulos. Muito daquilo que vemos na Igreja hoje parece ser apenas reflexo dessa ignorância e encantamento com o novo.

Diante da colcha de retalhos que integra a Igreja, não é possível tomar uma posição sobre algum tema apenas ao sabor da paixão. É necessário um embasamento que possa dar plena sustentação ao pensar e ao falar, sem que se encontrem apenas repetidores, mas gente que compreendeu a razão da sua fé e da encarnação dessa fé.

O Pacto de Lausanne, em seu quinto parágrafo, traz afirmações que, com o devido suporte bíblico, podem ajudar a igreja a entender o papel da teologia quanto à sua responsabilidade social.

A doutrina de Deus

O Breve Catecismo de Westminster, em sua pergunta quatro, traz o seguinte:

“O que é Deus?” E responde: “Deus é espírito, infinito, eterno e imutável em seu ser, sabedoria, poder, santidade, justiça, bondade e verdade”.99

O quinto parágrafo do Pacto de Lausanne igualmente começa sua exposição sobre a responsabilidade social da igreja fazendo referência ao caráter divino, usando dois atributos, um incomunicável e outro comunicável. Atributo incomunicável é aquele que não encontra nenhuma analogia no ser humano e tem a ver com o ser absoluto de Deus. Atributo comunicável é aquele que encontra alguma ressonância no ser humano. O atributo foi transmitido em algum grau ao ser humano, e tem a ver com o ser pessoal de Deus (poder, amor, bondade, justiça, etc.), e aponta para o Deus revelatus, o Deus revelado que se dá a conhecer mais facilmente.100

A) Deus, o Criador

“Afirmamos que Deus é o Criador”, relata inicialmente o parágrafo recém mencionado.

“No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). A criação deu-se por meio do Fiat, do latim: faça-se, sem qualquer material pré-existente; sua decisão de que as coisas deveriam existir fez com que estas surgissem e formou-as em ordem com uma existência que dependia de sua vontade e que era, no entanto, distinta de sua essência divina. Pai, Filho e Espírito Santo envolveram-se juntamente (Gn 1.2, Sl 11.3, 14.8, 33.6-9).

Quando o pacto apresenta Deus como criador, segundo Stott, corrobora uma clara demonstração do interesse divino pelo ser humano, bem como de seu envolvimento com a história da humanidade. Ele reafirma que tal evidência deve servir de motivação para a igreja partilhar do interesse divino pela humanidade também.101

O Deus da revelação bíblica, que é tanto Criador como Redentor, é um Deus que se preocupa com o total bem-estar (espiritual e material) de todos os seres humanos que ele criou. Tendo criado cada um à sua própria imagem, ele deseja que eles descubram a sua verdadeira humanidade ao se relacionarem com Deus e uns com os outros.102

J. I. Packer afirma que:

Saber que Deus criou o mundo à nossa volta e nós mesmos como parte dele, é básico à verdadeira religião. Deus deve ser louvado como Criador, em razão de sua maravilhosa ordem, variedade e beleza de suas obras. Os Salmos, como o 104, são modelos desse louvor. Deus deve ser crido como o Senhor Soberano, com um plano eterno abrangendo todos os eventos e destinos, sem exceção, e com poder de redimir, recriar e renovar; tal crença torna-se racional quando nos lembramos de que é no Criador todo-poderoso que estamos crendo. Reconhecer a cada momento nossa dependência do Deus Criador para nossa existência faz com que se torne apropriado viver vida de devoção, compromisso, gratidão e lealdade para com Ele, sem qualquer impureza. A retidão começa aqui com Deus, o soberano Criador, como o primeiro ponto de convergência de nossos pensamentos.103

O reconhecimento de Deus como criador deve levar a uma vida em que não se dicotomizem o espiritual e o material, o religioso e o secular, nem podemos negligenciar a política, a economia e a questão da riqueza do homem.104

B) Deus, o Juiz

O antedito parágrafo, referindo-se a Deus diz: “afirmamos que Deus é o criador e o Juiz de todos os homens”. Percebe-se inicialmente a menção ao Criador, mas inclui-se a justiça divina, sendo assim, esse deve ser um sério lembrete de que todos os homens darão contas a Deus de sua vida no dia do juízo (Ec 12.14).

Pode-se entender a justiça divina como manifestação da sua retidão, que não consegue compactuar com nenhuma atitude que reflita injustiça, opressão e espoliação.

Deus de justiça — ressaltam no livro de Amós os trechos que falam da natureza justa do Deus de Israel, a anunciar o juízo sobre o seu povo e sobre algumas nações vizinhas. Os oráculos que constituem a primeira parte do livro (1.3-2.1 6) são a mais forte expressão desta afirmação. Ele é o Deus que declarou sua lei aos homens (2.4), que chama justos os seus filhos (2.6), que abomina o pecado (6.8), que se ira contra todas as transgressões (cf. a fórmula estereotipada nos oráculos iniciais). Ninguém pode escapar de seu julgamento (2.14s; 9.2s). Ele exige de seu povo a justiça social, religiosa e moral (5-7; cp. 5-15ss) e condena todo aquele que não cumpre a sua lei (5.7ss; passim).105

Como outrora delineado, os atributos divinos dividem-se em comunicáveis e não comunicáveis; a justiça divina é um atributo comunicável de Deus. Significa dizer que Deus exige que esta justiça deve ser vivenciada pelo ser humano. Como diz o Pacto: “Devemos partilhar o seu interesse pela justiça e pela reconciliação em toda a sociedade…”106

A doutrina do homem

Nascimento Filho diz que “toda obra cristã filantrópica (isto é, a obra inspirada no amor pelo semelhante) depende da avaliação que os cristãos fazem do beneficiário. Quanto mais alto o valor dos seres humanos, mais os cristãos se inclinam a ajudá-lo”.107

Lausanne afirma, com muita propriedade, que “a humanidade foi feita à imagem de Deus, toda pessoa, sem distinção de raça, religião, cor, cultura, classe social, sexo ou idade possui uma dignidade intrínseca em razão da qual ela deve ser respeitada e servida e não explorada”. Sabendo que a humanidade foi feita à imagem de Deus, é conseqüente lógico entender que a igreja deve sentir-se motivada a fazer pelo outro aquilo que Deus fez e tem feito. É preciso demonstrar o mesmo interesse de Deus.

O ato criador de Deus deu ao ser humano dignidade. Não é a sua cor, sua cultura, sua conta bancária, mas o haver sido criado por Ele e à semelhança dEle, o que torna o ser humano especial.

Ressalte-se que, além da imago Dei, o cristão deve sentir-se despertado a servir o outro porque esta é a vocação da humanidade. A igreja foi chamada e enviada para amar ao outro, ao próximo e nesse sentido, o próximo é qualquer um independentemente da distância a que ele se encontra.

A doutrina de Cristo

Ao buscar a base teológica para o agir social, necessário se torna voltar-se à pessoa de Jesus, conquanto, na exposição aqui apresentada da base bíblica, o paradigma cristológico já tenha sido traçado de forma mais extensa. Cristo é apresentado neste capítulo como o modelo de amor e vocação para o contexto social. Vejamos:

No tocante ao exemplo de Jesus, o modelo bíblico mais desafiador para a missão é a encarnação. O Filho de Deus não permaneceu na segura imunidade de Céu. Ele esvaziou-se de sua condição e entrou no mundo humano com grande humildade. Fez-se um com o gênero humano em sua fragilidade e tornou-se vulnerável às suas tentações e dor. Tomou sobre si o pecado da humanidade c morreu a morte que cabia a eles. Ele não poderia identificar-se mais completamente com as pessoas do que havia feito. E, no entanto, tornando-se humano, nunca cessou de ser divino. Foi uma total identificação com a humanidade, mas sem qualquer perda da identidade deísta. A missão da igreja deve ser modelada pela do filho (João 20.21).108

Essa percepção da missão de Jesus deve servir de instrumento motivacional para que, como Igreja, esta seja impulsionada a fazer da missão de Cristo a sua própria missão.

Capítulo 5

Os desafios que pesam sobre a Igreja diante da questão social à luz do Pacto de Lausanne

Talvez a parcela mais difícil deste estudo passe a ser agora delineada, posto que serão tratados tanto os obstáculos como os desafios que pesam sobre a Igreja Evangélica Brasileira diante do aspecto sociológico.

1. Obstáculos a uma ação social efetiva

É triste observar que os membros das igrejas evangélicas, bem como a igreja como instituição, não compreendem a dimensão social do evangelho. E, diante dessa incompreensão e ignorância, quando se deparam com desafios sociais, levantam vários argumentos contra a missão integral. Abaixo, são transcritos alguns dos obstáculos que se têm tornado mais comuns.

O individualismo evangélico

Tristemente ainda é possível perceber no seio das igrejas evangélicas, uma postura individualista. O privativo sempre foi o que imperou na Igreja. ´É comum perceber aquela autocelebração, uma comunidade apenas preocupada com os interesses privatísticos. René Padilla diz que:

“o evangelho de Jesus Cristo é uma mensagem pessoal: revela um Deus que chama cada um dos seus pelo nome. Mas é ao mesmo tempo uma mensagem cósmica: revela um Deus, cujo propósito abarca o mundo inteiro”.109

O autor vai mais longe e assevera que:

A falta de valorização das dimensões mais amplas do evangelho inevitavelmente conduz a uma distorção da missão da igreja. O resultado é uma evangelização que concebe o indivíduo como urna unidade autônoma – um Robinson Crusoé a quem o chamado de Deus chega na solidão da sua ilha — cuja salvação se realiza exclusivamente em termos de sua relação com Deus. Perde-se de vista que o indivíduo não existe isoladamente e que, portanto, não se pode falar de salvação sem que se faça referência à relação do homem com o mundo do qual ele faz parte.110

Esse individualismo leva a igreja a viver no isolamento, na alienação, na ausência do mundo, mundo do qual ela foi chamada, mas para o qual foi enviada a fim de ser sal e luz.

Alienação

Alienação é definida como indiferentismo moral, político, social ou apenas intelectual. A comunidade evangélica vive alheia à realidade vigente por causa da sua miopia, que a leva a ver apenas as coisas mais próximas, aquelas que envolvem a própria igreja, por causa de um certo sentimento de impotência diante dos desafios que têm ganhado proporções significativas.

Para mim é uma tristeza que muitos cristãos se deixem contaminar pela alienação. “Naturalmente”, dizem eles, “a luta pela justiça é interesse nosso; não podemos fugir desse fato. Os obstáculos, porem, são imensos. Além das questões serem complexas (não somos especialistas), e a sociedade pluralista (não dispomos de qualquer monopólio do poder ou de privilégios), as forças da reação predominam (não temos influência alguma). A maré vazante da fé cristã na comunidade tem nos deixado no seco. Além disso, os seres humanos são egoístas e a sociedade está podre. Contar com uma transformação social é irrealismo total”.111

 

A perpetuação da pobreza

É até comum ouvir pessoas citando Deuteronômio 15.11: “Pois nunca deixará de haver pobres na terra…”, na tentativa de argumentar que é tolice fazer algo mais significativo contra a injustiça e a pobreza, porque factualmente os pobres sempre estarão aí. O texto em questão não deve servir de justificativa para uma deformação do evangelho. Como comentou J. A. Thompson, a pobreza em Israel seria uma grande possibilidade em razão de sua desobediência a Deus. Se a primeira parte de Deuteronômio 15.11 fala sobre a presença da pobreza, não se pode esquecer de ler o restante do versículo, e a segunda parte do mesmo estimula à generosidade e ao exercício da misericórdia. Em favor do necessitado, ao dizer: “… por isso, eu te ordeno: livremente, abrirás a mão para o teu irmão, para o necessitado, para o pobre na tua terra”.

O custo é elevado

Outro elemento que tem sido comum e vem servindo como obstáculo à ação social é a preocupação da igreja com o custo. A igreja evangélica parece não demonstrar ser muito sábia na administração dos seus recursos. Outrossim, muito da preocupação da igreja está mais atrelada a aspectos administrativos do que a uma práxis social. Tem-se visto a construção de templos suntuosos que refletem a preocupação última de muitas comunidades interessadas apenas no luxo e no conforto, reflexo do individualismo protestante, já mencionado anteriormente, mas que não tem uma noção do que significa ser “Igreja fora dos portões”.

Indaga-se sobre o que é mais dispendioso: cuidar hoje de uma criança carente ou tratar o marginal de amanhã? Parece ser mais barato conferir dignidade à criança. Ainda, se o custo é elevado, a comunidade pode procurar alternativas para definir como incentivar o recolhimento de material reciclável para posterior venda. Com o levantamento de recursos, via reciclagem, o custo poderá ser consideravelmente minimizado.

A presença de aproveitadores

Jesus ensinou que se deve ser manso como a pomba e sagaz como a serpente. Infelizmente, parece que os cristãos aprenderam apenas parte da lição. São sagazes e desconfiados em demasia, e a mansidão não tem sido uma característica muito presente na vida de muitos.

Essa sagacidade deveria despertar o zelo, mas o que se tem visto é o exercício da desconfiança. É notório ver aproveitadores, mentirosos, espertalhões, quando o assunto é dinheiro. Mas a possibilidade de encontrá-los não deve servir de desculpa para a omissão e ineficiência social da igreja.

Carlos Queiroz, numa palestra realizada no Congresso Brasileiro de Evangelização (CBE-83), confessou sobre sua leitura da pobreza. Ele afirmou que, quando acordou para os problemas sociais, via a pobreza como conseqüência de preguiça e malandragem. Sem dúvida alguma essa leitura é no mínimo preconceituosa, apesar de que não se pode ser ingênuo posto que, nesse universo de miseráveis, muitos estão excluídos porque lhes falta coragem para enfrentar os desafios do trabalho, por isso preferem pedir a produzir, mas esta é uma exceção. A pobreza continua sendo fruto da injustiça social vigente.

O conformismo ou a síndrome da “Rã na Chaleira”

Às vezes, tem-se a nítida impressão de que a presença sistemática da miséria vem empedrando os corações. A violência cerca a todos, a miséria bate à porta, a morte revela-se com tanta intensidade que, ao contemplar todo esse cenário, a humanidade parece ter-se tornado dura e cínica. Já não há comoção diante das barbáries, ao contrário, constrói-se um terrível conformismo. “O final dos tempos trará isto”, dizem alguns. “O que você espera do final dos tempos?”, perguntam outros. Diante desta situação fatalista é possível lembrar a história da “Rã na Chaleira”.

Coloque uma rã na chaleira com água fervente e ela rapidamente pulará fora ao sentir que o ambiente a sua volta é hostil. Coloque uma rã na chaleira cheia de água à temperatura ambiente e vagarosamente vá esquentando a temperatura da água até que ela ferva. A rã permanecerá na água até morrer cozida.112

Objetivando acrescer outros aspectos que obstaculizam a efetiva ação social da igreja, apresenta-se o que Queiroz perguntou em seu livro, “Eles Herdarão a Terra”, e sua conseqüente resposta a tão relevante questão.

“Por que a Igreja, no Brasil, tem-se distanciado do compromisso com os pobres?’.

1 – Mantemos atitudes egoístas e cômodas;

2 – Sacralizamos a riqueza e profanamos o pobre;

3 – Utilizamos mecanismos de seleção por exclusão;

4 – Dicotomizamos devoção X responsabilidade social;

5 – Trocamos os desafios das boas novas do Reino de Deus pela ameaçadora “evangelização pé-na-cova”;

6 – Usamos uma escatologia escapista e alienante;

7 – Temos uma visão distorcida da Criação, da Queda e da Redenção;

8 – Reduzimos a proclamação comunitária a um apelo individualista;

9 – Fomos afetados pelo rompimento com o movimento norte-americano do “evangelho social” no final do século XIX;

10 – No Brasil, fomos afetados pela revolução de 1964.113

2. Os desafios e as alternativas

Até os vinte e quatro anos, aquele jovem nascido na Nova Zelândia, numa família saudável e próspera, dividira seu tempo entre seu país e a Austrália. Formou-se em engenharia elétrica e em matemática, mas o que o fascinou foi a conclusão de seu curso em missiologia no Instituto Fuller, (EUA). Seu nome é Viv Grigg, um cristão que, desde cedo, tem uma paixão pelo ministério urbano e especialmente pelos pobres. Por isso, algum tempo depois de concluir seus estudos, o jovem foi morar em Manila, nas Filipinas, e isso não seria significativo se ele não houvesse optado por morar em uma favela. A atitude de Grigg foi marcada por uma verdadeira inserção naquele ambiente, tanto que ele, em pouco tempo, identificara-se com os moradores daquela favela, a ponto de fazer refeição em suas casas.

Em entrevista para a “Revista Kerigma”, o missionário afirmou que “missões e ação social andam juntos” e que, “quando entendemos o conceito de Reino de Deus, representado aqui na terra de uma maneira abrangente, um dos componentes da Igreja seria então estar envolvida com os necessitados, com os pobres…”

A decisão de Grigg foi, sem dúvida alguma, radical, mas ele só pôde tomá-la porque dispunha de uma clara convicção do seu chamado para aquele ministério. Poder-se-iam incluir nesse rol de pessoas que se sentem chamadas para desempenhar tão apaixonadamente o trabalho com o pobre, com o necessitado, o Médico Paul Brand, que tem trabalhado com leprosos em Calcutá, ou Madre Tereza de Calcutá, que se envolveu com o mesmo povo que Brand, dedicando sua vida ao marginalizado.

É sabido que o ministério desses três servos de Deus é diferenciado. Eles tiveram um chamado específico, mas a Igreja de Jesus também tem sido chamada e precisa, (entendendo este mesmo chamado), viabilizar alternativas para criar um ministério social sério, efetivo e que faça a diferença neste mundo sofrido.

Enumeram-se adiante algumas alternativas para o exercício efetivo de um ministério social.

É preciso ter voz profética

Cavalcanti sugere que a Igreja faça uso daquilo que ele resolveu denominar de profetismo, dizendo que:

A ação profética se dá quando representamos a consciência moral da nação; a voz da ira de Deus contra a iniqüidade. E para sermos adversários dessa iniqüidade, inimigos do mal, não temos necessidade de pertencer a nenhum partido político, nem sermos candidatos a coisa nenhuma…

Acontece que, quando uma comunidade se levanta e clama contra a iniqüidade existente, ela absolutamente não está fazendo política partidária, nem vestindo bandeira ideológica. Nós estaremos realmente mexendo nas formas quando fizermos filantropia, projetos de desenvolvimento, ação política, na retaguarda, intercessão, ensino, apoio e profecia nesse sentido.114

No evangelho de Lucas (Lc 1e.40}, Jesus afirma que “… se eles se calarem, as próprias pedras clamarão”. Indubitavelmente esse profetismo por parte da Igreja tem estado ausente. A igreja tem silenciado como se não tivesse nada a ver com o problema, ou porque sabe que, no momento cm que isso for exposto, fatalmente enfrentará problemas. Mas se a Igreja calar-se, certamente Deus levantará outras vozes. Isto aconteceu no diálogo entre a rainha Ester e Mordecai. Havia opressão e um iminente holocausto estava mostrando a sua face, a rainha parecia estática diante do problema, por isso Mordecai afirmou: “Porque, se de todo te calares agora, de outra parte se levantará para os judeus socorro e livramento, mas tu e a casa de teu pai perecereis; e quem sabe se para conjuntura como esta é que foste elevada a rainha?” (Et 4.14). Mordecai acreditava que de alguma forma Deus proveria livramento para o povo, se Ester não exercesse o seu papel profético, denunciando Hamã.

Philip Yancey, em seu livro, “Encontrando Deus nos Lugares mais Inesperados”, dedicou um capítulo para falar sobre o envolvimento de William Shakespeare com política. O que chama a atenção é perceber que Shakespeare foi uma espécie de “pedra falante”; com suas peças, ele acabou denunciando a opressão e a injustiça sociais dos seus dias. Um trecho da peça o Rei Lear, que conta a história do rei que foi abandonado pelas filhas e expulso do seu castelo, mostra que ele fez uma enorme descoberta, pois descobriu as dificuldades dos pobres e sem-teto, e diz o seguinte:

Pobres miseráveis nus, onde quer que estejam, que amargam o rigor desta impiedosa tempestade, como podem suas cabeças desabrigadas e barrigas vazias, evidente e patente andrajosidade, protegê-los de intempéries como esta? Ah, quão pouca atenção dou a tal! Expõe-te para sentir o que sentem os miseráveis, e poderás proporcionar-lhes a abundância e exibir o paraíso de forma mais justa.115

Valorizar os desafios independentemente de sua dimensão

É, no mínimo, ingenuidade imaginar que a ação social resolverá totalmente o complexo problema da injustiça sociológica. Mas, com certeza, o agir da Igreja, independentemente de sua dimensão e alcance, fará diferença na vida de alguém, por isso vale a pena lançar essa semente que poderá abençoar o outro.

Henri Nouwen nasceu na Holanda e, como padre e professor, ensinou em Universidades como as de Notre Dame, Yale Divinity School e Harvard. Como escritor, produziu pelo menos trinta livros. Porém chegou um dia na vida de Nouwen quando ele conheceu um trabalho social com deficientes mentais, o da Comunidade L’Arche, na França. Encantado com o que viu, decidiu abandonar sua vida acadêmica e dedicar-se à atividade com os deficientes. Os últimos dez anos de sua vida Nouwen passou numa comunidade chamada Daybreak, em Toronto, no Canadá, cidade onde, conforme se observa no seu livro, “Adam, o Amado de Deus”, vivencia uma experiência particular que teve com um amigo que o visitou naquela comunidade. O amigo ficou surpreso e chocado ao ver Nouwen, um homem tão habilitado, cuidando de um deficiente chamado Adam, banhando-lhe, cortando-lhe a barba e até servindo-lhe a refeição na boca, pois Adam não tinha o controle necessário para fazê-lo sozinho. O visitante fez as seguintes perguntas: “Henri, é aqui que você está gastando seu tempo?”. “Você deixou a universidade, onde era grande inspiração para tantas pessoas para gastar seu tempo e sua energia com Adam?”. Nesse momento, Nouwen percebeu que seu amigo não compreendera sua vocação e missão. Philip Yancey, em um artigo intitulado: “A Santa Ineficiência de Henry Nouwen”, conta este mesmo episódio, com uma diferença, Yancey identifica-se como o amigo que visitou Nouwen em Daybreak e apresenta a resposta que recebeu daquele sábio: “Eu não estou dando nada”, ele insistiu. “Sou eu, não Adam, quem tira o maior benefício da nossa amizade”.116

Em sua humildade, Nouwen afirmou que Adam estava sendo uma bênção em sua vida, de alguma forma, todos os que se envolvem com o socorro ao próximo fazem a mesma descoberta. Mas, em última instância, de fato Henri Nouwem estava exercendo um maravilhoso ministério na vida daquele jovem deficiente. Talvez aquele trabalho não fizesse muita diferença no âmbito geral, mas fez enorme diferença na vida de Adam. É imperioso aprender a valorizar pequenas ações que podem causar transformação na vida do outro.

Identificar os desafios que estão próximos

Em Atos dos Apóstolos (At 1.6-11), diante da ascensão de Jesus, os discípulos que contemplavam a cena ficaram com os olhos fitos nos céus, até que foram exortados a lembrar-se de que o Jesus que foi assunto ao céu voltaria do mesmo modo como o viram subir. Ainda hoje, a Igreja faz a mesma coisa, seus olhos estão fitos no infinito, olhares distantes, alheios à realidade. A igreja precisa ver o que está à sua volta, pois muitas igrejas se estabeleceram bem próximo a bairros onde a necessidade social é gritante e mesmo assim, ainda não conseguiram se aperceber da realidade em que estão inseridas.

Partilhar os recursos

Passando pela BR 232, no agreste pernambucano, aproximando-se da cidade de Caruaru, ao longe se avista o morro Bom Jesus. Em certa ocasião, certo membro de uma das igrejas evangélicas de Caruaru relatou o seguinte: “Sempre dizem que minha igreja tem potencial”, mas, segundo ele, o morro Bom Jesus também tem potencial, só que ele permanece no mesmo lugar, se ele pudesse se movimentar teria condições de destruir a cidade de Caruaru, mas ali estagnado, parado, ele tornou-se apenas parte da paisagem. Com esta análise, este senhor tenciona fazer uma análise crítica de sua comunidade em Caruaru, que tem potencial, mas potencial sem ação não faz diferença.

A igreja evangélica no Brasil também tem potencial. Quantos colégios, faculdades, terrenos, acampamentos, templos, prédios destinados à educação religiosa e seminários pertencem à comunidade evangélica brasileira e quão pouco estes bens são usados na perspectiva da partilha.

Templos e prédios de educação religiosa ficam fechados durante a semana, sem a menor utilidade para a comunidade que a cerca. É preciso aprender a dividir os recursos, que necessariamente não se limitam ao dinheiro, mas podem estar ligados à estrutura, aos imóveis, ao tempo, aos profissionais (médicos, professores, assistentes sociais, empresários) que poderiam usar sua profissão e seu potencial para dirimir o sofrimento e a diferença social.

A) Assistência jurídica

Nas cidades, existe uma necessidade de apoio jurídico. Muita gente não tem sequer um documento de identidade, alguns não têm o registro de nascimento, existem outras questões como a posse de um terreno, ou problemas ligados à moradia, afora isso, existem problemas em lares, onde se faz necessária uma assistência jurídica que facilite a vida desse povo tão sofrido.

B) Assistência médica

A igreja evangélica brasileira conta, em suas fileiras, com profissionais de saúde (médicos, dentistas, enfermeiros), o que permite estabelecer um projeto que vise a assistir àqueles que não têm acesso facilitado à saúde. A igreja pode – quem sabe? -criar um projeto de saúde, que trabalhe com noções de higiene, podendo ampliar sua assistência, criando uma policlínica que possibilite à população carente uma vida mais digna.

C) Assistência educacional

Em Caruaru, no ano de 2002, a Escola Mamãe Natureza abraçou um projeto social, na vila Padre Inácio, que recebeu o nome de Projeto Tatear. O corpo docente da escola entendeu que deveria levar um trabalho pedagógico à periferia para crianças carentes, dando a elas a preciosa oportunidade da alfabetização. O projeto tem provido material e recursos humanos para que crianças carentes tenham o mínimo de dignidade e possam ter acesso àquilo que é tão difícil em nosso país, a educação.

É insofismável que a comunidade evangélica pode fazer alguma coisa pelas crianças carentes. Sobram espaço físico e professores nas comunidades e, portanto, perfeitamente possível estabelecer um projeto social que faça a diferença na vida das crianças que moram na periferia.

D) Assistência aos meninos de rua

Há algum tempo, meninos cheirando cola nas ruas era uma marca registrada dos grandes centros urbanos. Hoje, esta é uma cena que tem se repetido diariamente em cidades pequenas. De alguma forma está na hora da igreja evangélica perceber que alguma coisa pode ser feita de maneira efetiva para que esses meninos de rua venham a ser assistidos com dignidade. Caruaru apresenta também um projeto chamado “Desafio Criança”, que tem dado assistência a crianças que, por viverem em uma família desestruturada, foram parar nas ruas e já se envolveram (inclusive) com a criminalidade. Os meninos são recolhidos pelo projeto e recebem assistência para que, ao saírem dali, tenham novos hábitos e conceitos de vida.

É preciso aprender com a história

Foi possível mencionar os aspectos históricos que fizeram da Igreja o que ela é hoje. Verifica-se que homens como Wesley, Wilbeforce, Calvino em Genebra, entre outros, tiveram um papel social relevante e o exemplo desses homens deve servir como desafio para a Igreja dos dias atuais. Ainda mencionando a história, verifica-se na chegada dos protestantes ao Brasil, de maneira especial, uma preocupação e um zelo pelas questões educacionais e de saúde, tanto que escolas e hospitais foram construídos com o patrocínio e por causa da visão da igreja nascente. Olhando para o potencial da igreja evangélica no Brasil do século XXI, percebe-se que é possível investir novamente nestas áreas, já que a saúde e a educação no Brasil são tão sofridas e os pobres, os que mais carecem de uma estrutura educacional e de saúde adequadas.

É preciso estabelecer um projeto de encarnação

É indispensável definir um projeto de encarnação. Um projeto em que os valores do reino sejam colocados em prática pela comunidade. René Padilla sugere, como sustentação da atividade da igreja, três elementos chaves: o ponto de partida de nossa responsabilidade social é a identificação e isto foi o que o Senhor Jesus fez, quando, encarnado, visitou a terra; a norma de ação conhecida é o sacrifício, voltando-se para Jesus, percebe-se a mais eloqüente expressão deste, a cruz; a dinâmica da igreja precisa ser a nova vida.117

Verificou-se até aqui que alguns obstáculos têm inibido a ação social da Igreja, mas também que as alternativas propostas podem ser instrumento facilitador para a ação social da mesma. Embora não se tenha realizado quaisquer distinções entre ação social e evangelização, o certo é que as propostas formuladas podem e devem vincular ação social e evangelização de forma que as duas se complementem, posto que não existe evangelização genuína sem uma dimensão social, nem responsabilidade social realmente cristã sem uma dimensão evangelística.118

Lausanne 74 cumpriu um papel relevante no seio da Igreja Evangélica Brasileira. A partir daquele magno congresso foi possível ver aflorar no Brasil uma nova leitura, uma leitura holítistica, uma leitura baseada no evangelho integral. Longuini lembra que:

“No Brasil a chegada do Pacto de Lausanne, efetivamente, deu-se em 1983, quando foi realizado o Congresso Brasileiro de Evangelização (CBE-83) em Belo Horizonte.” 119

O CBE-83 não foi o único congresso influenciado por Lausanne, pode-se incluir o Congresso Nordestino de Missões, bem como é possível incluir a formação da Associação Evangélica Brasileira (AEVB), e a realização do seu primeiro congresso.

A) Congresso Brasileiro de Evangelizaçáo

O Congresso Brasileiro de Evangelização (CBE-83) se deu na cidade de Belo Horizonte nos dias 31 de outubro a 5 de novembro, e sem dúvida alguma entrou para a história da igreja evangélica brasileira como um dos mais importantes eventos. Falando sobre a importância do CBE, Steuernagel afirma que:

A marca do CBE na vida de muitíssimos irmãos foi enorme. Isto se pode constatar de Norte a Sul e o fazemos com um sentido de gratidão ao Senhor. Vidas marcadas, desafios assumidos, objetivos elaborados, irmãos que se consagraram ao campo missionário, novas visões e perspectivas missionárias que foram percebidas, horizontes que foram ampliados e posições teológicas reformuladas. Estes são apenas alguns poucos aspectos de uma vida inteira que ocorreu naqueles poucos dias no Mineirinho.120

B) Congresso Nordestino de Evangelização

O processo iniciado com a realização do CBE-83 teve continuidade com a realização do Congresso Nordestino de Evangelizaçáo (CNE-88) realizado em Recife, cm 1988. O CNE-88 culminou com um movimento pelo resgate da ética evangélica e por uma representação oficial dos evangélicos no Brasil diante dos escândalos provocados por alguns deputados federais evangélicos que reorganizaram a Confederação Evangélica do Brasil.121

C) Congresso AEVB

Em julho de 1994 (18-23), evangélicos de diversas regiões do Brasil se reuniram em Brasília para o I Congresso Nacional da Associação Evangélica Brasileira; o tema foi relevante: “A Igreja Evangélica na Virada do Milênio”.

Os objetivos do congresso foram formulados no material de divulgação e estão expressos num texto compilado por Rubem Amorese.

1 – DISCERNIR a vontade de Deus quanto à missão no tempo e na realidade em que vivemos. A comunidade de adoração que somos, o testemunho que damos e a unidade que experimentamos (exalamos), estão a serviço do cumprimento desta missão.

2 – CELEBRAR a fidelidade de Deus para com o Seu povo. O crescimento extensivo da Igreja, a riqueza de iniciativas nas áreas de missões e de serviço e as manifestações de unidade do Corpo de Cristo no Brasil são expressões da fidelidade de Deus e se constituem em motivo para a nossa celebração.

3 – ACEITAR o desafio de viver a fé em meio à crise de nossos dias como um compromisso de discipulado integral e solidário. O convite para o reencontro com a esperança do Reino é fonte de vida em meio à crise, dentro e fora da Igreja.

4 – BUSCAR por rumos para uma espiritualidade cristã alimentada por Deus, fiel ã Palavra, sensível ao Espírito, alicerçada na justiça, edificada na comunidade, voltada para o mundo, íntegra no comportamento e disposta ao serviço.122

Em todos estes encontros o espírito de Lausanne esteve presente. No entanto, é preciso estender os horizontes, é preciso alargar a visão para que a Igreja brasileira não apenas volte a discutir os temas presentes nesses congressos, mas que exista uma encarnação daquele espírito que, sem dúvida alguma, revolucionará a maneira de ser Igreja.

Conclusão

Esta pesquisa teve como objetivo levar o leitor a perceber que a Igreja, o povo de Deus, foi vocacionado para exercer sua missão de maneira a extrapolar as suas próprias fronteiras. Ela foi chamada e enviada, não para viver numa autocelebração, mas para demonstrar misericórdia por aqueles que carecem de amor. Diante desta certeza, recomendo duas ações práticas por parte da Igreja.

1. A Igreja precisa tornar-se uma comunidade amorosa

Conta-se que Madre Tereza participou de reuniões com reis, presidentes e chefes de Estado do mundo inteiro. Eles compareciam com os seus ornamentos que falavam de sua condição na sociedade. Enquanto Madre Tereza usava o seu tradicional sári, preso por um alfinete de segurança.

Um nobre conversou com ela a respeito de seu trabalho com a camada mais pobre da população de Calcutá. Ele perguntou se ela não se sentia desanimada ao ver tão pouco sucesso em seu ministério. Madre Tereza respondeu: “- Não, eu não me sinto desanimada. Veja, Deus não me chamou para o sucesso. Ele me chamou para um ministério de misericórdia.”

A Igreja precisa perceber a sua vocação, entendendo que o desafio que está diante de si é precioso e não deve despertar um desejo por resultados. Os resultados são importantes, no entanto, a nossa vocação deve ser exercida em obediência àquele que nos arregimentou e ao mesmo tempo com o cotação engravidado de misericórdia. Essa misericórdia precisa desembocar em ações práticas, efetivas que possam, em alguma proporção fazer diferença nesse mundo de indiferentes.

2. A Igreja precisa ser sensível ao desafio que tem diante de si

Barro, citando Orlando Costas, afirma ser “essencial que procuremos entender, ainda que de forma breve, a urgência da missão na cidade”.123

Barro, na verdade, está sugerindo que olhemos com o devido cuidado o que acontece ao nosso redor, percebendo que

o desafio não pode ser minimizado, antes, deve ser encarado com a devida seriedade e urgência.

Lendo a história do rei Salomão, logo quando ele ascendeu ao trono de Israel, após a morte de seu pai Davi, descobrimos que ele resolveu buscar a Deus em oração. Em seu pedido encontramos o rei, primeiro, admitindo que o desafio que tinha diante de si era enorme; em segundo lugar, ele percebe que o seu papel como rei não é maior do que o de um mordomo. Ele percebeu que foi colocado naquela condição para servir a nação e em terceiro lugar, o rei pediu discernimento para governar com justiça, podendo distinguir entre o bem e o mal (I Rs 3.7-9).

É impressionante perceber que o rei de Israel não minimizou o desafio que tinha diante de si; antes possuía uma noção exata do mesmo, mas ele não quis enfrentá-lo de qualquer jeito, desejou fazê-lo com justiça. Talvez esta seja a hora de clamar por discernimento, admitindo a dimensão do desafio e as nossas limitações para superá-lo. Salomão pediu discernimento para julgar com justiça.

Que a Igreja clame por discernimento para fazer justiça.

* * *

Notas

1 Caio Fábio D’ARAÚJO FILHO, A Igreja Evangélica e o Brasil: Profecia, Utopia e realidade, p. 16, 17 e 20

2 Samuel ESCOBAR, Desafios da Igreja na América Latina, p. 17

3 Paul FRESTON, Fé Bíblica e Crise Brasileira, p. 5-6

4 C. René PADILLA, Missão Integral, p.9.

5 John STOTT, Evangelização e Responsabilidade Social, p.7.

6 Billy GRAHAM, A Missão da Igreja no Mundo de Hoje, p. 17.

7 James A. SCHERER, Evangelho, Igreja e Reino, p. 125.

8 James A. SCHERER, op. Cit., p. 192

9 Luiz LONGUINI NETO, O Novo Rosto da Missão, p. 186.

10 Valdir STEUERNAGEL, A Evangelização do Brasil: Uma tarefa Inacabada, p.38-39.

11 Tony LANE, Pensamento Cristão, vol.2, p.204-205.

12 Robinson CAVALCANTI, A Utopia Possível, p.44.

13 René C. PADILLA, op. cit., p.57-58

14 Luiz LONGUINI NETO, op. cit., p. 187

15 Idem. p.76

16 id., p.188.

17 John STOTT, John Stott comenta o Pacto de Lausanne, p.9.

I8 James SCHERER, op. cit., p. 126.

19 John STOTT, op. cit.. livre adaptação ao Comentário de Stott sobre o Pacto.

20 John STOTT, op. cit., p.27.

21 íd., 28.

22 Robinson CAVALCANTI, OP. CIT., p.43

23 Peter WAGNER, A igreja Saudável, p. 151.

24 John STOTT, Ouça o Espírito, Ouça o Mundo. p.376-377.

25 James I. PACKER, Evangelização e Soberania de Deus, p.28.

26 Wadislau Martins GOMES, Sal da Terra em Terras dos Brasis, p.29.

27 Carlos R. CALDAS FILHO, Fé e Café, p.67.

28 Russell P. SHEDD, Fundamentos Bíblicos da Evangelização, p.8.

29 Joseph C. ALDRICH, Amizade, a Chave para a Evangelização, p13, (texto adaptado).

30 Edward R. DAYTON, O Desafio da Evangelização do Mundo. p. 18.

31 John STOTT, op.cit., p.23.

32 Antonio José do NASCIMENTO FILHO, América Latina e seus Problemas, in Fides Reformata, p. 95.

33 id. p. 96.

34 Hélcio da Silva LESSA, Missão da Igreja e Responsabilidade Social, p.76-77.

35 John STOTT, op. cit., p.38.

36 Andrew KIRK, O Debate a Respeito da Missão Cristã, in Fundamen­tos da Teologia Cristã, p.269.

37 John STOTT, op. cit., p.31.

38 James A. SCHERER, op. cit., p. 136.

39 A. J. do NASCIMENTO FILHO, O Papel da Ação Social na Evangelização e Missão na América Latina, p.28.

40 id., p.29.

41 John STOTT, op. cit., p.21.

42 John Stott, op. cit., p.380

43 Francis A. SCHAEFFER. Manifesto Cristão, p.63-65.

44 John STOTT, op. cit., p. 10.

45 Manfred GRELLERT, Os Compromissos da Missão, p.73-74

47 Jaziel C. CUNHA, O Reformador, p. 1

48 Walter A. ELWELL, Enciclopédia Teológica da Igreja Cristã, vol. II, p. 426-429

49 Augustus Nicodemus LOPES, Liberalismo e Fundamentalismo, p.6-7

50 Walter A. ELWELL, Enciclopédia Teológica da igreja Cristã, vol. III, p. 112-113

51 John STOTT. O Cristão em uma Sociedade não Cristã, p.23

52 Idem, p.24

53 Augustus Nicodemus LOPES. Op. Cit..p.7

54 Idem, p. 10

55 Antonio Gouvêa MENDONÇA, O Celeste Porvir, p. 242

56 M. S. B. DANA e I. G. ROCHA, Hinário Novo Cântico, p. 168

57 E. T. CASSEL e E. R. SMART, Hinário Novo Cântico, p. 258-259

58 Carlos CALDAS, O Último Missionário, p.43

59 Antônio José do NASCIMENTO FILHO, O Papel da Ação Social na Evangelização e Missão na América Latina, p.58

60 Robert C. LINTHICUM, Revitalizando a Igreja, p.87-88

61 Warren W. WIERSBE, A Crise de Integridade, p.29

62 Robert C. LINTHICUM, op.cit.. p.60

63 Caio Fábio D’ARAUJO FILHO, Igreja: Evangelização, serviço e transformação histórica, p.20

64 H. BETTENSON, Documentos da Igreja Cristã, p. 235

65 Antonio José do NASCIMENTO FILHO, op.cit., p. 64-65

66 Clóvis Pinto de CASTRO, A Cidade é Minha Paróquia, p.47

67 Robinson CAVALCANTE op. Cit., p.39

68 René PADILLA e Carlos DEL PINO. Reino, Igreja e Missão, p.68

69 John STOTT, op. cit.. p. 17

70 Francis A. SCHAEFFER, Manifesto Cristão, p.65

71 Elben M. Lenz CÉSAR, História da Evangelização do Brasil. p.89

72 Domício P. MATTOS, A Posição social da Igreja, p.49-50

73 Idem, 52-54

74 Elben M. Lenz CÉSAR, op. cit., p.96

75 Duncan Alexander RELLY, História Documental do Protestantismo no Brasil, p. 134

76 Domício MATTOS. op. Cit., p.55

77 Idem.p.55-59

78 Irland P. de AZEVEDO, Missão da Igreja e Responsabilidade Social, p. 11-24

79 Paulo FRESTON, Fé Bíblica e Crise Brasileira, p. 142

80 Domício MATTOS, op. cit., p. 61-62

81 Paul FRESTON. op. cit.. p. 143

82 Carlos Pinheiro QUEIROZ, Eles Herdarão a Terra, p. 113

83 R. Alan COLE, Êxodo, Introdução e Comentário, p. 172

84 R. K. HARRISON, Levítico, Introdução e Comentário, p.206

85 R. N. CHAMPLIN, Dicionário do Antigo Testamento Interpretado Versículo por Versículo, p.4583

86 Antônio José do NASCIMENTO FILHO, Fidas Reformata, p. 107

87 Russel P. SHEDD, A Justiça Social, p.8

88 John STOTT, Ouça o Espírito, Ouça o Mundo, p.383

89 John STOTT, Tive Fome, p.21

90 Jorge H. BARRO, De Cidade em cidade, p.50

91 Idem, p.50-51

92 Jorge H. BARRO, op.cit., p.26

93 James Montegomery BOICE, O Discipulado Segundo Jesus, p. 17

94 Colin BROWN, Dicionário de Teologia do Novo Testamento, vol. II, p.45

95 Colin BROWN. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, vol. IV. p.449

96 Idem, p.451

97 Carlos Pinheiro QUEIROZ. Jornal AETAL, p.5

98 Jorge H. BARRO, Ações Pastorais da Igreja com a Cidade, p.25-26

99 O Breve Catecismo de Westminster, p. 10

100 Heber Carlos CAMPOS, O Ser de Deus, p. 164

101 John STOTT, John Stott Comenta o Pacto de Lausanne, p.28

102 John STOTT, op.cit., p.383

103 J. I. PACKER, teologia Concisa, p.20

104 Dieter BREPOHL, Afluência e Pobreza, in A Evangelização do Brasil; Uma Tarefa Inacabada, p.133

105 Júlio Paulo Tavares ZABATIERO, Liberdade e Paixão, p.29

106 Antônio José do NASCIMENTO FILHO, op.cit., p.49

107 Ibid

108 ldem, p.45

109 René PADILLA, Missão Integral, p. 15

110 Ibid

111 John STOTT, op. cit., p.94

112 George Barna, A Rã na Chaleira, capa

113 Carlos Pinheiro QUEIROZ. Eles Herdarão a Terra, p.71-85

114 Robinson CAVALCANTI, Igreja: Agência de Transformação Histórica, p.51-53

115 Philip YANCEY, Encontrando Deus nos Lugares mais Inesperados, p.105

116 Philip YANCEY, Enfoque Gospel, p.90

117 René PADILLA, Evangelio Hoy, p.82-88

118 René PADILLA, Servindo com os Pobres na América Latina, p.35

119 Luiz LONGUINI NETO, op. cit., p.77

120 Valdir STEUERNAGEL (Editor), A Evangelização do Brasil: Uma tarefa inacabada, p. 10

121 Luiz LONGUIN1 NETO, op. cit.. p.28 e 78

122 Rubem AMORESE (Editor), A igreja Evangélica na Virada do Milênio, p.31

123 Jorge Henrique BARROS, op. cit. p.11

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Responsabilidade Social da Igreja/ Calvino Teixeira da Rocha

ISBN-85-8714374-3

1. Teologia Social 2. Igreja – Responsabilidade social 1. Título.

Copyright ©2003 by Descoberta Editora Ltda.

1ª edição: Verão 2003

Capa: Eduardo Pellissier

Impressão: Imprensa da Fé

Todos os direitos reservados para Descoberta Editora Ltda., Rua Pequim, 148, Londrina/PR 86050-310, Tel/fax: (43) 3337 0077 –  editora@descoberta.com.br – descoberta.com.br

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Por Calvino Rocha

CONVERSÃO de verdade só é possível com um coração QUEBRANTADO a Jesus Cristo, além de inexplicável vontade de humilhar-se e obedecer a Ele

Prefácio

Estas páginas são uma tradução de um dos capítulos do livro do Rev. Richard Baxter, intitulado Direções e Persuasões para uma Conversão Segura (Directions and Persuasions to a Sound Conversion). Dentre as doze instruções que ele fornece no livro, a fim de que uma conversão não venha a ser abortada, mas sim firme, segura, sólida e saudável, a quarta, aqui traduzida, é a seguinte: “Atente para que a obra de humilhação seja feita de modo completo, e não fuja do Espírito de contrição antes que Ele complete Sua obra em você”.

O capítulo é, portanto, um tratado sobre quebrantamento, sobre a obra de humilhação que o Espírito quer realizar no entendimento, vontade e sentimentos de um pecador, a fim de habilitar seu coração a receber a Cristo com a solicitude e dignidade imprescindíveis, porque Cristo, escreve Richard Baxter, “não virá através da Sua graça salvadora à alma, para ser recebido ali com desprezo: porque Ele veio na carne com o propósito de ser humilhado, mas veio no Espírito com o propósito de ser exaltado”.

O Rev. Richard Baxter foi um conhecido pastor reformado, o qual viveu na Inglaterra durante o século XVII (1615-1691). Era um não-conformista, que tentou reformar a Igreja da Inglaterra, sendo muitas vezes preso por isso. Dentre os seus livros mais importantes estão: O Pastor Reformado, O Descanso Eterno dos Santos, A Vida Divina, Um Tratado sobre a Conversão, Um Apelo ao não Convertido, Agora ou Nunca, e muitos outros clássicos evangélicos.

Os escritos, a pregação e a vida de Richard Baxter produziram um inegável reavivamento espiritual na cidade de Kidderminster, onde realizou o seu ministério. Quando ele chegou à cidade, eram poucos os crentes e duvidosas as suas conversões. Algum tempo depois, entretanto, o templo de sua igreja teve que ser aumentado – ainda assim não comportava mais as pessoas, que escalavam as janelas para ouvir suas pregações. Muitas ruas da cidade tiveram todos os seus moradores convertidos: podia-se ouvir centenas de pessoas cantando hinos de louvor a Deus em plena rua; e as conversões davam provas suficientes de serem sinceras e profundas.

O propósito da Editora Clássicos Evangélicos[1][1][1], como o próprio nome indica, é traduzir e editar obras (sermões, biografias, obras práticas e teológicas) de homens de reconhecida estatura espiritual dos períodos mais gloriosos da História da Igreja, tais como: Jonathan Edwards, John Owen, Richard Sibbes, Thomas Goodwin, mais recentemente Martyn Lloyd-Jones, e outros, como o volume aqui apresentado de Richard Baxter, que introduz a série.

Vemos os escritos desses irmãos do passado como um tesouro espiritual valiosíssimo, mas ao mesmo tempo perdido ou quase inacessível aos leitores brasileiros. Desejamos resgatar alguns desses tesouros e compartilhar suas jóias (conselhos, interpretações, ensinos, experiências, luz e calor), tornando-os mais acessíveis.

O Editor

Introdução[2][2][2]

 

A firmeza da conversão e santificação é uma consideração tão importante que o nosso cuidado e diligência em confirmá-las não podem ser demasiadamente grandes. Tanto os ateístas professos, pagãos e infiéis lá fora, como os hipócritas auto-enganadores dentro da igreja, entregam-se deliberadamente à ruína eterna ao negligenciarem tal assunto de conseqüência eterna, enquanto têm tempo, advertência e assistência para considerarem a questão com urgência. Multidões vivem como brutos ou ateístas, esquecendo-se de que são nascidos em pecado e miséria, deliberadamente acomodados nesta situação, os quais devem ser convertidos, ou serão condenados. Muitos deles não sabem a necessidade que têm de conversão, nem o que é conversão ou santificação. Além disso, alguns pregadores do Evangelho têm sido tão lamentavelmente ignorantes quanto a um assunto de tal importância que têm persuadido o pobre e iludido povo de que apenas os pecadores grosseiros e odiosos necessitam de conversão, dessa forma prometendo salvação àqueles, aos quais Cristo, com muitas asseverações, declarou que não entrariam no reino de Deus. Outros, embora confessem que uma profunda santificação é algo necessário, iludem suas almas com alguma coisa que apenas se assemelha a isso.

Aí está a causa da miséria e desonra da igreja. A própria santidade é desonrada por causa dos pecados daqueles que, se dizendo santos, pretextam aquilo que não têm. Por isso, temos milhares que se chamam cristãos vivendo uma vida mundana e carnal; alguns deles odiando o caminho da piedade, pensando, contudo, que são convertidos por sentirem alguma tristeza quando pecam; desejam, quando o pecado já é passado, que não houvesse acontecido aquilo, imploram a misericórdia de Deus por isso, e se confessam pecadores. Isto, eles tomam por verdadeiro arrependimento; embora o pecado nunca tenha sido mortificado nas suas almas, nem os seus corações tenham sido levados a odiar e abandonar o pecado. Após haverem usufruído e se deleitado no pecado, ficam tristes por causa do perigo, mas nunca são regenerados e feitos novas criaturas pelo Espírito de Cristo.

É por isso, também, que temos tanta abundância de meros “opinionistas”, que se consideram pessoas religiosas porque mudaram de opinião ou de denominação, porque podem tagarelar contenciosamente contra aqueles que não pensam como eles, e porque se unem àqueles que parecem ser os mais piedosos, assim assumindo serem realmente santificados. Isto promove tamanho corre-corre de uma opinião à outra, e tal reprovação, injúria, e divisões, pelo seguinte: a religião deles consiste especialmente nas suas opiniões, sendo que nunca mortificaram suas inclinações e paixões carnais e egoístas. Isto sim, produziria neles uma mente santa e celestial.

Por isso também há tantos mestres licenciosos, os quais parecem ser religiosos, mas que não refreiam suas línguas, seus apetites, suas cobiças, sendo antes escarnecedores, caluniadores, beberrões, glutões, imundos e lascivos, ou de algum modo escandalosos para a sua santa profissão, porque desconhecem uma real conversão e apegam-se a uma mudança falsa ou superficial.

Esta é a razão pela qual há tantos mundanos que se consideram homens religiosos, os quais fazem de Cristo apenas um servo dos seus interesses mundanos, e buscam os céus apenas como uma reserva para quando nada mais lhes restar na terra, e são apegados a certas coisas deste mundo, as quais lhes são tão queridas, a ponto de não poderem abandoná-las pela esperança da glória; mas entregam-se a Cristo com secretas exceções e reservas, por causa de sua prosperidade no mundo. Tudo isso porque nunca conheceram uma conversão genuína, a qual deveria ter arrancado dos seus corações este interesse mundano, e tê-los libertado inteira e absolutamente para Cristo.

É por isso também que há tão poucos mestres que podem desvencilhar-se do seu orgulho, suportar desconsideração ou ofensa, amar os seus inimigos, e abençoar aqueles que os amaldiçoam; sim, ou amar seus amigos piedosos que os irritam ou desonram; e tão poucos que podem negar a si mesmos pela honra de outros, ou fazer qualquer coisa considerável por amor a Cristo, em obediência e conformidade com a Sua vontade. E tudo isso, porque nunca experimentaram esta transformação salvadora, que rebaixa o “eu”, e estabelece a Cristo como soberano na alma.

Aí está também a razão pela qual se observa, atualmente, tanto exemplo terrível de apostasia. Tantos ultrajando a Escritura, que pensam um dia tê-los convertido; ultrajando o caminho da santidade, o qual um dia professaram; negando o próprio Senhor que os comprou; e tudo porque anteriormente se apegaram a uma conversão superficial e falsa.

Oh, quão comumente, e quão lamentavelmente esta miséria se manifesta entre os mestres, nos seus discursos insípidos, nas suas contendas e invejas, nas suas pretensões religiosas, nas suas formalidades mortas e divisões impetuosas, ou nas suas mentes egoístas, soberbas e carnais! Uma conversão genuína teria curado tudo isso, ou, pelo menos, curado do domínio dessas coisas.

Assim sendo, tendo no meu livro “Apelo ao Não Convertido” (Call to lhe Unconverted) me esforçado no sentido de despertar almas descuidadas, e persuadir os obstinados a se voltarem para Deus a fim de que vivam, eu aqui me dirijo àqueles que parecem estar sob a obra de conversão. Tenciono dar-lhes algumas direções e persuasões para preveni-los de virem a perecer no nascimento, e, assim, prevenir a hipocrisia, na qual, provavelmente, se formarão. Prevenir também o engano de seus corações, o engano nas suas vidas, e a miséria na hora da morte, coisas estas, que provavelmente se seguiriam, para que não vivam como aqueles que honram a Deus com a sua boca e com os seus lábios, mas o seu coração não está correto diante Dele, nem são firmes à Sua aliança[3][3][3]. Para que, por não se entregarem a uma consideração profunda, nem enraizarem a semente de vida, ou por abafarem-na com um amor e cuidado predominantes pelo mundo, venham a secar quando o fogo da perseguição surgir. Para que, edificando sobre a areia, não venham a cair quando os ventos e as tempestades se levantarem, e a sua ruína seja grande, e assim “Saiam do nosso meio, a fim de que se manifeste que não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco”.[4][4][4]

Atentem, portanto, para esta grande e importante questão, e “procurai, com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição”,[5][5][5] e não dêem crédito aos seus corações tão fácil e confiantemente; “mas voltem-se para o Senhor de todo o seu coração”. Apeguem-se a Ele resolutamente e com propósito de coração, e atentem a fim de que vendam tudo, comprem a pérola, e não hesitem diante do preço, mas se rendam totalmente a Cristo, e voltem-se para Ele – como fez Zaqueu e outros convertidos da igreja primitiva – renunciando a tudo o que não tem a Sua vontade.

Não deixem que nenhuma raiz de amargura permaneça; não façam exceções ou reservas; mas neguem-se a si mesmos; abandonem tudo, e sigam Aquele que os tem guiado a este caminho de autonegação; e confiem no Seu sangue, méritos e promessas, por um tesouro nos céus; e, assim, vocês serão Seus discípulos, e cristãos de fato.

Leitor, se tu, de coração, tomares estas resoluções e as guardares, descobrirás, que nas tuas situações mais críticas, Cristo não te enganará, enquanto que o mundo engana aqueles que o escolhem. Mas, se desistires, e pensares que estes termos são demasiadamente duros, lembra-te de que a vida eterna te foi oferecida; e lembra-te por que, e pelo que a rejeitaste. Se nesta vida terrena buscares o teu próprio benefício, espera ser atormentado, enquanto que as almas crentes, as quais trilharam o caminho da autonegação, estarão sendo confortadas.

Richard Baxter

Capítulo 1

A Verdadeira Natureza da Humilhação

Há uma humilhação preparatória que acontece antes de uma transformação salvífica, que não deve ser desprezada, visto que nos aproxima de Deus, mas que, contudo, não consiste numa total submissão a Ele.

Esta humilhação preparatória, a qual muitos vêem fenecer, consiste principalmente nas seguintes coisas: em primeiro lugar, ela reside principalmente no temor de ser condenado – este temor se assemelha mais à sensação de medo. Consiste também em uma certa apreensão da grandeza dos nossos pecados, da ira de Deus que ameaça cair sobre nossas cabeças, e do perigo em que nos encontramos de sermos condenados para sempre. Ela consiste ainda em certa compreensão da loucura da qual somos culpados ao pecar, e de algum arrependimento por ter um dia cometido tais coisas, e algum remorso de consciência por isto. A isto pode se unir um certo sentimento de tristeza, sendo este expresso através de gemidos e lágrimas. Isso tudo pode ser acompanhado com confissões de pecado a Deus e a homens, lamentações por nossa miséria; em alguns, isto precede o próprio desespero. E, finalmente, isto pode levar a uma indignação contra nós mesmos, e à adoção de uma atitude de severa vingança sobre nós mesmos; sim, mais do que Deus levaria o homem a adotar; como Judas fez em se autodestruir. Este desespero e auto-execução não são parte da humilhação preparatória, mas o excesso, o seu erro, e a entrada do inferno.

Mas há também uma humilhação que é própria ao convertido, a qual acompanha a salvação, e que inclui tudo o que há na anterior, e muito mais – assim como a alma racional inclui o sensitivo, o vegetativo, e muito mais. Esta humilhação salvífica consiste nos seguintes particulares: ela começa no entendimento, e é enraizada na vontade. Opera nos sentimentos e, quando há oportunidade, manifesta-se em expressões e atitudes exteriores.

1. A humilhação do entendimento consiste em uma baixa apreciação de nós mesmos, num auto-rebaixamento, e num auto-julgamento condenatório; e isto nas seguintes particularidades:

Consiste numa apreensão profunda, sólida, habitual e real da hediondez dos nossos próprios pecados, e de nós mesmos por causa deles; isto porque eles são contrários à bendita natureza e lei de Deus, e tão contrários à nossa própria perfeição e bem principal. Também consiste em uma sólida e fixa apreensão da nossa própria ruína por causa desses pecados, de tal modo que os nossos julgamentos subscrevem a eqüidade da sentença condenatória da lei, e nos julgamos indignos da menor misericórdia, e dignos de punição eterna. Consiste em uma apreensão da nossa condição arruinada e miserável: visto que nós não apenas somos herdeiros de tormento, como também, destituídos da imagem e Espírito de Deus, perdemos Seu favor, estamos debaixo do Seu desagrado e inimizade. Por causa do nosso pecado, perdemos o direito da nossa parte na glória eterna, e grande é nossa incapacidade de nos ajudar a nós mesmos.

Isto se dá em tal medida, que nós julgamos realmente os nossos pecados e a nós mesmos, por causa do pecado, mais odiosos do que qualquer outra coisa que algum outro mal pudesse nos tornar. Consideramos a nossa miséria, por causa do pecado nas particularidades referidas anteriormente, maior do que qualquer calamidade exterior na carne, e do que qualquer perda terrena que viesse a nos atingir. Isto nós apreendemos através de um julgamento prático e não apenas por mera especulação ineficaz. A fonte disto está em um certo conhecimento do próprio Deus, cuja majestade é tão gloriosa, e cuja sabedoria é tão infinita. O qual é tão bom em Si mesmo e para conosco, cuja santa natureza é contrária ao pecado. O qual tem em nós uma propriedade absoluta, e também é soberano sobre nós. Isto é também proveniente de um conhecimento do verdadeiro estado da felicidade humana, que foi arruinada pelo homem em conseqüência do pecado, a qual consiste em agradar, glorificar e gozar a Deus em amor, deliciar-se Nele, e louvá-Lo para sempre, e em ter uma natureza perfeitamente santa e adequada a este propósito. Ver que o pecado é contrário a esta felicidade e que nos tem privado dela, é uma das fontes da verdadeira humilhação.

Esta humilhação no entendimento provém também de um conhecimento pela fé de Cristo crucificado, o qual foi morto pelos nossos pecados, o qual declarou na maneira mais viva possível ao mundo através de Sua cruz e sofrimentos o que é o pecado, o que ele faz, e a situação em que nós nos colocamos.

Assim, muito da humilhação salvífica se processa no entendimento.

2. A sede principal desta humilhação é na vontade, e aí ela consiste nos seguintes atos: ao pensarmos humildemente a respeito de nós mesmos, nós temos um constante desagrado por nós mesmos e pelos nossos pecados, e uma certa indignação contra nós por causa das nossas abominações. Um pecador humilhado é um inquiridor de si mesmo, e como ele é mau, seu coração é contra ele próprio.

Há também na vontade um profundo arrependimento por termos pecado, ofendido a Deus, abusado da Sua graça, e por termos nos colocados em tal situação; de tal modo que a alma humilhada desejaria gastar seus dias na prisão, a esmolar, ou em miséria corporal, ao invés de gastá-los no pecado; e se pudesse começar de novo, ela preferiria escolher uma vida de vergonha e calamidade no mundo, do que uma vida de pecado, e ficaria alegre pela troca.

Uma alma humilhada deseja realmente se entristecer por causa dos pecados que cometeu, e por causa deles ser sensível e afligida tão profundamente quanto fosse agradável a Deus. Mesmo quando ela não pode derramar uma lágrima, ainda assim a sua vontade é derramá-las. Quando ela não consegue sentir nenhuma profunda aflição por causa do pecado, seu sincero desejo é que possa senti-la. Ela preferiria cem vezes chorar no desejo, quando não o faz em ato.

Uma alma humilhada deseja realmente mortificar a própria carne pelo uso daqueles meios indicados como sendo aqueles através dos quais Deus a subjuga, como através do jejum, abstinência, vestuário simples, trabalho duro e negando-se prazeres desnecessários.

É uma dúvida digna de consideração se quaisquer destes atos de humilhação devem ser usados propositadamente em revide contra nós mesmos por causa do pecado. A isto respondo que nós não podemos fazer nada, a título de revide, que Deus não o permita, ou que torne nossos corpos menos habilitados para o Seu serviço, pois esta atitude receberia revide de Deus e da nossa alma. Mas aqueles meios de humilhação necessários para domar o corpo podem bem ser usados com dupla intenção: primeiro e especialmente, como um meio para nossa segurança e como precaução, a fim de que a carne não venha a prevalecer; e então, paralelamente, nós deveríamos ficar mais contentes em ver mais sofrimento ser imposto à carne, porque ela foi e ainda é um grande inimigo de Deus e nosso, e a causa de todo o nosso pecado e miséria. Este é o revide que é permitido ao penitente, e que alguns pensam ser tencionado.

Visto que a alma humilhada tem pensamentos humildes de si mesma, então ela deseja que outros a avaliem e a considerem desse modo, mesmo que seja um pecador vil e indigno, desde que a sua desgraça não prejudique o Evangelho ou a outros, ou venha a desonrar a Deus. Seu orgulho é humilhado a tal ponto que ela não pode suportar ser depreciada com alguma condescendência. Não que aprove o pecado de qualquer homem que faça isso maliciosamente, mas consentindo com o julgamento e repreensão daqueles que façam isto com sinceridade, e consentindo com o julgamento de Deus, ainda que através daqueles que o façam maliciosamente. A alma humilhada não fica se defendendo e atenuando injustamente seus pecados, se desculpando, e se inflamando contra o reprovador; o que quer que ela faça em uma tentação, se esta atitude for predominante, seu orgulho, e não humilhação, acabará por predominar. Mas ela se julga a si mesma o tanto quanto outros possam justamente julgá-la, e humildemente consente em ser humilhada aos olhos humanos até que Deus venha a levantá-la e a recuperar sua dignidade.

A raiz de toda essa humilhação na vontade é um amor a Deus, a quem ofendemos, um ódio ao pecado que O ofendeu, e que nos fez odiosos; um senso confiante do amor e dos sofrimentos de Cristo, O qual condenou o pecado na Sua carne.

Assim vocês vêem no que consiste a humilhação da vontade, a qual é a própria vida e alma da verdadeira humilhação.

3. A humilhação também inclui os sentimentos: uma genuína tristeza pelo pecado que cometemos; pela corrupção que há no pecado; uma vergonha por estes pecados; um santo temor a Deus quando nós O ofendemos, e dos Seus julgamentos os quais merecemos, e uma apropriada aversão aos nossos pecados. Mas, como mostrarei adiante, não é pelo grau, mas pela sinceridade destes sentimentos que você deve fazer um julgamento do seu estado; e isto dificilmente será discernido pelos próprios sentimentos. Assim, portanto, a vontade é o meio mais seguro através do qual podemos nos avaliar.

4. A humilhação também consiste expressivamente em ações exteriores, quando é oferecida oportunidade. Não há humilhação verdadeira no coração, se ela se recusa a aparecer no exterior, quando Deus a requer no seu curso ordinário. Os atos exteriores da humilhação são: uma confissão voluntária dos pecados a Deus e aos homens, quando Deus o requer, isto é, quando isto se torna necessário à Sua honra, ao bem daqueles a quem ofendemos, e satisfação do ofendido. Isto deve ser feito pelo menos quando confessamos os pecados abertamente a Deus na presença dos homens. Uma alma não humilhada se recusaria a fazê-lo por vergonha; mas o humilhado aceitaria livremente ser envergonhado, se isso viesse a advertir seus irmãos, e justificar a Deus, e Lhe dar glória. “Se confessarmos os nossos pecados Ele é fiel e justo para nos perdoar…” (1 Jo 1:9). “Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros, e orai uns pelos outros, para serdes curados…” (Tg 5:16). “O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa, alcançará misericórdia” (Prov 28:13). Não que a pessoa precise confessar seus pecados secretos a outros, a não ser quando não possa alcançar alívio; não que a pessoa deva publicar as suas ofensas, vindo a desonrar a Deus ainda mais, e a ser empecilho para o Evangelho. Mas quando o pecado já é público e especialmente quando a ofensa de outros, o endurecimento dos ímpios, a satisfação da igreja com relação ao nosso arrependimento, requer nossa confissão e lamentação pública, então a alma humilde deve e se submeterá a isto.

O homem de coração corrompido, hipócrita, não humilhado, entretanto, confessará apenas nos seguintes casos: quando o sigilo da confissão, ou a insignificância da falta, ou a freqüência de tal confissão não traga grande vergonha sobre si. Ou quando a falta já é tão pública que seria vã qualquer tentativa de escondê-la, e a confissão não aumentaria em nada a sua desgraça. Ou quando a consciência está pesada, ou à beira da morte, ou forçado por algum terrível julgamento de Deus. Em todos estes casos o ímpio pode confessar seus pecados. Assim Judas confessou: “Pequei traindo sangue inocente” (Mt 27:4). Faraó confessou: “Eu e o meu povo somos ímpios” (Ex 9:27). Um ladrão à beira da forca confessará; e o mais vil e desprezível ser, no seu leito de morte, também confessará. Mas nós temos mais confissões no leito de morte do que confissões voluntárias diante da igreja. Infelizmente,o orgulho e a hipocrisia têm prevalecido de tal modo, e a antiga disciplina da igreja tem sido tão negligenciada, que eu penso que na maioria dos lugares na Inglaterra há muito mais pessoas que fazem confissão na forca do que pessoalmente em uma congregação.

A humilhação também deve ser expressa através de todos aqueles meios e sinais externos, aos quais Deus, através das Escrituras ou da nossa própria natureza, nos conclama. Como, por exemplo, através de lágrimas e gemidos, tanto quanto oportunamente nos ocorra; através de jejum, e da atitude de prostrar-se por causa de nossa pompa e tolice mundanas, e uso de roupas humildes, porém decentes; condescendendo com os mais desfavorecidos, e se sujeitando aos mais humildes; usando linguagem e carruagem simples; e perdoando outros, por sermos sensíveis à grandeza dos nossos débitos para com Deus.

Assim eu mostrei brevemente a vocês a verdadeira natureza da humilhação, a fim de que possam saber a que lhes estou persuadindo, e a que precisam submeter os seus corações.

Capitulo 2

Utilidade e Propósito da Humilhação

Quando eu houver falado sobre a utilidade e propósito da humilhação, vocês entenderão mais do porquê da necessidade dela para vocês mesmos.

1. Um dos usos da humilhação é ajudar na mortificação da carne, ou do “eu” carnal, e aniquilá-la, visto ser esta o ídolo da alma. A natureza do estado pecaminoso e miserável do homem consiste no fato de haver se afastado de Deus, e de estar entregue a si mesmo, vivendo agora para si mesmo, estudando, amando e satisfazendo a si mesmo, ao seu “eu” natural mais do que a Deus. Um pecador se livrará de muitos pecados exteriores e se libertará de obras exteriores antes que venha a se libertar do seu “eu” carnal, e se livre da fortaleza e poder do pecado. Não há parte da mortificação tão necessária e tão difícil como a autonegação –  na verdade, ela virtualmente compreende todo o resto, e se isto for feito, tudo estará feito. Se fosse apenas uma questão dos seus amigos, seus supérfluos, sua casa, suas terras, talvez um coração carnal pudesse abrir mão disso. Mas abrir mão da sua vida, do seu tudo, do seu “eu”, é uma palavra dura para ele, e suficiente para fazê-lo ir embora pesaroso. Assim sendo, aqui aparece a necessidade da humilhação; ela coloca todo o fardo sobre o “eu”, e quebra o coração do velho homem, e faz um homem não tolerar a si mesmo, a quem anteriormente amava sobremaneira.

A humilhação transforma esta torre de Babel em pó, e faz com que nos detestemos até o pó e cinzas. Ela toca fogo na casa, na qual confiávamos e nos deleitávamos, diante dos nossos olhos; e nos faz não apenas ver, mas sentir, que é tempo de nos rendermos. O orgulho é o pecado mestre do ímpio, e é parte da humilhação fazê-lo cair por terra. A auto-satisfação é o propósito de suas vidas, até que a humilhação ajude a mudar o curso do rio; e aí, então, se você pudesse ler os pensamentos deles, veria que eles agora se consideram os mais indignos; e se você pudesse ouvir suas orações e lamentos, você os ouviria clamar por si mesmos como se fossem os seus maiores inimigos.

2. A próxima utilidade da humilhação, e implícita na utilidade anterior, é mortificar aqueles pecados dos quais o “eu” carnal depende e pelos quais é nutrido, e bloquear todas as avenidas e passagens através das quais eles são supridos. O pecado é doce e querido por todos os que não são santificados; mas a humilhação faz com que se tornem amargos e vis.

Assim como as crianças são dissuadidas de brincar com uma colméia de abelhas quando são uma ou duas vezes ferradas por elas, ou de brincar com cães bravios quando são mordidas por eles, assim Deus ensina Seus filhos a saberem o que significa brincar com o pecado, quando são golpeados por ele. Eles distinguirão uma urtiga de arbustos inofensivos quando sentirem o seu ardor. Nós estamos tão acostumados a viver pelos sentidos, que Deus considera necessário que nossa fé tenha a ver com os sentidos para ajudá-la. Quando a consciência acusa, o coração sofre, geme de dor, e sentimos que nenhum expediente ou esforço nos livrará disso, então começamos a nos tornar mais sábios do que antes, e a conhecer o que é realmente o pecado, e o que ele nos causa. Quando aquilo que era o nosso deleite se torna a nossa aflição, e uma aflição pesada demais para suportarmos, isto cura o nosso deleite no pecado. Quando Davi estava encharcando o seu leito com lágrimas, e teve que beber delas, o seu pecado não era mais a mesma coisa para ele, como o foi quando o cometeu. A humilhação retira a pintura desta prostituta que é o pecado e mostra-a em sua deformidade. Ela desmascara o pecado, o qual assumiu uma máscara de virtude, ou de algo irrelevante, ou de uma coisa inofensiva. Ela desmascara Satanás, o qual foi transformado num amigo, ou em um anjo de luz, e revela o seu caráter maligno.

Quão difícil é curar um mundano do amor ao dinheiro! Mas quando Deus coloca tal peso em sua consciência, a ponto de fazê-lo gemer e clamar por socorro, o dinheiro perderá o seu atrativo. Quando ele começa a chorar e gemer por causa das misérias que vêm sobre si, e vê os efeitos da sua riqueza corrupta, e a gangrena do seu ouro e prata começar a comer a sua carne como fogo, e seu ídolo se torna nada menos do que um testemunho contra si, então estará melhor habilitado do que antes para avaliar o pecado. O devasso pensa que tem uma vida feliz quando os lábios da prostituta destilam favos de mel, mas quando ele percebe que o fim dela é amargoso como o absinto, agudo como a espada de dois gumes, que os seus pés descem à morte, e que os seus passos conduzem-na ao inferno[6][6][6], e ele jaz em tristeza, lamentando-se da sua loucura, estará então em mais condições de julgar corretamente do que antes estava. O Manassés humilhado em cadeias não é o mesmo que era quando estava no trono; embora a graça tenha contribuído mais para isso do que seus grilhões, estes foram úteis para este fim. A humilhação abre a porta do coração, e lhe diz o que o pecado faz à vida, e introduz a palavra de vida, a qual não havia ainda penetrado além dos ouvidos ou do cérebro.

É um trabalho cansativo falar a homens mortos, os quais perderam os seus sentimentos; especialmente quando se trata de uma doutrina efetiva e prática, a qual devemos lhes comunicar, e que será perdida se não for sentida e praticada. Até que a humilhação opere, nós falamos a homens mortos, ou pelo menos a homens profundamente adormecidos. Quantos sermões eu tenho ouvido que se pensava viriam a transformar os corações dos homens internamente, a fazê-los chorar por causa dos seus pecados, com tristeza e vergonha diante da congregação, levando-os a nunca mais se envolverem com o pecado; e, no entanto, os ouvintes quase que nem foram tocados por eles, mas saíram como vieram, como se não soubessem do que o pregador estava falando, porque os seus corações estavam o tempo todo sonolento dentro deles.

Uma alma humilhada, entretanto, é uma alma despertada. Ela considerará aquilo que é dito; especialmente quando percebe que vem do Senhor, e diz respeito à sua salvação. É um grande encorajamento para nós pregar para um homem que tem ouvidos, vida e sentimentos, que recebe a palavra com apetite, saboreando-a, engolindo a comida que é colocada na sua boca. A vontade é a principal fortaleza do pecado. Se nós pudermos alcançá-la, nós poderemos fazer alguma coisa, mas se ela bloquear o coração, e nós não pudermos chegar mais perto do que o ouvido ou o cérebro, não haverá benefício algum. A humilhação nos abre uma passagem para o coração, a fim de que possamos tomar de assalto o pecado em seu vigor. Eu lhes falo da natureza abominável do pecado, que causou a morte de Cristo, e leva ao inferno, e que é melhor correr para o fogo do que, de maneira propositada, cometer o menor pecado, embora se trate de algo tal que o mundo nem note. Mas, ao lhes falar, se você não for humilhado, pode ouvir tudo isto e superficialmente crer nisso, e dizer que é verdade, mas é a alma humilhada que pode sentir o que lhe está sendo dito. Que luta nós temos com um beberrão, ou com um mundano, ou com qualquer outro pecador frívolo, na tentativa de persuadi-lo a abandonar seus pecados com abominação; e tudo com tão pouco resultado! Às vezes ele deseja abandoná-los, mas é tentado a provar do pecado de novo; e assim fica adiando, porque a palavra não se assenhoreou do seu coração. Mas quando Deus vem sobre a alma como uma tempestade, arrebentará as portas, e como se fossem relâmpagos e trovões na consciência, apodera-se do pecador e o sacode todo em pedaços com o Seu terror e lhe pergunta: O pecado é bom para ti? Uma vida carnal e descuidada é boa? Tu, verme desprezível! Tu, tolo pedaço de barro! Ousas abusar de Mim face a face? Ignoras que Eu estou te olhando? É esta a obra para a qual continuas vivo? Fora com o pecado, sem mais delongas, ou jogarei fora a tua alma e te entregarei aos atormentadores. Isto o desperta da sua demora e procrastinação, faz com que veja que Deus tem boa vontade para com ele, e que, portanto, ele deve ter boa vontade para com Deus.

Se um médico tem um paciente amante da comida que sofre da gota ou de pedra nos rins, ou de qualquer outra doença, e lhe proibir do vinho, bebida forte e outros alimentos que deseja, logo que ele se sentir melhor se aventurará a prová-los, e não se sujeitará às palavras do médico; mas, quando for atacado pela doença e sentir o tormento, então se submeterá às prescrições médicas. A dor o ensinará mais efetivamente do que as palavras poderiam fazê-lo. Quando ele sente o que lhe é doloroso, e que aquilo sempre o faz adoecer, ele se reprimirá mais do que faria por atenção às recomendações médicas.

Assim, quando a humilhação quebrar o seu coração e lhe fizer sentir que está doente de pecado, e encher a sua alma com dores agudas e sofrimentos, então você terá mais desejo de que Deus destrua o pecado em você. Quando o pecado pesar sobre você, a ponto de não lhe permitir levantar os olhos, quando fizer com que vá a Deus com gemidos e lágrimas clamando: Oh, Senhor, tem misericórdia de mim porque sou pecador! Quando você ficar feliz em procurar os ministros para aliviar a sua consciência, encher os ouvidos deles com acusações a si mesmo, e revelar até os pecados mais odiosos e vergonhosos, então você ficará feliz em se desvencilhar dos pecados. Antes disso não adianta lhe falar sobre mortificação e sobre rejeição resoluta dos seus pecados; os preceitos do Evangelho parecerão rigorosos demais para que você se submeta a eles. Mas um coração quebrantado mudaria a sua mente.

Um saudável lavrador diria: “Eu como o que quero”; “os médicos só querem tirar o nosso dinheiro”; “eu nunca seguirei o conselho deles”. Mas quando a enfermidade vier sobre ele, e houver tentado em vão tudo que estava ao seu alcance e a dor não lhe der descanso, e for levado ao médico, então ele fará qualquer coisa, e tomará qualquer remédio que ele lhe der, a fim de que possa ter algum alívio e se recupere.

Assim, quando o seu coração estiver endurecido e não humilhado, estes pregadores e as Escrituras lhes parecerão severos demais. O que vocês desejam realmente são ministros afetados e presunçosos, que preguem o que bem quiserem. Vocês nunca acreditarão que Deus concorda com as coisas duras que os ministros fiéis pregam, nem que Deus condenará vocês pelas coisas às quais dispõem seus corações. Mas quando aqueles pecados se tornarem como que espadas no seu coração, e você começar a sentir aquilo de que os ministros haviam lhe alertado, então a sua reação será outra. Portanto, fora com o pecado! Não há nada tão odioso, tão maligno, tão intolerável. Oh, se você pudesse se livrar dele, custasse o que custasse! Então você teria por seu melhor amigo aquele que lhe pudesse dizer como matar o pecado, e se livrar dele; e aquele que afastasse você desse amigo lhe seria como o próprio Satanás. A humilhação cava tão profundamente que mina o pecado, e a fortaleza do mal; e quando o alicerce está profundamente enraizado, a humilhação o destroçará. Quando os assassinos de Cristo tiveram o seu coração golpeado, eles clamaram por um conselho dos apóstolos. Quando um assassino dos santos é jogado cego por terra, e o Espírito, além disso, humilha a sua alma, então ele é levado a clamar: “Senhor, o que tu queres que eu faça?” Quando um cruel carcereiro que açoita os servos de Cristo é levado por um tremor de terra a um tremor de coração, ele então clamará: “Que devo fazer para que seja salvo?”

Aqui se manifesta o uso das aflições; e mesmo o porquê delas favorecerem tanto a humilhação: os homens são trazidos à razão em momentos de crise. Quando eles jazem num leito de morte, alguém pode falar-lhes, que eles não vão, tão soberbamente, fazer pouco caso do que lhes é dito, ou escarnecer da Palavra do Senhor, como o fizeram na prosperidade. Deus será mais considerado quando Ele pleitear com eles com uma vara na mão. Os açoites são a melhor lógica e o melhor discurso para um tolo. Quando o pecado leva cativa a razão deles pela carne, o argumento que poderá convencê-los deverá ser tal que a carne seja capaz de entender. A carnalidade brutifica o homem de tal modo que, tornando-se brutos, não são mais as razões mais claras que prevalecerão; e se Deus não houvesse mantido no homem corrompido algum resquício de razão, nós pregaríamos aos animais com tanta esperança como pregamos aos homens. Mas as aflições tendem por enfraquecer o inimigo que os cativa; assim como a prosperidade tende a fortalecê-lo. A carne entende a linguagem da vara melhor do que a linguagem da razão e da Palavra de Deus.

Como a parte sensível da nossa humilhação promove a mortificação, assim a humilhação racional e voluntária, que é própria ao santificado, é a parte principal da mortificação. Assim, como você vê, é necessário que sejamos totalmente humilhados, a fim de que o pecado possa ser plenamente aniquilado em nós.

3. Outro uso da humilhação é o de preparar a alma para encontrar mais graça, para a honra de Cristo e para o nosso próprio bem.

(1) Com relação a Cristo, é de se esperar que Ele habite apenas em almas que estejam preparadas para recebê-Lo. Nem a Sua pessoa, nem a Sua obra são tais que possam se coadunar com um coração não humilhado. Até que a humilhação faça um pecador sentir o seu pecado e miséria, não é possível que Cristo, como Cristo, venha a ser bem-vindo ou recebido com a honra que Ele espera. Quem liga para o médico quando não está doente e nem teme a morte? Ele pode passar pela porta de tal homem, e este não o chamará, mas quando a dor e o temor da morte estão sobre si, ele irá atrás, procurará e implorará para que venha. Correria para Cristo, em busca de socorro, aquele que não sente sua própria necessidade ou perigo? Agarrar-se-iam Nele como o único refúgio das suas almas, achegando-se a Ele como sua única esperança, aqueles que não sentem necessidade Dele? Prostar-se-iam aos Seus pés mendigando misericórdia aqueles que passam muito bem sem Ele?

Quando os homens ouvem acerca do pecado e da miséria, e crêem apenas superficialmente, eles podem procurar Cristo e graça com frieza, e sentem tão pouco o valor do segundo, como sentem a importância do primeiro. Mas Cristo não é nunca valorizado e procurado como Cristo, até que a tristeza nos ensine como valorizá-Lo; nem é Ele recebido com a honra devida a um Redentor, até que a humilhação quebre todas as portas; nem um homem pode buscá-Lo de todo o seu coração, se não o fizer com o coração quebrantado.

Também é certo que Cristo não baixará o custo para vir a uma alma. Embora Ele venha para o nosso bem, receberá honra ao fazer isso. Embora Ele venha para curar-nos, e não porque tenha qualquer necessidade de nós, terá que receber as boas vindas devidas a um médico. Ele veio para nos salvar, mas será honrado na nossa salvação. Ele convida a todos para a festa do casamento, e até mesmo compele-os a vir; mas espera que tragam a veste nupcial, e não venham com uma roupa ordinária que desonraria Sua casa. Embora a Sua graça seja livre, Ele não a expõe ao desprezo, mas terá a Sua plenitude e liberdade glorificadas. Embora Ele não venha para redimir a Si mesmo, mas a nós, ainda assim vem para ser glorificado na obra da nossa redenção. A Sua graça não é tão livre a ponto de salvar aqueles que não a valorizam, e não dão graças por ela.

Assim sendo, apesar da fé ser suficiente para aceitar o dom, a fé deve ser uma fé grata, que magnificará o doador, e uma fé humilde que reconheça o Seu valor, e uma fé obediente que responda ao Seu propósito. Assim, a fé que é a condição de nossa justificação é apropriada tanto à honra do doador, como à necessidade do recebedor. E como a razão nos diz que deveria ser, assim confirma a experiência cristã. A alma que é verdadeiramente unida a Cristo e compartilha da Sua natureza, valoriza mais a obra da Sua salvação, onde a honra de Cristo é maior. Ela não consegue sentir prazer na idéia de uma graça tal que venha a desonrar o próprio Senhor da graça. Assim como Cristo é solícito para a salvação da alma, assim Ele faz a alma solícita em receber corretamente Aquele que a salva. Deste modo, foi através do Seu sangue, e não da nossa aceitação do Seu ensino ou governo, que obtivemos o resgate da nossa alma. Mas, por outro lado, Ele está resolvido a não justificar a ninguém através do Seu sangue, exceto sob a condição desta fé, que é um assentimento do coração ao Seu ensino e senhorio. A virtude não está tanto na aplicação ou concessão dos benefícios de Cristo quanto está na Sua obra de adquirir para nós esses benefícios.

Quando Ele veio para nos resgatar, consentiu em ser um sofredor, a dar a Sua face ao golpeador, e a se submeter ao opróbrio. Suportou a cruz, desprezando a vergonha, e sendo injuriado não injuriou, mas orou por Seus perseguidores. Todavia, Ele não virá através da Sua graça salvadora à alma para ser recebido ali com desprezo, porque Ele veio na carne com o propósito de ser humilhado, mas veio no Espírito com o propósito de ser exaltado. Cristo veio na carne para condenar o pecado que reinava na nossa carne, e assim foi feito pecado por nós, isto é, um sacrifício pelo pecado. Mas no Espírito, Ele veio para conquistar a nossa carne e, através da lei do Seu Espírito vivificador, para nos libertar da lei do pecado e da morte[7][7][7], a fim de que a justiça da lei se cumprisse em nós, e também para que não fôssemos condenados, nós os que andamos não segundo a carne, mas segundo o Espírito.

O reino de Cristo não era deste mundo, porque, se o fosse, Ele procuraria estabelecê-lo pela força das armas e da luta, que são os meios mundanos. Mas o Seu reino é dentro em nós; é um reino espiritual, e assim, apesar de estar no mundo, Ele foi tratado com desdém, como um tolo, como um pecador, e como um infortunado. Mas dentro em nós Ele deve ser tratado com honra, e reverência, como um Rei e Senhor absoluto. A vez do executor e do poder das trevas foi quando Ele estava em agonia; mas quando Ele vem através da Sua graça salvadora a uma alma, é a vez do Seu triunfo e casamento, e do poder prevalecente da luz celestial. Na cruz, Ele era como um pecador, e tomou o nosso lugar, e suportou o que era a nossa culpa, e não Sua. Mas na alma Ele é o conquistador de pecados, e vem para tomar posse do que é Seu, e para realizar a obra que pertence a Ele na Sua dignidade; e, assim, Ele será ali reconhecido e honrado. Na cruz, Ele estava derrubando o reino de Satanás, e estabelecendo o Seu próprio, apenas de um modo preparatório; mas na alma, Ele faz ambos serem executados imediatamente. Na cruz, o pecado e Satanás se vangloriaram; mas quando Ele penetra a alma, é Ele quem Se vangloria sobre eles, e não cessa até os haver destruído. Na redenção, Ele Se consumiu; mas na conversão, Ele toma posse do que remiu. Em uma palavra, Ele veio ao mundo em carne para ser humilhado, mas Ele vem à alma, através do Seu Espírito, para a Sua merecida exaltação. Assim sendo, embora Ele houvesse suportado ser cuspido na carne, não suportará ser desprezado na alma. Assim como no mundo Ele foi escarnecido com um título de rei, coroado com espinhos, e vestido com tais roupas reais a fim de que fosse feito objeto de opróbrio, assim, quando Seu Espírito entra em uma alma, Ele é ali entronizado com a nossa consideração mais reverente, subjetiva, e profunda. Ele é ali coroado com o nosso mais elevado amor, e gratidão, e adorado com a ternura da nossa obediência e do nosso louvor. A cruz haverá de ser a porção dos Seus inimigos; a coroa e o cetro serão a Sua. E assim como tudo foi preferido em detrimento Dele na terra, até mesmo o próprio Barrabás, assim também todas as coisas haverão de ser subjugadas a Ele na alma santificada, e Ele obterá a primazia diante de todas as coisas.

Este é o propósito da humilhação: preparar o coração para um maior gozo do Senhor, e preparar o caminho diante Dele, e habilitar a alma para ser o templo do Seu Espírito. Uma alma humilhada nunca se desvencilharia Dele usando bois, fazendas, ou casamentos como desculpas. Aquele, porém, que não é humilhado fará muito pouco caso Dele.

(2) Assim como o próprio Cristo será recebido com honra, ou então nem será recebido, assim deve acontecer com a misericórdia e com a graça que Ele oferece. Ele não aplicará o Seu sangue e a Sua justiça àqueles que não lhes dão valor. Ele não perdoará tamanha quantidade de iniqüidades, nem removerá tais montanhas que caem sobre a alma daqueles que não sentem a necessidade de tal misericórdia. Ele não resgatará do poder do mal, da opressão do pecado, dos arrabaldes do inferno e não fará membros de Seu próprio corpo, filhos de Deus e herdeiros dos céus, aqueles que não aprenderam a valorizar estes benefícios, mas são mais voltados para os seus pecados, misérias e frivolidades do mundo. Cristo não despreza Seu sangue, Seu Espírito, Sua aliança, Seu perdão, nem Sua herança celestial e assim Ele não as dará a ninguém que as despreze, até que Ele os ensine melhor a conhecer o Seu valor. Você pensa que estaria de acordo com a sabedoria de Cristo dar bênçãos indizíveis como estas a homens que não têm coração para valorizá-las? Porque dar a um homem justificação e adoção é mais do que lhe dar todo este mundo visível: o sol, a lua, o firmamento, e a terra. Deveriam estas graças ser dadas a alguém que não liga para elas? Porque assim Deus perderia Seu propósito. Ele não obteria o amor, a honra nem a gratidão tencionada no Seu dom. É necessário, portanto, que a alma seja totalmente humilhada, a fim de que o perdão seja recebido como perdão, e a graça como graça, e não negligenciados indevidamente.

(3) Assim como a humilhação é necessária tanto para a honra de Cristo e de Sua graça, assim também ela é necessária para o nosso próprio benefício e consolação. A misericórdia não pode ser realmente nossa, se a humilhação não nos habilitar a isso. Estas bênçãos devem ser engolidas por um estômago vazio, e não tomadas na vaidade e impiedade. Um homem à beira da forca se regozijará com um perdão; mas um mero observador que se julgue inocente, não daria valor a isso, mas tomaria o perdão como uma acusação. Não há muita doçura no nome de um redentor para uma alma não humilhada. Ela não valoriza o Espírito. O Evangelho não é evangelho para ela. As boas novas de salvação não são tão alegres para tal pessoa quanto as boas novas de riquezas ou deleites mundanos. Assim como um estômago sadio é o que faz a refeição parecer agradável a nós, e assim como o cardápio rústico é mais agradável para o sadio do que as refeições suculentas ao doente, da mesma forma, se não formos esvaziados de nós mesmos, vis e perdidos nas nossas próprias prisões, e se a contrição não estimular os nossos apetites espirituais, o próprio Senhor e todos os milagres da Sua graça salvadora seriam aos nossos olhos coisa sem valor, e ouvir ou pensar sobre estas coisas apenas nos aborreceriam. Oh, que tesouro inestimável é Cristo para uma alma humilhada! Que vida nas Suas promessas! Que doçura em cada experiência da Sua graça, e que festa no Seu imensurável amor!

(4) Outro uso da humilhação, implícito no item anterior, é que ela é necessária para fazer com que o homem se submeta aos termos do pacto da graça. O homem natural se agarra aos prazeres da carne, e vive pelos sentidos e é apegado às coisas do presente. Ele não sabe como viver apegado às coisas invisíveis através de uma vida de fé. Esta é a nova vida que todos os que vivem em Cristo devem viver. Assim, portanto, Ele os convoca a abandonar tudo, a crucificar o mundo e a carne, e negar a si mesmos, se quiserem ser Seus discípulos. Mas quão relutante é o homem natural para renunciar a tudo e se entregar totalmente a Cristo! Mas quão ansioso ele é para se agarrar às coisas do presente, por falta de confiança nas promessas celestiais, tendo os céus, em última análise, apenas como uma reserva. É nestes termos que os hipócritas são religiosos, e é assim que enganam as suas almas. Mas quando o coração é verdadeiramente quebrantado, ele não mais permanecerá desse modo com relação a Cristo, mas se submeterá totalmente aos Seus termos. Não estabelecerá condições com Ele, mas aceitará com gratidão as Suas condições. Com Cristo, com graça, e com a esperança da glória, qualquer coisa lhe satisfaz a alma.

(5) Outro uso da humilhação é nos preparar para reter e progredir na graça quando nós a recebemos. O ditado diz: “O que é conseguido com facilidade, facilmente se perde”. Se Deus desse o perdão dos pecados ao que não é humilhado, quão cedo Ele seria desprezado! Quão facilmente tal pessoa daria ouvidos à tentação, e retornaria ao seu próprio vômito! Como nós dizemos: “A criança queimada teme o fogo”. Quando o pecado o golpear, e quebrar o seu coração, você o abominará enquanto viver. Quando a tentação vier, você se lembrará da sua dor aguda: “Não é isto aquilo que me custou tantos gemidos, me deixou no pó, e quase me condenou, e vou eu cometê-lo novamente? Foi tão difícil para eu ser restaurado por um milagre de misericórdia, vou eu agora correr novamente para a miséria da qual eu fui salvo? Não tive eu tristezas, temor e inquietação suficientes para que vá agora buscar mais disso, e renovar o meu transtorno?” Assim, a lembrança dos seus sofrimentos será um contínuo alerta para você. Um espírito contrito, que é esvaziado de si mesmo, e ao qual é ensinado o valor de Cristo e da misericórdia, não apenas se agarrará a eles, mas saberá como usá-los, com gratidão a Deus e benefício para si mesmo.

(6) Outro uso da humilhação é preparar a alma para se aproximar do próprio Deus, de quem ela se afastou. Assim como a nenhuma criatura é permitido se aproximar do Deus dos céus, a não ser que o faça com reverente humildade, assim também a nenhum pecador é permitido se aproximar Dele, a não ser que o faça em contrita humildade. Quem é que pode sair de tal estado de impiedade e miséria, e não trazer consigo o senso disso em seu coração? Não é permitido a um filho pródigo encontrar seu pai com tanta confiança e ousadia, como se ele nunca o tivesse abandonado, a não ser que diga: “Pai, pequei contra os céus e contra ti, e já não sou digno de ser chamado teu filho”[8][8][8]. Não é sem falta que uma alma culpada, ou que alguém que é resgatado do fogo, olhará para Deus com uma face soberba, mas com a cabeça baixa de vergonha e tristeza, batendo no peito e dizendo: “Ó Senhor, tem misericórdia de mim, pecador!”[9][9][9]; “Porque Deus resiste aos soberbos, contudo aos humildes concede a Sua graça”[10][10][10]; “O Senhor é excelso, contudo atenta para os humildes; os soberbos, Ele os conhece de longe”[11][11][11]; “Porque assim diz o Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos, e vivificar o coração dos contritos”[12][12][12]; “…mas o homem para quem olharei é este: o aflito e abatido de espírito, e que treme da minha palavra”[13][13][13]; “Perto está o Senhor dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito contrito”[14][14][14]; “Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito; não o desprezarás, ó Deus”[15][15][15]. Não há retorno para Deus, a menos que não nos toleremos por causa das nossas abominações.

Quanto mais nos aproximamos de Deus, mais nós devemos nos detestar até o pó e cinzas. Ele não aceita um pecador em seus pecados; mas primeiro o lava e limpa. A conversão deve nos fazer humildes como crianças, as quais são ensináveis e não procuram por grandes coisas no mundo ou, de outro modo, não podem entrar no reino de Deus.

Estes são os usos e a necessidade da humilhação.

Capítulo 3

Erros sobre a Humilhação a Serem Cuidadosamente Evitados

Pelo que já foi dito, você pode perceber quais os erros a serem cuidadosamente evitados com relação à sua humilhação, e com que cuidados ela deve ser buscada.

(1) Um erro com o qual você deve tomar cuidado, é o de não encarar a humilhação como algo irrelevante, ou como apenas um apêndice à fé, que pode ser dispensado. Não pense que uma alma não humilhada, enquanto tal, pode ser santificada. Alguns corações carnais supõem que apenas os pecadores mais atrozes precisam ser contristados e ter o coração quebrantado, mas que isto não é necessário para eles, que foram criados descente e religiosamente desde a mocidade. Mas é tão possível ser salvo sem fé e sem arrependimento quanto sem esta humilhação especial, a qual eu já descrevi, e que é parte da sua santificação.

(2) Outro erro a ser cuidadosamente evitado é o de colocar a sua humilhação somente ou principalmente na parte emocional, ou nas expressões externas dessas emoções. Eu me refiro tanto a uma dor aguda, como à tristeza de coração, ou ainda às lágrimas. Mas você deve se lembrar que o valor dela, como eu disse antes, está na sua reação ao julgamento e na vontade. Não é o grau de uma tristeza ou angústia de sentimentos que mostrará melhor o grau de sinceridade da sua humilhação, e muito menos as suas lágrimas ou expressões exteriores. Mas é a baixa avaliação que você faz de si próprio, e a aceitação em ser visto como vil aos olhos dos outros. É o seu descontentamento, e o desejo de gemer e chorar por causa do pecado o tanto quanto Deus gostaria que você o fizesse, juntamente com a aceitação do julgamento e vontade antes descritos que demonstram realmente a sua humilhação.

Há dois grandes perigos aqui, diante de você, a serem evitados. Há alguns que podem ter terríveis angústias de tristeza, e estão a ponto de arrancar os próprios cabelos, sim, e até mesmo de darem um fim a si próprios, como Judas, por causa do horror da sua consciência; e isto poderia lhes parecer que eles teriam verdadeira humilhação. Mas mesmo assim não a têm. Alguns podem chorar abundantemente em um sermão, ou em uma oração, ou ao mencionar seus pecados a outros, e, portanto, pensar que estão realmente humilhados; mas ainda assim podem não estar. Pois, se ao mesmo tempo, seu coração ama o pecado e prefere apegar-se a ele do que se livrar dele, ou não tem um ódio habitual pelo pecado e um amor predominantemente muito maior a Deus, a sua humilhação nada tem a ver com a obra de salvação. Os seus sentimentos e as suas lágrimas podem até ser forçados contra a sua vontade. Se você não deseja realmente odiar o pecado, os sentimentos e as lágrimas dificilmente significariam mais do que uma graça comum.

Muitos podem chorar por causa dos sentimentos, e por causa da natureza feminina sensível, e ainda assim permanecerem não humilhados, podendo até estar em um grau muito elevado de orgulho. Quão regularmente vemos tantos que são assim! As mulheres, especialmente, podem chorar mais em um culto ou conversa, do que alguém que está realmente quebrantado poderia fazê‑lo em toda a sua vida, e ainda assim estarem tão longe de se verem vis aos seus próprios olhos e desejarem ser vistas assim aos olhos dos outros que elas odiarão, reprovarão e criticarão todos aqueles que as acusarem com as faltas que elas mesmas parecem se lamentar. Também, ao serem acusadas de horrendos pecados, estas pessoas se desculparão e suavizarão seus pecados, fazendo deles assunto de menor importância e se apegando àqueles que tenham um alto conceito delas. É assim que o pecado reina regularmente em seus corações: manifesta-se nas suas palavras e vidas; faz com que odeiem aqueles que com fidelidade as reprovam; e que vivam em contenda com qualquer um que venha a desonrá-las, apesar de todas as lágrimas que caem dos seus olhos. Assim, portanto, não julgue pelos sentimentos, ou apenas pelas lágrimas, mas pela reação aos julgamentos e pela vontade, como foi dito acima.

Um outro caso, que é muito melhor e mais feliz do que o primeiro, mas que produz grande dificuldade, é o erro daqueles que pensam que não têm uma verdadeira humilhação por não experimentarem tais sentimentos e liberdade de lágrimas como outros experimentam quando o coração deles é contristado, pois não conseguem derramar sequer uma lágrima.

Diga‑me apenas isto: “Você se vê como vil aos seus próprios olhos por ser culpado de pecados, e isto contra o Senhor, a quem você realmente ama? Você odeia os seus pecados, por causa das suas abominações, e desejaria de coração sofrer quando estivesse pecando? E se você tivesse que escolher de novo, você preferiria sofrer do que pecar? Você sente o desejo de se entristecer por causa do pecado mesmo quando não pode sentir tristeza, e deseja chorar, ainda que não consiga? Pode você suportar calmamente quando é ofendido, porque sabe que é realmente vil? É você grato a um reprovador sincero, apesar dele lhe mostrar o mais terrível pecado? Você considera as suas próprias palavras e feitos indignos, e as palavras e feitos dos outros melhores, desde que haja a menor razão para isso? Você atribui justiça às aflições que vêm de Deus e às reprimendas verdadeiras de homens, e se considera indigno da comunhão dos santos, ou de ver a justiça de Deus se Ele viesse a condená-lo?”

Este é o estado de uma alma humilhada. Se você puder responder afirmativamente a estas perguntas, então não precisa duvidar da sua aceitação por parte de Deus, mesmo que você não derrame uma lágrima. Há mais humilhação em uma baixa estima de nós mesmos do que em mil lágrimas, e mais em uma vontade ou desejo de chorar pelo pecado do que nas lágrimas que vêm motivadas pelo terror, por uma consciência pesada, ou pelos sensíveis sentimentos naturais. Se a vontade estiver correta, você não precisa temer. É aquele que mais odeia o pecado e é mais severo para com o pecado que é humilhado por causa dele. Aquele que lamenta o pecado hoje e o comete amanhã é muito menos humilhado e penitente do que aquele que não é atraído para o pecado na esperança dos prazeres do mundo, nem o comete, mesmo que fosse para salvar sua vida.

(3) Para evitar isto alguns incorrem no erro oposto e pensam que a tristeza e lágrimas são desnecessárias, e que podem se arrepender com ou sem lágrimas. Estes, fundamentam tudo em alguns desejos vagos e ineficazes; e assim, pensam que o coração foi mudado. Mas certamente Deus não criou os sentimentos em vão. É impossível que um homem possa ter uma vontade santificada e as suas emoções não manifestem alguma correspondência, e sejam controladas pela vontade. Embora não possamos gemer naquele grau que desejaríamos, ainda assim terá de haver alguma tristeza sempre que o coração for verdadeiramente mudado, e, aparentemente, esta tristeza deveria ser grande. Ninguém pode crer de coração que o pecado é o maior mal para sua alma sem ser afligido por isto. Na verdade, os nossos sentimentos mais vivos deveriam ser afetados por estas coisas tão importantes. É uma vergonha ver um homem gemer por um amigo e lamentar por uma provação, que afeta apenas a carne, e, no entanto, ser tão insensível à praga do pecado, à ira do Senhor, e sorrir e gracejar com tais pesos sobre a sua alma.

Embora a tristeza e as lágrimas não sejam o coração e a parte principal de nossa humilhação, ainda assim elas devem ser buscadas como um dever. Sim, certo grau de tristeza é absolutamente necessário, e a falta de lágrimas não é um bom sinal naqueles que as derramam por outras coisas. Na verdade, a convicção da nossa loucura e crueldade deveria ser tão grande a ponto de quebrar o nosso coração de tristeza, derreter o nosso peito, e produzir rios de lágrimas dos nossos olhos. Se nós não podemos produzir isso em nós, devemos antes lamentar a dureza do nosso coração, ao invés de nos desculparmos.

(4) Neste item, trataremos de como responder à questão, se é possível a um homem ser humilhado e se arrepender em demasia.

A manifestação exterior da humilhação, que consiste nos atos que provêm do entendimento e da vontade, não podem ser maiores do que o próprio entendimento e a vontade que produziram estes atos. Se as manifestações externas forem maiores do que a própria vontade, elas não apenas serão erradas como também nada terão a ver com a verdadeira humilhação salvadora. Um homem pode se considerar pior do que ele realmente é, pensando falsamente de si mesmo como se ele fosse culpado de pecados dos quais realmente ele não é; e isto não é a mesma coisa que verdadeira humilhação. Mas, se ele tiver uma clara apreensão da maldade do seu pecado e da sua própria vileza, a isto ele não deve temer.

No âmbito da vontade é mais claro: nenhum homem pode estar querendo livrar-se do pecado em demasia, nem ter a mesma aversão ao pecado quanto o próprio Senhor o tem. Mas, quanto à outra parte da humilhação que consiste em aguda tristeza ou lágrimas, pode muito bem ocorrer em demasia, embora eu conheça muito poucos que incorrem neste erro ou precisem temer isso, pois o homem normal do mundo é estúpido e duro de coração, e até a maioria dos piedosos são lamentavelmente insensíveis.

Ainda assim, há alguns poucos que necessitam desse conselho, a fim de que não se agonizem em grau excessivo de tristeza. Permita que o seu coração se disponha o mais possível contra o pecado, mas permita também algum limite às suas tristezas e lágrimas. Este conselho é necessário aos seguintes tipos de pessoas: (1) Às pessoas melancólicas, as quais estão em perigo de serem perturbadas, e agirem de modo irracional e sem propósito por excessiva tristeza. Seus pensamentos são fixos, confusos, sombrios, escuros e cheios de temores, e acabam tornando as coisas piores do que já são, sendo mais profundamente afetadas por estes sentimentos do que suas cabeças podem suportar. (2) Este é o caso também de algumas mulheres fracas de espírito, as quais não são melancólicas, mas ainda assim, por fraqueza natural de seus cérebros e por serem altamente sensíveis, não têm condições de suportar estas comoções sentimentais sérias e profundas que outros podem desejar, pois a profundidade da sua sensibilidade e a intensidade das suas paixões representam um perigo de serem lesadas pelos seus julgamentos, e serem facilmente lançadas à melancolia, ou a algo ainda pior.

Ser destituído da razão é uma das grandes calamidades corporais nesta vida, e isto seria um grande problema tanto para a própria pessoa como para os que a cercam. Trata-se de uma questão de vergonha e desonra para o Evangelho aos olhos dos ímpios que não entendem o caso. Quando eles vêem alguma tristeza excessiva e desmesurada, ou alguém cair em perturbação, isto representa uma grande tentação para que fujam da religião, evitem a tristeza que vem de Deus e todos os pensamentos sérios a respeito das coisas celestiais. Faz com que os tolos escarnecedores digam que a religião torna o homem maluco, e que esta humilhação e conversão para as quais os conclamamos é o caminho para fazê-los perder o juízo. Assim sendo, por causa da tristeza dos piedosos, e do endurecimento dos impiedosos, o caso se reveste de seriedade a ponto de requerer nosso maior cuidado em evitá-lo.

Pergunta: Mas se é tão perigoso entristecer-se, tanto de modo insuficiente como em demasia, o que fará um pobre pecador em tal desfiladeiro, e como pode ele saber quando deve restringir sua tristeza?

Resposta: Há pouquíssimas pessoas no mundo que têm razão em temer o excesso deste tipo de tristeza. A situação geral do homem é ser insensível; a tristeza do mundo provoca muito mais melancolia e perturbação do que a tristeza que vem de Deus. Mas, para aqueles poucos que estão em perigo de excesso, eu primeiramente direi como discernir o perigo e, depois, como remediá-lo.

Quando a sua tristeza é maior do que o seu julgamento pode suportar, com aparente perigo de perturbação ou de distúrbio melancólico e diminuição de seu entendimento, então a tristeza é certamente demasiada e deve ser restringida. Porque se você arruinar a sua razão, você se constituirá em opróbrio para a religião, e não estará habilitado para nada que seja realmente bom: nem para sua edificação, nem para o serviço do reino de Deus.

Se você estiver com uma séria doença a qual a tristeza poderia aumentar o risco para sua vida, você então tem razão para restringi-la; embora não deva abster-se de arrepender-se, ou descuidar-se da sua salvação; mas, o sentimento de tristeza, esta você deve moderar ou reduzir.

Quando a tristeza é tão grande a ponto de transtornar a sua mente, ou enfraquecer o seu corpo, de modo a incapacitá-lo para o serviço de Deus, e a torná-lo mais despreparado para fazer o bem, você tem razão então para moderar e restringir a tristeza.

Quando a intensidade da sua tristeza sobrepuja a medida necessária do seu amor, ou alegria, ou gratidão, deixando estes de lado, apossando-se mais do seu espírito do que deveria, não deixando espaço para os seus outros deveres, então esta tristeza é excessiva, e precisa ser restringida. Há alguns que se esforçariam e lutariam com seus corações para arrancar algumas lágrimas e aumentar sua tristeza, os quais, entretanto, fazem pouco caso de outros sentimentos e não se esforçariam a metade para aumentar sua fé, amor e alegria.

Quando o seu sofrimento, por causa da sua intensidade, o conduz à tentação ou ao desespero, ou a pensar que Deus e o Seu serviço são duros demais, ou a desvalorizar Sua graça e a satisfação de Cristo, como se fossem deficientes e insuficientes para você, neste caso, você tem razão para moderar e restringir o sofrimento.

Quando a sua tristeza é inoportuna e a vontade precisa de impulso em momentos quando você é conclamado à gratidão e à alegria, você tem então razão em moderá-la e restringi-la durante estas épocas. Não que devamos eliminar toda tristeza, seja qual for o dia de alegria ou gratidão, a menos que possamos suprimir todos os nossos pecados nos deveres daquele dia. Também não devemos suprimir todo conforto espiritual e prazer nos dias de maior humilhação. Porque assim como o nosso estado aqui é um misto de graça e pecado, assim também todos os nossos deveres religiosos devem ser um misto de alegria e tristeza. É apenas no céu que teremos alegria absoluta, assim como é apenas no inferno que há tristezas absolutas, ou, pelo menos, em nenhum estado de graça. Mas, por enquanto, por causa disso tudo, há épocas agora quando um destes sentimentos deve ser exercido de modo mais preponderante, e o outro em menor grau. Em tempos de calamidades, por exemplo, e após uma queda, nós somos tão conclamados à humilhação que o conforto deveria apenas moderar nossas tristezas, e o seu exercício deveria estar submisso nestas épocas. Assim também em épocas de especial misericórdia da parte do Senhor nós podemos ser conclamados a exercitar nossa gratidão, louvor e alegria tão preponderantemente que a tristeza deve nos manter humildes, e ser, por assim dizer, serviçal às nossas alegrias.

Quando graça e misericórdia são mais eminentes, então a alegria e o louvor deveriam ser predominantes, o que se verifica com mais freqüência em uma vida cristã que anda erguida a cuidadosamente com Deus. Quando pecado e julgamento são mais eminentes, a tristeza deve então ser predominante, visto ser um meio necessário para uma sólida alegria. Assim sendo, normalmente um pecador que ainda está passando pela obra de conversão, e é recém-chegado a Deus de um estado de rebelião, deve estimular mais tristeza, e se dar mais a gemidos e lágrimas do que posteriormente, quando for trazido à reconciliação com Deus, a andar com integridade.

Pergunta: Mas quando é, por outro lado, que eu posso saber que a minha humilhação é pequena demais, e que deveria me esforçar para aumentá-la?

(1) Quando, aparentemente, não há os perigos acima mencionados, quais sejam de destruir seu corpo, perturbar sua mente, transformar suas faculdades, afogar as outras graças, deveres, etc. Não havendo estes perigos você tem pouca razão de temer o excesso.

(2) Quando você não se humilhou o suficiente para levá-lo a valorizar o amor de Cristo, a ter estima pelo Seu sangue e seus efeitos, a ter fome e sede Dele e de Sua justiça e a mendigar ardentemente pelo perdão de seus pecados. Então você tem razão de desejar mais humilhação. Se você não sente grande necessidade de Cristo, mas passa por Ele tão desinteressadamente, como o estômago cheio passa pela comida, como se você pudesse passar muito bem sem Ele, então você pode estar certo de que precisa ser mais quebrantado. Se você não é tão movido pelo amor de Deus, a ponto de se desvencilhar de qualquer coisa para gozá-Lo, e de não considerar nada mais querido do que os céus, você necessita ficar sob convicção dos seus pecados e miséria um pouco mais, e de implorar ao Senhor que o salve do seu coração de pedra. Se você pode ouvir do amor e dos sofrimentos do seu Redentor sem ferver de amor por Ele novamente, e pode ler ou ouvir as promessas de graça, sobre os dons de Cristo, e sobre a vida eterna sem nenhuma considerável alegria ou gratidão, é tempo de implorar a Deus por um coração mais humilhado.

(3) Quando há muitos altos e baixos na obra da sua conversão, e você fica às vezes num bom estado, e novamente num mau estado, como se ainda estivesse irresoluto quanto a se deve mudar ou não; quando você hesita diante dos termos que Cristo estabelece quanto à autonegação, à crucificação da carne, e a abandonar tudo pela esperança da glória, e acha estas coisas duras, e está ainda considerando se deveria submeter-se a elas ou não, ou está ainda reservando secretamente alguma coisa para você mesmo. Isto tudo certamente mostra que você ainda não foi suficientemente humilhado, caso contrário você não estaria agindo tão levianamente para com Deus. Ele ainda deve colocar os seus pecados diante de você, e segurá-lo por um pouco sobre o fogo do inferno, e fazer soar em sua consciência tal estampido, a ponto de fazer com que você se submeta e acabe com suas dúvidas, e o ensine a não mais procrastinar com seu Criador.

O próprio Faraó ficava submisso e insubmisso a Deus, e às vezes deixava Israel ir, às vezes não, sendo necessário que Deus o humilhasse com praga sobre praga, até fazê-lo submeter-se e ficar até feliz em permitir que o povo partisse. Mesmo quando Deus usa dos meios de graça, quando o coração é duro, Ele faz tanto uso das tristezas quanto seja necessário para fazer com que o homem se submeta o mais cedo possível aos Seus termos e se alegre em obter misericórdia em tais termos.

(4) Quando você está insensível e desanimado quanto às ordenanças de Deus e a Escritura tem pouca vida ou doçura para você; quando se encontra quase que indiferente se invoca a Deus em secreto ou não, se vai à igreja ou não para ouvir a Palavra e unir-se em louvor a Deus na comunhão dos santos; quando não sente grande gosto nos cultos e nos sacramentos, mas pratica-os quase que meramente por costume, ou para aliviar a sua consciência, e não por uma grande necessidade que sinta dessas práticas, ou do bem que encontra nelas. Isto mostra, por certo, que você carece de mais um pouco da vara e da espora de Deus. Seu coração ainda não foi suficientemente quebrantado, mas Deus precisa tomá-lo novamente em Suas mãos.

(5) Quando você está esquecido de Deus, e da vida por vir, e esquece tanto dos seus pecados como do sangue do Salvador, e coloca os seus pensamentos quase que continuamente nas vaidades a nas coisas deste mundo, como se estivesse crescendo mais nestas coisas do que na sua necessidade de Cristo. Isto mostra que a pedra ainda está no seu coração, que Deus precisa fazer com que você se alimente de um cardápio mais difícil, para corrigir os seus apetites, e fazê-lo sentir o seu pecado e miséria até que Ele retire os pensamentos que você tem nas coisas que são na realidade pouco importantes, e o ensine a preocupar-se mais com o seu estado eterno. Se você começa a se esquecer do seu próprio estado e de Deus, é tempo de ser lembrado disto.

(6) Quando você começa a sentir mais doçura na criação, e a ser mais lisonjeado com aplausos a honras, e a sentir mais prazer na abundância, e mais impaciência com a pobreza ou necessidade, ou com os erros dos homens, e com as cruzes do mundo; quando você se dedica a ser bem sucedido, e está desejoso de se tornar rico e cai de amor pelo dinheiro; quando você se atira aos cuidados e negócios do mundo, e fica oprimido com muitas coisas por sua própria escolha. Isto mostra, na verdade, que você está perigosamente não humilhado. Se Deus tiver misericórdia de você, Ele o rebaixará e fará com que a sua riqueza se torne em amargura e absinto para você, abaterá o seu apetite e ensinará que uma coisa é realmente necessária: “Desejar ardentemente a comida que não perece”. Ensiná-lo-á daí em diante a escolher a melhor porção.

(7) Quando você percebe que poderia voltar a brincar com as circunstâncias propícias ao pecado, ou a olhar para elas com disposição na mente como se ainda tivesse a mente voltada para isso e quase que pudesse voltar o seu coração querendo novamente aquilo; quando você começa a ter a mente novamente voltada para suas velhas companhias e caminhos, ou começa a se aproximar o mais possível novamente dessas coisas, e a olhar com fixação para a isca na tentativa de provar daquilo que é proibido, e quase que não pode dizer como negar as suas inclinações, apetites, sentimentos e desejos. Isto mostra que você carece de uma obra de despertamento. Parece que Deus precisa ler para você mais um pouco da Palavra, e fazer com que você soletre aquelas linhas de sangue, as quais, ao que parece, você se esqueceu. Ele precisa acender o fogo da sua consciência, até que você sinta e entenda se é realmente bom brincar com o pecado, com a ira de Deus, e com o fogo eterno.

(8) Quando você começa a se tornar indiferente com relação a sua comunhão com Deus. Você começa a não pensar mais muito se Ele lhe aceitou realmente e se de fato lhe manifestou o Seu amor, mas começa a deixar de lado as suas orações e a não mais atentar para elas ou ao que acontece com elas. Passa a fazer uso dos sacramentos raramente questionando o resultado desta prática. Quando você pode dispensar o consolo espiritual dos santos e extrai pouco conforto espiritual de Cristo e dos céus, e cada vez mais dos seus amigos, bens, prosperidade e situações materiais, talvez comece a sentir-se tão bem na companhia de pessoas do mundo, falando e agindo como elas, com a mesma satisfação que antes tinha ao meditar no amor de Cristo. Isto mostra que você ainda não tem um real senso do perigo que corre. A humilhação ainda tem uma grande obra a realizar em você. Você precisa ser ensinado a conhecer mais a sua casa, a ter mais prazer em seu Pai, a conhecer mais o seu marido, seus irmãos em Cristo, mais a sua herança, do que os estranhos ou inimigos de Deus e seus.

(9) Quando você começa a fazer pouco caso das ordenanças ou de outras misericórdias, e ao invés de recebê-las com gratidão e se alimentar delas passa a queixar-se delas, e nada lhe agrada, dizendo: “O pastor é muito fraco”, ou “o pastor é muito exigente”, ou “o pastor é muito formal”, “isso deveria ser desse ou daquele modo”, “o culto é muito ou pouco formal”, “ele gesticula muito ou pouco”, “esta ordem não está boa”, “isto ou aquilo não é apropriado”. Isto tudo mostra que você carece ser humilhado, e que você está mais preparado para a vara do que para o alimento. Se Deus pudesse apenas abrir a porta do seu coração e mostrar claramente a maldade e o vazio que há nele, você veria que o erro não está no pastor nem no culto, e mesmo que houvesse erro neles, o erro maior ainda seria o seu. A causa da sua relutância e contenda com o mundo está no seu próprio estômago cheio, e Deus precisa lhe dar um remédio, que faça o seu coração doer antes que Ele termine a Sua obra. Então o seu apetite será corrigido, a sua frivolidade terá fim, e aquilo que você antes criticava passará a lhe ser doce.

(10) Quando você começa a tufar de orgulho, a pensar muito alto de si mesmo, a ter bons conceitos sobre o seu próprio talento e desempenho, ter prazer em ser notado e visto como alguém que desponta entre os piedosos, e não pode suportar ser esquecido ou ser deixado de lado. Quando você considera os talentos e desempenho dos outros inferiores em comparação com os seus, se considera tão sábio quanto seus mestres e passa a ouvi-los como se fosse juiz deles, com espírito de julgamento, e achando que poderia fazer tão bem quanto eles. Quando você começa a encontrar falta naquilo que deveria estar lhe nutrindo, e não encontra nada em cada sermão a não ser defeitos, e a acha que não cometeria tais erros. Quando você deseja veementemente ser seu próprio mestre e se considera mais habilitado a pregar do que a aprender, a dirigir do que ser dirigido, a responder do que a perguntar. Quando você pensa tão bem de si mesmo que a igreja não é mais boa nem pura o suficiente para sua companhia, embora Cristo não seja ali negado, e você não seja ali induzido a pecar. Quando você se torna crítico e passa a agravar mais e mais a falta dos outros, diminuindo as suas virtudes. Pode ver um cisco nos olhos dos outros, mas não consegue discernir as virtudes deles, a não ser que sejam altas como uma montanha, e ninguém pode passar por piedoso ao seu julgamento, a não ser os santos mais eminentes. Quando você passa a desejar veementemente as novidades na religião e a se achar mais sábio do que a igreja presente e antiga, e se considera excepcional por não ser como os demais. Quando você não pode ouvir nem este nem aquele pastor, embora sejam na verdade ministros de Cristo. Quando você fica batendo sempre na mesma tecla: “Saí dentre eles, e separai-vos deles”, como se Cristo houvesse chamado você a sair da igreja, quando na verdade o chama a sair da companhia dos infiéis. Tudo isso indica que você necessita de mais humilhação.

Você tem um inchaço que precisa ser aberto para permitir que o ar saia e ele seque. Para que você não venha a se perder, para que não venha a ser abandonado por Deus e ser entregue a si mesmo, você precisa ser trazido à humilhação novamente com um testemunho. Quando Deus lhe revirar e lhe mostrar que você é um pobre, miserável, cego e nu, e que está inchado sem razão e se enchendo de si mesmo, Ele fará você parar diante daqueles que você despreza. Ele fará você se considerar indigno da comunhão com aqueles que antes você julgava indignos de você. Fará com que se considere indigno de ouvir aqueles pastores aos quais você antes virava as costas. Ele jogará por terra o seu ensino, coisas tolas, e o tornará feliz em ser ensinado de novo. Numa só palavra, por meio da conversão Ele o fará novamente como criança, ou você nunca entrará no reino dos céus.

Este orgulho espiritual é uma doença lamentável, e consiste em algo excessivamente triste. Para muitos, é o prelúdio de condenação e apostasia. Deus os entrega aos seus próprios conceitos e à sabedoria que eles tanto estimam, até que estes os levem à perdição. E dentre aqueles que são curados, há muitos que o são da maneira mais triste, pois é comum Deus deixá-los sozinhos até que se lancem a erros abomináveis ou caiam em algum pecado vergonhoso e escandaloso, até que se tornem objeto de escândalo e comentários entre os homens. Esta vergonha e confusão podem, entretanto, despertá-los, a fim de que venham a compreender o que foi que os tornou tão orgulhosos, e a reconhecerem que não passam de simples vermes.

Desse modo eu mostrei quando é que você deve buscar uma humilhação mais profunda, e quando pode concluir que ainda não foi suficientemente humilhado. Sim, quando uma humilhação em maior grau é necessária à sua alma.

Pergunta: Bem, mas ainda assim, você ainda não nos disse que caminho um pobre pecador deveria tomar em tal desfiladeiro, quando não sabe se sua humilhação, no que diz respeito à parte emocional, é insuficiente ou demasiada.

Resposta: 1. Vocês mesmos podem discernir parcialmente pelo que foi dito, se têm necessidade de mais ou menos humilhação, apenas testando o coração por essas indicações. 2. Mas, ainda assim, eu os aconselharia e persuadiria veementemente, em caso de dificuldade, a recorrerem a algum ministro capaz e fiel, para uma resolução.

Se você sente que a tristeza se apodera demasiadamente do seu espírito, que põe em perigo o seu entendimento ou a sua saúde, especialmente se você é uma mulher sentimental ou uma pessoa melancólica, não permaneça neste estado por muito tempo, para que a demora não venha a fazer aquilo que não poderá ser facilmente desfeito, mas vá e converse sobre o seu caso, e peça conselho. Esta é uma das principais funções dos pastores: que você possa tê-los à disposição para se aconselhar com eles a respeito das doenças e perigos da sua alma, assim como você faz com os médicos com relação às doenças e perigos do corpo. Desvencilhe-se de toda timidez pecaminosa, e não continue a confiar em si mesmo e nas suas habilidades, mas vá àqueles aos quais Deus designou com superintendência sobre você para estas situações, e conte-lhes o seu caso.

Este é o modo de Deus, e Ele abençoará a Sua própria ordenança. Pessoas melancólicas, sensíveis e irritadiças não são juízes habilitados para avaliar sua própria situação. Neste caso, você deve desconfiar do seu próprio entendimento e não ser orgulhoso, nem se agarrar obstinadamente a cada capricho que venha à sua cabeça, mas, ao sentir a sua fraqueza, confie-se à direção dos seus fiéis ministros, até que o seu problema seja superado, e você se torne mais capaz de discernir por você mesmo.

Outro erro do qual você será aqui alertado é o de pensar que a tristeza e as lágrimas são desejáveis em si mesmas. Elas são desejáveis apenas como expressão de uma disposição sincera da vontade, e quando elas ajudam a atingir o fim para o qual a humilhação é designada. Assim, aqui você poderá aprender o caminho pelo qual deve buscá-las.

(1) Você não deve colocar a ênfase da sua religião nelas, como se fôssemos chamados pelo Evangelho apenas para uma vida de tristeza. Mas deve fazer da tristeza e das lágrimas servas da sua fé, amor, e alegria no Espírito Santo, e de outras graças. Assim como o uso da agulha é apenas para abrir caminho para a linha, e então é a linha, e não a agulha, que faz a costura, assim, a nossa tristeza serve apenas como preparação para a fé e amor, sendo estes os que unem a alma a Cristo. É, portanto, um triste erro que alguns fiquem muito preocupados por sua falta de tristeza, mas pouco preocupados por sua falta de fé e amor, e orem e se esforcem para quebrar seus corações, ou chorem pelos pecados, sem, contudo, fazerem o mesmo para obter aquelas graças maiores, às quais a tristeza deveria conduzi-los. Um deveria ser feito sem se deixar de lado o outro.

(2) Visto que as lágrimas são uma expressão do coração, elas deveriam ser espontâneas e sinceras, fluindo voluntariamente do sentimento interior por causa do mal que lamentamos. Se você vier a chorar bastante, meramente por pensar que as lágrimas são em si mesmas necessárias, e não por causa do ódio que sente pelo pecado e pelo sentimento da sua natureza vil e assassina, isto não tem nada a ver com a verdadeira humilhação. Se o coração estiver humilhado diante do Senhor, não é a falta de lágrimas que fará com que Deus o despreze. Alguns são, por natureza, tão pouco dados ao choro que não podem chorar por nenhuma coisa externa, nem pela perda do mais querido amigo, embora fossem capazes de fazer dez vezes mais para salvar a vida dele do que alguns que choram à vontade. Gemidos, assim como as lágrimas, também são expressões de tristeza, mas a rejeição e ódio sinceros ao pecado, são evidências ainda melhores do que ambos.

Quando, entretanto, a pessoa tem uma disposição natural para chorar, mesmo que seja por dificuldades materiais, e ainda assim não pode derramar uma lágrima pelo pecado, aí o caso é mais questionável.

(3) A razão principal pela qual vocês devem se esforçar para ter uma tristeza mais profunda é para que possam obter o fim ao qual a tristeza deveria levar: que o pecado vos seja mais odioso e mortificado com mais efetividade; que o “eu” seja humilhado, para que Cristo possa ser mais valorizado, desejado e exaltado, e para que você seja melhor habilitado a uma maior comunhão com Deus no tempo por vir, seja salvo do orgulho, e mantido vigilante.

Pelo que foi dito, você tem uma regra pela qual pode acertadamente discernir que grau de humilhação deve ser alcançado: ela deve ir tão profundamente a ponto de minar o nosso orgulho. O coração deve ser tão quebrantado quanto necessário para nos afastar do pecado e nos desvencilhar do “eu” carnal. Se isso não for alcançado, ainda que você chore os próprios olhos, isso não valerá nada. Você precisa ser rebaixado a tal ponto que o sangue de Cristo e o favor de Deus venham a ser mais preciosos a seus olhos do que o mundo inteiro, e em seu próprio coração preferira antes aqueles do que este. Aí, então, você pode estar seguro de que a sua humilhação é sincera, quer você derrame lágrimas ou não.

Pelo que foi dito, você também pode concluir que deve fugir da idéia de atribuir às suas próprias humilhações qualquer valor da honra devida apenas a Cristo. Não pense que você pode satisfazer a justiça da lei ou merecer qualquer coisa da parte de Deus pelo valor dos seus sofrimentos, mesmo que você venha a chorar lágrimas de sangue. Isto não será uma verdadeira humilhação, se não consistir no senso de reconhecimento da sua indignidade e merecida condenação, e se não levá-lo a buscar por perdão e vida em Cristo, e se não levá-lo a se ver perdido e totalmente incapaz em si mesmo. Portanto, seria clara contradição se a verdadeira humilhação viesse a ser tida como satisfação ou mérito, ou algo em que confiar ao invés de Cristo.

Capítulo 4

Conselho Principal: Não Recuse Ser Totalmente Humilhado

Tendo tratado amplamente da natureza e razões da verdadeira humilhação, eu quero concluir com o conselho que é minha principal intenção aqui: não recuse ser total e profun­damente humilhado. Não se canse da obra de humilhação do Espírito.

A aflição não é um convidado bem-vindo à natureza humana; mas a graça pode achar razão para lhe dar boas-vindas. A graça é sincera e não pode tomar consciência de impiedade sem se dispor a se lamentar por isso. Há alguma coisa de Deus na tristeza piedosa, por isso a alma a aceita, procura por ela e clama por ela. Sim, a alma até se entristece quando não consegue mais se entristecer. Não que a tristeza, como tal, seja desejável, mas como uma conseqüência necessária da nossa aflição por causa do pecado, e como um antecedente necessário para a restauração que se seguirá.

Assim como podemos nos submeter à própria morte com acalentada expectativa, porque ela é santificada para ser a passagem para a glória, embora seja dolorosa em si mesma para a natureza humana, assim muito mais nós podemos nos submeter à humilhação e ao quebrantamento do coração com um santo desejo, porque ela é santificada para que seja a entrada para o estado de graça.

A título de incentivo, considere o que se segue:

1. A maior parte dos seus sofrimentos ocorrerá apenas no início. Uma vez que você se estabeleça em um caminho santo, você encontrará mais paz e conforto do que em qualquer outro caminho que possa seguir. Eu sei que se você se envolver com o pecado novamente, ele provocará mais sofrimento em você. Mas uma vida piedosa é uma vida de retidão, conversão é um abandono do pecado e conseqüentemente um abandono da causa dos sofrimentos. Você não pode suportar tais sofrimentos por um pouco mais?

2.         Considere de onde você está vindo. Não é de um estado de ira? Onde você esteve todo este tempo, não foi sob o poder de Satanás? O que você fez durante toda a sua vida, não foi se submeter à escravidão do pecado, e ofender o seu Senhor, e destruir‑se a si mesmo? Seria próprio, seria razoável, seria sincero, vir de tal estado sem lamentar ter permanecido por tanto tempo nele?

3. Considere, também, que a humilhação é necessária a sua própria restauração e salvação. Você pensa que cometeria tão grande excesso, e então seria curado sem nenhum propósito? Você suportaria, para a saúde do seu corpo, o comprimido mais amargo, e o remédio mais repugnante, a dieta mais rigorosa, e até retirar o seu sangue, porque sabe que a sua vida depende disto e não há outro remédio. Não deveria você, então, suportar, para a salvação da sua alma, os sofrimentos mais amargos, as reprimendas mais duras, as confissões mais francas, e a abundância de lágrimas? O pecado não será vencido de modo mais fácil, o “eu” não será conquistado de outra maneira, o coração do pecado não será quebrado, até que o seu coração seja quebrado.

Nós sabemos que não há nenhum mérito em seus sofrimentos, e que não são eles que farão com que Deus perdoe seus pecados. Nem tão pouco a sua tristeza é requerida por ser o sangue de Cristo insuficiente. Mas ela é parte do fruto do Seu sangue sobre a sua alma. Se o sangue Dele não derreter e quebrar o seu coração, você não tem parte Nele. É preciso que você lamente por Aquele que você traspassou, e este fruto do Seu sangue é um preparativo para mais. É tão impossível você ser salvo sem fé, como sem arrependimento e humilhação.

Considere quanta ruindade havia nas suas obras; poderia você ser grato por isso? Quem foi que o trouxe a essa necessidade de sofrimento? Você passou toda a sua vida abusando da sua natureza, e causando o seu próprio mal, e agora você tem má vontade para com o transtorno necessário para a sua cura? A quem você acusaria, e em quem encontraria falta, senão em você mesmo? Não foi você quem pecou? Não foi você quem alimentou o fogo do seu sofrimento e semeou as sementes deste fruto amargo, e acariciou a causa dos seus próprios transtornos? Não foi Deus quem fez isto, foi você mesmo. Ele quer apenas desfazer aquilo que você fez. Não tenha, portanto, má vontade para com o Seu médico, se você precisa ser purgado, sangrado, e tem que passar pela mais rigorosa dieta, mas “agradeça” a si mesmo o ter que passar por isto.

4. Considere também que você tem um sábio e meigo médico, o qual conheceu Ele mesmo o que são a tristeza e o sofrimento, pois por sua causa Ele foi feito um homem de dores[16][16][16], e, portanto, pode se compadecer daqueles que estão em sofrimento. Ele não se deleita no seu sofrimento e dores, mas na sua cura e subseqüente consolação. Por conseguinte, você pode estar seguro de que Ele o tratará da maneira mais gentil e moderada, e não colocará sobre você mais do que o necessário para o seu próprio bem, nem lhe dará um cálice mais amargo do que a sua doença o requeira.

Quando Ele mostra a sua grande simpatia para com o contrito, é para que possa vivificar o seu coração. Além disto, Ele diz: “não contenderei para sempre, nem me indignarei continuamente; porque do contrário o espírito definharia diante de Mim e o fôlego da vida que Eu criei”[17][17][17]… Ele chama para Si “todos os que estão cansados e sobrecarregados, e Eu os aliviarei”[18][18][18]. Ele foi enviado para curar os quebrantados de coração; proclamar libertação aos cativos; para recobrar a vista aos cegos e para pôr em liberdade os algemados. Quando Ele quebrar o seu coração, Ele também o unirá da forma mais terna e segura do que você possa razoavelmente desejar.

Até mesmos os seus ministros, quando se esforçam para quebrar o coração de vocês, e humilhar vocês até o pó, não têm outro propósito que não o de trazê-los a Cristo, à vida e ao conforto. Embora eles fiquem felizes em ver os olhos chorosos dos seus ouvintes e em ouvir as suas confissões e lamentações, ainda assim, não é porque eles tenham prazer nas suas aflições, mas porque antevêem os seus frutos de salvação. Eles sabem ser isto necessário para a paz eterna de vocês. Você pode ler quais são os pensamentos deles nas palavras de Paulo: “Agora me alegro, não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para arrependi­mento; pois fostes contristados segundo Deus, para que de nossa parte nenhum dano sofrês­seis, pois a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte. Porque quanto cuidado não produziu isto mesmo em vós que segundo Deus fostes contristados! Que defesa, que indignação, que temor, que saudades, que zelo, que vindita!”[19][19][19].

A verdade é que nem Cristo, nem seus ministros têm aquele amor tolo e apaixonado por vocês, e piedade de vocês, como vocês têm por si mesmos. Eles não são tão dóceis, a ponto de evitar que sofram as tristezas que são necessárias para livrá-los do inferno. Não obstante, eles não colocariam sobre vocês mais tristezas do que é necessário, nem têm vocês experimentado uma gota de vinagre ou fel, ou derramado uma lágrima, a não ser que tenha servido para o vosso conforto e salvação.

5.         Considere também que sofrimentos são aqueles que os presentes sofrimentos evitam, e que sofrimentos serão aqueles no inferno, os quais são evitados por estes sofrimentos que vêm de Deus, na terra. Comparados com os sofrimentos do inferno, os sofrimentos do arrependimento são alegrias. Os seus sofrimentos produzem esperança, mas os sofrimentos daqueles que perecem no inferno conduzem ao desespero. Os seus sofrimentos são pequenos e não mais do que uma gota, comparados com o oceano deles. Os seus curam, mas os deles atormentam. Os seus são a vara de um pai, mas os deles são instrumentos de tortura e forcas. Os seus estão misturados com amor, mas o deles não, antes oprimem-nos em confusão. Os seus são curtos, mas os deles não têm fim. Você preferiria o sofrimento deles, em vez do sofrimento que vem de Deus? Preferiria você uivar com os demônios e rebeldes, do que chorar com os santos e filhos? Preferiria você ser quebrado no inferno por tormentos, do que na terra pela graça?

Não é algo razoável de sua parte rebelar-se por causa dos sofrimentos que acabarão por salvá-lo, se você lembrar do que eles irão salvá-lo e do que sofrem todos aqueles que não são humilhados aqui pela graça! O quão diferente é o sofrimento que outros estão agora suportando. Não resmungue por causa da abertura de uma veia enquanto que muitos milhares estão agora sangrando até o coração.

6. Considere também que quanto mais você for corretamente humilhado, mais doce Cristo e todas as suas misericórdias serão para você enquanto viver. Uma prova do amor de Cristo fará com que você bendiga aqueles sofrimentos que o prepararam para isto. O próprio Cristo não é igualmente valorizado, nem mesmo por todos aqueles que Ele salvará. Não deveria você ser antes esvaziado de você mesmo mais e mais, para que seja mais cheio de Cristo daqui em diante? Quando você sentir os Seus braços envolvendo-o, e vê-Lo naquela postura em que se encontrava o pai do filho pródigo, você agradecerá àqueles sofrimentos que o habilitaram para os Seus braços.

Se você for totalmente humilhado, viverá todos os seus dias de modo muito mais seguro. A humilhação lhe fará odiar o pecado, por causa do qual você veio a sentir dor aguda, e lhe fará fugir de ocasiões que lhe foram tão caras.

O pecado do orgulho é um dos pecados mais mortais e danosos no mundo; e é a razão de milhares de mestres serem mal sucedidos. A humilhação é totalmente contrária a ele, e, portanto, precisa ser algo bem-vindo e desejável. Valeria a pena suportar todo o sofrimento que cem homens suportam aqui para salvá-lo deste perigoso pecado do orgulho.

7. Uma humilhação profunda é usualmente um sinal de uma maior exaltação futura. “Porque quem a si mesmo se exaltar, será humilhado; e quem a si mesmo se humilhar, será exaltado”[20][20][20]. “Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que Ele em tempo oportuno vos exalte”[21][21][21].

Quanto mais alto um homem pretenda construir, mais profundamente ele deve cavar para fazer o alicerce. As suas consolações serão provavelmente maiores quanto maiores forem seus sofrimentos. Você pode livrar-se daquelas hesitações que acompanham outros por todos os seus dias e que acabam fazendo com que nunca sejam verdadeiramente humilhados. Você não precisa estar ainda questionando, ou arrancando seus alicerces, como se você tivesse que começar tudo novamente. Se muitas coisas concorrem para o seu sofrimento, isto é um sinal de que você poderá ser grandemente usado. Paulo deve ter sido humilhado profundamente na sua conversão, a fim de que pudesse ser habilitado como um “instrumento escolhido para levar o Meu nome perante os gentios e reis”[22][22][22] .

Coloque tudo isto diante de você, e considere quantos motivos você tem para acalentar a obra de humilhação da graça, e não, ao invés disso, apagá-la.

Quando o seu coração começar a se afligir por causa do pecado, não procure a companhia dos tolos para beber ou se distrair, com o propósito de se esquecer da aflição do pecado. Não expulse estes sentimentos da sua mente, como se fossem indesejáveis, como se eles houvessem vindo para magoá-lo. Mas fique sozinho, e considere o assunto, e de joelho, em secreto, clame ao Senhor para visitá-lo e para quebrar o seu coração e para prepará-lo para estas consolações salvadoras, para que não o deixe neste Mar Vermelho, mas traga-o à outra margem e coloque em sua boca os cânticos de louvor.


* Digitado e revisado por Emir Bemerguy Filho.

[1][1][1] Versão on-line do livro Richard Baxter, Quebrantamento: Espírito de Humilhação, 2 ed., trad. Paulo R. B. Anglada (Belém-PA: Editora Classicos Evangélicos, 1991). Direitos da traduçào reservados.

[2][2][2] Esta é a introdução ao livro inteiro: Direções e Persuasões para uma Conversão Segura (Directions and Persuasions to a Sound Conversion)

[3][3][3] Is 29:13

[4][4][4] 1 Jo 2:19

[5][5][5] 2 Pe 1:1O

[6][6][6] Pv 5:3-5

[7][7][7] Rm 8:2

[8][8][8] Lc 15:18,19

[9][9][9] Lc 18:13

[10][10][10] 1 Pe 5:5

[11][11][11] Sl 138:6

[12][12][12] Is 57:15

[13][13][13] Is 66:2

[14][14][14] Sl 34:18

[15][15][15] Sl 51:17

[16][16][16] Is 53:3

[17][17][17] Is 57:16

[18][18][18] Mt 11:28

[19][19][19] 2 Cor 7:9-11

[20][20][20] Mt 23:12

[21][21][21] 1 Pe 5:6

[22][22][22] At 9:15

RICHARD BAXTER – bglk@stprj.br – www.stprj.br

Rio de Janeiro

2003

As notórias BOBAGENS do ESPIRITISMO !!!

 
O espiritismo, que se apresenta como uma “doutrina filosófica e moral” (KARDEC, Allan. Instruções de Allan Kardec ao Movimento Espírita) e também como a terceira e mais completa revelação de Deus (KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo.), oferece-se como “a chave da verdadeira felicidade”, de onde, segundo suas palavras, deriva “seu poder irresistível”. (KARDEC, Allan. Viagem espírita em 1862 e outras viagens de Kardec.)
 
Esta revelação foi codificada por Allan Kardec em cinco livros: “O Livro dos Espíritos” (1857), “O Livro dos Médiuns” (1861), “O Evangelho segundo o Espiritismo” (1864), “O Céu e o Inferno” (1865) e “A Gênese” (1868). Neles Jesus é considerado um profeta, com a diferença que ele “constitui o tipo da perfeição moral a que a Humanidade pode aspirar na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo e a doutrina que ensinou é a expressão mais pura da lei do Senhor, porque, sendo ele o mais puro de quantos têm aparecido na Terra, o Espírito Divino o animava”. (KARDEC, Allan. O livro dos espíritos, p. 180)
 
Apesar disto, Kardec assume que as bases da sua doutrina estão assentadas no Evangelho, dele nada suprimindo, mas completando e elucidando (KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo). Diz ele: o espiritismo “é uma doutrina puramente moral, que absolutamente não se ocupa dos dogmas”. Como deixa “a cada um inteira liberdade de suas crenças”, não aconselha a mudança de religião. Ele não “pertence particularmente a nenhuma religião, ou, melhor dizendo, está em todas elas”. (KARDEC, Allan. Viagem espírita em 1862 e outras viagens de Kardec)  Seu propósito é dar “aos homens tudo o que é preciso para a sua felicidade aqui na Terra, porque lhe ensina a se contentarem com o que tem”. (KARDEC, Allan. Instruções de Allan Kardec ao Movimento Espírita)
 
Eis a confissão de fé feita por Allan Kardec:
 
“Crer num Deus Todo-Poderoso, soberanamente justo e bom; 
crer na alma e em sua imortalidade;
na preexistência da alma como única justificação do presente; 
na pluralidade das existências como meio de expiação, de reparação e de adiantamento intelectual e moral;
na perfectibilidade dos seres mais imperfeitos;
na felicidade crescente com a perfeição; 
na eqüitativa remuneração do bem e do mal, segundo o princípio: a cada um segundo as suas obras;
na igualdade da justiça para todos, sem exceções, favores nem privilégios para nenhuma criatura; 
na duração da expiação limitada à da imperfeição; 
no livre-arbítrio do homem, que lhe deixa sempre a escolha entre o bem e o mal; 
crer na continuidade das relações entre o mundo visível e o mundo invisível; 
na solidariedade que religa todos os seres passados, presentes e futuros, encarnados e desencarnados;
considerar a vida terrestre como transitória e uma das fases da vida do Espírito, que é eterno;
aceitar corajosamente as provações, em vista de um futuro mais invejável que o presente; 
praticar a caridade em pensamento, em palavras e obras na mais larga acepção do termo; 
esforçar-se cada dia para ser melhor que na véspera, extirpando toda imperfeição de sua alma; 
submeter todas as crenças ao controle do livre exame e da razão, e nada aceitar pela fé cega; 
respeitar todas as crenças sinceras, por mais irracionais que nos pareçam, e não violentar a consciência de ninguém; 
ver, enfim, nas descobertas da Ciências, a revelação das leis da Natureza, que são as leis de Deus: 
eis o Credo, a religião do Espiritismo, religião que pode conciliar-se com todos os cultos, isto é, com todas as maneiras de adorar a Deus. É o laço que deve unir todos os espíritas numa santa comunhão de pensamentos, esperando que ligue todos os homens sob a bandeira da fraternidade universal.
(KARDEC, Allan. Instruções de Allan Kardec ao Movimento Espírita. Disponível em
 
De modo mais sintético, o espiritismo propõe crenças comuns às religiões em geral e crenças bastante particulares.
 
De modo comum, o espiritismo:
 
. crê na existência de Deus; 
. valoriza a razão, tendo como corolário a defesa da liberdade religiosa
. estimula à prática da caridade e de vidas moralmente irrepreensíveis.
Não temos os cristãos qualquer dificuldade em afirmar estes postulados. Cremos na existência do Deus Todo-poderoso e amoroso, justo e bom. Valorizamos a razão e as descobertas científicas. Defendemos o direito de todas as pessoas professarem a religião que entendem ser verdadeira, sem restrição de espécie alguma. Cremos no amor ao próximo, em todas as difíceis conseqüências, e no compromisso de uma visa digna do Evangelho, numa vida que dê frutos que evidenciem o nosso arrependimento.
 
De modo particular, o espiritismo — e aí nossas discordâncias se visceralizam — propõe a idéia da a eternidade da alma (ou espírito), o que desemboca nos pressupostos:
 
. das reencarnações sucessiva e infinita, visando a reparação do mal causado na terra e o aperfeiçoamento do espírito;
 
. da continuidade das relações entre os mundo visível e invisível, derivando dai a comunicação dos mortos com os vivos.
 
A AUTORIDADE DOS ESPÍRITOS
 
Não deriva o espiritismo sua autoridade da Bíblia Sagrada, como fazem os cristãos, mas do ensino dos espíritos, entendidos como “seres inteligentes da criação, que povoam o Universo, fora do mundo material, e constituem o mundo invisível. Não são seres oriundos de uma criação especial, porém, as almas dos que viveram na Terra, ou nas outras esferas, e que deixaram o invólucro corporal”. (KARDEC, Allan. O Livro dos médiuns ou Guia dos médiuns e dos evocadores.) O corpo é visto “apenas uma vestimenta grosseira que reveste temporariamente o Espírito, verdadeira cadeia que o prende à gleba terrena e da qual fica feliz em se libertar”. (KARDEC, Allan. O evangelho segundo o Espiritismo, p. 204)
 
Numa frase, “o Espírito mais não é do que a alma sobrevivente ao corpo; é o ser principal, pois que não morre, ao passo que o corpo é simples acessório sujeito à destruição”. (KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo) 
 
Em resumo, “o Espírito não é, pois, um ser abstrato, indefinido, só possível de conceber-se pelo pensamento. É um ser real, circunscrito que, em certos casos, se torna apreciável pela vista, pelo ouvido e pelo tato”. (KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos: princípios da Doutrina Espírita. Em outro livro, no entanto, Kardec diz: “Pela sua essência espiritual, o Espírito é um ser indefinido, abstrato, que não pode ter ação direta sobre a matéria, sendo-lhe indispensável um intermediário, que é o envoltório fluídico, o qual, de certo modo, faz parte integrante dele. KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. ) Esses Espíritos “povoam infinitamente os espaços infinitos”, estando ao lado das pessoas, observando-as”. (KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos, p. 113) 
 
Sua tarefa é servir como ministro de Deus, dependendo do estágio de evolução que tenham alcançado”, (KARDEC, Allan. A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo) uma vez que uns chegaram “ao ponto mais elevado da escala, deixaram definitivamente os mundos materiais”, enquanto outros, “pela lei da reencarnação, ainda pertencem ao turbilhão da Humanidade terrena”. (KARDEC, Allan. Instruções de Allan Kardec ao Movimento Espírita.)
 
Por isto, segundo Kardec, “sem as comunicações dos Espíritos, não haveria Espiritismo. (…) Saída da universalidade do ensino dos Espíritos, tem o valor de uma obra coletiva, e é por isto mesmo que em tão pouco tempo ela se propagou por toda Terra, cada um recebendo por si mesmo, ou por suas relações íntimas, instruções idênticas e a prova da realidade das manifestações”. (KARDEC, Allan. Instruções de Allan Kardec ao Movimento Espírita.)
 
A partir daí, o espiritismo desenvolve a idéia de “vida espiritual” como a verdadeira vida, porque é a vida normal (não terrena do Espírito). A outra vida é a vida terrestre, que é transitória e passageira, como se fosse um tempo de morte, porque vivida no corpo, o invólucro do Espírito. (KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo.) “A vida espiritual é a vida normal do Espírito: é eterna”. (KARDEC, Allan. Obras póstumas.)
 
A REENCARNAÇÃO
 
Visando um meio para a reparação do mal causado na vida terrestre e autoaperfeiçoamento do ser, o espiritismo propõe a existência de reencarnações sucessivas e infinitas.
 
Segundo o espiritismo, “um Espírito volta várias vezes a tomar novo corpo carnal sobre a Terra, nasce várias vezes a fim de tornar a conviver nas sociedades terrenas, como Homem, exatamente como este é levado a trocar de roupa muitas vezes”. (PEREIRA, Yvonne A. Memórias de um suicida.)
 
A REENCARNAÇÃO COMO LÓGICA — Na visão de Allan Kardec, a reencarnação é processo pelo qual o espírito, que é livre no mundo espiritual, vem ao mundo para aprender. Segundo o Espiritismo, Deus impõe aos Espíritos “a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. Para uns, é expiação; para outros, missão. Mas, para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação. Visa ainda outro fim a encarnação: o de pôr o Espírito em condições de suportar a parte que lhe toca na obra da criação”. (KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, p. 136)
 
A reencarnação é oferecida “como uma necessidade absoluta, como uma condição inseparável da Humanidade; em uma palavra, como uma lei natural”. As sucessivas reencarnações justificam “todas as desigualdades e todas as injustiças aparentes que a vida apresenta”. (KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, p. 26)
 
A “lógica da justiça de Deus” fica demonstrada com a punição; ele não pune o bem que se faz e nem o mal que não se faz; se somos punidos, é porque fizemos o mal; se não o fizemos nesta vida, seguramente o fizemos em outra”. Assim, “o homem nem sempre é punido, ou completamente punido em sua existência presente, mas nunca escapa às conseqüências de suas faltas. A prosperidade do mau é apenas momentânea; se não for punido no hoje, o será no amanhã, e, sendo assim, aquele que sofre está expiando os erros do seu passado”. Desse modo, “pela pluralidade das existências e da destinação da Terra como mundo expiatório, se explicam os absurdos que a divisão da felicidade e da infelicidade apresenta entre os bons e os maus neste mundo. (…) Se nos elevarmos pelo pensamento, de modo a incluir uma série de existências, compreenderemos que cada um tem o que merece, sem prejuízo do que lhe está reservado no mundo dos Espíritos, e que a justiça de Deus nunca falha. O homem não deve se esquecer nunca de que está num mundo inferior, ao qual está preso devido às suas imperfeições.
 
Ao nascer, “o homem traz aquilo que adquiriu; nasce como se fez. Cada existência é para ele um novo ponto de partida. Pouco lhe importa saber o que foi: se está sendo punido, é porque fez o mal”. As tribulações da vida “são, ao mesmo tempo, expiações do passado, que nos castigam, e provas que nos preparam para o futuro. Rendamos graças a Deus que, em sua bondade, dá ao homem a oportunidade da reparação e não o condena irremediavelmente pela primeira falta”. Ao longo das “suas diversas existências corporais é que os Espíritos se livram, pouco a pouco, de suas imperfeições”.  (KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, p. 36)
 
O objetivo da reencarnação é o melhoramento progressivo da humanidade. “Sem isto, onde a justiça?”, pergunta Kardec. (KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos, p. 157) “As encarnações sucessivas são sempre muito numerosas, porquanto o progresso é quase infinito” (KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos, p. 157) A certeza do espiritismo é que a reencarnação “é a única que corresponde à idéia que formamos da justiça de Deus para com os homens que se acham em condição moral inferior; a única que pode explicar o futuro e firmar as nossas esperanças, pois que nos oferece os meios de resgatarmos os nossos erros por novas provações. A razão no-la indica e os Espíritos a ensinam”. (KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos, p. 158)
 
Na conclusão de Kardec, “sem a reencarnação somos detidos a cada passo, tudo é caos e confusão; com a reencarnação tudo se esclarece, tudo se explica da maneira mais racional”. (KARDEC, Allan. Instruções de Allan Kardec ao Movimento Espírita.) 
 
No dizer de outro autor, “a reencarnação afirmada pelas vozes do além-túmulo é a única forma racional por que se pode admitir a reparação das faltas cometidas e a evolução gradual dos seres. Sem ela, não se vê sanção moral satisfatória e completa; não há possibilidade de conceber a existência de um Ser que governe o Universo com justiça”. (DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor: os testemunhos, os fatos, as leis.)
 
Para Allan Kardec, a reencarnação está demonstrada na Bíblia, ao contrário das leituras cristãs tradicionais. Assim, por exemplo, a promessa de Jesus de que são “Bem-aventurados os aflitos, pois serão consolados” deixa claro que “os sofrimentos são como crises salutares que levam à cura, e é a purificação que garante a felicidade nas existências futuras”. (KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, p. 54) “A cada nova existência, o Espírito dá um passo para diante na senda do progresso. Desde que se ache limpo de todas as impurezas, não tem mais necessidade das provas da vida corporal.” (KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos, p. 157)
 
O fundador do espiritismo está seguro que João Batista era uma reencarnação de Elias. Ele toma João 3.1-12 como abono. Para ele, Jesus confirmou a crença na ressurreição, quando disse que ninguém pode entrar no reino de Deus se não nascer de novo da água e do Espírito. Afinal, “o que nasceu da carne é carne indica claramente que só o corpo procede do corpo e que o Espírito é independente dele”.  (KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, p. 57)
 
Quando a diz que o Espírito sopra onde quer, a Bíblia demonstra que “se o Espírito, ou alma, fosse criado ao mesmo tempo que o corpo, se saberia de onde veio, uma vez que se conheceria seu começo. De todos os modos, esta passagem é a confirmação do princípio da preexistência da alma e, por conseguinte, da pluralidade das existências”.  (KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, p. 58) Assim, “negar a reencarnação é negar as palavras do Cristo”. (KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, p. 59)
 
CRÍTICA Á IDÉIA DA REENCARNAÇÃO — O argumento pela reencarnação se dá na frente lógica e na interpretação bíblica.
 
O uso que Allan Kardec e demais autores espíritas fazem da Bíblia é bastante particular.
 
Vejamos alguns textos: (cf. EDDY, Paul R. Reincarnation and the Bible. Disponível em
 
João 3.3,7 — Allan Kardec insiste que a expressão “nascer de novo” comporte a idéia de sucessivas reencarnações. Visto literalmente ou metaforicamente, fica claro que Jesus está mostrando a Nicodemos a necessidade um nascimento espiritual, não biológico. 
 
Mateus 11.14; 17.11-13 — Nestes textos há uma referência a João Batista como o Elias que haveria de vir, o que levou alguns autores espíritas a derivar que João era uma reencarnação de Elias. Quando lemos os Evangelhos, notamos que o próprio João Batista acabou com esta possibilidade interpretativa quando disse taxativamente que não era Elias (João 1.21). João era um profeta do mesmo estilo de Elias e só.
 
João 9.1-3 — Os discípulos perguntam a Jesus, diante de um cego, pelas causas de sua doença: quem pecou: ele ou seus pais. Os reencarnacionistas deduzem que os discípulos criam nessa doutrina. Os discípulos pensavam em algo próximo a maldição hereditária, não em reencarnação. Em sua resposta, Jesus rechaçou as idéias do carma e da reencarnação. 
 
Galatas 6.7-7 diz: “Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear, isso também colherá”. O verso não abona a idéia do carma. Antes, fala de Deus como um ser pessoal, que chama as pessoas à responsabilidade. A seguir, o verso fala da ressurreição (não da reencarnação),  mostrando a diferença entre a carne e o espírito.
 
Para aceitarmos a doutrina da reencarnação, precisamos aceitar que a alma (ou espírito) preexiste ao ser humano, isto é, que o espírito vaga no espaço (ou habita algum depósito) e num determinado momento entra no corpo de uma pessoa. O corpo é apenas o invólucro do espírito (ou alma). Conquanto esta idéia esteja em Platão e em religiões anteriores ao cristianismo, não há evidência na Bíblia para esta preexistência. A alma surge com o surgimento da vida. Não preexistia. Todos os seres humanos são criados. Só Deus é eterno. Escreveu o apóstolo Paulo: “Deus é o bendito e único Soberano, o Rei dos reis e Senhor dos senhores, o único que é imortal e habita em luz inacessível, a quem ninguém viu nem pode ver. A ele sejam honra e poder para sempre. Amém”. (1Timóteo 6.15-16) “A evidência científica indica a concepção humana como ponto de origem do ser humano individual”. (GEISLER, Norman. Enciclopédia apologética. São Paulo: Vida, 2002, p. 748.)
 
Quanto à vida futura, precisamos concordar que, após a morte, o espírito permanece num estado de “erraticidade”, vivendo “no plano espiritual”, em cidades compostas de estruturas próprias, enquanto se preparam para as novas encarnações. Assim, “de acordo com sua necessidade de aprendizado e crescimento espiritual, receberiam programações de vida, genes, potencialidades, enfim, para suportar as provas e expiações por que teriam de atravessar em sua próxima (…) encarnação)” No entanto, a Bíblia diz que os mortos nada sabem e nada fazem, como aprendemos em Eclesiastes 9.5-6. (BRAGA, Maurício Carlos da Silva. Porque não sou mais espírita. Disponível em )
 
Para aceitarmos a doutrina da reencarnação, precisamos recusar a realidade da ressurreição, ensinada e mostrada na Bíblia. “A pedra fundamental do espiritismo é de que não morreremos, mas apenas desencarnaremos. Continuaremos vivos, encarnando e desencarnando, indefinidamente, até atingirmos a perfeição! Pela doutrina espírita, não há uma só morte, mas várias e indefinidas, assim como não há um só juízo, mas vários, de certa forma, já que após cada desencarnação há uma definição do novo destino ou da nova vida que o espírito vai seguir em direção a uma almejada perfeição”.  (BRAGA, Maurício Carlos da Silva. Porque não sou mais espírita. Disponível em )
 
A leitura de Hebreus 9.27-28 é totalmente esclarecedora: “Da mesma forma, como o homem está destinado a morrer uma só vez e depois disso enfrentar o juízo, assim também Cristo foi oferecido em sacrifício uma única vez, para tirar os pecados de muitos; e aparecerá segunda vez, não para tirar o pecado, mas para trazer salvação aos que o aguardam”. O destino do homem é a morte, única na sua experiência, e depois virá para ele o juízo final, que acontecerá no último dia (João 6.54) e não numa sucessão interminável de dias. Em outras palavras, nascemos uma vez, vivemos uma vez, morremos uma vez e seremos julgados uma vez.
 
Se a reencarnação, segundo o ensino espírita, acontece múltiplas vezes, em corpos diferentes, em corpos mortais, a ressurreição, segundo a Bíblia, acontece uma vez, no mesmo corpo, num corpo imortal. 
 
Como aprendemos a partir de uma história ensinada por Jesus, quando uma pessoa vai para o seu destino, há um abismo intransponível entre os dois mundos (Lucas 16.26).
 
Para aceitarmos a doutrina da reencarnação, precisaríamos estar convencidos de que o homem tende a ser moralmente melhor. No entanto, “não há evidência irrefutável de que qualquer melhoria moral significativa tenha ocorrido durante os milhares de anos que conhecemos”. (GEISLER, Norman. Enciclopédia apologética. São Paulo: Vida, 2002, p. 748.)
 
Para aceitarmos a doutrina da reencarnação, precisamos conviver com a idéia de que somos culpados por nosso sofrimento e continuaremos culpados e merecendo a punição. A Bíblia ensina que somos culpados pelos pecados que nós cometemos, mas podemos ser perdoados completamente se pedirmos perdão a Deus com a disposição de não mais pecarmos. A punição não nos aperfeiçoa. Quem nos aperfeiçoa é Deus, quando o convidamos para dirigir as nossas vidas.
 
Na verdade, a reencarnação não resolve o problema do sofrimento, ao dizer, como os amigos de Jó. que é merecido. Diante de um bebê com uma doença crônica, um cristão diz que não sabe porque isto lhe aconteceu, enquanto o espírita diz que esse bebê está pagando pelo que fez numa vida passada, embora não se lembre dela. Assim, “os inocentes não são realmente culpados porque o carma das vidas passadas está causando o sofrimento”. (GEISLER, Norman. Enciclopédia apologética. São Paulo: Vida, 2002, p. 747)
 
Para aceitarmos a doutrina da reencarnação, precisamos incorporar a idéia do carma e negar o valor da morte de Jesus como sendo expiatória (isto é: em nosso lugar). A reencarnação precisa da idéia do carma, segundo o qual o que uma pessoa semeia nesta vida pagará na próxima. Como ensina o espiritismo, “o carma é uma lei inexorável, sem exceções. Pecados não podem ser perdoados; devem ser punidos. Se alguém não paga nesta vida, tem que pagar na próxima”. Diferentemente, segundo o cristianismo, o perdão é possível. Jesus mesmo perdoou aqueles que o crucificaram.  (BRAGA, Maurício Carlos da Silva. Porque não sou mais espírita. Disponível em ) Segundo o espiritismo, “ninguém escapa à lei do progresso, que cada um será recompensado segundo o seu merecimento real e que ninguém fica excluído da felicidade suprema, a que todos podem aspirar, quaisquer que sejam os obstáculos com que topem no caminho”. (KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos, p. 191) O conselho de Allan Kardec é: “Façamos, pois, todos os esforços para a este planeta não voltarmos, após a presente estada, e para merecermos ir repousar em mundo melhor, em um desses mundos privilegiados, onde não nos lembraremos da nossa passagem por aqui, senão como de um exílio temporário”.  (KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos, p. 491)
 
Temos, portanto, que escolher entre o carma e a graça, entre o mérito e a cruz. A cruz torna a reencarnação completamente desnecessária. O homem não precisa pagar pelos seus pecados. Jesus já fez este pagamento na cruz. Ele não morreu equivocado. Ele morreu para que pudéssemos ser perdoados, sem esforço, mas como um presente da graça. A reencarnação anula o sacrifício de Jesus na cruz.
 
Se, como propõe o espiritismo, a própria pessoa paga pelos seus pecados (através do “resgate” verificado ao longo das reencarnações) e cresce até adquirir o direito ao convívio com Deus por ter atingido a perfeição, então Jesus “não quitou nossos pecados com Sua morte na cruz, não é nosso intercessor único junto ao Pai e não virá nos buscar no dia da execução do juízo, até porque nem juízo final haveria”.  (BRAGA, Maurício Carlos da Silva. Porque não sou mais espírita. Disponível em )
 
A MEDIUNIDADE
 
O outro pilar do espiritismo é a proposta de que existe uma continuidade nas relações entre os mundo visível e invisível, derivando dai a comunicação dos mortos com os vivos. 
 
O ENSINO ESPÍRITA — Diz Allan Kardec: “A comunicação entre os dois mundos, o corporal, material ou visível e o incorpóreo, imaterial ou invisível, é uma premissa básica do Espiritismo, que seria apenas um espiritualismo irreal e duvidoso, se a negasse ou a repudiasse”. (KARDEC, Allan. Viagem espírita em 1862 e outras viagens de Kardec.) A  mediunidade “é a fonte primordial dos ensinos espíritas”. Seu exercício constitui “sem dúvida, importante contribuição dos espíritas que a elas se dedicam, à consolidação da fé raciocinada e ao retorno, à normalidade, das condições psíquicas alteradas daqueles que, enleados nas tramas da obsessão disfarçada e tenaz, procuram, agoniados, os centros espíritas, ou são a eles encaminhados”. (KARDEC, Allan. Viagem espírita em 1862 e outras viagens de Kardec.)
 
A lógica espírita é a seguinte: uma vez “que as almas estão por toda parte, não será natural acreditarmos que a de um ente que nos amou durante a vida se acerque de nós, deseje comunicar-se conosco e se sirva para isso dos meios de que disponha? Enquanto vivo, não atuava ele sobre a matéria de seu corpo? Não era quem lhe dirigia os movimentos? Por que razão, depois de morto, entrando em acordo com outro Espírito ligado a um corpo, estaria impedido de se utilizar deste corpo vivo, para exprimir o seu pensamento, do mesmo modo que um mudo pode servir-se de uma pessoa que fale, para se fazer compreendido?  (KARDEC, Allan. O Livro dos médiuns, p. 25) Em resumo, “os espíritos não são seres à parte, dentro da criação, mas as almas dos que hão vivido na Terra, ou em outros mundos, e que despiram o invólucro corpóreo; donde se segue que as almas dos homens são Espíritos encarnados e que nós, morrendo, nos tornamos Espíritos”.  (KARDEC, Allan. O Livro dos médiuns, p. 77) 
 
Allan Kardec chama de espíritos as almas que, segundo ele, povoam o espaço. “Os Espíritos são simplesmente as almas e nada mais”. (KARDEC, Allan. O Livro dos médiuns, p. 23) Esses espíritos se comunicam por médiuns, que lhes servem de instrumentos e intérpretes.  (KARDEC, Allan. O Livro dos médiuns, p. 77) Essa mediunidade, crê Kardec, é “dada a todos, a fim de que os Espíritos possam levar a luz a todas as camadas”. Ela é um gesto da bondade de Deus, que coloca bons espíritos para ajudar as pessoas, que não precisam buscar conselhos longe. (KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo, p. 247)
 
Segundo outro autor, “a mediunidade é o instrumento de comunicação entre os dois planos de vida e, no mesmo plano material, é um poderoso vetor de transmissão educacional de orientação, aconselhamento, ânimo, instruções, advertências, correções, etc.” (LOBO, Ney. Filosofia espírita da educação e suas conseqüências pedagógicas e administrativas.)
 
A mediunidade é apresentada como um instrumento de consolo: “A possibilidade de nos pormos em comunicação com os Espíritos é uma dulcíssima consolação, pois que nos proporciona meio de conversarmos com os nossos parentes e amigos, que deixaram antes de nós a Terra. Pela evocação, aproximamo-los de nós, eles vêm colocar-se ao nosso lado, nos ouvem e respondem. Cessa assim, por bem dizer, toda separação entre eles e nós. Auxiliam-nos com seus conselhos, testemunham-nos o afeto que nos guardam e a alegria que experimentam por nos lembrarmos deles. Para nós, grande satisfação é sabê-los ditosos, informar-nos, por seu intermédio, dos pormenores da nova existência a que passaram e adquirir a certeza de que um dia nos iremos a eles juntar”. (KARDEC, Allan. O livro dos espíritos, p. 528)
 
A mediunidade implica reconhecer que Deus, então, não se comunica diretamente com as pessoas, porque elas não são dignas. Ele transmite “suas ordens por intermédio dos Espíritos imediatamente superiores em perfeição e instrução.” (KARDEC, Allan. O livro dos espíritos, p. 205) Esses espíritos rodeiam os seres humanos, podendo conhecer ate os nossos mais secretos pensamentos. (KARDEC, Allan. O livro dos espíritos, p 305)
 
Kardec crê que os Espíritos vão ao encontro da alma porque têm afeto. Ao fazê-lo, “felicitam-na, como se regressasse de uma viagem, por haver escapado aos perigos da estrada, e ajudam-na a desprender-se dos liames corporais. É uma graça concedida aos bons Espíritos o lhes virem ao encontro os que os amam, ao passo que aquele que se acha maculado permanece em insulamento, ou só tem a rodeá-lo os que lhe são semelhantes. É uma punição.” (KARDEC, Allan. O livro dos espíritos, p. 230)
 
Neste contexto, Allan Kardec responde se as orações dos homens podem mudar a natureza das coisas, sobretudo as que provocam sofrimento: “As vossas provas estão nas mãos de Deus e algumas há que têm de ser suportadas até ao fim; mas Deus sempre leva em conta a resignação. A prece traz para junto de vós os bons Espíritos e, dando-vos estes a força de suporta–las corajosamente, menos rudes elas vos parecem. (…) A prece nunca é inútil, quando bem feita, porque fortalece aquele que ora, o que já constitui grande resultado. Ajuda-te a ti mesmo e o céu te ajudará, bem o sabes”. No entanto, “não é possível que Deus mude a ordem da natureza ao sabor de cada um”.  (KARDEC, Allan. O livro dos espíritos, p. 395)
 
INTERPRETAÇÕES DA BÍBLIA — Alguns textos bíblicos são citados por autores espíritas para validar o fenômeno mediúnico. 
 
Em Genesis 15.15, lemos que Abraão iria “reunir-se em paz com seus antepassados” e seria “sepultado após uma velhice feliz”. De Jacó se diz que “expirou e se reuniu com seus antepassados” (Gênesis 49.33). Jesus se refere àqueles que vão se sentar “à mesa no Reino do Céu junto com Abraão, Isaac e Jacó. (Mateus 8.11). Diz ele ainda: “E, quanto à ressurreição, será que não leram o que Deus disse a vocês: ‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó’? Ora, ele não é Deus dos mortos, mas dos vivos”. (Mateus 22.31-32). Outros textos têm a ver com a recomendação de se discernir os espíritos, como o de 1João 4.1: “Não acrediteis em qualquer espírito, mas examinai os espíritos para ver se são de Deus”.
 
A conclusão de um desses autores é a seguinte: “Não haveria sentido algum dizer que uma pessoa, após a morte, irá se reunir com seus antepassados, se não se acreditasse na sobrevivência do espírito. Além disso, para que ocorra a possibilidade de alguém poder “sentar à mesa no Reino do Céu junto com Abraão, Isaac e Jacó” teria que ser porque esses patriarcas estão tão vivos quanto nós”. (IPPB. Mediunidade na Bíblia. Disponível em http://www.ippb.org.br/modules.php?op=modload&name=News&file=article&sid=3888)
 
Ora, a expressão “antepassados” aparece em centenas de passagens bíblicas. Em Gênesis, ir aos antepassados é uma clara figura de linguagem para morte. Não há qualquer regra de interpretação que permita outra leitura.
 
Quanto a Abraão, Isaque e Jacó, Jesus ensina que estão no céu e não em algum deposito de almas. Vão comparecer diante de Deus para o apoteótico julgamento final e enquanto isto não se comunicam com os seres humanos. É neste sentido que Deus é Deus dos vivos, não no sentido de que os mortos continuam vivos.
 
Com relação à palavra “espírito”, ela tem vários significados na Bíblia. No caso de discernimento, refere-se com absoluta certeza (derivada na leitura de todo o Novo Testamento e não de um versículo isolado) a seres humanos e tem a ver com a percepção do entendimento das intenções humanas na adoração e no convívio fraternal. Há outro sentido: todas as vezes que Jesus expulsa demônios, ele expulsa espíritos imundos. Em nenhum momento, ele fala de espíritos bons. Nos outros lugares, Jesus emprega a palavra como sinônimo de consciência. 
 
No que se refere à consulta aos mortos a Bíblia é claríssima. Citemos três instruções:
 
. “Não recorram aos médiuns, nem busquem a quem consulta espíritos, pois vocês serão contaminados por eles. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês”. [Em outra versão: “Não vos voltareis para os que consultam os mortos nem para os feiticeiros; não os busqueis para não ficardes contaminados por eles. Eu sou o Senhor vosso Deus.] (Levítico 19.31)
 
. “Não permitam que se ache alguém entre vocês que queime em sacrifício o seu filho ou a sua filha; que pratique adivinhação, ou se dedique à magia, ou faça presságios, ou pratique feitiçaria ou faça encantamentos; que seja médium, consulte os espíritos ou consulte os mortos. O Senhor tem repugnância por quem pratica essas coisas, e é por causa dessas abominações que o Senhor, o seu Deus, vai expulsar aquelas nações da presença de vocês”. (Deuteronômio 18.10-12)
 
. “Quando disserem a vocês: “Procurem um médium ou alguém que consulte os espíritos e murmure encantamentos, pois todos recorrem a seus deuses e aos mortos em favor dos vivos?” (Isaías 8.19)
 
Quanto a estas proibições, assim tão enfáticas, uma explicação espírita é a seguinte. “Os espíritos dos mortos eram considerados, por muitos, como deuses. Levando-se em conta que era necessário manter, a todo custo, a idéia de um Deus único, Moisés, sabiamente, institui a proibição de qualquer evento que viesse a prejudicar essa unicidade divina. As consultas deveriam ser dirigidas somente a Deus, daí, por forças das circunstâncias, precisou proibir todas as outras. (…) Moisés não era totalmente contra o profetismo (mediunismo), apenas era contrário ao uso indevido que davam a essa faculdade”. (IPPB. Mediunidade na Bíblia. Disponível em http://www.ippb.org.br/modules.php?op=modload&name=News&file=article&sid=3888) Na mesma linha de explicação, ainda segundo os espíritas, no caso de Saul, seu erro não foi consultar um morto, mas não consultar um profeta, como Deus esperava.
 
A experiência da transfiguração em que Moisés e Elias aparecem a Jesus (Mateus 17.1-9) é interpretada como uma “ocorrência inequívoca de comunicação com os mortos” IPPB. Mediunidade na Bíblia.
 
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Como é difícil sustentar nossa fé hoje em dia

Neste mundo os homens são julgados pela habilidade com que fazem as coisas.

São avaliados de acordo com a distância que cobriram na esca­lada do monte da realização. No sopé jaz o fracasso total; no topo o sucesso completo; e entre esses dois extremos a maioria dos homens civilizados sua e labuta, da juventude à velhice.

Alguns desistem e escorregam para o sopé, e se tornam ocupan­tes da Fileira do Raspa-Chão. Ali, perdida a ambição e rota a vontade, subsistem graças a empréstimos, até a natureza executar-lhes a hipo­teca e a morte os levar.

No alto estão os poucos que, por uma combinação de talento, árduo trabalho e boa sorte, conseguem chegar ao pico, e ao luxo, fama e poder que ali se encontram.

Mas nisso tudo não há felicidade. O esforço para ter sucesso exerce muita pressão sobre os nervos. A excessiva preocupação com a luta pela conquista aperta a mente, endurece o coração e veda mil visões fulgurantes que poderiam ser desfrutadas se tão-somente houvesse tempo para vagar e assim notá-las.

O homem que chega ao pináculo raramente é feliz por muito tempo. Logo é devorado por temores de que pode escorregar uma estaca abaixo e ser forçado a dar seu lugar a outro. Acham-se exemplos   disto  no  modo  febril   como   o   astro   da   TV   observa   a classificação do seu valor, e como o político examina a sua corres­pondência.

Faça-se saber a um magistrado eleito que um levantamento de dados mostra que ele é dois por cento menos popular em agosto do que fora em março, e ele começa a suar como um homem a cami­nho da prisão. O jogador de bola vive por suas médias de rendimento no campo, o homem de negócio por seu gráfico ascendente, e o concertista pelo medidor dos seus aplausos. Não é incomum suceder que o lutador desafiante no ringue chore abertamente por não conseguir nocautear o campeão. Ser o segundo colocado o deixa completamente desconsolado;  tem de ser o primeiro para ser feliz.

Esta mania pelo sucesso é a preservação de uma coisa boa. O desejo de cumprir o propósito para o qual fomos criados é, por certo dom de Deus, mas o pecado retorceu este impulso e fez dele uma cobiça egoísta pelo primeiro lugar e pelas honras das altas posições. O mundo inteiro dos homens e arrastado por esta cobiça como por um demônio, e não há escape.

Quando vamos a Cristo entramos num mundo diferente. O Novo Testamento nos apresenta uma filosofia espiritual infinitamente mais elevada do que a que motiva o mundo, e inteiramente contrária a ela. Conforme o ensino de Cristo, os humildes de espírito são bem-aven­turados; os mansos herdam a terra; os primeiros são os últimos, e os últimos são os primeiros; o maior homem é aquele que serve melhor os outros; o que perde tudo é o único que por fim possuirá tudo; o homem do mundo coroado de êxito verá os tesouros que acumulou serem varridos pela tempestade do juízo; o mendigo juste vai para o seio de Abraão, e o rico arde nas chamas do inferno.

Nosso Senhor morreu em aparente fracasso, desacreditado pelos líderes da religião estabelecida, rejeitado pela sociedade e abandona­do pelos Seus amigos. O homem que O mandou para a cruz foi o estadista de sucesso cuja mão o ambicioso mercenário político beijara. Coube à ressurreição demonstrar quão gloriosamente Cristo havia triunfado e quão tragicamente o governador tinha fracassado.

Contudo, a impressão que se tem hoje é que a igreja não apren­deu nada. Continuamos vendo como os homens vêem e julgando à maneira do julgamento humano. Quanto trabalho religioso feito com o ativismo do pastor tem por motivação o desejo carnal de fazer e bem! Quantas horas de oração são gastas pedindo-se a Deus que abençoe projetos arquitetados para a glorificação de pequeninos ho­mens!  Quanto dinheiro sagrado é  despejado sobre  homens  que,  a despeito dos seus lacrimosos apelos, só procuram realizar uma bela e carnal exibição.

O cristão verdadeiro deve fugir disso tudo, Especialmente os ministros do Evangelho devem sondar os seus corações e examinar lá no fundo os seus motivos íntimos. Ninguém merece sucesso enquan­to não estiver disposto a fracassar. Ninguém é moralmente digno de sucesso nas atividades religiosas enquanto não quiser que a honra da vitória vá para outrem, se for esta a vontade de Deus.

Deus talvez permita que o Seu servo tenha êxito depois de o ter disciplinado, a tal ponto que ele não precise vencer para ser feliz. O homem a quem o sucesso exalta e o fracasso abate é carnal ainda. Na melhor das hipóteses, o fruto que der terá bicho.

Deus permitirá sucesso a Seu servo quando este aprender que o sucesso não o torna mais caro a Deus, nem mais valioso no esquema global das coisas. Não podemos comprovar o favor de Deus com grandes reuniões ou apresentando conversos ou com novos missionários enviados ou com a distribuição de Bíblias. Todas estas coisas podem ser realizadas sem o auxílio do Espírito Santo. Uma boa personalidade e um penetrante conhecimento da natureza huma­na é tudo que qualquer pessoa necessita para ser um sucesso nos círculos religiosos hoje.

A nossa grande honra está em sermos precisamente o que Jesus foi e é. Ser aceito pelos que O aceitam, rejeitado pelos que O rejeitam, amado pelos que O amam e odiado por todos os que O odeiam — que maior glória poderia advir a alguém?

Podemos dispor-nos a seguir a Cristo rumo ao fracasso. A fé se arrisca a falhar. A ressurreição e o juízo demonstrarão perante os mundos todos, quem ganhou e quem perdeu. Podemos esperar.

A.W. Tozer

Fonte : Título original, “A Fé se Arrisca a Falhar”, do livro, “O Melhor de A.W. Tozer”.

Blog DISCERNIMENTO CRISTÃO.

Adoração e Louvor (como criar ou desenvolver um Ministério) !

 

DUAS PRÁTICAS DE GRANDE VALOR: LOUVOR E ADORAÇÃO

A PRÁTICA DO LOUVOR

A PRÁTICA DA ADORAÇÃO

COMO SER PRÓSPERO

A DINÂMICA DO LOUVOR

O LOUVOR DIRIGE NOSSO CORAÇÃO A DEUS

O LOUVOR LIVRA O NOSSO CORAÇÃO DE CUIDADOS, TEMORES E PENSAMENTOS CENTRADOS NA TERRA

O LOUVOR PRODUZ E AUMENTA A FÉ

O LOUVOR INVOCA A PRESENÇA, O PODER E AS FORÇAS DE DEUS

O LOUVOR CONFUNDE, RESTRINGE, ATERRORIZA E DESTRÓI SATANÁS

MÚSICA NO LOUVOR E ADORAÇÃO

SATANÁS E A MÚSICA

A MÚSICA PODE INSPIRAR A ADORAÇÃO À DEUS

A MÚSICA E OS CÂNTICOS NO NOVO TESTAMENTO

O CULTO A DEUS: AUXÍLIO AO DIRIGENTE

O DIRIGENTE DO CULTO

OS MÚSICOS E O DIRIGENTE DO CULTO

CONVITE À ADORAÇÃO

COMO MINISTRAR UM LOUVOR CONGREGACIONAL

OS CÂNTICOS CERTOS NAS OCASIÕES CERTAS

A COMUNICAÇÃO IDEAL

POSTURA

ESPONTANEDADE

LIDERANÇA

FORMANDO UMA EQUIPE

COMO COMPOR CÂNTICOS AO SENHOR

DIRETRIZES

ESTILO MUSICAL DE LOUVOR

A IMPORTÂNCIA DA TÉCNICA PARA OS LEVITAS

A IMPORTÂNCIA DA TÉCNICA PARA O LEVITA

1. O Que É Técnica?

2. Para Que Serve?

3. Como Ter Acesso?

4. Em Que Ela Contribui Na Nossa Vida?

QUALIDADE TÉNICA DO LOUVOR É IMPORTANTE

A TÉCNICA NOS LEVA A SERMOS MESTRES

DUAS PRÁTICAS DE GRANDE VALOR: LOUVOR E ADORAÇÃO

Transcrição de uma das Ministrações do irmão Bernardo

Em Maceió, AL em abril de 1996.

Prometi falar-lhes hoje a respeito de mais duas práticas espirituais de grande valor nos seus tempos a sós com Deus: o louvor e a adoração.

A PRÁTICA DO LOUVOR

 

Que valor tem a prática do Louvor, (que não é “cantar na igreja”) para você, pessoalmente? O que ela faz? Como se desenvolve essa prática? É isso que desejamos mostrar-lhe neste ensinamento. Vamos ler Salmo 146:1-10:

“Aleluia! Louva, ó minha alma, ao Senhor.  Louvarei ao Senhor durante a minha vida; cantarei louvores ao meu Deus, enquanto eu viver. Não confieis em príncipes nem  nos filhos dos homens, em quem não há salvação. Sai-lhes o espírito e eles tornam ao pó; nesse mesmo dia perecem todos os seus desígnios. Bem-aventurado aquele  que tem o Deus de Jacó por seu auxílio, cuja esperança está no Senhor seu Deus…”

Você já parou para pensar por que Deus sempre se fez lembrar como sendo o Deus de Abraão, Isaque e Jacó (o homem torto, enganador), e não de Abraão, Isaque e Israel (Príncipe de Deus)? Mesmo sabendo o pior está em mim, Deus me amou assim mesmo. Que glória! Verdadeiramente, “bem-aventurado (totalmente feliz e plenamente realizado) é aquele que tem o Deus de Jacó por seu auxílio“, pois Ele transforma cada “Jacó” que nEle confia num “Israel”. Deus, por Sua Palavra e na Sua graça, transforma você de pecador para santo. Continuemos a leitura:

“…cuja esperança está no Senhor seu Deus, que fez os céus e a Terra, o mar e tudo o que neles há, e mantém para sempre a Sua fidelidade…”

O Seu Deus nunca se esquecerá de você, jamais abandonará você; Ele manterá para sempre a Sua fidelidade a você.

“Que faz justiça aos oprimidos, e dá pão aos que têm fome. O Senhor liberta  os encarcerados…”

Observe atentamente que “O Senhor liberta os encarcerados“. Tenho muita pena das pessoas que passam dias chorando (segundo a doutrina de “libertação” que está por aí), mas ficam do mesmo jeito. Há algo errado. O nosso Deus liberta, meu irmão, e isso se dá através da prática que vamos mostrar-lhe neste ensinamento.

“O Senhor abre os olhos aos cegos,  o Senhor levanta os abatidos,

o Senhor ama os justos.  O Senhor guarda o peregrino,

ampara o órfão e a viúva…”

Se você é viúva, saiba que Deus é o seu marido, se você é órfão, Deus é o seu pai. Ele não simplesmente prometeu ser, Ele é isso para você, tendo você consciência disso ou não. Irmã viúva, Ele não prometeu ser o seu “marido”, Ele É o seu marido. Órfão, Ele não prometeu ser o seu “pai”, Deus É o seu pai (Veja Salmo 68:5), e Ele defende você dia e noite. Um dos maiores problemas da “igreja” é ficar olhando para o passado ou para o futuro, e esquecendo que Deus é muito presente. Ficamos num abismo de incertezas entre o passado e o futuro sem conhecermos o Deus do presente momento.

Preste atenção às palavras grifadas nas citações acima e entenda que é isso que Deus faz; essas “ações” são a expressão da fidelidade de Seu Deus a você no presente. Louvo a Deus por tudo o que Ele é para mim, no dia de hoje.

“…porém (Ele) transtorna o caminho dos ímpios.” (v.9)

Se você rejeitar esse Deus; se você recusar-se a aceitar a Sua graça, saiba, nada dará certo em sua vida. E você sabe por quê? Porque você está andando (vivendo) numa mentira que destrói.

“O Senhor reina para sempre; o teu Deus, ó Sião, reina de geração em geração” (v.10).

Não importa como vão piorando as coisas século após século, o nosso Deus “reina para sempre” – “de geração em geração“.

O Salmo 146 é uma ótima base para o louvor em todos os aspectos, mas há uma frase que vou ilustrar para vocês agora: “O Senhor liberta os encarcerados“. Uma irmã me disse: Irmão, sei que eu fui curada, mas de quando em quando voltam os sintomas e eu fico em dúvidas. O que posso fazer? Quando isso acontece, você têm duas alternativas:

1)     Você pode atentar para os sintomas e sucumbir à situação (ser vencido pelo diabo) ou

2)     Você pode resistir ao diabo e viver.

E como é que você e eu resistimos? Dando louvores e graças a Deus por aquilo que Ele já fez por nós, e também “ensinando” ao diabo a Verdade de Deus a respeito da nossa real situação. E o que acontecerá? Satanás fugirá, pois ele não tolera a Verdade (Veja Mateus 4:1-11 a respeito de como Jesus resistiu a Satanás).

As duas ações para a vitória são o louvor, agradecendo a Deus, e o resistir a Satanás. Quando você resiste a Satanás, ele tem de fugir, ele não tem opção.

Para ver como o louvor funciona na prática, e como Deus “liberta os encarcerados“, observe comigo Atos 16:19-28. Sei que todos vocês sabem desse acontecimento e como Paulo e Silas se achavam encarcerados com pés e mãos presos ao tronco dentro do cárcere interior daquela cidade.

O que foi que aconteceu quando Paulo e Silas levantaram a voz em oração e louvores a Deus? O que pode você esperar, se você, no meio de uma circunstância esmagadora, abre a sua boca e começa a louvar e agradecer a Deus pelo que Ele é? Quando você procede assim, aquilo que você não tem, terá, aquilo que você necessita, você receberá. E ainda que o trecho em Atos 16 não nos diga quais eram os louvores de Paulo e Silas, podemos saber o que disseram em razão daquilo que aconteceu. Os dois servos de Deus foram enviados pelo Espírito para pregar o Evangelho em toda a região da Macedônia, mas Satanás levantou-se contra eles para os impedir. Então, achando-se presos e impedidos de cumprir a sua missão, Paulo e Silas agradeceram e louvaram a Deus pela liberdade de pregar o Evangelho. Como podemos saber isso? Em razão do terremoto que Deus enviou, libertando-os completamente. É impossível você louvar a Deus por algo e aquilo não acontecer. Sabe por quê? Porque Deus habita ou como se diz é “entronizado” entre os louvores de Israel (Veja Salmo 22:3). Quando você louva a Deus, Ele se faz presente na sua circunstância e tudo tem de se submeter a Ele. Na presença do Senhor, é impossível alguém ficar preso ou oprimido e assim, todo o cárcere foi abalado, e Paulo e Silas foram libertos. “Deus (sempre) liberta os encarcerados“.

Agora observe Isaías 61:1-3, e consideremos a prática do louvor de outra maneira:

“O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu, para pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a  proclamar libertação aos cativos, e a pôr em liberdade os algemados; a apregoar o ano aceitável do Senhor… e a pôr sobre os que em Sião estão de luto uma coroa em vez de cinzas, óleo de alegria em vez de pranto, veste de louvor em vez de  espírito angustiado…”

Observe a frase grifada acima: “veste de louvor em vez de espírito angustiado“. Está vendo a providência de Deus para você na hora da angústia? Ele lhe deu uma “veste de louvor”, e cabe a você usá-la. O apóstolo Tiago fala nesse teor em relação às “várias provações” em nossa vida. Vamos ler o que o apóstolo disse:

“Meus irmãos, tende por motivo de toda a  alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes” – Tiago 1:2-4.

Deus deseja que sejamos “perfeitos, íntegros e em nada deficientes“, mas como é que Ele pode nos levar a isso? Pela perseverança na Verdade. E como podemos “perseverar”? Vestindo-nos da veste de louvor, ao invés de ficarmos sofrendo com o espírito angustiado.

Quando vem a provação, Satanás procura pressionar você de todos os lados e você não sabe o que fazer. Aprenda a entrar na vitória, irmão. De que maneira? Vestindo-se da veste de louvor, como fizeram Paulo e Silas no cárcere. Meu irmão, há recurso para você em toda circunstância. Qual é? A prática do louvor a Deus. Quando você louva a Deus, o Todo-poderoso desce na sua circunstância, entronizando-Se nos seus louvores, e saiba, meu irmão, não há “cárcere” que Lhe resista. Salmo 46:1 e 10 nos diz:

“Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro  bem presente nas tribulações. Portanto não temeremos ainda que a Terra se transtorne, e os montes se abalem no seio dos mares… Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus…”

Sabe qual é a melhor maneira de “aquietar-se”? Louvando e agradecendo a Deus por Sua Bondade. Sabe como “acalmar” o seu espírito angustiado? Vestindo-se da veste de louvor. Ponha isso em prática, meu irmão, e você terá libertações e vitórias como você jamais imaginou serem possíveis (Veja 2 Crônicas 20:13-30). Louvar a Deus é um ato muitíssimo simples, mas de imenso valor para você. A primeira ação de Satanás contra você é procurar fazer com que você permaneça “na alma” (abalado emocionalmente) de tal maneira que o seu espírito fique angustiado. Mas você pode sempre inverter a situação, fortalecendo o seu espírito através do louvor, de modo que as suas emoções não tenham vez.

Saiba, meu irmão, que através do louvor você “traz” Deus para dentro da sua situação, e Ele “dissipa” tudo o que o oprime.

Quando você nasceu em Cristo Jesus você viveu o seu primeiro “dia” da eternidade. Você precisa entender que toda a operação do Espírito Santo em sua vida tem por objetivo desenvolver em você os valores eternos, ou seja, os valores que vão perdurar em você para todo o sempre: a Verdade, a Luz, a Paz, a Alegria no Espírito Santo e muitos outros valores espirituais. Ora, é preciso você entender que esses valores não têm nenhum relacionamento com as circunstâncias, e se você aprender a viver “fora das circunstâncias” esses valores se desenvolverão cada vez mais em você.

Na parte da manhã de hoje, procurei mostrar a você o valor da prática de Louvor, e como ela funciona para você, mas agora à noite, vamos considerar a outra prática, que é a adoração.

A PRÁTICA DA ADORAÇÃO

 

Pedi a vocês repetirem uma frase, estão lembrando? A verdade de Deus tem de ser vivida. Quero tanto que vocês se conscientizem disso. Meu irmão, se você não dedicar tempo a Deus (passar tempos a sós com Ele) você jamais saberá o que Ele pode fazer em sua vida. É imprescindível você ficar muito na presença de Deus, orando no Espírito e meditando na Palavra. Não importa qual a postura física, você pode orar em pé, deitado, ajoelhado, andando… não importa, o importante é a “postura” do seu coração.

Vamos abrir as nossas Bíblias em Isaías 29:9-13.

Quero que você observe principalmente:

“…Toda a visão já se vos tornou como as  palavras dum livro selado que se dá ao que sabe ler dizendo: Lê isto, peço-te; e  ele responde: Não posso porque está selado; e dá-se o livro ao que não sabe ler, dizendo: Lê isto, peço-te; e ele responde:  Não sei ler. O Senhor disse: …este povo se Aproxima de mim, e com a sua boca e  com os seus lábios me honra, mas o seu  coração está longe de mim e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens que maquinalmente aprendeu” (V.11-13).

Como acho expressiva essa palavra “maquinalmente”! Será quem inventou essa “máquina” que faz com que os homens “falem” em Deus, mas não vivam em Deus, isto é, faz com que tenham um palavreado todo apropriado, mas é só da boca pra fora? O pior disso tudo é que o maligno, que “inventou” esses procedimentos perniciosos, conseguiu adeptos na “igreja” que ensinam essas coisas e demais. E Deus diz, na citação acima, que essa condição faz com que o livro (a Palavra de Deus) fique como que “selado”, ou seja, que a pessoa não consegue lê-lo, porque não sabe ler. O que acontece?

Infelizmente encontramos com milhares de pessoas que têm o “livro”, mas não o entendem em razão de sua forma religiosa de ser. Honram a Deus com a boca, mas o coração está longe de Deus. Tudo o que ensinamos tem por objetivo fazer com que você possa confessar com a boca aquilo em que o coração crê. Já falamos um pouco a respeito de Romanos 10:10, mas eu não concluí as minhas observações. Veja:

“Porque com o coração se crê para Justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação“.

A frase: “a respeito da salvação” é muito interessante porque o texto na língua original exprime que o “confessar na boca” tem o efeito de fazer com que você passe de onde você está para uma situação totalmente outra, ou seja, da derrota para a vitória, da perdição para a salvação. Quando você confessa o que Deus diz, é impossível você permanecer como era. A confissão da Verdade sempre efetua mudanças em sua vida. Mas lembre-se, meu irmão, de que é preciso “perseverar” na confissão para chegar à plena vitória. Quando você confessa a sua fé é como embarcar num ônibus, pois você chegará inevitavelmente à vitória.

COMO SER PRÓSPERO:

 

Precisamos dar-lhe uma pequena explicação a respeito da prosperidade. Você somente será próspero de verdade quando o dinheiro não tiver nenhum valor para você. E como pode ser isso? Sei que você pensa que falamos bobagens, mas vou explicar. Observe comigo Gênesis 39:1,2:

“José foi levado ao Egito, e Potifar, oficial de Faraó, comandante da guarda, egípcio, comprou-o (como escravo) dos ismaelitas que o tinham levado para lá. O Senhor era com José que veio a ser homem próspero…”

 

Está vendo? O que você precisa em sua vida, meu irmão, não é de “dinheiro” e sim, de Deus. Quando Deus está com você, você é próspero de verdade e não tem falta em área alguma de sua vida.

Observe agora I Coríntios 2:6-12, pois vamos concluir o que iniciamos com as citações de Isaías 29. Observe:

“…(não) expomos… a sabedoria deste século, nem a dos poderosos desta época, que se reduzem a nada, mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, outrora oculta… sabedoria essa que nenhum dos poderosos deste século conheceu…” (v. 6-8)

Tudo o que estudei, tudo o que aprendi da sabedoria do mundo, nas universidades, em nada ajudou o meu relacionamento com Deus. Nada da sabedoria deste mundo pode ajudar a sua vida espiritual. Para Ter a sabedoria de Deus, jovem, é preciso ingressar na “Universidade do Espírito”. O entendimento da Verdade de Deus não vem pelo estudo e sim pela revelação direta do Espírito Santo. Aquele que foi enviado para nos ensinar toda a Verdade. Por isso Paulo disse que “falamos a sabedoria de Deus em mistério” (v.7), ou seja, essa sabedoria vem a nós através da oração em línguas (Veja I Cor. 14:2). E como podemos dizer isto? Observe como continua o apóstolo Paulo:

“Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles  que O amam. Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito…” (v. 9,10).

Ao falar-nos das coisas que olhos não viram, nem ouvidos ouviram etc, o apóstolo não está se referindo a algo no futuro, ao chegarmos ao Céu. É claro que o Céu faz parte disso. Mas ele está falando de tudo o que Deus já preparou para você em Jesus Cristo. A vida que Deus já preparou para você viver aqui, agora, na Terra (no Reino de Deus) é muito maior e muito mais gloriosa do que você imagina. E como se pode chegar a “entender” isso? Pela revelação do Espírito Santo. Deus “revela-nos” essas coisas através da “oração dos mistérios”, ou seja, pela oração em línguas. E você ainda duvida da eficácia e importância da oração em línguas? Observe como Paulo continua:

“Ora, nós não temos recebido o espírito do mundo, e, sim, o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente (em Cristo)” (v.12).

Para que foi que recebemos o Espírito que vem de Deus? “Para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente” em Jesus. Veja a frase que grifamos: “foi dado”. Toda a operação do Espírito Santo em você é para “glorificar a Jesus” (Veja João 16:14) e você, pois através de Jesus você recebeu tudo gratuitamente, direto do coração do Pai. Mas observe bem, meu irmão:

“Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura, e não pode entendê-las porque elas se discernem espiritualmente” (v.14).

Atente para a frase grifada na citação acima. Há entre nós pessoas que estão fazendo uma ginástica mental impossível, ou seja, estão procurando entender essas coisas naturalmente. Mas observe que o homem natural não pode entender as coisas do Espírito de Deus. O irmão Bernardo não pode entendê-las através do raciocínio, pelo intelecto. As coisas do Espírito são reveladas pelo Espírito Santo em nosso espírito humano. Fora disso, não há entendimento algum. Por isso se diz em Isaías 29:13 que aquele cujo coração está longe de Deus tem um procedimento “só em mandamentos de homens que maquinalmente aprendeu“. Você tem duas alternativas: ou mantém uma tradição religiosa que funciona apenas como uma máquina morta, ou você receber um discernimento espiritual das coisas de Deus, reveladas pelo Espírito Santo através da oração dos mistérios, e viver uma vida real em Deus.

Mas vamos voltar a nossa atenção para a prática da adoração, e aprender como ela pode ser benéfica em nossa vida de todo dia. Veja João 4:19-24, e vou comentar alguns versículos apenas:

“Vem a hora, e já chegou quando os  verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em Verdade, porque são estes que o Pai procura para seus adoradores. Deus é espírito; e importa que os seus  adoradores O adorem em espírito e em Verdade” (v. 23,24).

Como é lamentável que Deus tenha de “procurar” seus adoradores verdadeiros porque estão em falta aqueles que O adorarão em espírito e em Verdade! Certamente você quer ser um adorador verdadeiro. A recompensa é muito maior do que você é capaz de imaginar. Assim nesta parte quero mostrar-lhe o pouco que sei.

Veja, meu irmão: “Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em Verdade” (v. 24). Para eu poder mostrar a você como funciona na prática a adoração, vamos considerar um episódio na vida de Abraão em Gênesis 22:1-5 com Hebreus 11:17-19. Observe o que Abraão disse:

“Então disse Abraão a seus servos: Esperai aqui, com o jumento; eu e o rapaz iremos até lá, e, havendo adorado voltaremos para junto de vós“. (v. 5).

Vocês sabem muito bem de que se trata e de como Deus pediu a Abraão que Lhe oferecesse Isaque, mas muitos pensam: Que Deus é esse que faz esse tipo de coisa? Como pode Deus proceder dessa maneira? O que você tem de entender, meu irmão, é que o Seu Deus tem de ser maior que tudo e todos em sua vida. E veja o que Abraão disse aos seus servos na citação acima: “eu e o rapaz… havendo adorado voltaremos para junto de vós“. Como tinha ele condições de falar dessa maneira quando sabia que ia oferecer Isaque (imolar seu filho) no altar? Será que Abraão estava “dando um pulo no escuro”? Não! Absolutamente não! Ele sabia exatamente o que ia acontecer. E é isso o que queremos ensinar a você, ou seja, como a prática da adoração conduz você para uma dimensão em Deus (um entendimento) que supera toda circunstância. Jesus disse que os verdadeiros adoradores adoram o Pai em espírito e em Verdade. Abraão não tinha nenhuma condição “natural” para dizer o que disse aos servos, mas ele tinha uma condição “espiritual” para assim falar. E quando ele assim falou ele sabia exatamente o que estava dizendo porque ele ia entrar (através da adoração) na condição em Deus que permitiria que Isaque voltasse com ele, como de fato aconteceu. O que acontecerá com você se você realmente adorar a Deus em espírito?

Na reunião da manhã procuramos mostrar a você que se você praticar o louvor, Deus desce (entroniza-Se) nos seus louvores e transforma totalmente a circunstância em que você se acha. Quando você praticar a adoração em espírito e Verdade, porém, é o inverso que acontece, ou seja, quando você entra verdadeiramente em adoração Deus eleva você fora da circunstância ou situação em que você está e o coloca na condição dEle mesmo. E que condição é essa? É a condição de espírito e de Verdade na qual você não “enxerga” a circunstância ou situação naturalmente, mas a “enxerga” como Deus a enxerga. É isso que a prática da adoração verdadeira faz, ou, como disse o apóstolo Paulo, a adoração faz com que você…

(“Não atenta nas coisas que se vêem, mas nas que não se vêem”. 2 Coríntios 4:18).

E como se deu isso no caso de Abraão? Como foi que Abraão viu “as coisas que não se vêem“? Observe atentamente comigo Hebreus 11:17-19:

“Pela fé (nada do Espírito e Verdade funciona sem a fé)  Abraão, quando posto a prova, Ofereceu Isaque; estava mesmo para Sacrificar o seu unigênito aquele (Abraão) Que acolheu alegremente as promessas, a quem se havia dito: Em Isaque será chamada a tua descendência, porque (observe porque) considerou que Deus era poderoso até para ressuscitá-lo dentre os mortos, de onde também, figuradamente o recobrou”.

A adoração verdadeira faz com que você “considere” as coisas segundo o espírito e a Verdade, ou seja, independente das circunstâncias. O problema para nós é desligarmo-nos das circunstâncias o suficiente para podermos entrar na condição em Deus na qual Ele possa nos fazer enxergar “as coisas que não se vêem”. A adoração verdadeira faz isso. Então, como é que se pratica a adoração verdadeira? Não se fala nada, não se canta, nem geme, não se faz espetáculo. Adorara-se a Deus deixando que a Verdade de Deus inunde o seu espírito, e enquanto você contempla o Altíssimo no seu interior, Ele vai assumindo em você a supremacia absoluta e pouco a pouco Ele tem condição para abrir o seu entendimento ( olho espiritual) e você somente vê o seu Deus, e o que Ele é: Soberano absoluto em todo o universo.

Durante aqueles três dias no Monte Moriá com Isaque, Abraão deixou que tudo o que Deus lhe dissera com relação ao seu filho fosse enchendo o seu coração. A promessa: “Em Isaque será chamada a tua descendência” (Heb 11:18) foi tomando conta do seu espírito até que ele ficou totalmente consumido pela Verdade no seu espírito, por aquilo que Deus lhe dissera. E o que aconteceu? Ele “considerou” (chegou a entender) que o Deus que não pode mentir é o Deus supremo em tudo (maior que a morte) e “era poderoso até para ressuscitar Isaque dentre os mortos” (Heb 11:19). Foi o primeiro homem a descobrir essa Verdade.

Quando você se achar em circunstância adversa, seja ela qual for, se você se aquietar diante de seu Deus em adoração, enchendo o seu espírito com a Verdade que Deus lhe diz, Deus o elevará acima da circunstância e você enxergará tudo como Ele o enxerga. Na prática do louvor, Deus Se faz presente na sua circunstância e a arrebenta, mas na prática da adoração você entra na condição de Deus de modo que a circunstância cede lugar para a supremacia do seu Deus, e você vê somente o eterno.

Não ande como o mundo, meu irmão. Não proceda com religiosidade. Pratique o louvor, a adoração, a oração em línguas, a meditação e confissão da Palavra, e você descobrirá, sem dúvida, o que é ser “bem-aventurado” (verdadeiramente feliz e plenamente realizado).

Ministério Verdade Viva

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O Ministério Verdade Viva é uma instituição brasileira que se dedica exclusivamente a judar o cristão a desenvolver um relacionamento pessoal  com o Senhor Jesus Cristo, numa vida realmente espiritual, através da oração no Espírito Santo e da  meditação na Palavra de Deus, procurando servir ao Senhor nosso Deus com sinceridade e dedicação na difusão da sã doutrina do  Novo Testamento.

 

O Ministério Verdade Viva

não tem ligação com nenhuma

igreja ou denominação.

A divulgação deste livro na internet

através do projeto CifraNet,

foi gentilmente concedida pelo irmão Eduardo.


A DINÂMICA DO LOUVOR

 

Extraído do livro: A oração poderosa que prevalece

Autor: Wesley L. Duewel

Editora: Candeia

Capítulo 25 – páginas 169 a 171

Deus predestinou que a nossa vida cristã deve trazer louvor e glória a Ele
(Ef 1:5-6). Devemos louvá-lo agora e eternamente (v. 14). Assim sendo, nossos lábios e nosso estilo de vida devem constantemente louvar a Deus. Ele se rejubila em nosso louvor. Devemos começar a Sua adoração com louvor (Sl 100:4; Is 60:18). Devemos louvá-Lo com nossos lábios (Sl 34:1), com cânticos (147:1) e com música (150:3). Devemos vestir-nos de louvor (Is 61:3), e nossas próprias vidas devem louvar a Deus (1 Pe 2:9).

O que o louvor tem a ver com a oração que prevalece? O louvor tanto prepara para a oração que prevalece como é em si mesmo um meio sagrado de prevalecer durante a oração.

O LOUVOR DIRIGE NOSSO CORAÇÃO A DEUS.

 

O louvor eleva nosso coração a Deus em adoração, culto e amor. O fato mais importante da oração que prevalece é que ela é feita a Deus. Para que nossa oração tenha valor, precisamos estar supremamente conscientes de Deus. O problema ou necessidade sobre o qual oramos pode parecer imenso, mas devemos ver Deus infinitamente maior, capaz de satisfazer todas as nossas necessidades. O louvor concentra todo o nosso ser em Deus.

Hallesby escreve: “Quando agradeço, meus pensamentos ainda giram em redor de mim mesmo, mas no louvor da minha alma ascende em adoração que esquece de si mesma, vendo e louvando apenas a majestade e o poder de Deus, Sua graça e redenção”.

O LOUVOR LIVRA O NOSSO CORAÇÃO DE CUIDADOS, TEMORES E PENSAMENTOS CENTRADOS NA TERRA.

 

Precisamos entrar na presença de Deus e fechar a porta que nos separa do mundo exterior. Para prevalecer eficazmente, devemos esquecer todos os outros deveres, atividades, envolvimentos e preocupações. O louvor fecha a cortina sobre as coisas estranhas. O louvor fecha a porta sobre as idéias intrusas, nossos pensamentos cotidianos e as sugestões satânicas. Ele nos “tranca” com Deus e com os seus anjos.

O LOUVOR PRODUZ E AUMENTA A FÉ.

 

Quanto mais louvamos a Deus, tanto mais nos tornamos conscientes de Deus e absorvidos na Sua grandeza, sabedoria, fidelidade e amor. O louvor lembra-nos de tudo o que Deus pode fazer e das grandes coisas que Ele já fez. A fé vem pela Palavra de Deus e por meio do louvor. A fé cresce à medida que louvamos o Senhor.

O louvor nos dá o espírito de triunfo e vitória. O louvor nos incendeia com zelo santo. Ele nos levanta acima das batalhas, para a perspectiva do trono de Deus. O louvor reduz as forças inimigas. “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”
(Rm 8:31). O que o homem pode fazer quando Deus está do seu lado? (Sl 118:6;
Hb 13:6). Os exércitos angélicos de Deus a nosso favor são muito maiores do que todos que se opõem a nós (2 Rs 6:16).

August H. Francke, ministro luterano por volta de 1700 e fundador de um orfanato em Halles, na Alemanha, fala de uma época em que estava precisando de uma grande soma de dinheiro. Seu tesoureiro foi buscar o dinheiro. Francke pediu que ele voltasse depois do almoço. O tesoureiro voltou e Francke pediu que retornasse à noite. Nesse intervalo de tempo, um amigo de Francke foi visitá-lo. Os dois homens oraram juntos. Quando Francke começou a orar, Deus levou-o a recordar a bondade do Senhor para com a humanidade, reportando-se até a Criação. Francke louvou a Deus repetidamente pela Sua bondade e fidelidade no correr dos séculos, mas sentiu-se impedido de falar de sua urgente petição. Quando o amigo foi embora, Francke acompanhou-o até a porta. Ali estava o tesoureiro aguardando o dinheiro e a seu lado um homem que entregou então a Francke uma soma considerável que cobriu perfeitamente as suas dívidas.

O LOUVOR INVOCA A PRESENÇA, O PODER E AS FORÇAS DE DEUS.

 

Deus manifesta a Sua presença em meio ao Seu louvor. Deus está entronizado em meio às criaturas que O louvam. O louvor de Deus parece chamá-Lo de maneira especial para atuar entre o seu povo, invocando a manifestação e o uso do Seu enorme poder. Nada nos une mais com os anjos de Deus do que nos ajuntar em louvor a Deus, e talvez o nosso louvor e adoração os unam a nosso favor e na resposta às nossas orações. Os anjos ministram incessantemente a nós (Hb 1:14), mas quando prevalecemos em oração fazem isso ainda mais, da mesma forma que ministraram a Jesus no Getsêmani.

Huegel conta a respeito de um pastor que desejava um novo despertamento em sua igreja. Ele convocou durante uma semana reuniões só de louvor. No começo, as pessoas não entenderam e ficaram pedindo e suplicando coisas a Deus. Mas o pastor repetiu que não queria nada além de louvor. Na Quarta-feira o culto começou a mudar. Quinta-feira, houve muito louvor, que estava ainda mais evidente na Sexta-feira. No Domingo, “um novo dia tinha raiado. O Domingo foi um dia como a igreja nunca tinha visto. Um verdadeiro reavivamento. A glória de Deus encheu o templo. Os crentes voltaram ao seu primeiro amor. Os corações se derreteram… Algo maravilhoso acontecera. O louvor conseguira isso”.

O LOUVOR CONFUNDE, RESTRINGE, ATERRORIZA E DESTRÓI SATANÁS.

 

O louvor afasta os poderes das trevas, espalha os oponentes demoníacos e frustra as estratégias de satanás. O louvor tira a iniciativa das mãos de satanás. Ele é um meio eficaz de resistir a satanás e fazê-lo fugir. Um crente cheio do Espírito, ungido e capacitado, pode atacar as fortalezas de satanás mediante o louvor. Ezequias, Isaías e o povo de Israel da sua época não foram os únicos que afugentaram o inimigo por meio do louvor.

Durante os meus dias de missionário na Índia, os alunos e os professores da escola bíblica para moças de outra congregação estavam orando e jejuando a fim de que uma estudante possessa pelo demônio fosse libertada. Fui chamado para ajudar, mas, me senti incapaz. Enquanto orava, senti o impulso de aproximar-me da moça semi-inconsciente, que vários adultos seguravam a fim de controlar as contorções e os espasmos.

Falei no ouvido dela: “Jai Masih Ki” (vitória para Cristo), a maneira idiomática de dizer “Louvado seja o Senhor” na língua dela. Quando pronunciei esta frase em seu ouvido, ela começou a responder, como se pudesse ouvir minhas palavras. A seguir, fez um esforço para controlar seus lábios cerrados e, quando pôde finalmente abri-los, disse em voz alta: “Jai Masih Ki”. Ficou instantaneamente liberta. A oração e o jejum provavelmente ajudaram a preparar o caminho, mas o louvor foi a arma do Espírito para libertá-la.

Huegel, um experiente missionário do México, disse que muitas vezes em que a oração não traz a resposta o acréscimo do louvor leva à vitória. Ele afirma: “Existe no louvor um poder que a oração não tem. A distinção entre os dois é naturalmente artificial… A mais alta expressão de fé não é oração em seu sentido ordinário de petição, mas oração em sua expressão mais sublime de louvor”.

Extraído do livro: A oração poderosa que prevalece

Autor: Wesley L. Duewel

Editora: Candeia

Capítulo 25 – páginas 169 a 171


 A MÚSICA NO LOUVOR E ADORAÇÃO

 

A música sempre teve um papel importante na adoração a Deus. Há muito tempo atrás, no início da Criação: “as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e todos os filhos de Deus rejubilavam.” (Jó 38:7).

A música hebraica era predominantemente vocal. Havia bem poucos instrumentos nos primeiros dias de sua história. A voz humana era o instrumento mais acessível e popular com o qual a música podia ser feita.

A primeira menção bíblica de música e cânticos encontra-se em Gênesis 31:27 e associa-se com a expressão de júbilo. A adoração com cânticos é primeiramente mencionada em Êxodo 15:1-21. Moisés e os filhos de Israel cantaram ao Senhor, Miriã e todas as mulheres, com pandeiros e danças, responderam ao cântico de Moisés.

A escavação do poço em Beer foi celebrada com cânticos (Nm 21:17,18).

Débora e Baraque celebraram sua vitória com cânticos (Jz 5:1-31).

As mulheres de Israel celebraram a vitória de Davi sobre Golias com cânticos (1 Sm 18:6,7).

Quatro mil levitas louvaram ao Senhor com instrumentos quando Salomão foi levantado como rei sobre Israel.

“E os filhos de Israel… celebraram a festa dos pães asmos sete dias com grande alegria: e os levitas e os sacerdotes louvaram ao Senhor de dia em dia, com instrumentos fortemente retinintes ao Senhor.” (2 Cr 30:21).

“E disse Davi aos príncipes dos levitas que constituíssem a seus irmãos, os cantores, com instrumentos musicais, com alaúdes, harpas e címbalos, para que se fizessem ouvir, levantando a voz com alegria”. (1 Cr 15:16).

É obvio que a música e os cânticos são uma parte vital do louvor e adoração a Deus. Isto é retratado em toda a Bíblia de Gênesis a Apocalipse. Hoje em dia ainda é assim. São uma expressão vital, gloriosa e positiva de louvor a Deus.

SATANÁS E A MÚSICA

 

É também verdade que Satanás usa a música muito eficientemente para alcançar os seus propósitos. Antes de sua queda, Lúcifer era um chefe dos músicos. Ezequiel 28:13 nos diz: “a obra dos teus tambores e de teus pífaros estava em ti: no dia em que foste criado foram preparados.” Lúcifer era um músico mestre. Ele deveria usar este dom para a glória de Deus, mas quando se rebelou contra o Senhor e teve que ser expulso do Céu ele prostituiu este dom e começou a usá-lo para o mal ao invés do bem. Ele tem feito isto muito eficientemente até o dia de hoje.

Foram os descendentes de Caim que inventaram tanto os instrumentos de música como os instrumentos de guerra (Gn 4:21,22).

Quando Moisés voltou do seu encontro com Deus na montanha, ele descobriu que os filhos de Israel haviam se afastado de Deus e voltado à adoração de ídolos. Estavam dançando e cantando ao redor do bezerro de ouro. O som de suas músicas era tão confuso aos ouvidos de Moisés que ele não podia discernir imediatamente o significado daquele som.

Este tipo de música, cheio de confusão, tem a marca registrada de Satanás, pois ele é um enganador. Muitas músicas modernas estão repletas de confusão. Transtornam e perturbam as pessoas.

A música devota, piedosa tem um efeito exatamente oposto. Ela acalma ao invés de confundir. Talvez ela nos motive, mas nunca faz com percamos o controle das nossas emoções. Ela nos fortalece, ao invés de nos enfraquecer.

Nabucodonosor, rei da Babilônia, usava instrumentos musicais de várias espécies para induzir as pessoas a adoração da imagem de ouro que ele havia erigido (Dn 3:5-7).

Herodes sucumbiu à música e dança sedutoras da filha de Herodias e tolamente ordenou a morte de João Batista (Mt 14:6).

A música satanicamente inspirada da Babilônia será finalmente destruída quando a cidade da Babilônia for derribada. O som de sua música não mais será ouvido. (Ap 18:22).

A MÚSICA PODE INSPIRAR A ADORAÇÃO À DEUS

 

O Espírito Santo também pode usar a música para a glória de Deus e para a edificação das pessoas.

Observe o poderoso efeito terapêutico que a música ungida tinha sobre Saul (1 Sm 16:23). Davi havia sido ungido por Deus (vers.13). Ele era um músico habilidoso, um compositor dotado e um doce cantor. Quando tocava e cantava sob a unção do Espírito, o espírito maligno se retirava de Saul, o qual passava a se sentir renovado e melhor.

Quando Josafá precisou de um profeta numa ocasião de crise nacional, ele chamou Eliseu. O profeta chamou um músico. “E sucedeu que, tangendo o tangedor, veio sobre ele (Eliseu) a mão do Senhor. E disse: Assim diz o Senhor…” (2 Rs 3:11,15,16). A música obviamente ajudou a criar uma atmosfera e uma disposição para que o dom de profetas operasse.

O rei Davi designou 4.000 homens para que profetizassem com harpas, saltérios e címbalos (1 Cr 25:1).

           

Foi somente quando Israel estava em cativeiro na Babilônia que eles cessaram de cantar e tocar. A música ungida deles cessou e penduraram suas harpas nos salgueiros (Sl 137).

Quando os seus captores babilônicos os incitavam a que cantassem, replicavam: “Como entoaremos o cântico do Senhor em terra estranha?”

           

Quando o cativeiro deles terminou, após 70 anos, voltaram para casa com cânticos alegres e com risos. Havia louvor em seus lábios (Sl 126:1,2). É somente quando a Igreja está em cativeiro espiritual que a sua música ungida cessa. Quando este cativeiro é rompido e as pessoas novamente se libertam, a música, os cânticos, o louvor e as danças e os risos são todos a elas restaurados.

A MÚSICA E OS CÂNTICOS NO NOVO TESTAMENTO 

 

  1. Os discípulos cantaram hinos juntos. (Mt 26:30; Mc 14:26).
  2. 2.      Paulo e Silas cantaram louvores a Deus na prisão (At 16:25). 
  3. 3.      O Apóstolo Paulo instruiu a Igreja com relação aos cânticos ungidos. Eles deveriam cantar: 
    1. Salmos (os Salmos musicados).
    2. b.      Hinos (cânticos de louvor a Deus). 
    3. c.      Cânticos Espirituais (cânticos espontâneos dados pelo Espírito). 

 

Os cânticos da Igreja Primitiva eram louvores ao Senhor. O seu objetivo primário nos cânticos era louvar e engrandecer a Deus. Não cantavam para causarem um impacto ou para entreterem os outros. Os seus cânticos não eram centralizados no homem. Eram dirigidos à Deus, para o Seu prazer somente.

Este tipo de música e cânticos ungidos, dirigidos a Deus com louvor e adoração é muito raro na Igreja hoje. Contudo, Deus está restaurando este ministério ao Seu povo.

Aqui estão algumas sugestões para ajudá-lo introduzir a sua comunidade num ministério de música ungida com louvores a Deus:

  1. Comece todas as reuniões com ações de graças e louvores em forma de cânticos. “Entrai por suas portas com ações de graça, e nos seus átrios com hinos de louvor; rendei-lhe graças e bendizei-lhe o nome.” (Sl 100:4)

 

  1. 2.      Peça em oração ao Espírito Santo que o lembre de cânticos ou hinos apropriados. Deus tem um tema ou mensagem para cada culto. Em geral, cânticos apropriados preparam o caminho para o tema ou mensagem. 

 

  1. 3.      Não tenha medo de cantar cânticos mais de uma vez, ou ainda, uma parte específica deles pode parecer especialmente ungida ou abençoada.

 

  1. 4.      Exorte as pessoas a realmente “cantarem ao Senhor”. Os hinos são muitas vezes cantados porque é a nossa tradição e costume cantá-lo. Temos porém, um propósito muito mais valioso que este, ou seja, cantar ao Senhor, ou dirigir a nossa atenção para o Céu através de cânticos.
  2. 5.      Comece com cânticos de louvor e ações de graças. Permita que as pessoas expressem genuinamente, seus louvores através deles. Os cânticos não são louvores em si mesmos. São meros veículos através dos quais podemos expressar o nosso louvor. É bem possível cantarmos muitos hinos e cânticos sem expressarmos nenhum louvor verdadeiro.

 

  1. 6.      Os cânticos de louvor inspiram as pessoas a adorarem. Em geral começamos com o louvor e em seguida, as pessoas passam progressivamente para os vários níveis do mesmo até que entrem na adoração que é o nível elevado de louvor.

 

  1. 7.      Não “faça correndo” o culto de louvor. Muitos pastores consideram esta parte do culto como uma “preliminar” uma necessidade maçante, porém tradicional. Conceda este tempo para cantar, louvar e adorar. Estes são os atos mais importantes da nossa reunião.

 

  1. 8.      Dê oportunidades para a participação da congregação. Incentive as expressões espontâneas. Alguém pode dirigir a congregação em oração, o que poderá resultar na direção para a reunião. Talvez alguém mais profetize e a exortação venha a fornecer o tema para o resto do culto.

 

  1. 9.      As manifestações do Espírito deveriam ser expressas nos cultos de adoração dos crentes (1 Co 12:8-11). Não “apague” o Espírito (1 Ts 5:19). Incentive a participação e expressão através destes dons espirituais. Contudo o líder designado e ungido deveria em todo o tempo reter a autoridade espiritual sobre o culto.

 

10. Todas as coisas deveriam ser feitas para a edificação mútua. Todas as manifestações bíblicas são legítimas e apropriadas, mas tudo que é feito e a maneira com que é feito tem que ser para a edificação de toda a congregação (1 Co 14:26).

 

11. Evite “contribuições” que geram confusões. “Deus não é autor de confusão.” (1 C0 14:33). Se o culto começar a ficar confuso, tome a frente e tire-o da confusão. Se necessário, faça uma pausa e explique à congregação o que está acontecendo, esclarecendo assim a situação. Use situações assim para ensinar a maneira certa e errada de se fazer as coisas.

 

12. Tudo deveria ser feito para o Senhor e para a glória de Deus. Lembre-se que o alvo de todas as reuniões é glorificar a Deus e edificar os crentes.

 

13. Use um livreto de cânticos ou um retroprojetor para que as pessoas possam participar. Não tenha medo de num dado momento, colocar de lado o livreto e a letra dos cânticos e simplesmente adorar ao Senhor de coração.

 

14. É claro que há certas “técnicas” para a direção de um culto de cânticos ou de louvor, mas você precisa evitar, com todo o cuidado, tornar-se muito mecânico ou formal. Permita que haja uma liberdade subjacente. Seja flexível. Não insista seguir o programa. Seja sempre flexível às direções do Espírito e esteja disposto a seguí-las. Para uma boa direção de louvor e cânticos é necessário muito mais do que a movimentação dos braços, ainda que isto possa ser feito corretamente. A liberdade de Espírito e a espontaneidade são mais importantes que a precisão técnica.

 

15. Procure ficar escondido, para que as pessoas possam “ver a ninguém, senão unicamente a Jesus” (Mt 17:8). Eu me lembro de uma igreja que pastoreei por muitos anos em Brisbane, Austrália. Na primeira vez que subi ao púlpito, vi algumas palavras entalhadas nele. Elas confrontavam todos que subiam àquele púlpito para falarem, ministrarem. As palavras eram: “Queremos ver a Jesus” (Jo 12:21). Sempre deveríamos ter isto em nossas mentes. As pessoas não vieram para verem ou nos ouvirem. Vieram para ouvirem a Jesus. A nossa tarefa, com a ajuda do Espírito, é abrir o véu, para que todos os olhos possam ver o Senhor e adorar diante d’Ele. E isto deveria ser o objetivo mais importante de todos os servos de Cristo que dirigem cultos de louvor.


 

O CULTO A DEUS: AUXÍLIO AO DIRIGENTE

 

Algumas pessoas não acham válido haver na igreja alguém responsável pela direção das reuniões, com receio de que o culto seja produto do gosto pessoal do dirigente. Esse perigo é bem latente nas congregações renovadas, onde não há mais uma ordem pré-estabelecida para as reuniões, o que dá lugar à predominância de gosto pessoal, onde tendem a se destacar aqueles de personalidade mais forte. Mas também não deixa de haver um certo perigo quando as reuniões têm livre curso, onde todos têm liberdade de opinar, pedir cânticos e testemunhar, pois alguns irmãos de ânimo mais forte tendem a dominar o culto. Isto é comum em reuniões nos lares ou de pequenos grupos. Pode até mesmo ocorrer quando o dirigente acha que deve haver liberdade para que os irmãos peçam seus cânticos. O gosto pessoal de cada um acaba predominando e alguns cânticos são solicitados no momento impróprio.

Por isso sou da opinião de que a direção do culto, sempre que possível, deve ser plural. Vários irmãos se aconselham mutuamente, e um deles toma a frente, sempre assessorando pelos demais, que podem a qualquer momento usar da palavra, sem que o dirigente se sinta ofendido. Assim, qualquer irmão que dirija a reunião disporá de conselho e orientação segura. Partindo do pressuposto de que alguém deve ser responsável pela direção das reuniões da igreja, segue aqui algumas sugestões ao dirigente.

Em primeiro lugar, há fundamento escriturístico para que haja liderança ou alguém dirigindo uma reunião. Nesse sentido, creio, não será necessário tecer comentários e, sim, usar de alguns exemplos bíblicos já mencionados neste livro. É o caso de Miriã, que saiu liderando as mulheres em danças e louvor a Deus, logo após a passagem pelo mar vermelho. Outro exemplo é o de Davi instituindo uma ordem de culto em Israel que perdurou por centenas de anos. No culto a Deus, por menor que seja o número de pessoas, é bom haver alguém coordenando, do contrário os louvores serão dispersos e os cânticos serão cantados conforme cada um deseja. Às vezes costumo perguntar numa reunião pequena que cântico soou durante aquele dia no coração de cada um. As respostas são diferentes. Uma pessoa passou todo o dia com um cântico de júbilo no coração, outra com um cântico de contrição. Além disso, há pessoas que têm os seus hinos preferidos que são solicitados nas horas impróprias. Assim, um irmão deve coordenar, mesmo num pequeno grupo, os louvores, e ser, diante da congregação e diante de Deus, o responsável pelo andamento da reunião.

Em segundo lugar, uma pessoa que não adora a Deus não pode levar outros a adorarem. Existe uma maneira de correta de nos chegarmos a Deus. A adoração deve fazer parte da vida de toda pessoa que tem responsabilidade congregacional, seja na direção do culto, liderança de grupos e, principalmente, na vida daquele que ministra diante do Senhor na congregação. O dirigente do louvor e adoração é, pois, uma pessoa que ministra ao povo de Deus. Ministra ao povo quando, recebendo de Deus, conduz a congregação à sua presença. Ministra ao Senhor, porque esse é o conteúdo de todo o serviço e adoração. Aquele que não possui uma vida intensa de comunhão e adoração, não poderá guiar outros na adoração e louvores ao Senhor. Como saber se a pessoa é um adorador? Ela transmite vida não só à frente da reunião, mas também na sua vida íntima e pessoal.

O DIRIGENTE DO CULTO

 

1)     O dirigente do culto deve estar bem preparado – corpo, alma e espírito. Quando ele está fisicamente cansado, o cansaço poderá transparecer e afetar a congregação. Da mesma forma, se sua alma e espírito não estiverem íntegros e retos diante do Senhor, isto afetará o louvor congregacional. Muitas vezes temos que ser sinceros e dizer aos nossos colegas de ministério que não estamos preparados nesse dia para levar o povo à presença de Deus. Se o dirigente bocejar, apoiar-se no púlpito e descansar sobre uma das pernas, toda a congregação notará. Com seu físico descansado e seu espírito avivado, ele ajudará os que estão cansados e abatidos a terem um encontro com Deus, no louvor e adoração.

2)     Em segundo lugar, o dirigente da reunião não pode estar nervoso. Se discutiu em casa, no trabalho, ou se algo não está bem com ele, isto poderá deixá-lo sem condições de dirigir a reunião. Deve ter uma boa disposição bem antes do início do culto. Se seu estado de saúde não o favorece, como uma dor de dente, dor de cabeça ou canseira, é melhor ser bem sincero e pedir que os presbíteros ou, na ausência destes, outros irmãos ministrem a ele, para então ter condições de ministrar ao povo. Muitas vezes o dirigente ou os músicos podem estar sob opressão maligna e, ao serem ministrados antes de ministrarem aos outros, ficarão libertos e purificados de todo o mal.

3)     Em terceiro lugar, o dirigente da reunião deve ser uma pessoa sensível ao Espírito Santo, procurando saber dele o que mais agradará ao Rei Jesus naquele dia. A Bíblia diz que o Espírito glorifica a Jesus. Assim, o Espírito sabe se o Pai quer júbilo ou prostração. Se o Senhor quer ser exaltado como Rei ou como um pai amoroso, como Deus forte, como um guerreiro ou um amigo. O Espírito é quem dirigirá o louvor nesta ou naquela direção. A adoração é o “alimento” de Deus, disse certo pregador. E ele poderá conduzir a reunião, através do dirigente, a profundas experiências.

4)     Outrossim, o dirigente deve pensar previamente como começar, tendo em vista que o início é muito importante. O primeiro cântico é a chave que abre a reunião. Se a unção de Deus na reunião é para levar a congregação a glorificar a Jesus como Rei e o primeiro cântico apresenta como Salvador, no seu amor, na obra da cruz, então o dirigente demorará um pouco a direcionar a reunião para cumprir a vontade do Espírito. Muitas vezes, somente depois do terceiro ou quarto cântico é que se descobre a “mente” do Espírito. Quando procuramos, contudo, saber a vontade do Espírito, podemos entrar em adoração logo no primeiro cântico. Se o dirigente não está certo do que o Espírito quer para a reunião, deve procurar seus colegas pastores, e, na falta destes, os irmãos mais chegados, e perguntar-lhes com que cântico ou de que maneira deve-se começar uma reunião. Nunca é recomendável começar uma reunião com adoração, principalmente quando a reunião tem caráter público, isto é, aberta a pessoas não cristãs. Quando todos somos comprometidos com Cristo, a adoração flui logo, tal a unidade de espírito e fé. Ao contrário, quando há a presença de muitos incrédulos, é necessário começar com louvor e júbilo, e assim todo o espírito de incredulidade será dominado na reunião. A experiência tem mostrado que, muitas vezes, é ainda necessário parar o louvor, e a congregação, como um todo, numa oração de autoridade, repreender toda a potestade maligna.

É muito comum ficarmos, mesmo os crentes, contaminados pela “fuligem” do mundo, do ambiente da escola, do trabalho, dos coletivos urbanos, dos meios de comunicação, etc. Daí a necessidade de uma purificação de nossa vida diante do Senhor. Isto também poderá ser feito começando-se a reunião com pequenos grupos de oração, de forma que um irmão ministre a outro, e assim sejam todos mutuamente purificados nos amor, paz e relacionamento com Cristo. Com isso o caminho para a adoração fica livre.

A Palavra de Deus diz que devemos ter “intrepidez para entrar no Santo dos Santos” (Hb 10:19). Intrepidez significa ousadia, com força, coragem e sem temor. Assim, uma reunião pode ser iniciada com todos orando em grupos ou todos saudando uns aos outros.

5)     O dirigente deve sempre incentivar os irmãos à santificação. “Animador” de culto não existe. O animador está nos clubes, emissoras de rádio e TV. No culto há o ministro. Seu papel é motivar e exortar os irmãos a uma vida de santificação. Animador de corinhos para “esquentar” o ambiente é obra puramente carnal. Os irmãos devem ser ajudados e exortados a se santificarem para uma adoração profunda diante do Senhor.

6)     O dirigente deve facilitar as manifestações simultâneas e espontâneas das pessoas. Nem sempre isso é necessário, pois há momentos quando a congregação espontaneamente expressa seu louvor e adoração. Não é preciso pedir. Elas fluem. Irmão após outro irrompe em expressões de agradecimento, de júbilo, de contentamento, de engrandecimento do nome do Senhor. Mas cabe ao dirigente facilitar essas expressões. Quando o dirigente do culto se limita a cânticos após cânticos, sem parar, inibe as expressões espontâneas. O dirigente que somente se preocupa em cantar com o povo e a falar todo o tempo, limita o louvor aos cânticos. Depois de algum tempo de louvor, o dirigente poderá ficar em atitude de adoração, ou com as mãos levantadas ou de cabeça baixa. A congregação se acostumará aos gestos do dirigente e saberá que é o momento para se expressarem diante do Senhor, não somente em palavras e frases curtas, mas também em cântico espiritual.

7)     O dirigente deve também cuidar do comportamento congregacional. Ele deve sentir o ambiente e o povo. Pode ser que o dirigente queira adorar, mas o clima entre o povo é de júbilo e de danças. Ou poderá ser que o dirigente queira jubilar-se e louvar a Deus, mas o ambiente na congregação é de adoração e de prostração. Se ele não sentir a reação do povo, demorará muito a entrar num fluir dinâmico do Espírito. Isto não quer dizer que o estado emocional da congregação é que deve ditar o rumo do culto. Muitas vezes, contudo, quem está dirigindo a reunião precisa ouvir o Espírito através da congregação.

8)     Depois de descobrir o fluxo do Espírito no culto, o dirigente deve procurar a nota dominante da reunião. Esta pode ser sobre o amor, cura, libertação, exaltação da santidade de Deus, etc. Uma vez conhecido o tema, dirigir a reunião com segurança e firmeza. Um dirigente que fica titubeando, que deixa transparecer indecisão, transmite tudo à congregação. Esta se sente segura, quando o dirigente é firme e seguro. Ele deve ser prudente para não dar a palavra ao pregador depois que o povo já ouviu muitos testemunhos e teve um longo tempo de louvor. Muitas vezes ficamos comprometidos com pregadores que têm de falar ao povo. Mas, se na reunião houve louvor e adoração, testemunhos, palavra profética e ministração individual, quando o pregador for pregar o povo se sentirá cansado. Se o pregador convidado à reunião for uma pessoa compreensiva, também entenderá que não há lugar para uma pregação longa. Podemos limitar a obra de Deus num culto, quando comprometidos em dar a palavra a pregadores convidados. Recordo-me de uma ocasião, quando o louvor e adoração fluíram no meio do povo com muitas palavras proféticas, e tínhamos um pregador de uma outra cidade que nos fora recomendado por colegas. Por estar fora da sintonia da reunião e interessado em divulgar seu programa de evangelização, o culto tomou uma direção contrária à que todos esperavam.

Quando os pastores da congregação acompanham o fluxo da reunião, aquele que será o pregador saberá ficar calado e deixar o culto tomar os rumos que Deus deseja. Os pregadores precisam ser restaurados, para saberem quando devem falar e quanto tempo devem usar.

9)     O dirigente deve atuar em fé. Ele deve conduzir as pessoas a Deus. Muitas vezes, o muito falar prejudica o fluir do Espírito na reunião. Há dirigentes que costumam ficar falando durante um período de silêncio e adoração ou mesmo no meio júbilos. Deve-se falar para levar pessoas a Deus, mas somente o necessário. Falar demais torna a reunião cansativa.

Também é necessário que ele inspire fé. No meio dos louvores e da adoração poderá ocorrer salvação, cura, batismo no Espírito, distribuição de dons entre os irmãos, etc. Basta uma palavra de fé do dirigente para que Deus transforme muitas vidas.

OS MÚSICOS E O DIRIGENTE DO CULTO

 

Os músicos devem se harmonizar com o fluir da unção e adoração. Já dissemos que um músico não convertido pode tornar “profano” aquilo que deveria ser santo. Em regra geral, os músicos de nossas igrejas são jovens, e é necessário que eles tenham a vida purificada. Se eles tocam seus instrumentos apenas por acompanhamento, não estão desempenhando seu papel no culto. Os músicos devem se harmonizar de tal forma com o Espírito que levem a reunião a um clímax de adoração, colaborando assim com o dirigente. Eles podem ter a inspiração de começar um outro cântico antes que o dirigente se aperceba; e, se começarem a tocá-lo, acabam dirigindo a reunião. Os músicos, quando unidos em Deus, podem dar a vibração certa na bateria ou deixar de tocá-la; dar o toque certo na guitarra ou parar e deixar somente o órgão tocando. Ou, todos podem parar de tocar e ficar em adoração. O guitarrista, o organista podem com seus acordes, executar cânticos espirituais. O trompetista pode, no espírito, tocar um solo com seu instrumento de sopro. Quando os músicos se harmonizam com o fluir da adoração, o culto flui no mover de Deus!

E, para finalizar, o culto programado na orientação do Espírito Santo é melhor que o programado pelo homem. Os cânticos comunicam o que estamos vivendo. A congregação que vive uma verdade, prega e canta sobre ela. Assim, quando uma congregação entoa somente hinos de exaltação ao governo de Deus, seu Reino e seu poderio, é porque está vivendo intensamente essa verdade. Se seus cânticos forem somente de cura ou salvação, estas serão as verdades vividas por ela de forma mais intensa. Precisamos ter nossa hinologia restaurada. O dirigente é quem tem a responsabilidade de trazer essa mudança. Que Deus levante muitos dirigentes cheios do Espírito, de poder e de sabedoria!

CONVITE À ADORAÇÃO

 

Uma igreja local que mantém cultos de adoração como atividade normal, é uma igreja vitoriosa na comunidade onde vive! Vemos pessoas  sendo salvas,  atizadas, integradas ao Corpo de Cristo e se tornando um canal de bênçãos às pessoas  que estão ao seu redor. O esforço evangelístico, assim normalmente expresso, dá lugar a uma evangelização natural, fruto da vida normal da igreja. As  campanhas de oração dão lugar a uma vida normal de oração. Não é necessário fazer cultos para cura divina porque elas ocorrem de forma habitual nas reuniões e na vida diária do povo.

Uma congregação que aprende a adorar carregará também o peso pelos perdidos; terá a carga da intercessão e viverá intensamente a comunhão mútua entre os irmãos.

Nesse livro tratamos basicamente da adoração corporativa, contudo não haverá igreja forte no louvor e adoração, se na vida particular de seus membros a adoração for relegada a segundo plano. O cristão que anda pela casa com cânticos de ações de graça em seus lábios, certamente contagiará a reunião da igreja e o próprio Deus! A adoração começa dentro de cada vida, de cada família, de cada grupo de discipulado, tornando-se, conseqüentemente, o fluir normal na vida da igreja.

Não cabe aqui um ponto final neste livro; certamente muitos capítulos serão acrescentados por você; suas experiências encorajarão a que se restaure a adoração na vida da igreja.

Estes 2 capítulos foram extraídos do livro: O ministério de Louvor da Igreja  (uma nova dimensão de intimidade com Deus no louvor congregacional.) Páginas: 127 a 137 Autor: João A. de Souza Filho Editora: Betânia (Todos os direitos reservados)

COMO MINISTRAR UM LOUVOR CONGREGACIONAL

 

 

Existem várias técnicas que podem ensinar qualquer irmão ou irmã a ministrar um louvor diante de Deus para a congregação. Técnicas existem e ajudam, mas o mais importante é ter a certeza de estar no centro da vontade de Deus e do seu chamado específico para o Louvor. Dentre as inúmeras qualidades de um Ministro de Louvor, este tem que primeiro estar com uma vida santa, reta e agradável aos olhos do Senhor. O que ministra louvor tem que estar ministrando também exemplo de vida, de santidade, de amor, desunião e de humildade. Assim o Senhor terá condições de abençoar e ensinar a cada dia mais, como ministrar um Louvor. Ministrar Louvor é levar pessoas a adoração a Deus. Ministrar Louvor é buscar o mover do Espirito Santo na congregação através de cânticos.                     

OS CÂNTICOS CERTOS NAS OCASIÕES CERTAS.

 

O ministro de Louvor tem que ter a percepção espiritual para saber quais os cânticos certos para aquela ocasião, sempre buscando uma linha cujo os temas e mensagens estão de acordo entre si. Não é aconselhável mudar a direção dos temas e mensagens dos cânticos, principalmente no momento de adoração ao Senhor, pois imagine só você cantando um cântico de busca e entrega ao Espirito Santo, e quando começa a sentir um toque, um fluir do Espirito, o ministro muda a direção do cântico e começa a cantar uma música sobre libertação, sobre união entre os membros da Igreja, ou sobre o perdão dos pecados, ou mesmo salvação. É claro que há exceções, mas nem sempre isto deve acontecer. É preciso descobrir o fluxo e sentido das canções de cada cântico, para cada culto e situação. Eis aqui alguns temas e mensagens dos cânticos congregacionais: Exaltação, Adoração, Poder, Perdão, Batismo no Espírito Santo, Libertação, Milagres, Salvação e outros mais.                                  

A COMUNICAÇÃO IDEAL.

 

O bom Ministro é aquele que se comunica bem, canta bem, e tem unção.

É preciso saber falar na hora certa seguindo sempre o fluxo espiritual da congregação. Se o povo não está batendo palmas com firmeza e união, deve-se falar e pedir ao povo que batem palmas todos os povos seno momento de adoração a maioria estiver desligada e destruída pode-se por exemplo pedir para que todos fechem os olhos, que levante as mãos e que comecem a falar palavras de amor, de agradecimento e sinceridade ao Senhor. Se no momento de Louvor perceber que o povo não está cantando e correspondendo pode-se tranqüilamente pedir aos músicos que parem de tocar para ouvir apenas as vozes da congregação cantando juntos, formando um lindo coral de vozes ao Senhor. É preciso sempre manter o controle da situação e quando o povo estiver louvando e adorando o  Senhor em Espírito e Verdade, procurar  não falar nada, apenas deixar que o próprio cântico fale ao coração das pessoas. Falar demais acaba atrapalhando o mover do Espirito Santo nas pessoas e não falar nada, causa vazio no Louvor Congregacional. Jamais dê testemunhos pessoais durante o louvor, ou pregue a palavra, ou abra a Bíblia e comece a ler longos versículos e dar explanações, deixe isso para o decorrer da programação do culto ou podem pensar que você deveria ser um pregador, ou professor de escola dominical e de novos convertidos, e não o Ministro de Louvor da Igreja. Cultos organizados tem hora certa para cada momento.

Nos hinos de Louvores com ritmos rápidos pode-se se expressar com uma voz mais alta e ungida, mas no momento de adoração a voz tem que sempre ser bem suave, de acordo com o cântico, enquanto ministra e se comunica com a Igreja.

Momentos de adoração devem sempre seguir com uma percepção musical suave dos instrumentos e na voz e comunicação do Ministro.

Comunicar certo é conseguir manter o nível excelente de participação dos membros no Louvor e levar pessoas a abrirem seus corações ao Senhor e se entregarem ao Espirito Santo. Um Ministro de Louvor tem que conseguir levar pessoas a verdadeira adoração através de uma comunicação ideal, prudente, sensata e ungida. Muitos só dizem: Vamos aplaudir ao Senhor, Aleluias, Glorias a Deus e Amém. Outros falam demais e acabam transparecendo que querem dirigir um culto, pregar ou até mesmo aparecer.

Mantenha suas palavras de acordo com a recíproca do povo. Assim seu êxito será certo.

POSTURA

 

O Ministro de Louvor tem que estar a vontade no altar. Ele tem que caminhar por todos os lados. Existem Ministros que são como estátuas, ficam parados no mesmo lugar durante todo o Louvor. A Igreja acaba ficando parada, fria e imóvel também. Outros se mexem tanto, correm tanto e fazem tantos gestos que mais parecem atletas excepcionais ou professores de aeróbica. Cansa a congregação só de olhar e acompanhar. O Ministro de Louvor tem que ter a liberdade de caminhar (isto impõe segurança) de se expressar com gestos em alguns cânticos (gera participação da Igreja) de olhar nos olhos da congregação em geral ( mostra confiança e autoridade, e não insegurança, fragilidade e medo de encarar as pessoas, pois tem Ministros que fecham os olhos e esquecem do resto e de observar o fluxo na Igreja) de se ajoelhar em momentos de adoração (mostra submissão e humildade). Tudo isto deve ser com prudência, sabedoria e sensibilidade espiritual. Obedeça sempre o Espirito Santo e tudo será uma benção para você e a Igreja. Onde há o Espirito Santo, aí há liberdade, lembre-se que você é livre para adorar ao Senhor com danças, cânticos, júbilo mas sempre com a reverência que é devida ao nosso Deus.

ESPONTANEDADE.

 

Ministros de Louvor que seguem exatamente aquilo que estava programado nos ensaios e antes dos cultos, podem estar falhando na sensibilidade musical e espiritual. É obvio que não é normal ficar mudando a direção dos cânticos e louvor, mas sempre é preciso estar atento para saber quando deve-se fazer sinal aos músicos para tocarem mais suave, mais baixo ou mais alto, que deixem só a congregação cantando junta, ou que se repita várias vezes o mesmo coro, que faça silêncio absoluto para uma maior busca, entrega e sensibilidade ao mover do Espírito Santo, que se inicie mais uma vez a canção para maior aproveitamento ou que os músicos continuem tocando a melodia da canção para que a Igreja possa cantar um cântico novo pessoal e espiritual. Tem que haver flexibilidade, espontaneidade no Ministro e no período de Louvor, pois a vontade de Deus nem sempre é a do homem, por mais que sejamos organizados e programados.

Como é maravilhoso estar diante de um grupo de louvor, que realmente busca            ministrar através de cânticos de adoração. A tarefa do Louvor é libertar, operar, abençoar os irmãos, é preparar os corações para a palavra de Deus. Um bom grupo de Louvor tem de saber explorar os benefícios que traz a   congregação, quando consegue realmente ministrar a presença do Espírito     Santo de Deus.

Ás vezes se faz necessário dar um reviravolta na maneira de cantar e tocar   os cânticos, geralmente os momentos que, nem se quer estão sendo cantados   por exemplo, são os que mais tocam. Como é bonito ver e ouvir um grupo    inteiro glorificando a Deus, buscando a presença de Deus, todos adorando e   louvando, os instrumentos tocando uma melodia espontânea de adoração, as   vozes bem suaves dos componentes do grupo dando gloria, aleluia, enfim, tendo um período de 5-10 minutos de busca, entrega, e comunhão com Deus. O   Louvor é isso. É uma arma poderosa para trazer renovo de vida a muitas    almas, é arma que quebra corações duros, que expulsa todo poder das trevas, que    toca e salva, que cura e opera grandes coisas. Para isso é preciso que o            Grupo de Louvor esteja totalmente unido e Espírito e amor, que estejam            entrosados, ligados e concentrados no mover do Espirito Santo.

Uma vez eu estava com o grupo de Louvor ensaiando na Igreja. Então apareceu            uma mulher do lado de fora, ela começava a ouvir os cânticos e aos poucos   foi se aproximando ao ponto de ficar olhando atrás da janela de vidro na   porta. A Igreja estava aberta, mas essa porta que dava entrada ao Templo   estava fechada. Na mesma hora pedi para que meu irmão mais novo abrisse a  porta. Continuamos ensaiando, eram poucas pessoas naquela hora, somente eu, o Tecladista e meu irmão. O Grupo ainda não tinha chegado. Enquanto  tocávamos ali e buscávamos a presença de Deus no Louvor, pude notar que   naquela mulher havia algo movendo seu coração. Ela chegava mais perto, mudava de cadeira, fechava os olhos e se ajoelhava. Quando comecei a orar            louvando ao Senhor, percebi que havia uma força contrária tentando impedir   ela de se libertar na presença de Deus. Enquanto o tecladista tocava, pedi  a ele que a partir daquele momento pudesse tocar de todo o seu ser, com   unção, determinação e fé, pois teríamos uma luta espiritual pela frente. Comecei a falar para aquela irmã que Jesus havia lhe trazido ali para poder  operar em sua vida. Ela concordou, disse que estava de passagem por ali, e   que ouvindo o som das musicas (mesmo sendo de origem hispânica) ela podia  entender o significado das musicas e uma paz via sobre ela. Ela afirmou ter   sentido algo dentro dela que a levou até ali. Enquanto o tecladista tocava            numa unção tremenda e eu ali sentindo a presença de Deus cantando, pedi que            ela viesse até a frente para receber uma oração. Fiz o apelo e ela aceitou     Jesus, na oração de confissão perceber que haviam espíritos malignos dentro  dela que a impediam de confessar. Foi quando dei dois passos para trás, e  comecei a louvar ao Senhor em cânticos espirituais espontâneos. Imediatamente aquela pessoa caiu endemoniada e começava a se rastejar pelo  chão como uma cobra que teve sua cabeça pisada e destruída. Impus as minhas  mãos sobre ela e expulsei toda as trevas no nome de Jesus. Isto é uma prova real que o louvor é uma arma de libertação, de milagres,            de renovação e restauração de vidas. É preciso ver de verdade o louvor   operar e nem sempre o mover está nas canções em si, na melodia, no coral   de vozes nem no som dos instrumentos, mas o mover de Deus no louvor se  percebe, se vê, que é nos momentos de ministração espiritual e musical dos   cânticos que acontecem coisas tremendas.

Cante várias vezes o refrão daquela musica de adoração que a congregação   tanto gosta. Cada vez mais suave, 1, 2 , 3, 4 vezes, sem pressa, peça ao    povo que comece a orar em voz alta, que comece a agradecer, que o vocal do   grupo comece a glorificar ao Senhor, comece a cantar cânticos novos e    deixar que o louvor a Deus contagie toda a congregação.

LIDERANÇA

 

É fundamental que exista um líder a frente de um grupo de Louvor. Este tem   que acima de tudo ter um Espírito de humildade, de união e de adorador.

Geralmente quem assume esta posição é o Ministro(a) de Louvor. É aquela            pessoa que ministra os cânticos, que canta e se comunica com a congregação            durante o período de louvor. Muitas pessoas acham que esta pessoa tem que    ter um curso superior, que tem que ter diploma e participado de Seminários   Teológicos e de Música. Eu penso assim também, mas acho que isso não deve    ser determinado, obrigatório e exigido. O Ministro de Louvor tem que Ter  em primeiro lugar o dom, o chamado para ser Ministro de Louvor, muitas    vezes essa pessoa nem mesmo sabe tocar um teclado, guitarra, não sabe ler  partitura e cifras. Ela sabe sim, cantar com júbilo e adoração, gosta de   Louvor, de música gospel e alem de tudo tem o dom de se comunicar bem e    compor cânticos.

A verdadeira escola está na prática, no aperfeiçoamento, do treinamento            específico e na força de vontade e determinação que vem do Espírito Santo.

 Ser líder é saber manter todo o grupo em união, em júbilo. É saber dividir   as responsabilidades com as pessoas certas. É manter a organização em  geral, a decência, é saber ouvir e reconhecer que estamos tratando de seres humanos, portadores de opiniões e sentimentos. Um grupo de Louvor tem que   ter reuniões freqüentes. Pelo menos uma vez por mês reserve um tempo para que todo o grupo possa se reunir, e após uma oração feita por cada um, de   mãos dadas, cada membro possa dizer aquilo que está achando de positivo no    grupo e também aquilo que se pode melhorar. É uma reunião para buscar novas   metas, para melhorar a performance do grupo e não uma reunião de críticas.

Sempre olhando para frente, para Jesus, o autor e consumador da nossa fé. O            Líder tem que sempre anotar os pontos principais da reunião para apresentar    ao grupo, tem que estar sempre buscando alcançar novos degraus. Renovar o   repertório dos cânticos, cuidar para que tudo ocorra bem, orar para que  Deus envie os músicos que ainda faltam, que envie também pessoas   capacitadas para a obra do louvor no vocal e instrumentos.

 Há sempre espaço para mais um no grupo de Louvor, a não ser que seu grupo   já tenha uma orquestra toda formada, é claro. No entanto não se pode Ter    mais que dois tecladistas, pianistas e um baixista tocando ao mesmo tempo.

Se houver muitos músicos em sua Igreja, é válido a opção do Líder de   selecionar novos grupos, e permitir que estes apresentem também freqüentemente, caso se observa uma boa e positiva atuação.

O Líder do Grupo tem que ter a visão do Louvor, tem que manter todo o relacionamento            do grupo em si, do grupo para com seu Pastor, e do grupo para com a Igreja em            perfeita harmonia. O Louvor é realmente muito visado pelo povo e também pelo             Inimigo. Dizem que depois do Pastor Presidente da Igreja, o inimigo tem mais ódio            e perseguição pelo líder do grupo de Louvor. Esses são seus dois alvos principais.

Ser líder é não somente saber liderar e se comunicar bem, é ter um chamado, uma determinação: Ser um vaso de honra nas mãos do Senhor. É uma benção de Deus ser o Ministro(a) de Louvor na congregação. É um cargo visível, que está no campo em que todos gostam: Cânticos de Louvor e Adoração.

É muito bom mesmo estar no púlpito, ser um verdadeiro Sacerdote, um ministrador            de bênçãos no louvor, ver a Igreja louvando, pessoas glorificando, chorando e sendo            restauradas. É muito bom mesmo saber que se tem o controle do grupo, das decisões,            do fluxo musical nos louvores. O Líder tem a condição de implantar seu próprio estilo,            gosto e visão. É uma benção de Deus, mas por outro lado, a palavra de Deus diz:

           “A quem muito é dado, muito se lhe será cobrado”

Qualquer erro, falha, pecado e desobediência de um Líder de Louvor, pode manchar toda a credibilidade do Ministério em Geral.

Existe um preço a pagar. O Preço da olaria de Deus. Peça ao Senhor o dom da sabedoria, o da humildade, coloque-se nas mãos do Senhor e peça a ele que molde sua vida e caráter.

Confie sempre Nele. Saiba que todas as coisas contribuem para o bem daqueles que amam a Deus  e são amados por ele. Seja um Líder de verdade, seja respeitado, reconhecido, e sempre pergunte aos irmãos (as) o que eles mais gostam na performance de grupo, peça ajuda ao seu Pastor, e reconheça o Senhor em todas as suas atitudes e palavras colocando-o sempre em primeiro   lugar.

Tome as decisões certas e prudentes, sempre em acordo com o Pastor, e saiba separar amizade  de profissionalismo. Tem líderes que não sabem falar não, outros não sabem falar sim.

Seja um que sabe harmonizar tudo com a sensatez e prudência.

Reuna com o grupo e seja sincero, aberto, educado, conte a eles as dificuldades, os planos, peça ajuda e oração, e nos momentos de mais luta e tribulação convoque um jejum geral  de todos os participantes do grupo. Ore sempre de mãos dadas e dê a oportunidade aos membros    de orarem e pedirem as bênçãos de Deus. Olhe nos olhos. Ouça muito e fale pouco.

Todos os seus passos, palavras e atitudes estão sendo vigiados, anotados. E que para Glorificar    o nome de Jesus na sua vida, seja um líder cheio do poder de Deus, da ousadia e intrepidez na   palavra. Tenha uma vida diária de oração e comunhão com Jesus e verá que seu desempenho como Ministro de Louvor, Servo de Deus e irmão em Cristo vai ganhar novos rumos.

Deus te escolheu, Jesus te ama e conta com você e o Espírito Santo te capacita mesmo.


FORMANDO UMA EQUIPE

 

Formar uma equipe de Louvor é o mesmo que formar um Ministério de obreiros dentro da Igreja, o mesmo deve ser tratado e encarado como algo de extrema importância. É de fundamental necessidade, antes de escolher as pessoas para compor um grupo de louvor, o líder ou Ministro de Louvor junto com o Pastor da Igreja,  jejuar e orar fortemente para que a escolha não seja precipitada, pessoal ou fora da vontade de Deus. Todo cuidado é pouco, pois uma escolha errada sempre traz  grandes e perigosos problemas no futuro, não somente para o desempenho do grupo de louvor mas também para todo o crescimento da obra local, e saúde espiritual do corpo de Cristo. É preciso ter a sensibilidade, discernimento e técnica necessária para estar em primeiro lugar escolhendo pessoas que tem o chamado para o Louvor, isto é, Levitas consagrados e chamados pelo Senhor. Muitas vezes por a Igreja estar iniciando, Pastores ou lideres de Louvor chamam qualquer pessoa que aparece na Igreja que demonstra gostar de louvar, tocar ou cantar.  Muitas vezes aparecem irmãos(as) que sabem tocar ou cantar muito bem , e pelo empolgamento colocam na frente da batalha sem orar, averiguar e descobrir como anda a vida espiritual dos mesmos. 

Todo o obreiro deve primeiramente ser testado, para depois ser consagrado e chamado para a obra, e isto sempre deve ser feito também na escolha dos componentes do grupo de Louvor.

Existem milhares de grupos de louvor que erraram nesta formação inicial e hoje passam tremendas lutas e provações porque  colocaram pessoas sem  o chamado para o Louvor, e agora estes estão sendo como que pedra de tropeço.

O Louvor nunca crescerá dessa maneira, o desempenho sempre ficará estagnado, a obra do Senhor terá dificuldades, e principalmente o mover de Deus nunca fluirá durante o Louvor da maneira que Deus quer, tudo isso por uma mal escolha.

Deus desde os primórdios Deus separou um povo exclusivo para louvar- Os Levitas, (Nm 1:50 . Nm 3:6 e 7 .I Cr 23:30)  e hoje não é diferente. É realmente algo muito delicado a formação de uma equipe de Louvor. É algo que antes de mais nada é preciso muita oração e revelação de Deus. A maneira certa para a escolha vem de joelhos dobrados, vem de lágrimas sinceras derramadas nas madrugadas e até mesmo de auxilio de profissionais nesta área. Uma escolha errada mata espiritualmente não somente a performance do grupo, mas principalmente a pessoa que não tem chamado para o Louvor.

Leia Números 1:51 e verá que Deus disse e determinou: “O estranho que se aproximar morrerá”.

Que coisa séria, e que muitas vezes é tratada de qualquer maneira por muitos lideres. Sabedores também que Deus não chama apenas os capacitados , mas que capacita os chamados por ele, temos que analisar o caráter do escolhido(a) para o Louvor.

Se este irmão(a) tem uma personalidade que permite liderar, se este tem espirito de submissão, se sabe ouvir, se sabe mesmo contra sua vontade seguir o conselho e acatar com a decisão do Pastor ou Líder. Saiba que é preciso ser em primeiro lugar servo de Deus e do corpo de Cristo para fazer parte de qualquer cargo ministerial na Igreja, pois os que não tem chamando geralmente nunca concordam com as decisões dos lideres, tem caráter difícil, e não demonstram os frutos do Espirito que é necessário para trabalhar na seara do Senhor. E o pior é que quando se coloca tal pessoa no grupo de Louvor, para depois tirá-la do grupo é muito difícil, pois o mesmo(a) poderia até mesmo por rebelião sair da Igreja e se afastar dos caminhos do Senhor. Que perigo!!! Que situação!!! O que fazer? Em primeiro lugar como disse orar muito antes de tomar qualquer decisão. Para cantar ou tocar num grupo de Louvor é preciso ter chamado e não qualidade vocal e instrumental.

Pois Deus vai capacitando os chamados a cada dia. É preciso também treinar, tomar aulas e se aperfeiçoar, pois sem isso, mesmo o que é chamado nunca irá muito longe em seu ministério de Louvor. O Cantor(a) tem que pegar aulas de canto,  o instrumentista aula com professores ungidos para que cada um cresça em sua área. Pois Deus tem seus professores que são usados exatamente para este propósito: o de ensinar, aprimorar e aperfeiçoar os chamados de Deus. Essa história que os Levitas já nascem sabendo é errônea, pois embora sejam escolhidos desde o ventre, isso não quer dizer que não precisam de auxilio, técnica e aulas de ensino. Saiba que os escolhidos aprendem fácil e os que não são levitas demoram muito para apreender, quando estes chegam e conseguem aprender algo. 

Lembro-me de quando meu Pastor me chamou para liderar o louvor que estava iniciando em nossa Igreja. Que coragem!!!

Eu era desafinado, achava que não sabia cantar ( e até hoje reconheço que preciso aprender muito mesmo) e mesmo assim ele acreditou em min, dando o voto de confiança e cobrindo minha vida de orações. Quando olho para trás vejo que o Pastor Maciel Figueiredo teve antes de mais nada muita ousadia por esta escolha. Mas por ser um servo de Deus, este Pastor me escolheu por ter sentido de Deus uma vocação em min para esta obra. Eu era como Davi, que mesmo pelo seu pai era desprezado e ninguém reconhecia seu valor. Na escolha para o Rei de Israel , Davi foi o último a ser apresentado ao Profeta Samuel. Nem mesmo o próprio Pai de Davi acreditava que ele teria o valor necessário para ser Rei. Mas Davi era o escolhido.

Muitas vezes os escolhidos estão nos bancos das Igrejas, e os que não tem o chamado para o Louvor estão na frente da batalha, enfraquecendo o corpo de Cristo e atrapalhando o mover do Espirito Santo durante o Louvor. Que realidade triste!!!

Formar uma equipe de louvor é uma benção de  Deus quando acertamos na escolha. Pois a Igreja notará o crescimento do mesmo e sentirá que o Espirito Santo de Deus está capacitando cada um, e que o entrosamento está chegando, que a união é visível e real, que as vozes do coral estão se encaixando e a harmonia musical é notável e sensível. Isto é prova de escolha certa. A Igreja sempre será o termômetro que medirá a o fluxo espiritual no Louvor. Se a Igreja louva de coração, em Espirito e em verdade, se a Igreja chora no poder de Deus, se almas são libertas no poder do Louvor, se acontecem salvação de vidas nos cultos, saiba , o grupo de Louvor de sua Igreja está no caminho certo. Aleluias!!! Que maravilha é tal grupo de Louvor.

Este é o papel de um grupo ungido: restaurar vidas, libertas os cativos, salvar os perdidos,  e preparar os corações, almas e Espíritos dos membros para ouvir a Palavra de Deus


COMO COMPOR CÂNTICOS AO SENHOR

 

“Cantai ao Senhor um cântico novo, Cantai ao Senhor porque é Digno de Louvor” (Salmos 96:1 e 4 )

Comece lendo o livro de Salmos, naqueles momentos seus de mais comunhão e intimidade com o Senhor, e ao escutar uma música cristã instrumental tocando suavemente no fundo tente fechar os seus olhos e comece orando ao Senhor em forma de cânticos, solte-se na presença do Espírito Santo e deixe Ele colocar em seus lábios cânticos novos, que Ele possa tomar todo o seu ser, e levar-te a adorá-Lo de uma maneira maravilhosa, sincera, ao ponto de haver uma comunicação entre você e Deus e vice-versa. Abra mesmo seu coração e cante ao Senhor o que de mais profundo existe dentro de você.

Pois quando nos entregamos e temos comunhão com o Senhor, sabemos que naquele momento podemos realizar grandes coisas, e uma delas, é compor cânticos novos, assim como Ele próprio nos pede: “Cantai um cântico novo”

Só não esqueça de gravar antes qualquer experiência como esta, pois você certamente vai querer lembrar de como cantou aquela música, você até dirá:

Puxa, e ficou tão bonito, não acredito que foi eu que fiz isto!

DIRETRIZES

 

É impressionante como se vê hoje no mercado, CD. s com músicas boas, alguns que não saem das prateleiras, dos planos, sonhos e outros que estão fazendo tanto sucesso e atraindo tantas produtoras de peso, pois agradam a grande maioria do povo de Deus espalhado pelas Igrejas.

Porque isso?

Por que existem os compositores(as) que antes de compor suas músicas e CD. s traçam suas diretrizes. Qual a linguagem que adotará, qual público principal, qual seu próprio perfil, quais os temas a serem usados nas canções  e CD, e etc… Aqueles que descobrem qual vocação certa possuem dentro de um estilo musical, são os que estão e sempre estarão em mais evidência no mercado. Pois criar e compor é algo que deve sair de dentro de você naturalmente. Nunca de uma maneira forçada e precipitada. Quando você se posiciona de dentro para fora, quando descobre um universo lindo, cheio de razões para adorar, agradecer e engrandecer o Senhor na sua própria vida, você então terá condições de realizar grandes coisas nas mãos do Senhor. E se existe em você a vontade e certeza de um chamado para Louvor: Acredite mesmo, lute, busque o estudo e a técnica adequada, coloque sempre o Senhor em primeiro lugar, e Ele te usará para Honra e Glória do Seu Nome. Deus está procurando por verdadeiros adoradores.

Seja um deles. Adore ao Senhor, compondo cânticos de Louvor e Adoração. Se você é essa pessoa, que guarda dentro de si o interesse, motivo, prazer e determinação para ser usado pelo Senhor no Louvor & Prepare-se:

O Senhor já está trabalhando na sua vida neste aspecto. É por isso que você está iniciando a leitura deste simples livro de louvor com tanta alegria e vontade de descobrir mais e mais, de aprender mais e mais, de aos poucos amadurecer a idéia de participar do Grupo de Louvor da sua Igreja, ( se ainda não está participando) de crescer na Graça e conhecimento de Deus, de compor, de criar, e de mostrar aos povos o fruto do seu trabalho, que é Louvar, Cantar, anunciar o amor, a salvação e bondade do Senhor Jesus.

Se você é esta pessoa, saiba que o Senhor tem o poder e misericórdia para te usar como instrumento de Louvor. Prepare-se, faça seus planos, comece a sonhar, buscar e traçar suas metas. Quem sabe em breve já estará apto(a) para gravar seu próprio Cd, e ser uma benção nas mãos do Senhor !

Descubra já qual o estilo musical de louvor mais combina com você. Qual o mais adequado ao seu perfil, qual estilo a adotar. Comece agora a traçar suas diretrizes, quanto antes melhor, assim terá mais tempo para amadurecer sua linguagem e estilo musical.

ESTILO MUSICAL DE LOUVOR

 

(A)Se tens mais jeito e desejo de compor cânticos congregacionais, visto ter uma boa comunicação em frente ao público, desejo e vocação de se expressar e trabalhar em grupo e principalmente, tendo a certeza e conhecimento de que é o que você aprecia e ainda acompanhar o trabalho de quem tem se destacado no mercado, siga o caminho certo nesta área e estilo, de pessoas como: Daniel Souza, Asaph Borba, Pr. Bené Gomes, Alda Célia, Comunidade Evangélica Zona Sul, Pr. Claudio Claro e muitos outros; (B)Se sua linguagem é mais pessoal, e gostaria mais de expressar em cânticos suas próprias experiências ou visão e modo de pensar, e se acha que poderia cantar solo, siga uma carreira solo com os temas que mais tocam o seu coração. Neste caso nem sempre é necessário a presença de um grupo de louvor para lhe auxiliar nas apresentações, basta gravar um Playback, e você terá condições de expor seu trabalho de uma maneira certa, usando as diretrizes corretas e linguagem adequada. Ouça cantores(as) e compositores(as) que vem adquirindo sucesso no mercado como:

Aline Barros, Luiz de Carvalho, Cassiane, Carlinho Félix, Léa Mendonça, Marina de Oliveira, Rose Nascimento, Fernanda Brum, Ludmila Feber Sergio Lopes, Mara Maravilha, Nelson Ned e muitos outros; (C) Talvez seu estilo seja canções com ritmos atuais, novos ou modernos, quem sabe poderá formar uma banda e até iniciar um estilo novo de música.

Ore ao Senhor e Ele poderá usar você para formar uma banda ideal, de acordo com os planos do teu coração, uma banda e equipe que trabalhe em conjunto e em prol de uma meta, diretriz, estilo e linguagem. Escute e aprecie bandas como: Kadoshi, Oficina G3, Catedral, Banda e voz, Projeto Vida Nova de Irajá e outros.

Seja qual for seu estilo, o mais importante é ser confiante, estudar, aperfeiçoar, buscar, ter forte desejo, sentir vocação própria, e ter força de vontade no Senhor para ser usado no campo da área Gospel. Leia todos livros que puder sobre Louvor e Adoração, faça aula e cursos vocal, ou peça ao Senhor que mostre qual instrumento você poderá aprender a tocar, se é teclado, guitarra, baixo, bateria, sax, percussão.

Saiba que o Senhor Jesus é poderoso para realizar coisas tremendas na sua vida, e que o Espírito Santo lhe guiará pelas veredas maravilhosas e estará contigo todos os dias, lhe ensinado tudo aquilo que precisa, pois nosso Senhor Jesus não apenas chama os capacitados, mas principalmente, capacita todos aquele que são chamados por ele. (continua) TALENTO, CARISMA, DOM, TÉCNICA E OUTROS PONTOS.


A IMPORTÂNCIA DA TÉCNICA PARA OS LEVITAS

 

Klaus Eduardo Dorte

A IMPORTÂNCIA DA TÉCNICA PARA O LEVITA

 

Mas, o que é técnica, prá que serve, em que ela pode contribuir para a nossa vida.

É o que nós vamos ver agora.

1. O Que É Técnica?

 

Segundo o dicionário técnica  é o lado material de uma arte ou ciência. É a prática, norma, é a especialização. Em suma, técnica é o estudo de determinada  matéria. Um exemplo prático no Louvor são os músicos: eles estudam seus instrumentos em um determinado período para poder exercer suas funções dentro do Ministério de Música. Quanto mais conhecimento tiverem, melhor será o nível do Grupo de Louvor.

2. Para Que Serve?

 

Ela nos serve para aprimorarmos os conhecimentos de determinado assunto. É através dela que desenvolvemos a prática.

3. Como Ter Acesso?

 

Através de escolas especializadas. Em qualquer área que você queira atuar, terá uma pessoa ou um grupo especializado para poder ensiná-lo. Esses mestres também já passaram por isso e continuam sempre se aprimorando para poder dar o melhor nas suas profissões, sejam elas dentro ou fora do Ministério.

4. Em Que Ela Contribui Na Nossa Vida?

 

Todo trabalho de ensino exige da pessoa dedicação. Essa dedicação só é exercida através da disciplina. A disciplina é acima de tudo o respeito que nós temos pelos nossos mestres. A disciplina gera na pessoa humildade e também submissão que é importante para podermos crescer dentro de qualquer área. Para o cristão e acima de tudo o Levita a submissão e a humildade em reconhecermos a liderança do Ministério, dos Pastores na Igreja faz com que o Espírito Santo possa atuar forma mais intensa através de seus membros dando-lhes profecias, curas, libertação e muito mais. A unção do Espírito pode aparecer mais claramente dentro da Igreja.

Lembremos que vários profetas no Antigo Testamento também obtiveram êxito no seu Ministério através de uma preparação específica, ou seja, trabalharam para que Deus pudesse usá-los para fazer seus grandes feitos entre o seu povo. Até Jesus Cristo, na sua infância, foi preparado para iniciar sua vida pública e este é o maior exemplo de disciplina e humildade que podemos ter.

Portanto irmãos, basta seguirmos o caminho que Ele nos deixou e termos fé que o Espírito Santo agirá através de cada um para que a obra do Senhor não pare por falta de pessoas. Jesus Cristo começou sua vida pública aos 30 anos e passou 40 dias no deserto sendo tentado por Satanás antes de morrer e ressuscitar. Moisés passou 40 anos no deserto se preparando para a grande obra que Deus faria através dele: libertar seu povo do Egito.

A nós só cabe perseverarmos na nossa preparação até o momento que Deus lhe pergunte: “Você está pronto prá Batalha?” e nós possamos dizer: “Sim Mestre, eis-me aqui”. Mas para isso devemos ser disciplinados, quebrados e deixarmos Deus trabalhar nas nossas vidas. Lembre-se: Deus dará todas as oportunidades para que você cresça em Espírito e também no conhecimento dos talentos que Ele te deu quando nasceu e a nós cabe-nos não desperdiçá-las alegando falta de tempo ou cansaço.

Asaph Borba nos coloca que Deus chama a todos para a sua obra. Poucos são escolhidos porque não dedicam seu tempo para o propósito de Deus na sua vida.

Seja um escolhido de Deus. Empenhe-se nos estudos. Deixe o Espírito Santo trabalhar na sua vida e que Deus o abençoe no seu Ministério…

Nas Igrejas, normalmente os levitas dedicavam seu louvor e adoração ao Senhor sempre pensando que unção do Espírito Santo por si só já era o suficiente. Ledo engano. A Unção realmente é necessária para que o Espírito Santo se manifeste em nós através do Louvor e Adoração a Deus.

Mas, será que a nossa dedicação ao Ministério também não conta!? Será que o nosso esforço de melhorar cada vez mais através do estudo da Palavra, ao que conta no crescimento espiritual, como também o estudo técnico para um melhor conhecimento e domínio daquilo que temos em nossas mãos não conta para darmos o melhor de nós a Deus!?

Diante de tal pergunta, quero mostrar um pouco da necessidade de estudarmos os padrões técnicos no Ministério de Louvor e Adoração.

QUALIDADE TÉNICA DO LOUVOR É IMPORTANTE:

 

Você já imaginou cantar músicas de Louvor e Adoração sem ter feito um ensaio prévio, sem ter sido preparado uma harmonia, sempre tocando aquele “feijão com arroz” como determinados Ministérios de Música em algumas igrejas fazem? Será que Deus se agrada disso?

Todos nós que somos chamados pelo Senhor a algum Ministério, devemos ter em mente 3 coisas importantes:

  1. Deus nos chamou e devemos dedicar tempo ao Ministério a que fomos chamados: nesse tempo, além de orarmos para pedirmos que Deus nos dirija através do Espírito Santo, devemos também dedicarmos tempo para o estudo. Nesse período devemos ter acima de tudo disciplina que é a essência do aprendizado para depois termos Decisão naquilo que faremos durante o Louvor.

 

  1. Devemos nos dedicar cada vez mais através de treinamento para podermos levar ao Senhor o melhor que podemos dar através daquilo que cantamos ou tocamos. Os ensaios também são muito importante: devemos ensaias exaustivamente até termos a música exatamente como ela é…

 

3. Deus exige que tenhamos habilidade ou seja, toquemos bem o instrumento: em Sm 16.17-18 vimos que o Rei Saul pede que tragam diante dele um “homem que toque bem” para afastar um espírito maligno que o possuía. Esse “homem” era Davi. Podermos ver que Deus só se agrada daqueles que aprimoram suas habilidades para levar diante do Senhor tudo o que temos. Os talentos são dados por Deus quando nascemos, não para que o enterremos, mas para que o façamos crescer em nós para depois dá-los ao Senhor com juros. E o Senhor se agradará de nós.. O Sl 33,3 nos diz: “Cantai-lhe um cântico novo, tocai bem e com júbilo”.

A TÉCNICA NOS LEVA A SERMOS MESTRES:

 

Vemos no livro de Crônicas que os levitas representavam os músicos (I Cr 15.22; 16.4-5 e que eram escolhidos por Deus pela sua habilidade (I Cr 15.16-19) e consagrados, isto é, viviam exclusivamente para levar o povo de Deus em adoração. Isto nos leva a termos consciência do nosso chamado como verdadeiros adoradores, sermos cheios do Espírito Santo e sermos comprometidos com a Igreja local e a sua missão. Todo este comprometimento com a obra nos leva a sermos mestres, ou seja, que tudo aquilo que aprendemos devemos passar aos futuros Ministros. Por fim, levantamos discípulos para que a obra do Senhor não pare na Igreja devido à nossa falta de conhecimento ou por sermos relapso com o Ministério. O Senhor mesmo disse “levantai discípulos”. Mas para isso devemos ter total consagração ao Ministério e ao Senhor. Lembre-se: quando levantamos discípulos traremos unção dobrada à Igreja.

Isto é um pouco daquilo que quero passar aos Levitas de outras Igrejas. Benê Gomes outro dia disse que a técnica é como um copo d’água e a unção a água. Bem, se o copo for pequeno, a unção será pouca. Mas se o copo for maior, a unção também será cada vez maior e maior. Quanto maior for o copo, mais cheia da unção ele ficará.

Por isso irmão, lembre-se: Deus usará você com aquilo que você tem. Se você não procurar aumentar o que você tem, de nada adiantará. Você será substituído por outro que esteja melhor preparado. Mas, o Senhor é fiel àquele que se dedica à sua obra. Por isso, seja um levita legítimo e seja substituído não pelo seu relapso, mas sim por ter levantado discípulos com unção dobrada dentro da Igreja a que congrega e o seu galardão no céu será grandioso na presença do Senhor.

 “Louvai ao Senhor ao som da trombeta, com o saltério e a harpa. Louvai ao Senhor com o adufe e a flauta, com instrumentos de cordas, com síbalos sonoros e vibrantes. Todo ser que respira, louve ao Senhor.”

Sl 150.3-6